person_outline



search

literatura,

  • a lenda de Èden/capitulo 4 o poderoso guardião fracassado (P & R)

    -isso foi rápido demais eu não vi quase nada-questiona luna
    -é assim mesmo mosa,guardiões da luz tem sua velocidade elevada desse jeito mesmo-fala pafunsu
    -eu não te dei o direito de me chamar de mosa-fala luna
    -bom vamos focar na próxima luta -fala pafunsu
    -primeiro como foi a sua luta
    pafunsu olha para cima e começa a pensar 
    -Oh não-fala luna 
                                                                 //////FLASH BACK TIME COM COMENTÁRIO EXTRA\\\\\\
    -outro flash back naaaaaoooo-fala luna
    -ja era-riu pafunsu
                                                                               INICIO DO FLASH BACK TIME
    Depois de pafunsu entrar no campo foi anunciada a luta entre ele e um cara desconhecido,quando começam a lutar pafunsu da um chute que afunda o rosto do sujeito e o dito-cujo perde a luta
                                                                                   COMENTÁRIO EXTRA
    -isso foi rápido,até demais-falou luna

    -guardiões da luz tem uma velocidade muito alta,porem uma defesa baixa de mais-falou pafunsu

    -por isso acabou rápido-fala luna

                                                                              CONTINUAÇÃO DO FLASH BACK TIME
    E na outra luta,era um guardião mais lento e com muito mais defesa,porem pafunsu era muito rapido e o outro cara nem chegara perto de sua velocidade e pafunsu o finalizou com facilidade,e por fim a ultima luta,porem esse cara era diferente dos demais 

    -acho que vou aparecer dele e dar aquele baita chute trava coluna nele- falou pafunsu

    ele o faz porem erra,por que seu adversario se defendeu com um outro chute,então tentou dar um soco e seu oponente parou o soco com outro soco ate que pafunsu pensa:

    -vou jogar um trovão nele 

    então pafunsu joga um trovão que errou,porem servia apenas para atrapalhar e atrair o adversário,perto o suficiente para atravessar a sua cabeça com uma mao aberta e eletrificada e assim que atravessa sua cabeça ela explode e ele é declarado vencedor da luta e o primeiro guardião da luz
                                                                                          FIM DO FLASHBACK TIME
    -agora falta a luta de quem-pergunta pafunsu

    -do gustavo-fala luna

    -era,não é mais,agora é a luta do rafael-fala gustavo

    -vai chorar-zoa pafunsu

    -nao,mais to quase-fala gustavo

    entao,finalmente os guerreiros de fogo entram em campo porem o destaque é mais do brasileiro de altura mediana e cabelo escuro e forte,estava sendo destaque por ser um daqueles que ajudou juan com aquela criatura de fogo e estavam em punhos uma luva e uma espada,algo que digamos era meio diferente,afinal pra que usar uma luva,mas ao iniciar a primeira luta que no caso era a dele o rapaz qua agora sabiamos o nome por anuncio de cahethel:lan santiago era seu nome e por coincidencia o outro cara tambem era brasileiro e se chamava edgar

    -isso esta muito estranho o nick falou que cabelos de cores estranhas sao caracteristicas dos descendentes dos guardiões da terra,só que nenhum dos guardiões do fogo tem olhos vermelhos,nem o rafael tem isso-fala pafunsu

    -pafunsu eu quero assistir-fala luna sentada em uma cadeira de rodas comendo um pãozim

    ao começar a luta edgar solta uma bomba de canhão de fogo 

    -esse ataque pode incinerar um planeta inteiro diga adeus aos seus ossos-fala edgar com uma risada alta

    lan apenas poem sua mão com a luva para frente e devolve para seu oponente o ataque como se não fosse nada e incinera completamente todo o seu corpo até reduzi-lo a cinzas

    -isso foi rapido-falou luna

    -luna para de falar so isso,mas realmente foi bem rapido,rapido ate de mais-fala pafunsu 

    porem a proxima pessoa a entrar em luta é seu amigo rafael

    -bom é isso vou conseguir-falou rafael

    no inicio da luta refael lança seus ioios a ponto que ficassem com suas cordas por todo o campo,quase que impossibilitando seu adversario de se mover,entao o adversario tenta queimar as cordas,que apenas ficavam em seu lugar sugando a energia e repassando a força pro ioio que ia ficando maior e deixando as cordas cada vez mais quente e entao rafael mexeu seus fios ate que cortou seu adversario e transformou-o em uma especie de picadinho frito de carne humana e entao rafael e declarado vencedor da luta

    -meu deus(do ceu berg)que nojo ele cortou o cara como picadinho argh-fala luna
     
    -meu deus que merda to com vontade de vomitar-falou pafunsu

    cahethel pede para alguem vir la para ressucitar o rapaz e devolve-lo a terra,afinal o perdedor teria apenas os poderes retirados e depois iria ser mandado para a terra para poder viver normalmente a sua vida na terra 

    -espero que perca logo,esse garoto é um piromaniaco sadico,nao seria uma boa te-lo como guardiao-pensou cahethel 

    a proxima luta sera entre lan e rafael

    -se prepare para ser queimado-falou rafael

    a cara de ridicularizaçao de lan era tao grande que chegou a ser ridiculo pra ele o que rafael falava,entao meio totalmente puto da vida rafael jogou seu ioio em cima de lan que nao apenas segurou como tambem quebrou o mesmo 

    -serio isso nao destroi nem um planeta anão gelo,acha mesmo que pode comigo-sacaneou lan

    tudo isso deixa rafael mais puto e tambem desesperado,ele refaz o ioio com suas chamas e aumenta o tamanho do mesmo a ponto de poder subir em cima do ioio como um carro gigante e tenta atropelar lan que desvia com uma facilidade enorme com se estivesse apenas dando um pulinho pro lado e da uma zoada

    -tao lento que nem chega a mach 1

    rafael putao responde:esse deus aqui chega a mach 36.000 

    -nao chega nem a mach 900 de tao lento 

    rafael acelera mais uma vez e lan apenas pega sua espada e da um corte certeiro no meio do rafael e corta o ioio dele ao meio e antes que rafael pudesse reclamar lan aparece rapido atraz dele e corta sua cabeça em instantes e assim lan e declarado ganhador por cahethel  e na plateia luna fala:

    -ele perdeu mesmo meu desu,eu dont believe

    -perdeu feio-fala pafunsu

    -nao acredito nisso-fala gustavo irritado-ele nao devia ter perdido 

    sim era isso rafael tinha perdido feio e lan havia se tornado o novo guardião do fogo,rafael foi ressucitado,teve seus poderes extraidos e foi mandado para seus pais na terra com a advertencia de nao mexer de novo em fosforos,mas claro cahethel deixou ele se despedir dos amigos afinal as proximas lutas seriam seguidas em elemento:agua,depois espiritual,depois escuridao,depois terra e por ultimo estrela ja era quase certo os vencedores afinal no ataque ja tinha uma da agua,uma da espiritual e uma da escuridão porem terra e estrela foram considerados dificeis de saber afinal havia tres guardioes da terra no incidente e nenhum da estrela,mas apos as despedidas começaram as batalhas da agua e a vencedora foi kamillie orihara da oceania,foi uma luta rapida nao igual a dos guardioes da luz mas tambem tinha seus meritos

    -aposto que foi bem facil ne,kamille ou posso te chamar de kamie-fala luna para a nova guardiã

    -serio querida e a sua-fala kamie

    -eu quase morri-fala luna

    -deveria ter morrido-fala kamie

    -que moça ruim pra eu-fala luna

    pra se ter uma ideia do quao rapido foi cada luitra era aproximadamente 20 segundos por luta depois disso era uma vitoria muito facil

    -nao curti essa moça,,mas curti as outras duas -falou luna

    essas tais garotas eram as duas dos elementos espiritual e escuridão,regendo o elemento da escuridão estava uma garota chamada julie kanam de istambul tinha uma personalidade calma e bem calada e ate alegre porem muito timida e gostava de chamar todo mundo de demonio algo que mostrava seu autismo com força altissima e regendo o elemento espiritual estava giulya kim than essa diferente da ultima ja era mais ativa e animada e gostava de cantar do nada,em especial k-pop (eu tenho uma amiga que gosta dessas musicas e como eu tava sem nada melhor pra colocar presente pra voces) as 2 seriam as mais novas guardiães do grupo 
                                                                            ENTREVISTA UTILITARIA COM LUNA GERLOFF
    -oi,oi,oi tudo bem,tudo bão-pergunta luna

    -tudo bem-fala giu

    julie calada

    -que merda eu to fazendo aqui-falou kamie

    -entrevista,xiu-sussurra luna

    -nao quero ficar no autismo de voces-fala kamie

    -xiu,agora continuando como foi a ultima luta de voces-pergunta luna

    -eu so entupi a mina de agua e explodi ela,como qualquer ser humano normal faria-fala kamie

    luna assustada pergunta:

    -e o que voce mais gosta kamie

    -rola-fala kamie-de varias idades idades,de muitos amores

    luna vermelha finge que nao escutou nada e passa para giu

    -entao giu como foi sua luta-pergunta luna

    -eu basicamente invoquei espiritos do alem e fiz todos atacarem como distraçao e voei por debaixo da terra em forma fantasma e possui o meu oponente por traz enquanto secava seu corpo-fala giu

    -e pior que a primeira-pensou luna desesperada

    e assustada luna pergunta com uma cara de nao me mate:

    -e....doq......do que voc.....do que voce gosta

    -kpop,escuto o dia todo,ate dormindo se possivel-fala giu 

    Luna agarra giu e fala:

    -meu desuuuu nos vamos dar tao bem

    -giu esta assustada com voce apertando ela assim luna-fala gustavo como um cameraman ou algo do tipo

    -ok,ok,ok eu largo,mas agora e sua vez julie-fala luna

    luna ja simpatiza com a garota ser baixinha a ponto de parecer uma versao de mini-chibi baby edition

    -entao como voce venceu-pergunta luna

    julie fica calada

    -fala pelo menos de quem voce gosta

    entao a garota gagueja e fala:
    hu..hu....hu...huinglerson-e some em uma sombra de vergonha 

    todos os presentes ficam calados por um instante e luna com um sorriso encerra a transmiçao

    -bae,bae pessoas-fala luna
                                                                              FIM DO ENTREVISTA COM LUNA GERLOFF
    -o que foi isso perguntou gustavo

    -nem eu sei acho que ela gosta do....-fala luna ate ser interrompida pelo pafunsu

    -quem gosta de quem-pergunta pafunsu

    -eu..eu gosto muito de pãozim-fala luna

    -e eu gosto de assistir a luta,elas sao muito bacanas

    -principalmente as com poderzinho sem a rajada tipo seu ataque na ultima luta-fala luna

    -e eu tambem-fala giu sobrando no canto mas manjando da situação 

    -e a proxima luta parece estar prestes a começar-fala pafunsu

    e julie estava com eles porem calada 

    -ainda bem que voces gostam por que o nick e o juan vao lutar daqui a pouco-fala pafunsu

    -eu avaliei os dois,so iram se encontrar se for na final,mas seu amigo nao tem chance o poder do juan é anormal para um guardião da grama,eles nao passam de curandeiros e protetores,juan de algum jeito serve de ataque e aquele modo dele nao vai ajudar em nada-fala julie

    -ela falou-riu pafunsu-finalmente hahaha

    julie some de novo e pafunsu estranha novamente (ate ai tudo normal)

    -ela ate que ta certa a luta deles vai ocorrer no final,vai ser emocionante-fala luna

    -duvido que esse tal de nick ganhe,nao esqueçam que tiveram 3 guardiões da terra no incidente e pelo jeito ele vai lutar com os 3-fala giu

    -eu confio no moso-fala luna

    -eu tambem-fala gustavo

    -concordo-fala pafunsu

    entao as outras guardioes retrucam

    -vai levar surra-fala kamie

    -chute na butt-fala giu

    -uhum-fala (ou grunge)julie 

    entao alguem vai andando naquela direçao era lan

    -alguem percebeu que o primeiro nome dele e mais japones que o do gustavo-fala pafunsu

    lan vai ate gustavo e da um soco com força na barriga dele que o faz cair,e o arrasta pelo cabelo ate cahethel,entao cahethel ouve o que o garoto tem a dizer e troca umas letras de um crachazinho que esta com cada um

    -o que aconteceu-perguntou luna

    -esse cara no dia que eu cheguei aqui deu um jeito de trocar nossos nomes e nacionalidade pra ele parecer japones,eu sou o unico hikari aqui,Lan Hikari-fala Lan

    -nao tendi nada-fala luna 

    -nem eu-fala pafunsu com gustavo vomitando sangue nos braços tentando ajeitar ele

    -aquele e o amigo de voces indo pro ringue-fala kamie

    -e ele sim-fala gustavo meio tonto

    -e o moso-fala luna

    -parece ter uma rola bacana-fala kamie passando a lingua sensualmente entre o labio 

    -eu mereço-fala luna envergonhada de como caminha a humanidade

    mais todos estavam ansiosos afinal nick iria lutar finalmente contra alguem,afinal apos uma historia com aquela (cap2) era impossivel nao ficar curioso com o treino,entao entram em campo um dos 2 caras do incidente e nick dormindo por que cahethel apenas o lançou pro campo enquanto ele dormia meio ensanguentado

    -prontos-fala cahethel-comecem

    -isso nao e justo o moso ta dormindo-fala luna

    entao no meio do campo o outro cara grita:

    -ninguem te perguntou nada,indiazinha

    luna e seus belos cabelos de india se ofendem e mandam ele se-fu mentalmente

    a luta começa com o adversario apontando-lhe o dedo e falando:

    -renda-se eu sou o mais forte aqui e posso destruir qualquer um

    ele era alto como se tivesse 2m e 10 de altura,mas nick ja esta dormindo no chão,como se estivessem pouco se importasse  e seu oponente considerou isso como uma afronta direta de nick e da um soco no chao causando um terremoto que apenas fez nick ficar rolando pelo chão ate que foi chegando perto de seu adversario rolando pela grama do local e ao tentar esmagalo com um pisao,nick chuta ele no rosto ainda no chao dormindo e afunda o rosto do pobre rapaz que ia esmagar a cabeça de nick com um pisão e ainda racha a barreira media de cahethel,todo destruido pelo chute o guerreiro se levanta porem ja e tarde nick esta em pe em sua frente dormindo e lhe da um soco na barriga que explode tanto o seu estomago quanto o resto da barreira do cahethel,entao cahethel fala:

    -treinamento duro pessoal,vamos fazer magia do tempo no sr.matias pra ver se acorda

    apos tenta usar a magia do tempo cahethel nao consegue e fala:

    -nao acredito,mudança do tempo nao funciona nele

    -o que isso quer dizer-pergunta luna

    -significa que nem se eu mudar o tempo,o nick nao vai ficar parado,nao vai envelhecer mais rapido e nem tentar diminuir a velocidade dele e ainda me proibe de viajar pro passado enquanto eu estiver a 1 galaxia de distancia dele-fala cahethel

    -chega vei,esse cara ta muito apelão-falou pafunsu

    -disse o cara que terminou 3 lutas em 4 milisegundos-fala nick

    -voce nao tava dormindo-falou pafunsu

    -habilidade de fotossintese e so eu estar encostando em terra que eu me recupero mais rapido-fala nick

    -bom mais tirando isso-nick colocando um punho fechado em frente ao rosto so que com um sorriso corajoso-eu vou vencer todo mundo,que esta aqui eu prometo isso pra voces 
    FIM
    __________________________________________________________BONUS_________________________________________________________________

    NOME:Kamille Orihara        APELIDO:Kamie         PAÍS:Australia
    ELEMENTO:Agua        HABILIDADE:Solidificação e Gaseificação
    GOSTA DE:Instrumentos Pessoais Masculinos (IPM)

    NOME:juliane kanam      APELIDO:Julie     PAÍS:Istambul
    ELEMENTO:Escuridão      HABILIDADE:Nuvem escura
    GOSTA DE:Pafunsu (DARK STALKER)

    NOME:Giulya kim than    APELIDO:Giu      PAÍS:Coreia do Sul
    ELEMENTO:Espiritual      HABILIDADE:Necromancia
    GOSTA DE:K-POP

    ________________________ERRATAS__________________
     NOME:Gustavo Santiago  APELIDO:Gusta ou Gustavo  PAÍS:Brasil
    ELEMENTO:Estrela     HABILIDADE:Escudo Estelar
    GOSTA DE:Olhar as estrelas

    NOME:Lan Hikari   APELIDO:Nenhum   PAÍS:Japão
    ELEMENTO:Fogo    HABILIDADE:Escudo Estelar
    GOSTA DE:Não se sabe




  • A LÍNGUA

    A língua é um navio faminto no meio da maresia

    e da salmoura da linguagem que, do azul, ressuscita

    e espalha-se no verbo que, no oceano, fez moradia.

    A língua engravida de todas as tribos, das manias


    daqui e Dalí do mundo. Esta absorção permissiva,

    feito uma osmose infinita: cresce dos lados e desliza

    abaixo da linha. Ela é vivíssima. Mutante. Oferecida.

    Ela é pátria, estado e avenida. É do salão da esquina.


    Meu verso tem uma língua, mas obedece a real cartilha

    dos homens. A imposição determinante vinda lá de cima.

    É por isso que tento destruir as palavras, signos e sílabas

    a fim de gerir a instabilidade do poema na gota da neblina.


    Não há sucesso nesta tarefa de equilibrar o desequilíbrio.

    À língua, as sementes. Ao poeta, a busca da uva no vinho.

  • A Madrugada

     O quarto estava escuro, com um fraco feixe de luz lunar que entrava pela janela aberta, ferindo o breu instalado no úmido cômodo, iluminando o chão de piso branco barato e uma parede bege envelhecida. O ventilador ligado em sua maior potência pouco ruído fazia frente ao estardalhaço criado pela forte ventania do lado de fora da janela. O quarto não possuía som, todo o som pertencia a tempestade que reclamava seu direito sobre os ventos.
     À esquerda, a simples janela de alumínio dava uma visão escura sobre a cadeia de morros habitados por casas, aqui e ali uma luz de uma varanda vazia, engolidas na proclamação e na vastidão da noite, mas o principal evento não estava lá fora, ele vinha de fora para dentro e aqui no quarto, ele acontecia.
     Atrás da janela, do teto até os últimos seis centímetros do chão, a suave cortina de renda branca resistia, imóvel, elegante e destemida, ela se erguia frente a gritaria dos ventos, observava como se vê uma pirraça de uma criança mal educada, e comparada a ela, era a isso que se resumia toda aquela encenação da força do soturno céu.
     Com ciúmes e sentindo-se diminuída, a ventania irrompeu pela janela, tomando a suave cortina pelos braços e jogando-a pelos quatro cantos do quarto em arcos vertiginosos e ríspidos, porém, ainda impassível, ela se segurava no trilho sem aparente esforço, sem ter tocado o chão ou alguma das paredes nenhuma vez, ela volta a sua posição original ainda imaculada.
     O céu ultrajado com a insubordinação, tentou novamente, voltou mais furioso e violento, e assim fez seguidas vezes, mas a leve cortina não demonstrava resistência, e com toda sua elegância e suavidade, se colocava de volta atrás da janela, com movimentos graciosos, sem tocar nenhum canto do quarto.
     O tempo passava, o céu poderoso e revoltoso, já não demonstrava tamanha rebeldia, a ventania diminuiu, foram trocadas primeiro por brisas fortes, depois nem isso. Sem sucesso, o céu enviou seu último campeão para o duelo final. Uma fraca brisa perpassou pela janela, jovem e gentil, parecia pedir permissão ao entrar e suavemente pegou a mão da leve cortina.
     Enquanto o som lá fora diminuía drasticamente, a brisa começou a conduzir a cortina pelo quarto, não era apenas um simples movimento de empurrão para aqui ou acolá, era suave. Assim, a cortina foi lentamente se enroscando na brisa e ali eles bailavam uma lenta e suave valsa, cada vez mais lenta e ritmada, a dança transformava o casal, se antes eram brisa e cortina, agora eram uma só coisa, transfigurados, inseparáveis, vitais um ao outro. E toda vez que a leve cortina passava pelo fraco feixe de luz prateada, ela se iluminava, como se vestisse um vestido de diamantes que reluzia ao pequeno pedaço de lua presente.
     Tocada pela lua que crescia agora a cada instante, a cortina nasceu, debutou e envelheceu bailando com o seu amor na eternidade de minutos, ali ela foi plebeia, princesa, rainha, filha, mulher, esposa e mãe.
     Mas o tempo corria, as nuvens passaram, o céu se abriu como que saindo de cena, pois seu protagonismo havia sido roubado, e agora limpo, dava lugar para a lua cheia que ia aparecendo para contemplar aquele pequeno e delicado acontecimento que tomava toda a sua atenção, completando e prateando a noite daquele jovem casal. Porém, com a chegada da lua, a brisa precisava ir, seu mestre a chamava, e ela cada vez mais fraca se despedia da cortina. Até que saiu, a cortina agora sozinha, era banhada completamente pelo pratear da lua, jazia parada em frente a janela, fria, sem lembranças, abandonada na quietude da noite, ela voltara a ser só uma leve cortina de renda branca, sem par, sem motivo, sem vida. Apenas uma cortina morta.
  • A Máquina da Ordem

