person_outline



search

morte

  • Canção de ninar

    Levantei bem cedo e vi o sol nascer bem lá no finalzinho do horizonte pelas frestas da janela. Fazia um calor tremendo e eu acordei suando mais do que tampa de marmita, não tinha jeito; era levantar e ir direto para o banho. Peguei roupas limpas, a toalha e um sabonete, o meu sabonete; na nossa casa cada um tinha seu item de higiene, tudo por causa de doença, mamãe morria de medo das tais das bactérias que ela um dia ouviu uma voz grande falar de dentro do rádio.
    Não tinha chuveiro, o banho seria num enorme tonel de madeira, o negócio era enorme mesmo, cabia eu e mais duas ou três pessoas dependendo do tamanho. E ali eu me banhava, relaxei na água e quase adormeci, só não o fiz porque mãezinha aos berros me chamou e pelo susto que tomei quase fiz toda água se esvair pelo chão de terra do quintal.
    De machado na mão minha mãe estendeu a ferramenta para mim e também uma xícara de café que tomei num só gole. Lá em casa cada filho era responsável por uma tarefa, a minha era cortar, recolher e transportar a lenha, sem ela era impossível fazer comida ou esquentar água e banho frio ninguém gostava.
    A floresta era cheia de gigantescas árvores, de pedras grandes e de animais assustadores. Às vezes tinha medo de ir, mas precisava. Chegando lá me deparei com algo dependurado em uma árvore, alguma coisa que girava sem parar, ia e voltava. Parei, forcei a vista tentando ver se conseguia descobrir o que era, mas não dava. Então decidi me aproximar e soltei um grito, meu irmão estava ali, com a corda no pescoço, de sorriso no rosto e de olhos arregalados.
    Corri o mais depressa que pude, chegando a casa minhas pernas tremia, minha respiração era agitada e a minha voz não saia de jeito nenhum. O máximo que fiz foi apontar o dedo para uma direção, sair correndo e fazer mamãe vir atrás de mim. Minha mãe, pobre dela, caiu de joelhos, as mãos puxando o avental para enxugar as lágrimas, na garganta um grito preso que seria solto, no peito uma amargura, um sofrimento e um fim sem explicação. À distância vi dois homens cortarem a corda e colocarem meu irmão já sem vida no chão. Vi também minha mãe embalando seu filho mais velho nos braços, cantando para ele uma canção de ninar e lhe dando um beijo no rosto.
  • Cão Morto

    Muito morto, tanto quanto pode ser. Sim. E mais: Contente.
    Senti uma bofetada no rosto. Ele não, estava morto. Um morto não se assusta com um vivo, muito menos aquele desvivido, bravo. Negaram, abandonaram, maltrataram e por fim, mataram-no. E mesmo assim, permanecia como um monumento anônimo numa rua perdida de uma Curitiba estranha. Olhos escancarados em desafio inconveniente à vida que lhe foi tão custosa, a língua para fora estancando um sorriso macabro.
    Voltando ao golpe. Fui pego de surpresa, mas é redundante, golpes são assim. Eu que, arrogantemente, andava em plena vida nesse mundo de imortais, me virei, dei de cara com a morte. E ela me esbofeteou. Justo. Sem aviso ou mensagem, interrompi sua peça póstuma em ousadia digna de gente. Como quem não quer nada adentrei em sua morada e chutei o trabalho de sua, ironicamente, vida.
    Mas foi ela (a vida) quem primeiro me bateu, a fragrância de milhões e milhões de seres vivos lutando uma batalha infinda pelos restos do cão, excretando compostos dos mais variados e malcheirosos. Desculpa, menti, afinal a vida e a morte são a mesma donzela, e seu tapa era igual. E ele ria, em deboche. Ele? Sim, o cão.
    Porque, fruto do desprezo de milhares de pessoas estava ali, morto mas nunca tão cheio de vida, contra a vontade de todos que empinaram o nariz a ele. Havia vencido. Pela ação de milhões de decompositores cada pedaço de matéria em sua carcaça renasceria, era imortal e isso lhe dava certo contentamento a morte e a vida que teve.
    Um dia, pensei eu afagando o rosto moralmente doído, ele será gente, e empinará o nariz para aqueles que um dia lhe foram irmãos no abandono. Ai eu entendi. Tempos atrás, havia sido cão e, algum dia, amaldiçoei essa raça esnobe e estranha que me negava. Ironicamente, em uso do ciclo interminável da matéria, eu renasci gente e tive a chance também de negar meu passado oculto. Devo tê-la tomado, não lembro, o que torna o pecado ainda pior.
    Ele ria entre moscas e tive pena, por fim. Meu rosto já esfriava, o dele era o próximo. As mil próximas vidas lhe custariam muito mais que essa, ele ria, morto, contente, inocente.
  • Carta de Despedida

    Adeus a todos, principalmente aos que não se importam. Adeus aos que não lerão, aos que fingiram se importar enquanto ainda havia tempo e aos que acharam que se importavam. Adeus aos que por uma pressão biossociológica se viram obrigados a se importar, vocês não têm mais este fardo agora.

    Adeus até mesmo para mim que por pura esperança e ingenuidade fui quem mais se importou. Adeus par ao bom senso que me arremeteu em meia vida para enfim aceitar a triste realidade que a maioria não se importa. Adeus a todos personagens variantes de mim que muitas vezes criei só para que estes pudessem afastar a dura carga de ser eu.

    Bem-vinda covardia, que me impede de criar coragem para dizer o definitivo e verdadeiro adeus, que me prende ao sofrimento e que me ajudar a interpretar o sorriso falso de todos os dias. Covardia ó minha fiel companheira como me agradaria lhe dizer adeus, mas estás em mim tão penetrada que de mim já faz parte.
  • Cascas de Semente

    Era um sábado quando vi nuvens de tempestade se aproximando. Ventos fortes atingiam a cidade em um fim de tarde, e a escuridão que se aproximava estragou o lindo pôr do sol que estava prestes a acontecer. Pássaros cantavam enquanto voltavam para as suas casas em busca de proteção.

    A chuva é boa para diversas pessoas, mas ruim para muitas outras. Infelizmente, não tinha como pensar nessas pessoas quando a chuva estava vindo, afinal não tinha nenhuma delas por perto para me lembrar disso. Ao contrário de boa parte da cidade, estava abrigado quando trovões soavam e raios eram vistos no meio dos relâmpagos. Porém eu ainda podia pensar em algo. Antes dos trovões, quando a tempestade ainda estava para chegar, era possível ver uma árvore da janela da qual eu estava perto. Ela estava carregada de grandes cascas de sementes, a maioria seca, com tons amarronzados, duras e velhas. O vento forte venceu quase todas, exceto duas. Elas não pareciam mais jovens do que as outras, eram simplesmente normais. Estavam no mesmo galho, mas eu não conseguia crer que só sobraram elas. Procurei por um longo tempo, examinando cada parte da árvore, porém não tinha nada além delas.

    Agora, já de volta com os raios e relâmpagos, fiquei me perguntando sobre o porquê de duas e somente essas duas tentarem resistir a uma tempestade mortífera. Elas podiam estar com medo de se soltarem e do que viria depois disso. Esse medo pode ter paralisado elas, impedindo que se juntassem as outras que já estavam no chão. Talvez também quisessem ver mais uma vez a paisagem lá de cima antes de serem jogadas para todos os lados pelo vento forte. Porém há uma outra explicação que particularmente me encanta: as duas cascas de semente, mesmo já estando velhas e terem visto muito isso, queriam apreciar o seu último pôr do sol que ocorreria no dia seguinte, já que este lhes fora surrupiado. Pode ser que, em sua morte, elas só queriam ver o sol sumindo devagar mais uma última vez enquanto uma brisa suave, e não um vento violento, as retirava calmamente de seu galho.

    Essa última hipótese me cativou tanto que de cinco em cinco minutos olhava pela janela para verificar se elas continuavam lá. Não queria fazer isso, lutava contra essa vontade de ficar observando elas para poder me concentrar em outros afazeres, mas simplesmente não conseguia. Percebi, então, que eu estava torcendo pelas lindas cascas de semente. Queria que elas sobrevivessem para que pudessem ver o seu pôr do sol.

    Peguei no sono antes da tempestade terminar e a primeira coisa que fiz quando acordei foi olhar pela janela. Lá estavam elas, as duas grandes sobreviventes. Esperei até o sol começar a dar tchau e me sentei embaixo da árvore para comemorar essa vitória com as cascas de semente. Depois disso, não quis mais olhar pela janela, pois não queria ver a morte das minhas duas heroínas.
     
  • Certezas

    Deveras sou
    sei de onde vim
    e sei para onde vou
    em certezas vivo enfim.
     
    Olhando para cima
    movendo-me a frente
    perfilhando a minha sina
    jamais querendo ser indiferente.
     
    Perscrutando o futuro
    surpreendido pelo presente
    no peito contido um auguro
    de encontrar com efeito o querido ausente.
     
    Buscando sempre a paz
    um sentimento muito precioso
    e que a todos indistintamente apraz
    fluindo suave e silencioso no interior da mente.
     
    Tendo na face o salgado gosto
    que vergastado pelo impetuoso vento
    faz por vezes gerar na pele um terrível tosto
    mas por tantas outras inexprimível e auspicioso alento.
     
    Refletindo e falando
    olhando e, aos trancos, vivendo
    sentindo que aos poucos vou morrendo
    porém confiante, sigo com o coração amando.
     
    Porque quando chegar o ocaso temido
    e ao Redentor forte e onipotente encontrar
    vou sorrir de contente por tudo quanto hei vivido
    na certeza de que a dor e a morte não irão com tudo acabar.

     

