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literatura,

  • Angústia

    Um traço de mim repousa em alguns móveis.
    Na cama por exemplo. Nas portas, em especial na porta doente do meu quarto.
    Será que ainda existo?
    Pela casa transitam sombras, escuras brancas coloridas. De vez em quando me assustam.

    Sou tomada pelos estranhos sons que habitam o ar.
    Pássaros lá fora ruídos por dentro. Algo que dilacera não sei exatamente o que em meu corpo.
    Pendurado, ei-lo. Sem LSD.
    Nuvens de escamas e peixes e espinhos conversam entre si. Decido nascer.

    Meu filho onde estará?
    Em que lustre em que fronha ou lençol haverá de se encontrar?
    São 5 da manhã. Daqui a pouco o princípio do dia.

    Nada. Só a escuridão a me indagar.
    A espera. O silêncio. Seu rosto.
    Quisera mais uma vez o ventre completo,
    A dor da carne estirada,
    O leite pulsando no peito.
    Quisera.

    Sonho ou delírio?
    Meu filho, volta pra casa!
    A lua está cheia e o céu é vermelho.
    Álcool heroína crack cogumelo, sempre juntos pela cidade.
    Botas e fardas, homens sinistros mulheres assassinas.
    Volta pra casa, meu filho.
    A noite se foi e a manhã não sabemos.
  • Aniversário em 11 de setembro

    "Gabi, qual a data em que você nasceu? "
    Gabi faz uma carinha séria, quase dramática, a voz carregada de uma incompatível melancolia :
    "11 de Setembro!"
    "Nossa Hein Gabi?!!! Nem dá para esquecer seu aniversário então... 11 de Setembro... que data!"
    Gabi não sabe ainda sobre atentados, torres gêmeas, terroristas e aviões explodindo, mas Gabi compreende/entende em sua tenra sabedoria infantil que algo maior, algo marcante e sombrio toca áspero na memória dos adultos quando pronuncia a data do seu aniversário. Gabi no fundo de seu coraçãozinho inocente se diverte _os adultos são engraçados!
    Menina inteligente, ela entra na brincadeira das entrelinhas com aquela felicidade plena que só as crianças conseguem alcançar, e no seu imaginário doce de menina, só há espaço para festa, bolo, parabéns e presentes dentro de grandes embrulhos coloridos e enfeitados por laços de fita. Gabi mal sabe (mas assim como nós um dia o saberá, porque saberá também das torres e do 11 de setembro!) que o maior presente mesmo é ser criança....
  • Antecedente da cicatrização

    Como quando a orelha inflama porque o brinco estava um pouco sujo; ou quando colamos o curativo adesivo que fixa na pele de modo a puxar todos os pelos na hora de sair.
    Mesmo sabendo que no fim iria doer, provoquei. Botei o brinco pra inflamar, colei o curativo pra fazer doer. Queria viver aquilo, nem se fosse por míseros segundos, minutos, horas, dias. Nem sei mais quanto tempo passei imersa naquela banheira de espumas.
    Corria cada vez mais só pra vê-la. Queria era socorro, socorro da própria situação. Socorro de mim mesma. Mas por mais rápido que eu o fizesse, não a alcançava. Dormia sem conseguir descansar. Não sabia como evitar, como não sentir. Era, humanamente, impossível fechar o peito para aquela que, outrora, me visitava com flores e com pele macia a me acariciar.
    Deitada sobre seu peito sentia que a perdia. Procurava sua mão. Meus dedos se entrelaçavam nos dela, mas os dela no meu. Ficava ali parada até o momento em que escorria pelo meu corpo. Indo embora sem dizer adeus.
    Enquanto eu souber que a ferida não será fechada por completo, vou levando. Empurrando com o resto de forças que sobrara do restante da minha alma, que jorrava água escura, afim de fugir do precipício que eu mesma criara.
  • ANTIDIÁRIOS


    II

    Os dias passam como o tempo no corpo
    e aram os sulcos no solo estéril e amorfo
    da minha pele grande e de alma pequena,
    feito se a vida fosse um inexistente poema.

    Tudo mora na mentira entrelaçada dessa sina
    de bravatas e conquistas moídas na anfetamina
    do meu verso inútil e na força reversa dessa rima
    radioativa (a gênese da falsa Rosa de Hiroshima).

