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  • Entre Lobos (conto-romance) 5/9

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    (POSTAGEM TODO INÍCIO DE MÊS) Não se sinta perdido! LEIA os capítulos anteriores! TENHA UMA ÓTIMA LEITURA!


    — Que almoço, hein? – Mark na varanda riu-se com o amigo depois.

    Sem dizer nada Derek apenas calçou um cigarro entre os lábios. Apalpou os próprios bolsos, mas não achou seu isqueiro.

    — Tome. – o outro alcançou o seu depois de acender o próprio fumo. — Não ligue... Eles são assim mesmo. Conservadores.

    — Claro! – disse depois de soltar a fumaça do pulmão. — Mas então acho que já está tudo resolvido por aqui. – fitou a motocicleta do amigo. — Já é hora de eu ir.

    Assim que disse isso, viu atravessarem a porta de saída Mary e Katherine acompanhada logo atrás por seu pai e as duas mulheres.

    — Mas nos deixe na cidade, papai. – Mary. — Eu e Katy queremos conhecer o parque que chegou essa semana. – comentou.

    — Está bem. – o senhor respondeu. — E o que acha de fazer companhia a elas Mark? Seria de bom tom se agisse como um cavalheiro algumas vezes.

    — Não é necessá... – Mary

    — Claro! – Mark respondeu de imediato. — Assim aproveito pra testar a Formosa. – respondeu com semblante sorridente.

    — Mas pai... – Mary ainda não aprovando aquela ideia.

    — Sabe que não gosto que andem sozinhas, ainda mais em lugar tumultuados como esses. – o homem deixou claro. — Mark lhes fará companhia, sim. – completou aproximando-se de Katy e lhe acariciando o rosto. Seguiu em frente depois de despedirem-se de Sofya. Minutos depois o veículo deu partida e sumiu.

    — Mas e vocês? – A mãe de Mark perguntou sem entender o porquê de os dois ainda estarem por lá. — Já não deveriam ter ido encontrá-las? – completou voltando para dentro de casa.

    — Sim! Claro! – Mark de súbito. — O que acha Dek? – disse apoiando a ideia de tê-lo como companhia.

    — Bem... – Derek deu mais algumas tragadas no fumo e antes que pudesse dizer qualquer coisa o outro antecipou-se comentando.

    — Talvez tenhamos que aturar o humor inflexível de Mary. – brincou. — Mas pense nas lindas mulheres que por lá estarão. – deu um tapinha no ombro do amigo.

    Derek sorriu vendo a perspicácia do amigo.

    — Por isso você aceitou a sugestão do teu tio, não foi? – falou dano uma última puxada na fumaça e jogando fora o cigarro pela metade.

    — Tudo na vida tem um preço. – respondeu pondo seu capacete. — E nesse caso, vejo como uma... Troca de favores. – breve pausa. — As mantemos seguras enquanto bebemos e admiramos a paisagem. Perfeito, não? – concluiu antes de dar partida na motocicleta. Pegaram a estrada.

    O lugar realmente estava movimentado, mas não levaram muito tempo até que conseguissem encontra-las em meio aquela multidão. Derek aproximou-se com o amigo e parou próximo a Katherine que evitava o encontro de seus olhos.

    — Nós vamos caminhar. Deve ter muita coisa interessante por aqui. – avisou o primo. — E você – o mirou séria. — Conseguiria não criar problemas? – soltou antes de afastar-se com Katy.

    — Fique tranquila. – começou com um tom debochado. — Farei o máximo pra que não me diminua no próximo almoço. – então, embrenhou-se com Derek no movimento.

    — Ok! – Mark soltou em algum momento mais tarde já sentindo-se incomodado. — Preciso de uma cerveja e não acho que vou encontrar isso por aqui. – ainda mirando ao redor. Avistou suas primas em frente a uma barraca. Foram até elas. — Como estão se saindo?

    — Muito bem. – Mary respondeu. — Vamos só comprar um refresco. Logo papai vem nos buscar.

    — Acho que vou me contentar com isso. – ele sussurrou dando-se por vencido referinod-se a bebida.

    Assim que um pequeno grupo deixou o lugar depois de fazerem suas compras Mary adiantou-se acompanhada deMark. Katherine mirava a imensa roda gigante que estava a alguns metros longe de onde estavam, vendo sua atenção sobre a atração, Derek usou-a como um meio para em fim aproximar-se dela.

    — Imensa, não? – disse parando logo ao lado. Katy o fitou com o semblante liso e não disse nada. — Quer ir até lá? – perguntou.

    Katherine, pensou por um segundo e sorriu demonstrando ter deduzido o que ele lhe dissera.

    — Conhecer? – respondeu com a voz fraca. — Ela? – indicou com a face.

    — Sim! – ele disse. — Gostaria? – mostrou o caminho com um gesto simples.

    Katherine o observou e respondeu afirmativamente com a cabeça, mas sem pronunciar uma única palavra.

    — O que acha que está fazendo? – Mary então susrgiu como um fantasma.

    — Bem... Nós íamos até a roda gigante e...

    — Não, não vão! Não mesmo! – a outra posicionou-se. — Katy – voltou-se para a irmã. — Não pode agir dessa maneira... precisa ser mais cuidadosa. – reprovou a atitude da irmã.

    — Calma! Não há nada de errado. – Derek. — Só estamos conversando.

    — Não! Ela não está conversando! – respondeu com mais frieza. — Você quem a está importunando. – entregou um copo para a outra. — Deixe-a em paz! Sei muito bem o que você pretende com ela. – insinuou ainda. — Vamos, Katy. – deixou que a outra passasse a sua frente.

    — Mas... – Derek mirou o amigo que deu de mãos como se dissesse “esquece, esquece”.

    — Já te falei sobre isso. – Mark segundos depois. — Vai encontrar problemas ali. – referiu-se a Kety. — Tanto meus tios quando Mary... – pensou por um segundo. — Talvez não minha tia, mas os outros são bem rigorosos quanto a Katherine.

    — Não entendo.... – buscou uma explicação para si mesmo.  — Beata? – concluiu.

    antes mesmo de responder o outro sorriu parecendo debochado.

    — Mais complicado do que isso. – riu-se Mark. — Katy não é como as outras, Dek. – secou seu refresco. — Acho que a diversão acabou por aqui.

    — Vamos até minha casa. – agora Derek sugeriu. — Lá te um bom wisk e você aproveita pra me explicar melhor essa história.

    O outro concordou ao perceber que seu dia ainda não estava perdido.

    Agedeço a atenção!
    Confira também os outros títulos!
    Forte abraço!
  • Entre Lobos (conto-romance) 6/9

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    Não se sinta perdido(a), LEIA os capítulos anteriores! Tenha uma ótima leitura!
    Derek fumava escorado sobre o corrimão acompanhado de um copo de bebida e mais adiante, não muito distante de onde estava, Mark permanecia sentado sobre os poucos degraus que levavam a varanda. A rua em frente, monótona, estava tão quieta quanto os dois amigos.
    —... Quer me fazer de besta! Você está zombando de mim, Mark. – Derek então falou depois de soltar a fumaça do pulmão.
    — Acha que eu brincaria com uma coisa dessas? – o outro respondeu imediatamente. — Você deve ter percebido algo de estranho, não? Com ela. Queria saber o que esta havendo e estou te dizendo. – completou.
     — Mas... Impossível! Você mesmo viu o que aconteceu no parque! Por mais curta tenha sido nós tivemos uma conversa. – jogou contra. — Não? – riu-se.
    — Está bem, talvez a situação não seja exatamente como coloquei... Ao menos não ainda. Apesar de Katherine ter perdido grande parte da audição, não significa que não consiga nos ouvir. – tirou um gole da bebida. — Sinceramente fiquei surpreso que ela tenha se ariscado a falar com você, Dek. – comentou ainda. — Ela costuma ser extremamente reservada.
    O amigo ainda refletia sobre o que acabara de ouvir.
    — Reparando agora, isso explica muita coisa. – então, disse depois. — E como pode ser desfeito? – atencioso. — Isso pode ser desfeito. – reformulou a frase esperando que sua confirmação fosse apoiada pelo amigo.
    Mark negou com a cabeça antes de responder.
    — Não! – pesaroso com aquele fato. — E com o tempo só piora. Meus tios já procuraram todos os meios pra ver se ao menos isso pode ser interrompido, mas parece que vai chegar o dia em que ela simplesmente vai deixar de ouvir qualquer coisa, Dek. – esclareceu por fim. — E isso é muito triste de saber.
    Ficaram em silêncio.
    — Por isso, meu caro amigo, vou dizer uma última vez. – Mark pôs-se em pé. — Esquece essa história. Não vai querer essa situação pra você. Acredite.
    — Como?! – Derek surpreso. — Acho que não entendi direito. – precisou de confirmação.
    — Não, você me ouviu muito bem. – Mark afirmando o que havia dito. — Esqueça Katy.
    — Poxa vida, Mark! Achei que fosse ter ao menos o teu apoio! – insistiu.
    Antes de seguir falando o outro pôs seu copo vazio junto ao do amigo.
    — A surdez de Katy é só parte do problema, Dek. – continuou dando de mão em seu capacete. — Viu como Mary reagiu só de você trocar umas poucas palavras com ela, meu tio é tanto pior. – montou na motocicleta. — Acredite, cara! Se tem alguém que pode falar com propriedade, essa pessoa sou eu... Faça um favor a si mesmo. Esqueça Katherine ou isso pode não acabar bem.  E é tudo o que tenho a dizer sobre isso. – de ombros vestindo o acessório dando partida e indo embora.
    Derek continuou onde estava, fumando imóvel vendo o amigo levantar poeira da estrada. Não demorou muito e ouviu a porta atrás abrir e bater novamente. John aproximou-se dizendo
    — Deveria dar ouvidos ao que ele disse.
    — As espreitas agora? Não achei que o senhor agisse assim. – comentou vago buscando fitar o homem por cima do ombro.
    — Não pensa em levar isso adiante, não é? – o homem seguiu dizendo sem dar ouvidos ao que seu filho lhe dissera.
    — Bem... Parece que todos já sabem o que eu devo ou não fazer, não é? – respondeu tomando o restante de sua bebida e em seguida lançou o toco de cigarro na estrada antes de seguir para a porta de entrada.
    — Pense melhor, rapaz. – o homem sugeriu. — Essa não é como uma de suas brigas de rua. Ao mesmo consegue enxergar isso?
    — Claramente. – entrou deixando a porta bater. — Claramente. – repetiu.
    Na manhã seguinte, como de costume, John escutava os noticiários sobre o avanço da Alemanha. Foi surpreendido ao ver que Derek surgira mais alinhado com suas vestimentas, logo deduziu que seu filho preparara-se par uma ocasião mais formal.
    — O que merece todo esse cuidado? – falou.
    — Vou até a casa de Mark. – esclareceu o que deixou seu pai confuso. — Quero falar com os pais de Katherine e espero que ele me diga onde encontrá-los. – por fim.
    O home desfez-se do aparelho.
    — Mas que droga! Achei que tivéssemos resolvido esse assunto! – John sério. — Vai realmente insistir nessa história?
    — Já tomei minha decisão. – respondeu indo em direção a saída.
    — Não me dê às costas, rapaz! – o homem deixou o assento. — Não percebe o erro que está cometendo? Com pode considerar uma vida normal com alguém que um dia não vai nem escutar o que você diz?
    — Dane-se todos vocês! – Derek posicionou-se. — Não vou abrir mão daquilo que eu acredito por que vocês são covardes!
    — Cuidado, rapaz! – John o advertiu.
    — Covardes, sim! Não teriam coragem de enfrentar uma situação como essa e por isso se não conseguem mantê-la trancada querem impedir que o mundo não se aproxime dela.
    — E o que pretende fazer? Não tem culhões pra esse relacionamento, filho. – disse. — Mal consegue manter os bolsos cheios.
    — Ainda assim é o que pretendo fazer! – insistiu.
                — Pois bem. – deu de mãos abertas. — Resolva isso de uma vez, então! Quem sabe, depois de ser enxotado perceba quem está certo.
    Sem dar ouvidos Derek partiu.
    — Você enlouqueceu de vez, Dek! – Mark ainda sem acreditar no pedido do amigo. — Acaso ouviu alguma coisa do que eu disse ontem?
    — Cada palavra.
    — Cara, você realmente gosta dela, não é? – agora admirando a postura do amigo.
    — Assim que a vi, Mark. – respondeu. — Por isso preciso da tua ajuda. Não vou desistir sem que ela mesma deixe claro que não tem sentimentos por mim.
    Mark respirou fundo e soltou o ar.
    — Está bem! – então concordou. — Parece justo. Afinal de contas você já me ajudou tantas vezes. – estendeu a mão. Cumprimentaram-se com força. — Provavelmente meu tio me mate por dar apoio a isso, mas vejo que é sincero o que sente por Katy. Quem sabe eles também enxerguem...
    — Tudo de que preciso agora é do teu apoio. – Derek respondeu vendo transparecer na face do outro um sorriso de satisfação.
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  • Entrevista com Grazi – organizadora da antologia Contos do Desconhecido

