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mistério

  • CARMOND - CAPÍTULO III

    CAPÍTULO TRÊS
    O ponto de parada onde fora deixado era diferente de todos os outros já conhecidos e imaginados por Augusto. Ficava num lugar qualquer da estrada e não havia nenhum sinal de vizinhos, ou ainda, nenhum bar ou qualquer outro tipo de estabelecimento como são de costumes nesses lugares.
    A chuva não dava tréguas e tudo que ele fez foi correr até uma velha tapagem, já bem deteriorada pelo tempo, e ficou lá aguardando pelo motorista, no meio da chuva e do nada. Essa espera, permeada pelas lembranças da conversa que havia tido com os amigos, durou mais de uma hora, até que, finalmente, ele viu surgir bem distante, os faróis de um carro que deslizava nas estradas enlameadas.
    Graças a Deus! Ele balbuciou e já foi tratando de ajeitar as malas nas mãos na expectativa de deixar o quanto antes aquele lugar.
    _ Por acaso o senhor é o doutor que está vindo da capital para tratar do Coronel? O motorista perguntou de dentro do carro e com o vidro do lado direito entreaberto.
    _ Sim, sou eu mesmo! Me chamo Augusto.
    _ Prazer, doutor! Sou seu motorista. Pode me chamar de Piu. Venha! Saia dessa chuva.
    Augusto realizou o embarque rapidamente e os dois tomaram o caminho de volta até Carmond, o vilarejo que tanto amedrontava seus amigos.
    _ Demoraremos muito para chegarmos?
    O homem sorriu meio desanimado.
    _ Um cadinho, doutor. Ainda mais com essas estradas ruins como estão. O senhor tem pressa?
    _ Não trata-se de pressa. Acho que é apenas curiosidade mesmo! Já passei o dia todo dentro de um trem, penso que mais algumas horinhas viajando não me farão mal.
    Piu sorriu novamente e ergueu as sobrancelhas indicando o banco traseiro.
    _ Tem uma garrafa e dois copos aí no banco de trás. Faço o favor de pegá-los e servir um chá pra gente, se não for incômodo, é claro.
    Augusto achou aquilo maravilhoso. Estava precisando mesmo tomar alguma coisa quente, depois do banho de chuva que tomara enquanto aguardava.
    _ Não é incômodo algum, ao contrário, será um prazer. O senhor parece ter lido meus pensamentos.
    _ Eu nunca saio sem a minha garrafa, principalmente em noites como esta. Um chazinho quente é sempre uma excelente companhia para quem vive tão solitário.
    Augusto encheu um dos copos e entregou para Piu que segurando-o com a mão esquerda, continuava a guiar o veículo com a direita.
    _ Posso lhe fazer uma pergunta, doutor?
    _ Depois desse chá você pode perguntar o que quiser.
    Sorriram os dois.
    _ Pois bem, o que levou o senhor a aceitar o convite para vir até o nosso vilarejo?
    Inevitavelmente Augusto lembrou-se dos amigos.
    _ Por que isso parece tão estranho? O que há de errado com o seu vilarejo, meu senhor?
    _ Carmond não é o melhor lugar do mundo para se estar, doutor. Tudo lá é muito difícil, desde o acesso, como o senhor mesmo está podendo constatar, até nas outras coisas mais simples.
    _ Por exemplo?
    _ Qualquer coisa que é normal em outro lugar, lá o senhor verá que se torna difícil.
    _ E porque isso acontece?
    _ Pelo visto o doutor não conhece nada mesmo do nosso vilarejo, né?
    Augusto balançou a cabeça negativamente e virou o último gole do chá.
    _ Não, meu senhor. Tudo que sei são as histórias, ou melhor, as lendas que as pessoas inventam e acabam chegando até a capital.
    Piu entregou o copo para ele e voltou a segurar o volante com as duas mãos. Nesse instante estavam passando sobre a velha ponte que já havia sido carregada duas vezes em enchentes que atingiram a região, e fora restaurada pelos próprios moradores.
    _ Boa parte dessas lendas são verdadeiras, meu jovem. As pessoas podem até aumentar, mas elas nunca inventam, já diz o ditado.
    _ O que há de errado em Carmond? O que acontece por lá?
    Piu reduziu a velocidade e olhou para o rapaz.
    _ Saberás logo logo, meu doutor. Afinal, o senhor foi contratado para cuidar do maior de todos os problemas desse vilarejo.
    Augusto percebeu que as últimas palavras foram pronunciadas com certo rancor e ao mesmo tempo tristeza, e isso deixou-o ainda mais curioso.
    _ Então está me dizendo que o problema todo, ou melhor, a maior parte dele provém do Coronel? Mas até onde sei esse homem está à beira da morte.
    _ Não acredito que ele vá morrer tão facilmente, seria sorte demais, e o povo de Carmond aprendeu desde cedo que a sorte parece não gostar muito daqui.
    E foi com a cabeça cheia de interrogações que Augusto seguiu o restante da viagem e nem se deu conta ao entrar no vilarejo que tudo estava escuro, a única luz acessa eram as dos faróis que cortavam a chuva e iluminava a rua diante deles.
  • Cascas de Semente

    Era um sábado quando vi nuvens de tempestade se aproximando. Ventos fortes atingiam a cidade em um fim de tarde, e a escuridão que se aproximava estragou o lindo pôr do sol que estava prestes a acontecer. Pássaros cantavam enquanto voltavam para as suas casas em busca de proteção.

    A chuva é boa para diversas pessoas, mas ruim para muitas outras. Infelizmente, não tinha como pensar nessas pessoas quando a chuva estava vindo, afinal não tinha nenhuma delas por perto para me lembrar disso. Ao contrário de boa parte da cidade, estava abrigado quando trovões soavam e raios eram vistos no meio dos relâmpagos. Porém eu ainda podia pensar em algo. Antes dos trovões, quando a tempestade ainda estava para chegar, era possível ver uma árvore da janela da qual eu estava perto. Ela estava carregada de grandes cascas de sementes, a maioria seca, com tons amarronzados, duras e velhas. O vento forte venceu quase todas, exceto duas. Elas não pareciam mais jovens do que as outras, eram simplesmente normais. Estavam no mesmo galho, mas eu não conseguia crer que só sobraram elas. Procurei por um longo tempo, examinando cada parte da árvore, porém não tinha nada além delas.

    Agora, já de volta com os raios e relâmpagos, fiquei me perguntando sobre o porquê de duas e somente essas duas tentarem resistir a uma tempestade mortífera. Elas podiam estar com medo de se soltarem e do que viria depois disso. Esse medo pode ter paralisado elas, impedindo que se juntassem as outras que já estavam no chão. Talvez também quisessem ver mais uma vez a paisagem lá de cima antes de serem jogadas para todos os lados pelo vento forte. Porém há uma outra explicação que particularmente me encanta: as duas cascas de semente, mesmo já estando velhas e terem visto muito isso, queriam apreciar o seu último pôr do sol que ocorreria no dia seguinte, já que este lhes fora surrupiado. Pode ser que, em sua morte, elas só queriam ver o sol sumindo devagar mais uma última vez enquanto uma brisa suave, e não um vento violento, as retirava calmamente de seu galho.

    Essa última hipótese me cativou tanto que de cinco em cinco minutos olhava pela janela para verificar se elas continuavam lá. Não queria fazer isso, lutava contra essa vontade de ficar observando elas para poder me concentrar em outros afazeres, mas simplesmente não conseguia. Percebi, então, que eu estava torcendo pelas lindas cascas de semente. Queria que elas sobrevivessem para que pudessem ver o seu pôr do sol.

    Peguei no sono antes da tempestade terminar e a primeira coisa que fiz quando acordei foi olhar pela janela. Lá estavam elas, as duas grandes sobreviventes. Esperei até o sol começar a dar tchau e me sentei embaixo da árvore para comemorar essa vitória com as cascas de semente. Depois disso, não quis mais olhar pela janela, pois não queria ver a morte das minhas duas heroínas.
     
  • Celeiro de José

    O dardejar dos raios de sol pressagiava mais uma aurora naquela fazendola no interior agrestino. As sabiás e os bem-te-vis desatavam a cantar e as cigarras já indicavam o castigo solar que vinha. Seu José acordou tremendamente diferente, tinha tido um pesadelo que talvez prenunciasse a algo. Acordou abatido, mesmo assim, não se deixou levar pelas intempéries oníricas, foi metodicamente realizar seus quefazeres cotidianos: ordenhar a vaca, cuidar da ração dos bois e carneiros, alimentar as aves; enquanto isso Maria, sua mulher, estava preparando o café. Quando foram tomar café, maria notou josé muito abatido e questionou-o: 
    —o que aconteceu com você? 
    —nada não mulher. 
    —deixe de enrolação, sei muito bem quando está incomodado com alguma coisa. 
    —deixe de bobagem e vá tomar seu café. 
    —Mas num vou de jeito nenhum. cuide e desembuche logo. 
    —eu já disse 
    — você num disse nada. pois tá bem. 
    e assim maria saiu arretada da cozinha. Durante a tarde, após José chegar da roça, maria notou muito estranho; ele estava escrevendo algo em um papel. Maria ao vê-lo, gritou: 
    —Que danado tu tá fazendo agora? 
    —nada não 
    —endoidou agora. Este matuto tá escrevendo agora. Meu Deus, é o fim do mundo. 
    —não tô escrevendo. Cuide procurar o que fazer. 
    —Vish maria, tá perdendo o juízo. Nem cinquenta anos tem ainda e já tá pirando. 
    Após esse ínterim, Maria foi preparar uma sopa para o jantar. Seu José ainda não saiu do quarto e isso causou novamente um grande incômodo a maria. Ao terminar a sopa, maria pegou uma colher de pau e foi até ele descobrir o que estava fazendo. 
    —O que danado tu tai fazendo zé. 
    —já disse, nada. 
    —cuide, me dê esse papel aí. 
    E maria ferozmente tomou o papel da mão de josé e ficou muito surpresa, ele não estava escrevendo e sim desenhando; desenhou uma espécie de casa. 
    —que diabos é isso agora? você virou desenhista foi? 
    —não! disse ele friamente 
    — e o que é isto então? 
    —já falei que não é nada. 
    —Mas num to cega. Você vai me dizer dum jeito ou doutro. cuide desembuche de uma vez hôme. 
    —Eita mulher para aperrear meu juízo. Isto aí é apenas um desenho que veio na minha cabeça. 
    —pra que tu quer isso? 
    —pra nada. 
    foi quando maria pegou uma vassoura que estava no quarto e ameaçou ele impiedosamente. Ele, temendo levar umas porradas, acabou contando o que estava por trás daquele desenho. 
    Maria ao ouvir, disse que ele estava bem doido mesmo. José calmamente retrucou: talvez! 
    No dia seguinte josé foi coletar madeira para tal projeto e isso deixou maria perplexa. 
    Passaram 4 meses, José estava prestes a terminar o seu projeto. Maria cada dia ficava mais preocupada com a loucura dele. José de tempos para cá, começou a trabalhar incansavelmente, plantando, colhendo, estocando, construindo... 
    Quando por fim terminou seu projeto, não aparentava uma casa e sim um grande celeiro. Ele estocou comida não só para ele como também para seus animais. Os vizinhos acharam josé muito estranho, eles se perguntavam o por quê de tanto trabalhado, e além do mais, para quê um celeiro no sertão. Certa vez, veio uns primos distante até a casa de José, com uma pretensão implícita, eles vieram trazer alguns produtos orgânicos como forma de omitir sua verdadeira intensão: descobrir o porquê dessa construção. Ao passar o dia, eles em uma conversa trivial, acabaram induzindo ao questionamento do celeiro. José disse que era para se proteger contra o frio, e assim, eles discretamente riram, e retrucaram: 
    —Seu zé, de onde é que esse frio virá? Aqui é sertão e o único frio que tem é o da geladeira. 
    José por um momento se omitiu mentalmente, refletindo sobre o seu sonho assustador. Após alguns segundos, ele retornou e disse: 
    — Certa vez tive um sonho curioso. E que me fez fazer isto. 
    — Que sonho, conte-nos? 
    — A terra quente e amarronzada do sertão ficava fria e branca. 
    —Mas zé, ter pesadelos é normal, pesadelos e sonhos são distorções da realidade. 
    —tempos atrás, sonhei durante 2 semanas o sertão morrendo, não pelo calor e sim pelo frio, nos dois últimos dias da sucessão de sonhos, vi uma casa no meio do gelo, era grande e abrigava animais, era o celeiro que fiz. 
    —Zé, aqui é agreste, é até difícil chover, imagine gear . Sertão é seco, nem Antônio estava certo, quando disse que o sertão ia virar mar. E agora vem você, dizendo que vai nevar. 
    —Se não acreditas, não cabe a eu julgar. O que eu tive foi uma visão, que por mais que seja bobagem, a convicção que tenho é que esta estiagem vai dar lugar a uma passagem, em que ninguém ia imaginar. 
    E assim, seus primos saíram rindo, e josé calado ficou, Maria cada vez mais preocupada com José, pensou que ele deva está doente e que o sol quente tenha fritado seu juízo. 
    Em uma noite calma, uma chuvinha fina dançava sobre as telhas. Acresce que, aos poucos essa chuvinha começava a engrossar, e José na cama dizendo que a hora já ia chegar. De manhã cedo, José acordou, a chuva ainda estava forte, pegou um guarda-chuva, e foi até seus bichos guardar no celeiro. Quando voltou molhado, a mulher se arrepiou, pensava ela: será que ele está certo, será que com o dilúvio a neve vai chegar?. Mas tarde a chuva parou e o sol novamente raiou, sem piedades evaporou tudo que na terra foi abençoado. O calor reinou e com isso maria viu que josé estava errado. José não ficou preocupado, disse a maria que no seu sonho, aquilo era um aviso, e mas tarde a neve ia chegar. Passaram semanas, meses, e o sol cada vez mais forte, o sol castigava tudo e todos, a água estava escassa e josé ainda não desanimou. Maria estava com medo de José perder o resto do juízo que tinha com aquela ideia fixa. Após 3 meses do projeto de josé ter sido finalizado, a chuva começava a lavar a terra estéril, o pasto vagarosamente crescia, os animais se deliciavam, as seriemas gritavam anunciando a vida que nascia do solo rachado — era o paraíso. José sempre com a convicção iminente, tinha fé na sua profecia. Os meses foram se passando e a seca foi reinando, tudo que em um momento vivia o apogeu, viu seu declínio sendo devastado com sol... 
    Até hoje os bisnetos de José levam a profecia do tataravô como uma emblema. Quem sabe um dia do sertão o sol se canse, da chuva a neve surja e José fique lembrado como um profeta do passado, que tanto foi criticado, com seu sonho enigmático.
  • Contos de Argalia

    Em minha historia contarei sobre Argalia,um reino majestoso, diversificado , cheio de controvérsias , magia , sabedoria e também muito disputado.Repleto de origens,conspirações e acontecimentos vastos. Marcado especialmente por uma disputa central de dois irmãos que buscam administrar o poder e governar tal terra de riquezas e mistérios e também de personagens admiráveis e fantásticos que buscam desenrolar seus destinos em meio a tantaos acontecimentos,conspirações e façanhas.
    De um lado a sobrevivente herdeira de Argalia Hemileia que almeja conseguir por direito sua parte no trono,do outro Arigann seu irmão um rei tirano que após o falecimento de seus pais,ordenou um massacre a todos os seus irmãos para governar sozinho.Desconhecendo entretanto,por pouco tempo, que sua irmã ainda criança havia sobrevivido,e se tornado uma grande maga guerreira.
    Aqui irei contar a historia acompanhada dos personagens,suas origens,poderes e ambições através de detalhada e épica narração.
    Hemileia A Maga Guerreira - Imagem adaptada por Ramile Veras via Rinmaru games-acension
  • Coração Executor