    Naquela praça deserta os jardins eram perfeitos, os bancos perfeitos, as árvores perfeitas. Um lugar perfeito. No centro, a Máquina transmitia boletins informativos de utilidade pública através de uma de suas telas espalhadas pela cidade. Era um dos serviços sociais prestados pelo Estado.
    Um homem esquálido, cambaleante, sentou-se num dos bancos, esgotado pelo calor intenso. Tinha andado já um bocado. Precisava aliviar a dor dos pés inchados apertados dentro do sapato. O cheiro do pão quente saído da padaria em frente o torturava, mas não mais que a sede. Do dinheiro que ganhou com o trabalho temporário que arranjara naquele mês, não tinha sobrado nada.
    Ouvia distraidamente os boletins informativos da programação do dia quando um guarda municipal, bem uniformizado e com ar de autoridade, abordou-o:
    — O que faz aqui?
    ― Estou só descansando um pouco ― explicou pensando em tirar o calçado.
    ― De onde o senhor vem?
    ― Lá da fábrica de papel.
    ― Aonde o senhor vai?
    ― Ao posto da Assistência Social. Disseram-me que fica para aquele lado de lá — disse apontando uma direção.
    ― Então vá para aquele lado de lá. Não pode ficar aqui vagabundeando.
    O homem esquálido ergueu-se lentamente e atravessou a praça chegando a um ponto de ônibus. O banco ali era coberto e o protegeria dos malditos raios de sol que pretendiam cozinhá-lo lentamente. Continuou ouvindo os boletins transmitidos pela tela da Máquina atrás dele.
    Naquele momento, uma menina chegou ao local trazida pela mão de uma jovem mulher. Pela rosadinha, cabelos louros, parecia um anjinho. Devia ter uns seis anos. A filha dele que morrera junto com a mãe no parto teria a idade dela. Ele nunca soube o que causou a morte de ambas. Nenhum médico apareceu para lhe explicar o que tinha acontecido. A limpeza do hospital era impecável, os funcionários estavam alegres, tudo estava em ordem e, apesar da demora, não podia negar que sua mulher fora bem atendida.
    Sua filha não se pareceria com a menina loura. Era mais provável que fosse pretinha, como a mãe. Ah minha pretinha...
    Divagava olhando a menininha enquanto a jovem mulher, em pé na beira da calçada, olhava-o com desconfiança. O guarda municipal que vinha da guarita da esquina se aproximou dela e trocou algumas palavras. Em seguida, empertigou-se, franziu o cenho e se voltou para o homem esquálido.
    ― O senhor de novo?! Está assediando os transeuntes. Vamos! Circulando.
    Antes de partir, o homem esquálido acenou para a menininha que se agarrou à mulher e, por de trás dela, tombou a cabecinha espiando-o assustada.
    Caminhou por mais quarenta e cinco minutos e chegou ao posto. Na entrada do prédio, um recepcionista uniformizado portando uma arma lhe pediu identificação. Em seguida, foi informado que deveria pegar uma senha de atendimento antes de passar pela porta com um dispositivo de detecção de metais.
    — Pode me dar uma garrafinha de água daquelas? — perguntou apontando para a geladeira na recepção.
    — Tem de colocar uma moeda ali — explicou o recepcionista.
    No salão de espera, havia poltronas estofadas, cinco pessoas atrás de computadores num balcão e um vigilante de pé num canto.
    Longos minutos se passaram até que o visor apitou mostrando o número de sua senha. No balcão, uma moça sorridente lhe fez uma série de perguntas para preencher uma ficha e pediu que ele aguardasse um pouquinho para falar com o assistente social.
    O homem esquálido voltou a se sentar e decidiu tirar os sapatos para aliviar a pressão insuportável que exerciam sobre os pés inchados.
    — O senhor não pode tirar os sapatos aqui — disse o vigilante se aproximando. Olhou com reprovação para o pé do homem esquálido do qual começou a escorrer um líquido cinzento e fétido pingando no chão. Então mandou que ele saísse dali imediatamente.
    — A Máquina informou que eu precisava do encaminhamento do assistente social para ser atendido no hospital.
    — O senhor está fazendo sujeira. Dê um jeito de calçar e sair daqui.
    Uma senhora que ouvia a conversa dos dois, tocou levemente o ombro do homem esquálido e disse que ele poderia passar na frente dela.
    A atitude da mulher encheu-lhe de gratidão e ele a agradeceu diversas vezes enquanto trocava o bilhete com ela. Em seguida, dobrou a parte de trás dos sapatos, calçou-os como se fossem chinelos e seguiu para a sala indicada na senha da mulher.
    — O senhor não é Jussara de Souza — disse o jovem sorridente que conferia os dados pelo número da senha no computador.
    — Estou com dor e uma senhora me deixou passar na frente dela.
    — Bem, mas não posso atendê-lo com o nome dela. Devo atender pela ordem das fichas. Saia e aguarde sua vez. — ordenou o jovem mantendo o sorriso.
    — Tenho pressa, moço — arriscou dizer o óbvio, mas incerto se o rapaz compreenderia, explicou: — Está saindo pus do meu pé.
    O jovem fez uma expressão de nojo e perguntou:
    — O senhor não acompanha as informações da Máquina? Deveria saber que tudo aqui funciona perfeitamente dentro da ordem. E todos devem obedecer às regras. Insisto que saia e aguarde sua vez.
    O homem esquálido sentiu suas forças se agigantarem com o sentimento de indignação. Num impulso insólito, certamente movido pela dor lancinante, bateu com violência no monitor do computador que se espatifou no chão.
    O assistente social apertou um botão vermelho na parede ao lado dele. Imediatamente o vigilante apareceu e rendeu o homem esquálido imobilizando seus braços, algemando-os para trás. Em seguida, tomaram a viatura da polícia que fazia plantão no local e foram para a delegacia.
    Não teve de esperar muito para ser atendido.
    — O que o senhor fazia no posto? — perguntou o delegado.
    — Fui buscar um encaminhamento para receber assistência médica gratuita.
    — O relatório diz que o senhor infringiu regras da instituição, desacatou o segurança, agrediu um funcionário e depredou patrimônio público. Correto?
    — Eu só... — tentou dizer o homem esquálido interrompido pela fraqueza e a dor que o assolavam novamente.
    — O senhor não observou as orientações da Máquina. — continuou o delegado. —Tudo é organizado para garantir a ordem e melhor servir à população. Os desordeiros devem ser imediatamente punidos. O senhor vai ficar preso para seguir o programa de reeducação social da penitenciária até que prove que está apto para conviver novamente em sociedade.
    — E os meus pés?
    — Isso não é comigo. É com o médico.
  • A minha alma...

    Na tua alma tem o alvor e a brancura dos sentidos
    É tão imaculada a fase de plantar ilusões...
    ... Um suspiro decisivo...
    E planto... E plantei!
    E fantasio na estrada do coração... Lindos momentos de amor...!
    E caminho em frente ao mar... Num passeio sem fim...
    És a poesia razão desta caminhada onde escuto
    A melodia de passarinhos voando nas nuvens
    ... Desse horizonte sem fim...
    Eco melodioso
    De brados matizes... Muitas cores!


    Resultado de imagem para imagem de duas almas se amando





  • A Morte

    Eu ouço ainda o teu canto,
    nas florestas, e casas, nos cemitérios...
    Andas arrastando o seu manto, 
    desde séculos passados, a vindouros séculos. 

    É tu, que assombrarás o homem,
    no silêncio da noite quedo...
    Vem os males que o consomem,
    e à ave cabalística do medo. 

    Tocas,tenebrosa,teu arpejo e prossegues, 
    nesta marcha em que segues,
    pelo mundo a caminhares...

    Entoando, melancólico, teu hino,
    pelos campos do destino,
    até um dia, finalmente, me encontrares.
  • A morte do eu

    “After a year in therapy, my psychiatrist said to me: ‘maybe life isn’t for everyone’.” 
    O inferno está vazio e todos os demônios estão na minha cabeça. Conjecturo vozes que, no desabrochar da vigília, anunciam-me um transtorno psicótico. Hoje eu tranco o curso, tranco a vida. Cheguei a vasculhar, um dia, a possibilidade do suicídio ser apenas o enterro, mas não a morte em si; todavia, certifico-me, nessa náusea amorfa, que a angústia se infiltra na teia neurossucumbidora antes de incinerarmos a nós mesmos. Conto os dias, odiando o teísmo onipotente, para encontrar o que acredito ser minha alforria: o psiquiatra. Há de ser minha muleta metafísica. Dispneia. Se enlouquecer-me novamente, tenho clonazepam. Vinte gotas; vinte e sete, se precisar. Alivio-me com esse meu novo deus volátil. 
    Sento-me à beira da cama; meus pés desmaiam sobre o chão. Penumbra. Nada me daria mais prazer do que nunca ter de acordar novamente. Sinto na alma a enfadonha arte de vestir-se. Fico apreensivo com minha sanidade dúbia diante das aulas anavalhadas que vagarei hoje. Degusto o Escitalopram com um café áspero. Lembro – fitando um eterno nada – a face sem sentença da minha psicanalista, e esbravejo-me; quero que suba no telhado e grite quem sou eu, pois já me foge essa concepção. Deposito o frasco de benzodiazepínico no bolso; esqueço o celular em casa. 
    Ao longo dos sertões da manhã, o medo do pânico se empodera como um fascista. Claustrofobia. Perscruto que na selva da minha psique não reino como Zumbi Dandara, mas apenas sou uma marionete do caos. Convenço-me da morte iminente: seja por um edema de glote, seja por um cataclismo pneumológico. Vendaval de sinapses. Minha mitral esperneia-se, regurgita-se, fibrila-se; almejo fugir-me; visto a entropia desajustada; balbucio uma filosofia sórdida. Subunidade beta da Proteína G, Guanosina Difosfato Inativa, Adenilato Ciclase: importantíssimo para vocês, futuros médicos. Cronograma de Caim. Quinquilharia. Pandemônio.
    Comprei uma aliança para essa miséria de vida, mas não prometo a monogamia – resmungo ao asilo que concerne minha consciência. Permuto as desvantagens e vantagens de ser um amontoado de átomos; aquelas me logram. Perambulariam como os nômades que nutrem sentimentos por mim? Por mais que sejam escassos, não me ousa denegrir a árvore-mãe que doou suas raízes à fruta empobrecida de alma. Aproveito o anticlímax dessa patologia arruaceira para ler o DSM: tenho todas as anarquias possíveis: transtorno de ansiedade generalizada, síndrome do pânico, depressão, desconexão com o divino, apatriotismo sem-terra. 
    Como um cadáver maquiado, encargo-me da polidez pós-morte: metáfora para os primórdios da tarde. Sobre o alcoolismo: eternizara – não que deguste a ideia, porém era a morfina que varria minhas esquinas neurais; era, senão, o hospício que tratava meu cansaço insuportável de gente. Olho-me: identifico em cada dobramento da minha organogênese os assassinos da minha jornada. A tarde, porém, caminha de forma taciturna; enrosca nos galhos, tropeça nas ironias machadianas, vivencia a chaga de Édipo, mas caminha. Adentro um elevador eremita: coercitivamente controlo a respiração: minhas cavernas pulmonares ecoam desespero.
    Palmilhando os arredores do abismo, pondero em relação ao futuro notívago: ou a insônia reluzirá novamente ou uma bala perfundirá meu encéfalo – entrará por um ouvido e sairá no outro, nada menos. Sinto meus passos derradeiros nesse morro cascalhado. Cairá sequer uma lágrima desse meu rosto surrado diante da morte de meu pai? Meu recinto ainda tem o cheiro de vazio. Insisto em deleitar-me na água que escorre do chuveiro, mas em vão. Pressuponho que dentro da gaiola do meu peito habite um pássaro que almeja voar, todavia se debate nas grades costais, depena-se e desiste da vida. Perfumo o ar com sobriedade: irrita-me o anseio acalentador das pessoas. Recebo, ainda que caquético, no toante dessa noite, uma visita: meu humor sacoleja como um cão solto na praia. Lê-me: você parece ótimo. Não se esqueça, minha cara, que os buquês, por mais que sejam sorridentes e carinhosos, são feitos de flores mortas. 
  • A morte do Pronome Possessivo Teu

    O velório estava no maior tumultuo. Dona Língua Portuguesa estava de luto, pois mais uma de suas raízes caira em desuso, tornando-se arcaico. A galera do Pronome Possessivo não se conformava, era um de seus entes queridos: o Pronome Teu.

    O Pronome Seu, nem teve coragem de comparecer ao velório, pois aos que não entendiam poderiam de alguma forma condená-lo, já que um dos possíveis motivos do Pronome Possessivo Teu ter falecido, foi o constante uso do pronome Seu, em todas as condições onde gramaticalmente quem deveria estar era o Pronome Teu.

    Segundo as más línguas, o Pronome Possessivo Teu poderia ter falecido de cacofonia, outros se arriscavam de homônimos, arcaísmos e inúmeras outras situações. Um boato onde somente Dona Análise Sintática deveria responder, essa, era como o médico legista do Instituto Médico Legal, aquele que dá a palavra final do atestado de óbito ao falecido. Segundo Dona Análise Sintática, o que levou realmente a morte do finadíssimo Pronome Possessivo foi a bendita Variação Linguística. 
  • A Mudança

                                                                                                                    I
    Carlos desde que se lembrava, não gostava da ideia de ter de se mudar, gostava de sua casa anterior, gostava da vizinhança, dos amigos que lá tinha e do clima quente. A maioria das pessoas viviam reclamando sobre o calor matador que lá fazia sem parar, dia após dia, mas Carlos gostava, estava acostumado com o calor e com toda a agitação do seu antigo bairro.
    Ele gostava de ver as crianças brincando na rua a tarde toda, correndo de um lado para outro, com toda a sua inocência e desconhecimento de mundo. Gostava do céu, que era sempre de um azul limpo e aberto, e de como era hipnotizante, fácil de se perder em pensamentos quando se ficava sentado olhando a magnitude daquele azul. Lembrava-se de uma dessas vezes, estava deitado num chão morno cimentado, olhando para o céu, não se recordava o que se passava pela sua cabeça naquele momento, mas se lembrava de se sentir sonolento naquele chão duro que estava tão acolhedor, e afogado em sua própria mente, vidrado naquela imensidão azul, ele adormeceu.
    E agora estava acordado dentro daquele carro velho, colado na janela observando sua nova casa. Havia dormido durante toda a viagem, só foi acordar quando seu pai já estacionava o carro em frente a casa, e sua mãe já os esperava do lado de fora, em frente ao portão de madeira envelhecido. O terreno possuía uma cerca de madeira, que aparentava ser da mesma idade do portão, tinha aproximadamente um metro de altura e uns dez centímetros de espaçamento entre as madeiras. Imediatamente Carlos a achou completamente desnecessária, já que não havia nenhuma outra casa por perto. Bem no meio do terreno havia a casa de dois andares construida em madeira, na frente instalava-se a varanda que continha uma porta simples que dava entrada para a casa, acima havia uma janela de madeira retangular, que se abria para fora em duas partes, ou pelo menos deveria, pois acreditava que não seria possível devido ao pútrido estado da janela. Toda a construção externa da casa era de madeira com uma pintura branca, com a madeira e a tintura disputando quem detinha o pior aspecto depois de aparentes cinco décadas de abandono.
    Na época da construção, ela provavelmente seria a casa dos sonhos para quem queria criar uma família numa região pacata, com bastante espaço e contato com a natureza, uma vida simples e proveitosa sem todo o estresse de uma cidade populosa. Quando nova, a construção simples e de visual limpo, devia passar uma tranquilidade invejável, como viver naquelas pinturas genéricas de casas campais. Mas agora o branco era sujo e a casa tinha evidentes manchas de mofo, rachaduras e lascas em todo lugar. Sua decadência era decepcionante quando se imagina como deve ter sido quando construída, porém era compreensível, já que ninguém parecia ter encostado na casa nas últimas décadas. A tranquilidade e a beleza da simplicidade que devia se encontrar aqui a cinquenta anos, dava lugar a monotonia e a depressão que se instalava cada metro quadrado do lugar.
    – É pai... você conseguiu, é de fato uma bela aquisição - disse Carlos aborrecido. Não conseguia se imaginar vivendo ali dentro, nesse lugar isolado e morto, sem nada para fazer e com ninguém conhecido para se entreter.
    – Tudo o que precisa fazer é aceitá-la, depois de um tempo ela se tornará um lugar aconchegante para você. Disse seu pai enquanto o olhava pelo retrovisor com um pequeno sorriso.
    – Vamos antes que sua mãe comece a nos gritar, ela já parece bem ansiosa por termos chegado.
    – Anda Carlos, quero lhe mostrar a casa logo. Chamou-lhe sua mãe.
    Assim que saiu do carro, Carlos notou uma brusca queda de temperatura, mesmo o sol do fim da manhã não era suficiente para afastar o frio úmido que se debruçava sobre eles, sem qualquer sinal de vento ou movimento produzido pela natureza. O silêncio era ainda pior, se sentia estranho como se o silêncio que pressionava suas orelhas fosse tão alto que cobria todos os outros sons, e só era interrompido quando um deles falava, causando-lhe um sobressalto todas vezes, como se uma taça de vidro quebrasse a cada início de frase.
    A espessa neblina que se apoderara dos arredores do terreno talvez fosse a responsável, bloqueava a vista de tudo que estivesse fora do raio de uns oitenta metros, era como se estivessem dentro de uma domo cercado por uma gorda e branca nuvem.
    Atravessou o portão seguindo sua mãe em silêncio pela propriedade, observando o devastado chão do terreno, era uma mistura de grama morta, completamente irregular e esburacada com chão arenoso escuro. Diversas plantas invasoras também estavam por lá espalhadas, haviam carrapichos, capim, ervas daninhas e outras que não conhecia, tudo em completa desordem. – Acho que não teremos uma horta como papai queria. Disse à sua mãe.
    – Você pode ajudá-lo a limpar e a plantar. Contato com a natureza é importante para um garoto urbano como você – respondeu sua mãe.
    – Tudo bem, sei que ele imploraria por isso mesmo.
    Passando pelo deque da varanda em frente a porta de entrada, sua mãe se segurou e lhe deu um olhar penetrante enquanto abria a porta. – A casa é velha, mas tem muita história e vida, dê uma chance e ela se mostrará mágica para você assim como foi para seu pai.
    – Bem, velha e histórica com certeza ela é - retrucou Carlos.
    A entrada da casa dava direto numa sala de estar ampla com um sofá velho e uma poltrona de couro marrom totalmente poído, ainda nela haviam uma alta estante de livros empoeirados, uma televisão quadrada antiga e um pequeno bar com garrafas de bebidas tão empoeiradas quanto os livros. Seguindo pela sala à esquerda tinha uma cozinha coberta do chão ao teto de pisos brancos encardidos, com uma janela na lateral dando vista para o lado esquerdo do terreno, e no centro da cozinha uma mesa retangular de madeira antiga que conseguia acomodar de maneira apertada cinco pessoas. Próximo ao fim da sala à direita se encontrava uma escada que levava ao corredor do segundo andar, onde haviam os dois quartos e o banheiro que ficava ao término da escada. O quarto de seus pais era uma suíte no final do corredor e possuía vista para a frente do quintal, enquanto o seu quarto ficava na outra extremidade do corredor, dando vista para os fundos do terreno. 
    Depois de mostrar a casa, sua mãe lhe entregou as chaves do quarto e desceu, iria preparar o almoço com seu pai, que seria servido na varanda que havia na parte de trás do quintal.
    Ao entrar no quarto se deparou com um cómodo quadrado de cor bege escuro, havia enormes manchas de mofo que desciam dos cantos das quatro paredes numa espécie de degradê de negro absoluto ao verde musgo, algumas iam do teto até quase tocar no chão madeirado, eram grandes e gordas como grandes hematomas numa pele clara e enrugada. Havia também um guarda roupa de madeira de quatro portas, cada uma com um espelho empoeirado e manchado nas bordas devido ao tempo. E por fim, uma cama de solteiro de madeira maciça, a madeira ainda que velha parecia ainda muito forte e resistente a um grande peso, e ao lado da cama uma janela de abertura ampla que dava vista para o quintal dos fundos e para uma grande área de mata esparsa.
    Pela janela ele pôde ver que a área possuía uma relva verde bonita, com bastante espaço entre as árvores que eram grandes e bem verdes, e mais próximo do seu quintal havia um estreito riacho pedregoso, a água seguia seu curso fraca, com todas as pedras a mostra, só filetes da água escura e densa corriam ao redor das pedras, como lágrimas que escorriam de um rosto muito sujo. Era um riacho que tinha seus dias contados, em contraste das árvores e da relva que pareciam lhe roubar toda a vida para brilhar nos seus dias verdes. Assim, o riacho sedia cada vez mais vida, e a cada gota que corria, levava embora a memória de seus dias límpidos.
    Carlos voltou sua atenção ao quarto ao ouvir o chamado de sua mãe para o almoço, temia que ela fosse servi-lo no quintal dos fundos, no momento que viu mesas e cadeiras lá postadas. Porém, ao se encaminhar para saída, algo à sua esquerda lhe chamou atenção, a parede defronte a sua cama possuía agora um círculo escuro no centro, parecia-lhe um mofo, talvez não o tivesse notado ao entrar. Mesmo assim, sua curiosidade o levou a se aproximar da parede, fixado por aquele círculo chegou tão perto quanto um palmo de mão e pode ouvir quase inaudível, um silvo arrastado e debilitado, como os últimos segundos de uma morte lenta, o mofo respirara.
                                                                                                                       II
     Demorou todo o restante do dia e boa parte da noite adentro para terminarem de limpar a casa, e em especial Carlos que passou horas tentando de toda forma retirar aquelas manchas bolorentas de seu quarto, sem obter nenhum sucesso. Frustrado e exausto, Carlos decidiu que deveria dormir e mesmo assim demorou mais algumas horas para conseguir, sua mente voltava sempre com a imagem do mofo respirando, e como ele se postava logo na parede a sua frente, foi difícil tirá-lo da cabeça.
     Enfim, quando os primeiros raios de sol começaram a rasgar o azul escuro do céu, trazendo maior claridade e calor, Carlos se sentiu mais seguro e assim pode cair em seu sono. Porém, mesmo em seu sono não tinha tempo para descanso, assim que dormiu se viu numa escuridão total sufocante, nada podia ver e tentava em vão esticar suas mão para apalpar algo. A seus pés passava um curso de água que ia até acima de seu tornozelo, a água gelada lhe dava calafrios e os tremores se intensificavam gradativamente até serem quase cãibras. Seus lábios gelados tremiam tão rápidos quanto milissegundos, e toda tentativa de fechar a boca era patética e inútil, e nesse estado, foi quando voltou a ouvir.
     A mesma respiração daquela encontrada no bolor em sua parede estava de volta, débil e fraca ela lhe chegava e foi acelerando, crescendo. Ao mesmo tempo o nível da água alcançou a metade de suas canelas, trazendo objetos pesados e macios que acertavam suas pernas, fazendo com o que manter o equilíbrio fosse quase impossível. Olhava para baixo  procurando ver a água ou as coisas que o acertavam, mas o breu era tão forte quanto uma venda em seus olhos, nada enxergava e nem dimensão de distância ele possuía.
     Não sabia a quanto tempo estava lá parado, fechou os olhos com força e rezava para que acabasse, seus ouvidos eram pressionados pela respiração forte e abrupta que estava agora sintonizada com seu coração, cada batimento no ritmo acelerado de seu nervosismo era acompanhado por uma lufada de ar expelida em seu ouvido, lhe deixando mais nervoso, criando assim um círculo vicioso do terror. Quando achou que não mais suportaria, algo passou por seu tornozelo e o agarrou, cravando garras adentro de sua pele e músculos. Sentiu aquele aperto tanto no tornozelo quanto em seu coração, o medo cravou-se em seu peito com as mesmas garras que se prendiam em seus pés e o apertaram até explodir. E assim, acordou de sobressalto com as mãos no peito e com o sol queimando seu rosto.
     Ficou sentado imóvel na cama tentando acalmar-se, respirava fundo seguidamente por mais de um minuto, suas mãos tremiam e seu peito vivia para buscar o ar e jorrar para dentro de seus pulmões a certeza de que tudo fora um sonho e nada mais. Sua mente foi aos poucos se tranquilizando, porém não esperava que ao levantar a cabeça e olhar adiante, bem a frente da sua cama, a parede que detinha a mancha que lhe dava calafrios fosse novamente levá-lo ao terror.
    A parede, na qual jazia a pequena mancha escura de mofo, já não se fazia visível, toda sua extensão fora engolida pelo mofo, que expelia pequenas partículas no ar a cada ciclo respiratório. Levantou de um salto, todo o pesadelo voltava a sua cabeça, e o sufocamento trespassava agora o tecido do sonho para a realidade, a respiração forte e acelerada retornou aos seus ouvidos junto com o medo que teimava em agarrar-se ao peito. Passou pela porta e desceu as escadas sem olhar para trás, parou apenas ao pé da escada e olhou para o andar de cima na tentativa de achar algo que podia estar lhe seguindo, mas nada encontrou.
    Seguindo as vozes de seus pais que saíam de outro cômodo, Carlos se dirigiu a cozinha a procura de se acalmar na segurança de seus pais. Ao passar pela entrada, os encontrou sentados na mesa com a cabeça totalmente afundadas sobre pesadas páginas de jornal, que se ergueram para vê-lo chegar.
    No momento que atravessou o batente, Carlos ficou preso ao chão ao olhar os rostos de seus pais, ou no caso a ausência deles, sua mãe possuía a face afundada como se por diversas vezes um objeto de imenso peso havia lhe caído sobre o rosto, sua boca era um rasgo contorcido que exibiam num sorriso nenhum dente, apenas um vão escuro tão profundo quando o abismo de sua cavidade ocular exposta. Já seu pai, tinha a metade de cima do rosto tão liso quanto uma máscara, não possuía olhos, ouvidos e nem nariz. Enquanto a metade de baixo era ocupada por uma imensa boca que ligava as extremidades laterais da sua cabeça, amplamente repleta de dentes afiados que ficavam a mostra devido ao sorriso congelado e aterrorizador que se fazia em sua face.
    – O que houve Carlos ? Ouvimos você gritar agora a pouco - disse sua mãe
     Carlos não podia responder, lutava para prender um grito em sua garganta, e se esforçava o máximo para não sair correndo novamente. Devia estar enlouquecendo, a mancha, o sonho e agora isso. Fechou os olhos e disse à sua mãe – Não é nada, acho que não estou me sentindo bem. Vou lá fora tomar um pouco de ar, ver se melhoro.
     Nesse mesmo instante, seu pai veio em sua direção de forma lenta, como se observando cada aspecto de Carlos – Têm certeza que não quer sentar conosco um pouco, meu filho ? Você realmente parece muito abatido, dessa forma você nos deixa preocupado - E assim que terminou sua frase, seu pai segurou a cabeça de Carlos próxima a sua, examinando-o, seus dentes afiados com mais de quatro centímetros davam-lhe a aparência de um tubarão. O bafo pútrido que trespassava entres os dentes trincados, combinado com as salivas que escorriam pelos cantos da boca, descendo por toda a extremidade do rosto até cair pesadamente no chão, contradizia toda a fala de seu pai, que para os ouvidos de Carlos parecia preocupado com a aparência do filho, enquanto que para seus olhos parecia faminto e levemente desapontado pelo abatimento de sua presa preferida que talvez para ele diminuísse o sabor da sua futura refeição.
    – Sim...pai, eu só preciso de um pouco de ar livre - Disse Carlos travado, com uma enorme dificuldade. E no momento em que seu pai retirou-lhe as mãos do rosto, Carlos saiu apressadamente para a sala principal e de la para a porta de entrada.
     A atmosfera do lado de fora era a mesma do dia em que havia chegado, era fria, silenciosa e com uma pesada sensação de morbidez. Mas o silêncio, nesse momento o ajudava a se acalmar, longe de seus pais e do terror do sonho que o perseguia, Carlos pode respirar tranquilamente por alguns minutos. Por isso, decidiu andar, se afastar da casa e de seus problemas.
     Após descer da varanda e andar pelo finado jardim, Carlos percebeu que a neblina estava ainda maior hoje, aumentando o cerco à casa, e tornando o silêncio ainda mais poderoso. Nem quando passou descuidadamente por sobre a morta grama e entre as diversas plantas invasoras, foi produzido algum som. Entretanto, se deu conta de que no meio da rua, parado onde se iniciava a neblina, havia um homem que olhava para o chão de maneira fixa.
     Carlos espantou-se ao ver alguém novamente, havia pensado que não havia nenhuma outra alma viva ao redor de sua casa, e foi até a rua para encontrar esse homem. Porém, ao chegar mais perto o homem se virou e adentrou a neblina, na qual Carlos foi em seguida, chamava o estranho seguidas vezes na tentativa de o homem parar.
     Mas quando adentrou a neblina soube que não mais precisava chamar, o som que o estranho fazia ao pisar no chão era como um tambor ritmado, que parecia ecoar, preso dentro da neblina sem espaço para fuga. Os passos e os ecos se misturavam, tornando impossível saber qual era o real, o passado e o presente era um naquele passo, que só foi abafado quando um estrondoso som o encobriu, pareceu um tiro que reverberou sobre si diversas vezes, multiplicando seu volume.
     Assustado, Carlos se virou para voltar pelo caminho de sua casa, mas por mais que andasse a neblina ainda ficava à sua volta, em todas as direções era única coisa que via, não sabia mais em qual direção devia ir, podia andar para qualquer uma que ainda pareceria que estava no mesmo lugar, a névoa densa agarrava-se a sua volta, o cercando naquele mundo.
     Cansado, Carlos teve que parar e dessa vez voltou a ouvir. Vindo em sua direção, cada vez mais alto e fácil de identificar, vinha uma bicicleta que quando se tornou visível, era levemente familiar. Uma bicicleta de médio porte, azul e preta andava em sua direção, devagar fazendo o som da corrente ser o único som existente daquele lugar, onde reinava absoluto. A bicicleta não trazia ninguém pedalando, veio sozinha e por uns três metros andou até Carlos, parando ao seu lado e se sustentando por uns cinco segundos, quando enfim pareceu se dar conta da impossibilidade daquele acontecimento, ela desistiu e tombou para o lado sem produzir nenhum som, como se caísse em nuvens.
     Logo após a queda da bicicleta, outro som se fez reinar novamente, de novo um estrondoso barulho de disparo foi produzido dentro da névoa, e como o primeiro, assustou Carlos até o fundo de sua alma, o fazendo correr às cegas por minutos, não sabia para onde ia, ou por onde, a direção não trazia importância a Carlos, apenas a distância era relevante e era isso que buscava. Quando abriu os olhos, depois de minutos correndo e tropeçando, Carlos se deu conta que havia chegado novamente no portão de casa.
                           
