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literatura urbana

  • tudo vai da certo

    tudo vai da certo e se não der, a gente faz da !
  • Última Senzala



             

    Úmida senzala, como Castro Alves falava
    Por ali muitos passavam, mas não viam a negrada
    Que por baixo da casa sucumbia desgraçada.
    Mulatos homem agrupados
    Como punhado de gados eram marcados pelo ferrete.

    Negro, negro madeira boa. Negro madeira forte
    Negro saco de carvão. Negro pedaço de carne¹
    Que aos olhos do patrão para um bom negro
    Boa morada é o porão

    Porão este que enfatizava "O que te trouxe de casa
    Foi o movimentos das águas, que junto ao feitor,
    Te fez segurar as barras e pelo soar das águas
    Lembrar do amor" Amor esse que agora ecoa
    Dentro da madeira boa, que por ventura não pode sair
    Nem de cá para lá, nem de lá para cá.

    O que resta a esse negro agora?
    Que ao olhar para fora, na outra margem
    Vê apenas o topete de sua senhora
    Djalô

    Oh negro, que cantava, batucava, dançava e sorria!
    Sorria agora. Mas não para sua senhora
    Pois já era chegada hora e de angústia viveste agora
    O chicote lhe castiga o couro
    E de penar morreste a alma.










    Autoria: D`souza Gabriel.
    ¹Livro Cachorro velho. Teresa Cárdenas
  • Um Casal Como Outro Qualquer

