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literatura,

  • ABSOLUTA DE TAL

    Ando pensando loucuras

    entre as paredes mudas.

    Ando mouco. Mixuruca.

    Mais nulo do que nunca.


    Estou sim sentindo muita

    saudade de você, Absurda.

    E daquela sua língua puta

    lá no centro da minha nuca.

  • Acesso Emocional

    Por Muitas Vezes Questionamos-mos, Em Relação A Nossa Própria Identidade, Fotocopiamos Todas As Imagens E Movimentos Que Vemos, E Fazemos Disso A Nossa Verdade, Atuamos Ao Nível Dos Atores De Televisão, Usamos A Dor Como Uma Forma De Impulsão, Que Nos Permite Alcançar Outros Níveis.
    Passamos De Invisíveis Para Um Pouco Mais Visíveis, Esquecemos A Vida Que Vivemos E Concentramos-mos, Em Aquelas Que Nos Sonhos Temos, Procuramos A Felicidade (A Felicidade) Que Nos Leva A Fama E A Glória, Da Mesma Forma Que Deixamos As Nossas Pegadas Na Areia, Também Queremos Deixar Na História.
  • ACID+NEON VOL.2

    “A neblina se agita rasgada por uma histérica dança de feixes neon. O caos das ruas fomenta a ansiedade nos corações alheios e as malhas sintéticas se energizam ao tocar contra as peles humanas. Não se reconhece mais origens, há apenas especulações sobre o amanhã, assim como reflexos turvos no asfalto molhado e o sol que agora brilha timidamente no horizonte de obscuro. Sob a chuva, lágrimas se misturam ao sangue e o sangue ao fluído.”
    — Fragmentos de Belona, livro I.
    ACID+NEON 2.0 é uma antologia colaborativa multimidiática inspirada no cyberpunk. Produzida pelo Studio Coverge, conta com a participação de mais de 20 artistas e convidados que se unem para criar esse experimento de imersão na cultura da distopia tecnológica. A primeira publicação realizada em 2018 trouxe uma chamada para um universo corrupto e caótico, acompanhado de leituras visuais e sonoras que engrandeciam a experiência.
    Para o segundo volume, ACID+NEON amplia seus horizontes explorando ainda mais o Futuro Próximo, amarrado a intrigas de escala nacional e global, com pitadas de romance, aventura, horror, o bom e velho noir e um toque gótico e clássico do cyberpunk, nos formatos conto, trilha sonora, arte digital e boardgame.
    O lançamento da versão digital (disponibilizada gratuitamente) será no dia 07 de março e a campanha para o Financiamento Coletivo da versão física inicia na metade de março! Siga nossos canais para não perder nada!
  • ACRILIC ON CANVAS

    Quero esse silêncio plácido da manhã temperada

    e levitar entre os cinzas da rocha de céu queimada.

    Pôr o acrílico roxo sobre a linha prata bem acima

    no tripartite da tela: o poeta, o pincel e a cor da tinta.


    Reservo ilhas de branco titânio e de azul da prússia

    na paleta virgem da viagem das cores e de misturas:

    pingo o amarelo vivo que roça sem querer no brilho

    metálico do celeste. Crio verdes vários. Musgo e oliva.


    Miro no tom escondido do matiz do firmamento indefinido.

    Anseio púrpuras sussurrantes. E o fogo dos laranjas infinitos

  • ACÚSTICO

    A manhã fugiu ligeira (tudo foge

    o tempo todo) sob os meus olhos 

    cegos entre a poeira e o comprimido

    que não cura essa doença de infinito.


    Em volta, amplo é o espólio das horas 

    ultrapassadas, estas de quase agora,

    sócias da rede ágil, feito um depósito

    de nuvens sobrecarregadas de ódio.


    O passado é um cofre pesado de névoa.

    E que o verso liberte o poema do poeta.

  • ADVERSATIVAS

    Contudo o meu

    entretanto não

    obstante mas

    é o que trafega

    entre as horas

    atualizadas pelo

    efêmero horizonte.


    Todavia

    o porém

    de hoje

    não é o

    mesmo

    no entanto

    de ontem.

  • Ah como descreve você não sei por onde começar

    Ah como descreve você não sei por onde começar
    só de pensar em você meu coração começa a acelerar
    ah seu olhar forte que me hipnotiza
    seu jeito angelical que me cativa

    seu jeito de princesa
    vi em você
    oque faltava em min
    nosso beijo foi uma sensação maravilhosa

    tentei olhar no dicionario mais não tem palavras
    para te descrever como você merece
    seu jeito carinhoso tímido
    sem demonstrar tanto carinho

    com medo da decepção
    mais prometo que a missão de te fazer feliz e minha
    prometo que amor e carinho nunca vai faltar
    talvez um dia venhamos a nos casar
  • Ah! Essa saudade

    Ah! Essa saudade que hoje trago,
    no meu peito e que me confortas. 
    É mansa igual um lago,
    que levas em tuas águas às folhas mortas. 