                                                                                                                  III
     Carlos atravessou o portão com lentidão, sentia-se exausto e pela escuridão noturna do céu, podia deduzir que se passou horas dentro da névoa. Não sabia exatamente quanto tempo, se fora horas ou dias, sentiu como se fossem minutos, mas agora sabia que não poderia ter sido.
     Juntou forças para chegar até a casa, queria descansar mas acreditava que não seria possível. Não seria capaz de vivenciar novamente o horror de estar no mesmo lugar que seus pais, ele ainda tentava retirar da cabeça a imagem profana deles, que hora ou outra voltava a sua mente. A mais simples imagem mental deles lhe dava calafrios, tremia durante todo o caminho, temendo encontrar novamente seus pais com aquelas faces, e imaginar que ambos estariam preocupados pelo sumiço do filho e que isso seria uma ótima oportunidade para seu pai o analisar a centímetros de distância, como da última vez.
    Na metade do caminho, um barulho constante surgiu e foi crescendo a cada passo dado em direção a casa. Logo pôde identifica-lo, o som parecia de água corrente, e a distância e o volume indicavam que corria forte e veloz. Só podia imaginar que a fonte fosse o rio atrás da casa, o que lhe parecia impossível já que ainda ontem o rio definhava em seu leito.
     Entrou em casa sorrateiramente e esperou em silêncio na expectativa de perceber se alguém o havia notado. A sala e a cozinha se encontravam vazias, e do andar superior caiam minúsculas partículas negras que se espalhavam pela sala, o que logo foi desvendado ao perceber-se que a escada e a parede que levavam para o segundo andar estavam cobertas por um negror bolorento. Assim, quando enfim notou que a porta que dava para o fundo do quintal estava entreaberta, se apressou para atravessá-la se encaminhando para os fundos, onde viu a figura de seus pais, ambos de costas para a casa, a poucos metros do rio, olhavam fixamente para o curso da água como se estivessem presos a ele.
     Apreensivo, Carlos ficou parado durante segundos em hesitação. Não sabia se ia em direção a seus pais na esperança de que toda aquela transfiguração que eles sofreram fosse apenas uma construção de sua mente exausta, ou se voltasse e fosse para qualquer outro lugar que conseguisse. Porém, antes de sua decisão, sua hesitação lhe custou um preço, seu pai voltara sua face ainda transfigurada para Carlos e o olhou como se estivesse a menos de um metro e não os vinte atuais.
    Sob o olhar inquisidor de seu pai, Carlos congelou, não conseguia se mover, tomar uma decisão. Ficou parado olhando aquela face aterrorizadora, totalmente entregue e submisso. Quando seu pai numa voz gelada e afiada como uma navalha o chamou com um “Venha!”. O som da palavra atravessou os vinte metros e chegou aos seus ouvidos como um segredo sussurrado às escondidas, cravou-se em seu coração e o rasgou como uma faca de gume enferrujado, na qual Carlos só pôde obedecer.
    Quando chegara na metade do caminho, Carlos já tinha a imagem clara. O rio de fato estava mais do que vivo, corria veloz como um cavalo, carregando o que parecia troncos de árvores rio abaixo, e fundo o suficiente para cobrir as patas de tal animal, sua largura era de no mínimo seis metros, escondendo todas as pedras fixas em seu leito e nas suas margens. Por outro lado, a mata verde parecia presa num domo outonal, com o verde substituído pelo marrom seco das folhas e da relva que poderia se quebrar ao menor sinal de vento.
     Chegando até seus pais Carlos parou abruptamente. Seu pai com as mãos firmes pôs Carlos a sua frente, e percebendo a sua perplexidade ao notar o que de fato o rio carregava, seu pai lhe deu um sorriso demoníaco. – Olha Carlos, o rio está novamente vivo. E ao lhe dizer isso, seu pai segurou -lhe a cabeça e a manteve presa direcionada ao rio.
     A essa distância Carlos pôde ver que não eram troncos de árvores que estavam sendo levados pelo rio, mas sim corpos. Corpos em estados de decomposição eram carregados aos montes pela água, de homens e mulheres de todas as idades, desde crianças até idosos. Suas peles enrugadas tinham tons esverdeados, roxos e pálidos, alguns tinham partes de seus corpos faltando, outros tinham ausência parcial de pele, e assim eram carregados numa profusão de água turva de cor marrom.
     Estava agora a menos de dois metros do rio, sua mãe ainda impassível, parecia presa a um transe na qual lhe permitia apenas ficar de pé, olhava para o rio e ignorava tudo o que acontecia a sua volta, enquanto que seu pai posicionado atrás de Carlos, segurando-lhe sua cabeça, se aproximou do seu ouvido e com sua recente voz cortante e fria, que apenas pode ser produzida por algo que a décadas deixou de existir, disse a Carlos – Está na hora de se juntar a eles. E logo após, o empurrou com extraordinária força para dentro do rio.
     Carlos caiu afundando em meio aos corpos, fracassou a tentar se levantar, suas pernas pareciam fracas e sua força ia em direção oposta ao seu desespero, os corpos pesados e de pele macia acertavam os seus membros a todo momento, a falta de ar foi crescendo a medida do seu medo até atingir seu ápice, quando Carlos não mais se encontrava no rio.
     Estava numa rua asfaltada num início de tarde, crianças jogavam bola na rua enquanto ele passava montado em sua bicicleta azul e preta pela lateral da rua. Havia pessoas sentadas em frente as suas casas, conversando amigavelmente com seus vizinhos. O som vindo da rua era barulhento, somado com o calor emanado por um sol alto e amarelo num céu limpo, podia essa combinação ser insuportável para alguns, mas para ele era acolhedor, estava próximo a sua casa, e todos ali o conheciam.   Acenavam e lhe dirigiam saudações enquanto passava lentamente por elas na sua bicicleta. Quando uma correria se fez em toda a rua, disparos estrondosos começaram atrás de Carlos, as crianças foram rapidamente resgatadas por qualquer adulto mais próximo, os que estavam sentados em frente de suas casas se trancaram de imediato, os bares e estabelecimentos familiares desceram suas portas. E nessa confusão, Carlos acabou perdendo o equilíbrio, caindo de sua bicicleta. Tentou se levantar mas suas costas doíam e ardiam incessantemente a qualquer sinal de esforço feito por ele.
     Virou de barriga para cima na tentativa de ver o que acontecia, garotos passavam a toda velocidade por ele seguidos de homens fardados que tentavam alcançá-los e disparavam às suas costas, logo se deu conta do que havia acontecido.
     Deitado naquele duro chão que emanava um calor acolhedor que o abraçava por trás, enquanto o sol queimava levemente seu rosto como uma carícia de dedos em chamas. Sua respiração ficava cada vez mais lenta ao passo que Carlos nadava naquele oceano claro que era o azul límpido do céu, se perdia naquela imensidão, se afastando e afogando aos poucos ele se distanciava de seu mundo até que apagou.
     Estava agora de volta submergido no rio, com água entrando por sua boca, podia sentir os resíduos dos corpos humanos que lhe invadiam junto a água, conseguiu enfim firmar seus pés no fundo contra as pedras e se erguer com imensa dificuldade. Seus pais, de volta ao transe com o olhar perdido no rio, nada expressaram.
     Tentava se esticar para alcançar a margem direita do rio, seus dedos riscando finas linhas na terra não conseguiam proporcionar firmeza suficiente para o seu corpo, quando com sua mão direita, conseguiu cravar todos os seus dedos dentro da margem do rio, rebentando-lhe as unhas de seus dedos, causando uma dor estonteante, Carlos aos poucos foi se aproximando da margem. Quando, como uma unidade, todos os corpos do rio começaram a se debater e a tentar agarrar qualquer parte exposta do corpo de Carlos.
     Um corpo de um idoso cravou todas as unhas pútridas de sua mão no braço esquerdo de Carlos, causando um enorme puxão para o fluxo da água, mas Carlos segurou tão firme a margem que o braço do idoso se soltou de seu corpo e ficou pendendo junto ao braço de Carlos. Suas costas exibiam rasgos em todas as direções, devido aos fracassos dos corpos de se agarrarem a ele.
     Estava com a parte superior do corpo já fora da água, quando sentiu mãos agarrarem seus tornozelos. Duas mulheres mortas, uma sem mandíbula e a outra sem toda a parte inferior do corpo, seguravam seu tornozelo esquerdo, enquanto o seu pé direito era segurado por três corpos tão necrosados que era impossível identificar o que haviam sido em suas vidas passadas. Com esse atraso, mais corpos conseguiram se segurar em Carlos, escalavam suas pernas e cravaram-se em suas costas, mordiam e arranhavam onde podiam.
     Sua mão não aguentando tal peso, foi cedendo e escorregando. Ao mesmo tempo, um corpo conseguiu escalar toda as costas de Carlos, e lhe chegou a cabeça. Mordeu-lhe com os dentes marrons a lateral da face, enquanto que, com a mão cravou todas as unhas, de mais de três centímetros, na mão direita de Carlos que num impulso soltou a margem, sendo tragado de imediato para o rio, afundando com mais de sete corpos agarrados a sua volta. Tentou gritar, mas submerso a água invadia sua boca, carregando a seus pulmões toda impureza do rio. Se rebatendo e lutando contra todos os corpos a sua volta, a alma de Carlos foi levada pelo rio para completar sua morte.
  • A Mulher dos Sonhos - parte 3

