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literatura urbana

  • A VIOLÊNCIA E A DISPUTA COMO FORMA DE REAFIRMAR A MASCULINIDADE NA OBRA INCIDENTE EM ANTARES

    INTRODUÇÃO
                O enfoque deste trabalho firma-se nas abordagens de reafirmação da masculinidade através da violência e da disputa presentes na obra “Incidente em Antares” do escritor Érico Verissimo.
                Problematiza a estrutura social e ideológica do comportamento do homem em relação a sua masculinidade e seu olhar sobre o feminino. Na perspectiva de mostrar como cada ato de violência é construído, expondo assim o desejo sexual reprimido.
                Os personagens analisados serão das famílias rivais de Antares, Vacarianos e Campolargos.
                                 A VIOLÊNCIA E A DISPUTA COMO FORMA DE REAFIRMAR A MASCULINIDADE NA OBRA INCIDENTE EM ANTARES
                 O livro “Incidente em Antares” do escritor Érico Verissimo, apresenta algumas questões referentes à violência do homem como meio de reafirmar a sua masculinidade. Na sua primeira parte é exposta uma violência desmedida envolvendo os personagens masculinos, caracterizando uma disputa de poder, a qual está mais relacionada à identidade desse grupo.
                 A obra expõe o autoritarismo, formas de torturas, disputas de poder e dominação do homem sobre o outro, tanto no campo ideológico como no social. Isso fica evidente em sua primeira parte, onde é construído o histórico da cidade. Duas famílias, as quais têm como protagonistas homens, que buscam dominar a cidade, causando um derramamento de sangue em ambos os lados.
                 Os trechos analisados foram referentes a dois personagens que sofrem a violência sexual, uma tortura exposta a outros homens como meio de dominação e perca de sua masculinidade. Segue o primeiro episódio:
    “Xisto mandou reunir na praça os homens da cidade e ordenou que mulheres e crianças ficassem fechadas em suas casas. De mãos amarradas às costas, Terézio foi trazido à sua presença (...) Xisto mandou amarrar o prisioneiro pelas pernas e pendurá-lo no galho duma árvore , com a cabeça a poucos centímetros do solo. Depois acercou-se de sua vítima, empunhando um grande funil de lata, cujo longo bico lhe enfiou às cegas no ânus, profundamente. Com a cara contraída de dor e vergonha, Terézio cerrou os dentes mas não deixou escapar o gemido”. (VERRISIMO, p. 31)
                 Nesse episódio pode-se analisar que Xisto faz uso da exposição do corpo de Terézio para lhe dominar, ao penetrar o funil no ânus do seu oponente, lhe tira a masculinidade perante os homens que estão presentes, e reafirma a sua própria por meio da violência.
                 A dominação do corpo sobre o outro é compreendida como um ato de provar a masculinidade de quem pratica a violência, no caso entre homens, um se torna ativo e o outro passivo. Nesse episódio, ao ser penetrado e exposto, Terézio ocupa um lugar do feminino, que para ele é a causa de sua “vergonha”, pois isso o torna fraco. Sendo assim, ele sente mais vergonha do que a dor de ser violado.
    “Os planos de Xisto, porém, eram mais terríveis. Todos compreenderam o que ele ia fazer quando gritou: “Tragam o tempero da salada!”, e dois de seus homens, vindos do quintal do casarão dos Vacarianos, aproximaram-se conduzindo com todo o cuidado, para não se queimarem, uma grande chaleira de ferro cheia de azeite em ebulição. (...) Xisto murmurou: “Sabes o que vou te fazer, sacripanta? Te incendiar as tripas”. A uma ordem sua, os dois homens começaram a despejar lentamente no funil todo o conteúdo da chaleira. Terézio Campolargo soltou um urro e começou a estrebuchar.” (VERRISIMO, p. 31)
                  A violência desse ato de Xisto é humilhar seu rival, impondo-lhe a desonra da feminilidade, usando a perversão sexual como castração do outro, mesmo que Xisto não estuprou Terézio, ele assistiu e sentiu satisfação em ver a dor do outro, como se ele mesmo estivesse penetrando.
                 O desejo em observar um ato sexual violento, tanto pode ser compreendido como o desejo de ser o abusado ou o abusador, mas nesse caso em específico, a dor causada em Terézio pelo líquido quente foi  o modo que Xisto encontrou para repugnar, e não aceitar o desejo que sentia. Dessa forma ele domina tanto o oponente quanto seu próprio desejo.
                 Essa violência causada pela família dos Vacarianos desperta a ira dos Campolargos, não só a morte de um dos seus, mas a forma que foi praticada manchou a masculinidade deles.
                 A coragem e a vingança são  atribuídas ao masculino, e a aquisição da virilidade nunca é definitiva, constantemente precisa ser reconquistada, pois a fraqueza da feminilidade não é aceitável no campo simbólico do homem. Isso se torna claro no comportamento dos Campolargos, pois a violência que Terázio sofreu gera agressividade e resulta em competição constante e extrema.
                 A vingança seria a reparação da perda de masculinidade, caso eles não se posicionassem e revidassem, seriam vistos como passivos (atribuído ao feminino), e os Vacarianos como ativos. Sendo assim, desenrola-se uma vingança, tão violenta quanto à sofrida. Segue o trecho:
    “Romualdo Vacariano foi trazido à presença de Benjamim Campolargo, que exclamou: “Tirem toda a roupa desse sujeitinho!”. Três de seus homens obedeceram à ordem. “As botas também...Bom. Agora amarrem ele na mesma árvore onde penduraram o meu irmão. Assim não! Com a barriga contra o tronco, as pernas abertas... Isso!” (...) Um  círculo duns cento e poucos homens formavam uma espécie de muro ao redor da árvore (...) Benjamim chamou um dos seus companheiros, um negro alto e corpulento. (VERRISIMO, p.33)
                 Nesse trecho percebe-se que a vingança foi pensada de uma forma semelhante, porém numa forma mais direta, corpos sobre corpos, onde se escolhe o homem que mais representa a força da masculinidade no campo simbólico, no caso o negro.
                 Essa reafirmação da masculinidade mostra que a violência sexual é a forma aceitável de salvaguardar o perigo da contaminação pela feminilidade. Efetivamente, o meio para conseguir o domínio sobre o outro. E testemunhar um homem violando o outro é o desejo inconsciente do homem pela homossexualidade. Uma fantasia que se concretiza pela pratica do outro.
                 Porém, é a recusa do negro Elesbão que desconcerta o Benjamim, além de sua autoridade ser questionada causa também a frustração do seu desejo e assim, ele tenta justificar que não poderia perder “um companheiro de valor”. Essa recusa de Elesbão retrata a tão temida feminilidade, pois o medo de perder sua masculinidade está sempre presente, sendo mais aceitável a morte ou a constante disputa. Mesmo Elesbão não aceitando, outro negro se propõe a praticar o estupro, assim satisfazendo o desejo de Benjamim. Segue o trecho:
    “Quem salvou a situação foi um caboclo parrudo e mal-encarado, o Polidoro, contumaz barranqueador de éguas, que se apresentou voluntariamente para executar a tarefa. (...) E o caboclo violentou Romualdo. Uns três ou quatro homens soltaram risadinhas. Outros, porém – a maioria - retiraram-se do local para não assistirem à cena degradante. Um capitão bigodudo chegou a gritar: “ Isso não se faz a um macho, coronel! Por que não mata logo o miserável?”. Benjamim, que saboreava o espetáculo, não deu a menor atenção ao protesto. Consumado o ato, gritou: “Agora soltem a moça!”. (VERISSIMO, p. 34)
                 A dominação e a posse sofrida por  Romualdo é vista como uma manifestação de potência, um ato exercido que simboliza a superioridade da masculinidade, causando a feminilidade no violado. Romualdo sofre a desonra e a perda do seu lugar como homem viril e íntegro, restando-lhe como saída apenas a morte, pois não aceita ser comparado a uma “moça”.
    “Dois soldados desamarraram Romualdo, que deu alguns passos, como se estivesse bêbedo, a cara aparvalhada. De repente soltou um urro, como um animal ferido de morte e, nu como estava, saiu a correr na direção do rio, atirou-se no chão, no alto da barranca, e rolou declive abaixo, até cair n’água. Pôs-se a nadar e, a uns trinta metros da margem, deixou-se afundar. Seu corpo jamais foi encontrado.” (VERISSIMO, p.34)
                 A violência do ato sofrido por Romualdo pode ser entendida como uma castração, a paranoia de não pertencer a seu grupo e de ser visto como um covarde fraco, um feminino, o enlouquece e ele tira a própria vida.
                 Esses personagens são uma representação da sociedade que organiza os grupos e reafirma o preconceito, constroem instituições padronizadas que impõem aos cidadãos a normativa dos gêneros, assim, muitos homens não superam os seus desejos inconscientes e se transformam em agressores e violadores.  O desejo da dominação geralmente é direcionado ao ato sexual, o poder de violar é sempre utilizado e o mais forte sempre sofre de recalcamento, como diz Bordieu:
    “Se a relação sexual se mostra como uma relação social de dominação, é porque ela está construída através do princípio de divisão fundamental entre o masculino, ativo, e o feminino, passivo, e porquê este princípio cria, organiza, expressa e dirige o desejo – o desejo masculino como desejo de posse, como dominação erotizada.” (BOURDIEU, 2002, p.15)
                 Portanto, na obra “Incidente em Antares” a masculinidade é caracterizada pelos atos de violência sexual, pela disputa de poder e por  uma dominação erotizada.
    CONCLUSÃO
                 No livro “Incidente em Antares”, Érico Verissimo construiu personagens homens que evidenciam a busca da masculinidade, visto que ela não é definitiva e precisa ser reconquistada e disputada.
                 Esses personagens utilizam a violência sexual para reafirmar ser macho, mas ao mesmo tempo mostram  o desejo inconsciente por outro homem, o desejo é presente quando testemunham a violação de outro corpo e sentem satisfação.
                 Essa obra não só retrata os homens daquela época, mas também da atual. A realidade é pior, pois a violência contra os considerados “fracos e femininos” é louvada por pessoas que ocupam locais de poder e têm influencia sobre determinado grupo.
                 O machismo e a reafirmação da masculinidade estão sendo cada vez mais ensinada e imposta na instituição familiar. Ideias de segregação de gêneros são aceitas e proliferadas nesse meio. Discursos preconceituosos como “meninos usam azul e meninas usam rosa”, reforçam a violência dos considerados fortes e machos e sufocam os que têm conceitos diferentes. Isso só reforça o preconceito já existente nessa sociedade hipócrita e patriarcal.
    BIBLIOGRAFIA
    BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. 2ª Edição.Editora Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2002.
    BOTTON, Fernando Bagiotto. As masculinidades em questão: Uma perspectiva de construção teórica. Revista  Vernáculo, n. 19 be 20, 2007. Disponível em: <https://revistas.ufpr.br/vernaculo/article/view/20548/13731> acesso em: 04/01/2019.
    CECCARELLI, Paulo Roberto. A construção da Masculinidade. In Percurso, São Paulo, vol. 19, p.49-56, 1998. Disponível em: < http://www.ceccarelli.psc.br/texts/a-construcao-masculinidade.pdf > acesso em: 04/01/2019.
    MORENO, Marco Julián Martinéz. Ser macho nesse país é coisa de macho: A culturalização da masculinidade e sua relação assimétrica com a igualdade. Anuário Antropológico, p. 33-55. [ONLINE], II |2016. Disponível em: <https://journals.openedition.org/aa/1795> acesso em: 04/01/2019.
    SILVA, José Remon Tavares da. Masculinidade e Violência: Formação da identidade masculina e compreensão na violência praticada pelo homem. 18º Redor. Pernambuco, 2014. Disponível em: < http://www.ufpb.br/evento/index.php/18redor/18redor/paper/viewFile/686/808> acesso em: 04/01/2019.
  • ALIEN

     
    A beleza é só mais uma ilusão:
    outra forma de dominar o ser,
    encaNcerando-o numa prisão,
    ainda que pelo próprio prazer...




    © do Autor, IN: Concursos literários do Piauí. Teresina, Fundação Cultural do Piauí, 2005. 226 p. Página 177.