    É como o verso sentido,
    que rompes na alma silente...
    Deixando no peito dorido,
    às notas que vibram no sol nascente. 

    Mas vem à dor como o astro,
    soturna, a deixares, teu rastro,
    no vale obscuro do coração. 

    E novamente irei quando anoitecer,
    impetuosa, sentir, me tecer,
    o teu manto na solidão.
  • ALEGRIA

    O dia amanheceu mais triste hoje...

    Sem os pássaros
    Nem o sol apareceu para dar bom dia.

    O dia amanheceu mais triste hoje.
    Não escuto o barulho do mar.
    Nem mesmo a brisa deu o ar da graça.

    O dia amanheceu mais triste hoje...
    Onde estão as fadas? 
    A magia da aurora,  
    a esperança...

    O dia amanheceu mais triste hoje...
    A noite parece não ter pressa de partir. 
    A lua oculta a face num véu.
    Até  mesmo as estrelas não se encontram a brilhar.

    Onde está a gaivota? 
    Só ouço o silêncio e um coração pulsa.
    A natureza se silencia.
    Não há beleza
    Não há poesia.
    Até mesmo o tempo se recusar a passar.

    O dia amanheceu mais triste.
    Perdeu o encanto
    O doce aroma
    A magia.

    A alegria partiu.
    Simplesmente partiu.
    Sem um até logo.
    Um único adeus.
    Sem um até breve.
    Em seu lugar deixou um gota de orvalho,
    Uma lágrima,
    Uma saudade.

  • ALÉM

    Não é 
    coragem 
    é desmazelo 
    essa mania 
    de viver o
    sonho até 
    virar pesadelo.
  • Além do horizonte

    O céu azul
    Refletido ao mar
    Mar que espia o céu
    Meus sonhos coloridos
    No horizonte formando
    Um arco-íris

     
  • ALGARAVIA

    Esbarro nos cinzas mornos da quase primavera

    desta tarde novíssima, ainda repleta de meio-dia,

    e que traz, travestida, aquela suave linha amarela

    ou o bege brilhante do risco do asfalto da Avenida


    Rio Branco. Toco nos monumentos e teço a algaravia

    de versos que se camuflam na fuligem das esquinas

    da Sete de Setembro. No pó do Paço. Na Confeitaria

    Colombo. As veias das ruas pequenas e escondidas.


    Vejo os meninos impuros cheios de pedras na escadaria.

    Um Aterro quase de Lapa. O Rio duplica a minha ferida.

  • Alguém Chamou Por Mim, Enquanto Chuvia

    Alguém Chamou Por Mim, Enquanto Chuvia

    Terras molhadas, quase desabadas. Lá chuvia e muito chuvia. Sem capa de chuva, sem guarda chuva, sem quaisquer protetor, sem nada. Eu vinha caminhando apanhando toda aquela chuva. Ouvi um grito suavemente chamando por mim. Naquela enorme chuva sem trovoadas, quem seria? Contudo não hesitei olhei para atrás, era uma bela criatura do divino Deus.

    Fazia-me o sinal pela janela de seu carro perguntando se eu estaria louco. Porém, eu me perguntava o por quê. Quando olhei para todos os lados, era o único caminhando debaixo daquela chuva.

    Fez-me o sinal para eu ir até ela. Fui. Pediu que eu entrasse em seu carro, tentei hesitar, pois estava todo molhado. Implorou olhando nos meus olhos, por isso não resisti. Vivia muito distante daí. Levou-me em sua casa para quando a chuva parar, eu ir.

    Não podia ficar com aquela roupa. Tirei-a, ofereceu-me uma toalha e estendi a minha roupa molhada.

    Nossa! Ela tinha uma casa bastante grande naqual acomodava-se sozinha. Tomei um banho, não havia vestementa para me vestir. Tive que ficar de toalha em quanto esperava a minha roupa secar. Fiquei em seu quarto, enquanto ela tomava seu banho.

    Como ela era linda demais. Estava com o seu álbum de fotos sem permissão dela, sentado em sua cama. A sua beleza espanta qualquer um homem. Ouvi barulho de alguém abrindo a porta mas não liguei, continuei olhando para as suas fotos.

    Depois de alguns instantes levantei o meu rosto sorridente pelo efeito de sua beleza. Soltei uma gargalhada, apanhei um susto e ela o mesmo. Nem um de nós sabia que um estava no quarto. Talvez ela entrara quando ouvi aquele barulho mas não liguei. Fechei logo os olhos porque ela estava dispida. Pediu que eu saísse do quarto mesmo de toalha.