    1
    Peter rolava de um lado para o outro em sua cama, debaixo de suas cobertas. Embora fosse tarde da noite, não conseguia mais dormir e não queria abrir os olhos, tinha medo. Cobria a cabeça com o cobertor grosso e felpudo, para que não visse o que ocorria naquela imensidão sombria que chamava de quarto.
    Não sabia porque tinha acordado, não sabia porque não queria abrir os olhos e não entendia o porquê de seu medo. Sentia uma presença perto de sua cama e uma brisa gelada em seus pés (será que estão descobertos?), não conseguia movimentá-los. O medo em seu coração aumentava, então preferiu não tentar mais se mover, iria apenas aguardar, coberto e tremendo. Com muito esforço conseguiu abrir os olhos, que não passaram de dois riscos em seu rosto, e observar, brevemente, por um pequeno espaço em seu cobertor, aquele sorriso com dentes pontiagudos que o esperava de pé ao seu lado.
    Seus músculos enrijeceram, não conseguiu segurar a urina. Espremeu as pálpebras com toda a força e se agarrava à toda proteção que aquele velho cobertor lhe dava. Não conseguia, nem queria, se mover.
    Ouviu passos. Pelo som julgou que o movimento era lento, suave e, de certa forma, gracioso. Sua curiosidade apertava. Contudo, não iria ver, não iria espiar e de forma alguma iria retirar a coberta de sua cabeça, onde pensamentos do que poderia acontecer consigo transitavam incessantemente. Sabia dos últimos dois crimes sem explicação que ocorreram na cidades, como dois homens foram brutalmente assassinados em suas casas. Peter era aficionado em notícias tenebrosas e sempre imaginava que seria a próxima vítima (desta vez talvez estivesse certo).
    Mesmo embaixo do cobertor, e lembrando que quando foi dormir a temperatura estivera em torno dos 25 graus celsius, aquele quarto era gélido. O frio agredia todo o seu corpo, fazendo-o tremer, o único local quente era na poça amarela que saiu de sua calça, mas não iria trocar de posição. Aguardaria os primeiros raios de Sol sem se mover um milímetro sequer e nada no mundo o faria mudar.
    Enfim, seu celular tocou. Era o despertador, a noite havia acabado. Fora tudo um sonho? Não sabia, mas seu colchão estava molhado. Os últimos meses foram recheados de diversas noites assim, sempre via a mesma imagem.
    Não sabia se era um pesadelo ou realidade. E aquela imagem de dentes pontiagudos passeando por seu quarto perturbava sua sanidade. Tinha medo de dormir. Tentou dormir um dia na casa de sua mãe e sentiu o mesmo pavor. Se havia algo de errado consigo, lhe perseguindo, preferia não arriscar mais ninguém, iria enfrentar sozinho.
    2
    Passou as semanas seguintes pesquisando se algo similar ocorrera com alguém. Investigou a fundo e chegou a duas mortes peculiares que ocorreram recentemente e continuavam sem explicação. Um rapaz chamado Wayne Banks, morava em uma pensão e foi descoberto por um colega que achou estranho a porta trancada a tarde toda. Ele mencionou não desconfiar de nada e que havia levantado à noite por duas vezes sem ouvir qualquer ruído estranho. Acabou condenado pelo homicídio, embora as evidências contra ele fossem fracas, alguém precisava pagar por aquele crime assombroso.
    O assassinato seguinte foi de um rapaz chamado Trevor Davies descoberto por sua ex namorada Stephanie. Ela ainda tinha a chave de sua casa e, após ligar pelo menos 5 vezes e tocar na casa dele diversas outras vezes, resolveu entrar para pegar algumas roupas que ele deveria ter lhe entregue. Entrou em estado de choque ao ver a cena de seu ex totalmente desfigurado deitado naquele cobertor que parecia vermelho. Tentaram processá-la pelo crime, contudo seu álibi era muito forte e, embora as câmeras do andar de Trevor tivessem apagado por algumas horas na noite do crime, seria impossível ela ter chego até lá sem passar pelas demais câmeras da cidade. Contudo, a pobre garota não escapou de meses de terapia intensiva.
    Peter estendeu sua busca para toda a Inglaterra, só que não encontrou nada similar. Procurou casos antigos e encontrou algumas pistas. Quatro assassinatos antigos, três homens e uma mulher, contudo, nenhuma ligação entre eles, além do que parecia um padrão de tortura sádica similar e marcas de congelamento. Os quatro casos eram bem antigos, remetiam à época em que seu pai morrera tentando proteger sua mãe grávida de um assalto em uma noite de verão.
    Peter temia por sua vida. Não queria dormir à noite, tomava remédios para se manter acordado e tentava dormir durante o protetor Sol matutino. Conseguiu um trabalho como vigia noturno em uma fábrica que operava 24 horas por dia. Nunca estava sozinho, o que lhe trazia certa tranquilidade. Temia seus dias de folga, as longas madrugadas frias. Sempre frias, não importava onde ele estivesse, aquilo o angustiava. Olhava na internet um calor de 28 graus e, apesar disso, era possível observar sua respiração em seu quarto.
    3
    O cansaço castigava Peter, trocar o dia pela noite não é tarefa fácil, agradecia por aquela fábrica barulhenta e movimentada, contudo às 4h da manhã, era hora de ir para casa. Pegou o ônibus que o deixo no metrô, de lá poderia cochilar no vagão, a viagem era longa e acreditava que nada lhe aconteceria.
    Peter estava errado...
    Era tarde da madrugada, contudo o Sol ainda não tinha nascido. O sono apertava mais do que o normal. Encostou a cabeça na parede do vagão, afinal, tinha-o todo para si, e as próximas estações prometiam estar vazias também. Tentava, bravamente, não dormir. Resistiu pela maior parte do caminho. Até fechar, ligeiramente, os olhos, naquilo que pareceu apenas um segundo. Quando acordou, apenas uma estação o separava de seu destino.
    Ficou contente por nada ter acontecido. Olhou ao redor, viu o vagão sem ninguém, de portas abertas. Ao longo da estação, também, não viu ninguém. Apenas uma bela moça, de cabelos negros, longos que chegavam à sua bela cintura. Eles eram radiantes e bem tratados, como das moças das propagandas de shampoo. Entretanto, sentada sozinha naquela estação, sua expressão era tristonha.
    Peter contemplou aquela cena por alguns instantes, imaginou o que poderia ter acontecido com uma mulher tão bela que a deixasse com semblante tão infeliz. Então, ela o olhou profundamente em seus olhos, era um olhar penetrante e assustador. Peter sentiu como se sua alma estivesse exposta, totalmente à disposição daquela mulher. Assim, sentiu-se frágil e desprotegido, o terror começou em seu peito e bambeou suas pernas. Estava receoso, algo naquela bela mulher e em seu olhar sério o perturbavam.
    Ela levantou de seu banco e se deslocou na direção de Peter, vagarosamente. As portas do vagão fecharam, anunciando que todos deveria deixar as portas desimpedidas. Essa voz distraiu Peter que olhou para o auto falante à sua direita. Quando voltou a olhar para sua esquerda, através da janela, viu aquela mulher a menos de um metro de distância (como ela chegou aqui tão rápido?) e ela colocou sua mão no vidro. Era uma mão delicada, embora suas unhas fossem um pouco maiores do que o comum (parecem as unhas daquelas “peruonas”, mas sem as cores vibrantes). Então reparou na falta do dedo anelar e na cicatriz grotesca que ali se encontrava.
    Foi quando ela sorriu...
    Aquele sorriso medonho de dentes pontiagudos, soltou um risinho fino e estridente, como talheres esfregados, com fúria, em louça nova, mas dentro de sua mente. A mão daquela mulher se moveu, deixando uma marca de arranhado no vidro e se aprofundando no metal que se seguia. Rasgou a parede do vagão como se fosse uma folha de papel.
    Peter se levantou da cadeira, afastando-se da parede agora esburacada. Não olhou para trás, manteve seus olhos fixos na mulher, até bater com as costas na barra de ferro que ali se encontrava.
    (metrô do inferno, anda logo!)
    O metrô começou a se mover e Peter a deixou para trás. Sentou no chão, onde estava, e bateu levemente a cabeça na barra de ferro em que se apoiava, por duas vezes. Abaixou sua cabeça, fechou os olhos e espirou até a última molécula de oxigênio sair de seu pulmão. Quando trouxe o ar de volta, abriu os olhos e viu o ser demoníaco no final do corredor. O sorriso macabro estampado no rosto, todas aquelas feridas hediondas, o vestido não era mais branco e sim marrom indo para o preto de tanta sujeira, também tinha manchas vermelhas sinistras. Quando deu seu primeiro passo em direção à sua próxima vítima, foi possível ver a poeira caindo de seu corpo.
    Os olhos de Peter arregalaram de surpresa, seu primeiro ímpeto foi se levantar. As pernas, que tremiam desenfreadamente, não responderam. O desespero se instalou em sua cabeça.
    - Por favor, não! Afaste-se! - Suplicou em voz alta.
    A criatura não se importava, continuou sua caminhada serena em direção ao homem indefeso à sua frente. Enquanto isso Peter se rastejava tentando se distanciar. Sabia que se não fizesse nada seria apenas mais um caso sem solução, perdido nos jornais e na gaveta de algum policial.
    Conseguiu se arrastar até a última porta do vagão, a distância era considerável entre ele e sua perseguidora. Juntou toda a coragem que tinha e controlou as pernas. Levantou-se e com a força que tinha bateu na barra de ferro ao seu lado para arrebentá-la, precisaria dela para se defender. Após quadro golpes poderosos, nada aconteceu.
    (tenho certeza que essa maldita está rindo de mim)
    Ele desistiu e se encolheu contra a porta. Via aquele demônio se aproximar e sentiu o frio de sua unha pressionando, delicadamente, contra a barriga. Sentiu o filete de sangue escorrer enquanto ela, suavemente, abria um corte superficial em sua pele
    (essa vadia gosta de torturar, não vai me matar rápido),
    ele não pretendia desistir, contudo, sabia que nada poderia fazer. Foi quando sentiu em suas costas a porta abrindo e rolou para fora daquele vagão infernal. A mulher não veio, ele se arrastou para o mais longe possível e viu ela sumir atrás da parede do vagão.
    Fora tudo um sonho? Ele realmente dormira no metrô? O rasgo no metal do vagão, que se deslocava para a próxima estação, e em sua barriga diziam que tudo fora real. Algo precisava ser feito para salvá-lo.
    4
    Peter tinha ideia do perigo que corria e que não poderia se salvar sozinho. Precisava de ajuda. Conversou com seus amigos que trabalhavam no período noturno da fábrica, perguntou se conheciam alguém que investigasse casos estranhos. Quando cogitava desistir, lhe apresentaram um cartão velho e surrado.
    “Sean Corbyn – Detetive Particular”
    - Minha sobrinha usou esse cara para investigar a morte do marido, que nunca encontraram o corpo. Ela é bem pobre, então ninguém ligava. A polícia se movimentava sem ligar muito, acho que tinham mais o que fazer do que investigar uma morte de pobre, diziam que provavelmente morreu em uma sarjeta escondida, ou um traficante queimou o corpo. Foram tempos complicados, só que esse cara se importou. Foi a fundo e descobriu que o marido tinha fugido com uma amante, mudou de nome e tudo, foi morar na Bolívia. Hoje ela, pelo menos, recebe uma pensão. Já tem anos que isso aconteceu, talvez esse cartão ajude.
    O cartão tinha endereço, um telefone fixo e um e-mail. Nada de celular, o que não era um bom sinal. E pelo estado do cartão, deveria ser de outro século. Mesmo assim, valia a pena tentar.
    Peter ligou para o número do cartão diversas vezes, não tinha resposta, nem uma secretária eletrônica. Eventualmente recebeu a resposta de que o número não existia mais. Resolveu compilar toda a sua pesquisa em um e-mail e mandou para o detetive. Marcou com alerta de leitura que nunca recebeu.
    (Provavelmente foi para o lixo eletrônico)
    Tentou enviar um e-mail sem anexos. Seguiu sem resposta. Decidiu escrever uma carta contando sua história. Quando a terminou, achou melhor entregar em mãos naquele endereço que tinha.
    Era uma manhã chuvosa. Foi ao endereço, no interfone tocou no 32. Não teve resposta. Esperou... Esperou... E esperou até aquela manhã chuvosa tornar-se um final de tarde nublado e frio. Ninguém aparecera. Foi quando uma pessoa saiu do pequeno prédio e perguntou se Peter iria entrar. Ele assentiu e se dirigiu até terceiro andar, número 32. Não parecia ter nenhum sinal de vida ali. Contudo, não parecia abandonado. Bateu na porta com número 31. Foi atendido por uma moça simpática de idade avançada, retratada por seus cabelos brancos como a neve.
    - Boa tarde, posso ajudar?
    - Sabe onde está o senhor Sean Corbyn, do número 32?
    - O detetive?
    - Isso!
    - É um sujeito divertido. Ele se mudou, conseguiu um escritório melhor eu acho, mas não disse onde era. Também sei que está de férias fora do país. Deve voltar em uns 20 dias aqui para retirar algumas coisas.
    - Você tem algum número que eu possa ligar? – soou mais desesperado do que Peter queria.
    - Tem o celular dele, mas não tem sinal, se não me engano ele foi para a América do Sul. Talvez você consiga mandar uma mensagem, ele acessa em algum wifi. Eu tenho anotado em algum lugar, espere um pouco.
    Enquanto aquela senhora procurava pelo número de telefone que poderia ser a última esperança de Peter, ele colocou sua carta pelo vão inferior da porta. Torcendo para que não fosse tarde demais.
    Quando recebeu o número de telefone, resolveu ir para casa. Era seu dia de folga e Peter lamentava por isso. O cansaço apertava e não queria dormir no metrô de novo. A casa de sua mãe não era longe dali, talvez fosse a melhor opção. Pegou um taxi e foi para lá.
    (não vou aguentar mais 20 dias. Amanhã preciso procurar outro detetive)
    5
    Chegando na casa de sua mãe, ela já se recolhia para dormir.
    - Quer que eu faça algo para jantar, querido?
    - Não mamãe, pode ir dormir eu me viro na cozinha.
    Ela foi para o quarto e ele preparou um jantar solitário, apenas macarrão instantâneo, rápido e fácil. Então, foi para sala assistir filmes. Eram 9 horas da noite, precisava manter-se acordado até às 5h30 da manhã, pelo menos.
    Não teve problemas durante o primeiro filme, sentado naquela cadeira desconfortável. No segundo já imaginou que logo iria dormir. No terceiro, encarava seu próprio umbigo ressoando baixinho. Acordou assustado. Conseguia ver sua respiração. Decidiu ir até a cozinha, pegou a maior faca que encontrara.
    (se essa vadia vier, estarei preparado. Vamos ver se você sangra.)
    Levou seu objeto afiado para o quarto e o colocou embaixo do travesseiro. Achou melhor não trancar a porta. Pegou dois cobertores extras e se cobriu por completo.
    (não vou morrer essa noite)
    Ele tremia embaixo das cobertas. Não sabia se pelo frio ou pelo medo. Talvez um pouco de ambos.
    Sabia algum exercício de respiração. Tentou para se acalmar, respirava profundamente e devagar. Seu coração desacelerou, uma sensação de paz tomou conta de si. Conseguiu fechar os olhos e relaxar.
    Sentiu um toque suave e tenro por cima das cobertas. Como um carinho em seu ombro. Com cuidado, alcançou a faca embaixo do travesseiro. A mão que lhe tocava subiu para a sua cabeça
    (só tenho uma chance, preciso acertar),
    achou que iria retirar sua coberta e, então, aproveitou. Com um movimento rápido encravou a faca naquele ser. Jogou todas as cobertas por cima dela e a derrubou no chão. Em seu momento de fúria, esfaqueou várias vezes aquela mulher que lhe trazia pesadelos todos os dias. E viu o sangue em sua faca.
    (se você sangra, quer dizer que eu posso te matar).
    Não sentiu mais movimentos debaixo do cobertor. Ele havia ganho. Sobrevivera àquela noite e provavelmente a todas as próximas. Já se via morrendo de velhice em seu sono. Aquela imagem lhe trouxe conforto. Então sentou em sua cama. A faca ainda em sua mão e não pode evitar um sorriso discreto.
    6
    Ainda sentado, olhou para a janela, a condensação era estranha para aquela noite quente, e viu a mensagem que gelou seu espírito.
    “Tente de novo...”
    A fraqueza dominou seu corpo, contudo, apertava com todas as suas forças aquela faca. Olhou para sua porta e, mesmo na escuridão, identificou aquele sorriso maligno.
    (O que eu fiz? O que você me fez fazer?)
    Acendeu o abajur perto de sua cama e viu o corpo escondido por dois cobertores. Olhou para a aparição na porta, imóvel, como se dissesse “vai em frente, veja a merda que fez”. Ele puxou a coberta ensanguentada e, por baixo, viu sua mãe mutilada, banhada em sangue, completamente imóvel.
    Foi quando a mulher deu seu primeiro passo. Na claridade do abajur sua imagem era mais aterrorizante. Peter sabia que não poderia se entregar ao medo
    (isso acaba hoje),
    e agiu. Arremessou o abajur em direção à mulher. Não teve certeza de ter acertado. Pegou o celular e acendeu a lanterna. Nenhum sinal dela. Com cuidado foi até o interruptor e acendeu a luz. Sua mãe jazia morta em seu chão, mas nada poderia fazer agora.
    (onde ela foi parar)
    Seguiu para fora do quarto, pelo corredor, e acendeu outra luz. Queria tudo aceso. Talvez ela não seja tão poderosa longe da escuridão. Prosseguiu com cautela, cômodo por cômodo, deixando todas as luzes acessas, enquanto sua faca deixava uma trilha de sangue no chão. Faltava apenas a cozinha e o quarto da falecida mãe. Começou pela cozinha. Não havia nada lá, sentiu-se mais seguro. Pensou em como a mãe era contra armas em casa, talvez se arrependesse hoje.
    Decidiu ir ao quarto de sua mãe, deixou-o iluminado. Toda a casa parecia segura. Agora precisaria explicar para a polícia como matara sua própria mãe achando que era um demônio. Talvez na prisão estivesse mais seguro, talvez devesse se declarar culpado.
    Voltou para seu quarto, ajoelhou perto de sua mãe e chorou. Quase largou a faca, quando ouviu o som sinistro de sua porta rangendo lentamente e o click da maçaneta relaxando naquele buraco dentro do batente. Olhou para lá e viu a mulher novamente. Ela nunca tirava aquele sorriso apavorante do rosto. Movimentava-se sempre devagar, de uma maneira apavorante.
    (Não vou mais ter medo. É isso que você quer, não? Uma vítima medrosa. Não terá mais isso de mim)
    Ele avançou em um ímpeto que nunca imaginou ter, faca bem firme em sua mão, e investiu contra o demônio. Sua arma a poucos centímetros de distância, milímetros, então, encostou naquela carne fétida, apenas para se desintegrar na sua frente.
    - O que é você?
    -...
    Não havia resposta. Nunca houve resposta. Aquele ser não emitiu um único ruído. Foi quando esticou seu braço frágil e apontou sua unha para Peter. Ele recuou até ficar acuado contra a parede. Sentiu aquela unha podre abrindo sua barriga do umbigo até o peito. Olhou para baixo e pode ver seu intestino caindo no chão, seguido de outras coisas. Quando olhou no rosto da mulher ela não mais sorria. Seu toque gelado agora envolvia seu pescoço. Era, de certa forma, suave. Ela sabia que ele morreria em breve, precisava aproveitar seus últimos momentos. Aproveitou observando a vida se esvair, aos poucos, dos olhos de Peter.
    Então sorriu.
  • A Névoa do Amanhã




    69834288 2815626791789581 9091137578723180544 n


    Caminho desnorteado pela trilha fechada em meio à mata. Devido ao inverno rigoroso sinto os ossos congelarem enquanto respiro com dificuldade. A névoa branca ofusca a visão a longo alcance. Os meus olhos castanhos se perdem, não enxergo absolutamente nada. Com os pés machucados reluto para manter o equilíbrio. As folhas secas transmitem medo e angústia. O silêncio fúnebre invade a minha mente perturbada. Já se passaram quase cinco horas desde que acordei dentro de um buraco cheio de vermes rastejantes. A fome que sinto berra a um nível extremo, a boca seca implora por um copo de água, estou literalmente exausto e cansado. E para piorar a situação não me lembro de absolutamente nada.
                Devo ter batido a cabeça, pois a falta de memória não tinha uma justificativa aparente. Sem recordação do passado ou presente, nome desconhecido e perdido. O que mais poderia acontecer? Ouço a poucos metros um grito medonho, o meu instinto de sobrevivência joga o meu corpo na direção oposta. Corro o mais rápido que consigo, atravesso por entre árvores pontiagudas e flores deterioradas. Quando finalmente chego a um ponto sem saída deparo-me com uma sombra humana.
                Fico estagnado olhando fixamente para o ser diabólico que emitia aquele som estarrecedor, fugir de nada adiantou. A criatura gigantesca de aproximadamente 12 metros de altura não tinha aparência, sexo, cor ou idade. Era um ser misterioso observando-me igual a um pobre animal no zoológico. Suavemente dou alguns passos a frente esbarrando num campo invisível o qual bloqueava a passagem entre mim e a aberração. A forma humanoide era notável, pés, mãos e cabeça, porém o seu tamanho desproporcional á realidade. Seria tudo fruto de uma mente criativa? Uma abdução alienígena? Antes de mais questionamentos insanos surpreendo-me por uma voz feminina aos prantos.

    —Volte Marcelo! Volte para mim.
     — Quem está aí? Quem é você?
     — Não se vá...Eu te amo.
    — Você não consegue me ouvir? Quem é?

                Fico tonto por alguns segundos o suficiente para tornar os meus sentimentos uma tristeza profunda. Do limbo inconsciente emergem de forma rápida e destruidora imagens diversas, puras lembranças que juntas completavam um álbum de fotografias do que um dia já foi minha história de vida. As dúvidas que me cercavam eram respondidas de forma ininterrupta. A conclusão era óbvia e cruel. Eu estava morto.
                No momento em que aceitei a realidade pude enxergar claramente tudo ao meu redor. O monstro havia ganhado um belo rosto, olhos azuis e cabelos loiros, o seu nome era Anne. A minha doce noiva agora debruçava sobre o meu cadáver, murmurando palavras de luto. Mas eu apenas podia ouvi-la. Um funeral coberto de lágrimas, lamentações e dor.
               
                Nunca imaginei que terminaria dessa forma. Vítima de um estúpido acidente de carro. Não posso culpar o destino já que as duas garrafas de Vodca contribuíram para esse final deplorável. Desviei-me numa curva sem volta. Infelizmente nada mais poderia ser feito.
                Uma luz branca refletiu na minha face poucos minutos após a grande descoberta guiando o meu espírito ao repouso eterno. O novo mundo me esperava de braços abertos.

    — Adeus querida, me perdoe.
  • À Noite

    Tarde virá à noite e este céu,
    azul que vês este risonho...
    Céu há de cobri-lo o seu negro véu,
    cobri-lo, deixando-o tristonho. 

    Como ele, há de ficares, tu que já ouviste,
    merencório às notas do lamento...
    Entoar no peito triste,
    melodias que lhe traz o vento. 

    Nesta estrada em que andas,vão os sonhos,
    vem às mágoas, e os medonhos 
    pensamentos que ecoam como um grito...

