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literatura urbana

  • "Se os negros fossem rosas"

    Foi em um show, eu vi homem que passava nas arquibancadas vendendo rosas. Tal figura, prendeu minha atenção por ser o estereótipo do que chamaríamos de favelado. Um negro favelado, vendendo rosas. Sozinho, alheio ao show, a euforia e as conversas, pensei, "e se negros fossem rosas?"
    Seriam rosas escravas, vendidas, humilhadas, exportadas, de seu belo hábitat natural. Seriam um conjunto de rosas fugitivas, rosas fortes, que com seu trabalho, enfeitaram o buquê nacional. 
    Rosas pobres, exiladas nos morros, presas na miséria, empurradas para favela. Seriam, mesmo assim, rosas felizes.
    Vendo atrocidades históricas, pessoas presas por racismo, mortas pela intolerância, "confundidas", julgadas e com suas vidas destroçadas, por conta de um simples engano, se fossem rosas, estariam vitimadas, despetaladas, sem cor, pisoteadas, inúmeras rosas vermelhas a forrar o chão.
    Se os negros fossem rosas, o Brasil seria um roseiral de indizível tamanho e beleza. 
    Por fim, se os negros fossem rosas, seriam trabalho, luta, conquista, sonho, talento, crescimento e canção. Um botão de esperança, florescendo no lado esquerdo do peito.
  • "Senta aqui, vamos tomar um café"

    Senta aqui, vamos tomar um café?! Jogar conversa fora? Rir pra caramba, quem sabe chorar em algum momento. Senta aqui, vamos falar sobre nós! Como você está? Seus planos? Suas conquistas... Conta mais.

    Senta aqui, vamos matar a saudade de nós, vamos aproveitar um tempinho livre pra descansar a cabeça, o corpo! Senta aqui, vamos falar sobre sonhos, até mesmo daqueles mais cabulosos, quase impossíveis! Senta aqui, vamos olhar dentro do olho, ver como estão brilhando. Senta aqui, me deixa ver como você está bem, como você está feliz!

    Quero sentir seu abraço por alguns instantes. Ouvir sua voz, sua risada. Senta aqui, deixa eu te contar como eu estou como me sinto. Senta aqui, quero te contar uma ideia maluca que tive. Senta aqui, lembra aquela viagem que eu queria fazer, deu certo! Senta aqui, me ajuda a fazer uma lista de prioridades! 

    Preciso ir... Obrigada pela companhia, pelo café, pelo abraço, pela voz doce e suave, pelos conselhos impagáveis, pela companhia maravilhosa, pelas gargalhadas que demos, pelas bobagens que falamos e pela saudade que matamos!
  • 10 coisas que você precisa saber sobre a Marcie [conto]

    1 - A Marcie é a mulher da minha vida.
    Desde a primeira vez que a vi soube disso. Nosso olhar se cruzou num dia mágico na praia e foi como ter uma visão da revelação. Seus cabelos morenos e longos brilhavam com o sol e ela vinha caminhando com leveza. Todo mundo olhava para ela passando, mas foi em mim que ela fixou o olhar e sorriu. Parecia que a gente se conhecia há anos. Ela tinha um sorriso apaixonante que dizia fomos feitos um para o outro. E a Marcie sempre soube disso.
    2 - A Marcie é bonita.
    Não é uma beleza vulgar, dessas carregadas de pó de arroz e batom vermelho bem ajustadas num vestido caro. Ela não precisa ser sexy. É uma beleza pura que vem de dentro. A Marcie é bela de um jeito diferente. Não tem nada haver com a simetria perfeita do seu rosto e do seu corpo macio e cheiroso. Ela emerge do fundo de sua alma e brilha nos seus olhos, se espalha com suas palavras.
    3 - A Marcie é elegante.
    Seu comportamento reflete todo os atributos de uma dama. Seu jeito simples de andar é encantador. A Marcie não precisa de jóias caras e chamativas para atrair toda atenção para si. Sua elegância está justamente em ser notada pela beleza natural. Está no vestido sempre abaixo do joelho ou na calça jeans alta. No seu cabelo liso sem penteados extravagantes.
    4 - A Marcie é inteligente.
    É incrível como ela sabe um pouco sobre quase tudo, e é sempre o pouco mais importante. Ela cursou arquitetura na faculdade. Todas as vezes que conversamos aprendo uma alguma coisa que não sabia, as vezes nem imaginava. Ela é bem informada, leu todos os clássicos da literatura e os melhores romances já escritos, e ainda assim sempre está lendo um livro novo. A Marcie não é desse tipo de sentar na sala e ficar vendo novelas.
    5 - A Marcie não reclama.
    Ela não é daquele tipo que sempre diz que poderia ser melhor ou que só vê as coisas do pior ângulo. Quando fala alguma coisa é sempre positiva. Ela sempre está disposta a ajudar com um bom conselho ou colocando a mão na massa mesmo. Não fica pensando em como poderia ser melhor ou no que está ruim. A Marcie não fica pedindo as coisas, ela vai lá e faz. Ela não é petulante, sabe escutar.
    6 - A Marcie é feliz.
    Seu semblante de paz espelha com exatidão o que é a felicidade. Ela está sempre tranquila e disposta. Não é aquela felicidade boba de quem ri de qualquer besteirinha. É uma coisa genuína de uma pessoa que está de bem com a vida, que sabe como ver o lado bom das coisas. A alegria parece uma coisa natural para Marcie. Ela nunca acorda de mau humor e esta sempre num astral contagiante.
    7 - A Marcie é boa cozinheira.
    Os antigos até poderiam dizer que ela me pegou pelo estômago. Antes de eu levantar ela já fez café e preparou o pão. Pão caseiro, ela diz que na padaria eles não peneiram a farinha, por isso nunca está macio. A Marcie nunca repete o prato no almoço e na janta, e é sempre um mais gostoso que o outro. Os doces são sensacionais, e sua especialidade é o bolo de chocolate. Ela diz que aprendeu suas receitas com a sua avó, e o principal ingrediente é o amor.
    8 -  A Marcie sabe como apoiar um homem.
    Ela tem o time perfeito do que falar, quando falar e como falar. Sabe exatamente a hora certa de fazer as coisas. Está sempre pronta para ajudar e, mesmo nos piores momentos, tem sempre uma palavra consoladora e um gesto tenro para amenizar qualquer tipo de sofrimento. Ela entende a importância do futebol, não me obriga a abrir mão de nada para estar sempre ao meu lado. A Marcie estava sempre preocupada em ter certeza que eu estava bem.
    9 - A Marcie é do bem.
    Nunca vi ela fazer mal nem a uma barata. Quando as via ela, cuidadosamente, as varria para fora de casa. Com a Marcie parecia que tudo sempre ia ficar bem. Ela era voluntária na igreja, na escola, no hospital ou em qualquer lugar onde alguém necessitasse de ajuda. Com ela não havia surpresas, a Marcie sempre ia fazer a coisa certa. A Marcie sempre ouve o que as pessoas têm a dizer com atenção, como se fosse o assunto mais interessante do mundo.
    10 - A Marcie não existe.
    Sou feio, pobre e gordo. Nenhuma mulher nunca me quis. Eu entendo elas. Também nunca ia querer uma mulher feia, pobre e gorda. Por isso criei a Marcie na minha cabeça, para ter uma companhia e poder sofrer de amor como todo mundo. Funcionou.
  • A Colecionável

