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  • À Noite

    Tarde virá à noite e este céu,
    azul que vês este risonho...
    Céu há de cobri-lo o seu negro véu,
    cobri-lo, deixando-o tristonho. 

    Como ele, há de ficares, tu que já ouviste,
    merencório às notas do lamento...
    Entoar no peito triste,
    melodias que lhe traz o vento. 

    Nesta estrada em que andas,vão os sonhos,
    vem às mágoas, e os medonhos 
    pensamentos que ecoam como um grito...

    Se dispersam como às brumas n'alvorada,
    ante o canto matinal da passarada,
    e o astro que despontas no infinito.
  • A nova onda cyberpunk

    Diferente do que afirmam os críticos, a morte do cyberpunk foi anunciada com certos exageros. O pós-cyberpunk, movimento no qual a tecnologia e a sinergia entre homens e máquinas é considerada algo possível, ao menos até o momento continua sendo uma utopia cibernética e não uma realidade concreta. A alta tecnologia e a baixa qualidade de vida é algo muito mais palpável. O cyberpunk não cria ilusões, revela fatos diários.
                Quando a Darda Editora se propôs a explorar esse subgênero da ficção científica, o mundo e a liberdade criativa para criar histórias nessa realidade foi imensa, e também envolvente. No total, oito autores foram selecionados. Já conheço até o trabalho de alguns deles, pois já fui seus colegas em outras antologias. Recomendo esse livro pelas novas abordagens, dramáticas e catárticas nesse livro.
                O primeiro conto é escrito pela Aline Cristina Moreira, e se chama Ilusões. Esse texto nos mostra como a tecnologia é muito frágil para substituir as relações humanas, cada vez mais artificiais. Não posso falar mais, senão correrei o risco de revelar o final da história. Foi uma leitura assustadora.
                O segundo conto é o meu, Assalto ao Banco Genoma, um hacker baiano recebe uma bolada em criptomoedas para assaltar um banco de registro de DNA para um nobre europeu. Mas enquanto ele invade o BG, uma força tarefa chega ao seu quartel general. Não gosto muito de comentar meus próprios contos, mas eu fiquei muito satisfeito com esse aqui.
                O conto do Cesar Luis Theis, o Nuances da cyber-sociedade, a alta tecnologia tem o mesmo status de uma droga, pois o seu uso é viciante, gera dependência e problemas psíquicos no seu usuário. Foi o trabalho mais coeso, com começo, meio e fim bem claros. Ficou muito nítido em qual mundo a narrativa se desenvolvia, o conflito entre hacker e máquina foi sensacional, usando xadrez como plataforma de combate. Melhor conto.
                Sangue e circuitos de Fabiana Prieto trouxe uma narrativa deja vú, a história parece se repetir em seu final, se tornando um anticlímax. Pareceu mais um prólogo de um romance do que um conto, ao menos me pareceu assim. O conto tem uma ótima ambientação, e se peca pelos personagens com pouca personalidade, a autora tem um ótimo argumento em mãos para desenvolver uma prosa maior.
                Jonnata Henrique é um dos poetas e contistas mais prolíficos que conheci, e um dos mais talentosos também. A história de O setor 469 também tem um ótimo cenário, uma típica distopia com um plano de fundo cyberpunk. Depois de uma Terceira Guerra Mundial, a população diminui para metade e ocorre a chipagem dos seres humanos. O setor 469 usa um programa de testes de robôs militares, e para isso, usa presidiários. Apesar do conceito ser instigante, a obra é muito curta, e termina com muitas pontas soltas. Careceu de um melhor desenvolvimento.
                Fuga na Cidade de Neon de Rafael Danesin trouxe a narrativa mais dinâmica e final mais aterrador da coletânea. Joh Haarp (que devido a flexão de dois gêneros não tive certeza se era um homem ou mulher) está fugindo de sua crio-prisão. Como um lobo solitário fugindo dos caçadores, o fugitivo causa um grande estrago na cidade, sempre com tiradas satíricas e sagacidade.
                Suellen Silva traz Vida de Cão. A história é simples, tem um cão-robô como protagonista. O cyberpunk é um gênero permeado pelo conflito entre o homem e tecnologia, o indivíduo e a sociedade, corporações umas contra as outras. Trazer esse conflito através de um novo olhar nos tira da zona de conforto.
                Fantasy and Dreams é o conto do Tauã de Lima Verdan Rangel, e fecha a antologia. Confesso que de todos esse foi o conto que eu menos gostei. Embora ele seja o de maior quantidade de páginas, não em pareceu que ela foi desenvolvida muito bem. A narrativa em primeira pessoa deixou vários pontos em branco. Personagens foram citados como numa lista de supermercado, mas não tiverem desenvolvimento de personalidade ou ações claras na trama. Outro conto que parece um prólogo de uma narrativa maior.
                Esse é o meu primeiro livro publicado com a editora, não sei porque, mas o livro demorou muito para ser editado. O livro tem apenas oito contos, eu sempre espero que a antologia tenha no mínimo cem páginas, esse é o maior pecado da antologia. A diagramação do livro não está ruim, mas uma segunda edição necessitará de uma melhor revisão, me pareceu que o livro foi editado às pressas, mesmo com cinco meses de produção e apenas 60 páginas. Inclusive eu achei que eles mudariam a capa, ele não instiga muito a leitura. O livro te orelhas, marcador de página exclusivo. Miolo em papel offset 70, capa papel cartão 200. Se você quer acompanhar mais um dos meus trabalhos ou se você gosta mesmo de cyberpunk o livro é sua pedida.
    Para adquirir o livro cesse aqui:
    https://www.dardalivraria.com.br/9143094-Antologia-Cibernetica
  • A paixão como eterno crime culposo

    Poucos livros conseguiram abordar as relações conflituosas no casamento como A Guerra Conjugal, do escritor curitibano Dalton Trevisan. Os contos reproduzem os papéis e o psicológico de muitos casais. Com objetividade, humor negro e uso de metáforas, seus textos transmitem uma valoração naturalista da união entre homem e mulher.
                Em todos os contos, dois personagens se fazem presentes, João e Maria, por si só uma ironia do autor, pois nos remetem a famosa história dos Irmãos Grimms. Lembrando o Star System usado em obras de mangá, como as de Osamu Tezuka. Assim a visão do leitor se volta para as ações dos personagens e a influência do meio em que vivem. Isso foi essencial para que sua narração direta não ficasse vaga durante a leitura.
                Sua narrativa sintética não impediu a construção de personagens redondos, algo bastante difícil numa narrativa tão árida. O casal onipresente, ao longo dos diversos contos apresenta inúmeras facetas. Em algumas histórias João é um homem passivo com os atos de Maria, seja na infidelidade ou sendo violentado pela mesma. Em outras ele é o carrasco, trata Maria com indiferença, torturando-a ou a trai com um amante.
                Maria por sua vez, vai de uma dominadora até uma escrava sexual. Muitas vezes a esposa usa dos seus dotes físicos para obter do marido ganhos materiais, ou exceder na lascívia e ser perdoada. Em alguns contos, no entanto, Maria sofre horrores ao se casar com João. Os fetiches do cônjuge ferem não apenas o corpo de Maria, mas também o seu orgulho, ao ponto de em uma das histórias, João colocar o amante para viver sobre o mesmo teto.
                Outros personagens constantes em todo o livro são os filhos. Apresentam-se sempre como vítimas do malfadado casamento entre João e Maria. As famílias crescem desestruturadas. Se o casal ganha em algum aspecto, os filhos saem perdendo, tanto na saúde, paz, lazer etc.
                João e Maria constituem o arquétipo de casamento feliz que inexiste por vários motivos apresentados no livro: As paixões e o instinto sempre acabam interferindo na união conjugal, o casamento formado por interesses materiais impedem qualquer desenvolvimento sentimental, a idealização do casamento encobre as motivações dos conjugues, o casamento também é feito de conflitos. Muitos outros motivos são apresentados no decorrer do livro, o que acaba tornando as situações absurdas, porém reais.
                Sua experiência como advogado deve ter ajudado a formar os cenários dos contos, muitos deles lembram o gênero policial, os finais sempre imprevisíveis e abruptos deixam o leitor desconcertado. A escrita rica de Dalton Trevisan impressiona pelos artifícios que usa nos seus textos, por exemplo, o gore em alguns contos deixam as suas histórias bastante sombrias. A dependência física de alguns personagens sejam eles João ou Maria, dá o parecer de que a paixão é uma droga, e o casamento um ritual para o seu uso.
                Com a falta de descrição dos personagens, pois são tão comuns que mesmo o leitor (a) poderia ser um deles (as), o que nos resta é nos atentar ao cenário. Por vezes a imundície dos antros, e mesmo nos personagens, é o que mais impressiona. Ficamos sem entender porque homens tão asquerosos acabam seduzindo as belas Marias? E horrorosas mulheres os valorosos João? Talvez a resposta esteja na imposição do casamento pela moral vigente.
                Algo notável nos escritos de A Guerra Conjugal é o uso de metáforas seja para encobrir ou codificar conteúdo erótico, tornando as passagens por vezes fantasiosas e em outras até poéticas. Vide o seguinte trecho do conto Quarto de Horrores: “Em pé na cama, inteiramente despido, João soprava a flautinha de bamba... Olhos vidrados, descobertas as vergonhas, girava à sua roda, ora aos pulos, ora de cócoras...”; outro conto com uma bela metáfora é A Normalista: “Sobre a cabeceira a imagem da santa e ali na cômoda a manada de elefantes vermelhos do bem grande ao menor, sempre de trombas para a parede...”. O foco da narrativa é o psicológico dos personagens que são transmitidos através das suas ações nem sempre louváveis. A um clima de demência nas relações “afetuosas” dos personagens que lembram o filme Psicose.
                Outra consideração a sua precisa narrativa é o uso de elementos sensoriais. Chegam a se tornar sensitiva as coisas simples do dia a dia como o amargo do café, o frio do sereno, o penacho de um cardeal ganha não apenas forma, mas total sensibilidade através das palavras de Dalton. Para histórias tão conflituosas, esse uso de elementos sensoriais acaba por diminuir o clima pesado da narrativa.
                A Guerra Conjugal mostrou que o casamento não passa de uma idealização extravagante de uma moral piegas. Nos contos do livro ninguém consegue se realizar na instituição falida que se tornou o casamento, seja ele civil, no religioso ou as uniões estáveis. Muito disso devido à interferência de outrem, e do que cada João e Maria espera receber, e não doar em prol do outro.
  • A Pianista

    Não sei por que. Mas estava lá. 
    Parado.
    Em minhas mãos um folheto com os hinos do dia.
    Não sabia nenhuma música e não estava afim de cantar. Muito menos ler.
    O grupo era pequeno. Tinha no máximo dez pessoas. Sendo a maioria jovens como eu, e os velhos eram bem velhos. 
    A pessoa que mais me chamava atenção era a pianista. Caroline, esse era seu nome. Se não me engano.
    Caroline 
    Caroline
    Sempre tocou piano. Ganhou prêmios por isso. Tocava com sua alma, sentia cada tecla bater em seu coração. Suas belas mãos pálidas tocavam gentilmente cada nota.
    Todos ali ajoelhados. Ouvindo e admirando, louvando e glorificando ao som daquela maravilhosa pianista.
    Lá estava ela. Com seu cabelo preto amarrado num coque bagunçado pela ventania que estava aquele dia. Provavelmente iria chover.
    Sua camisa azul de bolinhas vermelhas estava com as mangas dobradas até a altura do cotovelo, usa uma saia rodada preta, que ia até o joelho. Calça uma sapatilha bege, mas insistia dizer que aquilo era nude. 
    Ela vinha para a igreja caminhando, fazia isso todo domingo, eu sempre a via passar em frente de casa. Nunca atrasava- se.
    Sempre adiantada.
    Chegava na igreja antes de todos. Apenas para limpar o piano. Instrumento antigo. Amigo antigo. Lugar onde ela sempre tocara sua divina melodia.
    Todos a cumprimentam. Vão chegando aos poucos.
    Ela sorri. Sorriso atraente.
    Seus olhos escuros se encaixavam perfeitamente com seu belo rosto pálido e fino. Olhar sereno. 
    Caminha com serenidade, transborda calmaria e paz. Continua sorrindo.
    Passa a missa toda assim, com aquele semblante de boa moça. Garota adorável. Sorriso doce.
    A missa é curta.
    Após tocar oito hinos, tudo acaba.
    O padre termina a missa como todas as outras.
    Palavra da salvação. Todos respondem e levantam-se como se não vissem a hora de ir embora.
    Caroline faz reverência ao seu público, concluía com um sinal da cruz e um aceno para alguém da multidão 
    Fecha o piano. Com extremo cuidado, cuida como se fosse um filho. Após isso se reúne ao resto do grupo de canto. Beijos na bochecha e abraços. Sorrisos e risadas.
    Todos a cumprimentam.
    - Foi uma ótima missa, não achou Otávio? – ela diz. Sua voz era macia, como a de um anjo, suave e calma, como o piano que acabara de tocar.
    - Não sei, na verdade, parecem todas iguais para mim – respondo.
    Ela sorri. 
    Aquele sorriso inesquecível. 
    Fiz amizade com ela havia algumas semanas. Ela notou meu interesse em tocar algum instrumento. Me ofereceu algumas aulas, recusei algumas vezes, sem motivo algum. E sem motivo algum aceitei naquele dia.
    Sua volta para casa era, como a ida à igreja. Todos a cumprimentam. Sorrisos. Acenos. Ela sorri. E acena. Uma, duas, três vezes. E repete. 
    Sorriso lindo.
    Sua casa é verde, com enormes portões cinzas. Ainda morava com seus pais. Mesmo tendo seus vinte e poucos anos, continuava indecisa sobre o que faria da vida. Sem sonhos. Sem futuro planejado. Sem namorado. Acreditava não ter sorte para arrumar um. Não imagina a beleza que tem.
    Venta muito. Segura sua saia para que não levante. Dizia para eu não olhar caso isso acontecesse.
    Caminhamos rápido para que não fossemos pegos de surpresa pela chuva que não veio.
    Uma casa bem grande. Daria duas da minha facilmente. Tinha sala de jantar. Sala de estar. Sala de recreação. Sala de lazer. Suíte. Cozinha. E outros tipos de salas. 
    Ela pede para que eu espere na sala. Sento numa poltrona de couro. Desconfortável no início. Mas com o tempo ficou aconchegante. Não há televisão naquela sala. E nem nas outras. 
    Apenas retratos. E mais retratos. Alguns quadros também. 
    Em um dos retratos vejo sua mãe. É bonita como ela. Ouvi histórias que diziam que a mãe dela havia fugido com um vizinho, e deixara Caroline com o pai, que por sinal não estava em nenhuma foto ali. E também, não estava na casa.
    Ela demora.
    Decido então fazer passeio pela casa. 
    São dois andares. 
    No de baixo, temos as salas a cozinha que é bem espaçosa, não tem mesa, pois a mesma fica na sala de jantar ao lado. Na cozinha, tem apenas os armários que cobrem todas as paredes do lado direito, tem também a geladeira e o fogão.
    Uma escada em espiral fica no meio da sala de recreação. Subo-a.
    A escada dá de encontro com um corredor. Extenso corredor. 
    A primeira porta é branca, giro a maçaneta e a abro. Dentro encontro uma cama de casal com vários travesseiros. Doze no mínimo. Um enorme guarda roupa, vai do chão ao teto, engolindo a parede. Um cheiro forte de colônia toma conta do ar. Deve ser o quarto do pai dela.
    A segunda porta, é marrom, lisa. Abro-a. É apenas o quarto de tralhas, coisas que não usam mais. Haviam diversos instrumentos quebrado.
    Nesse corredor havia mais cinco portas. Mas logo na terceira, era o quarto dela.
    Um enjoativo odor adocicado toma conta do meu nariz instantaneamente. A porta está meio aberta. Ouço o som do rádio.
    Entro.
    Ela estava lá. 
    Caroline
    Caroline
    Usando apenas a camisa e uma calcinha azul com rendas. Suas pernas brancas chamavam minha atenção, ela as balança conforme o ritmo da música. 
    O ranger da porta a pega de surpresa, dá um pulo de leve e se vira, colocando a mão sobre o peito. Posso ver o volume de seus mamilos sob a camisa. Ela solta a escova de cabelo.
    O quarto é delicado como ela. Haviam inúmeros instrumentos por ali. Violões. Guitarras. Flautas. Trompete. E muitos outros.
    No canto, por ironia, está um teclado todo empoeirado. Abandonado.
    Ela sorri.
    No centro do quarto está sua cama. Grande. Muito grande.
    Ela sorri.
    Passeio pelo quarto, encaro o espelho do guarda roupa, estou arrumado, bonito.
    Sorrio.
    Um raio de sol que entra de penetra desviando da cortina lilás, paira sobre o teclado empoeirado. Um punhado de poeira dança na faixa de luz solar. Passo meu dedo, bem devagar sobre as teclas, daria para ouvir um som decrescente, se o teclado estivesse ligado. Ou com bateria. 
    Não entendo de teclado.
    Olho para Caroline. Parece não se importar. Aquele devia ter sido seu primeiro instrumento. Abandonou-o. Pergunto o porquê disso. 
    O motivo de tê-lo deixado de lado.
    - Cansei dele. – Ela diz, Sorriso.
    Cansou dele. 
    Todo o tempo que haviam passado juntos não contava mais.
    Sorrio para ela.
    Pressiono uma tecla. Não faz som. 
    Está sem bateria ou desligado. Não entendo de teclado.
    Abaixo na altura dele. Assopro. Uma nuvem de poeira se espalha pelo quarto.
    Ela desabotoa um botão.
    Coloca as duas mãos sobre o instrumento.
    Você não se importa mais com ele, pergunto esperando que ela me dê uma resposta positiva.
    - Sim, mas ele está velho, não serve mais para mim. – Ela diz. Mordiscando o lábio inferior e sorri.
    Não era a resposta que eu queria ouvir. 
    Desabotoa outro botão. 
    A porta range com o vento leve que entra pela janela. A cortina balança. Com um pouco de esforço levanto o teclado de sua base.
    - O que está fazendo. – Ela pergunta. 
    Sorrio.
    Sua camisa está quase toda aberta. Com o passo que ela dá, posso ver seu seio balançar. Vem em minha direção. 
    Sorrio. Ela não. 
    Levanto aqueles aproximadamente dez quilos acima do ombro, e então a golpeio no rosto.
    O golpe não é forte o suficiente para desmaia-la.
    Ela apenas cai e põe a mão sobre a boca. 
    Posso ver seu seio. Sangue pinga no chão de piso branco. 
    Meus braços pesam. Já estão cansados. Caminho por alguns centímetros arrastando o teclado. 
    Ela chora. 
    O sangue escorre de sua boca e pinga sobre seu mamilo marrom. Escorre por ele e pinga em sua barriga, e logo é absorvido pelo tecido da camisa de bolinhas.
    Não sei por que fiz. Apenas senti vontade.
    E então a saciei.
    Com muito esforço, ergo o teclado novamente. E a golpeio de novo. Um golpe contra sua cabeça.
    Ao tentar se proteger ela acaba quebrando o pulso. Som que posso ouvir com clareza. 
    Ela chora. Urra de dor.
    Ergo o teclado novamente.
    Então solto contra ela. 
    Ergo o teclado. Mais um golpe.
    Peças se soltam.
    Sangue espirra.
    Ergo o teclado. Mais um golpe.
    Ela não se move.
    Meus braços doem. Estou ofegante e soado.
    Suas pernas brancas estão sujas com seu sangue. Ela agora tem um motivo para não tocar o teclado. Seu pulso está roxo e inchado.
    Silêncio.
    Paro em frente ao espelho. Arrumo minha gravata. Bonito.
    Por sorte as gostas de sangue não são aparentes em meu terno.
    Olho para ela. Não está mais tão bonita. 
    Tristeza.
    Seu rosto, com o nariz quebrado e faltando alguns dentes, está coberto de sangue. Seu cabelo está molhado por uma poça enorme de seu sangue. 
    Deve ter encontrado a paz.
    Desço a escada. A cafeteira apita. Sirvo um pouco de café. Caminho pela sala. Observo novamente as fotos e quadros. 
    Seu pai não está ali. Sua mãe continua sorrindo. 
    Muito linda. Se Caroline tivesse ido embora com ela. Nada disso teria acontecido
  • A Pianista (parte I- Um anjo musical)

    Caro leitor, a história que lhe contarei agora é repleta de...
     