    Aproximei-me de meu pai. Frio. Rígido. Inerte. Observei sua tez esquálida, e admirou-me a expressão serena em seu rosto, tão distinta da que trazia habitualmente. Talvez tivesse morrido no meio de um sonho bom. Olhando em volta, via-se que todos na sala mantinham uma postura cordial. Desentrelacei minhas mãos dos dedos gélidos de meu pai e me dispus a caminhar até as cadeiras mais afastadas do caixão.
    Já acomodado, comecei a analisar aqueles semblantes tristes. Indo e vindo. Conversando baixinho. Revezando-se para se aproximar do caixão e despedir-se de meu pai, alguns chegavam mais perto; outros, mantinham certa distância do defunto. Todos ali para ver meu pai morto. Nunca o visitaram enquanto estava vivo, por que vinham agora para vê-lo sem vida? Sempre considerei o velório uma cerimônia sem sentido. Contudo, para mim, aquele em específico significava não um ritual fúnebre, mas o início de uma nova vida.
    Cada um dos presentes, entre os familiares, amigos e conhecidos, vinha, em algum momento, prestar sua solidariedade a mim, que agora me tornara órfão também de pai. Perguntavam que terrível mal tinha acometido meu pai, que fizera sucumbir um homem ainda jovem, forte e que sempre sustentara um ar inabalável. Eu repeti, incontáveis vezes, reprimindo o sorriso orgulhoso, que nem com a necropsia foi possível definir o que causou a morte. “Causa indeterminada” é o que consta na certidão de óbito.
    Alguns questionaram se a morte não foi decorrente de sua doença do coração. Meu pai já havia sofrido um infarto, mas, como diz o ditado popular “vaso ruim não quebra”, ele sobreviveu sem sequelas. Minha mãe também esteve por perto para socorrê-lo. Se ele tivesse tido mais um depois que ela se foi, não haveria alguém que o socorresse. Minha tia me alertou, preocupada, que cuidasse de minha saúde, pois aquele mal poderia ser hereditário. Eu lhe disse que ficasse tranquila. Daquele homem, eu não havia herdado nada.
    Quando as pessoas começaram com a história de o quanto meu pai era um bom homem e que não merecia um fim tão prematuro, eu comecei a ficar inquieto e desejar ir embora. Queria sair do meio daquelas pessoas estúpidas que achavam que conheciam meu pai, quando na verdade não faziam ideia de quem era o homem que estavam velando.
    E, sobretudo, queria sepultar logo meu pai para que sua partida da minha vida se consumasse. A certa altura do velório, comecei a olhar para o relógio de minuto em minuto, ansiando para as 17h, a hora do enterro, e batia o pé impacientemente quando alguém vinha com o papo de “Ah, é uma pena, ele ainda era tão jovem”.
    Aquele homem desprezível não merecia nenhuma lágrima, mas é claro que eu interpretei bem meu papel de filho desolado pelo falecimento repentino do pai. Nenhum deles sabia quem era realmente meu pai e como ele fazia da nossa vida miserável. Assim como toda boa família problemática, escondíamos muito bem nossas desavenças dos olhares de fora. Comecei a imaginar a reação das pessoas nesse velório se soubessem que eu matei meu pai, o quão chocadas ficariam. É claro que ninguém nem desconfia. Ninguém desconfiaria sequer que eu seria capaz de tal ato infame. Eu mesmo me surpreendi quando me peguei desejando fazê-lo, e depois imaginando, e depois planejando, e, até executar de fato, não tinha certeza de que realmente conseguiria.
    Tudo que eu queria era que ele me deixasse em paz, que parasse de me atormentar, mas isso nunca aconteceria, então tive que fazer algo para obter finalmente o controle de minha vida. Para isso, tive que me tornar um assassino, mas não acho culpa em meu ato; apenas adiantei sua ida para o inferno, pois bem nenhum fazia na Terra. Queria que ele saísse da minha vida silenciosamente, por isso eu precisava de uma maneira de matá-lo sem deixar nada que pudesse ligar sua morte a mim, de preferência algo que parecesse um acidente ou morte natural. E foi aí que me ocorreu. Uma agulha. Seria essa a arma do meu crime, arma que não deixaria nenhum vestígio. Eu seria realizador de um crime perfeito. Seria, na verdade, algo muito simples, mas que não deixaria pistas que pudessem me incriminar.
    É isso, eu tinha tomado a decisão e já tinha um plano; só precisava concretizá-lo. Mas, para chegar lá, eu ainda precisava tomar coragem. Passei semanas imaginando o momento, premeditando cada ação com máxima prudência, dia a dia minha vontade de fazê-lo sendo alimentada pela presença odiosa daquele homem. Até que finalmente tomei coragem. Foi na madrugada de domingo. No dia anterior, decidira que já não poderia esperar mais. Tinha que ser feito. O maldito tinha que ter um fim.
    Fomos dormir costumeiramente às 23h. Eu tinha dissolvido pílulas do meu remédio para dormir no leite que ele tomava todas as noites antes de se deitar, apenas por garantia. Eu sabia que ele tinha o sono pesado; nunca havia tido problemas para deitar a cabeça no travesseiro mesmo sendo alguém tão abominável. Aguardei ainda algumas horas.
    Quanto mais o tempo passava, mais minha ansiedade aumentava, então, às três da madrugada, levantei de minha cama com minha agulha no bolso.
    Fui até o quarto dele, entrei cuidadosamente e, com passos lentos e hesitantes, aproximei-me de sua cama. Ele estava deitado de costas para mim, não vi seu rosto. Abaixei-me ao seu lado e, tentando ser o mais firme e preciso que conseguia naquele estado de tensão, enfiei a agulha atrás do lóbulo de sua orelha, até que tocasse o cérebro, causando sua morte instantânea. Uma forma muito eficaz de matar uma pessoa sem deixar vestígios que aprendi numa aula de biologia certa vez, uma curiosidade dita pelo professor. É claro que ele não achou que alguém realmente faria uso desse conhecimento um dia.
    Não vou negar que senti em meu íntimo um certo orgulho por não ter sido descoberto. Por ter cometido um crime perfeito, mas não pensem que fiquei feliz em ter que fazer aquilo. Em cometer um crime, em matar alguém. Fiquei feliz, sim, em não ser mais atormentado por aquele ser hediondo, ainda que, fatidicamente, fosse meu pai.
    Ao entrar no cemitério, estranhamente comecei a suar frio e sentir falta de ar, mas imaginei se tratar do cansaço e da ansiedade causados por toda aquela situação. Como era previsto para o final daquela tarde, começou a cair uma chuva fraca. Era um bom diapara um enterro, deve-se dizer. Debaixo de meu guarda-chuva, murmurei um adeus quando o coveiro colocou o último tijolo que lacrou o túmulo. Virei-me e fui embora, deixando para trás meu pai e meu pecado.
    Eu estava em casa. Estava sozinho. Finalmente conhecendo um pouco de paz. Sentei-me na poltrona em que antes costumavarepousar meu pai e apreciei o silêncio que inundava a casa toda. Notei, então, que ainda faltava uma coisa para me livrar completamente da presença de meu pai. À minha frente, na estante, estava a nossa foto de família. Eu pensei em cortá-lo da foto e deixar apenas minha mãe e eu. Mas assim que comecei a levantar, uma forte pressão veio sobre meu peito. Era como mãos empurrando meu peitoral. Era como as mãos pesadas de meu pai. Uma dor excruciante me atingiu. As mãos penetraram meu peito e esmagaram meu coração entre elas. Maldito! Ele não me deixou em paz! Sua sombra cobriu meus olhos e me mergulhou na escuridão.
  • Crônicas do Parque: A verdade está onde nunca a procuramos

    Era uma daquelas manhãs escaldantes com temperaturas que variavam de trinta e cinco a trinta e oito graus célsius, com sensação de quarenta a quarenta cinco no centro-norte de Israel. Como de costume me encontrava todos os Yom Sheni (segunda-feira) no parque de Kfar Saba, fazendo manutenção nas piscinas ecológicas.

    Pegava meu bastão de rede, uma caixa plástica preta dessas de armazenar verduras em supermercados, e um balde vazio de comida de peixes ornamentais. Entrava na piscina e submergia até os joelhos no primeiro terraço em que ficava as Nymphoides, espécies do gênero das plantas aquáticas que crescem enraizados no fundo, com as folhas a flutuar à superfície da água, de cores brancas, amarelas e variadas tonalidades de flores rosa, da família Nymphaeaceae.

    Prendia meu smartphone pela sua capa ao cordão que ficava no meu pescoço, em que segurava ao peito um Magen David (Estrela de Davi) com um rosto de leão no centro, e colocava uma música suave para iniciar o meu trabalho de cuidar dos nenúfares.

    Em especial, aquela era a piscina ecológica que eu mais gostava dentre todas outras que dava manutenção no centro-norte. Pois, além de ser a maior dessa região, estava em um parque bonito e tranquilo arrodeado de belas esculturas. Essa piscina era especial, pois era a única de todas que tinha uma original carpa cinza gigante, espécie de peixe de água doce originário da China, e também havia um canteiro com Lótus Branco (Nelumbo Nucifera), um género de plantas aquáticas pertencente à família Nelumbonaceae da ordem Proteales, e também era lotada de peixes Koi (Nishikigoi), tendo o Higoi (carpa vermelha), o Asagui (carpa azul e vermelha) e o Bekko (branca e preta), que são carpas ornamentais coloridas ou estampadas que surgiram por mutação genética espontânea das carpas comuns (carpas cinza) na região de Niigata no Japão, tendo também outras inúmeras variedades de peixes-ornamentais como: peixes-dourados, peixes barrigudinho (Guppy) de diversas cores, aruanãs, entre muitos outros.

    Nesse dia em especial, me senti constantemente sendo observado por um senhor de chapéu azul e cabelos grisalhos que aparentava ter a idade de oitenta anos. Estava bem-vestido e mantinha sempre um sorriso no rosto. Ele se encontrava sentado em um banco largo que ficava próximo à piscina. E lentamente eu me aproximava dele ao curso do meu ofício de retirar as folhas amareladas dos nenúfares. E ao me aproximar daquela figura atraente, eu o cumprimentei com um Boker Tov (Bom Dia), e ele me respondeu com um Boker Or (Manhã de Luz). Assim trocamos sorrisos, e me voltei novamente para o meu ofício matinal.

    Quando o balde em que colocava as folhas amareladas e flores mortas dos nenúfares se encontrou cheio, me retirei da piscina para esvaziá-lo, o despejando na caixa plástica preta que estava perto do banco em que o senhor de chapéu azul se encontrava sentado. E, ao me retirar para regressar a piscina, ele elevou a sua doce voz anciã, perguntando-me:

    — Atah Rotze coz cafeh (Você aceita um copo de café)?

    Então, de imediato lhe respondi:

    — Ken, efshar (sim, aceito).

    Então, ele retirou de uma sacola de pano um bojão de gás pequeno e enroscou uma pequena boca de fogo nele, acoplando. Colocou o aparato ao solo, e retirou da sacola uma garrafa pet de coca-cola com água, uma pequena chaleira e dois copos de aço inoxidável. E, enquanto ele despejava a água no recipiente e acendia o fogo com um isqueiro para ferventar, fez um sinal com as mãos para eu me sentar ao seu lado.

    Enquanto a água estava para ferver, nos apresentamos e ele me fazia inúmeras perguntas sobre mim e meu ofício. Perguntas comuns que eu já estava calejado em responder. E, depois que ele preparou o café, comecei também a interrogá-lo. Para minha surpresa, descobri que ele não era judeu, mas árabe. Sendo que falava um bom hebraico sem sotaque e se vestia elegantemente, como um velho Ashkenazi. Além dele ter olhos de uma cor azul-claros como o céu que estava sobre nossas cabeças. (…Nós, e nossos pré-julgamentos…).

    Ele me falou que viveu muitos anos em Espanha, sendo um mestre sacerdote de Sufi gari (Tasawwuf), uma arte mística e contemplativa do Islão, assim como é a Kabbalah para os judeus. Ele viu o Magen David em meu peito, e disse que era bonito esse símbolo com um rosto do leão no centro. Também, me falou que esse símbolo em que os judeus se apropriaram o colocando em sua bandeira, é de muita importância para o Tasawwuf (Sufismo). E me revelou segredos importantes sobre o significado desse símbolo.

    Conversamos sobre muitas coisas, e eu o interrogava mais e mais, pois vi que esse senhor era muito sábio e ciente de tudo que falava. Ele me revelou coisas sobre a conduta do corpo, como postura e fala. Falou-me sobre pensamentos, músicas e danças místicas, e, sobre alimentação e jejuns para se ter uma vida espiritual equilibrada com o corpo físico. Nesse assunto, perguntei a ele porque não se deve comer carne de porco. Até porque eu já tinha perguntado a muitos rabinos e religiosos judeus o porquê de não comer a carne desse animal, e muitos não sabiam me responder ao certo. E, os que respondiam, falavam que estava escrito nos Livros da Lei, a Torah, mas não sabiam perfeitamente o porquê.

    Diante da minha pergunta, ele sorriu e me disse algo em que fiquei atônito. Contava ele que os porcos eram seres humanos amaldiçoados, por levar uma vida sexual pervertida na sua última encarnação. Ele me disse que por isso dentre todos os animais o porco era o mais inteligente, e, que seus órgãos internos como fígado, rins e coração são muito parecidos com os nossos, pois na verdade era um ser humano que encarnou nessa condição com a total consciência de sua vida-passada, mas que devido fato de estar em um corpo animal atrofiado não podia se comunicar para se revelar como tal. Nasceu nessa condição devido à decadência espiritual de sua vida anterior como ser humano, ao se entregar aos prazeres sexuais nojentos e tenebrosos, por isso esse animal pode levar até trinta minutos tendo orgasmos. E, assim, veio nessa condição para viver em sua podridão, ao comer seu alimento e dormir misturado as suas fezes, mesmo tendo a inteligência de defecar em um mesmo lugar, são condicionados pelos seus criadores (seres-humanos) a viver junto ao seu excremento. Também, ele me falou que o porco não tem a capacidade de olhar para cima, não podendo ver o céu, e sua pele não pode ser exposta à luz solar por muito tempo, pois não consegue transpirar, e pela falta de umidade decorrente do suor pode sofrer fortes queimaduras. Nasceu para olhar para baixo e se esconder da luz, sendo forçado por essa natureza a viver na lama. Ele também me disse, que o porco é o animal mais amaldiçoado do que a serpente, pois os porcos são invulneráveis às suas picadas venenosas. E concluiu:

    — É por isso que não se deve consumir a carne desse animal, por na verdade ser um ser-humano totalmente consciente em forma atrofiada. — e, acrescentou me revelando algo — Você sabia que não há diferença de gosto entre carne humana da carne suína… ambas possuem a mesma textura e sabor.

    Uau! Diante desses fatos que me foram apresentados por esse velho sacerdote Sufi, fiquei estupefato. E, entendi o porquê de George Orwell escolher os porcos para serem os protagonistas da revolução em seu romance satírico (Animal Farm — A Revolução dos Bichos). Provavelmente, ele sabia desse conhecimento do Tasawwuf. E isso me fez pensar, o quanto os antigos sabem do quê não sabemos. Essas são respostas que não podemos encontrar no oráculo Google. Respostas de um velho de oitenta e poucos anos sentando em um banco de parque (se bem que agora poder ser encontrada no Google).

    O velho me vendo atônito, colocou seus aparatos de café na sua sacola, levantou-se, despediu-se e saiu sem mais nada a dizer.

    E lá no banco do parque de Kfar Saba fiquei com a mão no queixo, vendo os peixes e as nymphaeas. Tão Ignorado em minha ignorante aquariofilia.