    Ela estava voltando da faculdade. Infelizmente tinha que andar aqueles duzentos metros à pé, no escuro, para chegar em casa. Sentiu um toque suave no ombro direito e antes que pudesse virar, uma mão enluvada pressionou um pano úmido e fétido sobre seu nariz. Por alguns instantes ela tentou lutar, mas uma letargia avassaladora tomou conta. Sentiu ser colocada em um pequeno espaço acarpetado, e uma porta de metal sendo fechada com violência. E então, foi só escuridão.

    Acordou tempos depois sobre uma cama macia e cheirosa. Parecia que tinha dormido por séculos, mas ainda sentia o corpo cansado e dolorido. Bastante confusa levantou-se e observou o lugar. Onde estava? Um quarto amplo, cuidadosamente decorado com papel de parede rosa, móveis de qualidade, tudo novinho. Uma estante com centenas de livros, escrivaninha para desenho, frigobar, um bar cheio de garrafas de suas bebidas favoritas e finalmente um closet enorme com mais roupas e sapatos do que ela jamais sonhou em ter. Estava deslumbrada com tudo, mas não pôde deixar de lembrar que havia sido sequestrada.

    Em sua exploração pelo quarto recheado de surpresas ela nem reparou na porta. Foi só quando a euforia arrefeceu que ela pensou que talvez não fosse uma prisioneira. Experimentou a maçaneta e surpresa: a porta abriu. Do outro lado havia um pequeno cômodo, com uma mesa de centro e mais nada. Na outra extremidade outra porta, e essa sim estava trancada. A moça experimentou um sentimento estranho, pois concluiu que estava, de fato, encarcerada. Sobre a mesa ela notou um envelope do qual tirou uma carta que dizia o seguinte: "Minha princesa. Meu grande amor. Sinto como se nos conhecêssemos desde o princípio dos tempos. Vivo e respiro a cada segundo por você. Tenho a esperança de que se sentirá em casa no quarto que preparei especialmente para você com todo o carinho do mundo! Tudo que quiser será seu, basta escrever e deixar o pedido sobre a mesa nesta sala. Com amor... seu admirador secreto".

    Estava sob o domínio de um louco que a conhecia nos mínimos detalhes, sabia de seus desejos e podia até antecipar suas necessidades. Os dias se passaram, as semanas e depois os meses. Ela já não sabia quanto tempo estava ali, mas sabia com absoluta certeza de que seu captor a amava mais do que podia compreender, pois tudo ali realmente satisfazia suas mais profundas vontades. Nunca em sua humilde vida ela poderia ter tais roupas, nunca poderia comprar os perfumes e jamais comeria iguarias tão deliciosas enquanto estivesse por si só. Mas mesmo assim, ela não passava de uma prisioneira.

    Ao longo dos anos ela aceitou o conforto, aceitou que tinha tudo que poderia querer e por isso não precisava querer o que não tinha. A vida se encaixou, não da forma que ela tinha planejado, mas se encaixou. Cabia a ela agradecer e continuar existindo, linda, plena e boazinha para que a vida que tinha conquistado pudesse continuar a ser do jeitinho  que sempre sonharam para ela.
  • A conta

    Eu estou morrendo. Sei que todo mundo está, mas eu tenho enfisema pulmonar. Não consigo mais fumar e minha vida é um inferno por causa disso. Tenho que passar o dia na cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo. Nunca me importei muito com como seriam esses tempos, mas sabia que eles iam chegar. Você desenvolve uma certa consciência depois de passar 30 anos fumando dois maços de cigarro por dia. Sabia o que ia acontecer. Assim como quando aceitei ser governador, sabia no que estava me envolvendo. Quando disputei minha primeira eleição para vereador era porque eu queria me envolver. Não é só fazer política ou filantropia, é um estilo de vida. Tem haver com manter tudo como esta: bom para todo mundo. Nem de longe imaginei que as coisas poderiam se desenvolver desta forma. O que você tem que entender é que sempre fiz o que achei que era certo para manter o nosso estilo de vida. Eu tenho esposa, filhos, netas. Sempre achei que quando este dia chegasse seria o fim de um outro começo. Sei que isso não me absolve dos meus pecados, mas eu estou morrendo de enfisema pulmonar. E todo mundo que esta morrendo merece alguma compaixão. Porque todo mundo fez alguma coisa de bom para alguém um dia no vida, e quando se esta numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, é isso que tem que ser lembrado.

    Quando vi a Fernanda pela primeira vez ela estava começando o estágio na Assembleia Legislativa. Era uma jovem estudante de direito, linda. Os longos, e encaracolados, cabelos morenos, o olhar penetrante, as coxas grossas. O conjunto da obra era hipnotizador. Ninguém conseguia resistir aos seus encantos. Admito que quando convidei ela para assumir um cargo em meu gabinete eu já tinha tudo planejado. Sempre fui daqueles que não faz nada sem ter pensado em tudo. Ela não era a primeira, nem eu. Todo mundo faz assim. Acontece. Eu tenho esposa, filhos, netas. Quando ela aceitou o cargo ela sabia o que estava fazendo. Porque o cargo também incluía um apartamento no centro, com cartão de crédito e carro na garagem. Então, se você aceita tudo isso, você sabe que seu trabalho não será exatamente no escritório. E durante dois anos tudo foi uma maravilha. Nós nos víamos de duas a três vezes por semana. A vida pública exige que algumas coisas sejam realmente privadas. Eu não ia no apartamento dela para não ser visto. Nunca éramos vistos juntos. Se você usa uma aliança no dedo anelar esquerdo, e ocupa um cargo público, você não quer que as pessoas te vejam fazendo o que elas fazem. Elas votam em você exatamente porque elas acham que você não faz como elas fazem. Elas votam em você para poderem continuar fazendo o que elas acham que só elas fazem. Se todo mundo soubesse o que todo mundo fez e faz, o que seria desse mundo? E agora, que estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, agora isso vai ser importante?

