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  • ‘EU’, ‘ELES’ e ‘NÓS’

    Sabíamos que estávamos sendo vigiados por ‘ELES’. Muitos relatos de abduções, fotografias e filmagens de suas naves e tecnologias não paravam de ser publicados nas redes sociais. Porém, por esforços dos governos mundiais que negavam e ocultavam os fatos, e também, por uma certa mescla de realidade e fantasia nos filmes e seriados hollywoodianos, e, provedoras globais de fluxos de mídias via streaming, além da ignorância que era pregada nas diversas religiões de sermos o centro do universo, ignoramos os sinais por ‘ELES’ transmitidos.

    ‘ELES’ até que apelaram a partir da década de 1970, quando começaram a desenhar os agroglifos nas culturas de certas gramíneas, por meio do achatamento de culturas como: cereais, colza, cana, milho, trigo, cevada e capim. E era obvio que não tínhamos ainda tecnologias para realizar o feito desses complexos e grandes desenhos em apenas algumas horas. Mas, mesmo assim, ignoramos. E, criamos soluções para explicar o inexplicável, e tudo foi abordado como um feito fictício. Então, pagamos o preço por mesclar a realidade e a fantasia, não sabendo mais diferenciar uma da outra. Assim, preferimos viver o engodo, e fomos enganados por nós mesmos.

    Entretanto, ‘Nós’ criamos a S.U.P.E.R (Superintendência Universal Para Extraterrestres Relações), em que na verdade era uma organização oculta e privada, que se fantasiava de uma Ecovila Sustentável criada por uma rede mundial de cientistas alternativos ufólogos, e pequenos empreendedores startup nos ramos da cyber tecnologia e biogenética (biohacking).

    Éramos perfeitos na arte do engodo, pois utilizamos as técnicas alienantes do sistema contra ele mesmo, ao fundarmos nossa Ecovila na Patagônia, que cobria uma área como mais de 239 km², banhada pelos paramos das geleiras andinas, com terras hiper férteis. Abrigando uma população de mais ou menos cinquenta e cinco mil habitantes de várias nacionalidades do mundo. Em que nosso maior foco agrícola e produção eram cânhamo, cannabis medicinal, morangos, uvas, cerejas, cevada e lúpulo, além de muitas criações de animais. E assim, fabricávamos os melhores vinhos, cervejas de cannabis e espumante de morango do mundo. Tudo de origem orgânica e primeira qualidade, e sem a necessidade de máquinas elétricas, ou movidas a combustíveis fosseis, tudo manufaturado a moda antiga, em que o trabalho humano e animal era o nosso maior forte.

    Vivíamos como antigos povos, antes da revolução industrial, nossas roupas, casas e utensílios eram manufaturados naturalmente, e nossas tecnologias eram 100% artesanais, permanentes e renováveis. Também, focávamos em energias sustentáveis como eólicas e fotovoltaicas, em que criamos a maior usina sustentável do mundo, que fornecia energia para todas as vilas da Patagônia por um custo acessível e barato, além de doar energia de graça para todas as dependências e prédios governamentais dessas vilas. Estratégia nossa, para implementar esse projeto com apoio intergovernamental, tanto da Argentina como do Chile.

    Porém, tudo isso não passava de uma capa que cobria o livro. Pois, subterraneamente éramos outra coisa.

    A S.U.P.E.R era um segredo de um punhado de famílias dentro da Ecovila, punhado esse, que era formado pelas pessoas menos relevantes da nossa comunidade eco agrícola. Na verdade, ‘NÓS’ éramos os fundadores dessa comunidade, mas passamos o nosso poder para os antigos moradores da região, transformando-os de simples camponeses em grandes empreendedores. Alguns ganhadores de prêmios Nobel e outras condecorações internacionais. Porquanto, eles eram nossas máscaras, e nem eles, como também, os outros moradores da Ecovila sabiam disso. ‘NÓS’ éramos um mistério… um segredo bem guardado por pactos de vida e morte, em meio ao paraíso andino.

    No submundo dos nossos quartéis subterrâneos, situava o centro tecnológico e informativo de nossa inteligência. Tínhamos uma empresa operadora de satélites, a StarSky Corporation, que atuava em 52 países com sedes em Israel e na China, além de 32 empresas subsidiarias de telecomunicações espalhadas pelo mundo. O que facilitava nossa rede de comunicações e informação, dessa forma, tínhamos olhos e ouvidos em todo lugar.

    Contudo, estávamos também sendo vigiados, e de início não sabíamos. Aquele fato da coisa observada, observar o observador. Pois nossos servidores se utilizavam da surface web, ou deep web como era mais conhecida. E, ‘ELES’ é que eram os verdadeiros donos do iceberg como todo. E, assim, os nossos olhos e ouvidos eram, também, os olhos e ouvidos deles. Seus motores de busca construíram um banco de dados, pelos seus spiders, e através de hiperligações indexaram nossas informações aos seus servidores na deepnet. Quando descobrimos que estávamos sendo escaneados, toda nossa informação já eram deles.

    Quando nossos hackers investigaram quem são ‘ELES’, se depararam com uma parede de proteção inacessível, em uma (darknet) parte do espaço IP alocado e roteado que não está executando nenhum serviço. Até para as inteligências dos governos mais poderosos o acesso era fechado, pois se utilizavam da Dark Internet, a internet obscura. E de cara percebemos que ‘ELES’, os não-humanos, eram quem estavam nos vigiando.

    Contudo, resolvemos abrir o jogo e mandar mensagens para ‘ELES’, em um projeto apelidado como: חנוך (Chanoch). Durante meses enviamos várias mensagens, então, de repente, nossos servidores detectou uma mensagem oculta que dizia: “E andou Enoque com Deus, depois que gerou a Matusalém, trezentos anos, e gerou filhos e filhas. E foram todos os dias de Enoque trezentos e sessenta e cinco anos. E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou.”.

    Ao receber aquele texto, ficamos perplexos. De início, achamos ser uma brincadeira. Até recebermos outra mensagem, que dizia: “E sucedeu que, indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho”. Então, depois de longas horas de reflexão, intentamos que as mensagens vêm a nós na forma e maneira que podemos perceber. Sendo, que eles queriam escolher alguém entre nós para uma viagem. Não sabíamos como responder a tal pedido, e mandamos uma mensagem correspondente do que temos de fazer para realizar tal acontecimento. E, eles nos responderam com três sequencias binárias: 101.

    No dia seguinte a essa misteriosa resposta, para o nosso espanto, fomos notificados por um de nossos agricultores que se encontrava no campo de cevada, se deparando com um símbolo gigante desenhado ‘IOI’. Então, rapidamente percebemos que aquele campo seria o local de contato. E, ‘EU’ fui escolhido para a tal viagem com ‘ELES’. Então, todas as noites acampei no local marcado.

    Acho que propositalmente, na noite 101 em que me encontrava sozinho em minha barraca, e já desesperançado de algum contato, ‘ELES’ vieram! E de súbito só me lembro de ver uma forte luz branca.

    Quando acordei, me deparei em uma maca feita de uma solução gelosa, de um verde fosforecente, algo como se estivesse deitado sobre água, mas, era firme, e amaciava com o peso do meu corpo. Não tinha temperatura, nem frio e nem quente, e o mais louco é que meu corpo não sentia esse material, era como se eu estivesse deitado sobre o ar. O ambiente era de uma luz violeta neon, muito calmo aos olhos, e não tinha paredes, teto ou solo. O silencio era profundo, irritante e assustador. Para todo o lado que eu me voltava, via apenas um horizonte infinito, tanto para cima como para baixo. E tive medo de sair da maca, pensando cair nesse infinito abismo. E a sensação era por demais desconfortante, achei que estava morto.

    Nisso, me senti sendo vigiado, algo ou alguém me observava, e vi alguma espécie de vulto transparente se locomover ao meu redor. Então, pela primeira vez senti algo que me tocou!

    — Uai!

    — Calma!

    — Quem é você?

    — Então, provou.

    — Provei o quê?

    — A sensação de sentir nada.

    Ao ouvir isso, perplexo me calei. E pasmei! Vendo uma espécie humanoide alta e magra a minha frente. Com olhos extremamente azuis e findados como os asiáticos, cabelos brancos longos, e pele extremante branca, fria como a de um cadáver. E, diante do meu silêncio e espanto, ela continuou a dizer, falando sem mexer a boca, que mais parecia uma fenda em seu rosto magro:

    — Assim, somos ‘NÓS’. Não temos a capacidade de sentir como vocês, e os invejamos por isso. Essa forma que você vê a sua frente, não é nosso corpo. É apenas um traje, pois vocês não têm a capacidade de nos ver sem ele. Somos seres pertencentes a outra dimensão, que vai muito mais além de sua física e compreensão.

    — De onde são vocês?

    — Somos seres da Quarta-Vertical, um mundo mais além do que a matéria física. E, nesse momento você está diante de uma plateia de nós. Não pode vê-los, pois, estão sem seus trajes físicos. Porém, saiba que também você usa um traje, e ele que te faz sentir. Mas, nós, mesmo com nossos trajes, não podemos sentir como você sente, e perceber como você percebe. Apenas percebemos as coisas físicas, através de alguns impulsos elétricos de contato nos transmitidos por nossos trajes, que são mínimos, sem sentimentos e emoções.

    — Onde fica fisicamente a Quarta-Vertical?

    — No plano físico, conhecido por vocês como seu sistema solar. Em que nossa Morada é o Sol.

    — Então, estou no Sol?

    — Claro que não! Seu corpo físico não aguentaria.

    — Onde estou?

    — Em nosso ponto de contato. Na parte oculta da Lua. É daqui que o observamos, desde sua criação como seres existenciais. E, temos alguns de vocês aqui conosco. Na verdade, somos seus guardiões, mensageiros e protetores.

    — Protetores! Contra quem nos protegem?

    — ‘DELES’ e de vocês mesmos. Pois, se assim não fosse, vocês não mais existiriam como espécie.

    — ‘DELES’ quem?

    — Aqueles a quem vocês chamam de seres infernais. No início, ‘ELES’ eram como ‘NÓS’, e vieram de ‘NÓS’. Mas, se corromperam. Pois, desejaram sentir a emoção que vocês sentem. Por isso, eles lhes causam dores e prazeres, para sugar as energias de seus sentimentos. E, fazem isso agora, através da internet. Por isso, lhes deram esses pequenos dispositivos que vocês carregam em suas mãos. O próximo passo deles, é implementar esses dispositivos aos seus corpos físicos. Aí, então, drenarão suas energias vitais, como um canudo drena o líquido numa garrafa de refrigerante.

    — Onde eles vivem?

    — Antes viviam aqui na Lua, depois os expulsamos para Saturno e Plutão. Mas, quando fizeram o pacto com os muitos chefes e governantes de sua sociedade, precipitaram-se na terra. Quando teve uma grande chuva de meteoros. Então, agora vivem entre vocês.

    — E, como podemos reconhecê-los, se vivem entre nós?

    — São os seres lagartos, mas se disfarçam com trajes humanos. Por tanto, seus trajes se alimentam de sangue, e são sensíveis a luz do sol. Por isso, procuram andar mais a noite, e poucas vezes a luz do dia. E, para resistir a luz diurna, precisam beber inúmeros litros de sangue humano fresco e vital. Só assim, os trajes resistem por mais tempo. Porém, alguns deles se tornaram híbridos, cruzando com a sua espécie. E são metades humanos e ‘reptilianos’ como alguns de vocês qualificam. Mas, mesmo assim, precisam de sangue humano para viver. E, como vampiros modernos, eles criaram os bancos de sangue, espalhados por todo mundo. Onde vocês creem estar doando sangue para pacientes hospitalizados, mas apenas 2% desse sangue vai para esses pacientes que necessitam, o resto é comercializado entre eles.

    — E por que vocês não nos alertam sobre isso?

    — Não podemos interferir. Foram vocês que atraíram eles. Suas escolhas. Seus livres-arbítrios.

    — Como assim, nossas escolhas?

    — Por acaso, você não leu a parábola de Adão e Eva?

    — Mas, isso é apenas um mito!

    — Não é apenas um mito. É uma metáfora da realidade, representado em sua espécie dividida entre macho e fêmea. Um código, para os sábios decifrarem.

    — E, por que não nos contam a verdade diretamente, e só nos dão metáforas?

    — Veja o que vocês fizeram com a verdade… ridicularizaram. Enviamos muitos para lhes dizer a verdade. Muitos de nós nascemos como avatares para lhes falarem, e veja o que nos fizeram? Nos mataram, assassinaram, minimizaram. E, mesmo nascendo entre vocês como humanos, ao longo do tempo nos transformaram em engodo e mito.

    — Mas, isso foi em tempos de muita ignorância. Hoje temos tecnologias para registrar e comprovar.

    — Tempos de muita ignorância… saiba que não existe tempo onde a ignorância é mais forte e abrangente do que esse em que vocês vivem. Suas redes de informação, academias e filosofias são lotadas de teorias e não de práticas. Vocês não experimentam mais. Não observam mais… só emulam. E agora que mesclaram a realidade e a fantasia, você acha que nos ouviram? Seremos ridicularizados e banalizados mais uma vez… por isso, agora agimos em oculto sigilo. E falamos na linguagem que vocês não podem deturpar, que são as parábolas e metáforas. Poesias de mistérios místicos e ocultos, que lhes encantam, e fazem pensar. Até serem assimiladas por corações puros, lapidados e lavados que nascem entre vocês.

    Ao ouvir aquelas palavras, o mundo parou em mim. E, lágrimas rolaram do meu rosto.

    — Ernesto! Ernesto! ¡Despierta hombre!

    — Ahh! ¿Qué?

    — ¿Qué haces aquí acampado en el campo de cebada güevón?

    — No lo sé … De repente tuve un sueño confuso. No me acuerdo.

    — ¡Vamos! Es tiempo de cosecha. Creo que perdimos una buena cantidad de grano. Bueno, creo que hubo un torbellino esa noche que aplastó los tallos fértiles.­
  • [Contos] FUGA - Parte I

    Na rua, vindo do trabalho de bicicleta, estava frio, o dia nublado, eu cansado… quando a vi. A vi passar, no outro lado da rua, caminhando de mochila e com um livro na mão, parar no ponto de ônibus, abrir o livro e começar a folheá-lo. Ela estava graciosa, tão linda… parecia distante, perdida num momento que pertencia só à ela. Mas, ao cruzar a rua e passar rapidamente em frente ao ponto, ainda fui capaz de notar seu rosto de choro… suas maçãs estavam avermelhadas, assim como os olhos e a ponta do nariz. Instantaneamente questionei: O que poderia fazê-la chorar? Eu a olhei de canto, mas não acenei, não chamei, não fiz nada, só continuei a pedalar. Percebi que no mesmo instante ela levantou o rosto a procura de alguém conhecido, mas logo voltou a se debruçar sobre o livro.

    Ainda longe de casa, naquele dia nublado, numa sexta-feira de verão, próximo às 7h00 da noite, começou uma garoa fina. Os faróis dos carros iluminavam o início de noite e pedalando ao som de “Baby I’m Yours — Arctic Monkeys” nos meus fones, senti uma sensação diferente, não ruim, que estremeceu e arrepiou todo o meu corpo, desde os meus pés à minha nuca. Uma forte onda nostálgica bateu em mim e todos os sentimentos mais quentes e intensos permeavam o meu corpo e mente novamente, como se de repente eu fosse repreenchido por algo que já havia caindo no esquecimento, mas que ainda estava ali, dentro de mim. Aqueles olhos castanhos, donos de formosos cachos do mesmíssimo tom de castanho avelã que ao vento, assim como ao sol, enalteciam ainda mais a beleza e profundidade daquele olhar, pairavam em minha mente.

    Instantaneamente, uma reprise de tudo que eu vivi com aqueles olhos castanhos me possuiu… era invasivo… como se algo qual eu lutei pra guardar e deixar ali, quietinho, estivesse gritando e me inundando, trazendo recordações de um sentimento forte, fascinante, gostoso, sedutor… adocicado por um desejo insano de vivenciar cada instante novamente… de poder tocar os cachos daquele cabelo. Sentindo aquilo me dominar, me corroer, lutando para pensar em outra coisa e encontrando-me sem saída, futilmente comecei a pedalar mais rápido, a chuva engrossava e o meu desespero para deixar aquilo de lado e apenas me concentrar em chegar em casa era imenso… não fui capaz, não consegui. Fui vencido e sentir-me-ia ser preenchido.

    Arfei. Arfei ao sentir novamente todo aquele turbilhão de emoção vigorar em mim novamente. Paixão. Zelo. Admiração. Tesão. Por um segundo cheguei a questionar porquê internalizei aquilo, se me fazia sentir triunfo. Porém, como em uma antítese, vinheram estes por conseguintes acompanhados. Culpa. Pena. Frustração. Arrependimento. Fazendo-me lembrar como memórias tão gostosas e sentimentos intensos foram por mim soterrados. Chovia muito. Naquele instante, com a camiseta toda molhada, a ventania congelava o meu peito e, ainda assim, eu conseguia senti-lo queimar.

    A chuva embasava a minha visão e minha mente era invadida por flashbacks de todas as vezes que meus olhos encontraram aqueles penetrantes olhos amarronzados, tornando quase impossível distinguir a realidade da alucinação. Novamente o olhar mais quente, insano, misterioso… me fitando. Olhar que me chamava, me deixava sem ar por segundos, me afogava.

    Os flashbacks eram como fotos. Lembranças intensas que eu não fazia ideia de como poderiam ser tão vivas e ao passar de cada um deles, eu vivenciava cada cena novamente. Sem compreender exatamente o que acontecia comigo, percebendo que ela ainda mexe fortemente comigo, reconheci que não conseguiria fugir daquilo, estava fadado a enfrentar os meus conflitos internos uma hora ou outra, esse momento chegou mais cedo do que imaginei. Não podia sabotar meus pensamentos, tentei e por centenas de vezes consegui, mas dessa vez não.

    Jamais esquecerei como é olhá-la nos olhos e conseguir ver a beleza da sua alma, além da beleza daqueles olhos, a beleza de uma garota que exalava mistério. Garota nada fácil de desvendar, dona de um império interior que eu ansiava descobrir. Intuitivamente, eu sabia. A todo instante sabia que me perderia na intensidade daquele olhar profundo, na imensidão de seu império, mas de imediato eu não tive medo, afinal, sempre me cativei pelo desconhecido. Aos poucos os flashbacks já não eram tão recorrentes, sendo substituídos pelas luzes fortes dos faróis dos carros. A chuva virou garoa. Pedalando agora devagar, percebi que já havia passado a rua de casa.

    Estranhamente, a noite fria, agora, era tomada por um mormaço. O meu bairro tranquilo. As árvores ainda molhadas transmitiam calmaria. Típica noite de verão. Nostálgica. Respirei fundo e apesar de não desvendar o propósito dela, decidi apreciá-la. Eu já não queria mais fugir e agora admirava o céu estrelado ao lado dela… a saudade. Pedalando, observando cada rua, cada casa, cada esquina… parei numa praça. Praça qual eu conhecia muito bem. Lugar que marcou muitas noites minhas, noites quentes. Perfeita para marcar também uma noite nostálgica que, agora, transbordava em saudade.

    Adentrei a praça, vazia, segui uma pequena trilha de terra e pedras, encontrei com facilidade não só o lugar, mas também o banco que tinha em mente, um cantinho bem específico. Larguei a bicicleta na grama, tirei a mochila das costas, enxuguei o excesso de água no banco e me sentei, tirei a camisa molhada e coloquei apenas o agasalho azul que tinha na bolsa. A copa das árvores ao redor, assim como eu, eram iluminadas pelo poste de luz atrás do banco. Chuviscava. Sentado com o corpo relaxado eu podia ver as minúsculas gotículas caírem do céu.

    A lua iluminava a pequena trilha que terminava logo à frente. E ao som de “ As Long As You Love Me — Jaymes Young” nos meus fones, eu nunca senti tanta saudade… dos caracóis daquele cabelo. O som penetrava em meus ouvidos e permeava a minha mente, que, por vez, fazia uma trilha sonora com tudo o que vivenciei com ela. Uma trilha sonora da nossa história, bom, ao menos para mim nós tivemos uma história. Olhando as copas das árvores aquietarem-se, os chuviscos cessarem e a inquietação da praça ir embora com a chegada de um casal caminhando em meio a gargalhadas na estrada da praça ao longe, foi o estopim para um instante de lucidez em meio a tantos delírios.

    Me vi cercado de questionamentos quanto ao eterno “e se”. Reparando no casal ao longe, suspirei, passei a mão no cabelo ainda molhado, repousei as costas no banco e indaguei, pensando alto, num sussurro: Como posso ter uma história com uma garota que eu não tive um “relacionamento”? Encarando a trilha iluminada pela noite estrelada, a imagem dela no ponto de ônibus mais cedo tornou a minha mente, seu cabelo longo com mechas e cachos aleatórios flutuando ao vento… incrível como tudo parecia ser reproduzido em câmera lenta.

    Se no instante que a conheci alguém me dissesse que um dia eu me veria perdidamente seduzido por aqueles olhos cor de avelã que exalavam perdição, pelos macios cachos de seu cabelo, por seu cheiro de lírio, pelo sorriso de mistério, por seu jeito quente… completamente desesperado por aquela garota sagaz, eu jamais acreditaria. Eu não era desses. Definitivamente não era esse tipo de cara. Não era… Lembrei das nossas conversas nesta praça durante as madrugadas do verão passado, dela me falando sobre intensidade, sentimentos, o universo, destino… era extraordinária sua capacidade de criar teorias elaboradas — e escrever — sobre tudo. Ela queimava de tanta intensidade.

    Eu, por vez, achava aquilo tudo tão bobo, não fazia nenhum sentido racional para mim. Apesar dela não falar a respeito, sequer imaginava, que, no fundo, eu conseguia reconhecer seus sinais de paixão. Não sei exatamente o que a deixava atraída por mim, éramos muito diferentes. Vê-la dessa forma era ardente, me deixava ainda mais gamado, fascinado. Mas, sinceramente, paixão? Eu não era desses… não era.

    O universo fez questão de me fazer reconhecer o fervor de tudo o que ela sentia, da pior forma, na pele… queimando em intensidade, atordoado de desejo para me perder — ou me encontrar? — novamente em seu olhar profundo. Admirando a exuberância da praça, sentindo o pesar da ausência de alguém que não permiti “ser minha”, agora, dilacerado pelo remorso junto ao arrependimento, era impossível mensurar o quanto eu a queria.

    Nunca imaginei que aconteceria um terço do que vivemos, nem que recordaria sem esforços os mais singelos detalhes, muito menos que o destino traria de volta uma paixão do passado, afinal, nossa história é de muito tempo. Fadados ao erro. Ela recuou na primeira vez. E na segunda? Eu fugi.

    Os meus pensamentos me torturavam e tudo só piorava enquanto eu buscava, numa tentativa falha, compreender racionalmente os motivos da minha fuga ao esmiuçar as fases do nosso distanciamento. Medo? Balbuciei no intuito de elaborar uma justificativa que a tornava unicamente culpada, irrefutavelmente não consegui. Havia um culpado? Hoje, creio que não. Mas uma coisa é evidente, situações pequenas, coisas ditas em dois segundos que pouco a pouco abalaram a conexão construída no decorrer das estações, influenciadas não só pelo meu orgulho, mas também, por toda ingenuidade amorosa dela junto ao seu desgaste emocional.

    No entanto, não são os fatos que me torturam, afinal, não sou capaz de mudá-los. Agora, nessa noite, nesta praça, sentado em “nosso” banco e sentindo o cheiro de terra molhada, sou torturado por questionamentos do eterno “e se…” e nada me corrói tanto. E se quando reconheci que estava me apaixonando eu não tivesse me afastado? E se ela me falasse quando a magoei? E se, depois de tudo, ao ser sincera ela não tivesse estraçalhado meu coração? Como não possuíamos um “relacionamento” não nos sentíamos confortáveis em cobrar ou prestar esclarecimentos. E se eu tivesse feito isso? E se ela tivesse feito? Será que ela tentou e eu não percebi? Não sei, na época sempre dotado de orgulho.

    A imagem dela no ponto não saia da minha mente, sozinha e pensativa, assim como eu nesta praça, ao contrário do casal que ainda estava ali, distante, mas ali. As horas corriam e eu nem me dava conta. Apesar de fisicamente bem, eu estava cansado, a mente cansada, tudo aquilo estava sendo tão exaustivo e, de modo antagônico, fazia meses que não me sentia tão vivo, pois eu queimava em intensidade, paixão. Como no verão passado, mas antes não notara a nobreza dessa dádiva, afinal, parece que a paixão consegue ser bela e árdua concomitantemente.

    Não sei como consegui manter a imensidão do que eu sinto escondida por tanto tempo. Enquanto a garota mais incrível que já conheci estava ali, eu, um moleque entusiasmado e imaturo, como sempre, queria só jogar, desvendá-la. Sequer pensava na possibilidade de gostar dela, gostar de verdade, pra valer. Eu não era desses de se apaixonar. E quando ela foi embora, não me dei conta que havia perdido um alguém que tanto precisava. Camuflei a dor. Ela disse adeus e parecia estar tudo bem, e estava, pois eu me enchi de prazeres e felicidades momentâneas para internalizar tudo. Eu não era desses que sofria e sequer conhecia isso de “superar”.

    Mas, hoje, voltando do trabalho, quando a vi, lutei para evitar esse turbilhão de sentimentos, os quais não mais consegui manter estancados. Sinto que não serei capaz de internalizá-los novamente, já não cabem mais ao peito, me sufocam, são maiores que eu.

    Enquanto pedalava, sob a garoa, a procura dessa praça, dei-me conta de como os meus envolvimentos amorosos de lá pra cá são supérfluos quando comparados a grandiosidade do que ela me permitiu sentir. Eu, sinceramente, não conhecia e não conheço isso de superar, afinal, eu nunca a esqueci, sempre acabo apaixonando-me por ela de novo, de novo e de novo.

    Não sei explicar a razão. O universo? Nunca acreditei nisso de “destino”, ela por vez… sinto-me condenado a acreditar. Espero que a nossa história não acabe assim, não pode ser, desejo que não sejamos apenas duas pessoas que não mais se conhecem com uma história profunda num passado em comum.

    Ao som baixo de “ASTN — Love No More”, fechei os olhos, respirei fundo e permaneci ali, sentindo a natureza, ouvindo ao longe o barulho da cidade abafado pelas árvores e pelos meus fones, sentido o mundo e a vida ao meu redor e em como tudo aquilo era incrivelmente gostoso, finalmente, em meses, eu me sentia vivo.

    Mais uma vez respirei fundo, deixando os pensamentos e angústias irem embora, pouco a pouco evadirem-se, até que permaneceu apenas a perfeição daquele sentimento puro e inexplicável dentro de mim. Realmente, agora, desejava apreciar a noite nostálgica, sem os conflitos internos, só memorando, com intensidade, as coisas boas que fizemos um ao outro, os nossos melhores momentos — onde as situações mais simples eram repletas de borboletas no estômago -, lembrando o quanto ela me incentivava a ser uma pessoa cada vez melhor.

    Transcender. Era essa a palavra que ela usava. Senti uma brisa ao pé do ouvido, lentamente abri os olhos, reconhecendo que tudo o que vivenciei nesta noite foi preciso, para minha alma, pro meu coração, pro meu eu.


    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2018]

    @janacoutoj

  • [Roteiros] ETERNO

    […]

    Estive refletindo todo esse portfólio. O nosso amor. Sabe no que tanto andei pensando? Que a gente deveria casar. E ter uma família, cachorro. Temos uma conexão surreal, gostamos muito um do outro. Não há desculpas ou o que se questionar. Já sei que a resposta é um sim, não precisa responder. Agora só falta marcar o dia… Pode ser hoje mesmo, ao anoitecer, no Recanto, assim que eu sair do trabalho. Fechou então, marcado.

    Vamos mesmo casar hoje, viu? Uma cerimônia a dois, simples e singela, vamos eternizar cada segundo entre o luar e o alvorecer.

    Está será a noite mais incrível dos nossos dias.

    Olha, juro para o Universo que não estou brincando. Você diz que eu sou louco, mas ainda não sabe o quanto. Te amo, meu Jacarandá.

    […]

    Está falando sério? Adorei o seu falar cheio de convicção. Convicto quanto a mim. Exatamente assim, não há que se ter dúvidas.

    Eu trocaria a eternidade por esta noite, como em “Relicário — Nando Reis”. Caso com você quando e onde quiser.

    Assim que te vi, topei uma vida com você e todos os frenesis que há de vir. Estamos entrelaçados. Ligados por todo o sempre.

    O destino me mostrou isso ainda no principio. Te contei, cedo, nas entrelinhas e você não se deu conta.

    Lembra quando nos conhecemos? A primeira vez que nos encontramos?

    Recordo fervorosamente cada detalhe. A primeira vez que senti o seu toque, o teu cheiro, o teu olhar… A primeira vez que ouvi o teu timbre. O nosso abraço sob a densa chuva.

    As águas de março fechavam o verão e naquele dia eu tomei o banho de chuva mais gostoso da minha vida. Sobretudo, me vi no envolto corporal que estranhamente me arrepiou dos pés à cabeça.

    Somente quando diante do seu olhar eu compreendi tudo. Se tratava daquilo… a chuva.

    Quando do nosso primeiro beijo, a chuva também estava lá. Marcando o principio do relicário imenso desse amor.

    Em algum lugar no tempo ouvi dizer, e acredito com veemência, que as coisas que se iniciam com a chuva são eternas. Nos transformam. Mudam a nós mesmos radicalmente. É um sinal de que estamos alinhados ao nosso destino. São instantes atemporal.

    Sabe, tenho essa sensação… de que o “eu e você”, de algum modo, sempre esteve escrito. Não sei explicar, só sinto.

    […]

    Mulher, você é fantástica. Confesso, tive receio de que julgasse bobo, precipitado e mal desse ouvidos. As estações correm e nós permanecermos a agir como no principio. Não há que se esperar nada se tratando de nós dois. Não passamos vontade. Não importa como, quando ou onde. Gosto disso na gente.

    […]

    Óbvio que foi inesperado. Sem mais nem menos, de um instante a outro. Aliás, diante de tudo isso aqui, inequívoco que eu seria incapaz de dizer um “não”.

    Se trata de você, meu bem. O homem que tem nas mãos o meu choro de mulher, que tem o meu ver, o meu olhar e o que quiser.

    Eu toparia casar com você até mesmo se a proposta for fazendo juras de mindinho. O casamento, ao meu ver, não é institucional e sim simbólico.

    […]

    Você tem um potencial para me dizer coisas tão lindas que eu fico perdido sem saber o que responder. Como se nada do que eu dissesse fosse capaz de expressar tudo o que eu sinto.

    […]

    Não precisa me dizer nada. O seu olhar, o seu toque, me diz o Universo e o mundo. A sua linguagem do amor é diferente da minha. Eu não preciso de palavras de afirmação para reconhecer o que você sente.

    Você não precisa usar comparações, canções ou palavras bonitas para me fazer sentir amada. Basta palavras sinceras. Apenas.

    Gosto dessas nossas conversas. São lindas. Parece até mesmo que estamos seguindo uma espécie de roteiro, escrito por um alucinado que idealiza o amor.

    […]

    Eu jamais havia imaginado estar vivendo isso aqui. Esse “agora”, com você. Quando te conheci, não imaginei que seria a mulher com quem dividiria a minha vida. Na realidade, sempre te achei tão dona de si que parecia loucura cogitar qualquer envolvimento contigo. Você é um Universo de qualidades.

    Não sei o que em mim tanto te cativa.

    […]

    Sinto em dizer que não sei te responder. É um mistério. Eu mesma me questiono isso. O que faz você, ser você. Há algo, sei que há. Algo imenso.

    Posso apontar a dedo cada detalhe seu, pinta, marca, riso, jeitos e andados. É um conglomerado de coisas que te faz único. Fico imersa nos seus detalhes.

    Não precisa de muito. É justamente por ser tratar de você.

    Não sei explicar, desde o início, ainda que você e qualquer outro alguém agisssem exatamente da mesmíssima forma, eu sempre fui atingida ao máximo por você.

    O sorriso que enaltece o meu dia. O colo que eu deito e descanso. O olhar que despertar o meu lado devasso.

    Não percebe? Eu amo você. Você. Todo o conjunto do seu eu, cada partezinha.

    […]

    O que eu sinto por ti é desmedido a ponto de ser misterioso. Até mesmo mais que o céu, o luar e as estrelas. Eu sei exatamente o que torna você, você. Cada uma das coisas que me faz transbordar.

    […]

    Sabia que sou fascinada nessa coisa? Planetas, estrelas, anéis… Gostei dessa comparação com os astros. Pode ter certeza que irá encontrá-la em algum dos meus textos. Eles são cheios de você.

    […]

    Então, escolhi a noite certa. Um evento celestial para marcar mais um epílogo. A noite de glória para Vênus, seu ápice. Iremos contemplar o extremo de seu brilho sobrecarregar as Plêiades, da constelação de Touro.

    Aliás, por falar em astros, recorda a primeira música que cantei para ti? “Mecânica Celeste Aplicada — Yoñlu”. Tudo quanto a nós está repleto de pequenas coincidências. Sempre estamos diante da “sincronicidade” que você tanto fala.

    […]

    Espero não estar sonhando, delirando ou em devaneios. Você sempre me surpreende e cada vez de uma forma mais esplêndida. Se eu pudesse, nos fazia eternos.

    […]

    Vamos estagnar o tempo. Eu te farei eterna, em mim. Exatamente como em “As Coisas Tão Mais Lindas — Nando Reis”. Dias, semanas, meses, anos décadas e séculos, milênios vão passar e viveremos por todo o sempre, eternamente, no templo que construímos um no outro.

    […]

    Me sinto grata por você ser o alvo de toda a minha doação e entrega. É um prazer ser você a ter nas mãos o meu sentir e cada fresta do meu corpo. Eu amo a forma como me tem, como me toca (em sentido amplo).

    […]

    O prazer é mútuo. Sei o quanto adora ser chamada de “Vênus”. Mas, você não se dá conta que ser uma deusa, se tratando de ti, ainda é pouco. Você é um Universo inteiro. Aliás, o mais lindo que poderia existir. Tanta força, beleza e intensidade em uma única mulher. Você é expansão.

    […]

    Obrigada, meu bem.

    […]

    Eu quem sou grato. Terei a honra de casar com você. Aliás, venho matutando isso há dias consideráveis. Te comprei um vestido bem antes disso, por de imediato memorar você.

    Fica tranquila, não é branco e muito menos “de casamento”. Sei o que pensa a respeito. Sabe, Ele é do tecido e com os tipos de detalhes que você gosta. Quanto a cor, estampa e tudo mais, não sei dizer. Ele é a linha tênue entre o luar e o alvorecer.

    […]

    Perfeito.

    […]

    Sabe, adoro isso na gente… como nos tratamos. O imenso respeito. A cautela, cuidado e zelo um com o outro. O nosso amor puro. Nesta noite, vamos materializar não apenas simbolicamente. Te fiz algo. Também te escrevi outra música. Bom, seria surpresa, mas eu fico nervoso nesses instantes.

    […]

    Tenho certeza que irei amar.

    Está aí mais uma coincidência. Finalmente finalizei aquele capitulo. Eu escrevi todo o nosso enredo. Cada texto é pautado em um momento. São escritos repleto de frases, cores e falas dos nossos dias. Pormenorizei os nosso detalhes. Espero que goste da minha dedicatória, o primeiro exemplar será seu. Bom, seria surpresa, mas não me contive.

    […]

    Nas ultimas semanas, reconheci o seu jeito e andando diferente. A mudança do seu semblante. Acredito que se tratava disso. Eu tenho convicção que irei me desmanchar com cada palavra.

    […]

    Se trata não somente, mas também disso…

    […]

    Olha, a semana corria e muitos momentos pensei em “arrancar” algo de você, mas não tentei. Você pode ser boa em muitas coisas, mas não sabe disfarçar. Dissimular não é uma característica sua. Eu sinto que tem algo mais.

    […]

    Confesso que já fui melhor nisso. Te mostrei cada uma das minhas versões. No inicio de tudo isso, sobretudo, naquele 29 de fevereiro, eu te era um enigma. Hoje, me conhece tão profundamente que facilmente me decifra.

    […]

    Dona do meu pensamento, cogito algo. Aliás, que eu desejo fervorosamente que seja. Me diz, por favor, que não estou equivocado. Fala de boca cheia e com todas as letras que o nosso vinculo eterno já foi materializado.

    […]

    Se trata disso. Carrego o nosso vínculo eterno em meu ventre.

    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2020]

    @janacoutoj

  • [Roteiros] RUPTURA

    Eu sempre vou ter o que falar. Não guardo palavras. Mas, é cansativo quando são proferidas em vão. Sobre o meu sentir, você sabe. Aliás, fim de semana passado foi incrível.

    Posso apontar a dedo (os seus e meus) erros e os acertos, ações e omissões, os altos e baixos.

    Obrigada pelos altos.
    Obrigada pelos dias gostosos.
    Obrigada pelos olhares, pelos momentos de verdade.
    Obrigada por me mostrar inúmeras coisas.
    Obrigada pela imensidão do que me permitiu sentir.

    Porém, foi sobretudo, conturbado para apenas uma estação. Não vivemos ou viveremos tudo o que eu gostaria. Não comecei nada pensando no fim.

    O ponto final você põe, agora, sozinho. Não precisa me falar razões. A minha resistência ao CEDER e a sua necessidade em IMPOR sempre foi um problema entre nós. Sobretudo, o jeito como lidamos com as coisas, que é grotescamente diferente. Causou muitos dias baixos (como ontem e hoje).

    Todas as minhas declarações, choros, abraços, beijos, toques e olhares, foram sempre, profundamente, de verdade.

    Sabe, você diz sentir o universo por mim. Não sei como se pode amar alguém e facilmente colocar ponto final em relação a ela, bem como sempre ameaçar partir. Muito menos como tudo pode ser razão para partida. Não sei se é por você ser imediatista. Não sei.

    Acaba por me proporcionar alvoroço emocional. O alvoroço existe justamente pelo que pulsa em mim, por eu gostar de ti de uma forma desmedida.

    Você parece não perceber que, para quem está do outro lado, isso é foda, pra cacete. É uma espécie de controle emocional. Sem contar que mostra fragilidade do nosso elo, em muitos sentidos. Te disse isso das outras vezes.

    Francamente, como amiga, se atenta nisso. Como isso afeta e o que demonstra para o outro. Não sei se nos seus relacionamentos anteriores isso fluía ou como sua parceira reagia. Mas, pode descartar se quiser. Não tenho outra experiência para poder comparar. E, ainda que tivesse, sabe o quanto detesto comparações.

    Por favor, não me venha com “vai deixar a nossa coisa se desmanchar”. Sendo sincera, você quem iniciou a ruptura e, dessa vez, simplesmente acatei sua decisão. Não jogue o peso da sua escolha sobre mim.

    Recordo precisamente do seu efêmero posicionamento. Ouvi com atenção aquela frase, que, aliás, óbvio, atordoa a minha mente. “Não está bom pra mim”. Ainda que antes mesmo de proferi-la, intuitivamente pude pressentir o que diria. A mensagem amarga. Ao soar de cada silaba proferida, cada movimento dos teus lábios, queimava. Lentamente eu provava cada farpa do veneno.

    Não vou enganar a ti, muito menos a mim mesma, estou decepcionada e, mormente, com raiva. Por todo um conjunto.

    Aquela conversa não foi em vão. Aliás, nunca qualquer conversa, fala, minha foi frívola. Detesto a ideia de me doar em conversas baldias.

    Você não pode dar tchau pra mim sempre que tiver vontade. Fazendo-me sentir imenso temor diante de toda e qualquer coisa ínfima, propriamente por saber que você, a qualquer momento, irá se voltar a mim dizendo um adeus ou ameaçando isso.

    Você não pode me dispensar e depois -quando quiser - me chamar, acreditando que vou ignorar isso e simplesmente "gozar".

    Não pode me descartar assim, achando que isso não me abala ou enfraquece um vínculo.

    Sabe o pior? Isso não foi agora. Já havia acontecido mais vezes do que eu gostaria, aliás, vezes demais que chega a ser difícil de acreditar. É tristemente reincidente.
    Não quero uma relação instável. Não quero me sentir insegura, pontualmente nesse sentido: “hoje ele quer estar comigo, amanhã, sem mais nem menos, talvez não”.
    Tenho horror a estar constantemente dependente da sua aprovação e, principalmente, a conviver com a necessidade incessante em me certificar de que “está tudo bem entre nós”.

    Não quero ficar absurdamente pressionada pela ideia de que “se eu não fizer determinada coisa ou se não agir da forma que ele espera/deseja, independente do que penso ou quero a respeito, para mantença do ‘nós” irei ceder, senão ele virá colocar um ponto final ou ameaçar fazer”.

    Não quero estar obrigada a ceder quando não vê necessidade ou sequer sentir vontade para tanto, muito menos quando reconhecer um problema quanto a anuência. Fico apavorada ao me ver sendo qualquer pessoa, que não eu mesma, por temer sua partida.

    Naquela madrugada, custava pensar antes de agir? O que te faz mudar de ideia logo após enfiar na minha garganta um ponto final? Nem sei se mudou, sequer o que te motivou a tomar uma decisão incrivelmente ruim. Juro que isso me intriga. Desde quando o que penso ou sinto sobre a árdua transição do “nós” para o “eu e você” passou a te importar?

    Você fez isso, sozinho, quando eu menos esperava, quando eu sequer podia sentir cheiro de partida, muito menos cogitar qualquer coisa parecida.

    Depois daquela tarde de domingo quente, quando fizemos juras de amor e promessas, exatamente quando, para mim, estava tudo passando a fluir de um modo surreal; mais uma vez, você me fez sangrar, encerrando o nosso ciclo por “bobagem”, quando parecia ser o início do nosso melhor tempo. 

    Acredito que foi a coisa mais idiota que você fez. Justamente por eu gostar pra caralho de você aquela conduta foi uma merda.

    Talvez, seja como canta Adriana Calcanhoto, “Rasgue as minhas cartas e não me procure mais, assim, será melhor.”

    Não importa o que diga. Não me é interessante que as promessas sejam renovadas. Pois, não me valem de nada até que as cumpra. Teve inúmeras chances e elas não foram aproveitadas.

    Não irei permitir ser como das outra vezes. Ainda que eu dê uma nova chance, para o “nós”, é muito provável que semana que vem você faça a mesma coisa. Nessa frequência, irei permanecer me magoando. Detesto com todas as minhas forças o “vai e vem”. Eu não aguento isso.

    Fico pensando naquilo... Se para ti não está bom, imagina para mim com essa instabilidade partindo de você. Não é decidido quanto ao meu “eu”, em muitos sentidos.

    É claro, não imaginava que o nosso relacionamento poderia ser conturbado assim. Instável. Não quero isso para nós. Desejo pisar em terreno seguro. Mergulhar e não cair nas pedras.

    Eu que sempre falei em reciprocidade e priorizei “leveza”, me deparo num naufrágio. Não está sendo saudável e você não vê ou, ridiculamente, fecha os olhos.

    Por constatar o caminhar das coisas e acreditar sinceramente que, nós dois, desejando, seríamos capazes de contornar a situação. Nos proteger da mácula. Te escancarei isso antes. Justamente pela árdua percepção que, naquele domingo, eu te implorei: “vamos tentar”. Mas, infelizmente, nas oportunidades para vermos a tentativa, ela não aparece.

    Desse jeito eu não quero mais. Estive pensando muito de sábado pra cá. A mesma cena se repete. Não quero permanecer num relacionamento desse jeito, a nossa coisa não estava boa para ti e, para mim, estava ainda pior. Sabe por quê?

    Não quero ter que ceder aos seus caprichos (saiba diferenciar ao que me refiro) sob ameaça de te perder! Muita pressão sentimental que estava me sufocando. Sinto que a qualquer momento estarei sozinha, quando eu menos esperar, então é melhor que seja agora, já que você mesmo decidiu isso sob o argumento ridículo de que não supro as suas expectativas.

    No mais, anseio estar com alguém confiante sobre mim. Você sempre com ameaça de fim não demonstra isso.

    Aliás, quanto a sua carta, foi a primeira que recebi dessa forma de amor. Olha, independente de tudo, você sabe o quanto eu sinto por você.

    Desculpa não conseguir responder. Pela primeira vez, não tenho palavras. E isso é raro. Acredito que por estar indignada, com raiva e decepcionada, por aquilo que já falei.

    Eu confiei em você. Confiei em muitos sentidos. Estava mergulhando e me entregando emocionalmente e fisicamente. Para o cara sempre romper comigo por nada. Sem contar nas ameaças de partidas anteriores e nas coisas que já te foram ditas.

    É evidente. Fiquei e estou magoada. Quanto ao nosso vínculo, sou porto seguro enquanto você, para mim, aparenta ser incapaz de ser qualquer coisa próximo a isso. Sempre instabilidade da sua parte.

    Não vou me sabotar tentando repousar a culpa da ruptura nas minhas condutas. Eu sei que tentei agir para você, a todo instante, da forma que eu gostaria que agisse comigo.

    Lembra? Em muitos momentos eu falei “É apenas o começo. Estamos nos conhecendo. Calma, tudo no seu tempo. Podemos lidar da nossa forma. Não esquece o nosso pacto”.

    A estação inteira eu pugnei por um relacionamento saudável. Com sinceridade, reciprocidade e confiança. Sem joguinhos, desconfiança e “paranóias”, pois sequer haviam razões para tanto. Eu via a instabilidade e a repudiava com todas as forças, pois, afinal, eu gosto muito de você e queria o “nós”.

    Acredito mesmo que quando os dois querem, fazem acontecer. Mas, se é preciso maturidade.

    Em muitos momentos não me impus da forma que eu deveria. Ao contrário, conversei cruamente para te explicar o problema de algumas coisas e que poderia se sentir seguro quanto a outras. Não obstante, aceitei coisas que não gostei, de modo desprezível deixando “passar” para ficar tudo bem entre a gente.

    Digo com convicção que em instante algum agi num imediatismo cego contigo, por temer o que isso poderia suscitar em você, a mim e, sobretudo, na nossa coisa. Sei que até mesmo tu reconhece. Pois, diante de toda e qualquer pequena situação de desconforto, eu explicava as minhas razões, problemas e escolhas, me fazendo “nua e crua”.

    Sempre valorizei e recordo de todos esses diálogos. Para mim, representavam um marco para que desde as ínfimas à grotescas situações de incômodo não se repetissem. Deveríamos evoluir para sabermos enfrentar e lidar com coisas novas.

    Reconhecendo que não raramente pareci a sua psicóloga, explicando o problema das coisas, pontos de vistas, aconselhando a ressignificar e mostrando como tudo poderia ser mais suave. Nós dois precisávamos de equilíbrio e aprender a sopesar as coisas.

    Como se não bastasse, para mim mesma, muitas vezes te julguei por “infantil”. Assim como sei que, ainda no momento tendo plena convicção do contrário, também fui.
    Fizemos “pactos” para facilitar o correr dos nossos dias, já que vemos e lidamos com toda e qualquer coisa de modos absurdamente distintos. “Eu e você sempre ‘nus’ e ‘crus’”, lembra? Mas, aparentemente, nos instantes em que mais se era preciso, só eu recordava e estava disposta a segui-los.

    No último mês, houveram partidas em todas as semanas. Todas! As mesmas promessas já foram feitas outras vezes, sobretudo, nas últimas semanas. Por favor, não vamos normalizar isso. Mostra bem mais que fragilidade.

    Relacionamento é balança e não depende só de um. A conduta do outro gera sempre reação. Se isso prosseguir, da maneira como estava, é inequívoco que iremos adentrar novamente no mesmo ciclo vicioso. Assim, acabando somente por prolongar isso, a ruptura.