    O som das notas tocadas e as teclas de um piano pressionadas com  suavidade, como  um anjo a voar, emanaram em meu ser. Era ela tocando, não apenas o primeiro movimento dramático da 5ª sinfonia de Beethoven, mas o meu coração. Enquanto ouvia suas suaves mãos cor de neve passeando no campo harmônico de Dó menor, podia sentir meu coração ardendo em chamas. O que faria? Entraria na sala em que ela estava concentrada a tocar e lhe falaria tudo quanto sinto? Que a amo? Que sonho com ela? Não podia. 
     
    Todas as manhãs de terça e sexta, na Royal College of Music, nas aulas de Teoria Musical consigo enxergá-la nas cadeiras da frente, com seus cabelos ruivos, lisos. Seus olhos azuis, como que compondo as tonalidades de uma aurora da manhã. Sua pele alva como a neve. Queria tocar-lhe os lábios, sentir sua pele e percorrer os labirintos de sua indomável mente. Três semanas se passaram desde que a vi pela primeira vez, era como ver um anjo. Naquele momento acreditei na existência de anjos. Sua beleza era estonteante, incomparável. Quando comecei a frequentar as mesmas aulas que ela percebi que não era apenas uma beleza incomum que tinha, mas um intelecto digno dos grandes nomes da renascença. Fazia jus ao seu sobrenome. Olhares eram trocados entre nós, mesmo que rápidos. Não tive coragem de trocar uma só palavra desde que a vi pela primeira vez, até o sorteio de equipes para o primeiro projeto que faríamos. Foram sorteadas equipes com três alunos e anunciadas pelo professor Paul Salvatore. No anúncio da segunda equipe, senti um frio no estômago, um frio de alegria.

    -Para a segunda equipe teremos Bianca Delius, Charlie Corelli - disse o professor Salvatore olhando pra mim - e Elena Botticelli.
     

    Ao ouvir o nome de Elena Botticelli, pigarreei involuntariamente. Lá estava ela, bem perto de mim, Elena Botticelli, a pianista que me levou a saber harmonicamente o que é o amor. Só então percebi a chance que tinha de falar-lhe algo, devia falar algo. Todos os alunos se juntaram com suas equipes. Quando cheguei perto de Elena, decidi falar. Decidi criar coragem. Falei...










  • A PORTA TRANCADA

    Enola podia perceber a agitação entre as amigas, os cochichos, os risos contidos, mas os olhares eram na direção do casarão.
    - Então meninas, por que estão tão animadas?
    - Oh Enola, que bom vê-la esta manhã - Sorri Ingrid. - Não sabe ainda que o casarão foi vendido?
    - Sim, todo mundo sabe. Algum ricaço misterioso o comprou a mais de um mês.
    - Pois estão, o ricaço misterioso chegou esta manhã, ainda estão trazendo seus pertences em carroções.
    - E o que tem de mais?
    - O que tem de mais minha querida é que o ricaço é jovem e... bonito, muito bonito.
    - Logo a dona ricaça deve chegar também.
    - Acho que não Enola, papai disse que ele é viúvo e que veio de Ohio. Um jovem e rico viúvo e... sem filhos.
    - Então quem sabe alguma de vocês desencalha.
    - Isso seria um sonho, nunca vi a mansão por dentro e há anos não aparecia um comprador. Papai disse que ele nem pechinchou. Apenas pagou e disse que logo se mudaria. A propósito, seu nome é Liam.
    - Isso vai render uma ótima comissão a seu pai, eu espero.
    - É verdade, talvez ele me compre o vestido para o baile da senhora Hilton.
    As demais moças ainda fitavam a mansão na esperança de rever o distinto cavaleiro. Enola retornou para seus afazeres, levando as compras para casa.
    Duas semanas passaram-se sem que Enola conhecesse o cobiçado jovem mas, os comentários na cidade eram sempre sobre ele. Como seus olhos claros pareciam com o céu ou, sobre como seus cabelos castanho-claros eram como o de um anjo ou ainda sobre como sua face bela e alva era como a de um príncipe saído dos contos de fadas.
    Na noite do baile em que toda a elite da cidade estava reunida sob o mesmo luxuoso teto, Enola servia os convidados de sua senhora. Ingrid e as amigas mais abastadas da cidade pareciam procurar por alguém entre os demais convidados, recusavam-se a dançar com os costumeiros rapazes. Elas estavam cansadas de serem cortejadas por filhos de barbeiros, padeiros ou pequenos comerciantes. No entanto, quando o jovem de olhos azul anil adentrou o salão da senhora Hilton, seus olhos pousaram primeiramente em Enola, que servia chá ao doutor Swenson, o velho médico quase cego que pigarreava sem parar.
    - Boa noite senhorita.
    - Boa noite meu senhor. Chá?
    - Somente se me chamar de Liam.
    Os olhos de Enola se erguem para vislumbrar o príncipe encantado descrito pela moças repetidamente.
    - Está bem meu se... quer dizer, Liam.
    Enola o serve e os olhos das demais damas solteiras e até das casadas estão sobre eles.
    - Então o senhor é o novo proprietário da antiga mansão dos Costello?
    - Sim, sim. Me mudei a cerca de duas semanas. E... a senhorita mora aqui?
    - Não, quem me dera. Moro com minha mãe a alguns quarteirões ao norte daqui.
    - E o que sua mãe faz?
    - Ela também era serviçal da senhora Hilton mas ela adoeceu e sente muitas dores nas juntas então eu tomei seu lugar.
    - E o seu pai?
    - Bem, papai faleceu quando eu ainda era pequena.
    - Lamento.
    - Mais chá?
    - Não, não, obrigado.
    - Desculpe o atrevimento mas, alguém já lhe disse que você tem um rosto angelical?
    Enola apenas ri, meio sem jeito.
    - Gostaria de conhecer a mansão? É um lugar muito grande e eu mesmo ainda não a conheço direito, talvez pudesse me ajudar, ainda tenho muitas coisas para desembrulhar.
    - Seria uma honra meu se... quer dizer, Liam.
    - Então lhe espero amanhã para o almoço e depois você me ajuda com minhas bugigangas. Eu pagarei um bom preço.
    - Está certo, estarei lá para ajudá-lo, mas o almoço é desnecessário Liam.
    - Deixe disso, eu faço questão. Afinal, onde estão os modos dos cavaleiros de hoje? Você é minha convidada.
    - Sendo assim, está bem.
    Enola serviu os demais convidados mas, seus pensamentos estavam em Liam. Que rapaz adorável!
    As invejosas viraram a cara para Enola pelo resto da noite, pois Liam não falou com ninguém mais a não ser Enola e a anfitriã da festa. Outras sorriram para Enola, como Ingrid, Berta e Lilian que embora fossem de famílias tradicionais da região tinham em Enola uma amiga e confidente.
    Enola visitou Liam no dia seguinte, uma refeição finamente preparada os aguardava e o cheiro era apetitoso. A casa tinha apenas uma governanta com sotaque alemão e cara de general, dois cachorros que ficavam correndo pelo quintal mas, jamais adentravam as portas do casarão. Enola e Liam desembrulharam alguns objetos de decoração aparentemente antigos, conversaram e riram bastante. No fim do dia, Liam pagou generosamente a encantada jovem mais que o dobro do que um dia de serviço árduo valeria.
    - Enola, queria agradecer sua companhia, você é uma jovem fascinante.
    - Obrigada. Você é um cavaleiro Liam. Se precisar de alguém para limpar os cômodos, de vez em quando, pode me chamar.
    - Na verdade o que preciso não é de apenas mais uma serviçal, embora precise de algumas, é verdade. Henriet não dará conta de tudo sozinha. Mas... estava pensando em algo como uma companheira.
    Enola não sabia o que responder mas era nítida sua emoção com o comentário.
    - Então, será que eu teria a permissão de sua mãe para cortejá-la e... claro se for de sua vontade também.
    - Claro Liam, mamãe não poria empecilhos para um homem tão distinto e educado.
    - Está certo! Você não sabe como me deixou feliz, Enola.
    Três meses se passam até que o casamento de Liam e Enola leve toda a cidade a igreja matriz. Até o prefeito estava presente, dos mais nobres aos mais simples, todos participaram do banquete ofertado em comemoração. Enola e Liam estavam felizes e apaixonados.
    Durante semanas a festa de casamento era assunto na cidade. Enola não precisava mais trabalhar, ainda assim assumia as tarefas de manter o casarão arrumado e limpo. A governanta Henriet às vezes parecia ser a dona da casa, usando de seu tom autoritário e Enola a empregada . A moça não se importava, fôra submissa a vida toda e além do mais, ela não conseguia ficar parada.
    - Henriet, percebi que esta porta sempre está trancada, o que há aqui?
    - Nada. O patrão trancou-a com ordens de que não seja aberta. Apenas ele tem a chave. Achei que ele já lhe tivesse dito.
    - Não, ele não disse nada.
    - Deve ter se esquecido. Ele é um homem muito ocupado. O que você queria neste cômodo?
    - Nada. Apenas estava tirando o pó dos móveis e esta sala está trancada. Apenas isso.
    Henriet apenas olha Enola, com seu tom de superioridade e retira-se sem dizer mais nada. Enola permanece cabisbaixa no meio da sala e decide que vai visitar sua mãe. Precisa tomar um ar. Enquanto está se arrumando para sair, Liam chega em casa:
    - Onde pensa que vai?
    - Vou visitar minha mãe. Estou com saudades. Quer vir comigo?
    - Não posso, estou muito atarefado e... você não deve andar por aí sozinha.
    - Não seja bobo querido, conheço todos na cidade, eu ficarei b...
    - Eu disse que você não deve andar sozinha. Em outras palavras, você fica!
    - Mas eu precis...
    - Quem decide o que você precisa ou não fazer, sou eu!
    - Henriet! Henriet!
    - Sim?
    - Enola está proibida de sair de casa sem minha expressa permissão. Está claro?
    - Sim senhor.
    Alguns dias se passam e Liam quase não para em casa. Enola se vê solitária e começa a questionar sua decisão de ter-se casado com seu príncipe encantado. Henriet vigiava todas as ações da moça.
    - Estas chaves não abrem essa porta, já lhe disse que apenas o patrão tem a chave.
    - Se não há nada de errado com esta sala, qual o problema de eu vê-la?
    - A curiosidade matou o gato, já diz o ditado. Fique longe desta porta!
    A noite quando Liam chegou em casa, Enola questionou-o sobre a misteriosa sala:
    - Meu bem, por que uma das salas está sempre trancada?
    - Apenas alguns pertences meus, coisas pessoais.
    - Mas, são pessoais até para mim?
    - Sim. Para qualquer um.
    - Eu não entendo o que pode haver de tão...
    Um tapa rápido e certeiro queima o rosto de Enola que é atirada contra a cama pela violência do golpe.
    - Eu já disse. Não gosto de ter que repetir as coisas nem de ser contrariado.
    O cheiro da bebida misturado ao perfume barato pode ser percebido, assim como as manchas de batom na camisa branca.
    As lágrimas correm pelo rosto de Enola enquanto ela continua pasma com o que acabou de acontecer. Liam deixa o quarto e não retorna pelo resto da noite. Enola fica sozinha com seus lamentos.
    No dia seguinte Liam retorna mais cedo com um buquê de flores coloridas.
    - Ontem... bem ontem, gostaria que esquecesse isso. Não vai se repetir.
    - Desculpas aceitas, se é isso que você está tentando dizer. - Enola responde cheirando suas flores de perfume adocicado.
    - Sendo assim, poderíamos nos recolher mais cedo esta noite. O que acha?
    - Gostaria muito de poder visitar minha mãe, ela já não estava nada bem no dia do nosso casamento, depois disso nunca mais a vi.
    - Ah, é verdade, esqueci de lhe contar. Sua mãe faleceu há dois dias. O enterro foi ontem. Que cabeça a minha!
    - O que?
    - Pois é, como são as coisas, não é?
    As lágrimas descem pelo rosto de Enola mais uma vez com o sabor amargo da perda de sua amada mãe aliada a raiva pela displicência ultrajante do marido.
    Liam agarra-a pelos cabelos e arrasta-a para o quarto. Henriet ouve de longe os pedidos de socorro e choro de Enola enquanto seu patrão consegue o que quer a força.
    Ainda bem cedo, de madrugada, Enola levanta-se da cama, o marido tem os olhos fechados, sorrateiramente ela intenta fugir da mansão que tornou-se sua prisão. Assim que deixa o quarto ela corre até a grande porta que está trancada. Ela procura e encontra o molho de chaves em cima da mesa de centro da sala-de-estar. Enquanto procura a chave certa que lhe dará a liberdade, um ranger de dobradiças lentamente permeia o ambiente. A porta que sempre estivera trancada é a única aberta em toda a casa. Enola hesita por apenas um instante, então ela segue até a porta semi-aberta, adentra a sala, fecha novamente a porta e acende a luz. O que ela vê a deixa aterrorizada. Sobre uma mesa colonial, esmeradamente trabalhada estão seis recipientes de um vidro muito grosso e pesado, várias cabeças de mulheres, mergulhadas em um líquido transparente.
    - Mas o que é isso? - Ela diz para si mesma horrorizada e amedrontada.
    - São minhas ex-mulheres! Se é o que quer saber! - Liam fecha a porta atrás de si. - Era um bom motivo para não querer você bisbilhotando aqui não acha?
    - O que e... por que?
    - Na verdade, não sei dizer, apenas faço o que gosto e eu... gosto disso. A propósito, o próximo vidro é seu, já coloquei até seu nome nele. Vai ficar muito bonita na minha coleção.
    - Você é um monstro! Seis esposas que você matou!
    - Não, não. Não me julgue mal, apenas quatro são minhas, Samantha, Verônica, Julliet, Cloe e agora você, Enola. Sinta-se honrada! As outras duas são do meu pai.
    Henriet abre a porta e entra.
    - Henriet, Henriet, por favor me ajude! Sei que você não gosta de mim, mas não pode me deixar morrer assim.
    - Na verdade meu nome é Klauss. - Henriet retira a peruca loira para revelar uma cabeça calva. - E essas duas são minhas. Está é Leonnore, minha ex-esposa e esta é a verdadeira Henriet, minha governanta e amante. Quando Leonnore descobriu nosso caso, acabei logo com as duas. Eu não sabia mas Liam, quer dizer, Aldric, assistiu a tudo. Não o culpo por ter tomado gosto pela coisa, afinal ele tinha apenas sete anos.
    - Está bem papai, apresentações feitas, vamos para o que interessa. Minha querida Enola, foi bom... na verdade não foi não, enjoei muito rápido de você.
    Liam, ou melhor Aldric, abre uma caixa de madeira e retira um enorme machado.

    É uma manhã fria e cinzenta. Em frente a mansão uma comitiva de carroças carrega a mudança do ilustre jovem que parte da cidade com sua esposa e a governanta, seus dois cães e várias caixas que são colocadas cuidadosamente na charrete junto com Liam e Henriet. Ingrid vai até a charrete para se despedir de Enola.
    - Bom dia senhor Liam, vocês estão de partida?
    - Sim minha jovem, negócios no Iowa, precisamos nos mudar, seu pai pode arranjar um novo comprador, estou colocando a venda.
    - Certamente papai pode cuidar disso. Posso me despedir da minha amiga?
    - Sinto muito, mas ela não quer falar com ninguém. Ainda está muito abalada com a perda da mãe.
    - Estranho ela não ter ido nem mesmo ao velório da mãe.
    - Ela não tem se sentido bem nestes últimos dias, queira nos desculpar, estamos de partida.
    - Claro, queira me perdoar.
    A comitiva começa a andar, Ingrid dá apenas um adeus, esperando que a amiga esteja vendo-a.
    - Adeus Enola.

    Um jovem distinto adentra a farmácia.
    - Bom dia.
    - Bom dia senhor.
    - Charles. Meu nome é Charles.
    - O que o senhor precisa senhor Charles.
    - Senhor não, por favor, apenas Charles.
    - Tudo bem Charles, do que você precisa?
    - Na verdade, preciso de formol e... preciso conversar, acabei de me mudar para cá vindo do Wisconsin. É sempre tão quente aqui na California?
    - Boa parte do ano é sim.
    A moça estende a mão.
    - Muito prazer, meu nome é Abigail.
    - Abigail, o prazer é todo meu.
    - Você mudou para cá com sua família?
    - Não, apenas eu e meu assessor particular, o senhor George.
    - E um cavaleiro tão distinto quanto o senhor não tem uma esposa?
    - Infelizmente fiquei viúvo ainda muito cedo. A tuberculose é cruel.
    - Oh, sinto muito.
    - Eu estava pensando Abigail, se depois que terminar tudo por aqui hoje, se você não gostaria de fazer um passeio comigo, me mostrar a região?
    - Está bem, eu saio às cinco.
    - Te pego aqui às cinco então.
    O galante senhor Charles vai deixando a loja, mas antes de sair:
    - Me desculpe o atrevimento mas, alguém já lhe disse que você tem um rosto angelical?