    A brisa da boca da noite, carregada do odor das rosas do jardim refrigera o rosto de Alberto quando este se senta na varanda de sua casa naquela quinta-feira. É assim que chega aos quarenta anos de idade; gerente de uma agencia da Caixa Econômica Federal, com um ótimo salario e vantagens, mas com um sorriso embaçado e um suspiro sufocado que mais parece um soluço.
    Na janela ao lado do banco em que se sentara na varanda, o clarão azulado e tremulo da tv sintonizada na telenovela de certa emissora, lembra lhe a toda hora o porquê de ele estar sozinho ali. Lá dentro agora, ninguém diz nada, apenas os atores na tela do aparelho é que detém o monopólio da palavra. Sua filha Carla de quinze anos deve estar trancada no quarto mergulhada nas redes sociais conversando futilidades com as amigas, enquanto, Letícia, sua esposa, está na sala hipnotizada em uma das cinco novelas diárias a que assiste religiosamente. Sim, sua esposa é viciada em novelas, era a conclusão a que Alberto chegava.
    Letícia é uma esposa prendada, disso ele nunca pode reclamar. Ela preferiu não trabalhar fora para cuidar da casa e da filha, tarefa que cumpre com mestria trazendo o lar impecavelmente, arrumado e limpo. Suas roupas sempre estão muito bem passadas e suas gravatas e meias separadas em gavetas organizadíssimas.
    “— Deus me livre de você ir pro trabalho sujo ou amassado, o quê vão pensar de mim...?—“ Dizia ela sempre como se entoasse um mantra sagrado
     Bastava Alberto fazer uma simples menção do desejo de alguma comida diferente que no dia seguinte lá estava a guloseima fumegando sobre a mesa.
    Tudo isto parecia perfeito aos olhos dos amigos e familiares e despertava a inveja de outros tantos que os conheciam, ou pensavam conhecer. Mas para Alberto, tudo parece artificial. Um vazio o consome dia após dia mergulhando-o em profunda melancolia.
    “— Onde tudo se perdeu, meu Deus? Em que ponto de nossa vida tudo mudou? —“ Perguntava-se com a alma dorida.
    Ele sentia agora em sua vida o verdadeiro significado da palavra saudade ao se lembrar do começo.
    Alberto e Letícia se conheceram no ensino médio e começaram a namorar. Ele se encantara com o sorriso daquela lourinha e se apaixonara de cara. Cheio de sonhos, com sacrifício, entrou para a faculdade de Administração. Ela, fã de romances açucarados, sonhava tornar-se escritora. Casaram-se depois de seis anos entre noivado e namoro quando ele passou no concurso público para bancário da CEF. Ela logo engravidou e, até começou a escrever seu sonhado romance, mas nunca o concluiu.
    Carla nasceu e a felicidade parecia não ter limites para o casal que fazia suas refeições todos juntos na mesa em animada conversa e que passava férias na praia. Alberto foi promovido a gerente e, com o ótimo salário e vantagens o conforto melhorou; mudaram-se para uma casa maior, trocaram o velho carro popular por um modelo novinho e, até compraram um bom carro para Letícia levar a Carlinha para a escola, ir ao supermercado e tudo mais. Até empregada eles tinham agora. Tudo parecia perfeito até que, de uns cinco anos pra cá, mais ou menos, as coisas começaram a esfriar e, há alguns meses, três meses para ser exato, as coisas entre eles pioraram e muito. As conversas entre o casal foram rareando até que se transformaram em simples cumprimentos de amigos comuns. Letícia se mostrava cada vez mais distante do marido e, com exceção das novelas, parecia ter perdido o gosto de tudo o que costumava fazer, inclusive dos passeios regados a  sorvete no final de semana com Alberto.
    Ela nunca o tinha tratado mal, mas, ultimamente este quadro mudara e Letícia passara a trata-lo nos cascos.
      Mesmo com todas as mudanças para melhor em sua vida financeira, ela mostrava-se cada vez mais indiferente em relação a ele. Não acalentava mais o sonho de ser escritora e, nem mesmo lia mais os romances açucarados pelos quais tinha verdadeira paixão, ao contrário, mergulhava em apatia e, a única coisa que a animava eram as telenovelas nas quais perdia-se em devaneios.
    Tudo na casa deles estava mudado. Antes faziam as refeições em família sentados à mesa, hoje ele janta sozinho e a mulher come na sala com o prato na mão para não perder um minuto sequer da trama televisiva. Alberto vai para o quarto e lê um livro ou assiste ao telejornal e muitas vezes nem vê quando a mulher vem pra cama. Até o sexo rareou muito e, quando acontece, é sempre por iniciativa dele e Letícia cede como se cumprisse a uma obrigação demonstrando pouco ou nenhum desejo. Tudo isso o magoava e Alberto não entendia o que acontecia, mas ela parecia não perceber a angustia do marido e, se percebia, não ligava. Enfim, Alberto sentia-se um estranho em sua própria casa, magoado e humilhado.
    De repente, uma tremenda angustia o desperta do transe pensativo em que se encontrava na varanda de casa. Um nó na garganta parece sufocá-lo e ele se levanta abruptamente e entra em casa, atravessa a sala e pega as chaves do carro sobre a mesa.
    —Aonde você vai? — Pergunta-lhe a esposa sem tirar os olhos da tv, no fundo sem querer saber.
    — Vou dar uma volta pra espairecer, tá muito calor aqui.
    Ela nada diz e ele sai sem rumo.
    Alberto sente-se mal, pois sabe que o casamento está acabando e é só uma questão de tempo até o fim de tudo e isto o apavora, pois sabe que ainda ama muito sua mulher e sente que ficará perdido sem ela, mas não sabe até quando vai aguentar. No fundo ele sabe que terá que ter uma conversa muito séria com ela, mas teme que tudo chegue realmente ao fim, porém, não dá pra se iludir e viver de lembranças para sempre.
    Ele dirige sem rumo. Os barezinhos daquele bairro nobre estão abarrotados de pessoas. Ele para em uma choperia, (Alpha Point), que lhe parece agradável.
    — Um chope sem colarinho, por favor. — Diz ele ao barman logo que encosta no balcão.
    Um sorriso perolado em uma mesa onde uma galera animada se encontrava festejando sabe-se lá o quê, se abre ao ver aquele quarentão atraente sozinho no balcão. Ela é uma garota linda de, no máximo vinte anos, cabelos pretos, saia justa e decote generoso. É uma garota de programa e, com seu olho clínico e experiente, vê em Alberto a oportunidade de ampliar sua clientela.
    Sensualmente caminha até ele.
    — Oi! — Diz ela sentando-se no balcão a seu lado.
    — Oi! — Responde Alberto sacando qual era a da garota.
    — Tá esperando alguém?
    — Talvez... Você, quem sabe... — responde ele encarando-a nos olhos. A garota, experiente, sente a tristeza daquele olhar, já vira aquela tristeza impressa em muitos olhos e se apieda dele e percebe que aquele homem necessita de algo mais do que sexo, ele necessita conversar. Ela vê ali a sua deixa.
    — Trás um chope aqui pra minha amiga. Você não vai me aplicar um boa noite cinderela né... —Completa ele.
    Ela ri gostosamente.
    O barman serve a garota.
    — Meu nome é Alberto, e você...? Como devo te chamar? — Diz ele estendendo-lhe a mão.
    — Julia. — É nome de guerra, ele sabe, mas isso não importa.
    — O quê você faz da vida, Julia, quando não tá tentando conquistar um tiozão como eu?
    Ela ri novamente ao perceber que ele é esperto, mas, algo a atrai nele.
    — Estudo direito e o que eu faço aqui à noite é pra ajudar a pagar a faculdade.
    — Você trabalha sozinha ou é agenciada?
    — Sozinha. Eu mando em mim e escolho com quem eu saio.
    —Hum, então eu passei no controle de qualidade...
    —Sim. Você é muito atraente e me admira ver um homem assim desacompanhado. Problemas no casamento? — Pergunta ela lançando olhar significativo para a aliança no dedo dele. Nessa hora ele baixa a cabeça com um pesar que durou apenas alguns micro segundos e levantou-a altivo novamente.
    — Mais dois chopes, por favor.
    O barman os serve.
    — Você tem certeza de que quer perder tempo me ouvindo.
    — Se eu não tivesse certeza já teria ido embora há muito tempo. — Diz ela, pois simpatizara com ele e via ali um cliente em potencial, sabia que depois de ouvi-lo as coisas aconteceriam, e se não acontecessem, o chope estava rolando grátis mesmo... Pensava ela.
    As palavras rolam fáceis e Julia ouve, opina e, em pouco tempo os dois já riem como velhos amigos.
    — Olha, Alberto, eu tenho certeza que ela não faz por mal e, como mulher te digo, ela ainda te ama. Você tem é que conversar com sua mulher assim como está conversando comigo... Descubra qual é o problema. Talvez ela queira o mesmo que você.
    —Eu quero apenas carinho, atenção e um pouco de sexo quente as vezes.
    — Taí uma coisa em que eu posso te ajudar de verdade. Que tal se fossemos pro meu ap, é aqui pertinho. — Fala ela sorrindo significativamente levantando as sobrancelhas encarando-o.
    — Tudo bem. Vamos então, mas vamos ter que parar numa farmácia no caminho pra comprar preservativos.
    — Relaxa bobo, tem um monte lá em casa.
    Alberto pagou a conta e foram de mãos dadas. De fato o ap da garota era perto, atravessando a rua, na verdade. Era uma quitinete, mas bem organizada para uma jovem prostituta estudante de direito.