    Se dispersam como às brumas n'alvorada,
    ante o canto matinal da passarada,
    e o astro que despontas no infinito.
  • A nova onda cyberpunk

    Diferente do que afirmam os críticos, a morte do cyberpunk foi anunciada com certos exageros. O pós-cyberpunk, movimento no qual a tecnologia e a sinergia entre homens e máquinas é considerada algo possível, ao menos até o momento continua sendo uma utopia cibernética e não uma realidade concreta. A alta tecnologia e a baixa qualidade de vida é algo muito mais palpável. O cyberpunk não cria ilusões, revela fatos diários.
                Quando a Darda Editora se propôs a explorar esse subgênero da ficção científica, o mundo e a liberdade criativa para criar histórias nessa realidade foi imensa, e também envolvente. No total, oito autores foram selecionados. Já conheço até o trabalho de alguns deles, pois já fui seus colegas em outras antologias. Recomendo esse livro pelas novas abordagens, dramáticas e catárticas nesse livro.
                O primeiro conto é escrito pela Aline Cristina Moreira, e se chama Ilusões. Esse texto nos mostra como a tecnologia é muito frágil para substituir as relações humanas, cada vez mais artificiais. Não posso falar mais, senão correrei o risco de revelar o final da história. Foi uma leitura assustadora.
                O segundo conto é o meu, Assalto ao Banco Genoma, um hacker baiano recebe uma bolada em criptomoedas para assaltar um banco de registro de DNA para um nobre europeu. Mas enquanto ele invade o BG, uma força tarefa chega ao seu quartel general. Não gosto muito de comentar meus próprios contos, mas eu fiquei muito satisfeito com esse aqui.
                O conto do Cesar Luis Theis, o Nuances da cyber-sociedade, a alta tecnologia tem o mesmo status de uma droga, pois o seu uso é viciante, gera dependência e problemas psíquicos no seu usuário. Foi o trabalho mais coeso, com começo, meio e fim bem claros. Ficou muito nítido em qual mundo a narrativa se desenvolvia, o conflito entre hacker e máquina foi sensacional, usando xadrez como plataforma de combate. Melhor conto.
                Sangue e circuitos de Fabiana Prieto trouxe uma narrativa deja vú, a história parece se repetir em seu final, se tornando um anticlímax. Pareceu mais um prólogo de um romance do que um conto, ao menos me pareceu assim. O conto tem uma ótima ambientação, e se peca pelos personagens com pouca personalidade, a autora tem um ótimo argumento em mãos para desenvolver uma prosa maior.
                Jonnata Henrique é um dos poetas e contistas mais prolíficos que conheci, e um dos mais talentosos também. A história de O setor 469 também tem um ótimo cenário, uma típica distopia com um plano de fundo cyberpunk. Depois de uma Terceira Guerra Mundial, a população diminui para metade e ocorre a chipagem dos seres humanos. O setor 469 usa um programa de testes de robôs militares, e para isso, usa presidiários. Apesar do conceito ser instigante, a obra é muito curta, e termina com muitas pontas soltas. Careceu de um melhor desenvolvimento.
                Fuga na Cidade de Neon de Rafael Danesin trouxe a narrativa mais dinâmica e final mais aterrador da coletânea. Joh Haarp (que devido a flexão de dois gêneros não tive certeza se era um homem ou mulher) está fugindo de sua crio-prisão. Como um lobo solitário fugindo dos caçadores, o fugitivo causa um grande estrago na cidade, sempre com tiradas satíricas e sagacidade.
                Suellen Silva traz Vida de Cão. A história é simples, tem um cão-robô como protagonista. O cyberpunk é um gênero permeado pelo conflito entre o homem e tecnologia, o indivíduo e a sociedade, corporações umas contra as outras. Trazer esse conflito através de um novo olhar nos tira da zona de conforto.
                Fantasy and Dreams é o conto do Tauã de Lima Verdan Rangel, e fecha a antologia. Confesso que de todos esse foi o conto que eu menos gostei. Embora ele seja o de maior quantidade de páginas, não em pareceu que ela foi desenvolvida muito bem. A narrativa em primeira pessoa deixou vários pontos em branco. Personagens foram citados como numa lista de supermercado, mas não tiverem desenvolvimento de personalidade ou ações claras na trama. Outro conto que parece um prólogo de uma narrativa maior.
                Esse é o meu primeiro livro publicado com a editora, não sei porque, mas o livro demorou muito para ser editado. O livro tem apenas oito contos, eu sempre espero que a antologia tenha no mínimo cem páginas, esse é o maior pecado da antologia. A diagramação do livro não está ruim, mas uma segunda edição necessitará de uma melhor revisão, me pareceu que o livro foi editado às pressas, mesmo com cinco meses de produção e apenas 60 páginas. Inclusive eu achei que eles mudariam a capa, ele não instiga muito a leitura. O livro te orelhas, marcador de página exclusivo. Miolo em papel offset 70, capa papel cartão 200. Se você quer acompanhar mais um dos meus trabalhos ou se você gosta mesmo de cyberpunk o livro é sua pedida.
    Para adquirir o livro cesse aqui:
    https://www.dardalivraria.com.br/9143094-Antologia-Cibernetica
  • A paixão como eterno crime culposo

    Poucos livros conseguiram abordar as relações conflituosas no casamento como A Guerra Conjugal, do escritor curitibano Dalton Trevisan. Os contos reproduzem os papéis e o psicológico de muitos casais. Com objetividade, humor negro e uso de metáforas, seus textos transmitem uma valoração naturalista da união entre homem e mulher.
                Em todos os contos, dois personagens se fazem presentes, João e Maria, por si só uma ironia do autor, pois nos remetem a famosa história dos Irmãos Grimms. Lembrando o Star System usado em obras de mangá, como as de Osamu Tezuka. Assim a visão do leitor se volta para as ações dos personagens e a influência do meio em que vivem. Isso foi essencial para que sua narração direta não ficasse vaga durante a leitura.
                Sua narrativa sintética não impediu a construção de personagens redondos, algo bastante difícil numa narrativa tão árida. O casal onipresente, ao longo dos diversos contos apresenta inúmeras facetas. Em algumas histórias João é um homem passivo com os atos de Maria, seja na infidelidade ou sendo violentado pela mesma. Em outras ele é o carrasco, trata Maria com indiferença, torturando-a ou a trai com um amante.
                Maria por sua vez, vai de uma dominadora até uma escrava sexual. Muitas vezes a esposa usa dos seus dotes físicos para obter do marido ganhos materiais, ou exceder na lascívia e ser perdoada. Em alguns contos, no entanto, Maria sofre horrores ao se casar com João. Os fetiches do cônjuge ferem não apenas o corpo de Maria, mas também o seu orgulho, ao ponto de em uma das histórias, João colocar o amante para viver sobre o mesmo teto.
                Outros personagens constantes em todo o livro são os filhos. Apresentam-se sempre como vítimas do malfadado casamento entre João e Maria. As famílias crescem desestruturadas. Se o casal ganha em algum aspecto, os filhos saem perdendo, tanto na saúde, paz, lazer etc.
                João e Maria constituem o arquétipo de casamento feliz que inexiste por vários motivos apresentados no livro: As paixões e o instinto sempre acabam interferindo na união conjugal, o casamento formado por interesses materiais impedem qualquer desenvolvimento sentimental, a idealização do casamento encobre as motivações dos conjugues, o casamento também é feito de conflitos. Muitos outros motivos são apresentados no decorrer do livro, o que acaba tornando as situações absurdas, porém reais.
                Sua experiência como advogado deve ter ajudado a formar os cenários dos contos, muitos deles lembram o gênero policial, os finais sempre imprevisíveis e abruptos deixam o leitor desconcertado. A escrita rica de Dalton Trevisan impressiona pelos artifícios que usa nos seus textos, por exemplo, o gore em alguns contos deixam as suas histórias bastante sombrias. A dependência física de alguns personagens sejam eles João ou Maria, dá o parecer de que a paixão é uma droga, e o casamento um ritual para o seu uso.
                Com a falta de descrição dos personagens, pois são tão comuns que mesmo o leitor (a) poderia ser um deles (as), o que nos resta é nos atentar ao cenário. Por vezes a imundície dos antros, e mesmo nos personagens, é o que mais impressiona. Ficamos sem entender porque homens tão asquerosos acabam seduzindo as belas Marias? E horrorosas mulheres os valorosos João? Talvez a resposta esteja na imposição do casamento pela moral vigente.
                Algo notável nos escritos de A Guerra Conjugal é o uso de metáforas seja para encobrir ou codificar conteúdo erótico, tornando as passagens por vezes fantasiosas e em outras até poéticas. Vide o seguinte trecho do conto Quarto de Horrores: “Em pé na cama, inteiramente despido, João soprava a flautinha de bamba... Olhos vidrados, descobertas as vergonhas, girava à sua roda, ora aos pulos, ora de cócoras...”; outro conto com uma bela metáfora é A Normalista: “Sobre a cabeceira a imagem da santa e ali na cômoda a manada de elefantes vermelhos do bem grande ao menor, sempre de trombas para a parede...”. O foco da narrativa é o psicológico dos personagens que são transmitidos através das suas ações nem sempre louváveis. A um clima de demência nas relações “afetuosas” dos personagens que lembram o filme Psicose.
                Outra consideração a sua precisa narrativa é o uso de elementos sensoriais. Chegam a se tornar sensitiva as coisas simples do dia a dia como o amargo do café, o frio do sereno, o penacho de um cardeal ganha não apenas forma, mas total sensibilidade através das palavras de Dalton. Para histórias tão conflituosas, esse uso de elementos sensoriais acaba por diminuir o clima pesado da narrativa.
                A Guerra Conjugal mostrou que o casamento não passa de uma idealização extravagante de uma moral piegas. Nos contos do livro ninguém consegue se realizar na instituição falida que se tornou o casamento, seja ele civil, no religioso ou as uniões estáveis. Muito disso devido à interferência de outrem, e do que cada João e Maria espera receber, e não doar em prol do outro.
  • A Pianista

    Não sei por que. Mas estava lá. 
    Parado.
    Em minhas mãos um folheto com os hinos do dia.
    Não sabia nenhuma música e não estava afim de cantar. Muito menos ler.
    O grupo era pequeno. Tinha no máximo dez pessoas. Sendo a maioria jovens como eu, e os velhos eram bem velhos. 
    A pessoa que mais me chamava atenção era a pianista. Caroline, esse era seu nome. Se não me engano.
    Caroline 
    Caroline
    Sempre tocou piano. Ganhou prêmios por isso. Tocava com sua alma, sentia cada tecla bater em seu coração. Suas belas mãos pálidas tocavam gentilmente cada nota.
    Todos ali ajoelhados. Ouvindo e admirando, louvando e glorificando ao som daquela maravilhosa pianista.
    Lá estava ela. Com seu cabelo preto amarrado num coque bagunçado pela ventania que estava aquele dia. Provavelmente iria chover.
    Sua camisa azul de bolinhas vermelhas estava com as mangas dobradas até a altura do cotovelo, usa uma saia rodada preta, que ia até o joelho. Calça uma sapatilha bege, mas insistia dizer que aquilo era nude. 
    Ela vinha para a igreja caminhando, fazia isso todo domingo, eu sempre a via passar em frente de casa. Nunca atrasava- se.
    Sempre adiantada.
    Chegava na igreja antes de todos. Apenas para limpar o piano. Instrumento antigo. Amigo antigo. Lugar onde ela sempre tocara sua divina melodia.
    Todos a cumprimentam. Vão chegando aos poucos.
    Ela sorri. Sorriso atraente.
    Seus olhos escuros se encaixavam perfeitamente com seu belo rosto pálido e fino. Olhar sereno. 
    Caminha com serenidade, transborda calmaria e paz. Continua sorrindo.
    Passa a missa toda assim, com aquele semblante de boa moça. Garota adorável. Sorriso doce.
    A missa é curta.
    Após tocar oito hinos, tudo acaba.
    O padre termina a missa como todas as outras.
    Palavra da salvação. Todos respondem e levantam-se como se não vissem a hora de ir embora.
    Caroline faz reverência ao seu público, concluía com um sinal da cruz e um aceno para alguém da multidão 
    Fecha o piano. Com extremo cuidado, cuida como se fosse um filho. Após isso se reúne ao resto do grupo de canto. Beijos na bochecha e abraços. Sorrisos e risadas.
    Todos a cumprimentam.
    - Foi uma ótima missa, não achou Otávio? – ela diz. Sua voz era macia, como a de um anjo, suave e calma, como o piano que acabara de tocar.
    - Não sei, na verdade, parecem todas iguais para mim – respondo.
    Ela sorri. 
    Aquele sorriso inesquecível. 
    Fiz amizade com ela havia algumas semanas. Ela notou meu interesse em tocar algum instrumento. Me ofereceu algumas aulas, recusei algumas vezes, sem motivo algum. E sem motivo algum aceitei naquele dia.
    Sua volta para casa era, como a ida à igreja. Todos a cumprimentam. Sorrisos. Acenos. Ela sorri. E acena. Uma, duas, três vezes. E repete. 
    Sorriso lindo.
    Sua casa é verde, com enormes portões cinzas. Ainda morava com seus pais. Mesmo tendo seus vinte e poucos anos, continuava indecisa sobre o que faria da vida. Sem sonhos. Sem futuro planejado. Sem namorado. Acreditava não ter sorte para arrumar um. Não imagina a beleza que tem.
    Venta muito. Segura sua saia para que não levante. Dizia para eu não olhar caso isso acontecesse.
    Caminhamos rápido para que não fossemos pegos de surpresa pela chuva que não veio.
    Uma casa bem grande. Daria duas da minha facilmente. Tinha sala de jantar. Sala de estar. Sala de recreação. Sala de lazer. Suíte. Cozinha. E outros tipos de salas. 
    Ela pede para que eu espere na sala. Sento numa poltrona de couro. Desconfortável no início. Mas com o tempo ficou aconchegante. Não há televisão naquela sala. E nem nas outras. 
    Apenas retratos. E mais retratos. Alguns quadros também. 
    Em um dos retratos vejo sua mãe. É bonita como ela. Ouvi histórias que diziam que a mãe dela havia fugido com um vizinho, e deixara Caroline com o pai, que por sinal não estava em nenhuma foto ali. E também, não estava na casa.
    Ela demora.
    Decido então fazer passeio pela casa. 
    São dois andares. 
    No de baixo, temos as salas a cozinha que é bem espaçosa, não tem mesa, pois a mesma fica na sala de jantar ao lado. Na cozinha, tem apenas os armários que cobrem todas as paredes do lado direito, tem também a geladeira e o fogão.
    Uma escada em espiral fica no meio da sala de recreação. Subo-a.
    A escada dá de encontro com um corredor. Extenso corredor. 
    A primeira porta é branca, giro a maçaneta e a abro. Dentro encontro uma cama de casal com vários travesseiros. Doze no mínimo. Um enorme guarda roupa, vai do chão ao teto, engolindo a parede. Um cheiro forte de colônia toma conta do ar. Deve ser o quarto do pai dela.
    A segunda porta, é marrom, lisa. Abro-a. É apenas o quarto de tralhas, coisas que não usam mais. Haviam diversos instrumentos quebrado.
    Nesse corredor havia mais cinco portas. Mas logo na terceira, era o quarto dela.
    Um enjoativo odor adocicado toma conta do meu nariz instantaneamente. A porta está meio aberta. Ouço o som do rádio.
    Entro.
    Ela estava lá. 
    Caroline
    Caroline
    Usando apenas a camisa e uma calcinha azul com rendas. Suas pernas brancas chamavam minha atenção, ela as balança conforme o ritmo da música. 
    O ranger da porta a pega de surpresa, dá um pulo de leve e se vira, colocando a mão sobre o peito. Posso ver o volume de seus mamilos sob a camisa. Ela solta a escova de cabelo.
    O quarto é delicado como ela. Haviam inúmeros instrumentos por ali. Violões. Guitarras. Flautas. Trompete. E muitos outros.
    No canto, por ironia, está um teclado todo empoeirado. Abandonado.
    Ela sorri.
    No centro do quarto está sua cama. Grande. Muito grande.
    Ela sorri.
    Passeio pelo quarto, encaro o espelho do guarda roupa, estou arrumado, bonito.
    Sorrio.
    Um raio de sol que entra de penetra desviando da cortina lilás, paira sobre o teclado empoeirado. Um punhado de poeira dança na faixa de luz solar. Passo meu dedo, bem devagar sobre as teclas, daria para ouvir um som decrescente, se o teclado estivesse ligado. Ou com bateria. 
    Não entendo de teclado.
    Olho para Caroline. Parece não se importar. Aquele devia ter sido seu primeiro instrumento. Abandonou-o. Pergunto o porquê disso. 
    O motivo de tê-lo deixado de lado.
    - Cansei dele. – Ela diz, Sorriso.
    Cansou dele. 
    Todo o tempo que haviam passado juntos não contava mais.
    Sorrio para ela.
    Pressiono uma tecla. Não faz som. 
    Está sem bateria ou desligado. Não entendo de teclado.
    Abaixo na altura dele. Assopro. Uma nuvem de poeira se espalha pelo quarto.
    Ela desabotoa um botão.
    Coloca as duas mãos sobre o instrumento.
    Você não se importa mais com ele, pergunto esperando que ela me dê uma resposta positiva.
    - Sim, mas ele está velho, não serve mais para mim. – Ela diz. Mordiscando o lábio inferior e sorri.
    Não era a resposta que eu queria ouvir. 
    Desabotoa outro botão. 
    A porta range com o vento leve que entra pela janela. A cortina balança. Com um pouco de esforço levanto o teclado de sua base.
    - O que está fazendo. – Ela pergunta. 
    Sorrio.
    Sua camisa está quase toda aberta. Com o passo que ela dá, posso ver seu seio balançar. Vem em minha direção. 
    Sorrio. Ela não. 
    Levanto aqueles aproximadamente dez quilos acima do ombro, e então a golpeio no rosto.
    O golpe não é forte o suficiente para desmaia-la.
    Ela apenas cai e põe a mão sobre a boca. 
    Posso ver seu seio. Sangue pinga no chão de piso branco. 
    Meus braços pesam. Já estão cansados. Caminho por alguns centímetros arrastando o teclado. 
    Ela chora. 
    O sangue escorre de sua boca e pinga sobre seu mamilo marrom. Escorre por ele e pinga em sua barriga, e logo é absorvido pelo tecido da camisa de bolinhas.
    Não sei por que fiz. Apenas senti vontade.
    E então a saciei.
    Com muito esforço, ergo o teclado novamente. E a golpeio de novo. Um golpe contra sua cabeça.
    Ao tentar se proteger ela acaba quebrando o pulso. Som que posso ouvir com clareza. 
    Ela chora. Urra de dor.
    Ergo o teclado novamente.
    Então solto contra ela. 
    Ergo o teclado. Mais um golpe.
    Peças se soltam.
    Sangue espirra.
    Ergo o teclado. Mais um golpe.
    Ela não se move.
    Meus braços doem. Estou ofegante e soado.
    Suas pernas brancas estão sujas com seu sangue. Ela agora tem um motivo para não tocar o teclado. Seu pulso está roxo e inchado.
    Silêncio.
    Paro em frente ao espelho. Arrumo minha gravata. Bonito.
    Por sorte as gostas de sangue não são aparentes em meu terno.
    Olho para ela. Não está mais tão bonita. 
    Tristeza.
    Seu rosto, com o nariz quebrado e faltando alguns dentes, está coberto de sangue. Seu cabelo está molhado por uma poça enorme de seu sangue. 
    Deve ter encontrado a paz.
    Desço a escada. A cafeteira apita. Sirvo um pouco de café. Caminho pela sala. Observo novamente as fotos e quadros. 
    Seu pai não está ali. Sua mãe continua sorrindo. 
    Muito linda. Se Caroline tivesse ido embora com ela. Nada disso teria acontecido
  • A Pianista (parte I- Um anjo musical)

    Caro leitor, a história que lhe contarei agora é repleta de...
     
    O som das notas tocadas e as teclas de um piano pressionadas com  suavidade, como  um anjo a voar, emanaram em meu ser. Era ela tocando, não apenas o primeiro movimento dramático da 5ª sinfonia de Beethoven, mas o meu coração. Enquanto ouvia suas suaves mãos cor de neve passeando no campo harmônico de Dó menor, podia sentir meu coração ardendo em chamas. O que faria? Entraria na sala em que ela estava concentrada a tocar e lhe falaria tudo quanto sinto? Que a amo? Que sonho com ela? Não podia. 
     
    Todas as manhãs de terça e sexta, na Royal College of Music, nas aulas de Teoria Musical consigo enxergá-la nas cadeiras da frente, com seus cabelos ruivos, lisos. Seus olhos azuis, como que compondo as tonalidades de uma aurora da manhã. Sua pele alva como a neve. Queria tocar-lhe os lábios, sentir sua pele e percorrer os labirintos de sua indomável mente. Três semanas se passaram desde que a vi pela primeira vez, era como ver um anjo. Naquele momento acreditei na existência de anjos. Sua beleza era estonteante, incomparável. Quando comecei a frequentar as mesmas aulas que ela percebi que não era apenas uma beleza incomum que tinha, mas um intelecto digno dos grandes nomes da renascença. Fazia jus ao seu sobrenome. Olhares eram trocados entre nós, mesmo que rápidos. Não tive coragem de trocar uma só palavra desde que a vi pela primeira vez, até o sorteio de equipes para o primeiro projeto que faríamos. Foram sorteadas equipes com três alunos e anunciadas pelo professor Paul Salvatore. No anúncio da segunda equipe, senti um frio no estômago, um frio de alegria.

    -Para a segunda equipe teremos Bianca Delius, Charlie Corelli - disse o professor Salvatore olhando pra mim - e Elena Botticelli.
     

    Ao ouvir o nome de Elena Botticelli, pigarreei involuntariamente. Lá estava ela, bem perto de mim, Elena Botticelli, a pianista que me levou a saber harmonicamente o que é o amor. Só então percebi a chance que tinha de falar-lhe algo, devia falar algo. Todos os alunos se juntaram com suas equipes. Quando cheguei perto de Elena, decidi falar. Decidi criar coragem. Falei...