  • A posse é o túmulo do desejo

    É incontestável o excitante sabor do desejo, do desafio de se conquistar alguém. Mas por que digo isso? Por que eu a vi, de novo, na rua e mais uma vez não pude deixar de observa-la atentamente. Tórridos olhares, fulminantes e que me deixam extasiado. Ela deve ter o que falta em mim. Falta algo em mim que não sei exatamente o quê. A falta é o motor do desejo, dizem os entendidos, impelindo-nos a continuar vivendo. Enquanto houver esta falta continuamos buscando algo mais, como faço neste momento, ávido por conhecê-la, tomá-la em meus braços. Quem sabe está nela o que me falta? Esta falta me congela, me absorve. Corro o risco de sofrer, é verdade, mas acho que o que traz dor não é o amor - é a falta dele. Você agora deve estar pensando, "isso é carência afetiva". Talvez. Acho que é mais que isso. Deve ser uma neurose obsessiva, querer projetar-me a ti, digo; a ela. Simples paixão, carnal, dirá você também, que está lendo estas linhas. Não. É algo mais. Já dura algumas semanas. Acho que é amor, misturado com curiosidade, mistério, atração pelo desconhecido, neste caso - desconhecida.
    Não creio em processos químicos cerebrais, deve ser algo mais profundo, superior... Partindo desta premissa às vezes chego a uma conclusão precipitada; de que ela tem o que me falta, embora eu não saiba exatamente o que é. Mas se ela é alguém tão imprevisível por que a desejo? Saio na rua a sua procura e quando não a vejo volto pra casa amargurado. Às vezes penso que ela é tão selvagem! Assim vou colecionando fantasias na minha mente, de como ela é ou deve ser, o que pensa, seus desejos, suas aspirações, suas razões. Gostaria de conhecê-la melhor antes de me apaixonar, mas... Por mais terrível que possa parecer já estou apaixonado. Terrível porque eu deveria me apaixonar por suas características reais e não fantasiosas, delírios que vagueiam na minha cabeça. Algo nela atiça a minha fantasia, deliberadamente. Que sofrimento! Talvez eu tenha uma grande decepção quando tomar coragem de abordá-la e essa paixão (que muitos chamariam de tola) e todas as minhas fantasias caírem por terra. No outro dia quando acordar sentirei um vazio; a paixão acabou. Por que ela mudou? Ou melhor, o que mudou em mim?
    Busco nela uma chama que na realidade é apenas um reflexo daquilo que ela projeta em mim. Encontrar-me nela, é realmente o que eu quero? Mas qual é o seu nome? Sinceramente eu não sei. Seja Maria, Ana ou Teresa, o que importa isso? Esta mulher, até então desconhecida, é uma necessidade imaginária. Andei refletindo que se eu não a tenho não corro o risco de perdê-la. Olha que coisa maluca! Mas que não deixa de ser um raciocínio lógico.
    Afinal, a posse é mesmo o túmulo do desejo? Na análise freudiana o desejo sempre acaba quando tomamos posse daquilo que desejamos. Isso faz todo o sentido, sobretudo quando ardentemente, eu acrescentaria. Com sofreguidão, como é o meu caso. Na verdade, é isso mesmo. O desejo pode até durar para sempre, o que desaparece é aquele propósito, a paixão por aquilo que se busca alcançar. E esse sentimento é que aflige, decepciona, nos derruba. Entendemos assim o que é esse mistério, o mistério do desejo, que nos transforma em pessoas indiscutivelmente predestinadas a correr sempre atrás de algo novo, um novo desejo, uma nova razão para pulsar, viver.
    Como diria Oscar Wilde "a melhor maneira de se livrar de uma tentação é ceder à ela." É isso aí! Pegar logo essa guria! Sapecar-lhe alguns beijos molhados. Agarrá-la com firmeza e depois de um mês de volúpia certamente verei que o paraíso não era bem o paraíso.
    Concluindo este raciocínio, a posse, sendo o túmulo do desejo, este ao morrer, elimina o prazer. Mas enfim, eu não estou sozinho nesta. As pessoas canalizam seus esforços para o prazer, de forma hedonista, buscando assim, de maneira confusa, e irrefletidamente, o alvo do prazer, o insensato desejo, a sedução, o delírio, a conquista, enfim... Vícios, na verdade. Ansiamos avidamente por algo até que o consigamos. Agimos assim com as coisas, agimos assim com as pessoas, infelizmente.
    Estou quase tomando uma decisão, acho que a mais sensata. Tê-la apenas na minha imaginação, e a imaginação, convenhamos, é algo insofismável. Sim, não se deve por em dúvida, o imaginário é mágico, milagroso, não há explicação racional. Assim, preservarei o objeto da minha adoração. Representá-la em minha mente da maneira que me aprouver. Cultuá-la no meu silêncio mudo. Vê-la e senti-la em gostosas imagens, excitantes visões, beijos ardentes, excitantes carícias, sussurros, juras de amor, numa multiplicidade de sentidos, sexual também - especialmente - se é isto que você pensou. Tê-la todinha só pra mim, que beleza! Ainda que seja só no plano mental, mas e daí? Recorrendo à Sartre, segundo sua concepção; "o imaginário é uma resposta à angustia existencial negativa da passagem do tempo." Agora atentem para esta citação de Víctor Hugo: "A imaginação é a inteligência em ereção, enquanto que a razão é a inteligência em exercício.” Já sabem qual é a minha opção? Claro que fico com a imaginação. Além do que, temo que toda essa magia perca o encanto ao conhecê-la. Assim evitaria muitas coisas desagradáveis, quais sejam; amargura, decepções, e vai por aí afora...
    Quanto a esta minha exposição os conservadores talvez dirão: “Não há nada que se compare ao objeto real, o que existe somente na imaginação nunca prevalece, é imponderável”, enquanto os ultramodernos por sua vez: “Nada se compara ao objeto imaginário, tudo aquilo que pertence ao mundo da imaginação é o que conta”. Então, com qual dessas proposições você fica? Quanto a mim, decerto que fico com os ultramodernos.
    Mas você já parou pra pensar que muitas vezes certas pessoas são interessantes apenas na nossa imaginação, e que a partir do momento que elas passam a ter vida própria tornam-se aos nossos olhos insignificantes?
    Na minha imaginação ela é perfeita! E ponto final.
    *******
    Edir Araujo, poeta (marginal, pois não segue nenhum padrão pré-estabelecido) e escritor independente, sem vínculo com qualquer editora. Autor dos romances psicológicos "A Passagem dos Cometas" (2ª edição revisada), "Boneca de Pano", "Risos e Lágrimas" e "Fulana". Escrevendo mais 2 livros (na gaveta, "amadurecendo"). Eclético, tem grande diversidade de poemas, crônicas, microcontos, artigos, resenhas, dispersos em jornais, blogs e sites pela internet ad eathernum.
  • A Promessa

    Altas horas da madrugada. Jogo a mochila nas costas, faço o sinal da cruz, peço a Nossa Senhora a proteção, ajoelho-me diante dela e agradeço. Preciso pagar algo. Na mochila carrego algumas peças de roupa: uma blusa para caso faça frio, uma calça, um par de chinelos novos, meias e algumas cuecas. Claro sem esquecer-me de toalha e sabonete, estou indo viajar.
    Não vou de carro, avião, e muito menos de ônibus. Serei guiado pelas minhas pernas e pelo amor que tenho por Jesus Cristo, o nosso santo salvador. Tranco a porta de casa com a chave, enfio ela no bolso da calça e dou inicio a minha caminhada.
    O céu de cor escura e estrelada é acompanhado por uma lua cheia gigantesca, tão grande que até dá para tocá-la com a ponta dos dedos, mas eu não quero. Ao meu redor poucas casas, árvores, e silêncio. Estou nessa jornada sozinho, só eu e Deus; em minha humilde opinião, melhor companheiro não há.
    O dia amanhece. O sol aparece e eu resolvo sentar-me. Sem alternativas escolho o chão, forrado de capim seco. De dentro da mochila eu tiro pão e água, como lenta e vagarosamente, saboreando cada pedaço, cada gole, cada momento. Vejo carros passando apressados do meu lado, mas não enxergo o tempo passar.
    Prossigo minha jornada que será longa, mas que terá uma justa recompensa em sua chegada. No trajeto muitos param e ofertam-me carona, eu agradeço, mas recuso, pois promessa feita deve ser cumprida.
    Quase um dia inteiro de caminhada e o cansaço começa a tomar conta. Suor escorre do meu corpo e lágrimas descem dos meus olhos, eu venci. A igreja está lá, imponente diante de mim.
    Coloco-me de joelhos sobre o asfalto fervente. Cruzo os dedos numa prece e dou glórias aos céus e agradeço Jesus e a Nossa Senhora por ter me dado saúde para atingir o objetivo dessa jornada. Agradeço a Deus por ter salvado minha mulher e meu filho.
    Foram meses de sofrimento. Minha esposa teve diversas complicações durante a gestação. Meu filho nasceu prematuro, com apenas seis meses de gravidez. Ela quase faleceu, meu pequeno também, mas prometi a Deus e a Nossa Senhora se os salvasse eu iria a pé para a igreja e esse seria o meu agradecimento.
    Pacientemente esperei. Com amor e devoção rezei e pedi com todas as minhas forças um milagre. Foram dias difíceis. Dias em que eu pensei em desistir, principalmente quando os médicos diziam-me que já não havia mais esperança. Noites em claro em que eu trocava meu sono só para ficar ao lado dos grandes amores da minha vida, minha mulher e meu filho.
    Não desisti, insisti e venci. Estava sentado na sala de espera do hospital, o rosto cansado e o olhar triste; o coração batendo num esforço incomum, ele pedia para parar. Foi quando uma enfermeira veio em minha direção e com lágrimas nos olhos me falou:
    - Venha, o doutor deseja lhe ver.
    Sem entender nada eu fui. O lugar onde eles estavam era há poucos metros dali, mas para mim parecia ser uma distância incalculável. O médico de cabelos brancos e jaleco da mesma cor me aguardava de costas para mim. Ao virar-se para olhar-me vi um brilho em seus olhos, em seguida um sorriso grande, largo e bonito. Foi então que ele me disse:
    - Um milagre aconteceu! Sua esposa e seu menino despertaram. Não terão nenhum tipo de sequela, e amanhã mesmo você poderá leva-los para a casa.
    Desabei. Ajoelhei-me no chão cercado pelo médico e mais três enfermeiras. De longe vi meu filho ainda na incubadora, de olhinhos abertos e com cara de sono. Também vi minha amada esposa, de cabelos cacheados e aspecto cansado; se não tinha sido fácil para mim imagina como foi para ela ter suportado tamanha penitência.
    E então estou aqui. Diante da imagem de Nossa Senhora, de joelhos. Pagando aquilo que prometi. Nesse instante minha esposa troca meu filho, ele já tem quatro anos e hoje é seu primeiro dia de aula. Obrigado Senhor. Obrigado Deus. Obrigado Nossa Senhora. Minha vida e a minha família agora é toda sua.
  • A proposta

    - Você me ama?
    - Sim, eu ti amo muito. Mais do que tudo nessa vida.
    - Ama não. Você só tá me enganando, só quer me usar e depois me jogar fora. Como já fez com tantas outras.
    - Eu ti amo. Como você pode pensar isso de mim? Logo eu que joguei tudo para o alto para vir atrás de ti. Juro que ti amo.
    - Então prova!
    - Como? O que eu faço?
    - Mata o meu marido e foge comigo.
    Rodrigo recebeu com uma grande surpresa a proposta de Isabela. – Matar?! Nunca havia passado por sua cabeça matar alguém, mas para atender ao pedido de sua amada ele era capaz de fazer loucuras.
    - Você sabe que enquanto ele viver não podemos assumir o nosso romance e sermos felizes. Tá vendo essas marcas pelo meu corpo? Ele me bate, me maltrata, me tortura. Se descobrir nosso romance matará nós dois.
    Rodrigo continuava com a cabeça baixa – pensativo. Ele sabia que Luiz – o esposo de Isabela – Batia nela. Aquilo o deixava furioso, não entendia o porquê que com toda a humilhação que ela passava ao lado do marido, ainda continuava casada com ele. No entanto, mesmo com todo o ódio que ele tinha pelo marido de Isabela, nunca passara por sua cabeça mata-lo.

    Rodrigo e Isabela eram primos – cresceram juntos e juntos descobriram o amor – ele foi o primeiro homem de sua vida e ela a sua mulher. Apaixonaram-se e até sonhavam casar. Mas tal sonho não era fácil de realizar, sobretudo devido à oposição de seus familiares e a mentalidade conservadora da cidadezinha do interior onde viviam. E de fato não se realizou – a vida levou-os por caminhos diferentes. Isabela deixou a cidadezinha interiorana e foi morar na capital. Conheceu Luiz – um policial militar com quem se casou. Porém ela nunca conseguira esquecer o grande amor de sua vida – seu primo Rodrigo. Ele sofreu muito no dia que soube do casamento de Isabela. Foi em um bar, tomou todas e mais algumas. Não acreditava na noticia que recebera de que seu grande amor iria se casar com outro.

    - Então não passavam de mentira as juras de amor que ela me fazia? Pensava consigo Rodrigo. A resposta era sempre sim. – Só me resta esquece-la. E assim ele tentou fazer.

    Tempos depois Rodrigo decidiu deixar a pequena cidade do interior onde morava para seguir até a capital e ali quem sabe construir uma nova vida. No fundo do seu coração também carregava a esperança de reencontrar sua amada e quem sabe construir uma nova historia juntos. Não demorou muito para que Isabela soubesse que Rodrigo estava morando na capital. O que ocorreu bem no período em que ela atravessava uma crise tremenda no seu casamento. O fato é que ela nunca fora feliz ao lado de Luiz. Casara-se com ele mais por necessidade do que por amor. Luiz era machista e extremamente violento. Mantinha a esposa tal como uma prisioneira, uma escrava. Assim ela não pensou duas vezes em se jogar nos braços de Rodrigo. Quando se viram não conseguiram esconder um do outro que ainda se amavam perdidamente. E mesmo sobre forte risco passaram a ter um caso secreto. A vida ao lado de Luiz tornava-se cada dia mais insuportável para Isabela. No entanto ela sabia que o esposo já mais aceitaria um pedido de divorcio. Ao contrario, se soubesse que ela estava o traindo, ele a mataria sem nenhuma duvida. Assim a única forma que ela acreditava ser possível para livrar-se do marido, seria matando-o. E ninguém melhor para executar o serviço do que seu amante.

    - Eu sei que não deveria pedir isso para ti. Ele é mais forte que você, mais preparado. Seria muito arriscado. Você não daria conta.

    - Você pensa isso mesmo? Acha que só por que ele é policial militar tenho medo dele? Acha mesmo que não tenho coragem de mata-lo? Nos conhecemos desde criança e mesmo assim parece que tu não me conhece.

    - Não é isso. Sei da tua coragem. Mas o fato é que é muito arriscado. É melhor esquecermos isso. Talvez seja mesmo minha sina suportar aquele monstro que me espanca todos os dias, que desconta em mim as frustrações do seu trabalho.

    - Quando disse a ti que te amo acima de tudo, não estava brincando e que sou capaz de fazer qualquer coisa para provar o meu amor também não era apenas força de expressão. E para provar que te amo ti livrarei daquele monstro. Vou mata-lo.
    - Você jura? Você é capaz de fazer isso por mim, por nós, pela nossa felicidade?
    - Sim meu amor.
    Isabela abraçou Rodrigo e beijou-o loucamente. Despiram-se e transaram alucinadamente ao som do Motor Head, tal como já mais transaram até então. Aquela transa selava um pacto entre os dois – o pacto pela morte do Luiz.

    Isabela tinha tudo planejado há muito tempo: - Amanhã o Luiz vai dar plantão à noite. Quando ele for para o trabalho eu ti ligo e tu vai lá para minha casa. Dormimos juntos, ai vou arranjar uma arma para ti – o Luiz tem um revolver que ele deixa escondido em casa, sei o lugar pego e passo pra ti. Quando ele retornar do trabalho, quando abrir a porta de casa você estará lá esperando por ele, dai você descarrega a arma nele.

    - Amanhã? Já? Questionou Rodrigo.

    - Sim, amanhã. Não podemos perder tempo. Vai ser tranquilo. Ele já mais vai imaginar que você estará lá em casa esperando por ele de tocaia.
    - Ok, então. Vai ser amanhã.
    - Olha lá, não vai dar pra trás. Agora tenho que ir, pois se ele chegar em casa e eu não estiver, vai ser mais uma sessão de tortura.
    Beijaram-se e se despediram, agora era só esperar o momento que tudo aconteceria e fazer acontecer. Isabela voltando para casa imaginava consigo: – agora só basta àquele covarde desistir, mas ele não é louco de fazer isso comigo. Rodrigo por sua vez estava receoso no que poderia acontecer. Não o assassinato em si, pois era só apertar o gatilho, o problema era o que aconteceria depois – a morte de um policial militar e toda a perseguição que sofreria – tanto ele como sua amada. E assim não foi pouca ás vezes que ele imaginou desistir, em não cometer aquele crime, mas pensava no quanto seria decepcionante para sua amada se ele desistisse. Uma decepção que poderia significar o fim do romance deles.

    Chega então o dia tão aguardado. Luiz sai para o trabalho e duas horas depois Isabela liga para Rodrigo: - Meu amor, ele já foi para o trabalho, pode vir. Já estou com a arma em minhas mãos. Vem logo que estou louca pra ti ver. E não se preocupe que tudo vai dá certo. Tudo vai ficar bem e seremos muito felizes.