  • Almoço fast-food

    Seu Alcides entrou no flat desviando o olhar, um tanto quando encabulado, e carregando uma maletinha dessas de executivo. Tirou um envelope do bolso e agitou com a mão. “Olá baby…pode deixar isso aí em cima da mesinha.” “Oi….boa tarde…..posso ir no banheiro?” “Claro, fica ali.” Ele abriu a maletinha e tirou dois saquinhos zip locks. “Você pode vestir isso?” “Adoro fantasias amor. Tenho vários brinquedinhos aqui também.” Seu Alcides entrou no banheiro e abriu sua maletinha como um estojo de figurino. Antes de qualquer coisa tirou a aliança, colocou num saquinho zip lock desses pequenos e guardou a jóia no bolso de dentro do paletó. Pegou dois cabides, um para pendurar o terno e a calça e outro para a camisa e a gravata. Se despiu com cuidado para não amassar a roupa, removeu as toalhas de dois suportes que estavam atrás da porta, entulhou-as no terceiro e pendurou seus cabides com cuidado. Olhou no espelho, ergueu as mão para o céu e fez uma oração. Então começou a se preparar. Primeiro se maquiou espalhafatosamente. Batom, lápis no olho e pó de arroz. Em seguida colocou uma calcinha com cinta liga, meia três quartos e uma saia. Vestiu uma camisetinha branca apertada, um lenço no pescoço e saiu do banheiro carregando um consolo numa mão e um tubo de ky na outra. Sheilla já estava preparada deitada na cama. Usava um vestido preto, de mangas compridas, um pouco acima do joelho e uma meia calça. No peito um pequeno crucifixo de metal, um véu preto com elástico branco na cabeça e um chicotinho de couro na mão.
    Aquela putaria toda na hora do almoço fazia Seu Alcides se sentir o Deus do mundo. Sem nenhum minuto de atraso, e sem nenhuma suspeita, às 13:30 em ponto ele estava sentado em sua sala no escritório contábil Estoril. Eram uma dúzia de mesas alinhadas no terceiro andar do edifício Mega Rich Tower. Cada uma com um computador, um telefone e quilos de papéis espalhados. De acordo com o senso comum estabelecido por ele quem não está focado no um, e/ou falando com alguém no dois, está enrolando. Depois de duas dezenas de anos dedicados à causa Seu Alcides era o dono da razão e da empresa. Sua conduta de legalista e implacável faziam dele o monstro mais temível de todo universo para quem dependia de sua benção para continuar pagando as contas no fim do mês. Sempre chegava meia hora antes que os funcionários de manhã e achava que quem cobrava o pagamento de hora extra não dava o devido valor ao emprego. Era sempre o último a sair. “Dona Suzana, com o rendimento que o seu departamento teve nos últimos dias o que a Senhora vai falar na reunião sobre produtividade?” Tudo que Suzana entendia era que estava no bico do corvo. “Esse mês está difícil, muitas empresas estão fechando Seu Alcides. Quase ninguém alcançou as metas.” Nos ouvidos de Seu Alcides isso soava como desculpa de aleijado é muleta.  “E se dependermos de pessoas com o pensamento da Senhora nós seremos os próximos. A Senhora já perdeu sete clientes este mês e repôs apenas um. Preciso de mais trabalho e menos desculpas. Cobre mais de sua equipe e se esforce mais também.” Na sua cartilha isso significava faça mais do que deve e se sinta feliz por isso. “Sim, senhor.” Suzana saiu com a certeza de que em breve seria uma desempregada.
    Enquanto revisava alguns relatórios Seu Alcides relembrava das cenas do encontro com a madre superiora. Calculando quanto da piroca de Sheilla que ele conseguiu enfiar na boca concluiu que ela devia ter pelo menos 20cm. Era a maior piroca que ele já tinha visto. Os peitões dela eram uma delícia e não tinham gosto de plástico como os da Lana, nem eram caídos e moles como os da Gabrielle. Se sair com o mesmo travesti duas vezes não fosse tão arriscado para sua reputação Seu Alcides com certeza voltaria no flat da Sheilla de novo no fim da tarde. Seus pensamentos foram interrompidos pelo telefone. “Sim, Dona Luiza.” “O Dr. Ricardo está na linha dois.” “Pode passar.” “Seu Alcides?” “Boa tarde, Dr. Ricardo.” “Boa tarde, como está o Senhor?” “Estou bem, e o Senhor?” “Também, obrigado. Seu Alcides, eu não recebi as guias de recolhimento de impostos desse mês. O Senhor sabe como gosto de manter tudo organizado por aqui, e já é dia 12. Transferi o dinheiro no dia 5 como todo mês mas as guias não chegaram. O Senhor pode ver isso para mim?” “Claro que sim. Desculpe-nos, isso não pode acontecer.” Cinco minutos depois Paulo estava tremendo como vara verde na frente do chefe. “Mas Seu Paulo, como assim essas guias se perderam? Isso não existe.” “Desculpe Seu Alcides, talvez o office boy tenha esquecido elas no caixa do banco ou o caixa esqueceu de entregar para ele. Já solicitamos as segundas vias e até amanhã deve estar tudo com o Dr. Ricardo. Eu também já conversei com ele.” “Conversou o que, Senhor Paulo? Então porque ele me ligou?” “........” “De qual você está falando? Daquele novo que vem trabalhar de boné e bermuda?” “Sim, senhor.” “Diga para esse moleque que qualquer hora dessas eu vou fazer ele ter que esquecer de vir trabalhar.”
    Toda vez que ele se mexia na cadeira, e uma dorzinha na bunda lembrava Seu Alcides daquela pirocar enorme entrando e saindo freneticamente, seu pau ficava duro como uma pedra. Com medo de dar algum sinal de prazer, ele encarava Dona Luiza com um desprezo que beirava o insulto enquanto ela falava. “Aqui estão os relatórios de produtividade que o Senhor pediu da Suzana e do Paulo. A Dona Ana já está sob aviso no RH também e pediu para avisar que é melhor esperar o período de experiência do office boy acabar para mandar ele embora.” “Só isso, Dona Luiza?” “A Dona Kátia mandou pedir para Senhor passar na padaria e pegar umas coisas pro lanche antes de ir para casa, e de pegar pão integral para o Jorginho. Ela também mandou avisar que chamou o sogro e a sogra do Senhor para o lanche, para o Senhor não chegar tarde.” “Pelo amor de Deus Dona Luiza, é só isso?” “Sim, Senhor.” “Então pode ir. Até amanhã.” Já passava das 20h quando Suzana passou na sala dele e avisou que era a última a sair.
  • Amor de Quarentena