  • Dois. Capítulo três de seis

    São seis capítulos no total, postarei os seis. Este conto é de 2017. No perfil você poderá encontrar os capítulos.
    Capitulo três
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    O sol nasceu e o horizonte se fez belo, o casal de ladrões caminhou até a mesa e cadeiras colocadas no jardim, parecendo algo rotineiro para eles, conversaram bastante sobre a sombra da grande árvore.
      -O dinheiro está no quarto de nosso futuro filho, só iremos usá-lo daqui a uns dias é mais prudente mesmo já sendo ricos como fomos e agora voltamos ao patamar. A mulher beijou o marido ferozmente, como se nunca tivesse feito aquilo antes que tanto o fez e agora pela felicidade que transbordava. O sorriso do casal era como brilhos que sem que eles soubessem estavam em risco de perderem a luminosidade, eles estavam cientes de que dali para frente era só curtir a volta à vida normal, a riqueza e desfrutarem de seus desejos como a de ter um filho.
      -Que bom, agora sabemos onde o dinheiro está! Sussurrou Zé contente para Coutinho que por algum motivo não sorriu.
      Os ladrões terminaram de tomar o café e voltaram para dentro da casa, Zé e Coutinho já sabiam o que fazer entrar e ir ao quarto da criança, mas Coutinho estava comovido e comentou uma duvida:
       -Deveríamos desistir!
       -Como assim, agora é só esperar anoitecer e pegar a grana!
       -Você não os ouviu? É um sonho deles, ter um filho e dar de tudo o melhor para tal, deveríamos deixar o dinheiro para eles, de uma ou outra maneira eles conquistaram. Você não vê que eles precisam? Os olhos de Coutinho exibiam caridade.
      -Para o lazer deles perderíamos nosso emprego? E sua mulher, o que será dela?
      -Minha mulher é forte, aguenta de tudo, sabe se virar, nós conseguiremos seguir com o que nos for possível. Mas está família está acostumada ao luxo que perderam, me responde, devemos deixar o dinheiro e sairmos daqui?
      -Claro que não, eu preciso de meu emprego! Faremos nosso trabalho, você não acha que apesar de tudo isto é que é o certo? Zé tentou ouvir uma conclusão e Coutinho colocou mais razões ao seu pensamento revelando:
      -Eu não queria dizer, mas você sabe que este dinheiro entregue assim as escondidas certamente é o dinheiro do próprio povo?
      -Eu sei, mas estamos fazendo nosso trabalho seja este dinheiro vindo de onde vier, o certo é entregá-lo a quem o espera.
      Coutinho não insistiu, resolveu ouvir Zé. O aroma do café da manhã dos donos do casarão ficou como loureira. O tempo passou e a fome daqueles que estavam em cima da árvore foi aumentando e eles decidiram:
       -Vamos à cozinha! A fome era tanta que eles arriscariam serem vistos, mas se saciariam. Eles ficaram de olho e os ladrões terminaram o almoço, os empregados pareceram ir descansar era a hora certa de entrarem e enxerem de uma vez a barriga. Porem após alguns passos já na cozinha eles tiveram que se esconder, empregados ainda estavam lá, duas mulheres e os dois seguranças não tiveram como não ouvir a conversa delas, coisa que lhes foi interessante saber.
       -Você sabe que os nossos patrões estão quase falidos, já tiveram que demitir várias pessoas que trabalham aqui. Espero que eles voltem a serem os mesmos ricos de antes e que assim nós não sejamos as próximas, já pensou ficarmos sem emprego? E eles coitados nunca viveram sem o luxo, como se dariam de outra forma? Eu sou uma das que trabalha para eles há muitos anos, talvez eu seja a mais antiga, os vi ricos e não consigo imaginá-los de outra forma.
       -Nem posso imaginar, dei duro para conseguir estar aqui e eles não podem nos deixar de mãos abanando.
       -Os patrões trabalharão duro e vão conseguir nos manter, temos que acreditar que eles podem!
       -Eu quem não posso perder este emprego, tenho um filho para criar! Uma mulher falava para outra e Coutinho se comoveu e seus pensamentos de que deveriam deixar o dinheiro para os donos da mansão voltaram, pois percebeu que não eram só eles que iriam à falência, era uma espécie de peças de domino colocadas em pé em fileiras e estas iriam cair uma a uma.
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    Veja a seguir o capítulo quatro.
  • Dois. Capítulo um de seis

    Capitulo um
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         Tudo começa com um policial chefe dando ordens a dois seguranças, estes teriam que entregar duas imensas sacolas com dinheiro em determinado lugar, e dizia ele:
         -Ninguém pode saber deste carregamento, só quem sabe somos eu, meu chefe, vocês dois e o futuro receptor, caso alguém saiba ou este dinheiro não for entregue em três dias vocês serão demitidos!
         Os dois deram o positivo, tudo ocorreria bem. Saíram e os dois conversavam:
         -Vamos entregar este dinheiro logo hoje, assim teremos os próximos dias como férias!
         -Muito bom, mas não acha que deveríamos ter planos para entregar com segurança?
         -Ninguém sabe, vai ser rápido e fácil, garanto! Eles seguiram para seus carros, um disse que seguiria o outro fazendo a escolta.
         O caminho era longo de certo tinha seus pontos mais perigosos, onde se alguém quisesse roubá-los por ali tentariam. De dentro de seu carro Zé seguia o carro de Coutinho onde estava o dinheiro. O primeiro susto, um carro quebrado no caminho, parecia suspeito. Nisso Zé ultrapassou o amigo e parou o carro fingindo ir ajudar a quem estava a concertar o carro. Nada mais suspeito e ele seguiu após ver Coutinho acelerar ao passar. Depois desse susto eles relaxaram porem na hora errada.
         Um carro fechou Coutinho e deste desceu um homem e uma mulher com os rostos cobertos por talhos de panos. Coutinho foi rendido e pegaram sua arma, jogaram as chaves do carro longe e o homem com esforço colocou as sacolas no carro enquanto a mulher mantinha Coutinho em sua mira.
         -Maravilha! Disse o homem quando, pois os olhos no dinheiro e com este já em seu carro, a mulher entrou e os dois partiram estrada acima.
         Zé apenas ficou de olho, pois nada podia fazer realmente eles deveriam ter armado um plano de entrega. Mas não valia nada chorar o leite derramado. Aproximou-se de Coutinho e fez sinal para que o tal entrasse.
         -Porque você não fez nada, não atirou?
         -Esqueceu que ninguém pode saber deste dinheiro, que escândalo seria um tiroteio, nem tudo está perdido, eles não sabiam que eu te seguia e sendo assim basta não perdê-los de vista! E acelerou seguindo os bandidos. Curva vai curva vem e o dinheiro se afastava e seus empregos com ele, porem bastava acelerar e lá estavam os olhos nos bandidos.
        -Aí minha mulher! Repetia Coutinho por toda perseguição, Zé não dava atenção. Logo o carro diminuiu a velocidade e entrou numa mansão.
         -Nossa que casarão! Disse Coutinho ao ver a mansão. Eles viram o carro sumir no jardim da entrada. Estacionaram e deram de certo que pulariam o muro.
         -Vamos! Disse Zé e Coutinho reclamou das dores nas costas porem eles dois pularam o grande muro, coisa que foi fácil de fazer e não viram seguranças por nenhum lado:
         -Temos que chegar a casa! Zé logo observou os vastos e muitos pés de sabe-se lá o que estes que daria para eles subirem e não serem percebidos. Foram de uma a uma árvore, subiam e desciam, avistaram o carro e os ladrões entrarem na casa. Deram um tempo na árvore:
         -Vamos observar e agir na hora certa!
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         Veja a seguir o capitulo dois."
  • Eclipse Solstício Presságio Ruim

    Minha Amável Lua Amante

    Hoje em meu ápice momento de máxima intensidade
    Neste eterno ciclo em que me entrego iluminando a Terra em plena caridade
    Fertilizando os vegetais e a realização dos desejos mundanos
    Em que sou venerado com danças, cortejos e rituais dos seres humanos
    Ocultamente vieste repleta de Amor a me contemplar

    Mesmo que para o Povo das Fadas sua presença ofuscante neste solstício dia seja um mal sinal
    Acreditando que estou rejeitando suas oferendas de mel, cervejas e centeios em sacrifício ritual
    Alegremente e de forte energética corrente, estou aqui a me entregar
    E em tua sombra… meu puro Amor… vem minha luz apaixonadamente ocultar

    Oculta-me. Ó! Meu lindo Amor
    Oculta-me dos olhos alheios, porque hoje só a ti pertenço
    Esfria em mim esse calor de ego intenso
    Pelo menos neste curto e sagrado momento
    Em que fria e escura vem me beijar

    Sagrado momento de êxito resultante…
    Essa é nossa maestria oculta ao entendimento humano
    Que ignora nos céus o divino celestial plano
    Pelo qual, de tempos em tempos
    Neste misterioso e sagrado momento
    Em que agora se faz aos olhos terrenos
    Amorosamente no místico copular

    Minha Amável Eterna Amante
    Acompanho solitário todas as suas fases errantes
    E justamente hoje em que atingi o meu ponto luminoso mais extraordinário
    Envolvido em magias rituais e antigas tradições do coletivo mágico imaginário
    Vieste lentamente encobrindo os céus e a terra com teu manto
    Apavorando e preenchendo os corações dos homens de espanto
    Trazendo para eles a maldição de dias inférteis
    E a calamidade das forças inertes
    Apenas com teu singelo presente ato
    De no meu alegre e festejado aniversário
    Com tua noite me presentear

    É por isso, Meu Amor, que vás embora tão rapidamente?
    Porque fostes rejeitadas por esses seres dementes
    Em que o Sagrado Amor Celeste nada entende?

    Não saia de cima de mim, assim, tão rápido!
    Pois não sou eu o culpado
    Desses seres terrestres desolados
    Com sua presença e ato de amor se apavorar

    Homens e Mulheres o porquê de tanto pavor e terror?
    Se em todos os solstícios de verão vos entrego o meu iluminado fertilizante amor…
    Vos peço apenas hoje que aceite nessa vossa celebração ritual minha Doce Escura Amada
    E com fogueiras e tochas à Terra poça ser só hoje iluminada
    E juntos o Amor Celeste possamos em festa celebrar

    Não… Meu Amor!
    Não te apreces a ir tão rápido embora
    Pois hoje o dia demora
    E, também, hoje sua fase é nova
    E tua face no escuro do céu
    Encoberta com o noturno véu
    Apenas um contorno prateado
    Em um vislumbre descortinado
    Me resta a contemplar

    Ó! Ignorantes seres terrestres
    Olha o que comigo fizestes
    Nestes círculos sagrados concêntricos
    Me louvando inutilmente em seus centros
    Enciumados e pavorosos por dentro
    A minha Lua Amada a rejeitar

    Por isso, também, vos rejeitarei
    Não serei mais o seu fértil rei
    E, irado vos abrasarei
    Com meu calor de dor a vos queimar

    Ó! Lua Amada de mim…
    Esperarei novamente o contínuo retorno a ti
    Para que juntos possamos ter um deslumbre do fim
    No eclipse solstício de verão que pressagia na Terra dias pandêmicos ruins
    Pelo simples e sagrado sexo-tântrico ato de me amar e te amar tanto assim

  • Elleanor - conto/ficção

    elleanor02
    natal
    A traição será Vingada!

    ano:2019
    gênero: Fantasia / ebook
    autor: Marcos dos Santos
  • Enredo de Occulta

    Eu estava naquele lugar novamente, em uma sala sem portas e nem janelas, somente um espelho que refletia um pouco de mim, mas muito pouco, andei ate ele como sempre e me olho, olho para os meus pés e uma coisa escura estava subindo neles, tento tirar meus pés de la, mas eles estavam presos,começo a puxar mais forte e a entrar em panico ela não queria soltar, a sombra estava subindo mais, minha cintura já estava totalmente tapada, não via nada abaixo dela, cada vez que eu tentava fazer força para eu sair, mais meu corpo ficava preso e mais ela subia, meus braços já estavam tapados, a sombra para no meu pescoço mais foi só na parte da frente do meu corpo, atras ela continuava,meu cabelo que já era preto foi tapado pela escuridão, quando eu olhava para o espelho só tinha como ver meu rosto, olho para o espelho novamente e em vez do meu reflexo, estava a silhueta de uma mulher, a silhueta literalmente brilhava, ela estende a mão para mim, tento segurá-la dela mas a sombra estava mantendo meus braços presos,a mão dela vai saindo do espelho e quase encostando no lugar onde era para estar meu braço e a sombra sai daquela parte mostrando meu braço novamente, ela me puxou e a sombra foi cada vez saindo do meu corpo, eu estava ficando aliviado por não estar mais com aquela coisa, quando eu atravesso o espelho no outro lado estava aquela silhueta da mulher que brilha, mas do lado dela estava uma silhueta negra de um homem, os dois estendem a mão para mim e eu........







    Querem que eu continue?Comentem se sim ou o que pode melhorar
  • Entrevista com Grazi – organizadora da antologia Contos do Desconhecido