    Pela primeira vez em vinte anos Alberto beijava outra mulher, pois ele nunca tinha traído a esposa. Todo o desejo represado dentro dele veio à tona e explodiu em sexo em sua maneira mais pura e selvagem. Julia, experiente, cedeu sem frescuras a todos os desejos dele que não eram nada de mais, apenas sentia que ali estava um homem carente.
    — Nossa você tava mesmo carente, hein. Quase acabou comigo, e eu tô falando sério. — Falou ela aconchegando-se sobre o peito dele e quedaram-se exaustos quase dormindo, mas não por muito tempo. Parecendo cair no mundo real novamente, Alberto pulou da cama e pôs-se a vestir-se. Tinha que voltar pra casa, era o único pensamento que enchia sua cabeça.
    — Meu Deus, tenho que ir, — falava ele vestindo as calças com pressa. — Quanto te devo, Julia? — Completa ele abrindo a carteira.
    —Olha como você foi muito bom de cama é só duzentos. —
    — Toma aqui quatrocentos, você merece e espero de coração que te ajude a pagar a faculdade.
    O sorriso dela foi imenso.
    — Me dá teu celular um pouquinho. — Falou ela enquanto ele abotoava a camisa. Alberto não entendeu, mas o entregou a ela mesmo assim.
    — Você tem algum amigo chamado Nelson?
    — Não que eu me lembre.
    — Agora tem. — Disse ela digitando algo no celular dele. — Coloquei meu numero na sua agenda com nome de Nelson pra sua mulher não desconfiar. Podemos marcar novamente, mas me liga antes pra agendar.
    — Com certeza vou ligar. — Falou ele apressado e, após um selinho em sua amante, desceu as escadas em tropel, enquanto ela caiu novamente na cama e voltou a dormir, sorrindo satisfeita com a féria da noite.
    Alberto chegou em casa, abriu a porta devagar para não acordar Letícia. Um pouco de remorso o fez tremer ao vê-la dormindo e uma pontinha de frustração o picou, pois, no fundo tinha a esperança de que a esposa o estivesse esperando acordada e, vê-la dormindo, causa-lhe tremendo desalento, pois era sinal de que não se preocupava mais com ele.
    —“ Doce ilusão” —pensa ele desanimado. — “ Ela não liga mais”.
    Não demorou e o sono chegou.
    Na manhã seguinte ele se levanta com esforço e vai pro banho. Sua aparência é horrível.
    Letícia esta terminando de por a mesa quando ele entra na cozinha e despeja café na xicara e o bebe puro sem açúcar e sem adoçante. Letícia faz uma careta ao vê-lo fazendo isto.
    — A noite foi boa, hein. — Diz ela com um leve ar de deboche. Ele finge não ouvir.
    —Posso saber a que horas você chegou ontem? — Fala ela encostando-se à pia com as mãos na cintura.
    — Três e pouco. — Responde ele secamente.
    — Posso saber onde você estava? — Fala ela vestindo a carapuça de esposa dedicada.
    — Fui a uma choperia e encontrei o Nelson, um velho amigo, e esqueci da hora. — Continua ele com respostas curtas e diretas.
    — Você não ligou... Fiquei preocupada.
    — Ficou preocupada nada, Letícia, — diz ele largando com alarde sobre a mesa, o talher com que passava manteiga no pão, — cê tá cagando pro que eu faço ou deixo de fazer. Nem foi capaz de me esperar acordada pra, pelo menos brigar comigo, mesmo sabendo que jamais fui de sair e voltar de madrugada. Se você tivesse ficado preocupada comigo teria, ao menos ligado ou, no mínimo, ter mandado uma mensagem. Quer saber, Letícia, eu poderia ter sido assaltado e morto e meu corpo poderia estar no IML agora que você estaria aí parada com esta cara de bosta que você tem mostrado nos últimos meses pensando no capítulo de hoje daquelas novelinhas de merda que você tanto adora. — Explode ele diante da mulher atônita, pois nunca ela tinha presenciado aquela reação do marido.
    — Alberto... Você... Você...— Balbucia ela chorosa
    — Quer saber, Letícia, não enche o saco. Eu tô por aqui, — diz ele correndo o indicador sobre a testa, — eu não aguento mais ser tratado como um estranho em minha própria casa. Vô tomar café na padaria, lá pelo menos o seu Manuel me recebe com um sorriso e conversa comigo. — Termina ele atirando o guardanapo com raiva sobre a mesa e sai pisando duro.
    Letícia está chocada com a explosão do marido.
    — “Será que ele descobriu?”— Pensa  ela sentando-se pesadamente na cadeira e vertendo lágrimas.  —“ Não, é impossível...”
    Ela já tinha deixado a Carla no colégio quando o celular tocou o alarme de mensagem chegando. Letícia tinha acabado de chegar em casa quando leu a mensagem
    “ Vamo fazê o esquema do shpping?”
    Ela o havia conhecido há uns três meses quando, depois de um milhão de manobras inúteis, não conseguira estacionar o carro em frente a uma farmácia. Aquele rapaz de dezenove anos, que assistira atento ao seu festival de barbeiragens, se ofereceu para estaciona-lo pra ela.
    Letícia, tremula, agradeceu a ajuda do rapaz que se apresentou como Fábio e disse que era filho do dono da loja ao lado da farmácia. Ela o achou descomunalmente lindo, ficando sem jeito diante dele.
    — Qué tomá um café comigo? — Convida ele pousando seus olhos azuis nela que recusa da primeira vez, mas não resiste ao segundo convite.
    Fábio, no auge dos seus dezenove anos, é um rapaz bonito de cabelos negros curtos ao estilo soldado do exército e corpo bem definido e bom de papo. Letícia está fascinada e ele percebe. “Deve ser comum em sua vida fascinar mulheres” pensa ela.
    — Desculpe, mas eu tenho que falar, você tem pernas lindas. — Diz ele na bucha.
    Ela fica rubra. Aquele rapaz a desconserta, afinal, ela já está na casa dos trinta e oito e aquele menino com jeito de homem  a encabula.
    Letícia nunca tivera outro homem além do Alberto e estava, assustadoramente atraída por aquele garoto.
    Não demorou para que ele a convencesse  a se encontrarem novamente e rolou um beijo. Daí pro motel foi um pulinho. Ela queria ter essa experiência e o sexo foi avassalador. Primeiro sentiu remorso pelo marido, mas, depois pensou que estivesse apaixonada pelo rapaz. Com o tempo, descobriu que eles não tinham nada a ver, pois o rapaz era um tremendo cabeça vazia e só pensava em motos e futebol.
    Muitas vezes quis terminar tudo, mas o sexo era muito bom e ela adorava a sensação de liberdade que ele lhe proporcionava. A sensação de ser dona de seu corpo e desejos a satisfaziam  e Letícia acabava sempre cedendo aos apelos do rapaz.
     Era sempre assim que eles se encontravam, ela deixava o carro no estacionamento do shopping, entrava no carro dele e iam para um motel. Isso fazia com que ela se sentisse uma canalha e evitasse  encarar o marido nos olhos, por vergonha. Ela o amava e não queria perde-lo.
    Mais uma vez ela cedeu aos apelos de Fábio e foi com ele, mas jurou a si mesma que seria a última vez. Depois da transa aquela manhã, ela teve uma conversa muito séria com seu amante onde expos tudo o que sentia e terminou o relacionamento amigavelmente. Fábio relutou em aceitar no começo, mas depois pareceu entender. Mesmo assim, enquanto ele estava no banho, Letícia pegou o celular dele e apagou seu contato na agenda dele e fez o mesmo com o dela, cortando assim o último contato entre os dois.
    Naquela noite quando Alberto saiu do banho encontrou a mesa posta pra dois e sua esposa esperando-o
    — A Carla tá no quarto? — Pergunta ele.
    — Tá. Ela comeu mais cedo. — Responde ela com voz mansa.
    Alberto intrigou-se ao ver a tv desligada e, mais ainda quando a esposa se serviu e se sentou com ele à mesa.
    —Não vai assistir à novela hoje?
    —Não. Acho que nunca mais vou perder meu tempo de uma maneira tão idiota. —Responde ela olhando-o serenamente.
    No início, pasmado e até meio desconfiado da atitude da esposa, Alberto comeu em silêncio, mas estava gostando de tê-la perto dele novamente.
    — Estes dias li o livro que você começou a escrever, —fala ele sem mais nem menos. — É muito bom e acho que você devia termina-lo. Quem sabe até publicá-lo.
    — Sério? Você leu meu livro? Quando?
    — Há alguns meses e...eu queria te dizer o que eu achei mas não consegui sua atenção.
    — Desculpe. — Diz ela baixando os olhos.
    — Você escreve bem. Devia terminar de escreve-lo.
    — Você acha mesmo que escrevo bem?
    —Sim, muito.
    — Acha que devo publicar? Fica muito caro.
    — Nós temos algumas economias que acho vale apena investir no seu talento.
    Letícia sorri satisfeita e seus olhos brilham.
    Naquela noite ele a procurou e ela o acolheu em seus braços não com indiferença como nos últimos tempos, mas com paixão, desejo como há muito não acontecia naquela cama.
    — Te amo. — Falou ele quando quedaram-se, exaustos um ao lado do outro.
    — Também te amo. — Respondeu ela sorrindo.
    Então, ela recostou a cabeça no peito dele, satisfeita e cheia de planos para terminar o livro e sentiu-se feliz por amá-lo tanto e ter redescoberto esse amor. Sentiu vergonha do caso que teve e estava ansiosa por recomeçar com o marido.
    Ele acariciou os cabelos da esposa recostada em seu peito e pensou em ligar para a Julia para marcar outro encontro, pra semana próxima, quem sabe.
  • UM DIA IRIA ACONTECER