    O que você tem que entender é que jamais imaginei que aquilo ia terminar como terminou. Eu tenho esposa, filhos, netas. Não teria feito o que fiz se não julgasse que havia extrema necessidade. Era muita coisa que estava em jogo. Todos os meus grandes feitos não podem ser ignorados por um incidente. Eu também construí escolas, creches, hospitais. Toda uma história não pode ser questionada por causa de uma estagiária num momento de devaneio. Não é porque estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, que estou contando tudo isso. É porque a imprensa vai fazer um escarcéu, vai supervalorizar tudo. Eu tenho esposa, filhos, netas. Não vão respeitar elas e elas não merecem isso. Não estou aqui pedindo absolvição, é só que vejam que fiz o que fiz porque precisava manter outras coisas, que eram boas para todos. Pode não ter sido a melhor escolha, mas era a única que eu tinha. Quando ela apareceu grávida, na casa da minha família, vociferando que eu era um monstro, ela mesmo não deu valor a tudo isso. Em tudo que eu representava, em tudo que eu era. Ela não me deu opções. A questão não é quem é a vítima, é como se reage as coisas. Ninguém é santo. O mundo é muito maior que uma pessoa só, e exitem os seus problemas e os do mundo, e perto dos do mundo, o seu sempre vai ser pequeno. Uma coisa que pode parecer pequena para você, pode ser grande para o mundo. Não era só a minha honra que ia ser atingida, era a honra de todo mundo.

    Quero deixar claro que antes de matar ela asfixiada, e incinerar o corpo numa pilha de pneus, tentei todos os outros meios ao meu alcance para evitar que as coisas terminassem dessa forma lastimável. Não foi fácil fazer o que fiz. Eu não queria. Eu chorei, pedi, implorei. Mas ela tinha vídeos, fotos, conversas. Eu poderia ter dado tudo que ela jamais imaginou ter. Hoje ela poderia estar vivendo bem em qualquer lugar que quisesse. Tentei garantir, com todas as palavras possíveis, que ela e a criança jamais passariam nenhum tipo de necessidade. Muito ao contrário, viveriam sem nunca terem que se preocupar com dinheiro. Teriam até direito a herança. Eu reconheceria o filho quando deixasse a vida pública. Mas ela queria causar um escândalo. Queria usar uma criança para acabar com tudo. O que ela queria era ver tudo que eu tinha construído destruído. Eu fiz o que qualquer um no meu lugar faria. Eu tive que matar ela asfixiada, e incinerar o corpo numa pilha de pneus, para garantir que tudo continuasse como estava, porque estava bom para todo mundo. Eu tenho esposa, filhos, netas, e estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo.
  • A esquina e o fim