    ***
    - Só que eu te amo.
    - Mas EU... – (não acredito que ela usou uma pausa dramática) -  não te amo. – ela disse colocando a mão em seu ombro – Adeus Kevin.
    Essas palavras soaram como uma chave de fenda enferrujada penetrando profundamente no coração de Kevin. Ele e Vanessa namoraram por dois anos. Foi algo completamente inesperado, mas talvez, se Kevin prestasse mais atenção aos sinais, não fosse tão inesperado assim. A verdade é que, no final, ambos tinham se acomodado com a presença um do outro. Não faziam muito além de transar e ficar no quarto o dia todo pensando em quando transariam de novo, não tinham nada para conversar ou se preocupar um com o outro. Ela não fazia questão de sair com ele, ele não fazia questão de ter ela por perto. Kevin imagina que a amava, no fundo, talvez acreditasse que isso já não era mais verdade. Ela já não demonstrava sentimentos há meses, e ele achava que demonstrava, mas a verdade estava longe disso.
    Kevin, um rapaz de 20 anos recém completos, era magrelo e tinha cabelos negros até os ombros e belos olhos azuis. Foram esses olhos que atraíram Vanessa, não tinha dúvida. E naquela tarde após a escola, estavam no último ano quando finalmente se beijaram. Havia meses que flertavam, ele começava a duvidar que algo iria acontecer. Foi a segunda garota que beijou e foi com quem perdeu a virgindade.
    Ainda morava com os pais. Eles eram jovens, seu pai tinha apenas 39 anos e sua mãe 36, sempre soube que fora uma gravidez acidental de uma noite bêbada com dois namorados apaixonados e não ligava (não existe uma história de amor muito melhor do que essa, certo? Eles estão juntos e apaixonados até hoje). Seus pais foram expulsos de casa por conta disso, também não se importaram, decidiram que todo o amor que não tiveram em casa dariam para aquela criança e que trabalhariam duro para tudo dar certo. Ele trabalhou em bar por muitos anos até virar o dono e ela trabalhava em lojas de departamento, mesmo sem estudos subiu bem na carreira. Nunca tiveram luxos, só que nada lhes faltou.
    E todo o amor que Kevin recebia de seus pais era o mais importante, principalmente nesses momentos de tristeza. Foi com eles que fumou maconha pela primeira vez. Diziam “melhor fumar aqui do que em um beco sujo qualquer, com todas aquelas porcarias que colocam no meio”. Ele fumou e não gostou, nunca mais encostou naquilo. Mas gostava de beber, geralmente não muito, só quando se sentia para baixo ou quando saia com os amigos, ou em festas em casa (na verdade, quando sozinho ele só bebia se estivesse triste).
    Gostava de tocar sua guitarra, pensava em fazer uma tatuagem, queria um dragão no braços inteiro, só que nunca venceu seu medo de agulhas. Era um guitarrista medíocre, contudo, ganhava alguns trocados tocando na noite. Foi convidado para uma banda e entrou no cenários dos pubs, tocava de quarta a sábado e a grana ficou melhor. Ajudava nas contas de casa e grande parte do que sobrava ele guardava para seu futuro.
    Uma vez por mês jogava na loteria com seus pais, cada um escolhia um terço dos números. Davam risada e nunca acompanhavam os sorteios, apenas viam os número dias depois. Nunca ganharam nada, mas o valor era baixo e o pequeno evento em família era prazeroso.
    Eles moravam no sétimo andar e Kevin, sem querer, viu alguém se mudando para o prédio da frente, apenas uma janela abaixo. Depois ele iria descobrir que ali não era o sexto andar como em seu prédio, na verdade era o terceiro, já que os três primeiros andares dali eram comerciais e por ter uma entrada diferente, tinham os três andares ignorados.
    Entre os novos vizinhos, reparou que havia uma garota que parecia ter sua idade. O que lhe chamou atenção nela, a princípio, foram aqueles longos cabelos loiros que brilhavam intensamente, poderiam ser vistos de longe. Parecia ser filha única, assim como ele. Contudo, seus pais já eram grisalhos. Ela não reparou nele e ele não quis ser o sujeitinho estranho que fica observando as outras pessoas por ai.
    Foi então que o mundo inteiro mudou...
    ***
    Não havia informações precisas de como tudo começou ou de onde surgiu. Diversos lugares no mundo indicavam casos ao mesmo tempo e fronteiras começaram ser fechadas.
    Tarde demais, infelizmente...
    A princípio era apenas uma tosse mais resistente, alguns espirros, nada que não se curasse com o tempo (acreditavam) e provavelmente deve ser uma gripe mais forte. Quando as pessoas começaram a espirar sangue, que escorria incontrolavelmente de suas narinas, a preocupação surgiu. Logo, milhares morreram e o mundo entrou em quarentena. Ainda era possível ir ao mercado e alguns outros serviços essenciais que ainda funcionavam.
    - Filho, não sabemos como será essa pandemia por aqui. Então, vamos ao mercado para estocar aquilo que realmente importa.
    - Cerveja?
    - Eu criei esse filho tão bem – diz seu pai rindo – muita cerveja, mas um pouco de comida faz bem também.
    Os dois riram e saíram juntos.
    Os pais de Kevin se cuidavam bem, faziam exercícios regularmente e visitas periódicas ao médico para seus respectivos check ups. Em geral eles que faziam as compras nos mercados só os dois e, aos poucos, estocavam tudo que precisavam.
    Ninguém sabia explicar como se dava o contágio, a televisão informava que era por espirros ou tosse e recomendava cobrir com o braço para não infectar outros e a limpar as mãos constantemente. O tempo de incubação era de 7 dias e era extremamente contagioso. Também, nesse período, não era possível detectar os doentes. Após isso, os sintomas se confundiam com o  de uma gripe simples, durava de 7 dias a 15 dias com tosse e espirro, daí a confusão com uma simples gripe. Depois variava, algumas pessoas tinham pouco sangramento, similar ao rompimento de uma veia, como acontecem em temperaturas muito elevadas ou algo do tipo. Em outros casos, ocorriam jorros de sangue pelo nariz e pela boca, com pedaços mais densos. Cientistas trabalhavam incessantemente ao redor do mundo procurando uma cura.
    Logo, as ruas ficaram desertas. Embora o número de vítimas fatais fosse baixo, muitos já estavam em estado grave sucateando os hospitais e acomodações temporárias. Foi quando o primeiro grito veio pela janela.
    - Ei! Vizinho de cabelo cumprido! Sempre gostei de um roqueirinho! – A frase é seguida de risadas divertidas.
    Kevin estava na janela contemplando o vazio da rua e perdido em seus pensamentos. Seus cabelos soltos brincavam na frente de sua face. Quando olhou para frente, viu sua vizinha loira, com um belo sorriso, acenando para ele. Ele vestia uma regata do Iron Maiden. Seus braços eram definidos, provavelmente por tentar tocar bateria, nunca fora muito fã de exercícios.
    - Oi! Vizinha de cabelo amarelo!
    - Preciso conversar com alguém para não ficar louca! Já que não tem ninguém na rua e meu prédio parece vazio, fala comigo!
    - Claro! Qual seu nome?
    - Ariel e o seu?
    - Sou Kevin, muito prazer! Mas acho melhor falar por telefone, minhas cordas vocais não vão aguentar muito! Passa o seu número!?
    - Como você é adiantado. Deveria me pagar um jantar ou uma bebida antes de pedir isso! Mas tudo bem, anota ai!
    Ela passou o número e começaram a conversar. Logo, todos os dias saiam na janela para ver o pôr do Sol juntos. Kevin, apesar de novo, não enxergava muito bem de longe. Só tinha certeza de que a garota era loira, até ver sua foto no celular. Seu coração se apaixonou instantaneamente. Acreditou piamente que era a coisa mais linda que já vira na vida (e isso incluía o por do Sol e a aurora boreal que vira com seus pais no inverno rigoroso da Noruega, mas nessa época ainda namorava Vanessa. Preferia não lembrar)
    ***
    Os amigos de Kevin pararam de lhe responder. Rumores de mortes eram frenéticos e ninguém sabia o que de fato acontecia. Foi quando os doentes começavam a chorar sangue e a morte parecia certa.
    Naquela quarta feira as televisões ainda funcionavam e era possível comprar bilhetes da loteria pela internet. A família de Kevin se reuniu, mesmo sem a energia de sempre, e comprou um bilhete. Foi a primeira vez que viram o sorteio ao vivo.
    Em meio a toda aquela loucura, eles ganharam 46 milhões na loteria daquele dia, que seriam muito bem vindos. Dois dias depois um anúncio informou que a premiação seria suspensa até o final da pandemia. Depois de 4 dias surgiu a notícia de que um cura chegaria até setembro, apenas 5 meses dali. Um fio de esperança, embora não se soubesse toda a extensão daquela doença, sabia que ela começara a matar rápido.
    Muito fugiram das grandes cidades, entretanto a maioria ficou. Mortos surgiram jogados nas ruas e ninguém saia de casa para retirá-los. A calamidade era total. Os mercados foram fechados e começaram a ser saqueados. A família de Kevin conseguiu visitar alguns pela região e estocaram comida para pelo menos 7 meses, então, pararam de sair. Todos pararam de sair de suas casas, era perigoso demais.
    A última notícia que a televisão transmitiu era de que já havia mais de 5 milhões de mortos ao redor do mundo e 10 milhões de infectados confirmados. Não tinham ideia da dimensão de doentes com sintomas iniciais, aqueles parecidos com uma gripe comum.
    Ariel estava preocupada. Seu pai jazia doente e se trancara no quarto, não queria contato com ninguém, e sua mãe lhe levava comida receosa com o que poderia ver lá dentro. Ambas sabiam que ele não duraria até uma cura aparecer e que seu estoque de mantimentos não era tão grande.
    Mesmo de longe Kevin sentia a tristeza de seu novo amor. E tentava consolá-la por telefone sempre que podia. Até as linhas serem cortadas. A internet não existia mais, a telecomunicação não existia mais. O cenário era cada vez mais nebuloso, contudo, faltava pouco para a cura chegar e tudo ficaria bem. Kevin tinha comida o suficiente e, assim que possível, pediria para Ariel ir para sua casa com seus pais (provavelmente só com a mãe).
    ***
    Sem telefone, os gritos pela janela voltaram. Era a única forma que tinham para se comunicar.
    - Como você está amor?
    - Estou bem. Acho que meu pai não vai sobreviver muito mais tempo. – falar aquilo gritando causou um peso maior do que Ariel poderia suportar. Começou a chorar. – Eu não quero perder meu pai!
    - Queria poder ir ai te abraçar querida. Sinto muito por tudo o que está acontecendo, queria que tudo fosse diferente... mas... - esse “mas” saiu baixo, Ariel não ouviu, contudo viu a expressão de tristeza no rosto de seu amor.
    - O que aconteceu?
    - Meu pai também está doente. E acho que minha mãe está da mesma forma. Eles estão comendo bem menos e não saem do quarto. Pedem para não entrar, só que preciso levar comida para eles. Eles vão morrer logo, eu sei disso.
    - Sinto muito. Nada disso deveria acontecer.
    - Sim. E sabe o mais incrível? Somos milionários, mas o dinheiro não virá nunca. Acho que mesmo se tivéssemos ganho antes não teríamos muito o que fazer com ele. E talvez eu não tivesse te conhecido... – Ele parou um pouco refletindo, então respirou fundo e preparou o próximo grito - Você valeu muito mais do que aqueles 46 milhões.
    - Eu te amo, Kevin – ela gritou a plenos pulmões com o rosto brilhando por suas lágrimas refletindo a luz do Sol.
    - Também te amo, Ariel. Não existe outra pessoa que eu gostaria de passar esses momentos que não fosse você.
    No fundo, eles sabiam que não sobrara ninguém para ouvir sua conversa. Ninguém mais saia nas janelas. As tosses que Kevin ouvia nos corredores de seu prédio cessaram. As pessoas morreram trancadas em casa. Ele não sabia como não havia sido infectado, muito embora seus pais que saíssem na rua, nunca deixou de abraça-los. E, em breve, estariam mortos.
    ***
    - Estou com fome Kevin... A comida acabou aqui tem 4 dias. Meus pais morreram, tive que coloca-los no quarto e cobri-los. Sinto-me horrível.
    - Queria que tivesse alguma forma de lhe mandar comida. Ainda tenho bastante. E sem meus pais, tenho muito mais do que preciso, pelo menos até a cura. Os cientistas disseram que chegaria em setembro, falta apenas um mês! Temos que aguentar e poderei finalmente te abraçar, meu amor.
    - Você é a coisa mais perfeita que encontrei na minha vida – diz Ariel enxugando as lágrimas. – Vamos tentar sim.
    - Vamos conseguir!
    Em seu apartamento, Kevin procurou alguma linha, corda ou qualquer coisa que pudesse jogar até a janela de Ariel para lhe dar comida. Nada tinha a distância certa. Pensou em amarrar roupas, mas não teria força o suficiente para lançar até lá. Conseguiu um fio frágil de nylon, achou que não aguentaria o peso da comida. Decidiu arriscar. Amarrou o fio em um avião de papel e arremessou em direção à janela de Ariel. Treinou a infância inteira aquele arremesso e acertou de primeira.
    - Eu não acredito! Vai dar certo! – Exclamou Ariel pulando e sorrindo. – Vou amarrar aqui.
    Com muito cuidado, Kevin colocou um pacote de macarrão instantâneo no fio e fez deslizar até Ariel. Ela conseguiu pegar. Quase não se controlou, abriu o pacote e já ia dar uma bocada, quando olhou para Kevin rindo.
    - Esquenta isso ai, sua louca! – Kevin não conseguiu segurar a gargalhada.
    Ela riu, mandou um beijinho para ele, agradeceu a comida e sumiu da janela.
    Quase uma semana se passou e Kevin não arriscava enviar nada mais pesado do que um pacote de macarrão instantâneo para Ariel, mas era visível sua condição física debilitada. Ela estava subnutrida e não viveria muito comendo apenas aquela porcaria. Então ele conseguiu colocar um cabide no fio de náilon e grudou uma lata de atum com fita crepe na base do cabide. Era a esperança que tinha para ajudá-la.
    O cabide deslizou vagarosamente. O peso fez com que parasse na metade do caminho. Kevin colocou os pés no parapeito e ficou de pé para dar uma altura maior à sua ponta do fio. A lata começou a se mover, alguns centímetros vagarosos, então o fio não aguentou e se desfez.
    Foi possível ouvir o coração de Ariel partindo da janela de Kevin. Sua expressão de felicidade mudou rapidamente para tristeza e logo desespero. Ela colocou as mãos no rosto, se apoiou no parapeito e chorou.
    - Calma amor, por favor. Vou conseguiu outra coisa. Vou arrumar outra solução.
    - Tudo bem, amor. – disse Ariel sem emoção alguma.
    Então sumiu na janela. Kevin não a viu por dois dias.
    Nesse meio tempo procurou outras alternativas. Não encontrou nenhuma, nada que alcançasse a janela do outro lado da rua. 50 metros para salvar a vida daquela garota, que significava todo o seu mundo e ele não conseguia. Foi então, que Ariel apareceu na janela novamente.
    - Eu te amo, Kevin, nunca esqueça disso. Mesmo sem nunca termos diminuído a distância entre nós, nunca termos nos tocado, nunca termos nos beijado, eu te amo! Você é a pessoa mais incrível que já conheci em toda a minha vida e de todo o meu coração eu queria ter te conhecido em outras circunstâncias. – Ela chorava copiosamente – Mas... eu.... – a voz falhou. Ela não conseguia tirar do peito o que precisava dizer – eu... não... EU NÃO AGUENTO MAIS!! DESCULPE!!
    Ela levantou o braço, ele viu uma pequena marca e em sua mão havia uma pistola negra.
    - Não! PELO AMOR DE DEUS NÃO!
    Era tarde demais. Ele viu um clarão, aquele barulho alto e, então, o corpo de Ariel pendeu para a esquerda e sumiu da visão que Kevin tinha por aquela janela.
    ***
    Um Mês se passara desde a morte dela. Era setembro e nenhum sinal de cura. Mais um mês se passou e outro, logo, era perto do natal. Pensou na família que se fora. Pensou no amor que se fora. Ela não vai voltar. Seus pais não vão voltar. Ninguém vai voltar, estão todos mortos.
    Foi ao quarto dos pais. Com muito cuidado para não perturbar os mortos que ele carinhosamente havia postado na cama de casal, juntos, embaixo do cobertor para não ver mais aquela cena hedionda de como morreram. Abriu o cofre escondido no armário, sabia a combinação de cor, afinal, ele que escolheu, e pegou a arma que os pais deixavam ali dentro. Guardou-a na parte da frente da calça.
    Saiu do apartamento e desceu pelas escadas. O silêncio daquelas escadarias era ensurdecedor, sentiu vontade de chorar, mas não o fez. Que bem lhe faria chorar sozinho em uma escadaria escura? Seguiu seu caminho até chegar ao térreo.
    (Todos mortos. O que posso fazer?)
    Ali tinha uma cadeira onde sentou. Pôde ver, através das duas portas: a primeira era uma estrutura de metal resistente, mas os vidros foram quebrados; a segunda era um portão de aço, que foram barradas com tudo que pudesse fazer peso, como geladeiras, freezers, sofás, tudo que conseguiram usar para que a porta não cedesse com aqueles mortos que andavam lá fora. Ele nunca soube quando essas pessoas voltariam da cova e havia mais de um milhão naquela rua, essa era sua estimativa desde que o fio de esperança de Ariel arrebentou derrubando sua lata de atum. Porém, havia meses que eles estavam ali e não iam embora.
    (Todos estão mortos. E os mortos estão vivos..)
    Aquela rua completamente tomada por aqueles que voltaram de suas tumbas. Imaginou que fossem partir dali antes de sua comida acabar ou que alguém viria ajudar. Ninguém veio ajudar e sua comida acabou, mesmo assim eles estão lá, balançando lentamente de um lado para o outro sem se mover e com aquele gemido baixo.
    Devem estar todos assim, todos mortos, pelo mundo inteiro. Lembrou do dia que seu pai voltou com uma mordida no braço, como ele devorou o pescoço de sua mãe e como teve que abater os dois com um pedaço de pau. Nunca imaginou que fosse capaz de fazer aquilo.
    Lembrou do amor da janela da frente, o amor que nunca beijou, que nunca tocou, da marca em seu braço com a pistola, provavelmente uma mordida que recebeu de seu pai voltando dos mortos. Ele tinha lhe dito para esmagar a cabeça deles antes que voltassem à vida. Ela provavelmente achou que a porta do quarto iria segurá-los. Lembrou do clarão do tiro que lhe atravessou a cabeça e daqueles dois cadáveres grisalhos que invadiram seu quarto e a devoraram. Então abaixou a cabeça e chorou, em silêncio, no meio do som do murmúrio dos mortos.
    Não sabia quando ou como os mortos voltaram. Mas tinha certeza de que agora o mundo era deles.
    Pegou a arma e encostou em sua têmpora direita. Respirou fundo (adeus) e atirou.
  • Amor em brechas

    Vivemos das brechas que a rotina de se viver em cidade grande nos dá, vivendo a espera de uma fenda de algumas horas para podermos nos encontrar, mas quando nos amamos, fazemos em expansão, somos assim, um cômodo ou um lugar não parecem tão suficientes pra nós. Topa irmos pra sala? Cozinha? Banheiro? Um banho não parece má ideia. É nesse amor em ampla construção e vontade louca de destruição de móveis que a gente vai vivendo.
    Me diz em que momento foi que você cravou teus dentes no meu peito? Essas marcas estão com cara de que vão me acompanhar por uns bons dias. Tudo bem. Melhor do que apenas a lembrança ou o cheiro do teu perfume impregnado nas minhas roupas é ver que as marcas que você deixou em mim não são só metáforas, são reais, estão na minha pele, na tua pele. Nos mostram que de um lado houve a passagem de uma boca empenhada e entregue ao prazer e do outro um trabalho bem feito em causar arrepios na nuca, braços, coxas... onde houver pêlos.
    Quando nos vemos de novo? Essa marca já está sumindo, tua boca precisa dar uma retocada aqui e a minha cama esses dias anda muito arrumada, não lembra em nada os dias que você a revira, tira o meu lençol, minha camisa, meu juízo, meu sono, minha solidão. Você deixou só os teus cabelos aqui e não a tua cabeça encostada no meu travesseiro. Como eu faço pra ter você aqui de novo? Só a próxima semana? Quando você sai mais cedo? Essa cidade grande! Precisamos de rotina, mas quem foi que disse que seus beijos também não podem ser diários?
    Vamos pro interior, parece que lá a gente pode parar de viver de brechas e começa a viver de amor.
  • Aniversario de um personagem

    sabe a maioridade poética que tanto buscam - eu já tive a tempos. por quê? - eu me pergunto - por quê a tecnologia estraga a inteligencia e a criatividade dos jovens escritores? - um texto cheio de dúvidas que até Foucault teria prazer em ler! - é só isso que tenho a mostrar - no centésimo poema autoral - que de original nada tem - existem pouquíssimas certezas neste vasto mundo - algumas das quais posso dizer agora (1) existe mais chances de você morrer atropelado por uma vaca do que ganhar na loteria - principalmente se você morar perto de uma - (2) ninguém nem mesmo seus heróis foram tão grandes assim - (3) seus pais fazem sexo - e não é só pra te ter e isso vale para seus avós, tios, irmãs, primos “isso se você já não estiver fazendo com nenhum deles”- (4) você não é especial, não importa o quanto fizeram você acreditar nisso - (ultima) se você me acompanha até aqui te garanto uma passagem pro inferno, mas pelo menos teve boas reflexões - ate a proxima
  • ANO NOVO

    Ano novo
    Mais um dia
    Foi o velho
    Noutro dia.

    Zero hora
    Um começa
    Outro termina
    Novo dia.