    Levantei-me mesmo com as mãos no rosto, fui em direcção a porta para puder abrí-la, só que ela tivera fechado. Enquanto ela abria, pediu-me que eu continuasse com os olhos vendados porque a toalha dela estava muito distante e ela queria que eu saísse logo daí. Estava dispida. Em um descuido, a minha toalha foi pro chão. O que faria? Ela havia notado. Nos entreolhamos, cansou-se de abrir a porta e botou-se logo para os meus braços. Não resisti aqueles olhares de desejo. Começamos a nos beijar, fomos para a cama, era tão doce os seus lábios.

    Fizemos amor com o barulho daquela enorme chuva que dava o clima ardente. Depois de tudo, pegamos o sono. Ela nos meus braços. Quando acordei, ela já não estava mais lá. Fui na janela espreitar, ainda caía gotas de água que a grande chuva acabara de deixar. Olhei bem para o quarto e não acreditei. Estava no meu próprio quarto. Tudo isso não passou de um sonho enquanto chuvia. Dei um sorriso e me atirei na cama. Voltei a dormir novamente. Quem sabe teria mais um (?).

    ...................................................
    Conto
    Escrito por: El Master Pedro
    Inspirado por: Pedro Imbi

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

  • Alguém de cabeça para baixo

    ... gosto de me elevar em pensamentos, e me perder em teologia do Grande Criador, fraco estou em dizer Teu Nome, indigno em cada traço das minhas digitais... me sentindo alegre em escutar uma nova música de um compositor onde admiro bastante, Tiago Arrais (Os Arrais), e em uma música certamente abarrotada de histórias de sua vida, ou apenas de um momento de tensão, uma frase, um eco me castiga sem parar, um eco de apenas uma das frases, e assim diz, suave e ardente, "nós fugimos de nossa real condição", e a música continuava a tocar, e eu nao parava de ouvir apenas esta frase, e ainda ecoa nesse momento que me jogo nessas palavras... costumamos dizer que Deus é gigante, inalcançável, impossível de se conhecer de perto, onde defendi essa bandeira com força e estufar de peito, tomo uma chacoalhada, um empurrão e um sussurro tão alto que quase fiquei surdo, que por não reconhecer, e correr da minha condição esqueço da humildade de um Ser, que Se coloca como homem, que expõe sua vontade, e se deixa ser Chamado por causa das Suas ações, pois tudo que Ele diz, acontece/ou Ele faz, tudo em um tempo que Salomão entendeu... e esse eco musical me surra, sem parar, meu interior se esmaga, meu coração fica do tamanho de uma azeitona, fico extremamente sem ação, apenas dois dedos se movimentam e parece que nao posso mais piscar, a boca não abre, e eu sou detonado por meu maior adversário, o meu próprio eu... Deus é muito real, e eu prefiro correr, Deus é simples eu complico, Deus é perfeito e eu procuro brechas para que eu possa cair em nome D'ele, onde vai parar a minha condição... onde vai parar um ser tão pequeno que até para o pecado precisa do ar Daquele que abomina a iniquidade... de alguma forma ajuda-me Santo de Israel, para que eu possa avisar de Ti a outros...
  • Alguém de cabeça para baixo

    ...modifiquem o que pode, e se adapte, não aos padrão estabelecidos, mas naquilo que é princípio da sua felicidade, claro, isso eu digo na relação social individual, pois no eco da nossa mente que estronda nosso coração em sentido a Deus, sao caminhos difíceis e doloridos, espinhos, facas, cortes, cicatrizes, isso é viver em liberdade diante Daquele que sabe o que é bom... mas o que quero dizer com tudo isso, simplesmente é a base de intensidade que deve ser colocado em sua vida, se estabeleça na felicidade, se guie na importância da sua existência, não perca, por favor não se perca de vista, nao se abandone... tem que ser traçado um caminho, faça suas escolhas, faça decisões, caminhe, se vista de sua vida e personalidade... o deserto alcança todos, o Mestre que aqui trilhou passou por isso, mas Ele optou por ser intenso, e ser concreto na trilha que tinha em sua coração, somos os próximos diante da decisão, ou se responsabilizar e caminhar por conta própria, sem ligar pra qual a consequência de uma possível continuação desta vida, ou podemos optar pelo caminho do maior Professor da existência, pois o Próprio nos deixou um certo dizer, aquele que quer ganhar sua vida perdê-la-á e aquele que perde a sua vida achá-la-á... e nas entrelinhas, nao esqueça, de um importante detalhe, que de alguma forma é gigante e importante, não perca essa parte da existência...
  • ALIEN

     
    A beleza é só mais uma ilusão:
    outra forma de dominar o ser,
    encaNcerando-o numa prisão,
    ainda que pelo próprio prazer...