    Não adianta forçar nada! A entrega, o cuidado, o zelo e a valorização da nossa coisa deveria ser, de ambas as partes, natural. Independente do quanto eu deseje, independente da nossa conexão foda, não temos que forçar dar certo.

    É insano. Foi o meu primeiro relacionamento e sei que minha inexperiência pode ter atrapalhado. Não que sirva de justificativa para erros e afins. Quero dizer que, apesar de tudo, eu tentei agir com maturidade e responsabilidade afetiva. Convivi com uma sede insaciável de afastar as coisas que abalavam o “eu e você”.

    Acredito que irei me magoar ainda mais persistindo nessa ganância de cuidar de algo que independe somente de mim. Não sei como de um instante a outro as coisas podem ser diferentes.

    Você sabe muito bem. Dei um passo muito grande, seria uma surpresa e acabei te contando quando do seu adeus.

    Percebe? É difícil digerir que até mesmo quando tudo está bem, sem mais nem menos, do nada, chove. É triste remoer que na maior parte do tempo estamos no “baixo”, enquanto me apego aos poucos momentos de “alto”.

    Foi a estação em que senti o mundo. Mas, foram dias, sobretudo, conturbados. As minhas emoções ficaram à flor da pele.

    Não acato sua decisão sob o argumento de “é melhor agora enquanto é cedo, antes de entrelaçamos nossas vidas ainda mais, antes se apegar”. Não, não tomo, porque eu já estava apegada o suficiente, desde o meio-termo. No mais, pouco a pouco, te inseri em todos os âmbitos da minha vida.

    Tratava-se do nosso começo e ele deveria ser, em tese, muito bom. Deveríamos, os dois, estarmos eufóricos pela entrega um do outro. A reciprocidade, a sinceridade, o cuidado emocional com o outro tinha de ser trivial. Sem a necessidade de precisar provar que se importa ou, muito menos, se sentir obrigado a tanto.
    Sabe o que demonstra que não estava sendo saudável? Palavras suas: “ambos estão exaustos”. São coisas que não coincidem para mim. Exaustão em um curto lapso temporal. Uma estação! Parece muitos mais tempo, não é? Mas, não, foi só um verão. Com o outono, chegou a ruptura.

    Dessa forma, eu não consigo seguir. Passo o meu dia ponderando em como podemos elevar o suporte do nosso afeto. Fico tentando compreender o que acontece. Como se não bastasse, sinto constantemente o peso de precisar provar para você que pode confiar em mim, que gosto de você, que me importo, que me preocupo.
    Sendo que eu acredito que nunca fiz nada para você pensar o contrário e agir de acordo com tal. Não faz ideia do quanto me sinto imunda por isso. Insuficiente. Ainda que seja convicta de quem sou, muitas vezes, me senti assim diante de ti.

    A única vez que a partida partiu de mim, foi por isso. Por perceber tudo! Conversamos sobre reciprocidade, leveza, sentir e tudo mais. Houveram promessas de ambas as partes. Você se atentou a algumas coisas, mas ao que magoava, não. Com a primeira chuva de outono, nos encontramos nisso, partida.

    Possamos gostar muito um do outro. Mas, não foi a primeira que me disse “não está bom para mim”. Não sei como isso vai mudar de uma hora a outra. Levando em consideração o quanto já tentei, me sinto esgotada, sem cartas na manga. Como de um segundo a outro te farei sentir-se realizado? Não quero ser hipócrita.

    É duro. Posso gritar para o mundo o quanto é duro para mim enfrentar isso aqui, a ruptura.

    Sofro pelo que poderia ter sido e não foi. Não esquece.

    Acredito que estou frustrada, não pela minha entrega, mas justamente por acreditar com lasciva veemência que, depois do pôr do sol daquele domingo, nós dois iríamos tentar, mesmo! Por acreditar que as promessas, conversas e pactos não tinham sido em vão. Pelo meu crer de que nunca mais haveriam idas e vindas. Sempre estive disposta a enrrigecer a nossa coisa.

    E, exatamente uma semana depois, tudo volta ao antes. Ao morno.

    Meu mais insano e desmedido amor, o “eu e você” não vai prosseguir. É árduo dizer que na maior parte do tempo estávamos frustrados um com o outro, ainda que em vertentes distintas.

    Não quero viver na esperança de tentar. Não quero permanecer num relacionamento que conforme palavras suas, “só tenho preocupações”. Não quero seguir assim.
    Nossa afinidade deveria ser o refúgio. Algo digno de agradecimento. Sabe, muitas noites eu agradeci ao universo por estar ao seu lado, por dividir essa fase com você. Ansiei muito para que passasses a me ter como confidente, assim como te fiz o meu. Te falei isso, mas sempre respeitei o seu jeito peculiar, astuto e ocluso, nesse sentido; acredito que tratava-se de uma questão de tempo para você se sentir confortável para tanto.

    Talvez eu tenha posto muito expectativa e essa seja a raiz da frustração. Mesmo que eu tenha tentado manter os meus pés no chão. Desejei ter o seu verdadeiro “eu” comigo.

    Nesse quesito, sobre a sua carta, nas folhas “amarelas”, eu gostaria, mas não consigo ler aquilo e dizer “você não foi assim para mim”. No entanto, afirmo com convicção que você não foi somente aquilo.

    Existem dois caras em você. Aquele por quem me apaixonei e o que me faz ir embora.

    Sei que eu não sou ótima. Que não sou a dona da razão, aliás, não raramente estou completamente equivocada. Mas, realmente tentei agir para contigo da forma que eu gostaria que agisse comigo.

    Eu não menti uma vez sequer. Não tratei com desdém. Não joguei na cara o tempo que despendi para estarmos juntos. Não enganei, nem com ações, nem com palavras e em nenhum instante isso passou pela minha cabeça. Eu fui nua e crua para você, te mostrei cada fresta. Mas, nada disso foi o suficiente.

    Como se não bastasse, o meu sentir, nas suas palavras, “não o satisfaz”. E, quanto a isso, me recuso alegar qualquer coisa. E sei que essa frase jamais será esquecida por mim. Já disse o quanto detesto seu imediatismo?

    Estou assoberbada de pensamentos confusos e conflitantes. Por hora, não sei o que tenho mais a falar. E o que sei que tenho, prefiro acalentar.

    Já falei tanto. Fiz cartas de amor (puras). Me declarei. Me entreguei. Sobretudo, me joguei da cascata, a queda foi gostosa, mas acabei presa nas pedras.

    Não quero mais. Desculpa, sei que devo, pois também errei contigo, apesar da minha “ingenuidade”, como mesmo dissestes. Aquela história. E, sinceramente, pensando em tudo que vivenciamos, analisando os motins das nossas discussões, aquela consistiu na única coisa com titulo de “problema” e digna de uma ameaça de partida. Quanto às demais, trataram-se de coisas que poderiam facilmente ser resolvidas e acabaram, por nós, prolongadas.

    Independente da minha raiva e decepção, juro que digo isso com um imenso pesar, meu bem: Nada do que te digo agora é inconsciente. Essas não serão mais palavras em vão.

    Eu não havia planejado falar nada disso aqui. Depois de agradecer pelos nossos “autos”, pensei: “ao decorrer dos nossos dias, já falei o bastante”. Nada do que expus te é novidade. Não abandono o espetáculo sem mais nem menos.

    Sabe o que me corrói? Não fui para ti quem eu gostaria. Ser refúgio e confidente, por exemplo. Você não me permitiu ser. Acabava comigo te ver “morno”, com a mente e o olhar distante e, especialmente, por notar que os problemas te consumiam a ponto de te fazer agir mal com os que te querem bem.

    Foram muitas as vezes que te implorei para saber o que estava rolando e querer ajudar, mas parei quando me disse em voz alta e em bom tom que não queria a minha ajuda. Não dividiu. Não mostrou confiar em mim. Não me inseriu nos outros âmbitos da sua vida.

    Ainda assim, por ter ciência da sua dificuldade em compartilhar, te perdoo pelos momentos de desdém, pelos instantes que estava atordoado com os problemas a ponto de parecer que eu nem estava ali, que a minha presença tanto fazia.

    Porém, muitas vezes, agiu como um idiota comigo, como você mesmo pormenorizou na segunda folha amarela daquela carta. Como se não bastasse, quando diante dessas ações te disse “eu não não mereço ser tratada assim”, não ouvi sequer um pedido de desculpas, mas sim um “então arranja um cara que te trate melhor que eu”.

    São tantas coisas. São praticamente infindas para apenas uma estação. Fiz uma escolha, acatei sua decisão e, por hoje, não quero falar sobre isso. A minha cabeça está cheia e o meu coração inquieto. Não existe mais o “nós”.

    Eu disse sério ao falar que estou com raiva e decepcionada. Essa ruptura será ainda mais complicada se mantermos contato contínuo. Pelo menos agora.

    Mais uma vez, te peço, não coloque a ruptura nas minhas mãos. Você já tomou uma decisão e eu simplesmente concordei com ela. Faço isso pelo meu bem estar emocional e psicólogo.

    Não quero perder minha essência ou personalidade, como é o caso de ceder a meros caprichos, para manter relações, ainda por cima instáveis. Não quero me desgastar na tentativa de salvar algo sozinha, que não está somente sob o meu controle.

    Me apavora te ouvir dizer que existe algo mais, que estou dissimulando as razões da minha anuência. Parece absurdamente que não prestou atenção ou que ridiculamente descartou tudo o que já desabafei. Não é “do nada” e não tem que se achar estranho. Uma vez, naquele domingo, a partida surgiu de mim e pelos mesmos motivos de agora.

    Sabe o quanto desprezo idas e vindas. No pôr do sol daquele mesmo domingo te disse: “Me vejo voltando atrás numa decisão e isso não é comum para mim. Por respeito a nós, não vamos jogar fora”.

    Você voltou atrás também, em todas as suas despedidas…

    Suas ameaças de partidas e as despedidas foram motivadas com base em que eu fui para você, dentro dos seus limites, ideais de certo e errado e sentimentos.

    Sua percepção sobre o meu desejo de estar com você, príncipalmente sobre o meu sentir, depende de que eu seja quem você quer, ceder, suprir as suas expectativas até mesmo nas coisas mais mínimas.

    Sabe, eu tenho fervor por quem me deseja por inteira. A mim mesma. Não irei mudar a ponto de se tornar uma versão pirata de mim mesma.

    Eu queria poder agradar você, óbvio. Mas, sendo eu mesma e não precisando provar o meu desejo e tudo o que sinto da maneira que você achava que deveria ser. “Não está bom para mim”. Não consigo ceder a ponto de me tornar o amor que te satisfaz, que você deseja.

    Houveram pedidos de desculpas e promessas mútuos, mas nem todas elas foram cumpridas. No principal imbróglio, sequer houve tentativa. Nunca acreditei numa mudança repentina. Mas, o mínimo que eu esperava era uma mísera tentativa.

    Com instabilidade e insegurança sobre mim, tive dias de inquietação emocional e psicológica. Não consigo lidar, me martiriza. Acaba, assim, me atrapalhando nas coisas mais simples (concentração, estudo, trabalho).

    Confesso que nos “altos” me proporcionou coisas incríveis, êxtase. Mas, a maior parte do tempo estávamos no “baixo”. Pelo morno, me sentindo insuficiente, idiota e até mesmo alguém ruim. Sobretudo, “o não satisfaz”.

    Percebeu como sou repetitiva? Isso torna essa conversa densa e incrivelmente cansativa.

    Ainda que me questione, não vou mais te expor motivos. Foram coisas sempre ditas.

    Não vamos ser hipócritas. Isso não precisa acabar mal. Não vamos denegrir a imagem um do outro, não há razão. Aliás, algo assim é ridículo.

    Se é preciso aceitar os erros. Ficar triste pelo que não foi. Reconhecer o que se perdeu. E seguir com maturidade. No mais, agradecer os momentos de “altos”. Não é tratando como se nunca tivéssemos nos conhecidos que a ruptura se tornará fácil.

    Você não foi e não é qualquer pessoa. Isso não vai mudar, para mim. Marcou.

    Eu comecei com sinceridade. Vou terminar assim também.

    A minha decisão está tomada. Espero que aprendamos a não cometer os mesmos erros.

    Sobre a nossa coisa, o nosso meio-termo, me mostrou como sou intensa. Obrigada, mesmo, pelos instantes de intensidade. Adorava quando a nossa coisa pegava fogo.

    Você foi contemplado em ter o meu sentir, o meu querer, o meu corpo. Eu jamais havia me entregado tanto.

    Peço para que a nossa coisa fique entre nós. Principalmente os nossos detalhes, as coisas importantes que aconteceram. Desejos, intenções e afins. Assim como as coisas agradáveis e desagradáveis. Lembre, são memórias suas e minhas também.

    Me agrada a ideia de estagnar no tempo o “eu e você”.

    Não sei como vai me perceber depois da ruptura. Acredito e espero que não seja motivo para “descaracterizar” o meu eu. Jamais irei desonrar o seu nome. Por favor, não o faça com o meu. Não há razões. Não me interprete mal, peço isso por desencargo de consciência. Acredito no que sente por mim e sei que não faria tal coisa.
    Desculpa se te proporcionei momentos ruins.

    Foram meses repletos de primeiras vezes, para mim. Você sabe. Aliás, a primeira vez que proferi “eu amo você”, dessa forma de amor. E dane-se se foi cedo.
    Reconheço que sobre algumas coisas dei passos largos e tropecei nos meus próprios pés. Fui inconsequente. Me arrependo. Mas, jamais irei me arrepender pelo que fui e sou capaz de sentir. Muito menos, pelas palavras de amor ditas.

    Uma pena eu não tê-las visto valorizadas…

    Não quero ser vista como hipócrita.

    Sei que não compreende o meu pedido em mantermos a amizade. Não consegue entender como posso não mais te querer como seu parceiro (mesmo amando-o) e, ainda assim, implorar para que me tenha como amiga. “Não entendo como eu não te querer como amiga é algo que se deva discutir e fazer sentido”.

    Coloquei tudo às claras. Detesto quando questiona o que eu sinto. Eu não queria que fosse assim. Ansiei a transformação do meio-termo muito tempo. Você sabe. O meu sentir nasceu muito antes do verão. Não fale insinuando como se eu tivesse em algum momento mentido sobre o meu sentir, muito menos diminuindo o que me rasga o peito.

    A perda não é apenas de uma parceira ou um parceiro. É de um amigo(a) também. Não apague o meio-termo. Tudo começou numa amizade sem mais pretensões.

    - “Se você realmente sentisse intensamente, iria querer permanecer e continuar, tentar mudar. Nunca se afastar do problema, igual você fez. Me esquece. Você de repente decidiu que os nossos confrontos te fizeram sentir uma fracassada. Além de tudo, foi capaz de esquecer todos os momentos bons, sem mais nem menos, descartar-los e valorizar só os pontos ‘baixos’ para justificar a sua hipócrita vontade de partir. Forte seu amor.  Não vou negar. As vezes me pego preso nisso… questionando se tudo o que me disse, se cada palavra de afeto foi realmente cheia de sinceridade. Você é boa com as palavras e tenho medo de tê-las usado para comigo de uma forma deplorável. Não sei se seria capaz de dissimular dessa forma. É louco dizer, mas, sim, eu acredito no que diz sentir por mim. Ainda que muitas vezes não tenha agido de forma condizente, ainda que eu mesmo fique matutando a respeito. Tudo isso é insano (como você mesmo costumava dizer).”

    Quanto à mantença do “nós”, me recuso a permanecer no que me fazia sentir um fracasso. Essa sensação existia por você ter me dito bem mais de uma vez que a minha linguagem do amor não te satisfazia.

    Da forma que você coloca, faz-me sentir ingrata. Também estou despedaçada. Nos nossos dias, pouco a pouco eu estava me desfazendo em alguns sentidos e precisava do seu agir para me refazer. Por isso tanto diálogo, da minha parte. Por isso a ideia do “pacto”.

    Falei isso naquele domingo. Lembra? Com seriedade. Mas, quando tudo soava calmaria. Você choveu em mim. Foi isso que você fez naquela madrugada de sábado. Naquela noite quente, prometi a mim mesma que era a última vez que iria me fazer chorar. Última vez que iria me frustrar por você descartar suas promessas e não pensar em mim antes de fazer algo que tanto me afetava.

    Me desculpa por ser tão repetitiva. Te remeto inúmeras palavras, te falo coisas infindas, e sei que você acha um porre, acaba descartando quase tudo.

    Ao pôr do sol daquele domingo, me disse as mesmas coisas que agora. E eu voltei atrás na minha decisão, lembra? No mais, deixei claro que a hipótese de partida, da minha parte, se tratava de algo que não desejava, mas que a cogitei para evitar me machucar.

    Ainda que em outro contexto, estamos novamente na mesma coisa. Mas, dessa vez, eu já estou machucada.

    Espero que você fique bem, mesmo. Mas, sendo sincera, não vou mentir. Espero, no mínimo, um pingo de saudade, arrependimento ou pesar pela perca.

    - “Espero o mesmo de ti. Sinto uma saudade incessante. Sonho com você. Tenho arrependimento também. Quanto a estar despedaçada, não acredito. Se você sentisse saudade, vontade, amor… resgataria o ‘nós”. É simples. Eu te falei estar disposto a mudar, mas você não se importa.Eu faria o impossível por você e é deprimente te ver me colocar como imundo. Não jogue entrega na minha cara, suportei muita coisa por você e tu simplesmente joga fora. Sabe, me abri emocionalmente como jamais havia feito com qualquer pessoa. Você tem o meu amor nas mãos e está esfarelando ele. Nunca imaginei que seria capaz de uma coisa dessas. Te vejo traindo quem eu vi em você, principalmente, tudo o que me dizia ser. Você diz estar machucada enquanto me machuca também e não se dar conta.”

    Não me surpreende você não acreditar em mim. Simples para você falar pensando em quem fui contigo. Se coloca no meu lugar. Você mesmo reconheceu coisas nada bacanas que partiam de você. Não quero discutir.

    Foram poucos dias para tudo voltar ao antes. E as três coisas que eu mais te pedi para evitar, porque me afetava muito, vinheram num pacote no mesmo final de semana. Me decepcionei muito naquele sábado. Eu chorei a madrugada inteira.

    Não entendo como pode me amar e não tentar evitar fazer algo que eu tanto te pedia para ser cauteloso. Não entendo como não conseguia evitar fazer o que me desabava.

    Sabe, eu reconhecia quando agiria daquela maneira. Pressentia. Sabia quando seria tomado pelo seu imediatismo cego. Nesses momentos, eu falava coisas como: “Presta atenção. Lembra do que combinamos sobre lidar com os problemas. Não precisa ser assim”. Justamente para ver se você pensava em mim e no valor do nosso vínculo.  Antes de fazer qualquer coisa ou dizer, eu sempre pensava em como você ia se sentir. Por isso tenho certeza de que nunca te ofendi ou derrespeitei, ou magoei com o que falei.

    Não estava sendo saudável, meu bem. Não quero nós dois num relacionamento que ainda no início não estava sendo leve. Não vamos mais reviver essas discussões… Okay?

    - “Não adianta eu dizer mais nada. Vejo que persistirá nessa decisão. Eu preciso digerir a ideia e aprender a lidar. Sabe, foi você mesma quem terminou com a gente. Não te entendo. Eu corri atrás e você não quis mais, praticamente me esnobou. Permanece com a vontade de se afastar e de que, se ficar, será somente para ter minha amizade. Eu não quero ser somente o seu amigo, quero dividir uma vida contigo, desejo ser o seu parceiro. Sabe, nós discutimos algumas vezes e eu te disse coisas impulsivas, sobretudo, nunca dotadas de veracidade, foram coisas que eu não deveria (e não queria) ter lhe dito. Porém, apesar de tudo, isso jamais significou que não quero a sua presença e muito menos que ela tanto fazia para mim. Não precisa ter medo, pode confiar nessas minhas promessas, nas falas que te remeto agora.No entanto, acima de qualquer coisa, sabe o que é foda? No momento que acreditei que ficaria comigo, você foi embora. Isso foi péssimo. Tenho medo de dizer a mim mesmo o que isso significa. Você não está disposta a erguer um castelo comigo.”

    É complicado erguer castelo com alguém que diante de qualquer lajota colocada torta ameaça abandonar a execução ou a faz. Dá a sensação de que a qualquer momento a obra vai ficar inacabada e desmoronar. Do jeito que você coloca, tudo se torna pequeno. Me colocando como venenosa faz eu me sentir muito bem.

    Não foi minha intenção “esnobar”. Foi o que te disse: Eu, ferida, iria passar a ferir você também. Não quero isso. Olha, eu não queria somente a sua parte fácil de amar. Não. Eu mesma falei: “eu e você nus e crus”. Eu disse desejar o seu verdadeiro “eu” comigo.

    Moram dois caras em você. O que fez eu meu me apaixonar e aquele que tem atitudes comigo nada bacanas, me tratando de uma forma que não gosto, e assim me cortando. E, se tratando de um amor que ainda estava no começo, esse primeiro cara deveria ser o mais presente e não o segundo. Diante do segundo cara, eu não conseguia ser o meu melhor com você.

    Aliás, tem algo que está engasgado e preciso te questionar. Sabe o que eu não entendo? Você me disse assim, duas semanas atrás: “Eu posso ser só esse primeiro cara”. “Posso mostrar só o meu melhor”. Me passou a impressão de que, de algum modo, você tinha plena consciência de tudo o que apontei… Não sei.

    - “Me desculpa. Sim, eu sempre tive. Por isso quero você de volta. Para agir como você merece. Aliás, como deveria ter agido desde o incio. Com o inicio da ruptura, passei a ver e valorizar tudo de uma outra forma. Me sinto mal com tudo isso. Porém, ainda que você exponha infindas coisas, só consigo pensar que: ‘É por isso quer partir pra sempre?’. Tenho a horrível sensação de essa conversa não vai dar em nada. Sinto que estou de mãos atadas. Estou implorando para ficar enquanto você constantemente arranja um argumento para reforçar sua partida. Me faz um monstro.”

    Já que percebia, por qual razão não agia assim antes? Já pensou nisso? Sabe, são um conjunto de pequenas coisas e estou decepcionada pela existência delas.
    Argumento porque você merece justificativas. Sobretudo, porque gostaria que se colocasse no meu lugar. Principalmente, que tentasse entender. Você sabe muito bem que não ser tratado da forma esperada por quem a gente ama, corta. Mas, tenho a sensação de que para ti, estou “fazendo tempestade em copo d’água”. “Sou exagerada”.

    A minha decisão não é fácil. Eu sinto o universo por você. Ainda que tenha me decepcionado com atitudes. E é duro assumir isso. Sinto saudade do primeiro cara, muita. Sinto saudade de olhares, toques, do seu abraço, de me sentir protegida ao caminhar contigo, do seu timbre… É por sentir muito, intensamente, que as coisas que apontei me machucaram e você não está percebendo isso.
     
    Isso é difícil, mesmo. Eu vejo que reconhece o que eu expus para aceitar a sua decisão de partida. Não questionou nada e disse reconhecer. Mas, vejo que não vê como motivo para ruptura.

    Eu adoraria — com todas as minhas forças — acreditar quando você disse “eu estou prometendo que vou mudar, porque a minha visão é outra agora”. Eu não sei qual é a sua visão, mas, ainda assim, tenho medo. Poxa, você confirmou que tinha percepção de tudo aquilo antes.

    Os dias correm e em todos eles eu revivo “a nossa coisa”. Tudo poderia ter sido diferente, assim como você mesmo expôs naquela sua última música.

    Não é por meras brigas. Isso vai existir, justamente porque nos importamos e queremos fazer dar certo estarmos juntos.

    O problema é por se tratar das mesmas coisas. Como vamos crescer persistindo nos mesmos “erros”, persistindo no que destabiliza a nós dois?

    Você é astuto, tem controle sobre o que quer. Sei que não me quer como amiga. Porém, preciso saber que você está bem. Se precisar de mim, independente do que for, me diz.  Você sempre disse ter problemas, mas tinha um bloqueio em dividir comigo. Se precisar desabafar, eu estou aqui. Pode confiar em mim. Não irá ouvir julgamentos. Eu sempre questionei sobre eles por me preocupar. Não faço ideia do que sejam. Eu ainda me importo. Isso não vai mudar. Sabe o quanto sinto, sabe onde e como me encontrar, se quiser, se precisar.

    Pensa numa coisa, por favor, é a última coisa que te peço. Questiona se, pelo caminhar das coisas, eu te fazia sentido.

    O sentido a gente percebe com o tempo. Sobre “tempo”, você disse não acreditar. Eu também. Mas, sobre relacionamento, é tudo novo para mim. Ao longo da estação, mudei pensamentos, me vi em coisas que antes dizia “jamais” e fui eufórica com coisas que antes me assombravam.

    Por favor, pensa realmente nisso. Pois, uma coisa é querer a presença de alguém e outra coisa é querer a presença daquela pessoa. E, se tratando daquela pessoa, se é preciso agir com maturidade e responsabilidade afetiva. 

    Se tratando de você, para mim, há sentido. Mas, não naquele caminhar.

    Me chame de venenosa, hipócrita o que for. Só não me puna por estar desacreditada quanto a promessas. Acredito que a mudança que tanto ansiei só existiria na certeza quanto aquilo. Eu sendo “aquela pessoa”. Acredito que assim você agiria como tal.

    Essa infinidade de palavras não existiriam se você não fizesse sentido para mim.

    Juro que tentei, mas não consigo entender como por qualquer “problema” você mudava comigo e dizia coisas como “presta atenção, eu só vou caindo fora” ou que o caminhar não te agradava. Como se não bastasse, algumas vezes, de última hora, tirou o nosso encontro dos seus planos porque, para ti, me ver “não valeria a pena”. E, não obstante, claro, sempre cogitava dar um basta comigo e chegou a fazer isso algumas vezes.

    É difícil ouvir essas coisas de alguém que você ama. Eu me senti insuficiente mesmo. Insuficiente para ti. É isso que eu quis dizer com um fracasso.

    - “Você nunca foi insuficiente, muito menos qualquer coisa perto disso. Aliás, eu pensei. Não quero ser seu amigo. Sei que não irei suportar te ver com outra pessoa, um dia vai acontecer e eu não quero estar lá pra ver isso, muito menos te ouvir falando desse alguém para mim. Não quero ter contato. Mas, ainda assim, pode contar comigo, sempre que quiser, para qualquer coisa. Sabe, eu amo você de todas formas e uma delas é como amigo.”

    Eu gostaria de ser sua amiga.

    Se isso acontecer, vai demorar muito. Pra caralho. Eu não sou do tipo que se apaixona em cada esquina.

    A recíproca é a mesma. Olha, você é um cara super atraente. Devem ter dezenas de garotas lindas interessadas em você e que despertam seu interesse também. Isso nós dois sabemos. Eu sou facilmente substituível. Se ocupo um posto, logo mais ele não será meu. Você já se envolveu com outras mulheres. Já teve outros relacionamentos. Sabe que o que digo é verdade. E se por acaso um dia se lembrar de mim, vai ser em algo singelo, por exemplo, ouvindo “É Você Que Tem”.

    E independente de qualquer coisa, da minha decepção amorosa (já falamos a respeito, sabe o que quero dizer), jamais desejarei o seu mal ou direi coisas ruins a seu respeito para qualquer pessoa. As coisas que aconteceram entre a gente e também o que não aconteceu, só cabe a nós. Aliás, ainda que eu possa em muitos momentos sentir raiva, desprezo e afins, sou incapaz de sentir ódio a ponto de profanar de modo detestável o outro. Não sou alguém que se domina por sentimentos ruins.

    No mais, também reconheço as minhas falhas. Espero, mesmo, que você não tenha somente memórias ruins. Tentei e acredito não ter magoado com palavras, te respeitei (em todos os sentidos). Se em algum instante eu não fiz isso, peço perdão. Pois, tenho muito medo de apontar e de cobrar do outro algo que não está em mim.

    Hoje, eu amo você. Mesmo. Apesar dos pesares. Ainda que, olhando com distancia, eu não goste de quem foi comigo.

    Não sei se você sabe, mas há 5 linguagens do amor. As nossas são diferentes, acredito que por isso você “não vê o meu sentir”.

    Talvez, agora, a minha decisão para você (mesmo depois de tudo que eu expus e esclareci) não faça sentido. Mas, daqui alguns dias, meses ou sei lá, acredito que fará.

    Nem sempre o sentir é o suficiente para duas pessoas ficarem juntas. E juro que acredito naquela ideia de que “há formas de se amar alguém para sempre”. No entanto, às vezes justamente a nossa forma de amar, lidar com as coisas, vê-las ou sei lá, atinge o outro de uma forma que não imaginamos. É preciso ouvir o outro e ter cuidado com o que se está construindo.

    A minha decisão é para não mais me magoar. Eu sou muito intensa. Tudo me afeta muito. É frustante ser o bilhete dourado enquanto o outro só enxerga preto e branco.

    Os nosso pacto estava sendo quebrado e os diálogos e promessas sendo vãos. Eu valorizo tanto essas coisas. Reforço, eu, ferida, ia passar a ferir você também.

    Quero muito o seu bem. Sei que um dia outro alguém vai ter o seu sentir e não quero que esteja despedaçado. Não quero que lembre de mim de uma forma ruim.

    Queria ter te proporcionado somente coisas boas, talvez eu não tenha feito, assim como você não fez.

    Apesar do quanto eu sinta, jamais irei me perdoar se, por acaso, persistir nisso aqui e perder a minha essência.

    Eu apago a luz e fecho a porta com cuidado.

    “Não suporto meios termos. Por isso, não me doo pela metade. Não sou sua meio amiga nem seu quase amor. Ou sou tudo ou sou nada.” — Clarice Lispector. Faz sentido sua escolha. Eu penso a mesma coisa. Queria parecer mais forte. Vou respeitar sua decisão.

    Ps. Se um dia eu escrever um livro, leia. Provavelmente, terá textos meus sobre sentimentos e coisas atreladas a você. Será capaz de reconhecer, eu acho. (Se quiser, claro).

    - “Ninguém será capaz de substituir você pra mim. Só você teve esse posto, da forma que sempre desejei, e só você terá, por todo o sempre. Não vou estragar isso. Talvez eu faça aquilo que você sempre me falou “ressignificar”. E sim, eu já estou despedaçado. Nunca me senti dessa forma. Me magoa ver que está decidida. Só me resta tentar superar e, além de tudo, respeitar. Me desculpa por todos os ‘baixos’. Eu amo você.”

    Nunca mais ouse duvidar do que sinto.

    Sabe, eu realmente acreditei que não mais estava fadada ao Naufrágio.

    Por fim, não joga fora as minhas palavras, nenhuma delas.


    Janaina Couto ©
    Publicado — 2020
    @janacoutoj


    [PS. Não se trata de um relato pessoal. Mas, confesso que é um imenso pesar reconhecer que o meu texto foi lapidado sob um apanhado de relatos de pessoas queridas que estão ao meu entorno.
    Ainda que mesmo nas coisas mais sutis possamos constatar algo a se repudiar e imediatamente afastar-se, não raramente, horrivelmente, isso acontece apenas quando se tornam salientes.]
  • 1- Aidan - TEOMAKIA

    Seis anos atrás ele apareceu na porta da nossa casa. Lembro-me que naquela época já faziam alguns anos que minha mãe estava casada com Antonino, na época em que ele já maltratava ela. Eu tinha 10 anos e, como não tinha muitas companhias, vivia brincando de imaginar histórias nas estradas e nos campos próximos de casa. Sempre sonhei alto, e até falava em voz alta quando não tinha ninguém por perto. Imaginava histórias de príncipes e princesas, como se eu fosse uma. Mesmo sendo menina e nova, Antonino já me mandava fazer trabalhos como se eu fosse um rapaz. Eu buscava lenha, conduzia as vacas para o curral antes do amanhecer e para o pasto depois da ordenha, carpia e arava a roça e dava milho para as aves. Além disso, ele me ensinava a ordenhar e a cortar lenha. Era muito exaustivo, tomava a maior parte do meu dia e me deixava com calos nas mãos e dores pelas pernas e costas. Dentro de casa, minha mãe fazia de tudo, lavava roupas no açude, cozinhava, limpava, arrumava e também não tinha tempo livre.

    Somente meu padrasto, por ser dono da chácara, ficava tranquilo e com tempo de sobra. Quando não estava bebendo e jogando cartas num bar na vila, estava na rede, entre as árvores do quintal, mascando fumo de corda. Por vezes, especialmente quando virava a noite fora, chegava em casa no meio da tarde, completamente bêbado e xingando muito a nós duas. Cansei de prometer a mim mesma que um dia nós iríamos sair de lá, ter nossa própria terra e viver felizes. Não que trabalhar fosse o problema, mas as duas trabalhar por três enquanto Antonino, saudável como um cavalo e largo como um boi, vivia as custas do esforço de uma mulher e uma criança, não parecia ser muito justo.

    Claro que não era assim tão simples. Comprar um pedaço de terra era caro, além de muito difícil. Para ganhar uma, dependia de um título de nobreza, coisa que só reis ou o Imperador podiam dar, ao que eu sabia. A opção seria morar na cidade, mas mesmo isso seria muito complicado. Uma casa na cidade também era cara de comprar e difícil de alugar. E eu não fazia ideia do que fazer numa cidade. Precisaríamos trabalhar por dinheiro, e tudo que sabíamos fazer eram serviços de casa, plantar e cuidar de animais. Fora que, embora eu não soubesse na época, quem chegava na cidade sem posses acabava vivendo uma vida muito mais difícil do que no campo, podendo passar fome ou adoecer com muito mais frequência do que na roça. Minha mãe sempre dizia que, na verdade, elas tinham sorte de ter o Antonino. Eu nunca aceitei isso. E foi nessa época que um rapaz misterioso apareceu na porta de nossa casa.

    Numa daquelas noites em que o Antonino desaparecia, eu tinha acordado antes do nascer do sol para tocar as vacas para dentro do curral. Quando percebi que ele não tinha voltado quase voltei para a cama, mas senti algo diferente lá fora. Tive uma sensação de que deveria abrir a porta para ver, de que era algo ou alguém quente, muito convidativo naquela manhã tão fria de inverno. É, eu sei que é estranho sentir que há alguém quente mesmo sem sentir calor e estando longe, mas era esse sentimento vago que eu tive naquele dia.

    Ao abrir a porta vi, através da névoa e dos primeiros raios de sol, um cavalo preto muito bonito, daqueles dos desertos do leste, muito grande e muito forte. Ele estava vindo em direção à casa, num trote lento e pesado. Quando foi se aproximando eu pude perceber que tinha um homem desacordado no lombo. O homem era jovem, estava bem vestido e não parecia ferido.

    Assim que o cavalo chegou bem perto de mim, parou. Ele deu um relincho baixo e o homem acordou. Eu não podia acreditar que ele estava simplesmente dormindo sobre um cavalo trotando. Mas estava. O rapaz me olhou, pestanejou por alguns segundos e sorriu. Que olhos diferentes! As íris dos olhos dele eram de um vermelho tão profundamente brilhante! Tinha cabelos longos, barba por fazer e parecia ter uns vinte anos. Ele, após alguns longos segundos, finalmente começou a falar.
    - Bom dia, pequena. Como'stai? Seus pais estão? - disse com uma voz grossa e rouca, provavelmente pelo sono. Esse "como'stai" era estranho. Nunca tinha ouvido falar, mas parecia significar "como está".
    - Bom dia, senhor. Bem. Só minha mãe está agora. Quer algo? Quem é voc... o senhor? - tentei falar da forma mais educada que sabia. O jeito dele falar era muito claro, com as palavras completas, mesmo com um sotaque um pouco diferente. Será que era um nobre? Príncipe não era, já que o cavalo era preto e ele era moreno. Mas, pensando bem, eu nunca tinha visto um príncipe fora dos sonhos acordada.
    - Chamo-me Aidan. A Quem pertence esta propriedade? Ou melhor, poderia chamar tua mãe?

    Resumindo, chamei e eles conversaram por mais ou menos uma hora. Oferecemos café, queijo e cuscuz com manteiga. Ele aceitou. Não conhecia cuscuz, mas disse que gostou muito. Apesar disso, comeu bem pouco. Sobre a conversa, ele perguntou sobre o Antonino, sobre o casamento da minha mãe e sobre como ele nos tratava. Perguntou muitas coisas, sobre nossas vidas, como vivíamos antes e sobre as coisas que gostávamos de fazer. Minha mãe não quis dizer nada sobre os maus tratos e nem sobre meu padrasto ser um preguiçoso. E por incrível que pareça, ele parecia bastante interessado em tudo que dizíamos. Quando falava dele, contava sobre a vida na cidade e sobre a infância. Contou que perdeu o pai ainda jovem, que trabalhava bastante desde muito jovem, por que o pai não gostava da ideia de ter escravos, e a mãe acabou seguindo pelo mesmo caminho. Parecia ser uma pessoa muito justa e boa. E também falou que queria aprender a fazer cuscuz. Depois disso, ao saber que o Antonino provavelmente não chegaria tão cedo, se ofereceu para ordenhar as vacas e buscar e cortar lenha. Como retribuição, queria minha companhia. Aceitamos.

    Quando estávamos no curral e depois na mata coletando lenha, ele me perguntou de novo sobre todas aquelas coisas. Longe de minha mãe eu falei sobre as coisas que ela não tinha falado. Porém, agora Aidan não mostrava mais aquela cara de interessado. Fazia todos os trabalhos com o rosto imóvel, parecendo não ter nenhuma impressão do que eu dizia, a não ser quando falei das agressões, quando ele travou por um segundo. Bom, depois eu percebi que esse era só o jeito dele mesmo. Que por dentro ele reagia. E aquela sensação calorosa continuava firme e forte. Depois de tudo falado, uma coisa que falamos não saiu mais da minha cabeça:
    - Mereces mais. As duas merecem, sim, entretanto tu... tu tens tudo para um dia ser quem sou. Sou um Dragão do Império¹.
    - Um Dragão??? - eu tinha certeza de que não conseguia esconder minha surpresa. Meus olhos certamente estavam saltados. Ele riu disso. - Mas os Dragões não são apenas homens nobres?
    - Sim. Eu sou um homem e sou barão².
    - É. Mas eu sou mulher, cabocla e plebeia. Eles não me aceitariam nunca! - não sabia quem exatamente seriam "eles", mas tinha certeza de que não aceitariam.
    - Sim, eu sei. - o sorriso dele mudou. Parecia estar se divertindo com aquilo. - Mais um excelente motivo. Eu tenho só mais uma pergunta, mas essa é sobre sua mãe. - voltou ao tom sério. - Ela ama o senhor Antonino? Ela deseja continuar vivendo com ele?

    Nessa hora eu exitei. Eu não tinha certeza, mas achava que ela não o amava mais. Ele era arrogante, muitas vezes cruel e violento. Eu queria muito dizer pro Aidan que nós só queríamos ser livres, mas o que ele podia fazer? Barão era um título mais baixo, não tinha como fazer nada por nós. Mas um Dragão do Império com certeza tinha contato com nobres maiores. Antes que eu pudesse responder, ele continuou.
    - Entendi. Acho que ele está perto de chegar. Vamos recebê-lo em casa.

    Não entendi como ele percebeu, mas realmente Antonino estava chegando no exato momento que nós voltamos para frente de casa. Minha mãe, que estava lá fora, ficou branca como papel. O homem veio atacado, de cara feia, como se fosse agredir alguém. E eu percebi que ele ia agredir o barão. Aidan, por outro lado, estava com uma postura dócil, de pé perto da porta, com um sorriso convidativo no rosto.
    - Seja bem-vindo, senhor Antonino. Como'stai? É um prazer conhecê-lo!
    - O que faz na minha casa, maldito? - meu padrasto era um palmo mais alto do que o rapaz, e tinha mais que o dobro da largura, a maior parte disso em músculos, mas também era um tanto gordo. - Não te conheço. Suma ou eu te mato.

    O sorriso continuou no rosto do Dragão. Ele se despediu de nós duas, parecendo ignorar Antonino. Estávamos assustadas. Até que se virou, deu três passos até ele, colocou a mão em seu ombro e disse, ainda de maneira educada:
    - Sou Aidan, Dragão Imperial e Catedrático³ do Fogo. Sabes por que um homem é mais forte que uma mulher? Para protegê-la. Pois bem. Se eu descobrir que o senhor agrediu fisicamente uma das duas eu voltarei, o levarei a um passeio atado ao meu cavalo, o arrastarei por muitas léguas nas estradas do nosso Império, até o Paço Imperial onde, caso chegue vivo, será julgado e condenado a morte. Eu mesmo cortarei sua cabeça com um serrote. Tenha um excelente dia, senhor Antonino!

    Sem ter retirado o sorriso do rosto em momento algum, o Dragão montou seu cavalo e foi embora. Desde o momento que ouviu o nome de Aidan, Antonino mudou o semblante, parecia temeroso. Depois disso, sem falar nada e com a cabeça baixa, ele entrou e foi direto para o quarto, onde ficou por horas trancado. Daquele dia em diante, por muitos meses, ele não mais nos tratou mal.Por alguns anos eu não pude compreender o terror que meu padrasto viveu naquele dia.

    ¹ Dragões do Império: a ordem de elite, guarda pessoal da família imperial em tempos de paz, unidade de operações especiais em tempo de guerra. Tem um número limitado de indivíduos, cavaleiros cuja lenda diz terem poderes sobre-humanos.

    ² Barão: título mais baixo da nobreza do Imperio. Tem direito a uma terra e alguns escravos.

    ³ Catedrático: detentor de uma cátedra (cadeira), neste caso, uma das quatro lideranças do exército imperial. Seria o mesmo que um general.

  • 2- Sim (Roupas) - TEOMAKIA

    Queria ter tido tempo de se vestir melhor, mas nesse dia não teve. Fazia anos que ele a tinha visto sem nenhuma maquiagem ou em roupas tão simples. Dessa vez, por ter acordado tarde, vestiu um robe sobre o pijama. Escolheu o robe vinho, já que ele parecia gostar dessa cor. Apesar de serem bem lisos, amarrou os cabelos, pois não teve tempo de penteá-los. Maria tinha crescido rapidamente nos últimos meses, além de ter tomado algum corpo. Os 14 anos de idade lhe fizeram bem. E por isso mesmo preferiria estar bem vestida. Ele, por outro lado, que já era um homem feito desde que o havia conhecido, agora parecia ser mais homem ainda. Ombros largos, braços fortes... e que belas pernas! Não queria pensar naquilo, mas os pensamentos vinham a sua mente sem ser convidados. Mas de longe, a marca registrada dele era o olhar. Olhos vermelhos sangue, únicos no mundo.

    O próprio sobrado, uma casa de dois andares a poucas ruas do Palácio Imperial, fora uma cortesia dele. Desde que Aidan ficou sabendo que o padrasto de Maria tinha voltado a agredir sua mãe, ele agiu imediatamente. Assim que as transferiu para sua casa na capital, Antonino nunca mais foi visto por elas. O palpite da menina era que o Dragão do Império havia cumprido com sua antiga promessa. Ele mesmo se recusava a falar sobre isso. Talvez fosse melhor assim, já que sua mãe ainda poderia nutrir sentimentos pelo homem.

    De qualquer forma, a vida das duas mudou drasticamente para melhor. Haviam três empregados, sendo um mordomo, uma governanta e uma cozinheira, ambos muito amáveis e gentis. Até mesmo uma tutora havia sido mandada a casa três dias na semana, para ensiná-las leitura, escrita, matemática básica e todas as etiquetas possíveis. Aidan dizia que não bastaria que elas se adaptassem a viver na capital, elas deveriam estar aptas a viver na própria corte, embora ao longo de todo aquele tempo elas não tenham ido nenhuma vez até o Palácio. Eram tutoradas em conhecimentos básicos e bons modos. Aprendiam a se vestir, se portar, como comer em público e até mesmo em dança. Foram dois anos de um frutífero aprendizado. Maria adorava dançar, e sonhava que um dia dançaria com Aidan na corte.

    O Barão Aidan estava bem vestido como sempre, muito elegante e bonito. Havia deixado os cabelos crescerem um pouco, tinha a barba por fazer emoldurando um rosto quadrado e másculo. As pernas da menina deram uma leve bambeada. Seria a vergonha do ano rolar escada abaixo na presença dele. O homem estava maior. Agora ele certamente tinha mais de um metro e oitenta, sim, mas o que mais impressionava era que agora não era mais o esguio rapaz da ultima vez. Ele agora tinha porte. De frente para ele, Ana Rosa chorava. Maria percebeu isso assim que desceu as escadas. Não estava chorando na hora, mas os olhos marejados e o nariz vermelho não enganavam ninguém. Era incapaz de disfarçar isso. Aidan parecia a estar confortando, sentado de frente para sua mãe, com um ar de ternura no olhar e um meio sorriso. E então desviou o olhar para a filha. Sua expressão mudou repentinamente. Parecia estar trazendo novidades boas.

    - Pequena! - aquilo derrubou toda a expectativa que ela tinha de parecer uma mulher para ele. - Como'stai? Venho oferecer-te um convite. Caso aceite, iremos ao Palácio Imperial. Hoje haverá a apresentação dos novos pupilos dos Dragões do Império. Tenho certeza de que lhe agradará conhecê-los.
    - Estou bem, Senhor Aidan. E o senhor? Eu creio que eu vá gostar. - disse Maria, tentando em vão esconder a empolgação. - Quando será?
    - Será hoje ao cair da noite. Passarei por aqui antes do pôr do Sol para levá-las. Maria, quero que vista-se passando mais força do que fragilidade, entende o que quero dizer?
    - Não entendi. De toda forma eu não sei como faria isso. Mas, por que motivo eu deveria me vestir dessa forma? - Mais uma dele. Será que era para que fossem parecendo um casal? Aidan se vestia de maneira imponente sempre, tanto com farda militar quanto usando sobretudo.
    - Talvez encontremos alguma resistência por lá. Bem sei que tens alguma noção de como se porta a nobreza, não é? Mas não preocupe-se. Mandarei a roupa com antecedência. De toda forma, não use muita maquiagem. Ou use... não sei... podes escolher essa parte. Tenho até vontade de pedir-te para que vá vestida como uma princesa, mas não precisamos colecionar ainda mais problemas do que já teremos a princípio. - problemas? A forma como ele falava dava a entender que Maria seria testada ou sabatinada de alguma maneira. Aquilo a preocupou, mas tentou não pensar nisso.

    Depois de conversarem bem pouco, Aidan infelizmente foi embora cedo. Reforçou que mandaria as roupas e sugeriu que Maria aguardasse elas para escolher a maquiagem, caso estivesse em dúvida. Quando chegaram, percebeu que ele estava falando sério: a roupas eram quase masculinas. Uma casaca preta de mangas longas, uma camisa feminina em um tom de vermelho tão profundo quanto os olhos dele, um par de calças pretas e outro de botas militares. Na verdade, exceto por serem modeladas para um corpo como o dela, aquelas roupas realmente pareciam as dele. Será mesmo que ele não a via como uma mulher? Bem, não tinha como questionar o Barão. Perguntaria quando chegasse. Curiosamente, ele acertou as medidas dela em cheio: nada folgado, levemente justo, o traje valorizava cada curva dela. Talvez ele reparasse... Maria não queria pensar nisso, mas todas essas coincidências a deixava mais animada com a ideia de que ele prestava atenção nela.

    Maria tentou puxar a língua da mãe para saber do que se tratava. Ana Rosa certamente sabia de algo, já que estava chorando tanto. Mas ela não quis dizer, alegando que foi o que Aidan a fez prometer. Limitou-se a dizer que, mesmo ela não gostando nem um pouco, a filha provavelmente adoraria.