    Sou poeta comum de dois. Malandro de navalha
    sem gume e grudada na alfaia opaca da palavra.
    Sou nada, raso, um espírito fraco que não renuncia
    aos escombros do ouro de tolo escondido da poesia.

    Preciso espalhar mil estilhaços para me sentir inteiro…
    Tenho de afundar o barco. E me livrar de mim mesmo.
  • ANTIDIÁRIOS DE ABRIL I

    I


    Sinto os primeiros ventos desse abril e seu cinza

    que começa nos porões das horas escorregadias

    do vírus vindo da arrogância e da caverna vazia.

    Escrevo antidiários na órbita lusco-fusco da linha

    lá do morro de ardósia — escura, mar, lima e oliva.


    Na falsa paz dos brancos das paredes lanço imagens

    onde o cérebro fabrica a gênese elétrica da linguagem

    — não é linguagem ainda. O poema é uma travessia

    entre o que não se tem e o que o verso jamais poderia.

    Vejo a manhã aguda. A esquina muda. A cor da neblina


    escondida no pleito do dia: mascar o tempo e a agonia.

  • ANTIDIÁRIOS DE ABRIL II

    II


    Há no sobretudo da nuvem este grafite seisbê que fere

    a encosta de chumbos metálicos quase feito uma pedra

    e que mergulha camuflada no horizonte musgo do oeste,

    na ravina âmbar dos ontens. No calendário desta febre.

    Levito no corredor do minuano e enxugo a minha testa


    com o gelo seco volátil da rajada. A sacada é o que resta

    ao escriba e ao seu planeta de mil poemas e arquétipos

    que de nada servem: viram marolas quando o dia desce

    na frincha lilás da aurora e do violeta genciana que orna

    o meu verso reincidente naquela encruzilhada sinuosa.


    Sou só um poeta. E não trago nem um truque na cartola.

  • ANTIDIÁRIOS DE ABRIL III

    III


    Foi no olho da ventania violeta da madrugada

    que o meu corpo torto ficou enquanto a alma

    sobrevoava o entorno da esquina abandonada,

    entre o branco na penumbra da força da rajada

    e o arranjo de alfazemas selvagens que exalam


    uma lavanda estranha, feito se todas ornassem

    o instante mais preto e frio do antes da alvorada.

    Devagar e depressa a paleta rosa da aurora passa

    e a olaria da manhã rebenta, mas este azul invade

    a noite sem capa. O poema é um espelho quebrado


    e diz que o poeta é o chão onde ele está em pedaços.

  • ANTIDIÁRIOS DE ABRIL IV

    IV
    O dia rebentou azul, mas tem agora um colorido de cinza,
    este pano de chão sujo que no céu lado a lado predomina,
    no bafo da manhã vindo do alguidar derramado da esquina.
    Leio o Amor Natural do Carlos e algo em mim se modifica,
    feito se uma brisa revelasse a senha que estava escondida
    no labirinto dos vermes que não querem a sua alma infinita;
    lá dentro no meio das vísceras. Onde sequer o sangue visita.
    Na sacada da varanda registro os poucos carros da avenida
    nesta realidade do vírus que é invisível aos olhos da alegria.
    Canso os controles. Fito as janelas da casa. E abro a cortina
    — na clausura da cidade e na camuflagem begeada da poesia.
  • ANTIDIÁRIOS DE ABRIL IX

    IX

    Nasço amanhã

    Ando onde há espaço:

    — Meu tempo é quando.

    Vinicius de Moraes 


    A chuva de açúcar de confeiteiro desaba sobre a manhã fria

    e que parece desenhar um vidro entre o que eu vejo e a guia

    deslocada da calçada por onde quase ninguém mais transita.

    São três e cinquenta e quatro no círculo dessa Baixada vazia,

    na cerâmica vermelhão da sacada e na fragrância da avenida


    — esta mistura cítrica do fougère, do gerânio e da tangerina.

    Às sete e trinta e cinco tudo não passa de um verso eremita,

    no chumbo da nuvem que faz da encruzilhada a única saída

    — ainda mantenho a sidra, a farinha, o dendê e as bijuterias.

    O drive abre o vírus do poema que não me salva da assepsia.


    — Às seis e às dezoito não sei bem se é de noite ou se é de dia.