    © do Autor, IN: Concursos literários do Piauí. Teresina, Fundação Cultural do Piauí, 2005. 226 p. Página 177.



  • ALMA INQUIETA (soneto)

    Quem o cerrado dirá à alma inquieta no vazio?
    De tortos em tortos galhos queixas soltas no ar
    De estrelas em estrelas o pensamento a voar
    Num calafrio, recolhido e só, eu, aqui sombrio...

    Ergo os sonhos do chão seco, do pó a jorrar
    Jorro angústias murchas do peito sem feitio
    Cheio de desagrado, de pecado. E mal gentio
    Que saudade doída! - Recordação sem paladar.

    Pra purificar a sensação, um coração piegas
    Livre da ingratidão, livre da trava indiferença
    Onde, em perpétua quimera, devaneio cativo

    Não posso então ter na ilusão as tais regras
    E tão pouco nas lembranças cética crença
    Amor e esperança vivem no cárcere que vivo!

    © Luciano Spagnol
    poeta do cerrado
    Outubro, 2018
    Cerrado goiano
    Olavobilaquiando
  • Almoço fast-food

    Seu Alcides entrou no flat desviando o olhar, um tanto quando encabulado, e carregando uma maletinha dessas de executivo. Tirou um envelope do bolso e agitou com a mão. “Olá baby…pode deixar isso aí em cima da mesinha.” “Oi….boa tarde…..posso ir no banheiro?” “Claro, fica ali.” Ele abriu a maletinha e tirou dois saquinhos zip locks. “Você pode vestir isso?” “Adoro fantasias amor. Tenho vários brinquedinhos aqui também.” Seu Alcides entrou no banheiro e abriu sua maletinha como um estojo de figurino. Antes de qualquer coisa tirou a aliança, colocou num saquinho zip lock desses pequenos e guardou a jóia no bolso de dentro do paletó. Pegou dois cabides, um para pendurar o terno e a calça e outro para a camisa e a gravata. Se despiu com cuidado para não amassar a roupa, removeu as toalhas de dois suportes que estavam atrás da porta, entulhou-as no terceiro e pendurou seus cabides com cuidado. Olhou no espelho, ergueu as mão para o céu e fez uma oração. Então começou a se preparar. Primeiro se maquiou espalhafatosamente. Batom, lápis no olho e pó de arroz. Em seguida colocou uma calcinha com cinta liga, meia três quartos e uma saia. Vestiu uma camisetinha branca apertada, um lenço no pescoço e saiu do banheiro carregando um consolo numa mão e um tubo de ky na outra. Sheilla já estava preparada deitada na cama. Usava um vestido preto, de mangas compridas, um pouco acima do joelho e uma meia calça. No peito um pequeno crucifixo de metal, um véu preto com elástico branco na cabeça e um chicotinho de couro na mão.
    Aquela putaria toda na hora do almoço fazia Seu Alcides se sentir o Deus do mundo. Sem nenhum minuto de atraso, e sem nenhuma suspeita, às 13:30 em ponto ele estava sentado em sua sala no escritório contábil Estoril. Eram uma dúzia de mesas alinhadas no terceiro andar do edifício Mega Rich Tower. Cada uma com um computador, um telefone e quilos de papéis espalhados. De acordo com o senso comum estabelecido por ele quem não está focado no um, e/ou falando com alguém no dois, está enrolando. Depois de duas dezenas de anos dedicados à causa Seu Alcides era o dono da razão e da empresa. Sua conduta de legalista e implacável faziam dele o monstro mais temível de todo universo para quem dependia de sua benção para continuar pagando as contas no fim do mês. Sempre chegava meia hora antes que os funcionários de manhã e achava que quem cobrava o pagamento de hora extra não dava o devido valor ao emprego. Era sempre o último a sair. “Dona Suzana, com o rendimento que o seu departamento teve nos últimos dias o que a Senhora vai falar na reunião sobre produtividade?” Tudo que Suzana entendia era que estava no bico do corvo. “Esse mês está difícil, muitas empresas estão fechando Seu Alcides. Quase ninguém alcançou as metas.” Nos ouvidos de Seu Alcides isso soava como desculpa de aleijado é muleta.  “E se dependermos de pessoas com o pensamento da Senhora nós seremos os próximos. A Senhora já perdeu sete clientes este mês e repôs apenas um. Preciso de mais trabalho e menos desculpas. Cobre mais de sua equipe e se esforce mais também.” Na sua cartilha isso significava faça mais do que deve e se sinta feliz por isso. “Sim, senhor.” Suzana saiu com a certeza de que em breve seria uma desempregada.
    Enquanto revisava alguns relatórios Seu Alcides relembrava das cenas do encontro com a madre superiora. Calculando quanto da piroca de Sheilla que ele conseguiu enfiar na boca concluiu que ela devia ter pelo menos 20cm. Era a maior piroca que ele já tinha visto. Os peitões dela eram uma delícia e não tinham gosto de plástico como os da Lana, nem eram caídos e moles como os da Gabrielle. Se sair com o mesmo travesti duas vezes não fosse tão arriscado para sua reputação Seu Alcides com certeza voltaria no flat da Sheilla de novo no fim da tarde. Seus pensamentos foram interrompidos pelo telefone. “Sim, Dona Luiza.” “O Dr. Ricardo está na linha dois.” “Pode passar.” “Seu Alcides?” “Boa tarde, Dr. Ricardo.” “Boa tarde, como está o Senhor?” “Estou bem, e o Senhor?” “Também, obrigado. Seu Alcides, eu não recebi as guias de recolhimento de impostos desse mês. O Senhor sabe como gosto de manter tudo organizado por aqui, e já é dia 12. Transferi o dinheiro no dia 5 como todo mês mas as guias não chegaram. O Senhor pode ver isso para mim?” “Claro que sim. Desculpe-nos, isso não pode acontecer.” Cinco minutos depois Paulo estava tremendo como vara verde na frente do chefe. “Mas Seu Paulo, como assim essas guias se perderam? Isso não existe.” “Desculpe Seu Alcides, talvez o office boy tenha esquecido elas no caixa do banco ou o caixa esqueceu de entregar para ele. Já solicitamos as segundas vias e até amanhã deve estar tudo com o Dr. Ricardo. Eu também já conversei com ele.” “Conversou o que, Senhor Paulo? Então porque ele me ligou?” “........” “De qual você está falando? Daquele novo que vem trabalhar de boné e bermuda?” “Sim, senhor.” “Diga para esse moleque que qualquer hora dessas eu vou fazer ele ter que esquecer de vir trabalhar.”
    Toda vez que ele se mexia na cadeira, e uma dorzinha na bunda lembrava Seu Alcides daquela pirocar enorme entrando e saindo freneticamente, seu pau ficava duro como uma pedra. Com medo de dar algum sinal de prazer, ele encarava Dona Luiza com um desprezo que beirava o insulto enquanto ela falava. “Aqui estão os relatórios de produtividade que o Senhor pediu da Suzana e do Paulo. A Dona Ana já está sob aviso no RH também e pediu para avisar que é melhor esperar o período de experiência do office boy acabar para mandar ele embora.” “Só isso, Dona Luiza?” “A Dona Kátia mandou pedir para Senhor passar na padaria e pegar umas coisas pro lanche antes de ir para casa, e de pegar pão integral para o Jorginho. Ela também mandou avisar que chamou o sogro e a sogra do Senhor para o lanche, para o Senhor não chegar tarde.” “Pelo amor de Deus Dona Luiza, é só isso?” “Sim, Senhor.” “Então pode ir. Até amanhã.” Já passava das 20h quando Suzana passou na sala dele e avisou que era a última a sair.
  • Amadureça