    Quem espera um ano inteiro
    Ansiedade apinha
    É melhor chorar agora
    Que sofrer por mais de um dia.
  • Aprendi ou finjo que aprendi

    Aprendi que amores eternos podem acabar em uma noite, que grandes amigos podem se tornar grandes inimigos, que o amor sozinho não tem a força que imaginei. Que ouvir os outros é o melhor remédio e o pior veneno, que a gente nunca conhece uma pessoa de verdade, afinal, gastamos uma vida inteira para conhecer a nós mesmos. Que os poucos amigos que te apoiam na queda, são muito mais fortes do que os muitos que te empurram. Que o 'nunca mais' nunca se cumpre, que o 'para sempre' sempre acaba, que minha família com suas mil diferenças, está sempre aqui quando eu preciso. Que ainda não inventaram nada melhor do que colo de mãe desde que o mundo é mundo, que vou sempre me surpreender, seja com os outros ou comigo. Que vou cair e levantar milhões de vezes, e ainda não vou ter aprendido tudo. É necessário crescer.
    Luca Schneersohn
  • Apresentação

    Frequentemente me pego relembrando o passado, como se tivesse algo nele que eu vivi e esqueci de aprender, algo que passou batido e que não notei.
    Os assuntos são variados, desde pessoas que nunca mais soube noticias, até momentos e  os sentimentos que senti neles.
    Acredito que peguei este hábito nas aulas de história do ensino médio, a professora Aninha sempre me instigava a saber toda a história para entender como chegamos no hoje, do porque daquilo tudo, por mais que a história fosse complicada.
    Minha história de vida não é daquelas chamativas, esta mais para uma história parada e monótona, porem quando se afasta um pouco para se observar de longe tem tantos capítulos que você leva um susto e se pergunta em como virou tudo aquilo, pois nem pareceu tantas histórias dentro de um livro só.
    Tenho atualmente 23 anos, paulistana, moro com os pais, trabalho a quase 7 meses em um petshop... um resumo da vida financeira, porem não de mim, não da minha história, daquilo que me define...
    O que me define é um conjunto das minhas ações, das pessoas que estão em meu cotidiano ou já estriveram, e todos meus pensamentos.
    Sei que esse texto ficou muito desconexo mas só precisava escrever sobre eu, sobre me afirmar no meio de tudo o que tenho passado, espero ser mais clara...
  • Arroz com feijão [conto]

    Rafael estava com um problema com seus pais: eles descobriram que ele fumava maconha. O jovem vacilou com uma ponta no carro, e depois que sua mãe abriu o carregador de 12V para plugar o celular, e se deparou com aquele celofane do diabo, o garoto especial já não era tão especial assim. Na verdade era um problema. Aliás, vários problemas. “Quem pois aquela porcaria na boca dele?” “Será que ele está só nisso?” “Onde nós erramos?” Dr. Sampaio e a Sra. Sampaio estavam apavorados. Em estado de choque. A sujeira tinha chegado em casa. Era o primeiro sinal do fim dos tempos.
    Estava tudo abalado. Admiração. Confiança. Futuro. Quando eles chegaram em casa, colocaram aquela ponta na mesa da sala e olharam para Rafael, seu pai foi eloquente: “Não me venha com esse papo de é de um amigo.” “Você fumou isso no carro?” Foi o primeiro questionamento da chorosa Sra. Sampaio. Rafael estava sendo crucificado, e assim como Jesus parecia querer aquilo. Ele olhava para uma e para o outro com o desdém com que Pôncio Pilatos lavou as mãos. Como quem não tem nada para dizer.
    A postura era ultrajante. Inaceitável. “Também não é nenhuma novidade. Olha só para você.” “Depois que começou a faculdade você virou outra pessoa.” Era uma mistura de negação com raiva. “Você não tem nada para dizer?” Que tinha sido um erro. Que estava arrependido. Que não ia acontecer de novo. Que aquela droga maldita tinha pegado ele num momento de fraqueza e com a ajuda de Deus ele ia se livrar daquele terrível mau. Os dois topavam escutar qualquer coisa que soasse como um mea culpa. Assumir é sempre o primeiro passo.
    “Como assim não significa nada?” Significou muita coisa quando Césinha, o primo da Sra. Sampaio, foi preso com dezoito anos fumando maconha na praça. Foram cinco anos de cana. Nunca mais ele se recuperou. Significou muito para o Tio Joe, que começou assim e hoje é viciado em crack. “Que mané planta. Que outros tempos coisa nenhuma.” Vai pra cadeia sim. Não tem essa. É crime. Contra a lei. Vicia. Mata. “A única coisa que mudou  aqui é que você está metido com essa merda.” É coisa de vagabundo. Ninguém nunca viu alguém de bem envolvido com isso. Era como se o apresentador no jornal da noite estivesse narrando a verdade mais verdade de todos os tempos.
    Estupefata era o verbete que melhor definia a Sra. Sampaio. “Me diz que você não vai fazer mais isso, por favor.” Rafael olhou para o outro lado. O Sr. Sampaio bufou. “Conversa com a gente.” Implorou a mãe. E ele dizia: “Eu não deixo de fazer nada por causa disso.” Era um dos primeiros da XXVIV Turma de Biologia da faculdade, tinha um bom estágio, planos. Isso era só diversão, no fim do dia, como uma cerveja. “Como assim?” Não é simples assim. “Você vai precisar de mais, e mais e mais.” Não dá para controlar. É droga. “Em muitos lugares já é legalizado.” “Mas aqui não.”
    Conversa vai, conversa vem. “Meu filho, você não precisa disso.” Agora já parecia possível que o garoto especial fosse um especial com asterisco. “Como eu vou poder ficar tranquilo sabendo que você está por aí com drogas?” O Sr. Sampaio apelava e demonstrava amor ao seu jeito tosco. “Onde você vai para comprar essa porcaria? Olha o tipo de gente que você está se envolvendo.” Se as leis não servem aos interesses da sociedade, ou se as políticas públicas favorecem confrontos sociais, “não são assuntos para serem debatidos em casa”, entre uma família que tenta salvar sua cria. “Isso não é problema seu. Você tem que trabalhar,” finalizou o patriarca.
    Minutos de silêncio. Agonia. Choramingos. “Isso é só uma fase” era a frase que piscava em um luminoso de neon que brilhava dentro da cabeça da Sra. Sampaio. “E enquanto você tiver nessa fase vai ter que se virar sozinho” era a reação que parecia óbvia para um pai, segundo as convicções do Dr. Sampaio. “Tudo bem”, era a forma mais rápida que Rafael via de acabar com a contenda.
    Uma pulga saltou de trás da orelha da Sra. Sampaio gritando: “ele vai embora de casa, ele vai embora de casa.” Dr. Sampaio não se oporia. “Tome um banho que vou arrumar o jantar”, disse a matriarca na esperança de restaurar a harmonia e a família. Rafael levantou e foi para o quarto. O pai olhou para mãe com cara de preocupação, depois ligou a TV. Ela foi para cozinha preparar o jantar.
  • As Três Maravilhas

    Os dias passaram o arrastando por trombadas de sentimentos incontroláveis. Pensava ele estar acima das suas emoções, porém, por pensar estar acima, tirara a mão do mastro, e fora arrastado pelas tempestades sentimentais. Forças destrutivas o empurraram novamente a lama, e se sentira energeticamente imundo. Abrira a porta escrotamente para o mal de si, e violara a regra de sua santidade e perfeição. O mal o rondara, e percebera-se insano.

    Não podia crer que novamente tropeçara… o mesmo ciclo vicioso… a cobra que morde o próprio rabo… a mordida na própria língua.

    Entretanto, o Sagrado com toda a sua Mística o amava. E como uma mulher estéril que sorriu de felicidade pelo fim de sua improdutividade, ao ter um varão, na sua velhice… o Sagrado, assim, pacientemente, e rigorosamente, o educava com AMOR.

    O Místico Amor…

    O Amor do Amante e do Ser Amado… que faz do dois, três, e das três maravilhas uma só PRESENÇA.

    Havia entre eles compreensão e trabalho mútuo… era o pequeno e O GRANDE… o fraco e O FORTE… o encarnado e O IMANIFESTO…, que se despontavam em duas formas distintas, o inferior e O SUPERIOR. Contudo, um dependia do outro para ser visivelmente revelado.

    A Inteligência Superior a ele ofertada o fazia diferente dos demais, por isso, ao cair se levantava rapidamente… O SAGRADO compreendia que os tempos atuais eram ofuscados por uma sombra de trevas e ignorância, e que a LUZ teria como trabalho romper a cápsula de ignorância em que o SER AMADO nasceria, pois não tinha como nascer numa poça de lama sem estar melado por ela… só que ele mesmo (O Ser Amado) estava cansado dessas repetidas quedas na poça suja. Suas quedas eram mínimas em sua totalidade, nada que magoasse alguém, nada que ferisse… nada que matasse… nada de inveja, cacoetes, ou avareza… nada de arrogância, intolerância e cinismo… nada de extrema ignorância ou alienação. Caía contra ele mesmo… caía em sua perfeição, em sua santidade.

    E assim, se magoava e se autopunia, porquanto, almejava o principado. Por isso, os cavaleiros sombrios o perseguiam, e caía, quando, enganado pelo pequeno eu, amante da luxúria, cega e apaixonadamente o dominava. Entretanto, sabia quem era o inimigo, o estudara, o observara… e, também, o compreendeu… e dele mesmo teve compaixão.

    Vira os seus pequenos filhos que ao longo do seu nascimento no mundo das ilusões, nascera de suas traumáticas experiencias. Todos eles estavam berrando e choramingando por comida. O seu filho Medo tinha como iguaria a egoística proteção e isolamento, e a culpa era sua sobremesa favorita; Já a sua filha Ambição se deliciava de glamour, com biscoitos recheados de estrelismos. Porém, o que mais lhe preocupava, era seu filho mais velho Desejo, que crescera além da conta, e, trouxera sua amante Luxúria para habitar em sua morada, e juntos se deliciavam no doce picante chocolate da paixão.

    Notara que alimentar esses filhos seus era trabalho de sua personalidade mecânica e falsa, habitante dos infra mundos, cultivada exatamente por todas as coisas que contraiu e aprendeu em toda sua vida social metropolitana, fixa pelas teias de pontos de vistas alienados a uma realidade criada nos padrões ilusórios do pensar, sentir e agir mecanicamente.

    Sim! Ao se observar e autoanalisar a sua personalidade induzida…, sem sombra de dúvidas em sua mecânica ambiguidade, se percebera homem-máquina… um mero robô-humanoide que trabalha, se alegra, sofre, se droga, goza, come e dorme. E, pensara na etimologia da palavra robô, provinda do russo Работа (rabota), que quer dizer: trabalho, algo meramente mecânico, e percebera que seu instinto não passava disso… uma mera programação… pronta para executar as suas funções animais de prazer e dor. Graças a uma ignorante educação equivocada, que o adestrou a atuar, desde infância, em um frágil mundo de mentiras, em razão dos múltiplos episódios exteriores e de choques aleatórios, que abrolham em seu interior algumas mudanças quase sempre errôneas, ou não coincidentes com o evento em tese.

    E, assim, oculta e perspicazmente se sentara na poltrona da sua existência…, e vira seus malcriados filhos, que, insistindo em crescer em sua persona, desde cedo, assumir o controle da condução de sua vida mecânica, pois, estes, veio a existência unicamente por causa da pressão dos dramas, tragédias e comédias que se apresentam nas telas e palcos da vida. Claramente vira, que por culpa dessa mecanicidade do ser, O SAGRADO perdera sua essência e fragrância, despossibilitando a sua santa e perfeita manifestação harmoniosa, em sua vivência material orgânica. Já que toda forma de ação conscientemente mística-divina, fora substituída pelo automatismo mecânico do individuo social… o chamado cidadão comum.

    Analisara que sua débil e frágil personalidade mecanizada e controlada pelos ‘eus’ criados de si se adaptava a ambientes e pessoas. Escaneando e criando autoimagens em costumes e hábitos moldáveis pelo intelecto, utilizando de discursos e palavras, pensamentos e movimentos ilusórios, que utilizavam de hipnose consciente para o adormecimento da própria consciência.

    Ao se perceber mecanizado, resolvera ir a fonte de tudo que o programava… sentou-se em profundo silêncio, fixando os olhos ao chão… fizera uma pergunta ao universo do seu ser… e, prometera a si mesmo levantar-se, apenas com a resposta. Fixo em sua empreitada, o tempo, destruidor de todo gênero e criações humanas, ali parou. E, percebeu a expansão do seu próprio Ser Divino, além matéria, e viu o quanto era amado e protegido por essa Absoluta Grandeza. Também, junto a essa visão divina, se culpava por não se dedicar totalmente a esse Primeiro Amor… era o Ser Amado, porém, por não ter o Divino Amante por primazia, ainda não o conhecia. E, por ainda não o conhecer em sua Divina Essência, não se tornou o instrumento musical de suas harmoniosas canções… não alcançando ainda o Imanifesto que manifesta tudo.

    Em sua meditação sabia que a viagem era longa, e o trabalho pesado, a vida corpórea orgânica e encarnada tinha que enfrentar o mundo para se livrar de suas rédeas e freios. Sabia que o mundo material não passava de uma escola da alma, por isso, o alienado entretenimento social não o sequestrava.

    E, clamando silenciosamente orou: “Ó Sagrada e Mística Essência Divina que se assenta no trono de meu coração; Grande Sol Central Esplendoroso, mais radiante entre todas as luzes desse plano material; Magnifica Lua Cheia que ofusca as luzes cintilantes de todas as estrelas no imenso escuro dos céus; Consciente Inteligência do Eterno Sentido Divino; Grande Oceano pelo qual desagua todos os rios; Soberano entre as fontes de todos os néctares nascentes; Leão de todas as selvas e pastagens. Ó tu de olhos abertos em todos os lugares, fala-me diretamente sem intermediações, pois, tenho sede de ti. Como poderei eu te conhecer… aqui sentado e meditando?”

    Ali, parado, meditando por horas afinco, nada ouvira… nada vira… e não deslumbrara nada.

    Portanto, sabia que para poder receber as ondas de vibrações harmoniosas do SUPERIOR, primeiro tinha que se domar: educar todos os seus sentidos… peneirar todos os seus pensamentos… frear todos os seus sentimentos… adestrar todas as suas emoções. Se conhecer e ser o senhor de si mesmo, deixando de alimentar os seus ‘eus’ criados, e, assim, matá-los de fome e sede, para que educadamente perceba a superioridade do Pai, e possa o servir com frequente piedade e fé inquebrantável.

    Intentara evolutivamente que a melhor riqueza e nobreza do ser humano é a FÉ. Que seguindo a missão de sua existência no aqui e agora, atrairia a verdadeira felicidade que é independente e indiferente a ter alguma coisa, e ser algo ou alguém de sucesso para viver. Que, interiorizando e espiritualizando cada ação, até o ato de limpar uma fossa de merda pública em reverencia e gratidão, chegaria à maestria e principado. Degustara o doce mel da verdade, e queria obter os melhores dos bens e serviços devocionais, vivendo a vida sabiamente vivida purificando todas as maldades suas e dos demais. Descobriu que pela Fé… atravessaria as tormentas, pela Sinceridade… o mar dos egos e, pela Bonança e compaixão… o outro lado do reino da morte.