    1 – A Editora Immortal surge num momento em que há uma crise no nosso modelo de distribuição, com livrarias fechando e gente sendo demitida. O que a casa editorial está fazendo para driblar essa dificuldade?
    R- Após conversar com alguns livreiros locais, decidimos continuar as vendas no nosso próprio site, pois as livrarias cobram um valor muito alto pela consignação. Optamos por investir mais na divulgação dos nossos títulos e autores. A antologia teve como principal objetivo conquistar mais público e
    graças a ela estamos conquistando nosso espaço aos pouquinhos.
    2 – Porque a editora optou por se especializar na publicação de terror e seus gêneros correlatos?
    R – Logo que abrimos nosso objetivo era publicar somente livros de terror, o público desse gênero vem crescendo muito em nosso país e a equipe é composta por muitos amantes do terror. Entretanto, no segundo semestre de 2019 decidimos expandir nossas publicações para todos os gêneros, com o intuito de aumentar ainda mais nosso público e claro, ter mais lucro.
    3 – O mercado independente têm duas características principais: alto índice de concorrência e grau de rentabilidade. Como a editora se destaca no meio desse furacão indie?
    R – Estamos sempre fazendo novas parcerias e focamos em caprichar muuuito no projeto gráfico, principalmente na capa. Quanto mais bonito o livro for, mais chances ele vai ter se destacar. Também buscamos originalidade no texto, nossos autores trazem isso à tona, muitas são as resenhas que elogiam a criatividade dos livros.
    4 – Hoje, além da qualidade gráfica e dos títulos, uma editora deve procurar meios de divulgação eficiente, qual o modelo de parceria que a editora desenvolveu nesse quesito?
    R – A formação de parceria com blogs grandes e pequenos, por mais que tenhamos de fornecer o ebook ou livro físico gratuitamente para esses, a parceria sempre ajuda a impulsionar uma obra.
    5 – A Editora Immortal criou uma assinatura na plataforma Catarse. Como ela funciona e quais os seus benefícios?
    R- Colocamos a antologia na categoria flex para que pudéssemos arrecadar verba e ajudar na produção do livro, que conta com muitos profissionais envolvidos.
    Os benefícios ao apoiador são as recompensas exclusivas da antologia, itens que não irão para o mercado.
    6 – A antologia Contos do Desconhecido reúne dezenas de escritores. Como a antologia é dividida e que tipo de conto os leitores podem encontrar?
    R – Antologia está dividida em 3 temas: Creppy Pasta, Lendas Urbanas e Releituras de Clássicos. Os leitores encontrarão sobretudo o terror em diversas categorias. A inspiração para antologia é uma frase muito famosa do autor Lovecraft “A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido." Queremos trazer o Desconhecido às páginas da antologia.
    7 – Qual o modelo de publicação dessa antologia?
    R – O primeiro lote será direcionado aos apoiadores. Após isso realizaremos as vendas em nosso site conforme disponibilidade.
    8 – Quais títulos a editora já publicou e nos dê uma breve sinopse?
    R – Cidadolls.
    Fred é um escritor iniciante que pretende escrever seu primeiro sucesso. Fascinado por histórias de suspense e mistério, decide viajar para Cidadoll, uma cidade onde a fama de bonecas realistas se espalhou pela internet. Porém, o local é marcado por poucos visitantes em fator da distância e do difícil acesso. Através desta fama, e dos mistérios que cercam a cidade, o jovem escritor decide escrever o seu mais novo livro... O único problema é que Cidadoll guarda coisas muito além do que Fred poderia imaginar, ou melhor, escrever.
    Cartas de Sangue
    Cartas de Sangue e outras histórias de Violência Gratuita é uma coletânea de contos, mas conta uma só história: a corrupção humana
    Transfigurada em contos de suspense, tensão e gore, no vão entre ficção e a realidade, a violência humana aparece crua (e por vezes nua), levando o leitor a refletir sobre o quão longe alguém pode chegar.
    Evangelhos da Desgraça
    Estas páginas tumultuosas, vindas de uma imaginação mórbida, não mais contêm que textos inspirados nos grandes mestres do terror, criados para o prazer obscuro dos amantes desse gênero.
    Nestes escritos, o autor admite-se enquanto artista enlouquecido mutilando a sua sombra para prazer de um público. Pelas suas palavras, esforça-se para nos mostrar o horror da insanidade em suas várias faces, explorando ao máximo a capacidade da mente humana para se refugiar de uma realidade adversa no mais profundo desconforto e desespero.
    Prometo: estes Evangelhos não foram redigidos pelas mãos de santos. Aqui, é-nos apresentado um conjunto seleto de pequenas blasfémias, excretadas indecentemente pela língua da própria Desgraça.
    Eis, para a podridão humana, "o recriminador vidro de um espelho".
    O Landau Vermelho
    Após presenciar a morte trágica de seu irmão gêmeo e passar os doze anos seguintes desaparecido, Adam Peixoto retorna a Contagem para assumir os negócios de seu falecido pai e tentar dar um novo rumo à sua vida.
    Seu retorno, no entanto, coincide com o início de uma série de assassinatos cruéis, sangrentos e inexplicáveis, provocados por um demônio enorme, com quatro rodas, faróis duplos e capota de vinil, pesando quase duas toneladas e saído diretamente de alguma funilaria do Inferno.
    Um demônio metálico. Violento. Frio.
    Um Ford Landau.
    O Pecado de Cyn
    O meu nascimento se deu na morte.
    Nasci de um parto espontâneo, do corpo enforcado de minha mãe. Ela se foi e tentou levar consigo a aberração que gerava no ventre. Eu já nasci lutando pela vida e tenho as cicatrizes até hoje.
    Eu sou um pária. Um meio orc.
    Eternamente preso entre dois mundos que nunca vão me aceitar como um deles.
    Mas não sinta piedade de mim. Se você tiver alguma, guarde para quem merece. Até o final dessa história você vai ver que eu sou um monstro, criado para ser um monstro. Eu não quero sua simpatia. Eu sobrevivi sem ela até hoje.
    Eu só quero contar minha versão da história. Por quê? Porque se alguém pode encontrar essa história e destruí-la?
    Porque eu quero. Não importa que o mundo não conheça minha história. Nada mais importa. Você que está lendo saberá.
    E isso basta. Deve bastar.
    Meu nome é Cyn.
    Cyn dos Olhos Azuis. Pária, meio orc, criado para ser um monstro.
    E essa é a minha história.
    9 – Qual a projeção que a Editora Immortal tem para o segundo semestre de 2019?
    R – Vamos focar em publicar novos títulos, pois no primeiro semestre a equipe se dedicou apenas à antologia.
    10 – Conte tudo e não esconda nada! Quais os planos para o futuro?
    R – Pretendemos tornar novos best-sellers todos os nossos autores.
  • Entrevista com Matheus Braga – autor de O Landau vermelho

    1 – Quem é Matheus Braga e porque você resolveu contar a história de um carro assassino?
    R – Já começamos com uma pergunta difícil, porque sou péssimo para falar de mim mesmo, rsrsrsrs. Bem, posso dizer que sou um sonhador. Sou uma pessoa que sonha com a cabeça nas nuvens e os pés no chão e corre atrás da realização desses sonhos. Sou uma pessoa determinada, resiliente, apaixonada pela natureza, que ama animais e a-do-ra carros desde que se entende por gente. Pode-se dizer que aprendi a nomear carros antes mesmo de aprender a falar “papai” e “mamãe”, rsrsrs. Quando pequeno, meus brinquedos favoritos eram as miniaturas de carros e meu Ferrorama, e sempre gostei muito dos filmes cult sobre perseguição de carros como Encurralado e Christine – O carro assassino, e foi daí que, anos mais tarde, vieram algumas das inspirações para meu livro.
    2 – Como foi o processo de produção do seu romance de terror O Landau Vermelho?
    R – Gosto de dizer que O Landau vermelho foi um livro construído ao longo de muitos anos. Como já disse, sempre nutri uma paixão muito grande por carros e sempre tive vontade de escrever algo dentro desse universo, mas nunca havia tido a ideia para isso. Eu estava sempre esboçando plots e cenas separadas, mas nunca havia chegado a um enredo satisfatório. Este só veio quando num dia, ao organizar minha pasta de arquivos no computador, acabei lendo todas as cenas separadas em sequência e, baseada numa dessas cenas em específico, intitulada Corrida Infernal, formou-se a ideia para o livro. Também me inspirei nos filmes clássicos do gênero “carro assassino” para me ajudar a enxergar melhor a história. A partir desse ponto, foram mais dois anos e meio de escrita e muita pesquisa para finalizar o livro, e depois ainda precisamos de uns 5 ou 6 meses de revisões pontuais antes que a versão final finalmente saísse em e-book e, agora, em versão impressa. Cabe aqui uma curiosidade: quase todo esse processo aconteceu tendo como trilha sonora a música Two black Cadillacs, da Carrie Underwood, cujo videoclipe também conta a história de um carro assassino.
    3 – Quais suas maiores influências no mundo da escrita?
    R – Sempre me identifiquei muito com o gênero de romance policial, e minha maior influência foi o mestre Sidney Sheldon. É dele o primeiro romance policial que li, Conte-me seus sonhos, e o estilo narrativo dele sempre foi o que mais me fascinou. Ele constrói as cenas de forma quase cinematográfica, explorando as sensações e percepções tanto dos personagens quanto do ambiente em si, de forma a obrigar o leitor a continuar lendo, e lendo, e lendo até que, quando dá por si, o livro já acabou. Venho praticando muito para conseguir escrever dessa forma também, como pode ser percebido no meu romance O Landau vermelho. Mas além do Sidney Sheldon, também sempre li muito Harlan Coben, Stephen King e Agatha Christie.
    4 – As editoras independentes estão dando um show de como se publicar livros no Brasil, muitas vezes exportando esses livros para a Europa e EUA. Como você percebe essa mudança no nosso mercado literário?
    R – Infelizmente a mudança ainda é relativamente sutil no mercado como um todo, mas já é perceptível para quem está atento. As grandes livrarias e editoras sempre dominaram o mercado literário de forma cavalar, quase sempre valorizando autores já expressivos ou que possuam o famoso “Q.I.”, mas com o advento da internet é possível perceber um crescimento das publicações de editoras menores e autores independentes, principalmente no que diz respeito aos e-books. Tal crescimento tem se mostrado uma grata surpresa aos leitores de plantão, pois tem revelado autores talentosíssimos e histórias extremamente deliciosas de se ler. É bastante notável que estes novos autores quase sempre vêm do mundo das fanfics, que já é bastante popular desde a época dos fóruns, no início dos anos 2000, e temos sido agraciados com grandes talentos que até então estavam ocultos ou não tinham uma divulgação expressiva de seu trabalho, e estes talentos acabam por ser a nossa esperança de que, apesar do mercado literário ter entrado em declínio nos últimos anos, ainda poderemos desfrutar por muito, muito tempo deste prazer indescritível que é a leitura de um bom livro.
    5 – Quais as maiores dificuldades para um escritor iniciante conseguir sua primeira publicação?
    R – Sinceramente não tenho propriedade para responder esta pergunta, pois a editora Immortal foi a primeira e única para a qual enviei o original de O Landau vermelho e ele já foi aceito para publicação, rsrsrsrs. Mas acredito que a dificuldade maior seja justamente encontrar a editora certa para a publicação. Escrever em si já é algo muito difícil, mas encontrar uma editora onde sua história se encaixe da forma devida pode ser um tanto delicado, pois pode haver divergência entre a mensagem que o autor quer passar com a história e a interpretação que a editora dará para ela. Além disso pode haver também o fator financeiro, pois não são todas as editoras que se dispõem a publicar o livro antes para colher os lucros depois, e também não é fácil para um autor iniciante dispor de determinada quantia financeira para investir na publicação, mesmo que a realização de um sonho não tenha preço. De qualquer forma, acredito que com a devida paciência tudo pode se ajeitar.
    6 – Qual sua preferência de leitura: e-book ou impresso? E porquê?
    R – Impresso, com certeza. Além de adorar o cheiro de um livro novo, sou muito tradicional nesse quesito, e ter o livro em mãos me proporciona uma experiência de leitura muito melhor. Gosto da sensação de folhear as páginas e consigo imergir melhor na história e absorver a mensagem do livro de forma mais satisfatória. Ler e-book é algo que requer muita disciplina, pois nos aparelhos eletrônicos as distrações são constantes (WhatsApp, Facebook, Instagram, etc...) e eu sempre acabo desviando minha atenção com outras coisas. O engraçado é que leio fanfics com constância no meu celular e não desvio tanto minha atenção, rsrsrs, mas simplesmente não consigo ler um e-book.
    7 – O autor tem outros hobbies além de escrever? Quais são?
    R – Meus principais hobbies além da escrita são o colecionismo/modelismo e o trekking. Tenho várias coleções, desde miniaturas de carros e trens até minifiguras de Lego e moedas raras, e sempre que disponho de um dia livre ou feriado prolongado gosto de fazer caminhadas ao ar livre para serras ou cachoeiras, pois adoro estar em contato com a natureza. Ainda tenho o sonho de montar um “carro projeto” apenas por hobby, que é comprar um carro antigo e fazer alterações no estilo e na performance dele para um uso mais divertido, mas ainda não tenho condições financeiras para isso, rsrsrs.
    8 – O mercado editorial passa por mudanças, elas já são perceptíveis ao ponto de dizermos que temos um novo mercado ou não?
    R – Acredito que a maior mudança que o mercado editorial vem passando nos últimos tempos é a popularização dos livros digitais. Apesar de admitir isso a contragosto, os e-books são bem mais práticos e acessíveis do que os livros impressos, principalmente para fins acadêmicos e profissionais, e podem ser a melhor opção para pessoas que querem passar a ter o hábito de ler mas não abrem mão da conectividade. Com isso, acredito que é seguro dizer que sim, temos um novo mercado, com novas estratégias de vendas, marketing e lucros adaptadas à nova realidade dos leitores.
    9 – Nos conte quais os planos para o futuro desse escritor?
    R – Adoro fazer planos e sonhar com o desenrolar deles, mas sempre mantendo os pés no chão. Entre os principais planos na minha vida hoje estão: morar sozinho, para finalmente conquistar minha independência; publicar mais um livro até o fim de 2019; conseguir mais uma promoção no meu emprego para me estabilizar financeiramente; e no segundo semestre, quem sabe, começar uma das minhas pós-graduações.
    10 – Como e onde os leitores podem adquirir o seu livro e em que projetos está envolvido ultimamente?
    R – Meu livro pode ser adquirido diretamente com a Editora Immortal ou pelos sites Amazon e Clube de Autores, tanto o e-book quanto a versão impressa. Os links estão no meu perfil e na página da editora. Meu próximo projeto é uma participação na antologia Contos do desconhecido, também da Editora Immortal, que será uma compilação de contos de terror onde estarei participando com os contos originais Ferrorama e Sussurros à meia-noite.
  • Escuridão