  • Coletânea LAWFORD- Terror

    A Aldeia da Morte
    Gostaria de contar-lhes sobre a aventura do capitão Charlie Evans,da Academia Militar Inglesa.Nossa amizade teve início quando partilhávamos o mesmo alojamento na Academia militar de Westpoint,Meu amigo,ao contrário de mim,seguiu uma brilhante carreira nas fileiras da armada inglesa,ao oposto do que se sucedeu-se comigo,que fui convidado a retirar-me de Westpoint devido a minhas freqüentes visitas as cantinas e bodegas que rodeavam o local.
    Mas o que aconteceu comigo é assunto para outra oportunidade.
    A mando do Primeiro ministro Lorde Jonh Ruschel,Evans partiu no dia onze de fevereiro de 1852 do porto de Woolwick,em Londres.Uma cidade naval banhada pelo rio tâmisa.
    A área portuária era extensa,na parte mais afastada do cais mantinha-se ancorado permanentemente uma embarcação de reclusão,onde prisioneiros faziam a limpeza e manutenção de toda  a orla do porto.
    O destino do capitão era uma região distante chamada de Gloucestershire,na nascente do rio Tâmisa.Chegando lá,deveria deslocar-se até a aldeia de Kemble,que ficou conhecida por ter conservado  em suas terras um cemitério pagão anglo-saxão do século passado.
    Lorde Ruschel sabia que o capitão Evans tinha vasto discernimento no que se referia a procedimentos médicos,visto que boa parte de sua permanência em Westpoint,foi  como auxiliar direto do Dr. Maknamara,major e professor na instituição.O motivo de sua jornada até esta remota aldeia seria elucidar a causa de proliferação de uma enfermidade até então desconhecida pela ciência.
    A pedido de Evans,acompanhei sua jornada,o que sabíamos era que  alguns habitantes da aldeia de Kemble apresentavam sinais de demência,erupções na pele,e que após manifestarem os sintomas teriam apenas alguns dias até a morte.
    Nossa equipe que havia saído pelo mar,terminaria sua viagem de pesquisa utilizando quatro coches.Alem de Evans e Eu,vieram dois enfermeiros,seis combatentes e inúmeros equipamentos que o capitão poria em uso para desvendar a estranha enfermidade.
    Vagarosamente os coches adentraram em Kemble.A vila era toda construída por pedras,suas casas,em torno de oitocentas,segundo o que havia me dito Evans,coladas umas as outras formavam um triângulo,sem que por lugar algum se pudesse entrar ou sair da aldeia sem que fosse pelo portão principal.Nas casas não havia nenhuma abertura para o lado de fora da vila,alguns carroções ficavam em frente as casas,enormes bacias eram pendurados nas paredes externas das casas,certamente serviam para banho.Pois a água vinha em carroças com talhas de barro e distribuída a população.Percebi que em algumas casas as trepadeiras repletas de flores amarelas cobriam boa parte da frente e os telhados,isto era,sem dúvida uma bela imagem.  
    Na formação da aldeia,a mais de cem anos,nativos da nova guiné foram trazidos para trabalharem na construção das casas,todas de pedras.Depois de algum tempo,estes nativos foram considerados membros da comunidade,tiveram família,ainda hoje existem descendentes morando no povoado.Certamente havia uma imensa miscigenação de raças e credos naquele local.
    Ao redor da aldeia se podia ver um grande cultivo de hortaliças e uma  plantação de milho.
    Ao avistarem nossa chegada,alguns aldeões reuniram-se na praça central.No centro do povoado havia um palanque,também construído por imensas pedras,que servia,pelo visto,para reunir os habitantes locais.A igreja da vila,a poucos metros do pomposo palanque,tinha um enorme portão estilo romano e uma torre altíssima,que parecia-me um original estilo gótico do século passado.Por este portão caminhou,lentamente até nós,um homem de cabelos brancos,creio que na faixa dos setenta anos,com uma longa batina,ou algo assim,na cor lilás,e um pequeno manto branco sobre os ombros.
    Extraordinariamente alto e delgado,curvava-se muito ao andar,tinha a testa enorme, a boca larga,e os dentes, embora sãos, eram os mais pontiagudos  que jamais vi.
    --- Sejam bem vindos senhores... sou o prelado e conselheiro Samuel Tollins...venho da Abadia de Yorkshire.  Disse o religioso.
    ---Sigam-me até a igreja e poderemos conversar com mais privacidade,pois imagino o motivo de sua visita.Completou. 
    Caminhamos por alguns metros e adentramos na pequena igreja do local,já de chagada pude observar que mesmo sendo uma igreja de origem católica,ou assim me parecia,nenhuma imagem sacra era vista ali.Apenas uma enorme cruz em madeira estava colocada sobre o altar.Fileiras de bancos também em madeira estavam colocados nas laterais do local,pequenas janelas com vidros bastante sujos deixavam entrar um mínimo de luz ao ambiente.
    O prelado Conduziu nosso grupo ao fundo da velha igreja,lá adentramos em uma pequena sala,com uma mesa de madeira escura ao centro e três cadeiras ao seu redor.
    ----sentem  cavalheiros. Disse o pontífice.
    O capitão sentou-se ao meu lado, enquanto nosso anfitrião sentou-se mais distante,no lado oposto da mesa.
    Tollins abriu  uma bolsa de couro que havia sobre a mesa,nela haviam muitas folhas de papel com nomes escritos por ele,era desnecessário dizer que se tratava das inúmeras pessoas já mortas pela tão famigerada doença.
    ---Quais os sintomas desta praga.  Perguntei.
    ---Confesso que não sei como a informação chegou até o Lorde Ruschel,mas são muitos os sintomas. Disse ele...e continuou..
    ---Primeiramente parece haver uma paralisia mental,depois surgem acessos de risos histéricos,a estrutura física vai ficando terrivelmente debilitada e tumores afloram por todo corpo,este é o estado terminal,do início até a morte passam-se apenas 15 dias.
    A lista de pessoas que já haviam morrido pela doença era enorme,mas segundo o prelado,era uma questão de tempo para que tudo voltasse ao normal.
    ---Tem alguma idéia da causa disto? perguntei ao prelado
    ---Creio eu,não ser isto uma obra de Deus,mas sim a soturna sombra do demônio,que encravou neste esquecido lugar suas mais terríveis malignidades.Estou nesta aldeia a dezoito anos,e nunca houve nada igual.
    Era visível a preocupação do prelado com as mortes,mesmo sendo obra de Deus,ou do Diabo,prefiro crer que a ciência vai encontrar a origem de todo este trágico relato,antes que toda aldeia venha a perecer.
    Mas e se fosse um castigo de Deus, pensei eu,por quais pecados ?
    A que mandamentos desobedeceram este povo?
    Para merecerem castigo tão assombroso.
    Após mais alguns detalhes fomos encaminhados a uma casa abandonada,no final da vila.Lá ficaríamos alojados e poderia o capitão instalar seus equipamentos de pesquisa.Nossa missão mostrava-se muito desafiadora,estávamos a frente de algo ainda desconhecido pela ciência,se é que a ciência poderá explicar algo tão terrivelmente cruel.Não sei dizer como, mas tudo ali cheirava a morte,como um veneno,uma praga mais cruel e impiedosa que a própria guerra havia dominado o povoado,creio eu,uma peste que exterminava barbaramente os moradores,e de uma maneira nunca por mim presenciada.
    Enquanto caminhávamos até o local onde por algum tempo,seria nosso laboratório e hospedaria,percebi que no vilarejo não havia hospital,e com certeza também não seria encontrado nenhum médico.Durante nosso trajeto,alguns moradores chagavam as pequenas janelas,e acenavam timidamente.Devo admitir que esta reação gerou inúmeras ponderações em minha mente,estariam eles,depositando em nós a última esperança de livrar-lhes do extermínio completo?
    Ou zombando de nossa presença,pensando não sermos capazes de acabar com as misteriosas mortes?
    Mas qual seria a origem desta pestilenta moléstia,e de onde vem ?
    E de que maneira se espalha vertiginosamente entre os moradores ?
    Pouco depois,já em nossos aposentos e subjugado decerto pela força da viagem,e pela minuciosa incumbência de instalar seu material de pesquisa,o capitão  deixou-se cair sobre uma cadeira.Pensava fazer o mesmo quando um passo rápido ecoou na rua e bateram à porta com violência.Abri apressadamente com o intuito de prevenir nova batida,quando um menino,com olhos arregalados frente a porta falou-me nervosamente...
    ---O prelado os chama com urgência...na capela.
    Já havia chegado a noite,de uma maneira estranha,fúnebre, maléfica.Por algum motivo aquele lugar me dava calafrios.
    Atendemos de pronto ao chamado,quase a correr Evans e eu chegamos a capela,que estava quase totalmente escura,apenas duas pequenas velas serviam de iluminação,estendido ao chão do altar,(que já mencionei anteriormente só tinha uma cruz de madeira,sem nenhuma imagem.)um corpo totalmente coberto por panos.O prelado e mais duas pessoas,um homem bastante velho e uma mulher,creio eu de meia idade, permaneciam ajoelhados junto ao que suponho,seria outra vítima da epidemia.
    ---Aproximem-se senhores.  Disse Tollins
    ---Este é o corpo de Suzzane.Tinha vinte anos,estes são seus pais.
    Os limites que separam a vida e a morte são quando muito sombrios,e imensamente vagos.Eu estava cônscio do horror pavoroso daquela situação. A cena que se oferecia aos meus olhos,embora sem merecer um nome tão teatral,,apresentava um aspeto indescritível de lúgubre desolação e pavor.O corpo envolto em trapos,tinha na cabeça um volume maior de bandalho,como se a conter um sangramento,e uma imensa mancha de sangue denunciava que eu esta certo na minha dedução.
    ---Podemos ver o corpo para fazer algumas análises? Perguntei.
    ---Infelizmente não. Respondeu rapidamente o prelado.
    ---Nosso povo purifica seus mortos e os envolve em panos,para evitar o ataque de maus espíritos.Ele será agora levado ao sepulcro,onde descansara em paz.
    O corpo foi erguido por Tollins,juntamente com os dois participantes do estranho velório e lavado ao fundo da igreja,lá colocaram-no em uma carroça para ser conduzido ao cemitério.Uma velha carroça,atrelada a um magro cavalo.Um homem com uma capa escura e uma longa barba grisalha guiava o carro fúnebre e o funesto cortejo.Na carroça um corpo coberto por trapos sujos,galhos e folhas verdes(existe uma crença que os ramos verdes servem para livrar a alma dos maus espíritos).Os enterros eram sempre a noite,uma lanterna presa na lateral do carroção servia como iluminação pelo penumbrante caminho.Em outro coche,de tamanho menor seguiu tollins,juntamente comigo e Evans.
    ---Precisamos examinar os corpos. Disse Evans ao Prelado....
    ---Caso contrário,de que maneira vamos chegar as causas da doença?  Afirmou.

    Tollins permaneceu olhando fixamente o préstito a nossa frente.
    ---Este povo tem suas crenças cavalheiros,eu não sou o único que não considera o catolicismo a única religião existente no mundo,Deus se manifesta de várias formas...mas o Diabo também.Desafiar os costumes locais seria inflar uma revolta,e já temos problemas demais.Não estamos em Londres,senhores.
    A névoa  foi se tornando mais espessa à minha volta, o que me obrigava,ao longo do caminho,a forçar a visão para ver a frente.A bruma espessa e tão singular, característica da região, estendia- se pesadamente sobre tudo,e era tão densa que não se distinguia o carroção a nossa frente,a não ser pela fraca luz da lanterna.
    O cemitério ficava oito quilometros longe da aldeia,oculto atrás de muros altíssimos de pedras e um enorme portão.Para os moradores locais,a entrada de estranhos era profanar a memória dos mortos,o prelado Samuel era o responsável pelo local.Não havia caixões,os corpos eram envoltos em panos a jogados em covas.não se podia ver o cadáver,nem fazer qualquer tipo de exame pós-mortem.Ao adentrar no horrendo cemitério,mesmo entre a forte neblina podíamos ver  esculpidos nos muros carrancas com chifres,orelhas enormes,olhos malignos e expressões de pavor na face.Era um panteão  de Deuses e Demônios.Nenhuma cruz,nenhuma imagem sacra.Apenas aquela terrível impressão que se esta entrando nos portais do inferno.Sem dúvida havíamos encontrado o cemitério pagão anglo-saxão.Rapidamente o corpo foi colocado em uma cova, a mulher e o velho usando as mãos cobriram  Suzzane totalmente com terra.

    ---Agora dormes a sombra do teu sepulcro.Que a tua sabedoria passe aos teus descendentes.
    Com estas palavras Tollins encerrou a cerimônia,se é que assim posso chamar,e silenciosamente retornamos ao vilarejo.Mesmo sem haver feito nenhum comentário, Evans sabia,que como eu,não estava disposto a aceitar os costumes locais,e deveríamos imediatamente investigar a respeito,mesmo que sigilosamente.Na mesma noite, acompanhado de dois soldados,atrelamos os cavalos e saímos a galope em direção ao local do enterro,lá teríamos nossas respostas,ou pelo menos assim pensava,mas algo de mais terrífico estava por ser descoberto.Um caminho longo,era tão estreita a entrada do desfiladeiro e de tal maneira estava oculta,que parecia inacessível,aumentando a certeza que minha teoria não era nem um pouco disparatada.Havia algo de muito misterioso neste povoado.
    Chegamos ao local e fomos de imediato ao sepulcro de Suzzane,que a poucas horas recebera seu mais novo lar,Evans ordenou aos soldados que retirassem as pás que haviam trazidos em suas montarias,para desenterrarem o corpo.Enquanto a terra era tirada,o local cobriu-se de intenso nevoeiro,era aterrador o que eu sentia naquele momento,uma mistura maligna de medo,pavor e curiosidade invadiu meu corpo.
    Rapidamente o corpo foi retirado e Evans imediatamente foi logo a  região onde deveria estar a cabeça do cadáver,mas o que vimos deixou a todos paralisados,encontramos um rosto disforme,onde deveria haver um cérebro,apenas um enorme buraco,o cérebro fora retirado,quebrando de maneira rudimentar os osso do crânio.Enquanto Evans desenrolava o restante do corpo,era possível verificar feridas enormes.Nem mesmo a peste negra,que a pouco tempo devastara a Europa, deixara tão horrível terror em suas vítimas.
    ---Precisamos investigar mais, vamos abrir outros túmulos.  Disse o capitão.
    E assim foi feito,e a cada corpo a mesma bizarra imagem,o cérebro extirpado e erupções múltiplas.Após devolver os mortos aos seus devidos lugares,retornamos ao vilarejo,ainda um tanto aterrorizados com o que vimos,para colocar em ordem nossos pensamentos.Semelhante a um espelho quebrado,que  multiplica as imagens da dor e da deformidade,ali proliferavam o obscurantismo e a brutalidade.Disto eu não tinha a menor dúvida.Na nossa saída do horrendo ligar não percebemos,mas alguém nos observava.Estávamos a menos de um dia na aldeia,e as incertezas e a incredulidade já tomavam conta de nossos pensamentos.Fatos dignos do mais veraz circo dos horrores,uma terra esquecida por Deus,mas dominada por uma força sinistra e fatal.
    Retornamos aos nossos aposentos,mas eu caminhava de um canto ao outro do quarto,Evans notou minhas mãos trêmulas de maneira quase descontrolada,então puxou de dentro de seu baú de viagem um garrafa de Brandy,e tirando a tampa estendeu sua mão oferecendo-a a mim.
    --Vamos beber e descansar, precisamos por as idéias em ordem,amanhã falaremos com o prelado.  Disse ele.
    É irrelevante dizer que os fatos daquela noite ficaram irremovíveis de minha mente, não poderia ser de outra forma,como fechar os olhos para buscarmos um minuto de calmaria se estava impregnada em nossa mente os momentos apavorantes que passamos.Não demorou muito para que outra batida a porta me fizesse erguer-me rapidamente de minha cama, pensei logo ser o anúncio de outra morte,mas felizmente esta errado.
    ---Senhor,desculpe a hora,mas preciso falar-lhes.
    Estas foram as palavras de Fernando,um dos soldados de Evans quando me viu a porta.Era um homem de grande estatura,pele escura,e a expressão em seu rosto e o adiantado da hora mostravam uma certa urgência na conversa.
    Evans apenas sentou-se em seu leito e falou em voz alta ao soldado..
    ---O que desejas Fernando ? Não pode esperar até amanhecer?
    ---Capitão  Disse o soldado.Creio saber de algo de pode ser um dos motivos para estas tão horríveis mortes.
      A sua declaração fez Evans quase saltar de onde estava e ficar de pé ao lado da porta.
    ---Entre Fernando,parece que temos muito que conversar. Disse ele.
    ---Como sabe,meu capitão...Disse o soldado....Em minha infância fui criado em uma aldeia na Somália,quando era menino fugi escondido em uma caravana de mercadores de peles...fugi para não ser morto por uma peste semelhante a esta.Toda minha família estava doente.
    ---Mas qual a causa desta doença Fernando? Perguntei, antecipando-me ao capitão.
    O Soldado parecia bastante nervoso,continuava de pé á nossa frente,esfregava as mãos de uma maneira quase descomedida.
    ---Meus ancestrais...Continuou ele....Cozinhavam o cérebro de seus familiares após sua morte,na inútil intenção de absorverem seus conhecimentos,porem ao invés de conhecimento,trouxeram a morte.
    As palavras de Fernando foram, para mim e para Evans,como se a sorver de uma só vez um copo da mais pura Vodka Russa.Evans olhou rapidamente para mim,com seus olhos arregalados e incrédulos,enquanto eu recostei-me na porta,que já havia fechado,sem saber qual pensamento antepor em minha mente,já tão confusa.
    ---Não vamos esperar mais...Disse o Capitão...Vamos de imediato falar
     com Tollins.
    Ao sairmos da velha casa, fomos novamente surpreendidos,os habitantes da aldeia com certeza já haviam descoberto nossa visita ao cemitério,e se encaminhavam todos ao palanque da praça.Um estranho e profundo sentimento de hostilidade fez-me sentir quando fomos avistados por eles e rapidamente fomos para a capela,evitando a rua central do vilarejo,usando um estreito e afastado caminho pelas laterais das casas.Estávamos certamente a profanar ou descobrir algo muito mais obscuro que uma simples enfermidade.É certa a afirmação de Novalis quando diz que estamos mais perto de despertar quando sonhamos que sonhamos. Mas posso afirmar que o que passava-se naquele momento era um imenso pesadelo.Ao abrirmos a pesada porta da igreja, Fernando,Evans e eu,percebemos que já estavam a nossa espera.Dispostos nos bancos laterais,os aldeões observavam nossa chagada silenciosamente,o Prelado Tollins estava de pé enfrente ao altar,iluminado por três pequenos lampiões. 
    ---Aproximem-se senhores. Disse ele.
     Aproximamo-nos lentamente do religioso (se assim posso chamá-lo) ao mesmo tempo em que ouvíamos o ruído da porta sendo fechada as nossas costas.Certamente tínhamos a certeza que algo de muito ruim esta prestes a acontecer.
    --- Os senhores desrespeitaram nossos mortos,profanaram seus corpos,deixaram suas almas a mercê do mensageiro das trevas.Colocaram sua ciência acima de nossas tradições e crenças.Devo dizer aos senhores que isto foi sem dúvida,um grande erro.
    Evans aproximou-se do prelado,falando em voz alta...já prevendo algum tipo de represália.