    Quando a charrete chegou, Aidan estava bem mais sério. Parecia preocupado com algo. Mal olhou para as duas. Até que, de rompante, olhou para Maria novamente. Toda a seriedade se desfez numa cara de travesso.
    - Eu escolhi muito bem mesmo. Como esperado de mim.
    - As roupas me serviram bem, Barão. - Maria estava subitamente tímida.
    - Ah sim, as roupas. Eu também as escolhi bem. - e após essa demonstração gratuita de safadeza, voltou a sua introversão inicial. Maria ficou especialmente desconcertada e devia estar vermelha como um tomate. Mas a satisfez saber que ele estava falando dela. A mãe apenas conteve o riso. Pelo menos aquilo tinha distraído ela. Ana Rosa não quis dizer a ela qual o motivo do choro mais cedo, mas passou o dia toda diferente, ora triste, ora dispersa. Enfim, mesmo que ninguém perguntasse, após dez longos minutos que pareciam uma eternidade naquele silêncio, Aidan finalmente disse do que se tratava.
    - Maria, eu a escolhi como minha sucessora. É uma apresentação dos pupilos, e você será a minha. - aquilo a assustou. A menina travou, de queixo caído.

    Maria teve uma explosão de vários sentimentos naquela hora. Estava feliz por ser escolhida, profundamente surpresa por jamais imaginar que poderia ser, ansiosa por estar indo para um evento tão importante, nervosa por saber que não será nada fácil convencer o Império inteiro de que pode ser uma Catedrática... e, claro, um pouco desapontada, afinal, ela queria muito dançar com Aidan. Ou mesmo ser pedida em noivado. O que? Como assim? De onde saiu isso? Agora sim, Maria estava desconcertada, envergonhada por ter pensado nisso, começou a suar frio. Claro, apenas por um segundo, até perceber que ninguém saberia sobre esse pensamento. Mas sabia que agora não conseguia mais tirar da cabeça esse novo sonho. A puberdade é realmente confusa. Finalmente se recompôs:
    - Mas... não são somente homens que podem ser Dragões? Quero dizer, homens, nobres, com ascendência e tudo mais? - tinha aprendido sobre aquilo tudo com a tutora ao longo dos últimos anos.
    - Sim sim, isso... e tudo mais. - respondeu com desdém. - Essas são as regras. Mas o princípio, a ideia central, o verdadeiro cerne da questão, é que eu escolha alguém de confiança, a melhor pessoa possível para me substituir. Mas, sim, todas essas regras são seguidas à risca ao longo de gerações.
    - E então. Vai descumprir as regras? Por que? - agora ela estava mais confusa do que nunca.
    - Eu sigo princípios, não regras. Entenda, as regras podem voltar-se contra você, podem ser injustas. Os princípios não. Siga princípios e será bem-sucedida.
    - Barão, eu nem sei o que dizer... - Maria realmente estava confusa. Era uma missão complicada. Ela não gostava nem um pouco de conflitos. Também odiava pressão. Mas não conseguia negar um pedido do Aidan. Por que ele não deu a ela tempo pra pensar?
    - Diga apenas que sim. Sempre diga sim para mim, pequena! - Aidan fez aquela cara... como negar algo para aquela expressão? Parecia um menino pedindo carinhosamente. E esse "sempre diga sim para mim" despertou sentimentos. Voltou a pensar no tal noivado. Aidan estava começando a mexer com o coração de Maria. Ela não tinha outra escolha. Aceitar significava ficar com ele.
    - Sim, sempre sim! - se viu dizendo. Não tinha volta. Que viessem as lutas. Maria lutará por Aidan sempre.

  • 3- Catedráticos - TEOMAKIA

    O Palácio Imperial era muito bonito, em estilo barroco, de cor clara. Tinha dezenas de janelas e muitas portas. Entraram pela principal. Havia muita gente entrando e saindo do Palácio, tanto militares quanto civis, porém parecia que a grande maioria era nobre, pois se vestiam muito bem. Assim que entraram, havia um salão muito comprido e largo, com uma decoração muito rica e bonita. Havia muita alusão a santos nos vitrais, muitos mosaicos em cores muito vivas, algumas armaduras ao lado das grandes janelas e um teto abobadado com uma pintura tão linda que era difícil desviar o olhar: uma miríade de anjos cantando em nuvens que circundam uma forte luz central sobre um céu azul. A frente, sobre um estrado, estavam duas cadeiras douradas ornamentadas com estofados vermelhos. Estavam vazias. Ao lado delas, de ambos os lados, haviam mais algumas. Abaixo do estrado estavam perfiladas muitas dezenas de jovens, claramente homens nobres, com idades variando entre doze e dezoito anos.

    Aidan pediu para que Maria fosse para perto deles e aguardasse. Assim que ela chegou ao local, um burburinho se iniciou entre eles, provavelmente por causa dela. Tentou conter o nervosismo de estar ali no meio de todos. A frente dela, por todo o salão, centenas de pessoas, em sua maioria homens, muitos deles militares, discutiam calorosamente. Logo, cada vez mais deles olhavam para ela, o que a deixou tremendo de nervoso. Então, três militares jovens, que estavam caminhando e cumprimentando cada um dos jovens que ali estavam, chegaram até ela.

    - O que faz aqui, garotinha? - disse o primeiro, um homem mais alto e mais largo que Aidan, com queixo partido e cabelos castanhos abaixo dos ombros. Seus olhos eram verdes claros, com um brilho profundo.

    - E-eu... eu fui indicada... - gaguejou Maria, tentando parecer mais calma.

    - E quem é o seu mestre? - o segundo indagou, um homem loiro, com olhos azuis lindos. Parecia ser o mais jovem deles, e certamente o mais bonito.

    - Não é óbvio? - o terceiro interrompeu a conversa antes que Maria pudesse responder. Era um rapaz de estatura média, mais esguio e de cabelos estranhamente mais claros, quase grisalhos. Olhos dourados. Soltou uma gargalhada alta e continuou - Ele sempre me surpreende. Essa eu quero ver.

    Os outros dois lançaram a ele olhares de reprovação. Seguiram para o próximo garoto. Parecia óbvio, esses eram os outros Catedráticos. Maria começou a se sentir frustrada. Será que Aidan estava brincando com ela? Ao procurar na multidão, não conseguiu vê-lo.

    Quanto mais tempo passava ali, mais raiva nutria pelo Barão. Maria não admitiria ser tratada como um brinquedo. Por mais que ele fosse seu mecenas¹, isso não se faz. Pouco a pouco a multidão começou a se aquietar e tomar seus lugares. Em pouco tempo, somente os militares permaneceram no salão baixo, enquanto as demais pessoas subiram as escadas para os mezaninos. Maria sentia todos os olhares postos sobre si, o que aumentava aquele sentimento negativo. Enfim, o silêncio começou a reinar ali e iniciou-se uma discussão mais pontual.

    - O que significa isto? - bradou um homem, um tanto mais velho, já grisalho e com entradas proeminentes, apontando em direção a ela. A vergonha a consumia.

    - Se está referindo-se a minha aluna, é melhor começar a utilizar os pronomes de tratamento adequados. - Aidan, com uma voz mais grossa do que o normal, finalmente apareceu no meio daquela multidão de homens e tomou a frente. Um calafrio subiu pela espinha de Maria. - Minha sucessora deve ser tratada tal como o que ela é: a futura Catedrática do Fogo!

    - Afronta a todos nós com esse disparate! - outro homem falou, e parecia furioso. Um burburinho voltou a se iniciar. - Sabe quais são as regras, Barão! Não iremos permitir.

    - E farão o quê? - Aidan, em tom de desafio, questionou. - A unica regra que conheço é que eu escolho meu sucessor e os senhores aceitam calados. Eu é que não permitirei ingerências sobre as prerrogativas que me cabem. Lembre-se de que está falando com um Catedrático, Dragão.

    Os outros três Catedráticos apenas observavam calados. O de cabelos grisalhos segurava o riso. Aidan a defendia como um leão. Não, não era uma brincadeira, ele estava falando sério. - Tudo isso é pelo fato de ter sido desprezado? - voltou a indagar o primeiro, agora em tom de ironia - Ora, vamos garoto! Já te aceitamos, mesmo não sendo um alto nobre. Não há necessidade de sentir-se inferior. - Eu nunca me imaginei inferior a nenhum dos senhores. São fracos, não possuem fibra, seriam incapazes de me suceder. A unica coisa que consigo sentir pelos senhores, quando me lembro que existem, é pena. E uma certa compaixão também, que é o que os permite continuar essa conversa desnecessária. - Quem faz muitos inimigos não sabe de vem o punhal... - um terceiro homem recitou um ditado antigo. - Cuidado, jovem Barão! - Cuidado Luciano, cada um segue suas tradições. Os senhores seguem o costume de nomear sucessores homens e nobres. Eu sigo o antigo costume de não deixar que um homem que me ameace veja o próximo nascer do Sol. Espero que não seja o caso. - a voz de Aidan estava fria. Por um momento, Maria conseguiu sentir o ar muito mais denso. Um silêncio acompanhado de um clima pesado se abateu sobre o local.

    De repente o clima mudou. Cada um dos Dragões caiu sobre um dos joelhos e abaixaram suas cabeças, inclusive Aidan e os mais exaltados. Então, Maria e os demais aprendizes se viraram e logo começaram a fazer o mesmo. Era o Imperador Tiago I, que estava de pé a frente de uma das cadeiras do centro.

    - Podem se levantar. O que está acon... - assim que colocou os olhos sobre Maria, ele pareceu entender do que se tratava. Um leve sorriso de canto de boca tomou seu rosto. - certo. Entendi. Aidan, por favor, explique.

    - Sua Majestade Imperial, obrigado por me dar a palavra. Eu escolhi meu sucessor, mas os demais não aceitam.

    - Imperador, isso é um absurdo. Visivelmente ele escolheu uma mulher, plebéia e mestiça. - atravessou na frente da conversa o primeiro homem que havia reclamado. Aidan agora estava furioso:

    - Se o problema é ser mestiça, saiba que isso em nada influi na índole ou na capacidade dela. Se o problema é ser mulher, saiba que não existe a menor possibilidade de um aprendiz meu ser inferior a um dos vossos. Quanto a ser plebeia, foi o exato motivo pelo qual a escolhi. Se questionar minhas decisões novamente, considere-se desafiado para um combate.

    - Chega! - o Imperador vociferou. - quero esclarecer algumas coisas aqui hoje. Em primeiro lugar, não admito ameaças aqui. Em segundo lugar, não falem, a menos que eu lhes tenha dado a palavra. Essas duas regras garantem que possamos conversar civilizadamente. Em terceiro lugar, não há regras para a sucessão. A escolha é feita por cada um dos Dragões, como lhes parecer melhor. - voltou os olhos para Aidan - Me diga, sua escolha é essa mesmo? A garota atende a seus critérios?

    - Sim, Majestade, Maria é como eu. Viveu trabalhando arduamente desde a infância, sem pai e sem escravos ou servos. Tem uma boa índole, é humilde e inteligente. Ela tem o que é necessário para ser melhor do que eu. E, obviamente, muito melhor do que qualquer um dos presentes aqui. - Aidan falava com convicção. Maria chegou a marejar os olhos ao se lembrar de tudo o que passou e ainda mais por ouvir aquelas palavras do homem que ela mais admirava. Não pôde evitar um leve sorriso de satisfação.

    - Muito bem. Está encerrado o caso. Aceitem, é uma ordem. Caso desafiem meu pupilo, não terei como contê-lo. - terminou o Tiago I.

    "Meu pupilo"? Maria estava perplexa. Aidan havia sido pupilo do próprio Imperador? Aquilo era chocante. Ainda mais por saber como as regras do Império funcionavam. Havia pouco tempo, ela tinha estudado sobre isso. O Império era composto por diversos territórios, entre eles as marcas, os ducados, os condados e os reinos. A princípio, os quatro reinos se unificaram e formaram o Império. Posteriormente, novos territórios foram agregados, seja por meio de conquistas militares ou de negociações com chefes de Estado. Esses novos territórios ganharam o status de marcas. As marcas eram territórios periféricos, que faziam fronteira com reinos bárbaros. Quando o Império continuou se expandindo, algumas marcas deixaram de fazer fronteira com outros reinos, e então passaram a ser condados e ducados, dependendo do prestígio que tinham junto ao Imperador.

    Os marqueses, condes, duques, reis e o Imperador passavam seus títulos a herdeiros aparentes. Entre os reis, o herdeiro aparente era, preferencialmente, o filho mais velho do sexo masculino. Caso ele não tivesse filhos homens, a sucessão passava para os irmãos, isto é, os filhos do pai dele, seguindo a mesma regra de primogenitura² e de masculinidade. Outros nobres seguiam uma regra parecida, tendo como diferença que podiam passar o título para mulheres. Para o Imperador, a regra era semelhante, mas como não era um título essencialmente hereditário, o herdeiro aparente podia ser um apadrinhado, um pupilo ou alguém próximo. Seguindo essa lógica, a menos que Dom Tiago tivesse filhos ou outros apadrinhados, Aidan podia muito bem ser o próximo Imperador. De qualquer forma, a aclamação deveria ser feita por um conselho de nobres. Isso talvez dificultasse as coisas para o Barão.

    ¹ mecenas: financiador, patrocinador. Pessoa que investe em algo ou alguém, em geral visando retorno.

  • A Bruxa da Arruda e o Sagrado de Tudo

    A manhã estava carinhosamente refrescante em um dia de verão calmo, que precedia o calor do seco e ensolarado tempo impermanente. Acordou às cinco horas da manhã como de costume, e já não tinha mais a necessidade do despertador do seu smartphone para tal feito. Simplesmente os olhos automaticamente em uma só expressão se abriram, o corpo em um só impulso na cama se sentou, e mergulhado nos seus pensamentos do que fazer com o novo dia de quarentena que auto se apresentava, meditava… claro! Aqueles dias eram por demais incomuns, de um lado tinha o dia todo pela frente sem a rotina acinzentada do levantar, correr e trabalhar, e, por outro lado, teria que ser criativo ao esforço máximo, em táticas incomuns e altruístas para não deixar que o tédio com toda sua improdutividade o arrebatasse, sequestrando a sua proposital impulsionada momentânea e intencionada alegria.
    Essa intencional alegria era a Poderosa Presença do Sagrado em sua vida. E apenas se baseava, por incrível que pareça, as coisas e recordações mais simples e singelas da sua tenra infância. Principalmente as lembranças delicadas e afetuosas de sua bisa, a Bruxa da Arruda, D. Darluz. Pelo qual, todas as manhãs, dedicava em um cantinho do seu oratório (em culto aos antepassados) uma vela sentada em um pires repleto de azeite de oliva misturado a sal grosso e mel, um pote de água que diariamente derramava seu líquido em uma específica planta de Arruda (Ruta graveolens), trocando a água do recipiente todas as manhãs, além de oferendas de flores silvestres, como: Cenoura-brava (Daucus carota subsp. Maximus); Centaurea Nigra (Centaurea nigra subsp. rivularis); flor Leopardo (Belamcanda chinensis); flor de Laranjeira (Citrus × sinensis); flores de Onze-horas (Portulaca grandiflora) e Calêndulas (Calendula officinalis). Tudo isso para se manter em conexão permanente com o espírito de sua querida bisavó. Sendo esta, em vida, sua sacerdotisa. E em morte carnal sua guia espiritual. Pelo que lhe prometera em vida terrena, que ao desencarnar nunca o abandonaria e o vigiaria de cima. Dando-lhe inúmeros conselhos e severas instruções ritualísticas de como manter o contato espiritual com sua alma e coração depois de sua partida.
    Para a Bruxa da Arruda, sua bisa, tudo era Sagrado…
    E do Sagrado… e unicamente, pertencendo ao Sagrado!
    Tudo era vivo! E tinha em si um grande e puro significado.
    Tudo era mágico!
    Tudo era místico!
    Tudo era encantado!
    Tudo era rico!
    Sua constante alegria não se baseava em emotivos momentos.
    Era como o constante balançar das árvores que bailavam se animando, apenas, com o tocar dos ventos.
    O seu grande sorriso em sua face iluminada, transmitia a qualquer um que olhava um manancial inesgotável de pleno contentamento.
    As pessoas que iam ao seu encontro de amor se preenchiam, automaticamente renovando esse sublime sentimento.
    Sua bisa lhe dizia que o Sagrado é um estado a ser sustentado constantemente. Um estado de bons hábitos e boas disciplinas que você mesmo se coloca a praticar. Um estado de Amor, de estar amando e de se sentir amado a toda hora e em todo momento, independente das circunstâncias, posses, pessoas, relacionamentos e virtudes materiais ou espirituais. Um estado de simplicidade e humildade, e cumplicidade no serviço devocional, na prática da caridade e solidariedade. Vivendo em perfeita gratidão e sendo gentil não só com as pessoas, mas a tudo em que os nossos sentidos intentar, aplicar e perceber. Lhe dizia que o segredo para vivenciar o Sagrado na prática, estava na gratidão e valorização da vida em todas as suas formas, não diferenciando uma pepita de ouro de uma simples pedra do rio, um ser-humano de uma formiga, a mais iluminada estrela do céu noturno de um singelo grão de areia das praias do mar. E essa valorização é ver a beleza oculta no amago de todas as coisas, sua Energia Divina e Intenção Criativa. Dizia-lhe que para realização de tal feito era preciso se livrar das amarras da má educação de si mesmo, que degenerou os nossos sentidos na elaboração de conceitos e preconceitos, a partir das inúmeras errôneas percepções externas a nossa Linhagem Sagrada, deteriorando e adulterando o nosso pensar, o nosso sentir, o nosso olhar, o nosso ouvir e o nosso falar. E explicou-lhe, que devido a tudo isso, o porquê das manifestações artísticas, arquitetônicas, filosóficas e religiosas de hoje estarem tão feias, rudes, cinzentas, frias, quadradas, embaraçadas e amontoadas, repetitivas e sem coração.
    D. Darluz dizia que por nos desconectarmos das sabedorias dos nossos ancestrais, o nosso sentido do novo e a capacidade do espanto e da novidade assombrosa de olhar tudo de maneira nova, no sublime estado de encantamento e percepção de alerta alegria, se perdeu no mundo. Dizia que o mal das futuras gerações estava na comparação e associação de capturar as impressões, sem a capacidade madura de traduzi-las, sendo essa maneira uma errônea tentativa de interpretar o novo sem a compreensão do velho, desassociando as consequências presentes e futuras das ações passadas. Daí, como ensinava a Bruxa da Arruda, eis a importância de se cultuar os antepassados, pois, uma árvore não pode florir e gerar bons frutos sem o bom cuidado para com suas raízes.
    Voltando ao momento presente, e na cama em que se encontrava sentado, vira como era difícil traduzir a vivência de infância que tivera com sua bisa para o moderno, virtual, tecnológico e competitivo dias de hoje. Sabia que as redes sociais virtuais, ao contrário do que se pensava, alimentava mais as más ações do ego do que o conhecimento (pelo qual era a sua proposta inicial). E que esse contato virtual se tornou uma máquina alimentadora dos nossos mais animalescos instintos, provocando mediante as imagens, sons, cores e palavras as mais variadas sensações emocionais para a satisfação dos nossos mais carnais e individuais desejos de ter ou ser. Não medindo as consequências de um super ego (‘eu’ pluralizado), que busca sempre aquelas ilusórias sensações que lhe possam dar a tão almejada satisfação momentânea, em uma falsa privacidade de no ato de estar solitário cometermos as maiores torpezas, em que julgamos erroneamente não impactar o nosso mundo externo. Vira que a internet, ao contrário do que fora a sua proposta de unir as pessoas, se tornou um luxurioso baile de máscaras, em que as redes sociais eram essas enfeitadas e coloridas máscaras.
    Assim, contudo, preferia estar no seu jardim. Na companhia das lembranças de sua bisa, a Bruxa da Arruda, D. Darluz. Que o lembrava que o mundo ainda era envolvido por uma aura de Novidade Mística, Alegria Mágica e Amor Divino. E que só poderia vivenciar o Sagrado da Vida observando, compactuando, comungando e se relacionando com o Mundo Natural em toda sua essência ecológica. O seu pequeno jardim era totalmente dedicado ao Sagrado e a memória de sua bisavó. Ali… dedicando-se a colocar as mãos e os joelhos na terra, se sentia uma Pessoa Superior em toda sua humildade, dividindo-se entre o observador e o observado, conhecendo a si mesmo na observação dos pequenos seres vegetais, minerais e animais. Se perdendo em um mundo desconhecido de encanto e nostalgia, que o elevava e fazia distante das miseráveis catastróficas vivências de traumas e barbaridades da bestialidade e ignorância humana.
    Ao regar suas plantas em pleno final de tarde, se via quando pequeno sentado no colo de sua bisa em uma balança pendurada a um tronco da árvore de Tipuana (Tipuana tipu (Benth.) Kuntze), em que juntos no crepúsculo vespertino se divertiam olhando as inúmeras nuvens no céu a tomar formas inusitadas de rostos, silhuetas, animais e objetos. E sua bisa, também, instigava a sua imaginação a ver essas formas nas plantas, flores, objetos e coisas. Dizendo que as mensagens dos seres naturais (Elementais) vêm a nós nas formas que a nossa consciência pode reconhecer, por eles falarem uma linguagem desconhecida aos nossos sentidos e dimensão.
    E, lembrou-se das manhãs ensolaradas ao correr pelo terreno da Chácara Celeste (que na verdade era um pedaço do céu na terra) logo ao acordar, indo de encontro a sua querida bisa nos campos abertos, vendo-a colher flores para o seu ritualístico culto matinal. E chegando ofegante até ela, gritava: “Bisaaaaa!”. E D. Darluz respondia com a mesma intensidade: “Meu Miúdo!”. E ela o carregando, abraçava forte e o cobria de beijos, até ele dizer basta. E, D. Darluz lhe dizia: “Olha meu Miúdo, não existe nada neste mundo que é mais adorável que uma flor, nem nada mais essencial que uma árvore e planta, sem elas não conheceríamos o belo, não poderíamos respirar e nem comer, nem nos curar. E, ocultamente a esses benefícios que elas nos trazem ao nosso corpo de carne e seus sentidos, tem ainda a sua função mística, que é a mais relevante, algo divino em que as pessoas comuns e materialistas não têm a capacidade de ver. Uma força mágica e espiritual, eterna e imutável.”
    A Bruxa da Arruda sempre o alertara a valorizar todas as coisas… de uma simples pedra a um pequeno objeto. Como um brinquedo, um utensílio ou algo do tipo. Dizia que tudo tem um propósito e que nada é obra do acaso. Alertara que todas as coisas por serem criações foram pensadas e intencionadas a se manifestarem. Tudo tinha um espírito, mesmo as coisas inanimadas. Pois, sempre afirmará: “O que tem corpo, tem espírito. Tudo é vivo! Toda criação é fragmento do seu Criador, contendo em si uma determinada energia que por mais pequena e singular que seja, é viva em si mesma, presa e magneticamente sustentada nesse corpo, é consciente especificamente para executar tal função, e depois de executada por si só se decompõe e desaparece”. E afirmava que a evolução desses corpos inanimados tinha a ver com a evolução humana, de acordo com seu grau evolutivo. Assim, o inorgânico Elemental podia se manifestar numa pedra, numa mesa, em um relógio de pulso, nos objetos que mais amamos e desejamos, e ainda mais nos brinquedos das crianças, por serem carregados de sentimentos. E que por isso, para seus Rituais da Magia Elemental necessitava dos objetos e minerais… das pedras… das cascas de árvores… dos restos de corpos dos seres vivos e seus derivados, onde se continha ainda preservada a energia Elemental necessária para tal e específica magia.
    Assim, Maria da Piedade…, moradora e proprietária da Chácara Celeste, que se localizava em algum lugar escondido na região nordeste do Brasil…, a Bruxa da Arruda: agricultora, queijeira, azeiteira, parteira, rezadeira, curandeira, e feiticeira portuguesa…, de origem dos antigos povos celtas das terras europeias mediterrâneas da Península Ibérica…, apelidada como D. Darluz…, afirmava que quando nos damos conta da existência do Poder Criativo em tudo que existe ao nosso redor e no nosso viver, quando descobrimos que tudo tem coração e inteligência, que tudo é intenção, e que a toda intenção foi aplicada uma específica atenção, e que a tudo que damos atenção doamos uma determinada fração de nossa energia vital, que se torna um fragmento de vida em si, independente por si próprio e evolutiva em si mesma… Tudo se torna Divino! Tudo se torna Sagrado! A ordem da Grande Espiral do Eterno e Permanente Contínuo.
  • A guerra de sangue cap.1 começo

    -…. Magnus pega sua espada caida no chao , e vai correndo na direçao do dragão vermelho,o dragão pensando que ele éra um alvo facil góspe uma ernome bola de fogo em direção de Magnus , magnus alevanta seu escudo e continuar a andar na direçao do dragão , magnus sendo atingido pela bola de fogo do dragão continua a caminha para frente pois a bola de fogo só deu uma queimadinha em seu escudo… Magnus vai e solta seu ernome escudo e pula em direçao ao dragão,ele alevanta sua espada e………….
    -Mãeeeeeee……
    Mãe-que ,que foi filho…
    Filho-Porque Magnus pulo em direção ao ernome dragão vermelho ?
    Mãe-Porque ele ia corta a cabeça do dragão,e salvaria a pricesa das mãos do dragão filho.
    Filho-Más se o dragão é um animal , então não são patas mãe ?
    ……..(relogio veio a tocar)…………
    Mãe-bom acho que esta na hora de dormi.
    Calmamente ela coloca o livro encima da mesa de seu filho, e tampa ele com um ernome coberto,e beijou sua testa…..
    filho- mãe mas como termino a historia ?
    A mãe dizendo para ele dormi, e ele insistia para que ela termina-se a historia…. Então depois de um tempo a mãe nervosa falou
    -VAI DORMI IMEDIATAMENTE RAGNA!!
    o menino desesperado coloca o coberto em sua cabeça e fala
    Ragna-boa noite!!
    Ragna olha com um olho para sua mae enquanto o outro ficava enbaixo do coberto e fala
    Ragna-mãe amanhã é meu aniversario e vô fazer 8 anos, sera que você poderia fazer aqueles biscoito que só você sabe como fazer ?
    A mãe olha e rapidamente Ragna se esconde enbaixo do coberto
    a mãe apenas deu um sorriso e falo
    Mãe-boa noite…..
    ……...10 anos depois……...
    …………..Mãe-filho por que você não sai da sala do seu pai e vem aqui enbaixo comer unpouco
    Ragna simplesmente abre a porta e sai com um livro em sua mão
    Mãe-Filho por que você não deixa o livro em cima da mesa do seu pai e vem comer….
    Ragna simplesmente deixa o livro em cima da mesa e fala
    Ragna-mãe … hoje eu irei em busca do meu pai…
    Mãe-filho eu acho melhor…
    Ragna-não eu irei sim nem adianta tentar me impedir já faz 8 anos que ele sumiu e não volto, deixando nós pobres, se lembre que nós tivemos que trabalhar como se agente fosse escravos!!
    Ragna inconscientemente conjura uma magia que fez a porta que estava atras dele ser arrancada e destruida……
    A mãe de magnus assustada tenta acalma-lo , mas quando a porta da sala de seu pai ela vê diversos livros de magias,conjuração,invocaçao,etc encima da mesa de seu pai… e fala
    Mãe-então éra isso que você estava pesquisando…..
    Ragna se acalma e vê sua mae com uma cara como se fosse chorar e pergunta se esta tudo bem …
    sua mãe irritada fala
    Mãe-filho…… a você se lembra da historia sobre seu avô não se lembra ?
    Ragna tentar lembra da historia….
    “seu avõ era um guerreiro que sabia usar algumas magias, que lutou contra um dos maiores dragões que toda a historia tinha visto,um dragão que conseguia controlar o sangue de outros animais e usa-las como arma…. O dragão cortou sua perna direita, seu braço esquerdo e seus olhos,… mas com isso o seu avô conseguio corta a barriga to dragão totalmente, e venceu…. E como premio ele cortou os braços e pernas de um recém nascido de dragão que estava no ninho daquele dragão ernome, e arranco os olhos , deixando o filhote totalmente banhado de sangue… com ajuda de sua esposa que sabia magias curativas conseguio usar o braço do filhote de dragão e sua perna , já seus olhos,demoro cerca de 2 horas arrancar os perfurados e colocar os olhos do dragão filhote que mesmo recém nascido já tinha 1,90 m de altura o tamanho de um homen sadio…….. no final ele conseguio ter 1 braço,1 perna e 2 olhos de dragão mais já que essas partes de dragão eram diferentes de um ser humano começo a ter efeitos negativos , o avô começo a ficar louco e assasino milhares de seus companheiros… e no final ele foi morto por tais amigos… deixando 1 esposa e 1 filho recém nascido para trás”……………
    Ragna-sim eu lembro mais ou menos , mas oque tem?
    Sua mãe pensou 2 vezes e falo
    Mãe-deixa filho……
    e depois de varias horas, Ragnus fico curioso por que sua mãe pergunto se ele se lembrava da historia de seu avô que éra pai do seu pai, oque teria a ver ? Isso….. anoite todos da casa foram dormi………….. 
     
     continuação ?
  • A paixão como eterno crime culposo

    Poucos livros conseguiram abordar as relações conflituosas no casamento como A Guerra Conjugal, do escritor curitibano Dalton Trevisan. Os contos reproduzem os papéis e o psicológico de muitos casais. Com objetividade, humor negro e uso de metáforas, seus textos transmitem uma valoração naturalista da união entre homem e mulher.
                Em todos os contos, dois personagens se fazem presentes, João e Maria, por si só uma ironia do autor, pois nos remetem a famosa história dos Irmãos Grimms. Lembrando o Star System usado em obras de mangá, como as de Osamu Tezuka. Assim a visão do leitor se volta para as ações dos personagens e a influência do meio em que vivem. Isso foi essencial para que sua narração direta não ficasse vaga durante a leitura.
                Sua narrativa sintética não impediu a construção de personagens redondos, algo bastante difícil numa narrativa tão árida. O casal onipresente, ao longo dos diversos contos apresenta inúmeras facetas. Em algumas histórias João é um homem passivo com os atos de Maria, seja na infidelidade ou sendo violentado pela mesma. Em outras ele é o carrasco, trata Maria com indiferença, torturando-a ou a trai com um amante.
                Maria por sua vez, vai de uma dominadora até uma escrava sexual. Muitas vezes a esposa usa dos seus dotes físicos para obter do marido ganhos materiais, ou exceder na lascívia e ser perdoada. Em alguns contos, no entanto, Maria sofre horrores ao se casar com João. Os fetiches do cônjuge ferem não apenas o corpo de Maria, mas também o seu orgulho, ao ponto de em uma das histórias, João colocar o amante para viver sobre o mesmo teto.
                Outros personagens constantes em todo o livro são os filhos. Apresentam-se sempre como vítimas do malfadado casamento entre João e Maria. As famílias crescem desestruturadas. Se o casal ganha em algum aspecto, os filhos saem perdendo, tanto na saúde, paz, lazer etc.
                João e Maria constituem o arquétipo de casamento feliz que inexiste por vários motivos apresentados no livro: As paixões e o instinto sempre acabam interferindo na união conjugal, o casamento formado por interesses materiais impedem qualquer desenvolvimento sentimental, a idealização do casamento encobre as motivações dos conjugues, o casamento também é feito de conflitos. Muitos outros motivos são apresentados no decorrer do livro, o que acaba tornando as situações absurdas, porém reais.
                Sua experiência como advogado deve ter ajudado a formar os cenários dos contos, muitos deles lembram o gênero policial, os finais sempre imprevisíveis e abruptos deixam o leitor desconcertado. A escrita rica de Dalton Trevisan impressiona pelos artifícios que usa nos seus textos, por exemplo, o gore em alguns contos deixam as suas histórias bastante sombrias. A dependência física de alguns personagens sejam eles João ou Maria, dá o parecer de que a paixão é uma droga, e o casamento um ritual para o seu uso.
                Com a falta de descrição dos personagens, pois são tão comuns que mesmo o leitor (a) poderia ser um deles (as), o que nos resta é nos atentar ao cenário. Por vezes a imundície dos antros, e mesmo nos personagens, é o que mais impressiona. Ficamos sem entender porque homens tão asquerosos acabam seduzindo as belas Marias? E horrorosas mulheres os valorosos João? Talvez a resposta esteja na imposição do casamento pela moral vigente.
                Algo notável nos escritos de A Guerra Conjugal é o uso de metáforas seja para encobrir ou codificar conteúdo erótico, tornando as passagens por vezes fantasiosas e em outras até poéticas. Vide o seguinte trecho do conto Quarto de Horrores: “Em pé na cama, inteiramente despido, João soprava a flautinha de bamba... Olhos vidrados, descobertas as vergonhas, girava à sua roda, ora aos pulos, ora de cócoras...”; outro conto com uma bela metáfora é A Normalista: “Sobre a cabeceira a imagem da santa e ali na cômoda a manada de elefantes vermelhos do bem grande ao menor, sempre de trombas para a parede...”. O foco da narrativa é o psicológico dos personagens que são transmitidos através das suas ações nem sempre louváveis. A um clima de demência nas relações “afetuosas” dos personagens que lembram o filme Psicose.
                Outra consideração a sua precisa narrativa é o uso de elementos sensoriais. Chegam a se tornar sensitiva as coisas simples do dia a dia como o amargo do café, o frio do sereno, o penacho de um cardeal ganha não apenas forma, mas total sensibilidade através das palavras de Dalton. Para histórias tão conflituosas, esse uso de elementos sensoriais acaba por diminuir o clima pesado da narrativa.
                A Guerra Conjugal mostrou que o casamento não passa de uma idealização extravagante de uma moral piegas. Nos contos do livro ninguém consegue se realizar na instituição falida que se tornou o casamento, seja ele civil, no religioso ou as uniões estáveis. Muito disso devido à interferência de outrem, e do que cada João e Maria espera receber, e não doar em prol do outro.
  • A união do complexo medo atraente

    Penetrara no karma atual da moderna sociedade virtual em que nasceu, cresceu e ainda vive, mergulhado numa atmosfera de medos e complexos que lhe foi imposto por uma sociedade de valores hipócritas e sentimentos ilusórios. Essa triste “realidade” que até então vivenciava, teve sua extrema abrangência com o poder que lhe foi outorgado através da internet e seus recursos digitais. Passara em muito pouco tempo de um simples telespectador para um aspirante astro internauta autodidata.

    Através da internet e suas redes sociais, como um cyberpunk moderno, percebeu que a espada encantada cravada na grande pedra, não pertencia somente ao lendário e valente Rei Arthur e seus cavaleiros da távola-redonda, como era antes o caso monopolista da grande mídia. Agora sabia que também ele obtivera o direito de possuir sua própria espada mágica, e, foi encantado e possuído por ela.

    No início não podia prever as consequências de tal poder. Tudo era maravilhosamente maravilhoso. Estava perplexo diante dos inúmeros portais mágicos que lhe fora aberto por esses dispositivos radiativamente encantados, onde tudo começou com o poder telepático de enviar e receber nossos pensamentos, desejos e sentimentos nos virtualizando em palavras, falas e imagens. Abrangendo nossas perspectivas limitadas, além dos nossos vínculos sociais mais próximos, alcançando o desconhecido em milésimos de segundos, entre os milhares quilômetros de distâncias. Até o Mago Merlim se aqui entre nós, nesse momento, estivesse, ficaria impressionado com tamanho poder e proeza outorgado a todos.

    Porém, a espada de Arthur continha dois gumes e cortava dos dois lados.

    Percebeu-se ainda, que, não tarde, o poder que lhe foi ofertado pelos deuses tecnológicos exigia de nós sabedoria para possuí-lo. Essa poderosa espada mágica Kaledvouc’h como se outrora pensava, estava inacessível ao grande público há tanto tempo, encrustada na grande pedra, pelo nobre motivo daquele a quem seria o seu possuidor, ter que passar por ensinamentos de vida rigorosos, pelo qual o seu espírito e o seu coração fossem meticulosamente testados. Só assim, teriam a primazia de obter a força dos deuses para puxar a espada da grande pedra. Essa sagrada espada é raramente denominada “Excalibur”, e é retirada por Arthur como símbolo milagroso de sua Nobreza e direito ao trono da Bretanha.

    Entretanto, agora se questionara: Será que todos possui esse direito e nobreza do Rei Arthur?

    Fomos preparados e disciplinados para empunhar tamanho poder?

    Virtualmente, se deparou com os muitos casos de jovens que por uma simples brincadeira nas redes sociais, acabaram causando dor e destruição a si mesmos e aos outros. Como foi o caso da menina russa de 17 anos que morava nos Estados Unidos, que filmou um ato de estrupo em um aplicativo de postagens de vídeos, com duração de nove minutos, só para obter likes. Intentara que naquele momento durante a filmagem, a jovem poderia usar o seu dispositivo para pedir ajuda ligando para polícia, ou um adulto responsável, também notara, que as pessoas que estavam assistindo o vídeo online, em vez de dar likes, poderiam aconselhá-la para impedir aquele ato brutal. Que alcançou milhares de visualizações.

    Daí, meditara, que o poder sem a responsabilidade é cegamente egoísta e brutal.

    Entretanto, dualisticamente, não esquecia ele, que Excalibur é uma espada pontuda afiada de dois gumes que corta, penetra e dilacera. Podendo afastar as pessoas, ou uni-las. Mas, nesse bidimensional mundo de algoritmos binários computacional e ilusório, afirmava ele somente conhecer causas e efeitos mecânicos, e nunca as Sagradas Leis Naturais em si mesmas. Por isso, que ao unir as pessoas, afastava a solidariedade entre elas, em que camuflado e protegido em sua privacidade, por detrás das telas negras caleidoscópicas brilhantes, o indivíduo se julgava ir além do respeito e dos sentimentos fraternos, soltando sua naja língua pensante, em seus rápidos dígitos dedos, envenenada nos seus mais mesquinhos sentimentos obscuros de inveja, cacoetes, ego e porcas maldades. Que no mundo fenomenal das aparências, só percebia bidimensionalmente ângulos e superfícies, e nunca o integral das coisas.

    Obviamente, ele sabia que a dialética da consciência da proximidade física dos corpos pensantes, que tudo entende por intuição, através das palavras audíveis, figuras simbólicas, gestos, movimentos, olhares e expressões voluntárias e involuntárias fora cruelmente ofuscada pela dialética racional do intelecto presente nas redes sócias, fóruns e plataformas proprietárias de mensagens instantâneas baseadas em nuvem, que nada tem de essência natural humana, e sim, apenas o ilusórico poder formulativo de ideias e conceitos lógicos preconcebidos, que por mais brilhante que seja, e por mais que se julgue de qualidade e de utilidade nos inúmeros aspectos da vida prática e cotidiana, nada tem de valor para existência e ecologia humana, resultando apenas em obstáculos subjetivos, incoerentes, torpes e pesados para nossa simbiose como seres fraternais coletivos, e que nada tem de verdade.

    No fim, diante da verdade, percebeu-se sendo o pobre poderoso, precisando de alento (likes, em legais polegares opositores), precisando de algo que o anime (coraçãozinhos vermelhos, e rostos redondos sorridentes amarelados), sentiu-se com o ego demasiadamente forte e personalidade terrivelmente débil, por sua própria mesquinha natureza apodrecida em si mesmo, encontrando-se numa situação completamente desastrosa, e sem vantagens, em que o sono lhe foi roubado, a ansiedade descontrolava as batidas do seu coração, e a vaidade tomara o controle de sua alma, tendo a depressão como amante e companheira.

    E no seu estado deprimente, porém, contemplativo, sabia ele que nos primórdios da nossa existência como uma das muitas espécies que habita esse ecossistema terráqueo, éramos simplesmente um ser coabitando e interagindo com os outros inúmeros seres aqui existentes. Não víamos a natureza como esse belo quadro pintado a óleo ou aquarela, ou como as ‘pixeladas’ imagens digitais no fundo dos nossos desktops eletrônicos e dispositivos móveis. Não ansiávamos pela chegada do tempo limitado do fim de semana para passear com a família nos bosques e pradarias, e nem tão pouco esperávamos a chegada das férias para curtir os muitos lugares paradisíacos, ou nos aventurar em trilhas, escaladas e caminhadas nos ditos ambientes naturais e ecológicos. Essa coisa alheia que hoje denominamos “NATUREZA” era intimamente o único e o primeiro mundo vital e cultural que existíamos. Nossos antepassados não só viviam em contato íntimo com as outras criaturas vegetais, animais e inanimadas, como se comunicavam diretamente com os seus espíritos e coração. Daí que surgem as fabulosas histórias e contos de fadas, gnomos, duendes, devas, ninfas, curupiras, orixás, anjos, caboclos, entre outras inúmeras manifestações do que hoje classificamos como “espíritos inorgânicos da natureza” em diversas culturas humanas espalhadas pelo mundo.

    Por isso, ficou muito difícil para o seu entendimento humano separar a sua espiritualidade, cura e boa qualidade de vida da Mãe Natureza. E, entendeu o porquê dos diversos movimentos esotéricos, xamanísticos, taoístas, hinduístas, budistas, cabalistas, sufistas, gnósticos, wicca, candomblé, entre outros da busca da espiritualidade, como também os movimentos de cura, saúde mental, e medicina ancestral e alternativa se situarem em ambientes naturais abertos e ecológicos.

    Nisso, percebeu que ao longo do nosso rigoroso processo civilizatório, em que gradualmente nos separamos do nosso natural habitar, que o SAGRADO em nós foi naturalmente esquecido. Deixamos de ouvir as MENSAGENS DOS VENTOS, paramos de falar a LÍNGUA DAS ÁRVORES E MONTANHAS, abandonamos o afeto de SENTIR COM O CORAÇÃO, e os nossos olhos se cegaram para o MUNDO INVISÍVEL. E, para piorar mais ainda a sua situação, vira que como espécie se transformara no pior predador que já existiu em todos os tempos, ‘Satânico Aniquilador’ das muitas culturas existenciais em todos os aspectos da natureza, e, dele mesmo.

    Meditara ainda mais profundamente de que como espécie, nos tornamos existências humanas desencantadas, prisioneiras de nós mesmos em frente a uma tela Touch Screen de valores, e, de falsas concepções virtuais, mendigando uma irreal atenção em salva de palmas, likes e emotions de coraçãozinhos vermelhos, rostos redondos amarelados (caras de bolachas) e legais polegares opositores. Vira que as proximidades humanas se basearam em distantes conexões WI-FI, em que ignoramos cruelmente os nossos presentes íntimos entes queridos a nossa volta, em ser um direto participante na criação do Aqui e Agora, para nos tornar um observador e um observado distante do passado alienado dos desejos, anseios, críticas e felicidades do desconhecido “amigo” internauta. Preferimos viver solitários com políticas de privacidade essa virtual ruptura do contato natural, nos separando plenamente do sentido existencial da vivência humana, e minimizando a nossa consciência social, afetiva e emocional ao estado simplista do observador e do observado, e de que a tecnologia não promove e nunca promoverá, assim, como, as propostas da comunidade científica, uma fusão harmoniosa com a existência humana e a natureza. Sua meta desde a revolução industrial é unicamente modificar. Acreditando melhorar, otimizar, maximizar, implantar, oportunizar e assegurar um conceito evolucionário de humanidade ciberneticamente supranatural, onde poderíamos viver sem depender dos recursos naturais e afetos sociais para nossa existência. Para assim, em vez de (como eles acreditam) subsistirmos, ‘sobre-existirmos’ na lua, em Marte, ou em uma cosmológica galáxia distante como prega e aliena a NASA e Hollywood.

    Sentira que perdera a simplicidade da vida e o seu primeiro amor, e se tornara um ser imediatista, arrogante, conformista, impaciente, tempestuoso, depressivo e penoso. Ignorava suas crianças, e assim, fazia com que elas o ignorassem, transformando-as no subproduto mesquinho dele mesmo. Nisso, vira que ignoramos os nossos semelhantes como nunca antes já vivenciado no mundo, em todos os tempos de nossa comunal existência, ofertando para os nossos irmãos e irmãs o que tem de pior em nós mesmos. E, dessa forma e maneira, acumulamos dores e sofrimentos para o nosso último sopro de vida, e assim, morremos existencialmente porque matamos nossa essência dentro dos nossos filhos e filhas, chegando a tal ponto de não mais nos perpetuarmos nos novos corpos.

    Percebera que a verdadeira expressão para o mundo tecnológico de hoje é ABSOLUTA TRISTEZA. E isso dói na alma… adoecemos! E o pior é de que não sabemos que estamos existindo enfermos. Acumulamos muitos bens do Aqui e pouca coisa do Agora, e a Magia da Alegria abandonou a Morada do Coração, e o Sagrado Entendimento que em tudo dança se ocultou. Então, eis a questão e desafio existencial da nossa cultura humana: ATÉ QUANDO FICAREMOS CALADOS E INERTES, TRANSMITINDO PARA AS GERAÇÕES FUTURAS ESSA GRANDE DEPRESSÃO EXISTENCIAL, PELO QUAL NOS CONVERTEMOS NO TIRANO PROBLEMÁTICO DESTRUIDOR DA BELEZA DE TODAS AS COISAS? Entretanto, quem se movimentará e falará com loucura e paixão para o despertar da grande massa? Quem será esse novo Meshiach e Avatar? Mas, enquanto ELE ou ELA não chegar ficaremos inertes, atrofiando nossa mente e coração nas telas e internet? Imbuído nessas íntimas e totalitárias questões, analisara que os desafios para o retorno do SAGRADO em nossas vidas são tremendamente numerosos.

    E, contemplando todo aquele panorama, se viu com sua poderosa espada na palma de sua mão, a mágica Kaledvouc’h, o espelho negro. E como um pedaço de madeira arrastado pelo rio, tentando resolver as coisas por sua própria conta, reagindo ante qualquer dura palavra, qualquer problema e qualquer dificuldade, lamentavelmente, o medo empoderou o seu ser, fabricando nos cinco cilindros da máquina orgânica, em que lhe compunha e que o seu SER habitara, os inumeráveis multifacetados eus-demônios, aplicativos escravos de si mesmo.

  • A verdade está onde nunca a procuramos — Crônicas do Parque

    Era uma daquelas manhãs escaldantes com temperaturas que variavam de trinta e cinco a trinta e oito graus célsius, com sensação de quarenta a quarenta cinco no centro-norte de Israel. Como de costume me encontrava todos os Yom Sheni (segunda-feira) no parque de Kfar Saba, fazendo manutenção nas piscinas ecológicas.

    Pegava meu bastão de rede, uma caixa plástica preta dessas de armazenar verduras em supermercados, e um balde vazio de comida de peixes ornamentais. Entrava na piscina e submergia até os joelhos no primeiro terraço em que ficava as Nymphoides, espécies do gênero das plantas aquáticas que crescem enraizados no fundo com as folhas a flutuar à superfície da água, de cores brancas, amarelas e variadas tonalidades de flores rosa, da família Nymphaeaceae.

    Prendia meu smartphone pela sua capa ao cordão que ficava no meu pescoço, em que segurava ao peito um Magen David (Estrela de Davi) com um rosto de leão no centro, e colocava uma música suave para iniciar o meu trabalho de cuidar dos nenúfares.

    Em especial, aquela era a piscina ecológica que eu mais gostava dentre todas outras que dava manutenção no centro-norte. Pois além de ser a maior dessa região, estava em um parque bonito e tranquilo arrodeado de belas esculturas. Essa piscina era especial, pois era a única de todas que tinha uma original carpa cinza gigante, espécie de peixe de água doce originário da China, e também havia um canteiro com Lotus Branco (Nelumbo Nucifera), um género de plantas aquáticas pertencente à família Nelumbonaceae da ordem Proteales, e também era lotada de peixes Koi (Nishikigoi), tendo o Higoi (carpa vermelha), o Asagui (carpa azul e vermelha) e o Bekko (branca e preta), que são carpas ornamentais coloridas ou estampadas que surgiram por mutação genética espontânea das carpas comuns (carpas cinza) na região de Niigata no Japão, tendo também outras inúmeras variedades de peixes ornamentais como: peixes dourados, peixes barrigudinho (Guppy) de diversas cores, aruanãs, entre muitos outros.