    1 – A Editora Immortal surge num momento em que há uma crise no nosso modelo de distribuição, com livrarias fechando e gente sendo demitida. O que a casa editorial está fazendo para driblar essa dificuldade?
    R- Após conversar com alguns livreiros locais, decidimos continuar as vendas no nosso próprio site, pois as livrarias cobram um valor muito alto pela consignação. Optamos por investir mais na divulgação dos nossos títulos e autores. A antologia teve como principal objetivo conquistar mais público e
    graças a ela estamos conquistando nosso espaço aos pouquinhos.
    2 – Porque a editora optou por se especializar na publicação de terror e seus gêneros correlatos?
    R – Logo que abrimos nosso objetivo era publicar somente livros de terror, o público desse gênero vem crescendo muito em nosso país e a equipe é composta por muitos amantes do terror. Entretanto, no segundo semestre de 2019 decidimos expandir nossas publicações para todos os gêneros, com o intuito de aumentar ainda mais nosso público e claro, ter mais lucro.
    3 – O mercado independente têm duas características principais: alto índice de concorrência e grau de rentabilidade. Como a editora se destaca no meio desse furacão indie?
    R – Estamos sempre fazendo novas parcerias e focamos em caprichar muuuito no projeto gráfico, principalmente na capa. Quanto mais bonito o livro for, mais chances ele vai ter se destacar. Também buscamos originalidade no texto, nossos autores trazem isso à tona, muitas são as resenhas que elogiam a criatividade dos livros.
    4 – Hoje, além da qualidade gráfica e dos títulos, uma editora deve procurar meios de divulgação eficiente, qual o modelo de parceria que a editora desenvolveu nesse quesito?
    R – A formação de parceria com blogs grandes e pequenos, por mais que tenhamos de fornecer o ebook ou livro físico gratuitamente para esses, a parceria sempre ajuda a impulsionar uma obra.
    5 – A Editora Immortal criou uma assinatura na plataforma Catarse. Como ela funciona e quais os seus benefícios?
    R- Colocamos a antologia na categoria flex para que pudéssemos arrecadar verba e ajudar na produção do livro, que conta com muitos profissionais envolvidos.
    Os benefícios ao apoiador são as recompensas exclusivas da antologia, itens que não irão para o mercado.
    6 – A antologia Contos do Desconhecido reúne dezenas de escritores. Como a antologia é dividida e que tipo de conto os leitores podem encontrar?
    R – Antologia está dividida em 3 temas: Creppy Pasta, Lendas Urbanas e Releituras de Clássicos. Os leitores encontrarão sobretudo o terror em diversas categorias. A inspiração para antologia é uma frase muito famosa do autor Lovecraft “A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido." Queremos trazer o Desconhecido às páginas da antologia.
    7 – Qual o modelo de publicação dessa antologia?
    R – O primeiro lote será direcionado aos apoiadores. Após isso realizaremos as vendas em nosso site conforme disponibilidade.
    8 – Quais títulos a editora já publicou e nos dê uma breve sinopse?
    R – Cidadolls.
    Fred é um escritor iniciante que pretende escrever seu primeiro sucesso. Fascinado por histórias de suspense e mistério, decide viajar para Cidadoll, uma cidade onde a fama de bonecas realistas se espalhou pela internet. Porém, o local é marcado por poucos visitantes em fator da distância e do difícil acesso. Através desta fama, e dos mistérios que cercam a cidade, o jovem escritor decide escrever o seu mais novo livro... O único problema é que Cidadoll guarda coisas muito além do que Fred poderia imaginar, ou melhor, escrever.
    Cartas de Sangue
    Cartas de Sangue e outras histórias de Violência Gratuita é uma coletânea de contos, mas conta uma só história: a corrupção humana
    Transfigurada em contos de suspense, tensão e gore, no vão entre ficção e a realidade, a violência humana aparece crua (e por vezes nua), levando o leitor a refletir sobre o quão longe alguém pode chegar.
    Evangelhos da Desgraça
    Estas páginas tumultuosas, vindas de uma imaginação mórbida, não mais contêm que textos inspirados nos grandes mestres do terror, criados para o prazer obscuro dos amantes desse gênero.
    Nestes escritos, o autor admite-se enquanto artista enlouquecido mutilando a sua sombra para prazer de um público. Pelas suas palavras, esforça-se para nos mostrar o horror da insanidade em suas várias faces, explorando ao máximo a capacidade da mente humana para se refugiar de uma realidade adversa no mais profundo desconforto e desespero.
    Prometo: estes Evangelhos não foram redigidos pelas mãos de santos. Aqui, é-nos apresentado um conjunto seleto de pequenas blasfémias, excretadas indecentemente pela língua da própria Desgraça.
    Eis, para a podridão humana, "o recriminador vidro de um espelho".
    O Landau Vermelho
    Após presenciar a morte trágica de seu irmão gêmeo e passar os doze anos seguintes desaparecido, Adam Peixoto retorna a Contagem para assumir os negócios de seu falecido pai e tentar dar um novo rumo à sua vida.
    Seu retorno, no entanto, coincide com o início de uma série de assassinatos cruéis, sangrentos e inexplicáveis, provocados por um demônio enorme, com quatro rodas, faróis duplos e capota de vinil, pesando quase duas toneladas e saído diretamente de alguma funilaria do Inferno.
    Um demônio metálico. Violento. Frio.
    Um Ford Landau.
    O Pecado de Cyn
    O meu nascimento se deu na morte.
    Nasci de um parto espontâneo, do corpo enforcado de minha mãe. Ela se foi e tentou levar consigo a aberração que gerava no ventre. Eu já nasci lutando pela vida e tenho as cicatrizes até hoje.
    Eu sou um pária. Um meio orc.
    Eternamente preso entre dois mundos que nunca vão me aceitar como um deles.
    Mas não sinta piedade de mim. Se você tiver alguma, guarde para quem merece. Até o final dessa história você vai ver que eu sou um monstro, criado para ser um monstro. Eu não quero sua simpatia. Eu sobrevivi sem ela até hoje.
    Eu só quero contar minha versão da história. Por quê? Porque se alguém pode encontrar essa história e destruí-la?
    Porque eu quero. Não importa que o mundo não conheça minha história. Nada mais importa. Você que está lendo saberá.
    E isso basta. Deve bastar.
    Meu nome é Cyn.
    Cyn dos Olhos Azuis. Pária, meio orc, criado para ser um monstro.
    E essa é a minha história.
    9 – Qual a projeção que a Editora Immortal tem para o segundo semestre de 2019?
    R – Vamos focar em publicar novos títulos, pois no primeiro semestre a equipe se dedicou apenas à antologia.
    10 – Conte tudo e não esconda nada! Quais os planos para o futuro?
    R – Pretendemos tornar novos best-sellers todos os nossos autores.
  • Entrevista com Larissa Gomes – autora de Cidadolls

    1- Com certeza você é uma das autoras mais promissoras que nosso atual mercado editorial nos apresentou. Como você definiria a escritora: Larissa Gomes?
    LG - Bem, definiria como uma fuga do óbvio e ir além do realismo. Puxando a imaginação, em imagens que surgem por músicas e sonhos.
    2- As editoras independentes tem mostrado como se publica livro em tempos de crise econômica. Essa crise é sentida nos autores independentes de que forma?
    LG - A crise é sentida de uma forma forte e triste, principalmente na área literária. Não é grande a população brasileira que é ligada à leitura e ultimamente a venda de livros tanto físicos quanto virtuais teve queda.
    3- Como a crise das grandes livrarias afeta as pequenas editoras e plataformas de publicação alternativas no seu ponto de vista?
    LG - As livrarias muitas vezes costumam adquirir livros de inúmeras editoras para o catálogo, porém com a crise elas costumam priorizar editoras de nome maior no mercado.
    4- Qual a maior dificuldade de se trabalhar em um romance do gênero terror?
    LG - O terror, por ser um gênero que instiga o imaginário em várias formas e aumenta a visão dos horrores do consciente, pode ser um desafio para escrever. O cuidado é para não ultrapassar o desconforto em um nível que deixa de ser apenas a adrenalina de uma boa trama.
    5- Todo escritor tem um acervo básico de referências na cachola. Se você tivesse que citar suas maiores influências, quais seriam e porquê?
    LG - Minhas maiores referências vão desde escritores há diretores de cinema. Mencionarei dois aqui, que inspiram minhas horas: Edgar Allan Poe e Tim Burton. Ambos, apesar de universos diferentes trazem o ar gótico e estilo excêntrico que amo me inspirar nas obras.
    6- Seu livro une terror e steampunk, um pouco de fantasia, bonecas e tem até um escritor como protagonista! Como é que você uniu tantos elementos diversos e formou a trama do livro Cidadolls?
    LG - O livro traz as referências que coleto na minha vida, além dos toques de surrealismo vindos de meus sonhos. As imagens da trama vêem com músicas e estímulos externos, se formando em um universo novo misturando estilos.
    7- Pergunta indiscreta: existe bloqueio criativo ou falta de gestão de tempo?
    LG - Bloqueio criativo, creio que sempre tem. Em um momento, a história trava e chego a pensar que não vai ir mais. No entanto, quando deixamos a mente descansar tudo retorna bem.
    8- Como um autor independente faz para brigar por um espaço ao sol com os livros estrangeiros de autores já consagrados?
    LG - Divulgando. Creio que divulgando bastante e tentando ampliar os locais onde sua história é ouvida, pode trazer mais espaço e um reconhecimento que se aproxime do que esperamos para a arte que fazemos.
    9 – Uma autora prolífica como você deve estar produzindo algo aí, nos conte tudo e não esconda nada! Quais os planos para o futuro?
    LG - Estou escrevendo ultimamente a continuidade da saga Cidadolls, além de um livro de fantasia que pretendo seguir adiante.
    10 – Qual lembrete a autora gostaria de deixar para os seus leitores?
    LG – O que eu peço para eles, é apenas uma coisa: Nunca esquecer a imaginação. Creio que, deixar-se imaginar é uma porta para mundos incríveis e viagens que a realidade pode estar longe de proporcionar.
    Deixe abaixo links e endereços para que os leitores possam visitar:
    Instagram  — @larissaactress, @ditebowery
    Mais informação do livro na bio do Instagram @editoraimmortal.
    https://www.facebook.com/EditoraImmortal/
    https://www.clubedeautores.com.br/livro/cidadolls#.XP_CFdJKgfc
    https://www.amazon.com.br/Cidadolls-Larissa-Gomes-ebook/dp/B07L2LMY7W
  • Escuridão

    O caminho era longo. Todo final de semana, ele pegava um ônibus em direção à Bérnaba, uma viagem que durava cerca de sete horas e meia. Fazia isso somente para ver a sua namorada e, após o final do mês, a sua noiva. Isso, é claro, se ela aceitasse o pedido que seria feito exatamente na data de aniversário de namoro.
    Normalmente não conseguia dormir durante a viagem. Mesmo quando estava muito cansado, cochilava e acordava constantemente. Às vezes era por causa de alguma dor no pescoço e em outras porque a sua cabeça encostava no vidro que, ao tremular, o acordava. Nessa, entretanto, conseguiu dormir profundamente. Agradeceu aos céus por ter conseguido comprar uma almofada de pescoço que o deixava sem dores e o impedia de colocar o seu rosto contra a janela.
    No meio da noite, acordou pela primeira vez. O ônibus parou subitamente no meio da estrada, todas as suas luzes apagaram e nada funcionava. Ainda sem compreender nada corretamente, ele esfregou os olhos e tentou ligar o celular para saber que horas eram, mas a tela continuava escura. Acabou acreditando que a bateria havia acabado e o guardou.
    Ainda em sua busca de descobrir o horário, abriu a cortina da janela e tentou achar algum indício do nascer do sol. Lá fora estava tudo extremamente escuro. A única coisa que conseguia enxergar era uma montanha já no horizonte. Ela parecia ser composta por três picos: o primeiro era maior que o segundo, e o terceiro era o maior de todos. A única cor que ela tinha naquela escuridão era o preto, mas não era um preto qualquer. A sua cor, que parecia como a de uma sombra mais escura do que o próprio preto, hipnotizava o seu admirador e parecia congelá-lo no tempo como se nada mais importasse.
    Ele ficou ali até ser interrompido pelo barulho da porta que os separava do motorista ser aberta. Ele pediu para que todos que estivessem aptos a empurrar o ônibus para irem lá fora e ajudá-lo a colocar o veículo no acostamento. O intuito disso era evitar acidentes já que a pane elétrica havia acontecido bem em uma curva e algum carro desatento poderia bater neles.
    Ele foi um dos primeiros a se candidatar para a tarefa. Fez isso mais para sair do ônibus do que para ajudar. Sempre odiou ficar em locais muito fechados, pois lhe causava um extremo desconforto conforme o tempo passava. Lá fora havia quinze pessoas de um total de vinte e nove no ônibus. Ninguém tinha lanternas, a não ser a do motorista que havia quebrado quando ele saiu do ônibus pela primeira vez. Não se enxergava muito bem, o alcance máximo devia ser de um metro ao forçar a vista. Ele não fazia ideia de qual era a fonte dessa pequena luminosidade já que não havia lua no céu e nem sequer uma estrela, mas a sua intuição acreditava que aquela montanha era a iluminadora.
    Ele se posicionou na extremidade esquerda da traseira do ônibus e usou toda a força que tinha para deslocá-lo. Inicialmente, ele andava muito lentamente, porém, em questão de segundos, o ônibus começou a andar rapidamente como se estivesse descendo uma ladeira. Nesse instante, com a mudança súbita de força necessária a ser aplicada, acabou indo para o chão. Sentiu uma dor nos seus cotovelos já que eles foram a primeira parte do corpo a atingir o chão, mas a dor não o abateu. Rapidamente, ele se levantou e começou a caminhar na direção na qual estavam empurrando o ônibus. Não conseguia enxergar nem o que tinha a trinta centímetros de distância, mas sentia que o terreno não era íngreme.
    Ele não conseguia achar o ônibus. O desespero começou a tomar conta da sua mente. Começava a cogitar que estava andando para o lado errado, então começou a girar lentamente e a gritar. Esperava que algum outro passageiro ouvisse e desse um sinal de onde eles estavam. Entretanto, o silêncio reinava. A montanha havia sumido junto com qualquer chance de se localizar por meio dela. A sua garganta já começava a doer de tanto gritar por ajuda. Os seus pensamentos começaram a implorar por uma resposta ou até mesmo para que um carro aparecesse com farol alto e o atropelasse. A escuridão, a falta de localização e de sinais de vida estavam começando a deixá-lo desesperado. O medo corria por todas as suas artérias, veias e capilares nesse momento.
    O medo aumentou quando sentiu alguma coisa correndo alguns metros atrás dele. A sua respiração começou a ficar mais curta por causa do medo. Aconteceu mais uma vez, porém dessa vez sentiu que ela passou pelo seu lado direito com uma leve brisa o atingindo. Começou a cogitar que podia ser a sua mente pregando peças nele. Essa paranoia devia ser muito comum em alguém em estado de pânico. Mesmo assim, ao sentir aquilo pela terceira vez e perceber que estava cada vez mais próximo, começou a correr o máximo que podia para a direção em que estava virado. Não sabia se estava na estrada ou saindo dela. Ele somente não queria parar, pelo menos não até se sentir minimamente seguro e isso significava ter alguma fonte de luz. Entretanto, isso não foi possível. Ele caiu, bateu a cabeça e desmaiou, não sabendo se algo o perseguia, o que o perseguia, se foi atingido ou se tropeçou.
    Acordou no ônibus. O sol brilhava com algumas poucas nuvens brancas prestes a encobri-lo. Via alguns pássaros do lado de fora cantando suavemente e conseguiu relaxar. Entendeu que tudo deveria ser parte de um pesadelo bem vívido, então tentou fechar os seus olhos e descansar um pouco. Apesar de inúmeras tentativas, os seus olhos permaneciam abertos. O desespero retornou. Tentou levantar os seus braços e tocar o rosto com as suas mãos, mas nada acontecia. Sentia que estava dentro do seu corpo, porém não tinha controle nenhum sobre ele. Não sentia parte alguma dele, embora estivesse vendo tudo. Era como se fosse um prisioneiro amarrado em uma cela minúscula tendo uma única janela para ficar observando o mundo lá fora.
    O ônibus parou. Sentia um desespero cada vez maior. Se tivesse controle sobre os seus pulmões, tinha certeza de que a respiração estaria cada vez mais curta quase a ponto de desmaiar. Mas não tinha e pensou se, algum dia e de alguma forma, conseguiria restaurar o controle sobre o seu corpo. As suas dúvidas aumentaram quando viu o seu corpo desafivelar o cinto de segurança, pegar a mala e sair andando completamente sozinho enquanto era um mero passageiro dos olhos.
    Quando viu a sua namorada na rodoviária, tentou pela primeira vez gritar por socorro. O som saia, mas somente na sua mente. A boca não se movia nem mesmo um milímetro. Queria chorar, mas lágrimas não saiam dos seus olhos. Nunca tinha sentido tanto medo na vida, nem mesmo durante a noite passada.
    Finalmente um som saiu da sua boca, embora ele não tivesse lançado comandos para isso. A fala era completamente normal e a conversa totalmente amigável, mas não era ele falando. Talvez a pior parte de tudo isso fosse a impotência que sentia. Nem mesmo fugir ou pensar em fugir podia já que de nada adiantaria.
    Durante o trajeto até a casa da namorada, começou a tentar a se acalmar e a elaborar hipóteses para o que estava acontecendo. A mais plausível, embora ainda considerasse difícil de ser a verdade, era que o medo que sentiu na noite anterior o tenha feito desenvolver alguma doença mental e ele ser a voz secundária de uma esquizofrenia ou uma outra personalidade de um transtorno dissociativo de identidade.
    Depois de muito tempo numa prisão na qual não podia fazer nada além de observar, chegou a noite e a hora de dormir. Durante todo o dia, nada de anormal havia acontecido. Tudo o que ele teria feito normalmente, o seu corpo fez. Agora teria que dormir, mesmo sem saber como, e desejar que tudo voltasse ao normal no dia seguinte.
    Em cerca de meia hora, o seu corpo desligou. No meio da noite, estava ligado novamente. Tinha sentado na cama de repente e com o movimento havia acordado. Verificou se tinha retomado o controle do corpo ao tentar piscar, mas ainda nada acontecia. Sentia um sorriso se formando no rosto e a sua mão lentamente indo para a mesinha ao lado da cama. Dessa vez, estava sentindo tudo o que fazia sem precisar olhar para nenhum lado. Sentia, embora não controlasse. A sua mão pegou uma caneta e o seu tronco se virou para a namorada que estava em um sono profundo. O seu braço levantou até acima da sua cabeça e depois desceu rapidamente em direção ao peito dela. Fez aquilo repetidas vezes. A caneta deve ter atingido o coração porque o sangue jorrava e diversas vezes respingava no seu rosto formando gotas que desciam pelo nariz e pelas têmporas.
    Ele fazia força para tentar retomar o controle, se concentrava ao máximo no braço para ver se ele parava, mas nada acontecia. Quanto mais esforço fazia parecia que com mais força segurava a caneta. Gritava com o máximo de força que tinha, mas o som só soava em sua mente. Queria chorar e sentia que estava fazendo isso, mas do seu rosto só descia o sangue dela que se depositava em sua testa. Sentia aquelas gotas quentes se formando como se água fervente fosse jogada na pele. Quando viu a caneta quebrando, acreditou que tudo pararia. Ela já estava morta, sabia disso mesmo que a sua mente ainda tentasse procurar algum resquício de esperança. Mesmo assim, o seu braço não parava. Finalmente, o desespero e o sofrimento fizeram com que desmaiasse. Talvez não fisicamente, mas pelo menos mentalmente.
    Acordou no dia seguinte na mesma posição em que tinha desmaiado. Ainda sem controle do corpo e, dessa vez, sem conseguir sentir os músculos. Quando a sua cabeça se moveu na direção dela, não viu nada de anormal. Ela estava lá, dormindo e sem nenhum sangue ou sinal de ferimento a sua volta. Não entendia como, mas estava feliz que estivesse daquele jeito.
    O dia foi tranquilo como os seguintes. Tinha anunciado para ela que ficaria a semana toda e, na sua prisão mental, ficou com medo do porquê disso. Descobriu o porquê nessa noite e nas seguintes. Novamente acordou no meio da noite e a matou cruelmente. A cada noite uma arma diferente era usada, podendo ser um abajur ou uma tesoura. Logo depois ele desmaiava devido ao terror e acordava no dia seguinte com tudo acontecendo normalmente.
    Entretanto, quando chegou na quarta noite, conseguiu manter a calma. Estava prestes a matá-la sufocada com o travesseiro, mas mesmo assim se manteve totalmente calmo. Repetia sem parar que tudo aquilo não era real. Deu certo, não caiu no desespero enquanto matava ela, mas, mesmo assim, desmaiou após ter terminado o serviço.
    Acordou no dia seguinte e ela já estava em pé. O sol batia no seu rosto e sentia a pele esquentar de forma bem suave e agradável. Pensou que tinha recuperado o controle, mas ainda não conseguia nem sequer mexer um dedo. Mesmo assim, pensou estar lentamente recuperando o controle. Sentiu os músculos se moverem enquanto se levantava e caminhava na direção da sua namorada. Seu braço direito levantou e acertou um soco bem no olho dela. Ela gritou de dor. Sentiu uma dor nos nós da sua mão e uma confusão atingiu a sua mente. Não era noite e ela estava acordada, portanto não via o porquê de está-la atacando. O desespero estava retomando o controle. Tentava pensar que não era real, mas era difícil quando tudo ou pelo menos os principais detalhes se modificavam. Mesmo assim, tentava se convencer de que era tudo uma alucinação.
    Quando tinha começado a se convencer disso, o que demorou menos de dez segundos, o seu corpo lançou novamente aquele sorriso e voltou a agredi-la com um chute na barriga. O seu pé sentiu o impacto. Logo em seguida, o seu corpo se montou em cima dela e começou a socar o rosto dela sem dar pausas. Os punhos doíam e sentia os ossos da face dela quebrando a cada golpe desferido. Mesmo assim, se mantinha calmo. Tinha certeza que logo desmaiaria, acordaria novamente e tudo estaria bem.
    O seu corpo parou de socar depois de uns vinte minutos de esforço físico ininterrupto. Estava ansiosamente esperando para a hora em que iria desmaiar, mas, ao invés disso, o seu corpo pegou o telefone e ligou para a polícia. Quando ele fez isso, passou a não entender nada. O sofrimento que sentia era gigantesco, então entendeu que tudo havia sido verdade. Pela primeira vez, o seu corpo permitiu que chorasse. Mesmo assim, parecia que o sofrimento só aumentava ao rolar de cada lágrima.
    Tinha sido preso e o seu corpo confessou o crime descrevendo cada detalhe. A parte que mais doeu foi quando falou que tinha gostado de fazer aquilo. A sua mente xingou o corpo com todas as palavras que sabia, mas de nada adiantava.
    Na prisão, ele arranjava briga com todos só para que a mente sentisse a dor física. O recorde dele fora da solitária ou enfermaria foi de somente dois dias. Chegou a matar algumas pessoas em brigas, mas já não ligava tanto como antes. O sofrimento que sentia por estar numa prisão dentro de outra prisão, em uma cela solitária dentro de outra solitária, já o tinha feito totalmente indiferente a tudo.
    A única boa notícia é que o corpo havia revelado o que tinha causado isso. Num sonho que tivera no primeiro dia de prisão tudo tinha ficado claro. Ele estava novamente correndo na estrada sem conseguir enxergar coisa alguma quando conseguiu ver uma placa da mesma cor da montanha que dizia “Bem-vindo a Escuridão!”. A escuridão havia consumido ele e talvez todos aqueles que estavam no ônibus.
  • Esplendor