    ---Devo lembrá-lo Prelado,que eu e meus homens estamos a serviço de vossa majestade.
    ---Seus Homens...Disse Tollins,em tom de sarcástico....e continuou
    ---Seus homens,meu capitão,dormem agora o sono eterno,e seus cérebros serão servidos em um banquete a todos,todos menos os senhores,pois também estarão mortos,os senhores estão sozinhos,aquelas pessoas que viram lá fora,estão neste momento destruindo seu laboratório.
    Fernando e Evans desembainharam suas espadas e puseram-se em posição defensiva, em segundos estávamos cercados por homens com facões e foices.Graças a um presente de meu padrinho em Westpoint,Coronel Konrad,tinha comigo um pistola fabricada em aço e madeira com detalhes em prata,e foi com ela que,com um único disparo joguei ao chão um dos três lampiões que estavam sobre o altar.O fogo propagou-se rapidamente atingindo as veste de Tollins,que não conseguiu livrar-se das chamas,a fumaça tomou por completo o infernal local.Naquele momento,o Diabo despejava sua fúria em forma de fogo e sangue.Um pavor indescritível,em um local de deveria ser sagrado.A ouvir gritos enlouquecidos e o ruído de foices e facões a golpearem as espadas de Evans e Fernando,fiz alguns disparos a esmo,sem nada ver a frente,até cair quase desfalecido,com os pulmões repletos de fumaça,e um desespero nunca antes por mim sentido por não poder respirar,acompanhado pelo medo aterrador da morte.Arrastei-me até um púlpito de pedra que ficava sobre o altar,e aos poucos os sons foram ficando mais distantes,e todos os meus sentidos sensivelmente enfraquecidos.Minhas visões eram como vapores que se perdem ao vento.  
    Quando recuperei minha consciência,ainda jogado ao chão do altar e com muita dificuldade de respirar,senti que parte de minhas roupas haviam queimado,minhas mãos e meu rosto pareciam incender devido as queimaduras,o local estava destruído por completo.Com muito esforço,consegui erguer-me,pois não podia apoiar as mãos totalmente deformadas pelo fogo,caminhei entre cadáveres fumegantes até chegar ao que restava do portal,o odor de carne humana queimada era nefando.Suportando toda dor consegui chegar ao portal da saída,e avistei alguns aldeões que permaneciam em frente aos escombros daquele inferno.
    Quando surgi cambaleante sobre as cinzas do portão da demoníaca capela, causei espanto e curiosidade,deveria eu,estar morto,sacrificado em nome de seus ancestrais.Ainda não recobrado da horrenda experiência,mantinha-me sempre de pé no limite de minha resistência,e deveria eu,naquele momento,ostentar aos olhos dos curiosos agitados uns ares de spectro,fantasmagórico,de uma aparição de mau agouro, quando,com o corpo quase a decompor-se pelos ferimentos,perpassei ante eles,em direção ao centro da praça.Enquanto passava entre eles,a multidão abria espaço para o moribundo sobrevivente,um silencio horripilante caiu sobre o vilarejo.
    Caminhei lentamente,até uma de nossas carruagens que estavam atreladas na praça,sem que nenhum aldeão tentasse impedir,com muita dificuldade subi ao coche e parti em meio a escura noite,e sob os olhares daquelas criaturas demoníacas,fugindo aterrorizado por entre a neblina,do lugar que posso chamar de A Aldeia da Morte.   
      
        
      Morte no Nevoeiro
    Estava no inverno de 1848,após sair de Londres pela ferrovia National Rail até o Condado de Doncaster,Dirigi-me até a estalagem próxima a estação,onde  tratei imediatamente de alugar um coche,pois meu destino era a pequena cidade de York,no vale que levava o mesmo nome.Pelas informações que tinha coletado com alguns amigos que conheciam a região,antes de chagar ao Vale eu passaria ao lado do rio Ucre,que acompanha grande parte a estrada,e chegaria a vila de Runswick,onde a peculiaridade são as pequenas casas,perigosamente construídas a beira das falésias(escarpas),misturando beleza e perigo ao local.
    Todas as informações a mim passadas estavam extremamente precisas,e o coche e seu condutor me conduziam ao encontro do meu amigo e prestigiado médico e psicanalista francês,Dr. Frontin T...,segundo o que me havia relatado por carta,meu nobre amigo teria desenvolvido métodos revolucionários para controle da mente,Um deles,a Psicastenia,usava a hipnose individual para controle da histeria.
    Quanto mais distante ficávamos dos vilarejos locais,mais a neblina cobria nosso caminho,que agora já era feito em uma estreita estrada entre os charcos e pântanos,certamente usados pelos agricultores nos cultivos da região.Pela janela do coche,que balançava fortemente devido as condições inóspitas do trajeto,a visão dos charcos,entre o intenso nevoeiro que a tudo cobria no cair da noite, era realmente algo assustador. Depois de atravessarmos  os charcos e a névoa que permanece dia e noite no local,e entre solavancos da carruagem,chegamos ao vale de York,mesmo sendo já escuro devido ao adiantado da hora,quase meia noite,não foi difícil ao cocheiro encontrar na estrada,a estreita  bifurcação que levava a cidade de York e ao Sanatório San Juan,meu destino final,se é que assim posso dizer.
    Meu velho amigo,agora com 65 anos,era diretor da clínica,e desenvolvia métodos não muito convencionais para estudo da mente humana,alem de eletro choques e imersões em água extremamente gelada,ainda incluíam seu conjunto de ferramentas,incisões cirúrgicas para estudo da massa encefálica e é claro,o hipnotismo,motivo de minha visita,pois alentava relevante interesse pela metodologia.
    Enfim,após transpor o gigantesco portão de ferro,onde tinha em sua parte superior ,distinta em letras grandes o nome da instituição,fui recebido pelo meu anfitrião e convidado a conhecer o incomum local.
    A construção era muito antiga,toda em enormes blocos de pedras escuras,um local extremamente grande,mas com apenas dois andares,a ala principal ficava no térreo,sem quartos,com camas colocadas encostadas nas paredes laterais,alguns pacientes permaneciam amarrados as bordas  de ferro de seus leitos,outros perambulavam como sonâmbulos pelo corredor central.Apenas umas poucas janelas deixavam o ar fluir para dentro do degradante local,impregnado com o cheiro pestilento de excrementos humanos. Devo admitir ser aquilo, um hórrido cenário.
    Seguimos nossa caminhada,um tanto espantosa para mim,até o fundo da extensa ala,uma escadaria levar-nos-ia aos porões,lá permanecia, em condições sub-humanas e bestiais,pacientes com um elevado grau de demência,assassinos condenados a morte,encarcerados em minúsculas jaulas,aguardando o momento de,na condição de cobaias humanas,darem sua contribuição,mesmo não sendo espontânea,para a ciência.
    Somente ali,tive consciência da total agonia que a mente humana pode chegar.O extremo da alienação incontrolável. 
    Gentilmente,Frontin conduziu-me até meu quarto,no andar superior da clínica,mas durante a caminhada pelo local,dois pacientes despertaram minha atenção.Um deles já me era conhecido,tratava-se de Robert Roster,um jovem de Swuan Valey,que após matar a própria irmã Catarine Roster,afirma ser atormentado pelo espírito da falecida.O segundo caso é Charlott Dolms,uma jovem,na casa dos seus 25 anos,que segundo o médico,vive a circunvagar e dançar pela clínica,usando um retalhado figurino de bailarina.
    Depois de dois dias,Mesmo bastante concentrado na leitura das anotações sobre os experimentos em Psicastenia,cedidas a mim pelo médico,outros episódios despertaram  minha curiosidade,o fato de haver um cemitério,em uma ribanceira nos fundos do manicômio poderia ser até julgado natural,mas cadáveres eram arrastados para lá diariamente,isto  aguçava minha imaginação.Outra situação inquietante era a noite,quando de minha janela,podia testemunhar o Dr. Frontin,iluminado apenas pela luminescência da lanterna que carregava,abrir o pesado cadeado que enclausurava todos que ali estavam,permitindo a jovem Charlott ,com seu desgastado traje,propalar-se em meio a noite.
    Recordo-me da primeira noite,quando ainda a explorar o local,passando pelo gabinete de Frontin,notei  que Charlott,totalmente despida,dançava freneticamente por toda sala,enquanto o médico admirava a cena recostado em um divã.Naquele momento pensei,quem naquela sala era mais insano.Percebo agora que alguns favores tinham seu preço,até mesmo no mundo irracional dos loucos. 
    Ausentando-me  furtivamente pela ribanceira do campo santo,onde as inúmeras ossadas por mim descobertas eram uma imagem aterradora,tentei por várias noites seguir a paciente predileta do doutrinador de mentes.O seu desregrado trajeto repetia-se a cada noite,em frente a tavernas,na área mais miserável da cidade,até que entre os casebres e populaças,e em meio a odiosa névoa,eu sempre a perdia.Só a reencontrando na manhã seguinte,na clínica.
    Até que em uma sombria noite,após seguir a jovem por logo tempo e novamente perde-la de vista,resolvi tomar outro percurso de retorno,fazendo um trajeto em meio aos charcos.Lá,o nevoeiro era ainda mais intenso,mas para minha profunda surpresa,encontrei Lady Charlott,em uma cena digna da mais implausível lenda animalesca,ajoelhada que estava ao lado corpo de um moribundo mendicante,sugava  ferozmente com seus lábios as golfadas de sangue que  jorravam do pescoço de sua caça.Estava eu,vivenciando naquele mórbido momento,algo que jamais esqueceria.
    Tão demoniacamente estava a sorver sua presa,que creio eu,minha presença não foi por ela notada.O lamaçal provocava sensações de medo e pavor.Afastei-me lentamente até uma boa distancia,sempre em silencio,até por-me a correr.Enquanto corria desesperadamente por entre os pegadiços charcos,não saia de minha mente a imagem da face de Charlott,com as mãos e a face cobertos de sangue,estava eu,aterrorizado.
    Entrei naquela maldita casa de monstros da mesma maneira que saí, furtivamente,fiquei em meu quarto até o amanhecer,ainda incrédulo do que havia presenciado.Ao clarear do dia,informei ao dr. Frontin haver um compromisso inadiável,e sem nada comentar,deixei aquele abismo de trevas.
    Para nunca mais voltar.  
                                                    