    De repente, em sua meditação, o espírito destruidor que o tentava, o inundou de maus pensamentos, gerando em sua mente maus sentimentos. Vira claramente a face do Anjo da Destruição, prateada como a lua em sua feminina forma tentadora, que faz lançar a culpada alma nos infra mundos infernais, e que goza de toda desolação. Ela estava deslumbrantemente irresistível, e cheirava paixão e luxúria. Seu sexo molhado de gozo tentador estava exposto, e latejando desejo o chamava. Sua boca parecia doce como mel, melados de néctar do prazer. No entanto, um pensamento de morte passou como vulto em sua consciência… e, meditando profundamente, enquanto se via nos braços demoníacos da luxúria, freou sua paixão, e disse, dessa vez, em voz audível: “Ó Dona de meu Desejo, como és bela e tentadora, estou agora ardendo de paixão e tesão por ti, porém, sinto seu calor arder como brasa, se me entrego a ti queimarei minha alma em sua chamas mortíferas. Ó Espírito de Tentação! Penso agora em minha morte, e tenho ela agora como fiel companheira. Você não tem mais lugar em mim”. Falando isso, o Tentador se dissolveu diante de seus olhos como um monte areia a esparramar pelo chão.

    A partir daquele dia as três maravilhas abundou o seu ser… de um que era se tornou vários; de vários, um; manifesto ou invisível atravessa sem resistências as paredes, as rochas como se penetrasse uma queda d’água de cachoeira; submergia na terra, e tornava a subir como se fosse o mar; caminha nas águas como se fosse terra firme; voava pelos ares como os pássaros, e sentava nas nuvens como os seres inefáveis; até a lua e o sol inflamados de calor, Ele acariciava com suas mãos, e no mundo dos deuses e semideuses se manifestava em glória; conhecia os homens e lia os seus pensamentos, sabia dos caminhos de sua alma, aquilo que faz elevar e tropeçar, dizendo: “Esse é o seu pensamento e desejo. Isso ou aquilo está em seu espírito. Este é o destino que te espera.”; E tinha sabedoria e inteligência para instruir e adestrar qualquer alma vivente.

    E assim, se manteve calmo e sereno em sua iluminação. O AMOR do AMANTE envolveu o SER AMADO, purificando de todas as impurezas acumuladas em seus centros orgânicos. O humanoide de programação emocional, deletou sua atividade efemeramente mecânica, transcendendo o corpo biológico, que agora era o receptáculo do SAGRADO em si mesmo.

    Nada mais o afetava, livrou-se do medo… fez da morte física sua companheira, e matou-se a si mesmo, renascendo das cinzas do sofrimento, se purificando nas águas do arrependimento, emergindo no ar do Sagrado Conhecimento… não por estar isento de emoções e sentimentos. Mas, unicamente por se livrar do corpo mortificado do desejo… que, ilusoriamente se ajoelhava perseguindo o prazer, e alienadamente orava fugindo da dor.
  • Assassino Familiar

    Todos estavam festejando e brindando com as suas caras garrafas de champanhe em um pequeno círculo. Era fim de ano e toda a família estava comemorando por estarem bem e juntos em uma bela cobertura de frente para o mar. Não era uma família muito grande, tendo uma esposa e seu marido, que tinham uns 45 anos, e seus 4 filhos: um casal de gêmeos com 20 anos, uma menina com 18 e um menino de 15 anos. Antes mesmo da meia-noite e ainda com vários pratos à disposição para serem devorados, todos estavam dormindo e nem os fogos de artifício que brotavam de todos os cantos foram capazes de acordar essa família.
    O primeiro a acordar foi o jovem de 15 anos. Ele abriu os olhos bem devagar como se as suas pálpebras pesassem dezenas de quilos e percebeu que ainda estava de noite. Ele tentou se levantar jogando um dos braços para a frente para se apoiar no chão, mas não conseguiu e acabou com a cara no chão. Na queda, mordeu a língua e uma dor aguda foi direto para o seu cérebro, fazendo todos os músculos faciais se revirarem. Foi aí que percebeu que os seus braços e pernas estavam amarrados de maneira bem firme, chegando inclusive a doer um pouco. E o cheiro, o cheiro também era forte e confundia os sentidos. Ele vinha de todos os lugares: das roupas, das paredes e da enorme poça em que estava sentado. Finalmente percebeu que estava em uma piscina inflável que nunca tinha visto antes com outras três pessoas ainda desacordadas. Piscou algumas vezes tentando aumentar a velocidade dos seus olhos para fazer com que o seu cérebro pegasse no tranco. Depois de uma dezena de piscadas, percebeu que o cheiro era de gasolina. E que não era pouca, pois parecia que tinha uns três postos à sua volta em um dia bem movimentado de promoção. Sentiu o seu estômago se revirar por causa do cheiro e do medo crescente. Os seus olhos começaram a marejar, mas pouco antes de sua visão ficar encoberta pelas lágrimas identificou que aqueles que estavam ao seu lado eram a sua família com a exceção dos gêmeos.
    Ele não tinha forças o suficiente para voltar a ficar sentado, então foi tentando se virar de barriga para cima para tentar achar os seus irmãos. Quando se virou para o lado oposto, o seu rosto ficou paralisado tentando entender o que estava acontecendo. Ele viu a sua irmã segurando uma faca enquanto encarava o gêmeo que estava amarrado em uma cadeira de madeira. Ela sorria com os seus olhos vidrados no gêmeo, sem desviá-los nem mesmo por um segundo. Ainda deitado no chão, ele tentou falar alguma coisa, perguntar o que estava acontecendo, o porquê disso tudo ou qualquer outra coisa que levasse a algum diálogo, mas só conseguiu balbuciar alguns sons sem sentido. Foi o suficiente para que ela virasse o rosto. Embora os seus olhos parecessem aterrorizados, o sorriso macabro continuava em seu rosto. Ela deu alguns passos em direção a ele e ao resto dos seus familiares amarrados, mas repentinamente e bruscamente parou na metade do caminho. Ficou os encarando por uns 10 segundos antes de começar a falar:
    — Finalmente acordaram para o show! — a sua voz estava trêmula — Não é nada pessoal com nenhum de vocês, só quero me divertir um pouco. Se me deixarem em paz, a vida continuará! — ela voltou a andar na direção deles, levantou o irmão que estava no chão o deixando sentado e depois deu as costas e voltou a encarar o seu gêmeo. Durante toda a fala os olhos dela estavam marejados e assustados, mas o sorriso maníaco não saiu em momento algum.
    Todos da família estavam assistindo atentamente cada movimento que ela fazia sem pronunciar nenhuma palavra. Ela ficou olhando para uma mesa que, pela distância, a sua família não conseguia saber o que tinha nela. Depois de quase um minuto em que ficou quase sem se movimentar, a não ser por uns leves movimentos de não com a cabeça, ela pegou um martelo e um prego de uns 8 centímetros, posicionou o prego no joelho do gêmeo que não parava de repetir a palavra “não”, tomou distância com a mão, disse “sim” e com apenas uma martelada enfiou o prego inteiro bem na articulação do joelho. O gêmeo deu um enorme grito de dor e recebeu um soco por causa disso. Ele chorava como um recém-nascido e, talvez por causa do barulho, ela amordaçou o gêmeo. Os seus pais começaram a implorar para que ela parasse e por isso foram amordaçados também. Os outros dois irmãos não emitiram nenhum som. Eles olhavam, mas não acreditavam. Talvez pensassem que era um pesadelo ou que tinha alguma droga alucinógena no champanhe, aquilo só não podia ser real. Mas para o gêmeo era real e ficava ainda mais a cada minuto que passava e a tortura aumentava.
    Logo quando terminou de amordaçar os pais, voltou para o gêmeo e pregou o outro joelho dele. A família tentava desviar o olhar, mas sempre um acabava vendo alguma parte da tortura. As unhas sendo arrancadas lentamente com alicate ou rapidamente com pedaços de madeira embaixo delas, os diversos cortes feitos pelo corpo, a órbita ocular sendo arrancada com uma colher, a língua sendo arrancada com uma faca quente e as articulações sendo rompidas uma a uma. Essas foram apenas algumas das que eles tiveram estômago para ver. Normalmente elas aconteciam depois de um momento de alívio quando tudo ficava em silêncio. Esse silêncio era a esperança de que o gêmeo tinha morrido e que o seu sofrimento tinha acabado. Mas em todas as vezes ele só tinha desmaiado e em todas elas o gêmeo era obrigado a acordar seja por injeções de adrenalina ou por cheirar amônia, a tortura tinha que continuar.
    Ela só acabou depois de umas duas horas quando ela encharcou o corpo do gêmeo com gasolina e ficou parada na frente de todos com o seu maldito sorriso e com lágrimas saindo dos seus olhos.
    — Todos nos comportamos muito bem e por isso vamos sobreviver. Logo tudo isso irá acabar e poderemos voltar a viver nossas vidas normalmente. — Ela acendeu o isqueiro e ficou com ele no ar de olhos fechados enquanto as lágrimas aumentavam. Depois de uns quinze segundos a sua mão ficou mole e o soltou, caindo em uma poça de gasolina no chão e iniciando um incêndio sobre o corpo do gêmeo. Todos da família assistiam sem acreditar no que os olhos viam, quietos, pasmos. Eles viram o fogo atingir primeiro as pernas do gêmeo, fazendo com que os músculos da panturrilha se contraíssem em meio aos gritos de dor. Quando o fogo atingiu a barriga e o peito, os punhos já estavam fechados, mas os músculos da nuca se enrijeceram forçando o pescoço a virar a cabeça para o alto como se os seus gritos praguejassem contra um deus cruel. Até que um silêncio quase total atingiu a cobertura, a não ser pelos choros e pelo baixo estalar do fogo. O gêmeo agora parecia uma estátua de pedra completamente cinza e sem vida, mas que ainda transmitia a dor e o sofrimento que a artista queria provocar.
    Logo depois que os gritos acabaram, o resto da família foi dopada novamente e posta para dormir. Eles só acordaram quando a polícia chegou e todos esperavam que os policiais dissessem que tinha sido só um pesadelo. Quando era confirmada a realidade, o choro intenso voltava a acontecer. A gêmea também foi encontrada desacordada e quando voltou a consciência não parava de repetir que foi forçada a fazer tudo. Durante os depoimentos da família à polícia, tudo a apontava como culpada, mas ela insistia em sua inocência. Segundo sua versão, ela também foi dopada e acordou um pouco antes de todos. O seu irmão gêmeo já estava amarrado e, por mais que tentasse, não conseguia tirar o sorriso do rosto que parecia pregado na face. Foi aí que começou a ouvir uma voz em seu ouvido direito como se tivesse outra pessoa falando em um ponto nele. Era essa voz que estava ordenando cada ação que ela fazia e, se sequer hesitasse em obedecer, a voz dizia que toda a sua família iria sofrer e morrer por culpa dela. Então ela teve que decidir quantos iriam morrer e ela optou pela opção que tinha menos vítimas.
    Apesar de uma extensa investigação, nenhuma prova que sustentasse a versão dela foi encontrada. Não havia sinal de toxinas em seu organismo que pudessem ter causado o sorriso e nem algum vestígio de qualquer equipamento eletrônico que pudesse justificar as vozes em seu ouvido. Quase toda a sua família acreditava que ela era um monstro, com exceção do seu irmão que se apegava ao terror que viu nos olhos dela no dia do ano novo. Mesmo com o apoio dele, ela foi condenada a quase cem anos de prisão em um hospital psiquiátrico. Será nele onde passará o resto de sua vida como uma vilã sádica para alguns e, para outros, como uma heroína que se sacrificou para que sua família pudesse sobreviver.
  • B A I I S C T N Â

     

     

                           B                              A

                              I                         I

                                 S               C

                                     T       N

                                         Â

     

     


                         
                        t e l e              v i s ã o

     


                        t e l e             v a z ã o

     


                        t e l e              v a z i o

     

     

     

     

     




    ..................................................................................................................................