    É bom avisá-los. “Um dia iria acontecer” é uma novela de 7 páginas do word, 3675 palavras e 21 minutos de leitura. Vão encarar? Então boa leitura. Ou não boa leitura. Preferem assistir na Globo, é? Um abraço.
    Parece cenário de filme. Ambiente sombrio, um interrogado, dois agentes: o barrigudo, malvestido, sovaqueira nos trinques, tênis da primeira moda, careca, chamam-no de Frederico. E de Fed. Por trás, é lógico. A esbelta, vestida com apuro, aromatizada, tênis da última geração, madeixas a cair-lhe nos olhos, chamam-na de Lindalva. E de Linda. Pela frente, é claro.
    Estão numa delegacia de Natal, nordeste do Brasil. Calor braseiro, visto o diminuto quartinho e o ventilador quebrado, a bela e a fera interrogam um estuprador: Linda, com bunda se irritando numa cadeira de ferro, pés se deliciando em cima de um birô e olhos se divertindo com ancestral TV. Frederico cheira espinhas espremidas da cara e espreme os tênis de um lado para o outro. Os olhinhos do estuprador saltam da fera para a bela, como se filmando as cenas, e os lábios rascunham um sorrisinho de canto de boca. O velho deliciava-se com o porvir.
    Frederico parou de caminhar, sentou-se de frente para o velho e perguntou:
    – O que é que toma, velho? Oitenta anos e fazer um estrago daquele na velha, deve ser... Já era para o senhor ter descido. Mas, como fica negando a coisa, o delegado amarelou e fez a gente ficar matando o tempo aqui. Se não tem culpa, por que foi para a rodoviária?
    O ancião sorriu:
    – Porque não sabia que ir à rodoviária era prova de estupro. Quantos vezes tenho que repetir, policial, que não estuprei a Nísia? O senhor é idiota. E fedorento. E seboso também.
    Frederico levantou-se. Bufava. A barriga entrava e saía. Em média vinte centímetros Mão espalmada, partiu para cima do velho:
    – Não brinque com isso, velho safado.
    A reação do idoso foi sorrir. Vivia sorrindo, na verdade. A reação da Linda foi mandar Frederico sentar-se na cadeira dela:
    “Sente aqui, Frederico. Deixe-me cuidar disso”, falou, sentando-se na cadeira do colega e alisando o braço do velho. Uma simpatia só.
    - Bom, vamos repassar a história. Vejamos os fatos e... Por que o senhor não pára (com assento, sim) de sorrir? O senhor...
                - Perdão, nobre policial. Ocorre que seu colega me chamou de velho safado, então me lembrei do Charles. Era de safado que no fim da vida chamavam o velho Bukowski. Figuraça, viu? Aliás, tivesse ele visto como a senhora falou com o parceiro, certamente falaria assim: “A mulher é a grande educadora do homem: ensina-lhe as virtudes encantadoras, a polidez, a discrição, a altivez. Ela mostra a alguns a arte de agradar e a todos a arte útil de não desagradar”.
                - OK, Sr. Indosp. Vamos repassar os acontecimentos. As câmeras do condomínio da Sra. Nísia mostram a alegre anfitriã recebendo o senhor. Passada meia hora, o senhor sai cabisbaixo do apartamento. Dali a dez minutos, a alegre anfitriã, agora num choro só, mal consegue falar com a portaria e pedir socorro, dizendo-se estuprada. A Sra. Nísia saiu sem voz para o hospital, Sr. Indosp. O senhor estuprou a Sra. Nísia, sim. O que me diz, Sr. Indosp W?
                O velho tornou a sorrir e respondeu:
                - A nobre policial é muito simpática. Porém, desculpe, é tão idiota quanto o colega aí. Mas, como consolo, é oportuno dizer que a idiotice não sobrevive apenas na sua repartição. Ela passa o tempo levantando a mão para todas as chamadas deste país. Exagero, obviamente, mas, acredite, o nosso numeral de estúpidos é muito alto. Bom, o que me diz, Sr. Indosp, perguntou você.
                Direi perguntando, nobre policial. Perguntas de evidentes retornos nãos. Vamos lá:
    Testemunhe a transa do dislate com a estupidez. Tenho 80 anos. A Nísia também. A jovem supõe possível um estupro de 160 anos? Surreal, não é?
    Agora veja o feto com cinco meses. A polícia tem a prova do estupro, o laudo médico? Não, não é?
    Por fim, apascente o olhar com as palminhas do bebê. Há registro policial com o nome Indosp W? Não, não é?
    E nunca haverá. Sabe por quê? Porque tal nome não existe no mundo das leis. Indosp, minha jovem, é tão somente a abreviatura de meu nome. Peço clemência pelo azedume, falta do charuto, imagino, mas a jovem sabe o que significa dislate, surreal e apascente? Decerto não, já que no olhar brilha a inépcia para o aprendizado, o aperfeiçoamento. Por isso não enxerga um palmo à frente do nariz. As três respostas provam a inaptidão dos nobres policiais. Não estuprei a Nísia. Não se deram conta ainda de que o ridículo está se mijando de tanto rir e que o bom senso está se desmanchando em lágrimas?
    - O senhor é grosseiro, irônico e presunçoso, velho safado. E que história é essa de abreviatura?
    - Nobre policial, a senhora deve saber que aparentar não significa obrigatoriamente ser. Falar duas ou três palavras difíceis não torna ninguém erudito. Vestir-se como mulher não quer dizer que por baixo o indivíduo seja mulher. Da mesma forma que se trajar de homem não garante genitália masculina. O diferencial reside na figura que transportamos entre as pernas. Daí que Indosp e meu traje masculino são apenas pistas, abreviaturas, aparências, aspectos de quem eu sou.
                - Ah, velho falastrão, me poupe. Traduza isso.
                - Traduzindo, então, minha nobre. Indosp W significa Internete dos Pontos Dáblius. Esse é o meu nome. Sou mulher. Quer ver a marmota?
                Linda e Frederico soltaram a gargalhada. A pança de Frederico dançava feito bailarina. As madeixas de Linda se sacudiam. Esperavam apenas o riso se recolher para encerrar o interrogatório: o coroa seria internado como maluco. Mas não foi, conquanto o riso tenha se recolhido. O riso agora era espanto, pois o som da ancestral TV aumentara de forma absurda. Simultaneamente, os celulares da dupla tocaram acima do volume normal e ficaram sintonizando a TV. 
    Com queixos pendurados e olhos fixos na TV, Frederico e Linda liam no centro da tela a palavra ATENÇÃO e ouviam o Tema da Vitória, instrumental do maestro Souto Neto. Dos cantos do aparelho brotavam setas coloridas em direção ao centro. Lá se juntavam e tangiam a “atenção” para o topo da tela. Cristão algum seria capaz de arredar os sentidos do espetáculo. Cinco minutos, a “atenção” já no cume da TV, e eis que surge a azulada mensagem:
    Excelentíssimo Senhor Presidente da República Federativa do Brasil:
                Valho-me desta mensagem a fim de convocar Vossa Excelência, os governadores das unidades federativas e o do Distrito Federal para excepcionalíssima reunião, cuja pauta será de vital importância para a população brasileira. A reunião realizar-se-á amanhã, 15 de novembro de 2016, às 17h17, no Palácio do Planalto. Informo que não será permitida a presença de assessores, tampouco da imprensa e de pessoal técnico, independemente da área de atuação. A reunião será transmitida ao vivo e se tornará automaticamente visível em todos os aparelhos eletrônicos do país, a exemplo de TVs, rádios, celulares. A transmissão começará às 17h11. Espero que Vossa Excelência proporcione as condições adequadas para a realização do evento. Informo, ademais, que será perda de tempo a tentativa de me identificar.
                Conto com a presença de todos. Julgo desnecessário alertar Vossa Excelência para a severa punição na hipótese de a reunião não ser realizada. Mesmo assim, tão logo seja concluído este comunicado, a internet ficará fora do ar por cinco minutos e vinte e dois segundos.
                Saudações e até amanhã às 17h17,
                Ed
    - Meu Deus! Que porra é essa, Frederico? Cadê o velho, Frederico?
    - O velho fugiu, Linda. Aproveitou a distração da gente e fugiu. Vamos informar ao chefe. O que é isso?
    O “isso” era um bilhete no pé da cadeira do velho. Estava escrito: “Obrigada. Beijos. Internete dos Pontos Dáblius”.
    O gabinete do chefe já ia se enchendo de curiosos. O show televisivo e a afoita mensagem começavam a travar o Brasil. Como desgraça pouca é bobagem, mais um inusitado acontecimento chegava à população. Naquela manhã, nos vinte e seis estados e em Brasília, e no mesmo horário, um velhinho de oitenta anos havia estuprado uma velhinha da mesma idade. As duplas haviam usado idêntico modus operandi: a estuprada – homem - se passando por mulher; e o estuprador – mulher - se passando por homem. Tinham em comum, além da idade, o semblante sorridente. Ainda em comum o local da prisão: rodoviária.
    Nessas alturas, os serviços secretos do mundo inteiro já estão em alerta, porquanto impossível o que tinha acontecido na internet brasileira. Como complicador, nenhum especialista conseguira identificar de qual computador partira a mensagem do Ed. Mais nervosos ficam com o noticiário dos falsos estupros. As notícias se espalham. Dos hospitais: as “estupradas” haviam fugido deixando beijos e identificando-se como WWW Silva. Da polícia: os “estupradores” haviam fugido deixando beijos e identificando-se como Internete dos Pontos Dáblius. Pior. A polícia não consegue prender ninguém. Registros do Samu desaparecem, e socorristas não lembram o local de onde socorreram as “estupradas”.
    Grande agitação sacode os natalenses, já que nas redes sociais a verdade é chocante: extraterrestres invadiram Natal. Ninguém havia fugido e sim se transformado. Canetas, celulares, gatos, cachorros, tudo podia ser um extraterrestre. Mais. Quem tocara num deles e quem num tocado tocasse passava automaticamente a ser extraterrestre. Frederico, por exemplo, ficou em polvorosa, querendo se lembrar se ele e a Linda haviam se tocado, visto a danada ter interrogado o velho alisando o braço dele. “Tomem cuidado. Fiquem distante um dos outros, visto não sabermos quem foi tocado por um dos tocados”, encerrava-se assim o aterrorizante aviso.
    A inusitada convocação e os fingidos estupros não deixavam dúvida. O Brasil estava sendo invadido por extraterrestres. A tomada do Poder seria no dia seguinte, conforme implícito na mensagem do Ed. O mundo ficava de prontidão
    Convém ser dito que essa era a conclusão dos serviços de inteligência pelo mundo afora. Entretanto, a comunidade científica, a exemplos de astrofísicos e exopolíticos, discordava com veemência da conclusão.
    Parte da imprensa especializada também tinha um pé atrás contra a teoria da invasão alienígena. O New York Times escreveu em editorial.
    “Não existe nada ligando os dissimulados estupros ao comunicado do Ed. A não ser que forcemos o raciocínio para encontrar tal elo na brincalhona assinatura deixada pelos fujões, o WWW Silva e a Internete dos Pontos Dáblius. Tudo bem que as esquisitices aconteceram na mesma manhã. Mas coincidência e esquisitice não provam nada, embora a tentação seja irresistível. Agora a pergunta crucial. Se os alienígenas querem tomar o Brasil, por que sairiam amedrontando o povo? Por que darem pistas de que estariam lá? Estupidez, não? Bastaria a convocação do Ed. Extraterrestres então longe de serem estúpidos, gente”.
    E concluiu:
    “Daí que ou algum projeto de extrema planificação dribla a espionagem mundial ou estamos prestes a receber a visita do ineditismo.     Ambas as hipóteses escancaram a verdade e trazem a lição: a internet já era. A desmoralizante convocação do Ed prova tudo. Não devíamos ficar dependentes de matriz comunicativa tão vulnerável. Está na hora de voltarmos ao bom e velho telex e à boa e velha carta.”
                A tevê mundial só fala do Brasil. Aqui, cientistas varam a noite analisando os fatos. O pânico tira plantão na cara do povo. Nos bares, os “doutores” concluem: Os governadores vão para esse negócio só para saber o nome do cabeção de antena nos chifres que vai governar no lugar deles. Estava na cara que isso podia acontecer a qualquer momento, pois o mundo come nas mãos da Internet. A Internet foi bolada pelos ETs. O objetivo era esse mesmo. Planejamento nota dez. A ocupação estava prevista para daqui a cem anos, mas o assombroso descalabro brasileiro fez os golpistas anteciparem a ação. Acho é pouco. O Temer não deu o golpe na Dilma? Por que os caras de Varginha não podem dar o golpe nele? Essas são algumas das conclusões.
                Bom, chega o dia seguinte, 15 de novembro, feriado da República. Manchete da Folha de São Paulo: CHUPA, TERRA! Manchete da Tribuna do Norte: PERDEU, TERRÁQUEO!
                O Brasil passou a noite acordado. O Brasil tem medo. O mundo tem medo.
    17h11. Começa a transmissão. Faltam seis minutos para a reunião.
    A REUNIÃO
     