    O caminho era longo. Todo final de semana, ele pegava um ônibus em direção à Bérnaba, uma viagem que durava cerca de sete horas e meia. Fazia isso somente para ver a sua namorada e, após o final do mês, a sua noiva. Isso, é claro, se ela aceitasse o pedido que seria feito exatamente na data de aniversário de namoro.
    Normalmente não conseguia dormir durante a viagem. Mesmo quando estava muito cansado, cochilava e acordava constantemente. Às vezes era por causa de alguma dor no pescoço e em outras porque a sua cabeça encostava no vidro que, ao tremular, o acordava. Nessa, entretanto, conseguiu dormir profundamente. Agradeceu aos céus por ter conseguido comprar uma almofada de pescoço que o deixava sem dores e o impedia de colocar o seu rosto contra a janela.
    No meio da noite, acordou pela primeira vez. O ônibus parou subitamente no meio da estrada, todas as suas luzes apagaram e nada funcionava. Ainda sem compreender nada corretamente, ele esfregou os olhos e tentou ligar o celular para saber que horas eram, mas a tela continuava escura. Acabou acreditando que a bateria havia acabado e o guardou.
    Ainda em sua busca de descobrir o horário, abriu a cortina da janela e tentou achar algum indício do nascer do sol. Lá fora estava tudo extremamente escuro. A única coisa que conseguia enxergar era uma montanha já no horizonte. Ela parecia ser composta por três picos: o primeiro era maior que o segundo, e o terceiro era o maior de todos. A única cor que ela tinha naquela escuridão era o preto, mas não era um preto qualquer. A sua cor, que parecia como a de uma sombra mais escura do que o próprio preto, hipnotizava o seu admirador e parecia congelá-lo no tempo como se nada mais importasse.
    Ele ficou ali até ser interrompido pelo barulho da porta que os separava do motorista ser aberta. Ele pediu para que todos que estivessem aptos a empurrar o ônibus para irem lá fora e ajudá-lo a colocar o veículo no acostamento. O intuito disso era evitar acidentes já que a pane elétrica havia acontecido bem em uma curva e algum carro desatento poderia bater neles.
    Ele foi um dos primeiros a se candidatar para a tarefa. Fez isso mais para sair do ônibus do que para ajudar. Sempre odiou ficar em locais muito fechados, pois lhe causava um extremo desconforto conforme o tempo passava. Lá fora havia quinze pessoas de um total de vinte e nove no ônibus. Ninguém tinha lanternas, a não ser a do motorista que havia quebrado quando ele saiu do ônibus pela primeira vez. Não se enxergava muito bem, o alcance máximo devia ser de um metro ao forçar a vista. Ele não fazia ideia de qual era a fonte dessa pequena luminosidade já que não havia lua no céu e nem sequer uma estrela, mas a sua intuição acreditava que aquela montanha era a iluminadora.
    Ele se posicionou na extremidade esquerda da traseira do ônibus e usou toda a força que tinha para deslocá-lo. Inicialmente, ele andava muito lentamente, porém, em questão de segundos, o ônibus começou a andar rapidamente como se estivesse descendo uma ladeira. Nesse instante, com a mudança súbita de força necessária a ser aplicada, acabou indo para o chão. Sentiu uma dor nos seus cotovelos já que eles foram a primeira parte do corpo a atingir o chão, mas a dor não o abateu. Rapidamente, ele se levantou e começou a caminhar na direção na qual estavam empurrando o ônibus. Não conseguia enxergar nem o que tinha a trinta centímetros de distância, mas sentia que o terreno não era íngreme.
    Ele não conseguia achar o ônibus. O desespero começou a tomar conta da sua mente. Começava a cogitar que estava andando para o lado errado, então começou a girar lentamente e a gritar. Esperava que algum outro passageiro ouvisse e desse um sinal de onde eles estavam. Entretanto, o silêncio reinava. A montanha havia sumido junto com qualquer chance de se localizar por meio dela. A sua garganta já começava a doer de tanto gritar por ajuda. Os seus pensamentos começaram a implorar por uma resposta ou até mesmo para que um carro aparecesse com farol alto e o atropelasse. A escuridão, a falta de localização e de sinais de vida estavam começando a deixá-lo desesperado. O medo corria por todas as suas artérias, veias e capilares nesse momento.
    O medo aumentou quando sentiu alguma coisa correndo alguns metros atrás dele. A sua respiração começou a ficar mais curta por causa do medo. Aconteceu mais uma vez, porém dessa vez sentiu que ela passou pelo seu lado direito com uma leve brisa o atingindo. Começou a cogitar que podia ser a sua mente pregando peças nele. Essa paranoia devia ser muito comum em alguém em estado de pânico. Mesmo assim, ao sentir aquilo pela terceira vez e perceber que estava cada vez mais próximo, começou a correr o máximo que podia para a direção em que estava virado. Não sabia se estava na estrada ou saindo dela. Ele somente não queria parar, pelo menos não até se sentir minimamente seguro e isso significava ter alguma fonte de luz. Entretanto, isso não foi possível. Ele caiu, bateu a cabeça e desmaiou, não sabendo se algo o perseguia, o que o perseguia, se foi atingido ou se tropeçou.
    Acordou no ônibus. O sol brilhava com algumas poucas nuvens brancas prestes a encobri-lo. Via alguns pássaros do lado de fora cantando suavemente e conseguiu relaxar. Entendeu que tudo deveria ser parte de um pesadelo bem vívido, então tentou fechar os seus olhos e descansar um pouco. Apesar de inúmeras tentativas, os seus olhos permaneciam abertos. O desespero retornou. Tentou levantar os seus braços e tocar o rosto com as suas mãos, mas nada acontecia. Sentia que estava dentro do seu corpo, porém não tinha controle nenhum sobre ele. Não sentia parte alguma dele, embora estivesse vendo tudo. Era como se fosse um prisioneiro amarrado em uma cela minúscula tendo uma única janela para ficar observando o mundo lá fora.
    O ônibus parou. Sentia um desespero cada vez maior. Se tivesse controle sobre os seus pulmões, tinha certeza de que a respiração estaria cada vez mais curta quase a ponto de desmaiar. Mas não tinha e pensou se, algum dia e de alguma forma, conseguiria restaurar o controle sobre o seu corpo. As suas dúvidas aumentaram quando viu o seu corpo desafivelar o cinto de segurança, pegar a mala e sair andando completamente sozinho enquanto era um mero passageiro dos olhos.
    Quando viu a sua namorada na rodoviária, tentou pela primeira vez gritar por socorro. O som saia, mas somente na sua mente. A boca não se movia nem mesmo um milímetro. Queria chorar, mas lágrimas não saiam dos seus olhos. Nunca tinha sentido tanto medo na vida, nem mesmo durante a noite passada.
    Finalmente um som saiu da sua boca, embora ele não tivesse lançado comandos para isso. A fala era completamente normal e a conversa totalmente amigável, mas não era ele falando. Talvez a pior parte de tudo isso fosse a impotência que sentia. Nem mesmo fugir ou pensar em fugir podia já que de nada adiantaria.
    Durante o trajeto até a casa da namorada, começou a tentar a se acalmar e a elaborar hipóteses para o que estava acontecendo. A mais plausível, embora ainda considerasse difícil de ser a verdade, era que o medo que sentiu na noite anterior o tenha feito desenvolver alguma doença mental e ele ser a voz secundária de uma esquizofrenia ou uma outra personalidade de um transtorno dissociativo de identidade.
    Depois de muito tempo numa prisão na qual não podia fazer nada além de observar, chegou a noite e a hora de dormir. Durante todo o dia, nada de anormal havia acontecido. Tudo o que ele teria feito normalmente, o seu corpo fez. Agora teria que dormir, mesmo sem saber como, e desejar que tudo voltasse ao normal no dia seguinte.
    Em cerca de meia hora, o seu corpo desligou. No meio da noite, estava ligado novamente. Tinha sentado na cama de repente e com o movimento havia acordado. Verificou se tinha retomado o controle do corpo ao tentar piscar, mas ainda nada acontecia. Sentia um sorriso se formando no rosto e a sua mão lentamente indo para a mesinha ao lado da cama. Dessa vez, estava sentindo tudo o que fazia sem precisar olhar para nenhum lado. Sentia, embora não controlasse. A sua mão pegou uma caneta e o seu tronco se virou para a namorada que estava em um sono profundo. O seu braço levantou até acima da sua cabeça e depois desceu rapidamente em direção ao peito dela. Fez aquilo repetidas vezes. A caneta deve ter atingido o coração porque o sangue jorrava e diversas vezes respingava no seu rosto formando gotas que desciam pelo nariz e pelas têmporas.
    Ele fazia força para tentar retomar o controle, se concentrava ao máximo no braço para ver se ele parava, mas nada acontecia. Quanto mais esforço fazia parecia que com mais força segurava a caneta. Gritava com o máximo de força que tinha, mas o som só soava em sua mente. Queria chorar e sentia que estava fazendo isso, mas do seu rosto só descia o sangue dela que se depositava em sua testa. Sentia aquelas gotas quentes se formando como se água fervente fosse jogada na pele. Quando viu a caneta quebrando, acreditou que tudo pararia. Ela já estava morta, sabia disso mesmo que a sua mente ainda tentasse procurar algum resquício de esperança. Mesmo assim, o seu braço não parava. Finalmente, o desespero e o sofrimento fizeram com que desmaiasse. Talvez não fisicamente, mas pelo menos mentalmente.
    Acordou no dia seguinte na mesma posição em que tinha desmaiado. Ainda sem controle do corpo e, dessa vez, sem conseguir sentir os músculos. Quando a sua cabeça se moveu na direção dela, não viu nada de anormal. Ela estava lá, dormindo e sem nenhum sangue ou sinal de ferimento a sua volta. Não entendia como, mas estava feliz que estivesse daquele jeito.
    O dia foi tranquilo como os seguintes. Tinha anunciado para ela que ficaria a semana toda e, na sua prisão mental, ficou com medo do porquê disso. Descobriu o porquê nessa noite e nas seguintes. Novamente acordou no meio da noite e a matou cruelmente. A cada noite uma arma diferente era usada, podendo ser um abajur ou uma tesoura. Logo depois ele desmaiava devido ao terror e acordava no dia seguinte com tudo acontecendo normalmente.
    Entretanto, quando chegou na quarta noite, conseguiu manter a calma. Estava prestes a matá-la sufocada com o travesseiro, mas mesmo assim se manteve totalmente calmo. Repetia sem parar que tudo aquilo não era real. Deu certo, não caiu no desespero enquanto matava ela, mas, mesmo assim, desmaiou após ter terminado o serviço.
    Acordou no dia seguinte e ela já estava em pé. O sol batia no seu rosto e sentia a pele esquentar de forma bem suave e agradável. Pensou que tinha recuperado o controle, mas ainda não conseguia nem sequer mexer um dedo. Mesmo assim, pensou estar lentamente recuperando o controle. Sentiu os músculos se moverem enquanto se levantava e caminhava na direção da sua namorada. Seu braço direito levantou e acertou um soco bem no olho dela. Ela gritou de dor. Sentiu uma dor nos nós da sua mão e uma confusão atingiu a sua mente. Não era noite e ela estava acordada, portanto não via o porquê de está-la atacando. O desespero estava retomando o controle. Tentava pensar que não era real, mas era difícil quando tudo ou pelo menos os principais detalhes se modificavam. Mesmo assim, tentava se convencer de que era tudo uma alucinação.
    Quando tinha começado a se convencer disso, o que demorou menos de dez segundos, o seu corpo lançou novamente aquele sorriso e voltou a agredi-la com um chute na barriga. O seu pé sentiu o impacto. Logo em seguida, o seu corpo se montou em cima dela e começou a socar o rosto dela sem dar pausas. Os punhos doíam e sentia os ossos da face dela quebrando a cada golpe desferido. Mesmo assim, se mantinha calmo. Tinha certeza que logo desmaiaria, acordaria novamente e tudo estaria bem.
    O seu corpo parou de socar depois de uns vinte minutos de esforço físico ininterrupto. Estava ansiosamente esperando para a hora em que iria desmaiar, mas, ao invés disso, o seu corpo pegou o telefone e ligou para a polícia. Quando ele fez isso, passou a não entender nada. O sofrimento que sentia era gigantesco, então entendeu que tudo havia sido verdade. Pela primeira vez, o seu corpo permitiu que chorasse. Mesmo assim, parecia que o sofrimento só aumentava ao rolar de cada lágrima.
    Tinha sido preso e o seu corpo confessou o crime descrevendo cada detalhe. A parte que mais doeu foi quando falou que tinha gostado de fazer aquilo. A sua mente xingou o corpo com todas as palavras que sabia, mas de nada adiantava.
    Na prisão, ele arranjava briga com todos só para que a mente sentisse a dor física. O recorde dele fora da solitária ou enfermaria foi de somente dois dias. Chegou a matar algumas pessoas em brigas, mas já não ligava tanto como antes. O sofrimento que sentia por estar numa prisão dentro de outra prisão, em uma cela solitária dentro de outra solitária, já o tinha feito totalmente indiferente a tudo.
    A única boa notícia é que o corpo havia revelado o que tinha causado isso. Num sonho que tivera no primeiro dia de prisão tudo tinha ficado claro. Ele estava novamente correndo na estrada sem conseguir enxergar coisa alguma quando conseguiu ver uma placa da mesma cor da montanha que dizia “Bem-vindo a Escuridão!”. A escuridão havia consumido ele e talvez todos aqueles que estavam no ônibus.
  • Estrelas

    Arminda não se sente bem. Está sozinha em casa, a taquicardia volta-lhe ao peito num ataque e se instala por toda a tarde. Preocupada, projeta a cabeça para a única janela com visão para o horizonte. De lá enxerga a noite empurrando o dia para o fim, já despencam um par de estrelas, as últimas nuvens embaçam um céu fugidio. Dali a pouco acabou-se, é fim de dia, poderia ser o último.

    Acostumada a vida inteira à solidão, Arminda da Mata, alcunha da vida, não de cartório, não conhece o mundo. É velha, mas tem os olhos claros e alegres. Já transbordou dos setenta anos, imigrou do extremo rural português aos vinte para a caótica urbanização brasileira e conviveu, desde então, com a “pontada”, como chama a angústia que lhe ocorre todos os dias. Esta dor eu não conheço, diz hoje para si mesma, tentando buscar dentro do seu pequeno ninho de palavras práticas, as únicas que conhece, aquelas que melhor traduziriam o seu embrulho. Tenho areia nos pulmões e dói-me muito, decide-se enfim por este decreto, é o que dirá ao farmacêutico, e assim será.  

    Gosta da noite, não pela quietude, menos pela brisa morna, mas pelas lembranças de um mundo já esgotado porém nunca esquecido. Sua antiga juventude é trancada, nunca a quis compartilhar com marido e filhos por entender que, como não a viveram, não a compreenderiam. As noites em sua aldeia atravessaram sua mocidade como um grande mistério: o breu noturnal sobre as copas das árvores, os guinchados de um besta desconhecida que faziam seu corpo tremer num paradoxal contentamento apavorado, e as estrelas. Hoje, da sua janela, acompanha o brilho das mesmas estrelas e não entende.

    O funcionário já conhece Dona Arminda, é velha diferente das demais que sempre ralham-lhe porque os remédios ainda não chegaram à farmácia. Consegue compreender seus motivos, as anciãs sabem que a morte já avizinha e querem prolongar a vida com os fármacos que juram sustentar os corpos em pé ou, se nem isto for possível, ao menos acesos e quentes. Hoje Arminda traz um semblante pesado, senta-se ao lado da balança e deixa os ombros caírem, sequência gestual acompanhada com toda a atenção pelo funcionário. A senhora está bem? Se eu puder ajudá-la é só pedir, Não me sinto nada bem, O que houve consigo, Meus filhos foram embora de casa e eu sinto que vou morrer.

    Da televisão dependurada na parede ressoa a frase que Arminda da Mata, nos derradeiros três anos de vida que ainda lhe restam até findar-se, jamais esquecerá. Um tipo excêntrico, talvez um astronauta, responde a uma jovem que lembra sua filha, Há mais estrelas no universo do que grãos de areia na Terra.
  • ESTRELAS

    Não pode, não há como você enfrentar tantos sozinhos, por favor – chorando. Não, não vá, não me deixe. Era necessário, para salvar a todos eu precisava usar o portal, só que minha magia estava no fim, e o que sobrou só daria para levá-las, eu teria que ficar para trás, sozinho, e com o exército se extendendo por todo o horizonte.
                É preciso, Estella, se eu não fizer todos morrerão, entenda, eu... é o único jeito, precisava acabar logo com isso ou iria fazer a escolha que queria, era a errada, porém, a que ele queria. Sou como uma estrela, estela: Quando uma estrela morre seu brilho ainda pode ser visto. – E o que isso tem, disse chorando. Apenas a olhei e meu coração se encheu de tristeza, sorri e disse que ela entenderia. A vanguarda inimiga já podia ser avistada precisava me apressar, comecei o encantamento e logo o portal se abriu, enviei-os à capital onde estariam em segurança, logo que sumiram me virei ao horizonte e para o mar de mostros que se aproximava de mim trazidos pelas ondas da destruição, respirei fundo, fechei os olhos e me preparei para a luta, sabia eu que não sairia com vida e mais uma vez a tristeza me abraçou, a última vez que a verei, pensei enquanto corria para a batalha.
                Quando cheguei ela estava sentada na mureta do castelo observando o por do sol e assim que semicerrou os olhos em minha direção deu um pulo de lá e veio correndo se jogando em mim, caimos e rolamos pela grama, ela soluçava e me abraçava enquanto dizia ainda bem, ainda bem, ainda bem. Deitei em seu colo e ao tocar seu lindo rosto de porcelana uma luz saiu de minha mão, estava sem tempo, pois o perdi na caminhada, ela não a percebeu, alisei a porcelana avermelhada que virou sua bochecha e sorri, a última vez, pensei.
                Você voltou, conseguiu, estou tão feliz, ele deitado em seu colo disse: lembra do que eu falei? Que mesmo depois que uma estrela morre, seu brilho ainda pode ser visto?.
    Após estas palavras ela compreendeu, ele já estava morto., deitado em seu colo jurou seu amor e disse que sempre a amou e sempre a amaria, enquanto o sol ia se pondo ele ia junto do astro, ela não conseguia conter a emoção e as lagrimas foram jorando de seu pranto, rolando pelo seu rosto. – Adeus, disse ele, adeus minha querida Estella, a melancolia em sua voz embargada. a lágrima saiu dos olhos de Estella e caiu no canto de seu olho e parecia que ele havia chorado, o sorriso bobo em seu rosto, bobo que ela amou a primeira vez que viu, e agora seria a última, quando o último raio de sol foi-se ele foi reivindicado para os céus, a minha estrela, pensou Estella chorando, o sol se foi e o levou assim como seu brilho. A lua subia alto no panorama celeste junto das suas luminosas, ela passou a noite toda procurando a sua estrela.
  • Eu e o Pássaro

    Ninguém quer sentir inveja, ela simplesmente aparece. Queria poder voar, sentir o vento no meu rosto e ser livre pra ir onde quiser, mas não posso. Não sou um pássaro! E é aí que aparece a inveja, ela chega bem devagar no ouvido da sua mente e diz: “Olha aquele passarinho! Ele voa, encanta a todos com seu contorcionismo nos ares e parece ser feliz com essa vantagem. E você?! Você não consegue voar! E é feliz com isso?” e nossa mente, sabe muito bem a resposta e manda apenas uma sensação pro nosso consciente… a inferioridade. E para tentar me sentir superior e competir com a maldita ave eu construo aviões e paraquedas, crio técnicas, trajes especiais, pulo de Bungee jumping, faço de tudo pra depois olhar pra lado e ver que eu ainda sou mais infeliz que o pássaro.
    O pássaro não liga pra mim, não ligar pra minha dor, ele vive a vida dele e aproveita seu dom. Ah, Como eu queria esse dom! Encantar os outros com acrobacias maravilhosas, sentir o bem dito vento em minha face, mostrar minhas belas penas quando bater as asas e ter um canto majestoso. Entretanto, eu voou como uma pedra, o vento que sinto em meu rosto pode me cegar, minha pele tem tatuagens que não se comparam a penugens e minha voz rouca cansa os ouvidos alheios. Como posso prosseguir assim? Como posso esquecer essa dor se tudo me faz lembrar dela?
    Já tentei fazer amizade com o pássaro, para ver seus podres e conseguir superar minhas fraquezas, porém ele me abriu as portas de seu ninho, me contou sobre sua trajetória de vida, sua função na natureza, me mostrou seus troféus, me contou que errou bastante e se arrepende de tudo de ruim que fez, e também me mostrou sua namorada.
    A inveja não é um sentimento fixo, ela com certeza vai te levar para outro bem pior. No meu caso, quando eu soube tudo sobre o pássaro, meu coração disparou, meu olhos reviraram, minhas mãos tremeram e meu coração antes tomado pela inveja mudou para o ódio.
    O ódio é como o escuro, quanto mais se têm menos se vê o que a gente faz. E eu estava cego de tanto ódio que circulava no meu corpo, cada glóbulo no meu sangue odiava o pássaro, odiava seu voou, suas sensações, sua linda namorada, seus belos arrependimentos, odiava aquela vida!
    E o que acontece quando tem alguém cego de ódio perto de sua causa?!... Uma vingança cega.
    E foi isso que aconteceu… uma vingança cega! Eu depenei o pássaro com cuidado, cortei suas asas com todo o respeito que suas coreografias aéreas mereciam, tirei seu bico cantando a melhor música que aquele bico já cantara e joguei seu corpo de um penhasco para que pela primeira vez ele sentisse a decepção de não conseguir voar igual eu sentia. E eu estou me sentindo melhor do que jamais estive, vestindo uma roupa de penas feita pelas minhas próprias mãos e tendo seu bico como troféu na minha estante.
    Eu?! Se eu estou me sentindo arrependido?! Hahaha, arrependimento é coisa de pássaro.
     