    [blitz]
    - Boa noite. Documentos do Senhor e do veículo, por favor.
    - Sim Senhor, aqui estão.
    - Da onde o Senhor está vindo e para onde vai?
    - Estou voltando do trabalho para casa.
    - O Senhor pode descer do veículo, por favor.
    - Claro, algum problema policial?
    - Estamos verificando. São só procedimentos de rotina. O Senhor está de posse de algo ilegal?
    - Não Senhor.
    - Então, por favor, retire tudo dos bolso e coloque em cima do capô.
    - O que está acontecendo aqui? Sou suspeito do que?
    - Não sabemos ainda Senhor, estamos averiguando, são só procedimentos de rotina. Coloque as mãos na cabeça e abra as pernas por favor?
    - Porque estou sendo revistado? Eu tenho direito de saber porque estou sendo revistado.
    - Atitude suspeita, Senhor.
    - E qual foi a minha atitude suspeita? Eu estava no limite da via, usava cinto de segurança, estava com as duas mãos ao volante, o que eu estava fazendo de suspeito?
    - Sua atitude era suspeita, Senhor. O que há no porta-malas do veículo?
    - Não sei, umas caixas, panos, estepe, coisas assim.
    - O Senhor não sabe o que carrega no porta-malas, Senhor? O Senhor pode abrir para mim, por favor?
    - Posso, o que o Senhor está procurando?
    - Ainda não sei, Senhor. O que há naquela maleta.
    - Somente alguns papéis.
    - O Senhor pode, por favor, abrir para mim ver?
    - Claro. Está vendo, papéis.
    - Sobre o que são esses papéis?
    - Planilhas, contas. Sou comerciante, são algumas coisas da empresa.
    - Examine estes documentos Segundo Sargento. Agora nós podemos ver o interior do veículo?
    - Como assim examine estes documentos? O Senhor não pode mexer nas minhas coisas assim.
    - Estou analisando os documentos que o Senhor me mostrou e que foram encontrados numa pasta no porta-malas do seu veículo. Aconselho que o Senhor se acalme e me mostre o interior do veículo.
    - Como assim se acalmar? O que está acontecendo aqui?
    - Se o Senhor tem algo à esconder aconselho que me conte agora, pois nós vamos achar.
    - Do que o Senhor está falando? Quer saber, a atitude do Senhor é que é suspeita. Que procedimentos de rotina são esses? Mas eu não tenho nada para esconder. O que o Senhor quer ver?
    - Abra o veículo, por favor?
    - Estes CDs no porta trecos são do Senhor?
    - É isso, sou culpado por comprar produtos piratas? Pode me prender.
    - Acalme-se Senhor.
    - As MP3 do pen drive também são piratas. Eu me entrego.
    - Irei confiscar esses itens. O Senhor pode abrir o porta-luvas, por favor.
    - (click)
    - O que são esses papéis?
    - A nota fiscal do carro, umas contas, não sei.
    - Posso ver essa nota fiscal?
    - Por que? Eu posso perguntar por que?
    - A sua atitude suspeita, e irônica, diz, segundo o manual, que o Senhor está tentando ocultar algum crime. Já sabemos que o Senhor não respeita as leis de direitos autorais, agora estamos procurando quais outras lei o Senhor não respeita.
    - Eu não tive nenhuma atitude suspeita não. Isso é abuso de autoridade. O Senhor já me revistou, revistou meu carro, e não achou nenhuma evidência de nada suspeito. O Senhor está procurando pelo em ovo, isso que o Senhor está fazendo. Eu tenho meus direitos, e não tenho que te entregar a nota fiscal do meu carro.
    - Por favor Senhor, me respeite. Estou fazendo meu trabalho, que é combater o crime. Sua atitude é sim suspeita, e eu posso prendê-lo por desacato.
    - Olha, eu sou um cidadão de bem. Eu respeito a polícia, acho que o trabalho da polícia é desvalorizado. Mas eu não sou bandido.
    - Então me mostre isso, Senhor. Me entregue esta nota fiscal e me deixe fazer meu trabalho que a verdade aparecerá.
    - Tudo bem, desculpe. Estou um pouco nervoso, é a primeira vez que passo por isso.
    - A loja do Senhor deve estar indo muito bem, este carro é bem caro. Com o que o Senhor trabalha?
    - Acabou, me desculpe. O Senhor é da Receita Federal? Eu não fiz nada de errado, nem tive nenhuma atitude suspeita. Ou o Senhor me leva preso e me deixa chamar meu advogado, ou me deixa ir embora.
    [delegacia]
    - Eu só falo quando o meu advogado chegar.
    - O Senhor que sabe, mas pode estar acabando com as suas chances de um acordo.
    - Um acordo sobre o que? Sou acusado do que? O Senhor não tem nada!
    - Bom, já sabemos que o Senhor não respeita as leis de direito autoral. Podemos provar isso. Também sabemos pelos papéis da sua pasta, e a nota fiscal do seu veículo, que a sua renda é incompatível com seu estilo de vida.
    - Não falo mais nada enquanto o meu advogado não chegar.
    - Viu, isso é uma atitude de quem quer esconder alguma coisa. Nós já sabemos que o Senhor comete algum crime. A sua renda é incompatível. Não preciso de uma evidência, isso é uma prova.
    - Prova do que?
    - De que o Senhor cometeu algum crime para comprar um carro que uma pessoa na sua posição não poderia comprar.
    - Isso é uma suposição, até o Senhor provar o contrário eu sou inocente. Eu comprei o carro com um dinheiro que eu tinha guardado há muito tempo. Trabalho desde os 12 anos e agora não posso ter um carro?
    - Quanto tempo?
    - Desde os 12 anos.
    - Não tem nada haver com sonegação de impostos? Venda sem nota fiscal? Compra de produtos sem origem declarada? Essas coisas.
    - Eu não sei do que o Senhor está falando. Se o Senhor não sabe do que me acusar, como eu vou me defender?
    - O Senhor tem filhos?
    - Tenho, três.
    - Eles estudam em escolas particulares?
    - Eu sei o que o Senhor está querendo dizer. Já disse que não respondo nada até meu advogado chegar.
    - O Senhor já disse isso três vezes, eu só estou querendo ajudar o Senhor a dizer a verdade.
    [conversa com o advogado]
    - Como assim eles podem me manter preso por até três meses?
    - Além de você ter violado as leis de direito autoral, existe um indício de que você cometeu algum crime para ter dinheiro e comprar o carro, por enquanto é só isso. Sei que eles solicitaram junto à Receita Federal sua declaração de imposto de renda, da sua empresa e da sua esposa. Se há algo de errado eu preciso saber agora.
    - Como assim? Eles não podem fazer isso. Era só uma blitz, o documento está em dia, minha carta também. Eu só quero ir para casa.
  • A festa