  • A PORTA TRANCADA

    Enola podia perceber a agitação entre as amigas, os cochichos, os risos contidos, mas os olhares eram na direção do casarão.
    - Então meninas, por que estão tão animadas?
    - Oh Enola, que bom vê-la esta manhã - Sorri Ingrid. - Não sabe ainda que o casarão foi vendido?
    - Sim, todo mundo sabe. Algum ricaço misterioso o comprou a mais de um mês.
    - Pois estão, o ricaço misterioso chegou esta manhã, ainda estão trazendo seus pertences em carroções.
    - E o que tem de mais?
    - O que tem de mais minha querida é que o ricaço é jovem e... bonito, muito bonito.
    - Logo a dona ricaça deve chegar também.
    - Acho que não Enola, papai disse que ele é viúvo e que veio de Ohio. Um jovem e rico viúvo e... sem filhos.
    - Então quem sabe alguma de vocês desencalha.
    - Isso seria um sonho, nunca vi a mansão por dentro e há anos não aparecia um comprador. Papai disse que ele nem pechinchou. Apenas pagou e disse que logo se mudaria. A propósito, seu nome é Liam.
    - Isso vai render uma ótima comissão a seu pai, eu espero.
    - É verdade, talvez ele me compre o vestido para o baile da senhora Hilton.
    As demais moças ainda fitavam a mansão na esperança de rever o distinto cavaleiro. Enola retornou para seus afazeres, levando as compras para casa.
    Duas semanas passaram-se sem que Enola conhecesse o cobiçado jovem mas, os comentários na cidade eram sempre sobre ele. Como seus olhos claros pareciam com o céu ou, sobre como seus cabelos castanho-claros eram como o de um anjo ou ainda sobre como sua face bela e alva era como a de um príncipe saído dos contos de fadas.
    Na noite do baile em que toda a elite da cidade estava reunida sob o mesmo luxuoso teto, Enola servia os convidados de sua senhora. Ingrid e as amigas mais abastadas da cidade pareciam procurar por alguém entre os demais convidados, recusavam-se a dançar com os costumeiros rapazes. Elas estavam cansadas de serem cortejadas por filhos de barbeiros, padeiros ou pequenos comerciantes. No entanto, quando o jovem de olhos azul anil adentrou o salão da senhora Hilton, seus olhos pousaram primeiramente em Enola, que servia chá ao doutor Swenson, o velho médico quase cego que pigarreava sem parar.
    - Boa noite senhorita.
    - Boa noite meu senhor. Chá?
    - Somente se me chamar de Liam.
    Os olhos de Enola se erguem para vislumbrar o príncipe encantado descrito pela moças repetidamente.
    - Está bem meu se... quer dizer, Liam.
    Enola o serve e os olhos das demais damas solteiras e até das casadas estão sobre eles.
    - Então o senhor é o novo proprietário da antiga mansão dos Costello?
    - Sim, sim. Me mudei a cerca de duas semanas. E... a senhorita mora aqui?
    - Não, quem me dera. Moro com minha mãe a alguns quarteirões ao norte daqui.
    - E o que sua mãe faz?
    - Ela também era serviçal da senhora Hilton mas ela adoeceu e sente muitas dores nas juntas então eu tomei seu lugar.
    - E o seu pai?
    - Bem, papai faleceu quando eu ainda era pequena.
    - Lamento.
    - Mais chá?
    - Não, não, obrigado.
    - Desculpe o atrevimento mas, alguém já lhe disse que você tem um rosto angelical?
    Enola apenas ri, meio sem jeito.
    - Gostaria de conhecer a mansão? É um lugar muito grande e eu mesmo ainda não a conheço direito, talvez pudesse me ajudar, ainda tenho muitas coisas para desembrulhar.
    - Seria uma honra meu se... quer dizer, Liam.
    - Então lhe espero amanhã para o almoço e depois você me ajuda com minhas bugigangas. Eu pagarei um bom preço.
    - Está certo, estarei lá para ajudá-lo, mas o almoço é desnecessário Liam.
    - Deixe disso, eu faço questão. Afinal, onde estão os modos dos cavaleiros de hoje? Você é minha convidada.
    - Sendo assim, está bem.
    Enola serviu os demais convidados mas, seus pensamentos estavam em Liam. Que rapaz adorável!
    As invejosas viraram a cara para Enola pelo resto da noite, pois Liam não falou com ninguém mais a não ser Enola e a anfitriã da festa. Outras sorriram para Enola, como Ingrid, Berta e Lilian que embora fossem de famílias tradicionais da região tinham em Enola uma amiga e confidente.
    Enola visitou Liam no dia seguinte, uma refeição finamente preparada os aguardava e o cheiro era apetitoso. A casa tinha apenas uma governanta com sotaque alemão e cara de general, dois cachorros que ficavam correndo pelo quintal mas, jamais adentravam as portas do casarão. Enola e Liam desembrulharam alguns objetos de decoração aparentemente antigos, conversaram e riram bastante. No fim do dia, Liam pagou generosamente a encantada jovem mais que o dobro do que um dia de serviço árduo valeria.
    - Enola, queria agradecer sua companhia, você é uma jovem fascinante.
    - Obrigada. Você é um cavaleiro Liam. Se precisar de alguém para limpar os cômodos, de vez em quando, pode me chamar.
    - Na verdade o que preciso não é de apenas mais uma serviçal, embora precise de algumas, é verdade. Henriet não dará conta de tudo sozinha. Mas... estava pensando em algo como uma companheira.
    Enola não sabia o que responder mas era nítida sua emoção com o comentário.
    - Então, será que eu teria a permissão de sua mãe para cortejá-la e... claro se for de sua vontade também.
    - Claro Liam, mamãe não poria empecilhos para um homem tão distinto e educado.
    - Está certo! Você não sabe como me deixou feliz, Enola.
    Três meses se passam até que o casamento de Liam e Enola leve toda a cidade a igreja matriz. Até o prefeito estava presente, dos mais nobres aos mais simples, todos participaram do banquete ofertado em comemoração. Enola e Liam estavam felizes e apaixonados.
    Durante semanas a festa de casamento era assunto na cidade. Enola não precisava mais trabalhar, ainda assim assumia as tarefas de manter o casarão arrumado e limpo. A governanta Henriet às vezes parecia ser a dona da casa, usando de seu tom autoritário e Enola a empregada . A moça não se importava, fôra submissa a vida toda e além do mais, ela não conseguia ficar parada.
    - Henriet, percebi que esta porta sempre está trancada, o que há aqui?
    - Nada. O patrão trancou-a com ordens de que não seja aberta. Apenas ele tem a chave. Achei que ele já lhe tivesse dito.
    - Não, ele não disse nada.
    - Deve ter se esquecido. Ele é um homem muito ocupado. O que você queria neste cômodo?
    - Nada. Apenas estava tirando o pó dos móveis e esta sala está trancada. Apenas isso.
    Henriet apenas olha Enola, com seu tom de superioridade e retira-se sem dizer mais nada. Enola permanece cabisbaixa no meio da sala e decide que vai visitar sua mãe. Precisa tomar um ar. Enquanto está se arrumando para sair, Liam chega em casa:
    - Onde pensa que vai?
    - Vou visitar minha mãe. Estou com saudades. Quer vir comigo?
    - Não posso, estou muito atarefado e... você não deve andar por aí sozinha.
    - Não seja bobo querido, conheço todos na cidade, eu ficarei b...
    - Eu disse que você não deve andar sozinha. Em outras palavras, você fica!
    - Mas eu precis...
    - Quem decide o que você precisa ou não fazer, sou eu!
    - Henriet! Henriet!
    - Sim?
    - Enola está proibida de sair de casa sem minha expressa permissão. Está claro?
    - Sim senhor.
    Alguns dias se passam e Liam quase não para em casa. Enola se vê solitária e começa a questionar sua decisão de ter-se casado com seu príncipe encantado. Henriet vigiava todas as ações da moça.
    - Estas chaves não abrem essa porta, já lhe disse que apenas o patrão tem a chave.
    - Se não há nada de errado com esta sala, qual o problema de eu vê-la?
    - A curiosidade matou o gato, já diz o ditado. Fique longe desta porta!
    A noite quando Liam chegou em casa, Enola questionou-o sobre a misteriosa sala:
    - Meu bem, por que uma das salas está sempre trancada?
    - Apenas alguns pertences meus, coisas pessoais.
    - Mas, são pessoais até para mim?
    - Sim. Para qualquer um.
    - Eu não entendo o que pode haver de tão...
    Um tapa rápido e certeiro queima o rosto de Enola que é atirada contra a cama pela violência do golpe.
    - Eu já disse. Não gosto de ter que repetir as coisas nem de ser contrariado.
    O cheiro da bebida misturado ao perfume barato pode ser percebido, assim como as manchas de batom na camisa branca.
    As lágrimas correm pelo rosto de Enola enquanto ela continua pasma com o que acabou de acontecer. Liam deixa o quarto e não retorna pelo resto da noite. Enola fica sozinha com seus lamentos.
    No dia seguinte Liam retorna mais cedo com um buquê de flores coloridas.
    - Ontem... bem ontem, gostaria que esquecesse isso. Não vai se repetir.
    - Desculpas aceitas, se é isso que você está tentando dizer. - Enola responde cheirando suas flores de perfume adocicado.
    - Sendo assim, poderíamos nos recolher mais cedo esta noite. O que acha?
    - Gostaria muito de poder visitar minha mãe, ela já não estava nada bem no dia do nosso casamento, depois disso nunca mais a vi.
    - Ah, é verdade, esqueci de lhe contar. Sua mãe faleceu há dois dias. O enterro foi ontem. Que cabeça a minha!
    - O que?
    - Pois é, como são as coisas, não é?
    As lágrimas descem pelo rosto de Enola mais uma vez com o sabor amargo da perda de sua amada mãe aliada a raiva pela displicência ultrajante do marido.
    Liam agarra-a pelos cabelos e arrasta-a para o quarto. Henriet ouve de longe os pedidos de socorro e choro de Enola enquanto seu patrão consegue o que quer a força.
    Ainda bem cedo, de madrugada, Enola levanta-se da cama, o marido tem os olhos fechados, sorrateiramente ela intenta fugir da mansão que tornou-se sua prisão. Assim que deixa o quarto ela corre até a grande porta que está trancada. Ela procura e encontra o molho de chaves em cima da mesa de centro da sala-de-estar. Enquanto procura a chave certa que lhe dará a liberdade, um ranger de dobradiças lentamente permeia o ambiente. A porta que sempre estivera trancada é a única aberta em toda a casa. Enola hesita por apenas um instante, então ela segue até a porta semi-aberta, adentra a sala, fecha novamente a porta e acende a luz. O que ela vê a deixa aterrorizada. Sobre uma mesa colonial, esmeradamente trabalhada estão seis recipientes de um vidro muito grosso e pesado, várias cabeças de mulheres, mergulhadas em um líquido transparente.
    - Mas o que é isso? - Ela diz para si mesma horrorizada e amedrontada.
    - São minhas ex-mulheres! Se é o que quer saber! - Liam fecha a porta atrás de si. - Era um bom motivo para não querer você bisbilhotando aqui não acha?
    - O que e... por que?
    - Na verdade, não sei dizer, apenas faço o que gosto e eu... gosto disso. A propósito, o próximo vidro é seu, já coloquei até seu nome nele. Vai ficar muito bonita na minha coleção.
    - Você é um monstro! Seis esposas que você matou!
    - Não, não. Não me julgue mal, apenas quatro são minhas, Samantha, Verônica, Julliet, Cloe e agora você, Enola. Sinta-se honrada! As outras duas são do meu pai.
    Henriet abre a porta e entra.
    - Henriet, Henriet, por favor me ajude! Sei que você não gosta de mim, mas não pode me deixar morrer assim.
    - Na verdade meu nome é Klauss. - Henriet retira a peruca loira para revelar uma cabeça calva. - E essas duas são minhas. Está é Leonnore, minha ex-esposa e esta é a verdadeira Henriet, minha governanta e amante. Quando Leonnore descobriu nosso caso, acabei logo com as duas. Eu não sabia mas Liam, quer dizer, Aldric, assistiu a tudo. Não o culpo por ter tomado gosto pela coisa, afinal ele tinha apenas sete anos.
    - Está bem papai, apresentações feitas, vamos para o que interessa. Minha querida Enola, foi bom... na verdade não foi não, enjoei muito rápido de você.
    Liam, ou melhor Aldric, abre uma caixa de madeira e retira um enorme machado.

    É uma manhã fria e cinzenta. Em frente a mansão uma comitiva de carroças carrega a mudança do ilustre jovem que parte da cidade com sua esposa e a governanta, seus dois cães e várias caixas que são colocadas cuidadosamente na charrete junto com Liam e Henriet. Ingrid vai até a charrete para se despedir de Enola.
    - Bom dia senhor Liam, vocês estão de partida?
    - Sim minha jovem, negócios no Iowa, precisamos nos mudar, seu pai pode arranjar um novo comprador, estou colocando a venda.
    - Certamente papai pode cuidar disso. Posso me despedir da minha amiga?
    - Sinto muito, mas ela não quer falar com ninguém. Ainda está muito abalada com a perda da mãe.
    - Estranho ela não ter ido nem mesmo ao velório da mãe.
    - Ela não tem se sentido bem nestes últimos dias, queira nos desculpar, estamos de partida.
    - Claro, queira me perdoar.
    A comitiva começa a andar, Ingrid dá apenas um adeus, esperando que a amiga esteja vendo-a.
    - Adeus Enola.

    Um jovem distinto adentra a farmácia.
    - Bom dia.
    - Bom dia senhor.
    - Charles. Meu nome é Charles.
    - O que o senhor precisa senhor Charles.
    - Senhor não, por favor, apenas Charles.
    - Tudo bem Charles, do que você precisa?
    - Na verdade, preciso de formol e... preciso conversar, acabei de me mudar para cá vindo do Wisconsin. É sempre tão quente aqui na California?
    - Boa parte do ano é sim.
    A moça estende a mão.
    - Muito prazer, meu nome é Abigail.
    - Abigail, o prazer é todo meu.
    - Você mudou para cá com sua família?
    - Não, apenas eu e meu assessor particular, o senhor George.
    - E um cavaleiro tão distinto quanto o senhor não tem uma esposa?
    - Infelizmente fiquei viúvo ainda muito cedo. A tuberculose é cruel.
    - Oh, sinto muito.
    - Eu estava pensando Abigail, se depois que terminar tudo por aqui hoje, se você não gostaria de fazer um passeio comigo, me mostrar a região?
    - Está bem, eu saio às cinco.
    - Te pego aqui às cinco então.
    O galante senhor Charles vai deixando a loja, mas antes de sair:
    - Me desculpe o atrevimento mas, alguém já lhe disse que você tem um rosto angelical?


  • A posse é o túmulo do desejo

    É incontestável o excitante sabor do desejo, do desafio de se conquistar alguém. Mas por que digo isso? Por que eu a vi, de novo, na rua e mais uma vez não pude deixar de observa-la atentamente. Tórridos olhares, fulminantes e que me deixam extasiado. Ela deve ter o que falta em mim. Falta algo em mim que não sei exatamente o quê. A falta é o motor do desejo, dizem os entendidos, impelindo-nos a continuar vivendo. Enquanto houver esta falta continuamos buscando algo mais, como faço neste momento, ávido por conhecê-la, tomá-la em meus braços. Quem sabe está nela o que me falta? Esta falta me congela, me absorve. Corro o risco de sofrer, é verdade, mas acho que o que traz dor não é o amor - é a falta dele. Você agora deve estar pensando, "isso é carência afetiva". Talvez. Acho que é mais que isso. Deve ser uma neurose obsessiva, querer projetar-me a ti, digo; a ela. Simples paixão, carnal, dirá você também, que está lendo estas linhas. Não. É algo mais. Já dura algumas semanas. Acho que é amor, misturado com curiosidade, mistério, atração pelo desconhecido, neste caso - desconhecida.
    Não creio em processos químicos cerebrais, deve ser algo mais profundo, superior... Partindo desta premissa às vezes chego a uma conclusão precipitada; de que ela tem o que me falta, embora eu não saiba exatamente o que é. Mas se ela é alguém tão imprevisível por que a desejo? Saio na rua a sua procura e quando não a vejo volto pra casa amargurado. Às vezes penso que ela é tão selvagem! Assim vou colecionando fantasias na minha mente, de como ela é ou deve ser, o que pensa, seus desejos, suas aspirações, suas razões. Gostaria de conhecê-la melhor antes de me apaixonar, mas... Por mais terrível que possa parecer já estou apaixonado. Terrível porque eu deveria me apaixonar por suas características reais e não fantasiosas, delírios que vagueiam na minha cabeça. Algo nela atiça a minha fantasia, deliberadamente. Que sofrimento! Talvez eu tenha uma grande decepção quando tomar coragem de abordá-la e essa paixão (que muitos chamariam de tola) e todas as minhas fantasias caírem por terra. No outro dia quando acordar sentirei um vazio; a paixão acabou. Por que ela mudou? Ou melhor, o que mudou em mim?
    Busco nela uma chama que na realidade é apenas um reflexo daquilo que ela projeta em mim. Encontrar-me nela, é realmente o que eu quero? Mas qual é o seu nome? Sinceramente eu não sei. Seja Maria, Ana ou Teresa, o que importa isso? Esta mulher, até então desconhecida, é uma necessidade imaginária. Andei refletindo que se eu não a tenho não corro o risco de perdê-la. Olha que coisa maluca! Mas que não deixa de ser um raciocínio lógico.
    Afinal, a posse é mesmo o túmulo do desejo? Na análise freudiana o desejo sempre acaba quando tomamos posse daquilo que desejamos. Isso faz todo o sentido, sobretudo quando ardentemente, eu acrescentaria. Com sofreguidão, como é o meu caso. Na verdade, é isso mesmo. O desejo pode até durar para sempre, o que desaparece é aquele propósito, a paixão por aquilo que se busca alcançar. E esse sentimento é que aflige, decepciona, nos derruba. Entendemos assim o que é esse mistério, o mistério do desejo, que nos transforma em pessoas indiscutivelmente predestinadas a correr sempre atrás de algo novo, um novo desejo, uma nova razão para pulsar, viver.
    Como diria Oscar Wilde "a melhor maneira de se livrar de uma tentação é ceder à ela." É isso aí! Pegar logo essa guria! Sapecar-lhe alguns beijos molhados. Agarrá-la com firmeza e depois de um mês de volúpia certamente verei que o paraíso não era bem o paraíso.
    Concluindo este raciocínio, a posse, sendo o túmulo do desejo, este ao morrer, elimina o prazer. Mas enfim, eu não estou sozinho nesta. As pessoas canalizam seus esforços para o prazer, de forma hedonista, buscando assim, de maneira confusa, e irrefletidamente, o alvo do prazer, o insensato desejo, a sedução, o delírio, a conquista, enfim... Vícios, na verdade. Ansiamos avidamente por algo até que o consigamos. Agimos assim com as coisas, agimos assim com as pessoas, infelizmente.
    Estou quase tomando uma decisão, acho que a mais sensata. Tê-la apenas na minha imaginação, e a imaginação, convenhamos, é algo insofismável. Sim, não se deve por em dúvida, o imaginário é mágico, milagroso, não há explicação racional. Assim, preservarei o objeto da minha adoração. Representá-la em minha mente da maneira que me aprouver. Cultuá-la no meu silêncio mudo. Vê-la e senti-la em gostosas imagens, excitantes visões, beijos ardentes, excitantes carícias, sussurros, juras de amor, numa multiplicidade de sentidos, sexual também - especialmente - se é isto que você pensou. Tê-la todinha só pra mim, que beleza! Ainda que seja só no plano mental, mas e daí? Recorrendo à Sartre, segundo sua concepção; "o imaginário é uma resposta à angustia existencial negativa da passagem do tempo." Agora atentem para esta citação de Víctor Hugo: "A imaginação é a inteligência em ereção, enquanto que a razão é a inteligência em exercício.” Já sabem qual é a minha opção? Claro que fico com a imaginação. Além do que, temo que toda essa magia perca o encanto ao conhecê-la. Assim evitaria muitas coisas desagradáveis, quais sejam; amargura, decepções, e vai por aí afora...
    Quanto a esta minha exposição os conservadores talvez dirão: “Não há nada que se compare ao objeto real, o que existe somente na imaginação nunca prevalece, é imponderável”, enquanto os ultramodernos por sua vez: “Nada se compara ao objeto imaginário, tudo aquilo que pertence ao mundo da imaginação é o que conta”. Então, com qual dessas proposições você fica? Quanto a mim, decerto que fico com os ultramodernos.
    Mas você já parou pra pensar que muitas vezes certas pessoas são interessantes apenas na nossa imaginação, e que a partir do momento que elas passam a ter vida própria tornam-se aos nossos olhos insignificantes?
    Na minha imaginação ela é perfeita! E ponto final.
    *******
    Edir Araujo, poeta (marginal, pois não segue nenhum padrão pré-estabelecido) e escritor independente, sem vínculo com qualquer editora. Autor dos romances psicológicos "A Passagem dos Cometas" (2ª edição revisada), "Boneca de Pano", "Risos e Lágrimas" e "Fulana". Escrevendo mais 2 livros (na gaveta, "amadurecendo"). Eclético, tem grande diversidade de poemas, crônicas, microcontos, artigos, resenhas, dispersos em jornais, blogs e sites pela internet ad eathernum.
  • A primeira ação quando a quarentena acabar será...

    As vezes o pensamento flutua em retrospectiva, olho para trás e questiono minha caminhada até aqui. Estou beirando os quarenta, alguns sonhos, poucas oportunidades mas firme, desistir jamais! A vida era normal regada de esperança por dias melhores.

    Inimaginável colapso, mundo às avessas, sofrimento e agonia. Uma pandemia fortuita trazendo destruição. Sendo emergentes o óbvio, governança pífia, brecha para espoliação de verbas e desrespeito, pois há sempre incrédulos não querendo entender a real complexidade. Em meio a reveses como sonhar? Tendo esposa, filha, a missão seria garantir renda e orar por luz no fim do túnel. A trajetória não se mostrava fácil, isolamento, reaprender a conviver, trabalhar enfim inúmeros detalhes.

    Sou do Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, estado praticamente falido, décadas de corrupção, violência urbana expandindo e as chances menores. O tempo passava, não me iludi achando ser imediata a resolução. Diferente de outros estimando um, talvez dois meses para voltar ao normal. Imaginava no encerrar da quarentena o que faria ? Qual a prioridade ? Para muitos curtir aquela noitada, boteco, temos os viajantes, cinéfilos, etc. No entanto a meu ver projetar o simples bastaria.

    O recorde negativo país a fora seguia avassalador. Mais uma vez os cariocas eram destaque. Parte da população ignorava a doença sendo alheia as medidas protetivas e indignava aqueles buscando agir corretamente. Acreditei estar fazendo papel de bobo cumprindo a reclusão, mas buscava ter equilíbrio emocional para disseminar bons fluídos. Pensava nos entes queridos, estar longe simbolizava cuidado, respeito e acima de tudo amor.

    Todos os dias quando colocava minha filha para dormir sem hipocrisia rezava agradecido. Uma menina saudável, linda e forte. Por ter dois anos, ainda não estudar e conviver socialmente facilitou alguns pontos. Lembram da retrospectiva ? Valeu a pena estar aqui nesse exato momento! Deus vem sendo generoso proporcionando estar empregado para garantir o conforto da família. Não posso reclamar e me fazer de infeliz, seria injusto. Os sonhos vão retornando gradativamente e na hora certa se tiverem que acontecer estarei pronto. Até lá, sigo trabalhando firme. Ah! Faltou dizer, após a quarentena desejo levar minha filhota em um lugar para correr bastante! A garota adora! Ser pai trouxe outro sonho vê-la crescer.