    - Ah aquela voz. A voz doce de Isabela no telefone, sussurrando no ouvido de Rodrigo o deixava maluco. Ele se esquecia de tudo, só pensava em esta com ela, em abraça-la, beijar todo o seu corpo e transarem alucinadamente tal como da ultima vez que se encontraram. Ao chegar a casa dela, ele não se arrependeu tiveram uma noite de amor incrível com muito sexo, drogas e rock in rol. A noite foi tão maravilhosa que passou rapidamente, tão rapidamente que eles nem perceberam que já começava raiar o sol de um novo dia.
    - Rodrigo, Rodrigo, tá na hora ele esta chegando, o Luiz tá chegando. Esconda-se que eu vou abrir a porta pra ele, quando ele entrar atire.
    - Amor, cheguei, abra a porta. Falou Luiz
    - Já vai. Gritou Isabela. Em seguida virou para Rodrigo dando lhe um beijo e dizendo – é agora meu bem.
    - O que você estava fazendo que demorou tanto para abrir essa porta? Gritou Luiz com Isabela.
    Mas antes que ela respondesse e que ele se quer colocasse os dois pés para dentro da casa ouve-se então os disparos – Pum, pum, pum. Sem nenhuma reação Luiz cai morto no chão. Rodrigo está tremulo com o revolver na mão olhando para o corpo do Luiz já sem vida, não acreditando no que acabara de fazer. Isabela por sua vez tinha um estranho sorriso nos lábios, um sorriso macabro. Ela vai até o marido que está morto no chão, senti o seu pulso e diz: - Ele esta morto. Rodrigo continua paralisado com a arma na mão, parecendo esta em estado de choque. Isabela por sua vez pega a arma que Luiz trazia na cintura vira para Rodrigo e lhe dá três tiros – pum, pum, pum. Em seguida ela liga para policia e conta tudo que havia acontecido.
    - Meu primo Rodrigo invadiu a minha casa para roubar. Meu querido marido tentou reagir, eles trocaram tiro e se mataram.
  • A REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NO LIVRO UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA

    INTRODUÇÃO
                 O enfoque deste trabalho firma-se nas abordagens voltadas para as tradições moçambicanas, como o universo feminino é representado na obra  “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra” do escritor Mia Couto.
                 Problematiza a estrutura social e cultural de Moçambique e como as tradições machistas patriarcal inviabilizam as mulheres, expondo-as como objetos, silenciando-as e tirando sua dignidade.
                 Na perspectiva de mostrar a posição ocupada pela mulher moçambicana e as consequências sofridas por elas nessa  sociedade. As personagens femininas da obra de Mia couto representam situações que se refletem não só em Moçambique, mas em todo o mundo, ser mulher é um privilégio e um inferno.
                 As personagens femininas analisadas são Miserinha, Dulcineusa, Admirança, Nyembeti e Mariavilhosa, mulheres que representam um coletivo.
                                     A REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NO LIVRO UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA
                 O livro “O rio chamado tempo, uma casa chamada terra” do escritor Mia Couto, apresenta algumas questões referentes ao papel social das mulheres na estrutura cultural de Moçambique. As personagens femininas são representadas de forma subalterna, inferior e vulgar. Frequentemente são expostas sexualmente pelo o uso de seu corpo  e tratadas como objetos, sendo silenciadas pelo sistema patriarcal  que as oprime. Apesar do seu papel na estrutura familiar, de cuidar dos filhos e prover alimento para a família, essas mulheres não são reconhecidas por isso.
                 Mia Couto constrói personagens femininas questionáveis, muitas vezes parecem gostar de viver naquela situação de opressão, mas no decorrer da narrativa essas mulheres, mesmo silenciadas, conseguem denunciar o que sofreram e o motivo pelo qual são condicionadas a aceitar uma tradição que por diversas vezes as corrompe tirando-lhes a dignidade.
                 A obra ficcional de Mia Couto narra a volta de Marianinho à ilha Luar-do-Chão para o enterro de seu avô Dito Mariano. Mariano reencontra as mulheres de sua família e faz descobertas sobre sua própria origem através da convivência que ali se desenrola. É interessante como essas figuras femininas suscitam reflexão a respeito da tradição cultural familiar e provocam mudanças nos conceitos de Mariano diante desta estrutura. Ocorre um choque entre o moderno e o tradicional.
    ESSAS MULHERES
                 As mulheres têm um grande impacto na mudança de pensamento do protagonista, como é o caso de sua falecida mãe Mariavilhosa, silenciada  a sua vida toda; sua avó Dulcineusa que dependia dele para não perder tudo como Miserinha, outra personagem que sofreu e foi silenciada pela tradição; sua tia Admirança, retratada na narrativa como uma mulher vulgar, sempre expondo  seu  corpo deliberadamente, e por último a Nyembeti que representa a própria terra. Essa última personagem, mesmo sem fala, tem em seu corpo à denúncia tanto da exposição do corpo feminino quanto a da prostituição.
                                                                                                      MISERINHA, MULHER ESQUECIDA
                 A estrutura social de Moçambique, apresentada no livro de Mia Couto, tem a hierarquia patriarcal como base nessa sociedade, a mulher não tem nenhum poder nessa estrutura, quase sempre é inviabilizada ou esquecida. Mesmo com todos os avanços dessa sociedade, a mulher ainda é submetida aos seus parentes masculinos, esse é o caso de Miserinha.
                 Ela perdeu seus bens e até sua casa quando ficou viúva, pois não tinha ninguém que a pudesse proteger, nenhum filho. Ficou abandonada e virou pedinte. Essa mulher retrata a situação de tantas outras mulheres moçambicanas que acabam sendo esquecidas e apagadas da história familiar. Mesmo quando conseguem um amante, como no caso de Miserinha que se relaciona com o avô Dito Mariano, ainda são subjulgadas, agredidas fisicamente, o que no seu caso dessa personagem causou sua cegueira.
    (...) Não consegui  me conter: lhe bati na nuca com um pau de pilão. Ela tombou, de pronto, como um peso rasgado. Quando despertou, me olhou como se não me visse. O golpe lhe tinha roubado a visão. ( COUTO, 2002, p. 234)
                 Essas palavras são do Dito Mariano, o homem que defendia a tradição e via nas mulheres objetos a serem utilizados e depois largados, e o pior disso tudo é que Miserinha não o confronta, mas mostra respeito e submissão. Nessa atitude ela comprova que a mulher, em determinadas sociedades, aceitam situações miseráveis por causa do medo de serem esquecidas. Nesse contexto, a obra de Mia Couto apresenta a situação das mulheres esquecidas, porém, faz uma ruptura quando dá voz e corpo às figuras femininas.
    DULCINEUSA, MULHER PARA DECORAÇÃO
                 Dulcineusa, avó de Marianinho e viúva de Dito Mariano, é uma das personagens mais intrigantes. Sua situação familiar, assim como a de Miserinha, é ameaçada com a morte do marido.
    “ (...) Eles olham para mim e veem uma mulher. Sou uma viúva, você não sabe o que é isso...” (COUTO, 2002, p. 33)
                 O medo que ela tem do abandono e sua submissão é evidente na narrativa. Ela é a mulher da decoração, aquela que aceita todas as pilantragens do marido por medo de perder todos seus bens e sua segurança. Percebe-se que ela é cristã e não admite infidelidade, mas, para preservar sua família, ela aceita as traições do marido.
                 Existe em Dulcineusa uma consciência de subalternidade comum nas sociedades africanas, principalmente no que se refere ao papel social da mulher. A existência do eu passivo estão presentes nas suas ações e comportamentos.
                 A sua segurança depende do seu neto Marianinho, por isso ela entrega-lhe as chaves da casa como garantia de não perder tudo. Além disso, ela por ser viúva ainda é suspeita de feitiçaria, sendo acusada da morte do marido. É explícito o medo que ela sente em diversas situações. Essa estrutura familiar patriarcal anula a mulher, lhe impõe o isolamento, e lhe tira o lugar da fala, causando-lhe medo e insegurança.
                 Dulcineusa é a mulher que suporta tudo, a mãe que trabalha para o sustento da família e para criar os filhos e não tem reconhecimento de ninguém; serve apenas para decoração. Ela se sacrificou na fábrica  a ponto de suas mãos ficarem deformadas e seu filho Fulano lembra ao ver o caju.
    “(...) E a ele a castanha de caju lhe fazia lembrar a mãe, Dulcineusa. E lhe dava um aperto recordar como as mãos dela foram perdendo formato, dissolvidas pela grande fábrica, sacrificadas para seus filhos se tornarem homens.” (COUTO, 2002, p. 76)
                 É a única vez que aparece esse reconhecimento por parte de um de seus parentes, afinal por viverem nessa estrutura familiar para eles é normal essa situação.
    ADMIRANÇA, CORPO DE MULHER
                  Admirança é caracterizada apenas como um corpo de mulher à disposição, não existe sensualidade em suas ações e sim vulgaridade. Essa mulher tem um caráter duvidoso e o mínimo de princípios. Em alguns trechos é desvalorizada e sua sensualidade é a forma utilizada para expor a mulher sexualmente.  Seu corpo é o espaço de fantasia e desejo, como algo a ser invadido.
    De acordo com o estudioso Alberto Oliveira Pinto, “a mulher africana foi sempre encarada pelos colonos portugueses tão somente enquanto um instrumento de dominação, sobre os espaços e sobre os homens colonizados.” (PINTO, 2007, P. 48)
                 A obra “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra” expressa o machismo da estrutura de Moçambique, que foi influenciada ainda mais pelo sistema colonial em todos os países africanos colonizados.
                 A personagem Admirança mesmo tendo consciência que seu sobrinho é na verdade seu filho continua a se insinuar para ele. Uma forma de sedução sem escrúpulo, assim como foi seu envolvimento com Dito Mariano, marido de sua irmã Dulcineusa.
                 É recorrente como ela se aproxima de Marianinho, sempre o tocando ou jogando seu corpo para atiçá-lo e ele sente um forte desejo por ela, sem imaginar que ela é na verdade sua mãe.
    “As pernas, bem desenhadas, estão a descoberto entre as dobras da capulana. Ela parece saber que espreito. Enteabre as pernas como se procurasse melhor conforto. O mesmo gesto que degola a galinha afasta o último pano, desocultando mais o corpo. O seu olhar me pede cumplicidade...” (COUTO, 2002, p.58)
                 O que causa estranheza é que mesmo após descobrir que é filho de Admirança, ele ainda continua  a desejá-la e não sente culpa por isso. A forma de ver sua tia reflete o conceito dos homens ligados à tradição que vivem na estrutura de Moçambique pós-independência. Esse sistema patriarcal reforça os estereótipos nas relações de gênero, sempre ligando as mulheres a maternidade, dependência ou sedução.
    NYEMBETI, MULHER DE PREÇO
                 Nyembeti é a mulher que vende seu corpo por um preço para resguardar seu valor, para se proteger de homens que abusam de seu poder, para tomar o que lhes convém. Essa personagem não necessita de palavras para reivindicar e denunciar as consequências sofridas por abusos. Sem ter família e apenas um irmão, essa moça bela é percebida e tocada, é vista como objeto sem valor e nunca é ouvida.
                 Mia Couto faz uso do mítico para construir sua história, a menina que nasce e toma veneno de cobra para sobreviver. A partir de seu nascimento e de sua condição familiar frágil, Nyembeti se transforma em mais uma vítima da sociedade machista patriarcal de Moçambique. 
                 A primeira vez que ela aparece na narrativa está sem rosto e no escuro de um quarto, onde encontra com Marianinho para lhe entregar uma caixa endereçada a seu tio. E mais uma vez a mulher é representada apenas pelo seu corpo, pois nesse encontro ela tem relação sexual com ele sem o menor pudor.
                 Marianinho reencontra com Nyembeti quando vai ao cemitério com seu tio, ela ao vê-lo cobre o rosto com sua capulana, “como se uma vergonha a obrigasse a esconder a identidade”. Essa atitude mostra que ela tem consciência de sua condição e se envergonha.
                 Uma moça tímida e bela que não fala português, as únicas palavras que pronuncia são para pedir dinheiro e em sua língua nativa. É interessante quando ela encontra Marianinho e seu tio e pede dinheiro aos dois, uma mulher de preço não que seja pedinte, mas porque os dois usufruíram de seu corpo. Uma forma de resistência, não pertence a ninguém, mas quem a usar precisa pagar.
                 Outra forma de resistência de Nyembeti é quando ela devolve o dinheiro ao tio de Marianinho, uma forma de expressar que não irá mais se prostituir para ele. E nessa atitude ela acende a ira de Ultímio, tio de Mariano.
    “Somos interrompidos pela inesperada chegada de Nyembeti. A irmã do coveiro, submissa, fica enrolada em silêncio e respeito. Só depois entrega um molho de notas a Ultímio” (...) “O tioUltímio está tão surpreso quanto irritado. Os ombros lhe sobem, o tom da voz se militariza.” (COUTO, 2002, p.180-181)
                 O coveiro irmão de Nyembeti discute com Ultímio, mas Marianinho não entende o motivo. Ele percebe que o coveiro teme a seu tio e questiona o motivo. Isso passa a incomodar suas atitudes e a de seu tio. A reflexão da situação vem em forma de um sonho, nele Nyembeti fala português e lhe explica: “ queria escapar aos vários Ultímios que lhe apareciam, com ares de citadinos. Se fazia assim, tonta e indígena, para os afastar de intentos.” (COUTO, 2002, p. 189)
                 A partir dessa reflexão ele entende que ela aceitava o dinheiro porque se prostituía. Ele a considera a sua terra, que ela é o Luar-do-Chão, sente anseio de ficar com a moça, mas para ficar com ela teria que viver na ilha e com suas tradições, e ele prefere o moderno e vai embora.
    MARIAVILHOSA, MULHER SILENCIADA
    “Minha mãe acabara sucumbindo como o velho navio de carga. Transportava demasiada tristeza para se manter flutuando.” (COUTO,2002, p. 231)
                 Mariavilhosa é a mulher silenciada e a que representou as dores mais intensas que uma mulher pode sentir. Com certeza essa personagem denuncia a falta de igualdade democrática entre homens e mulheres, uma estrutura comum na sociedade moçambicana.
                 Mia Couto conseguiu criar uma personagem que rompe com o silêncio mesmo estando silenciada. Ela não representa o estereótipo da mãe passiva, sem nenhuma personalidade, Mariavilhosa tem caráter  e não se conforma com sua situação. Sua forma de protesto é seu próprio suicídio, não um ato de covardia, mas um ato de liberdade.
                 Em primeiro momento Mariavilhosa já surge na narrativa como sendo apenas uma lembrança, ela era um assunto interdito na casa de Marianinho. Ele sabia de sua morte por afogamento, mas não sabia os motivos nem sua história.
                 Foi sua avó Dulcineusa que contou a trágica história de sua mãe, Mariavilhosa foi violada e engravidara do agressor, por isso vivia afastada das pessoas. Em seu desespero para abortar causa uma grave infecção, “espetara-a no útero, tão fundo quanto fora capaz”, isso impossibilitou Mariavilhosa de ter filhos. Sempre que engravidava logo em seguida abortava ou a criança nascia morta, “ o ventre dessa mulher adoecera para sempre”.
                 Por isso Marianinho por ser seu filho único sentia-se insuficiente, disseram-lhe que ele nasceu de uma de tantas tentativas que ela fizera para engravidar, mas na verdade ela fingiu estar grávida e o avô Dito Mariano entregou-lhe o filho que teve com sua cunhada Admirança. Sua felicidade não durou muito,  pois Admirança não suportava ver a criança crescer e pediu para que o avô o mandasse estudar longe.
                 Mariavilhosa é novamente silenciada, pois seu filho Marianinho vai viver na casa dos portugueses em outra cidade, e foi esse português que a violentou. Nada podia dizer, pois a família em grande estima, tanto que ele era o padrinho de seu próprio filho. E seu filho ao descobrir o nome do homem que violou sua mãe ainda duvida.
    “Lopes? Esse homem tão cristão, tão marido, tão metido com as mulheres da sua raça? Deveria ser engano”. (COUTO, 2002, p.106)
                 Apesar de não querer crer em toda a história, Marianinho se culpa por não ter reparado o sofrimento dessa mulher que é sua mãe. E é  nesse trecho que mostra o quanto é significativo não se calar diante das barbáries sofridas, pois foi só depois de ter conhecimento do que aconteceu com sua mãe foi que Mariano passou a refletir sobre essa situação. Não existe uma história única para todas as mulheres, histórias podem destruir a dignidade de algumas mulheres, mas também podem reparar a dignidade perdida.
    “E relembro minha mãe, Dona Mariavilhosa. Agora, eu sabia a sua história e isso era como que um punhal em minha consciência. Como pudera eu estar tão desatento ao seu sofrimento? (...) Passara a ser uma mulher condenada, portadora de má sorte e vigiada pelos outros para não espalhar sua sina pela vila (...) Devido a sua exclusão da cozinha eu não me recordava dela, rodopiando com as demais mulheres junto ao fogão (...) Mariavilhosa falava baixo, tão baixo que nem a si se escutava. (...) Minha mãe acabara sucumbindo como o velho navio de carga. Transportava demasiada tristeza para se manter flutuando.” (COUTO, 2002, p. 231)
                 Ela foi silenciada e excluída até pelas próprias mulheres, ninguém a via ou a ouvia. Essa personagem carrega todas as representações das mulheres nessa estrutura cultural de tradição moçambicana, uma sociedade patriarcal e machista.
    CONCLUSÃO
                 No livro “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”, Mia Couto construiu personagens femininas complexas, elas evidenciam as consequências causadas pelo sistema patriarcal em Moçambique.
                 Admirança e Nyembeti são caracterizadas pelo uso de seus corpos sexualmente. Dulcineusa e Miserinha são as mulheres viúvas espoliadas e agredidas fisicamente e psicologicamente. Mariavilhosa reflete o silêncio, a violação e a perda de dignidade dessas mulheres, mas apesar de toda essa opressão vivida por essas personagens, elas conseguem romper o silêncio e denunciar o machismo da estrutura patriarcal em Moçambique.
                 É necessário um movimento que defenda os direitos das mulheres resgatando sua dignidade, o corpo feminino não pode ser representado  como meio delas conseguirem espaço, precisa ter respeito pelo seu intelecto e dar lugar a sua voz.
                 A literatura também pode ser uma forma de denunciar e resgatar a dignidade dos oprimidos, a ficção utilizada na obra retrata a realidade, não se pode negar que no mundo todo, em todas as estruturas sociais, a mulher ainda é inferiorizada e inviabilizada. O livro “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”, denuncia de uma forma sutil o preconceito  de gênero e a opressão contra a mulher.
    REFERÊNCIAS
    COUTO, Mia. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. São Paulo: Cia. Das Letras, 2002.
    COSTA, Laysa Cavalcante. Guedes, Joana Camila Lima. As cicatrizes do amor: a representação da mulher na sociedade moçambicana em Paulina Chiziane. Cadernos Imbondeiro. João Pessoa, v.1, 2010.
    DUARTE, Eduardo de Assis. Mulheres marcadas: Literatura, gênero, etnicidade. Terra roxa e outras terras- Revista de Estudos Literários (UFMG), Minas Gerais, 2009.
    MACEDO, Tânia. Da voz  quase silenciada à consciência da subalternidade: A literatura de autoria feminina em países africanos de língua oficial portuguesa. Revista Mulemba, Rio de Janeiro: UFRJ. n. 2. 2010.
    NOA, Francisco. Império, Mito e Miopia: Moçambique como invenção literária. São Paulo: Editora kapulana, 2017.
    NOA, Francisco. Uns e outros na literatura Moçambicana: Ensaios. São Paulo: Editora Kapulana, 2017.
    PINTO, Alberto Oliveira. O colonialismo e a “coisificação” da mulher no cancioneiro de Luanda, na tradição oral angolana e na literatura colonial portuguesa. In. MATA, Inocência; SECCO. Carmen Lúcia. “Mãos femininas e gestos de poesia”. Lisboa: Editora Colibri, 2007.
  • A SOLIDÃO

    A solidão é uma cova profunda que você próprio escava,

    desde o balancinho de tábua que há muito o embalava

    naquele cenário quase caótico dos segredos da sua casa,

    quando todos os fantasmas sujos da sua infância gritavam.