    Eu nunca fui de beber.
    Comecei há pouco tempo, evito ao máximo. Quando faço não me embebedo.
    Minha visão sobre isso torna o ser humano um idiota. Fazemos coisas que sabemos que podem nos matar. 
    Vejo um rapaz sair da festa cambaleando, e entrando no carro.
    Por sorte ele irá bater num poste sem machucar outras pessoas, morrerá sozinho, com a consciência limpa. Se tiver sorte.
    - Que coisa horrível de dizer Otto — Ela diz.
    Sorrio e bebo meu uísque.
    Não lembro como a conversa foi chegar naquele ponto. Ela gostava de falar.
    Um jeito tagarela.
    Havia a conhecido há umas duas festas anteriores. Numa sexta, ou quinta. Não me lembro.
    É sábado à noite, estou cansado, mas é dia de festa. Pessoas bebendo, se divertindo e esquecendo dos problemas da rotina corrida.
    Nessa casa há tantas pessoas. Todas conversavam e riam, algumas pulavam na piscina, outras espalhadas pelos cômodos do primeiro andar da casa. Uma bela casa. Ótima para festas.
    Havia todos os tipos de pessoas naquela casa, todas de diferentes classes sociais, diferentes etnias e raças. 
    Todas reunidas para conhecer pessoas novas, rever as velhas, socializar ou apenas conseguir uma transa.
    Ela estava sentada em uma cadeira verde junto de suas amigas, quando cheguei. Acenou e sorriu.
    Usava um maio vermelho com bolinhas brancas e uma toalha roxa envolta do pescoço, segura um copo de cerveja com a mão esquerda e gesticula com a mão direita enquanto fala, suas unhas estão com um esmalte vermelho sangue.
    Algo que sempre achei muito sexy.
    O seu cabelo preto esta preso num coque molhado que se desfaz a todo instante, ela me olha, continua rindo, mostra a língua e volta a conversar.
    Minutos depois, estamos parados encostados na parede próxima à porta de entrada. Porta de vidro, entrada para a cozinha.
    Não lembro seu nome.
    Mirela.
    Melissa.
    Milena.
    Todos as chamavam de “Mi”.
    “Mi” estuda direito, futura advogada, acredita que a justiça foi feita para proteger todos. Pergunto-me em que país “Mi” vive. Fala sobre prender os caras maus. Bandidos e assassinos. E políticos corruptos.
    Quer fazer a diferença.
    Como todos quer viajar para fora do país, fazer intercambio conhecer algum gringo e ter um amor de verão. Sonha com a Itália. Roma. Coliseu.
    Tagarela.
    Fala sobre seus pais. Médicos. Queriam uma filha medica.
    Pergunta sobre os meus. Mortos. Queriam um filho vivo.
    Ri pensando que foi uma piada. Sorri colocando a mão sobre o rosto, demonstra timidez. Mas esta confortável com a conversa.
    Um jeito leve e descontraído.
    Ela não é alta, mas nem muito baixa. Tem um corpo magro. Sua pele da cor de chocolate me atrai. Seus olhos castanhos me conquistam.
    Uma gota de agua escorre por sua bochecha e pinga ao chegar a seu queixo.
    Sua boca esta levemente pálida por causa da brisa fria desta noite.
    Continua me falando sobre sua vida. Sobre seu estagio em um escritório de advocacia, onde seu chefe fica flertando com ela. Como não flertar com uma garota tão linda? Sorri colocando a mão sobre a boca.
    Ela diz que o café de lá é horrível, respondendo minha pergunta.
    Depois de mais um papo, caímos no assunto sobre bêbados. Ri quando comento sobre o bêbado que acabara de entrar no carro.
    Me da um soco de leve no ombro. Pergunto-me em que momento ganhou intimidade.
    Uma casa bem espaçosa com dois andares, ligados por uma escada de madeira em espiral, moderna. No primeiro andar tem a cozinha, a lavanderia e a sala, no segundo andar, há três quartos, duas suítes e outro para hospedes. 
    Nesse encontra-se uma cama de solteiro, com alguns lençóis e um travesseiro, uma pequena cômoda e uma guarda-roupa empoeirado, com algumas roupas velhas dentro.
    “Mi” esta rindo, seu cabelo esta solto, ainda molhado e caído sobre seus ombros, não é um cabelo comprido.
    A musica alta estrala em meu ouvido. 
    Ela rouba meu copo de uísque, bebe um pouco e então, me devolve. Faz careta ao engolir.
    - Vamos Otto, dance! — Ela diz, rebolando no ritmo da musica.
    Coloco o copo sobre a cômoda. O gelo balança fazendo um som de sino ao bater nas paredes internas do copo.
    Solto minha gravata.
    - Só você para vir de terno a uma festa na piscina — Ela diz.
    Sorrio.
    Ela sorri, não cobre o rosto desta vez. Esta bêbada.
    Começa a falar que esta de olho em mim desde a primeira festa. Desamarra o maiô. Seus seios ficam a mostra, são pequenos como laranjas e tem as aureolas marrons. Fazia um tempo que eu não via uma garota nua. Meu corpo esquenta.
    Ela se aproxima.
    - Eu sei que você me quer Otto. — Ela diz, apalpa os seios.
    Desculpe-me “Mi”, o que sinto não é excitação pelo seu corpo. Mas pela sua morte. Ela esta bêbada.
     Sorri. 
    A faca entra em seu peito. Atravessa seu tórax atingindo seu pulmão. Ela não tem tempo de reagir. Sua respiração fica pesada. Ela não grita. Esta segurando meu terno. Olha-me nos olhos. Sangue escorre pelo canto da sua boca. Retiro a faca. 
    A faca entra novamente, próxima ao local anterior. Retiro a faca.
    Ergo minha mão. Passo a língua em meus lábios.
    Há muito sangue. Ela cai. Seu cabelo esta no meio daquela poça vermelha. Tiro minha gravata. 
    A musica alta estrala em meus ouvidos.
    Suas pernas são lindas, sem nenhuma mancha, sua cor é atraente, seu quadril é largo comparado a sua fina cintura. Abaixo e tiro seu maiô, corpo maravilhoso. Sua barriga é definida, devia fazer exercícios frequentemente. O sangue ainda sai pelos cortes. Esta toda vermelha. Tento não encostar no sangue. Pego o travesseiro e faço pressão para o sangue dar uma pausa. Coloco-a sobre a cama. Esta nua. Penduro o maiô num cabide dentro do guarda-roupa. Tomo um gole do uísque.
    Caminho até o banheiro do outro quarto, não há ninguém no segundo andar. Lavo a faca, as mãos e encaro o espelho. Arrumo o cabelo e volto para vê-la.
    Desço a escada em espiral. Logo estou na cozinha. Largo a faca sobre a pia, mesmo lugar de onde peguei, antes de subir.
    Esbarro em algumas pessoas. Peço desculpas. Alguns sorriem. Outros me encaram.
    Vou embora.
    No dia seguinte vejo a noticia.
     “Mi” foi encontrada dentro de um guarda-roupa, de cabeça para baixo, com os pés amarrados por uma gravata, nua. O cabelo todo sujo de sangue. Os olhos revirados, e sua língua estava sobre a cama num copo de uísque.
  • A Moda Como Linguagem