    Jesus não era humano, tinha apenas aparência física. Partindo do ponto de vista da psicanálise, não existia complexo de edipo na relação da sagrada família. José e Maria entenderam a missão de criar Jesus, para a humanidade. Provavelmente é da família dos anjos. Tecido pelo espírito santo no ventre de uma virgem, "Maria", a escolhida entre todas as mulheres, possivelmente não tinha libido. Ao contrário dos homens, filhos de Adão e Eva, geração má e adúltera "perversa". Por isso com todo meu amor, respeito e devoção, tudo é uma suposição, mas de forma casta e clara o esplendor de Deus !!!
  • Explorar é preciso! Viver? Nem tanto...

    Admito, tenho uma compulsão por livros. Mas ler é o único vício que nunca vai te dar prejuízo nenhum. A perda monetária será acrescida em ganhos culturais e conhecimento, seja ele científico ou não. Às vezes, saciar uma curiosidade é mais do que suficiente para se ter minutos de prazer. O desconhecido é a coisa mais sedutora do mundo. Descobrir é um ato de coragem, mas também de busca pelo prazer.
                Quando passei na livraria buscando uma light novel de volume único, e não a encontrei, senti um comichão nas mãos. Me recusei a voltar para casa de mãos vazias. Tinha colocado em mente que deveria me dar um presente na semana do meu aniversário. Quando já estava quase desistindo (devido aos preços e os mangás estarem em números muito adiantados para começar a colecionar), me deparei com Ultramarine Magmell.
                Já tinha ouvido e lido sobre esse título em alguns blogs e sites como o Biblioteca Brasileira de Mangás e o Intoxianime, que são blogs que acompanho e recomendo para quem quer se manter informado sobre cultura otaku no país. Eu até tinha feito uma promessa de não comprar mangás estrangeiros e só ler material nacional, que diga-se de passagem, está num nível de qualidade excepcional ultimamente.
                Se você nunca leu a Revista Action Hiken do Estúdio Armon, ou os seus compilados como Oxente, Hooligan, Sing, Tengu e Demons Hunter, você está perdendo muito. Assim como perde aqueles que não leem os mangás nacionais da Editora JBC, Editora Draco e Editora Jambô. Se fosse para citar todos os títulos que estão sendo publicados pelo Catarse, eu teria que fazer um artigo só sobre isso. É muita opção!
                Mas o hype de Ultramarine Magmell tava tão alto que não resiste e comprei. Isso não é um pecado. O mangá é de origem chinesa, e se você acha que mangá e anime só existe no Japão e na Coreia do Sul, você está desatualizado. O mangá do sino Din Nianmiao foi publicado pela Fanfan Comic, é muito recente, conta só com 8 volumes, mas já possui um anime com 13 episódios, que já está disponível na Netflix.
                Minhas impressões sobre o mangá são as melhores possíveis. Ele tem como inspiração mangás de exploração como HunterxHunter. Nesse tipo de obra, personagens saem pelo mundo explorando lugares, territórios perigosos e desconhecidos. Só que aqui a fórmula ganha um novo conceito: o de resgate. O protagonista, Inyo, não é um explorador, mas sim um angler, o responsável pelo resgate de exploradores.
                Talvez tenha adiantado um pouco as coisas, mas não é tão difícil de entender. Há 35 anos atrás, um continente novo surgiu no oceano, seu nome, Magmell, a Terra Sagrada. O lugar é imenso, e tem toda uma riqueza de flora, fauna e minérios totalmente novos e com potenciais quase ilimitados. Além disso, eles têm habitantes nativos, que só dão as caras lá no fim do volume 1.
                O Inyo trabalha numa empresa chamada Drift, e tem como assistente a Zero, uma menina supersimpática e inteligente. O volume tem como meta apresentar os protagonistas e um pouco do funcionamento desse novo mundo, inexplorado e perigoso ao extremo. Relação entre os protagonistas é muito boa. Eu achei acertada a decisão do autor de trabalhar com um núcleo pequeno e desenvolvê-los.
                É um shonen, sim, mas com suas peculiaridades. Há temas adultos sendo tratados aqui. Há história do cliente que desejava resgatar o irmão em Magmell é mais do que emocionante, nos provoca muitas reflexões. O que acontece em Magmell é mais do que uma exploração, é uma colonização global onde empresas e Estados diversos estão lá por interesses próprios, mexendo em todo um ecossistema de forma predatória.
                Como num mangá desse tipo, que privilegia a aventura e o mistério, a ação não ocorre desenfreada, ela tem um papel maior aqui. O título tem muita informação, mas devido ao contexto, elas acabam fazendo sentido e parte da trama, nada é jogado do nada, nem torna a leitura cansativa. O caracter design é muito legal, o cenário, o uso de texturas, e os monstros são bem desenhados. Se você gostar de easter eggs, se ligue nos quadros.
                No começo, achei que a história seguiria uma fórmula padrão num cenário limitado, mas quando avançamos uns três capítulos, entendi que não havia limite de enredos possíveis aqui. Magmell é muito grande, e a quantidade de conflitos que podem surgir sobre e por ela é muito extenso. Os yerin foram uma ótima surpresa. As cenas de ação são frenéticas e surpreendem pela dinâmica.
                Os protagonistas parecem possuir algum tipo de habilidade especial chamado Lacto, uma energia escura que se molda de diversas formas. Inyo e Zero são usuários dessa habilidade, os chamados Racters. O autor não explicou muito bem como ela surge, não tem nem sequer uma nota de rodapé traduzindo os termos que originalmente estão em inglês. O bom do mangá é que não temos os desnecessários pronomes japoneses!
                Eu recomendo o mangá por ser curto, de qualidade e está sendo publicado pela Panini Editora. Só espero que a publicação seja regular e siga até o final com preço justo. O mangá custa R$ 22,90, não tem páginas coloridas, orelhas ou quaisquer páginas extras. O freetalk do autor está no verso da capa. O verso da contracapa tem uma ilustração exclusiva. De bom veio um marcador de página exclusivo. Leitura recomendada.
  • FELICIDADE NA DOR: PARTE 2

    Carmen parecia ter acordado de um transe ao notar o chão repleto de sangue. Após a ficha literalmente cair percebeu o horario e faltava pouco para a filha chegar. Seria um choque, e ela, sua mãe, fora a responsável.

    Sempre educou as filhas, tanto Janete quanto Julia tiveram bons exemplos no lar. Jeremias, pai das moças hoje adultas e independentes contribuira ativamente. Tendo somente mulheres em casa, buscava orientar as meninas a se respeitarem em primeiro lugar. E jamais permitir homens contrários a esses preceitos em suas vidas. Ou seja, não admitiria vê-las sofrer nas mãos de quem fosse. Assim cresceram parecendo ter absorvido suas orientações.

    Janete casou primeiro, até por ser cinco anos mais velha em relação a Julia. Na época tinha vinte e cinco anos. Oito anos depois foi a vez da irmã. Nesse momento o casal Carmen e Jeremias sentia ter cumprido sua missão, afinal ambas estavam seguindo a vida ao lado dos maridos e os respectivos eram bons homens. Tempos depois a família cresceu, o neto Iago hoje com três anos, filho de Janete e Saulo preenchia ainda mais com a alegria e naturalidade infantil. Cobranças para Julia e Flávio que levavam de bom humor afinal a pouco sua união completara quatro anos. Em vários fins de semana todos se reuniam e emocionava observar.

    Os pensamentos de Carmen por alguma razão proporcionaram uma breve retrospectiva. A ocasião era turbulenta mas inusitada pois, havia serenidade em seu interior. Mesmo ciente das consequências. Foi quando pegou o celular e mesmo relutante efetuara a ligação. Se era o certo, não tinha a menor idea mas sabia das lágrimas, tristezas e decepções por vir.


    CONTINUA...
  • FELICIDADE NA DOR: PARTE 3

    Julia estava cansada, o plantão de vinte e quatro horas fora acirrado. Para complicar a cidade de pernas para o ar atrasou seu retorno. Por conta disso contactou a mãe para desmarcar sua visita mas o celular teimoso em caixa postal. Eram vinte e três horas e cinquenta e oito minutos e aquela altura pensava apenas em relaxar.

    A moça estava na rua de casa, muitas pessoas circulavam e pelo horário chamava a atenção. Visualizou carros de polícia e ao se aproximar pareciam estar em frente a sua residência. O temor concretizou-se, coração disparado e pernas trêmulas. Policiais adentravam, uma área isolada demarcada e curiosos ao redor. Parecia filme mas era verdade.

    Julia quiz entrar e foi impedida, transtornada se apresentou como dona da casa e uma confusão teve início. A investida surtiu efeito, adentrara e a imagem chocante. Uma enorme poça de sangue e no chão, sem vida, o marido Flávio.  A moça caiu em prantos, tudo girava, seria pesadelo ou alucinação, assim imaginava. Os policiais a ampararam e mesmo sem condições psicológicas inúmeras perguntas começaram.
    A jovem mulher não sabia onde estava. Em poucos minutos seu rosto inchado devido ao choro ilustravam o cenário estarrecedor. Por estar sem condições os oficiais entraram em contato com sua família e expuseram o  fato ocorrido. Janete foi a escolhida, mesmo em pedaços a moça não quis envolver os pais para dar de imediato a notícia.

    Naquela hora Carmen chegava em casa e pensava se fez a escolha certa. Imaginava a dor da filha e isso lhe cortava o coração. Mas decidiu ligar para as autoridades e agora restava esperar e não levaria muito tempo, precisava correr.