  • FELICIDADE NA DOR: PARTE 3

    Julia estava cansada, o plantão de vinte e quatro horas fora acirrado. Para complicar a cidade de pernas para o ar atrasou seu retorno. Por conta disso contactou a mãe para desmarcar sua visita mas o celular teimoso em caixa postal. Eram vinte e três horas e cinquenta e oito minutos e aquela altura pensava apenas em relaxar.

    A moça estava na rua de casa, muitas pessoas circulavam e pelo horário chamava a atenção. Visualizou carros de polícia e ao se aproximar pareciam estar em frente a sua residência. O temor concretizou-se, coração disparado e pernas trêmulas. Policiais adentravam, uma área isolada demarcada e curiosos ao redor. Parecia filme mas era verdade.

    Julia quiz entrar e foi impedida, transtornada se apresentou como dona da casa e uma confusão teve início. A investida surtiu efeito, adentrara e a imagem chocante. Uma enorme poça de sangue e no chão, sem vida, o marido Flávio.  A moça caiu em prantos, tudo girava, seria pesadelo ou alucinação, assim imaginava. Os policiais a ampararam e mesmo sem condições psicológicas inúmeras perguntas começaram.
    A jovem mulher não sabia onde estava. Em poucos minutos seu rosto inchado devido ao choro ilustravam o cenário estarrecedor. Por estar sem condições os oficiais entraram em contato com sua família e expuseram o  fato ocorrido. Janete foi a escolhida, mesmo em pedaços a moça não quis envolver os pais para dar de imediato a notícia.

    Naquela hora Carmen chegava em casa e pensava se fez a escolha certa. Imaginava a dor da filha e isso lhe cortava o coração. Mas decidiu ligar para as autoridades e agora restava esperar e não levaria muito tempo, precisava correr.

    CONTINUA...
  • Gatinhos Ambulantes

    Naquela noite chuvosa,repleta de tempestades,Olly não sabia o que ia acontecer.Ele estava sentado no canto do quarto,abraçando os próprios joelhos enquanto escutava os gritos dos pais no andar debaixo.Lágrimas caiam lentamente pelo seu rosto.'Ele é apenas uma criança',gritou a mãe no andar debaixo.Então ele olhou para a janela e viu seu único amigo,Zort.
      Zort era o amigo imaginário de Olly, era a única mentira que tinha necessidade de se tornar verdade.Zort tinha cabelos coloridos,usava roupas pretas,mas a bota era rosa choque,seus olhos eram amarelos,como de um gato e ele tinha bigodes de gato também.
    -Você tinha ido embora-murmurou Olly.
    -Eu sei,me desculpe-disse Zort indo se sentar no canto do quarto junto a Olly.
    -Eu te procurei,te chamei, mas você não veio-Olly disse com as lágrimas escorrendo nas suas bochechas.
    -Eu estava lutando contra piratas do mal-respondeu Zort secando suas lágrimas.
    -Sozinho?-perguntou Olly maravilhado.
    -Sozinho-afirmou Zort,
    -Uau-disse Olly com uma risada.
      O corpo magro e pequeno de Olly se encolheu quando escutou algo se quebrando no andar debaixo.Zort apenas olhou para os olhos chocolates de Olly marejados.
    -Venha-disse Zort se sentando na cama. 
      Olly se deitou na cama e olhou no fundo dos olhos de Zort.
    -Você não vai mas embora,não é?-perguntou com medo.
    -Não,eu não vou mais embora-disse Zort o cobrindo com a coberta.
    -Promete?
    -Prometo.
      Aos poucos os olhos de Olly foram se fechando,apesar dos gritos dos pais.
    -Obrigado por ser meu melhor amigo Zort-Olly disse de olhos fechados.
    -Obrigado por ser o meu Oliver-Zort disse dando um beijo na mão magra do menino.
      Naquela noite, Oliver não vomitou ou sentiu enjoos como quando fazia quimioterapia,e não sentiu dor como quando tomava vacinas experimentais.Ele apenas dormiu tranquilamente.Seus olhos apenas se fecharam sem saber do alivio que seria não viver mais com dor.Zort era para Olly um sopro de alivio,mas a morte seria total alivio. Naquela noite,o último suspiro de Olly foi a última brisa do mundo imaginário de Zort.
  • Gênios

    Alahir encontrou uma lâmpada mágica e, como todos fazem, a esfregou. Dela saiu um Djinn conforme o previsto. Para seu desagrado não haviam desejos, somente um acordo. Os termos eram: em troca de libertar a criatura, ele poderia solicitar um favor mágico. Isso era quase o mesmo que um pedido, por isso Alahir não viu problema em dizer que o Djinn estaria livre. 

    Claro que ele não parou para pensar nas consequências dessa liberdade. Não passou pela cabeça que o tal ser poderia usar mágica para dominar a humanidade. Nem ocorreu que uma força dessa espécie por aí poderia desequilibrar toda nossa natureza. O que comia um Djinn? E se fosse mais do que poderíamos repor? E se estivesse a fim de brincar até perder a graça e depois jogasse o brinquedo fora? Naquele momento só o que importava era tirar vantagem. Alahir ficou desapontado quando pediu para ser rico e o Gênio respondeu que isso não podia, era um desejo. Os números da loteria também estavam fora de cogitação. Seria muito complicado burlar o sistema das bolinhas e isso seria mais do que um favor apenas. A criatura deu uma sugestão simples: disse que poderia fazê-lo viver bem, do jeitinho que estava, até o dia em que acertasse os números. Bastaria que ele continuasse apostando todos os dias.

    Alahir ficou desconfiado, claro. Parecia uma daquelas pegadinhas de Djinns, muito comuns na literatura. Antes de tomar qualquer decisão, ligou para sua esposa. Ela foi incisiva ao dizer que valia muito a pena e que se ele não aceitasse seria um completo idiota. Essa declaração só aumentou sua desconfiança, pois quem ficaria com toda a grana se ele morresse seria ela. Decidiu ligar para seu advogado. Ele falou sobre jurisprudência, embargos e fungibilidade de recursos. Riu, discordou, se indignou e aquiesceu. Deu para tirar pouco proveito da conversa. Alahir agradeceu, mas sentiu que estava na mesma. Resolveu ligar para sua amante. Essa sim era uma mulher espertíssima, e afinal, ele ainda valia mais vivo do que morto.

    A mulher não estava e quem atendeu foi o filho bastardo que Alahir fazia questão de ignorar. Diante da situação, vendo o Gênio impaciente já soltando fumaça pelas narinas, o homem resolveu apelar. Perguntou para o menino mesmo o que ele achava da situação. Apesar de jovem ele respondeu com muita eloquência, dizendo que aceitaria o acordo sem pensar duas vezes. Estatisticamente os números o favoreciam e mesmo que ele morresse logo que acertasse na loteria, a chance era de que ele vivesse milênios antes de receber algum prêmio. Alahir bufou. Tinha o menino por idiota e não estava disposto a escutar conselhos de moleques insolentes. Fez muitos negócios na vida e com certeza saberia reconhecer um dos bons quando o visse. Não era o caso. Dispensou o desapontado Djinn, que voltou indignado à lâmpada onde ficaria por mais mil anos. Bem antes disso, apenas uma década depois, Alahir faleceu de pneumonia sem nunca ter ganho na loteria. Mesmo tendo jogado todo santo dia.
  • Guerreiros das Sombras

    A reunião já se estendia por horas afinco de debate e todos se mantinham concentrados em tudo o que estava sendo falado. Um pequeno detalhe poderia fazer toda a diferença. Até que um estrondo vindo da porta da frente deixou todos alarmados e alguns se colocaram imediatamente em posição de combate. A porta da frente havia sido arrombada e um rapaz careca de pouco mais de vinte anos, surgiu com o corpo de perfil. Três outros rapazes se juntaram a ele.
             - Quem são vocês e o que querem!? – Disse o líder do grupo, um rapaz de pouco mais de vinte anos e com os fios de cabelo espetados.
             - Queremos sangue. – Respondeu o jovem careca, de forma maliciosa.
             - É muita petulância de vocês virem até aqui... Mas foi bom, nos poupou o trabalho de procurá-los.
             O rapaz careca mostrou um pequeno sorriso, deixando em evidência suas presas afiadas.
             - Isso vai mostrar aos outros que nenhum amaldiçoado é páreo para os Amorfs.
             O jovem caçador voltou o olhar para os seus companheiros e em seguida falou.
             - Eu cuido deles sozinho.
             Sem qualquer arma em mãos o jovem caçador se lançou para atacá-los e imediatamente os três vampiros, que acompanhavam o rapaz careca, se lançaram para o confronto. Aos olhos de qualquer um aquela não era uma luta muito justa, mas não para o jovem caçador ou para os seus companheiros, que estavam acostumados a entrar em um confronto sempre em desvantagem.
             As três criaturas o atacavam ao mesmo tempo, obrigando-o a redobrar a atenção para não ser ferido com gravidade. O caçador deu um salto mortal para trás de um dos vampiros e rapidamente sacou uma estaca, que estava presa a cintura, e golpeou a criatura fatalmente. Os outros vampiros lançaram um olhar raivoso e desferiram um ataque duplo contra seu adversário, que conseguiu se defender habilmente. O vampiro mais alto o atacou com um soco, bloqueado pelo guerreiro, em seguida o caçador o segurou pelo braço e o jogou contra a mesa. Um dos caçadores se aproximou da criatura, pegou um pedaço de madeira do chão e desferiu um golpe fatal.
             O único vampiro ainda de pé soltou um curto urro enquanto partia para atacá-lo. Desferiu um soco contra o caçador, atingindo apenas um espaço vazio, em seguida o golpeou com outro soco, atingindo-o na face e fazendo-o dar alguns passos desequilibrados para o lado. O caçador passou as costas da mão no canto da boca, limpando um pequeno filete de sangue e voltou a encará-lo com o olhar raivoso. Ele se lançou para atacá-lo e desferiu uma sucessão de socos contra seu agressor, todos bloqueados pelo vampiro, que em resposta o golpeou na face. O caçador o atingiu com um chute na altura do pescoço jogando-o contra o solo, e rapidamente pegou sua estaca. Saltou sobre o corpo de seu oponente, cravando-a em seu coração.
             O rapaz careca que, junto com os demais, apenas observava o confronto, começou a bater palmas caminhando na direção do caçador. Todos os guerreiros lançaram um olhar curioso para o vampiro, que sorria com a situação.
             - Meus parabéns, você acabou de matar três jovens vampiros que não demonstraram ter tanta serventia. Espero que não esteja cansado, seria uma pena perder toda a diversão. – Olhando-o com sarcasmo.
             O rapaz soltou um assobio estridente e um grupo de vinte vampiros e vampiras adentraram o local, todos armados com espadas e pistolas automáticas. O caçador se juntou aos demais e olhou para o grupo a sua frente, apreensivo. Uma das vampiras, que segurava duas espadas, se aproximou do rapaz careca e as entregou a ele.
             - Que comece a festa. – Com o olhar malicioso.
    Curioso?
  • Humanos - A Retomada (cap.1)

    humanos copia

          Por anos, foi discutida as reais chances de existir vida fora do nosso planeta. Os flagras registrados nunca nos pareceram o suficiente para que pudéssemos acreditar, de fato, na existência alienígena. Talvez, o que chamávamos de tecnologia, não apenas havia nos levado para um rumo diferente, mas também nos cegado, pois nos tornamos incapazes de discernir com clareza o que estava acontecendo a nossa volta. E junto com o passar dos séculos, como uma lenda que tornara-se apenas um leve sussurro, os rumores de vida alienígena foram sendo esquecidos, reduzidos a conto de fadas. Como é de nossa natureza, seguimos dissecando o planeta Terra, usufruindo de todos o seus recursos e sem que percebêssemos, ele estava próximo a dar seu último suspiro. Então, como muito havia se falado a dez vezes cem séculos atrás, eles surgiram.

         Os mais velhos contam velhas histórias sobre brechas que simplesmente abriram-se no ar e as figuras nasceram dali; pavorosas e estranhas, munidas de armas nunca antes vistas e determinadas com sua invasão. Sem que pudessem entender o que estava havendo, objetos com formas diversas surgiram no céu e desceram para dar início ao que alguns chamam hoje de Recolonização. Ouvi dizer também sobre a existência dos grupos extintos que uniram-se para impedir o avanço dos invasores, mas que não resistiram por muito tempo. Grupos esses, que até hoje especula-se ainda existirem, mas nunca passou de um mero boato... As tais Nações. “Fomos dominados!” Assim conta um senhor: “... Não houve escapatória!” Mulheres, homens, crianças, negros e brancos... Todos subjugados como animais e tomados como objeto. Hoje, o planeta Terra não passa de uma grande fazenda, onde nós, humanos, somos identificados por um carimbo micro localizador que nós é dado quando nascemos. Sem nome, somos reconhecidos como Servidores, vivendo em imensos pavilhões conhecidos como Estábulos e existindo única e exclusivamente para suprir as necessidades de nossos colonizadores.

          — Esse velho sempre com essa conversa! – disse o rapaz na fila ao meu lado esquerdo esperando para receber sua higienização. — Nações, diz ele! – soltou um suspiro menosprezando o assunto. — Provavelmente essa coisa nunca existiu! Quem já ouviu falar disso?!

          — Pois, está enganado! – defendeu-se o senhor. — Elas existiram e foram a nossa última chance! – deu uma breve pausa. — E talvez ainda sejam...

         — Acho que está trabalhando demais nos campos, velho! – o outro ainda zombando jogou contra ouvindo a risada contida dos demais. — Eu nasci Servidor, assim como meus pais e meus avós e assim sempre foi até antes deles. – breve pausa. — Isso tudo o que você diz é coisa de sua cabeça... Devaneios por causa da idade! – finalizou antes de adiantar-se e entrar na câmara transparente que logo foi preenchida por vapor onde ele desapareceu.

          Por um instante eu fiquei vago, longe, então ouviu o velho dirigir-se a mim novamente perguntando, na verdade quase afirmando que eu concordava com o Servido que ainda banhava-se na cabine. Eu dei de ombros. A verdade é que para mim pouco importava o que havia acontecido séculos atrás. A única coisa que realmente havia de importante estava a minha frente, meu filho, o que restara de minha falecida companheira.

          — Bons tempos deviam ser aqueles. – o senhor soltou esperando que a câmara a sua frente também abrisse. — Bons tempos. – repetiu. — Já imaginou você poder ter um nome, filho? – agora falava com meu garoto que o olhava curioso. — Maravilhosos, não? – sorriu e então entrou no lavabo a sua frente e também sumiu nu no vapor.

          Meu filho, intrigado com a conversa do senhor questionou-me se aqueles fatos seriam realmente verdade. Os demais, calados, esperando também por sua vez, faziam-se passivos à conversa, mas atentos à resposta. Eu respondi que se aquilo realmente aconteceu, já não faria diferença, e que o que importava de verdade é que estávamos juntos e nada mudaria isso. Dito isso, a passagem abriu-se para que fizéssemos também a nossa higienização.

    “Essa madrugada acordei de um pesadelo. Havia fogo e sangue. Não entendi exatamente o que estava acontecendo, mas fiquei aliviado por ter sido apenas um sonho. Acho que as conversas daquele velho Servidor estão me afetando mais do que eu poderia ter imaginado. Preciso me acalma!. Não seria nada bom que meu filho me visse desse jeito. Sou tudo o que ele tem e não posso me deixar levar por histórias sem fundamento.”