    A moda é uma linguagem. É a porta voz da alma de uma nação. Não dá para pensar que a moda é só atributo das passarelas de Milão ou de Paris. Diante as Olimpíadas do Brasil percebemos o quão essa linguagem pode dizer da característica de um nação de forma tão contundente. Vimos o mundo inteiro maravilhado com a beleza de nosso povo. E essa linguagem que maravilhou o mundo, com o sincretismo do povo brasileiro, da diversidade de cores e de beleza que além de contagiar o Brasil, contagiou os estrangeiros e mostrou a riqueza de uma nação bela que foi construída pela interação de diversos povos como os japoneses, africanos, italianos. E Mesmo com os apelos políticos do qual assola a agora ‘instável’ nação, o festival de cores, as roupas, as fantasias que cativaram até os ‘gringos’ mostraram: O Brasil é um país de beleza, exótica... Mais beleza. E o que falar de Gisele Bündchen na passarela? . Ela mostrou o que faz do país além de uma referência de cores e diversidade um país cuja moda e elegância são também coisa de Gente Grande. Vale Ressaltar que apesar de certo muro de separação entre Moda e Política: pode-se dizer que o conceito de moda está findado tanto em política quanto na filosofia e todos intrinsecamente representam conceitos de racionalidade. A política é um ato de escolha, de fazer, agir, e a filosofia é utilizar a razão e a complexidade do mundo para inferir verdades e silogismos que levem a tentar compreender a verdade da sua maneira. A moda também é assim. É tanto um ato de escolha, de ordem e poder quanto de racionalidade, uma atividade de entendimento e complexidade do saber de uma cultura, de um povo, de uma pratica social. Você veste aquilo que você é, de acordo como você se sente , sua personalidade , seu estilo de ver e viver a vida. Ademais, a compreensão e a vivência a uma determinada cultura é pressuposto para adentrar ao contesto cultural da manifestação a qual se participa. Esse conceito cultural pode ser exemplificado por dois extremos, pôr exemplo, o Brasil e a Arábia Saudita. O nosso país é um país diversificado e cuja pluralidade de povos, etnias ,religiões e orientações sexual amplia a definição de moda e tradição dependendo do povo ou grupo social e nos fazem únicos. Temos povoados de origem alemã no norte do Rio Grande do Sul, comunidades chinesas em São Paulo, libaneses e sírios em fortaleza e povos nativos e indígenas no norte , nordeste , sudeste , centro–oeste e cada qual representam uma moda típica com vestimentas e características de trajes típicas. Na Arábia Saudita também existe uma moda, mas em contraposição, as vitrines são cheias de saiotes até os pés, véus que cobrem o rosto e burcas que são espécie de ‘biquínis vestidos’ que comportam visualmente a cultura e a moda local. Se vestir de biquíni, maiô ou um tomara-que-caia, por exemplo, é um afronto para a população e tradição local. Na Arábia Saudita sabemos que o conceito de moda é muito mais homogêneo e diverge muito das liberdades encontrada no ocidente . Porém, foi visto também que o orgulho ao véu é também uma convenção honrosa, tanto pela defesa as raízes do país quanto ao respeito e moral das mulheres árabes as suas tradições. A moda muda convenções e democratiza a história, pois é o ponto condutor para mudanças sociais e o termômetro entre liberdade de expressão, conservadorismo, ideologia e novas mudanças de concepções. Conquistas como a liberdade sexual , igualdade entre os gêneros, igualdades entre os homossexuais foram conquistados queimando sutiãs, ousando utilizar roupas que eram consideradas masculinizadas ou fora do padrão, etc. Por parte, não existe o enquadramento de dentro ou fora de moda, uma vez que a moda acaba sendo relativo de lugar a lugar, é temporal (depende do tempo em que se vive), depende também das inovações e complexidade da mesma além de ser variável também por quebra de padrões, globalização , mudanças social e um universo de outros fatores que acaba tornando ela ao mesmo tempo - atemporal – pois é possível um resgate de uma dita ‘moda velha’. Ao resgatar o antigo, o arcaico, o ‘ Retrô’, ou até antecipar “o que não veio ainda” à exemplo de moda do tipo ‘ futurista’, há uma semiótica de peças antes ‘ bregas’ , ‘ horrendas’ , ‘ feias’ que se transformam em irresistíveis peças ‘cult’, ‘modernas’, ‘estilosas’, tudo por fruto de convenções da sociedade e existência das inovações da moda.
  • A nova onda cyberpunk

    Diferente do que afirmam os críticos, a morte do cyberpunk foi anunciada com certos exageros. O pós-cyberpunk, movimento no qual a tecnologia e a sinergia entre homens e máquinas é considerada algo possível, ao menos até o momento continua sendo uma utopia cibernética e não uma realidade concreta. A alta tecnologia e a baixa qualidade de vida é algo muito mais palpável. O cyberpunk não cria ilusões, revela fatos diários.
                Quando a Darda Editora se propôs a explorar esse subgênero da ficção científica, o mundo e a liberdade criativa para criar histórias nessa realidade foi imensa, e também envolvente. No total, oito autores foram selecionados. Já conheço até o trabalho de alguns deles, pois já fui seus colegas em outras antologias. Recomendo esse livro pelas novas abordagens, dramáticas e catárticas nesse livro.
                O primeiro conto é escrito pela Aline Cristina Moreira, e se chama Ilusões. Esse texto nos mostra como a tecnologia é muito frágil para substituir as relações humanas, cada vez mais artificiais. Não posso falar mais, senão correrei o risco de revelar o final da história. Foi uma leitura assustadora.
                O segundo conto é o meu, Assalto ao Banco Genoma, um hacker baiano recebe uma bolada em criptomoedas para assaltar um banco de registro de DNA para um nobre europeu. Mas enquanto ele invade o BG, uma força tarefa chega ao seu quartel general. Não gosto muito de comentar meus próprios contos, mas eu fiquei muito satisfeito com esse aqui.
                O conto do Cesar Luis Theis, o Nuances da cyber-sociedade, a alta tecnologia tem o mesmo status de uma droga, pois o seu uso é viciante, gera dependência e problemas psíquicos no seu usuário. Foi o trabalho mais coeso, com começo, meio e fim bem claros. Ficou muito nítido em qual mundo a narrativa se desenvolvia, o conflito entre hacker e máquina foi sensacional, usando xadrez como plataforma de combate. Melhor conto.
                Sangue e circuitos de Fabiana Prieto trouxe uma narrativa deja vú, a história parece se repetir em seu final, se tornando um anticlímax. Pareceu mais um prólogo de um romance do que um conto, ao menos me pareceu assim. O conto tem uma ótima ambientação, e se peca pelos personagens com pouca personalidade, a autora tem um ótimo argumento em mãos para desenvolver uma prosa maior.
                Jonnata Henrique é um dos poetas e contistas mais prolíficos que conheci, e um dos mais talentosos também. A história de O setor 469 também tem um ótimo cenário, uma típica distopia com um plano de fundo cyberpunk. Depois de uma Terceira Guerra Mundial, a população diminui para metade e ocorre a chipagem dos seres humanos. O setor 469 usa um programa de testes de robôs militares, e para isso, usa presidiários. Apesar do conceito ser instigante, a obra é muito curta, e termina com muitas pontas soltas. Careceu de um melhor desenvolvimento.
                Fuga na Cidade de Neon de Rafael Danesin trouxe a narrativa mais dinâmica e final mais aterrador da coletânea. Joh Haarp (que devido a flexão de dois gêneros não tive certeza se era um homem ou mulher) está fugindo de sua crio-prisão. Como um lobo solitário fugindo dos caçadores, o fugitivo causa um grande estrago na cidade, sempre com tiradas satíricas e sagacidade.
                Suellen Silva traz Vida de Cão. A história é simples, tem um cão-robô como protagonista. O cyberpunk é um gênero permeado pelo conflito entre o homem e tecnologia, o indivíduo e a sociedade, corporações umas contra as outras. Trazer esse conflito através de um novo olhar nos tira da zona de conforto.
                Fantasy and Dreams é o conto do Tauã de Lima Verdan Rangel, e fecha a antologia. Confesso que de todos esse foi o conto que eu menos gostei. Embora ele seja o de maior quantidade de páginas, não em pareceu que ela foi desenvolvida muito bem. A narrativa em primeira pessoa deixou vários pontos em branco. Personagens foram citados como numa lista de supermercado, mas não tiverem desenvolvimento de personalidade ou ações claras na trama. Outro conto que parece um prólogo de uma narrativa maior.
                Esse é o meu primeiro livro publicado com a editora, não sei porque, mas o livro demorou muito para ser editado. O livro tem apenas oito contos, eu sempre espero que a antologia tenha no mínimo cem páginas, esse é o maior pecado da antologia. A diagramação do livro não está ruim, mas uma segunda edição necessitará de uma melhor revisão, me pareceu que o livro foi editado às pressas, mesmo com cinco meses de produção e apenas 60 páginas. Inclusive eu achei que eles mudariam a capa, ele não instiga muito a leitura. O livro te orelhas, marcador de página exclusivo. Miolo em papel offset 70, capa papel cartão 200. Se você quer acompanhar mais um dos meus trabalhos ou se você gosta mesmo de cyberpunk o livro é sua pedida.
    Para adquirir o livro cesse aqui:
    https://www.dardalivraria.com.br/9143094-Antologia-Cibernetica
  • A Pianista