  • ANTIDIÁRIOS DE ABRIL V

    V


    Há tempos ando no meio da selva da poesia, esta caçada

    sem caça… Sinto as giletes afiadíssimas dos seus cascos

    que aram a grama azul do domingo repleto de pedaços,

    onde a vida se torna quase um longo instante demorado

    — o poema é o fantasma que ludibria o poeta vulnerável.


    Os confins de uma linha cinza ou ocre aleatória acasala

    com as vísceras das horas que têm no alto a carruagem

    assustada do futuro — este umbigo profundo do destino

    do presente na utopia do real time. E do on line faminto.

    Toco o livro físico. Não estou triste — tão somente aflito,


    por entre os ofidiários do verso mais morto do que vivo.

  • ANTIDIÁRIOS DE ABRIL VI

    VI

    Longe de ti são ermos os caminhos

    Florbela Espanca


    Das ardósias variadas do morro vêm as fumaças do fogo

    de alumínio. A tarde será nova após o meio-dia do sonho

    — onde o vírus não passará daquele raro soneto tristonho.

    Escrever um diário invertido (isto é o que está proposto),

    em versos e não em parágrafos longos. Contorcer no todo


    as horas do próprio transtorno. Exumar os pós do escombro

    e cerzir o tecido do poema natimorto que não esconde o lodo

    das redes do globo: os falsos otimistas, os mestres dos bolsos,

    os especialistas e o papa dos coaches que tirará você do poço.

    Hoje é o sexto dia. O meu sétimo sentido aposta no confronto


    entre o coisado que dá na espinha e a dor do próximo tombo.

  • ANTIDIÁRIOS DE ABRIL VII

    VII
    Desfolho o caderno dos versos e dos signos desimportantes
    que não têm caminho ainda. Escrevo entre as circunstâncias
    inertes da pandemia, sobre a cidade sem eco dos passantes.
    Resido no dia opaco que mais parece um tempo no instante
    da velocidade perturbadora desse futuro doentio e faminto
    dos segundos frenéticos — escapam das horas excruciantes,
    entretanto são vagarosos no centro do desespero indefinido,
    do vou lá na sala e do volto cá no quartinho. Teço o horizonte
    fechado do sobrado. E o meu antidiário é um espólio perdido
    nas guias do ontem e na lapela suja daquele poema proibido:
    feito no pergaminho da manhã e na soma da ânsia e do vírus.
  • ANTIDIÁRIOS DE ABRIL VIII

    VIII


    Às cinco reparo na aurora fluida no vidro da ampulheta

    da passarela iluminada da fresta de onde desfila ligeira,

    num pé de paleta, nessa manhãzinha nova e traiçoeira

    que apaga a ruína da madrugada e o seu bordô violeta

    na nuvem de telha das seis que às oito já está cinzenta.


    Percorro o muito pouco da rede de fogo no meu quarto.

    Ouço o gemido doído sob o som deste silêncio metálico

    e das luzes super-roxas dos celulares delgados das salas.

    O vírus ressignifica o meu verso dentro da noite azulada

    e tudo em mim se distrai feito um veneno que não mata.


    — Sou da urgência do poema. E das horas ultrapassadas.

  • ANTIDIÁRIOS DE ABRIL X

    X

    O trem que chega

    É o mesmo trem da partida

    Fernando Brant e Milton Nascimento


    O poema é uma comichão intensa que no poeta se pronuncia

    a partir da hemoelétrica cerebral e de toda a sua engenharia

    — a de iniciar os neurônios e projetar mil imagens coloridas,

    entre a amperagem dessa linguagem quase alienígena ainda.

    O manuscrito do verso é a sobra do que atravessa esta colina


    — e o que antes era conjectura agora é a ideia a ser cumprida.

    Vejo o abismo suspenso da aurora de um roxo que predomina

    no firmamento da rocha alta da nuvem, viajante da ventania.

    Ouço o silêncio do confim da linha. As horas são as inimigas

    que trafegam vagarosas na liberdade enclausurada dos dias.


    — O tempo patrocina o que começa. E também o que termina.

  • ANTIDIÁRIOS DE ABRIL XI

    XI

    Dentro de mim mora um anjo

    Cacaso e Sueli Costa


    Pressinto a lavanda espalhada nesta manhã cinza e confinada

    nos intestinos do vírus que surgiu da nossa própria desgraça.