    A TV mostra enorme salão com vinte e oito mesinhas dispostas em semicírculo e etiquetadas com o nome da unidade federativa e a do respectivo governador. Estão todas ocupadas. No centro do salão, isolada, uma mesa maior acolhe uma garrafa d’água mineral, um copo e um computador.
    Circunspectos, os governantes trocam olhares.
    17h17. Susto geral.
    Susto, sim. O repentino e volumoso som do Tema da Vitória surpreende todo o mundo. Muitos pulam da cadeira. O presidente é um deles. Trinta segundos e o instrumental é substituído por inesperada voz feminina:
    Boa tarde. Obrigada por...
    Nesse momento, o susto transforma-se em surpresa, inquietação, mistério. Talvez por machismo, a verdade é que as autoridades viam em Ed uma identificação masculina. Inquietos, porque, conquanto a voz lhes chegasse pelo serviço de som, sentiam-na verbalizada da mesa do centro, embora lá não estivesse ninguém. Mas a sensação foi tão convincente que muitos governantes juram que, nos segundos de cumprimentos, viram um crachá pendurado em elegante pescoço feminino. Só divergem na leitura do crachá. Uns leram Clarice; diversos, Hilda; alguns, Cecília; outros, Raquel.
    Bom, ouvindo pelos olhos, a plateia escutava:
    ... terem vindo. Obrigada por tudo, senhor presidente. Peço a Vossa Excelência, aos excelentíssimos governadores e à população em geral que me tirem a culpa pelos momentos de angústia que minhas ações certamente lhes provocaram. Foi por causa justa. Mas podem repô-la se justa não julgarem. 
    Chegou a hora de me apresentar, senhores governantes. As colegas me chamam carinhosamente de Ed. Simples redutor de Educação. Meu nome é Educação Brasil da Silva. Agora permitam-me contextualizar esta cerimônia.
    Participei, recentemente, no Chile, do trigésimo seminário de Educação nas Américas, o Ename/16. Em 2019, Senhor presidente, o Ename será realizado no Brasil. Então, terminado o encontro, jantávamos, quando uma colega, bêbada, expressou-se assim, grosseria e escárnio aplaudindo-a de pé:
    “Sabe, Ed, os governantes brasileiros são imbecis ao extremo, amiga. Como são burros. Nossa!”
    Essa senhora, Senhor presidente, reportava-se a um estudo sobre Albin. Albin, o alfabetizado inocente, é como classificamos em nossas pesquisas o que aqui chamamos de analfabeto funcional. E nesse quesito, senhores, não damos o primeiro lugar a ninguém. Fechei a cara para a colega, é evidente. Afinal, sou brasileira. Mas, no íntimo, completei: e idiotas, e obtusos, e estúpidos. E assassinos. A opinião da colega, Senhor presidente, foi a gota d’água para iniciar o processo que suponho estar encerrando com esta reunião.
    Naquele instante, fica claro o desconforto das autoridades: olham-se nos olhos, mexem-se nas cadeiras, tornam-se carrancudos. Assassinos! Assassino passara do ponto. Mas como se defender do rosário de adjetivos, se a acusadora não mostrava a cara? Como se estivesse a ler o pensamento da assembleia, a Senhora Educação pôs o dedinho na ferida:
    Não se sintam ofendidos com a verdade, senhores. Defender o amor próprio é compreensível, mas é bom compreender que a verdade não ofende. O que ofende é maneira de expressá-la. Espero ter me expressado bem, assim como bem cogito me expressar quando lhes provar tudo daqui a minutos.
    Mais mexidas nas cadeiras. Agora com certa aparência de comiseração. Provar o quê? Aquela dona só podia ser maluca. Aliás, a própria reunião era alienada. Educação Brasil da Silva. Que coisa mais insana! Palhaçada!  Mas palhaçada boa. Dez mil vezes melhor do que o temido golpe dos ETs.  Melhor relaxar e rir. E rindo ficaram.
    Que bom que estejam se sentindo confortáveis. Dez mil vezes melhor do que o temido golpe dos ETs, não? A propósito, deixem-me esclarecer logo esse mal-entendido. Bom, sentia-me péssima com a grosseria da confrade, ainda que ela estivesse coberta de razão. Como, entretanto, passar na cara quão estúpidos são os senhores? Como dizer, olho no olho, que os senhores vivem falando de mim nos períodos eleitorais, mas, encerrada a votação, logo me desprezam?
    Estou mentindo, senhores?
    Bem, encontrei-me no Galeão com a Dra. Internete e, papo vai, papo vem, contei-lhe da minha angústia. A internet pode lhe ajudar, disse ela. Então, senhores, em dois meses montamos um plano. Dra. Internete dar-me-ia (vênias, presidente) as condições para o ousado pronunciamento em rede nacional e eu criaria o contexto de apreensão. É que imaginamos que a simples convocação, embora viesse acompanhada de retaliações, não traria o impacto desejado. Precisávamos de um suporte, de uma implícita conexão, de algo que prendesse o imaginário popular. Sugeri os estupros.
    Muito bom, muito bom, Ed, concordou ela, morrendo de rir. Os senhores não imaginam como a Inter é besta pra rir. E previu a prazenteira: os poderosos patranheiros parirão pavor, porquanto pensarem perder o Poder para os pestinhas paranormais.
    Bem, convidei os compartes e formei as vinte e sete duplas presepeiras. Aproveito o momento para usar a dupla conterrânea, o antropólogo Câmara Cascudo e a educadora Nísia Floresta, como os primeiros da fila a quem agora agradeço.
    Dadas as explicações, entremos no objeto desta reunião: analfabetismo funcional, a fonte de chacota de minha colega. Antes, preciso fazer quatro observações. Não usarei estatísticas, já que delas as mesas dos senhores vivem cheias. Não farei comparação com o resto do mundo, posto realidades diferentes. Não aceitarei desculpas, tipo estamos iniciando o mandato agora, isso vem de muitos anos e coisas tais. Os senhores são tão imbecis quanto os predecessores, visto que, de um jeito ou de outro, sempre tiveram o Poder nas mãos e não cuidaram da educação brasileira. A quarta é me desculpar com telespectadores e ouvintes, haja vista a extrema obviedade do que vou falar.
    Obviedade, termo inexistente do vocabulário dos senhores, não?
    O analfabeto funcional brasileiro, Senhor governador de peruca, é concebido nos primeiros anos de escola, se, por óbvio, na escola o miúdo teve. Por óbvio? Sim. Sim, porque nem todo o brasileirinho tem essa sorte. Grande número deles só sabe o que é um ó porque redondo o ó é. Esses infelizes não leem o nome Brasil. Senhor presidente, Senhor governador de óculos na testa, o indivíduo não saber soletrar o nome do próprio país deixa-nos arrepiado, já que equivale a ver o sangue da cidadania desenhando o mapa do Brasil no chão. Isso nos sangra de vergonha, senhores governantes. Não sei explicar por que os senhores não enfiam o rabo entre as pernas e se socam num buraco até que os miseráveis consigam pronunciar pelo menos o “Bra”.
    Por que não fazem isso, senhores?
    Por conhecer a vida apenas pelo empirismo, por lhe faltar o mínimo de percepção das coisas, coisas que de certa forma o estudo lhe daria, estudo que os senhores lhe negam, o adolescente analfabeto, senhor governador de meias desiguais, é logo cooptado pela droga e, em cada vez menos dias, é assassinado por alguém que percorreu o mesmo caminho dele.
    Isso torna os senhores assassinos, sim.
    Está bem, está bem, concordo com Vossas Excelências. Há outras variáveis cúmplices dessas mortes. É simplismo condená-los assim. Simplismo maior, contudo, é inocentá-los. Então vamos combinar:
    Os senhores são coautores. Fica melhor assim? Ou preferem cúmplices?
    Livrem-se da cumplicidade, governadores. Convoquem prefeitos. Reúnam-se. Elaborem estratégias de ensino. Combatam a evasão escolar. Peguem os miúdos pelo cós do calção e os empurre para a escola. Abram escolas. Construam praças de esportes. Contratem psicólogos e educadores físicos. Valorizem os professores. Mexam-se. Criem. Comprometam-se. Afastem parte da vergonha de nossa fuça.
    Sabe, governadores, existe uma galera afirmando por aí que os senhores não têm interesse em que o povão estude. E não têm porque, por isso, por aquilo. Não acredito nisso, senhores. Seria um absurdo imaginá-los pensando assim, visto desconhecerem o valor da educação.
    Senhor presidente, trace um plano nacional de erradicação do analfabetismo. Empenhe-se. Ponha sangue no olho. Dê um murro na mesa. Nosso lema não é Ordem e Progresso? Faça o seguinte, então. Crie o “A ordem é estudar. O Progresso é aprender”.
    Será que o senhor não sabe que sem Educação de qualidade não existe país de produtividade? Não, não é? Minha colega tem razão, pois.
    Os senhores desconhecem, por certo, mas a nossa vergonha continua com aqueles que vão se alfabetizando. Não aprenderam a pensar. Ponha filosofia na grade desse povo, presidente. Outra coisinha. Bem ou mal, mas existe uma avaliação do aprendizado. Sabia não? Pois! Então fique sabendo que existe, mas não estão reprovando ninguém. Atitude contraditória, presidente, posto engordar as estatísticas e emagrecer o conhecimento.
    Esse povo, presidente, chega à universidade - e muitos delas saem -, sem saber interpretar um texto, benzendo-se para a palavra contexto, gaguejando, gaguejando e não conseguindo articular a mais simples das ideias, misturando causa e efeito com a maior naturalidade. Se se perguntar quanto é dois mais dois a essa turma, presidente, lá vem a contagem de dedo.
    E na leitura? Imagem, metáfora, antítese, preterição. Esses termos são palavrões. O senhor sabe o que é preterição, presidente? E paralipse?
    Estou captando o bocejo dos senhores, de forma que não vou falar sobre o nosso analfabetismo funcional. Vamos direto para as orientações. Lembrem-se da meta: erradicação do analfabetismo e Educação de qualidade.
    1.       32 dias. Esse é o prazo, presidente, governadores, que terão para implementarem as ações. Trâmites burocráticos, digamos assim.
    2.       182 dias é o prazo para estar tudo mais ou menos funcionando.
    3.       369 dias é o prazo para a revolução educacional se completar.
    Entenderam, não? Recursos? Ah, deem os seus pulinhos. Dez por cento da corrupção brasileira dá que sobra. Agora as sanções. Importante, senhores. As metas precisam ser cumpridas por todos os entes federativos. Portanto, é bom os senhores se vigiarem. Eu e a população estamos de olho. E a internet pronta.
    1.       Descumprimento do item um: a internet ficará fora do ar por 122h122min122
    2.       Descumprimento do item dois: a internet ficará fora do ar por 244h244mim244
    3.       Descumprimento do item três: a internet ficará fora do ar até os senhores tomarem vergonha na cara.
    É isso. Está encerrada a reunião. Obrigada. Beijinhos!
    A destemida saiu mas deixou deliciosa fragrância no ar.
    O presidente se pôs em pé, pôs-se a falar ao celular, encerrou a ligação e falou todo agitado: “Precisamos conversar, senhores. O ministro da Educação chega em minutos”.
  • Valeu, tio!