    Nesse dia em especial, me senti constantemente sendo observado por um senhor de chapéu azul e cabelos grisalhos que aparentava ter a idade de oitenta anos. Estava bem vestido e mantinha sempre um sorriso no rosto. Ele se encontrava sentado em um banco largo que ficava próximo a piscina. E lentamente eu me aproximava dele ao curso do meu oficio de retirar as folhas amareladas dos nenúfares. E ao me aproximar daquela figura atraente, eu o cumprimentei com um Boker Tov (Bom Dia), e ele me respondeu com um Boker Or (Manhã de Luz). Assim trocamos sorrisos, e me voltei novamente para o meu ofício matinal.

    Quando o balde em que colocava as folhas amareladas e flores mortas dos nenúfares se encontrou cheio, me retirei da piscina para esvazia-lo, o despejando na caixa plástica preta que estava perto do banco em que o senhor de chapéu azul se encontrava sentado. E ao me retirar para regressar a piscina, ele elevou a sua doce voz anciã, perguntando-me:

    _ Atah Rotze coz cafeh (Você aceita um copo de café)?

    Então, de imediato lhe respondi:

    _ Ken, efshar (sim, aceito).

    Então, ele retirou de uma sacola de pano um bojão de gás pequeno e enroscou uma pequena boca de fogo nele, acoplando. Colocou o aparato ao solo, e retirou da sacola uma garrafa pet de coca-cola com água, uma pequena chaleira e dois copos de aço inoxidável. E, enquanto ele despejava a água no recipiente e ascendia o fogo com um isqueiro para ferventar, fez um sinal com as mãos para eu me sentar ao seu lado.

    Enquanto a água estava para ferver, nos apresentamos e ele me fazia inúmeras perguntas sobre mim e meu oficio. Perguntas comuns que eu já estava calejado em responder. E depois que ele preparou o café, comecei também a interroga-lo. Para minha surpresa descobri que ele não era judeu, mas árabe. Sendo que falava um bom hebraico sem sotaque e se vestia elegantemente, como um velho Ashkenazi. Além dele ter olhos de uma cor azul claros como o céu que estava sobre nossas cabeças. (…Nós, e nossos pré-julgamentos…).

    Ele me falou que viveu muito anos na Espanha, sendo um mestre sacerdote de Sufi gari (Tasawwuf), uma arte mística e contemplativa do Islão, assim como é a Kabbalah para os judeus. Ele viu o Magen David em meu peito, e disse que era bonito esse símbolo com um rosto do leão no centro. Também, me falou que esse símbolo em que os judeus se apropriaram o colocando em sua bandeira, é de muita importância para o Tasawwuf (Sufismo). E me revelou segredos importantes sobre o significado desse símbolo.

    Conversamos sobre muitas coisas, e eu o interrogava mais e mais, pois vi que esse senhor era muito sábio e ciente de tudo que falava. Ele me revelou coisas sobre a conduta do corpo, como postura e fala. Falou-me sobre pensamentos, músicas e danças místicas, e, sobre alimentação e jejuns para se ter uma vida espiritual equilibrada com o corpo físico. Nesse assunto, eu perguntei a ele porque não se deve comer carne de porco. Até porque eu já tinha perguntado a muitos rabinos e religiosos judeus o porquê de não comer a carne desse animal, e muitos não sabiam me responder ao certo. E os que respondiam, falavam que estava escrito nos Livros da Lei, a Torah, mas não sabiam perfeitamente o porquê.

    Diante da minha pergunta, ele sorriu e me disse algo em que fiquei atônito. Contava ele que os porcos eram seres humanos amaldiçoados, por levar uma vida sexual pervertida na sua última encarnação. Ele me disse que por isso dentre todos os animais o porco era o mais inteligente, e, que seus órgãos internos como fígado, rins e coração são muito parecidos com os nossos, pois na verdade era um ser humano que encarnou nessa condição com a total consciência de sua vida passada, mas que devido ao fato de estar em um corpo animal atrofiado não podia se comunicar para se revelar como tal. Nasceu nessa condição devido a decadência espiritual de sua vida anterior como ser humano, ao se entregar aos prazeres sexuais nojentos e tenebrosos, por isso esse animal pode levar até trinta minutos tendo orgasmos. E assim, veio nessa condição para viver em sua podridão, ao comer seu alimento e dormir misturado as suas fezes, mesmo tendo a inteligência de defecar em um mesmo lugar, são condicionados pelos seus criadores (seres-humanos) a viver junto ao seu excremento. Também, ele me falou que o porco não tem a capacidade de olhar para cima, não podendo ver o céu, e sua pele não pode ser exposta a luz solar por muito tempo, pois não consegue transpirar, e pela falta de umidade decorrente do suor pode sofrer fortes queimaduras. Nasceu para olhar para baixo e se esconder da luz, sendo forçado por essa natureza a viver na lama. Ele também me disse, que o porco é o animal mais amaldiçoado do que a serpente, pois os porcos são invulneráveis às suas picadas venenosas. E concluiu:

    _ É por isso que não se deve consumir a carne desse animal, pôr na verdade ser um ser-humano totalmente consciente em forma atrofiada. _ e, acrescentou me revelando algo_ Você sabia que não a diferença de gosto entre carne humana da carne suína… ambas possuem a mesma textura e sabor.

    Uau! Diante desses fatos que me foram apresentados por esse velho sacerdote Sufi, eu fiquei estupefato. E, entendi o porquê de George Orwell escolher os porcos para serem os protagonistas da revolução em seu romance satírico (Animal Farm — A Revolução dos Bichos). Provavelmente, ele sabia desse conhecimento do Tasawwuf. E isso me fez pensar, o quanto os antigos sabem do que não sabemos. Essas são respostas que não podemos encontrar no oráculo Google. Respostas de um velho de oitenta e poucos anos sentando em um banco de parque.

    O velho me vendo atônito, colocou seus aparatos de café na sua sacola, levantou-se, despediu-se e saiu sem mais nada a dizer.

    E lá no banco do parque de Kfar Saba fiquei com a mão no queixo, vendo os peixes e as nymphaeas. Tão Ignorado em minha ignorante aquariofilia.
  • ALIEN

     
    A beleza é só mais uma ilusão:
    outra forma de dominar o ser,
    encaNcerando-o numa prisão,
    ainda que pelo próprio prazer...




    © do Autor, IN: Concursos literários do Piauí. Teresina, Fundação Cultural do Piauí, 2005. 226 p. Página 177.



  • Amor entre palavras

    Mesmo que as palavras 
    Não fazem mais parte de mim
    Construirei um mundo ao teu lado! 

    Mesmo que eu não tenha mais 
    Força de se expressar 
    Continuarei te amando! 

    Mesmo calada 
    Gritarei dentro 
    De mim, que você foi a melhor 
    Coisa que aconteceu em minha vida! 
    Mesmo que o mundo diga ao contrário

    Direi a todos que você 
    Foi o melhor para mim, você foi a minha
    "Cara metade" como todos dizem! 

    Mesmo que a tristeza me abater
    Lembrarei dos momentos 
    Bons que tivemos! 

    Mesmo que tudo acabe 
    Lembrarei de ti! 
    Pessoas importantes não tem

    Como esquecer, sabe porquê? 
    Elas ficam marcadas e acima 
    De tudo pregada na alma da gente!
  • Bem-vindo ao Mundo Fantástico

    Minhas produções preferidas na cultura pop são àquelas voltadas para a ficção fantástica. Esse tipo de obra reúne a fantasia, a ficção científica e o terror, somado aos seus mais variados subgêneros. Particularmente, produzo nas três vertentes, mas as que mais me dão prazer é a fantasia e a ficção científica, pois, esses dois me dão maior sensação de maravilhamento, motivo maior pelo qual os lemos.
                A fantasia brasileira nunca esteve tão ema alta como está agora. Desde antes do fim da primeira década desse século, já a partir de 2012, centenas ou até milhares de títulos de fantasia foram lançados no mercado editorial brasileiro pelos patrícios. O RPG de mesa, e outros board games que todos julgavam obsoletos tiveram incríveis mudanças e o ganho de um novo público. O mercado da fantasia se revigora em todas as frentes.
                Quando conheci a Cartola Editora através do site Antologias Abertas, fiquei surpreso e feliz da casa editorial se valer do financiamento coletivo para publicar os seus livros. Método esse que havia não apenas previsto, mas também proposto em artigos sobre escrita e publicação. Assim há maior engajamento dos leitores, desoneração dos autores e o tão esperado financiamento da editora.
                Para uma jovem editora como a Cartola Editora, o financiamento coletivo para além de uma necessidade é uma forma inovadora de produzir livros. Com alta aceitação de ambas as partes, eu incluso. Voltando ao site, reparei que durante o ano de 2019, a editora se propôs a publicar uma antologia por mês. A primeira tinha como tema a fantasia. Jamais perderia uma oportunidade dessa!
                A antologia O Encontro dos Mundos Fantásticos, organizada pela editora e uma das fundadoras, Janaina Storfe, recebeu o meu conto Caon contra o quibungo. Esse conto é uma fantasia que se passa no período Pré-Colonial. Conta o tipo de história que eu gostaria de ler mais: uma tribo indígena chamada Caiang recebe a visita de uma poderosa criatura, o quibungo Notala. Ele rapta o filho de Píriti, o morubixaba e exige um poderoso artefato em troca do garoto. Com a vida de seu filho em risco, ele recorre a Inteligência através da força. Para minha felicidade, meu conto foi aprovado.
                Depois do período dos trâmites legais, financiamos a obra durante um mês. Arrecadamos o dobro da meta, com direito a lançamento e tudo mais. Quando o livro chegou, mal pude acreditar na qualidade gráfica do livro, sem contar a seleção de textos maravilhosos da Janaina Storfe e a capa fenomenal do Rodrigo Barros, mais conhecido como Rodo, um dos editores e fundadores da antologia.
                Como toda coletânea de contos, vemos diversos estilos narrativos e subgêneros de fantasia. Alguns até de realismo mágico, o que também não deixa de ser fantasia. Eu gostei muito do resultado e fico feliz de dividir espaço com tantos escritores talentosos. Nenhum conto sou destoante da antologia. Há contos para todos os gostos, e muitos, assim como o meu, são inspirados no nosso folclore e se passam no Brasil.
                Como sempre faço em resenhas de antologias longas como essa, vou analisar dois contos que eu mais gostei, e dois que eu menos gostei. Esses critérios são subjetivos e visam dar uma dimensão do que o leitor encontrará na obra. Isso reflete apenas a minha opinião e não é uma verdade universal. Bom e que o leitor possa ler o livro e ter sua própria opinião sobre o assunto.
                O primeiro conto que eu mais gostei é A maga na torre, conto da Thaís Scuissiatto. Para mim, foi em termos de roteiro, o mais inteligente. Ada, uma neófita em magia está prestes a cumprir uma última prova para se tornar uma maga de verdade. Um Conselho de três magos a leva para o topo de uma torre e dão um prazo de três dias para ela descer até a campina, usando apenas as suas habilidades e estranhos objetos dispostos numa mesa. Qual dos estranhos artefato ela vai escolher e como ela conseguirá cumprir sua missão antes do prazo se esgotar? Parabéns a essa autora, pois, para além da pirotecnia da fantasia, ela fez uma situação corriqueira algo fantástico, com muito suspense e um tirada genial.
                O segundo conto que mais gostei foi O homem, a moral e a fera, da cartolete Tábatha Gagliera. Esse é o conto que me atraí muito a minha leitura. Jamais poderia ler um texto tão rico em expressões e profundo em significados e ignorar! Com um pé no realismo mágico, vemos uma fantasia em que um certo homem faz uma viagem para dentro de si mesmo e caba se deparando com um cenário ao mesmo tempo comum e distante. Lá, duas entidades o interpelam, a primeira se apresenta como a Moral, a outra, é conhecida apenas como Fera. As duas tentam convencer o homem com diversos argumentos sobre a liberdade. Essa obra mostra que fantasia pode sim explorar e fazer debates mais profundos da nossa realidade e sobre nós mesmos. Fantasia não precisa ser desmiolada, ou non sense, ao contrário, pode filosofar e questionar também.
                Os dois contos que eu menos gostei, não significa depreciar o trabalho do colega, ao contrário, apenas tive menos conexão com Um toque de um mundo fantástico, da autora Fabiane Rodrigues da Silva. Achei a narrativa um pouco infantil e a trama não me trouxe nenhum questionamento mais profundo. Agradará um público mais infante, de fato. Alium do escritor Guilherme de Oliveira não é de todo ruim, mas parece ser um prólogo de algo maior, algo que não dá para ser desenvolvido num único conto. Um grupo de garotos chegam a um mundo fantástico, e são impedidos de voltar, ficamos sem saber quais as consequências práticas de suas vidas nesse lugar. As vezes esses finais em aberto nos dão uma sensação de quero mais, noutras uma sensação de incompletude.
                A antologia conta com 35 autores selecionados, mais um conto do Rodrigo Barros. São ao todo 43 contos, nos mais diversos subgêneros da fantasia, desde a alta fantasia até o dark fantasy, tudo disposto em ais de 200 páginas de ótima literatura. O livro possui orelhas, papel pólen 80 g/m2 e um marcador de páginas exclusivos. A obra possuí pouquíssimos erros, não são nem perceptíveis e uma segunda revisão vai tirar de letra.
  • CAÇADOR DE PIPAS

    Sentei... Mais um dia de ônibus, encostei-me ao banco, fiz dele minha cama. Estava ensolarado, só por fora, por dentro, assim, onde o monstro cardíaco habita havia nada mais que uma tempestade borbulhante de caos. Doía... cada veia sendo altamente destruída. Veio o faltar insano de fôlego, suspirei, antes de abrir os olhos em um reflexo joguei a mão para o canto como se pudesse expulsar todo o pesadelo; vazio. Quase derrubei o livro de um caçador de pipas. Lá estava ele, um rapaz descabelado, conciso, mal olhou para o lado, meu pedido de desculpas foi absorvido pelo oco de um gesto simples que dizia “ok”. Lá estava... A dor ainda me acompanhava. E, as páginas? Por que não estavam me enrolando em um abraço? Suspirei as fagulhas da linha, a vidraça temperada da linha. A pipa cortando entre a esperança e o desespero. Um amor de dois segundos, entre uma face rubra e um gesto oco. “Fica mais”, pensei, quando o jovem que estava em pé foi sentar na primeira cadeira vazia. “Fica mais”, quase sussurrei. Como se tivesse escutado esbarrou em mim. “Isso... fica mais”, o pensamento repetia. Pegou no meu braço, era outro gesto, menos oco, era seu pedido de desculpas. Um toque de dois segundos. Sentou. As pipas iam circulando uma na outra, cortando... cortando. As veias pulsando. A dor ainda persistia. Quatro paradas depois, o rapaz pegou o livro e a mochila, olhou em despedida, um olhar de dois segundos, outro gesto menos oco, um adeus. Foi-se com as pipas, uma ainda persistia dando voltas sem rumo pela cabeça do moço. E, as páginas? Por que não me abraçaram? A tinta empalha. Aquele amor durou: um rosto rubro, um gesto oco, dois menos ocos, um adeus, algumas pipas destroçadas, um vazio inconstante e um sussurro: “Fica mais”.
  • Caçadora

    Já haviam se passado dois dias desde que os sequestros começaram, as delegacias da região estavam lotadas de policiais e informantes, todos desesperados por uma única pista. Nos hospitais seguranças cercavam os berçários, pais nunca deixavam um enfermeiro ficar a sós com seus filhos. Dois dias, quarenta crianças, todas tiradas dos braços das mães em sete diferentes hospitais da cidade.
    Sofia tentara rastrear os sequestradores a partir de câmeras de segurança, mas não conseguiu nada além do que a policia tinha, os bebes eram pegos por enfermeiros que trabalhavam nos hospitais, eles aparentavam estar fazendo seu trabalho de rotina, contudo, nunca chegavam ao destino, desapareciam dentro de um carro junto com a criança, tudo pego pelas câmeras.
    No primeiro dia dez roubos dentro de uma hora, dois recém-nascidos e oito que já estavam a mais de um dia no berçário, quando chamaram a policia já haviam desaparecido, essa primeira onda ocorreu somente em um hospital, os outros trintas seguiram o mesmo padrão no dia seguinte, menos de uma hora e em seis hospitais diferentes. As câmeras de trânsito não conseguiam acompanhar os criminosos, haviam poucas e cobriam somente uma parte pequena das ruas.
    A cidade inteira estava em pânico, a mídia não saia de cima da polícia, os gerentes dos hospitais estavam ocupados demais tendo que atender advogados que ameaçam processos milionários, Sofia sabia que quanto mais alvoroço acontecesse, mais as pessoas deixariam passar os detalhes, então estava na hora dela agir.
    Após assistir as câmeras diversas vezes, juntou os seguintes padrões, o comportamento dos enfermeiros até recolherem as crianças eram normais, nenhum dos quarenta apresentara qualquer sinal de nervosismo, nenhum teve qualquer contato estranho ou incomum entre eles, ou seja, sequestrador com sequestrador, assim como agiram de forma completamente confortável quando saíram do hospital e entraram no carro, o mais provável era que o quer que tenha motivado os roubos tenha acontecido entre os segundos em que as câmeras não pegavam eles, se tornava difícil notar qualquer interação com outros possíveis cumplices nesses momentos, ninguém estranho, tudo em perfeita ordem, parecia completamente inútil.
    O único detalhe que juntava todos os membros como cumplices era que em cada roubo o carro do sequestrador pertencia a outro sequestrador, todos segundo os familiares sem qualquer ligação. Os carros foram encontrados, estavam separados em diversos bairros da cidade, sem GPS, sem os donos, sem pistas.
    No primeiro dia vinte minutos após chamarem a policia as BRs que levavam para fora da cidade estavam fechadas, no segundo dia elas foram reforçadas, a guarda nacional ajudava a cercar a cidade, ninguém passava sem ser visto, pelo menos era isso que eles queriam acreditar, o mais provável era que as crianças ainda estivessem na cidade, a questão era acha-las.
    Sofia pensou em qual seria o próximo passo da polícia, estavam prontos para invadir todo e qualquer lugar que pudesse abrigar quarenta recém-nascidos, quanto tempo demorariam para conseguir a permissão? Algumas horas?! Ninguém conseguiria esconder-se por tanto tempo com esse número de reféns, os planos eram outros, talvez aquelas crianças não tivessem algumas horas.
    Eram quatro horas da manhã, Sofia decidiu que não valia a pena correr atrás de todos os quarenta suspeitos, escolheu um, Carlos Mendonça, quarenta e dois anos, residia no hospital a mais de uma década, casado e com três filhos, um homem normal, pai amoroso e ótimo jogador de cartas segunda a esposa. A casa do suspeito ficava próximo a casa de uma das vítimas, podia ser coincidência ou ele podia estar de olho na gravida a muito tempo.
    A menina esgueirou-se pelo jardim da casa, sempre de olho para que ninguém a visse, escalou até o segundo andar onde sabia por informações recolhidas de conversas com “vizinhas informantes” (fofoqueiras) que ficava o quarto do suspeito e sua esposa. A janela estava fechada, mas era de vidro e por ela podia-se ver uma mulher de idade já avançada deitada na cama em um sono profundo, um sono que conseguira a muito custo, isso era o que indicava os frascos de soníferos ao lado da cama. Outro motivo pelo qual Sofia escolhera aquela família em especial era por que fora uma das primeiras entrevistadas, metade dos familiares de suspeitos ainda estavam na delegacia e a garota preferia fazer seu trabalho longe da polícia.
    Todos na vizinhança dormiam, tão calmos e ao mesmo tempo tão desesperados, Sofia desceu para o jardim, encontrou a porta dos fundos e com um grampo abriu a fechadura como se fosse um jogo de criança.
    Andou pela casa sorrateiramente, procurou pelos filhos, mas eles não estavam, deviam ter sido mandados para os cuidados de algum parente para evitar que comtemplassem a tristeza da mãe, era uma coisa boa, não seria interrompida. Subiu as escadas, fechou as cortinas do quarto, vestiu uma mascara completamente branca que só possuía buracos para os olhos e foi em direção a cama.
    - Cristina! – sussurrou bem perto do ouvido da mulher, mas não surgiu efeito.
    - Cristina! – voltou a repetir, agora mais alto dando um empurrão na dorminhoca.
    A mulher resmungou um pouco, virou-se de frente para a menina e quando abriu os olhos, entrou em desespero, tentou gritar, mas uma mão tapava sua boca. Seu próximo instinto foi pular para fora da cama, novamente frustrada, desta vez devido a faca de caça que repousava em seu pescoço.
    - Não quero ter de usar meios violentos. – disse Sofia – mas não hesitarei um segundo se me obrigar a fazê-lo, estamos entendidos?
    A mulher com os olhos arregalados e cheios de medo acenou com a cabeça de forma afirmativa. Sofia retirou a mão que tapava a boca da vítima, mas manteve a faca,
    sentou-se na cama confortavelmente enquanto era observada pelo olhar amedrontado de Cristina.
    - É... é dinheiro? – perguntou a mulher gaguejando – Te... te... tem no... co... co... cofre, a senha é 2...2... 4...
    - Isso não é um assalto!
    A mulher permaneceu um momento em silencio, então pediu se poderia sentar, Sofia permitiu, contudo, sem remover a faca do pescoço da vítima.
    - É meu marido? – perguntou a mulher com os olhos cheios de lágrimas. – Você é uma parente?
    - Não Cristina, sou só alguém querendo fazer a coisa certa.
    - Com uma faca?
    - Com os meios que a justiça despreza, mas necessita.
    As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto da mulher. – Eu não tenho nada a ver com isso, meu marido também não, é um grande engano, ele é uma boa pessoa.
    - Ele sequestrou um bebe e desapareceu, não é a definição correta de boa pessoa.
    - Você não entende, ele não pode ter feito isso, ele é um homem carinhoso, um pai de família gentil, nunca esquece meu aniversário, continua dizendo que me ama todos os dias mesmo depois de vinte anos de casamento.
    - Parece perfeito demais não acha?!
    - Por que está aqui? Tem alguma pista dele, tem dele algo a mais que os outros? Não conheço todos os envolvidos, mas tenho certeza que assim como meu Carlinhos eles são vítimas de alguém que os manipulou.
    - Acha mesmo que ele é inocente?
    - Eu conheço meu marido!
    - Então consegue imaginar alguma oferta que o teria feito repensar seu estilo de vida? Dinheiro, algum favor especial talvez?
    - Dinheiro? Eu sei que ele é só um enfermeiro, mas dinheiro nunca foi um problema, ele herdou uma fortuna de seus pais, poderia ter pego tudo e ido embora, em vez disso dedica todo dia cada centavo dele para dar a mim e a nossos filhos a vida mais alegre que poderíamos desejar.
    - E onde está sua alegria agora?
    A mulher caiu em prantos e Sofia não demonstrou qualquer sinal de pena diante da cena, assim como sua mão não afrouxou no pescoço da refém.
    - Temos um problema aqui! – disse a menina – Tudo indica que seu marido faz parte de algum grupo de lunáticos que resolveu sequestrar quarenta crianças de uma vez só em um período de dois dias, sabe o quanto isso é insano? Não faz o menor sentido! Sabe, eu gostaria que ele não fosse culpado, acredite em mim, assim eu pouparia uma bala na hora de matar os responsáveis, o problema é que preciso de uma outra teoria que o livre dessa, você tem alguma?
    - Ah...ah... Não sei... ah... Talvez alguém parecido com ele, talvez... eu não sei... – a mulher voltou a chorar, tentou controlar quando sentiu o fio da navalha apertar mais contra seu pescoço.
    - Vamos lá Cristina, eu não tenho muito tempo.
    - EU NÃO SEI! Bolar uma teoria não deveria ser o seu trabalho?
    - Estou sem ideias, preciso de uma segunda opinião, que tipo de grupo é lunático a esse ponto?
    - Tráfico sexual, trabalho infantil, órgãos, EU NÃO SEI!
    - Sabe qual é o problema com esses grupos Cristina?
    - Eu... eu... eles... não fazem escândalo?!
    - Exatamente! Você não está se esforçando para livrar seu marido dessa Cristina.
    - ELE É INOCENTE! Porque não acredita em mim?! Eu não sei de nada, ele era um bom homem, meu deus ele até doava dinheiro para igreja todo mês.
    Sofia suspirou desapontada, retirou a faca da garganta da vitima e a guardou no sapato, as duas permaneceram em silencio por um momento, até que a menina notou algo no que havia ouvido.
    - Vocês são religiosos? – perguntou ela a mulher.
    - Não exatamente! A religião vem de família, mas as doações são nossa única ligação com esse tipo de culto atualmente e é só porque a igreja faz obras de caridade ou algo assim...
    - Está me dizendo que não sabe exatamente para que a igreja usava o dinheiro?
    - Era o... era... meu marido... que... cuidava disso... você... você acha que...
    - Um homem perfeito?! Talvez você esteja certa e não seja nada, mas só por precaução vou checar para onde o dinheiro ia, tem pelo menos o nome da igreja?
    Alguns quilômetros longe dali, dentro de uma cafeteria vinte e quatro horas, Sofia procurava em um dos computadores do estabelecimento, tentando encontrar informações sobre o Centro de fé e contemplação do senhor Jesus Cristo. Era uma comunidade bem grande, muitas propagandas sobre obras de caridade, embora as igrejas deste culto fossem templos pequenos e espalhados em vários pontos da cidade, todos os anúncios traziam consigo a imagem do patrono da religião, o padre
    Deo Missusa, latim, se fosse escrito Missus a Deo significava enviado de deus, Sofia entendia um pouco de latim e essa podia ser novamente só uma coincidência, mas aquele parecia ser um nome inventado, do tipo que artistas usam para parecerem mais chamativos.
    “O que Deus diria disso?!” pensou ela.
    Após alguns minutos de pesquisa encontrou um numero de telefone, sabia que não ajudaria muito, mas resolveu tentar um contato com o próprio “Enviado de Deus”, através da linha de ajuda a viciados. Saiu da cafeteria, encontrou um lugar sossegado e então telefonou, foi quase que imediatamente atendida por uma mulher.
    - Centro de fé e contemplação do senhor Jesus Cristo, que a benção do senhor esteja com você, com quem estou falando?
    Sofia enrugou um pouco a voz para parecer rouca – Meu... Meu nome é Karine, eu... eu preciso de ajuda... eu quero me matar.
    Houve uma comoção do outro lado da linha, outra pessoa assumiu o telefone, desta vez um homem, afinal, a linha era para viciados, não suicidadas. – Boa noite Karine, meu nome é Jeferson, estou aqui para te ajudar, preciso que continue na linha ok? O senhor nosso deus tem um proposito para você, sua vida tem um valor inestimável...
    Sofia resolveu criar um pouco mais de drama – Onde está a mulher? Eu estava falando com uma mulher? – ameaçou um choro – Porque todo mundo me passa para outra pessoa?
    - Karine, eu preciso que se acalme ok?! A irmã Maria está aqui comigo, ela não saiu, eu pedi para assumir o telefone, já lidei com isso antes querida, tem algo que deseje em seu coração?
    - Deo!
    - Como?
    - O padre Deo está ai?
    - Sinto muito querida, o padre encontrasse em seus aposentos, mas Deus fala através de todos nós, pode falar conosco e estará falando com Deus.
    - Por favor! – Sofia fingiu que estava chorando, parecia bem convincente, era uma ótima atriz – eu estava... estava vindo para cá, pronta a pular, pronta a tirar minha vida, então eu vi, eu vi um cartaz, era o padre Deo, é um sinal, meus pais sempre foram religiosos, eu nunca liguei para essas coisas, por favor, eu preciso falar com o padre, ou então não tem porque eu continuar nessa ligação.
    A resposta foi rápida – Tudo bem Karine, eu preciso que prometa continuar na linha, não faça nada precipitado, vamos tentar entrar em contato com o padre, mas enquanto isso, porque você não nos dá sua localização?! talvez o padre possa te encontrar pessoalmente.
    - NÃO! Vocês estão mentindo, vão chamar a polícia, vão me mandar de volta para aquela maldita clínica, EU QUERO FALAR COM DEO OU VOU PULAR!
    - Calma Karine, estamos ligando para o padre agora mesmo...
    A ligação se estendeu por alguns minutos com Jeferson incentivando o tempo todo para que a vitima se acalmasse e tivesse paciência, Sofia por sua vez mostrava cada vez mais sinais de impaciência para que agilizassem as coisas, por fim a ligação foi passada para o “Santo Deo”.
    - Que a benção do senhor esteja com você, o que há em seu coração querida? – perguntou o padre.
    Era hora de decidir bem o que dizer, Sofia queria saber se a igreja tinha algo a ver com os sequestros, pensou em alguns dos sequestradores. – Meu nome é Karine... meu pai era Gregório Castro...
    Sofia não disse mais nada, esperou uma reação.
    - Um dos sequestradores?! – disse o padre.
    “E o peixe morde a isca” pensou a menina, mesmo que tivesse visto todas as notícias seria difícil decorar todos os quarenta nomes, muitos dos jornais nem se deram ao trabalho de citar todos os envolvidos, de novo, poderia ser coincidência, mas a garota chegara até ali com algo extremamente banal como contribuições para caridade, não tinha porque não ir a diante.
    - Ele falava muito da igreja – Sofia continuava com a voz de choro – você o conhecia?
    - Deus conhece todos os seus servos minha querida, mas eu sou só um mortal, não tive a honra de conhece-lo, tenho certeza que era um bom homem...
    - Então porque ele...
    - O diabo as vezes tem vitórias que não conseguimos entender, mas Deus sabe a hora de agir, se seu pai era um bom servo, tenho certeza que Deus perdoara seus pecados.
    - E os seus, padre?
    - Meus?!... meus pecados? Somos todos iguais aos olhos de Deus.
    - Ele sempre doava dinheiro para igreja! – disse Sofia atirando no escuro.
    - Ele era um doador fiel da caridade sim, e Deus ajuda quem ajuda os desfavorecidos.
    Uma ligação, havia uma ligação entre dois suspeitos, ambos doavam para igreja, como sempre sem provas, mas as coincidências continuavam a aparecer.
    - O que está pensando em fazer querida? – continuou a falar o padre – É por isso que está pensando em cometer o pecado do suicídio, por causa dos pecados de seu pai?
    - Como posso viver com isso padre? Minha amiga pensa do mesmo jeito, a mãe dela também fez isso, era uma boa mulher – mais uma tentativa, Sofia pensou em outro
    nome entre os sequestradores - Julia Tália Santos, sempre doava para sua caridade – esperava outra mordida, mas as coisas mudaram a partir daí.
    - Quem é você? – perguntou o padre de forma fria.
    Nesse instante Sofia entendeu que fora descoberta, estava ligando pontos demais, pedindo informações demais, e o líder de um culto só podia ser burro até determinado ponto ou não seria o líder.
    - Onde estão eles? – perguntou a menina.
    - Os sequestradores? Porque eu deveria saber disso?
    - Porque eles trabalham para você, porque sua maldita igreja sequestrou quarenta crianças e posso apostar que não faz parte de um programa de caridade.
    - Dominus tem um grande plano para elas, você é uma criatura sem fé, não entenderia.
    - A policia está ouvindo essa conversa!
    - Não está não! – disse o padre com confiança – essa é uma linha privada, já tenho sua localização e alguém de olho em você, é só uma adolescente metendo o nariz onde não é chamada...
    Sofia desligou o telefone e olhou em volta tentando encontrar os olhos do padre em algum lugar, não havia ninguém, estava sozinha, a rua era silenciosa e ao longe os primeiros raios de sol nasciam, ela suspirou aliviada e ao mesmo tempo sentindo o coração pular para fora do peito.
    Agora que já sabia que a igreja realmente tinha algo a ver com isso ela tinha que encontrar um modo de chegar até eles, estariam em um grande culto ou algo assim, devia haver muita gente envolvida, não que fossem fazer isso em um lugar público, mas devia ter um jeito de chegar a eles.
    Sofia entrou novamente na cafeteria, era a única cliente ali, pensou em pedir algo, passara muito tempo sem comer nada, foi até o balcão e enquanto avaliava as opções notou vários cartões de visita, taxis, livrarias, grupos de ajuda, e lá estava ele, a imagem de Deo “Faça parte da nossa comunidade!” dizia o cartão.
    - Vai pedir? – disse o garoto atrás do balcão assustando Sofia que estava focada nos cartões.
    - Não! – respondeu ela rápido – desculpa, quero dizer, estou escolhendo ainda.
    O garoto sorriu e de forma graciosa fez uma reverencia, Sofia riu e voltou os olhos para o cardápio. Ao fundo ouviu o telefone tocar, o garoto atendeu imediatamente, deixando a menina sozinha com as opções.
    Seria um dia puxado, ela precisava de energia, começara a pensar que se metera com algo muito grande, afinal, estava sozinha, passou os olhos pelo hambúrguer e pela
    torrada, pensou em pedir talvez um pastel, estranhamente estava com vontade de comer pastel.
    - Karine? – perguntou o atendente.
    Sofia ergueu os olhos a tempo de ver um teaser ser disparado contra seu peito, ela tombou no chão com 50 mil volts passando pelo seu corpo, tremia freneticamente, já tinha feito treinamento com armas de choque, não era algo fácil de suportar, conseguiu com muita força arrancar os ganchos que lhe transmitiam a corrente, mas ficou no chão convulsionando. O menino ficou lá, com um olhar catatônico, observando sua presa, após alguns segundos pegou a faca que era usada para cortar os bolos e deu a volta no balcão indo em direção a sua vítima.
    Sofia ainda tremia, mas levar tantos choques nos treinamentos devia valer alguma coisa, pois ela conseguiu se levantar, cambaleou para longe do atacante, mal conseguia se manter de pé, sua única opção era tentar aguentar até que seu corpo tivesse condições de lutar.
    O menino se aproximou rapidamente enfiando a faca no braço de Sofia, ela gritou de dor e voltou a tombar ao chão, desta vez levando uma serie de mesas e cadeiras junto, a faca não entrara muito fundo, acabou caindo durante a confusão. O atendente pulou em cima da pobre garota desferindo diversos socos em um ritmo frenético, a cada golpe a consciência de Sofia ia esvaziando, “como pudera ser tão descuidada?” pensou ela “Não notara um agressor tão próximo, tanto treino, tanto esforço para acabar assim?! Não! ainda não estava acabado”.
    Um movimento rápido entre um dos socos, uma cabeçada, as cabeças se chocaram forte o suficiente para empurrar o garoto para trás. Sofia encontrava-se exausta, afastara o inimigo, mas por quanto tempo? Não tinha mais forças para lutar, para sua surpresa, não precisaria mais lutar.
    O garoto começara a resmungar de dor, perguntando o que diabos tinha acontecido, ficaram ali por alguns minutos, os dois, Sofia em um estado bem pior que o garoto, até que o seu ex-inimigo veio ao seu socorro, ajudou a levanta-la, correu pegar o kit de primeiros socorros quando viu o estado do corte em seu braço e enquanto limpava o ferimento a garota aproveitou para perguntar algo que já imaginava.
    - Você tem alguma ligação com Deo?
    - O cara da igreja? Não!
    - Como conhece a igreja? – perguntou apontando para os cartões de visita.
    - Fiz uma doação! Para um programa de viciados e... a mais ou menos um mês atrás me convidaram para uma comemoração para doadores, era um tipo de palestra, dormi a sessão inteira, me deram os cartões na saída.
    - Soldados russos! – disse Sofia, agora entendia o que havia acontecido, como todas aquelas pessoas tinha sido convencidas a fazer o que fizeram.
    O garoto olhou em volta, somente agora parou para tentar entender o que havia acontecido, o teaser para ladrões estava em cima do balcão, acabara de ser usado, uma faca ensanguentada estava caída no chão, sentiu-se horrorizado, havia feito aquilo com a menina.
    - Não se preocupe, não vou contar para ninguém – disse Sofia – desde que não conte que estive aqui.
    O garoto tinha muitas perguntas, mas foi convencido a deixar que a garota fosse embora sem responder nada, e com o aviso para que não atendesse o telefone.
    Soldados russos, fora isso que aconteceu, os doadores que compareceram a reunião de comemoração foram hipnotizados para serem como soldados russos, ativados com algum sinal, prontos para executar qualquer ordem que lhes fossem dada, seriam necessários apenas alguns segundos para ativar as marionetes durante os sequestros, poderia ser qualquer um a fazê-lo, bastava algum sinal pré-programado. A reunião havia acontecido segundo o garoto no subsolo da decima terceira cede da igreja, todos dormiram na reunião, motivo pelo qual não falavam dela por ai, talvez estivesse erada, mas tinha a impressão que seria lá que o quer que estivesse acontecendo seria realizado.
    Oito horas da manhã Sofia já se encontrava livre de quase todas as dores, sangramento estancado, ferida limpa, estava na hora da caçada. A garota finalmente se vestia para um combate, botas de couro, uma malha que absorvia impactos, duas facas na cintura, duas facas nas botas, cobrira tudo com um sobretudo preto, e a ultima peça era um rife de caça com dardos tranquilizantes que guardou dentro de um case de violão junto com sua máscara, na rua pareceria uma menina comum, quem a via mal sabia que estava indo em direção a uma guerra.
    Passou algumas vezes por frente de televisões que anunciavam a invasão da polícia em vários pontos da cidade, a guarda nacional estava ajudando, vários vídeos eram gravados a partir de câmeras de celular, o perímetro das invasões era sempre evacuado, podiam estar lidando com terroristas, não encontrariam nada e demorariam muito tempo para fazer isso.
    Demorou uns quarenta minutos até chegar a igreja, não havia ninguém ali, não na parte de cima pelo menos, Sofia levou um tempo para achar a entrada do subsolo, lá em baixo parou na escada, ficou abaixada observando a sala, era um lugar imenso, bem maior que o andar anterior, a porta lacrava a sala e impedia que qualquer som saísse de lá.
    Os fieis podiam ainda não estar ali, mas os sequestradores estavam, todos desacordados amarados em cadeiras, vendados e amordaçados. Sofia não conseguia ver os recém-nascidos, mas agora tinha certeza que aquele era o lugar certo. Em um canto do salão arrumando o que parecia ser um palco estavam dois homens grandes vestidos de branco com sinais de cruzes invertidas desenhados em seus trajes, a garota não podia ser burra e enfrentar os dois em uma luta corpo a corpo, seria esperto
    guardar os dardos do rifle para quando estivesse em real perigo, por hora faria tudo com calma, para começar colocou a mascara branca, não podia ser reconhecida.
    Tentando ser a mais silenciosa possível esgueirou-se pelo canto do salão, aproveitando que os dois grandões estavam distraídos em uma discussão calorosa sobre a posição de uma das peças de madeira. Quando conseguiu alcançar o fim do salão, entrou em baixo do palco e de lá engatinhou até que estivesse ao alcance dos calcanhares dos dois, com um movimento rápido puxou as facas da cintura e cortou os tendões acima dos calcanhares, imediatamente os dois homens tombaram de bruços no chão, Sofia saiu do esconderijo e apertou a faca contra a garganta dos monstros de branco, os dois ficaram paralisados com as laminas ameaçando acabar com suas vidas.
    - Onde estão os bebês? – perguntou ela.
    O grandão do lado direito resmungou – Sua vadia, não vamos falar nada, Dominus vai cuidar de você, estará morta assim que Deo chegar.
    A lâminas foram pressionadas com mais força e uma linha de sangue escorreu pelo pescoço.
    - Estão com os fies! – disse o do lado esquerdo em desespero – a gente só banca o segurança, por favor, não me mata.
    - CALADO IDIOTA! – gritou o outro.
    Sofia retirou a faca do pescoço do da direita e com o cabo lhe deu uma coronhada que o fez perder a consciência, enfim, voltou a atenção para o da esquerda. – Continue a falar.
    - Eles separam os bebes, não dava pra manter todos em um só lugar, vai ser hoje ao meio dia, era para ser a noite, mas tiveram que adiantar, todos reunidos... são sacrifícios... para Dominus, nunca foi feito antes, é o maior ritual, eles realmente esperam invocar esse tal Deus hoje...
    - Porque não se livraram dos sequestradores ainda?
    - Eles vão assumir a culpa!
    - Fui atacada fora daqui por alguém hipnotizado, quantos mais há?
    - Não sei, não cuido disso!
    A faca foi apertada mais fundo na carne gorda do pescoço. – Eu não sei, eu juro, sei que são bastante, tem até uns policiais, todos que doaram, e as pessoas doam bastante para essa igreja.
    - Então é provável que se eu ligar para policia vão saber que estou aqui e as crianças somem?
    - Bem provável!
    Sofia fez igual a antes e apagou o grandão com uma coronhada. Amarrou os dois, amordaçou-os e empurrou para de baixo do palco, onde não seriam vistos. Suas opções eram limitadas, precisava derrubar Deo antes de chamar a polícia, procurou pelo lugar coisas que talvez pudessem ser uteis, tomou cuidado o tempo todo, mas felizmente ninguém apareceu, por fim onze horas a portaa da escada se abriram e pessoas começaram a entrar, a menina estava escondida em cima de uma das vigas de ferro do teto junto com as lâmpadas, as luzes estavam viradas para o outro lado de forma que não dava par ver que havia alguém ali, o rifle estava pronto, Deo estaria no palco e seria o primeiro a cair.
    Os minutos iam passando e cada vez mais pessoas chegavam, alguns sem nada, outras com os bebes no colo. Todas as crianças foram colocadas no centro da sala junto com os sequestradores, aparentemente ter o sangue dos recém-nascidos nas roupas dos sequestradores fazia parte do plano.
    Deo foi o último a aparecer, cumprimentava a todos como se não estivessem para sacrificar quarenta crianças em um ritual macabro e insano.
    - Louvado seja Dominus! – disse ele ao se posicionar em seu lugar no palco, todos os fies repetiram em coro, devia ter umas setenta pessoas ali.
    Sofia pegou o celular, pronta a mandar sua localização para a polícia, assim que começasse a atirar ninguém mais poderia impedi-la, bastava um click e a ajuda estaria a caminho, infelizmente um estrondo forte assustou a todos e tomou atenção da garota. Um dos grandões que estava em baixo do palco havia acordado e se debatia feito um peixe fora da água.
    Os fieis se amonturam para tirá-los de lá enquanto outros procuravam ao redor da sala quem fora o responsável por aquilo. Deo parecia furioso, olhava para todos os lados imaginando quem ousaria se intrometer em um dia tão especial, eis que ele viu algo, viu o cano do rifle, viu a tempo de desviar do primeiro disparo, um alvoroço se estabeleceu, todos procuraram um lugar para se esconder e os bebes começaram a chorar em um coro que poderia derrubar um gigante, a confusão só aumentou, as pessoas corriam de um lado para o outro derrubando as cadeiras com os reféns que acordavam desesperados tentando se soltar.
    Sofia apertou o botão de enviar da mensagem e começou a disparar seguidamente os dardos contra Deo que corria de proteção em proteção fugindo dos disparos.
    - ELA ESTÁ NO TETO SEUS IDIOTAS! – gritou ele para seus fiéis.
    Alguém virou um foco de luz para posição da garota, agora todos podiam vê-la, estava exposta, os fieis que já haviam se acalmado começaram a atirar nela coisas que encontravam pelo chão, para sorte da garota todos eram péssimos de mira.
    Dois dos fieis decidiram escalar as paredes para poderem alcançar a posição da atiradora, nesse momento Sofia teve que mudar o seu alvo, derrubar os dois foi fácil, o
    problema é que outros decidiram fazer o mesmo e os dardos estavam acabando, sem falar que Deo ainda estava de pé.
    No centro do salão alguns dos sequestradores soltaram-se das amarras e pareciam estar cientes de sua situação porque não esperaram nem mesmo um segundo para sair dando porrada nos verdadeiros vilões. Deo gritava frases que deveriam ativar a hipnose, mas não funcionava muito, pois assim que alguém recebia um golpe na cabeça voltava ao normal.
    A briga ficava cada vez mais intensa, os sequestradores estavam bem mais irados, contudo estavam em menor número, havia alguns que nem se quer haviam sido desamarrados ainda, sem falar que tinham que sempre levar a briga para longe de onde estavam os bebes, quase ninguém mais se lembrava da menina que começara a confusão, o que fora muita sorte, já que os dardos haviam acabado.
    Deo por sua vez ainda se lembrava daquela pequena criatura, irado com o fracasso do seu plano e notando que sua saída de emergência fora trancada, pôs-se a escalar a parede para derrubar a criança. Ele subia rápido motivado pela raiva, nem esperou estar próximo ao alvo, se atirou agarrando a perna da menina derrubando os dois de cima da viga.
    Sofia ficou pendurada pelas mãos na barra de ferro, Deo estava logo abaixo pendurado em sua perna, era um lugar alto, se caíssem poderiam quebrar muitos ossos ou até mesmo morrer. O padre era bem mais pesado do que aparentava, fazendo com que a garota tivesse que aplicar muita força para não soltas as mãos.
    - O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO PIRALHA?! – gritou o padre.
    - ACABANDO COM UM GRUPO DOENTE DE LUNÁTICOS!
    A garota tentava chutar freneticamente o peso em suas pernas, mas a coisa abaixo dela parecia fortemente motivada a manter-se presa.
    Vendo uma oportunidade única Deo sacou uma das facas que ficavam na bota da menina e cravou em sua perna extraindo um grito de dor da pobre atiradora. Deo retirou a faca e quando estava pronto para mais uma facada a garota soltou a viga, os dois despencaram, o impacto com o chão foi forte, Deo pode ouvir suas costelas quebrando na queda, seus pulmões foram perfurados, sangue jorrou de sua boca, Sofia por sua vez teve a queda amortecida pelo cadáver do padre junto da malha revestida que estava usando, uma ou duas costelas se partiram, ela estava fraca, mancando, mas conseguiu se por de pé encarrando horrorizada o pedaço de carne abaixo dela.
    Os fieis que ainda restavam se desesperaram ao ver a queda do líder, alguns foram nocauteados durante a distração, alguns tentaram correr para fora da igreja, mas os policiais já cercavam o perímetro. Os reféns finalmente controlaram a situação, as crianças continuavam a chorar e depois de tanta baderna ia ser difícil fazer eles pararem.
    Sofia sabia que não poderia estar ali quando a polícia chegasse, teria muita coisa para explicar, sem falar que acabara de provocar a morte de um homem, cambaleou para trás do palco, havia uma porta de fuga que Deo provavelmente teria usado se ela não tivesse trancado antes dele chegar. Antes de sair um dos reféns chamou sua atenção.
    - Quem é você? – perguntou ele perplexo com a salvadora mascarada.
    - Pode me chamar de caçadora! – respondeu Sofia antes de correr para fora da igreja e desaparecer.
  • Caçadores de emoções... e aventuras