    O poeta é uma barcaça solta no oceano permissivo da palavra

    que serve a qualquer empreitada. Meço este frio que dispara

    a saudade do sorriso farto da sua cara e do abraço estampado


    — entre as mãos que vazavam pelos ossos das suas escápulas.

    Sobre você o mundo prosperava e o tempo era só um detalhe

    no sal das horas em brasas; e o seu grito parecia com o canto 

    metálico das águas — feito se de ais a vida fosse ressuscitada.

    Acordei na angústia da febre ao redor do espaço que abranjo


    — estou na sanca da sala. Dentro de mim não mora um anjo.

  • ANTIDIÁRIOS DE ABRIL XII

    XII                                

    O que o mar sim aprende do canavial:

    a  elocução horizontal de seu verso;

    a geórgica de cordel, ininterrupta,

    narrada em voz e silêncio paralelos.

    João Cabral de Melo Neto


    Estou imerso entre o véu estanho e alizarina da madrugada.

    O vento arrasta os vultos da rua vazia e produz uma sonata

    isolada —  o vírus vai e vem e volta e surge na urbe apagada.

    Vejo as luzes brancas do prédio e a alegria forçada das lives

    — cada qual na sua casa e todos parados na fila do marasmo.


    Estendo este poema sobre o meu varal fino de arame farpado

    e pregadores de umbigo. Vou até a porta para ver quem anda

    no silêncio paralelo dos ouvidos gelados das horas atrasadas.

    Leio João Cabral: O Mar e o Canavial. Declamo em voz baixa

    a geórgica da cana. A aurora é um cetim roxo que desmancha


     o horizonte — traduzido na olaria da manhã que se derrama.

  • ANTIDIÁRIOS DE ABRIL XIII

    XIII

    A Moduan Matus, dono da Remington.

    No devagar depressa dos tempos

    Guimarães Rosa


    Trago aqui dentro de mim os céus da aurora e do ocaso

    e mais os poetas mortos — e os seus livros empoeirados.

    Venho lá da Remington de malinha e do coração ligado

    no caderno e na esferográfica; dos rascunhos passados

    a limpo mil vezes anotados num desenho sujo e borrado.


    Da aurora bebo de sua fresta violeta quando ela aparece

    ainda nas exéquias da madrugada. É devagar e depressa.

    Do ocaso, igualmente lento e rápido, aprendi que o verso

    vira noite, mas rebenta manhã no oriente — roxo e bege.

    E dos poetas, o delírio de suas febres e os poemas velhos


    — que apesar do fantasma do tempo, nunca envelhecem.

  • ANTIDIÁRIOS DE ABRIL XIV

    Não sei e nunca soube se sabia ou se sei mesmo

    se risco o poema feito uma coleção de desenhos

    escritos e pendurados no varal úmido desta prata

    grave no preto do alumínio reluzente da palavra.

    O poeta necessita — na engenharia de um verso —


    alojar um certo êxtase e emergir o que está imerso;

    deslocar uma placa tectônica da espinha do cérebro

    e tremer de algum jeito o que está morto por decreto.

    O vírus não é o inimigo: é o ser humano incompleto.

    Cinco e cinquenta e seis. O funeral da noite começa.


    E não é manhã que surge. É a aurora que a atravessa.

  • ANTIDIÁRIOS DE ABRIL XIX

    Estou imerso nesta maratona excruciante de toda a sua falta

    e de me ver perambular sob a sua imagem no alto do espaço

    daquela estrela dourada onde você mora. Não acho a palavra

    que traduza esta batalha ansiosa entre o inexistente e o nada

    — ou até um verso que voasse até aos cômodos da nossa casa.


    Ouço as têmporas roxas da manhã. Os dias estão cabisbaixos

    na redoma construída pelo vírus que aterrissou muito rápido

    nos arredores dos ares e no quintal do homem despreparado.

    A tarde espalha o cheiro do mato vindo lá do morro queimado

    e que ancora a vela de chumbo quatrobê dessa nuvem pálida.


    — E tudo segue parado no defumador das horas inanimadas.

  • ANTIDIÁRIOS DE ABRIL XV

    Procuro pela aurora no decibel nulo do meu verso

    super abafado — e a minha temperatura reverbera

    a paleta terracota de mais outro sol que se manifesta

    na obsessão doída e confinada de firmar no universo

    o poema diário que por dentro da pandemia navega.