    © "Copyright" do Autor, IN: Concursos literários do Piauí. Teresina, 2005, Fundação Cultural do Piauí. 226 p. Página 188.
  • Bate-papo [conto]

    [21:23:59] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: Oi
    [21:24:15] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: ola
    [21:24:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tudo bem?
    [21:24:31] M amizade entra na sala.
    [21:24:45] h mama h diz para Todos: algum cara aí afim?
    [21:25:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: sim e vcs?
    [21:25:27] coroa safado entra na sala.
    [21:25:40] Moreno22 diz para Todos: aumente seu pênis de forma natural. {www.penislandia.cz}
    [21:25:47] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tbem
    [21:25:53] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: da onde tcm?
    [21:25:55] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:26:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: ZS e vcs?
    [21:26:07] Carol15 entra na sala.
    [21:26:10] KRALHUDO fala reservadamente para Ele&Ela: 19cm de rola para esposinha e maridão…...afim?
    [21:26:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: ZN
    [21:26:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: quantos anos vcs tem?
    [21:26:47] Hserio entra na sala.
    [21:26:54] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: eu 32 e ela 35 e vcs?
    [21:26:59] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:27:13] Safado CAM1 entra na sala.
    [21:27:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: eu 38 ele 42
    [21:27:32] Coroa safada diz para h34: tenho muita coisa para te ensinar ahahhaha
    [21:27:45] Kzado quer entra na sala.
    [21:27:48] Loirinha sai da sala.
    [21:27:53] Macho sai da sala.
    [21:28:10] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:28:20] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: o q vcs fazem?
    [21:28:33] Gordinho T entra na sala.
    [21:28:47] Einsten entra da sala.
    [21:28:55] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: somos liberais, gostamos de fazer tudo
    [21:29:13] Safado CAM1 fala reservadamente para Ksal Discreto: quer ver um homem de verdade fuder sua mulher seu corno?
    [21:29:33] Mulher entra na sala.
    [21:29:42] Hserio fala reservadamente para Ela&Ele: oi
    [21:29:50] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:29:53] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: legal, mas eu quis dizer no q vcs trabalham rsrsrs
    [21:30:10] Marta ZO entra na sala.
    [21:30:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: rsrsrs eu sou arquiteta e ele é advogado e vcs?
    [21:30:33] h mama h diz para Todos: algum cara afim?
    [21:30:49] Paola entra na sala.
    [21:30:57] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: sou empresário e ela é médica
    [21:31:04] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: vcs tem filhos?
    [21:31:24] Einstein sai da sala.
    [21:31:37] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: temos 2 e vcs?
    [21:31:45] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: legal, nós temos 1
    [21:31:50] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: até por isso a gente quer ser discreto
    [21:32:04] Coroa safada diz para Safado CAM1: vamos
    [21:32:10] Hilda Hilst entra na sala.
    [21:32:17] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: nós tbem gostamos de ser discretos
    [21:32:23] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: não vamos em casas de swing ou coisas assim
    [21:32:30] Maduro entra na sala.
    [21:32:42] H22cm diz para Todos: cavalo comendo famosa sem vaselina {www.animalfuck.jh}
    [21:32:57] Carol15 diz para Todos: alguém quer tc?
    [21:33:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: nós tbem não
    [21:33:10] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: como vc são?
    [21:34:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: eu 1,70m, 65kg, loira e olhos castanhos, ele 1,85m, 93kg, moreno e olhos castanhos e vcs?
    [21:34:25] H pintudo sai da sala.
    [21:34:07] Hilda Hilst diz para Todos: alguém aqui quer só tc?
    [21:34:16] Hserio diz para Hilda Hilst: oi
    [21:34:40] Marcelo sai da sala.
    [21:34:59] Carol15 diz para Maduro: não
    [21:35:05] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: eu 1,80, 80kg, loiro e olhos castanhos, ela 1,75, 68kg loira e olhos verdes
    [21:35:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: o q vcs procuram?
    [21:35:34] h mama h diz para Todos: algum cara aí afim? tenho local na ZN
    [21:35:43] paulo17 sai da sala.
    [21:35:55] Safado CAM sai da sala.
    [21:36:10] H66 diz para Madura CAM: vc é homem seu viado
    [21:36:13] H66 diz para Todos: cuidado!!!! a Madura CAM é uma bixa loca
    [21:36:30] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:36:40] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: uma aventura com um casal discreto e vc?
    [21:37:13] H pintudo entra na sala.
    [21:37:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: isso aí tbem rsrs
    [21:37:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: uma aventura sem compromisso
    [21:37:30] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: vcs já saíram com outros casais?
    [21:38:05] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: não, e vcs?
    [21:38:30] M inversão diz para H66: me dexa em paz seu escroto
    [21:38:40] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tbem não
    [21:38:55] renato bi sai da sala.
    [21:39:03] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: o q vcs quiseram dizer quando disseram que gostam de fazer tudo? rsrs
    [21:39:19] Evangélica amizade sai da sala.
    [21:39:30] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:39:50] M inversão sai da sala.
    [21:40:18] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: nós dois somos bi, gostamos de tudo entre 4 paredes rsrsrs
    [21:40:30] Hserio sai da sala.
    [21:40:47] Mario 47 entra na sala.
    [21:41:09] PAU DURO CAM sai da sala.
    [21:41:30] Moreno22 diz para Todos: aumente seu pênis de forma natural. {www.penislandia.cz}
    [21:41:51] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: do que vcs gostam?
    [21:42:03] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: a gente estava pensando mais em uma troca de casais
    [21:42:13] Caroline entra na sala.
    [21:42:31] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: podemos fazer várias trocas rsrsrs
    [21:42:47] Elton21anos sai da sala.
    [21:43:11] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: não sei, nunca transei com outro homem
    [21:43:21] DotadoCAM entra na sala.
    [21:43:30] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: minha esposa disse que já transou com outras mulheres na faculdade
    [21:43:40] DotadoCAM diz para Mulher Perdida: oi
    [21:43:43] DotadoCAM diz para h passivo: oi
    [21:43:48] DotadoCAM sai da sala.
    [21:44:11] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: as coisas acontecem de forma natural
    [21:44:19] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: o q rolar rolou rsrsrs
    [21:44:32] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: seu marido sai com outros homens sempre?
    [21:44:50] Hilda Hilst sai da sala.
    [21:45:09] Matheus sai da sala.
    [21:45:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: não, a gente tem uns brinquedinhos para se divertir
    [21:45:30] Ninfa diz para Todos: famoso confessa que gosta de transar com cabras {www.semvergonhadacabra.hg}
    [21:45:48] Caroline diz para Ksado43: 18
    [21:46:12] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: desculpem, mas acho que isso não vai dar certo
    [21:46:22] Caroline diz para Ksado43: q nojo
    [21:46:34] Caroline sai da sala.
    [21:47:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tudo bem
    [21:47:22] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:47:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: até
    [21:47:30] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: até
    [21:47:45] Ksal Discreto sai da sala.
    [21:47:55] Ela&Ele sai da sala.
  • BBB DO FUTURO

    Teremos três casas nessa edição.
    Os participantes não saberão da existência das outras casas.
    O público somente saberá das três casas, quando o programa for ao ar.
    Somente os eliminados da casa 01 e da casa 02 saberão que existe a casa 03.
    CASA 01 – É exatamente conforme as edições anteriores. Sendo que, o eliminado entrará diretamente na casa 03. Mas os brothers da casa 01 não saberão.
    CASA 02 – É exatamente conforme as edições anteriores. Sendo que, o eliminado entrará diretamente na casa 03. Mas os brothers da casa 02 não saberão.
    CASA 03 – Os eliminados das casas 01 e 02 concorrerão a um segundo prêmio: Haverá diversos jogos para eliminação definitiva. A eliminação se dará por pontuação, quem tiver menor pontuação estará eliminado.
    ELIMINAÇÃO (CASAS 01, 02) - Não teremos mais provas do líder e do anjo. Teremos pontos alcançados para conseguir ficarem imunes (a se definido a quantidade de brothers para imunidade).  A indicação ao paredão será feita pelo público e o próprio público indica quem sai das duas casas (em dias diferentes). Nos dias de eliminação, o público vota quem estiver no paredão das casas 01 e 02, dando-se em dias diferentes: sábado e domingo. A eliminação fica terça e quarta.
    IMUNIDADE (CASAS 01, 02): Será totalizado o maior número de pontos, onde esses pontos serão somados de acordo com o desempenho, conforme uma tabela anunciada desde o início do jogo, onde somente o público saberá da existência. Os brothers nunca saberão o porquê de estarem imunes. Alcançaram os pontos necessários para isso, de acordo com a tabela.
    TABELA (CASA 01, 02) - A tabela analisará questões como: BOM COMPORTAMENTO, BOM COMPANHERISMO, BOM RELACIONAMENTO INTERPESSOAL, DISPOSIÇÃO PARA TRABALHAR, EMPENHO NOS TESTES E ETC.
    PROVAS (CASA 01, 02) - Teremos uma única prova na semana. O grupo perdedor terá além da comida racionada, a obrigação da limpeza total da casa. Preparação das refeições do grupo vencedor e aquecer a água quando alguém for tomar banho (caso o programa queira seguir a linha autossustentável). Nas festas estão livres para comer e se divertir, mas a limpeza também do pós-festa, no dia seguinte, será também por conta do grupo perdedor.
    PROVAS (CASA 03) – Segue os reality anteriores, tais como: NO LIMITE e HIPERTENSÃO. Poderá ter outro apresentador somente para a casa 03. Corroborando com o apresentador das CASAS 01 e 02.
    Obs: Os habitantes da casa 01 poderão ser os participantes das edições do BBB anteriores: Os mais polêmicos, os mais maldosos, os mais chatos.
    Os habitantes da casa 02 poderão ser os costumeiros selecionados, conforme já é feito.
    O prêmio poderá ser dobrado, já que a participação do público será muito maior, como também o tempo ao vivo.
  • Bistância

    tele   visão
    tele   vazão
    tele   vazio
  • Broto de Bambu

    velha na janela 1



    R. B. Santos / Dezembro,2016.

    Revisão: Luísa Aranha
    Agradecimentos Especiais: “SSEV” – Sociedade Secreta dos Escritores Vivos (Obrigado Camila Deus Dará).



     
    Para ela: “Que dividiu um pão em cinco, fazendo parecer, que eram dez. Por mais de uma vez. Obrigado Mãe”!




    BROTO DE BAMBU

     
     
    O bairro era bem simples, desses de periferia em cidade grande. Onde gente conversa tão alto, que até parece briga. Cachorro late de noite e de dia. Neste, até galo tinha. A rua onde se passa a história não era nada comum, em formação de “S”, com calçadas estreitas, um lugar pobre. No final, logo depois da segunda curva, não bastasse o que faltava de bom, havia ainda uma “boca de fumo”. O vai e vem era constante.

    Num sobrado, mais ou menos no meio da rua, morava Dona Raimunda. Havia duas janelas que davam para a parte da frente. Com isso conseguia uma visão privilegiada de boa parte do local, e também, dos vizinhos e transeuntes.  Era uma senhora já de idade, devia ter mais ou menos uns sessenta para setenta anos, ninguém sabia ao certo. Adorava ficar espiando e conferindo a rotina das pessoas. Gostava tanto, que ás vezes passava da hora de almoçar. Sua filha reclamava, mas ela não ligava. Acordava bem cedo, passava o café, em coador de pano para dar mais sabor, comia dois pedaços graúdos de mandioca cozida, que a manteiga derretia, e se debruçava no seu local predileto. Sua boa e velha janela, “melhor que televisão”, pensava ela.

    “Lá vem ele! É o Sr. José! E pelo jeito, bêbado de novo, logo cedo. Trançando as pernas, mas não cai o desgraçado. Podia cair! Dizem que sorrir faz bem para as rugas, e eu bem que estou precisando. Velho sem vergonha. Nessa idade. Também, a de se entender, não é. Com tanta galha que a mulher colocou na cabeça do homem, não se admira que ele beba. Talvez para esquecer, ou para enlouquecer mesmo”.  Não poupava críticas, ela era assim sem piedade. E continuava enquanto um rapaz caminhava descendo a rua.
    “Agora é o outro. O maloqueiro do Luis Castân. Nem morar aqui mora. Pensa que eu não sei. Vai buscar maconha o safado. E deve até cobrar por isso. Não é possível alguém fumar tanto assim e não morrer. Pela quantidade de vezes que ele sobe e desce, quem sabe não abriu uma concorrência e cobra mais caro. Só pode ser isso. Não vejo outra explicação! É traficante, é sim”.

     O jovem passou em frente da casa, fez menção com a cabeça em cumprimento e seguiu rua abaixo. Dona Raimunda limpou os óculos no vestido, para melhorar a visão, e olhava agora para a parte de cima da rua.

    “A Sofia nunca mais vai arrumar marido. Depois que inventou de trabalhar fora e fazer faculdade, as brigas com o cônjuge só aumentaram. Brigaram, brigaram tanto, que ele não aguentou e foi embora. Não demorou um mês e a franga já está com outro. Veja que falta de vergonha, os dois num agarro só em frente ao portão. Aposto que já eram amantes”.
    Do outro lado da rua, numa casa térrea e com uma grande área murada na frente, Ivete abria o portão para o amigo Carlos que acabara de chegar. Como o muro era baixo, ficaram ali, apoiados. Papeando e vendo o movimento. Podiam ver a Dona Raimunda dali, mas com certeza, ela não conseguiria ouvi-los. Havia certa distância entre as casas, e a anciã já não escutava muito bem. Ivete, em voz baixa, foi a primeira falar.

    - Veja só, Carlos. Mal amanhece o dia, e lá está ela. A velha coroca. Cuidando da vida de todos. É assim durante o dia todo, não sai da janela por nada.

    - É mesmo Ivete, eu já tinha prestado atenção. Tem gente que não tem o que fazer. Acho que deve ter a vida vazia. – Fez uma breve pausa. - Sabe se a filha ainda mora com ela?

    - Sei lá! Acho que sim. Eu não gosto de ficar reparando na vida de ninguém, tenho mais o que fazer, sabe. A minha já é bastante interessante para mim.  – E com o olhar cerrado na direção da janela, disparou. -Velha rabugenta!

    - Quando essa daí morrer a alma dela vai voltar e ficar nesta janela. Deus me livre! – Observou Carlos.

    Duas semanas depois, coincidência ou não, Dona Raimunda faleceu. Os dois amigos se reencontraram e conversavam no local de sempre, sobre o ocorrido.

    - Ivete! Sabe dizer o que aconteceu com a velha? Do que foi mesmo que ela morreu? – Perguntou enquanto olhava para a janela, agora vazia.

    - Bem, ouvi dizer que foi derrame. Eu não fui ao velório e nem ao enterro. Nunca tive intimidade com a família. E também, não gostava nem um pouco da bruxa. Mas pelos comentários, acho que foi isso sim.

    - Bom... que Deus a tenha. Pelo menos agora a rua ficará mais tranquila. Que coisa! Fazer o que, não é? É o destino de todos nós. – Colocou uma das mãos na cabeça e arrematou. - Ah!... E antes que eu morra também, vou indo... lembrei que tenho que resolver uma coisa.

    Quando Carlos saiu e já ia longe, Ivete ficou por ali, observava do muro.

    “Esse Carlos... sei não, hein. Não trabalha, não estuda e nem namora o infeliz! Resolver uma coisa uma ova! Pensa que eu não sei, vai é dar o rabo para o Ricardo. Tenho quase certeza de que esses dois são dois maricas. ” – Esticou o pescoço para ver melhor.
    “Ei! Espera um pouco aí! Quem é aquele?!... É o Senhor José?!... Nossa! E bêbado...  De novo...”