    No peito leva os bons momentos
    Não que tenha esquecido das feridas
    Apenas deixou cicatrizar com o tempo
    E decidiu receber da vida as coisas mais bonitas

    Sente falta das conversas, risadas, briguinhas
    Das noites acordada, dos conselhos dados e recebidos
    Um novo rumo tomou a sua vida
    Novos sonhos, novas vontades, novos amigos

    Olha só, o gosto para tudo mudou
    Mudou dos pés à cabeça
    A vida realmente transformou
    Antes confusa, hoje pessoa de certezas

    No fundo do olhar vai ver um pouco de antes
    Talvez reconheça, talvez conheça
    A vida tem desses tempos marcantes
    Possa ser uma forma de fazer com que amadureça
  • Amanhã, bem de manhã!

    Amanhã, bem de manhã,
    Uma visita vou fazer,
    Pra você lembrar de mim.
    Vou levar por meu prazer,
    Algo assim, como uma flor
    Pra que tudo tenha um fim.
    Vou falar do meu amor,
    E a você pedir um sim.
    Meu carinho oferecer,
    pra nunca mais me deixar.
    Ver de novo o sol nascer,
    Num abraço me deitar,
    E na areia molhadinha,
    Deixar os passos ficar,
    Nunca mais estar sozinha,
    E com você muito amar.
  • AMARRADO NO POSTE

    Sob as exéquias da manhã temperada que anuncia

    — na fumaça branca da nuvem — que a curva da via

    se dividirá na camuflagem dos ponteiros do meio-dia

    e de todo o hectare das horas que ornam o súbito vazio


    do adro no relógio de chumbo das onze e cinquenta e cinco.