                              
     O Palco do Terror 
    A cidade de Mersin,ao sul da Turquia,tem belezas naturais de tirar o fôlego.Por ser uma cidade  as margens do mar do mediterrâneo e também pelo imponente castelo de Korikos,uma construção medieval que fica as margens do mar.Mas de tirar realmente o fôlego é o que irei relatar aos leitores.Fato que me foi descrito por pessoa que não posso nomear neste registro,mas tem de mim toda credibilidade desejável.Mesmo sendo algo que se possa atribuir a alguém da mais astuciosa imaginação,e que jazem a miúde em recantos secretos do pensamento,inacessíveis a compreensão humana.
    Porem devo dizer que tudo o que vivenciamos é real,ao seu modo.Acontecimentos naturais e inevitáveis exageros em que caímos quando relatamos situações cuja influência foi forte e ativa sobre as faculdades da imaginação.Alem do fato de os incidentes a narrar serem de uma natureza tão fantástica,não tendo,necessariamente, outro apoio senão eles próprios.
    Era maio de 1861,e Mersin sendo uma cidade ainda pequena,em plena primavera,se via agitada pela presença do circo dos irmãos Kolberts,artista andarilhos que viajavam por todo pais,e que carregavam a fama de levarem ao locais em que passavam grandes espetáculos.Entre as diversas atrações,um ilusionista chamado Dhed tinha lotação total em sua tenda durante  suas apresentações,usando uma capa de cor avermelhada e sempre acompanhado de sua assistente,a quem ele intitulava ser Norma,a esposa do deus Osíris.No palco,durante suas exibições,é colocado sobre uma pequena mesa uma diminuta estatueta de pedra,que segundo o artista,daria origem ao seu nome.Dhed, é um dos símbolos mais comuns e mais encontrados na mitologia egípcia.É um hieróglifo em forma de pilar que representa estabilidade.É associado a Osíris,o deus egípcio do pós-morte,do submundo e dos mortos.O símbolo é comumente interpretado como sendo a representação de sua coluna vertebral.O pilar de Dhed foi também utilizado como amuleto para os vivos e mortos em tempos remotos.
       O místico mestre das ilusões encantava a todos com seus inúmeros truques.Entre os mais esperados pelo público,alem de espelhos,fumaça,espadas e o brilho das pedrarias de sua capa,estava a façanha de fazer desaparecer objetos e reaparecerem em outros locais.As apresentações se seguiram por doze noites,e após terminar sua última apresentação,Dhead notou que nem todos os expectadores deixaram sua tenda.Cinco homens permaneciam sentados em suas cadeiras,na primeira fila.

    ---Senhores...agradeço a presença,mas o show já terminou. Disse o ilusionista.

    Um indivíduo,muito bem vestido e aparentando mais de cinqüenta anos,com um vasto bigode grisalho ergueu-se  de sua cadeira e aproximou-se do palco,enquanto os demais permaneceram sentados,observando o mágico recolher seus objetos.

    ---Sr. Dhed,creio que na sua última passagem pela cidade de Antalia,uma grande quantia em jóias desapareceram do Antalia Bank,como em um passe de mágica.

    O artista nem por um instante mostrou-se abalado pela acusação do estranho expectador.

    ---O que eu faço são truques de mágica,não roubo bancos senhores!É mera ilusão,que somente seus olhos podem torná-las reais.Seja o que foi que os senhores imaginaram,não passa de ilusão.

    Aquela explicação  um tanto arrogante,de um cinismo incrível,deixou a todos   estarrecidos.Encontravam-se todos diante de uma situação,no mínimo intrigante,na qual o acusado fundamentava sua inocência de modo quase inacreditável,sem cabimento algum.Fazendo o que sabia fazer de melhor,iludir.
    O homem de pé enfrente ao palco,abriu levemente seu paletó,mostrando preso em seu colete  o emblema de metal da policia Turca.

    ---Sou o inspetor Mallet,e creio que o senhor deve me acompanhar,juntamente com a moça a qual chama de esposa de Osíris.Precisamos de uma explicação,mas na delegacia.

    Mesmo com o que disse o inspetor, Dhed permanecia extremamente calmo.

    ---Prezado inspetor,nada possuo,a não ser minhas roupas e minha tenda.Como poderia eu,possuir jóias de grande valor e viver miseravelmente neste circo?

    ---Tenho acompanhado suas apresentações.Disse o inspetor .  E continuou

    ---Parece-me que infelizmente por cada cidade que o senhor passa,misteriosamente objetos valiosos desaparecem sem deixar vestígios,sem nenhuma pista.Já revistamos sua carruagem,e encontramos algumas peças lá.Desta vez o senhor não vai escapar.

    O ilusionista mantendo a mesma serenidade,agachou-se no palco para ficar mais próximo a Mallet.

    --- Existem dias em que gostaríamos de voltar e começar tudo de novo inspetor,mas quem poderia afirmar que se pudéssemos começar de novo não terminaria da mesma forma.Poderíamos dizer que é o destino.O inspetor é um homem justo,por este motivo não vai negar-me um último pedido antes de conduzir-me a delegacia. Gostaria de fazer minha última apresentação,um único número.E somente para os senhores.
    Houve uma breve hesitação por parte do policial,mas recuando até sua cadeira,fez um aceno com a mão sinalizando que concederá sua  derradeira solicitação,e sentou-se novamente.
    ---Cuidado com o que vai fazer Dhed,desta vez estamos preparados.

    ---Que mágica poderia eu fazer para fugir dos senhores?Acho que somos livres para sermos,bons,maus ou indiferentes.penso que o caráter determina o destino inspetor,porem não creio que o resto é predeterminado. É apenas conseqüência.Após terminarmos o número,estaremos aqui mesmos,a sua espera.

    Com esta resposta,o homem das ilusões colocou sua auxiliar de joelhos no palco,e pegando um  sabre que estava sobre a mesa,colocou a lâmina na parte frontal do pescoço da moça.Imediatamente os policiais ergueram-se de suas poltronas
    Mas o ilusionista interveio...

    ---Devo alertá-los que é apenas mais um truque,jamais teria eu,a intenção de ferir minha tão linda assistente. 

    Dizendo isto,o ilusionista com um rápido e certeiro movimento atravessou de um lado ao outro o pescoço da jovem com a afiada lâmina do sabre.Um silêncio mortal caiu sobre a tenda.Até que segurando a mão da jovem,ajudou-a a levantar-se e com um breve movimento de reverencia, agradeceram a  minúscula platéia que os assistia.
    Era com certeza o melhor e mais difícil número de ilusionismos já feito,mas para o desencanto de Dhed,de seus expectadores nenhum aplauso ouviu-se.Permaneciam sentados,imóveis,com suas gargantas cortadas,e suas cabeças jogadas ao chão.    
           
                                             
                                            
            
     O Quadro  Maldito    
             
    Estimulado ao vício por incontáveis meios,fiz também incontáveis amigos ou assim me pareciam,entre as frivolidades da noite Parisiense.Havia entre meus amigos de infortúnio,um Jovem de Yorkshire,com sua estatura extremamente pequena,mas de um talento impar para pintura,Henry de Toulouse,que dedicava seu tempo a pintura que ele mesmo denominava de pós-impressionista.Em uma das noites de devaneios em que o absinto misturado a conhaque e gelo batido,que batizamos de  coquetel terremoto, conduzia-nos a incontroláveis alucinações  indescretiveis,Henry regozija-se a beber com os demais,enquanto eu me vi subitamente atraído pela beleza de uma das inúmeras mulheres que frequentavam o Bataclâm.Emily era seu nome,ou pelo menos  foi o que disse-me quando  aproximei-me e fiz minha apresentação a ela,Impossível com palavras descrever a beleza da encantadora dama.Porem algo mais deixara-me intrigado na alegre acompanhante,tinha eu,a vaga impressão de já ter visto aquele lindo sorriso em outra ocasião,ou talvez em meus mais intensos e perturbadores sonhos.E este pensamento  inquietava-me. Não poderia definir melhor a sensação que me dominou,se não dizendo que me era difícil  libertar-me da idéia de já haver conhecido a pessoa que se encontrava  diante de mim,em alguma época muito longínqua,em algum ponto do passado,mesmo que infinitamente distante.
    Minha natureza explodiu em uma breve confusão,trazendo a mente imagens já a muito esquecidas,com um certo temor  e na  louca embriaguez de minhas  devassidões  calquei  os pés nas mais vulgares lembranças.Encontrava-me agora,com infinitos motivos para duvidar do testemunho de meus próprios sentidos.Mas  a debilidade do vício  deixa- nos na terrível sombra cinza de qualquer recordação por mais irregular que possa ser,trazendo-nos uma confusão de fracos prazeres e desgostos fantasmagóricos.Mas porque envolver-me em pensamentos dispersos,se na minha solitária vida,uma luz brilha com intensa magia e jovialidade.
    Enquanto meu pequeno amigo tinha sua atenção direcionada as bailarinas que rodeavam nossa mesa,as quais ele pacientemente reproduzia em forma de arte através de suas pinturas a óleo,o anjo,ou demônio,que estava a meu lado fazia-me entender,através de seus lindos lábios,que compartilhávamos diversas predileções,fato este,que devo dizer,não era muito comum para mim.Visto que tinha eu vícios em demasia,e não havia me relacionada com nenhuma pretendente depois da morte de minha esposa,a bastante tempo. 
    Mas afinal de onde teria vindo,de que passado nebuloso teria ela voltado,de qual vida passada,se é que tenho alguma,surgiu este manto de candura.Durante toda noite foi-me presenteado momentos de intensa alegria,felicidade,sentimentos estes,que até então pensara não mais existir em minha alma cansada e fracassada.Ao amanhecer,inebriado pela noite inesquecível na companhia da agradável dama,tratei de despedir-me da maneira mais formal possível,beijando-lhe as mãos,conduzindo-a até o coche que a levaria ao seu destino,local este que ela não  revelou,por mais insistentes que fossem minhas tentativas de descobrir em qual vale iluminado esta magnífica fada se escondia.
    Feito isto,e ainda sobe o forte efeito do absinto,que ingeri toda noite sem medir conseqüências,causando-me uma tontura,que confesso,quase me impossibilitava de andar, e do ópiun que chegou até mim pelas mãos do amigo Henry,mistura diabólica que me lavava e histeria e ao delírio insano de sonhos irreais,direcionei-me para minha casa,a qual cheguei depois de perambular perdido pela noite londrina.Agarrando-me ao velho corrimão de madeira  que levara ao primeiro andar do chalé,onde tencionava jogar-me na cama como um desfalecido,quando,não sei bem dizer porque,um quadro,entre muitos,pendurado na parede subindo a escada,chamou-me a atenção em particular.
    Aproximado- me de tal maneira,quase encostando o rosto no quadro,vi ali,pelas luzes dos pequenos lampiões,uma pintura que,a princípio,me tinha passado despercebida.Era o retrato de uma Linda Jovem já amadurecida,quase mulher.Direcionei ao quadro um olhar rápido e fechei os olhos.Aquele rosto me era deveras familiar. 
    Ao princípio eu próprio não soube por quê.Mas enquanto mantinha as pálpebras fechadas,analisei rapidamente a causa que me obrigara a fechá-las assim.Fora um movimento voluntário para ganhar tempo e para pensar,para me certificar de que a vista não me enganara,para acalmar e preparar o espírito para uma contemplação mais a frio e mais segura.Ao fim de alguns instantes,olhei de novo fixamente para o quadro.
    Não podia duvidar, mesmo que quisesse,de que via então com toda a nitidez, pois a luz que vinha das fracas lamparinas laterais elucidavam o espanto e o devaneio de que os meus sentidos estavam possuídos,e chamara-me num instante à vida real.
    Na vasta escadaria da casa que herdara de meus pais,havia inúmeros retratos pintados a óleo,representando uma descendência decadente e recheada de escândalos.
    Um pavor descomunal,mesclado com o efeito das extravagâncias daquela noite me fizera cair de joelhos perante o maldito retrato,de alguém que a morte já tinha a muito carregado,com certeza para o inferno.Na parte inferior da quadro estava gravado em uma pequena placa de metal,já quase ilegível pelo tempo,o nome de sua modelo,
    que inacreditavelmente me fizera companhia por toda aquela noite...
    * Emily Elisabeth Crosec.*
                                                      