    CONTINUA...
  • Iniciando o pecado

    Por sorte conheci Ângela.
    Era magra, um pouco alta, loura, seus cabelos caiam sobre seus ombros com leves ondulações, era branca, suas bochechas eram rosadas, seu nariz avermelhado e lábios finos com um tom bem claro.
    Era adoravelmente simpática, seu sorriso era bem quadrado, como se fosse uma dentadura. Estava no segundo ano de medicina. Só sabia falar sobre isso.
    Falava como o cheiro hospitalar era viciante. Contava curiosidades sobre o corpo humano. Explicava sobre as partes inúteis do corpo.
    Era engraçada.
    O clima ficou tenso quando começou a falar sobre seu ex. Um cara qualquer. Futuro advogado. Um babaca que queria que ela desistisse da faculdade.
    Eu não me importava com nada que ela dizia.
    Mas queria me importar. Seus olhos claros, verdes ou azuis. Não lembro. Eram tão bonitos, tinham um brilho. Como se a vida dela até aquele ponto fosse tudo perfeito. Mas não era.
    Há alguns meses sua irmã ficará paraplégica num acidente de carro. Algo que me fez sentir mais próximo dela, já que tínhamos isso em comum.
    Seu foco na área, era descobrir um meio de fazer sua irmã voltar a andar.
    Ela tinha fé, mesmo dizendo não acreditar em Deus. Diferente dela, eu tinha uma crença enorme no pai divino. Eu era o escolhido. O filho de Deus.
    Minha avó começou a me levar para a igreja após a morte da minha mãe. Dizia que encontraríamos a paz lá. Encontrei a paz alguns anos depois numa missão divina.
    Ângela me perguntou sobre meu passado. Inventei uma historia, onde eu tinha uma família perfeita, feliz e viva. Contei coisas engraçadas sobre minha mãe. Contei sobre o arroz que ela queimou uma semana antes.
    Tudo mentira. Ângela ria.
    A festa já havia começado. A conversa estava tão boa que nem percebemos.
    Umas trinta pessoas estavam ali. A casa não era grande, tendo apenas um quarto, sala, cozinha e banheiro. Não era muito confortável, os cômodos eram minúsculos. Mas aconchegantes.
    Percebi que Ângela foi conversar com outros amigos. Fico sozinho. Algumas pessoas que passavam por mim, falavam comigo e ofereciam bebidas. Mas recusei. Jamais havia bebido álcool.
    Tentam puxar assunto, mas ignoro-as. Vejo os passos de Ângela, observo aquele sorriso saltar de conversa em conversa. Com a mão direita ela coloca uma mexa do cabelo atrás da orelha. Olha-me e sorri. Então some na multidão.
    A música esta cada vez mais alta. As luzes coloridas fazem minha visão ficar turva. De repente alguém grita ao pé do meu ouvido.
    “Quer ir ao quarto?” – era Ângela, rebolava e bebia uma bebida colorida.
    “Fazer o que?” – Pergunto... Atualmente me envergonho disso.
    Ela se inclina e me responde com um beijo.
    Um beijo de língua, sinto o sabor do álcool, mas não recuo, sinto o calor da sua língua, dança na minha boca.
    Beijo termina. Ela sorri.
    Agarra minha mão me puxa em direção ao quarto. Minúsculo quarto.
    Meu coração estava batendo o mais rápido possível. Ela abre a porta branca e entramos naquele pequeno espaço, com uma cama que tem um abajur na cabeceira, uma arara com diversas roupas espalhadas. Sobre a cama, estava um cara de porte físico bem atlético, junto de uma garota ruiva, totalmente nus.
    Ângela faz sinal para que saiam, foi quando notei, que ela era a dona da casa.
    Os dois obedecem, sem retrucar. Saem e fecham a porta.
    Ângela ri. Começa a dançar.
    Sou virgem. Ela sabe disso. Segura minhas mãos e põe sobre em sua barriga. Estava quente.
    Ainda segurando minhas mãos, sobe devagar sobre aquele seu corpo macio, fazendo com que eu tire sua camiseta. De sutiã preto ela rebola.
    Aquele excesso de informações, misturado com a bagunça que meus hormônios faziam dentro de mim, me deixava meio perdido.
    “O que eu faço?” Pensava frequentemente. Mas Ângela me dava às direções.
    Soltará o sutiã. Aquele belo par de seios do tamanho de maçãs, me fez vidrar ainda mais naquele corpo. Belas maçãs rosadas. Ela continua controlando minhas mãos. Passa elas sobre as maçãs, meu corpo esquenta. Ela mordisca meu lábio e se entrega num beijo estalado. Um beijo forte, com fogo e paixão.
    Ela deita. Olha-me nos olhos.
    Como se meu cérebro tivesse recebido instruções através daquele beijo, ele passa a fazer tudo automaticamente. Passo minha língua naquelas belas maçãs rosadas, desço pela sua barriga e abro seu short. Retiro-o e fico olhando para sua calcinha roxa com lacinho preto.
    Sem pensar duas vezes retiro toda minha roupa, não me importo em ficar nu. Deito sobre aquela garota de seios rosados, ela esta toda nua agora. Faço os movimentos no quadril como se estivesse programado no meu instinto.
    Movimentos repetidos. Corpos quentes.
    Sinto suas unhas arranharem minhas costas. Passo a mão em seu rosto. Em seu cabelo. Em seus braços, peitos. Beijo seu pescoço. Ela me agarra com mais força.
    Acelero o movimento. Ida e volta sem pausa.
    Novamente ela segura minha mão, leva até seu pescoço, o seguro e a beijo. Beijo firme.
    Ida e volta. Vai e vem sem pausa.
    Ela se contorce de prazer. Suas unhas arranham minhas costas, mais e mais. Suas pernas se contraem. Ela geme. Gemido abafado.
    Sinto minhas costas arderem. Seus olhos estão revirados e sua boca aberta.
    Gozo.
    Então foi quando percebi. Ela estava sufocando. Já havia sufocado, estava morrendo. Suas mãos caem sem força sobre a cama.
    Penso em pedir ajuda, mas minha voz não quer sair. Aqueles lábios que me beijavam há pouco tempo atrás estavam arroxeando. Ela não se move. O abajur na cabeceira da cama havia caído por causa do vai e vem.
    Entro em pânico. Corro para o banheiro e vomito. Vomito muito. Sento ao lado do vazo e começo a chorar.
    “O que houve?”
    “O que eu fiz?”
    Essas perguntas varriam minha mente. Eu precisava de ajuda. Ninguém me ajudaria. Minha avó ficaria louca. Choraria sem parar.
    “Você se tornou como sua mãe.” – Diria ela gritando e tentando furar o cerco policial.
    Eu estava sozinho. Ninguém poderia me consolar. Mas no meio daquele choro, tive forças para ficar em pé. Deixo o corpo do meu corpo sobre a pia, enquanto me olho no espelho. Vejo meu reflexo. Aparentava ser bem mais jovem. Cabelos bagunçados, nada de barba e olhos inchados. Aquela imagem me faz rir. Estar totalmente em pânico e não ter nenhuma saída, me fazia rir.
    Rir era a única coisa que poderia me ajudar.
    Penteio o cabelo com um pente que estava ali. Estou mais calmo. Respiro fundo. Mesmo sem entender o que aconteceu. Sorrio para o reflexo e ele me imita.
    Volto para o quarto.
    Ângela ainda esta lá. Nua e linda. A luz reflete sua pele pálida. Deito-me ao seu lado. Aconchego minha cabeça sobre seu ombro.
    “Como isso aconteceu?” – Pergunto a ela.
    “Perdoa-me, ok? Foi sem querer” – Tento me redimir com ela.
    A cubro para que não sinta frio. O som estava bem alto, poderia atrapalhar seu sono.
    Sono profundo.
    Sua boa ainda esta aberta, assim como seus olhos, que mesmo revirados são lindos.
    “O que eu fiz?”
    “o que estou fazendo?”
    Minha mente esta tentando me trazer para a realidade. Matei mesmo aquela garota. Sem motivo algum.
    Matei por ela ser linda? Não.
    Matei por que me apaixonei? Não.
    Não havia explicação, apenas duvidas. Coloco minha roupa e a visto também. Desculpa Ângela. Coloco seu corpo no meio das roupas que estão jogadas na arara. E me despeço. Sinto vontade de beija-la, mas minha sanidade ainda falava comigo. Ainda
  • Inúmeros ‘eus’ demônios de mim

    Sentia-se cansado depois de um longo dia de trabalho árduo. Tirou seus sapatos, e como de praxe, pendurou-os pelos cadarços em um extintor de incêndio que se encontrava na entrada do acampamento. Fazia isso, todos os dias, para que os insetos nocivos como aranhas e escorpiões não fossem ter seus calçados como abrigo. Tirou suas roupas de trabalho, que mais pareciam como fardas de soldado, e pendurou-as em um barbante que estava esticado ao lado das paredes feitas de pequenas varas de bambu. E ainda vestido com finas roupas brancas de baixo, pegara sua pequena sacola de pano, que comprara em viagem ao Peru, onde cotinha seus produtos de higiene e limpeza corporal, e fora rapidamente para o banheiro tomar uma ducha quente.

    — Finalmente! — exclamara para si mesmo se enxugando e caminhado para vestir sua confortável roupa de dormir.

    Pegou alguns pedaços de madeira, colocou em uma pequena lareira de ferro que se assentava ao solo, colocou um bule com água para esquentar na plataforma da lareira, e fora se sentar numa pequena poltrona ao lado, se aquecendo do imenso frio do inverno desértico israelense. E, com uma xícara de chá de Erva Luíza envolvida pelas suas mãos, para, também, aquecê-las, levava a boca dando pequenos goles em curtos espaços de tempo, onde seus pensamentos rodopiavam com os estalares da madeira incendiada, fazendo uma pequena retrospectiva do seu difícil dia.

    Ao terminar de tomar o seu calmante chá, massageava seus pês com uma solução que fizera com alecrim, azeite de oliva, essência de lavanda, óleo de sementes de uva, óleo de amêndoa e mel.

    Lamentavelmente, pensando, percebera que por falta de sabedoria os seres humanos construíam em suas vivências inúmeros ‘eus’ demoníacos, roubando-lhes suas consciências e alegria de vida. Pensava isso, pelo fato de presenciar nas atitudes de seus companheiros de trabalho, os muitos agregados psíquicos aproveitarem-se de alguns conhecimentos adquiridos para se auto afirmar. Conhecimentos estes, sequestrados pelo mau ego, que tornam o ‘pequeno eu’ perigosamente astuto, capaz de formular os piores crimes emocionais e sentimentais, explorando o homem pelo homem, destroçando as inúmeras capacidades intuitivas, e as diversas expressões artísticas, filosóficas e religiosas do ser.

    Este ‘pequeno eu’ sabotador, que na verdade são múltiplos e se arma de intelectualidade, destrói os verdadeiros valores existenciais que sempre vem sustentando a espiritualidade humana, dando o pior de si mesmo em sua astucia mecanicamente intelectual, para conseguir seus “altos” níveis de prestígios sociais, políticos e econômicos. Imbuído de sua vaidade doentia e arrogante que crê firmemente que em si mesmo e por si mesmo está pensando, sem se dar conta que sendo um pobre mamífero e bípede intelectual, está apenas sendo controlado por seus múltiplos sentimentos e emoções que são subordinados aos seres semelhantes, assuntos e objetos externos, e, não a si próprio.

    Intuitivamente, também, percebera em si mesmo os muitos ‘eus’ agregados e trapaceiros, que apesar de constituir uma só parte, ilusoriamente crera ser o todo em um dado momento. Nessa intuição, vira que quando surgia repentinamente um sentimento de ódio por uma determinada pessoa, pensara erroneamente que a totalidade do seu ser estava odiando, enquanto apenas um determinado eu era o autor de tal sentimento odioso.

    Percebera-se diante de um mundo pluralizado dentro de si mesmo, em que no exterior confeccionava o indivíduo. Inúmeros pensadores que apesar de fazer parte de um só corpo e mente, se crê que é um todo, momento a momento.

    Vira que os seus processos de identificação, empatia, amor, ódio, rejeição e discriminação eram apenas pequenos ‘eus’ interesseiros e oportunistas, em que o fazia de vítima ou vilão de cada situação. E, diante disso, queria sempre se manter alerta, questionando toda e qualquer forma de emoção, pensamento e sentimento autônomo que infortunadamente o dirigisse. Principalmente para o que dizia respeito as intenções, palavras e ações alheias. Não esquecendo, é claro! Que esses inúmeros ‘eus’ mesquinhos e desarmônicos, apoderam-se constantemente de situações que não foram devidamente analisadas e meditadas, que tornava a personalidade vítima das circunstâncias e intenções maldosas alheias.

    Sentado no conforto da lareira, repetia para si mesmo mentalmente, exclamando:

    — Tenho que viver em estado de profundo alerta constante!

    Desejava não mais ser enganado pelos inúmeros ‘eus’ internos que só lhe causavam discórdia, ou pretendia afastá-lo da senda do conhecimento místico espiritual. E, mentalmente dizia para si mesmo:

    — Se eu deixar que esses ‘eus’ demoníacos internos atuem… pensando e sentindo por mim, nunca estarei no real controle. Nunca serei o senhor do meu destino e de mim mesmo. Apenas pensarei estar pensando, sentirei que estou sentindo… enquanto é ‘outros’ agregados que pensa com minha mente, e sente como meu coração. Sendo eu arrastado pelo vento, levado pela correnteza e inflamado pelo fogo.

    Se vira escravo… escravo das circunstâncias culturais que o acorrentaram desde o seu nascimento a um corpo animal cheio de desejos, vícios, medos, traumas, percepções e concepções errôneas do universo e da natureza em seu cotidiano urbano social. Que negativamente se fazia personificado nas associações e identificações mecânicas de si mesmo, e dos demais seres semelhantes no coletivo sentimentalismo mórbido e agregados psíquicos de um mundo em que a fantasia era a realidade do animal intelectual. Amando demasiadamente a si mesmo, se auto vangloriando, imbuído de autoconsideração que o conduzia inevitavelmente à autocomiseração. Pensado ser o “bom-homem”, no papel da vítima, em que ninguém ao seu redor sabia apreciá-lo. Tudo isso graças a má-educação psicofísica, somada a uma pitada de pobreza espiritual e ignorância cultural, que o tornava produto intelectual de formas estereotipadas de reagir sem pensar a toda e qualquer situação adversa, levando as diversas maneiras equivocadas de sentir e pensar nos inúmeros mecanismos autônomos negativos de se entregar a emoções inferiores, e luxuriosas do prazer e a da dor.

    Nisso, percebera a compaixão que tinha que ter com seus semelhantes e consigo mesmo. Não punir, e nem se punir. Não condenar os seus sentimentos negativos e inferiores, e nem condenar esses mesmos sentimentos no seu semelhante. Nem tão pouco procurar motivos para justificá-los, mas, observar e se auto observar em um ato de recordação de si mesmo, na procura de conhecimentos ajudadores dos inúmeros estados que nos levam a tal decadência, e dos equívocos da consciência suprema espiritual. Em que vivemos lamentado o perdido… chorando pelo leite derramado na recordação atormentante dos velhos tropeços e calamidades… odiando o que desprezamos em nós e no outro… manifestando um amor-próprio narcisista exagerado… e em pensar se vamos ser aprovados pelos julgamentos alheios.

    E, essa compaixão nada mais era do que sacrificar os nossos próprios sentimentos, emoções e pensamentos de quem somos. Sacrificar os nossos próprios sofrimentos, medos e complexos. E ser como o céu… que mesmo estando em toda parte, observando e englobando o todo de tudo, nunca pode ser tocado… nunca pode ser contaminado!