    onibus
    Entrou no ônibus após uma pequena corrida.

    Não queria perder a oportunidade que o sinal de trânsito fechado lhe oferecia. Já na roleta, percebeu o missionário que, na forma de vendedor de cocadas, bradava como de costume sua história de conversão aos passageiros.

    Em meio ao testemunho proclamado no interior daquele coletivo, o recém-chegado passageiro caminhou pelo centro do longo veículo a conferir o troco recebido. Não vira o rosto da trocadora, nem do entusiasmado convertido, assim como o da maioria dos trabalhadores que, após mais um extenso dia, voltavam para suas casas através daquele popular meio de transporte.

    Não havia bancos vagos totalmente, apenas um lugar aqui, outro ali, sempre ao lado de algum outro alguém sem rosto e que, para seu desgosto, não muito espaço ofereciam para ele e sua enorme sacola de doces.

    Sim... Da mesma forma que o vendedor de cocadas, também ele, o recém-chegado passageiro, carregava guloseimas. Não portava uma cesta, como o prolixo missionário, mas segurava as alças de uma vultosa bolsa plástica, repleta de chocolates, balas, bombons e outras iguarias.

    Estas não eram para vender, ao custo da solidariedade alheia, em prol dos irmãos atendidos pela casa onde o ex-dependente químico declarava trabalhar; mas sim para o seu próprio consumo.

    No centro da cidade existia uma enorme casa de doces, que vendia em médias quantidades a preço de atacado. O recém-chegado passageiro abastecera-se lá. Sua cota mensal de glicose. Era início de mês e, com o salário recebido no bolso, dera início ao costumeiro estoque.

    Sentou-se ao final do coletivo; no penúltimo banco, pois visualizara um espaço no fundo do ônibus onde descobrira não haver ninguém ao lado, possibilitando-o assim começar a saborosa degustação. Mas, ao aproximar-se, percebera o motivo daquele inusitado vazio, a ele oferecido em plena hora do rush.

    Havia um menino de rua deitado sobre o último assento, ocupando o lugar destinado originalmente para duas ou três pessoas.

    Descalço, maltrapilho e sujo, o dimenor também portava um saco plástico, só que o detinha na altura da boca, pressionado em sua abertura por um par de mãos trêmulas, ainda sob o efeito do alucinógeno vapor.

    O rosto daquela criança em êxtase, retrato cruel da realidade urbana, foi a primeira e única feição avistada pelo homem dentro do coletivo. Torpor infantil. Contraste.

    Asco.

    Então, após entreabrir somente um dos olhos, o menino foi diretamente atraído pela transparência da sacola plástica carregada pelo recém-chegado passageiro; o único a sentar-se próximo a ele.

    Levantou-se com dificuldade e, no resto de inocência que a brutalidade desumana daquela grande cidade ainda lhe permitia experimentar, estendeu os braços na direção da sacola, numa mistura de sonho e realidade.

    “Valeu, tio!”, disse o moleque com o esboço de um tenro sorriso nos lábios marcados de cola.

    Valeu, tio!

    Mais ainda do que o sorriso, ficou marcada na mente do recém-chegado passageiro aquela frase. Alegre. Aliviada. Feliz. Uma simples e pequenina frase. Uma meia sentença. Muito mais rica em sua exclamação. Uma pequena pausa em meio a uma meia vida.

    Sem sua sacola de doces, o passageiro agora não mais era um recém-chegado. Estabelecera contato direto com a plenitude de sentido coletivo. E único. Desfizera-se de sua máscara, seu muro, sua redoma de vidro temperado.

    Temperança.

    Tocado pelas mãos daquela criança, sujas pelo mesmo cimento do intransponível muro agora derrubado, o passageiro já havia feito o verdadeiro percurso. O caminho precursor de todos os trajetos.

    Concretos acessos.

    Pela janela avistava o invisível. Marquises, pontes, viadutos... A cidade estava toda lá fora. Viva. Reflexos convexos de encontro a um complexo coletivo. Cidade. A rima na mente, incoerente, querendo conversa. E se tudo tivesse sido diferente para ele? E se, nessa idade... E se?

    Cidade.

    O doce sentido das palavras, degustado em forma de poesia. O abrupto encontro de realidades perdidas. Perdidas em meio a um insustentável sentido. Idas e vindas. A pressa. O medo. O egoísmo e a falsa sensação de impotência. Desculpas de culpas cabíveis. Reflexa ação do pensar coletivamente. Ônus.

    Ônibus.

    O resto do percurso foi feito em silêncio. Tudo diferente do normal. O vendedor de cocadas desceu; alguns outros passageiros desceram. O coletivo flutuando sobre as trilhas perdidas de uma tarde em despedida. Só havia aquele rosto, agora. E aquela frase...

    Valeu, tio!

    E aquele sorriso infantil.

  • Valorize!

    Sentimentos podem crescer, mas também podem ir embora. Quem gosta, cuida e quem sente falta, procura. Então saiba reconhecer a tempo quem faz a diferença. Valorize quem te respeita, cuide do que é importante e tente não errar com quem realmente se importa, porque gostamos quando queremos, mas esquecemos quando é preciso.


    Luca Schneersohn

  • Varanda

    Um descanso para os pés
    Um descanso para a alma
    Alma sem pé nem calma

    Eu aponto para o céu
    Ela olha para o inferno
    Conto as nuvens
    Ela conta os dias

    E enquanto você esgota cada chance
    de fazer a vida valer a pena
    De relance
    O telhado da varanda cai

    E adeus...