    Foi ali mesmo que compreendeu, com os amigos de plasma,

    que as pessoas do mundo não conseguiam olhar na sua cara.

    Por isso o condenaram à cartografia cega do deserto isolado,

    onde jogaram uma trena para que você medisse o seu buraco.


    Mais tarde é nele em que o seu corpo será trancado sem alma

    alguma do lado, estendido sob as letras de um falso epitáfio

    e coberto da terra podre que se repete na idêntica empreitada

    — a de encerrar duzentos e seis ossos na madeira aglomerada


    de um caixote de feira sem alças, palma, poema ou batucada. 

    — E ninguém veio para beber um gole da sua última cachaça

  • À SOLIDÃO (soneto)

    Oh! jornada de inação. O silêncio em arruaça
    Arde as mãos, o coração, aperreado arrepia
    O olhar, trêmulo e ansioso, tão calado espia
    O tempo, no tempo, lento, que ali não passa

    No cerrado ressequido, emurchecido é o dia
    E vê fugir, a noite ribanceira abaixo, devassa
    E só, abafadiço, o isolamento estardalhaça
    No peito aflito de uma emoção áspera e fria

    Pobre! Se põe a sofrer, nesta tua má sorte
    No indizível horror de um sentimento vão
    Quando silenciosa e solitária é a morte...

    Bem à tua paz! Bem ao teu “às” sossego!
    Melhor na quietude, ao espírito elevação.
    Se na solidão, viva! E saia deste apego!...
  • A Sorte de Al-Golin

     “Contudo, e apesar de tudo, não escaparás das mãos do destino”.
    Mestre Akman.

    O xeque Al-Golin observava que seus negócios o enriqueciam cada vez mais. Dono de um palacete à beira de um lago paradisíaco, era de seu costume levantar-se pela manhã e contemplar o espelho das águas cristalinas, sorvendo a brisa fresca que delas procedia. Enquanto cumpria o ritual matutino, observava o gado que pastava ao redor, nas campinas verdejantes. Al-Golin sentia-se um homem feliz e plenamente realizado.
    Certo dia, acordou com uma peculiar ideia. Mirou o sol que vinha sorridente no horizonte, e disse ao seu filho, um jovem rapaz que se encontrava ao seu lado:
    – Vou hoje mesmo perguntar a Omadin, o velho neby[1], como será a minha sorte no porvir. Não sei até quando a paz e a felicidade serão minhas companheiras. Despertei esta manhã com uma intuição de que preciso me preocupar com o futuro, e com aquilo que nele me aguarda.
    E assim sucedeu. Estando diante de Omadin, Al-Golin mostrava-se bem disposto e alegre. Fez um gesto solene de cumprimento, e disse:
    – Digno profeta Omadin. Sou hoje um homem inteiramente feliz. Possuo boas terras, moro em um rico palacete à beira de um lago com águas claras, tenho camelos, cabras, muitas palmeiras; vivo ao lado de minha amada esposa e de meu filho único que está sempre ao meu lado. A cada dia os ventos vêm do deserto na minha direção trazendo-me bons negócios, enchendo-me cada vez mais o celeiro e o cofre. Tenho sido homem de boa sorte, mas venho ter contigo a fim de ouvir de tua boca, que sabe dizer sem oscilar, como serão os meus últimos dias.
    O mago, que estava assentado e ouvindo atentamente, fincou um olhar profundo nos olhos de Al-Golin, como se penetrasse nos recônditos de sua alma. E depois de fechar os olhos e abri-los de súbito novamente, ainda mantendo-os fixados em Al-Golin, asseverou com firmeza nas palavras e com um sorriso que ia até às orelhas.
    – Em verdade eu te digo que findarás os teus dias cercado da maior riqueza e da verdadeira felicidade, ó nobre Al-Golin.
    Ao ouvir a resposta, Al-Golin levou o dorso da mão à testa, e enxugou um marejo de suor que iniciava. A expressão na face do adivinho impressionara-o por um instante, parecendo-lhe um presságio de resposta ruim. Mas, por fim, depois do entusiasmado vaticínio do velho Omadin, voltou a deleitar-se na esperança da sorte futura, que se anunciava ainda mais ditosa do que a presente.
    No caminho de retorno para casa, Al-Golin deliberou em seu pensamento que daria uma festa em seu palacete. Estava maravilhado, e queria comemorar junto à família e alguns amigos. Porém, a cena com que se depararia ao chegar em casa lhe arrancaria de um só golpe toda a alegria. Terminando de passar pelo topo de uma pequena colina, avistou fumaça na direção de seu palacete. Andando um pouco mais, pôde ver claramente, e com grande estupefação, que a fumaça procedia das ruínas em que havia se transformado a sua rica morada. Um incêndio a havia destruído por completo. O choque da cena paralisou os olhos de Al-Golin, o pavor dominou-lhe a alma. Chegando ao local, que era antes um pedaço do paraíso, agora transformado e destroços, encontrou caído ao chão um de seus guardas que vigiavam as cercanias da casa. O pobre homem encontrava-se gravemente ferido, atingido por espada, e agonizava seus últimos suspiros.
    – Por Alá! O que se passou aqui? – perguntou Al-Golin, com franco desespero nas palavras.
    O homem ferido moveu os olhos na direção de Al-Golin. Seus lábios trêmulos e sujos de sangue esforçavam-se para pronunciar uma palavra. Só então Al-Golin percebeu que o guarda estava ferido mortalmente.
    – Um golpe de espada! Quem te feriu? Quem incendiou o palacete?
    Neste momento, aquele que agonizava ao chão sussurrou:
    – Os Godunos… os Godunos…
    Al-Golin deixou-se cair ao chão, esmagado pela tristeza. Os Godunos eram guerreiros que invadiam os reinos vizinhos roubando, destruindo e capturando pessoas, a fim de fazê-las escravas. Al-Golin sabia que naquele momento sua esposa e seu filho se achavam cativos dos Godunos.
    Al-Golin levantou-se cambaleante como se estivesse bêbado. Girou o corpo sobre os seus pés e, olhando ao redor, observou que tudo estava depredado pelos Godunos. Deu-se conta da completa penúria em que agora se encontrava. Não havia mais dinheiro, nem ouro, nem objetos valiosos, os animais também haviam sido levados, exceto um camelo muito velho e imprestável que se encontrava próximo do que restou da casa arruinada. O silêncio nesse momento era angustiante. Olhando ao lado, Al-Golin percebeu que o guarda ferido estava morto.
    Uns poucos dias se passaram. Al-Golin construiu no local do palacete um pobre casebre de madeira e lona. Na sua miserável habitação, cada dia lhe parecia eterno tormento. A pobreza extrema, a saudade da esposa e do filho, a sua imaginação que tenta reconstruir a triste cena de sua família sendo arrastada sob açoites pelos cruéis Godunos, e tendo que caminhar com pesadas bolas de ferro atadas às pernas, e tantos outros pensamentos funestos que lhe vinham perpetuar o sofrimento. Num instante de dor indizível, Al-Golin decidiu dar cabo da própria vida. Tomou de uma corda grossa, fez um laço, atou-o a uma trave de madeira no telhado de sua triste vivenda. E no preciso instante em que deixaria o corpo pender na direção da queda mortal, uma voz o chamou à porta.
    – Senhor Al-Golin!
    Al-Golin se deteve. Ergueu a cabeça para decifrar a voz que interrompera sua macabra empresa. Era um homem desconhecido, de não mais que quarenta anos de idade.
    – Disseram–me que estás aí! Desejo falar-te – insistiu a voz.
    Al-Golin desceu do cadafalso improvisado. Chegando à porta, observou que era um tipo bem trajado, de presença distinta, corpo ereto e semblante austero. O visitante cumprimentou Al-Golin com apenas um discreto gesto de cabeça, e disse-lhe:
    – Trago mensagem do xeque Aramiz.
    Ouvindo essas palavras, Al-Golin teve um estremecimento, que só não foi grande porque nada pode comover tanto um homem que há pouco tinha uma corda no pescoço.
    – Aramiz…? O que ele quer de mim? – perguntou Al-Golin com fraqueza e indiferença na voz.
    O xeque Aramiz era credor de Al-Golin, que lhe devia uma alta soma de dinheiro. Agora, tendo perdido tudo o que possuía, Al-Golin jamais poderia quitar a sua dívida.
    – O xeque Aramiz sabe da desgraça que se abateu sobre ti, ó nobre Al-Golin, e manda dizer que lamenta verdadeiramente. Porém, manda dizer também que, embora se compadeça, não poderá deixar de cobrar o que lhe é de direito, pois seria para ele uma grande perda e um terrível desando nas suas finanças. Como o nobre Al-Golin se encontra destituído de todo o teu dinheiro e de todo o teu ouro, não tendo, portanto, como pagar a dívida, meu senhor, o xeque Aramiz, manda comunicar-te que amanhã mesmo tomará posse destas tuas terras em torno deste lago, o que valerá pela quitação total da dívida.
    O mensageiro de Aramiz virou-se e partiu. Al-Golin não disse sequer uma palavra de protesto, isto porque um homem que não deseja mais nem mesmo a própria vida, não terá mais forças nem razões para contestar a perda de qualquer outra coisa. Al-Golin apenas fez uma rápida reflexão, considerando que agora poderia morrer, já que nada mais havia para perder, uma vez que a própria terra em que pisava já não mais lhe pertencia. Al-Golin achava-se novamente na cena do suicídio. Tomou a corda com o laço, passou-a no pescoço. Tinha o rosto macerado pela dor daquele momento crucial. Subiu no cadafalso e fechou os olhos. Mas antes de saltar, no instante de seu iminente mergulho no mundo escuro da morte, sua vida inteira se passou na tela da mente em imagens ligeiras e carregadas de emoções inauditas. Os últimos fatos de sua vida, porém, foram os que mais o deixaram perplexo. Uma das últimas cenas de sua mente, que se despedia do mundo, foi a do mago Omadin dizendo-lhe: "Findarás os teus dias cercado da maior riqueza e da verdadeira felicidade, ó nobre Al-Golin". Al-Golin abriu os olhos no momento em que seu corpo titubeava para cair. Tinha um olhar que atirava chispas de ira. Não poderia morrer sentindo aquele desejo de vingança que agora o dominava. Era precisamente isso que sentiu por Omadin. “Feiticeiro mentiroso! Prefiro mil vezes que alguém me mate a fazer-me de tolo”, pensou Al-Golin, determinando em seu pensamento que, antes de morrer, mataria aquele que o enganara. Tomou de um punhal, apanhou o cansado camelo que se encontrava ainda nas cercanias do casebre, e partiu na direção da morada do mago charlatão.
    Tendo caminhado longa distância sob o sol inclemente, sentiu-se muito fraco. Depois, percebeu-se febril, tonto, a visão lhe faltava e, por fim, caiu estirado nas areias quentes, perdendo totalmente os sentidos. O camelo continuou a marcha, até que desapareceu atrás de uma duna.
    Quando Al-Golin abriu os olhos, era noite. Estava muito debilitado, mal conseguia abrir os olhos. Achava-se deitado numa cama confortável, embora muito simples, no interior de um quarto iluminado por lamparinas de azeite. A primeira visão de seus olhos, ao despertar, foi o sorriso de sua esposa e de seu filho, que se encontravam assentados à beira da cama.
    A mulher contou-lhe com lágrimas nos olhos tudo que houvera se passado com ela e o filho: Os Godunos os levavam cativos pelo deserto, quando tiveram um confronto com uma tribo hostil no caminho e, nesse ínterim, ela e o filho conseguiram fugir. Agora estavam a salvo naquele lar que os acolhera com tanto desvelo.
    Enquanto ela falava, percebia que Al-Golin já quase não tinha vida, estava muito decadente. O filho lhe segurava uma das mãos com doçura e pesar, chorando baixinho. A esposa acariciava-lhe a testa.
    A gratidão que Al-Golin sentiu pelo generoso dono daquele lar que acolhera a sua família deu-lhe energia para pronunciar as palavras que seriam as últimas de sua vida:
    – Quem é esse homem santo que guardou em sua casa a minha maior riqueza e a minha verdadeira felicidade?
    Neste mesmo instante, sua esposa apontou na direção do santo homem que acabava de entrar no quarto. Era o profeta Omadin.
    Al-Golin fechou os olhos, e um leve sorriso de satisfação acompanhou o seu último suspiro. Morreu tal como predissera-lhe o velho Omadin, comovido de especial felicidade e cercado da sua maior riqueza: a esposa amada e o filho único, que agora choram deitados em seu peito.
  • A tríade do mau em si

    Decidiu ir muito mais além do que se possa imaginar em sua estadia no plano físico-orgânico e tridimensional. Resolveu descortinar-se, despindo do manto de ignorância da sua própria persona programada, alienada e fragmentada. Parou de culpar o mundo… as pessoas… as coisas… tudo! Vira a culpa em si mesmo, e se vendo em sua dramática lastima percebeu-se sabotador de si mesmo, porquanto, ainda não se conhecia.

    A medida em que se observava, vira a tríade mental do seu ser mundano e civilizado psicológico: o EU INTELECTUAL; o EU EMOCIONAL; o EU SEXUAL. E se viu em uma sala completamente espelhada, em que cada ‘EU’ do triângulo de si, se multiplicava infinitamente no amago de sua personalidade inconstante e provisória.

    Ao se perceber equacionado em si mesmo… expressadamente contido entre parênteses, colchetes e chaves. Multiplicado e dividido meditou em manter a ordem dos fragmentos opostos, para por último se resolver em fatores de subtrações e adições, em toda complexidade de somatórias minimalísticas, entre efêmeras igualdades e variadas situações dos seus multifacetados ‘eus’ aplicativos do mau em si.

    Muito além de sua complexidade mental psicológica… degenerativas de todos os orgânicos e inorgânicos sentidos do corpo-mente… em que o ‘EU INTELECTUAL’ se aplica, elaborando seus conceitos e preconceitos a partir das múltiplas percepções externas e internas que adultera a Arte Sagrada, a Filosofia Primordial e a Santa Religião… o que já era pesado demais para resolver… tinha ainda que lidar com o automatismo instintivo do seu corpo físico-orgânico, pelo qual confeccionara o ‘EU SEXUAL’. Porém, mais ainda perigoso e desastroso, entre outros e esses fatores… era lidar com o insaciável e temido ‘EU EMOCIONAL’, a cabeça do meio do Dragão-de-Três-Cabeças, em que os outros dois ‘eus’ eram-lhes subservientes.

    Fora impactado pela tríade do ‘EU’ desde o nascimento, o que adoecia o corpo-mente, levando a uma total inconsciência ignorante de si, do outro e ao redor na cadeia ponto-espaço-tempo. Passara por longos e agoniantes momentos de transformações decadentes, ao receber do mundo exterior falsas imagens e impressões da realidade descendente em infra-normalidades, se afeiçoando as falsas qualidades antagônicas terrivelmente negativas do materialismo, baixo espiritualismo e vaidosas “verdades” sociais, econômicas e étnicas de si. E assim, decidira com afinco trabalhar na educação de sua forma infra-humana enfrentando o Dragão-de-Três-Cabeças, o Macho Alfa de suas bestialidades, brutalidades, temores, vaidades, traumas, vícios, costumes, psicoses e luxurias… a parte do partido egocêntrico, humanoide-animalesco em que adormece e entorpece a Sagrada Consciência Divina em sua gnose.

    Assim, almejava o retorno a sua Pureza Original, ao se render as espadas flamejantes das sentinelas-querubins que guardavam o caminho de acesso à Árvore da Vida.

    Aprofundando-se mais e mais em si mesmo, silenciou-se em sua retorta, destilou-se no Alkahest (solvente universal) de sua vontade, para ser posto em uma das câmeras do At-tannur (forno alquímico) de sua consciência, almejando ser purificado dos constituintes de seus ‘eus’ em sua solitária espargia espiritual.

    Os muitos questionamentos… as muitas perguntas… o excesso de gesticulações… as queixas e tagarelices de si, e as reclamações do mundo externo… o que não era ou estava bom em sua vivência… a falta de atenção e elogios alheios não mais o perturbavam em sua busca meditativa, em íntima contemplação.

    Apenas deixou-se ser arrastado pelo Rio (o Criativo), guiado em inércia e não-ação para o Mar (o Receptivo).

    Assim!