    Ouço os cães da avenida no tremor dos bêbados assíduos

    dos botequins e do álcool forte que a amargura destila.

    Caio nos hiatos assimétricos da calçada. Sinto a alma fria


    feito um cano de pistola; feito o sangue de uma harpia.

    Suspiro na minha overdose de mágoas de coisas antigas

    que insistem no roxo das veias e no raso d'água das vistas. 

    Subo a passarela sozinho. Fito o horizonte. E sobre a linha


    férrea não insisto no desejo de seguir adiante nessa vida.

    Paro no poste. Fumo. E pergunto: por que estou aqui ainda?

  • AMBROSIA

    Dentro de você

    mostro as senhas

    e pelo avesso eu viro

    as roupas do infinito.


    Dentro de você

    contorço o tempo

    e só importa o sino

    alto do seu gemido.


    Dentro de você

    eu sou eu mesmo

    encarnado nesse sorriso

    de ser seu fim e seu início.


    Dentro de você

    sou lá do Olimpo

    — morro mil vezes.

    E duas mil ressuscito.

  • AMOR ARDENTE II

    Essa noite meu amor
    Faremos uma grande festa só para nós dois
    Sem nos importar com o que vira depois
    Nem o que possa ser tristeza e dor
     
    Cavalgaremos entre nuvens de algodão
    Explorando todas as nossas fantasias
    E entre uma taça e outra de champanhe uma poesia
    Para colorir tua emoção
     
    Deixaremos apenas os anjos nos olhar
    E o amor brotar como uma fonte no deserto
    É bem melhor que não haja ninguém por perto
    Para que a nossa felicidade não possa atrapalhar
     
    A felicidade nos unirá ainda mais
    E no céu dois pontos cardeais
    Como nós dois se entrelaçaram
     
    Os anjos darão a nós dois seu consentimento
    Para que sob o firmamento
    Se consuma de uma vez por todas nossa união
     
    Assim amanhã fartos de prazer
    Possamos outra vez nos entender
    Num quarto, dois amante e um só coração.
  • Análise do Conto “Antes do baile verde “, de Lygia Fagundes Telles