    Não sei por que. Mas estava lá. 
    Parado.
    Em minhas mãos um folheto com os hinos do dia.
    Não sabia nenhuma música e não estava afim de cantar. Muito menos ler.
    O grupo era pequeno. Tinha no máximo dez pessoas. Sendo a maioria jovens como eu, e os velhos eram bem velhos. 
    A pessoa que mais me chamava atenção era a pianista. Caroline, esse era seu nome. Se não me engano.
    Caroline 
    Caroline
    Sempre tocou piano. Ganhou prêmios por isso. Tocava com sua alma, sentia cada tecla bater em seu coração. Suas belas mãos pálidas tocavam gentilmente cada nota.
    Todos ali ajoelhados. Ouvindo e admirando, louvando e glorificando ao som daquela maravilhosa pianista.
    Lá estava ela. Com seu cabelo preto amarrado num coque bagunçado pela ventania que estava aquele dia. Provavelmente iria chover.
    Sua camisa azul de bolinhas vermelhas estava com as mangas dobradas até a altura do cotovelo, usa uma saia rodada preta, que ia até o joelho. Calça uma sapatilha bege, mas insistia dizer que aquilo era nude. 
    Ela vinha para a igreja caminhando, fazia isso todo domingo, eu sempre a via passar em frente de casa. Nunca atrasava- se.
    Sempre adiantada.
    Chegava na igreja antes de todos. Apenas para limpar o piano. Instrumento antigo. Amigo antigo. Lugar onde ela sempre tocara sua divina melodia.
    Todos a cumprimentam. Vão chegando aos poucos.
    Ela sorri. Sorriso atraente.
    Seus olhos escuros se encaixavam perfeitamente com seu belo rosto pálido e fino. Olhar sereno. 
    Caminha com serenidade, transborda calmaria e paz. Continua sorrindo.
    Passa a missa toda assim, com aquele semblante de boa moça. Garota adorável. Sorriso doce.
    A missa é curta.
    Após tocar oito hinos, tudo acaba.
    O padre termina a missa como todas as outras.
    Palavra da salvação. Todos respondem e levantam-se como se não vissem a hora de ir embora.
    Caroline faz reverência ao seu público, concluía com um sinal da cruz e um aceno para alguém da multidão 
    Fecha o piano. Com extremo cuidado, cuida como se fosse um filho. Após isso se reúne ao resto do grupo de canto. Beijos na bochecha e abraços. Sorrisos e risadas.
    Todos a cumprimentam.
    - Foi uma ótima missa, não achou Otávio? – ela diz. Sua voz era macia, como a de um anjo, suave e calma, como o piano que acabara de tocar.
    - Não sei, na verdade, parecem todas iguais para mim – respondo.
    Ela sorri. 
    Aquele sorriso inesquecível. 
    Fiz amizade com ela havia algumas semanas. Ela notou meu interesse em tocar algum instrumento. Me ofereceu algumas aulas, recusei algumas vezes, sem motivo algum. E sem motivo algum aceitei naquele dia.
    Sua volta para casa era, como a ida à igreja. Todos a cumprimentam. Sorrisos. Acenos. Ela sorri. E acena. Uma, duas, três vezes. E repete. 
    Sorriso lindo.
    Sua casa é verde, com enormes portões cinzas. Ainda morava com seus pais. Mesmo tendo seus vinte e poucos anos, continuava indecisa sobre o que faria da vida. Sem sonhos. Sem futuro planejado. Sem namorado. Acreditava não ter sorte para arrumar um. Não imagina a beleza que tem.
    Venta muito. Segura sua saia para que não levante. Dizia para eu não olhar caso isso acontecesse.
    Caminhamos rápido para que não fossemos pegos de surpresa pela chuva que não veio.
    Uma casa bem grande. Daria duas da minha facilmente. Tinha sala de jantar. Sala de estar. Sala de recreação. Sala de lazer. Suíte. Cozinha. E outros tipos de salas. 
    Ela pede para que eu espere na sala. Sento numa poltrona de couro. Desconfortável no início. Mas com o tempo ficou aconchegante. Não há televisão naquela sala. E nem nas outras. 
    Apenas retratos. E mais retratos. Alguns quadros também. 
    Em um dos retratos vejo sua mãe. É bonita como ela. Ouvi histórias que diziam que a mãe dela havia fugido com um vizinho, e deixara Caroline com o pai, que por sinal não estava em nenhuma foto ali. E também, não estava na casa.
    Ela demora.
    Decido então fazer passeio pela casa. 
    São dois andares. 
    No de baixo, temos as salas a cozinha que é bem espaçosa, não tem mesa, pois a mesma fica na sala de jantar ao lado. Na cozinha, tem apenas os armários que cobrem todas as paredes do lado direito, tem também a geladeira e o fogão.
    Uma escada em espiral fica no meio da sala de recreação. Subo-a.
    A escada dá de encontro com um corredor. Extenso corredor. 
    A primeira porta é branca, giro a maçaneta e a abro. Dentro encontro uma cama de casal com vários travesseiros. Doze no mínimo. Um enorme guarda roupa, vai do chão ao teto, engolindo a parede. Um cheiro forte de colônia toma conta do ar. Deve ser o quarto do pai dela.
    A segunda porta, é marrom, lisa. Abro-a. É apenas o quarto de tralhas, coisas que não usam mais. Haviam diversos instrumentos quebrado.
    Nesse corredor havia mais cinco portas. Mas logo na terceira, era o quarto dela.
    Um enjoativo odor adocicado toma conta do meu nariz instantaneamente. A porta está meio aberta. Ouço o som do rádio.
    Entro.
    Ela estava lá. 
    Caroline
    Caroline
    Usando apenas a camisa e uma calcinha azul com rendas. Suas pernas brancas chamavam minha atenção, ela as balança conforme o ritmo da música. 
    O ranger da porta a pega de surpresa, dá um pulo de leve e se vira, colocando a mão sobre o peito. Posso ver o volume de seus mamilos sob a camisa. Ela solta a escova de cabelo.
    O quarto é delicado como ela. Haviam inúmeros instrumentos por ali. Violões. Guitarras. Flautas. Trompete. E muitos outros.
    No canto, por ironia, está um teclado todo empoeirado. Abandonado.
    Ela sorri.
    No centro do quarto está sua cama. Grande. Muito grande.
    Ela sorri.
    Passeio pelo quarto, encaro o espelho do guarda roupa, estou arrumado, bonito.
    Sorrio.
    Um raio de sol que entra de penetra desviando da cortina lilás, paira sobre o teclado empoeirado. Um punhado de poeira dança na faixa de luz solar. Passo meu dedo, bem devagar sobre as teclas, daria para ouvir um som decrescente, se o teclado estivesse ligado. Ou com bateria. 
    Não entendo de teclado.
    Olho para Caroline. Parece não se importar. Aquele devia ter sido seu primeiro instrumento. Abandonou-o. Pergunto o porquê disso. 
    O motivo de tê-lo deixado de lado.
    - Cansei dele. – Ela diz, Sorriso.
    Cansou dele. 
    Todo o tempo que haviam passado juntos não contava mais.
    Sorrio para ela.
    Pressiono uma tecla. Não faz som. 
    Está sem bateria ou desligado. Não entendo de teclado.
    Abaixo na altura dele. Assopro. Uma nuvem de poeira se espalha pelo quarto.
    Ela desabotoa um botão.
    Coloca as duas mãos sobre o instrumento.
    Você não se importa mais com ele, pergunto esperando que ela me dê uma resposta positiva.
    - Sim, mas ele está velho, não serve mais para mim. – Ela diz. Mordiscando o lábio inferior e sorri.
    Não era a resposta que eu queria ouvir. 
    Desabotoa outro botão. 
    A porta range com o vento leve que entra pela janela. A cortina balança. Com um pouco de esforço levanto o teclado de sua base.
    - O que está fazendo. – Ela pergunta. 
    Sorrio.
    Sua camisa está quase toda aberta. Com o passo que ela dá, posso ver seu seio balançar. Vem em minha direção. 
    Sorrio. Ela não. 
    Levanto aqueles aproximadamente dez quilos acima do ombro, e então a golpeio no rosto.
    O golpe não é forte o suficiente para desmaia-la.
    Ela apenas cai e põe a mão sobre a boca. 
    Posso ver seu seio. Sangue pinga no chão de piso branco. 
    Meus braços pesam. Já estão cansados. Caminho por alguns centímetros arrastando o teclado. 
    Ela chora. 
    O sangue escorre de sua boca e pinga sobre seu mamilo marrom. Escorre por ele e pinga em sua barriga, e logo é absorvido pelo tecido da camisa de bolinhas.
    Não sei por que fiz. Apenas senti vontade.
    E então a saciei.
    Com muito esforço, ergo o teclado novamente. E a golpeio de novo. Um golpe contra sua cabeça.
    Ao tentar se proteger ela acaba quebrando o pulso. Som que posso ouvir com clareza. 
    Ela chora. Urra de dor.
    Ergo o teclado novamente.
    Então solto contra ela. 
    Ergo o teclado. Mais um golpe.
    Peças se soltam.
    Sangue espirra.
    Ergo o teclado. Mais um golpe.
    Ela não se move.
    Meus braços doem. Estou ofegante e soado.
    Suas pernas brancas estão sujas com seu sangue. Ela agora tem um motivo para não tocar o teclado. Seu pulso está roxo e inchado.
    Silêncio.
    Paro em frente ao espelho. Arrumo minha gravata. Bonito.
    Por sorte as gostas de sangue não são aparentes em meu terno.
    Olho para ela. Não está mais tão bonita. 
    Tristeza.
    Seu rosto, com o nariz quebrado e faltando alguns dentes, está coberto de sangue. Seu cabelo está molhado por uma poça enorme de seu sangue. 
    Deve ter encontrado a paz.
    Desço a escada. A cafeteira apita. Sirvo um pouco de café. Caminho pela sala. Observo novamente as fotos e quadros. 
    Seu pai não está ali. Sua mãe continua sorrindo. 
    Muito linda. Se Caroline tivesse ido embora com ela. Nada disso teria acontecido
  • A Solidão e A Cidade