    Adeus céu
    Adeus calmaria
    Adeus, Maria

    Adeus, poesia.
  • Vazio

    Ela saiu de fininho
    Ele não fez perguntas
    As dúvidas ainda pairam no ar
    Ninguém as faz questionar
  • VIDA

    Se você nascesse de novo,
    O que faria pra melhorar?
    Erraria tudo outra vez?
    Tentaria mais acertar?

    Falaria menos que antes?
    Tentaria a Deus encontrar?
    Largaria o fumo e o álcool?
    Deixaria a vida levar?

    Aproveite o tempo que resta,
    Já pensou não podes voltar?
    Deixe tudo bem arrumado,
    Para o outro que vai chegar.

    Trocaria as noites em claro?
    Dormiria sem hesitar?
    Transaria só com quem ama?
    Amaria só para transar?

    Viveria cada momento,
    Sem um dia desperdiçar?
    Pouparia cada moeda,
    Esperando a morte chegar?

    Aproveite o tempo que resta,
    Já pensou não podes voltar?
    Deixe tudo bem arrumado,
    Para o outro que vai chegar.
  • Vida rapada

    Vagner era uma pessoa simples, de uma vida simples, de uma cidade simples e de uma família simples. Era feliz assim e não tinha a menor pretensão de um dia mudar isso.
    Seu cotidiano era: casa, trabalho, casa. As vezes uma reunião com amigos entrava nesse circuito, mas eram raros os casos.
    Mal sabia ele que esse seu pequeno bioma social estava para trocar as mãos pelos pés. Dia mais, dia menos, esse dia chegaria. Não que ele estivesse ciente disso na época, mas algo em nossa vida nos impele a isso. Retorno de Saturno, alguns diriam. E no caso de Vagner foi o dia em que ele foi apresentado a televisão, que por força de presente de aniversário, não lhe poderia negar, pois seria uma desfeita.
    Sim, algo tão banal para alguns, sequer existia em sua casa. Talvez nisso residisse sua felicidade, mas agora eram águas passadas.
    Lá estava ela. Com seu espelho negro e brilhante a cantar como uma sereia.
    O presente era de um vizinho mais abastado, que ele tinha como compadre. Sinceramente não esperava por este mimo, mas ele veio. Não sabia o que fazer. Sua humilde sala de estar não parecia digna de tal objeto. Por fim apenas acenou e sorriu.
    Nunca quis uma televisão, não precisava de uma.
    Ao menos achava que não.
    É aquela velha história do capitalismo: você pode não precisar, pode não querer algo, mas a partir do momento que esse algo é criado, inventado, você passa a não conseguir sobreviver sem ele.
    Vagner até então nunca nem gostava de ouvir falar em cidade grande. Era daqueles que quando perguntavam.
    – Já foi no Cristo Redentor?
    Ele respondia.
    – Não fui e nem quero. Do Rio de Janeiro já me basta o caminho que o ônibus faz quando eu vou ver a minha vó lá em Caxias. Tem tempo que não vou para aqueles lados, mas lembro que era tudo muito feio.
    Porém, agora com a televisão em sua sala, era obrigado a conviver com aquele mundo distante. Novelas fúteis agora faziam parte de seus prazeres diários. Jornais com notícias sobre bairros que antes ele nem sabia que existia agora permeavam sua cabeça com violência e perigo. Coisas que até então nunca fizeram parte de sua pacata vida em sua cidadezinha.
    Mas o que realmente mais o maravilhou foi a descoberta dos filmes. Foi o que fez com que seu pensamento carrancudo e temeroso sobre a televisão começasse a mudar de verdade. Simplesmente adorava os filmes de super-heróis. Assistia filmes e mais filmes daqueles super-humanos realizando tarefas impossíveis com seus poderes místicos, científicos e até alienígenas. Esses últimos, em especial, traziam a sua mente toda uma mitologia de seu cotidiano, já que era usual o avistamento de Óvnis na sua cidade esquecida pelo resto do mundo. Era uma alegria que dava gosto de ver.
    Entretanto, era uma alegria passageira.
    Acabava o filme. Acabava a felicidade. Vinha o desgosto. Desgosto da sua vida simples, de sua cidade simples e de tudo mais o que fosse simples em sua vida.
    Seu Norte já não era mais o mesmo. Seu conceito de vida já não era mais o mesmo.
    Nada do que vivera até então fazia mais sentido. Estava tudo ali. Tão perto e tão longe. Ele via que tudo em sua vida podia ser mais. Ele acreditava fielmente nisso.
    É essa a sensação que a televisão trás. A vida que Vagner conhecia antes dela passa a não ter valor. A valorização da vida é feita por um comercial, uma novela, um filme. Quem antes se sentia bem consigo mesmo, agora se sente incompleto. É um desejo de consumo que só se satisfaz quando se compra algo, que é quando se torna um pouco mais próximo do ser perfeito que a televisão apresenta. Não que as pessoas não devam buscar crescer e ser mais do que eram ontem, mas quando isso se transforma em desespero, o ser humano perde.
    A vida simples de Vagner não era mais o suficiente para ele. Queria mais, sempre mais. Queria conhecer o Rio de Janeiro tão bonito que aparecia nos comerciais. “A Cidade Maravilhosa” com tudo mais o que tivesse direito.
    Até que um dia desistiu do tédio, pegou todas as suas economias e partiu para aventura da sua vida. Conhecer o Rio de Janeiro!
    Nota: “Tédio”. Palavra maldita que até então Vagner desconhecia. Foi conhecer somente através da televisão. Nunca antes ouvira falar disso. Tinha seu trabalho, tinha sua família, tinha seus amigos e de nada mais necessitava para ser feliz. Até que um desejo dentro de si começou a despertar. O desejo inventado e imposto na sua cabeça por aquele aparelho desgraçado. O querer. Querer algo que não se tem e não precisa. Esse é o carro forte do tédio. Um dos grandes vilões de nossa geração.
    Mesmo contra os anseios de sua família, Vagner foi para o Rio de Janeiro. Juntou uma muda de roupa e foi tentar a sorte seguindo o que seu coração mandava. Afinal é sempre assim que os personagens principais das novelas fazem e no final dá tudo certo, não é?! Por que não haveria de acontecer a mesma coisa com ele.
    Chegando lá não houve nem tempo dele se maravilhar com muita coisa. Vagner nunca tinha se sentido tão mal como se sentira ali andando pelas ruas do centro da cidade maravilhosa. Suas construções antigas e imponentes lhe causaram um efeito totalmente reverso ao que esperava. Em vez de se sentir bem consigo mesmo por poder estar ali e ver com seus próprios olhos as magnânimas construções antigas e de tanta história, logo percebeu algo que a televisão não mostrava. O quanto as construções diminuíam a importância do ser humano para o todo ao seu redor. Verdadeiros monstros de concreto e aço tão grandes e ameaçadores à espreita de sua alma fazia com que ele passasse subitamente a não entender o porquê da sua existência. Nunca antes se sentira tão pequeno, tão ínfimo no universo como agora. Tão nada.
    Porém, o pior ainda estava por vir, o golpe fatal em sua autoconsciência.
    Ao virar por uma esquina qualquer se deu de cara a um grupo de mendigos. Na sua cidade isso não existia. Não sabia como uma pessoa podia chegar a tal ponto de sujeira e podridão. Ficou triste por eles e por toda aquela situação. Andou alguns metros até não aguentar e sair correndo sem rumo pelas ruas desconhecidas. Enquanto corria sentia saudade de sua casa, de sua cidade. Enquanto corria, chegou à rodoviária.
    No seu retorno a para casa manteve-se trancado por dias em seu quarto. Sua família estava preocupada, achava que algo de muito sério deveria ter acontecido a ele na cidade grande. Mas, como era de costume, o tempo iria tratar. Era assim que as coisas funcionavam por ali. Com paciência e tempo.
    O tempo passava e passava. Vagner aos poucos voltava a sair de casa, porém claramente já não era mais o mesmo dantes. Sua cabeça funcionava de maneira completamente diferente. Havia presenciado toda a sua insignificância em relação ao mundo e ao universo. Ele desaparecia aos poucos.
    Os áureos tempos de desejar ser um super-herói estacionara num passado distante. Sonhar em voar por aí sem compromisso. Resgatar uma donzela em apuros. Destruir um vilão com seu raio laser. Tudo não passava de infantilidade da sua cabeça. Na verdade, se martirizava por ter sido tão ingênuo.
    Tentava aos poucos por sua vida novamente nos trilhos. Sentia agora saudade de quando tinha toda a felicidade do universo e não sabia.
    Procurou velhos amigos de escola. Reviu antigos amores. Ligou para todos os familiares que tinha pelo Brasil. Retornara seu contato com os humanos. Os mesmos reles humanos que por toda a sua vida estavam a sua volta.
    Sentiu-se bem com isso.
    Os dias iam passando e Vagner devaneando sobre o que ele significava em meio a tudo aquilo.
    Certo dia resolveu dar uma volta pela pracinha de sua cidade. Toda cidade pequena tem sua praça. A praça na qual toda a cidade crescia envolta, digna das mais ínfimas lendas e causos. Em sua cidade não era diferente. Jardins espalhados por todo o seu entorno, uma igrejinha caindo aos pedaços, alguns banquinhos e alguns jogos de cadeiras e de mesas de cimento com tabuleiro de damas e xadrez de alvenaria. Um parquinho. Isso era tudo que tinha por ali. Este provavelmente era o maior tesouro da cidade e ninguém dava muito valor, Vagner somente o percebera agora.
    Era uma noite quente e estrelada. Vagner botou um chinelo e uma bermuda qualquer e foi divagar pelas bordas da cidade que tanto conhecia. Era um “Oi” aqui, um “Boa noite” ali, e por assim foi. Chegando na praça notou nas crianças que brincavam no velho parquinho. Toda pracinha que se preze há de ter um parquinho velho e cheio de nostalgia acumulada das pessoas que por ali passaram e deixaram um pedaço da sua infância.
    Sabe aquelas ideias que vem na nossa cabeça sem o menor sentido do por que ela estar ali, e logo naquele exato momento onde nada levaria um ser humano dentro da sua sanidade mental a pensar naquilo?
    Pois foi mais ou menos isso o que ocorria com Vagner nesse momento. Pode-se até dizer que foi vítima de uma epifania psicodélica qualquer, mas vá saber.
    Neste exato momento foi como se o tempo parasse para ele. As crianças que saltavam de um lado para o outro alegremente na praça pareciam ter combinado de brincar de “vivo ou morto” bem nessa hora, pois estavam fazendo um magnífico “morto” onde nada nem ninguém se movia.
    A mente de Vagner finalmente tornava real algo que ele tanto almejara dentro de si.
    Ele possuía um superpoder.
    Seus olhos ficaram marejados.
    Percebia agora que possuía o poder da “Invisibilidade Imposta”.
    Sempre o possuiu na verdade e nunca dera conta, assim como todo e qualquer ser humano ali em sua cidadezinha. Um pensamento que espreitava sua mente ultimamente explodiu.
    – Somos todos invisíveis!
  • VITÓRIA