    INTRODUÇÃO
    Analisar é o principal método para se compreender um assunto, essa importância se constitui um saber de grande relevância na interpretação. Através desse recurso é possível caminhar a um grau de conhecimento mais elevado. Sendo assim, nosso objetivo é encaminhar o leitor a esse alvo. Neste trabalho encontra-se o desígnio de meditar sobre o conto “Antes do baile verde”, decompondo-o em pequenas partes, partindo do seu processo de construção e destacando os cinco principais elementos que o compõe, sendo eles: o enredo, as personagens, o tempo, o espaço e o tipo de narrador, finalizando com a opinião crítica.
    Os elementos mencionados, receberão destaques quanto suas localizações e características, com objetivo de contribuir a um saber literário. O propósito é alcançar e abranger um nível mais profundo de compreensão através do exercício de examinar o texto. Espera-se que após o término destas páginas o ensaio aqui proposto possa ter sua finalidade alcançada.
    ELEMENTOS DA NARRATIVA
    Enredo – O Conto “Antes do baile verde “, trata de uma preparação para um imperdível baile. Tatisa, a dona da casa, e sua empregada Lu conversam e se preparam para brincar o carnaval. Porém, no quarto ao lado, o pai de Tatisa sofre isolado a ânsia da morte. Estes dois fatos, a expectativa da festa e a expectativa da morte, produzem grande tensão. À medida em que a tensão aumenta, revela o drama em que o cômico se mistura com trágico percebidos nos índices metafóricos na fala de Tatisa “(...) meu sangue está fervendo!” (p.76). Percebe-se uma plurissignificação pois, sede e calor aqui estão fortemente relacionados com a opressão gerada pelos dois fatos: a festa e a morte. Lu sem entender completamente a situação da colega questiona-a “(...) mas você está quase nua!” (p.75).  Sem saber que o problema da amiga era mais psicológico do que físico. A concentração se passa principalmente no quarto, local onde praticamente toda trama é desenvolvida.
    PERSONAGENS
    Personagens principais – Tatisa, a dona da casa, personagem de característica plana que luta com um dos maiores gigantes, que é consigo mesma procurando fugir da realidade. Em torno dela, o narrador focaliza toda trama, ela é a personagem protagonista. Sabe-se também que era fumante por uma destas afirmações da personagem” Você pegou meu cigarro?” (p.78). Lu, personagem plana, é quem presencia todo o drama vivido por sua patroa. Procura adiantar o máximo que pode na confecção da fantasia de Tatisa com quem dialoga.
    Socialmente pode-se dizer que Lu possuía poucas posses em relação à Tatisa pois, sua função de empregada a classifica com menos poder aquisitivo. O vício de fumar era comum a ambas, percebe-se no diálogo entre elas” Você pegou meu cigarro? Tenho minha marca, não preciso dos seus (p.78). E também deficiente visual “Estou sem óculos, não enxergo direito sem os óculos” (p.74).
    O pai de Tatisa, que estava enfermo, seu nome não é mencionado no conto e é o responsável (indiretamente) por grande parte da tensão de sua filha. Pela descrição que pelo narrador fornece é que sua tensão não deveria ser inferior à da filha porém, antagonicamente. O texto diz que ele estava no quarto ao lado e ao ouvir toda a murmuração da filha dizendo que ele poderia morrer outro dia, mas não no dia do baile! Acrescido a isso, a tentativa de conseguir outra pessoa para ficar com ele, é bem agonizante presenciar isto de um filho. 
    Outras Personagens – aparecem no texto mas, não possuem nenhuma relevância. Raimundo, o namorado de Lu - os meninos que cantavam e gritavam - o médico - um bando de meninos que brincavam na calçada e um homem - que passou vestido de mulher.
    O TEMPO
    Embora não esteja marcado diretamente por horas e outros subsídios dessa natureza é possível afirmar que o conto “Antes do baile verde“, apresenta uma ordem cronológica pelos acontecimentos sucessivos e o desfeche da história. A duração está subentendido que foram algumas horas de um mesmo dia. Alguns índices são percebidos na fala de Lu “(...) Não posso perder o desfile Tatisa! (...) ás dez em ponto ele vem buscar!” (p.71-72), entre essas e outras expressões como: (fica hoje!), (esta noite), (se atrasar, ainda hoje apanho!) (p. 78-80), mostra-nos que a diegese se compreende em um mesmo dia. Temos neste conto “Antes do baile verde” uma Isocronia, pois a fábula acompanha o mesmo tempo da narração.
    ORDEM
    “(...) você já se enganou uma vez, lembra?” (p. 75). Nessa fala de Tatisa temos uma acronia. “(...) No outro carnaval entrei num bloco sujo e me divertia grande” (p. 76). Sabe-se que foi em um carnaval, porém não é possível delimitar quando portanto, podemos afirmar que houve uma analepse externa acrônica. “(...) No ano passado ele ficou de porre os três dias, fui sozinha ao desfile” (p. 77).
    Analepse externa encontramos nessa citação na fala de Lu pois, ela retoma um acontecimento do ano passado que está registrado antes do início do conto (diegese). Características também do tempo psicológico. E, Tatisa interrompe metaforicamente “(...) e eu na cama podre de gripe!” (p. 76).
    Está presente no conto “Antes do baile verde” num tempo histórico social, o carnaval. Conhecida como uma das maiores festas comemorada pela sociedade. As características carnavalescas juntamente com os preparativos para um baile em que as fantasias deveriam ser verdes e Tatisa estava tão caracterizada que até seu biquini era verde.