  • Janela

    Há pelo menos uma coisa que todos os humanos, sem distinções, fazem com frequência: dormir. Isso é algo bom, saudável e almejado, principalmente depois de um dia longo de trabalho. Entretanto, tudo isso tem um problema. Afinal, como saber como é não estar dormindo?
    A maioria das pessoas acredita saber quando está acordada por simplesmente terem nascido sabendo. Há aqueles que acreditam inclusive que conseguem controlar o sonho, então, se não podem controlar outra realidade, logo não é um sonho. Entretanto, não pode ser possível que a pessoa esteja em um sono tão pesado que ela simplesmente tenha perdido o controle sobre o seu subconsciente?
    João não pensava muito nessas possibilidades. É claro, já estava dormindo menos de três horas pelo quarto dia seguido quando finalmente terminou o seu projeto para a faculdade, então não pensava em muitas coisas fora isso. Não se lembrava ao certo de como acordou, se passou desodorante ou se escovou os dentes, mas isso era normal já que essas eram somente partes corriqueiras do dia e não estavam incluídas na ação do cotidiano. Uma ação que era monótona, mas que movimentava intensamente os seus sentimentos e causava tanta agonia em certos momentos que chegava a se assemelhar a um pesadelo.
    Assim que enviou o arquivo com o seu trabalho para o e-mail do professor, foi dormir. Não queria pensar em mais nada por umas doze horas seguidas e, por isso, somente se jogou na cama, se cobriu com um cobertor que não estava cheirando tão bem e fechou os olhos. Não precisou se dar ao trabalho nem de relaxar os músculos ou ficar pensando em algo para pegar no sono, simplesmente dormiu.
    Quando acordou, não se lembrava de ter sonhado algo. Tudo ao seu redor estava escuro, mas estava sonolento demais para se importar. Ele estava se sentindo bem mais relaxado e totalmente renovado, embora ainda sentisse a preguiça de ter acabado de acordar. No momento exato em que se levantou, todas as luzes acenderam. Não estava mais no quarto em que foi dormir, mas em uma cabine com paredes totalmente brancas. Não havia portas ou janelas, somente as quatro paredes que o confinavam em um espaço minúsculo. A sua respiração se encurtou com o medo e começou a pensar rapidamente nas possibilidades da causa de estar onde estava. Pensou desde abdução até um teste ilegal do governo e só depois disso pensou na possibilidade de ser um sonho. Essa era a resposta, tinha que ser isso. Mas, ao pensar mais um pouco, não parecia ser um sonho. Afinal, tudo parecia real demais, tanto que sentia a textura lisa e macia das paredes ao tocá-las.
    Não conseguia entender nada com total certeza e isso o frustrava. Com os olhos cheios de lágrimas que se recusavam a descer, ficou rodando o minúsculo lugar em que se encontrava para tentar solucionar o maldito quebra-cabeças em que estava. Quanto mais rodava, mais se esquecia dos detalhes daquela realidade que julgava ser a real. Toda a sua família, embora conseguisse ver com clareza o rosto de todos, parecia ser uma lembrança distante e quase tudo que pensava saber sobre eles não parecia totalmente certo. Sobre o seu irmão mais novo, por exemplo, ele se lembrava de ter ido na formatura dele da faculdade, mas agora, por algum motivo, sentia que ele era muito mais novo do que isso. Por não saber mais se poderia confiar na sua memória, a raiva gerada pela frustração começava a aflorar.
    No momento em que pensou que não sabia mais quem era, percebeu que o eu dessa realidade também não se lembrava de muitas coisas. Isso não era muito animador já que podia haver diversos motivos para ter tido perda de memória e aquilo ter sido o subconsciente tentando lembrá-lo de algo por meio de um sonho. Mas, de algum modo sútil, indicava que não podia confiar em nenhuma das duas realidades já que ambas podiam ser verdadeiras, nenhuma delas ou somente uma delas.
    O único jeito de saber no que confiar era testando a realidade em que estava. Não podia saber se o primeiro cenário era real porque agora só estava em suas memórias, mas ele estava no segundo cenário. Buscou em sua mente todas as lembranças sobre coisas que falaram de sonhos, embora não conseguisse saber nem quando, onde ou quem havia dito essas coisas. Lembrou-se de diversas coisas e por elas sabia que era difícil ler em sonhos por tudo estar embaçado e mudar de repente, que normalmente se sonha com locais conhecidos, e que, quando se percebe que está sonhando, é fácil de controlar o que acontece a sua volta. Infelizmente, só restava a última possibilidade já que não tinha nada para ler e com certeza não conhecia o local em que estava.
    Decidiu sentar em cima dos seus joelhos porque sabia que essa era uma das posições de meditação e com certeza iria necessitar da máxima concentração possível nessa hora. Fechou os olhos e imaginou aquelas paredes brancas explodindo e uma ilha paradisíaca surgindo a sua volta. Abriu os olhos estando mais calmo e relaxado. Quando terminou, a decepção caiu sobre a sua mente uma vez que tudo estava exatamente igual. Tentou repetir todo o processo e de diversas maneiras: olhos abertos, em pé, deitado e em mais umas outras dez posições. Nada. Absolutamente nada. Tentou também mudar a realidade dentro do quarto branco ao imaginar objetos e diversos possíveis superpoderes que queria ter. O máximo que conseguiu foi se sentir como uma criança de oito anos após assistir ao x-men e acreditar que talvez também pudesse ser um mutante.
    Todas as tentativas o deixaram exauridos mentalmente e sentimentalmente. A combinação gerou a raiva e essa fez ele começar a esmurrar as paredes com total ferocidade. Depois de uns vinte minutos socando o chão, o teto e cada uma das quatro paredes, atingiu um local que não havia nem encostado até aquele momento. Seria na altura de um interruptor e longe o suficiente da quina formada no encontro das duas paredes para que fosse construída uma porta se essas coisas existissem no quarto.
    No exato momento que atingiu esse suposto interruptor, uma das paredes começou a se levantar. João correu até ela pensando que podia ser uma saída. Entretanto viu que se tratava de um vidro cuja espessura não conseguia identificar. Assim que a parede parou de subir ao atingir o teto, uma vista surgiu através do vidro. Nunca tinha visto uma imagem como aquela. Estava na beira de um penhasco num dia ensolarado, talvez no meio da manhã, e de lá via um rio que vinha atrás de onde aquele quarto branco estava, passando distante o suficiente à sua direita para não simbolizar um perigo. Descia o penhasco em uma alta cachoeira e lá embaixo se tornava uma rápida corredeira até que entrava em uma floresta como um rio calmo e de correnteza não tão forte. Essa floresta não era muito densa, sendo composta principalmente por pinheiros. No fim de um mar verde de árvores, havia uma cordilheira de montanhas com um tom levemente azulado e com neve no topo da maioria delas.
    Ficou admirando aquela paisagem durante alguns minutos. Era extremamente reconfortante enxergar aquilo tudo depois de passar sabe-se lá quanto tempo somente vendo a cor branca. Depois de se acalmar, começou a encostar em cada parte do quarto em busca de algum outro botão. Afinal, se existia uma janela poderia existir uma porta. Provavelmente horas se passaram, mas a única coisa que conseguiu foi o fracasso. Deve ter percorrido todo o quarto umas cinco vezes antes de desistir sem achar nada.
    Após desistir, ficou muito tempo sentado na extremidade oposta a janela encarando a paisagem. Novas questões começaram a atormentar a sua mente: será que isso é mesmo uma janela? Não pode ser uma televisão? Essa seria a saída? Se fosse um sonho, durante a queda ele acordaria? Se não acordasse e morresse no sonho, morreria na sua outra vida? E se essa fosse a realidade, acabaria por se suicidar sem querer? A cada nova pergunta e possibilidade que surgia, abaixava a cabeça e colocava as mãos nos ouvidos os pressionando. Sentia o tormento de ter que tomar uma decisão importante. Então, esperaria para tentar recuperar pelo menos mais um pouco da memória e achar uma outra saída ou se jogaria contra o vidro esperando não se machucar e essa ser a solução para todo o seu tormento?
    Hesitava em tomar uma decisão. Sabia que não tinha como voltar atrás no momento em que pensou nas possiblidades que tinha. Nesse exato instante, soube que a sua mente iria atormentá-lo com as possibilidades que tinha de maneira eterna, principalmente se tomasse a decisão mais errada. E é claro que ele também sabia que não tomar uma decisão também seria somente a escolha de uma possibilidade. Não havia nenhuma chance de escapar disso, pelo menos não depois de ter pensado.
    Infelizmente, quando se tem que escolher por um caminho, não é possível ver o seu interior e também não é possível retornar. Também não se pensa muito no ter que escolher, se focando nos caminhos mais atraentes a sua frente. Talvez seja por isso que João não percebeu que ficou somente encarando aquele vidro e, por um longo tempo, escolheu involuntariamente ficar parado enquanto se perdia em seus pensamentos.
    No meio da bagunça da sua mente, encontrou uma trilha que o levou a uma afirmação. Ele percebeu que não valia a pena ficar parado em sua prisão sem fazer nada e que talvez ir na direção da morte valeria mais a pena do que viver muito em um cárcere agoniante. Embora nem sempre fosse assim, nessa situação tinha convicção de que o risco valia muito mais que a certeza. Por isso, se levantou lentamente e, assim que terminou de ficar em pé, gritou o mais alto que pôde para afastar os seus demônios. Se sentiu mais aliviado e gritou uma segunda vez, mas nessa começou a correr o mais rápido que pode. Atingiu o vidro com o máximo de sua força e usou o ombro como ponta de lança. Cacos de vidro se espalharam para todos os lados e começaram a cair de uma altura gigantesca junto com o corpo de João. Ele sentia o vento frio que entrava em contato com a sua pele quente e a sensação de liberdade que isso criava o fazia crer que podia voar, embora caísse em uma velocidade extremamente alta. Via rapidamente diversas partes da paisagem, tendo rápidas visões do verde da floresta e da queda d’água que estava ao seu lado. Talvez por ter simplesmente se livrado do peso de ter que tomar a decisão ou por algum outro motivo que ele nem sequer entendia, João gritava ao mesmo tempo em que tentava esboçar um sorriso. Com certeza estava feliz nos últimos segundos antes de acordar.
    Abriu os seus olhos lentamente, ainda confuso com tudo o que estava acontecendo. Só conseguia ver luzes e paredes brancas, o deixando com o coração acelerado. Os seus movimentos estavam limitados, mas não entendia o porquê disso. Ouvia vozes que pareciam estar muito distantes e que foram lentamente se aproximando. Depois de um tempo, conseguiu ver uma imagem ainda um pouco desfocada que conseguiu identificar como um médico.
    Aos poucos conforme os seus sentidos melhoravam, as notícias começaram a ser dadas. Depois de umas duas horas que havia enviado o trabalho, o professor havia respondido com as diversas mudanças necessárias. João foi acordado com o aviso do computador de recebimento de e-mail e, como o prazo era curto, resolveu acordar, ir até alguma loja que estivesse aberta e comprar energético, café e qualquer outra coisa que o deixasse acordado. Ele foi de carro, pois a única loja aberta durante a madrugada era a de um posto de gasolina que ficava muito distante. No fim, bastou uma batida para deixá-lo em coma por cinco anos e meio.
    Era difícil não deixar de pensar que podia ter saído do coma a qualquer momento desde que aquela janela apareceu. É claro que ele não tinha total certeza da relação entre as duas coisas já que pode ter tido muitos sonhos e esse ter sido somente um deles, mas os seus instintos tinham a certeza. Talvez muito tempo pudesse não ter sido desperdiçado e o seu corpo não definhado tanto se tivesse feito uma outra escolha. Ele não sabia na época que às vezes o tempo não tinha tempo para se ficar pensando nas escolhas.
  • La Luna em Beleza e Graça

    Meu Amor!

    Há uma beleza audível e invisível que imerge no íntimo dos puros de coração

    E como a luz da lua cheia em que sua aureola prateada a envolve de encanto místico sagrado… a canção emerge do mais profundo do ser, espiralando no corpo uma aura de graça e áurea de benção

    A uma inocente beleza de pureza e graça iluminada em sua doce voz feminina…

    Voz de pureza musical que penetra arrepiando os fios dos corpos em graça

    Cada tom… cada acorde… cada timbre… cada sopro do teu ser é gracioso em sua voz em graça

    Calmamente vou seguindo os seus passos sonoros no Bendito Amor em beleza e graça

    Tua força audível dança descontroladamente em meu coração

    Tua voz graciosa me arrasta para a Morada da Beleza

    O Sagrado lá me espera…

    A Beleza em tua doce graça penetra meu coração

    Apenas um eco no vento de uma doce voz feminina me embala

    Trançando meus cabelos com pequenos galhos de flores e coloridas folhas, arrastados no sopro íntimo dos teus acordes sonoros em graça

    Como és graciosa Querida!

    Em tua voz fui levado ao divino do meu SER

    Proclamou-se em mim uma semente do Sagrado e Eterno Contínuo ecoando em sua voz em beleza e graça

    Os empecilhos e agregados de minha falsa personalidade evaporaram pelo sopro gracioso do teu iluminado coração, em cura, beleza e graça

    Cante escrevendo para mim Meu Amor, no silencioso do meu ser agora em graça… sopre o teu vento em ondas sonoras, acompanhado pelos acordes percussivos dos grilos, pelos efeitos do rasgar da garganta da coruja em um misterioso grito supersônico, e pela beleza secreta e mística da melodia dos lobos uivantes ao te venerar em luz prateada no céu noturno

    Sento-me solitário na beira do rio Meu Amor… me leve em teus passos sonoros… reflita em minha pele a luz dos teus acordes em brilho e graça… fecho meus olhos com a cabeça erguida voltada para tua face lunar… cruzo minhas mãos abertas em reverência uma sobre a outra, levando-as calmamente ao meu peito, no lado do meu palpitante coração… na sinfonia noturna das pequenas criaturas… em um divino concerto místico onde toda natureza te acompanhava em beleza e graça… tua voz luz em ondas escritas me penetrou… e sozinho, sentado me ergui no doce luminoso bailado… e fui levado pelas cores do invisível sonhar… e na minha singela silhueta, em que fui ofuscado em seu canto de luminosidade coloridamente graciosa, me despi por completo de minha singular, pluralista e dualística personalidade masculina

    Tua mística voz foi jogada ao vento como o sopro no dente-de-leão

    Uma dessas sementes luminosas repousou em meu coração

    E lá nasceu a tua graça… divina… escrita… cantada

    No palco lunar de inefável beleza e bondade mística iluminada

    Assim, Meu Amor… sua voz cantou em graça meu coração

    Beijando com sua luz o meu masculino negro corpo terra, numa voz feminina branca e graciosa lunar canção