              O Estúdio Armon está se firmando como um dos maiores expoentes do mangá nacional. Sem desconsiderar iniciativas anteriores, e outros quadrinistas independentes, a Revista Action Hiken acabou reunindo uma Geração de Ouro dos mangás brasileiros no século XXI. Digo isso não por preciosismo, mas pelo fato do grupo não apenas publicar de modo impendente, mas manter uma frequência e aumentar sua qualidade e quantidade.
              Um desses mangakás a ganhar uma vaga na publicação é o Israel Guedes. O autor publicava o mangá T-Hunters em um aplicativo online de webcomics, mas quando passou a publicar na Action Hiken n. 43, junho de 2019, aumentou em muito a visibilidade do seu título. Foi uma decisão acertada do autor, e da antologia, que teria mais uma ótima série. O Israel é bem experiente e demonstra ter uma grande maturidade profissional.
              Após a morte de seus pais, Hanako “Hana” Hanajima acaba fugindo de casa para se salvar. O assassino matou seus pais a sangue frio. Não restou nada a jovem, de apenas 10 anos. Em contrapartida, temos o protagonista o Ken’ichi “Ken” Akamatsu. Esse jovem de apenas catorze anos está atrasado para o funeral da sua irmã mais velha. Ambos tinham uma boa relação, mas também um conflito de personalidades, pois, ela era alguém muito altruísta, já o Ken é um pessimista.
              Antes de chegar ao funeral, acidentalmente, acaba em meio a uma luta entre um Treasure Hunter (T-Hunter) e um caçador de recompensas. O T-Hunter o salva, e o caçador foge após ser ajudado por uma misteriosa companheira. A partir desse momento, uma série de acontecimentos irá unir os destinos de Ken e Hana. O personagem irá descobrir uma guerra entre poderosas organizações secretas, magias e cidades misteriosas.
              A primeira coisa que me chamou atenção nesse mangá: o traço. Olhando pela capa, você acha que vai ler algo meio shoujo, mas o autor não poupa em violência gráfica. Nada de autocensura aqui, até me impressionei com a veracidade da violência. O desenho tem boas referências, os traços são grossos, pesados, mas ainda assim dinâmicos. Me lembra mangás mais adultos.
              A página tem muitos quadros, o autor apela para closes e planos detalhes. O traço é seinen, a diagramação é shoujo, o mangá é shonen. Eu achei uma escolha acertada. Em paisagens, ou melhor, ambientes externos, o desenho é pouco detalhado, passando as informações necessárias. Os personagens se destacam muito em relação ao cenário. Já os personagens, sempre são detalhados em cabelos, roupas e adereços. Cada um tem seu próprio visual. O Israel faz bom uso das retículas, agregando em contrastes.
              O volume 1 possui cinco capítulos. Os dois primeiros oferecem alguma ação, os outros três, os quais o mangaká chama erroneamente de “capítulos de transição”, buscam apresentar protagonistas, o mundo e suas possibilidades. Sendo assim, o correto seria dizer que ainda estamos num volume introdutório. Teríamos transição se estivéssemos perto de uma segunda saga ou arco narrativo, o que não se configura.
              Como de praxe em muitos mangás shonen, a idade dos personagens parece destoar do físico deles, sobre o Ken e o Chiru, você até entende, mas o Satoshi só tem oito anos, parece bem mais. A personalidade do Satoshi também parece muito adulta para um personagem de oito anos, achei pouco factível. Já no que diz respeito a Hana, eu gostei do tratamento dispensado. Inclusive, ela tem um ótimo potencial narrativo.
              O autor tem boas referências no CLAMP e Hiroyuki Takei, não só em desenho, mas também no roteiro. Optou por conduzir a trama inicial através de conflitos internos e interpessoais. Uma ação minimalista. O artista empregou muito bem a personalidade de cada um em suas expressões faciais, gestos e modo de falar. A obra possui diversas críticas sociais impregnadas, basta uma leitura cuidadosa e você a verá.
              Entretanto, minha crítica é que depois do capítulo 2, apesar de já termos um conflito anunciado, não senti uma sensação de perigo tão iminente. Parecia que o núcleo principal fazia turismo. É uma série que vai investir em mistério e aventura, conflitos psicológicos e de personalidade, mas esperava que as situações dos capítulos 1 e 2 oferecessem um pouco mais de desconforto aos protagonistas no restante do volume.
              O Israel Guedes fez um ótimo mangá. Se passa totalmente num universo ficcional alternativo, muito semelhante ao atual Japão, talvez para receber uma melhor aceitação do público. Bem poderia acontecer em qualquer lugar através de sua dinâmica e mitologia. Muita coisa a ser abordada. O autor em experiência em desenhar e narrar, é professor na escola Japan Sunset, possui um canal no YouTube chamado Canal do Izu.
              Ele é bem crítico de obras japonesas e faz um estudo de desenho e narrativa deles, mas também é autocrítico e otimista, duas qualidades que admiro muito em qualquer artista. O mangá possui mais de 180 págs., orelhas, galeria de fanarts, making of do desenvolvimento. Veio com marca página exclusivo.
  • Caçando demónios por aí

    Certa vez, enquanto lia a Revista Action Hiken, descobri um shonen de traços bem legais. Mas quando comecei a ler, me deparei com uma linguagem formalista. Um português truncado e de leitura arrastada. Eu achei os diálogos engraçados. Juro, as vezes eu tinha que ler duas vezes para entender. Por um momento, levando em consideração o contexto da história e os personagens, achei que deveria ser um elemento narrativo.
              Pesquisando um pouco mais sobre o mangá Demon Hunter, e o seu autor, o Diogo Cidades, descobri que se tratava de um jovem mangaká português. Aí sim ficou claro aquele modo de escrever tão distante de minha realidade. Convenhamos, salvo raras exceções, somos todos coloquiais. A península Ibérica é um celeiro de mangakás. Espanha e Portugal tem diversos talentos nesse estilo de desenho, o Diogo é um deles.
              Demon Hunter possui caracter designer que se encaixa perfeitamente em sua proposta: entreter. Confesso que os traços me remeteram automaticamente ao autor Hiro Mashima. Um desenho simples, mas dinâmico, caricato e de expressão cômico. Mais que simpático, funcional. É um shonenzão, e isso é bem positivo, levando em consideração a antologia em que está sendo publicado e o público alvo.
              A história se inicia com um acampamento de May Lionheart e um amigo, que estava cheio de más intenções. Infelizmente, naquela floresta e àquela hora da noite, eles acabam se separando. Para piorar de vez a noite de terror, acabam sendo atacados por um capeta dos zinfernos, ou como os portugueses dizem, um demónio. Nesse momento, surge nosso protagonista de cabelos prateados e salva a noite, Mike Seikatsu, o caçador de demónios.
              Depois disso, a May é levada pelo Mike até o mosteiro onde vive. Lá, só habitam ele e o seu avô, o Mayuge Seikatsu, um velhote safado, pra variar. Ao longo dos cinco capítulos, vemos o desenvolvimento da amizade entre ambos os protagonistas. Uma relação cheia de química, com direito a alguns echis, nada exagerado, viu crianças! É um quadrinho sincero em sua violência, afinal, são demónios a serem combatidos.
              Mas, se eu tivesse que tratar de um ladrão de cena, bem, esse é o Steve, o macaquinho cozinheiro. A cena da luta entre Steve e Mike é impagável, e provocaria elevação de ânimos entre ambientalistas. O autor desenvolve bem as personalidades ali presentes, lhes dando profundidade, sem cair na exposição desnecessária de muitos shonen. Ele vai com calma, sabe onde está indo, e isso te empolga a descobrir mais.
              Pouco do universo foi apresentado no vol. 1, mas podemos ver ali uma série de mistérios, que, se bem desenvolvidos, trarão ótimas reviravoltas dentro de seu universo. Por exemplo: qual a origem dos poderes do Mike? Porque os demónios se transformam em pérolas ao morrerem? Quem controla esses seres? Enfim, teremos uma longa saga a ser acompanhada.
              A decisão dos editores de adaptarem alguns termos da escrita do Diogo Cidades, foi uma ótima decisão. Ajudou muito. Os países lusófonos, como Brasil e Angola, falam português oficialmente, mas, possuem uma variação muito complexa. Deve ter dado trabalho adaptar a linguagem para ambos os leitores de ambos os países, deixou a escrita mais fluída sem perder o seu sotaque português.
              Teve só uma coisa que me incomodou no mangá: onomatopeias. Em alguns quadros, são grafadas em caracteres latinos, em outros, em japonês, noutros, aparecem em japonês e latino! Tá meio bagunçado isso aí. Tem que padronizar. Isso gera uma cacofonia visual. Sem contar que deve ser difícil ficar mudando a editoração a cada página ou capítulo, perde-se muito tempo nisso. Embora, não atrapalhe a leitura de ninguém.
              Sobre o desenho do Diogo Cidades, ele tem boas influências e vem de uma boa escola de estilo. Alguns desenhistas evoluem ao longo de anos, outros a cada obra, alguns ainda por capítulo, o Diogo evolui a cada quadro. Sério, o traço do cara evolui proporcionalmente a cada virada de página. Muitas vezes, quadrinistas como os da Action Hiken é o que não encontramos em algumas antologias japonesas semanais.
              Fiquei mais que satisfeito em conhecer esse mangá luso-brasileiro — espero que o autor não veja problema nisso, afinal, é produzido em Portugal, mas é editado e publicado no Brasil. A obra tem mais de 140 páginas, orelhas, galeria de fanarts e curiosidades da produção. Senti falta das páginas coloridas, mas, entendi os motivos, encareceria a produção. E sobre a qualidade gráfica?
              Olha, serei sincero com vocês, se outras editoras tivessem o mesmo esmero em suas publicações como o Estúdio Armon, teríamos HQs melhores produzidas na estante. O projeto gráfico e a impressão estão excelentes. Nada de off white xexelento. A capa, a lombada, a colorização, gente, tá tudo muito bom. O único defeito do negócio, é que ainda não temos previsão do volume 2. Parabéns ao Diogo Cidades e ao Estúdio Armon.
  • Colina - TEOMAKIA Prólogo

    O trato era mútuo: Caio ajudaria Maria a encontrar pistas sobre o passado de seu mestre enquanto ela o ajudaria a fazer o mesmo com relação ao seu. Era tarefa difícil mas, desde que foram nomeados para suas Cátedras, receberam permissão do próprio imperador para agir conforme lhes parecesse melhor. Desde que, é claro, não colocassem em risco a vida de terceiros. Seus mestres eram os dois ex-catedráticos mais misteriosos da geração passada. Quando perguntados, os outros dois se limitaram ao mínimo, dizendo que eles eram poderosos, tinham um entrosamento fora do comum e surpreendiam os inimigos sempre. Até o dia em que os surpreenderam a todos.Aidan, então catedrático do fogo, foi primeiro a nomear alguém completamente fora do padrão para sua sucessão. O paladino Éolo, catedrático do ar, foi primeiro a desertar e matar um companheiro.

    Hoje estavam atrás de pistas sobre Aidan. Sua mãe residia na casa grande atrás da antiga colina, 3 léguas a noroeste, seguindo a estrada do verão desde o portão leste. Após saírem pelos portões, ainda por meia légua havia a periferia da cidade. Apenas a estrada principal era calçada com pés de moleque¹, sendo as demais ruas, finas e tortuosas, de terra batida. Crianças descalças dividiam as poças de lama com porcos, cães, galinhas e patos, brincando e correndo. Foi assim por alguns minutos até que os dois catedráticos, montados em seus jovens garranos, finalmente encontraram a estrada rural, ladeada por chácaras pequenas. Do lado norte-nordeste as propriedades se estendiam até uma alta cadeia de montanhas. Do lado sul-sudoeste, as pastagens e pequenas plantações se perdiam de vista até o horizonte distante. A medida que avançavam, distanciavam-se das montanhas e adentravam mais na planície do grande Rio dos Bois.


    Uma estrada de terra numa região acidentada. Montes com vegetação verdejante ao fundo.

    Seguiram conversando sobre seus antecessores. Ambos estavam órfãos de mestre desde a mesma data. Num fatídico dia, dois anos antes, os dois haviam protagonizado uma luta totalmente improvável. A dupla, até então, era considerada a esperança de vitória na guerra. Sempre encontravam solução para qualquer crise, vencia batalhas impossíveis, realizavam verdadeiros milagres. Mas a fatalidade ocorreu, e até hoje ninguém soube explicar o motivo.


    Maria e Caio tinham um certo entrosamento também. Tinham idades semelhantes, dezessete anos, e gostavam de conversar sobre livros e idéias. Contudo, muito por conta do ocorrido entre seus antecessores, os dois não eram assim tão próximos. Sempre pairou sobre eles o fantasma da insegurança, que os impedia de se aproximarem um do outro sem imaginar que isso poderia acabar como acabou antes.


    Aliás, diferente dos outros dois catedráticos, eles viviam a sombra de seus mestres. Caio era visto com desconfiança por todos, por ter aprendido por anos a arte da guerra com um homem que traiu o Império e passou a servir os deuses pagãos. Maria, de uma forma completamente diferente, também amargava um destino semelhante. Nunca antes uma mulher, cabocla² e plebeia havia sido escolhida como Catedrática. Presente de Aidan, o homem que admirava, e que lançava sobre ela uma sombra gigantesca. Ela tinha que mostrar valor para provar que podia ser sucessora de um Dragão, mas não qualquer Dragão. Era Aidan, o "herói improvável", o sucessor indesejado. Ele tinha uma aura tão mitológica que nem parecia que esteve com Maria durante anos.

    Um calor abrasador, logo após o final de uma chuva pela manhã, dava o tom quente e úmido daquele dia. As pedras escorregadias da estrada logo deram espaço a uma via sem pavimento, com lama e terra batida. Ao longo do caminho, encontraram algumas pessoas, para as quais sempre perguntavam se estavam no caminho certo. Primeiro, um pai com três filhos numa carroça de leite, lhes disse que estavam próximos da antiga colina, que ela ficaria a direita da estrada após a próxima subida. Durante a subida, um homem com uma enxada e chapéu de palha que caminhava e cruzou com eles lhes disse o mesmo. Quando chegaram ao topo encontraram um casal com dois filhos pequenos, uma menina mais velha e um de colo. O homem mostrou a casa atrás da colina, mas não havia colina. Na verdade haviam dois pequenos declives que acabavam num descampado plano e redondo onde deveria haver uma. A mulher confirmou que era isso mesmo. Não souberam dizer o que houve com a colina, mas insistiram que ela existiu.

    Ao entrarem pela estrada de cascalho, após atravessarem uma porteira e mais um mata-burro a frente, chegaram a porta da casa. Era um edifício relativamente novo, em arquitetura colonial clássica, com dois andares, portas grandes de madeira vermelha e duas janelas da mesma cor de cada lado. Encima, uma varanda de fora a fora. Tinha um curral pequeno próximo e parecia ter uma horta nos fundos. Aparentemente não haviam escravos. Era um tanto modesto, levando em consideração que já foi a casa de um dos generais do império.

    Bateram na porta. Caio e Maria estavam vestidos mais informalmente, para não passar estranheza. Logo, dona Maria José, ultima integrante da família Silva, abriu a porta. Era uma mulher triste, muito abatida, de baixa estatura. A maioria dos cabelos já brancos e presos, óculos simples sobre seus olhos de um profundo negro, tão tristes como uma mãe que acabou de perder seu único filho poderia ter. Ver ela assim partiu o coração de Maria, que ficou profundamente abalada. Caio ficou mudo, todo sem jeito. Talvez fosse melhor assim, já que ele era irreverente demais. A voz dela, fraquinha, deu até um nó na garganta da menina.

    - Boa tarde meus filhos, vamos entrar, tomar um cafezinho?! - aparentemente dona Maria reconheceu os dois. Isso encurtava a parte das apresentações, o que era bom, ainda mais naquelas circunstâncias. Abraçou os dois com toda a força que nem aparentava mais ter. - Estou tão feliz de ver vocês bem. Seu olhar me lembra do meu filho. Os olhos vermelhos lhe caem bem também. - Boa tarde dona Maria. Obrigada. - respondeu a jovem. - A senhora está bem?

    Após um cumprimento tímido de Caio, a conversa prosseguiu. Foi melhor ele ser mais discreto mesmo. Se o olhar da catedrática lembrava o de seu mestre, o olhar do companheiro certamente a lembraria do que o matou. Não tinham pensado nisso antes, agora esperavam que isso não piorasse as coisas. Vendo que não seria um problema, Maria perguntou a dona Maria José se poderiam entrar num assunto mais delicado. Ela já imaginava o que era, consentiu com a cabeça. - Eu queria saber mais sobre seu filho. Como ele era? como a senhora o via? - Ele era meu filhinho. Foi uma criança ativa, mas educada e bem comportada. Seu pai faleceu na guerra quando ele tinha 6 anos, e acabou deixando para ele tanto o título de Barão quanto a cátedra, já que acabou sobrando como único homem chefe da família Silva vivo. Por conta disso, foi atrás de aprender com um tutor na Marca Oriental. Eu tive que aceitar, era o ultimo pedido do pai dele. Por isso, por quase 10 anos em que ele foi criado como irmão daquele homem, eu tive pouco contato com meu menino. E mesmo depois que voltou, ele sempre se referia a aquele bandido como irmão dele.

    - Senhora, me desculpe por perguntar sobre isso, mas eu preciso saber mais sobre meu mestre. Sei que dói muito perder alguém importante. Afinal, ele também era importante para mim. Mas sei que para a senhora foi uma perda muito pior.

    - Menina, a gente cria o filho é pro mundo. Eu sabia que um dia ia ter que deixar ele ir, mesmo que eu nunca tenha querido isso. Mas perder um filho pra vida é normal. Perder pra morte? A dor é grande demais! Não é justo que uma mãe enterre um filho. Ele tinha que viver muito depois que eu me fosse. Eu devia ter poder de protegê-lo a minha vida toda.

    Era algo muito pesado de ouvir, quanto mais deveria ser, de sentir. Maria entendia a dor de perder alguém, que era amado com tanta força por ela, mas não podia imaginar o que era para uma mãe perder um filho. Entretanto o que mais impressionava era a forma como a mãe via o filho. Maria já tinha ouvido todo tipo de história sobre seu mestre, mas nunca que ele tivesse sido dócil, tímido, frágil ou comportado. Educado era, mas quando tratava com desconhecidos e quando era necessário. Quando estava sério confrontava aqueles de quem discordava com energia. Quando não, fazia chacota com tudo e com todos, passava raiva nos adversários, humilhava opositores, fazia piadas de duplo sentido. Nunca viu ele realmente nervoso, mas ouviu falar que era uma cena atemorizante. Já ouviu histórias de que asters ou até mesmo deuses foram orientados a abandonar o campo de batalha se ele estivesse presente. Gostava de lutar, sorria sempre que estava em combate e preferia estar em desvantagem. Mas agora estava ouvindo sobre a outra face desse mito. E, por incrível que pareça, conseguia imaginar. Com ela ele já havia sido gentil, humilde, tímido e até mesmo tinha demonstrado insegurança. Cruzar esses fatos fazia dele uma pessoa de verdade. E dava uma saudade dele grande por demais.

    Para os colegas de cátedra, ele era um palhaço, mas quase sempre a certeza de uma vitória, já que era o mais poderoso deles. Para os novos catedráticos, ele fazia medo, parecia ser imprevisível e um tanto desequilibrado psicologicamente. Para os inimigos, o apelido que o deram, Flagelo dos Santos, diz muito. Eles o consideravam a arma suprema da Igreja dos Santos para eliminar os deuses, dando a entender que o próprio rei dos deuses deveria ter cuidado com ele. Mas, para essa mãe, ele era simplesmente seu menino.

    Por fim, antes de ir embora, Maria perguntou sobre a suposta colina que haveria em frente a casa. Era uma história comprida, mas resumindo, os deuses haviam descoberto sobre a família de Aidan, 12 anos atrás. Naquela época os Asters faziam incursões profundas dentro do Império, e pela vastidão do território, eles conseguiam chegar perto da capital sem muita dificuldade, antes de serem interceptados por cavaleiros de elite. Ocorreu, então, que um grupo de dezenas de Asters cercou aquela casa. Pela época e pela quantidade, certamente era o Destacamento Dourado do Carneiro. Quando eles começaram a atear fogo entorno da propriedade, de alguma maneira que ela não soube explicar, Aidan caiu do céu, controlou as chamas, as fez atear-se nos inimigos e se colocou a frente da casa. Dona Maria José, mesmo muito preocupada, conseguiu apenas olhar para o que estava acontecendo.

    Aquele que parecia ser o capitão do destacamento, provavelmente Hamal, Aster Capital Major, que estava sobre a colina que havia ali, começou a descer em disparada. Quando ele estava a meio caminho, Aidan encheu o peito e cuspiu uma rajada de fogo. Após um forte estrondo, muita fumaça e poeira, sobraram inimigos mortos nas duas laterais e atrás da casa. Porém, onde estava o grosso do destacamento e seu capitão, nem a colina sobrou. O incêndio do outro lado da estrada só foi ser controlado no dia seguinte, com a ajuda do exército imperial. Desde esse dia nenhuma incursão foi vista dentro do império novamente sem ao menos um deus no meio e a guerra passou a ser majoritariamente do outro lado da fronteira. Tempos depois, passou a ser conhecido como Flagelo dos Santos. Apenas uma coisa não mudou: a mãe continuou a ver seu filho como um menino frágil e dócil. Somente ela, no entanto.


    ¹ pés de moleque: um tipo de calçamento de estradas e ruas caracterizado por pedras irregulares encaixadas, que com o tempo tendiam a ficar pretas e lisas. Foi um método bastante utilizado durante o Brasil Império.

    ² caboclo: mestiço de indígena com branco europeu.

  • Contos Griot: Os nossos Primeiros Pais e as Nossas Primeiras Mães

    Ali, sentado numa grande pedra com o seu M’bolumbumba na mão direita, segurando como se fosse um cajado. E seu cachimbo na mão esquerda, levando-o sempre à boca, em que dava várias pitadas. Estava o preto velho em plena paz de espírito. E todos que o fitavam podiam sentir essa paz. Seu rosto negro reluzia de serenidade iluminado pelos raios solares. E seus olhos, brancos como as nuvens do céu, transmitiam uma profunda força como o próprio sol em seu esplendor. Então, todos os k’ilombolas com as suas crianças se sentavam ao redor da grande pedra onde o ancião se encontrava, para beber das águas de sabedoria que proviam de suas palavras. E como era doce e confortante a voz que saía de sua boca. Assim, as crianças corriam, e eram as primeiras a se sentarem aos seus pés. E os jovens e os adultos iam cada qual se sentando e acomodando-se por detrás das criancinhas.
    O velho griot ancião, ao ver o povo sentado ao seu redor, pegava o seu M’bolumbumba, levava à barriga e começava a tocar. E o som do seu instrumento ecoava pela floresta e na cabeça de cada pessoa que se encontrava ali presente. Todos se maravilhavam com o toque daquele instrumento e a beleza de sua música. Criando, assim, um clima de magia e nostalgia a todos que ouviam. E o velho Djeli contava uma história cantada. E todos ficavam em grande silêncio e prestavam muita atenção a cada som que emanava da sua boca. E dessa maneira contava o preto velho griot Djeli:
    — No tempo dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães, toda vida na nossa amada Ama Terra estava iluminada e devidamente equilibrada e unificada. E toda humanidade era um só povo. Uma só raça. Uma só cor. Uma só nação. Um só pensamento. Um só sentimento. Uma só expressão. Uma só língua. Um só amor. E havia uma só terra que formava um único e grande continente. E nessa terra havia um único e só rei, Kee’Musoo: “Aquele que Criou o Todo e o Tudo”…
    Nesse tempo, Kee’Musoo. A grande e maravilhosa Essência que habita em todos e em tudo. O grande Criador de todo o universo e de toda a natureza, onde toda a vida caminha, vive e respira. O Maravilhoso dos maravilhosos. O mais Belo dos belos que dá cor, cheiro e embeleza toda a vida. Aquele que é Rei dos reis e o Senhor dos senhores, e o maior Amor de todos os amores. Aquele que é a Fonte. Aquele que é Raiz. Aquele Luminoso que é a matriz da luz, do cheiro, do som e de todo o sentir, da visão, da inteligência e de todo o entendimento. Essa magna Energia Vivificante que movimenta, sustenta e faz existir todas as coisas pela sua imensa sabedoria. Sempre habitava e sempre imperava nas cabeças e nos corações dos homens e das mulheres…
    Sendo Kee’Musoo o maravilhoso e Amado Esposo para as mulheres e a bondosa e Amada Esposa para os homens. E, assim, os homens e as mulheres viviam em eterna comunhão de amor com o seu Criador…
    Kee’Musoo, “Aquele que Criou o Todo e o Tudo”, era ação, e não palavras. Era harmonia, e não esforço. Era caridade, e não sacrifícios. Era a fonte da fé e de todo amor dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães…
    “Aquele que Criou o Todo e o Tudo” nunca os corrigia. Pois a venda da ignorância do orgulho e de todo egoísmo humano ainda não existia nos olhos dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães. Dessa forma, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães tornavam a luz “Daquele que Criou o Todo e o Tudo” útil. Dentro, entre e fora dos seus corpos. Emanavam apenas sentimentos bons, positivos e amorosos. Fazendo-se um só com “Aquele que Criou o Todo e o Tudo”. E caminhavam como reis e rainhas em meio a todas as outras criaturas, em todas as formas, em toda existência individual, como em toda a comunidade e em toda Luz…
    Não procuravam compreender o porquê de todas as coisas: Quem eram? O que eram? De onde vieram? E todas essas perguntas que sufocam a nossa consciência. E nem pensavam em questionar ou ir contra as leis naturais e universais de toda a vida. Apenas viviam o que eram…
    A mais perfeita de todas as criações “Daquele que Criou o Todo e o Tudo”…
    Os corações dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães pulsavam em ressonância com o coração da Vida Infinita, através dos rufares dos seus tambores. Nos seus rituais sagrados, os seus espíritos eram arrebatados pela canção das estrelas, que os faziam dançarem em círculo por toda a noite, ao redor de uma grande fogueira, com labaredas ardentes azuladas, amareladas e avermelhadas. Dançavam imitando os movimentos dos astros ao redor do fogo, que representava o sol. Dançavam imitando as nuvens que caminhavam ofuscando o brilho da lua e dos outros inúmeros corpos celestiais que animavam e iluminavam o escuro do céu…
    Em seus rituais sagrados celebravam a magia da vida conservando a Criança Interior, dançando em volta da Fogueira da Alegria. Fazendo a Magia do Sorriso florescer em seus corações…
    Dentro dos seus peitos as vozes de todo o universo e toda a natureza faziam a Magia da Canção acontecer. E dessa forma o povo alado do imenso céu ensinava-lhes a arte de ver o que hoje é oculto aos nossos olhos de carne…
    Através dos seus trabalhos ritualísticos e das suas manifestações culturais circulares, a Magia do Amor se manifestava nos seus corpos. Por terem a humildade de fincar os seus pés descalços no chão e olhar para as alturas e para as bordas do horizonte infinito, obtendo a dignidade de compreender que emanação “Daquele que Criou o Todo e o Tudo”, eles e elas eram…
    Para os nossos Primeiros Pais e para as nossas Primeiras Mães, o Amor era o solo fértil onde cresciam todas as suas ações. A alma da nossa amada Ama Terra, iluminada pelo nosso amado Padrasto Sol e pela nossa amada Madrasta Lua pulsava em seus corpos, sentindo a sabedoria do Sagrado e Eterno Contínuo que existe em todos e em tudo. Dessa maneira, a superficialidade das aparências que existe no mundo hoje não os iludia. Não impedindo em seus crescimentos como manifestações da mais pura e perfeita perfeição…
    Ouviam a Canção da Criação que se renova de tempos em tempos. E que pelo movimento perfeito da sua dança a tudo faz crescer e embeleza…
    Nesse tempo em que a nossa amada Ama Terra era unida, formando uma grande e elevada montanha plana, no meio de um grande e único oceano de águas reluzentes, que estava envolto e contido por imensos paredões de gelos, como se o nosso mundo fosse o olho único de um gigante ciclope universal, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães conheciam que “Aquele que Criou o Todo e o Tudo” dançava em todas as coisas, e falava através de todo movimento que se podia ver, ouvir, cheirar, sentir e perceber. Pois os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães podiam ver, ouvir, cheirar e sentir com o coração. Pelo coração entendiam o Movimento Sagrado que impulsiona a circulação de todas as coisas…
    Conheciam Aquele que Criou o Todo e o Tudo nos seus próprios corpos e nas três manifestações primárias da vida, que pela verdade entendiam ser uma só. O ÚNICO CRIADOR, TODA A CRIAÇÃO E AS VARIADAS CRIATURAS. Que de geração em geração se manifestava em nossa natureza como: Pai “CRIADOR”, mãe “CRIAÇÃO” e filhos “CRIATURAS”. E, assim, reconheciam a maravilhosa presença e vida “Daquele que Criou o Todo e o Tudo” neles mesmos, nelas mesmas e nos seus filhos…
    Os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam a vida em toda sua totalidade. Tinham o entendimento oculto de reconhecer que vivíamos em um corpo. Sabiam que esse corpo era a nossa primeira casa. E que essa casa deveria ser tratada como um Templo Sagrado de Pureza Sublime da Morada da Alma e Manifestação da Vida. E que éramos, entretanto, seres bipartidos e, por consequência, seres sexualizados. Assim, compreendiam o conhecimento oculto que há por detrás de nossa sexualidade, servindo como um veículo para honrar e respeitar a vida de todos os seres, através da união sexual dos corpos bipartidos. Fazendo do “Dois (2) Um (1), e do Um (1) Três (3)” na chegada dos novos seres. Aí está o segredo do Sagrado e Eterno Contínuo de Toda Criação, manifestado nas formações das criaturas…
    Isso particularmente eu chamo de O PODER DAS PIRÂMIDES.
    Pois, naquele tempo, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães louvavam a Grande e Perfeita Criação. Provinda da união amorosa do Grande e Majestoso Universo Magnífico “Kee, O Esposo”, com a Grande e Majestosa Natureza Maravilhosa “Musoo, A Esposa”, representados nos seus corpos como o MACHO e a FÊMEA…
    Este era o momento mais sagrado para os nossos Primeiros Pais e para as nossas Primeiras Mães. Pois compreendiam perfeitamente que, pela união dessas manifestações, manifestava-se O NOVO. Assim, o ato sexual era o que havia de mais sagrado, e só podia ser vivenciado num imenso ritual de amor e dança sob a luz da lua nova. E unicamente se aprofundavam nesse prazer só para gerar uma nova existência. Nesse momento, eles e elas compreendiam o poder em que o Dois (2) se faz Um (1). Pelo nascimento de uma nova vida no mundo, provinda pela união dos seus corpos…
    Assim, pela manifestação e popularização da vida, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães entendiam que vivíamos em um mundo de relacionamentos, contatos e sentimentos com nossos semelhantes e outras criaturas animadas e inanimadas. E éramos, entretanto, seres sociais. E que cada contato nos oferta presentes e surpresas, e cada relacionamento nos oferece inúmeras alegrias, desafios e oportunidades de seguirmos AS VIAS DO CONHECIMENTO. Dando e recebendo de bom grado. Aprendendo e depois ensinando. Sabendo respeitar o momento em que todas as coisas se encaixam. E de que tudo tem o seu tempo, lugar, coração e inteligência certa…
    Os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam que todos nós participamos direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente das estruturas que nos governam, e de que somos seres poderosos e politizados em virtude dessa participação. Sabiam, dessa forma, que nossa vida sempre permite contribuir para a criação de estatutos, leis e estruturas que respeitem a dignidade e o espírito de todos os seres…
    A ninguém adulavam, bajulavam ou prestavam homenagens, nem davam poder aos homens e às mulheres que hoje julgamos ser grandes e poderosos. Nem ninguém classificava ou distinguia os homens e as mulheres por suas notáveis habilidades, cargos, posições hierárquicas ou acúmulos de posses. Pois todos observavam os dons e os talentos em si e no outro. Sabendo que cada existência individualizada é única. Trazendo em si mesma sua sabedoria individual, pelo seu pessoal ponto de vista do universo e da natureza, que contém um mistério envolto em um segredo oculto que só esse ser individualizado pode conceber…
    E, por isso, seus trabalhos se baseavam em aprimorar as suas faculdades inatas, como Portadores da Luz em diversas faces, em adoração e obediência ao Criador de Todas as Coisas Existentes. Sendo cada homem e cada mulher ponte para o outro homem e para a outra mulher na diversidade dos seus dotes, talentos e conhecimentos. Formando uma natural cadeia comunitária de autoajuda, suficiência e sustentabilidade solidária…
    Os sacerdotes e governantes eram como as grandes montanhas e vulcões. E o povo era como as grandes árvores, e os outros seres como as pequenas plantas e arbustos em meio a uma imensa biodiversidade florestal. Dando sua sombra, água dos páramos, adubos, alimentos e proteção, para suprir as necessidades do ciclo de toda vida da natureza, em troca e comunhão contínua…
    Todos eram honestos, bondosos, fiéis e justos sem se darem conta de que estavam sendo o que verdadeiramente deviam ser. Naturalmente amavam-se uns aos outros. Mas não se classificavam bons, ou se qualificavam generosos, ou compreendiam e valorizavam por meio de doutrinas e dogmas o significado do amor ao semelhante e ao seu próximo…
    A ninguém enganavam, usurpavam ou tiravam proveitos de nenhuma situação adversa, tiranicamente em intrigas e mentiras. Mas nenhum deles sabia o que era ser sincero e o que era ser honesto…
    Eram fiéis ao seu rei, à natureza e ao universo, ao equilíbrio, ao seu Deus: “O AMADO e A AMADA”. Quem chamavam de: “PAI-MÃE DE TODA CRIAÇÃO”, “GRANDE E PODEROSO ESPÍRITO”, ou simplesmente “AQUELE QUE CRIOU O TODO E O TUDO”. Mas desconheciam ser esse entendimento a verdadeira fé e verdade…
    Viviam todos juntos em plena liberdade, dando e recebendo em comunhão contínua. Mas não sabiam o que era gentileza, o que era generosidade e o que era liberdade…
    Assim, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam e entendiam essas simples, porém grandes, coisas. Respeitavam a Natureza como sua mãe, o Universo como seu pai e todas as Coisas Vivas como irmãos…
    Cuidando deles, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães sabiam que estavam cuidando de si mesmos…
    Dando a eles, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam que estavam dando a si mesmos…
    Ficando em paz com eles, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães sentiam em seus corações que estavam sempre em paz consigo mesmos…
    Aceitavam a responsabilidade pela energia que ambos manifestavam. Tanto na sua atividade como um integrante das suas comunidades sociais, quanto no Reino Sutil de se conhecerem como parte integrante do Reino Animal. E, quando os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães estavam admirando uma bela flor, pela prática da observação, eles e elas não viam apenas um acontecimento isolado. Mas raízes, folhas, galhos, caule, água, solo, minúsculos seres da terra, vento e sol, estrelas, lua e o todo do cosmos. Cada um deles se relacionando com os demais, e as pétalas aflorando dessa bela relação…
    E, olhando para Si mesmos ou para as outras pessoas, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães podiam ver a mesma coisa. Grandes árvores e pequenos insetos. Complexos seres humanos e a simplicidade da beleza das flores. Pássaros voando no firmamento e animais rastejando no solo. Sol escaldante e lua deslumbrante. Astros luminosos, planetas errantes, estrelas cintilantes, águas correntes e um minúsculo grão de areia parado no chão. E em sua superioridade como imagem e semelhança da Fonte Criadora, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam e entendiam que suas próprias energias tinham parte nisso…
    Em seus pensamentos não havia a separação das coisas, e nem havia as variadas fragmentações do saber de cada coisa. Tudo e todos eram um só em toda sua biodiversidade, manifestando uma grande espiral de personificações, em um único perfeito movimento contínuo do existir…
    Não contavam as horas do dia, nem contavam os dias, nem tampouco os meses e os anos. Apenas viviam de acordo com os ciclos da Majestosa Natureza Maravilhosa, em plena comunhão com o Magnífico Universo Absoluto…
    Naquele tempo os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães não dividiam o dia como hoje fazemos. Não havia manhãs, tardes ou noites. Mas percebiam o movimento do dia como o ciclo da vida de todas as coisas existentes. Início, trajetória e fim. Luz e trevas, trevas e luz. E no movimento do dia percebiam a dança de todas as coisas existentes em evolução contínua, e em diversas situações de ganho e perda, vida e morte. E nas mudanças das estações podiam compreender a totalidade dos ciclos de suas vidas…
    Primavera, verão, outono e inverno…
    Nascimento, juventude, maturidade e velhice…
    O início e o fim, o fim e o início…
    Não possuíam a linguagem escrita. Não por ignorância ou por serem julgados como povos primitivos. Mas porque em seus pensamentos não existia o esquecimento do Saber do Sagrado e Eterno Contínuo, que manifestava na nossa amada Ama Terra o Entendimento Ancestral. Pois, de geração em geração, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães guardavam as palavras dos antepassados dentro deles e dentro delas, desde muito tempo. E continuavam a passar para os seus descendentes, AS CRIANÇAS. As quais nossos Primeiros Pais e nossas Primeiras Mães compreendiam que seriam os herdeiros da vida e guardiães do mundo, manifestando O NOVO…
    Em suas linguagens não existiam palavras que denominassem toda e qualquer forma egocentrista. Não existia eu… seu… ou meu… só havia NOSSO. E não existia nenhuma palavra ou expressão que justificasse falsidades, infelicidades, discórdias, avarezas ou mentiras. E assim os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães valorizavam as suas palavras como o Alimento Sagrado da Alma. E através de suas palavras de puro e pleno poder transmitiam a visão e conhecimento do não tempo, das estrelas e dos astros, das coisas, dos animais, das plantas, de todo o Universo e de toda a Natureza, do SER e do Espírito a cada um…
    Assim, o Saber Ancestral do Sagrado e Eterno Contínuo nunca morria, e os pais de seus pais e as mães de suas mães sempre se faziam eternamente vivos em seus corpos por indefinidas gerações. Pois sabiam que o novo é a continuação do velho. E, assim, velho e novo não existiam. Era o fim e o começo do ciclo da roda girante do Sagrado e Eterno Contínuo…
    Hoje, com a quebra do Sagrado e Eterno Contínuo, e por desvalorizarem as histórias e banalizarem as palavras de sabedoria dos templários antepassados ancestrais, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães morreram nos novos corpos. E o Saber Ancestral, que transmitia o princípio educacional das maravilhas deste mundo, pela ignorância se extinguiu. Por esses motivos, seus feitos por muito tempo até os dias de hoje nunca foram narrados. E, como consequência, o esquecimento do Sagrado e Eterno Contínuo se tornou o conhecimento dos povos. E a sede do Espírito se tornou a decadência dos novos…
    E os novos seres de hoje seguirão tentando inutilmente inventar mais cores, mais sabores, mais odores, mais luzes, mais deuses, mais líderes e gurus, mais ídolos, mais verdades, mais religiões e mais ciências. E inúmeros mais objetos e mais utensílios, sendo que caminharão e cambalearão de lugar em lugar procurando inutilmente o que é de mais sagrado para tentarem matar essa sede insaciável do espírito. Que nos torna cada vez mais ignorantes e distantes da vida, da natureza e do universo, da verdade, do saber e do “Criador de Todas as Coisas Existentes”…
    E o Saber Ancestral do Sagrado e Eterno Contínuo, que transmitia o princípio educacional das maravilhas deste mundo, se extinguiu. E dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães…
    Fez-se uma breve pausa. E o ancião Djeli com os olhos mergulhados no vasto horizonte verde. Onde as inúmeras palmeiras de guarirobas bailavam ao movimento suave e dançante dos ventos marítimos. Exclamou com um tom forte e firme de voz, balançando a cabeça para um lado e para o outro:
    — Não nos restaram mais lembranças!
    (Trecho do livro: O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA — A incrível saga do Quilombo dos Palmares no Novo Mundo, Jp Santsil, CHIADO BOOKS, 2019)
  • Contos Griots: A Criação Yoruba