    O Amante, em Amor, uniu-se ao Amado…

    O Masculino penetrou o Feminino…

    O Homem conheceu a Mulher…

    O Pai gerou o Filho na Mãe…

    O Céu cobriu a Terra…

    O Sol em sua potência iluminou a Lua…

    O Criador, na Criação, manifestou-se em Criatura…

    E o Fogo Sagrado derreteu o tenebroso gelo nos empedrados corações.
  • A Última Cena

    Desci apenas alguns degraus e sentei-me na primeira poltrona que encontrei,ao lado do corredor.Estava bastante escuro,poucas e pequenas luzes laterais iluminavam a velha sala do cinema Phoenix.Um forte odor de umidade adejava no ar,talvez vindo dos enxovalhados carpetes,arruinados pelas incontáveis goteiras do antigo prédio.
    Apenas algumas pessoas,poucas pessoas,estavam presentes quando a película teve seu início,todas intencionalmente alojadas em poltronas distantes umas das outras.
    Imagens de um hospital,muito antigo,em um local muito distante.Uma noite chuvosa,um homem magro aguarda na sala de espera,a noite adensa rapidamente,surge a inquietação,e então ouve-se pelo corredor o choro,o choro de uma criança,e tudo tem início.
    Enquanto as imagens vão alternando-se na antiga tela,já manchada pelo tempo,pessoas saem,pessoas chegam,ouço ruídos dos sapatos,risos,e o cheiro de mofo.
    As imagens tremem,é as peculiaridades da história,muitas e muitas vezes contada,e a cada exibição,incluem-se novas cenas.Poderia ser um filme como qualquer um outro,uma sessão de final de tarde,mas não para mim,não este filme.Tudo nele me é familiar,as brincadeiras,a teimosia,o amigo,a escola,a indiferença,a juventude,o medo e a tristeza.E os expectadores vão alternando-se a cada nova cena,dispersivos,desatentos,apenas cuidando de suas próprias vidas.
    A cada novo episódio,uma lembrança,o engano,a ingenuidade,a mão estendida ao carrasco,esta tudo lá,tudo no filme,sem cortes,sem dublê,sem ensaio,tudo feito no momento exato,sem uma segunda chance para refilmar.Nada me parece estranho,ninguém é a mim desconhecido.Talvez estivessem apenas jogados na caixa do esquecimento.Como antigas fotografias.
    Com o decorrer da película,as luzes parecem definhar a cada cena,a platéia vai reduzindo-se rapidamente ao que a sala vai ficando silenciosa,sombria,melancólica.Procuro acompanhar com toda atenção as últimas cenas,mas a imagem já é turva,difusa,sem que eu possa distinguir quem nela esta.
    A sala esta agora quase completamente vazia,um sopro gelado circula por entre as fileiras de poltronas.Antes do desfecho final,e as luzes,já extremamente fracas,se extinguirem por completo,jogando um breu sobre o velho cinema,percebo que além de mim,apenas mais três pessoas ficaram,como eu,até o final.
    Um jovem magro,muito parecido com o magro homem do início do filme,uma jovem muito bela,e uma senhora de cabelos longos e grisalhos.Faltando segundos para que a última cena termine e finalmente as luzes se apeguem,consigo ver que os três,sentados na mesma fileira que eu,estão olhando-me e sorrindo docemente,com carinho,fecho meus olhos,e uma paz acalentadora invade meu coração. 
  • A Última Viagem

    Rapidamente atravessei o porto de Londres,estava deveras atrasado para uma VIAGEM ,que seria,a mais esperada por mim até então.A data era 19 de maio de 18...,e meu amigo,o capitão John Franklin,estava para partir com seu gigantesco navio cargueiro EREBUS,nosso destino era o Ártico Canadense,a bordo 84 oficiais e 40 homens de expedição, Seu objetivo era navegar através das águas traiçoeiras que separavam os oceanos Atlântico e Pacífico. Liderada por  John Franklin, a embarcação tinha como missão  coletar amostras e realizar estudos científicos ao longo do caminho.
    Como havia recebido o convite do amigo John,integrei-me a expedição para registrar por escrito as aventuras nos mares gelados pelo qual tencionávamos passar. Homens com vidas espartanas,frugais pesquisadores,mesmo que apenas para permitir a realização de seus ideais.
    Tratei imediatamente de acomodar-me em uma pequena cabine, havia outras de tamanho e acomodações mais agradáveis,mas aquela tinha algo de especial para mim,ela ficava ao lado da ponte de comando,o que me era muito favorável visto que tinha que estar atento a todos os detalhes daquela magnífica aventura que se aproximava a cada minuto.
    Por fim partimos lentamente,e por longos dias e noites fiquei em minha cabine tentando entender aquela pilha de cartas náuticas que fora colocada em minha mesa,e degustando  uma garrafa do mais puro malte,que foi gentilmente destinada a mim pelo capitão.Somente em uma determinada noite,quando ao olhar pela escotilha do navio,percebi na penumbra da noite que já havia envolvido a embarcação algo de diferente.
    Saí de cabine e caminhei vagarosamente até a borda do tombadilho, quando vi uma singularíssima nuvem isolada no lado noroeste do céu. Distinguia-se não só pela sua cor ,como se fosse um gigantesco véu,como por ser a primeira que tínhamos visto desde a partida do Porto de Londres. .Mesmo mergulhados em uma escuridão profunda da noite,aquela nuvem se aproximava rapidamente,poderia dizer sem dúvida que se tratava de um forte nevoeiro,o que confesso,me deixou um tanto quanto temeroso.
    A nuvem aproximou-se com uma velocidade espantosa e em meio ao gélido nevoeiro que já começava a penetrar a polpa do navio,pude ouvir a capitão John perguntar ao imediato;
    - Em que ponto do pacifico estamos?
    E a resposta foi imediata
    :-Estamos contornado as Ilhas do Rei Wilham ,Senhor.
    Foi então que houve um silêncio mortal, que durou por quase um minuto, durante o qual a queda de uma folha ou o flutuar de uma pena poderiam ser escutados,porque os motores estavam paralisados,e a densa nuvem engoliu o majestoso cargueiro,sem que pudéssemos visualizar a um metro de nosso olhos.
    Não sei bem por que motivo,mas imediatamente me veio a mente a casa onde morava e a imagem de minha já falecida esposa. Da minha cidade e da minha família tenho pouco que dizer. Os meus péssimos costumes e o decorrer dos anos tornaram-me estranho a ambas. Graças ao meu insignificante patrimônio, nunca tive o benefício de uma educação mais aprimorada, mas a inclinação do meu espírito para a contemplação deu-me possibilidades de classificar metodicamente todo esse material instrutivo acumulado pelo estudo mais apurado da leitura.
    As obras dos filósofos ingleses, sobretudo, causaram-me infinitas delícias,não por admiração pela sua eloqüente narrativa, mas pelo prazer que, por virtude dos meus hábitos de rigorosa análise, sentia surpreendente os seus meios de tornar o irreal quase realidade.
    Criticaram-me muitas vezes pelo gênio forte e a falta de Paciência com os cínicos.O Senso crítico  das minhas opiniões tornou-me célebre,ou indesejado,não sei  ao certo.Talvez por estes motivos,tivera eu ,recebido de John o convite para a viagem.Meu bom amigo quisera talvez,afastar-me,mesmo por curto tempo,dos vícios e das maledicências da sociedade londrina.
    A nuvem aos poucos foi tornando-se menos densa,e aos poucos foi possível visualizar a proa do navio quase por completo,e minha reação foi a mais apavorante que se possa imaginar,encontrava-me sozinho envolto naquela  névoa que tirava-me o fôlego.Agarrado as bordas do tombadilho vaguei cambaleante,estonteado que estava pela imersão naquela fumaça diabólica,tentei sem sucesso encontrar alguém da tripulação,ou alguém do grupo de pesquisa.O cargueiro EREBUS estava completamente abandonado nas águas gélidas do Canadá.
    O medo e o pavor tomou conta de meus sentidos,desesperadamente dirigi-me a porta do depósito principal,na parte inferior do navio,lá havia caixas com bebidas,todas  haviam caído e espantosamente  as garrafas estavam a rolar pelo chão com balanço da embarcação.Já pensava em esconder-me até entender o que de tão inacreditável  havia acontecido,quando um som cortou a tenebrosa neblina e chegou aos meus ouvidos,pareceu-me uma voz , alguém chamando ou pedindo socorro,então corri,ou tentei correr,em direção aquela voz,que poderia ser de algum tripulante,que como eu,deveria estar tomado pelo mais terrível pavor.Enquanto me aproximava mais e mais da proa do fantasmagórico navio,o som chegava com mais clareza,e um sentimento aterrador dominou-me quando,gelando até o fundo de minha alma,já na parte superior do cargueiro,em meio aquela infernal neblina,alguém chamava por mim.
    Meu nome era ouvido em todas as direções,acompanhado com o som de lamentações,um lamento com uma voz  feminina e por demais aterrorizante,lembrando-me imediatamente minha esposa,em seus momentos finais de vida, vindo sei lá de onde,perecia-me  sair dos cantos mais profundos do inferno,e ressoava entre a escuridão e neblina,numa combinação diabólica.   
    Seria aquele momento o meu juízo final,aqueles tripulantes que não vejo  mais estariam todos salvos,e somente eu fiquei para vagar pela eternidade neste mar de lamentações e penúrias.Caindo de joelhos no convés da embarcação,com a cabeça entre as mãos,desejei nunca ter estado ali,pois não sei qual destino,Deus ou o Diabo traçaram para mim.
  • A união do complexo medo atraente

    Penetrara no karma atual da moderna sociedade virtual em que nasceu, cresceu e ainda vive, mergulhado numa atmosfera de medos e complexos que lhe foi imposto por uma sociedade de valores hipócritas e sentimentos ilusórios. Essa triste “realidade” que até então vivenciava, teve sua extrema abrangência com o poder que lhe foi outorgado através da internet e seus recursos digitais. Passara em muito pouco tempo de um simples telespectador para um aspirante astro internauta autodidata.

    Através da internet e suas redes sociais, como um cyberpunk moderno, percebeu que a espada encantada cravada na grande pedra, não pertencia somente ao lendário e valente Rei Arthur e seus cavaleiros da távola-redonda, como era antes o caso monopolista da grande mídia. Agora sabia que também ele obtivera o direito de possuir sua própria espada mágica, e, foi encantado e possuído por ela.

    No início não podia prever as consequências de tal poder. Tudo era maravilhosamente maravilhoso. Estava perplexo diante dos inúmeros portais mágicos que lhe fora aberto por esses dispositivos radiativamente encantados, onde tudo começou com o poder telepático de enviar e receber nossos pensamentos, desejos e sentimentos nos virtualizando em palavras, falas e imagens. Abrangendo nossas perspectivas limitadas, além dos nossos vínculos sociais mais próximos, alcançando o desconhecido em milésimos de segundos, entre os milhares quilômetros de distâncias. Até o Mago Merlim se aqui entre nós, nesse momento, estivesse, ficaria impressionado com tamanho poder e proeza outorgado a todos.

    Porém, a espada de Arthur continha dois gumes e cortava dos dois lados.

    Percebeu-se ainda, que, não tarde, o poder que lhe foi ofertado pelos deuses tecnológicos exigia de nós sabedoria para possuí-lo. Essa poderosa espada mágica Kaledvouc’h como se outrora pensava, estava inacessível ao grande público há tanto tempo, encrustada na grande pedra, pelo nobre motivo daquele a quem seria o seu possuidor, ter que passar por ensinamentos de vida rigorosos, pelo qual o seu espírito e o seu coração fossem meticulosamente testados. Só assim, teriam a primazia de obter a força dos deuses para puxar a espada da grande pedra. Essa sagrada espada é raramente denominada “Excalibur”, e é retirada por Arthur como símbolo milagroso de sua Nobreza e direito ao trono da Bretanha.

    Entretanto, agora se questionara: Será que todos possui esse direito e nobreza do Rei Arthur?

    Fomos preparados e disciplinados para empunhar tamanho poder?

    Virtualmente, se deparou com os muitos casos de jovens que por uma simples brincadeira nas redes sociais, acabaram causando dor e destruição a si mesmos e aos outros. Como foi o caso da menina russa de 17 anos que morava nos Estados Unidos, que filmou um ato de estrupo em um aplicativo de postagens de vídeos, com duração de nove minutos, só para obter likes. Intentara que naquele momento durante a filmagem, a jovem poderia usar o seu dispositivo para pedir ajuda ligando para polícia, ou um adulto responsável, também notara, que as pessoas que estavam assistindo o vídeo online, em vez de dar likes, poderiam aconselhá-la para impedir aquele ato brutal. Que alcançou milhares de visualizações.

    Daí, meditara, que o poder sem a responsabilidade é cegamente egoísta e brutal.

    Entretanto, dualisticamente, não esquecia ele, que Excalibur é uma espada pontuda afiada de dois gumes que corta, penetra e dilacera. Podendo afastar as pessoas, ou uni-las. Mas, nesse bidimensional mundo de algoritmos binários computacional e ilusório, afirmava ele somente conhecer causas e efeitos mecânicos, e nunca as Sagradas Leis Naturais em si mesmas. Por isso, que ao unir as pessoas, afastava a solidariedade entre elas, em que camuflado e protegido em sua privacidade, por detrás das telas negras caleidoscópicas brilhantes, o indivíduo se julgava ir além do respeito e dos sentimentos fraternos, soltando sua naja língua pensante, em seus rápidos dígitos dedos, envenenada nos seus mais mesquinhos sentimentos obscuros de inveja, cacoetes, ego e porcas maldades. Que no mundo fenomenal das aparências, só percebia bidimensionalmente ângulos e superfícies, e nunca o integral das coisas.

    Obviamente, ele sabia que a dialética da consciência da proximidade física dos corpos pensantes, que tudo entende por intuição, através das palavras audíveis, figuras simbólicas, gestos, movimentos, olhares e expressões voluntárias e involuntárias fora cruelmente ofuscada pela dialética racional do intelecto presente nas redes sócias, fóruns e plataformas proprietárias de mensagens instantâneas baseadas em nuvem, que nada tem de essência natural humana, e sim, apenas o ilusórico poder formulativo de ideias e conceitos lógicos preconcebidos, que por mais brilhante que seja, e por mais que se julgue de qualidade e de utilidade nos inúmeros aspectos da vida prática e cotidiana, nada tem de valor para existência e ecologia humana, resultando apenas em obstáculos subjetivos, incoerentes, torpes e pesados para nossa simbiose como seres fraternais coletivos, e que nada tem de verdade.

    No fim, diante da verdade, percebeu-se sendo o pobre poderoso, precisando de alento (likes, em legais polegares opositores), precisando de algo que o anime (coraçãozinhos vermelhos, e rostos redondos sorridentes amarelados), sentiu-se com o ego demasiadamente forte e personalidade terrivelmente débil, por sua própria mesquinha natureza apodrecida em si mesmo, encontrando-se numa situação completamente desastrosa, e sem vantagens, em que o sono lhe foi roubado, a ansiedade descontrolava as batidas do seu coração, e a vaidade tomara o controle de sua alma, tendo a depressão como amante e companheira.

    E no seu estado deprimente, porém, contemplativo, sabia ele que nos primórdios da nossa existência como uma das muitas espécies que habita esse ecossistema terráqueo, éramos simplesmente um ser coabitando e interagindo com os outros inúmeros seres aqui existentes. Não víamos a natureza como esse belo quadro pintado a óleo ou aquarela, ou como as ‘pixeladas’ imagens digitais no fundo dos nossos desktops eletrônicos e dispositivos móveis. Não ansiávamos pela chegada do tempo limitado do fim de semana para passear com a família nos bosques e pradarias, e nem tão pouco esperávamos a chegada das férias para curtir os muitos lugares paradisíacos, ou nos aventurar em trilhas, escaladas e caminhadas nos ditos ambientes naturais e ecológicos. Essa coisa alheia que hoje denominamos “NATUREZA” era intimamente o único e o primeiro mundo vital e cultural que existíamos. Nossos antepassados não só viviam em contato íntimo com as outras criaturas vegetais, animais e inanimadas, como se comunicavam diretamente com os seus espíritos e coração. Daí que surgem as fabulosas histórias e contos de fadas, gnomos, duendes, devas, ninfas, curupiras, orixás, anjos, caboclos, entre outras inúmeras manifestações do que hoje classificamos como “espíritos inorgânicos da natureza” em diversas culturas humanas espalhadas pelo mundo.

    Por isso, ficou muito difícil para o seu entendimento humano separar a sua espiritualidade, cura e boa qualidade de vida da Mãe Natureza. E, entendeu o porquê dos diversos movimentos esotéricos, xamanísticos, taoístas, hinduístas, budistas, cabalistas, sufistas, gnósticos, wicca, candomblé, entre outros da busca da espiritualidade, como também os movimentos de cura, saúde mental, e medicina ancestral e alternativa se situarem em ambientes naturais abertos e ecológicos.

    Nisso, percebeu que ao longo do nosso rigoroso processo civilizatório, em que gradualmente nos separamos do nosso natural habitar, que o SAGRADO em nós foi naturalmente esquecido. Deixamos de ouvir as MENSAGENS DOS VENTOS, paramos de falar a LÍNGUA DAS ÁRVORES E MONTANHAS, abandonamos o afeto de SENTIR COM O CORAÇÃO, e os nossos olhos se cegaram para o MUNDO INVISÍVEL. E, para piorar mais ainda a sua situação, vira que como espécie se transformara no pior predador que já existiu em todos os tempos, ‘Satânico Aniquilador’ das muitas culturas existenciais em todos os aspectos da natureza, e, dele mesmo.

    Meditara ainda mais profundamente de que como espécie, nos tornamos existências humanas desencantadas, prisioneiras de nós mesmos em frente a uma tela Touch Screen de valores, e, de falsas concepções virtuais, mendigando uma irreal atenção em salva de palmas, likes e emotions de coraçãozinhos vermelhos, rostos redondos amarelados (caras de bolachas) e legais polegares opositores. Vira que as proximidades humanas se basearam em distantes conexões WI-FI, em que ignoramos cruelmente os nossos presentes íntimos entes queridos a nossa volta, em ser um direto participante na criação do Aqui e Agora, para nos tornar um observador e um observado distante do passado alienado dos desejos, anseios, críticas e felicidades do desconhecido “amigo” internauta. Preferimos viver solitários com políticas de privacidade essa virtual ruptura do contato natural, nos separando plenamente do sentido existencial da vivência humana, e minimizando a nossa consciência social, afetiva e emocional ao estado simplista do observador e do observado, e de que a tecnologia não promove e nunca promoverá, assim, como, as propostas da comunidade científica, uma fusão harmoniosa com a existência humana e a natureza. Sua meta desde a revolução industrial é unicamente modificar. Acreditando melhorar, otimizar, maximizar, implantar, oportunizar e assegurar um conceito evolucionário de humanidade ciberneticamente supranatural, onde poderíamos viver sem depender dos recursos naturais e afetos sociais para nossa existência. Para assim, em vez de (como eles acreditam) subsistirmos, ‘sobre-existirmos’ na lua, em Marte, ou em uma cosmológica galáxia distante como prega e aliena a NASA e Hollywood.

    Sentira que perdera a simplicidade da vida e o seu primeiro amor, e se tornara um ser imediatista, arrogante, conformista, impaciente, tempestuoso, depressivo e penoso. Ignorava suas crianças, e assim, fazia com que elas o ignorasse, transformando-as no subproduto mesquinho dele mesmo. Nisso, vira que ignoramos os nossos semelhantes como nunca antes já vivenciado no mundo, em todos os tempos de nossa comunal existência, ofertando para os nossos irmãos e irmãs o que tem de pior em nós mesmo. E, dessa forma e maneira, acumulamos dores e sofrimentos para o nosso último sopro de vida, e assim, morremos existencialmente porque matamos nossa essência dentro dos nossos filhos e filhas, chegando a tal ponto de não mais nos perpetuarmos nos novos corpos.