                                           
    O Protetor
     Romênia -  1885
    Eu permaneci imóvel,no canto do quarto,em completo silêncio,a sete dias era meu provisório local de permanência.Eu estava no vilarejo de Tarzem,Zalau,na Romênia,ao pé do monte Moldoveanu.Aqui a miséria e o abandono era irremediavelmente mortal.Um lugar que eu julgava  esquecido por Deus.Mas estava muito enganado.
    Em uma noite fria de inverno,a neblina que cobria o vilarejo era o ambiente ideal para que o mal se fizesse presente.E exatamente por isto eu estava lá.A carruagem de cor vermelha,com o símbolo da igreja parou em frente a velha casa da família Serbav.Dela desceu lentamente o padre Guilhermo,já havíamos nos encontrado em outras ocasiões,guardávamos boas e más recordações destes encontros.Sempre trazendo sua maleta e com sua casúla em veludo vermelho(talvez para combinar com a carruagem)  e uma capa de estofo branco.Uma estola na cor lilás com símbolo sagrado cobria-lhe os ombros.Era um homem velho,mas de muita coragem,eu até me arriscaria a dizer que admirava sua fé inabalável.
    Logo ao entrar na casa,que estava quase em ruínas,pressentiu minha presença mas não se deteve por ela,havia um forte odor de enxofre no ar,e o silêncio que vinha da noite lá fora,era assustador,apenas o barulho de seus passos era ouvido.Mas Guilhermo sabia da sua missão naquele local,o exorcismo.
    No cristianismo,exorcismo (do grego exorkismós,"ato de fazer jurar",pelo latim exorcismu)é a cerimônia que visa esconjurar os espíritos maus,forçando-os a deixar os corpos possessos ou dominar sua influência sobre pessoas,objetos, situações ou lugares.Quando objetiva a expulsão de demônios,chama-se Exorcismo Solene e deve fazer-se de acordo com fórmulas consagradas,que incluem aspersão de água benta,imposição das mãos,conjurações,sinais da cruz,recitação de orações,salmos, cânticos,etc.Mas nem sempre funcionam.Além disso,o ritual católico do exorcismo pode ser executado por sacerdotes somente quando são expressamente autorizados pelo bispo.Era o caso do padre Guilhermo.
    Na porta do quarto apenas uma fina cortina na cor azul,no fundo do imundo cômodo uma cama de ferro estava colocada no canto mais escuro,pois somente a fraca luz de um lampião servia de iluminação ao local.Ao lado da cama,uma cadeira acomodava uma velha senhora,que segurava apreensivamente um rosário entre os dedos.Jogados embaixo da cama vários pedaços de alho e galhos de ervas.Superstições sem sentido para tentar conter uma força para eles desconhecida.Eu permanecia distante,apenas observando o que viria a seguir.Ainda não era o momento de intervir.Na cama estava Gustav,um menino de apenas nove anos,mas que já passava por terríveis tormentos psicológicos,e havia uma razão para tudo isto.Horrorizado pelo medo de seus próprios demônios,pelos delírios de sua mente transtornada.A abominação no espelho,o lado maligno do ser humano,sua pobre e inocente alma estava em jogo,entre o céu e o inferno.Seus braços e pernas estavam grosseiramente amarrados aos lastros da cama,com retalhos de tecidos.Guilhermo largou sua maleta aos pés da Cama e observou o menino,o jovem estava bastante desfigurado,uma magreza quase cadavérica,seus pulsos e tornozelos bastante machucados pelas amarras,olhos arregalados,e um suor que molhava toda sua surrada vestimenta.Mas ainda estava consciente.

    ---Padre,ajude-me. Disse o menino

    ---Diga o que sentes,o senhor esta contigo meu filho ? Perguntou o padre

    ---Dói todo corpo...algo ruim esta em mim. Respondeu Gustav.

    ---O senhor esta contigo..ele te ajudará,te livrará deste mal. Disse Guilhermo.

    Sabendo que minha presença naquele momento certamente poderia atrapalhar seu trabalho,Guilhermo motivou-se ainda mais para provar a força de seu mestre.E é neste momento que os cavaleiros do bem e do mal exibem suas armas.A sempre a necessidade de separar a luz das trevas,pois as duas estão juntas na mente,no corpo e na alma.
    O exorcismo católico inicia-se com a expressão latina"Adjure te, spiritus nequissime, per Deum omnipotentem"(eu te ordeno, espírito maligno, pelo Deus Todo-Poderoso).E foi exatamente o que ele fez,retirando de dentro da maleta um vidro com óleo,aspergiu sobre o corpo do menino,em seguida com seu livro santo aberto,proferiu as palavras e teve início,naquele local de miséria e dor,mais uma eterna luta em busca de almas.
    A mão esquerda de Guilhermo segurou fortemente a cabeça do menino,enquanto orava fervorosamente pela salvação da alma daquela criança.Aproximei-me lentamente e fiquei a cabeceira da cama,era um momento de extrema tenção.Era o momento derradeiro.O menino ergueu seus olhos em minha direção,certamente conseguia ver-me parado a sua cabeceira,e isto deixou-o apavorado.  
    A avó de gustav permanecia sentada ao lado da cama,seus olhos cerrados e o rosário entre os dedos mostravam que ela estava em profunda oração pelo neto.Subitamente o menino começou a grunhir e debater-se como um animal,de sua boca golfadas de sangue eram lançadas sobre a cama,atingindo a capa branca de Guilhermo,entre gritos e lágrimas,seus dentes foram sendo cuspidos juntamente com o sangue.Somente as amarras poderiam conter-lhe,tamanha era sua fúria naquele momento.A fera estava surgindo,ela é parte humana,parte caçador,parte demônio.Quando se passa do limite da compreensão humana,qualquer coisa pode acontecer,os sonhos se tornam terríveis  pesadelos,e os pesadelos nossa mais cruel realidade.Um vento forte tomou o local,como se em instantes a uma tempestade estivéssemos expostos.Objetos começaram a voar pelo quarto,tocados pela força do vendaval.Era a luta pelo poder,pela alma de Gustav.Os cavaleiros estavam frente a frente.
    O animal que havia dentro dele urrava raivosamente,era a fera mostrando seu poder.O mal havia finalmente possuído sua alma,o que esta no inferno não é humano,não é inocente,nada vive nele,alem do medo e do ódio.A hora derradeira havia chegado.Aproximei-me mais da cama,pretendia tocar a cabeça do menino,este era o momento para fazer isto,a fera seria solta.Mas Guilhermo,pressentindo  o que poderia acontecer,colocando seu crucifixo junto ao peito do garoto,jogou-se sobre ele, abraçando-o.Um grito  igual a um animal mortalmente ferido saiu da boca do menino e ecoou no quarto,que aos poucos foi ficando em silêncio,a tempestade cessou da mesma maneira inesperada como começou.

    ---Filho...estas livre. Disse o padre

    ---Eu estou bem! Disse o menino,ainda chorando

    Guilhermo permaneceu abraçado a Gustav,ele estava liberto.Afaste-me imediatamente do local,pois mais uma alma estava em minhas mãos e foi perdida,salva pelo Protetor.   
                                                *********
    As criaturas angélicas estão presentes ao longo de toda a história da salvação: umas permanecem ao serviço do desígnio divino e prestam continuamente a sua proteção ao mistério da Igreja;outras, decaídas da sua dignidade,e chamadas diabólicas,opõem-se a Deus e à sua vontade salvífica e à obra redentora de Cristo e esforçam-se por associar o homem à sua rebelião contra Deus.
    ( do livro Celebração do Exorcismo-Concílio Ecumênico- Vaticano )
  • Conto de matizes

    Certo dia voltando do trabalho, senti uma mão no meu ombro. A mão envolveu meu pescoço e disse: eu sou ele, ele, aquele que aparece em teus sonhos. Fiquei assustado, olhei, não tinha ninguém, exceto um sujeito de barba feita com as mãos no bolso e olhando para o chão. Pensei ‘’ não seria Daniel, o cara do bar? ’’, olhei novamente e não vi ninguém, exceto João, meu vizinho, contando as moedas do troco.

    Minha cabeça pesou e suspirei. A mão envolvia meu corpo e deslizava descaradamente, obscena, traçando um caminho oblíquo como numa dança de balé.
    Olhei em volta, não havia ninguém, exceto Carlos, que conheci numa festa na sexta passada.

    Meu coração acelera e eu imagino estar vivendo num mundo paralelo, ‘’mas que loucura’’, penso, mas aí me vem a lembrança de estar sozinho e que essas paredes do meu quarto cor de creme reproduzem esse prazer que eu já não sinto mais.
    Talvez um dia eu tenha magoado você, te assustado e você e suas mãos fugiram de mim, hoje eu já não lembro mais. Talvez sejam as mãos de outro homem, mas eu estremeço e é o mesmo toque. Essas paredes estão me enlouquecendo, agora eu as vejo borrifadas de vermelho. Isso é sangue? Não, eu vejo você caído, encostado nela, você manchou o mundo que eu conhecia e agora suas mãos frias estão tocando meu corpo.
  • Conversando Com O Silêncio

    Conversamos por horas, sem dizer apenas uma palavra.
    As pessoas estão muito ocupadas em suas vidas barulhentas para escutar o que o silêncio tem a dizer.
    Se tornaram adversários de um aliado valioso, o tempo.
    Em uma competição que não parece ter vencedores.
    Elas estão perdidas…
    Estão apenas tentando fazer algum sentido...
    Os fracos estão aí para justificar os fortes.
    Mas ainda há esperança, talvez, apenas talvez você possa ser um dos escolhidos.
    Um dos abençoados por Deus.
    O resto de nós apenas rezamos para que o amanhã seja melhor do que o ontem costumava ser.
    Enquanto isso o silêncio se mantém mudo.
    Apenas aguardando o seu momento, o momento de finalmente ser escutado.
  • Crime na favela

     
    E lá estava o corpo estirado
    espaldas têm perfuradas
    Chão de sangue encharcado
    Respostas a serem encontradas.
     
    Na investigação nenhuma pista 
    Tudo vago resta sem solução
    uma testemunha à vista
    Vem a cargo uma resposta então
     
    A vítima quem havia pensado
    Não era só vítima mas também culpado
    pois se dissera na comunidade
    teria feito muita maldade.
     
    A autoridade então deliberou
    Se encontre sim o increpado 
    Pois quem debalde atirou
    Deve ser por fim julgado.
     
    Não se justiça gente com a própria mão
    O Estado forte é para tal mais preparado
    entidade mesma que fugindo a obrigação
    a comunidade à sorte havia legado.
     
    Encontrar o autor a polícia consegue
    na delegacia o caso desfeito é concluso
    o vil criminoso finalmente feito ocluso
    E na favela a sevícia da morte prossegue.
  • Dama de Sangue

    Dama de sangue
    sua mestre não é uma boa pessoa
    Dama de sangue
    juraste-me a felicidade!

    Agora me trancas neste buraco
    e toma conta de minha alma
    como ainda te amo
    quando me fazes tanto sofres?

    Dama de sangue
    mentistes para mim
    disseste-me que me salvaria
    e poste-me nessa tumba

    Agora há 7 palmos da terra
    entendo o que me dizias
    quando me mataste
    sua mestre levou minha alma
    Mas você
    Dama de sangue
    estarás junto a mim eternamente
    Ligados pelo sangue da aclamada vitória
  • DAS MESMAS VEZES

    A voz abriu a janela com furor e pudor, como se não quisesse fazer barulho. Porém, com o impacto insano dos próprios gestos embaralhados, desconcertados e desengonçados fez-se o estrondo sem querer. Havia o intuito de perturbar, de estilhaçar e por fim de fazer não viver. A voz sugava a alma da moça deitada na cama, quase que desfalecida. A voz que não se importava com a tortura agoniante dos ossos que se contorciam rapidamente em uma expulsão do próprio espírito. A voz que não era dos cabelos negros que estavam embalando o travesseiro em um abraço meio "graceiro", benéfico. A voz acariciou o pescoço nu da jovem imóvel. Fez-se um calafrio. Em um estupefato movimento do vento insone, a vocalização perdia-se no deserto frio da alma. A moça pestanejou, fez rangir os dentes, ignorou o grito de socorro estridente. Acordou, já era manhã. E, logo que se ergueu pela janela para contemplar o sol escaldante, a vista foi atingida com a dor do morto que a olhava com pupilas saltitantes. "O grito era dele!", exclamou. Agora não era mais. 
  • Desde a primeira vez