    Vejo esta manhã toda violeta quase lilás nos flancos

    das nuvens cinzentas da ardósia mansa da ventania quando mexe e derrama o aroma salgado do pranto

    das horas trêmulas feito este pesadelo que se inicia

    no pêndulo da linha onde a poesia é a roxa calmaria


    — anunciando a tempestade seca que o vírus viraliza.

  • ANTIDIÁRIOS DE ABRIL XVI

    O vírus novo ensina que minhas fraquezas são fracas

    (moram nas mil esquinas libidinosas dos mil atalhos).

    Ele me fala entre os seus silêncios (no dialeto do nada),

    que não é mau e nem é bom: é tão somente necessário.

    E diz ainda que este argumento é cabal e quase prático,


    pois desconstrói a mó do tempo e a desfaz em pedaços.

    Mas agora as paredes são espelhos por onde você passa

    e o diamante que tanto procurava mora aqui no detalhe

    miúdo sob os pequenos frascos a fim de conter as garras

    habilidosas das horas. Ter o que é lento e o que é rápido.


    E não mais conversamos. Deve de estar muito ocupado.

  • ANTIDIÁRIOS DE ABRIL XVII

    Há bem ali no rumor da manhã nova um bálsamo 

    que reina nas notas cítricas que vêm e que passam

    entre as frestas ainda fechadas desta ex-madrugada 

    e do que dela se torna tão breve, urgente e imediato.

    Tudo se aloja na cor abóbora que tinge as pálpebras


    quase avermelhadas deste céu que morre e que nasce

    no mesmo intervalo do agora onde a aurora já é tarde.

    Ouço nos vãos cinzas da tempestade uma voz ansiosa

    e plena no meio do meio-dia que não divide mais nada,

    pois que as horas fugiram da senzala do que seja óbvio


    ao tempo lógico. O vírus quebrou o vidro do seu relógio

  • ANTIDIÁRIOS DE ABRIL XVIII

    Os minuanos conduzem uma chuvinha quase esparsa e fina

    que posta contra o poste aceso não sai na imagem da esquina

    desta madrugada alta, preta e fria e que rápida me aproxima

    da chibata da saudade trazida das suas pernas sobre a minha

    e da mordida longa que eu beijava no estreito da sua espinha.


    E muita vez eu sequer sabia do paradeiro das nossas línguas:

    para cá e para acolá; aqui e ali; dentro e fora; saliva a saliva.

    E quantas vezes morremos um no outro naquela metalurgia

    de duas estátuas fundidas? Teria isolamento que nos isolaria?

    A paleta da aurora era a melhor de todas as horas preferidas


    — onde a alma ficava em você. E o corpo levitava na avenida.

  • ANTIDIÁRIOS DE ABRIL XX

    E não foi o vírus novo que agora me despejou de mim mesmo,

    porque já estou há muito e muito tempo fora daqui de dentro,

    entre as formações invisíveis do poema e a do seu ornamento

    etéreo da imagem que nasce e morre no próprio pensamento

    neste lavoro de triscar o que não se faz presente no momento.


    Leio dois filmes. E outro. E mais um. Fumo. Levanto. E penso

    que não posso saber do funcionamento do que está semipreso

    no blue do beco de entroncamentos, medos e ressentimentos.

    Do quarto eu escrevo o que não pode me salvar deste desenho

    de tresbê que contorna a silhueta do meu verso em desespero.


    — Um cinza alumínio sobrevoa este rosa oliva do firmamento.

  • ANTIDIÁRIOS DE ABRIL XXI

    O óleo mineral do tempo dissolve toda a maquiagem

    — repito o que foi dito aqui no diário: é lento e rápido.

    E deste modo varre o pó, poro a poro, da sua imagem

    que somente você enxerga no retrovisor da realidade;

    ele o pulveriza sem dó naquele momento mais instável,


    quando o seu próprio espírito escapa e alcança o espaço 

    da saudade que ainda o embaralha na canastra e devassa

    a lógica da continuidade. Finalmente instaura esta pausa

    indigente. A hora morna. O hiato de um intervalo do nada.

    O vírus vaticina que os atalhos cobram preços muito altos


    — o poeta anda na corda bamba e sobrevive no sobressalto.

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