    Percebera que a verdadeira expressão para o mundo tecnológico de hoje é ABSOLUTA TRISTEZA. E isso dói na alma… adoecemos! E o pior é de que não sabemos que estamos existindo enfermos. Acumulamos muitos bens do Aqui e pouca coisa do Agora, e a Magia da Alegria abandonou a Morada do Coração, e o Sagrado Entendimento que em tudo dança se ocultou. Então, eis a questão e desafio existencial da nossa cultura humana: ATÉ QUANDO FICAREMOS CALADOS E INERTES, TRANSMITINDO PARA AS GERAÇÕES FUTURAS ESSA GRANDE DEPRESSÃO EXISTENCIAL, PELO QUAL NOS CONVERTEMOS NO TIRANO PROBLEMÁTICO DESTRUIDOR DA BELEZA DE TODAS AS COISAS? Entretanto, quem se movimentará e falará com loucura e paixão para o despertar da grande massa? Quem será esse novo Meshiach e Avatar? Mas, enquanto ELE ou ELA não chegar ficaremos inertes, atrofiando nossa mente e coração nas telas e internet? Imbuído nessas íntimas e totalitárias questões, analisara que os desafios para o retorno do SAGRADO em nossas vidas são tremendamente numerosos.

    E, contemplando todo aquele panorama, se viu com sua poderosa espada na palma de sua mão, a mágica Kaledvouc’h, o espelho negro. E como um pedaço de madeira arrastado pelo rio, tentando resolver as coisas por sua própria conta, reagindo ante qualquer dura palavra, qualquer problema e qualquer dificuldade, lamentavelmente, o medo empoderou o seu ser, fabricando nos cinco cilindros da máquina orgânica, em que lhe compunha e que o seu SER habitara, os inumeráveis multifacetados eus-demônios, aplicativos escravos de si mesmo.

  • A união do complexo medo atraente

    Penetrara no karma atual da moderna sociedade virtual em que nasceu, cresceu e ainda vive, mergulhado numa atmosfera de medos e complexos que lhe foi imposto por uma sociedade de valores hipócritas e sentimentos ilusórios. Essa triste “realidade” que até então vivenciava, teve sua extrema abrangência com o poder que lhe foi outorgado através da internet e seus recursos digitais. Passara em muito pouco tempo de um simples telespectador para um aspirante astro internauta autodidata.

    Através da internet e suas redes sociais, como um cyberpunk moderno, percebeu que a espada encantada cravada na grande pedra, não pertencia somente ao lendário e valente Rei Arthur e seus cavaleiros da távola-redonda, como era antes o caso monopolista da grande mídia. Agora sabia que também ele obtivera o direito de possuir sua própria espada mágica, e, foi encantado e possuído por ela.

    No início não podia prever as consequências de tal poder. Tudo era maravilhosamente maravilhoso. Estava perplexo diante dos inúmeros portais mágicos que lhe fora aberto por esses dispositivos radiativamente encantados, onde tudo começou com o poder telepático de enviar e receber nossos pensamentos, desejos e sentimentos nos virtualizando em palavras, falas e imagens. Abrangendo nossas perspectivas limitadas, além dos nossos vínculos sociais mais próximos, alcançando o desconhecido em milésimos de segundos, entre os milhares quilômetros de distâncias. Até o Mago Merlim se aqui entre nós, nesse momento, estivesse, ficaria impressionado com tamanho poder e proeza outorgado a todos.

    Porém, a espada de Arthur continha dois gumes e cortava dos dois lados.

    Percebeu-se ainda, que, não tarde, o poder que lhe foi ofertado pelos deuses tecnológicos exigia de nós sabedoria para possuí-lo. Essa poderosa espada mágica Kaledvouc’h como se outrora pensava, estava inacessível ao grande público há tanto tempo, encrustada na grande pedra, pelo nobre motivo daquele a quem seria o seu possuidor, ter que passar por ensinamentos de vida rigorosos, pelo qual o seu espírito e o seu coração fossem meticulosamente testados. Só assim, teriam a primazia de obter a força dos deuses para puxar a espada da grande pedra. Essa sagrada espada é raramente denominada “Excalibur”, e é retirada por Arthur como símbolo milagroso de sua Nobreza e direito ao trono da Bretanha.

    Entretanto, agora se questionara: Será que todos possui esse direito e nobreza do Rei Arthur?

    Fomos preparados e disciplinados para empunhar tamanho poder?

    Virtualmente, se deparou com os muitos casos de jovens que por uma simples brincadeira nas redes sociais, acabaram causando dor e destruição a si mesmos e aos outros. Como foi o caso da menina russa de 17 anos que morava nos Estados Unidos, que filmou um ato de estrupo em um aplicativo de postagens de vídeos, com duração de nove minutos, só para obter likes. Intentara que naquele momento durante a filmagem, a jovem poderia usar o seu dispositivo para pedir ajuda ligando para polícia, ou um adulto responsável, também notara, que as pessoas que estavam assistindo o vídeo online, em vez de dar likes, poderiam aconselhá-la para impedir aquele ato brutal. Que alcançou milhares de visualizações.

    Daí, meditara, que o poder sem a responsabilidade é cegamente egoísta e brutal.

    Entretanto, dualisticamente, não esquecia ele, que Excalibur é uma espada pontuda afiada de dois gumes que corta, penetra e dilacera. Podendo afastar as pessoas, ou uni-las. Mas, nesse bidimensional mundo de algoritmos binários computacional e ilusório, afirmava ele somente conhecer causas e efeitos mecânicos, e nunca as Sagradas Leis Naturais em si mesmas. Por isso, que ao unir as pessoas, afastava a solidariedade entre elas, em que camuflado e protegido em sua privacidade, por detrás das telas negras caleidoscópicas brilhantes, o indivíduo se julgava ir além do respeito e dos sentimentos fraternos, soltando sua naja língua pensante, em seus rápidos dígitos dedos, envenenada nos seus mais mesquinhos sentimentos obscuros de inveja, cacoetes, ego e porcas maldades. Que no mundo fenomenal das aparências, só percebia bidimensionalmente ângulos e superfícies, e nunca o integral das coisas.

    Obviamente, ele sabia que a dialética da consciência da proximidade física dos corpos pensantes, que tudo entende por intuição, através das palavras audíveis, figuras simbólicas, gestos, movimentos, olhares e expressões voluntárias e involuntárias fora cruelmente ofuscada pela dialética racional do intelecto presente nas redes sócias, fóruns e plataformas proprietárias de mensagens instantâneas baseadas em nuvem, que nada tem de essência natural humana, e sim, apenas o ilusórico poder formulativo de ideias e conceitos lógicos preconcebidos, que por mais brilhante que seja, e por mais que se julgue de qualidade e de utilidade nos inúmeros aspectos da vida prática e cotidiana, nada tem de valor para existência e ecologia humana, resultando apenas em obstáculos subjetivos, incoerentes, torpes e pesados para nossa simbiose como seres fraternais coletivos, e que nada tem de verdade.

    No fim, diante da verdade, percebeu-se sendo o pobre poderoso, precisando de alento (likes, em legais polegares opositores), precisando de algo que o anime (coraçãozinhos vermelhos, e rostos redondos sorridentes amarelados), sentiu-se com o ego demasiadamente forte e personalidade terrivelmente débil, por sua própria mesquinha natureza apodrecida em si mesmo, encontrando-se numa situação completamente desastrosa, e sem vantagens, em que o sono lhe foi roubado, a ansiedade descontrolava as batidas do seu coração, e a vaidade tomara o controle de sua alma, tendo a depressão como amante e companheira.

    E no seu estado deprimente, porém, contemplativo, sabia ele que nos primórdios da nossa existência como uma das muitas espécies que habita esse ecossistema terráqueo, éramos simplesmente um ser coabitando e interagindo com os outros inúmeros seres aqui existentes. Não víamos a natureza como esse belo quadro pintado a óleo ou aquarela, ou como as ‘pixeladas’ imagens digitais no fundo dos nossos desktops eletrônicos e dispositivos móveis. Não ansiávamos pela chegada do tempo limitado do fim de semana para passear com a família nos bosques e pradarias, e nem tão pouco esperávamos a chegada das férias para curtir os muitos lugares paradisíacos, ou nos aventurar em trilhas, escaladas e caminhadas nos ditos ambientes naturais e ecológicos. Essa coisa alheia que hoje denominamos “NATUREZA” era intimamente o único e o primeiro mundo vital e cultural que existíamos. Nossos antepassados não só viviam em contato íntimo com as outras criaturas vegetais, animais e inanimadas, como se comunicavam diretamente com os seus espíritos e coração. Daí que surgem as fabulosas histórias e contos de fadas, gnomos, duendes, devas, ninfas, curupiras, orixás, anjos, caboclos, entre outras inúmeras manifestações do que hoje classificamos como “espíritos inorgânicos da natureza” em diversas culturas humanas espalhadas pelo mundo.

    Por isso, ficou muito difícil para o seu entendimento humano separar a sua espiritualidade, cura e boa qualidade de vida da Mãe Natureza. E, entendeu o porquê dos diversos movimentos esotéricos, xamanísticos, taoístas, hinduístas, budistas, cabalistas, sufistas, gnósticos, wicca, candomblé, entre outros da busca da espiritualidade, como também os movimentos de cura, saúde mental, e medicina ancestral e alternativa se situarem em ambientes naturais abertos e ecológicos.

    Nisso, percebeu que ao longo do nosso rigoroso processo civilizatório, em que gradualmente nos separamos do nosso natural habitar, que o SAGRADO em nós foi naturalmente esquecido. Deixamos de ouvir as MENSAGENS DOS VENTOS, paramos de falar a LÍNGUA DAS ÁRVORES E MONTANHAS, abandonamos o afeto de SENTIR COM O CORAÇÃO, e os nossos olhos se cegaram para o MUNDO INVISÍVEL. E, para piorar mais ainda a sua situação, vira que como espécie se transformara no pior predador que já existiu em todos os tempos, ‘Satânico Aniquilador’ das muitas culturas existenciais em todos os aspectos da natureza, e, dele mesmo.

    Meditara ainda mais profundamente de que como espécie, nos tornamos existências humanas desencantadas, prisioneiras de nós mesmos em frente a uma tela Touch Screen de valores, e, de falsas concepções virtuais, mendigando uma irreal atenção em salva de palmas, likes e emotions de coraçãozinhos vermelhos, rostos redondos amarelados (caras de bolachas) e legais polegares opositores. Vira que as proximidades humanas se basearam em distantes conexões WI-FI, em que ignoramos cruelmente os nossos presentes íntimos entes queridos a nossa volta, em ser um direto participante na criação do Aqui e Agora, para nos tornar um observador e um observado distante do passado alienado dos desejos, anseios, críticas e felicidades do desconhecido “amigo” internauta. Preferimos viver solitários com políticas de privacidade essa virtual ruptura do contato natural, nos separando plenamente do sentido existencial da vivência humana, e minimizando a nossa consciência social, afetiva e emocional ao estado simplista do observador e do observado, e de que a tecnologia não promove e nunca promoverá, assim, como, as propostas da comunidade científica, uma fusão harmoniosa com a existência humana e a natureza. Sua meta desde a revolução industrial é unicamente modificar. Acreditando melhorar, otimizar, maximizar, implantar, oportunizar e assegurar um conceito evolucionário de humanidade ciberneticamente supranatural, onde poderíamos viver sem depender dos recursos naturais e afetos sociais para nossa existência. Para assim, em vez de (como eles acreditam) subsistirmos, ‘sobre-existirmos’ na lua, em Marte, ou em uma cosmológica galáxia distante como prega e aliena a NASA e Hollywood.

    Sentira que perdera a simplicidade da vida e o seu primeiro amor, e se tornara um ser imediatista, arrogante, conformista, impaciente, tempestuoso, depressivo e penoso. Ignorava suas crianças, e assim, fazia com que elas o ignorassem, transformando-as no subproduto mesquinho dele mesmo. Nisso, vira que ignoramos os nossos semelhantes como nunca antes já vivenciado no mundo, em todos os tempos de nossa comunal existência, ofertando para os nossos irmãos e irmãs o que tem de pior em nós mesmos. E, dessa forma e maneira, acumulamos dores e sofrimentos para o nosso último sopro de vida, e assim, morremos existencialmente porque matamos nossa essência dentro dos nossos filhos e filhas, chegando a tal ponto de não mais nos perpetuarmos nos novos corpos.

    Percebera que a verdadeira expressão para o mundo tecnológico de hoje é ABSOLUTA TRISTEZA. E isso dói na alma… adoecemos! E o pior é de que não sabemos que estamos existindo enfermos. Acumulamos muitos bens do Aqui e pouca coisa do Agora, e a Magia da Alegria abandonou a Morada do Coração, e o Sagrado Entendimento que em tudo dança se ocultou. Então, eis a questão e desafio existencial da nossa cultura humana: ATÉ QUANDO FICAREMOS CALADOS E INERTES, TRANSMITINDO PARA AS GERAÇÕES FUTURAS ESSA GRANDE DEPRESSÃO EXISTENCIAL, PELO QUAL NOS CONVERTEMOS NO TIRANO PROBLEMÁTICO DESTRUIDOR DA BELEZA DE TODAS AS COISAS? Entretanto, quem se movimentará e falará com loucura e paixão para o despertar da grande massa? Quem será esse novo Meshiach e Avatar? Mas, enquanto ELE ou ELA não chegar ficaremos inertes, atrofiando nossa mente e coração nas telas e internet? Imbuído nessas íntimas e totalitárias questões, analisara que os desafios para o retorno do SAGRADO em nossas vidas são tremendamente numerosos.

    E, contemplando todo aquele panorama, se viu com sua poderosa espada na palma de sua mão, a mágica Kaledvouc’h, o espelho negro. E como um pedaço de madeira arrastado pelo rio, tentando resolver as coisas por sua própria conta, reagindo ante qualquer dura palavra, qualquer problema e qualquer dificuldade, lamentavelmente, o medo empoderou o seu ser, fabricando nos cinco cilindros da máquina orgânica, em que lhe compunha e que o seu SER habitara, os inumeráveis multifacetados eus-demônios, aplicativos escravos de si mesmo.

  • A verdade

    Eu não queria dizer assim, na lata,
    mas eu estou cansada desse jogo,
    estou cansada de ver você mentir para mim,
    eu sei de toda a verdade,
    porque insiste em me enganar?

    Por acaso você quer desistir de nós?
    Quer correr para longe de mim?
    Quer me deixar?
    Eu te entendo, eu fugiria de mim também. 

    Mas eu odeio quando você me tira para idiota
    quando finge ser outra pessoa so para me afastar de você
    Afinal, você não gosta de mim ou quer fugir de você?
    Qual é o problema entre nós ?

    São tantas perguntas que uma hora terão que ser respondidas
    E você sabe disso, tanto quanto sabe que o céu é azul 
    Não adianta tentar fugir dessa vez
    E as mentiras não irão funcionar também
    Seja honesto e diga tudo de uma vez. 
  • A verdade está onde nunca a procuramos — Crônicas do Parque

    Era uma daquelas manhãs escaldantes com temperaturas que variavam de trinta e cinco a trinta e oito graus célsius, com sensação de quarenta a quarenta cinco no centro-norte de Israel. Como de costume me encontrava todos os Yom Sheni (segunda-feira) no parque de Kfar Saba, fazendo manutenção nas piscinas ecológicas.

    Pegava meu bastão de rede, uma caixa plástica preta dessas de armazenar verduras em supermercados, e um balde vazio de comida de peixes ornamentais. Entrava na piscina e submergia até os joelhos no primeiro terraço em que ficava as Nymphoides, espécies do gênero das plantas aquáticas que crescem enraizados no fundo com as folhas a flutuar à superfície da água, de cores brancas, amarelas e variadas tonalidades de flores rosa, da família Nymphaeaceae.

    Prendia meu smartphone pela sua capa ao cordão que ficava no meu pescoço, em que segurava ao peito um Magen David (Estrela de Davi) com um rosto de leão no centro, e colocava uma música suave para iniciar o meu trabalho de cuidar dos nenúfares.

    Em especial, aquela era a piscina ecológica que eu mais gostava dentre todas outras que dava manutenção no centro-norte. Pois além de ser a maior dessa região, estava em um parque bonito e tranquilo arrodeado de belas esculturas. Essa piscina era especial, pois era a única de todas que tinha uma original carpa cinza gigante, espécie de peixe de água doce originário da China, e também havia um canteiro com Lotus Branco (Nelumbo Nucifera), um género de plantas aquáticas pertencente à família Nelumbonaceae da ordem Proteales, e também era lotada de peixes Koi (Nishikigoi), tendo o Higoi (carpa vermelha), o Asagui (carpa azul e vermelha) e o Bekko (branca e preta), que são carpas ornamentais coloridas ou estampadas que surgiram por mutação genética espontânea das carpas comuns (carpas cinza) na região de Niigata no Japão, tendo também outras inúmeras variedades de peixes ornamentais como: peixes dourados, peixes barrigudinho (Guppy) de diversas cores, aruanãs, entre muitos outros.

    Nesse dia em especial, me senti constantemente sendo observado por um senhor de chapéu azul e cabelos grisalhos que aparentava ter a idade de oitenta anos. Estava bem vestido e mantinha sempre um sorriso no rosto. Ele se encontrava sentado em um banco largo que ficava próximo a piscina. E lentamente eu me aproximava dele ao curso do meu oficio de retirar as folhas amareladas dos nenúfares. E ao me aproximar daquela figura atraente, eu o cumprimentei com um Boker Tov (Bom Dia), e ele me respondeu com um Boker Or (Manhã de Luz). Assim trocamos sorrisos, e me voltei novamente para o meu ofício matinal.

    Quando o balde em que colocava as folhas amareladas e flores mortas dos nenúfares se encontrou cheio, me retirei da piscina para esvazia-lo, o despejando na caixa plástica preta que estava perto do banco em que o senhor de chapéu azul se encontrava sentado. E ao me retirar para regressar a piscina, ele elevou a sua doce voz anciã, perguntando-me:

    _ Atah Rotze coz cafeh (Você aceita um copo de café)?

    Então, de imediato lhe respondi:

    _ Ken, efshar (sim, aceito).

    Então, ele retirou de uma sacola de pano um bojão de gás pequeno e enroscou uma pequena boca de fogo nele, acoplando. Colocou o aparato ao solo, e retirou da sacola uma garrafa pet de coca-cola com água, uma pequena chaleira e dois copos de aço inoxidável. E, enquanto ele despejava a água no recipiente e ascendia o fogo com um isqueiro para ferventar, fez um sinal com as mãos para eu me sentar ao seu lado.

    Enquanto a água estava para ferver, nos apresentamos e ele me fazia inúmeras perguntas sobre mim e meu oficio. Perguntas comuns que eu já estava calejado em responder. E depois que ele preparou o café, comecei também a interroga-lo. Para minha surpresa descobri que ele não era judeu, mas árabe. Sendo que falava um bom hebraico sem sotaque e se vestia elegantemente, como um velho Ashkenazi. Além dele ter olhos de uma cor azul claros como o céu que estava sobre nossas cabeças. (…Nós, e nossos pré-julgamentos…).