          Antes que a corneta desse seu primeiro toque, eu já estava acordado. Meu filho dormia tranquilamente, mas já era hora de ir para os campos. Como percebi que ele não acordou resolvi despertá-lo antes que viessem intervir. Aos poucos foi abrindo os olhos, mas precisei apressá-lo, pois, ouvi passos se aproximando. Logo em seguida surgiu um Feitor, tão obscuro quanto qualquer outro.

          Por serem responsáveis por nossa vigilância, nós os chamamos de Capatazes e desde que me lembro, não houve se quer, um só Servidor que  conseguiu escapar de sua atenção. Todos os que tentaram coloca-los à prova, não voltaram para o Estábulo.

          Esse, agora em frente a nossa tenda, possuía, como a maioria deles, o rosto animalesco, negro e encoberto por uma espécie de elmo. Trazia com sigo, também, um bastão o qual apontou para dentro de nossa tenta. Rapidamente puxei meu filho para perto de mim e o vigilante manteve-se ereto observando o nosso dormitório. Tive certeza de que não era só apenas impressão minha, ele estava a procura de alguém. Então, repentinamente ele afastou-se e seguiu em frente. Respirei aliviado, e surpreso, percebi que meu filho parecia absurdamente tranquilo.

          — Todo bem? – perguntei buscando uma reação dele, mas nada me disse.

          Logo, ouvimos claramente junto com a confusão que cresceu instantaneamente os berros de um grande número de Servidores. “Coletores! Coletores!”. Meu filho, então, deixou transparecer seu desespero abraçando-se em mim com força. A nossa frente, surgiu como um fantasma pálido envolto por seu manto ainda mais branco, um Coletor e suas Lentes.

          — Não são pra você! – lhe garanti. — Não são! – eu repeti, mas dessa vez para que eu mesmo acreditasse.

          Levei meu filho para o fundo da tenda e o encobri novamente e me sentei o mantendo seguro junto a mim, mas isso não impediu que ele ouvisse os gritos, berros de uma Servidora que, em desespero, não conseguia impedir que levassem sua filha. Seu companheiro, tentando interferir, acabou sendo contido violentamente pelas Lentes.

          — Não são pra você! – voltei a dizer para meu filho. — Não vieram por sua causa. – tentei acalmá-lo.

          — Mas eles virão! – ele respondeu tremendo.

          — Não! Não irão... Só tenho você! – expliquei.

         O sistema de controle populacional é o que garante a ordem nos Estábulos. Quando um casal alcança o numero dois de Servidores-filhos, o mais velho é retirado deles. Eu mesmo quando era garoto, presenciei o momento em que vieram buscar meu irmão mais velho. E assim como meus pais, optei, junto com minha falecida companheira, que evitaríamos ter mais do que um Servidor. Nunca me perguntei para onde são levados. A verdade é sempre evitei especular essa pergunta, muitos de nós sabe que ela tira o sono. “Mas e se vierem?”. Meu filho ainda insistiu. A verdade é que me vi engasgado ao aceitar aquela ideia, mas a verdade era uma só. Eu mataria quem tentasse.

    Confira também.... Meu querido Manequim!
  • Iniciando o pecado

    Por sorte conheci Ângela.
    Era magra, um pouco alta, loura, seus cabelos caiam sobre seus ombros com leves ondulações, era branca, suas bochechas eram rosadas, seu nariz avermelhado e lábios finos com um tom bem claro.
    Era adoravelmente simpática, seu sorriso era bem quadrado, como se fosse uma dentadura. Estava no segundo ano de medicina. Só sabia falar sobre isso.
    Falava como o cheiro hospitalar era viciante. Contava curiosidades sobre o corpo humano. Explicava sobre as partes inúteis do corpo.
    Era engraçada.
    O clima ficou tenso quando começou a falar sobre seu ex. Um cara qualquer. Futuro advogado. Um babaca que queria que ela desistisse da faculdade.
    Eu não me importava com nada que ela dizia.
    Mas queria me importar. Seus olhos claros, verdes ou azuis. Não lembro. Eram tão bonitos, tinham um brilho. Como se a vida dela até aquele ponto fosse tudo perfeito. Mas não era.
    Há alguns meses sua irmã ficará paraplégica num acidente de carro. Algo que me fez sentir mais próximo dela, já que tínhamos isso em comum.
    Seu foco na área, era descobrir um meio de fazer sua irmã voltar a andar.
    Ela tinha fé, mesmo dizendo não acreditar em Deus. Diferente dela, eu tinha uma crença enorme no pai divino. Eu era o escolhido. O filho de Deus.
    Minha avó começou a me levar para a igreja após a morte da minha mãe. Dizia que encontraríamos a paz lá. Encontrei a paz alguns anos depois numa missão divina.
    Ângela me perguntou sobre meu passado. Inventei uma historia, onde eu tinha uma família perfeita, feliz e viva. Contei coisas engraçadas sobre minha mãe. Contei sobre o arroz que ela queimou uma semana antes.
    Tudo mentira. Ângela ria.
    A festa já havia começado. A conversa estava tão boa que nem percebemos.
    Umas trinta pessoas estavam ali. A casa não era grande, tendo apenas um quarto, sala, cozinha e banheiro. Não era muito confortável, os cômodos eram minúsculos. Mas aconchegantes.
    Percebi que Ângela foi conversar com outros amigos. Fico sozinho. Algumas pessoas que passavam por mim, falavam comigo e ofereciam bebidas. Mas recusei. Jamais havia bebido álcool.
    Tentam puxar assunto, mas ignoro-as. Vejo os passos de Ângela, observo aquele sorriso saltar de conversa em conversa. Com a mão direita ela coloca uma mexa do cabelo atrás da orelha. Olha-me e sorri. Então some na multidão.
    A música esta cada vez mais alta. As luzes coloridas fazem minha visão ficar turva. De repente alguém grita ao pé do meu ouvido.
    “Quer ir ao quarto?” – era Ângela, rebolava e bebia uma bebida colorida.
    “Fazer o que?” – Pergunto... Atualmente me envergonho disso.
    Ela se inclina e me responde com um beijo.
    Um beijo de língua, sinto o sabor do álcool, mas não recuo, sinto o calor da sua língua, dança na minha boca.
    Beijo termina. Ela sorri.
    Agarra minha mão me puxa em direção ao quarto. Minúsculo quarto.
    Meu coração estava batendo o mais rápido possível. Ela abre a porta branca e entramos naquele pequeno espaço, com uma cama que tem um abajur na cabeceira, uma arara com diversas roupas espalhadas. Sobre a cama, estava um cara de porte físico bem atlético, junto de uma garota ruiva, totalmente nus.
    Ângela faz sinal para que saiam, foi quando notei, que ela era a dona da casa.
    Os dois obedecem, sem retrucar. Saem e fecham a porta.
    Ângela ri. Começa a dançar.
    Sou virgem. Ela sabe disso. Segura minhas mãos e põe sobre em sua barriga. Estava quente.
    Ainda segurando minhas mãos, sobe devagar sobre aquele seu corpo macio, fazendo com que eu tire sua camiseta. De sutiã preto ela rebola.
    Aquele excesso de informações, misturado com a bagunça que meus hormônios faziam dentro de mim, me deixava meio perdido.
    “O que eu faço?” Pensava frequentemente. Mas Ângela me dava às direções.
    Soltará o sutiã. Aquele belo par de seios do tamanho de maçãs, me fez vidrar ainda mais naquele corpo. Belas maçãs rosadas. Ela continua controlando minhas mãos. Passa elas sobre as maçãs, meu corpo esquenta. Ela mordisca meu lábio e se entrega num beijo estalado. Um beijo forte, com fogo e paixão.
    Ela deita. Olha-me nos olhos.
    Como se meu cérebro tivesse recebido instruções através daquele beijo, ele passa a fazer tudo automaticamente. Passo minha língua naquelas belas maçãs rosadas, desço pela sua barriga e abro seu short. Retiro-o e fico olhando para sua calcinha roxa com lacinho preto.
    Sem pensar duas vezes retiro toda minha roupa, não me importo em ficar nu. Deito sobre aquela garota de seios rosados, ela esta toda nua agora. Faço os movimentos no quadril como se estivesse programado no meu instinto.
    Movimentos repetidos. Corpos quentes.
    Sinto suas unhas arranharem minhas costas. Passo a mão em seu rosto. Em seu cabelo. Em seus braços, peitos. Beijo seu pescoço. Ela me agarra com mais força.
    Acelero o movimento. Ida e volta sem pausa.
    Novamente ela segura minha mão, leva até seu pescoço, o seguro e a beijo. Beijo firme.
    Ida e volta. Vai e vem sem pausa.
    Ela se contorce de prazer. Suas unhas arranham minhas costas, mais e mais. Suas pernas se contraem. Ela geme. Gemido abafado.
    Sinto minhas costas arderem. Seus olhos estão revirados e sua boca aberta.
    Gozo.
    Então foi quando percebi. Ela estava sufocando. Já havia sufocado, estava morrendo. Suas mãos caem sem força sobre a cama.
    Penso em pedir ajuda, mas minha voz não quer sair. Aqueles lábios que me beijavam há pouco tempo atrás estavam arroxeando. Ela não se move. O abajur na cabeceira da cama havia caído por causa do vai e vem.
    Entro em pânico. Corro para o banheiro e vomito. Vomito muito. Sento ao lado do vazo e começo a chorar.
    “O que houve?”
    “O que eu fiz?”
    Essas perguntas varriam minha mente. Eu precisava de ajuda. Ninguém me ajudaria. Minha avó ficaria louca. Choraria sem parar.
    “Você se tornou como sua mãe.” – Diria ela gritando e tentando furar o cerco policial.
    Eu estava sozinho. Ninguém poderia me consolar. Mas no meio daquele choro, tive forças para ficar em pé. Deixo o corpo do meu corpo sobre a pia, enquanto me olho no espelho. Vejo meu reflexo. Aparentava ser bem mais jovem. Cabelos bagunçados, nada de barba e olhos inchados. Aquela imagem me faz rir. Estar totalmente em pânico e não ter nenhuma saída, me fazia rir.
    Rir era a única coisa que poderia me ajudar.
    Penteio o cabelo com um pente que estava ali. Estou mais calmo. Respiro fundo. Mesmo sem entender o que aconteceu. Sorrio para o reflexo e ele me imita.
    Volto para o quarto.
    Ângela ainda esta lá. Nua e linda. A luz reflete sua pele pálida. Deito-me ao seu lado. Aconchego minha cabeça sobre seu ombro.
    “Como isso aconteceu?” – Pergunto a ela.
    “Perdoa-me, ok? Foi sem querer” – Tento me redimir com ela.
    A cubro para que não sinta frio. O som estava bem alto, poderia atrapalhar seu sono.
    Sono profundo.
    Sua boa ainda esta aberta, assim como seus olhos, que mesmo revirados são lindos.
    “O que eu fiz?”
    “o que estou fazendo?”
    Minha mente esta tentando me trazer para a realidade. Matei mesmo aquela garota. Sem motivo algum.
    Matei por ela ser linda? Não.
    Matei por que me apaixonei? Não.
    Não havia explicação, apenas duvidas. Coloco minha roupa e a visto também. Desculpa Ângela. Coloco seu corpo no meio das roupas que estão jogadas na arara. E me despeço. Sinto vontade de beija-la, mas minha sanidade ainda falava comigo. Ainda
  • Ironia

    Ironia é hoje me distrair com as coisas fúteis da vida para ludibriar a morte.
    Desde que me conheço por gente vi-me matando-me a cada dia e a cada ato com as coisas fúteis da vida.
    Procurei tornar-me consciente dessa futilidade que sempre me desviou de mim mesmo.
    Após muita luta e conhecimento, a sabedoria que adquiri me fez ver que deixei de crescer por mim mesmo, e que agora não consigo mais suportar o peso da verdade.
    Ironia é hoje me distrair com as coisas fúteis da vida para ludibriar a morte.
  • Jogada Ao Fogo