    Desde a primeiro vez em que te vi, eu sabia que você tinha algo especial guardado;
    Desde a primeiro vez em que te vi, eu senti uma forte atração por você;
    Desde a primeira vez em que nós conversamos, eu já sabia onde isso tudo iria parar;
    Desde a primeira vez que nos beijamos, eu já sentia que as borboletas iriam acordar;
    Desde a primeira vez em que transamos, eu já sabia que era você a pessoa certa;
    Desde a primeira vez que falamos o que sentiamos, eu me senti nas estrelas;
    Desde a primeira vez em que eu soltei um "eu te amo", me senti completa;
    Desde a primeira vez em que fiquei com ciúmes, eu estava ficado louca;
    Desde a primeira vez em que te vi na cama com outra, eu  já sai do meu mundo de fantasias;
    Desde a primeira vez em que você me deu um tapa, eu já não era mais a mesma;
    Desde a primeira vez em que nós brigamos, eu me sentia pertubarda;
    Desde a primeira vez em que você se desculpou, eu perdoei;
    Assim pensei que os primeiros versos rertonariam, mas me enganei.
    Pois desde a quarta vez que você me espancou, eu fiquei com os hematomas marcados na pele;
    Desde a quinta vez que você me forçou a fazer sexo com você, eu me sentia cada dia mais suja;
    Desde a sexta, sétima oitava vez em que você abusava de mim de todas as formas possíveis, eu desejava a morte, ela me parecia mais atraente do que você agora.
    Mesmo que eu falasse, gritasse, berrasse pela primeira vez pedindo socorro, ninguém me ouvia.
    Mesmo que eu tentasse sair, eu não conseguia, afinal, a culpa foi minha por não ter sido uma namorada melhor.
    Desde a primeira vez em que tentei esconder os machucados, eu estava me conformando.
    Desde a primeira vez em que fingir não ver aquela mensagem provocativa de outra mulher, eu estava me pondo no lugar.
    Desde a primeira vez em que eu tentei ignorar seus xingantos, eu estava me tornando uma mulher melhor para sociedade.
    Desde a primeira vez em que você pegou a faca pra mim, eu já não resistia;
    Desde o primeiro corte, nada me parecia melhor do que a morte;
    Desde que me senti agonizada no chão, senti que agora me livraria de tudo me matava lentamente a cada dia;
    Desde que me colocaram no caixão, agora eu poderia dormi em paz, sem medo do que você poderia fazer comigo enquanto eu dormia;
    Desde que tamparam o caixão, eu estava na melhor.
    Desdes que me jogaram na cova, eu não iria mais está acordada pra sofrer seus abusos;
    E essa foi a primeira vez em que me senti livre desde as outras primeiras vezes.
  • Deveria ter te falado

    Oi venho-te falar que tenho uma doença terminal não tenho muito tempo de vida, na verdade os médicos me falaram que tinha três meses de vida no máximo hoje esta quase no final desses três meses, não me brigue por não ter contado é que odiaria ver você perdendo tempo da sua vida se preocupando com alguém que já esta morta, e ver seu olhar de dó pra min não ia suportar isso acho melhor tomar um tiro, mas me desculpe por não ter contado antes, acho que sou idiota por não ter contado pode xingar me odeia  seria melhor, só de imaginar  você chorando me parte aquele meu coração que lava endurecida, mas se não chorar me arranca um sorriso. Sabe todo dai queria te contar, mas não consegui, por favor, entenda eu já estou morto não queria ser só um incomodo ver falsa esperança, não muito obrigado, mas não  quero. Você não tem ideia como não queria entrar em sua vida para partir tão breve, pensei todo dia de sumir com uma brisa que bate no rosto e se vai rápida mente não conseguia sempre queria aproveitar um pouco mais já que era meu fim queria acabar com lembranças boas mesmo que fosse só uma conversa boba ou um inteligente. Agora me despeço ADEUS vou sentir sua falta.
  • Dia 22 de Março

    Querida mãe,
      Como eu te conheço bem você está tomando café da manhã agora,provavelmente só irá perceber que está carta está aqui quando for colocar a caneca na pia.Quando ler esta carta inteira estará chorando,com a mão no peito e ajoelhada no chão frio da cozinha.Você sabe que eu acordo mais cedo e vou para a escola,só que hoje eu não vou estar lá.Eu amo a senhora mais que tudo.Não quero que pense que odeio a vida,quando eu estiver lá em cima estarei olhando o rio,sentindo a brisa,totalmente tranquilo,como eu sempre quis.Como eu me conheço bem,provavelmente estará escorrendo uma lágrima no meu rosto,mas ainda assim estarei sorrindo.Hoje é 22 de março,você estará lendo esta carta amanhã,quando eu não estiver mais aí.Não quero que pense o que poderia ser feito para me salvar,mas sei que ainda assim você pensará.Você terminará de ler esta carta e,provavelmente,meu pai estará tomando banho para ir trabalhar.Tantas coisas não ditas,e as coisas que foram ditas foram tão erradas,de qualquer forma,não há tempo para arrependimentos.Você irá passar por um trauma e sentirá minha falta.Acho que pior de tudo é ter tanta gente te amando e esperando tanta coisa de você,mas você não sabe dar o que elas esperam.Quando fazerem uma busca pelo meu corpo quero ser cremado e jogado no rio,onde eu pulei.Esta parte é para o papai agora.Não deixe que minha mãe veja meu corpo,com certeza já estarei roxo e todo estranho.Mas deixarei você se despedir de mim, apenas você.Porque quero que olhe para mim e peça desculpas,do mesmo modo que espero que aceite minhas desculpas agora.Desculpa por não ser o que você esperava,é normal ter expectativas frustadas,espero que algum dia se acostume com o fato de ter um filho fracassado.Amo vocês dois.Não digo nada as outras pessoas porque essa é a parte dramática da minha história.De quem foi a última palavra,quem me deu o empurrãozinho final para meu suicidio?De poucas em poucas frases eu cheguei a esse ponto.
      Amo vocês de fato...
  • Dia 23 de Março

    Se ao menos alguém abrisse a porta do quarto dele de madrugada e visse seu corpo se contorcendo na cama,dolorido e cansado de chorar,talvez ele não tivesse pulado lá de cima,talvez ainda estivesse aqui...
  • Doces Sonhos Temperados de Pimenta

    Enquanto me debato na cama,meus sonhos parecem tomar vida;
    Pesadelos que se tornam realidade;
    Medos que se mostram reais;
    Me provocam,para mostrar que podem se tornar reais quando quiserem; 
    Então me forço a acordar,me forço a abrir os olhos;
    Minha respiração desregular,mortes;
    Morte por todo meu pesadelo;
    Meus olhos se enchem de lágrimas;
    Pesadelos me forçam a ver meu pior medo;
    Mortes;
    Então pisco rapidamente,okay,sei a terrivel sensação de viver com a morte em mente.
  • Dor da Manhã

    Hoje acordei
    Uma tristeza imensa me invadia, doía
    Tudo em mim doía
    Triste essa minha vida vazia

    Um futuro sem paz e sem nexo
    Ao pensar no ontem, também sofria
    Que vida essa que tenho?
    Da onde vem tamanha agonia? Não sei...

    Só sei que esta melancolia...
    De um jeito avassalador me afligia
    Novamente minha alma, meu corpo e minha mente padecia. 

    Mil demônios me assistia
    Cada um deles me matava dia após dia...
    Em algum momento eu morria.
  • E então, brasileiros?

    Ontem, às três horas da tarde 

    já era noite em são paulo,

    pessoas olhavam para o céu:

    o apocalipse está chegando.

     

    A Amazônia pega fogo há 16 dias,

    animais morrem há 16 dias,

    plantas queimam há 16 dias

    e há 16 dias ninguém sabia disso.

     

    Hoje, às seis horas da manhã 

    um ônibus foi sequestrado no rio,

    o criminoso tinha uma arma de brinquedo,

    seu sangue escorria e a “vida era celebrada”.

     

    A internet está revoltada,

    os stories estão indignados,

    os posts estão chocados,

    e vc, brasileiro? como se sente? 

  • Ele

    Ele cansou. Está exausto de correr atrás do presente. Cansou do cheiro de coisas novas e preferiu usar o tato para encontrar conforto. Ele engoliu litros e mais litros de gritos acorrentados que hoje pesam dentro de seu estômago. Ele está tentando evitar essa ânsia que bate em sua porta todos os dias. Ele sobe as escadas até o vigésimo andar só pra olhar pela janela e assistir o presente visto de cima. Ele caiu na inércia. Entrou em piloto automático. Ele adotou o padrão e expulsou os devaneios da sua própria boca. Ele quebrou os próprios dedos pra não conseguir escrever sobre o peso dos gritos que arranham suas pregas vocais. Ele ficou diante de todos os caminhos e vendou os olhos para entrar no mais dolorido. Ele não está aqui. Ele está no seu próprio mundinho pedindo socorro por dentro e forçando um sorriso por fora. Ele pediu ajuda aos remédios e se viu com um punhado de fragmentos da própria morte em suas mãos. Pensou em por pra dentro também. Mas os gritos ocuparam todo o espaço. Cheio. Transbordando. Fechado.
  • Elleanor - conto/ficção

    elleanor02
    natal
    A traição será Vingada!

    ano:2019
    gênero: Fantasia / ebook
    autor: Marcos dos Santos
  • Entre Lobos - (conto-romance) 2/9

    principal
    NÃO SE SINTA PERDIDO(A) Leia o capítulo anterior! Tenha uma ótima leitura!

    28 de setembro 1939

                John estava dormindo quando acordou com o barulho da velha motocicleta de Derek estacionando em frente a sua casa. Nem se deu ao trabalho de saber que horas eram, de qualquer forma tinha a completa certeza de que era cedo de mais para estar despertando. Sonolento, sentou sobre a borda da cama por um breve tempo e depois deixou o quarto sem calçar seus chinelos. Ligou as luzes da cozinha e serviu uma doze de whisky que tomou em apenas um gole. Serviu-se novamente. A porta de entrada foi aberta.

    — Mas que droga é essa gora, Dek? – com sua voz rouca, soltou antes mesmo que seu filho pudesse dizer qualquer coisa. — O que deu em você?!

    — Não foi nada de mais! – o outro respondeu em seguida.

    — Nada de mais? – riu-se. — Olha só pra essa tua cara! Um belo estrago, não?! – reparou ainda.

    — Garanto que a do outro não ficou tão linda assim! – defendeu-se indo em direção ao velho sofá onde deixou que seu corpo caísse depois de por seu capacete em um canto qualquer ali perto.

    Ficaram em silêncio por alguns segundos até começarem a rir juntos da situação.

    — Tome. – John estendeu o copo. — Quem sabe isso ajude a amortecer a situação. – pausa. — Hansly? – então soltou tentando identificar quem fora o oponente daquele embate.

    — O filho da mãe sempre cruza o meu caminho. – Derek respondeu confirmando.

    — Vocês têm de resolver isso de uma vez! – o homem sugeriu. — Não podem ficar se atracando toda vez que se encontram. Não são mais moleques, droga! – ainda acrescentou.

    — Dessa vez não provoquei nada. Mark está de prova – defendeu-se. — Só o que fiz foi revidar. – explicou antes de tirar um gole da bebida.

    — Mark. – o homem soltou descredibilizando o valor da testemunha. — Tanto pior. – acrescentou. — Só espero que esteja em pé amanhã pra podermos trabalhar. – comentou afastando-se. — Tony Mayer anda impaciente com a entrega da caminhonete. Precisamos entrega-la de uma vez. – John comentou.

    — O senhor pode ficar tranquilo. – Derek tentando despreocupar seu pai. — Estarei lá! – respeitoso, completou vendo John sumir no corredor.

    Derek trabalhava na oficina mecânica de seu pai, por conta disso, tinha conhecimento o suficiente para dar cabo de alguns trabalhos. No tempo em que estava de folga, mexia em sua motocicleta e até fazia alguns ajustes na moto de Mark, seu grande companheiro de noitadas. John e ele estavam finalizando alguns reparos na caminhonete de um cliente quando o rapaz apareceu.

    — Vai, Dek. – John avisou concentrado no motor a sua frente. Seu filho deu a partida e tudo pareceu estar em ordem, finalmente. — Ok! Está bem, pode desligar! – ergueu a mão. Desceu o capô. — Esse deu trabalho! – comentou dando duas batidas sobre a lataria do veículo. — Finalizamos por hoje. – satisfeito.

    — Quando Mayer vem pegá-lo? – Derek perguntou.

    — Bem... – limpava-se em um pano que parecia ainda mais sujo que as suas próprias mãos. — Eu poderia muito bem ligar, mas quero que você faça esse favor pra mim.

    Mark aproximou-se.

    — Já que a sua namorada chegou – provocou os dois. — Vá até a casa dele e peça pra que venha dar uma olhada nessa situação.

    — Claro! Mas preciso de um dinheiro. – falou sem rodeios. — Estou sem cigarros e...

    — Você é um grande mercenário é isso que você é. – jogou o pano sugo contra seu filho antes de ir até um balcão onde abriu uma gaveta e retirar uma pequena quantia em dinheiro. — Mas olha – Derek aproximou-se. — Vê se não vai se meter em confusão novamente... Um olho roxo já lhe basta. – debochou.

    Derek apenas assentiu com o semblante devolvendo o trapo sujo e enfiando o que recebera no bolso da calça suja. Saíram os dois em direção a saída do galpão.

    — A propósito!  – Mark já passos distante virou-se para o senhor. — Eu sou o homem da relação. – referiu-se a brincadeira feita anteriormente pelo senhor.

    — Caiam fora daqui! – John respondeu achando graça.

    Depois de passarem na casa de Tony, Mark e Derek foram para um local conhecido onde costumavam tomar cerveja e ficar jogando conversa fora. Derek comprou uma cerveja e um maço de cigarros enquanto ouvia o deboche do amigo sobre o estado que ficara sua cara depois da noite passada.

    — Ora, vê se cala essa boca! – Derek — Sabe muito bem que fui eu quem se saiu bem nessa. – tomou um gole no bico da garrafa. — Mas que droga de amigo você, hein!

    — Fato, é fato! – o outro de mãos estendidas. — E ele está bem estampado na sua cara. – completou a provocação.