    --xx--

    Mais sobre o autor:
    http://caminhantesdasletras.blogspot.com.br/





  • Café Amargo

    O café da manhã estava frio e sem açúcar. Pela janela, olhei para baixo e vi que a movimentação nos becos onde a droga é distribuída estava amenizando, indicativo de que essa era a hora de sair.  Cumprimentei o Jô,  dono da mercearia, e fui para o ponto de ônibus. Demorado, como sempre, ainda olhei para a janela do quarto onde eu moro para ver se não havia ninguém lá, apesar de morar sozinho. É uma dessas paranoias de quem mora na periferia violenta. Mas o bairro está crescendo, e com ele a bandidagem, não há porque não ter paranóia.
    Depois de três terminais cheguei ao trabalho na agência (de emprego, não de publicidade), e lá deparei-me com as filas imensas de gente para “fazer ficha”. Às vezes tenho vontade de dizer: “Quer fazer uma ficha vá à delegacia mais próxima, quem sabe até eles já não tenham uma sua lá?”. O bom senso predomina e eu fico quieto. Especificamente neste dia fiquei quieto porque cheguei atrasado, e com isso a fila já estava bastante avançada. A crise aumentou o nosso trabalho, sem perspectiva de aumentar o nosso faturamento. Fato que, por consequência, não me dava esperança de aumento de salário.
    Eram onze horas quando chegou um candidato diferente, bem vestido, óculos escuros, currículo digitado, nem precisou fazer a ficha. “Quero trabalhar de gerente, tem alguma vaga?”. Após ler o seu currículo, percebi que ele era, na verdade, auxiliar de escritório. Queria trabalhar de gerente porque estava de terno e gravata? Procurei ser direto: só tinha vaga para auxiliar de escritório, nem precisaria do terno. Ele retrucou num tom de superioridade, mas com aquela gentileza que suprime o ódio: “Creio que não tenha observado, estou fazendo faculdade, olha só, está bem aqui”, disse, mostrando com o indicador no papel que me entregara, e que naquele instante eu tive vontade de amassar e jogar naquela cestinha de basquete que eu tenho atrás da porta da minha sala. É para lá que eu mando aqueles currículos que não tem jeito, ou que eu não gosto por algum motivo, preciso desenhar um garrafão no chão, nunca sei quando minhas cestas valem três pontos. Fui tomado pela ironia naquele momento: “Senhor... Luis Carlos, muitos auxiliares de escritórios que encaminhamos para as empresas estão fazendo faculdade, principalmente de administração, como o senhor. Não há cargos de gerente para pessoas que não sejam formadas e não tenham experiência com supervisão”.  Ele tirou os óculos, meio desacreditado, levantou, tirou o currículo da minha mão, saiu e não falou mais nada.  O pior é que ele levou o currículo, perdi dois pontos na cestinha.
    No dia seguinte, o café estava do mesmo jeito, frio e sem açúcar. Acordei mais cedo para dar uma olhada de graça nas matérias do jornal, que ficam expostas na banca, ao lado da mercearia do Jô.  Tinha bastante gente, estava difícil de ler, quando a voz amiga do Jô me chamou: “Veja isso, aconteceu ontem numa faculdade no centro”. Um homem de terno e gravata invadiu a secretaria da faculdade e matou três funcionários, feriu o diretor e dois professores. Foram seis tiros ao todo, calibre 38. Pelo menos o cara conseguiu fugir, vivo torcendo pelos bandidos nestas histórias, talvez pela minha proximidade e convivência com muitos deles. Não havia fotos na matéria, logo me desinteressei, agradeci o Jô pela olhadela no jornal e corri pegar o desgraçado do ônibus lotado. Na agência (de emprego) a fila já começava a dobrar o quarteirão, crise terrível, só aumenta o trabalho.   O homem bem vestido do dia anterior era o primeiro da fila. Irritei-me ao vê-lo, logo cedo. Enquanto eu abria minha sala, já ia adivinhando o que o safado ia me dizer: “Pensei melhor e quero a vaga de auxiliar de escritório”.  Luis Carlos entrou na minha sala, fechou a porta, sentou calmamente e me falou, em tom sereno: “Pensei melhor, e quero a vaga de auxiliar de escritório”, deixou o currículo sobre a minha mesa. Estava com uma cara horrível, parece que não tinha dormido à noite, a roupa estava amassada, a cara amassada, o currículo também estava amassado, e eu não podia encaminhar um candidato naquelas condições. Desta vez fui mais duro com ele: “Sr. Luis Carlos, o senhor precisa ir para casa descansar, dormir um pouco e trocar essa roupa, está suado, não tomou banho, não deve ir assim a uma entrevista, não o atenderei hoje, volte amanhã e se ainda houver a vaga lhe encaminho à empresa”. Silêncio.
    Ele se levantou, enfiou a mão no paletó, tirou então os óculos do bolso e pegou novamente seu currículo, mais uma vez a cestinha ia ficar na saudade, saiu e bateu a porta.
    Depois deste atendimento fiquei pensando: porque não adocei mais o meu café?
  • Calidoscópio

    para tia Francisca Miriam

    Do outro lado    odal ortuo oD

    Ohlepse on ameop o    o poema no espelhO

    Não esconde nada    adan ednocse oãN

    Sarvalap sa euqrop    porque as palavraS

    São apenas um jogo    ogoj mu sanepa oãS

    Oãça-snegami ed    de imagens-açãO

     

     

     

     

     

     

     

     





    ..................................

    © "Copyright" do Autor, IN: Concursos literários do Piauí. Teresina, 2005, Fundação Cultural do Piauí. 226 p. Página 192.
  • Calos e asfalto

    Calos e esfaltos
    Atenta se ao que é verdadeiro
    Desvie a névoa de sua cabeça
    Seja eu,seja você um
    Inteiro

    O sonho da vida,o escândalo da morte
    Réquiem de uma lembrança dos dias elubriantes de sorte

    Em dias que me falta o coração, me farda em desconstrução,em nada assosego, nem ego.
    Se não sua voz como passarinho que me apego

    Calos que beijam o asfalto/ em números iguais rolam os dados
    Sem armas sem palavras não somos soldados!

    Em tempos de guerra ou de paz, Lennon protestava...
    Com calos beijando o asfalto,eu ainda penso que de nada adiantava.

    Quem terás um julgo maior que o meu?
    Quem me julgas todos dias ímpares,se não eu?!
    Porque me pesa os pesares, porque diabos devido as circunstâncias não tenho dias pares?

    Porque a mim me questiono como se eu fosse uma maldita esfinge?
    Nem se quer conheço o Egito,nunca conhecerei .
    Esfinge que se aflige , que às vezes finge

    Carrego todas as dores do mundo! 
    Ah claro que não!!
    Não existe dores quando não se é o mundo
    Quando pisa o raso e não o fundo.

    Dylan ainda escreve,nem sei porquê
    E eu...
    Eu ainda me julgo 
    Nem sei do que.
  • Cão Morto

    Muito morto, tanto quanto pode ser. Sim. E mais: Contente.
    Senti uma bofetada no rosto. Ele não, estava morto. Um morto não se assusta com um vivo, muito menos aquele desvivido, bravo. Negaram, abandonaram, maltrataram e por fim, mataram-no. E mesmo assim, permanecia como um monumento anônimo numa rua perdida de uma Curitiba estranha. Olhos escancarados em desafio inconveniente à vida que lhe foi tão custosa, a língua para fora estancando um sorriso macabro.
    Voltando ao golpe. Fui pego de surpresa, mas é redundante, golpes são assim. Eu que, arrogantemente, andava em plena vida nesse mundo de imortais, me virei, dei de cara com a morte. E ela me esbofeteou. Justo. Sem aviso ou mensagem, interrompi sua peça póstuma em ousadia digna de gente. Como quem não quer nada adentrei em sua morada e chutei o trabalho de sua, ironicamente, vida.
    Mas foi ela (a vida) quem primeiro me bateu, a fragrância de milhões e milhões de seres vivos lutando uma batalha infinda pelos restos do cão, excretando compostos dos mais variados e malcheirosos. Desculpa, menti, afinal a vida e a morte são a mesma donzela, e seu tapa era igual. E ele ria, em deboche. Ele? Sim, o cão.
    Porque, fruto do desprezo de milhares de pessoas estava ali, morto mas nunca tão cheio de vida, contra a vontade de todos que empinaram o nariz a ele. Havia vencido. Pela ação de milhões de decompositores cada pedaço de matéria em sua carcaça renasceria, era imortal e isso lhe dava certo contentamento a morte e a vida que teve.
    Um dia, pensei eu afagando o rosto moralmente doído, ele será gente, e empinará o nariz para aqueles que um dia lhe foram irmãos no abandono. Ai eu entendi. Tempos atrás, havia sido cão e, algum dia, amaldiçoei essa raça esnobe e estranha que me negava. Ironicamente, em uso do ciclo interminável da matéria, eu renasci gente e tive a chance também de negar meu passado oculto. Devo tê-la tomado, não lembro, o que torna o pecado ainda pior.
    Ele ria entre moscas e tive pena, por fim. Meu rosto já esfriava, o dele era o próximo. As mil próximas vidas lhe custariam muito mais que essa, ele ria, morto, contente, inocente.
  • Chorar nem sempre é tristeza

    Hoje eu choro. Não de tristeza, com nó na garganta ou coração apertado, não pense que seja esse o motivo, não é esse sentimento que aparece de repente quando estamos juntos e você carinhosamente enxuga meu rosto ligeiramente umedecido. Choro pois no meu peito já não cabe tamanha felicidade. As lágrimas são apenas o modo que meu coração encontrou de conseguir se expressar com o mundo, com você. Não o intenda mal, não procure explicações quando estiver comigo e meus olhos começarem a encher d'água, parecendo que o simples fato de você contar sobre sua vida tenha acabado virando um filme dos mais tristes, assim como foi quando achei que o Nemo tinha morrido. Não é isso. É o fato de você dividir comigo tuas historias, tuas bizarrices, tuas dúvidas, medos, me fazendo entrar no seu mundo. Pra isso, se faz necessário entrar de corpo e alma lavados. Eu choro. Não se assuste quando estiver rindo, compulsivamente de algo, com aquela tua risada capaz de alegrar qualquer dia ruim e eu apenas estiver com sorriso de canto e os olhos marejados. Não é mal humor, ou por ser ranzinza, apesar de ser frequentemente assim. Mas toda vez que você ri me da vontade de chorar, não de tristeza, mas pelo fato do seu sorriso me inundar por inteiro em algo que realmente não tenho como explicar. Eu choro. E choro, sem vergonha de despir sentimentos pra você, não tenho problemas em deixar teu travesseiro encharcado. O deixo assim para que no momento que deitar para dormir se sinta imersa no mar que me encontro, navegando assim meio sem rumo, mas sendo guiado pelos teus olhos.
  • Chuppi Chuppi