    Ele me falou que viveu muito anos na Espanha, sendo um mestre sacerdote de Sufi gari (Tasawwuf), uma arte mística e contemplativa do Islão, assim como é a Kabbalah para os judeus. Ele viu o Magen David em meu peito, e disse que era bonito esse símbolo com um rosto do leão no centro. Também, me falou que esse símbolo em que os judeus se apropriaram o colocando em sua bandeira, é de muita importância para o Tasawwuf (Sufismo). E me revelou segredos importantes sobre o significado desse símbolo.

    Conversamos sobre muitas coisas, e eu o interrogava mais e mais, pois vi que esse senhor era muito sábio e ciente de tudo que falava. Ele me revelou coisas sobre a conduta do corpo, como postura e fala. Falou-me sobre pensamentos, músicas e danças místicas, e, sobre alimentação e jejuns para se ter uma vida espiritual equilibrada com o corpo físico. Nesse assunto, eu perguntei a ele porque não se deve comer carne de porco. Até porque eu já tinha perguntado a muitos rabinos e religiosos judeus o porquê de não comer a carne desse animal, e muitos não sabiam me responder ao certo. E os que respondiam, falavam que estava escrito nos Livros da Lei, a Torah, mas não sabiam perfeitamente o porquê.

    Diante da minha pergunta, ele sorriu e me disse algo em que fiquei atônito. Contava ele que os porcos eram seres humanos amaldiçoados, por levar uma vida sexual pervertida na sua última encarnação. Ele me disse que por isso dentre todos os animais o porco era o mais inteligente, e, que seus órgãos internos como fígado, rins e coração são muito parecidos com os nossos, pois na verdade era um ser humano que encarnou nessa condição com a total consciência de sua vida passada, mas que devido ao fato de estar em um corpo animal atrofiado não podia se comunicar para se revelar como tal. Nasceu nessa condição devido a decadência espiritual de sua vida anterior como ser humano, ao se entregar aos prazeres sexuais nojentos e tenebrosos, por isso esse animal pode levar até trinta minutos tendo orgasmos. E assim, veio nessa condição para viver em sua podridão, ao comer seu alimento e dormir misturado as suas fezes, mesmo tendo a inteligência de defecar em um mesmo lugar, são condicionados pelos seus criadores (seres-humanos) a viver junto ao seu excremento. Também, ele me falou que o porco não tem a capacidade de olhar para cima, não podendo ver o céu, e sua pele não pode ser exposta a luz solar por muito tempo, pois não consegue transpirar, e pela falta de umidade decorrente do suor pode sofrer fortes queimaduras. Nasceu para olhar para baixo e se esconder da luz, sendo forçado por essa natureza a viver na lama. Ele também me disse, que o porco é o animal mais amaldiçoado do que a serpente, pois os porcos são invulneráveis às suas picadas venenosas. E concluiu:

    _ É por isso que não se deve consumir a carne desse animal, pôr na verdade ser um ser-humano totalmente consciente em forma atrofiada. _ e, acrescentou me revelando algo_ Você sabia que não a diferença de gosto entre carne humana da carne suína… ambas possuem a mesma textura e sabor.

    Uau! Diante desses fatos que me foram apresentados por esse velho sacerdote Sufi, eu fiquei estupefato. E, entendi o porquê de George Orwell escolher os porcos para serem os protagonistas da revolução em seu romance satírico (Animal Farm — A Revolução dos Bichos). Provavelmente, ele sabia desse conhecimento do Tasawwuf. E isso me fez pensar, o quanto os antigos sabem do que não sabemos. Essas são respostas que não podemos encontrar no oráculo Google. Respostas de um velho de oitenta e poucos anos sentando em um banco de parque.

    O velho me vendo atônito, colocou seus aparatos de café na sua sacola, levantou-se, despediu-se e saiu sem mais nada a dizer.

    E lá no banco do parque de Kfar Saba fiquei com a mão no queixo, vendo os peixes e as nymphaeas. Tão Ignorado em minha ignorante aquariofilia.
  • A VIDA COM GRAÇA

    A vida tem graça quando você cultiva bom astral
    Toda  vida perde a graça quando você não o tem.

    A vida pode não ter graça quando você tem vintém.
    A vida pode ter graça mesmo quando você não o tem.

    A graça não depende do que você tem!

    Você pode ter muito e se sentir um ninguém.
    Você pode ter pouco e sentir-se muito alguém.

    Você pode ser cego e enxergar o infinito.
    Você pode ter lindos olhos e nada a ser visto

    Você pode ter olhos e não conhecer o que é turvo.
    Você pode ver tudo claro mesmo estando nublado.

    Você pode ver no mato só flores em imensidão.
    Você pode ver no jardim só o mato que se interpõe.

    Ilumine o teu eu interior até a exaustão,
    o teu intimo, o teu coração, a tua visão

    E o teu mundo vai brilhar independente de carrão,
    Independente de milhão.

    ‘A felicidade provém do íntimo, daquilo que o Ser humano sente dentro de si mesmo’ Roselis Von Sass
  • A Violinista Cega

    Os Finais de tarde do St. James Parks’s na Picadilly Street ,durante o Outono londrino,eram o ambiente ideal para um passeio,principalmente para quem busca no cotidiano de Paris ,uma inspiração para escrever.Figuras de todos os tipos circulavam por ali.
    Foi em um destes belíssimos entardecer que conheci mademoiselle Ninna.Uma encantadora jovem de origem polonesa,doce e meiga como as mais belas flores que embelezam o St. James’s.Eu havia saído da Real Academia Londrina,após assistir a uma audição de piano de Madame Margot Challen,quando vi aquela bela jovem sentada solitária em um banco do Park.Sentei-me ao seu lado e em poucos instantes a conversa adveio naturalmente.Apesar de sua inegável beleza,as adversidades que a vida traz ,levou Ninna até o Le Blanc Club,onde na condição de acompanhante buscava na noite o dinheiro para seu sustento.
    Contou-me que morava sozinha,falou-me sobre a morte de seu irmão marinheiro,assassinado em um bar do cais.Após algum tempo convidou-me para caminhar,disse que gostaria de apresentar-me alguém,passamos por alguns caminhos entre os coloridos jardins,até chegarmos a fonte,que situava-se na parte central do lugar.Um chafariz em forma de pássaro lançava suavemente jatos de água ao centro da fonte.
    Sentada ao lado da fonte uma jovem tocava com extrema habilidade um violino.Seus cabelos loiros,encaracolados,cobertos por um belíssimo chapéu com plumas e uma rosa da centro,no mais nobre estilo londrino.   
    ---Venha,quero que conheça Clarett !
    Dizendo isto,Ninna segurou minha mão,conduzindo-me até a bela violista.
    Ao aproximar-me,pude observar pela maneira como a jovem musicalista se movimentava,que ele era completamente cega.
    ---Oí Ninna.
    Disse ela,mesmo que não tivéssemos pronunciado uma só palavra.
    ---Estas acompanhada hoje? Completou ela.
    ---Sim amiga,quero que conheça meu amigo Lawford. Respondeu Ninna.
    Aquela apresentação foi o suficiente para que pudéssemos conversar alegremente,até minha acompanhante pedir licença para sair,já estava na hora de dirigir-se para o Le Blanc mas não sem antes colocar uma generosa gorjeta no estojo do violino da instrumentista cega.
    E assim sucedeu-se por incontáveis tardes,nossos encontros tinham inicio nos jardins do parque e findavam nos aconchegantes aposentos do Le Blanc Club.
    Até que em uma fria tarde de inverno londrino,minha linda polonesa não apareceu,a neblina era intensa,pessoas pareciam emergir da bruma,de início cinzentas como fantasmas,depois pouco a pouco e com muito custo tornavam-se reconhecíveis.Sem saber o motivo de Ninna não aparecer,procurei Clarett.
    ---Ela passou aqui mais cedo que o de costume Sr. Lawford, estava com outro cavalheiro,discutiam e ela chorava muito.    
    ---Ela disse o nome dele ? Perguntei
    Teria ela encontrado outro amigo?
    Estes pensamentos e outros igualmente terríveis atravessaram-me o espírito com uma rapidez extraordinária.
    ---Não,não falou comigo,apenas deixou algumas moedas no meu estojo e saiu.
    Aquelas palavras caíram pesadas e geladas nas profundas trevas das escuras regiões mais recônditas da minha alma!Fiquei muito decepcionado ,mas esperar demonstrações de fidelidade de uma mulher que busca na noite londrina sua sobrevivência,seria totalmente irracional.
    Por três dias consecutivos ela não apareceu nos jardins do parque.Tampouco esteve a noite no clube.Sem saber ao certo onde procurar,fui ao encontro de um velho amigo,o inspetor Thormann.Com certeza ele poderia dar-me alguma orientação de como encontrar minha desaparecida amiga.
    ---Primeiramente,meu amigo Lawford.deverias procurar no necrotério da cidade.Você sabe tão bem quanto eu,que prostituas estão exposta a todo tipo de perigo.
    A afirmação de Thormann levou-me a um desfecho irremediavelmente terrível,e nunca por mim imaginado.No necrotério municipal,mesmo com a fraca luz dos pequenos lampiões não foi difícil identificar o corpo de Ninna.Uma perfuração embaixo do seio esquerdo,foi certeiramente mortal atingindo o coração da jovem.Segundo o esculápio que examinou o corpo,o golpe foi feito por alguém que sabia onde fazer a incisão,pois não havia outros ferimento no corpo.
    A morte da Ninna abalou-me de tal maneira que por alguns dias permaneci trancado em meu chalé,na St. Tooley.Abrandava na bebida minhas lembranças da linda jovem que por alguns dias fez-me sentir novamente a utópica felicidade.Até que em uma tarde retornei ao St. James’s.Fui direto ao local onde Clarett,como fazia em todas as tardes,enchia o local com os sons melodiosos de seu Violino em troca de algumas moedas.     
    ---Aproxime-se Sr. Lawford ! Disse ela.
    ---Como sabia que era eu Clarett? Perguntei intrigado
    ---Quando Deus tira-nos um dom,deixa os outros sentidos mais aguçados.Meu olfato e minha audição são previlegiados. Respondeu ela
    Sentei-me ao seu lado,na esperança de buscar alguma informação.
    ---Sinto muita falta de Ninna. Comentei em voz baixa.
    ---Havia um homem com ela,a três dias eles vieram aqui.Mas nenhum do dois retornou ao parque.
    ---Como sabe que não voltaram?
    Meu coração apressou-se de maneira desordenada.
    ---O perfume que ele usava eu reconheceria se o sentisse novamente,e ela não iria embora sem se despedir de mim.
    Aquele comentário ascendeu uma chama de esperança de saber onde e com quem Ninna estivera antes de morrer.
    ---Com poderia identificar a pessoa somente pelo perfume? Perguntei .
    E a resposta deixou-me ainda mais esperançoso.
    ---Não só pelo perfume Sr. Lawford.Mas também pela voz,ele tinha uma voz rouca e sotaque carregado.Como os Irlandeses.
    Saí imadietamente,quase a correr até o distrito policial.Lá o meu velho amigo e também Irlandês,inspetor Thormann,com certeza poderia ajudar.
    ---Meu bom amigo Lawford,Quantos irlandeses vivem em Londres...você esta procurando uma agulha em um palheiro. Respondeu Thormann sorrindo.
    ---E porque preocupar-se tanto com uma prostituta? A cada esquina tem uma sujando a cidade,é como uma praga.Ela não merece sua preocupação.
    Mas eu não estava disposto a abdicar da busca pelo assassino.
    ---Por favor Thormann,um crime foi cometido,e você é policial.Pelo menos vamos investigar.
    ---Lawford,você diz ter uma testemunha cega.Que loucura é esta ?
    Thormann zombava de minha afirmação,não acreditava ele que uma deficiente visual poderia identificar um criminoso apenas pelo olfato..Após muito persistir,o inspetor concordou em ir até o parque interrogar a testemunha.
    ---Devo avisa-lo Lawford. Disse Thormann. Estás perdendo seu tempo e o meu.Mas vamos lá e depois vamos degustar uma deliciosa xícara de chá com torradas no Café Blanchê.
    Ao chegarmos no parque,fomos diretamente onde estava Clarett.
    ---É esta a testemunha. Disse eu apontado para a jovem violinista que permanecia sentada ao lado da fonte.Thormann agacho-se bem Próximo da jovem,e falou-lha baixo e calmamente.
    ---Senhorira,meu nome é Thormann,sou da policia londrina.Meu amigo Lawford disse-me que podes ajudar na identificação de um homem que esteve neste parque com a jovem de nome Ninna.Isto é verdade?
    Ouve um breve silêncio,e a violinista parecia-me assustada.Suas tremiam como se sentisse medo de algo,ou alguém.
    ---Senhores! Disse ela. Aqui no parque existem muitos ruídos,e o perfume das flores se misturam com outro odores dos jardins.Conheço Ninna,é minha amiga.Mas não posso ajudá-los.
     Aquela declaração de Clarett deixou-me sem palavras,eu não entendia porque ela havia mudado tão repentinamente sua opinião.Porque não queria ajudar?
    Thormann ergueu-se calmamente,colocou algumas moedas no estojo do violino.
    ---Estou esperando você no Blanchê para o chá,não demore.
            Disse ele,e saiu calmamente do local.
      A atmosfera fria da noite em breve tinha produzido o seu efeito habitual; a energia                  mental tinha cedido espaço  à  influência e a percepção confusa . É impossível imaginar toda a extensão do meu nervosismo, que vem juntamente com o medo deixando-me bastante inquieto,sem ter a menor idéia do que deveria fazer. 
    ---Porque mudou de idéia?
    porque não quer ajudar a encontrar que matou sua amiga?
    Perguntei em tom mais áspero,quase a gritar.Clarett chorava em silêncio.sentei-me ao seu lado,pois havia sido muito brusco com minhas palavras.
    --- Desculpe .Disse a ela. Não tinha a intenção de magoá-la.sei que sente tanto quanto eu a falta de Ninna.
    Porem o que ela,entre soluços falou-me,deixou-me perplexo e ainda mais confuso.
    ---Sr Lawford.Se eu identificar o assassino também serei morta.Pois o homem que trocava palavras ríspidas como nossa amiga Ninna,levando-a as lágrimas,era o inspetor Thormann.  
     
  • A visita da morte

    Acabei de acordar, desculpe. Não percebi que você estava aí. Afinal de contas?  Como entrou em minha casa? Há, a porta estava aberta! Mas isso não é motivo para ir entrando na residência dos outros. Isso é uma grande falta de respeito. Eu duvido que o senhor fosse gostar se alguém adentrasse à sua morada assim sem mais nem menos. Saiba o senhor do susto que tomei. Ouça! Meu coração está disparado! Também pudera, nem o mais jovem dos homens suportaria tamanho susto.
    Se já está aqui... O senhor deseja alguma coisa? Um lanche? Um café? Bem, me lembrei, não poderei lhe servir nada. Como pode perceber a minha casinha é bem pobre e humilde. Veja estas paredes, tão pretas e sujas por causa do mofo. E esses móveis? Velhos, mas que ainda servem para alguma coisa. Faço as minhas refeições aqui, nessa mesa. É. Infelizmente não como faz dias. A última vez que mastiguei algo foi há três ou quatro dias, um pedaço de pão, velho e duro. Tão duro que meu dente caiu. Mas enfim, o que senhor veio fazer aqui?
    Veio me buscar? Mas como assim, me explique, por gentileza? O senhor é a morte! Eu não sabia que a morte tivesse um rosto? Mas o que eu fiz de errado para o senhor vir até mim? Sofri muito na vida! Passei fome! Perdi meus pais quando era apenas um menino que vestia calças curtas e camisa de lã. Você deseja acabar com o meu sofrimento? Não sabia que a morte era assim, tão apressada. Posso ser pobre, mas estou cheio de saúde.
    Como assim a minha saúde vai mal? Sinto fortes dores no peito, mas isso não deve ser nada. Provavelmente é devido ao esforço que tenho feito ao carregar aquelas caixas de maçã lá na feira. Eles pagam pouco pelo serviço, e na minha situação qualquer trocado é bem vindo, pena que não dá nem pra comprar um mísero pãozinho. Em vez de me levar embora, bem que o senhor poderia me dar um pouco de pão e água.
    Para onde o senhor quer me levar tem comida a vontade? Sério? E lá eu não vou passar fome? Há deve estar de brincadeira comigo?! Está falando sério? Bem, se vai ser melhor pra mim, se não vou mais passar fome e frio. Ok! Se for bom pra mim eu aceito.
    Quando vamos? Agora! Mas espere, preciso arrumar as minhas coisas, avisar os poucos que ainda restaram da minha família. Como assim não precisa? Quem é que vai contar a eles da minha partida? Tudo bem, eu entendo. Vamos então!
    Nossa! Aqui é calmo demais, tudo muito quieto por sinal. Na Terra eu me acostumei com os barulhos do dia a dia, as buzinas dos carros, as sirenes das ambulâncias, os gritos dos desesperados, e as rodinhas dos jovens. Mas nesse lugar tudo é tão calmo, sem graça. Perdoe-me, mas a vida nesse lugar deve ser entediante.
    Há tá legal, eu vou me acostumar com o tempo, com o passar dos dias tudo vai ser diferente. Olha lá, eu vou confiar no senhor.
    O senhor já vai embora? Fique mais um pouco, precisamos conversar. Quem é que vai me ensinar sobre a vida aqui no outro lado? Entendi. Vou aprender sozinho, porque tudo na vida é questão de aprendizado, inclusive na morte.
  • ABSOLUTA DE TAL

    Ando pensando loucuras

    entre as paredes mudas.

    Ando mouco. Mixuruca.

    Mais nulo do que nunca.


    Estou sim sentindo muita

    saudade de você, Absurda.

    E daquela sua língua puta

    lá no centro da minha nuca.

  • Acesso Emocional

    Por Muitas Vezes Questionamos-mos, Em Relação A Nossa Própria Identidade, Fotocopiamos Todas As Imagens E Movimentos Que Vemos, E Fazemos Disso A Nossa Verdade, Atuamos Ao Nível Dos Atores De Televisão, Usamos A Dor Como Uma Forma De Impulsão, Que Nos Permite Alcançar Outros Níveis.
    Passamos De Invisíveis Para Um Pouco Mais Visíveis, Esquecemos A Vida Que Vivemos E Concentramos-mos, Em Aquelas Que Nos Sonhos Temos, Procuramos A Felicidade (A Felicidade) Que Nos Leva A Fama E A Glória, Da Mesma Forma Que Deixamos As Nossas Pegadas Na Areia, Também Queremos Deixar Na História.

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