    Espero morrer logo.
    Mas seria misericordia demais.
  • Labirinto

    O sonho era bonito. Estava deitado na praia e sentia o sol bater na face direita do seu rosto. Já ardia de tão quente, mas não era uma ardência ruim ou angustiante. Trazia prazer sentir aquilo e o barulho das ondas do mar se quebrando trazia a tão querida paz. Porém, como é por diversas vezes costumeiro nessa vida, o sonho acabou e tudo se tornou um pesadelo. O despertador tocou as 05:30 da manhã, sinal de que ele tinha que sair da sua sonhada praia e começar a se arrumar para ir ao seu odioso trabalho.
    Tudo ocorria exatamente como ele detestava nos inícios da manhã. O seu café estava velho e ele colocou o número errado de colheradas de açúcar. O pão já estava duro, mas não o suficiente para que fosse impossível de comer. A programação da televisão era um lixo e, mesmo que achasse algo bom, não daria tempo de assistir tudo. Era assim todas as manhãs, mas o horário já avisava que não tinha como ser melhor.
    O cotidiano dos seus tormentos se modificou assim que abriu a porta. Tudo estava escuro. Somente por causa de uma luz, que estava distante dele uns 50 metros, era possível perceber que o que levava até ela era um corredor. Ele continuava na beira da porta com a sua chave na mão. Tentava entender o que estava acontecendo. Tentando achar alguma explicação lógica para aquilo. Tentando se convencer de que tudo não passava de um sonho. Tentando não se frustrar. E tentando criar coragem para ir até aquela luz.
    Os seus primeiros passos foram feitos sem muita convicção, mas a curiosidade de saber o que tinha lá fez com que a coragem viesse lentamente e seus passos foram se tornando mais firmes. Chegando lá, percebeu que tinha algo escrito na parede iluminada. “Bem-vindo ao meu labirinto! Direita ou esquerda? Direita.”. O que já era confuso para a sua mente se tornou ainda mais depois dessa frase. A única coisa que tinha convicção de que sabia era o que era um labirinto, mas não sabia de quem era ou de que maneira tinha parado ali já que sabia que não existia nenhum na porta de sua casa quando foi dormir. De qualquer maneira, seguiu para a direita com calma e sem nenhuma coragem.
    As paredes eram brancas e feitas com grandes tijolos de concreto, mas já estavam sujas e com trepadeiras crescendo nelas. Via a sua sombra o acompanhando apressadamente enquanto andava. Não havia luz o suficiente para que uma sombra fosse gerada. Percebeu isso quando um rato passou correndo por ele e nem sequer gerou uma imagem borrada. Quando chegou em uma bifurcação, continuou para a direita assim como ordenara o aviso. Finalmente, viu uma luz no final do corredor em que estava. Seguiu apressadamente, ansioso para saber o que estava escrito. Enquanto andava pensava somente em coisas boas, acreditando que podia ser uma saída ou pelo menos uma explicação do que estava acontecendo.
    O branco da parede começou a ter respingos de vermelho. Os respingos viraram manchas. A sua sombra se ajoelhou em prantos, ele não. Os seus passos estavam mais lentos como se quisessem impedir que os seus olhos vissem uma desgraça. Como se pudessem ver o futuro. E como se antecipassem a dor.
    Antes de ler o que estava escrito, viu o seu gato de estimação, chamado Simão, caído no chão. Ele repousava sobre o próprio sangue retirado por meio de uma degolação. Ainda dava para perceber o rabo com os pelos todos eriçados, mostrando que ele sofreu e sentiu medo em seus últimos minutos de vida. Assim que a sua ficha caiu, o que demorou poucos segundos, sentiu como se uma adaga tivesse sido fincada no peito. Não acreditava que, depois de passar doze anos ao lado do seu gato, ele teria que o perder dessa maneira, sem conseguir entender nem onde está e o porquê de estar lá.
    Quando finalmente conseguiu fazer com que as lágrimas saíssem da frente dos seus olhos, leu o que estava escrito na parede. “Eu disse direita? Esse nunca é um bom caminho, mas fique com esse presente. O reencontro com um animal de estimação é sempre emocionante. Siga ao norte e depois vá para a esquerda.”. Ele decidiu ir para o norte já que essa era a única opção além de voltar, mas viraria a primeira a direita que visse.
    Assim que começou a seguir pelo caminho planejado, viu que a sua sombra estava indo para trás. A sua mente estava perplexa com aquilo que via e isso só aumentou quando viu uma outra passar pela parede logo em seguida. Olhou para os lados e viu mais umas outras três sombras fazendo o caminho contrário. Decidiu ignorá-las, acreditando que esse seria somente outro truque do labirinto para desviá-lo do verdadeiro caminho.
    Como prometeu para si mesmo, virou a primeira a direita. O caminho parecia ser longo já que caminhava durante horas e não chegava a nenhuma parede que o impedisse de continuar. A sua mão já estava muita arranhada por ter que andar encostando na parede uma vez que a iluminação ia diminuindo lentamente e quase imperceptivelmente. Para ele, o labirinto insistia em tentar o convencer a seguir o outro caminho. Via diversas sombras voltando ou entrando em diversas bifurcações que levavam ao norte ou a noroeste, mas continuava firme em sua promessa.
    Finalmente chegou no terceiro aviso. A luz estava fraca e tremula. A escuridão a sua volta não o permitia ler direito. Quando olhou para a sua esquerda, viu diversas sombras parando uma atrás da outra. Não conseguia ter um bom pressentimento daquilo. Assim que a última sombra parou, todas passaram a correr em círculos. As sombras começaram a sair das paredes. Ele sentia o vento delas correndo em volta dele e o impedindo de respirar fundo. O seu coração disparou enquanto gritos estridentes de sofrimento começavam a ensurdecê-lo. Os seus olhos latejavam com o som e suas mãos foram instintivamente para os seus ouvidos, mas os sons já estavam dentro da sua cabeça. A dor que as sombras pareciam sentir invadiram o seu corpo e se concentravam em seu peito. Parecia que todas as angústias, sofrimentos, medos e dores, tanto físicas como emocionais, que as sombras sentiam estavam sendo transferidas para ele. A sua mente não aguentava aquilo e ele implorava para que a morte chegasse logo. O seu sofrimento deve ter durado horas ou pelo menos era isso que o seu cérebro estimava.
    A dor não cessou instantaneamente, mas foi reduzindo aos poucos, igual aconteceu com as luzes enquanto caminhava. No momento em que tudo se tornou suportável, viu que a luz presa na parede estava mais forte e com brilho firme. Leu cada palavra muito lentamente para tentar driblar a dor e impedir que ela não o faça entender a mensagem corretamente. “Você é retardado ou só não passou do maternal quando ensinaram direções? Eu falei esquerda e é melhor seguir as minhas ordens.”. Quando leu a palavra “ordens”, uma raiva subiu a sua cabeça que foi o suficiente para ignorar todo o resto da dor que sentia. Ele adorava desafiar autoridades e achava que, se continuasse para a direita, conseguiria a liberdade, então assim foi como ele fez.
    Ele foi um pouco para o norte e logo virou à direita. A dor misturada com a raiva o deixou com um aspecto de maluco. Às vezes, enquanto caminhava, sorria do nada com algum xingamento aleatório ao labirinto e seu criador como se estivesse prestes a ganhar uma luta difícil. Os seus passos agora eram inegavelmente firmes e sem nenhuma hesitação. Não havia muitas sombras a sua volta, somente três.
    A caminhada até o outro aviso não durou tanto como a anterior, mas ainda assim foi longa. Os seus pés já doíam, principalmente porque os sapatos que usava não eram feitos nem mesmo para caminhadas curtas. Mesmo assim conseguiu chegar ao quarto aviso e, no momento em que estava perto o suficiente para ler, se ajoelhou para que conseguisse descansar um pouco. Na parede estava escrito: “Você está saindo da área de influência dos meus poderes. Parabéns,”. Depois de ter sentido medo, tristeza e dor, esse foi o primeiro aviso que trouxe alguma felicidade e esperança. Pelo menos foi isso o que ele sentiu na primeira parte, mas a vírgula no final da frase o deixou apreensivo. Queria acreditar que era só um descuido numa pichação apressada. E, como quis acreditar dessa forma, assim acreditou e decidiu continuar o seu caminho para direita.
    Não demorou muito para encontrar outra bifurcação na sua tão querida direção. Depois de ter dado uns vinte passos, o caminho que estava atrás dele se fechou e o chão cedeu até a metade dos seus passos. A luz que iluminava aquelas áreas só durava o bastante para que ele visse toda o chão ceder com um estrondo aterrorizador e sumir diante dos seus olhos, se tornando nada além de escuridão. A cada passo que dava para frente, um pouco mais de chão era perdido atrás. Não tinha percebido antes, mas agora só tinha uma única sombra o seguindo, somente a sua.
    Os seus passos estavam tão lentos como os de um velho de noventa anos. Queria correr até o aviso, mas os seus joelhos estavam travados de medo. Queria acreditar que continuava no caminho da saída, porém não conseguia se convencer de que a liberdade tinha um caminho tão amedrontador. Os seus sorrisos desafiadores agora não passavam de um rosto que se segurava para não chorar com as suas pálpebras e lábios tremendo. Toda a força que fazia não foi o suficiente para segurar as suas lágrimas enquanto lia o aviso. “, você cavou a sua própria cova, então agora aceite a sua morte. Nos vemos no inferno.”. No exato segundo em que os seus olhos viram o ponto final, todo o ar a sua volta sumiu. Não havia mais luz no labirinto enquanto ele sufocava até a morte. Em seu sofrimento, os seus olhos pareciam vazios, embora seu coração estivesse cheio de decepção.
  • Leito

    Acorda, vira para o lado, sente o coração parar e pensar feito metal bruto. O corpo desfalesce, levantar é como se todos os musculos tivessem que trabalhar para por de pé um saco de lamuria. 
    Vai para o banheiro e as peças de roupas caem pelas maos. O espelho não reflete mais a cara da angustia. Volta para a cama que é o meu leito.
  • LUNA .

    Olá,meu nome é Kieran Luna Bellini. 
    Tenho a sensação de que te conheço...bom ,preciso te avisar que minha história não é sobre como eu queria morrer nem como foi a minha vida mas como eu te encontro nela.
    Não prometo romance nem acasos,tudo aqui é preciso e real muito real,o mundo que você conhece nunca mais será visto com os mesmos olhos.
     
     
    " -  Apagar as luzes para mim não é uma 
    escolha e sim minha realidade."
     
                               

    PRÓLOGO

     


    Rio de Janeiro,2001

    Apagar as luzes para mim não é uma escolha e sim minha realidade.
    Abri os olhos e vi somente uma imensa escuridão,sem saber ao certo o que tinha acontecido só sentindo meu corpo inerte,frio e molhado ,mas tenho que te contar o que aconteceu antes de você me conhecer aqui.
     
    - Kieran ! Acorda que preciso adiantar as coisas para amanhã . - Camila ,gritou.
     

    Meu nome é Kieran,tenho 8 anos e nesse exato momento te digo que minha melhor parte da vida é quando venho para a casa da minha irmã Camila .
    Na manhã seguinte será o aniversário da nossa tia então era correr contra o tempo para ajeitar tudo e eu amo essa parte!

    - A Triz vai dormir aqui pra nos ajudar ,e os meninos estão te chamando lá fora . - Minha irmã disse,como sempre tudo pra última hora.
    Comecei a organizar as coisas quando vi Tiago e Jean chegando.
    A amizade é uma coisa muito louca,por exemplo, minha amizade com o Tiago começou no alto de um monte de barro em frente a casa da minha irmã,ele me empurrou,me sujei e amizade feita. Desde então nunca mais nos desgrudamos,já o irmão dele Jean foi diferente...não sei se existe amor a primeira vista mas se existe ele foi meu primeiro amor porém meus pés são bem no chão e me contentei com a sua amizade.
    Final da tarde chegou e a fome bateu como sempre,me despedi dos meninos e fui correndo lanchar e esperar a minha prima Triz chegar.
    30 minutos depois ela chegou, era muito bonita,alta,13 anos e cabelos levemente ondulados e que eu saiba já tem lá seus namoradinhos e desde que chegou aqui não desgruda do celular.
    - Oi prima! Você está enorme,uma mocinha! Estava com saudade. - E eu super animada pra brincar e aprender crochê que ela prometeu me ensinar.
    Estava aqui na casa da minha irmã mas meus pensamentos estavam na minha casa,meus pais brigam muito e eu fico muito preocupada,vir pra casa da minha irmã é uma válvula de escape.
    - Ky ,vem jantar e depois disso as duas podem arrumar a cama de vocês na sala,aqui estão os lençóis,travesseiro e passa o repelente que tem muito mosquito- Gritou ,Camila.Ela arrumou tudo e foi deitar.
    Esperei a Triz terminar de tagarelar no celular,eu quando tiver meu namorado acho que não vou falar tanto assim no celular,que tanto papo é esse,prefiro minha tv globinho. Enfim ela desligou o celular,arrumamos as camas e eu só queria uma boa noite de sono e aproveitar o dia seguinte.
    - Boa noite Triz . - me virei e fechei os olhos esperando o sono vir ,quando estava quase pegando no sono senti uma mão passeando no meu corpo e na hora parasilei. A mão foi descendo até chegar no meu bumbum e eu queria gritar a irmã mas não saia nada ,e comecei a sentir muito medo.
    - Você gosta disso?. - Triz! mas porque ela está fazendo isso? Eu quero correr daqui mas não consigo fazer nada a não ser esperar ela terminar e ir dormir.
    Fiquei ali parada de olhos fechados suando frio esperando que ela iria parar mas não,ela continuou,me virou de frente pra ela deitada e tocou minha parte íntima,muito rapidamente apalpava os meus seios como se fosse algo normal e eu permanecia ali travada sem saber o que fazer mas eu sabia que aquilo que ela estava fazendo era errado.
    - Agora não se mexe ,eu já vou terminar- Ela falou e subiu em cima de mim esfregando sua virilha na minha muito rápido segurando meus seios,senti muita ânsia de vômito mas fechei os olhos,senti sua boca encostar na minha e tranquei a boca para não receber beijo,que nojo! Porque ela fez isso?.
    Não sei quanto tempo passou mas eu só pedia muito que terminasse ou que minha irmã escutasse os grunidos dela e viesse me ajudar mas isso não aconteceu ela terminou e eu só consegui falar .
    - Amanhã eu vou contar tudo a minha irmã.
    - E você acha que ela vai acreditar em você? Todos não vão acreditar,minha mãe amanhã vai chegar é a sua também! Acha que a minha tia vai acreditar? Vai ser maior escândalo,alguém pode até morrer! Você quer que sua mãe passe mal?
    O que eu fiz foi porque te amo muito mas não vou fazer de novo,amanhã você vai ficar quieta senão eu vou contar do meu jeito e você quem vai apanhar
    Chorei em silêncio tentando entender o que tinha acontecido e me sentindo muito culpada. Não consegui dormir,apenas cochilei querendo muito que tivesse sido um pesadelo.
    Amanheceu,ela levantou como se nada tivesse acontecido,arrumei os lençóis da cama improvisada,lavei o rosto e tentei encarar a minha irmã pra tentar dizer tudo que tinha acontecido mas não consegui. Todos chegaram,o povo aqui de casa é animado,tudo é churrasco! Segui aquele dia como se não houvesse acontecido nada.
    Tudo correu bem e todos se divertiram,eu brinquei e não consegui dizer nada. A partir desse dia eu nunca mais fui a mesma.

     
    1∆
    SOLAR

    Cansada. Me debrucei na mesa e apoiei a testa no pulso,não tinha dormido direito a noite inteira pensando em como iniciar esse ano.
    Já fazia 3 anos que eu havia me mudado para Portland,minha mãe decidiu vir pra cá já que minhas tias moravam aqui..depois que meu pai faleceu não havia mais motivos para ficar no Brasil.
    Até agora estava em modo automático tentando processar os fatos,a proposta de trabalho da mamãe,o falecimento do papai...esse segundo fato de alguma forma me trazia um certo alívio ,depois de tudo que aconteceu seria um descanso pra todo mundo e particularmente não sentia falta dele. Ele já não morava mais com a gente depois de tentar matar mamãe,vamos dizer que Alexsander precisava urgentemente de um psiquiatra mas  dizia não precisar,acabava que eu e mamãe pagamos o pato juntas e isso me irritava ao ponto de não querer mais ficar na mesma casa ,então fiquei morando em um quartinho nos fundos.
    Observando como ainda não tinha conseguido sair do poço,não me sentia muito eu e me sentia tão só mesmo com pessoas a minha volta,isso me fez lembrar quando conheci Skylar,sorri e voltei a me escorar na mesa pra acompanhar a minha lembrança.
    Eu estava chegando na cidade e não conhecia ninguém,respirei fundo e caminhei até o pátio da escola olhando toda aquela muvuca que me causava fobia,passei por todo mundo o mais rápido que eu pude quando alguém me jogou na parede.
    - Ei! Não olha por anda?. - Falei esfregando meu braço inconscientemente  como se a dor fosse passar. Quando me virei pra ver quem era a maluca que quase arrancou meu braço,me deparo com uma menina de cabelo preto e curto na altura dos ombros,fui descendo o olhar e  cheguei no seu rosto que exibia um sorriso debochado juntamente com uma maquiagem elaborada demais pra ser usada de dia...
    - Não? E tá me olhando assim por que? Vai me beijar? Sei que sou linda e etc mas te manca!
    Fiz um "O" com a boca enquanto a metade do colégio nos observava,ela falou tantas palavras ao mesmo tempo! Como alguém conseguia falar tanto em tão pouco tempo? Não queria confusão logo no meu primeiro dia então resolvi deixar pra lá tratando logo de me resolver com essa estranha.
    - Tudo bem, não está doendo mesmo. A propósito meu nome é Kieran Luna e não,não quero beijar você. - Torci o nariz e fiz uma careta pra tentar descontrair.
    A observei e vi sua carranca imitando algo como uma vilã,ela parecia ser muito teatral. Fiz sinal de que iria continuar meu caminho já que ela não se identificou,quando sinto um catucão.
    - E o meu é Skylar Kanda e sobre me beijar realmente  não deveria,é um vício. Sinto que vamos ser melhores amigas,garota! Unha e carne com toda a certeza,mas sou vegetariana só pra constar.
    Sai rindo da minha lembrança e vendo que a vida não tinha sido tão ingrata pra mim ,de alguma forma pelo menos Skye eu consegui ter na minha vida.
    - Cara,você devia relaxar. - Skyie falou baixinho para o professor não escutar. Tomei um susto saindo dos meus devaneios .
    - Skylar Catherine Kanda se você me assustar mais uma vez eu juro que te mato. -falei dando pequenos tapas no rosto pra tentar acordar.
    - E se você me chamar meu nome todo de novo eu te enterro nos fundos do Forest Park.
    Revirei meus olhos por causa da ameaça da Skyie e tentei me concentrar na aula do Professor Hall ,quem sabe não esqueceria toda aquela história.
    Hoje o dia se arrastou, não pensei que iria fazer tantas amizades mas devo ter um ímã pra gente maluca porque Skylar ,Evrett ,Deon e Mayo não eram normais . Em uma semana estavam me colocando em cada furada...vivendo perigosamente em Seattle. Skye era a pior mas suas intenções eram sinceras porque queria me animar então relevava.
    Estudava em casa e minha mãe achou que seria melhor interação humana para Ky,assim ela disse dando pulinhos pela casa.