    (Texto retirado dos relatos da invasão)...a verdade é que, um mês após a invasão, cidades pequenas do interior do país ainda não sabiam que estávamos sobre dominação alienígena...
    'Respeitável público! com vocês a nossa melhor e única atração, o palhaço Chuppi Chuppi'! - disse o palhaço mestre de cerimônias. Em seguida um estranho e grotesco palhaço entrou correndo no palco. O público em questão era formado só por crianças, as mais velhas aparentavam doze ou treze anos. A maioria tinha entre seis e sete. Todos choravam.
    Chuppi Chuppi era, sem sombra de dúvidas, o palhaço mais feio e grotesco que aquelas crianças já viram na vida. Vestia, por cima de sua roupa tradicional de palhaço, um grande avental de borracha ou plástico, desses que açougueiros e desossadores usam em matadouros. Na boca trazia uma máscara de cirurgião suja de sangue. Por traz da máscara um enorme volume deixava adivinhar uma boca excessivamente grande. Era extremamente medonho e assustador.
    Tentando fazer o seu 'espetáculo' Chuppi Chuppi se tornava mais grotesco ainda: corria, pulava, tentava dançar; mas com aquelas pernas curtas e grossas era quase impossível. Via-se que não tinha o menor traquejo para o ofício. Séria engraçado, de tão tosco que era, se não fosse pelo enorme cutelo que trazia em uma das mãos como que para lembrar a quem, por ventura, pudesse ter esquecido da seriedade da situação...
    Quantas vezes já tinham visto aquele 'espetáculo'? Não sabiam dizer, tampouco sabiam precisar a quantos dias estavam ali; seis, sete talvez... Alguns mais de dez dias!
    Três vezes ao dia ele vinha, todos os dias. Três crianças ele levava, todos os dias. Apesar do desfalque diário de três crianças a tenda curral estava sempre cheia.
    'Calem as bocas seus bebês chorões', disse uma voz que vinha do fundo do palco. Mas não era isso que eram mesmo, bebês chorões? E o que mais podiam fazer? Rezar talvez.
    Rogério rezava. Desde o primeiro dia que chegou ali ele rezava. Tornara-se uma espécie de líder daquelas crianças perdidas. Mas não podia fazer muita coisa por elas ou por ele mesmo, então rezava, rezava e ensinava as crianças menores a rezarem também. Imaginava às vezes que era o Peter Pan e tirava todas as crianças dali voando... Gostaria de poder responder as perguntas frequentes que lhe faziam: 'Onde estão nossos pais?' ou 'Quem são esses palhaços'. Mas não sabia as respostas nem tinha um pozinho mágico que desse asas as crianças. Então só restava rezar; rezar e chorar.
    Cinco minutos exatos após o começo do 'espetáculo' Chuppi Chuppi apontava aleatoriamente para uma criança da plateia. O medo e o terror tomava conta da tenda. A criança escolhida gritava, esperneava, algumas desmaiavam. Chuppi Chuppi rolava no palco de maneira insana. Parecia alucinado com a agonia das crianças. Desta vez, no entanto, a criança escolhida não fez alarde, limitou-se apenas a soltar um riso histérico que resumia a loucura no interior daquela tenda curral.
    _ Até que em fim alguém está se divertindo – disse Chuppi Chuppi em resposta ao riso histérico da criança. E correu gargalhando alucinado pelo palco de madeira.
    Dois outros palhaços vieram por uma porta estreita e levaram o garoto. Uma menina que estava em pé ao lado de Rogério apertou-lhe a mão com força, pela portinhola aberta eles puderam ver as crianças penduradas de cabeça para baixo em enormes ganchos. Cabeça? Bem não podia chamar aquilo de cabeças. Não mais, pareciam uvas passas gigantes cercadas por moscas.
    Após o 'espetáculo' as luzes eram apagadas e as crianças ficavam ali no escuro abraçadas. Ali faziam suas necessidades nas roupas mesmo. Dormiam por exaustão, umas por cima das outras e por cima da sujeira que se acumulavam no chão. Para aqueles que ainda comiam, uma porção de ração diária era entregue pelos palhaços. O cheiro do lugar a cada dia se tornava mais insuportável, beirava a insalubridade. As aparições de Chuppi Chuppi começava a ser um alívio para as crianças que estavam ali a mais tempo levando aquela vida miserável, alguns já pensavam que seria melhor ser escolhido logo de uma vez, acabando com aquela agonia...
    (Texto retirado dos relatos da invasão)...O que facilitou e tornou possível uma rápida dominação alienígena, com certeza, foi o poder telepático que os invasores tinham sobre nossas mentes... A capacidade dessas horríveis criaturas de dominar a nossa vontade foi um fator crucial para nossa derrocada...
    O Circo chegara a cidade a mais ou menos um mês. Foi lindo ver a festa que as crianças fizeram ao ver os caminhões, depois vê-los aplaudindo o trabalho dos palhaços levantando as tendas de lona. Aos poucos a pequena cidade de lona ia sendo erguida, tenda por tenda logo ocuparia todo o descampado. Alguns diziam que já as tendas iam lá nos limites da cidade. Não era um circo era uma cidade circense.
    A cidade, cidade real, era a menor cidade do estado. Talvez do país... mas com as tendas de lona dobrou de tamanho. Quando a cidade de lona estava terminada uma agourenta névoa envolveu as tendas, depois veio avançando pela cidade real como um presságio.
    Quando tudo estava pronto uma apresentação foi organizada apenas para os adultos. Os que foram aquela apresentação não retornaram naquela noite. Na manhã seguinte dezenas de palhaços vieram a cidade real e dominaram os adultos que não tinham ido a apresentação e levaram as crianças a força para as tendas.
    As luzes se ascenderam e Chuppi Chuppi voltou para mais uma apresentação, mais sujo de sangue e ainda mais insano. Após o grotesco 'espetáculo' ele apontou para Rogério. Esse quis gritar mas sua amiguinha apertou sua mão com tanta força que ele desistiu.
    _ Não vá! - disse ela entre soluços – Não nos abandone.
    Uma sensação de impotência invadiu o pobre menino. Mais uma vez a única coisa que Rogério podia fazer era chorar, mas não quis chorar em frente da coleguinha de misérias, engoliu o choro. Dois palhaços vieram buscá-lo como de praxe. Enquanto era levado em direção a tenda matadouro pensava onde estaria os adultos e porque não vinha resgatá-los. 'Pai, mãe se pretendem me salvar essa seria a hora exata', pensou Rogério em voz alta enquanto os palhaços amarravam-lhe as mãos e os pês.
    Rogério, atado como estava, teve tempo para dar uma olhada em volta. Ao percorrer a tenda com os olhos ele viu dezenas de crianças penduradas nos ganchos. Algumas estavam em avançado estado de putrefação e decomposição, as milhares de moscas que habitavam aquela tenda matadouro faziam bem o seu trabalho. As cabeças pareciam terem sido esvaziada, os ossos do cranio estavam afundados dando a Rogério a impressão de uma bola de capotão murcha. Na porta da tenda grandes aves de rapina esperavam pelas carcaças decompostas das crianças que os palhaços atiravam para fora da tenda.
    Quando os palhaços terminaram de içá-lo de cabeça para baixo, Chuppi Chuppi entrou no recinto:
    _ Está com medo? Que pergunta, é claro que está! - a voz do palhaço vinha de forma gutural, Rogério quase não conseguia entender o que ele dizia.
    Chuppi Chuppi então tirou a mascara de cirurgião, uma boca que não era algo humano emergiu, algo entre uma boca de anta e a de uma morsa. Extremamente grotesco e assustador. Rogério sentiu o cheiro que vinha das entranhas daquele estranho ser. Por um instante sentiu que ia desmaiar.
    _ Você me acha feio. Mais saiba que o que vem a seguir será mais feio e assustador. E triste também. Acredite... Para você é claro!
    Nesse instante Chuppi Chuppi soltou uma gargalhada por aquela boca de anta com dentes de morsa que foi a coisa mais feia que Rogério já tinha visto em sua curta vida.
    Chuppi Chuppi então fez um sinal de mão para o casal de palhaços que estava a suas costas, esses retiraram as suas máscaras. Rogério não reconheceu de imediato por causa da pintura, mas com uma olhada mais minuciosa o seu coração se encheu de dor e tristeza. Qualquer esperança que ele tinha de sair daquela situação com vida morreu ali ao perceber que se tratava dos seus pais, ali sobre o controle da fera, como dois zumbis segurando a sua cabeça.
    Chuppi Chuppi levou a sua boca horrenda em direção da cabeça de Rogério. Se não tivesse desmaiado por causa do cheiro do monstro, ele teria sentido quando seu cérebro foi sugado através das suas cavidades oculares e nasal pelo palhaço vampiro do espaço.
    (Texto retirado dos relatos da invasão)...Devido ao fato dos alienígenas não poderem controlar mentalmente as crianças, essas se tornaram a nossa maior esperança... e uma ameaça constante para os alienígenas.
  • Ciclo e reciclo

    Fica! Larga esse telefone na mesa e me dá essa certeza de que você é real e verdadeira. Quero te ganhar devagarinho, trás sua mão com carinho antes que o celular te distraía. Deixa eu descobrir o seu mistério, sim, é isso que eu quero, pra poder te decifrar e te fazer feliz.
    Vai! Me dá um pouco de saudade que já nessa idade também me faz bem. Fica longe por um tempo, pra eu aprender como o vento, pode me fazer lembrar da tua essência. Conhece outro cara, mas por favor não se amarra, tenta lembrar que eu também sou seu.
    Volta! Pega o telefone e me deixa ouvir a tua voz, me diz que ainda existe nós, pra que meu coração acalme essa ansiedade. A gente marca num bar ou em qualquer outro lugar, só não me deixe aqui sem saber de você. Trás com você essa alegria me conta como foi o seu dia, pra gente fazer isso tudo outra vez.
  • Cidinha

    Era uma vez uma bela menina chamada Cidinha. 
     Sua mãe morreu no parto e seu pai, sentindo-se muito sozinho, casou-se de novo pouco tempo depois.
     Sua madrasta fingia gostar dela, mas, após a morte do pai de Cidinha, atingido pela explosão de um bueiro no centro da cidade, se revelou uma verdadeira megera. 
     Com o dinheiro da indenização, foi morar numa casa enorme na zona nobre, próxima ao Morro do Castelo, tratando Cidinha como uma empregada, a colocando para limpar, lavar, passar, cozinhar, etc. 
     As meio-irmãs de Cidinha, duas patricinhas feias e arrogantes, sempre a tratavam mal e atrapalhavam todas as tarefas para que ela demorasse e não tivesse tempo pra mais nada. Seus únicos amigos eram dois garotos que faziam malabarismos no semáforo em frente ao mercado em que Cidinha fazia as compras e a quem ela dava alguns trocados escondida vez em quando.
     Um belo dia, Cidinha viu numa rede social que um funkeiro famoso, MC Princeso, faria um baile, no Morro do Castelo, comunidade em que ele cresceu. Ela, que era fã, ouviu as irmãs comentarem com a mãe e disse que queria ir. As três então riram de perder o fôlego. – Você nem tem roupa pra sair, menina. – disse a madrasta – Se arrumar uma roupa bonita e terminar todas as tarefas, eu deixo você ir. – Disse zombando. 
     Cidinha abaixou a cabeça e voltou para as tarefas chorando. Sabia que era impossível arrumar uma roupa para o baile. 
     Naquele dia, ao ir ao mercado, seus amigos perguntaram o porquê dela estar tão triste e ela contou o motivo. Compassivos com a menina, eles pediram para que a mãe, costureira de mão cheia, fizesse um vestido bonito para Cidinha ir ao baile. 
     No dia do baile, ao ir ao mercado, os meninos entregaram então o vestido. Não era muito requintado, mas, era muito bonito. Se ofereceram, também, para ajudá-la nas tarefas de casa. 
     Cidinha chorou de alegria. Agora poderia ir à matinê do MC Princeso. 
     Aproveitando que as irmãs e a madrasta estavam no salão de beleza, deixou os meninos entrarem e, com a ajuda deles, terminou todas as tarefas bem cedinho. 
     Os meninos se despediram e ela foi tomar um banho para experimentar o vestido. 
     Estava se admirando no espelho quando as irmãs chegaram. O vestido era lindo e realçava toda a sua beleza. Isto despertou a inveja delas que, fingindo brigar uma com a outra, rolaram para cima de Cidinha e “acidentalmente”  rasgaram seu vestido. 
     Ela chorou mais uma vez, de raiva e tristeza, já convencida que não iria ao baile. 
     Pouco antes da hora da matinê, as irmãs e a mãe, devidamente arrumadas, deixando escapar risadinhas, se despediram e saíram. Iria recomeçar a chorar quando o telefone tocou. Era sua madrinha, que não via há um bom tempo. Ela sentiu a menina triste ao falar e perguntou o que houve. Cidinha contou sobre o baile, a roupa e tudo mais. 
     Sua madrinha pediu que não saísse de casa e desligou. 
     Chegou alguns minutos depois com um vestido que a filha de sua patroa havia emprestado. Era bonito e caro. – Comprado em Nova Iorque. – Ela disse. 
     Ajudou a menina a se arrumar e pediu um Uber, além de dar algum dinheiro, mas, tudo isso com uma condição: que Cidinha voltasse antes da meia-noite. A menina aceitou e partiu para o tão esperado baile. 
    – Mando um carro te buscar! – gritou a madrinha enquanto ela saia.
     Chegando no baile, logo encontrou seus amigos malabaristas do semáforo, desta vez, muito bem arrumados. Contou sobre o vestido e pediu desculpas. Disseram estar tudo bem, felizes por ela ter ido. 
     Dançavam muito e a beleza de Cidinha chamava a atenção de muitos rapazes, em especial do MC Princeso, que observava do camarote VIP do baile. 
     Ele pediu que um de seus seguranças chamasse ela até o local em que ele estava. 
     Quando o homem enorme contou para Cidinha que o MC estava chamando, seu coração disparou de empolgação. 
     Chegou no camarote e foi recebida com  dois beijinhos no rosto. 
     – Você dança muito bem – disse Princeso – Vem dançar comigo!
     E dançaram.
     E Todos queriam saber quem era a menina bonita dançando com o MC. 
     – É a Cidinha? – Disse uma irmã. – É a Cidinha! – Disse a outra. E fervilharam de inveja.
     Cidinha riu, dançou e se divertiu, mas, ao ver as horas, se assustou: era quase meia-noite!
     Disse que tinha de ir e Princeso pediu que esperasse. – Tá quase na hora de eu cantar. Fica – disse o rapaz, mas, Cidinha apenas disse não poder e saiu. 
     Na correria, arrebentou uma das sandálias nas escadas, mas, com medo de perder a hora, deixou para lá e partiu. 
     Princeso percebeu que não havia perguntado o nome da menina e pediu que o segurança corresse e perguntasse, mas, mesmo saindo logo após Cidinha, não encontrou nada além da sandália arrebentada. 
     MC Princeso se apresentou naquele dia com a cabeça longe. Na bela menina que o encantou. 
     Cidinha voltou pra casa extasiada. Foi ao baile e ainda conseguiu conhecer pessoalmente MC Princeso. Porém, sua alegria durou pouco. 
     Sua madrasta a repreendeu por ter ido ao baile e suas irmãs, com inveja, sugeriram que trancasse a menina no quarto, saindo apenas para as tarefas. 
     Princeso não conseguia parar de pensar na menina do baile do Morro do Castelo. Mas, não sabia como encontrá-la. Nem mesmo sabia seu nome. 
     Resolveu postar nas redes sociais que estava a procura da garota que esteve com ele no camarote no dia do Baile, com a foto da sandália perdida por ela. 
     Choveu meninas dizendo ser ela, mas, nenhuma realmente era. 
     Já estava desiludido quando viu um mensagem de alguém dizendo que sabia quem era e onde ela morava. 
     Foi até o local indicado encontrar com o menino: um sinal de trânsito em frente a um mercado num bairro nobre.
     Lá chegando, o tal menino e o irmão o levaram até um casarão antigo. 
     Princeso tocou a campainha e as irmãs de Cidinha ficaram sem reação ao atender a porta. 
     A madrasta pediu que entrasse e  as irmãs ficaram tentando roubar a atenção dele. Mas, estava determinado a encontrar  a menina do baile. 
     Quando perguntou se ela estava, uma das irmãs já ensaiava dizer que não quando um grito veio de um dos cômodos: – Eu estou aqui!
     O MC foi em direção ao quarto e, disfarçadamente, a madrasta destrancou a porta. 
     Cidinha saiu do quarto. Estava com roupas simples, mas, não menos bonita por isso.
     Princeso e ela conversaram no sofá por quase uma hora sob o olhar incrédulo da madrasta e os olhares invejosos das irmãs. 
     Ele a convidou para um final de semana numa casa de praia. Sua madrasta disse que iria como responsável, mas, Cidinha disse que chamaria sua madrinha. 
     Se conheceram. Se gostaram. Namoraram por 6 meses. 
     Terminaram após ele se envolver num escândalo com uma dançarina. 
     Aproveitando os holofotes de subcelebridade, Cidinha criou um canal na internet, ganhou algum dinheiro com isso e foi morar com a madrinha. 
     Não foi feliz pra sempre, mas, teve muitos bons momentos, pois é assim que a vida realmente é.

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