    — Ei! – chamou a atenção do rapaz atrás do balcão. — Dê mais volume! – pediu apontando para o rádio. — Qualquer coisa é melhor do que ouvir essa tua voz! – voltou-se novamente para Mark.

     Então, aos poucos dentro doe estabelecimento as vozes foram se calando e por fim, todos puderam ouvir sobre o ataque massivo que havia sido feito sobre a Polônia. Tanto a Alemanha quando a União Soviética haviam investido forças para tomar o país. Finalmente, Varsóvia, capital da Polônia, havia se rendido ainda no dia anterior.

    — Dane-se essa droga! – um grandalhão soltou atravessando o bar depois de acabar com sua bebida.

    Grande parte dos que estavam por lá o miraram.

    — Essa DROGA! – Mark falou chamando a atenção do rapaz que passou ás suas costas. — Pode muito bem vir a acontecer aqui! Na nossa casa.

    — Dane-se o que você acha também sobre isso! – o rapaz respondeu apontando o dedo em direção a Mark que de imediato pôs-se em pé.

    — Ei! – Derek tocou-lhe o ombro mostrando que não valia apena criar caso.

    — Isso mesmo! – o rapaz continuou. — Escute o teu amigo ou vai acabar ficando com o rosto igual ao dele! – advertiu.

    — Seu filho da mãe! – Mark então perdeu a paciência.

    Os dois embolaram-se entre socos e empurrões, Mark obviamente não daria conta do grandalhão sozinho e até mesmo o dono do estabelecimento pediu para que Derek intervisse naquele embate que, possível e provavelmente lhe daria algum prejuízo. Antes de obrigar-se a dar apoio ao amigo, Derek tomou o restante de sua bebida e no mesmo instante em que pôs-se ereto viu Mark ser projetado para fora do bar como se fosse um mero saco de lixo sobre a calçada. Indo de encontro ao rapaz, deu lhe um murro no estômago que a princípio não mostrou qualquer efeito e o soco no rosto pareceu apenas deixa o outro ainda mais irritado. No lado de fora, enquanto se recuperava, Mark era acudido por duas belas moças.

    — Mas que filho da... – Derek vendo em que se metera afinal de contas.

    — Vamos terminar logo com isso! – o outro a sua frente disse armando-se para uma nova investida.

    CONFIRA também - Meu querido Manequim
                                 Humanos
  • Entre Lobos - cap. 7 (conto-romance)

    principal
    Não se sinta perdido...LEIA os capítulos anteriores! Tenha uma ótima leitura e Obrogado a a tenção!!
    Katherine estava em seu quarto no segundo andar quando de sua janela os viu chegar. Não soube ao certo o que estava acontecendo afinal de contas Mark não os visitava com frequência, mas o que a deixou incomodada foi a presença de Derek.
    — Mark querido! – sua tia os recebeu. — Mas que ótima surpresa!
    — Olá titia! – a cumprimentou.
    — Mas o que o trás aqui a essa hora? – já era final de tarde. — Espero que nada...
    — Não, não! Eu vim por que...bem... – fitou Derek ao seu lado. — Precisamos...
    — Gostaria de falar com a senhora e o seu marido. – Derek interveio.
    Mark o mirou surpreso, de fato, não imaginava que seu amigo estivesse disposto a “encarrar” aquela situação de forma tão decidida.
    — Você é...? – a mulher então o fitou. – Oh, claro! – lembrou-se do almoço de outro dia. — O amigo de Mark.
    – Derek! – apresentou-se estendendo a mão para a senhora que respondeu ao gesto.
    — Derek, isso! – ela falou ainda recordando do assunto que envolveu ambos aquele dia. — Sim! Alan está na sala, mas o que há? – perguntou buscando a face dos dois a sua frente.
    — Gostaria de falar com vocês sobre Katy. – Derek respondeu.
    Ainda antes que acabasse de falar veio a voz rouca do homem de dentro da casa indo em direção a saída.
    — Mas que conversaria é essa afinal de contas? – falou e em seguida surgiu ao lado da mulher ao escancarar ainda mais a passagem. — Mark? O que está acontecendo?
    A mulher, com o olhar pedido sobre Deck, ainda tentava entender qual era a situação.
    — Esse rapaz – então voltou dizendo. — Veio nos falar sobre Katy. – sem tirar o olhar de cima dele foi direto ao ponto.
    — Katherine? – soltou franzindo a testa e quase que instantaneamente flechando Derek com um olhar desgostoso.
    — Sim! – ele posicionou-se.
    — E oque exatamente você teria para dizer sobre nossa filha? – adiantou-se colocando-se a frente de sua esposa que recuou obrigando-se a observar a conversa por um espaço que lhe sobrara.
    Nenhum deles havia reparado, mas não muito distante de onde estavam, Katherine, atrás de um pilar os observava com atenção. Assim que ela percebeu ser a razão daquela visita sentiu um certo desconforto, seu coração acelerar como nunca antes. Sim, a verdade é que reprovara Derek no primeiro instante em que o conheceu... Sua rebeldia, suas roupas desgastadas, aqueles olhares audaciosos, intrometido sobre ela, mas reconhecia também que algo havia mudado com a aproximação que tiveram outro dia no parque. Agora ele estava ali, falando com seus pais e ao mesmo tempo em que aquilo lhe parecia um absurdo, foi algo que mexeu ainda mais com seus sentimentos.
    — Espera. O que você está me dizendo?! – Alan. — Sentimentos por Katherine?
    — Não quero que o senhor me entenda mal – Derek se explicando. — Tenho as melhores intenções por Katherine e acredito que ela...
    — Filho! – Alan intrometeu-se e depois deu uma pausa fechando a porta para que ele e os dois rapazes ficassem a sós na varanda.
    Assim que viu a entrada ser fechada, Katherine resolveu deixar a sala, foi então que sua mãe a enxergou.
    — Querida! O que está fazendo aqui? Achei que estivesse em seu quarto. – aproximou-se de sua filha.
    — Ouvi, o que estavam, dizendo. – Katherine respondeu pausadamente.
    — Oh, sim! Mas não se preocupe, está bem? Seu pai vai resolver tudo. Esses jovens rapazes sempre confusos com as ideias. – concluiu sorridente em quando seguia com ela para o segundo andar.
    Do lado de fora.
    — Você não sabe o que está dizendo e eu entendo, afinal de contas você não deve imaginar o que realmente se passa com Katy, então vou ser franco com você.
    — Pelo contrário! Sei exatamente o que está acontecendo e isso não interfere no que sinto por ela, Senhor.
    — Você sabe?! – fitou Mark. — Então entende que já temos muito com o que nos preocupar aqui e não precisamos ainda ter que sondar um relacionamento que certamente não tem possibilidade de ir muito longe – pausa. — Talvez, sim, você tenha boas intenções... Derek, não é mesmo? – puxou o nome da memória. — Mas Katy não tem que passar por esse tipo de decepção.
    — O senhor me desculpe! Entendo que queira mantê-la segura, mas como pode ter tanta certeza de que não teremos um ótimo relacionamento? Acredito no amor que sinto por ela se Katherine estiver disposta a...
    — Amor! – Alan repetiu a palavra com certo desdém. — Acredite filho. Não é exatamente o “AMOR” que mantém um relacionamento ou até mesmo um casamento por anos. Em condições normais temos que saber provir a família de tantas formas que você ainda – o fitou por completo. — Desconhece. Com a condição de Katy a situação é ainda mais exigente.
    — Não estou descartando dificuldades Sr. Alan, mas tenho certeza de que Katherine e eu nos ajustaríamos a nossa maneira.
    — E que maneira seria essa?! – o homem então disse em um tom mais duro. — Levá-la para suas farras onde vocês brigam e bebem a noite inteira? – ficou Mark que mirava um canto qualquer enquanto ouvia. — Minha filha não vai ser mais uma de suas diversões, rapaz!
    — Mas senhor... – Derek insistiu.
    — Não há mais o que ser discutido sobre isso! – o homem concluiu. — Katherine está bem do jeito que está e espero que não se aproxime dela. – estendeu a mão indicando o caminho da estrada. — E você, Mark, faça o favor de não ficar instigando essa bobagem.
    — O senhor está errado! – Derek segui falando mesmo com seu amigo o empurrando para fora da varanda. — Todos vocês estão errados! Estão sufocando ela. Impedindo que ela tenha a própria vida!
    Sem dar atenção Alan fechou a porta.
    Já no andar de cima, da janela, Katherine viu seu primo e o amigo embarcarem em suas motos. Ainda antes de dar partida Derek a viu entre as brechas da cortina e foi embora.
  • Entre Lobos (conto-romance) 1/9

    principal
    Estados Unidos 8/12/1941

    “...Peço que o Congresso declare que, em vista do ataque ardiloso e não provocado do Japão no domingo, 7 de dezembro, um estado de guerra passa a existir entre os Estados Unidos e o Japão”
    Franklin Roosevelt


    Minnesota, condado de Todd, final de tarde. Dias após o ataque a frota naval americana.

         Escorado sobre a mesa da cozinha, John tentava estabilizar a frequência da radio. A todo instante era transmitido notícias sobre a guerra que partira da Alemanha nazista sobre a Europa. Agora, com a participação do seu país na batalha após o ataque em Pearl Harbor, todo jovem americano era bem vindo ao exército e isso o deixava tenso, pois, Derek era seu único filho e possivelmente iria acabar envolvido àquela causa. Sua concentração era tamanha sobre os noticiários que se quer havia reparado que o próprio chegara e de fato só deu-se conta disso depois que seu filho largara um envelope a sua frente.

          — O que é isso? – perguntou sem tocar na correspondência.
          — Aqueles desgraçados vão pagar caro pelo o que fizeram! – Derek respondeu com precisão. — Vou me juntar ao exército! – declarou.

          O homem escorou-se na guarda da cadeira e tomou fôlego. Desfez-se do ar e levantou sem dizer uma única palavra deixando que a transmissão da rádio encontrasse seu próprio jeito de se consolidar. Foi até o armário e retirou um cigarro da carteira e em seguida escorou-se à porta de saída. Acendeu o fumo e tragou a fumaça profundamente antes de começar a falar.

          — Só espero que não esteja fazendo isso por causa daquela def...
          — Deixe Katy fora disso! – Derek interferiu-se. — Isso nada tem a ver com ela. – esclareceu. — E agradeceria se o senhor não a chamasse dessa forma novamente. A caso tem simpatia pelos ideias daquele tal Führer? – finalizou em um tom mais sério.
          — Não diga bobagens, rapaz! – o senhor firme contra aquela injúria. — Mas está bem! Faça como quiser. Não vai mais me ouvir dar um “pio” sobre essa garota, mas saiba que está criando a ti mesmo um grande problema! – deu outra tragada no cigarro.

          Derek não soube ao certo se seu pai se referia a sua entrada ao exército ou ao seu relacionamento instável com Katherine. Em meio aquele breve silêncio em que se encontravam, ouviram a chegada de um visitante. O rapaz deixou sua motocicleta junto a de Derek e foi de encontro a ambos, agora, parados em frene a  entrada da casa.

          — Sr. John! – o rapaz o cumprimentou respeitosamente antes de falar com Derek.
          — Olá, Mark! – o homem respondeu. — E as novidades, rapaz?
          — Bem... – mirou Derek. — O senhor já deve estar sabendo da nossa... Inclusão! – orgulhoso, referiu-se ao alistamento militar.
         — Claro que sim! – demonstrando não estar surpreso em saber que os dois estariam juntos também naquela empreitada, John respondeu com um pigarro rouco. — Afinal de contas, onde um estaria se não estivesse o outro? – riu-se com certo deboche.
          Mark apenas respondeu com um sorriso na face.

          — Precisamos conversar! – Mark dirigiu-se ao amigo logo à sua frente.

         Percebendo que seria um assunto que não lhe dizia respeito, John deixou que os dois rapazes ficassem a sós. Depois de trocarem algumas poucas palavras Mark deixou clara a razão de ter vindo. De dentro de sua jaqueta, retirou uma folha de papel dobrada e entregou ao outro. Era de Katherine, escrita por sua irmã Mary.

          — Ela está preocupada, Dek! – Mark comentou. — Acha que a ideia de termos entrado no exército foi meio... impulsiva. – descontraiu.

          A mensagem falava sobre a repulsa de Katherine sobre o alistamento de ambos e do quanto ela tronara-se mais reclusa após o término do relacionamento com Derek. Informalmente, pedia ainda para que ele viesse vê-la, deixando claro que os pais dela agora mostravam-se mais receptivos quando a presença dele.

          — Como ela está? – Derek pediu sobre Katy.
          — Até onde sei, mal tem deixado o próprio quarto... – breve pausa. — Pra uma pessoa que adorava fazer passeios isso deve significar alguma coisa, não?
          — Nada disso precisava ter acontecido. – Derek soltou. — Sabe que não foi por minha causa que...
          — Não os tenha mal. – Mark o interrompeu. — Meus tios sempre foram muito cautelosos a tudo o que envolvesse Katy... Só pensam na segurança dela.

         Ficaram em silêncio por alguns segundos.
         — Então, você não vêm? – perguntou.

         Derek o fitou condenando a possível chance de o amigo ter lido sua correspondência.