    Quem compete obcecado
    Não concebe a frustração
    De está classificado
    Em segunda colocação.

    Quem compete aliviado
    Sem nenhuma pretensão
    O prêmio vem adiantado
    Já é um campeão.

    Quem vive para vencer
    Avizinha da derrota
    Quando chega o dia “D”
    Vida vira bancarrota.

    Competir é vitória
    Antecipada na largada
    Coroado de oliveira
    Antes da linha de chegada.
  • Viver o quê? Viver de quê? Viver porquê?

    O mundo é tão complicado
    As pessoas são tão confusas
    Felicidade!
    Todos buscam, todos buscam...
     
    A vida é tão curta
    Os dias passam rápido
    O tempo é escasso
    Não temos tempo a perder
    O tempo não para
    Vamos viver!
     
    Viver o quê? Viver de quê? Viver porquê?
    Vamos me fale! Pra quê viver?
     
    Viver a ignorância predominante do nosso país?
    Viver a miséria e a violência que deixa o nosso povo infeliz?
    Viver a deficiência do ensino público?
    Viver com fome, demente e imundo?
    Viver num país de terceiro mundo subdesenvolvido?
    Viver a blasfema “de um mundo melhor” na boca dos políticos?
    Viver jogado nas praças, debaixo dos viadutos, marquises e vielas?
    Viver a vida bastante iludida de uma novela?
     
    Viver o quê? Viver de quê? Viver porquê?
    Vamos me fale! Pra quê viver?
     
    Vamos viver o que há para viver
    Viver o momento presente
    Deixar que o coração e a mente ame incondicionalmente
    Vamos nos preencher do mais infinito amor por todas as criaturas
    Praticar a benevolência para com o mundo todo
    Porque somente quando amamos é que percebemos a importância do viver
     
    Vamos me fale! O que há para amar?
     
     
    Amar é ter respeito
    É sentir dentro do peito
    É abster-se de todas as facetas do preconceito
     
    Amar é cuidar do bem estar de todas as coisas
    É não possuir, mas, de ser possuído
    É olhar para uma árvore e não vê só uma árvore
    Vê raízes, folhas, tronco, chuva, solo e Sol
    Em um relacionamento contínuo e a árvore aflorando dessa relação
     
    Amar é olhar para si mesmo e para outra pessoa e vê a mesma coisa
    Árvores e animais, humanos e insetos, pedra, flores e pássaros
    Todos unidos na mais perfeita harmonia
    Dando origem a todas as coisas vivas
     
    A pessoa que ama é compreensiva com sua gente infantil
    Em seu olhar não há malevolência
    Quando é agredido e ofendido escreve na área
    Para que o rancor e o ódio do seu coração
    Sejam apagados facilmente pelas ondas do mar
    E os benefícios que recebe escreve na pedra
    Para que sejam lembrados para todo o sempre
     
    Amar é saber que a Terra é um ser vivo
    Um gigantesco ser consciente
    Sujeito às mesmas forças que nós
    É saber que este grande ser é a nossa mãe, e assim, respeitá-la
     
    Sabendo disso!
    Sabe-se que todas as coisas vivas são irmãos
     
    Cuidando delas!
    Estaremos cuidando de nós mesmos
    Dando a elas!
    Estaremos dando a nós mesmos
    Ficando em paz com elas!
    Estaremos sempre em paz, em paz com nós mesmos
     
    Vamos viver o que há para viver
    A felicidade brota do agora
    O entendimento está no momento presente
    Na nossa vida cotidiana
    Caminhando passo a passo ao nosso lado
     
    Viver cada minuto como se fosse o ultimo minuto de nossas vidas!
     
    Não importa o lugar
    Não importa a condição
    Viva! Viva o momento presente!
     
    Porque a vida é curta
    Os dias passam rápido
    O tempo é escasso
    Não temos tempo a perder
    O tempo não para
    Vamos viver!
     
    Sem “o quê?”, sem “de quê?”, sem “porquê?”
    Sem se perguntar “pra quê viver?”
  • Você é aquilo que eu precisava escrever...

    Aquilo que faltava eu descobrir, conhecer, vivenciar e ser. Algo que não passava pela minha cabeça. Hoje tudo parece ser mais claro, mais humano, mais além. As palavras que antes faltavam e que permaneciam escondidas, camufladas em sentimentos sem sentir, ou em falas clichês, já não são mais penosas para encontrar. A gente numa foi clichê. A gente nunca foi regra.

    Você é aquilo que eu precisava sentir

    Pra acrescentar a minha vivência, mesmo que ainda tão curta, mas com grandes aprendizados, histórias e risos. Ah, o teu riso... me conta o teu segredo de parecer tão natural rir das minhas esquisitices, fala pra mim. Fala pra eu poder ouvir o teu sotaque, essa mistura do interior de minas com as gírias paulistanas. Como pode ser assim? Como toda essa bagunça em forma de menina-mulher conseguiu fazer arroz carreteiro do meu coração?

    Você é aquilo que eu precisava ver

    Mesmo sabendo que a carne não dura para sempre, que de um instante ao outro envelhecemos e a gravidade começa a mostrar os graves problemas da idade, você, com esse rosto com traços de menina atrevida e cicatrizes de mulher vivida não tem ideia do conforto que trás aos meus olhos. Tua presença preenche muito mais que só os teus vestidos, mas veste o meu coração e o tira para uma dança, com qualquer música de fundo, já não importa o ritmo, não importa se ainda está claro ou se a lua minguante resolveu aparecer, você sempre estará nova, sempre estará. Nada mais importa.

    Você é aquilo. 
    Você é simplesmente
    você.

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