    Minha cabeça estava muito pesada então resolvi ir pedalando ao Cook Park,mandei mensagem para mamãe e no grupo de amigos.
    Cheguei ao parque e estranhamente estava vazio então deixei minha bicicleta encostada na árvore e andei até o lago.
    - Você tem sérios problemas ,sabia?. - Disse Skye quase me fazendo cair dentro do lago.
    - E você é outra que tem uns bem gigantes,quer me matar de susto? Por pouco não tomei um banho de graça agora. - Peguei uma pedrinha e joguei no pé dela .
    - Ai! Eu não quero te matar mas você pelo visto...quando vi sua mensagem corri o máximo que eu pude, veio fazer o que aqui nesse breu?
    Cheguei mais perto do lago novamente,na verdade nem sei o que fui fazer ali... então algo na minha cabeça começou a apitar, será que ela tinha razão? Eu estava pensando em me matar?Olhei para a Skyie que estava me olhando preocupada.
    - Eu não sei,acho que só queria ficar pouco sozinha pra pensar. - Balancei os ombros como quem não quer nada,mas não sentia muita segurança no que estava falando.
    - Então dá próxima vez pense no seu quarto amada! Eu não sei se você percebeu mas eu não sou atleta pra ficar correndo a cidade inteira atrás de você,sossega esse seu bumbum senão eu espeto ele. - Falou colocando a mão na cintura e quase me engolindo viva.
    Ri,ela é definitivamente a melhor amiga que tenho nesse momento mas o sorriso não durou muito tempo,tinha que dar um jeito nisso.
    - Você vem? Eu marquei com os meninos na lanchonete Bar da Darla.
    - Pode ir,daqui a pouco chego lá. - Não muito animada pra ir mas se não fosse eles iriam me encher a semana inteira.
    - Ok , então...eu apostei uma cerveja que você iria então não me decepcione.
    - Não acho que você deveria beber , não está cedo demais?. - Levantei a sobrancelha ,não sei como alguém consegue engolir isso.
    - Abri aqui minha mochila por favor?
    - Pra que?. - Abri achando que era algo urgente .
    - Pra saber aonde eu coloquei aqui " Preciso da opinião da Kieran".
    - HA HA HA,nossa você é muito engraçada. - Joguei a mochila longe.
    - Eu sou mesmo e você deveria me valorizar mais,te espero lá. - Ela pegou a mochila e saiu correndo em direção a estrada.
    Esperei ela sumir do meu raio de visão e continuei olhando na direção do lago,algo me chamou atenção...será que estava ficando louca? Eu juro que vi alguma coisa girando no meio do lago. Cheguei mais perto ,era como um imã que puxava cada vez mais pra perto.
    - Oi ,Luna. - dei um pulo correndo pra longe da margem tropeçando em uma pedra.
    - Quem é você?. - Ok! Eu estava falando com...o que era aquilo mesmo?.
    De repente começou passar o filme da minha vida inteira sobre os meus olhos,quando parou exatamente na parte que mais me machucava .
    - Já chega!. -Gritei com todas as minhas forças,senti as lágrimas queimando sobre as minhas bochechas e muita raiva.
    - Eu preciso que você esteja preparada para o que vai acontecer,aliás já está acontecendo só você ainda não percebeu criança,abra os olhos pra saber quem realmente é seu destino.
    Da mesma forma que a voz apareceu ,sumiu e eu fiquei ali no chão tentando decifrar o que tinha acontecido. Tirei a sujeira da roupa em vão e comecei a sair da floresta ,meus amigos devem estar preocupados.


    2∆
    PERSEGUIÇÃO

    Ainda estava atordoada com o que tinha acontecido, não sabia de quem era a voz , aliás queria me internar e usar uma camisa de força urgente. Caminhava em passos lentos até o bar aonde meus amigos me esperavam, entrei já me sentando e pedindo um copo com água bem gelada .
    - Kieran ?. - Deon me chamou com os olhos arregalados.
    - Ky? Mulher ! parece que você viu Pennywise!. - Skyie falou praticamente gritando chamando atenção do bar inteiro.
    Eu deveria ter ido pra casa,minha cabeça está latejando,coloco a mão na testa esfregando tentando me livrar em vão da dor chata que ficou morando ali.
    - Oi Deon e Oi pra você também Skyie, alguém pode pedir um saco de gelo por favor?. - Olhei para a mesa e vi faltando alguém.
    - Bellini está achando que isso aqui é o delivery do McDonald's? Gelo a vontade? Isso é um bar mas vou quebrar esse gelo pra você...nossa essa foi péssima. - Skylar pediu o gelo rindo do trocadilho péssimo que fez ,Skylar sendo Skylar.
    Olhei em volta e vi as pessoas animadas,algumas no canto solitário bebendo sua cerveja outros cantando no karaokê ,hoje definitivamente o clima estava estranho.
    - Aqui,gelo saindo para a garota da Floresta. - Skylar e sua língua grande.
    - Floresta?. - Deon falou virando pra mim preocupado.
    - Sim...eu resolvi dar uma volta no Forest Park.
    - Sozinha? Poderia ter nos chamado, até poderíamos ter ido a praia. - Assenti colocando o saco de gelo na testa .
    - Deon não se preocupe,eu estou bem. - Falei sem ter realmente certeza de que estava bem.
    - Esse papo tá muito down pelo amor,vamos! Estou aqui pra me divertir,anda logo Ky!. - Sky já levantou me puxando para o mini espaço para dança.
    Estávamos dançando,eu tentando dançar. Mayo e Deon já tinham encontrado um par pra dançar enquanto Skye se divertia dançando com Evreet e eu me vi dando passos soltos na pista sozinha quando vi uma menina entrando e então a observei.
    Os cabelos longos e cacheados ,o rosto sereno foi o que pude observar na iluminação do ambiente,tive uma sensação de dejavú...dei mais umas esticadas com as mãos e resolvi ir ao banheiro,quem sabe um pouco de água gelada no roso ajudasse,o dia estava sendo difícil.
    Entrei no banheiro que estava vazio...estranho,fui direto para a torneira lavei o rosto e quando abri os olhos vi uma menina me olhando,continuei o que estava fazendo tentando a ignorar.
    - Oi,sou nova na cidade...estou procurando a casa da minha tia e acabei me perdendo,poderia me ajudar?
    Olhei o rosto dela que me parecia familiar,de repente começou a crescer um sentimento de amizade mas ignorei ,pisquei os olhos sem entender nada mas a respondi.
    - Ah...claro,meu nome é Kieran...e o seu é?
    - Samantha Tala,mas pode me chamar de Samy.
    Ela estava sorrindo pra mim? E porque eu estava com esse sorriso idiota no rosto também?
    - Entendi...meus amigos estão lá fora ,quer me acompanhar? É bom que você já se enturma.
    Saímos do banheiro indo em direção a mesa esperando o pessoal voltar.
    Todo mundo voltou pra mesa desconfiados e curiosos com a garota do meu lado mas não fizeram nenhuma pergunta creio que eu que esperando alguma explicação educadamente...
    - E então? Quem é você?. - Skye falou dando uma golada na décima caneca de cerveja.Olhei pra ela emitindo um sinal de aviso com olhos,mesmo assim ela me ignorou e assentiu para a Samantha se explicar. Respirei fundo e cutuquei a garota pra falar logo.
    - Meu nome é Samantha,estou procurando a casa da minha tia...sou nova na cidade e meio que entrei aqui primeiro porque estou morrendo de fome e também preciso de informações.
    - E aonde entra a gente nessa história?
    - Skye!. - Todos falaram juntos.
    - O que? Só estou perguntando o óbvio. - Quando isso tudo terminasse eu iria dar uns cascudos nessa moça.
    Todos pararam para analisar com muita atenção Samantha que agora estava devorando um hambúrguer com um copo imenso de refrigerante. Esperamos ela terminar de comer pacientemente.
    - Como eu disse, preciso de ajuda para encontrar a casa da minha tia e a Kieran disse que vocês iriam me ajudar.
    Coloquei a mão no rosto já esperando a revolta de todos juntos,realmente procurar casas pela vizinhança não era o melhor programa da tarde.
    - Por mim tudo bem. -Mayo foi o primeiro a se voluntariar,claro que com as suas segundas intenções.
    - Nós também. - Deon e Evreet juntos concordaram só restando uma pessoa...
    - Bom ,não é o meu programa preferido mas se todos vão eu tenho que ir. - Skylar falou como se estivesse sendo levada para a guerra.
    Pagamos a conta,nos despedimos do Alfred o dono do bar e seguimos em direção a rua. Eu estava no automático até agora,não digerindo o que tinha ocorrido mais cedo. Coloquei na minha cabeça que aquilo foi fruto da minha imaginação misturado com meu desgaste emocional.
     - Kieran eu preciso falar com você urgente. - Samy me puxou pra perto da calçada enquanto os outros  do outro lado da rua tentavam descobrir aonde era a casa da tia Haven.

    Olhei de soslaio e vi Mayo,Deon e Evreet concentrados em achar o endereço por meio do gps ,mais a frente observei uma Skylar revoltada dando "pequenos" socos no celular e xingando palavras nada educadas então retornei meu olhar para a Samy. Não ignorando o que passei mais cedo,essa semana estava sendo complicada pra mim e com toda certeza quando colocasse meus pés em casa seria banho e cama.
    - Sim?. - Perguntei desinteressada,estava cansada.
    - Não existe tia Haven. - Ela disse mas eu só consegui arregalar os olhos e comecei a pensar se isso tinha alguma ligação com o que aconteceu mais cedo. Dei dois passados para trás e fechei os punhos involuntariamente.
    - Espera! Me deixa explicar primeiro. - Samy estendeu as mãos em sinal de rendição,então eu decidi manter aquela pequena distância para escutar.
    - Eu juro que quero entender e que seja rápido. - Olhei rapidamente de lado e vi que Skye nos observava mas estava dividida entre ver o que eu fazia e o celular ainda que parecia estar travado.
    - Me expressei errado,ela existe mas eu sei aonde ela mora. Inventei essa história porque eu precisava de um tempo pra falar com você,é sobre mais cedo..lembra?
    - Não do que você está falando,aconteceu exatamente nada. - Sai correndo em direção aos meus amigos deixando ela para trás e nem me atrevi a olhar.
     