    Estou ciente das adversidades, turbulências e desafios pós pandemia. Mas estamos vivos e ainda há tempo. Muito obrigado SENHOR por essa vida! E benção para todos vocês.

    LUTE E NÃO DESISTA!
  • A Promessa

    Altas horas da madrugada. Jogo a mochila nas costas, faço o sinal da cruz, peço a Nossa Senhora a proteção, ajoelho-me diante dela e agradeço. Preciso pagar algo. Na mochila carrego algumas peças de roupa: uma blusa para caso faça frio, uma calça, um par de chinelos novos, meias e algumas cuecas. Claro sem esquecer-me de toalha e sabonete, estou indo viajar.
    Não vou de carro, avião, e muito menos de ônibus. Serei guiado pelas minhas pernas e pelo amor que tenho por Jesus Cristo, o nosso santo salvador. Tranco a porta de casa com a chave, enfio ela no bolso da calça e dou inicio a minha caminhada.
    O céu de cor escura e estrelada é acompanhado por uma lua cheia gigantesca, tão grande que até dá para tocá-la com a ponta dos dedos, mas eu não quero. Ao meu redor poucas casas, árvores, e silêncio. Estou nessa jornada sozinho, só eu e Deus; em minha humilde opinião, melhor companheiro não há.
    O dia amanhece. O sol aparece e eu resolvo sentar-me. Sem alternativas escolho o chão, forrado de capim seco. De dentro da mochila eu tiro pão e água, como lenta e vagarosamente, saboreando cada pedaço, cada gole, cada momento. Vejo carros passando apressados do meu lado, mas não enxergo o tempo passar.
    Prossigo minha jornada que será longa, mas que terá uma justa recompensa em sua chegada. No trajeto muitos param e ofertam-me carona, eu agradeço, mas recuso, pois promessa feita deve ser cumprida.
    Quase um dia inteiro de caminhada e o cansaço começa a tomar conta. Suor escorre do meu corpo e lágrimas descem dos meus olhos, eu venci. A igreja está lá, imponente diante de mim.
    Coloco-me de joelhos sobre o asfalto fervente. Cruzo os dedos numa prece e dou glórias aos céus e agradeço Jesus e a Nossa Senhora por ter me dado saúde para atingir o objetivo dessa jornada. Agradeço a Deus por ter salvado minha mulher e meu filho.
    Foram meses de sofrimento. Minha esposa teve diversas complicações durante a gestação. Meu filho nasceu prematuro, com apenas seis meses de gravidez. Ela quase faleceu, meu pequeno também, mas prometi a Deus e a Nossa Senhora se os salvasse eu iria a pé para a igreja e esse seria o meu agradecimento.
    Pacientemente esperei. Com amor e devoção rezei e pedi com todas as minhas forças um milagre. Foram dias difíceis. Dias em que eu pensei em desistir, principalmente quando os médicos diziam-me que já não havia mais esperança. Noites em claro em que eu trocava meu sono só para ficar ao lado dos grandes amores da minha vida, minha mulher e meu filho.
    Não desisti, insisti e venci. Estava sentado na sala de espera do hospital, o rosto cansado e o olhar triste; o coração batendo num esforço incomum, ele pedia para parar. Foi quando uma enfermeira veio em minha direção e com lágrimas nos olhos me falou:
    - Venha, o doutor deseja lhe ver.
    Sem entender nada eu fui. O lugar onde eles estavam era há poucos metros dali, mas para mim parecia ser uma distância incalculável. O médico de cabelos brancos e jaleco da mesma cor me aguardava de costas para mim. Ao virar-se para olhar-me vi um brilho em seus olhos, em seguida um sorriso grande, largo e bonito. Foi então que ele me disse:
    - Um milagre aconteceu! Sua esposa e seu menino despertaram. Não terão nenhum tipo de sequela, e amanhã mesmo você poderá leva-los para a casa.
    Desabei. Ajoelhei-me no chão cercado pelo médico e mais três enfermeiras. De longe vi meu filho ainda na incubadora, de olhinhos abertos e com cara de sono. Também vi minha amada esposa, de cabelos cacheados e aspecto cansado; se não tinha sido fácil para mim imagina como foi para ela ter suportado tamanha penitência.
    E então estou aqui. Diante da imagem de Nossa Senhora, de joelhos. Pagando aquilo que prometi. Nesse instante minha esposa troca meu filho, ele já tem quatro anos e hoje é seu primeiro dia de aula. Obrigado Senhor. Obrigado Deus. Obrigado Nossa Senhora. Minha vida e a minha família agora é toda sua.
  • A proposta

    - Você me ama?
    - Sim, eu ti amo muito. Mais do que tudo nessa vida.
    - Ama não. Você só tá me enganando, só quer me usar e depois me jogar fora. Como já fez com tantas outras.
    - Eu ti amo. Como você pode pensar isso de mim? Logo eu que joguei tudo para o alto para vir atrás de ti. Juro que ti amo.
    - Então prova!
    - Como? O que eu faço?
    - Mata o meu marido e foge comigo.
    Rodrigo recebeu com uma grande surpresa a proposta de Isabela. – Matar?! Nunca havia passado por sua cabeça matar alguém, mas para atender ao pedido de sua amada ele era capaz de fazer loucuras.
    - Você sabe que enquanto ele viver não podemos assumir o nosso romance e sermos felizes. Tá vendo essas marcas pelo meu corpo? Ele me bate, me maltrata, me tortura. Se descobrir nosso romance matará nós dois.
    Rodrigo continuava com a cabeça baixa – pensativo. Ele sabia que Luiz – o esposo de Isabela – Batia nela. Aquilo o deixava furioso, não entendia o porquê que com toda a humilhação que ela passava ao lado do marido, ainda continuava casada com ele. No entanto, mesmo com todo o ódio que ele tinha pelo marido de Isabela, nunca passara por sua cabeça mata-lo.

    Rodrigo e Isabela eram primos – cresceram juntos e juntos descobriram o amor – ele foi o primeiro homem de sua vida e ela a sua mulher. Apaixonaram-se e até sonhavam casar. Mas tal sonho não era fácil de realizar, sobretudo devido à oposição de seus familiares e a mentalidade conservadora da cidadezinha do interior onde viviam. E de fato não se realizou – a vida levou-os por caminhos diferentes. Isabela deixou a cidadezinha interiorana e foi morar na capital. Conheceu Luiz – um policial militar com quem se casou. Porém ela nunca conseguira esquecer o grande amor de sua vida – seu primo Rodrigo. Ele sofreu muito no dia que soube do casamento de Isabela. Foi em um bar, tomou todas e mais algumas. Não acreditava na noticia que recebera de que seu grande amor iria se casar com outro.

    - Então não passavam de mentira as juras de amor que ela me fazia? Pensava consigo Rodrigo. A resposta era sempre sim. – Só me resta esquece-la. E assim ele tentou fazer.

    Tempos depois Rodrigo decidiu deixar a pequena cidade do interior onde morava para seguir até a capital e ali quem sabe construir uma nova vida. No fundo do seu coração também carregava a esperança de reencontrar sua amada e quem sabe construir uma nova historia juntos. Não demorou muito para que Isabela soubesse que Rodrigo estava morando na capital. O que ocorreu bem no período em que ela atravessava uma crise tremenda no seu casamento. O fato é que ela nunca fora feliz ao lado de Luiz. Casara-se com ele mais por necessidade do que por amor. Luiz era machista e extremamente violento. Mantinha a esposa tal como uma prisioneira, uma escrava. Assim ela não pensou duas vezes em se jogar nos braços de Rodrigo. Quando se viram não conseguiram esconder um do outro que ainda se amavam perdidamente. E mesmo sobre forte risco passaram a ter um caso secreto. A vida ao lado de Luiz tornava-se cada dia mais insuportável para Isabela. No entanto ela sabia que o esposo já mais aceitaria um pedido de divorcio. Ao contrario, se soubesse que ela estava o traindo, ele a mataria sem nenhuma duvida. Assim a única forma que ela acreditava ser possível para livrar-se do marido, seria matando-o. E ninguém melhor para executar o serviço do que seu amante.

    - Eu sei que não deveria pedir isso para ti. Ele é mais forte que você, mais preparado. Seria muito arriscado. Você não daria conta.

    - Você pensa isso mesmo? Acha que só por que ele é policial militar tenho medo dele? Acha mesmo que não tenho coragem de mata-lo? Nos conhecemos desde criança e mesmo assim parece que tu não me conhece.

    - Não é isso. Sei da tua coragem. Mas o fato é que é muito arriscado. É melhor esquecermos isso. Talvez seja mesmo minha sina suportar aquele monstro que me espanca todos os dias, que desconta em mim as frustrações do seu trabalho.

    - Quando disse a ti que te amo acima de tudo, não estava brincando e que sou capaz de fazer qualquer coisa para provar o meu amor também não era apenas força de expressão. E para provar que te amo ti livrarei daquele monstro. Vou mata-lo.
    - Você jura? Você é capaz de fazer isso por mim, por nós, pela nossa felicidade?
    - Sim meu amor.
    Isabela abraçou Rodrigo e beijou-o loucamente. Despiram-se e transaram alucinadamente ao som do Motor Head, tal como já mais transaram até então. Aquela transa selava um pacto entre os dois – o pacto pela morte do Luiz.

    Isabela tinha tudo planejado há muito tempo: - Amanhã o Luiz vai dar plantão à noite. Quando ele for para o trabalho eu ti ligo e tu vai lá para minha casa. Dormimos juntos, ai vou arranjar uma arma para ti – o Luiz tem um revolver que ele deixa escondido em casa, sei o lugar pego e passo pra ti. Quando ele retornar do trabalho, quando abrir a porta de casa você estará lá esperando por ele, dai você descarrega a arma nele.

    - Amanhã? Já? Questionou Rodrigo.

    - Sim, amanhã. Não podemos perder tempo. Vai ser tranquilo. Ele já mais vai imaginar que você estará lá em casa esperando por ele de tocaia.
    - Ok, então. Vai ser amanhã.
    - Olha lá, não vai dar pra trás. Agora tenho que ir, pois se ele chegar em casa e eu não estiver, vai ser mais uma sessão de tortura.
    Beijaram-se e se despediram, agora era só esperar o momento que tudo aconteceria e fazer acontecer. Isabela voltando para casa imaginava consigo: – agora só basta àquele covarde desistir, mas ele não é louco de fazer isso comigo. Rodrigo por sua vez estava receoso no que poderia acontecer. Não o assassinato em si, pois era só apertar o gatilho, o problema era o que aconteceria depois – a morte de um policial militar e toda a perseguição que sofreria – tanto ele como sua amada. E assim não foi pouca ás vezes que ele imaginou desistir, em não cometer aquele crime, mas pensava no quanto seria decepcionante para sua amada se ele desistisse. Uma decepção que poderia significar o fim do romance deles.

    Chega então o dia tão aguardado. Luiz sai para o trabalho e duas horas depois Isabela liga para Rodrigo: - Meu amor, ele já foi para o trabalho, pode vir. Já estou com a arma em minhas mãos. Vem logo que estou louca pra ti ver. E não se preocupe que tudo vai dá certo. Tudo vai ficar bem e seremos muito felizes.

    - Ah aquela voz. A voz doce de Isabela no telefone, sussurrando no ouvido de Rodrigo o deixava maluco. Ele se esquecia de tudo, só pensava em esta com ela, em abraça-la, beijar todo o seu corpo e transarem alucinadamente tal como da ultima vez que se encontraram. Ao chegar a casa dela, ele não se arrependeu tiveram uma noite de amor incrível com muito sexo, drogas e rock in rol. A noite foi tão maravilhosa que passou rapidamente, tão rapidamente que eles nem perceberam que já começava raiar o sol de um novo dia.
    - Rodrigo, Rodrigo, tá na hora ele esta chegando, o Luiz tá chegando. Esconda-se que eu vou abrir a porta pra ele, quando ele entrar atire.
    - Amor, cheguei, abra a porta. Falou Luiz
    - Já vai. Gritou Isabela. Em seguida virou para Rodrigo dando lhe um beijo e dizendo – é agora meu bem.
    - O que você estava fazendo que demorou tanto para abrir essa porta? Gritou Luiz com Isabela.
    Mas antes que ela respondesse e que ele se quer colocasse os dois pés para dentro da casa ouve-se então os disparos – Pum, pum, pum. Sem nenhuma reação Luiz cai morto no chão. Rodrigo está tremulo com o revolver na mão olhando para o corpo do Luiz já sem vida, não acreditando no que acabara de fazer. Isabela por sua vez tinha um estranho sorriso nos lábios, um sorriso macabro. Ela vai até o marido que está morto no chão, senti o seu pulso e diz: - Ele esta morto. Rodrigo continua paralisado com a arma na mão, parecendo esta em estado de choque. Isabela por sua vez pega a arma que Luiz trazia na cintura vira para Rodrigo e lhe dá três tiros – pum, pum, pum. Em seguida ela liga para policia e conta tudo que havia acontecido.
    - Meu primo Rodrigo invadiu a minha casa para roubar. Meu querido marido tentou reagir, eles trocaram tiro e se mataram.
  • A REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NO LIVRO UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA

    INTRODUÇÃO
                 O enfoque deste trabalho firma-se nas abordagens voltadas para as tradições moçambicanas, como o universo feminino é representado na obra  “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra” do escritor Mia Couto.
                 Problematiza a estrutura social e cultural de Moçambique e como as tradições machistas patriarcal inviabilizam as mulheres, expondo-as como objetos, silenciando-as e tirando sua dignidade.
                 Na perspectiva de mostrar a posição ocupada pela mulher moçambicana e as consequências sofridas por elas nessa  sociedade. As personagens femininas da obra de Mia couto representam situações que se refletem não só em Moçambique, mas em todo o mundo, ser mulher é um privilégio e um inferno.
                 As personagens femininas analisadas são Miserinha, Dulcineusa, Admirança, Nyembeti e Mariavilhosa, mulheres que representam um coletivo.
                                     A REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NO LIVRO UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA
                 O livro “O rio chamado tempo, uma casa chamada terra” do escritor Mia Couto, apresenta algumas questões referentes ao papel social das mulheres na estrutura cultural de Moçambique. As personagens femininas são representadas de forma subalterna, inferior e vulgar. Frequentemente são expostas sexualmente pelo o uso de seu corpo  e tratadas como objetos, sendo silenciadas pelo sistema patriarcal  que as oprime. Apesar do seu papel na estrutura familiar, de cuidar dos filhos e prover alimento para a família, essas mulheres não são reconhecidas por isso.
                 Mia Couto constrói personagens femininas questionáveis, muitas vezes parecem gostar de viver naquela situação de opressão, mas no decorrer da narrativa essas mulheres, mesmo silenciadas, conseguem denunciar o que sofreram e o motivo pelo qual são condicionadas a aceitar uma tradição que por diversas vezes as corrompe tirando-lhes a dignidade.
                 A obra ficcional de Mia Couto narra a volta de Marianinho à ilha Luar-do-Chão para o enterro de seu avô Dito Mariano. Mariano reencontra as mulheres de sua família e faz descobertas sobre sua própria origem através da convivência que ali se desenrola. É interessante como essas figuras femininas suscitam reflexão a respeito da tradição cultural familiar e provocam mudanças nos conceitos de Mariano diante desta estrutura. Ocorre um choque entre o moderno e o tradicional.
    ESSAS MULHERES
                 As mulheres têm um grande impacto na mudança de pensamento do protagonista, como é o caso de sua falecida mãe Mariavilhosa, silenciada  a sua vida toda; sua avó Dulcineusa que dependia dele para não perder tudo como Miserinha, outra personagem que sofreu e foi silenciada pela tradição; sua tia Admirança, retratada na narrativa como uma mulher vulgar, sempre expondo  seu  corpo deliberadamente, e por último a Nyembeti que representa a própria terra. Essa última personagem, mesmo sem fala, tem em seu corpo à denúncia tanto da exposição do corpo feminino quanto a da prostituição.
                                                                                                      MISERINHA, MULHER ESQUECIDA
                 A estrutura social de Moçambique, apresentada no livro de Mia Couto, tem a hierarquia patriarcal como base nessa sociedade, a mulher não tem nenhum poder nessa estrutura, quase sempre é inviabilizada ou esquecida. Mesmo com todos os avanços dessa sociedade, a mulher ainda é submetida aos seus parentes masculinos, esse é o caso de Miserinha.
                 Ela perdeu seus bens e até sua casa quando ficou viúva, pois não tinha ninguém que a pudesse proteger, nenhum filho. Ficou abandonada e virou pedinte. Essa mulher retrata a situação de tantas outras mulheres moçambicanas que acabam sendo esquecidas e apagadas da história familiar. Mesmo quando conseguem um amante, como no caso de Miserinha que se relaciona com o avô Dito Mariano, ainda são subjulgadas, agredidas fisicamente, o que no seu caso dessa personagem causou sua cegueira.
    (...) Não consegui  me conter: lhe bati na nuca com um pau de pilão. Ela tombou, de pronto, como um peso rasgado. Quando despertou, me olhou como se não me visse. O golpe lhe tinha roubado a visão. ( COUTO, 2002, p. 234)
                 Essas palavras são do Dito Mariano, o homem que defendia a tradição e via nas mulheres objetos a serem utilizados e depois largados, e o pior disso tudo é que Miserinha não o confronta, mas mostra respeito e submissão. Nessa atitude ela comprova que a mulher, em determinadas sociedades, aceitam situações miseráveis por causa do medo de serem esquecidas. Nesse contexto, a obra de Mia Couto apresenta a situação das mulheres esquecidas, porém, faz uma ruptura quando dá voz e corpo às figuras femininas.
    DULCINEUSA, MULHER PARA DECORAÇÃO
                 Dulcineusa, avó de Marianinho e viúva de Dito Mariano, é uma das personagens mais intrigantes. Sua situação familiar, assim como a de Miserinha, é ameaçada com a morte do marido.
    “ (...) Eles olham para mim e veem uma mulher. Sou uma viúva, você não sabe o que é isso...” (COUTO, 2002, p. 33)
                 O medo que ela tem do abandono e sua submissão é evidente na narrativa. Ela é a mulher da decoração, aquela que aceita todas as pilantragens do marido por medo de perder todos seus bens e sua segurança. Percebe-se que ela é cristã e não admite infidelidade, mas, para preservar sua família, ela aceita as traições do marido.
                 Existe em Dulcineusa uma consciência de subalternidade comum nas sociedades africanas, principalmente no que se refere ao papel social da mulher. A existência do eu passivo estão presentes nas suas ações e comportamentos.
                 A sua segurança depende do seu neto Marianinho, por isso ela entrega-lhe as chaves da casa como garantia de não perder tudo. Além disso, ela por ser viúva ainda é suspeita de feitiçaria, sendo acusada da morte do marido. É explícito o medo que ela sente em diversas situações. Essa estrutura familiar patriarcal anula a mulher, lhe impõe o isolamento, e lhe tira o lugar da fala, causando-lhe medo e insegurança.
                 Dulcineusa é a mulher que suporta tudo, a mãe que trabalha para o sustento da família e para criar os filhos e não tem reconhecimento de ninguém; serve apenas para decoração. Ela se sacrificou na fábrica  a ponto de suas mãos ficarem deformadas e seu filho Fulano lembra ao ver o caju.
    “(...) E a ele a castanha de caju lhe fazia lembrar a mãe, Dulcineusa. E lhe dava um aperto recordar como as mãos dela foram perdendo formato, dissolvidas pela grande fábrica, sacrificadas para seus filhos se tornarem homens.” (COUTO, 2002, p. 76)
                 É a única vez que aparece esse reconhecimento por parte de um de seus parentes, afinal por viverem nessa estrutura familiar para eles é normal essa situação.
    ADMIRANÇA, CORPO DE MULHER
                  Admirança é caracterizada apenas como um corpo de mulher à disposição, não existe sensualidade em suas ações e sim vulgaridade. Essa mulher tem um caráter duvidoso e o mínimo de princípios. Em alguns trechos é desvalorizada e sua sensualidade é a forma utilizada para expor a mulher sexualmente.  Seu corpo é o espaço de fantasia e desejo, como algo a ser invadido.
    De acordo com o estudioso Alberto Oliveira Pinto, “a mulher africana foi sempre encarada pelos colonos portugueses tão somente enquanto um instrumento de dominação, sobre os espaços e sobre os homens colonizados.” (PINTO, 2007, P. 48)
                 A obra “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra” expressa o machismo da estrutura de Moçambique, que foi influenciada ainda mais pelo sistema colonial em todos os países africanos colonizados.
                 A personagem Admirança mesmo tendo consciência que seu sobrinho é na verdade seu filho continua a se insinuar para ele. Uma forma de sedução sem escrúpulo, assim como foi seu envolvimento com Dito Mariano, marido de sua irmã Dulcineusa.
                 É recorrente como ela se aproxima de Marianinho, sempre o tocando ou jogando seu corpo para atiçá-lo e ele sente um forte desejo por ela, sem imaginar que ela é na verdade sua mãe.
    “As pernas, bem desenhadas, estão a descoberto entre as dobras da capulana. Ela parece saber que espreito. Enteabre as pernas como se procurasse melhor conforto. O mesmo gesto que degola a galinha afasta o último pano, desocultando mais o corpo. O seu olhar me pede cumplicidade...” (COUTO, 2002, p.58)
                 O que causa estranheza é que mesmo após descobrir que é filho de Admirança, ele ainda continua  a desejá-la e não sente culpa por isso. A forma de ver sua tia reflete o conceito dos homens ligados à tradição que vivem na estrutura de Moçambique pós-independência. Esse sistema patriarcal reforça os estereótipos nas relações de gênero, sempre ligando as mulheres a maternidade, dependência ou sedução.
    NYEMBETI, MULHER DE PREÇO
                 Nyembeti é a mulher que vende seu corpo por um preço para resguardar seu valor, para se proteger de homens que abusam de seu poder, para tomar o que lhes convém. Essa personagem não necessita de palavras para reivindicar e denunciar as consequências sofridas por abusos. Sem ter família e apenas um irmão, essa moça bela é percebida e tocada, é vista como objeto sem valor e nunca é ouvida.
                 Mia Couto faz uso do mítico para construir sua história, a menina que nasce e toma veneno de cobra para sobreviver. A partir de seu nascimento e de sua condição familiar frágil, Nyembeti se transforma em mais uma vítima da sociedade machista patriarcal de Moçambique. 
                 A primeira vez que ela aparece na narrativa está sem rosto e no escuro de um quarto, onde encontra com Marianinho para lhe entregar uma caixa endereçada a seu tio. E mais uma vez a mulher é representada apenas pelo seu corpo, pois nesse encontro ela tem relação sexual com ele sem o menor pudor.
                 Marianinho reencontra com Nyembeti quando vai ao cemitério com seu tio, ela ao vê-lo cobre o rosto com sua capulana, “como se uma vergonha a obrigasse a esconder a identidade”. Essa atitude mostra que ela tem consciência de sua condição e se envergonha.
                 Uma moça tímida e bela que não fala português, as únicas palavras que pronuncia são para pedir dinheiro e em sua língua nativa. É interessante quando ela encontra Marianinho e seu tio e pede dinheiro aos dois, uma mulher de preço não que seja pedinte, mas porque os dois usufruíram de seu corpo. Uma forma de resistência, não pertence a ninguém, mas quem a usar precisa pagar.
                 Outra forma de resistência de Nyembeti é quando ela devolve o dinheiro ao tio de Marianinho, uma forma de expressar que não irá mais se prostituir para ele. E nessa atitude ela acende a ira de Ultímio, tio de Mariano.
    “Somos interrompidos pela inesperada chegada de Nyembeti. A irmã do coveiro, submissa, fica enrolada em silêncio e respeito. Só depois entrega um molho de notas a Ultímio” (...) “O tioUltímio está tão surpreso quanto irritado. Os ombros lhe sobem, o tom da voz se militariza.” (COUTO, 2002, p.180-181)
                 O coveiro irmão de Nyembeti discute com Ultímio, mas Marianinho não entende o motivo. Ele percebe que o coveiro teme a seu tio e questiona o motivo. Isso passa a incomodar suas atitudes e a de seu tio. A reflexão da situação vem em forma de um sonho, nele Nyembeti fala português e lhe explica: “ queria escapar aos vários Ultímios que lhe apareciam, com ares de citadinos. Se fazia assim, tonta e indígena, para os afastar de intentos.” (COUTO, 2002, p. 189)
                 A partir dessa reflexão ele entende que ela aceitava o dinheiro porque se prostituía. Ele a considera a sua terra, que ela é o Luar-do-Chão, sente anseio de ficar com a moça, mas para ficar com ela teria que viver na ilha e com suas tradições, e ele prefere o moderno e vai embora.
    MARIAVILHOSA, MULHER SILENCIADA
    “Minha mãe acabara sucumbindo como o velho navio de carga. Transportava demasiada tristeza para se manter flutuando.” (COUTO,2002, p. 231)
                 Mariavilhosa é a mulher silenciada e a que representou as dores mais intensas que uma mulher pode sentir. Com certeza essa personagem denuncia a falta de igualdade democrática entre homens e mulheres, uma estrutura comum na sociedade moçambicana.
                 Mia Couto conseguiu criar uma personagem que rompe com o silêncio mesmo estando silenciada. Ela não representa o estereótipo da mãe passiva, sem nenhuma personalidade, Mariavilhosa tem caráter  e não se conforma com sua situação. Sua forma de protesto é seu próprio suicídio, não um ato de covardia, mas um ato de liberdade.
                 Em primeiro momento Mariavilhosa já surge na narrativa como sendo apenas uma lembrança, ela era um assunto interdito na casa de Marianinho. Ele sabia de sua morte por afogamento, mas não sabia os motivos nem sua história.
                 Foi sua avó Dulcineusa que contou a trágica história de sua mãe, Mariavilhosa foi violada e engravidara do agressor, por isso vivia afastada das pessoas. Em seu desespero para abortar causa uma grave infecção, “espetara-a no útero, tão fundo quanto fora capaz”, isso impossibilitou Mariavilhosa de ter filhos. Sempre que engravidava logo em seguida abortava ou a criança nascia morta, “ o ventre dessa mulher adoecera para sempre”.
                 Por isso Marianinho por ser seu filho único sentia-se insuficiente, disseram-lhe que ele nasceu de uma de tantas tentativas que ela fizera para engravidar, mas na verdade ela fingiu estar grávida e o avô Dito Mariano entregou-lhe o filho que teve com sua cunhada Admirança. Sua felicidade não durou muito,  pois Admirança não suportava ver a criança crescer e pediu para que o avô o mandasse estudar longe.
                 Mariavilhosa é novamente silenciada, pois seu filho Marianinho vai viver na casa dos portugueses em outra cidade, e foi esse português que a violentou. Nada podia dizer, pois a família em grande estima, tanto que ele era o padrinho de seu próprio filho. E seu filho ao descobrir o nome do homem que violou sua mãe ainda duvida.
    “Lopes? Esse homem tão cristão, tão marido, tão metido com as mulheres da sua raça? Deveria ser engano”. (COUTO, 2002, p.106)
                 Apesar de não querer crer em toda a história, Marianinho se culpa por não ter reparado o sofrimento dessa mulher que é sua mãe. E é  nesse trecho que mostra o quanto é significativo não se calar diante das barbáries sofridas, pois foi só depois de ter conhecimento do que aconteceu com sua mãe foi que Mariano passou a refletir sobre essa situação. Não existe uma história única para todas as mulheres, histórias podem destruir a dignidade de algumas mulheres, mas também podem reparar a dignidade perdida.
    “E relembro minha mãe, Dona Mariavilhosa. Agora, eu sabia a sua história e isso era como que um punhal em minha consciência. Como pudera eu estar tão desatento ao seu sofrimento? (...) Passara a ser uma mulher condenada, portadora de má sorte e vigiada pelos outros para não espalhar sua sina pela vila (...) Devido a sua exclusão da cozinha eu não me recordava dela, rodopiando com as demais mulheres junto ao fogão (...) Mariavilhosa falava baixo, tão baixo que nem a si se escutava. (...) Minha mãe acabara sucumbindo como o velho navio de carga. Transportava demasiada tristeza para se manter flutuando.” (COUTO, 2002, p. 231)
                 Ela foi silenciada e excluída até pelas próprias mulheres, ninguém a via ou a ouvia. Essa personagem carrega todas as representações das mulheres nessa estrutura cultural de tradição moçambicana, uma sociedade patriarcal e machista.
    CONCLUSÃO
                 No livro “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”, Mia Couto construiu personagens femininas complexas, elas evidenciam as consequências causadas pelo sistema patriarcal em Moçambique.
                 Admirança e Nyembeti são caracterizadas pelo uso de seus corpos sexualmente. Dulcineusa e Miserinha são as mulheres viúvas espoliadas e agredidas fisicamente e psicologicamente. Mariavilhosa reflete o silêncio, a violação e a perda de dignidade dessas mulheres, mas apesar de toda essa opressão vivida por essas personagens, elas conseguem romper o silêncio e denunciar o machismo da estrutura patriarcal em Moçambique.
                 É necessário um movimento que defenda os direitos das mulheres resgatando sua dignidade, o corpo feminino não pode ser representado  como meio delas conseguirem espaço, precisa ter respeito pelo seu intelecto e dar lugar a sua voz.
                 A literatura também pode ser uma forma de denunciar e resgatar a dignidade dos oprimidos, a ficção utilizada na obra retrata a realidade, não se pode negar que no mundo todo, em todas as estruturas sociais, a mulher ainda é inferiorizada e inviabilizada. O livro “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”, denuncia de uma forma sutil o preconceito  de gênero e a opressão contra a mulher.
    REFERÊNCIAS
    COUTO, Mia. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. São Paulo: Cia. Das Letras, 2002.
    COSTA, Laysa Cavalcante. Guedes, Joana Camila Lima. As cicatrizes do amor: a representação da mulher na sociedade moçambicana em Paulina Chiziane. Cadernos Imbondeiro. João Pessoa, v.1, 2010.
    DUARTE, Eduardo de Assis. Mulheres marcadas: Literatura, gênero, etnicidade. Terra roxa e outras terras- Revista de Estudos Literários (UFMG), Minas Gerais, 2009.
    MACEDO, Tânia. Da voz  quase silenciada à consciência da subalternidade: A literatura de autoria feminina em países africanos de língua oficial portuguesa. Revista Mulemba, Rio de Janeiro: UFRJ. n. 2. 2010.
    NOA, Francisco. Império, Mito e Miopia: Moçambique como invenção literária. São Paulo: Editora kapulana, 2017.
    NOA, Francisco. Uns e outros na literatura Moçambicana: Ensaios. São Paulo: Editora Kapulana, 2017.
    PINTO, Alberto Oliveira. O colonialismo e a “coisificação” da mulher no cancioneiro de Luanda, na tradição oral angolana e na literatura colonial portuguesa. In. MATA, Inocência; SECCO. Carmen Lúcia. “Mãos femininas e gestos de poesia”. Lisboa: Editora Colibri, 2007.
  • A SOLIDÃO

    A solidão é uma cova profunda que você próprio escava,

    desde o balancinho de tábua que há muito o embalava

    naquele cenário quase caótico dos segredos da sua casa,

    quando todos os fantasmas sujos da sua infância gritavam.


    Foi ali mesmo que compreendeu, com os amigos de plasma,

    que as pessoas do mundo não conseguiam olhar na sua cara.

    Por isso o condenaram à cartografia cega do deserto isolado,

    onde jogaram uma trena para que você medisse o seu buraco.


    Mais tarde é nele em que o seu corpo será trancado sem alma

    alguma do lado, estendido sob as letras de um falso epitáfio

    e coberto da terra podre que se repete na idêntica empreitada

    — a de encerrar duzentos e seis ossos na madeira aglomerada


    de um caixote de feira sem alças, palma, poema ou batucada. 

    — E ninguém veio para beber um gole da sua última cachaça

  • À SOLIDÃO (soneto)

    Oh! jornada de inação. O silêncio em arruaça
    Arde as mãos, o coração, aperreado arrepia
    O olhar, trêmulo e ansioso, tão calado espia
    O tempo, no tempo, lento, que ali não passa

    No cerrado ressequido, emurchecido é o dia
    E vê fugir, a noite ribanceira abaixo, devassa
    E só, abafadiço, o isolamento estardalhaça
    No peito aflito de uma emoção áspera e fria

    Pobre! Se põe a sofrer, nesta tua má sorte
    No indizível horror de um sentimento vão
    Quando silenciosa e solitária é a morte...

    Bem à tua paz! Bem ao teu “às” sossego!
    Melhor na quietude, ao espírito elevação.
    Se na solidão, viva! E saia deste apego!...
  • A Sorte de Al-Golin

     “Contudo, e apesar de tudo, não escaparás das mãos do destino”.
    Mestre Akman.

    O xeque Al-Golin observava que seus negócios o enriqueciam cada vez mais. Dono de um palacete à beira de um lago paradisíaco, era de seu costume levantar-se pela manhã e contemplar o espelho das águas cristalinas, sorvendo a brisa fresca que delas procedia. Enquanto cumpria o ritual matutino, observava o gado que pastava ao redor, nas campinas verdejantes. Al-Golin sentia-se um homem feliz e plenamente realizado.
    Certo dia, acordou com uma peculiar ideia. Mirou o sol que vinha sorridente no horizonte, e disse ao seu filho, um jovem rapaz que se encontrava ao seu lado:
    – Vou hoje mesmo perguntar a Omadin, o velho neby[1], como será a minha sorte no porvir. Não sei até quando a paz e a felicidade serão minhas companheiras. Despertei esta manhã com uma intuição de que preciso me preocupar com o futuro, e com aquilo que nele me aguarda.
    E assim sucedeu. Estando diante de Omadin, Al-Golin mostrava-se bem disposto e alegre. Fez um gesto solene de cumprimento, e disse:
    – Digno profeta Omadin. Sou hoje um homem inteiramente feliz. Possuo boas terras, moro em um rico palacete à beira de um lago com águas claras, tenho camelos, cabras, muitas palmeiras; vivo ao lado de minha amada esposa e de meu filho único que está sempre ao meu lado. A cada dia os ventos vêm do deserto na minha direção trazendo-me bons negócios, enchendo-me cada vez mais o celeiro e o cofre. Tenho sido homem de boa sorte, mas venho ter contigo a fim de ouvir de tua boca, que sabe dizer sem oscilar, como serão os meus últimos dias.
    O mago, que estava assentado e ouvindo atentamente, fincou um olhar profundo nos olhos de Al-Golin, como se penetrasse nos recônditos de sua alma. E depois de fechar os olhos e abri-los de súbito novamente, ainda mantendo-os fixados em Al-Golin, asseverou com firmeza nas palavras e com um sorriso que ia até às orelhas.
    – Em verdade eu te digo que findarás os teus dias cercado da maior riqueza e da verdadeira felicidade, ó nobre Al-Golin.
    Ao ouvir a resposta, Al-Golin levou o dorso da mão à testa, e enxugou um marejo de suor que iniciava. A expressão na face do adivinho impressionara-o por um instante, parecendo-lhe um presságio de resposta ruim. Mas, por fim, depois do entusiasmado vaticínio do velho Omadin, voltou a deleitar-se na esperança da sorte futura, que se anunciava ainda mais ditosa do que a presente.
    No caminho de retorno para casa, Al-Golin deliberou em seu pensamento que daria uma festa em seu palacete. Estava maravilhado, e queria comemorar junto à família e alguns amigos. Porém, a cena com que se depararia ao chegar em casa lhe arrancaria de um só golpe toda a alegria. Terminando de passar pelo topo de uma pequena colina, avistou fumaça na direção de seu palacete. Andando um pouco mais, pôde ver claramente, e com grande estupefação, que a fumaça procedia das ruínas em que havia se transformado a sua rica morada. Um incêndio a havia destruído por completo. O choque da cena paralisou os olhos de Al-Golin, o pavor dominou-lhe a alma. Chegando ao local, que era antes um pedaço do paraíso, agora transformado e destroços, encontrou caído ao chão um de seus guardas que vigiavam as cercanias da casa. O pobre homem encontrava-se gravemente ferido, atingido por espada, e agonizava seus últimos suspiros.
    – Por Alá! O que se passou aqui? – perguntou Al-Golin, com franco desespero nas palavras.
    O homem ferido moveu os olhos na direção de Al-Golin. Seus lábios trêmulos e sujos de sangue esforçavam-se para pronunciar uma palavra. Só então Al-Golin percebeu que o guarda estava ferido mortalmente.
    – Um golpe de espada! Quem te feriu? Quem incendiou o palacete?
    Neste momento, aquele que agonizava ao chão sussurrou:
    – Os Godunos… os Godunos…
    Al-Golin deixou-se cair ao chão, esmagado pela tristeza. Os Godunos eram guerreiros que invadiam os reinos vizinhos roubando, destruindo e capturando pessoas, a fim de fazê-las escravas. Al-Golin sabia que naquele momento sua esposa e seu filho se achavam cativos dos Godunos.
    Al-Golin levantou-se cambaleante como se estivesse bêbado. Girou o corpo sobre os seus pés e, olhando ao redor, observou que tudo estava depredado pelos Godunos. Deu-se conta da completa penúria em que agora se encontrava. Não havia mais dinheiro, nem ouro, nem objetos valiosos, os animais também haviam sido levados, exceto um camelo muito velho e imprestável que se encontrava próximo do que restou da casa arruinada. O silêncio nesse momento era angustiante. Olhando ao lado, Al-Golin percebeu que o guarda ferido estava morto.
    Uns poucos dias se passaram. Al-Golin construiu no local do palacete um pobre casebre de madeira e lona. Na sua miserável habitação, cada dia lhe parecia eterno tormento. A pobreza extrema, a saudade da esposa e do filho, a sua imaginação que tenta reconstruir a triste cena de sua família sendo arrastada sob açoites pelos cruéis Godunos, e tendo que caminhar com pesadas bolas de ferro atadas às pernas, e tantos outros pensamentos funestos que lhe vinham perpetuar o sofrimento. Num instante de dor indizível, Al-Golin decidiu dar cabo da própria vida. Tomou de uma corda grossa, fez um laço, atou-o a uma trave de madeira no telhado de sua triste vivenda. E no preciso instante em que deixaria o corpo pender na direção da queda mortal, uma voz o chamou à porta.
    – Senhor Al-Golin!
    Al-Golin se deteve. Ergueu a cabeça para decifrar a voz que interrompera sua macabra empresa. Era um homem desconhecido, de não mais que quarenta anos de idade.
    – Disseram–me que estás aí! Desejo falar-te – insistiu a voz.
    Al-Golin desceu do cadafalso improvisado. Chegando à porta, observou que era um tipo bem trajado, de presença distinta, corpo ereto e semblante austero. O visitante cumprimentou Al-Golin com apenas um discreto gesto de cabeça, e disse-lhe:
    – Trago mensagem do xeque Aramiz.
    Ouvindo essas palavras, Al-Golin teve um estremecimento, que só não foi grande porque nada pode comover tanto um homem que há pouco tinha uma corda no pescoço.
    – Aramiz…? O que ele quer de mim? – perguntou Al-Golin com fraqueza e indiferença na voz.
    O xeque Aramiz era credor de Al-Golin, que lhe devia uma alta soma de dinheiro. Agora, tendo perdido tudo o que possuía, Al-Golin jamais poderia quitar a sua dívida.
    – O xeque Aramiz sabe da desgraça que se abateu sobre ti, ó nobre Al-Golin, e manda dizer que lamenta verdadeiramente. Porém, manda dizer também que, embora se compadeça, não poderá deixar de cobrar o que lhe é de direito, pois seria para ele uma grande perda e um terrível desando nas suas finanças. Como o nobre Al-Golin se encontra destituído de todo o teu dinheiro e de todo o teu ouro, não tendo, portanto, como pagar a dívida, meu senhor, o xeque Aramiz, manda comunicar-te que amanhã mesmo tomará posse destas tuas terras em torno deste lago, o que valerá pela quitação total da dívida.
    O mensageiro de Aramiz virou-se e partiu. Al-Golin não disse sequer uma palavra de protesto, isto porque um homem que não deseja mais nem mesmo a própria vida, não terá mais forças nem razões para contestar a perda de qualquer outra coisa. Al-Golin apenas fez uma rápida reflexão, considerando que agora poderia morrer, já que nada mais havia para perder, uma vez que a própria terra em que pisava já não mais lhe pertencia. Al-Golin achava-se novamente na cena do suicídio. Tomou a corda com o laço, passou-a no pescoço. Tinha o rosto macerado pela dor daquele momento crucial. Subiu no cadafalso e fechou os olhos. Mas antes de saltar, no instante de seu iminente mergulho no mundo escuro da morte, sua vida inteira se passou na tela da mente em imagens ligeiras e carregadas de emoções inauditas. Os últimos fatos de sua vida, porém, foram os que mais o deixaram perplexo. Uma das últimas cenas de sua mente, que se despedia do mundo, foi a do mago Omadin dizendo-lhe: "Findarás os teus dias cercado da maior riqueza e da verdadeira felicidade, ó nobre Al-Golin". Al-Golin abriu os olhos no momento em que seu corpo titubeava para cair. Tinha um olhar que atirava chispas de ira. Não poderia morrer sentindo aquele desejo de vingança que agora o dominava. Era precisamente isso que sentiu por Omadin. “Feiticeiro mentiroso! Prefiro mil vezes que alguém me mate a fazer-me de tolo”, pensou Al-Golin, determinando em seu pensamento que, antes de morrer, mataria aquele que o enganara. Tomou de um punhal, apanhou o cansado camelo que se encontrava ainda nas cercanias do casebre, e partiu na direção da morada do mago charlatão.
    Tendo caminhado longa distância sob o sol inclemente, sentiu-se muito fraco. Depois, percebeu-se febril, tonto, a visão lhe faltava e, por fim, caiu estirado nas areias quentes, perdendo totalmente os sentidos. O camelo continuou a marcha, até que desapareceu atrás de uma duna.
    Quando Al-Golin abriu os olhos, era noite. Estava muito debilitado, mal conseguia abrir os olhos. Achava-se deitado numa cama confortável, embora muito simples, no interior de um quarto iluminado por lamparinas de azeite. A primeira visão de seus olhos, ao despertar, foi o sorriso de sua esposa e de seu filho, que se encontravam assentados à beira da cama.
    A mulher contou-lhe com lágrimas nos olhos tudo que houvera se passado com ela e o filho: Os Godunos os levavam cativos pelo deserto, quando tiveram um confronto com uma tribo hostil no caminho e, nesse ínterim, ela e o filho conseguiram fugir. Agora estavam a salvo naquele lar que os acolhera com tanto desvelo.
    Enquanto ela falava, percebia que Al-Golin já quase não tinha vida, estava muito decadente. O filho lhe segurava uma das mãos com doçura e pesar, chorando baixinho. A esposa acariciava-lhe a testa.
    A gratidão que Al-Golin sentiu pelo generoso dono daquele lar que acolhera a sua família deu-lhe energia para pronunciar as palavras que seriam as últimas de sua vida:
    – Quem é esse homem santo que guardou em sua casa a minha maior riqueza e a minha verdadeira felicidade?
    Neste mesmo instante, sua esposa apontou na direção do santo homem que acabava de entrar no quarto. Era o profeta Omadin.
    Al-Golin fechou os olhos, e um leve sorriso de satisfação acompanhou o seu último suspiro. Morreu tal como predissera-lhe o velho Omadin, comovido de especial felicidade e cercado da sua maior riqueza: a esposa amada e o filho único, que agora choram deitados em seu peito.

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222