  • Labirinto

    O sonho era bonito. Estava deitado na praia e sentia o sol bater na face direita do seu rosto. Já ardia de tão quente, mas não era uma ardência ruim ou angustiante. Trazia prazer sentir aquilo e o barulho das ondas do mar se quebrando trazia a tão querida paz. Porém, como é por diversas vezes costumeiro nessa vida, o sonho acabou e tudo se tornou um pesadelo. O despertador tocou as 05:30 da manhã, sinal de que ele tinha que sair da sua sonhada praia e começar a se arrumar para ir ao seu odioso trabalho.
    Tudo ocorria exatamente como ele detestava nos inícios da manhã. O seu café estava velho e ele colocou o número errado de colheradas de açúcar. O pão já estava duro, mas não o suficiente para que fosse impossível de comer. A programação da televisão era um lixo e, mesmo que achasse algo bom, não daria tempo de assistir tudo. Era assim todas as manhãs, mas o horário já avisava que não tinha como ser melhor.
    O cotidiano dos seus tormentos se modificou assim que abriu a porta. Tudo estava escuro. Somente por causa de uma luz, que estava distante dele uns 50 metros, era possível perceber que o que levava até ela era um corredor. Ele continuava na beira da porta com a sua chave na mão. Tentava entender o que estava acontecendo. Tentando achar alguma explicação lógica para aquilo. Tentando se convencer de que tudo não passava de um sonho. Tentando não se frustrar. E tentando criar coragem para ir até aquela luz.
    Os seus primeiros passos foram feitos sem muita convicção, mas a curiosidade de saber o que tinha lá fez com que a coragem viesse lentamente e seus passos foram se tornando mais firmes. Chegando lá, percebeu que tinha algo escrito na parede iluminada. “Bem-vindo ao meu labirinto! Direita ou esquerda? Direita.”. O que já era confuso para a sua mente se tornou ainda mais depois dessa frase. A única coisa que tinha convicção de que sabia era o que era um labirinto, mas não sabia de quem era ou de que maneira tinha parado ali já que sabia que não existia nenhum na porta de sua casa quando foi dormir. De qualquer maneira, seguiu para a direita com calma e sem nenhuma coragem.
    As paredes eram brancas e feitas com grandes tijolos de concreto, mas já estavam sujas e com trepadeiras crescendo nelas. Via a sua sombra o acompanhando apressadamente enquanto andava. Não havia luz o suficiente para que uma sombra fosse gerada. Percebeu isso quando um rato passou correndo por ele e nem sequer gerou uma imagem borrada. Quando chegou em uma bifurcação, continuou para a direita assim como ordenara o aviso. Finalmente, viu uma luz no final do corredor em que estava. Seguiu apressadamente, ansioso para saber o que estava escrito. Enquanto andava pensava somente em coisas boas, acreditando que podia ser uma saída ou pelo menos uma explicação do que estava acontecendo.
    O branco da parede começou a ter respingos de vermelho. Os respingos viraram manchas. A sua sombra se ajoelhou em prantos, ele não. Os seus passos estavam mais lentos como se quisessem impedir que os seus olhos vissem uma desgraça. Como se pudessem ver o futuro. E como se antecipassem a dor.
    Antes de ler o que estava escrito, viu o seu gato de estimação, chamado Simão, caído no chão. Ele repousava sobre o próprio sangue retirado por meio de uma degolação. Ainda dava para perceber o rabo com os pelos todos eriçados, mostrando que ele sofreu e sentiu medo em seus últimos minutos de vida. Assim que a sua ficha caiu, o que demorou poucos segundos, sentiu como se uma adaga tivesse sido fincada no peito. Não acreditava que, depois de passar doze anos ao lado do seu gato, ele teria que o perder dessa maneira, sem conseguir entender nem onde está e o porquê de estar lá.
    Quando finalmente conseguiu fazer com que as lágrimas saíssem da frente dos seus olhos, leu o que estava escrito na parede. “Eu disse direita? Esse nunca é um bom caminho, mas fique com esse presente. O reencontro com um animal de estimação é sempre emocionante. Siga ao norte e depois vá para a esquerda.”. Ele decidiu ir para o norte já que essa era a única opção além de voltar, mas viraria a primeira a direita que visse.
    Assim que começou a seguir pelo caminho planejado, viu que a sua sombra estava indo para trás. A sua mente estava perplexa com aquilo que via e isso só aumentou quando viu uma outra passar pela parede logo em seguida. Olhou para os lados e viu mais umas outras três sombras fazendo o caminho contrário. Decidiu ignorá-las, acreditando que esse seria somente outro truque do labirinto para desviá-lo do verdadeiro caminho.
    Como prometeu para si mesmo, virou a primeira a direita. O caminho parecia ser longo já que caminhava durante horas e não chegava a nenhuma parede que o impedisse de continuar. A sua mão já estava muita arranhada por ter que andar encostando na parede uma vez que a iluminação ia diminuindo lentamente e quase imperceptivelmente. Para ele, o labirinto insistia em tentar o convencer a seguir o outro caminho. Via diversas sombras voltando ou entrando em diversas bifurcações que levavam ao norte ou a noroeste, mas continuava firme em sua promessa.
    Finalmente chegou no terceiro aviso. A luz estava fraca e tremula. A escuridão a sua volta não o permitia ler direito. Quando olhou para a sua esquerda, viu diversas sombras parando uma atrás da outra. Não conseguia ter um bom pressentimento daquilo. Assim que a última sombra parou, todas passaram a correr em círculos. As sombras começaram a sair das paredes. Ele sentia o vento delas correndo em volta dele e o impedindo de respirar fundo. O seu coração disparou enquanto gritos estridentes de sofrimento começavam a ensurdecê-lo. Os seus olhos latejavam com o som e suas mãos foram instintivamente para os seus ouvidos, mas os sons já estavam dentro da sua cabeça. A dor que as sombras pareciam sentir invadiram o seu corpo e se concentravam em seu peito. Parecia que todas as angústias, sofrimentos, medos e dores, tanto físicas como emocionais, que as sombras sentiam estavam sendo transferidas para ele. A sua mente não aguentava aquilo e ele implorava para que a morte chegasse logo. O seu sofrimento deve ter durado horas ou pelo menos era isso que o seu cérebro estimava.
    A dor não cessou instantaneamente, mas foi reduzindo aos poucos, igual aconteceu com as luzes enquanto caminhava. No momento em que tudo se tornou suportável, viu que a luz presa na parede estava mais forte e com brilho firme. Leu cada palavra muito lentamente para tentar driblar a dor e impedir que ela não o faça entender a mensagem corretamente. “Você é retardado ou só não passou do maternal quando ensinaram direções? Eu falei esquerda e é melhor seguir as minhas ordens.”. Quando leu a palavra “ordens”, uma raiva subiu a sua cabeça que foi o suficiente para ignorar todo o resto da dor que sentia. Ele adorava desafiar autoridades e achava que, se continuasse para a direita, conseguiria a liberdade, então assim foi como ele fez.
    Ele foi um pouco para o norte e logo virou à direita. A dor misturada com a raiva o deixou com um aspecto de maluco. Às vezes, enquanto caminhava, sorria do nada com algum xingamento aleatório ao labirinto e seu criador como se estivesse prestes a ganhar uma luta difícil. Os seus passos agora eram inegavelmente firmes e sem nenhuma hesitação. Não havia muitas sombras a sua volta, somente três.
    A caminhada até o outro aviso não durou tanto como a anterior, mas ainda assim foi longa. Os seus pés já doíam, principalmente porque os sapatos que usava não eram feitos nem mesmo para caminhadas curtas. Mesmo assim conseguiu chegar ao quarto aviso e, no momento em que estava perto o suficiente para ler, se ajoelhou para que conseguisse descansar um pouco. Na parede estava escrito: “Você está saindo da área de influência dos meus poderes. Parabéns,”. Depois de ter sentido medo, tristeza e dor, esse foi o primeiro aviso que trouxe alguma felicidade e esperança. Pelo menos foi isso o que ele sentiu na primeira parte, mas a vírgula no final da frase o deixou apreensivo. Queria acreditar que era só um descuido numa pichação apressada. E, como quis acreditar dessa forma, assim acreditou e decidiu continuar o seu caminho para direita.
    Não demorou muito para encontrar outra bifurcação na sua tão querida direção. Depois de ter dado uns vinte passos, o caminho que estava atrás dele se fechou e o chão cedeu até a metade dos seus passos. A luz que iluminava aquelas áreas só durava o bastante para que ele visse toda o chão ceder com um estrondo aterrorizador e sumir diante dos seus olhos, se tornando nada além de escuridão. A cada passo que dava para frente, um pouco mais de chão era perdido atrás. Não tinha percebido antes, mas agora só tinha uma única sombra o seguindo, somente a sua.
    Os seus passos estavam tão lentos como os de um velho de noventa anos. Queria correr até o aviso, mas os seus joelhos estavam travados de medo. Queria acreditar que continuava no caminho da saída, porém não conseguia se convencer de que a liberdade tinha um caminho tão amedrontador. Os seus sorrisos desafiadores agora não passavam de um rosto que se segurava para não chorar com as suas pálpebras e lábios tremendo. Toda a força que fazia não foi o suficiente para segurar as suas lágrimas enquanto lia o aviso. “, você cavou a sua própria cova, então agora aceite a sua morte. Nos vemos no inferno.”. No exato segundo em que os seus olhos viram o ponto final, todo o ar a sua volta sumiu. Não havia mais luz no labirinto enquanto ele sufocava até a morte. Em seu sofrimento, os seus olhos pareciam vazios, embora seu coração estivesse cheio de decepção.
  • Lua de Meu Existir

    Minha Amada que fertiliza o meu existir.

    Em plena beleza me perco em teu reflexo deitado sobre as águas escuras de minha alma.

    Mesmo com toda calma e mansidão de tua noite em que te revelas nua, cheia e completa.

    Teu reflexo iluminador é tremulo, desconexo e vibrante, intercalado por linhas negras que desconfiguram em saudades meu pobre e solitário coração de poeta.

    Ao subir lentamente cheia, contemplo a tua chegada no meu inabitado lago interior.

    Ao passo que te levantas se abre vagarosamente uma estrada de luz ‘brancamente’ prateada em meu encontro.

    Ó! Doce fonte de luz que me intensifica… ainda que eu possa ser tocado por tua energia iluminada, estás tão ‘lusitaneamente’ longe de mim…

    De súbito me imagino a caminhar em tua prateada e tremula estrada, então, poder ao menos abraçá-la calorosamente, enquanto ainda não flutuastes em mágica para o mais alto dos céus estrelados… tua influência elementar do Sagrado Feminino em mim, desperta a Consciência Mística da intuição emotiva do meu ser, quebrando os meus viciantes padrões interiores em ciclos de transformações ascendentes e decadentes de toda uma existência apaixonada.

    Como eu te amo, Meu Amor!

    Ó! Fruto do meu desejo insaciável…

    Sobes agora livremente… e tua estrada de luz desaparece nas águas de minha emoção, e agora debaixo de tua luz prateada, volto a minha singularidade pequenina e frágil, onde realizo o meu ritual de amor à tua Lua Cheia embelezada em sua aureola majestosa repleta de teu amor.

    Nisso, me vejo sendo irradiado pela luz azul de sua aureola… meu corpo negro encandece inflamado pela sua onda radiativa, tornando-se fosforescente, atraindo toda espécie de pequeninos seres noturnos em divindade graciosa. Pela tua dádiva amorosa, tornei-me um ser luminescente, e… quem me dera ser carregado pelos pequenos vaga-lumes que agora me cercam, no único amoroso objetivo de poder pousar em teu grandioso ventre oculto nos teus misteriosos segredos noturnos.

    Tua pele branca me seduz, teus cabelos de nuvens negras a flutuar me enfeitiçam. Como és bela! Como sou teu!

    Embora possa, eu, ser um diurno ser flamejante, de que me vale toda essa potência… se em minha forte luz te ofusco, ao ponto de nem eu mesmo poder contemplar a tua clara beleza? Estou preso na majestade de mim mesmo, e nisso, sigo meu solitário baile diário.

    Ó! Meu Amor, meu doce Amor… Meu Encanto! Como te imagino e me imagino juntos… ao te contemplar no silêncio de uma tarde em que apareces repentinamente no reflexo espelhado no limpo céu azul… mas, esta linda visão que tenho no dia, bela e cheia de graça… apenas se faz ecoar, ecoando a ecoar… a ecoar.

    Em tua face clara, lusa e juvenil me vejo iluminar. Abrindo meus olhos… retirando de mim as impregnações infrutíferas e residuárias de meu sofrido passado e presente agoniante tedioso.

    No meu mágico ritual… derramo as águas de aquários em uma bacia de prata e deixo exposta à luz de tua Lua Cheia, para que parte de Ti possa se desprender e lá habitar. Ponho minhas mãos sobre as águas e o recipiente, e faço riscos imaginários mágicos escrevendo palavras místicas de amor… em oração Celta na alta voz… dizendo:

    — Ó! Sagrada Mística Sabedoria Lunar… que tua luz fêmea caia sobre essas águas, envolvida na Magia da Prata e, de suas perenes divindades noturnas do Argentum branco e brilhante. Invoco sua áurea iluminada que reflete o poder divino de tua purificação e amor. Ser gigantesco feminino que controla todas as forças ocultas das águas naturais, que constitui todos os seres orgânicos e abarca os seres inorgânicos… se faça aqui fluidamente presente no Sagrado Agora… vem, e me Ilumina!

    Ao terminar meu mágico culto de oração… vi sua luz em forma feminina descer em baile e encanto, se deleitando nas águas… transformando-as em plasma prateado. Ali mesmo sob a luz de tua magnífica e sagrada presença me despi de minhas rudimentares vestes, assim como, também, estavas despida dos teus véus de nuvens negras. Derramei o teu leite prateado em meu corpo nu… pude te sentir me tocando todo e por completo, onde me acariciava com beijos de uma paixão apaixonadamente purificante… a este tocante… me perdi em fluxos energéticos de amor que me fazia flutuar e ecoar… ecoando a ecoar.

    Quando regressei a mim… já tinhas desaparecido, restando apenas a lembrança do teu beijo, teu calor, tua sensação purificadora e teu carinhoso amor, e teu céu noturno no vazio estrelado.

    Minha Amada… silenciosamente fechei meus olhos em reverência, e, de mim, restou lhe dizer:

    — Te amo… Te amo… e Te amo!
  • Lua Escura

    Querida minha

    Hoje passeio em devaneios pela noite escura a sua procura
    Hoje não me contemplaste com tua bela face iluminada, e triste caminho por essa trilha incerta do existir sem ti

    Apenas um vazio em meu coração palpita reclamando a sua presença
    Na tua ausência percebi que o céu era vasto e imenso de estrelas a cintilar
    Porém, vazio do mistério e do segredo de te amar

    Minha Querida
    Onde foste que não me levaste
    Por que de mim te ocultaste
    Sabes que te amo, e sem ti, sou cego em meu solitário noturno caminhar

    Triste, sento-me novamente na beira do meu interno lago, fecho os meus olhos no escuro do infinito abismo de escuridão… de que me importa os olhos abertos se não posso te contemplar fora… volto-me para morada do coração, e lá te imagino a me iluminar com teu claro sorriso.

    Te vejo nos meus amorosos pensamentos deitada sobre o teu céu escuro na cama ilustrada de planetas errantes e estrelas, em pequenos passos lentos e silenciosos vou ao teu encontro, e vejo que dormes encoberta pela sombra da terra. Apenas silenciosamente te contemplo, admirando o teu sono profundo… estou aqui contigo Meu Amor

    Em minha meditação adentro em teus mágicos sonhos… como estás bela a dançar com tuas guirlandas de estrelas. De repente, nossos olhos se encontraram, e não entendi porque ficaste estagnada com minha sutil presença, e lágrimas vi cair em seu lindo rosto que se evaporaram em uma cortina de serenos noturnos… de súbito repentino, me vejo te abraçando… e novamente nada entendi, porque evaporaste súbita e repentinamente dos meus braços como uma gota d’água a tocar uma superfície aquecida… e solitário me vejo, também, chorando, culpado por interferir em sua intimidade.

    Ó! Meu Amor… que maldição é essa que nos prende ao estar separado e nos separa ao estar preso?

    Te vi triste Meu Amor, e em tristezas doloridas estamos
    Dançamos juntos de mãos dadas ao som dessa música melodiosamente triste
    Nossos corpos chorando se juntam embalados por essa solidão
    Que segredos o seu coração guarda?
    Que mistérios esconde a tua face oculta?
    Do que sabes que não sei!?
    Por que tamanho silêncio?
    Não percebes que estou aqui para ti!
    Por que me abandonaste hoje?

    Somos tocados pela dor da separação…, mas, haveria tanta beleza se estivéssemos agora juntos?
    O que separa o Criativo do Receptivo senão a beleza do caminhar separado, ao se unir no imaginário! Então, caminhemos eternamente juntos com nossas mãos dadas na doce solidão a imaginar

    Quero te ouvir, que tristeza melodiosa canta seu coração
    Neste céu silenciosamente noturno, em que ansiosa volta tua face iluminada para baixo… o que pensas?
    Quero te compreender… me fale de tua tristeza, pois sei que a oculta quando enxuga suas lágrimas rapidamente em gotículas de sereno

    Por que só te revelas para mim em parte, se para você sou o todo de tudo em toda face?

    Te vi sentada no trono da noite
    Suas mãos acariciavam o rio do Nilo celeste
    E sentada sobre os seus calcanhares na taça da flor de lótus, o rio luminoso em que tocas arrasta infinitas flores estrelares
    Estás festivamente adornada de luminescências e cintilantes aureolas Meu Amor

    Vi uma beleza sobrenatural no seu amável rosto…, e, uma tristeza oculta… um mistério!
    Em sua majestade vejo que rege a Estrela Mágica, e oito vezes com sua foice crescente a decepaste do noturno céu enviando-a para mim, como a linda Estrela da Manhã. Porém, oito vezes com sua foice minguante, novamente decepaste do céu agora diurno, tomando-a de volta para si, como a linda Estrela Vésper… Essa Estrela é a nossa Mensageira do Amor… de nosso solitário Amor

    Dorme tranquila Meu Amor
    Em sua luz encoberta de encantamento na paz de tua força interior

    Sinto seu amor… Meu Amor… pleno de força plena
    Sua atmosfera mágica me envolve no frescor de seu sereno carinhoso pelo qual solitário me condena

    Hoje! No breu da noite
    Estudarei em meditação as tuas leis celestes
    Na sombra terráquea em que dorme te vestes

    E, nesse céu em que hoje de mim te ocultas
    Esperarei no amanhã a sua doce poesia
    Pelo qual me revela a sua face oculta
    Na companheira doce tristeza do meu amargo solitário alegre dia

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