    AMBIENTE - a preocupação com a festa deixou o ambiente descuidado pois, o quarto estava como que um ladrão tivesse o saqueado e, em nenhum momento é mencionado à preocupação em arrumá-lo “O quarto estava revolvido como se um ladrão tivesse passado por ali e despejado caixas e gavetas” (p. 72).
    RELIGIÃO – diretamente, o conto não menciona mas, em uma das falas de Lu                 (a empregada) percebe-se o emprego do espaço utópico. A crença em um ser Divino capaz de fazer milagre, “(...) - Que é que posso fazer? Não sou Deus, sou?” (p. 76). Em contrapartida, Tatisa vive o drama do espaço atópico, o contraste entre a ansiedade e a realidade lhe proporciona situações maléficas.” O que está me endoidando é este calor, não agüento mais, tenho a imprensão de que estou derretendo, você não sente?” (p. 74).
    Na fala de Tatisa, “(...) Vamos rápido, não pare, dessa forma irei me atrasar” (p. 74). Constata-se a tensão e o desejo que a ornamentação estivesse pronta para o baile. Expressões iguais e semelhantes a esta estão constantemente presente no conto dando-lhe essa característica.
    NARRADOR - O conto é narrado em terceira pessoa e o narrador é ausente absoluto dos fatos, não possui nenhum envolvimento na condição de personagem, apenas narra suas percepções e são características do narrador heterodiegético.
    OPINIÃO CRÍTICA
    O carnaval é uma festa dos sentidos. Pessoas dedicam o ano inteiro para se desbaldarem em apenas alguns dias. Essa comemoração é tão importante para Tatisa a ponto de a emoção tomar conta da razão. Nem mesmo a grande possibilidade de seu pai vir a óbito a sensibiliza para mudar de idéia. Ao contrário disto, procura a todo instante achar em si mesma, respostas que a exima da culpa em deixar seu pai só. Sendo assim, distribui culpas a diversas personagens.
    Aquele médico miserável. Tudo culpa daquela bicha. Eu bem disse que não podia ficar com ele aqui em casa, eu disse que não sei tratar de doente, não tenho jeito, não posso! Se você fosse boazinha, você me ajudava, mas você não passa de uma egoísta, uma chata que não quer saber de nada. Sua egoísta! (...) ele viveu sessenta e seis anos. Não podia viver mais um dia? (p.78-79).
    E por fim decide ir ao baile independente de conseqüências que poderia sofrer, em seguida, age friamente abandonando o pai solitário! “(...) Rolaram pela escada algumas lantejoulas verdes na mesma direção, como se quisessem alcançá-las” (p. 82). As lantejoulas se assemelham com a personagem Tatisa que busca razões para se autojustificar, porém em vão.
    Edgar Allan Poe na sua obra Poemas e Ensaios, expõe sua arquitetura e forma, que o levou a selecionar cada partícula que haveria culminar em um dos mais belos poemas já apresentados, “O corvo “. Um de seus elementos selecionados foi a morte e explica o porquê desta escolha
    Então, jamais perdendo de vista o objetivo – o superlativo ou a perfeição em todos os pontos -, perguntei-me: “De todos os temas melancólicos, qual, segundo a compreensão universal da humanidade, é o mais melancólico?” A Morte – foi a resposta evidente. “E quando”, insisti, “esse mais melancólico dos temas se torna o mais poético?” (POE, Edgar Allan. Poemas e Ensaios.Trad. Oscar Mendes e Milton Amado. São Paulo: Globo, 1993. 3. ed. Revista p.16). 
    A autora do conto “Antes do Baile Verde” Lygia Fagundes Telles, expressa essa marca encontrada em POE, usando também este tema melancólico, a morte. Em vários contos de sua autoria o assunto morte possui grande significação com expressão textual exemplo: em “A caçada“ o homem passa de caçador a caçado e morre com a seta disparada pelo caçador; em “As cerejas” a notícia da morte do menino Marcelo é recebido pela madrinha que friamente não se importa; em “Venha ver o pôr-do-sol” o clima funesto (o cemitério) seguido da prevista morte de Raquel presa na catatumba; e em “Antes do baile verde” a  agonizante tensão e expectativa da morte do pai de Tatisa. Esse tema lutuoso dá uma concatenação importantíssima encaminhando o leitor na ficção que, em muitas vezes, ocorre a verossimilhança.
    Referências Bibliográficas
    APOSTILA, Teoria da Literatura I, turma XVII - Unir – campus de Vilhena –RO, 2009.
    GANCHO. Cândida Vilares. Como analisar narrativas. São Paulo: Ática ,2006.
    MASSAUD, MOISÉS. A criação literária – Prosa. São Paulo: Cultrix, 1988.
    PROENÇA FILHO, Domício. A linguagem literária. São Paulo: Ática, 1999.
    SANT’ANNA, Afonso Romano de. Paródia, Paráfrase & Cia. São Paulo: Ática, 2004. 
    TELLES, Lygia Fagundes. Venha ver o pôr-do-sol e outros contos. Ática: 2008. (Coleção Boa Prosa)
                                             
               
  • Ando lendo muitos livros ultimamente

    Uma árvore pega fogo
    E
    Dois párias se matam em um bar enquanto eu leio um livro
    Nada acontece pelas próximas duas páginas
    Mesmo assim me convenço que não é a aposta que torna a vida suportável
    Um gato é atropelado
    E vento solar atinge o polo norte criando uma aurora boreal
    Nada acontece na próxima página
    Mudo a posição das pernas, é tudo que eu faço
    Agora estão esticadas


    As pessoas caminham e tentam não pisar nas minhas pernas
    Enquanto isso uma mãe golfinho dá à luz pela primeira vez
    E algum artista cria uma música lendária que nunca será gravada
    Estamos perto de descobrir quem é o assassino
    Viro mais uma página
    O sinal bate
    Mais uma geleira se parte formando um iceberg
    O livro acaba
    Olho para o teto e penso
    Que seres ridículos nós somos
    Um velho morre na Pensilvânia
    Fecho os olhos e seguro um grito de agonia.
     

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