  • Luz

    Boa parte das crianças tem medo do escuro e a grande solução para isso é uma luzinha pequena feita em diferentes cores para plugar na tomada. Assim era possível ter uma noite inteira de sono sem achar que tem algum monstro perdido na escuridão. Agora, no auge dos seus 29 anos, Manu não vê mais necessidade de ter essa luzinha já faz tempo, mas em uma noite observou o seu novo repelente elétrico de mosquitos e o pequeno LED vermelho que tinha para indicar que estava ligado. Ele projetava a sua luz para o teto e ela o encarava enquanto se lembrava da sua infância.
    Essa luz formava um círculo vermelho no teto, mas com o interior escuro como se fosse um eclipse solar dentro de sua casa, totalmente privativo. Aquela projeção de uns 30 centímetros de diâmetro era hipnotizante e ela o encarava com fascinação. Era lindo, embora um pouco assustador. Ao mesmo tempo que queria dormir e descansar do longo dia de trabalho, queria ficar ali olhando para cima enquanto viajava em sua mente. Talvez tenha se passado uns dez, vinte minutos ou talvez uma ou duas horas quando ela viu algo na escuridão do interior do halo vermelho. Eram pequenos círculos ovalados de um vermelho bem mais intenso. O topo deles foi lentamente se achatando, se transformando em olhos zangados, e logo abaixo um sorriso com dentes brancos e afiados começou a surgir como se a desejassem. Ela prendeu a respiração durante alguns segundos sem perceber e fechou os olhos com força, espremendo uma pálpebra contra a outra, para não ver aquilo que a sua mente implorava para não ser real. Enquanto isso o seu corpo foi lentamente deixando de sentir a sua cama e as suas mãos foram se fechando para tentar conter o medo. Se não bastasse o frio subindo pela espinha, ela sentia o frio se aproximar como se tivesse algo o empurrando para perto dela. Não aguentando o terror, o seu corpo se virou de lado, os joelhos começaram a ir em direção aos seus seios enquanto os seus braços abraçavam firmemente as pernas. De olhos fechados e em posição fetal, ouviu uma voz velha, que era aguda como unhas arranhando um quadro negro, sussurrando em seus ouvidos.
    — Esqueça o medo e venha brincaar! Não sabe brincaar? Fique traanquila, eu ditarei as regras antes de caada fase começar! A morte pode ser o prêmio ou a punição, vocÊ decide! — e a cada palavra e sílaba arrastada os seus olhos se apertavam mais e os seus braços abraçavam as pernas com mais força — Vaaamos, abra os seus olhos! Eu juuro que você não irá me ver!
    Ela queria acreditar que estava sonhando e que tudo não passava de um pesadelo produzido pelo seu doente subconsciente, mas não importava o quanto se esforçava em seus argumentos, a sua mente sabia que era real. E, por saber que era real, se obrigou a ter coragem e abrir os olhos, mas não sem relutância, é claro. Afinal, se visse uma sombra de algo assustador, a sua reação provavelmente seria fechá-los novamente. Mas não viu nada. Estava tudo completamente escuro, então foi se levantando aos poucos, tomando muito cuidado. Quando finalmente estava totalmente erguida, uma luz apareceu a uns dez metros de distância iluminando um grande pedaço de pedra de cor barrosa. Por não ver onde estava pisando, cada passo é tomado com um enorme cuidado, mas o destino era certo: a grande pedra. A uns três metros de distância, percebeu que tinha algo escrito nela como se garras tivessem arranhado a pedra em uns dois centímetros de profundidade, dando um aspecto sombrio a cada letra. Quando chegou perto o suficiente, percebeu que eram as regras do jogo que a criatura falou no início. Estava escrito: “Caminhe rápido porque na escuridão estarei lá, mas, se quieta ficar, viva continuará!”. Havia um X bem grande cruzando a palavra viva o que gerou um frio na espinha de Manu. Mas não teve tempo para refletir sobre isso porque, no momento em que terminou de ler, a luz que antes iluminava a pedra tinha sumido e a voz da criatura voltou a aparecer.
    — A primeeira faase começou! Siiga o vento, miinha criaança! — a sua voz ia engrossando à medida que falava, chegando a parecer um trovão no final — BOA SORTE! —  Com a explosão da última palavra, duas enormes bolas de fogo, parecendo uma mistura de pássaros com olhos gigantes, passaram dando um rasante em Manu que se lembrou a tempo das regras e se impediu de gritar de medo colocando as mãos na boca enquanto caia de costas no chão.
    Com a respiração acelerada, ficou encarando a direção em que foi o fogo alado, lutando para que o seu medo não enchesse os seus olhos de lágrimas. Quando conseguiu se acalmar um pouco, se levantou e começou a seguir o caminho da bola de fogo, mas, depois de apenas três passos, ela se lembrou das grandes asas do fogo batendo e se deu conta de que o vento delas era direcionado para trás. Já que a regra era seguir o vento, tinha que dar as costas para as imensas bolas de fogo que iluminavam o horizonte e seguir a escuridão.
    Não tinha nada para ver a sua direita, a sua esquerda e nem na sua frente. A sua única alternativa era se afastar silenciosamente da sua única, e ainda assim temida, fonte de luz. Quando até essa luz não era mais visível, começou a ouvir um zumbido distante. Era um ou mais insetos voando em sua direção, ela sabia disso. O zumbido era um som grosso que não se lembrava de ter ouvido em lugar algum, mas que indicava que não eram insetos pequenos. Ela não gostava de insetos, principalmente daqueles que voavam e eram totalmente imprevisíveis em seus movimentos. Sempre que via um perdido em sua casa, tentava matar o mais rápido possível mesmo que sentisse que não era o correto. Era o jeito que ela encontrava de se livrar desse problema, mas que agora não poderia fazer já que matar, seja lá o que estivesse vindo, poderia fazer barulho e violar as regras. Pelo mesmo motivo, teria que evitar correr ou se desesperar, então, nesse meio tempo em que os insetos estavam se aproximando, tentaria se acalmar o máximo possível.
    No momento em que o primeiro zumbido passou pelo seu ouvido, a sua respiração acelerou e teve que segurar a sua mão para que não soltasse um frustrado tapa em seu pescoço tentando acertar o bicho. Ao mesmo tempo, uma outra rocha passou a ser iluminada indicando o destino final dessa fase e as regras da outra. Mas essa pequena fonte de luz repentina também servia para ver como eram os insetos. O monstro que a atormentava queria que ela os visse. E ela viu. Eram aranhas de diferentes tipos, mas a maioria parecia com peludas tarântulas com dois pares de asas de cada lado e um afiado ferrão na sua parte traseira que soltava uma gosma nojenta e verde. Parecia uma junção de abelhas com aranhas que vinham para cima dela como se fosse uma presa fácil. Ao ver o que enfrentava, Manu só conseguiu colocar as mãos ao redor do rosto para diminuir o seu campo de visão enquanto os seus olhos lutam para não ficarem fechados, franzindo todos os músculos da testa.
    Mesmo sentindo uma mistura de medo de ser machucada e nojo daqueles insetos, continuou a caminhar no mesmo ritmo. Reto e constante, os seus passos pareciam ignorar os insetos. Pelo menos até o primeiro pousar em seu ombro, fazendo com ela sentisse todas as oito patas em sua pele e a luta delas para ficarem estáveis enquanto Manu mexia os seus ombros para frente e para trás se esforçando para que aquele monstro minúsculo voltasse para o ar. Mas esse monstro decidiu que não sairia de lá tão fácil e rapidamente fincou o seu ferrão traseiro no ombro dela enquanto as presas da frente mordiam o seu pescoço, causando uma dor causticante. A primeira reação de Manu foi olhar para cima como reflexo da dor e soltar alguns xingamentos em sua mente, mas logo pegou o inseto com a mão e o jogou longe, retirando a força suas presas dela e causando mais dor. O local agora latejava e ardia, dificultando o seu raciocínio. Os seus pés pareciam fazer mais esforço para dar cada passo como se estivesse entrando em um lamaçal, a obrigando a diminuir o ritmo de caminhada. Por causa disso, mais e mais insetos começaram a pousar nela, a ferroando e mordendo incessantemente. Os seus dentes estavam quase se quebrando com a força que fazia para manter a boca fechada e não emitir nem sequer um “aí”. Ela até tentava retirar algumas das aranhas com as mãos, mas eram muitas e os seus músculos se contraíam a cada nova picada. Em uma dessas, não conseguiu se aguentar e caiu no chão, continuando a sua jornada engatinhando enquanto as suas costas se cobriam de aranhas. A sua visão já não condizia com a realidade, vendo a pedra se aproximando e afastando sucessivamente. Ela lutava para continuar se movimentando, levando cada músculo ao seu esforço máximo. Até que a sua panturrilha não aguentou mais e causou uma dolorosa cãibra. Com a sucessão de dores latejantes que pareciam emanar de todo o corpo e subir até a sua mente já tonta, não aguentou mais engatinhar e caiu no chão. Ficou deitada no chão por alguns segundos, talvez tenha até desmaiado, e os insetos começaram a cobrir cada parte do seu corpo, inclusive o rosto. Em um certo momento, quando uma das aranhas mordeu a sua língua, ganhou um pequeno lampejo de força que a permitiu começar a se arrastar, se impulsionando com o braço esquerdo. Ela não sentia mais nada em seu corpo e nem sabia se os insetos continuavam em cima dela, só tentava continuar enquanto ainda estava consciente. E, logo quando estava com a visão completamente turva e sentindo a sua cabeça caindo no chão, levantou o braço direito, encostou em uma rocha e desmaiou.
    — Acoorde, minha querida dama! — sussurrou a criatura despertando pequenos reflexos nas pálpebras de Manu — Você aiinda está viva, mas só por sorte do deestino. Mais alguuns segundos e vocÊ seria minha. Minha, minha, minha, vocÊ será miinha! MAS não sou cruel, vejo que está debiliitada, então deixarei você repousar... Você ficará bem quietinha, sem se mover enquaanto o caminho vem até vocÊ! — Manu, que ainda estava zonza e dolorida, já tinha conseguido ficar de joelhos em meio a escuridão e percebeu que mais uma fase tinha começado quando viu um ponto de luz brilhante no horizonte.
    Ainda respirando com dificuldade, tentando assimilar tudo o que aconteceu e tudo o que ainda irá acontecer, Manu ficou parada enquanto encarava aquele ponto de luz que parecia uma estrela distante, piscando e oscilando. Ela queria coçar os olhos para ver se enxergava melhor, mas entendeu as regras dessa fase. Podia não estar entendendo tudo, mas sabia que não podia se mover muito nem mesmo com sabe se lá qual armadilha a criatura colocar. Alguma coisa iria vir, tinha certeza disso, embora não quisesse pensar muito para não sofrer por antecipação mais do que já estava sofrendo fisicamente. Ia aproveitar esse tempo para se recuperar, mesmo que fosse bem pouco, então fechou os olhos para adiar ao máximo o momento de sofrimento.
    Ela continuava tentando adiar e ignorar tudo quando algo peludo passou pela lateral da sua perna direita. Ela fechou os olhos com mais força quando sentiu algo rápido e pequeno subir em sua coxa com as suas seis pequenas pernas. Mas não conseguiu mantê-los assim quando ouviu um forte bater de asas e, pensando que podia ser novamente as aranhas, teve que ver o que tinha a sua volta. A sua primeira visão foi do chão e teve que segurar o seu corpo para não ter nenhum reflexo. O chão era um tapete de baratas e ratos, não dando pra ver nem sequer um milímetro de terra, piso ou seja lá que estivesse embaixo dela. Os ratos tinham tufos de pelo cinza encardido espalhados pelo seu grande corpo e os seus olhos vermelhos iluminavam os seus enormes dentes. Já as baratas eram marrons, beirando ao preto, com uns 10 centímetros de corpo e que não paravam de mexer as suas antenas enquanto as suas asas ficavam ameaçando voar. Quando finalmente percebeu que algumas lágrimas pareciam estar presas na parte de trás dos seus olhos e que não iriam cair, teve coragem de parar de encarar o movimento aleatório dos ratos e baratas. Então Manu olhou para cima sem movimentar a cabeça e viu a criatura que batia as asas. Era um majestoso e nada assustador beija-flor extremamente colorido, tendo penas que iam do roxo, passavam pelo azul e terminavam no verde. Ela encarava os seus olhos e ele os dela, a deixando imersa nesse pequeno campo de visão como se a hipnotizasse, mas as suas poderosas asas começaram a levá-lo para a direita até sair do campo de visão de Manu. Agora ela só conseguia ouvir o som alto de suas asas batendo bem próximas ao seu ouvido e o seu coração parecia tentar igualar os seus batimentos com a impossível velocidade daquelas asas. A sua respiração ficou curta e acelerada, temendo o que vinha pela frente. E o seu temor se confirmou quando começou a sentir algo longo, fino e levemente úmido entrando e saindo de seu ouvido em uma velocidade assustadora como se estivesse escavando, procurando alguma coisa enquanto causava uma agonia dolorosa. Com as lágrimas caindo dos seus olhos e lutando contra as contrações involuntárias de seu abdómen, forçou os seus olhos a ficarem abertos para tentar se concentrar em alguma outra coisa. Mas, assim que olhou para baixo, começou a ouvir um zumbido agudo em seu ouvido que causava uma forte dor em sua cabeça, tendo que se esforçar para não entrar em posição fetal. No mesmo momento, viu as baratas subindo em seu corpo até a sua cabeça, tentando forçar uma passagem pela sua boca, nariz e olhos. Seu corpo tremia com a dor e agonia quando os ratos começaram a roer as suas pernas, mas Manu continuava sem se mexer mesmo não conseguindo mais ver a que distância estava a luz. O tempo parecia uma eternidade e cada segundo demorava a se passar em meio ao sofrimento. Ela só queria que tudo acabasse e não estar mais nesse pesadelo. Ela só queria...
    — PARABÉNS, vocÊ passou por maais uma fase! Pode se mexer agora! — nesse momento ela simplesmente desabou no chão como se tivesse sem forças enquanto dava longas puxadas de ar — agora só resta mais uuma fase e ela é beem simples! Você não está vendo, maas tem uma porta a sua frente. NÃO abra ela em hipótese alguma! Até loguiinho, minha você!
    Demorou um pouco até que Manu conseguisse sentar e depois finalmente levantar. O seu corpo inteiro doía, as articulações pareciam estar inchadas, o seu ouvido zumbia de maneira incessante e havia sangue escorrendo por todo o seu corpo. O cansaço era grande, mas a curiosidade pela prova ser só uma porta era ainda maior. Por ser a última prova, tinha dúvidas se deveria seguir as regras ou não. Mesmo agora podendo fazer barulho e se mover à vontade, ela ficou olhando para a porta até conseguir se decidir. Durante o seu raciocínio, começou a ouvir em meios aos zumbidos o barulho de alguma coisa correndo a alguns metros de distância. A sua respiração voltou a acelerar e começou a ouvir os seus próprios batimentos quando o som de um rosnado se espalhou pelo ar.
    Podia sentir a criatura se aproximando e a cercando quando se lembrou de que, segundo o monstro que a atormentava, a morte poderia ser o prêmio ou a punição. Talvez por causa disso ou somente por puro instinto, deu uma pequena corrida cambaleante até a porta e começou a puxá-la com toda a sua força, mas não havia nenhum movimento. Os rosnados aumentaram em volume e proximidade, aumentando também o seu desespero. Talvez pela adrenalina que continuava a inundar o seu corpo, outro pensamento pairou sobre a sua cabeça: “não estou dentro, estou fora”. Por isso parou de puxar a porta e colocou o peso todo do seu corpo para empurrá-la. Quase todo o seu corpo passou por ela, mas, quando as suas pernas estavam suspensas no ar, a criatura mordeu a parte interna da coxa direita. A violência do choque fez com que ela girasse no ar enquanto gritava de dor. Tudo ficou em silêncio quando a cabeça de Manu bateu em alguma coisa na escuridão e a fez desmaiar.
    Já era de manhã quando acordou em sua cama. Sentindo todo o seu corpo dolorido, tentou se levantar e ir até um espelho, mas a dor na sua perna direita não permitiu e a levou até o chão. Lá mesmo tirou a sua calça de pijama e viu uma grande ferida já cicatrizada de uns trinta centímetros em formato de dentes bem na parte interior da coxa. O resto do seu corpo estava marcado por picadas em cicatrização e não ouvia mais nada em seu ouvido direito. Manu chorou, chegou a ir ao hospital, mas nada adiantou. Além do constante medo de dormir, essa dor e essas marcas a perseguiram pelo resto de sua vida.
  • Madrugada do dia 23

     Uma das minhas coisas preferidas em você era o seu sorriso, e como constantemente tava rindo por aí e contando piadas sem graças mas que para você faziam total sentido, se eu me recordo bem, a gente costumava conversar bastante sobre vários assuntos, mas eu nunca me expressei pra ti, e eu me arrependo muito disso.
     Eu não tive a oportunidade de te conhecer direito e muito menos de saber das suas raizes, da sua história e de tudo que você passou, afinal, eu nunca realmente perguntei essas coisas que eu julgava tão bobas, e eu me arrependo muito disso.
     Por mais que a gente não soubesse nem o sobrenome um do outro direito, a gente sabia que tinha uma conexão, e você foi uma das poucas pessoas com quem eu relamente tinha interesse em conversar, e podia conversar por horas, a gente nunca chegou a marcar aquele role para falar bobagem e comer porcaria, nem chegou a fumar um cigarro junto num dia chuvoso, e por mais que a gente não tenha tantos momentos, você deixou eu ver seus pensamentos privados, e eu, a única pessoa que lia tudo que você pensava, não movi 1 dedo pra te ajudar, e eu me arrependo muito disso.
     Eu costumava te mostrar minhas músicas preferidas e as que eu acabava de conhecer, mandava minhas fotos fazendo careta, você era especial pra mim, e eu achei que você sempre estaria aqui.
     A culpa que eu sinto por eu não conseguir te ajudar, ou te dizer algumas palavras que poderiam ter mudado a sua indecisão é imensa, e eu sabia muito bem a sua visão sobre a vida, e como ela te dava medo, ela te aparavorava e você não tinha vontade nenhuma de tornar ela sua amiga, e com razão, as coisas não foram facéis pra ti, você comentava comigo sobre seu vazio interno e como via a morte como seu refúgio, eu nunca prestei muita atenção nisso, eu não porque eu nunca prestei atenção no que você dizia, e você me dava sinais de que um dia isso iria acontecer.
     Sim, as vezes eu esquecia de te responder ou mandar uma mensagem, e isso me dói, me dói não ter dado valor ao momentos enquanto eles estavam lá, e você adiou isso por muito tempo, não é? me desculpa.
     Eu sei que agora você encontrou a paz que tanto queria, que acabou toda a sua dor e todas aquelas merdas que você estava sentindo, eu sei que você desejava a morte mais que tudo, e você não via isso como algo ruim, você me dizia "Por que eu nao gostar da vida é ''errado''?, é somente minha opnião, e infelizmente ou felizmente nada vai mudar isso, assim como tem gente que não gosta de chocolate, de lasanha, de ouvir determinado tipo de música, eu não gosto de viver!"
    bem e como eu entendo seu ponto de vista, eu respeito ele, e eu sei que era isso que você queria, e que não se arrepende, mas eu sinto sua falta, me dói ir ver seu visto por ultimo, e ver que foi no dia às 03:29 do dia 23, perto do horário em que você se suicidou, me desculpa não poder te mostrar como a vida também pode ser seu refúgio, eu espero que você encontre a paz que tanto almejava, eu vou lembrar de você para sempre, 777.



    -Dedico esse texto a você Renann, que teve uma passagem tão rápida na minha vida, mas que me marcou de inúmeras formas, eu sei que você está bem agora.

  • MAGIK

  • Metade de Um Segundo

    E quando em uma fração de segundos aquele pensamento passa em minha mente,eu me sinto culpada por imaginar o quão estranhamente prazeroso seria parar de respirar.
  • Momento Final.

    A vontade de gritar é quase sufocante, minha pele molhada pelo suor tendo calafrios constantes. Minha boca cianótica tremendo os lábios como se estivesse com frio. Meus músculos contraídos. Eu não posso gritar, eu não devo gritar. Eu contraio meus olhos, é necessária muita força. Tento distrair minha mente, mas ela teima em ficar focada. Meu estomago dói. Eu não posso gritar, eu não devo gritar. Levo minhas mãos a cabeça e puxo meu cabelo enquanto contraio todo corpo para traz quase formando um arco e me lanço novamente para frente caindo de joelho ao solo. Eu não posso gritar, eu não devo gritar. Mas eu preciso. Abro os olhos e com a visão turva olho para cima. Eu estou me rendendo, desistindo perante a necessidade de gritar, de exorcizar meus demônios. Me controlar é inútil e ainda mais sofrido. Eu não posso gritar, eu não devo gritar. Me deixo cair de vez ao solo e me contraio em posição fetal como se estivesse com cólica.  Lagrimas saem de meu rosto e alguns gemidos escapam de uma respiração dispneica. Eu não aguento mais e já não me lembro porque não posso gritar, porque não devo gritar. Ainda em posição fetal eu abro a boca e puxo o ar para os pulmões. Eu posso gritar, eu devo gritar. Sinto o ar voltando do pulmão, me preparo para o grito, meu corpo estremece. Eu vou gritar. Então eu solto o ar com a força necessária para o grito, mas ele não vem. O desespero toma conta. Não consigo gritar,tento gritar. Mas a vontade de gritar ainda é quase sufocante. Me deito e deixo meu corpo lentamente relaxar. Viro a cabeça e fico com a bochecha no chão, olhando para o frasco de remédio que tomei poucos minutos atrás. Eu não posso me arrepender, Eu não devo me arrepender. Minha respiração fica mais pesada e sinto que a hora chegou. Meu ultimo fôlego. Puxo o ar novamente porem mal da pra encher os pulmões. Minha ultima tentativa. Que patético, que ridículo. Depois da pior parte, desistir. Solto o ar junto com um grito meio abafado. Ninguém deve ter escutado. Em fim, o fim. Meu corpo relaxa, minha visão fica turva, a respiração fica mais pesada. Já não sinto mais nada. Nem sofrimento, nem dor, nem felicidade. Tudo fica escuro. A morte chega…
    Choque. Não!
    Eu quero morrer, eu devo morrer.
    Choque… Sirene… Luzes… Vida.
  • Monstros de fora e de dentro

    Discutir sobre a morte e a crueldade, em todo tempo, importunou muitas pessoas. Não estou exprimindo uma tese de que esses indivíduos não se interessam pela morte, não. Só presumo que se sentem mais confortáveis não falando dela. Porque a morte nos remete ao lado ruim do ser humano, às pessoas que morrem prematuramente e com vitalidade de sobra, mas por uma eventualidade, elas sucumbiram. Eventualidade? Acaso? Lugar errado, no dia errado e na hora errada. Mas é só isso que sentencia a morte? Etnia errada, opção sexual errada e religião errada. O que é infalível para te manter vivo? O que devemos simular para não cessar a vida por obra de algum acaso? Devemos sonegar afeições e o que somos? Manter-se em jaulas, cadeias, prisões, criadas por nós mesmos, graças ao medo de estar tão descoberto nas veredas, mas radiante por ser capaz de continuar sendo quem é?
    E se atuarmos dessa forma, o que faremos com as nossas reflexões sobre as pessoas que escolheram guerrear e morreram por isso? Omitimo-las? Menosprezamos as causas de tanto finamento? Esquecemos que, em um mundo de abundante alimento e água, multidões ainda morrem de fome e sede? Um planeta arquitetado com tantas origens onde ainda se tolera morrer por especismos e fanatismos da raça humana? Ah, abandonar a luta é mais descomplicado... É mais simples suprir o monstro dentro de si e simular condescendência do que aniquilar os que estão lá fora. Admitir que a morte existe e contempla a todos e, se chegou antes do tempo para alguns, foi um acidente... Um triste acaso que perdura em sua mente alguns instantes, até que sustente seu monstro repetidamente e deixe os de fora representar.

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