    No princípio existia um lugar… em que nada do que existe hoje havia e existia.
    Esse lugar é o primeiro mundo, que se chama Orún.
    No Orún, o primeiro reino, só existiam os seres de luz e a Grande Fonte Luminosa. Que é o Ser Supremo, que criou o todo e o tudo e deu existência a todas as coisas que hoje existem.
    Esses seres luminosos eram um só em comunhão ao Grande Espírito Supremo. E só uma coisa diferenciava uns dos outros, apenas os brilhos dos seus corpos e a cor da luz que eles emanavam.
    Esses seres eram completos e perfeitos em união e reverência à Grande Fonte Luminosa. E manifestavam no Orún um grande baile luminoso, que formava um redemoinho em espiral repleto de todas as cores que se possa imaginar.
    Assim, o Orún resplandecia uma beleza de maravilhas de luzes e cores, que nem um baú repleto de pedras preciosas multicoloridas, irradiadas pelos raios solares que penetram em uma janela dentro de um quarto escuro, podia emanar.
    A Grande Fonte Luminosa, O Deus Todo-Poderoso, O Primeiro e o Último, que além dele não há outro deus. É conhecido pelos povos iorubás pelos atributos de Olódùmarè, que quer dizer “Aquele Luminoso que possui o imenso brilho que ninguém pode alcançar”. Ou Olórun, que quer dizer “Aquele Luminoso que impera no Céu”. Ou simplesmente Olófin, que quer dizer “Aquele Luminoso que é o Rei dos reis e Senhor dos senhores” e também Olodúm, que quer dizer “Aquele Luminoso que é o senhor dos destinos”.
    Os habitantes do Orún, os seres luminosos criados por Olódùmarè, eram chamados Imolè.
    Os Imolès eram uma comunidade de seres de luz regidos por um único Rei, Olódùmarè. Tendo alguns ordenadores templários que eram chamados Funfuns. Esses seres eram assexuados, pois eram à semelhança de Olódùmarè.
    Os Funfuns foram os primeiros seres luminosos criados por Olódùmarè, e os seus corpos são transparentes como os cristais, e as suas luzes são de cor branca, como as luzes das estrelas.
    Olódùmarè, “Aquele que é não criado”, antes de criar o Orún, era inconcebível e inimaginável.
    Era o tudo e era o nada, e não era o tudo e não era o nada. Pois nem o tudo, nem o nada ainda não veio à existência.
    Olódùmarè, o solitário não criado, de repente, movimentou-se em si mesmo e começou a inflar-se, gerando em si mesmo a EXISTÊNCIA. E a EXISTÊNCIA era a LUZ.
    Olódùmarè inflamava e se expandia cada vez mais, e mais, e mais, e mais. A partir desse momento, Olódùmarè existiu dentro de si mesmo, e o nada se tornou o todo dentro dele mesmo.
    A EXISTÊNCIA era o primeiro PENSAMENTO de Olódùmarè, o sonho da Criação.
    Olódùmarè prendeu o PENSAMENTO por uma eternidade de oito ciclos, e ao longo dos ciclos Olódùmarè se expandia cada vez mais. No final do nono ciclo e no início do décimo ciclo eternário, Olódùmarè não conseguiu mais se conter. E saiu de dentro de si o èmí, um sopro entoado pela primeira vez, que deu origem ao òfurufú, a PALAVRA. E a PALAVRA era a VIDA. E Olódùmarè disse bem alto, pronunciando:
    EU SOU!
    Olódùmarè explodiu ao pronunciar “o sopro entoado”, o èmí. Expelindo para fora de si a PALAVRA, o òfurufú.
    E a PALAVRA se fez EXISTÊNCIA, e Olódùmarè, olhando a EXISTÊNCIA, se viu pela primeira vez. Pois a EXISTÊNCIA ainda não tinha forma definida, porque a EXISTÊNCIA estava dentro de Olódùmarè. E era Olódùmarè.
    A PALAVRA estava com Olódùmarè no princípio, e, Olódùmarè era a PALAVRA. Por meio da PALAVRA, Olódùmarè gerou todas as coisas criadas e nada do que veio à EXISTÊNCIA veio a ser sem a PALAVRA, que era Olódùmarè.
    A PALAVRA veio a ser a FONTE DA LUZ. E dessa PALAVRA todas as criaturas, coisas e formas se iluminaram. E a LUZ brilhou pela primeira vez nas trevas, essa LUZ veio a ser a VIDA, e a VIDA compreendeu o Todo e o Tudo, e Olódùmarè veio a ser, expelindo-se para fora de si mesmo.
    A EXISTÊNCIA agora estava fora de Olódùmarè. Mas Olódùmarè estava agora dentro e fora da EXISTÊNCIA que se tornou LUZ.
    E a LUZ era a VIDA. A VIDA ganhara corpo e forma. E quando a VIDA observou Olódùmarè, o seu criador, a VIDA ganhara também CONSCIÊNCIA. E dessa CONSCIÊNCIA surgiu o SENTIMENTO. E esse SENTIMENTO foi o AMOR, em forma de um singelo sorriso.
    E Olódùmarè amou a VIDA. E desse AMOR a FELICIDADE raiou iluminando a CRIAÇÃO. E dessa LUZ surgiu a HARMONIA. E a HARMONIA manifestou a PERFEIÇÃO. Então, Olódùmarè disse:
    — VOCÊ É MEU PRIMEIRO FILHO. ATRAVÉS DE VOCÊ EU VIM A EXISTIR E FIQUEI CONHECIDO. EU ESTOU EM VOCÊ E VOCÊ ESTÁ EM MIM. SOMOS UM SÓ, POIS SEM VOCÊ EU NÃO EXISTO, E SEM MIM VOCÊ NÃO PODERIA EXISTIR. EU TE VEJO PORQUE VOCÊ ME VÊ. EU TE SINTO PORQUE VOCÊ ME SENTE. MEU PRIMOGÊNITO, MEU ESPÍRITO ESTÁ LIGADO AO SEU, E O SEU AO MEU, POR TODA VIDA E QUALQUER ETERNIDADE.
    Olódùmarè, depois de dizer essas palavras, o chamou de Obàtálá, que quer dizer “Rei Supremo de luz branca acima de tudo e de todos”.
    Obàtálá, rei supremo e filho único de Olódùmarè, foi coberto de um véu de luz majestosamente branco. Olódùmarè, vendo o seu filho amado que flutuava solitário no espaço como a Grande Estrela de todas as tardes e manhãs, aquela que mais brilha, disse:
    — VAMOS, MEU FILHO, E CONSTRUAMOS UMA CASA PARA QUE JUNTOS POSSAMOS HABITAR.
    E Olódùmarè, junto a Obàtálá, edificou o Orún. Depois da edificação do Orún, Olódùmarè percebeu que Obàtálá necessitava de um ser semelhante a ele, para coagir e interagir. Pois Olódùmarè não tinha forma definida, podendo ser qualquer coisa, e ele se manifestava a Obàtálá de diversas formas e maneiras. Sendo que Obàtálá não tinha nenhuma referência dele próprio, porque não havia ainda na criação um ser semelhante a ele. Então, Olódùmarè disse:
    — VAMOS, MEU FILHO, SOPRAREI SOBRE VOCÊ O ÈMÍ, O MEU HÁLITO.
    Olódùmarè, ao soprar o èmí sobre Obàtálá, fê-lo girar como um redemoinho. E, ao girar, parte de si desprendeu-se dando origem a outro corpo. Porém, esse corpo estava estático e sólido como uma rocha porosa. Vendo-o, Olódùmarè disse:
    — AGORA SOPRAREI SOBRE ESSA FORMA O MEU ESPÍRITO, O ÒFURUFÚ, MEU AR DIVINO. PORQUE MEU ESPÍRITO É A PALAVRA DA VIDA, E DOU LUZ A TUDO QUE QUERO.
    Olódùmarè soprou o seu òfurufú sobre a forma sólida e acinzentada, e ela ganhou Luz e Vida. E da mesma forma que fez com seu filho único Obàtálá, o encobriu com um manto de luz de cor branca.
    E Olódùmarè o chamou de Èsú’Yangí, que significa “A esfera porosa que ganhou movimento”.
    Èsú’Yangí foi a primeira forma viva individualizada do universo. Pois Èsú’Yangí fora retirado diretamente de Obàtálá, sendo por natureza inferior a Obàtálá, o primogênito de Olódùmarè. E Olódùmarè, disse:
    — ÈSÚ’YANGÍ, VOCÊ SURGIU DE OBÀTÁLÁ E AGORA VOCÊS SÃO IRMÃOS. VOCÊ DEVERÁ HONRAR SEU IRMÃO MAIS VELHO E RESPEITÁ-LO COMO SUPERIOR A VOCÊ. POIS SEM ELE VOCÊ NÃO PODERIA VIR A EXISTIR. PORÉM, EU TE FIZ À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA, E TAMBÉM TE ENCOBRI COM O MESMO VÉU DE LUZ QUE O ENCOBRI, PARA QUE VOCÊS SEJAM UM SÓ PERANTE MIM. MAS SEU IRMÃO É O MAIOR, POR SER ELE À MINHA IMAGEM E TER PROVINDO DE DENTRO DE MIM, PORQUE EU O GEREI E ME MANIFESTEI ATRAVÉS DELE. PORTANTO, HONRA E AMA A ELE COMO VOCÊ DEVE HONRAR E AMAR A MIM. ESTE É O ÚNICO MANDAMENTO QUE LHE DOU.
    E Olódùmarè disse a Obàtálá:
    — MEU PRIMOGÊNITO, VOCÊ SABE QUE O MEU ESPÍRITO ESTÁ EM TI, E ATRAVÉS DE TI TODAS AS COISAS VIVAS SERÃO CRIADAS. E ENCHEREI TODO UNIVERSO DE VIDA ATRAVÉS DE TI. CUIDA ASSIM DO TEU IRMÃO, POIS ELE É FRUTO DE TI, AMA-O COMO VOCÊ ME AMA E EU TE AMO, AMA-O COMO VOCÊ DEVE AMAR A SI MESMO PELA MINHA VIDA EM TI. ESTE É O ÚNICO MANDAMENTO QUE TE DOU. POIS A COROA DA VIDA É SUA, SENDO TU MESMO REI SOBRE TODA A VIDA.
    Depois de dizer essas palavras e dar os seus primeiros mandamentos aos dois. Olódùmarè se retirou do meio deles e os observava, pois ele mesmo já sabia o que havia de acontecer com a criação.
    Obàtálá e Èsú’Yangí eram puros como as criancinhas, pois ainda não havia maldades na criação.
    Juntos caminhavam, dançavam e brincavam no Orún, e Olódùmarè sempre os vigiava. Até que pela primeira vez surgiu uma desavença entre os dois, pois Obàtálá queria dançar, e Èsú’Yangí queria brincar.
    Olódùmarè, vendo essa desavença, foi até eles para interrogá-los, e disse:
    — MEUS AMADOS FILHOS, QUAL O PORQUÊ DESSA DESAVENÇA ENTRE VOCÊS DOIS? VOCÊS DEVERIAM ESTAR FELIZES, UM EM COMPANHIA DO OUTRO.
    Obàtálá, então, disse:
    — Tudo isso foi por causa de Èsú’Yangí, pois estávamos brincando o tempo todo, aí eu falei para ele que eu não queria mais brincar, e chamei-o para dançar e ele não quis.
    Èsú’Yangí disse em resposta a Obàtálá:
    — Já tínhamos dançado antes de brincarmos, e eu não queria mais dançar.
    Olódùmarè ouvindo-os, percebeu que nesse momento havia dois mundos. E que sempre existiria rivalidade entre eles pelas divergências de suas vontades. E isso o preocupou. Pois a sua criação não se tornará harmônica, e sem harmonia não poderia existir a perfeição. Olódùmarè pensou por um momento e disse:
    — ALGUM DE VOCÊS DOIS VAI TER QUE SE RENDER A FAZER O QUE O OUTRO QUER. QUEM SERÁ?
    Obàtálá, então, disse:
    — Eu sou o primeiro. E sendo eu o primeiro, Èsú’Yangí tem que fazer a minha vontade.
    Èsú’Yangí também disse:
    — Eu sou o seu irmão, portanto você tem obrigações comigo, pois provim de você, e por isso, você tem que me servir.
    Então, eles viraram as costas um para o outro, como sinal de não se rederem um à vontade do outro.
    Olódùmarè, vendo que a coisa só piorava, percebeu que a igualdade individualizada entre os dois criara a rivalidade. E, dessa forma, decidiu criar outro ser em aparência como a deles, mas diferente. Pois Obàtálá e Èsú’Yangí eram assexuados, mas em semelhança masculina.
    Assim, enquanto os dois se encontravam de costas, Olódùmarè pegou um pouco de luz dos seus corpos e fez surgir no meio deles um ser de beleza sublime e de forma afeminada.
    Este ser também de luz branca era tão lindo e de grande pureza, que ninguém o poderia resistir. Este ser surgiu das divergências de Obàtálá e Èsú’Yangí. E Olódùmarè o chamou de Odùduwà, que quer dizer “Aquela que jorra a harmonia do Criador”. Assim, Olódùmarè se retirou e os deixou.
    Obàtálá e Èsú’Yangí de repente ouviram por detrás de si um choro, e, virando-se os dois ao mesmo tempo, depararam-se com um ser luminoso de beleza encantada, e juntos maravilharam-se. E Obàtálá perguntou:
    — Quem é você e por que chora?
    — Meu nome é Odùduwà. Estou chorando porque vocês não querem brincar e dançar comigo. — Respondeu.
    Èsú’Yangí, disse:
    — Eu quero brincar.
    — E eu quero dançar. — Disse em seguida Obàtálá.
    E juntos brincaram e dançaram. Foi assim que Olódùmarè, o Senhor de toda Criação, apaziguou as primeiras divergências no Orún. Pois agora a criação se tornara perfeitamente harmônica.
    Olódùmarè decidiu criar outros seres de luz para popular o Orún, e assim fez, gerando a sua corte real de Imolès Funfuns, “Aqueles de Luz Branca”.
    Os principais Imolès Funfuns, eram Obàtálá, que foi o primeiro, sendo este o rei de todos os Imolès, Èsú’Yangí, representando a disputa dual que movimenta o uno, Odùduwà, a trindade da harmonia que traz a perfeição, e por consequência Eteko, Akiré, Olúorogbo, Ògiyán, Olufan, Oko, Òkè, Lòwu, Ajagemo, Olúwofín, Pópó, Eguin, Jayé, Olóbà, Obaníjìta, Alajere, Olójó, Oníkì, Onírinjà, Àrówú, Ko, entre outros Funfuns. E, os criando, Olódùmarè se retirou.
    Os Imolès Funfuns viviam em perfeita harmonia com o seu Criador no Orún. Mas sentiram algo faltando na criação, e não sabiam o que era. Algo como sentir fome, mas não existir comida. Sentir sede, mas não existir bebida.
    Então, todos, de mãos dadas, se reuniram no centro do Orún, em um grande círculo invocando a presença de Olódùmarè. Perguntando que coisas era essa que faltava? Que vazio era esse a ser preenchido?
    Olódùmarè, o sem forma que adquire todas as formas, o não criado que criou o todo e o tudo, ascendeu em uma grande chama de luz extremamente branca no meio dos seus filhos. E, quando isso aconteceu, a sua grande, potente e poderosa luz atravessou os corpos cristalinos dos Imolès Funfuns, gerando por detrás deles as maravilhas das muitas cores. Transformando o Orún em um universo mágico de um grande e circular arco-íris multicolorido. E Olódùmarè, disse:
    EU SOU!
    E ao pronunciar a sua grande e poderosa presença, todas as cores adquiriram vida, e novos Imolès multicoloridos vieram a existir no Orún. Preenchendo o vazio que faltava dentro e entre os Imolès Funfuns.
    E esses novos seres multicoloridos foram chamados Irun Imolè.
    E esse vazio que faltava no Orún era o que conhecemos hoje como os SENTIMENTOS.
    Pois cada cor manifestada despertara nos Funfuns os variados sentimentos que no princípio todos eram de ordem positiva. A partir desse momento, os SENTIMENTOS se tornaram os alimentos dos Imolès, e suas vidas agora giravam em torno deles.
    O Orún resplandecia sua luz de pureza harmônica por ciclos e ciclos eternários. Até o dia que Èsú’Yangí ficara insatisfeito com a sua posição na Criação. Pois ele queria ser como Obàtálá, e ter a coroa do primogênito de Olódùmarè, o Criador.
    E, pela primeira vez no Orún e na Criação, surgiu algo de que nenhum Imolè ainda tinha conhecimento e consciência. Algo que ninguém nunca experimentara, um sentimento terrível que surgiu em Èsú’Yangí, e foi a origem de todos os males conseguintes.
    Um sentimento de tristeza perante o que Obàtálá tinha, e Èsú’Yangí não entendia o porquê de que ele não tinha. E este sentimento gerou o desejo de ter exatamente o que Obàtálá possuía, a primazia e a coroa de rei dos Imolès.
    Este sentimento, até então, não experimentado na criação era definido como uma vontade frustrada de Èsú’Yangí querer possuir os atributos ou qualidades de Obàtálá. Sendo esse sentimento o que conhecemos hoje como a INVEJA e a COBIÇA.
    Secretamente, entretanto, Èsú’Yangí procurava uma maneira de persuadir Obàtálá para que ele pudesse cometer alguma falha em sua administração no Orún e ter sua moral rebaixada perante Olódùmarè.
    Olódùmarè, o Criador onisciente, onipresente e onipotente já sabia do rigoroso teste, em que a criação tinha que passar para o aprimoramento espiritual das suas almas criadas. E principalmente sabia da importância e do papel de Èsú’Yangí nisso.
    E Olódùmarè pensou: “Eis que já começou a provação dos seres que criei, agora não depende só da minha vontade. Como eu quis que isso nunca acontecesse com os meus filhinhos amados, mas tudo tem um propósito sem propósito, sendo que agora toda alma vai ter que ser lavada com a água do arrependimento e purificada com o fogo do sofrimento, para encontrar a verdadeira felicidade e vida em mim. Mas não deixarei meus amados sozinhos, corporificarei a minha SABEDORIA, com a qual criei todas as coisas, para que eles possam encontrar auxílio nela, e ela servirá como um guia e protetor para eles me encontrarem, quando arrependidos, humildemente me buscarem”.
    Assim, Olódùmarè convocou todos os Imolès Funfuns para uma reunião na Morada dos Justos, o Àwosùn Dàra, seu palácio que até então ficava no centro do Orún. Mas excluiu Èsú’Yangí, pois ele já não era mais digno de sua presença, pelo fato de se encontrar impuro, pela maldade que se fez crescer em seu coração, não tendo mais a dignidade de entrar no Àwosùn Dàra.
    E na presença de todos os Funfuns reunidos na Morada dos Justos, Olódùmarè disse:
    — MEUS AMADOS FILHOS, É CHEGADO O MOMENTO EM QUE TODA CRIAÇÃO PASSARÁ PELO DESERTO DA ILUSÃO, ONDE AS TREVAS TENTARÃO EM VÃO OFUSCAR A LUZ. MAS, NO FINAL A LUZ PREVALECERÁ. DURANTE ESSE MOMENTO EU RETIRAREI MINHA PRESENÇA DO MEIO DA CRIAÇÃO, PARA QUE TODA VIDA SEJA PROVADA PELA FÉ EM MIM. PORÉM, CORPORIFICAREI MINHA SABEDORIA E ELA VIVERÁ COM VOCÊS, E ME COMUNICAREI COM VOCÊS ATRAVÉS DELA. ASSIM MEUS AMADOS, NÃO PODEREI MAIS PERMANECER JUNTO A VOCÊS NO FUTURO. SENDO QUE VOCÊS NÃO MAIS PODERÃO ME VER COMO ME VEEM AGORA. POIS SOU PURO E SEM MÁCULA, SENDO EU O SANTO DOS SANTOS E O JUSTO DOS JUSTOS, DEVO PERMANECER NA MINHA MORADA QUE É A CASA DOS JUSTOS.
    Assim, Olódùmarè retirou de si o seu Espírito Santo de grande e perfeita sabedoria, e o corporificou, o chamando de Ibi Keji Olódùmarè, que significa: “O Segundo Espírito de Olódùmarè, que testificou a criação”. Porém, os Funfuns o chamaram de Orunmilá, que significa: “A palavra criadora que deu luz ao mundo”. Orunmilá ganhara um palácio no Orún e sua morada fora chamada de Ifá, que significa: “Morada da Beleza”. E Olódùmarè, ao corporificar e individualizar Orunmilá, falou:
    — ORUNMILÁ, MEU ESPÍRITO SANTO DE SABEDORIA, COM VOCÊ EU CRIEI O ORÚN E SUAS ALMAS, E OS COLOQUEI NO LUGAR PRÓPRIO. VOCÊ SERÁ COMO UM FAROL PARA AS ALMAS PERDIDAS NO MAR DA ILUSÃO. SERÁ UM EDUCADOR DE ALMAS QUANDO A IGNORÂNCIA PREVALECER SOBRE ELES. E ESTARÁ DO LADO DOS JUSTOS E SE AFASTARÁ DOS INSENSATOS. A PARTIR DE AGORA, TODA ALMA QUE DESEJE ME ENCONTRAR E ESTAR EM COMUNHÃO COMIGO, DEVERÁ SER ABENÇOADA POR TI. POIS SÓ A VOCÊ, ORUNMILÁ, É CONFIADA A CHAVE QUE ABRIRÁ TODAS AS PORTAS. E TODAS AS ALMAS QUE TE HOMENAGEAREM E TE TEREM COMO PRIMAZIA POSSUIRÃO ESSA CHAVE.
    E Olódùmarè, virando-se para os Funfuns, disse:
    — MEUS AMADOS FILHINHOS, LEMBREM-SE DAS MINHAS PALAVRAS E NUNCA AS ESQUEÇAM. FAÇAM O QUE EU DIGO E VOCÊS VIVERÃO. PROCUREM CONSEGUIR SABEDORIA E COMPREENSÃO. NÃO ESQUEÇAM, NEM SE AFASTEM DO QUE EU DIGO. NÃO ABANDONEM A SABEDORIA, E ELA PROTEGERÁ VOCÊS. AME-A, E ELA LHES DARÁ SEGURANÇA. PARA SE TER SABEDORIA, É PRECISO PRIMEIRO PAGAR O SEU PREÇO. USEM TUDO O QUE VOCÊS TÊM PARA CONSEGUIR A COMPREENSÃO. AMEM A SABEDORIA, E ELA OS TORNARÁ IMPORTANTES, ABRACE-A E VOCÊS SERÃO RESPEITADOS. A SABEDORIA SERÁ PARA VOCÊS UM ENFEITE, COMO SE FOSSE UMA LINDA COROA. ESCUTEM, MEUS FILHINHOS! ACEITEM O QUE ESTOU DIZENDO E VOCÊS TERÃO UMA VIDA LONGA. EU LHES TENHO ENSINADO O CAMINHO DA SABEDORIA E A MANEIRA CERTA DE VIVER. SE VOCÊS ANDAREM SABIAMENTE, NADA ATRAPALHARÁ OS SEUS CAMINHOS, E VOCÊS NÃO TROPEÇARÃO QUANDO CORREREM. LEMBREM-SE SEMPRE DAQUILO QUE VOCÊS APRENDERAM COMIGO. A SUA EDUCAÇÃO É A SUA VIDA, GUARDE-A BEM! NÃO VÁ AONDE VÃO OS QUE SE FARÃO MAUS. NÃO SIGAM O EXEMPLO DELES. NÃO FAÇAM O QUE ELES FAZEM. AFASTEM-SE DO MAL. DESVIEM-SE DELE E PASSEM DE LADO. ESSES QUE SE FARÃO MAUS NÃO PODERÃO DORMIR SEM TER FEITO ALGUMA COISA MÁ, ELES FICARÃO ACORDADOS ATÉ CONSEGUIREM PREJUDICAR ALGUÉM OU A SI MESMOS. PORQUE PARA ELES A MALDADE E A VIOLÊNCIA SERÃO COMO COMIDA E BEBIDA. A ESTRADA EM QUE CAMINHAM AS PESSOAS DIREITAS É COMO A LUZ DA AURORA, QUE BRILHA CADA VEZ MAIS ATÉ SER DIA CLARO. MAS A ESTRADA DAQUELES QUE SE FARÃO MAUS É ESCURA COMO A NOITE, ELES CAIRÃO E NÃO PODERÃO VER NO QUE FOI QUE TROPEÇARAM. FILHINHOS, PRESTEM ATENÇÃO NO QUE EU DIGO. ESCUTEM AS MINHAS PALAVRAS. NUNCA DEIXEM QUE ELAS SE AFASTEM DE VOCÊS. LEMBREM-SE DELAS E AMEM-NAS. ELAS DARÃO VIDA LONGA E SAÚDE A QUEM ENTENDÊ-LAS. TENHAM CUIDADO COM O QUE VOCÊS PENSAM, INDEPENDENTEMENTE DAS CIRCUNSTÂNCIAS EM QUE VOCÊS SE ENCONTRAREM, POIS AS SUAS VIDAS SÃO DIRIGIDAS PELOS SEUS PENSAMENTOS. NUNCA FALEM O QUE NÃO FOR VERDADE, NEM DIGAM PALAVRAS QUE NÃO FOREM BOAS. OLHEM FIRME PARA FRENTE, COM TODA CONFIANÇA, NÃO ABAIXEM A CABEÇA, ENVERGONHADOS. PENSEM BEM NO QUE VOCÊS VÃO FAZER, E TODOS OS SEUS PLANOS DARÃO CERTOS. EVITEM A MALDADE QUE INSISTIRÁ EM REINAR NA CRIAÇÃO, ESSA ILUSÃO QUE LOGO SE FARÁ MANIFESTA NO REINO, E CAMINHEM SEMPRE EM FRENTE, NÃO SE DESVIEM NEM UM SÓ PASSO DO CAMINHO CERTO. E EM TUDO O QUE VOCÊS FIZEREM, PEÇAM CONSELHOS AO MEU ESPÍRITO SANTO DE SABEDORIA QUE AGORA SE ESTABELECEU NO MEIO DE VOCÊS.
    Enquanto acontecia o concílio promovido por Olódùmarè, reunido com os Imolès Funfuns no Àwosùn Dàra. Èsú’Yangí, percebendo sua exclusão, nem se importou e começou a colocar o seu plano malévolo em prática.
    Também era a oportunidade certa, porque todos os Funfuns não estavam presentes nas periferias do Orún.
    Èsú’Yangí percebeu que a hegemonia de Obàtálá perante todos os Imolès era porque no Orún havia um só pensamento, um só sentimento e uma só expressão.
    Então, Èsú’Yangí teve uma ideia e saiu para colocá-la em prática.
    Èsú’Yangí viu dois Imolès um ao lado do outro conversando, e disse a si mesmo: “Se eu tão somente fizer esses dois discordarem um do outro, eu quebrarei a unidade de pensamento, expressão e sentimento no Orún”.
    Rapidamente, Èsú’Yangí se disfarçou e vestiu um manto de duas cores. De um lado o manto era branco e de outro lado o manto era preto. Assim, quem olhasse Èsú’Yangí de um lado pensaria que ele estava vestindo um manto branco, e quem olhasse Èsú’Yangí do outro lado pensaria que ele estava vestindo um manto preto.
    Èsú’Yangí, vestido com o seu manto de duas cores, preto e branco, apressou-se e passou no meio dos dois Imolès, que se encontravam sentados um ao lado do outro sem nem ao menos os cumprimentar, e desapareceu. Os dois Imolès, vendo o acontecido ficaram pasmados, e um disse ao outro:
    — Que estranho aquele Imolè de manto preto que passou assim por nós sem nem nos cumprimentar. — Ele disse isso, porque sempre os Imolès saudavam uns aos outros em reverência e afeto ao se encontrarem, e continuou:
    — Quem será ele, pois nunca o vi aqui no Orún.
    — Manto preto?! — Exclamou o outro Imolè, e continuou:
    — Eu não vi nenhum Imolè de manto preto, o manto era branco.
    — O Manto era preto, irmão. — Disse o primeiro.
    — Não! O manto era branco. — Disse o segundo.
    E dessa forma eles ficaram discutindo o tempo todo. Um dizendo que o manto era preto e outro dizendo que o manto era branco. Èsú’Yangí, às espreitas, via tudo isso e se divertia muito, pois conseguira o seu objetivo com sucesso.
    Os Imolès que discutiam sobre a cor do manto acabaram brigando e foram para suas moradas, e começaram a espalhar toda aquela discórdia e confusão.
    Dessa maneira, influenciaram os outros Imolès em ideologias adversas, até que o Orún se dividiu em dois lados.
    Do lado direito estavam aqueles que defendiam a ideologia do manto preto, e do lado esquerdo estavam aqueles que defendiam a ideologia do manto branco.
    Eles construíram assim uma grande cerca, e pela primeira vez no reino da criação houve uma fronteira. Havendo uma fronteira, houve a fragmentação dos pensamentos, sentimentos e expressões. E a esfera da dualidade que movimenta todas as coisas veio à existência por obra mentirosa de Èsú’Yangí.
    Quando os Imolès Funfuns se retiraram da presença de Olódùmarè no Àwosùn Dàra, perceberam algo de errado no Orún. E viram o Àwosùn Dàra subir ao mais Alto dos altos e desaparecer. Uma energia de luz acinzentada e pesada pairava sobre o primeiro reino.
    E, observando mais, viram os Imolès separados por uma grande cerca, onde de um lado vestiam mantos pretos, e do outro lado vestiam mantos brancos. E ambos os mantos ofuscavam as suas multicoloridas luzes corporais.
    Os Funfuns, nada entendendo, foram perguntar a Orunmilá o que se sucedeu no Orún enquanto estavam ausentes. E Orunmilá disse:
    — É chegada a hora em que os seres se afastaram da verdade única e absoluta, do todo em comunhão e unidade com o seu Criador. Os seres agora repeliram de si o vivificante e inspirador Espírito Santo de sabedoria do Grande e Poderoso Criador. É por isso, meus irmãos, que me faço presente no meio de vocês corporificado. Para que também vocês não possam repelir a verdade absoluta e serem dominados pelo mal que agora insiste em existir. Falo que insiste em existir, pois o mal é uma mentira, e como toda mentira, o mal não é verdade. É por si só falsidade e ilusão, não existindo, mas fingindo existir. Porque tudo que verdadeiramente existe é somente o Criador e a sua Criação, sendo o Criador a mais pura e perfeita perfeição e verdade, tudo o que foi feito por ELE/ELA é perfeita perfeição e verdade pura e absoluta também. Assim sendo, o mal não foi criado pelo Criador. Portanto, o mal com seus frutos de sofrimentos não possui vida e luz em si próprio. Sendo mentiras que encobrem a verdadeira perfeição do Criador. Agora a dualidade se faz presente na Criação, e com ela veio o conflito, onde o ilimitado se limitará num todo fragmentado. Então, o que é belo que sempre existiu será conhecido pelo feio que pela mentira se fez existir. O bom que sempre existiu será conhecido pelo mal que pela mentira se fez existir. E a verdade que sempre existiu será conhecida pela mentira que se fez existir. Os seres se perderão nos conflitos dos seus pensamentos fragmentados, entrando no labirinto sem saída da dualidade. E assim fugirão do difícil e procurarão o fácil. Amarão o grande e desprezarão o pequeno. Valorizarão o alto e rejeitarão o baixo. Distinguirão o som do silêncio. O passado e o futuro. E em seus pensamentos dualísticos fragmentarão e nomearão todas as coisas. E a isso chamarão de inteligência, esquecendo-se da Grande e Perfeita Sabedoria do Criador, que nos ensina sem palavras. Que tudo cria e faz, nada tomando para si. Realizando todo o trabalho sem colocar seu nome neles. Terminando sua Grande Obra, mas sempre se mantendo no princípio de todas as coisas. Dando o livre-arbítrio a todos os seres. E só interferindo nos seus destinos unicamente por compaixão. Porque se assim não fosse, pelo mal que insiste em existir, nenhuma vida ainda subsistiria.
    Os Imolès Funfuns vendo uma nuvem acinzentada que encobria o Orún, que era tão belo e colorido pelas resplandecentes emanações das luzes dos corpos dos Irun Imolès, se entristeceram e choraram de tristeza pela primeira vez.
    Em vão eles tentaram reconciliar os Irun Imolès. Mas eles não queriam reconciliação. Pois cada um defendia a sua parte e filosofia, e queriam que um aderisse à verdade do outro, e só assim haveria paz.
    E os Funfuns sabiam que ambas as ideologias que eles sustentavam nada tinham de verdade. Porque a verdade une, e nunca separa.
    Passaram-se então outros ciclos eternários e o Orún se afundava mais e mais em trevas.
    Èsú’Yangí fora banido do Orún, e perdera a dignidade e a honra de vestir um manto branco, e dessa forma não era mais um dos Imolès Funfuns. Agora, Èsú’Yangí habitava nos arredores do Orún, guardando as suas fronteiras e vivendo absolutamente solitário. Pois tornara-se feio e medonho, porque a cólera e a raiva o dominaram.
    Sem a presença de Olódùmarè no Orún, também os Imolès Funfuns se dissiparam e foram viver cada um por sua própria conta. Mas sempre se reuniam de tempos em tempos na morada de Ifá, tomando conselhos e louvando o Grande Criador de todas as coisas existentes.
    Depois de alguns ciclos eternários, desde a decadência do Orún e da corrupção que imperava na criação, Olódùmarè, com toda a sua glória, sabedoria e compaixão, percebendo que o mundo que criara ficara feio e sem luz, triste e cinzento, e que o ódio dominara os seus seres de luz, resolveu, a partir dali, criar um novo reino.
    Então, Olódùmarè apareceu a Obàtálá, e disse:
    — MEU FILHO OBÀTÁLÁ, ESTOU MUITO TRISTE COM O ORÚN E COM O QUE ELE SE TORNOU. APESAR DE JÁ SABER O QUE VIRIA A ACONTECER, OS DETALHES E MODOS PERVERSOS DOS MEUS SERES ME IMPRESSIONARAM. POIS O MAL CRESCE E EVOLUI TAMBÉM, E O ABISMO SE TORNA CADA VEZ MAIS PROFUNDO E TENEBROSO. ABRIREI UMA PORTA PARA VOCÊ ENTRAR NO ÀWOSÙN DÀRA, A MORADA DOS JUSTOS. SE PURIFIQUE E VÁ AO CENTRO DO ORÚN, ONDE ANTES EU HABITAVA.
    Obàtálá sem demora partiu de sua habitação para o centro do Orún, como Olódùmarè pediu. Chegando lá, viu uma coluna de luz estendida ao mais Alto dos altos, e falou para os seus seguidores esperarem por ele ao redor da coluna de luz.
    Obàtálá adentrou na coluna luminosa e elevou-se até o Àwosùn Dàra. Estando lá, Olódùmarè ascendeu em chamas na sua frente, e falou:
    — MEU PRIMEIRO! FICO MUITO FELIZ POR TER ATENDIDO O MEU PEDIDO. EIS QUE AQUI ESTOU, E UMA GRANDE MISSÃO TE DAREI. QUERO QUE VOCÊ, MEU FILHO, REALIZE ESSE IMPORTANTE TRABALHO. OBSERVEI VOCÊ DURANTE TODO ESSE TEMPO PELO QUAL O ORÚN DECAIU, E VI QUE VOCÊ NÃO ABANDONOU AS MINHAS LEIS E OS MEUS MANDAMENTOS SAGRADOS. PORÉM, UMA ACUSAÇÃO TENHO CONTRA VOCÊ, MEU FILHO. VOCÊ SE JULGA SER MAIS DO QUE VOCÊ É, E MENOS DO QUE PODERIA SER. SE APOIANDO NA SUA PRÓPRIA SAPIÊNCIA, E DESMERECENDO A SABEDORIA DE QUEM TEM ALGO A LHE ACRESCENTAR. CUIDADO! POIS O CAJADO EM QUE VOCÊ SE SUSTENTA É O MESMO QUE LHE FARÁ TROPEÇAR.
    Olódùmarè disse isso advertindo Obàtálá do seu amor próprio. Mas Obàtálá pensara que Olódùmarè falara do seu òpá-sóró, que ele sempre trazia nas mãos. E Olódùmarè continuou a dar-lhe instruções:
    — AQUI ESTÁ UM SACO COM O ELEMENTO PRIMORDIAL DA EXISTÊNCIA, O ÀPÒ-IWÀ, PEGUE-O E VÁ À MORADA DE IFÁ E PEÇA CONSELHOS A ORUNMILÁ. IFÁ LHE DIRÁ O QUE VOCÊ DEVE FAZER PARA CRIAR O MEU NOVO REINO, QUE SERÁ CHAMADO DE ÀIYÉ. É ESSA A MISSÃO QUE TE DOU.
    Obàtálá pegou o saco primordial da existência, o àpò-iwà, e retirou-se da presença de Olódùmarè, descendo da coluna de luz no Àwosùn Dàra até o centro do Orún. Lá, se ajuntou aos seus seguidores e sem demora foi para a morada de Ifá, para pedir conselhos a Orunmilá, o Grande Oluwò, O Senhor da Sabedoria e do Destino.
    Ainda no centro do Orún, Obàtálá deu uma volta ao redor de si mesmo, a fim de observar toda a circunferência do primeiro reino. E um sentimento estranho que ainda nenhum ser criado sentira apossou-se dele.
    Obàtálá começou a sentir uma grande satisfação pela sua capacidade de realização, e um sentimento elevado de dignidade pessoal, que logo se transformou em um senso de superioridade sobre os demais seres do Orún, levando-o a pensamentos de ostensivas arrogâncias, de modo que ele mesmo se colocou no centro do universo e da criação, em pretensões de superioridade aos demais. Por se achar digno de ser o único Imolè incumbido para criar o novo reino, o Àiyé…
    Esse sentimento é o que nós conhecemos como: o ORGULHO, a SOBERBA, a VAIDADE, a OSTENTAÇÃO de si mesmo, e tudo o que resume a manifestação do EGOÍSMO.
    Obàtálá, centrado em si mesmo, disse aos seus seguidores, os outros Imolès:
    — Como é grande a missão que o mais Alto dos altos me confiou. Isso comprova o meu grande poder, a fim de mostrar a todos a minha grandeza e a minha glória. De agora em diante serei conhecido como Òrínsànlá. — que quer dizer o “O Grande entre Todos os seres do Criador”.
    E todos os seus seguidores o reverenciaram, e juntos partiram para a morada de Ifá…
    Ao chegar à morada de Ifá. Obàtálá, que agora se chamava Òrínsànlá, pensava consigo mesmo: “Por que Eu, Òrínsànlá, filho unigênito de Olódùmarè, tenho que pedir conselhos a Orunmilá?”.
    Mas logo percebera que precisava de instruções, até porque ele mesmo não sabia onde e como criaria o Àiyé. E o que deveria fazer com o saco da existência, o àpò-iwà, que continha o elemento primordial da criação.
    Então, só por conveniência e interesse próprio, Òrínsànlá fora pedir conselhos a Orunmilá.
    Nos portões da morada de Ifá, Òrínsànlá arrogantemente falou ao porteiro:
    — Vá e diga a Orunmilá que eu, Òrínsànlá, o primeiro entre todos os Imolès Funfuns e toda a criação, o unigênito de Olódùmarè, pelo qual recebi do mais Alto dos altos a incumbência de criar o novo reino, desejo-lhe falar.
    Apressadamente, o porteiro da morada de Ifá foi ao encontro de Orunmilá. E, antes que ele pudesse abrir a boca para falar, Orunmilá lhe disse:
    — Diga a este, que eu não conheço nenhum Imolè de nome Òrínsànlá.
    O porteiro foi e disse a Òrínsànlá o que lhe foi dito. E Òrínsànlá disse ao porteiro:
    — Vá e fale a Orunmilá que Obàtálá, que agora se chama Òrínsànlá, é quem aqui está.
    E, antes que o porteiro pudesse virar-se e ir, Orunmilá lá estava. E disse:
    — Entre, Obàtálá, que agora pelo seu próprio poder se chama Òrínsànlá, tenho conselhos a te dar. Para que sejas vitorioso na empreitada que Olódùmarè te confiou.
    Òrínsànlá e os seus seguidores entraram na morada de Ifá. E Orunmilá lhe falou:
    — Vejo um grande cajado que estava em pé diante do mais Alto dos altos cair. Mas que, ao cair, pequenos brotos surgiram de sua cana, e tornou-se um grande arbusto. E muitos animais rastejantes, como também insetos e pequenas aves dos céus fizeram morada nele. E uma fonte de águas borbulhantes ali brotou, e dela jorrou um grande rio. E no lugar onde esse arbusto floresceu surgiu uma grande floresta. E um jardim foi posto ali, donde proveio toda a vida animada e inanimada, inteligente e de instinto que há de existir na face da terra.
    — Do que você está falando? — Perguntou Òrínsànlá.
    — De você, filho de Olódùmarè. — Respondeu Orunmilá.
    — Não posso perder tempo com suas parábolas, Ó Grande Oluwò. Vamos, me fale o que eu tenho que fazer para criar o novo reino. — Disse Òrínsànlá.
    — “Owe ni Ifá Ipa òmòràn ni ímò ó”, Ifá fala sempre por parábolas e sábio é aquele que sabe entendê-las. Vamos ver o que o oráculo tem a falar. — Disse Orunmilá.
    E, jogando para o alto os seus dezesseis búzios, os Odus, quinze dos dezesseis deles caíram no chão e apenas um flutuou. O primeiro Odu de nome Ejiogbe. E falou Orunmilá:
    — Eis que você será testado e passará por uma grande dificuldade em sua jornada, pois assim Olódùmarè, o Deus Supremo, determinou. Você deverá ir até a fronteira dos mundos no Òrun Àkàsò. Para que alcance o lugar determinado por Olódùmarè, em que você criará o Àiyé. Lá você encontrará um grande pilar, o Òpó-Òrun-oún-Àiyé. É lá que você deverá realizar esse grande trabalho. Aconselho-te que leve consigo outro saco com alguns itens e elementos, para que sejas vitorioso em sua missão. Pois você sabe muito bem que o Òrun Àkàsò, o reino astral, tornou-se a prisão etérea do acusador dos nossos irmãos. Aquele disseminador de ofensas e pai de toda mentira, que fora banido do meio dos Imolès Funfuns. Você sabe muito bem de quem eu falo, o pai de toda desarmonia, Èsú’Yangí.
    E, tomando a palavra, Òrínsànlá disse:
    — Eu não temo Èsú’Yangí. E também não preciso de sua magia e dos seus itens e utensílios, Ó Grande Oluwò. Eu, Òrínsànlá, primogênito entre todos os Imolès Funfuns, filho unigênito de Olódùmarè, provarei para você que derrotarei aquele traidor, com o poder e a magia do meu òpá-sóró.
    — Mas o que eu tenho a lhe dar, Òrínsànlá, será de grande valia para que sejas bem-sucedido em sua missão. — Disse Orunmilá.
    — Você, Ó Grande Sacerdote de Ifá, já me deu o bastante para o sucesso da minha missão. A localização exata para eu realizar o trabalho. A respeito de Èsú’Yangí, cuido eu. — E Òrínsànlá, falando isso, retirou-se da morada de Ifá.
    Orunmilá, avistando Òrínsànlá partir, disse consigo mesmo: “Eis que este caminha para o seu próprio fracasso. Pois rejeitou os conselhos de quem tem algo a lhe acrescentar. O seu orgulho o cegou, e eis que caminha em direção ao precipício. A sua grande loucura o levará à cova”.
    Orunmilá, sabendo que Òrínsànlá fracassaria em sua missão por não ouvir os seus conselhos, mandou os seus seguidores chamar Odùduwà. Pois Orunmilá acreditava que se Odùduwà fosse falar com Òrínsànlá, talvez ele pudesse corrigir o seu erro e seguir os conselhos do grande oráculo de Ifá.
    Odùduwà sem demora partiu com os seguidores de Orunmilá para a morada de Ifá. Chegando lá, Orunmilá lhe disse:
    — Odùduwà, a cabaça de onde Olódùmarè jorrou a vida, você será a Grande Mãe da existência material, e os novos seres que lá viverem te chamarão de MÃE NATUREZA. Eis que Obàtálá, que por amor a si próprio agora se chama Òrínsànlá, está prestes a tropeçar pelos seus próprios pés. Pois rejeitou os conselhos de Ifá, e daquele que tem sabedoria de lhe instruir. Peço-te, pelo amor que você tem por ele, que vá e o ajude. Para que ele possa se proteger de si mesmo e, assim, possa se desviar do caminho do precipício. Mas, se ele não te ouvir, e fracassar na sua missão, então você deverá realizar a Grande Obra do mais Alto dos altos. Pegue este saco, que contém um camaleão, cinco galinhas das que têm cinco dedos em cada pé, cinco pombas brancas e uma corrente de dois mil elos. Vá e siga Òrínsànlá às espreitas. Ele te conduzirá ao local exato para realizar a Grande Obra.
    E Orunmilá, pegando os seus dezesseis Odus, os jogou para o alto, e o segundo búzio, Oyeku Meji, que é a contraparte de Ejiogbe flutuou. Orunmilá então disse:
    — O mesmo que vem contra Òrínsànlá virá contra você. Mas, ao contrário do que acontecerá com Òrínsànlá, você obterá a vitória contra o acusador dos nossos irmãos. Ele tentará você para que tropece no caminho, você necessitará de ajuda, e no momento certo ela virá. Também não se preocupe de como você deverá realizar a Grande Obra. Ouça o seu coração e vai entender, pois toda inspiração vem do ouvir o coração…
    Odùduwà, retirando-se da morada de Ifá, convocou os outros Imolès Funfuns e partiu ao encontro da comitiva de Òrínsànlá. Alcançando-os no Òna Òrun, a via que dava acesso para o Òrun Àkàsò. E Odùduwà disse a Òrínsànlá:
    — Obàtálá, que por amor a si próprio agora se chama Òrínsànlá, viemos ao seu encontro para ajudá-lo em sua missão.
    — Odùduwà, Eteko, Akiré, Olúorogbo, Ògiyán, Olufan, Oko, Òkè, Lòwu, Ajagemo, Olúwofín, Pópó, Eguin, Jayé, Olóbà, Obaníjìta, Alajere, Olójó, Oníkì, Onírinjà, Àrówú, Ko e os demais Imolès Funfuns. Fico feliz em saber que vocês estarão comigo, me assistindo na criação do novo reino. Pois a mim foi confiada a honra, o poder e toda glória de criar o novo reino. Para isso terei que combater o meu maior inimigo e o malfeitor de todos os Imolès, que com ajuda de vocês serei vencedor. — Disse Òrínsànlá aos Imolès Funfuns.
    E Odùduwà lhe disse:
    — O poder, a honra e a glória não vêm de ti, Ó Grande Imolè, ela vem do mais Alto dos altos. E você rejeitou os conselhos provindos do grande oráculo. Viemos aqui para ajudar você a combater o seu maior inimigo, que pelo que vemos não é Èsú’Yangí, e sim você mesmo. Ouça o nosso conselho e siga as instruções de Ifá.
    — Eu, o Grande e o Primeiro Imolè, Òrínsànlá, a quem o mais Alto dos altos deu a missão de realizar a sua Grande Obra, tenho que ouvir os seus insultos. Saiam diante de mim, porque tenho um grande trabalho a realizar.
    Dizendo isso à comitiva dos Imolès Funfuns, Òrínsànlá virou-se e, sem demora, seguiu seu rumo em direção ao Òrun Àkàsò.
    Odùduwà e os outros Imolès Funfuns observaram a comitiva de Òrínsànlá partir. E Odùduwà disse aos demais:
    — O oráculo me falou que Òrínsànlá não vai ter sucesso nessa empreitada. Vamos segui-los às escondidas e vejamos o que acontecerá.
    Chegando aos portões do Òrun Àkàsò. Que é a faixa etérea, sendo o reino astral entre o Orún e o Òpó-Òrun-oún-Àiyé, delimitando o primeiro reino e o caos, Òrínsànlá, com sua impetuosidade, deu ordem aos seus súditos que abrissem os portões. Mas logo sem demora Èsú’Yangí, o banido que se tornará o porteiro e guardião das fronteiras dos mundos, surgiu e falou:
    — Quem ousa abrir os portões do Òrun Àkàsò sem me pedir permissão e me trazer oferendas.
    — Desde quando Eu, o filho unigênito de Olódùmarè, o Primeiro entre os primeiros, tenho que pedir permissão a um velho Imolè banido e traidor? — Disse Òrínsànlá.
    — Obàtálá, por sua causa vim eu a morar aqui neste ermo. E ainda você tem a coragem de vir aqui me desafiar? Saiba que o Òrun Àkàsò é o meu reino, e só eu decido quem entra e quem sai. E ninguém pode aqui entrar sem me render homenagens. — Disse Èsú’Yangí.
    — Saia da minha frente, seu traidor, ou eu, Òrínsànlá, te farei desaparecer com o poder do meu òpá-sóró. — Disse Òrínsànlá severamente.
    — Pois bem. Que seja feita a sua vontade, Ó Òrínsànlá. Pois não precisarei guerrear contigo, nessa batalha eu já sou vencedor. Pois o mal que agora há em ti é a brecha que eu tanto esperava, para que eu possa habitar finalmente em tua morada. — Èsú’Yangí, dizendo isso, deu uma sinistra gargalhada e sumiu diante da vista de todos.
    E assim Obàtálá, que por amor a si mesmo se fez Òrínsànlá, abriu sem permissão os portões do Òrun Àkàsò e seguiu caminho adentro.
    E, assim, desprezou as ordens de Olódùmarè, recusando os conselhos do oráculo de Ifá e repudiando Èsú’Yangí, que agora o dominara.
    Èsú’Yangí, olhando para o alto, falou, com o intuito que Olódùmarè ouvisse:
    — Aí está, Ó Grande Olórùm, o seu filho amado pelo qual Tu tanto te orgulhas. Desprezando e rejeitando as suas leis e mandamentos. Que diferença tem este de mim, Ó Grande Olódùm. Sei que, como conheces tudo e sabe do destino de todas as coisas, sabíeis Vós que isso viria a acontecer, e que seu protegido fracassaria. Se encontrando ele agora nos meus domínios e sob as minhas regras. Diga-me, Ó Grande Oló, o que eu devo fazer com ele. Pois bem sei eu que Tu o amas. E de que nada posso fazer com este sem que Tu o permitas.
    E uma forte voz, como de uma trombeta, potente como um trovão, vindo do mais Alto dos altos, falou:
    — ACUSADOR. SEI QUEM É VOCÊ, E SEI QUEM É O SEU IRMÃO. VOCÊ PECA CONTRA MIM, PORQUE SABE MUITO BEM O QUE FAZ A TODO O MOMENTO, E POR QUE O FAZ. JÁ O SEU IRMÃO APENAS FALHA CONTRA MIM, POIS ELE NÃO SABE O QUE ESTÁ FAZENDO. POR IMATURIDADE ELE FAZ ESSAS COISAS, E POR ISSO AQUI ESTOU PARA CORRIGI-LO. MAS VOCÊ, Ó ASTUTO, FAZ TODAS AS SUAS MALDADES COM A MAIS PLENA CONSCIÊNCIA, E CÁLCULO, E MAQUINAÇÕES. ESTA É A GRANDE DIFERENÇA ENTRE TI E O TEU IRMÃO. FUI EU QUE O ENTREGUEI EM SUAS MÃOS. APENAS NÃO O DANIFIQUE, MAS FAÇA COM ELE DE ACORDO COM O SEU BEL-PRAZER, PARA QUE SE ACUMULE A SUA MALDADE E PECADO. E NO DIA DA MINHA IRA EU POSSA COBRÁ-LA DE TI. — E, depois que a Voz do mais Alto dos altos falou isso, houve um grande silêncio e calmaria.
    Èsú’Yangí, sabendo que Òrínsànlá estava sob o seu domínio, apressou-se em lhe fazer o mal. Então, Èsú’Yangí estendeu o seu cajado de três pontas, em que cada ponta continha um crânio de bode com chifres envergados. E dos crânios de bode saíram uma tenebrosa fumaça preta, que seguiu ao passo de Òrínsànlá.
    De repente, ao redor da comitiva do Grande Imolè Funfun, surgiu uma névoa tenebrosa e assustadora. Que por um instante foi inalada por Òrínsànlá.
    Ao inalar aquela fumaça preta, Òrínsànlá ficou completamente desorientado no Òrun Àkàsò, que logo se transformara num sombrio deserto de areias, pedras e grandes rochas.
    Òrínsànlá e seus seguidores caminharam arduamente por longos tempos, que pareciam eternidades. Então, pararam para descansar debaixo de uma grande palmeira, o Igí-òpe.
    Ao observar aquela grande árvore, Òrínsànlá e seus seguidores ficaram abismados. Pois nunca vira algo assim parecido no Orún.
    Curioso, Òrínsànlá pegou o seu òpá-sóró e cravou a sua base dentro da grande palmeira. Então, uma seiva jorrou de dentro do seu tronco, o emun. E, vendo aquele sumo, o emun, ser derramado, um encanto saiu do Igí-òpe e dominou Òrínsànlá.
    De repente uma sensação desconfortante de insatisfação, iniciada por estímulos originados dentro de Òrínsànlá, o dominou. Uma sensação horrível que jamais nenhum outro Imolè sentira antes.
    Òrínsànlá desejava fortemente pôr algo dentro dele. Algo que faltava e que ele não sabia o que era. Algo que o deixava irritado e desesperado por não o ter. Essa sensação é o que conhecemos como SEDE. Òrínsànlá estava sedento.
    Òrínsànlá, ao ver o emun derramando pelo tronco do Igí-òpe, sentiu-se fortemente atraído, necessitado e desejoso do líquido. Naquele momento e naquela situação era o que ele mais queria.
    Então, ele jogou todas as coisas que carregava para fora de si. Como o seu manto, o seu cajado e também o saco da criação, que continha o àpò-iwà. E, correndo desesperadamente, debruçou-se embaixo da grande palmeira e começou a beber freneticamente todo o suco que escorrera dela.
    Porém, o que Òrínsànlá não sabia é que o emun é um sumo fermentado contido no tronco do Igí-òpe, com um alto teor alcoólico.
    Saciando sua sede, Òrínsànlá apresentou um comportamento inquieto, estava excitado e falante como um macaco. Mas ainda consciente dos seus atos e palavras, falando aos seus seguidores eloquentemente, atingindo níveis elevados de persuasão, como jamais eles o ouviram antes.
    Mas, passado um determinado tempo, Òrínsànlá tornava-se mais confuso, e como um leão ficara nocivo e voluntarioso, agindo irrefletida e violentamente. Fazendo com que os seus seguidores tomassem certa distância.
    E logo mais lá estava Òrínsànlá como um porco, completamente atirado ao chão, molhado pelo emun, que fizera uma poça no solo.
    Òrínsànlá estava em estado de sono profundo, caído ali debaixo do Igí-òpe, descuidado. Jamais nenhum Imolè sentira isso, que é o que conhecemos como a EMBRIAGUEZ.
    Os outros Imolès, seus seguidores, vendo aquele estado de Òrínsànlá. Ficaram assustados e perplexos diante de tais acontecimentos e transformações. Nunca viram aquilo antes e nada entendiam.
    Então, temerosamente se aproximaram com muito cuidado do corpo do seu mestre estendido ao chão. E começaram a observá-lo por longos tempos, e viam que nada acontecia. Pois os Imolès não têm a necessidade do sono, nem um período de repouso para o corpo e a mente, como nós seres humanos. Sendo este estado experimentado pela primeira vez por Òrínsànlá.
    Enquanto os seguidores de Òrínsànlá o observavam. Formou-se no meio deles um pequeno redemoinho de fumaça acinzentada, que evoluiu e logo se transformou em um corpo enegrecido, dando forma a Èsú’Yangí. Este rapidamente pegou o saco da existência, que continha o àpò-iwà, e da mesma forma que surgiu desapareceu.
    Èsú’Yangí mais uma vez elevou sua voz ao mais Alto dos altos, atestando:
    — Ó Grande e Poderoso Oló, aqui está o àpò-iwà, comprovando a falha do teu amado filho na missão que tu o deste.
    E uma grande voz veio do mais Alto dos altos, dizendo:
    — DEPOSITA O CONTEÚDO DO SACO EM UMA DE SUAS CABAÇAS QUE TRAZ NA CINTURA. SELA-O, E ENTREGUE A CABAÇA A QUEM PRIMEIRO TE PEDIR PERMISSÃO PARA ENTRAR.
    E assim Èsú’Yangí o fez, se posicionando nos portões das fronteiras dos mundos.
    Ainda na via Òna Òrun que dava acesso ao Òrun Àkàsò, Odùduwà e os outros Imolès Funfuns aguardavam um sinal do fracasso de Òrínsànlá em sua missão. Quando, de repente, eles avistaram ao longe um ser de aparência franzina e de pele enrugada, cabelos cinza e andar descompassado. Este ser de aparência estranha, estava caminhando como se viesse do Òrun Àkàsò. E, aproximando-se da comitiva dos Imolès Funfuns, este ser de aparência estranha os cumprimentou, e disse:
    — Saudações, grandes Imolès, eu sou Olónan, o senhor dos caminhos. Não se assustem com a minha forma decadente. Venho aqui a mando de Olódùmarè, para lhes dizer que Òrínsànlá falhou em sua missão. Prossigam até o Òrun Àkàsò e levem os presentes ao porteiro, e sereis bem-sucedidos.
    Falando isso, o velho prosseguiu caminhando e desapareceu. Entretanto, o que os Imolès Funfuns não sabiam é que aquele ser estranho era Èsú’Yangí empossado.
    Chegando aos portões das fronteiras dos mundos, o Òrun Àkàsò, Odùduwà, que carregava o saco das oferendas, que contém um camaleão, cinco galinhas das que têm cinco dedos em cada pé, cinco pombas brancas e uma corrente de dois mil elos, apressou-se na frente dos outros Imolès Funfuns, e disse em alta voz:
    — Porteiro! Peço permissão para passar. Eu e meus irmãos Funfuns.
    — Ninguém pode entrar no meu reino sem primeiro me render oferendas. — Disse o Porteiro.
    — Aqui estão as suas oferendas. — Falando isso, Odùduwà deixou o saco com as oferendas que Orunmilá lhe deu aos pés do portão, e se afastou.
    O Porteiro se aproximou, pegou o saco com as oferendas e, abrindo-o, viu os presentes que lhe foram ofertados. E disse:
    — Odùduwà, se aproxime. — Odùduwà foi até o Porteiro, e este lhe disse. — Dá-me o teu braço. — Odùduwà estendeu o seu braço e o Porteiro retirou do saco a corrente de dois mil elos. E, retirando um dos elos, colocou em seu pulso, e disse. — Faço isso como um sinal eterno, comprovando que você obteve a graça de realizar a Grande Obra. — Depois o Porteiro lhe deu o restante da corrente, e ainda uma galinha das que têm cinco dedos em cada pé, um pombo e o camaleão, e lhe disse:
    — Tome isso, pois eu costumo agradar àqueles que me agradam e menosprezo aqueles que me menosprezam. Aqui, também, está a cabaça contendo o àpò-iwà. Todos esses utensílios que lhe dei serão importantes para a boa conclusão do seu trabalho. Entre e prossiga na sua jornada.
    Os portões do Òrun Àkàsò se abriram, e Odùduwà, junto aos demais Imolès Funfuns, entraram e prosseguiram em direção ao grande pilar, que ficava nas bordas das fronteiras dos mundos, o Òpó-Òrun-oún-Àiyé.
    Entretanto, como estava previsto pelo oráculo de Ifá, Èsú’Yangí não deixaria Odùduwà passar livremente pela sua morada sem lhe fazer passar por dificuldades e provações.
    Quando a comitiva dos Imolès Funfuns prosseguia pelo grande caminho reto, este se bifurcou logo mais à frente. Sendo que um dos caminhos estava iluminado por uma cor vermelha, e o outro estava iluminado por uma cor azul. E na encruzilhada dos dois caminhos estava ali bem no meio um ser de forma feminina vestida com uma grande túnica púrpura de um vermelho escarlate. E, quando a comitiva dos Funfuns se aproximou, Odùduwà, então, disse:
    — Quem é você?
    — Não está me reconhecendo. Nos encontramos na via Òna Òrun. Sou eu, Olónan, o senhor dos caminhos quem vos fala.
    — Mas você está diferente, como pode isso ser assim. — Disse Odùduwà.
    — Posso ser o que quero, e ter a forma de qualquer coisa que penso ou desejo. — Disse Olónan.
    — Você, que é o senhor dos caminhos, pode me ajudar a escolher o caminho certo para chegar no Òpó-Òrun-oún-Àiyé? — Falou Odùduwà.
    — Um caminho é o caminho da verdade, e lá se encontra o Òpó-Òrun-oún-Àiyé, que pode ser o vermelho ou o azul. E o outro caminho é o caminho da mentira. E lá nada se encontra. E esse caminho também pode ser o azul ou o vermelho. Sendo que eu provim de um dos dois caminhos. O enigma é: se eu vim do caminho da verdade, eu te falarei apenas a verdade, e lhe direi qual o caminho certo a tomar. Mas, se eu vim do caminho da mentira, eu te falarei apenas a mentira, sendo que te conduzirei ao caminho errado, onde as trevas os aguardam. Você só pode me fazer apenas uma pergunta. Caso você acerte, saberá qual o caminho certo a tomar para chegar ao Òpó-Òrun-oún-Àiyé. Se errar, você e seus irmãos ficarão presos para sempre nas trevas, e atormentados pela escuridão. — Disse assim Olónan.
    Diante daquele enigma, Odùduwà e os demais Imolès Funfuns sabiam que Olónan verdadeiramente era Èsú’Yangí disfarçado.
    Então, eles se reuniram para debater o assunto, e logo chegaram a uma conclusão. Sendo que Oko, um dos Funfuns de grande sabedoria, que conhecia e manipulava bem as palavras e seus enigmas, disse aos demais:
    — Irmãos, agora ouçam com atenção, a chave para essa questão é muito simples. A pergunta correta a se fazer é… (e cochichou bem baixinho para todos). Pois, se Olónan proveio do caminho da mentira, e este for mentiroso, e falar que o caminho é azul, então, saberemos que o caminho azul é o verdadeiro. Pois ele estará mentindo, porque ele veio do caminho vermelho. E se por acaso ele veio do caminho da verdade, e, deste modo, for verdadeiro, e nos falar que o caminho é azul, é este o caminho correto! Porque ele veio do caminho azul. E essa regra vale também se ele disser que o caminho é vermelho. Aí então, saberemos que o caminho azul é o falso caminho, e neste caso o caminho vermelho é o verdadeiro caminho. Portanto, amados irmãos, independentemente do que ele diga, sendo verdade ou mentira. A verdade sempre prevalecerá!
    A maioria dos Imolès Funfuns estando de acordo, e outros ainda em dúvida, não entendendo a explicação de Oko, decidiram então fazer como ouviram, e Odùduwà adiantou-se, e disse a Olónan:
    — Não adianta se esconder em disfarces, ó acusador e traidor dos nossos irmãos. Bem sei quem és, ó enganador.
    Olónan, quando viu o seu disfarce cair, tomou a sua originária forma de Èsú’Yangí, e disse:
    — Odùduwà, como eu te amava. Mas agora você e seus irmãos serão os meus prisioneiros para sempre. Pois quem é sábio o bastante para decifrar os meus enigmas? E, mesmo que consigas desvendá-lo, passarás aqui uma eternidade de ciclos, até a destruição total do Orún. — E, dando uma grande e sinistra gargalhada, calou-se.
    — Acusador e traidor dos nossos irmãos, eis aqui a minha pergunta: qual a cor do caminho de onde você veio? — Disse Odùduwà, respondendo ao enigma.
    Èsú’Yangí, vendo que Odùduwà perguntou sabiamente, sendo que a verdade prevaleceria não importando qual cor ele desse como resposta, e assim, tendo sido decifrado inteligentemente o seu enigma, viu-se encurralado na pergunta, e derrotado desapareceu como fumaça no ar.
    Então, o caminho, que antes era bifurcado, converteu-se em uma reluzente estrada dourada, de brilho tão intenso, que, quando os Funfuns pisavam nela, seus pés desapareciam submersos em tamanha luminosidade.
    A comitiva dos Imolès Funfuns, liderada por Odùduwà, avistou ao longe um monólito na figura de um obelisco, constituído de um pilar de pedra única em forma quadrangular alongada e sutil, que se afunila ligeiramente em direção a sua parte mais alta, formando uma pequena pirâmide em sua ponta.
    Era o Òpó-Òrun-oún-Àiyé
    Chegando no Òpó-Òrun-oún-Àiyé, Odùduwà falou aos seus irmãos Funfuns:
    — Eis aqui o lugar exato onde iniciaremos o nosso grande trabalho de criar o novo reino.
    Mas o que agora incomodava Odùduwà era o fato de não saber como fazer esse grande trabalho. Pois Odùduwà continha em suas mãos todos os elementos para a Grande Obra, mas faltava a explicação exata para realizá-la.
    Então Odùduwà meditou e recordou-se das palavras de Orunmilá, o sacerdote de Ifá, que dizia: “Escute o seu coração e vai entender”.
    Odùduwà fechando os seus olhos, centrou-se em si mesma, buscando o mais profundo do seu íntimo, até alcançar as vias que levam ao coração. E, ainda meditando, perguntou aos seus irmãos quais eram os elementos que continham o saco para a realização da Grande Obra. E os Funfuns responderam:
    — Temos a corrente e ainda uma galinha, um pombo e o camaleão. E a cabaça contendo o elemento primordial, o àpò-iwà.
    Odùduwà, vendo um dos elos da corrente preso em seu pulso, disse:
    — Dá-me a corrente.
    E, pegando-a, prendeu uma das pontas no elo do seu pulso. E a outra ponta prendeu no grande pilar, o Òpó-Òrun-oún-Àiyé.
    Então, pegou o saco com o restante dos conteúdos e pulou para o caos. Ficando pendurada pela corrente, em meio ao nada, Odùduwà assim pensou: “Lançarei primeiro nesta vastidão o elemento primordial, que foi dado pelo mais Alto dos altos”.
    Odùduwà retirou a cabaça que continha o àpò-iwà, que estava dentro do saco. E, quebrando-a com uma das mãos que se encontrava livre, fez com que o seu conteúdo caísse sobre o vazio do nada, que escorregava leve e lentamente pelos seus dedos.
    Esse conteúdo, o àpò-iwà, é o que conhecemos hoje como as minúsculas pedras que formam os grãos de areia. O que chamamos de TERRA.
    O àpò-iwà, ao cair, formou uma base flutuante sobre a vastidão do nada, e continuou se estendendo até formar uma grande montanha. Odùduwà, vendo aquela montanha, sentiu a necessidade de jogar a galinha.
    E, lançando-a sobre a montanha recém-formada, a galinha de cinco dedos em cada pé começou a ciscar e espalhar a terra ao redor. Deixando somente uma grande elevação de terra no centro, formando uma grande montanha plana.
    Odùduwà, vendo o que a galinha fizera à terra, sentiu a necessidade de descer. Mas, temendo que a terra não fosse firme, jogou sobre ela o cameleão.
    O camaleão, ao cair sobre a terra, começou a andar lentamente e suas pisadas pilavam a terra fofa, as tornando mais condensadas e firmes. Sendo que em alguns lugares a terra descia extremamente, em quanto em outros lugares a terra se mantinha firme, formando grandes buracos e ecos na terra, junto a grandes platôs.
    Vendo que a terra era realmente firme, Odùduwà largou-se da corrente e saltou caindo com um dos pés sobre a terra recém-criada. E assim Odùduwà pisou no novo reino, deixando sobre a terra a sua primeira pegada, que até hoje existe na nossa Terra-Mãe África. O nome dessa primeira pegada deste ser alado gigante é Esè-Ntaiyé-Odùduwà.
    Quando os Imolès Funfuns viram Odùduwà caminhar sobre a terra, que era o segundo reino recém-criado, ficaram maravilhados. Então, choraram de grande emoção. E de lá de cima das bordas do Orún as suas lágrimas preencheram e nutriram toda a terra, dando origem às chuvas. E as águas ocuparam os grandes buracos formados pelas pegadas do camaleão, o que veio originar os grandes oceanos de hoje.
    Odùduwà, então, retirou do saco das oferendas a pomba. E, como um sinal de agradecimento pela maravilha da criação, lançou-a no ar em reverência ao mais Alto dos altos. A pomba, ao voar batendo as suas asas, lançou sobre a terra o vento e espalhou as águas. E sobre a terra formaram-se as lagoas e os lagos. Dando origem aos berços dos vales com seus planaltos e planícies.
    E por detrás do grande monte uma forte luz raiou, subindo lentamente, e clareando pela primeira vez o segundo reino. Era Olódùmarè em sua nave em forma de disco de fogo, e assim o mais Luminoso dos luminosos disse:
    EU SOU!
    E da terra começaram a brotar ervas diversificadas. E a vida se expandiu sobre a terra. E, assim como fizera no primeiro dia, todos os dias Olódùmarè visita a sua criação em seu disco de fogo, dando voltas em toda a Terra e depois partindo para sua morada, o Àwosùn Dàra.
    E Odùduwà concluiu a Grande Obra e criou o novo reino.
    Assim, pelo sucesso do seu trabalho, Olódùmarè deu a Odùduwà o título de Olófin. Que significa “O Senhor do Palácio”, por assim criar o novo mundo. Assim Olófin Odùduwà criou o novo reino em lugar de Obàtálá…
    Nesse ínterim, enquanto Olófin Odùduwà e os outros Funfuns contemplavam a criação do novo reino. Obàtálá, que por amor a si próprio se fez Òrínsànlá, despertou do seu sono profundo.
    Quando retornou a si, atordoado e ainda muito confuso, rapidamente levantou-se, vendo os seus seguidores o cercando. E, não se lembrando de muita coisa, perguntou a eles o que lhe se sucedeu. Então, os seus seguidores começaram a lhe relatar todo o acontecido depois que ele bebeu o néctar da palmeira.
    Nisso, enquanto os seus seguidores ainda falavam. Òrínsànlá foi com a mão em sua cintura para pegar o àpò-iwà, e logo percebeu que o saco não se encontrava mais ali. E de súbito perguntou aos seus seguidores:
    — Cadê o saco com o elemento da criação que o mais Alto dos altos me deu?
    Os seus seguidores, então, contaram tudo o que lhe sucedera depois do sono.
    Rapidamente, Òrínsànlá, junto aos seus seguidores, foi ao local indicado por Orunmilá, onde se deveria criar o novo reino, o Òpó-Òrun-oún-Àiyé.
    Chegando lá, e para sua maior dor, Òrínsànlá teve uma visão surpreendente do novo reino criado. E ali mesmo, segurando a grande pilastra, Òrínsànlá sentiu pela primeira vez um complexo de sentimentos que ainda nunca foram sentidos na criação.
    Uma dor profunda do âmago do seu íntimo o dominou, sentiu-se tão fraco que não mais conseguia erguer-se em seus pés, senão ficar de joelhos. Seus olhos se fecharam por não poder olhar mais os seus seguidores, pois diante deles se sentia fracassado. Lembrara-se de todas as coisas que fizera de errado, principalmente por não ouvir os conselhos do oráculo. E as recordações das palavras de Orunmilá e Odùduwà eram-lhe como estacas cravadas em seu coração.
    Essa dor era tão forte, que o sufocava gravemente.
    Òrínsànlá, que antes se sentira o maior entre todos os seres criados, agora se sentiu o pior entre todos os seres da criação.
    A maior das dores ainda estava por vir, era a de encarar Olódùmarè. Pois fracassara na missão que o mais Alto dos altos lhe confiou, e pela qual tanto se orgulhava.
    Ali mesmo, aos pés do Òpó-Òrun-oún-Àiyé, Òrínsànlá sentiu a vontade de querer desaparecer. Depois que experimentara o sono desejou nunca acordar, quem dera antes tivera dormido para sempre, e de ir embora, e nunca mais voltar.
    Um vazio imenso o dominara. Um desespero o cobrira. Uma impotência. Uma inutilidade de si mesmo o despira. Sentiu-se pela primeira vez numa dor interna tão forte e agonizante. E, em todos esses complexos sentimentos que deram origem ao que hoje conhecemos como a CULPA, a VERGONHA, a TRISTEZA, a MELANCOLIA, o ARREPENDIMENTO, o FRACASSO e todos esses demais sentimentos derivados da DERROTA, que afligem a alma dos seres pensantes e dominantes sobre esta terra.
    Rasgando suas vestimentas e depois caído ao solo, Òrínsànlá, sussurrando dolorosamente, disse aos seus seguidores:
    — Por favor, eu já não tenho mais forças para caminhar, me levem ao centro do Orún. Depois me deixem lá e vão procurar outro mestre, pois eu já não sou mais digno desse título.
    Seus seguidores, vendo o estado do seu senhor, entristeceram-se e fizeram tudo quanto este o pediu. Carregaram-no e caminharam em direção aos portões que davam acesso ao Orún.
    Ao se aproximarem dos portões, o Porteiro lá estava, e este começou a caçoar de Òrínsànlá, dizendo:
    — Ora, ora! Eis aí o mais poderoso entre todos os Imolès da criação. Pelo que vejo, já não tem mais esse poder todo que dizia. Diante dos meus olhos aí está um fracassado… Hahahahaha… Também tu serás banido, seu derrotado, assim como eu por sua causa, também fui.
    Òrínsànlá, diante das palavras de Èsú’Yangí, nem se abalou, pois tudo já perdera sentido diante dos seus olhos. Então, atravessaram os portões e foram até o centro do Orún, e os seus seguidores o deixaram ali como ele mesmo pedira.
    Quando Òrínsànlá viu que se encontrava só no centro do Orún, ajoelhou-se e olhando para o alto rogou:
    — Grande Oló, o mais Alto dos altos, o mais Belo entre os belos em que toda beleza se faz. Os mistérios e os segredos que a tudo embeleza se fazem em tua manifestação. Força dos fortes. Poderoso és Tu. Grande Presença que a tudo preenche e que movimenta, dançando em todas as coisas. Matriz de todos os sentidos e de todas as cores. Fonte luminosa que a tudo incendeia, encandeia e floresce. Grande e Magnífico Espírito de Santidade Infinita! Ouve os meus gemidos de dor e de angústia. Não te escondas de mim, porque estou aflito. Venha a mim, e que eu possa ascender a sua morada. Tive raiva daqueles que me aconselharam. Não ouvindo os que tinham sabedoria a me acrescentar, e eis-me aqui, fracassado e caído em desgraças. Sinto uma dor tão profunda, como se estivesse queimando em chamas por dentro. Já não sou mais digno, Ó Grande Oló, do sopro de vida que me deste. Leve esta vida de mim, e apaga essa chama que alumia, pois, o peso que carrego me enfraqueceu, e não tenho mais olhos para olhar mais nada e nem ninguém.
    Sem que Òrínsànlá percebesse, enquanto ainda suplicava, Olódùmarè o levou ao Àwosùn Dàra, a Morada dos Justos. Òrínsànlá ainda se encontrava de joelhos com o rosto prostrado ao solo, quando o mais Alto dos altos falou:
    — OBÀTÁLÁ, MEU FILHO, ERGA-SE E LEVANTE!
    Òrínsànlá, ouvindo a voz do mais Alto dos altos, e percebendo que se encontrava no Àwosùn Dàra, continuou de joelhos, e disse:
    — Grande Oló e meu Pai-Mãe Amado, não sou mais digno de tua Grande Presença, pois falhei na missão que me deste. Devo também ser banido como meu irmão Èsú’Yangí.
    — MEU FILHO, VOCÊ SABE QUE TE AMO, E VEJO QUE VOCÊ ESTÁ ARREPENDIDO. VOCÊ NADA TEM A VER COM SEU IRMÃO. LEVANTA-TE DEPRESSA, POIS TENHO OUTRA MISSÃO MUITO MAIS IMPORTANTE PARA TI. VOCÊ TEM AGORA O MEU PERDÃO.
    De repente, o ânimo de Òrínsànlá se restabeleceu. Então, ele se levantou e Olódùmarè continuou a lhe falar:
    — EIS QUE O NOVO REINO ESTÁ FORMADO, E AGORA EU SOU O SENHOR DO ÒRUN E DO ÀIYÉ. O QUE ERA PARA SER UM SÓ REINO AGORA É DOIS. E EIS O QUE ERA PARA SER UM SÓ SER, AGORA SERÃO DOIS. DOIS PRINCÍPIOS, DUAS SUBSTÂNCIAS E DUAS REALIDADES. EIS AGORA O CONHECIMENTO DO OPOSTO, DO DIFERENTE E DA DISCRIMINAÇÃO, E DO QUE SE FAZ REALIDADE, E DO QUE SE FAZ ILUSÃO. CONFUSÃO, E DETURPAÇÃO, E SUBORDINAÇÃO. SEPARAÇÃO E UNIÃO. VIDA E MORTE. NÃO E SIM. MACHO E FÊMEA. O ABSOLUTO E O VAZIO. AS TREVAS E A LUZ, E A LUZ E AS TREVAS. O CAIR E O LEVANTAR. EIS QUE AGORA O UNO SE FARÁ DUAL E NÃO MAIS ME VERÃO, QUANDO O DUAL SE FIZER UNO, EU ENTÃO RETORNAREI AO QUE VERDADEIRAMENTE EU SOU. E ME REVALAREI.
    — Das coisas que falou, Ó Grande Oló, eu nada entendi. — Disse Òrínsànlá…
    — AGORA, MEU FILHO, NADA ENTENDE. MAS LOGO ENTENDERÁ. AFINAL, VOCÊ TAMBÉM MUDOU. OU SERÁ QUE AINDA NÃO PERCEBEU?!
    Quando Òrínsànlá se olhou nos reflexos do palácio de cristais luminosos do Àwosùn Dàra, para seu espanto, viu que agora tinha duas cores. De um lado ele era branco, e de outro lado ele era negro, e disse:
    — Grande Oló, o que vem a ser isso?
    — UMA NOVA RAÇA BROTARÁ DE TI, E DENTRE ELA OUTRA RAÇA, E RAÇAS INTERMEDIÁRIAS TAMBÉM. PORQUE EU SOU O UM, E TAMBÉM O DOIS, E NISSO ME FAÇO TRÊS. POIS ENTRE UM E OUTRO, EU SOU A EXCEÇÃO. ESCUTE! AGORA TE DAREI UMA NOVA MISSÃO. OLÓFIN ODÙDUWÀ CRIOU O ÀIYÉ. E DOS TRÊS ANIMAIS ELEMENTARES, A SABER: A POMBA, A GALINHA DE CINCO DEDOS EM CADA PÉ E O CAMALEÃO, A VIDA ANIMAL SE DESENVOLVEU POR ADAPTAÇÃO. QUERO QUE VOCÊ CRIE OS SERES QUE HABITARÃO ESSE NOVO REINO, PARA DO ÀIYÉ SEREM SENHORES, REIS E DEUSES. ESSES SERES SE CHAMARÃO IGBÁ IMOLÈS. DESSA FORMA, MEUS PRIMEIROS SERES SÃO OS IMOLÈS FUNFUNS, DOS QUAIS VOCÊ FOI O PRIMEIRO, SENDO AQUELES DE COR E LUMINOSIDADE BRANCA. DEPOIS ACENDI MINHA LUZ ATRAVÉS DE SEUS CORPOS TRANSPARENTES, E FORMEI DE VOCÊS OS IRUN IMOLÈS, PARA LHES SERVIREM E LHES ALEGRAREM, QUE SÃO AQUELES DE CORES E LUMINOSIDADES MÚLTIPLAS E VARIADAS, E QUE DIVIDEM O ORÚN COM VOCÊS. AGORA QUERO QUE VOCÊ VÁ E CRIE OS IGBÁ IMOLÈS.
    — Grande Oló, como eu criarei esses seres, e qual elemento tu me darás para formá-los? — Perguntou Òrínsànlá.
    — DESTA VEZ NÃO TE DAREI MAIS ELEMENTOS. POIS VOCÊ PERDEU O ELEMENTO QUE TE DEI PARA A REALIZAÇÃO DA SUA PRIMEIRA MISSÃO, EM QUE VOCÊ FRACASSOU. E TAMBÉM, VOCÊ NÃO TERÁ MAIS CONSELHOS DOS SÁBIOS E DO ORÁCULO. POIS NEGLIGENCIOU AQUELES QUE TINHAM ALGO A LHE ACRESCENTAR. AGORA TODA AÇÃO TERÁ UMA REAÇÃO, E TODA CAUSA TERÁ UM EFEITO. VOCÊ COMERÁ AQUILO QUE COZINHOU, E COLHERÁ AQUILO QUE PLANTAR. VÊ, OBÀTÁLÁ, QUE TODAS AS COISAS COMEÇAM E TERMINAM EM VOCÊ. E TUDO QUE TE OCORREU OCORRERÁ NAQUELES QUE PROVÊM DE TI. VOCÊ SERÁ O ARQUÉTIPO DOS NOVOS SERES. E EM VOCÊ ELES ESPERARÃO E SE ESPELHARÃO. SAIBA TAMBÉM QUE O SEU OPOSTO, SERÁ TAMBÉM O OPOSITOR DELES. A ELES ENGANARÃO, SENDO QUE FARÁ DE TUDO PARA COLOCÁ-LOS CONTRA VOCÊ. ENTÃO, VOCÊ TERÁ QUE FAZER UMA ESCOLHA E DESCERÁ NO MEIO DELES, SE TORNANDO FRÁGIL E MORTAL COMO ELES, E SE SACRIFICARÁ PARA SALVÁ-LOS. E, MESMO ASSIM, MUITOS DELES TE REJEITARÃO, E NÃO MAIS TE RECONHECERÃO COMO O SEU CRIADOR E SALVADOR. VOCÊ SE LEVANTARÁ E ASCENDERÁ NOVAMENTE AO MAIS ALTO DOS ALTOS, E SE ASSENTARÁ COMIGO NO MEU TRONO, À MINHA DESTRA. E EXPULSARÁ O OPOSITOR DA EXTREMIDADE DO PRIMEIRO REINO, PRECIPITANDO-O NO ÀIYÉ. E QUANDO VOCÊ ESTIVER COMIGO, NÃO EXISTIRÁ MAIS NEM EU E NEM TU, POIS SEREMOS UM, SENDO QUE TUDO QUE É MEU SERÁ SEU. E JUNTOS PROCURAREMOS UM OUTRO, QUE NASCERÁ NO ÀIYÉ, O ÚLTIMO DA TRINDADE, E NELE FAREMOS MORADA PARA TODO O SEMPRE, E QUANDO ESTE VENCER, EU, TU E ELE SENTAREMOS NUM SÓ TRONO. E O ORÚN DESCERÁ AO ÀIYÉ E O ÀIYÉ SUBIRÁ AO ORÚN. E O UM QUE SE TORNOU VÁRIOS TORNARÁ A SER UM NOVAMENTE. MAS, POR AGORA MEU FILHO AMADO, REALIZA A TUA MISSÃO, E RESOLVE AS TUAS PENDÊNCIAS COM OS TEUS IRMÃOS, PARA QUE TUA OBRA SEJA PERFEITA, PELA OBSERVÂNCIA DA HARMONIA.
    Ao descer do Àwosùn Dàra, a Morada dos Justos, Obàtálá, que por amor a si próprio se fez Òrínsànlá, deu uma volta ao redor de si mesmo, olhando toda a circunferência do Orún.
    E um profundo sentimento de desconforto tomou conta de si. De repente, se viu desolado e imbuído em muitas dúvidas. Por um lado, obteve o perdão de Olódùmarè, e por outro tinha que enfrentar as consequências dos seus atos passados, para realizar um trabalho sem informações de como fazê-lo, e elementos para criá-lo. Também desta vez não podia nem pensar em fracassar na sua nova missão.
    Diante de todas essas coisas, que rodopiavam em seu íntimo, Òrínsànlá sentou-se, e pôs-se a meditar em todas as coisas que o fizeram falhar em sua primeira missão.
    Percebeu que o seu orgulho o autodestruíra, e desta vez queria reparar todos os erros passados, para que sua nova missão seja bem-sucedida e perfeita. E, pesando seus pensamentos consigo mesmo, disse:
    — A partir de agora em diante, não mais me autoproclamarei Òrínsànlá. De agora em diante todos me chamarão Òòsàálà. — Que significa “Aquele humilde de luz branca que a todos iluminará”.
    Òòsàálà iniciou sua jornada convocando todos os Irun Imolès que se encontravam no Orún. Pois os Imolès Funfuns se encontravam no Àiyé. Onde, a mando de Olófin Odùduwà, fundaram uma casa-cidade que chamaram de Ilé, que significa “casa, morada ou comunidade”.
    Òòsàálà convenceu os Irun Imolès a deixarem de lado todas as suas divergências e se unirem a ele, para fazerem parte de sua nova missão. E eles se despiram dos seus mantos brancos e pretos, unindo-se ao Grande Imolè Funfun.
    Reunindo todos os Imolès, Òòsàálà partiu em direção ao Òrun Àkàsò. Para de lá ir ao Òpó-Òrun-oún-Àiyé, e descer pela corrente até chegar ao Àiyé, e ir reunir-se aos demais Funfuns no Ilé.
    Os Irun Imolès, ao comando de Òòsàálà, chegaram nos portões das fronteiras dos mundos, o Òrun Àkàsò. Òòsàálà adiantou-se, e disse:
    — Porteiro, abra os portões para a corte dos Imolès passar.
    O Porteiro, vendo toda aquela multidão de Imolès juntos e unidos a Òòsàálà, ficou perplexo e indignado. Pois acreditava ele que o seu opositor Obàtálá se encontrava derrotado, e que os Irun Imolès estavam divididos em divergências entre eles por causa do engano.
    Mas agora Òòsàálà se apresentava diante dos seus olhos mais pleno de poder e com uma luminosidade muito clara, como se fosse o próprio Olódùmarè estando ali presente. Temeroso de receber alguma represália da parte de Òòsàálà, este nada questionou. Apenas abriu os portões e desapareceu diante da vista de todos.
    Chegando ao Òpó-Òrun-oún-Àiyé, a corte dos Irun Imolès, liderada por Òòsàálà, avistou ao longe e abaixo o novo reino. E como era belo, parecia um grande globo ocular azul com uma pupila amarronzada ao meio! Um montante de terra arrodeada por águas, contida num recipiente de gelo. Pois naqueles primeiros dias da criação a terra era unificada num só continente, que mais parecia uma grande montanha plana.
    Enquanto isso, no Àiyé, Èsú’Yangí fora rapidamente encontrar os Imolès Funfuns no Ilé. Chegando lá, ele se disfarçou e se apresentou aos Funfuns como Òjísé, o mensageiro. E disse-lhes:
    — Trago-lhes uma mensagem do Grande Oló. Obàtálá, que se fez Òrínsànlá, depois de ter fracassado na missão de criar o novo reino, ficou furioso e, assim, reuniu todos os Irun Imolès e agora planeja uma revanche por vocês terem furtado o saco com o elemento da criação, o àpò-iwà, e realizado a Grande Obra. Neste exato momento, eles já se encontram no Òpó-Òrun-oún-Àiyé.
    Quando Olófin Odùduwà e os demais Imolès Funfuns ouviram isso, ficaram tão apavorados que nem questionaram a notícia e nem o mensageiro delas, que por alguma razão, pela arrogância que eles já presenciaram da parte de Òrínsànlá, essa informação lhes parecia óbvia.
    Nesse ínterim, enquanto os Imolès Funfuns discutiam entre eles o assunto, Èsú’Yangí, disfarçado como Òjísé, desapareceu rindo ironicamente sem que eles o percebessem.
    Então, diante desse fato apresentado a eles por Òjísé, os Imolès Funfuns decidiram fortificar a cidade de Ilé, com uma grande muralha feita de grandes tijolos de pedra.
    Enquanto isso, Òòsàálà e os Irun Imolès desciam em fila pela corrente que unia o Orún ao Àiyé. E, pisando no Àiyé, Òòsàálà sentiu uma forte dor nos seus pés, que a cada passo ia se dissolvendo até parar.
    Então, eles caminharam em direção ao Ilé e encontraram uma grande cidade fortificada por muralhas de pedra. Ao chegar aos portões da cidade de Ilé, Òòsàálà disse em alta voz:
    — Irmãos Funfuns, abram os portões! Pois eu e a corte dos Irun Imolès queremos entrar e falar-lhes sobre uma nova missão que o mais Alto dos altos nos deu.
    Então, os Imolès Funfuns subiram nos muros da cidade, e Olófin Odùduwà adiantou-se, e disse:
    — Obàtálá, que por amor a si próprio se fez Òrínsànlá, o que temos nós contigo? Sei que você veio nos destruir, porque pelo seu fracasso realizamos a Grande Obra.
    — Não, meus irmãos, eu jamais faria isso. Pelo contrário, aqui estou arrependido diante de vocês, e venho lhes pedir perdão. E já não sou mais Òrínsànlá, o orgulhoso, e sim Òòsàálà, o humilde. E eis que agora me faço o menor dos menores entre vocês.
    — Vemos que você se tornou mentiroso como o traidor dos nossos irmãos. Pois, através de um mensageiro vindo do mais Alto dos altos, sabemos que você veio nos destruir, e por isso reuniu todos os Irun Imolès. — Disse assim Olófin Odùduwà.
    — Que mensageiro é este, que veio vos falar? Não vim destruir vocês, e sim lhes pedir ajuda. Pois o mais Alto dos altos me deu uma nova missão, que é a de criar os novos seres que habitarão este mundo. E, como eu falhei na minha primeira missão, por causa do meu orgulho, agora eu reuni todos os Imolès, do mais alto ao mais baixo entre eles, para que juntos viéssemos aqui encontrar-vos, e assim realizarmos juntos esse grande trabalho. Porque essa é a maneira que encontrei de me redimir, e de pedir perdão a todos pela minha primeira falha.
    Ouvindo isso, os Imolès Funfuns ficaram confusos e procuraram pelo mensageiro para pô-lo à prova diante de Òòsàálà, e não o encontraram. Então, eles rogaram ao mais Alto dos altos para que lhes esclarecessem aquela dúvida. E, uma voz potente como a de um trovão vinda do mais Alto dos altos, falou:
    — IMOLÈS! POR QUE DISCUTEM ENTRE SI OS MEUS MANDAMENTOS E AS MINHAS DETERMINAÇÕES? NÃO DEEM OUVIDOS A CONVERSAS E DIVERGÊNCIAS ENTRE VÓS. ÈSÚ’YANGÍ, AQUELA ESFERA PEDRA POROSA E FRÁGIL, QUE HABITA ENTRE VOCÊS, OS DIVERGIU, E AINDA CONTINUA DIVERGINDO. NÃO TROPECEM MAIS DE UMA VEZ NESSA CANA QUEBRADA, APRENDAM COM OS SEUS PRÓPRIOS ERROS.
    Ao ouvirem essa voz, eles compreenderam que aquele mensageiro de nome Òjísé, era de fato Èsú’Yangí disfarçado.
    De repente, as muralhas de pedra que separavam os Imolès se dissolveram na vista de todos. E Òòsàálà, junto aos Irun Imolès, entrou na cidade de Ilé e se uniu a Olófin Odùduwà e os demais Imolès Funfuns.
    Quando todos os Imolès estavam reunidos no Ilé. Surgiu de repente no meio deles o grande sacerdote do oráculo de Ifá, Orunmilá.
    Orunmilá chamou todos os Imolès, e falou para que eles ficassem em círculo com as mãos dadas. Sendo que fizeram dois círculos, um dentro do outro. Havia um círculo maior composto pelos Irun Imolès, que eram a maioria, e dentro dele um círculo menor, formado pelos Imolès Funfuns.
    Esses círculos eram tão perfeitos de tal forma, que todos observavam o grande sacerdote de Ifá que estava no centro dele. Pois cada Irun Imolè se posicionava entre os espaços das mãos dadas dos Imolès Funfuns.
    Ali, diante de todos Imolès, o grande sacerdote de Ifá, Orunmilá, convocou ao centro Òòsàálà e Olófin Odùduwà, e disse:
    — Imolès, seres do Orún, que é o primeiro reino da criação. Aqui estamos todos reunidos no novo reino, o Àiyé. Agora todos juntos celebraremos a união que se deu com o fim das divergências entre vós.
    Orunmilá, com sua mão esquerda, pegou a mão direita de Òòsàálà. E com sua mão direita pegou a mão esquerda de Olófin Odùduwà. E, ali no centro, uniu as mãos dos dois Funfuns, e disse:
    — Faço isso em representação da união de todos os seres criados. Esse dia será sempre um dia de comemoração entre vocês, e também entre aqueles que virão de vocês. Os novos seres que habitarão este novo mundo. Esses seres que serão um, virão como dois. Macho e fêmea. Os machos serão da descendência de Òòsàálà, o universo. E as fêmeas serão da descendência de Olófin Odùduwà, a natureza. Um representará o acima e o outro o abaixo. Um será forte e ardente como o dia, sendo este o sol. Outro será calmo e leve como a noite, sendo este a lua. Um agitará e o outro acalmará. Um completará o outro, e juntos movimentarão. Nascerão separados, mas viverão unidos. E pela união dos seus corpos a vida se multiplicará. Assim como agora eu faço com Òòsàálà e Olófin Odùduwà, eles também farão da mesma maneira diante de um sacerdote, para juntarem-se e se multiplicarem. Este dia será conhecido como Odù Ifá Ìwòrì-Òbèrè. O dia em que celebrarão o casamento, o acordo e o pacto de união.
    Falando isso, o sacerdote de Ifá pegou uma cabaça e pintou-a de branco. Depois cortou essa cabaça horizontalmente ao meio, separando-a em duas partes. Então, fez com que Òòsàálà ficasse ao lado de Olófin Odùduwà. Fazendo com que eles se abraçassem de lado com um dos braços. Sendo que Òòsàálà ficou ao lado esquerdo de Olófin Odùduwà, abraçando-a pelas costas com seu braço direito. E Olófin Odùduwà ficou ao lado direito de Òòsàálà, abraçando-o também pelas costas com o seu braço esquerdo.
    O grande sacerdote pegou uma das metades da cabaça, que era a parte de cima, e colocou na mão esquerda de Òòsàálà. Depois pegou a outra metade, a parte de baixo e colocou na mão direta de Olófin Odùduwà. Fazendo isso ordenou com que Olófin Odùduwà e Òòsàálà levassem ambas as metades da cabaça ao centro dos seus corpos. Sendo que Olófin Odùduwà segurava a sua metade abaixo, e Òòsàálà segurava a sua metade acima…
    Então, o grande sacerdote pegou do solo um pouco do àpò-iwà, colocando dentro da metade da cabaça que servia como base, que estava na mão de Olófin Odùduwà, para representar o elemento primordial da criação do novo reino.
    Também, colocou outros elementos primordiais da criação. Como carvão para representar o sangue da terra. O efun, que é o sangue branco, onde toda vida orgânica germina. E o osún, que é o sangue vermelho, onde a vida no novo reino habitará.
    Depois ordenou que Òòsàálà descesse com sua metade da cabaça sobre a metade que se encontrava na mão de Olófin Odùduwà, selando-a. E disse:
    — Eis aqui o igbá-odù. A representação do útero de toda a vida no novo reino. Separar as duas partes do igbá-odù, significará a própria destruição deste mundo.
    Falando isso, Orunmilá se retirou ascendendo ao Orún, levando consigo o igbá-odù.
    Então, Òòsàálà e Olófin Odùduwà se abraçaram e se beijaram. E, quando estavam se beijando, acendeu neles um glorioso sentimento que nunca fora antes sentido dessa forma em toda a criação.
    Sentiram o que depois viemos a conhecer como a atração que um homem sente por uma mulher, e que a mulher sente por um homem em seu primeiro contato. Esta sensação que une o macho e a fêmea. Sentiram e presenciaram uma nova e real forma de experimentar o AMOR.
    Depois daquele primeiro beijo, em que o inexplicável brotou, eles já não eram mais os mesmos, pois experimentaram o que ninguém jamais provou. O amor dos amantes. E a partir daí a cidade de Ilé se tornou Ilé-Ifè, a “Morada do Amor”.
    Òòsàálà, movido por uma grande compaixão, compartilhou sua missão com todos os Imolès ali presentes. Mas nem Òòsàálà e nenhum dos outros Imolès sabiam como poderiam criar os novos seres. Pois não havia elementos dados da parte de Olódùmarè, e nem instruções a serem dadas pelo sacerdote do oráculo de Ifá, Orunmilá.
    Òòsàálà, meditando nessa questão, obteve uma iluminação. Ele sabia que muitos dos Irun Imolès trazia consigo um segredo palpável. Sendo na verdade esse segredo um elemento que o representava.
    Então, ele teve a ideia de ir a cada Irun Imolè e lhe pedir o seu elemento, para ver se serviria para criar os novos seres, os Igbá Imolès.
    Òòsàálà foi pessoalmente a cada um dos Irun Imolès, do mais alto ao mais baixo em luz e sabedoria. Procurando um único elemento específico, para ver se era possível, a partir dali, moldar os corpos dos novos seres.
    Òòsàálà foi até Aganjú e lhe pediu o seu segredo. E Aganjú lhe revelou o enxofre. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, mas não deu certo. Pois o enxofre era mole, frágil e leve, e se quebrava com facilidade. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.
    Òòsàálà foi até Egbé e lhe pediu o seu segredo. E Egbé nada tinha para lhe oferecer. Pois, naqueles dias antes da criação dos Igbá Imolès, havia alguns dos Irun Imolès que não conheciam os seus segredos. Só sendo revelados a eles depois da criação dos Igbá Imolès, quando esses elementos ainda desconhecidos, se tornassem futuramente úteis para os novos seres.
    Òòsàálà foi até Elegbàrà e lhe pediu o seu segredo. E Elegbàrà, também, nada tinha para lhe oferecer.
    Òòsàálà foi até Erinlè e lhe pediu o seu segredo. E Erinlè, também, nada tinha para lhe oferecer.
    Òòsàálà foi até Ìdejì e lhe pediu o seu segredo. E, também, Ìdejì nada tinha para lhe oferecer.
    Òòsàálà foi até Ògún e lhe pediu o seu segredo. E Ògún lhe revelou o ferro. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, mas também não deu certo. Pois o ferro era rígido, muito duro e pesado, e não havia possibilidades de moldá-lo. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.
    Òòsàálà foi até Òsùn e lhe pediu o seu segredo. E Òsùn lhe revelou o ouro. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, mas, também não deu certo. Porquanto, o ouro era um pouco rígido, um pouco duro e pesado, e também, não tinha como moldá-lo. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.
    Òòsàálà foi até Obà e lhe pediu o seu segredo. E Obà lhe revelou o minério. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, porém, também não deu certo. Pois o minério às vezes era rígido, duro e pesado, e às vezes era mole, frágil e leve. Não tendo assim, como moldá-los. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.
    Òòsàálà foi até Sànpànná e lhe pediu o seu segredo. E Sànpànná nada tinha para lhe oferecer, além de palhas e cipós. Òòsàálà viu que com as palhas e cipós ele nada poderia formar que se assemelhasse a um novo ser. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.
    Òòsàálà foi até Òrànmíyàn e lhe pediu o seu segredo. E Òrànmíyàn, também, nada tinha para lhe oferecer. Pois, ainda não conhecia o seu segredo.
    Òòsàálà foi até Òsànyìn e lhe pediu o seu segredo. E Òsànyìn, também, nada tinha para lhe oferecer. Pois, também, ainda, não lhe foi revelado o seu mistério…
    Òòsàálà foi até Òsóòsì e lhe pediu o seu segredo. E Òsóòsì, também, nada tinha para lhe oferecer. Pois, naqueles dias, ainda, não lhe foi revelada a sua bravura.
    Òòsàálà foi até Òsùmàrè e lhe pediu o seu segredo. E Òsùmàrè, também, nada tinha para lhe oferecer. Pois, ainda não lhe foi revelado o seu dote.
    Òòsàálà foi até Oya e lhe pediu o seu segredo. E Oya lhe revelou o fogo. Porém, o fogo não era maleável e a tudo consumia. Então, Òòsàálà foi até Sàngó e lhe pediu o seu segredo. E Sàngó lhe revelou os gases. Òòsàálà tentou pelo menos conter os gases em sua mão, algo que lhe parecia impossível, e não deu certo. Não podendo nem ao menos conter os gases e nem o fogo, Òòsàálà jogou esses elementos na terra, e a terra os absorveu…
    Òòsàálà foi até Yemoja e lhe pediu o seu segredo. E Yemoja lhe revelou a prata. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, mas, também, não deu certo. Pois, a prata era um pouco rígida, um pouco dura e pesada, e, não tinha como moldá-la. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.
    Òòsàálà foi até Yewa e lhe pediu o seu segredo. E Yewa lhe revelou o cobre. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, mas também não deu certo. Pois também o cobre era rígido, duro e pesado e não tinha como moldá-lo. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.
    Òòsàálà prosseguiu indo a cada Irun Imolè, e de um a um pedia o seu elemento. Uns tinham algo a lhe oferecer e outros não tinham. Mas, nenhum dos elementos apresentados pelos Irun Imolès lhe serviu para criação dos novos seres.
    Depois de falar com todos e provar todos os elementos, Òòsàálà entristeceu-se. Porque desta vez não poderia fracassar em sua missão. E, se afastando de todos, Òòsàálà subiu numa grande montanha para ali meditar. E de joelhos e cabeça baixa ao solo, em cima da grande montanha, Òòsàálà chorou de tristeza.
    Òòsàálà chorou tanto, que suas lágrimas escorreram pelo pico da grande montanha. E as lágrimas tristes de Òòsàálà formavam pequeninos flocos cristalizados, embranquecendo toda região acima.
    As lágrimas de neve de Òòsàálà foram se derretendo da metade da montanha para baixo, formando nascentes de águas doce. Essas nascentes formaram grandes extensões de águas flutuantes, que deram origens aos primeiros rios.
    Porém, havia um dos Irun Imolès com quem Òòsàálà não se encontrou, porque se encontrava na beira do mar.
    Esse Irun Imolè estava encantado com as águas do novo reino. E, desde que pisou no Àiyé, brincava na beira do mar, entre as águas e a areia. O nome deste Irun Imolè é Nàná Bùùkúù.
    Nesse ínterim, enquanto Nàná Bùùkúù brincava à beira-mar, ela avistou os fluentes de águas provocados pelas lágrimas de Òòsàálà indo ao seu encontro. E, chegando velozmente, precipitaram-na ao mar. As águas arrastaram Nàná Bùùkúù até as profundezas do oceano.
    Ciclos eternos se passaram, e Nàná Bùùkúù, depois de dar um grande giro nas profundezas marítimas, regressou ao lugar onde se encontrava antes. Porém, viu que o lugar mudara. E, onde antes havia grãos de areia, surgiram grandes piscinas de águas acinzentadas pela lama, que resultaram do encontro do rio com o mar.
    Maravilhada, Nàná Bùùkúù começou a brincar com toda aquela lama, e dela formou muitas pequeninas criaturas, modelando-as com esse material. Essas são as muitas criaturas do mangue. Os variados tipos de crustáceos, conchas e moluscos. E, desde aquele momento, a lama se tornou o elemento de Nàná Bùùkúù.
    Descendo montanha abaixo pela neve branca, Òòsàálà já não tinha mais esperança de realizar sua grande missão que o redimiria. E, chegando à cidade de Ilé-Ifè, Òòsàálà estava prestes a contar a todos o seu fracasso, quando Olófin Odùduwà lhe contou que havia mais um dos Irun Imolès que ele não entrevistara.
    Òòsàálà recebendo essa boa notícia, restabeleceu o seu ânimo rapidamente, pois algo lhe dizia que sua missão não estava perdida. E sem demora foi ao encontro desse Irun Imolè.
    Os outros Irun Imolès lhe contaram que Nàná Bùùkúù se encontrava brincando na beira do mar. Então, Òòsàálà reuniu todos os Imolès, e juntos foram ao encontro de Nàná Bùùkúù.
    Chegando lá, Òòsàálà a cumprimentou e viu-a modelando as pequeninas criaturas no novo habitat que se formou pelo encontro do rio com o mar. Então, Òòsàálà foi até Nàná Bùùkúù e lhe pediu o seu segredo. E Nàná Bùùkúù lhe deu a lama negra acinzentada do manguezal.
    Òòsàálà pegou esse elemento, e moldou o primeiro Igbá Imolè à imagem e semelhança dele mesmo.
    Vendo que esse era o elemento certo para formar os novos seres, Òòsàálà encheu-se de alegria. Então, ele foi a Olófin Odùduwà e pediu que fizesse o mesmo, assim como ele fez. Olófin Odùduwà moldou o segundo Igbá Imolè a sua imagem e semelhança.
    Então, macho e fêmea os criaram. E a estes dois primeiros moldes Òòsàálà chamou de Egungun.
    Òòsàálà falou para que todos os Imolès o ajudassem a modelar mais corpos à semelhança dos Egunguns. E a estes derivados de corpos, Òòsàálà chamou de Egun.
    Depois de terem modelado todos os corpos dos Igbá Imolès, todos se reuniram em um grande círculo ao redor do montante de corpos feitos de lama enegrecida do manguezal. E juntos suplicaram ao mais Alto dos altos para que manifestasse sua glória, e respirasse o seu hálito de vida nos corpos de lama dos novos seres. E do mais Alto dos altos veio um sopro de vida dizendo:
    EU SOU!
    Então, os corpos de lamas criaram vida e se animaram. Todos ficaram maravilhados diante dos novos seres. E Òòsàálà foi bem-sucedido em sua missão de criar os seres que cuidarão do novo mundo.
    Mas de repente, diante de todos, Yemoja levantou uma questão e disse:
    — Se os Igbá Imolès cuidarão do Àiyé e de suas outras criaturas, quem cuidará dos Igbá Imolès?
    Yemoja disse isso porque sabia da fragilidade dos novos seres, já que eles eram feitos de lama, sendo que os seus corpos negros eram densos e grotescos. Muito diferentes dos corpos luminosos e graciosos dos Irun Imolès e dos Imolès Funfuns.
    De repente, Òòsàálà se viu diante de mais uma questão, que tornava sua missão ainda incompleta e imperfeita na criação. Mais uma vez Òòsàálà pôs-se a meditar, e, refletindo, obteve uma iluminação, e disse a todos:
    — Imolès do Orún, quero que cada um de vocês que tem um segredo, tome para si determinado grupo de Igbá Imolès.
    E, assim, como Òòsàálà disse, eles fizeram. E Òòsàálà continuou a dizer:
    — Agora com o dedo furem a cabeça de todos os Igbá Imolès, e coloquem em cada um o seu elemento dentro dela. Aqueles que ainda não tiverem elementos não se preocupem, pois no tempo certo em que o segredo for revelado a cada um de vocês, eu, também, lhes darei um grupo de Igbá Imolès. E aqueles que por ordem da própria natureza universal, não tiverem seus segredos nunca revelados, serão os pais e guardiões dos seres inorgânicos que farão companhia e servirão aos novos seres deste mundo. Por esse tempo, auxiliem os seus irmãos a cuidarem desses novos seres e de toda criação.
    E assim todos fizeram como Òòsàálà falou. E os Irun Imolès se tornaram os guardiões e pais dos Igbá Imolès.
    Porém, aconteceu uma coisa estranha e imperfeita na criação. Os Igbá Imolès do grupo dado a Nàná Bùùkúù agiam de forma esquisita e medonha. Òòsàálà vendo isso, se escandalizou. E, pôs-se novamente a meditar para resolver essa questão e obter a perfeição na criação, que era a satisfação de todos os seres.
    Òòsàálà meditando percebeu que cada segredo dos Irun Imolès, sendo colocado na cabeça dos novos seres, lhes dava personalidades, faculdades, inteligências e habilidades específicas. Sendo estes segredos a alma deles.
    E viu que esse novo ser já era composto de lama, e que colocar novamente lama em sua cabeça faria seres desmiolados e sem especialidades. Seres desprovidos de alma. Por isso que eles se comportavam de forma esquisita.
    E, rapidamente, Òòsàálà impediu Nàná Bùùkúù de colocar seu elemento nas cabeças dos corpos dos novos seres, e lhes tirou os seus filhos.
    Diante desse acontecido, Nàná Bùùkúù se sentiu muito ofendida, pelo fato de contribuir com o seu elemento para formação dos corpos dos novos seres. Mas, porém, não ser digna de obter a graça de nem sequer ter um só Igbá Imolè para cuidar.
    Òòsàálà mais uma vez pôs-se a meditar, e se viu diante de um problema hediondo e difícil de resolver. Pois ele sabia que, se um dos Imolès do Orún não estivesse satisfeito com a criação, não haveria perfeição. Porque a perfeição é a plena satisfação e aprovação de todos.
    Então, diante desse problema, Òòsàálà teve que tomar a decisão mais triste diante de toda a vida. E lembrou-se das palavras ditas a ele por Olódùmarè, de que a dualidade será a expressão dos novos seres e do novo reino. Pois se há vida no segundo reino, haverá também a morte.
    E, chorando lágrimas vermelhas, que escorreram na terra do novo mundo, que deram origem ao barro vermelho que provém a argila, Òòsàálà disse a Nàná Bùùkúù:
    — Nàná Bùùkúù, ouça! Você, que deu a lama, que foi responsável para formar o corpo dos seres deste mundo, digo-te agora que esse elemento lhe será devolvido. Porquanto, os seres deste mundo nasceram com uma dívida contigo. Dívida essa, de um empréstimo que todos eles terão que te pagar mais cedo ou mais tarde. E no dia desse pagamento, em sua morte, os seres deste mundo chorarão de tristeza, assim, como também, choraram de alegria ao nascerem, quando receberam de ti este valoroso empréstimo. E depois de acertarem as suas contas contigo, Nàná Bùùkúù, os segredos postos em suas cabeças pelos demais Irun Imolès, que permanecerem puros pelas suas ações de vida no Àiyé, subirão ao Orún e terão a permissão de passar pelos portões das fronteiras do mundo, o Òrun Àkàsò. Mas, aqueles que corromperem as suas almas no Àiyé e se acinzentarem, e, assim, atrofiarem os seus segredos, não terão permissões para passar pelos portões das fronteiras do mundo. Sendo que ficarão presos para sempre no reino astral, o Òrun Àkàsò.
    E, assim, Òòsàálà concluiu sua missão, obtendo a perfeição tão almejada pela Criação e pelo Criador de todas as coisas existentes.
    O Orún voltou a ser perfeito e iluminado como era no princípio, e suas fronteiras foram dissipadas. Pois, os seus seres alados estavam muito ocupados e felizes de cuidar dos novos seres do novo reino.
    E, assim, os Imolès Funfuns tinham os Irun Imolès por filhos, e estes tinham os Imolès Funfuns por pais. E os Imolès Funfuns se ocupavam e se empenhavam em manter a harmonia entre os Irun Imolès.
    E os Irun Imolès tinham os Igbá Imolès por filhos, e estes tinham os Irun Imolès por pais alados e celestiais. E os Irun Imolès se ocupavam e se empenhavam em manter a harmonia entre os Igbá Imolès.
    Por sua vez, os Igbá Imolès se ocupavam por cuidar deles mesmos, dos seus semelhantes e dos seus descendentes. E, também, de manter a harmonia entre os seres e as criaturas que dividem o Àiyé com eles.
    Dessa forma, Olódùmarè, o Deus Supremo, Pai e Mãe de toda Criação, encontrou uma perfeita solução para harmonizar os seus seres. Dando-lhes responsabilidades uns para com os outros, para manutenção da própria vida e de toda sua criação.
    E essa responsabilidade de cuidar um dos outros, é a mesma que o mais Alto dos altos tem com toda a sua criação.
    E essa responsabilidade é o único propósito de nossas existências neste mundo.
    É o que nos faz semelhantes ao nosso Criador Perfeito, O Pai e Mãe de Todas as Coisas Existentes.
    Essa responsabilidade é o que hoje conhecemos e sentimos como o verdadeiro AMOR, o verdadeiro AMAR e o verdadeiro SER AMADO.
    E os Irun Imolès, juntos aos Imolès Funfuns foram chamados pelos Igbá Imolès de Òrìsà, que quer dizer: “Aquele que me deu a minha alma” ou “Aquele que comanda a minha cabeça”.
    E, finalizando o conto, Djeli encarou N’zambi e disse:
    — Por isso, meu jovem, que na crença dos povos iorubás, os homens ao nascerem vêm com a cabeça aberta. Pelo fato de os Òrìsàs terem naquele momento colocado o seu elemento-alma dentro dela.
    O céu começara a clarear no K’ilombo dos Palmares, quando o preto velho griot Djeli terminou de contar a história da criação iorubá. O jovem príncipe N’zambi sentiu que vivenciou toda aquela experiência contada. E teve uma leve e profunda sensação de viver uma eternidade naquela noite. Vivera e experimentara todo o drama dos Òrìsàs. E algo do que ele não sabia havia mudado dentro dele. Sentiu uma mudança na maneira de como via e interpretava a vida, e o mundo em que vivia. Mas, também, se sentia muito confuso e desconfortável com as suas credulidades. Já que desde muito jovem fora educado no pensamento cristão do catolicismo, que não admitia outra forma de crença, senão as dos seus dogmas religiosos.
    Houve um silêncio profundo entre Djeli e N’zambi naquele momento. O preto velho esperava que N’zambi quebrasse o silêncio lhe perguntando algo. Porém, ambos permaneceram sentados por algum tempo, ao lado das cinzas do que antes era fogueira. Restando apenas poucas brasas, que soltavam uma leve fumaça. Enquanto o céu se acinzentava, anunciando que um novo dia estava preste a brotar.
    Djeli vendo que o rapaz permanecera numa quietude profunda, preso em seus próprios pensamentos, resolveu quebrar o silêncio ao comtemplar a solitária Estrela da Manhã, dizendo:
    — Imaginemos um grupo de pessoas vivendo uma fantasia. Imaginemos agora, que esse grupo de indivíduos não saiba que vive em uma fantasia, e que essa fantasia seja a realidade do mundo em que vivem. Agora imaginemos que dentro dessa “realidade”, algumas pessoas desse grupo criem fantasias para suas diversões e entretenimentos. Para, digamos, sair um pouco dessa “realidade” entediante em que eles vivem. E, também, criem fábulas para darem respostas para o porquê de eles existirem naquele grupo. Feito isso, agora eis a pergunta: Se algumas pessoas desse grupo procurarem saber a verdade, como elas distinguirão a realidade da falsa “realidade” e a “fantasia” da verdadeira fantasia?
    Fez-se um breve silêncio. N’zambi encarou o velho griot meio que embaraçoso em seus pensamentos, e Djeli continuou:
    — Se você acha isso complexo, meu jovem. Saiba que a nossa realidade não passa de fábulas e fantasias, dentro de outras muitas fábulas e fantasias ao longo dos tempos e gerações. Em que também, o tempo e o espaço e toda cadeia de pensamentos, palavras e sentimentos são meramente falsos e fantasiosos.
    — E o que é então a realidade e a verdade, Djeli? — Perguntou o jovem príncipe desesperado.
    — É aquilo que não se encontra, porque não se procura. — Disse o preto velho.
    — Se não se encontra e não se procura, é porque a realidade e a verdade nunca se perderam. Então, onde ela está, Djeli? — Tornou a questionar o jovem.
    — No aqui e no agora!
    Exclamou Djeli, e continuou:
    — Preferimos acreditar e viver as fantasias, não é? Porque encarar a realidade… hahahahaha… a realidade não tem cara! Vamos, meu jovem, o dia já raiou e você precisa descansar.
    E, sorrindo, abraçou com força o jovem príncipe, olhou profundamente em seus olhos, e disse:
    — Há de se construir sempre bons sonhos, pois o pesadelo em que vivemos é real.
    (Texto retirado do livro: O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA — A incrível saga do Quilombo dos Palmares no Novo Mundo, Editora Chiado Books, Jp Santsil)
  • Crônicas do Parque: Rápido Demais