         — Não, não! – Mark logo se defendeu ao perceber a reação do outro. — Elas só me fizeram prometer que te convenceria ou te levaria amarado até lá. – brincou pondo novamente o capacete.

          Ainda que aquele convite lhe parecesse, num primeiro instante, estranho, Derek sabia que era preciso aceita-lo já que lhe restava pouco tempo na cidade e a verdade é que pouco importava se os pais de Katy, por causa da atual situação da filha, apenas iriam tolera-lo. Ele ainda a amava e nada sabia do que estava por vir assim de partisse para longe dela.

          — Vou dar uma saída! – esquivando parte de seu corpo para dentro da casa avisou seu pai que respondeu erguendo seu copo munido de whisky enquanto ainda fumava e fuçava na transmissão da rádio.

    Confira o capítulo seguinte! 
  • Entre Lobos (conto-romance) 3/9

    principal
    Não sinta-se perdido LEIA os capítulos anteriores! Tenha uma ótima leitura!

          Mary e Katherine vinham caminhando sobre a calçada quando viram, surpresas, seu primo alçando voo de dentro de um estabelecimento poucos metros a sua frente. O rapaz caiu completamente desengonçado e por esse motivo tiveram razões o suficiente para crer que ele não teria condições de erguer-se novamente, mas ainda mais incrédulas, viram ele, ainda meio zonzo, pôr-se em pé. Correram dar-lhe suporte.

    — Mark! – Mary assustada sem entender o que estava acontecendo. — Meu Deus! O que foi isso?! – o investigava de cima a baixo como se buscasse a certeza de que não lhe faltava qualquer pedaço.

    — Varsóvia! – o outro disse ofegante apoiando-se sobre os joelhos. — Maldito desgraçado! – soltou usando o restante do fôlego.

    — O que?! – no primeiro instante a única coisa que conseguiu pensar foi que se ele estivesse bêbado ou  provavelmente estava delirando por causa da queda.

    — Varsóvia foi rendida – continuou falando. — E aquele filho da mãe – mirou para dentro do bar. — Acha que está seguro. – sacudiu a cabeça negativamente. — Não hoje!

    — Mas do que você está falando?

    — Cuidado! – então advertiu afasto-as da entrada antes que fossem atropeladas pelos dois rapazes que agora saíam porta a fora socando-se.

    Sobre a calçada, depois de apartarem-se, Derek e o grandalhão passaram a se espreitar, um estudava o outro esperando o primeiro equívoco, um simples deslize para aquele embate chegar ao fim.

    — Nem sei bem ao certo o porquê de estarmos fazendo isso, cara! – Derek de punhos cerrados, fixo no oponente.

    — É um bom motivo pra você se arrepender de ter entrado nessa, então! – o outro respondeu.

    Então, todos ouviram a sirene soar e a viatura policial encostar rente a calçada.

    — Mas o que está havendo aqui? – o oficial falou sem deixar o veículo.

    Ambos se recompuseram, mas ainda se encarando.

    — Desculpa, chefe. – Mark adiantou-se. — Foi só um desentendimento entre... amigos. – buscou o semblante de Derek e o outro.

    — Mas olhem só... – o policial reconheceu Derek. — Parece que a confusão da noite passada não foi o suficiente, hein rapaz! Por que não me admira que você esteja no meio desse tumulto?

    — Eu...

    — Foi por minha causa! – Mark novamente. — Me desentendi com o... amigo – indicou com a face o grandalhão. — E... cá estamos nós. – soltou sem de fato explicar a situação. — Mas não foi nada de mais, já estamos... resolvidos, certo? – fitou o rapaz novamente que não respondeu, apenas ergueu mais o rosto mostrando superioridade.

    — Então é melhor que todos se acalmem. – o oficial falou com autoridade. — Ou vão acabar encrencados de verdade! Todos vocês. – completou antes de dar partida na viatura.

    O grandalhão passou uma das mãos sobre o lábio e sentiu o gosto do próprio sague. Sorriu.

    — Nada mal! – começou a recuar lentamente e por fim dando as costas para todos e indo embora.

    — Mas afinal de contas o que foi tudo isso?! – Mary completamente confusa. — Não acredito que você anda se envolvendo em confusão, Mark! – reprovou. — Titia não iria gostar nem um pouco de saber que...

    — Não se preocupe. – disse num tom calmo. — A propósito esse é Derek! – apresentou o amigo. — E obrigado, cara. – agradeceu em seguida.

    — Por ter levado uns socos por você? – o outro descontraiu. — Como eu poderia ter recusado!

    — Bem, me parece que os dois valentões estão satisfeitos, não? – Mary ainda tentou repreende-los.

    — Não muito! – Mark. — Ser jogado daquela forma foi humilhante. – completou vendo o sorriso machucado do amigo. — Me senti menosprezado, droga!

    Derek se ria ouvindo o amigo desgostoso quando passou a reparar na demasiada indiferença de uma das moças sobre tudo o que estava acontecendo. De fato, a garota ser quer havia dito uma única palavra desde que elas apareceram por lá. Talvez fosse tímida ou simplesmente, assim mostrou seu delicado e refinado modo de se vestir, ele a enojava. A verdade é que dificilmente se saberia ao certo e, de qualquer forma, aquele rosto doce com olhos claros lembrando dois diamantes azuis sutilmente lapidados, já havia aguçado a atenção dele. Como provavelmente aconteceria, a moça percebeu o olhar descarado e persistente sobre ela. Tentou desvencilhar-se buscando pontos que o tirassem de sua mira, mas obtinha sucesso por poucos segundos. Não demorou muito para que Mary reparasse no que estava acontecendo.

    — Bem... – Mary continuou. — Eu e Katy já estamos indo e aconselho a você a ir para casa também antes que arrume mais confusão. – sugeriu.

    — Estamos bem. – Mark declarou. — Foi só um imprevisto. – completou.

    — Você não tem mais jeito mesmo, Mark! – adiantou-se dando passagem para Katherine. — Não tem! – reforçou.

    Derek encontrava-se com as ideias distantes.

    — Ei! – Mark chamava o amigo. — Dek! – próximo a entrada do estabelecimento chamava o amigo. — Acho que merecemos tomarmos outra, não?

    — Por que nunca me falou sobre ela? – Derek então soltou.

    — O que? – voltou-se para o amigo.

    — Nunca me falou sobre essa sua prima... Kathy, não é?

    — Não! Não, não, não. Esquece! – o outro já cortando o assunto. — Nem pense nisso, cara. Vai encontrar problemas, ali!

    — E acaso não estou acostumado com isso? – abriu os braços mostrando sua situação. — Maldita hora que resolvi me envolver na tua confusão Mark! Ela deve estar me achando um animal.

    — Coisa que você não é, certo? – o amigo debochando.

    — Pro inferno! – cruzou por ele. — Você me deve essa e sabe disso! – deixou claro.

    — Pois bem! – Mark seguiu dizendo vendo o amigo entrar no bar. — Te pago uma cerveja, então!

    — Não! Não é o suficiente. – voltou a sentar-se de aonde havia saído. — Mas já é um começo. – acomodou-se dizendo por fim.
  • Entre Lobos (conto-romance) 4/9

    principal
    Não se sinta perdido. LEIA os capítulos anteriores! Tenha uma ÓTIMA leitura!

    Naquela manhã de sábado Mark ligara para Derek pedindo para que o amigo viesse dar uma olhada na sua Formosa, apelido carinhoso que dera a sua motocicleta. Ainda perto do meio dia, ele apareceu por lá. Mark já o esperava disposto a dar cabo de tudo sozinho.

    — Ela não liga, Dek. – adiantou o problema. — Não está dando partida. – explicou ainda.
    — Vamos ver. – o outro disse depois de aproximar-se e cumprimentar o amigo que se mostrava preocupado com a situação.

    Já haviam se passado alguns minutos desde que Derek procurara desvendar o problema quando um automóvel escuro estacionou sobre o gramado em frente a casa. Sem dar atenção, ele continuou fixo no que estava fazendo, diferente de Mark que ao perceber quem chegara lgo  foi recepciona-los.

    — Mãe! – disse indo em direção ao carro. — Eles chegaram. – avisou.
    — Mark! – um senhor falou depois de desembarcar Do vveículo. 
    — Tio. – cumprimentou o homem com aperto de mão e um abraço.
     
    Em seguida uma mulher desembarcou acompanhada de suas duas filhas.

    — Ajude sua tia, sim. – sugeriu ao sobrinho. — Trouxemos algo para o almoço.
    Mark contornou o veículo e deu auxílio a Dna. May.

    — Deixe que eu levou tia. – adiantou-se pegando uma bandeja larga. — Olá Mary... Katy. – cumprimentou suas primas também.

    Então, Derek, voltou-se para trás e viu Katherine deixar o veículo. Mark, acompanhado pelos demais veio em direção a residência.

    — O que houve? – o homem parou por um segundo ao ver o que estava acontecendo.
    — Minha princesa não está bem. – Mark respondeu pelo amigo. — E esse é meu anjo da guarda – referiu-se ao amigo agachado — Dek esse é meu tio Alan e tio Alan esse é Dek. – os apresentou.
    — Me desculpe, senhor. – Derek pôs-se em pé. — Eu o cumprimentaria, mas... – estendeu as mãos mostrando o quanto estavam sujas.

    O rapaz não soube se seria muito educado cumprimentar o senhor daquela forma. Deixou de ter dúvidas quando percebeu que o homem lhe estendera a mão. “É o melhor.” Ouviu Mark falar logo ao lado do senhor.

    — Deixe disso, rapaz. – o homem disse. — Mãos como essas representam o progresso.

    A poucos passos as costas dos dois cruzou Katherine que o fitou discretamente. Mary o ignorou completamente assim como Dna. May. Na entrada da casa surgiu Sofya, mãe de Mark, uma mulher simpática e sorridente que agora as esperava calorosamente. Mark, juntamente com seu tio, seguiu para dentro de casa.

    — Já volto, Dek. – avisou e a verdade é que realmente não levou muito tempo até que estivesse de volta. — E então... como está indo? – pediu com certa preocupação.

     Sem responder, Derek prendeu novamente a mangueira a uma pequena saída do motor e pediu para que o outro tentasse dar partida novamente. Como por um milagre, a motocicleta respondeu imediatamente.

    — Eu sabia! – Mark contente. — Você daria um jeito, Dek!
    — Coisa simples...
    — Bem... Como minhas economias andam...escassas. – agora o outro explicava-se. — Não tenho como te pagar, mas – desligou a moto. — O que acha de almoçar com nós.
    — Não acho que seja uma boa ideia. – respondeu. — Me parece uma reunião íntima. – referiu-se ao encontro dele com os familiares.
    — Não, não! Deixa disso! – o convidou com um movimento de mão. — Meu tio provavelmente te interrogue, mas é uma boa pessoa. Pelo visto ele gostou de você.
    — E isso é bom?
    – Depende do quanto você corresponda as expectativas dele. – riu-se.

    Percebendo que não existiria uma maneira de impedir que aquele convite se desfizesse seguiu o amigo para dentro da residência.

    Derek sentiu-se um pouco acuado sentado à mesa. Diferente dos demais, ele usava uma vestimenta mais informal. Até mesmo Mark que entre todos era o que mais se assemelhava a ele, estava ou lhe pareceu aquele momento, especialmente bem alinhado.

    — E então... Derek. – o senhor dirigiu-se a ele. — Tem dom para concerto?

    Mark, então, o fitou como se lhe dissesse “Falei que isso podia acontecer”.

    — Bem... Trabalho na oficina de meu pai. – explicou objetivamente. — Ajudo a...resolver algumas coisas.
    — E vejo que se sai muito bem, não. – referiu-se a moto do sobrinho.
    — Obrig...
    — Ainda que se evolva em problemas nas horas vagas. – Mary soltou num sussurro, mas que claramente pode ser ouvido por todos.
    Mark posicionou-se.
    — Aquele dia foi apenas um... Equívoco.
    — Chame como quiser, Mark. – Mary. — A meus olhos vocês não passavam de dois baderneiros.

    Então, estalou-se um certo desconforto a mesa. Derek arrependeu-se no mesmo instante em ter aceitado aquele convite. Não tinha sido o suficiente ter passado a impressão errada na primeira vez, ainda teria que ser exposto ante a família inteira de Katherine, que tanto quanto a última vez, mantinha-se calada. Tanto ele quanto Mark foram envolvidos pelas desaprovações de todos.

    — Mas Dek não teve culpa. – Mark esclareceu. — Tudo o que fez foi ajudar.
    — Uma confusão sempre será uma confusão! – o homem colocou fitando os dois. — E não tolero baderneiros, Mark! São um atraso. E em respeito a memória do grande homem que foi teu pai, não vou tolerar ou permitir que você se torne um. – completou apoiado por sua irmã Sofya.
    — Obrigado, Mary. – então Mark dirigiu a prima. — Finalmente estou conseguindo ser visto como um delinquente. – debochou ao mesmo tempo em que abocanhava um pedaço de carne.

    Ela apenas ergueu as sobrancelhas lembrando algo do tipo “Não há de que”.

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222