    Já fazia cinco solitários anos em que se encontrava separado e divorciado. Se mantinha firme em sua promessa de não mais se envolver e se entregar a um relacionamento amoroso. Afinal, sofrera bastante quando se separou da sua amada e louca esposa norte-americana (USA), que de repente enlouquecera quando ele achava estar tudo indo bem.

    Lembrara-se quando, por causa da separação, se ergueu de uma depressão que quase o matou de fome, em que ao final do quinto dia sem comer desmaiara caindo da cadeira em que estava sentado solitário trancado no escuro do seu apartamento. Em um instante se viu envolto em uma luz alvamente branca, flutuando em um corredor que o erguera para cima. Aquilo o atraia majestosamente como dando um basta a sua vida terrena de sofrimentos. Porém, de repente, ao súbito, olhara para baixo vendo o seu corpo caído ao chão desgraçadamente. E disse para si mesmo:

    — Não! Não é minha hora, tenho que voltar. Por favor me ajuda!

    E, novamente, lá estava ele, desgraçadamente em seu corpo caído ao chão. Juntou forças e foi se arrastando até a cozinha. Ao chegar, viu um pedaço de baguete duro sobre a mesa, e se esforçando em seu íntimo, apoiando penosamente os seus braços na cadeira, ergueu-se com considerável esforço para pegá-lo. Já com o pão-duro na mão, rastejou até o filtro de água potável em que enchera um copo. E ali caído ao solo com as costas recostadas nas gavetas do armário da pia, comeu vagarosamente o tosco pedaço de pão-duro, junto a goladas de água.

    Quando sentiu que já tinha forças para se levantar, ergueu-se pausadamente segurando com suas mãos as gavetas da pia, como se estivesse escalando o monte Everest. E, apoiou-se sobre seus pês. Foi até o banheiro, e tomou uma longa ducha quente. Ao final, viu que carecera de um choque térmico, e virou a torneira fazendo com que água esfriasse, tomando uma outra ducha fria. E bocejava, estremecia e ofegava.

    Vestiu-se, entrou em seu carro e pegou seu smartphone o ligando depois de uma semana, e vira múltiplas notificações de mensagens e ligações em sua tela. Ignorou-as, indo diretamente ao aplicativo GPS de serviços para procurar um bom restaurante italiano mais próximo, pois muito desejara comer uma pasta com frutos do mar. Depois dessa recaída em que quase lhe valera a vida, prometeu para si mesmo viver como um monge eunuco, distante das perigosas mulheres.

    Assim, estava ele vivendo feliz sem dar satisfação a ninguém para onde ia e o que fazia. Procurava ocupar ao máximo o seu tempo fazendo classes de yoga, pilates, teatro e aprendendo a tocar flauta e piano. Evitava ler, ver e ouvir romances, séries e filmes, músicas e histórias de relações amorosas, em que baixara um moderno e super aplicativo de tarefas, para seu smartphone. Onde ao final de cada dia, dedicava meia hora da sua atarefada vida para fazer a programação do próximo dia, não dando oportunidades para surpresas, fechando assim, as portas para novos imprevistos que o poderia levar a um novo relacionamento, ao conhecer uma interessante pessoa em um lugar desconhecido, fora da sua agenda digital de compromissos fictícios.

    Portanto, acordava, se levantava e ia correr por uma hora todas as manhãs antes de ir para o seu entediante trabalho de programador, em uma dessas grandes corporações Hi-Tech Israelense.

    Em uma dessas manhãs em que corria no parque de Kfar Saba, viu a sua frente uma jovem que tropeçara na pista de exercícios, e machucara um dos joelhos, por um instante decidiu ignorar aquele acidente, ultrapassando-a. Porém, por um ataque de consciência deu meia volta, indo ao encontro da jovem que se encontrava sentada no chão chorando.

    Ao chegar até ela, agachou-se e disse ainda ofegando pelo esforço do seu exercício:

    — Você está bem?

    — Claro que não! Você não vê?

    — Desculpe! Só estou tentando ajudar. Venha, vou te levantar.

    — Ai! Ai! Ai! — resmungou a moça não podendo se apoiar em uma das pernas.

    Então, ele a carregou em seus braços a levando para grama, pondo-a debaixo de uma Tamareira que fazia uma refrescante sombra. E a perguntou:

    — Você mora por aqui por perto?

    — Moro em Rosh Haayin.

    — Não está tão longe. — falou ele enquanto estava lavando o ferimento do joelho da jovem moça, com a água de sua garrafa.

    — Você está de carro? — perguntou a jovem. — Será que pode me levar até minha casa. — acrescentou.

    Ele hesitou ao responder de imediato, e olhou para o seu smartwatch que se encontrava no pulso direito, sabendo que se a ajudasse, chegaria tarde no trabalho. E, olhando para aquela jovem e linda moça de olhos verdes molhados de lágrimas, não resistindo ao seu apelo, disse:

    — Sim, eu te levo para casa. Mas, vamos rápido, é que estou meio atrasado para o trabalho.

    Ela sorriu, e de súbito o beijou no rosto como forma de reverência. E aquele beijo repentino acendeu um chama nele que há muito tempo se encontrava apagada. E temeu, ignorando aquele beijo ao levantar a moça nas suas costas, apoiando-a como se fosse uma mochila. Ao passo em que ele caminhava com a pesada moça sobre as costas, ela ia tagarelando:

    — Nem ao menos nos apresentamos, e aqui estamos como namorados em que você me leva de macaquinho. Como é o destino, ultimamente só estou conhecendo novas pessoas através das redes sociais no meu celular, e agora te conheço assim, em um acidente, e já temos um contato físico como pessoas que se conhecem a muito tempo. Acho que só os acidentes são capazes disso. Agora me vejo em meio a uma fantasia, nessas cenas de filmes românticos dos anos 80 e 90 que as pessoas postam na internet. O que acha? Eu ainda não sei o seu nome. Como você se chama?

    — Em primeiro lugar não somos amigos, nem muito menos namorados. Em segundo você está muito pesada, e não estou conseguindo me concentrar com essa sua tagarelice. Me chamo Nimirod.

    — Desculpa Nimi, eu só estava querendo te distrair por causa do meu peso e seu esforço. Me chamo Einat. Prometo que não falo mais. Naim meod (Prazer em conhecê-lo)!

    Juntos chegaram ao estacionamento, e ele a colocou no banco da frente do seu carro. Ela ainda se encontrava calada pela dura que recebera dele, e, ele se encontrava sério, meio puto em chegar atrasado para o trabalho.

    Então, ela resolveu quebrar o gelo que existia entre os dois, perguntando-o:

    — Você corre no parque de Kfar Saba todos os dias?

    — Ken (Sim). — respondeu ele secamente.

    — Você mora em Kfar Saba?

    — Lo (Não). — deu outra resposta seca.

    — Onde mora?

    — Próximo. — disse isso não querendo respondê-la.

    — Sim. Não. Próximo. Você fala hebraico? — disse ela o provocando.

    — Você é da polícia? Não pode se calar um pouco, apenas por um momento. Não gosto de ser interrogado, e por sua causa estou me atrasando para o trabalho hoje.

    Ao ver essa resposta arrogante, mais uma vez os olhos da jovem se encheram de lágrimas, e ela pediu para descer ali mesmo em qualquer lugar, já que estava incomodando.

    Diante disso, vendo as lágrimas descendo pelas lindas pálpebras que ao chorar se encontra avermelhadas no belo rosto inocente da jovem ao seu lado, arrependido ele disse:

    — Desculpe-me Einat. Apenas fiquei irritado por me atrasar para ir ao trabalho hoje, tenho muitas tarefas e meu chefe está já há uma semana no meu pé para que eu termine. Vou te levar para casa e tentar responder suas perguntas, ok.

    A jovem enxugou suas lágrimas, deu um grande sorriso, e perguntou:

    — Quantos anos você tem?

    — Trinta e sete. E você?

    — Vinte e três.

    — Você é nova. Fez o exército?

    — Sim. Terminei faz um ano.

    — E não viajou?

    — Acabei de chegar da Índia, estive lá por dez meses.

    — E como foi?

    — Louco. Já foi a Índia?

    — Sim.

    — E como foi?

    — Louco.

    — Então, não preciso lhe dizer nada — disse ela sorrindo.

    Ele sorriu em resposta, e a perguntou já chegando em Rosh Haayin:

    — Em que direção fica sua casa aqui.

    — Eu não sei direito lhe instruir, pois sou nova aqui, mas posso ver no celular. — disse ela pegando o seu smartphone, e abrindo o aplicativo GPS digitando o nome da rua.

    — Você é daqui? Quero dizer, dessa região? — perguntou ele, enquanto ela ainda digitava.

    — Não. Sou de Tel Aviv. Vim morar aqui por causa do emprego de ajudante de enfermeira veterinária, pois quero estudar veterinária no futuro. Amo animais, principalmente gatos.

    — Eu odeio gatos. São egoístas e interesseiros.

    — Assim como nós. — disse ela.

    — Prefiro os cachorros. São amáveis e amigos. — disse ele ignorando o que ela disse.

    — Já eu, não sou muito afeiçoada a eles. São dependentes de mais e bagunceiros.

    — Assim como nós, principalmente quando crianças. — disse ele.

    Ambos se olharam e sorriram como se concordassem um com o outro, e a voz robótica do aplicativo falou dizendo que se encontravam no local de chegada.

    — É aqui, nesse prédio. — disse ela apontando, e continuou — Quer entrar para tomar um café? Afinal, você já está atrasado mesmo.

    — Não, obrigado! Não quero me atrasar mais ainda.

    — Só que tem um probleminha! — disse a jovem o pegando pelo braço — Esqueceu que não posso andar, e no meu prédio não tem elevador, e vivo no terraço no quarto andar. — disse ela sorrindo.

    — Ok! Te levo até lá, mas não tenho tempo para o café.

    Ela sorriu. Ele saiu do carro, foi até a porta do assento lateral, a carregou em seus braços, e ela disse:

    — Agora parece que acabamos de nos casar, e você me leva para lua de mel.

    Ele a encarou com seriedade não gostando nada do que ela disse, e a colocou em suas costas indo em direção ao prédio a sua frente. Chegando à porta, ele se virou de lado para que ela pudesse digitar o código chave de cinco dígitos para abrir, fazendo um barulho entediante afirmando que já estava destrancada. Ele empurrou a porta de vidro com o pé, e enquanto adentrava ela ajudou com uma das mãos, sendo que o seu outro braço estava envolvendo o busto e pescoço dele.

    E seguiram subindo a escada. A cada andar ele parava um pouco para pegar um fôlego e descansar. E ela resolveu dessa vez ficar em silêncio, pois ele não estava nada gostando daquela situação. Então, chegaram a porta do apartamento dela. E ela disse:

    — Não vai nem ao menos entrar para um copo d’água e descansar um pouco.

    E, ofegante ele disse:

    — Não. Melhor não. Estou muito atrasado, tenho que ir.

    — Vai me deixar aqui na porta para que eu me arraste até a cama? — perguntou ela com uma dengosa voz.

    — Acho melhor você já aprender a se virar sozinha com essa situação. Depois você vai me pedir para te levar para o banheiro, e te dar banho e depois fazer comida.

    — Eu bem que poderia comer você. _ disse ela, e vendo a cara dele de extremo espanto, rapidamente exclamou — Brincadeirinha! — disse isso, querendo desfazer o que disse.

    — É por isso que não quero entrar. É disso que eu tenho medo. Vocês jovens são rápidos demais. Bye! — disse ele descendo as escadas.

    — Hei, espera aí! Você não me disse onde mora. — disse ela gritando.

    — Moro em Kfar Saba. — respondeu ele já de baixo.

    — Me dá o número do seu telefone. — ela gritou de cima.

    — Rápido demais, já disse! E se eu for casado…

    — Você é casado? — Ela gritou o mais alto que pode.

    — Não! Mas, enquanto o meu número de telefone, vai ter que descobrir por si só.

    — Isso já é bom! — gritou ela, e já não houve mais respostas. — “Ele se foi” — pensou ela entrando no seu apartamento.

    Ele entrou no carro e dirigiu rapidamente para o local de trabalho, fazendo consideráveis esforços para esquecer aquele imprevisto e inconveniente acontecido, repetindo um milhão de vezes em sua mente — “Isso nunca existiu” — tentando assim ignorar os fatos, que já fora fisgado pelas garras amorosas do destino.

    Ela estava maravilhada com ele, achava ele bonito e responsável, o tipo certo para uma mulher se casar. Ela era tão jovem, mas já pensava em um bom partido. Estava meia que traumatizada pelo motivo de suas duas irmãs mais velhas não conseguirem ter relacionamentos por serem gordas, não suprindo as exigências dos homens israelenses, numa sociedade que admira e fortalece a indústria da moda e cosméticos. Sendo que sua irmã mais velha de trinta e oito anos, fizera bebês em um laboratório de banco de espermas, tendo assim filhos gêmeos. E sua segunda irmã de trinta e quatro, já estava pensando em fazer a mesma coisa. Ela não era assim tão gordinha, mas geneticamente tinha formas arredondadas, e isso a preocupava. Passava muito tempo na frente do espelho, e se achava gorda e feia.

    Porém, não era bem assim, suas amigas a invejavam pela sua cintura bem definida, seu bumbum farto e arredondado, seus seios medianos e seu rosto de anjo com olhos verdes e cabelos loiros e encaracolados cor de mel. Um belo corpo de violoncelo, unida a um belo rosto e altura de um metro e setenta e cinco invejável. Não era gorda de jeito e maneira, era dessas mulheres mutantes de forma gigantesca.

    O despertador do smartphone tocou as cinco horas da manhã como de costume, ele se levantou em um único pulo de sua cama indo diretamente ao banheiro, lavara o rosto e escovara os dentes apressadamente. Vestiu-se com sua roupa e assessórios de correr, colocou seus fones de ouvidos bluetooth, e pendurou o seu smartphone por uma capa detentora em seu braço esquerdo, começando o seu exercício matinal ao som do piano de Richard Clayderman. Pelo esforço que fizera anterior e interiormente para esquecer do evento inconveniente do dia passado, já não se lembrara com emoção daquela moça linda e alta de olhos verdes e cabelos loiros encaracolados, sua mente se voltara a sua rotina diária de solteirão feliz.

    Mas para o seu desgosto, lá estava a jovem linda moça correndo em sua direção pela contramão com o joelho enfaixado. Ao passo em que se aproximava dela, ele pensava em ignorá-la. Dizendo em seus pensamentos: “Puta-merda! O que ela quer de mim. Droga! Porque logo hoje fui me esquecer de colocar meus óculos escuros”.

    Ao se aproximarem, param ainda correndo e trocaram sorrisos, e ela disse:

    — Olá como está?

    — Bem. Vejo que seu joelho já está bom.

    — Quase. Mas não resistir ter que parar com os meus exercícios matinais.

    — Entendo. Bom! Não quero me atrasar mais um dia para o trabalho. Bye!

    — Bye! Lehitraot (Até mais ver)!

    E, continuaram os seus percursos, entretanto, enquanto se distanciavam ela se virou correndo de costas e disse em alta voz:

    — Ainda quero o número do seu telefone.

    — Ainda vai ter que descobrir. — disse ele não olhando para trás.

    E, isso se repetia dia após dia, semana após semana.

    Até em que um belo dia de Yom Rishon (domingo) ensolarado, em que ele estava a correr como de costume no parque de Kfar Saba, não a viu durante todo o percurso. E, pensou: “Ela não veio correr hoje. O que será que aconteceu. Não importa! Bom para mim”. E, Yom Sheni (segunda-feira) a mesma coisa. E, Yom Shilishi (terça-feira), Yom Revyi (quarta-feira), Yom Hamishi (quinta-feira), Yom Shishi (sexta-feira) a mesma ausência.

    Yom Shabat (sábado), ele despertara já sem o apito do seu despertador. Continuou ainda deitado em sua confortável cama elétrica com colchões de astronauta, e não conseguia pensar em outra coisa, senão, nela. E vislumbrara em seus pensamentos o sorriso contagiante que enfeitava seu belo e limpo rosto redondo. Sua meiga voz de menina mimada. E seu gigante corpo perfeito. A ausência dela o fisgara, como as coloridas iscas artificiais dos profissionais esportistas pescadores. Aconteceu o que ele mais temia, se viu apaixonado, e sabia que esse sentimento era o mesmo que estar enfermo. Mas, agora, o que fazer, pensou. Ir procurá-la. Não! Isso era se entregar a loucura novamente. E se lastimou pelo fato de não ter dado o número do seu telefone a ela.

    Levantou-se da cama, foi ao banheiro, levantou a tampa da latrina e fez xixi. Deu descarga, e foi ao lavatório. Se olhou no espelho, e pela primeira vez viu um fio de cabelo branco em sua cabeça e dois em sua barba. “Meu deus!” Pensou. Abriu rapidamente a gaveta do lavatório procurando uma tesoura, e achando-a, rapidamente com cuidado fora até a raiz dos seus intrusos cabelos brancos para expulsá-los.

    — Estou ficando velho. — disse em alta voz para si mesmo.

    Teve medo por um instante de pânico de envelhecer sozinho. E pensou nela. Rapidamente entrara na banheira, ligara a ducha tomando um banho. Pegou a tolha, se enxugou apressadamente, passara um creme facial no rosto e se perfumara. Correu até o quarto, se vestindo elegantemente com roupas de verão. Uma curta bermuda branca, uma camiseta verde e uma sandália de couro esportiva. E, pensou em convidá-la para ir à praia em Herzliya.

    Ao chegar no prédio em que ela morava, correu em direção a porta, e não se lembrando o número do seu apartamento, não sabia em que botão devia apertar para chamá-la pelo interfone. Esperou um pouco, e teve a oportunidade quando um casal estava para sair, aproveitou essa oportunidade em que a porta fora aberta, adentrando-a. E subiu as escadas em direção ao terraço no quarto andar. Lá chegando, parou e fez um pequeno exercício de respiração para aliviar a tensão. E, antes de bater à porta hesitou, não sabendo bem o que dizer a ela. E quando fora bater, a porta se abriu. Sendo, que ambos se assustaram. E ela disse:

    — Você aqui! Eu já estava prestes a sair.

    — Pois é, resolvi ainda que tarde aceitar seu convite para tomar um café. Mas, vejo que tens compromisso.

    — Eu estava indo à praia.

    — Uau! Foi isso mesmo que vim fazer aqui, te convidar para ir à praia.

    — Ainda quer entrar e tomar um café antes?

    — Seria um prazer!

    Ele entrou, e viu que ela morava em um pequeno apartamento de solteiro de apenas um quarto, com uma pequena cozinha e banheiro acoplados. Mas, que continha uma enorme varanda no terraço com muitas flores, plantas, um cagado, um papagaio branco, uma iguana e três gatos. O apartamento era pequeno, mas estava muito bem organizado com uma cama de casal ao meio, a cozinha no estilo americano a frente, o banheiro ao lado e uma grande mesa com impressora e computador, improvisando um escritório de trabalho. Do outro lado havia também uma porta e uma larga janela que dava para varanda. O ambiente estava bem iluminado e confortável, havia odores de incenso, e um toque alegre maravilhosamente feminino. Muito distante do seu escuro apartamento, triste e sem graça. E, enquanto ela aprontava o café, ele disse ao se sentar a cama:

    — Bonito e aconchegante aqui.

    — Foi isso que você perdeu antes. Muito lento você, Sr. Lesma.

    — E você, apressada demais, Sra. Papa Léguas.

    — Viu!

    — Viu o quê?

    — Agora já estamos nos comportando como um casal rotineiro, discutindo por besteiras.

    — Rápida demais, menina! — Ele a alertou, e continuou — Nem começamos ainda a namorar, e você fala em casamento. Mas me diga, porque não foi ao parque correr essa semana.

    — Funcionou!

    — Funcionou o quê? — perguntou ele sem nada entender.

    — Não está vendo. — disse ela sorrindo, e fazendo um gesto obvio ao erguer a palma de suas mãos para cima, ao dobrar os cotovelos a linha do umbigo.

    — Como sou idiota! Shalom! — disse ele indo revoltado em direção a porta.

    — Bye! — disse ela tranquilamente sem olhar para traz, enquanto ainda preparava o café.

    Rapidamente ele saiu, e descendo as escadas às pressas, parou no meio, colocou a mão na cabeça, e dizia para si em voz alta:

    — Como sou idiota! Hahhhh!

    Continuou a descer, e ao chegar a porta. Hesitou em abri-la. E se viu completamente apaixonado e envolvido por ela. Tão rápido, mais rápido do que a velocidade dos pensamentos era a velocidade dos sentimentos. Sua cabeça lhe dizia: “Saia imediatamente dessa arapuca, e esqueça essa garota que só vai atrapalhar a sua vida”. E o coração rebatia, dizendo: “Volte imediatamente, peça desculpas e diga que gosta dela”.

    O coração foi mais forte, assim deu meia volta e subiu as escadas. E lá estava ela a porta, com duas xícaras na mão, uma de café e outra de chá de folhas de Luíza Limão do seu pequeno canteiro de ervas. Ele subiu a passos lentos em sua direção. E pediu desculpas, e ela abrindo os braços com as mãos ocupadas com as xícaras cheias, disse:

    — Só desculpo se me der um beijo.

    Ele se aproximou o mais perto possível, encostando barriga a barriga, e sentiu o calor atraente do corpo dela o chamando. Olho a olho se olhavam, e o olhar dela ficou meio vesgo, tornando-a mais linda e atraente, ainda mais do que já era. Suas respirações estavam ofegantes, e seus corações pulsavam tão alto, que faziam os líquidos das xícaras que estavam nas mãos dela ondularem pelas laterais, respigando todo o chão. E por um instante se cheiravam, enquanto seus narizes se tocavam. Rapidamente ele se afastou, pegando a xícara de café da mão dela, e disse:

    — Rápido demais, menina. Rápido demais…

    Ela sorriu, e ambos caminharam até a varanda. Assim, se sentaram um a frente do outro em uma pequena mesa de ferro, com a plataforma de cimento com mosaicos feitos de pedaços de azulejo que ela mesma confeccionara. E, apenas se olhavam por longos minutos sem nada dizer, enquanto saboreavam o gosto do café e chá, e os gatos se enroscavam em seus pés.

    Então, ele rompera o silêncio dizendo:

    — Vamos devagar, Ok! Assim será melhor e mais prazeroso. Não quero ter uma relação de palito de fósforo.

    — Como assim, palito de fósforo? — indagou ela.

    — Você tem uma caixa de fósforos? — perguntou.

    Ela sem nada dizer, adentrou a casa para apanhar. E trazendo, foi vagarosamente por detrás dele o abraçando em tons provocativos, enquanto estendia com uma das mãos a caixa de palitos de fósforos a frente dos seus olhos. Ele pegou a caixa, ela voltou ao seu assento, e ele disse:

    — Tome essa caixa, pegue um fósforo e acenda.

    E, assim como foi dito, ela fez. E ele disse:

    — Está vendo! O fósforo acendeu ligeiro se inflamando rapidamente, e da mesma forma ligeiro se apagou. O mesmo acontecerá conosco se formos tão depressa nisso. Tudo não passará de uma inflamante paixão. Devemos começar como uma pequena fogueira de acampamento. Catar folhas e palhas secas, colocar gravetos em cima, depois paus grossos e duros, e acendê-la com muita atenção cuidadosamente, e ir alimentando-a com esse combustível de matéria orgânica dura aos poucos, para que permaneça acesa, e venha nos aquecer por toda noite, até a vinda do sol.

    — Mas, essa sua fogueira só poderá ser acesa com um palito de fósforo, não é? — questionou a moça a sua frente com ironia.

    Nisso, ele se irritou novamente. E ela rapidamente disse:

    — Brincadeirinha, Sr. Nervosinho. — e sorriu como uma esperta menina, que ganhou a aposta.

    — Ok! Nada de telefones, SMS, Telegram, WhatsApp, Facebook, Skype e todas essas parafernálias da internet. Usaremos cartas. E só nos encontraremos no local especificado por elas. Faremos a moda antiga, antes da tecnologia. _ rebateu ele, irritado por se sentir derrotado.

    — E se as cartas não chegarem? Você sabe como são os correios aqui em Israel.

    — Vamos usar então uma empresa de correios privada. Não se preocupe, eu cobrirei todos os custos.

    — Está bem, Sr. A Moda Antiga — disse ela ironicamente concordando.

    Assim, terminaram com o café e chá, e foram para praia em Herzliya. Lá, conversaram bastante abrindo o livro de suas vidas um para o outro, e o tempo em que passaram juntos foram mágicos para os dois.

    Ele a levou de volta para o apartamento dela em Rosh Haayin. E, ao se despedir saindo do carro, enquanto ainda caminhavam até a porta do prédio, ela o surpreendeu com um beijo apaixonante em sua boca, em que ele nem ao menos teve chance de resistir, apenas pela altura dela, teve que ficar suspenso nas pontas dos pés. Então, ela percebendo o seu desconforto, o puxou ainda o beijando descendo para rua, enquanto ele ainda ficava sobre o paralelepípedo da calçada, dessa forma ele ficou mais alto e ela mais baixa. Esse beijo em que se abraçaram amorosamente, durou por quase dois minutos. Ao terminar ela disse se despedindo:

    — Isso foi apenas o palito de fósforo que acendeu a fogueira no nosso acampamento.

    E assim, ele e ela, Nimi e Einat se encontravam esporadicamente através de cartas que indicavam locais estratégicos como um jogo de RPG. Ela o escrevia cartas amorosas, as desenhando com lápis de cor, ou aquarela, e fazia também colagens de flores e folhas do seu jardim suspenso. Ele a enviava cartas com bombons e flores, sempre ditando os lugares de encontro como o mestre do jogo. Até que um dia, ela recebeu uma encomenda vinda em um carro forte de alta segurança, tendo que dar várias assinaturas nos protocolos de papeis para recebê-la. Parecia-lhe algo extremamente de muito valor financeiro, para vim com aqueles seguranças todos bem armados, com pistolas e escopetas Glock 9mm e .40 S&W. Era uma caixa grande que envolvia outras pequenas caixas, como degraus de escada de caixas sobre caixas. E, ao chegar à última e pequena caixa preta. Encontrou um pequeno papel vermelho, dobrado em quatro partes. E ao abri-lo, viu um número de telefone escrito em tinta negra: 0529516651. De imediato foi a sua bolsa procurando o seu smartphone, e ao achá-lo ligou imediatamente. E ao dizer alô, ouviu uma voz que emocionado perguntava:

    — Quer se casar comigo?

    — Rápido demais, seu moço. Nem ao menos ficamos noivos e você já pensa em casamento.

    Então, ele ao ouvir essa resposta, desligou de imediato o telefone.

    E, ela se desesperou dizendo para si: “Droga! Eu brinco demais com ele, e ele sempre me leva a sério. Apenas só repeti as suas palavras. Droga!”.

    Todavia, enquanto ela tentava ligar para ele novamente, desesperada para lhe dizer: “Sim! Era isso que eu mais desejava desde quando nos conhecemos”. Ela ouviu um toc, toc em sua porta. E abrindo-a, lá estava ele de joelhos com uma caixa de anéis na mão dizendo:

    — Case-se comigo agora Einat, mesmo que seja rápido demais! É que não precisamos mais da fogueira no nosso acampamento. Pois, o sol raiou, e já é dia!

  • De Yom Rishon (domingo) a Yom Hamishi (quinta-feira) — Crônicas do Parque

    Acordou exausto às quatro horas da manhã com o toque de uma suave música de flauta chinesa, em que configurara no aplicativo despertador do seu smartphone. Levantou-se de súbito sentando na cama com os olhos pesados de sono, em que o seu corpo estava a lhe implorar por mais algumas horas de descanso. Aquele momento era-lhe torturante, pronunciou mentalmente algumas palavras de conforto “Seja forte, vamos! Levante-se com o pé direito imediatamente’’. Assim, levantou-se indo caminhando a passos tontos em direção ao banheiro. Fora com a mão ao interruptor, ligou a luz, e seus olhos recebeu um choque luminoso profundo. Deu alguns passos curtos até o lavatório, ligou a torneira ajustando a água para que ficasse morna, juntou as mãos em forma de cuia e banhou o seu rosto, confortando sua alma. Olhou para o espelho, e olho a olho se confrontaram numa vermelhidão sangrenta, ‘’Mas um dia!’’, exclamou para si mesmo. Rapidamente fora até a cozinha, agora com mais energia, e colocará a água do café na chaleira para esquentar, ligou a máquina de moer grãos e foi à sala vestir-se com as roupas do trabalho. Despiu-se das roupas de dormir jogando-as de qualquer forma no sofá, restando no corpo apenas a cueca. Vestiu a calça, apertou o sinto, colocou a camisa, e por último uma toca para cobrir sua longa cabeleira de tranças naturais. Ao término dessa empreitada, a chaleira começou a apitar. Regressara a cozinha, pegara uma xícara e uma colherzinha, e fora a máquina de moer grãos. Colocou duas colheres de café colombiano que comprara na feira de Ramilah, em uma loja de tempero dos árabes, e pegando a chaleira que se encontrava apitando no fogão, despejou lentamente a água fervendo sobre o café moído que se encontrava deitado na xicara, em que prazerosamente inalava o vapor do café que subia envolvendo o seu rosto. Somente naquele momento de pura nostalgia, em que se entregava aquela sensação prazerosamente odorífica, que a angustia da sua correria matinal terminava. Após aqueles segundos de êxtase profundo, voltava a realidade, jogando três folhas secas de sálvia na xícara, misturando com a colherzinha o seu café. Assim, colocou o seu relógio digital waterproof no pulso, e lhe restava apenas trinta minutos para que a vã buzinasse a porta de sua casa para o levar ao seu ofício. Foi ao seu quarto, retirou o seu smartphone do carregador vistoriando para desligar o WI-FI, o Bluetooth e GPS. Fez um Task Killer em um aplicativo de segurança, para maximizar o rendimento da bateria, e o colocou no bolso. Retirou também rapidamente o carregador, enrolando o cabo no adaptador da tomada, e o colocou em um dos bolsos laterais de sua calça de trabalho. Deu um beijo rápido em sua amada esposa que se encontrava dormindo na cama, onde ela sussurrou sonolenta desejando-lhe um bom dia, e dizendo que o amava muito, e que também havia um delicioso bolo no forninho. Fora também a barriga dela e deu outro beijo, pois, esta, se encontrava gravida de cinco meses. Saiu rapidamente onde pegou o seu sapato de trabalho com suas meias no corredor, indo de imediato ao quarto das crianças. Foi a cama de sua filhinha de três anos e meio, deu-lhe um beijo desejando um bom dia, e depois a cama do seu filho de seis anos, que ao lhe dar um beijo, acordou de súbito, dizendo: “Papai eu te amo, fica aqui comigo”. Então, ele lhe disse em resposta: “Tenho que ir trabalhar meu príncipe, mas quando chegar o Papai brinca com você de pirata, Ok! Tenha um bom dia na escolinha”. Rapidamente saíra do quarto das crianças, e foi até a cozinha com uma das mãos segurando os seus sapatos e meias. Com a outra mão pegou a sua xícara de café, e foi até o lado de fora na varanda da sua casa, em que jogou os sapatos e meias no chão, e assentou a xícara numa pequena mesa. Regressa para dentro da casa, olha para o relógio em seu pulso, e apenas lhe restava mais quinze minutos. Fora até o forno e retirou apressado a forma com o bolo de Pereg e chocolate amargo, com cobertura de calda de chocolate branco, que sua esposa lhe fizera na noite anterior. Pegou a faca cortou duas fartas medias fatias, colocou em um pires, pôs uma colherzinha, devolveu a forma com o bolo para o forno, e correu para a varanda. Assentou o pires na mesinha, e apressadamente como de costume colocou suas meias e sapatos, em quanto dava goladas e colheradas no seu café e bolo. Depois de se calçar, enquanto ainda engolia e mastigava, lembrou-se que se esquecerá de molhar as plantas a noite. E olhando para o relógio, viu que apenas lhe restava dois minutos, até o pontual motorista chegar a Rua Rashi 8, no bairro de Oshiot, na cidade de Rehovot. Levantou-se sem pestanejar, pegou o regador, e enchendo de água às pressas molhava as suas plantinhas rezando para que Ohad se atrasasse pelo menos cinco minutos. E assim se deu, quando recebeu uma mensagem de Ohad pelo WhatsApp que iria se atrasar uns dez minutos, devido o caminhão do lixo estar retirando algumas podas de árvore no Tzomet (giratória), que ligava a rua Ya’akobi a Avenida Hertzl. Aliviado, molhara suas plantinhas, terminara seu café, e fizera sua oração meditativa para boa conduta do seu dia de Yom Sheni (segunda-feira) e jornada de trabalho no Parque de Kfar Saba. E este ciclo de bem e mal se repetia de Yom Rishon (domingo) a Yom Hamishi (quinta-feira).
  • DIVINUS ET MUNDANUS

    Livro resenhado:  Divinus et Mundanus

    Autor: Carlos Roberto Fernandes

    Categoria: Poesia

    Resenhista: Drª Onã Silva - A Poetisa do Cuidar

    Sonetos e Trovas – esta dupla de gênero literário marca as páginas do livro Divinus et Mundanus: em ritmo, rimas e riquezas poéticas. A concepção da obra é assim, em duo poético, do início ao fim, escrito explicitamente em português, mas o autor recorre fortemente ao latim, incluindo palavras e expressões da língua latina, em alguns versos – estilizando a literatura que se faz poesia em moldes arquitetônicos do cuidado.

    Contrastes poéticos e oposições estéticas estão nas linhas e nas entrelinhas da obra: o poeta ora poetiza na escola literária do Simbolismo, ora leva os seus versos para a escola do Parnasianismo; transita poeticamente em ambas vertentes literárias que se convergem (ou se divergem na obra?), pois tudo sobressai da verve do autor, em poesia.

    Como simbolista, o autor retrata e enfatiza nas poesias os aspectos religiosos, religiosidades e distintos sentimentos tristes-lúgubres-fatais. Como parnasiano, o autor trabalha os seus versos na linha deste pensar: diversifica e mergulha nas rimas esquadrinhadas, cuidadosamente, na métrica-fonética-estética da liricidade.

    Pode-se dizer que o autor emerge da obra figurativamente como “Arquiteto Poético do cuidado” – expressão derivada do termo por ele cunhado “Arquitetura do Cuidado” – pois ele se mostra como trovador e sonetista, inspirado nas suas reflexões que envolvem os versos em tríade: filosofia, arte e ciência do cuidado.

    Suas inspirações divinas simbolizam-se nos versos > Carlos, Trovador.

    Suas inspirações humanas parnaseiam-se nos sonetos < Carlos, Sonetista.

           Entre as trovas, os versos, os quartetos, os tercetos, os dois se encontram  [o trovador e o sonetista] sendo único e singular poeta, que nasce e renasce na estética do cuidado.

          Trovador et  Sonetista!

          Divina inspiração et Divina inspiratione!



    [1] Carlos Roberto Fernandes é acadêmico da Academia Internacional de Poetas e Escritores de Enfermagem (Academia IPÊ) e ocupa a  Cadeira nº 7 cuja patronesse é a enfermeira Zaíra Cintra Vidal (1903-1997). Suas titulações acadêmicas são: Graduado, Mestre e Doutor em Enfermagem. Atua como professor na Universidade Federal do Espírito Santo. Autor de livros da área de enfermagem, dentre eles: A Ferramenta Cósmica de Narciso; A violência moral na Enfermagem e Fundamentos do processo saúde-doença-cuidado; bem como de obras poéticas (individuais e coletivas). Também é Membro Efetivo da União Brasileira dos Trovadores-Seção Belo Horizonte/MG e da Academia Virtual Brasileira de Letras, cadeira 512, patrono Castro Alves.

    [1] Onã Silva - A Poetisa do Cuidar é escritora, filiada a diversas academias literárias e Presidente da Academia IPÊ. Graduada em Enfermagem e Artes Cênicas, Especialista em Saúde Pública, Mestre em Educação e Doutora. Escreve os seguintes gêneros literários: poesia, romance, crônica, dramaturgia, novela, contos e outros gêneros.  Algumas obras publicadas: A Quadradinha de Gude; Miriã, uma Enfermeira Bambambã; A Derrota de Penina, Histórias da Enfermagem no Universo de Cordel, Enfermagem com Poesia e outras. Recordista pelo RankBrasil Recordes. Premiada em concursos literários e de trabalhos científicos. Idealizadora dos projetos: Academia IPÊ e Enfermagem com Poesia: a arte sensível do cuidar.

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