    Findava o dia, e a sombra, mansamente,
    os seres aliviava cá na terra
    das fadigas comuns…
    Dante, O inferno

    Desfilam, à minha frente, as dores humanas. A finitude salta aos olhos com a graça de uma bailarina triste… É a hora da vida, que perde o futuro a cada instante. O pôr-do-sol que se aproxima faz sangrar as mais doces almas com a crueldade de um deus que tortura sob o véu do desespero. Olho ao redor e vejo que perante a noite o mundo é covarde, não há nada, nem ninguém que possa encarar a noite, sua nudez é agressiva a qualquer existência, e ao pôr-do-sol essa covardia se apresenta com uma nitidez ofuscante. Uma noite é uma experiência de vida pulsante que abala a realidade visível, a indiferença se torna impossível. A consciência e a lucidez tão sólidas que todos tinham enquanto o sol brilhava vai se dissipando e escurecendo com o cair da noite, surge a incerteza do homem, travestida de alegria e embriaguez. Aqui nos tornamos humanos.

    Saí pela porta dos fundos para passar despercebido a qualquer um (é sempre bom não chamar a atenção). Tranqüilamente desci a rua que dava para a pracinha do bairro como se caminhasse no jardim de algum mundo perdido no tempo. Ouvi meu nome. Era um conhecido. Cumprimentei-o e continuei minha caminhada, mesmo sem saber pra onde iria. Não existia um “onde”, só uma infinidade de rotas vãs que não chegariam nunca a lugar algum. Pensei em voltar pra casa, mas não! Havia acabado de anoitecer e eu precisava escapar do tédio, mesmo que fosse para, em seguida, cair na melancolia. Àquela hora, ninguém estava nas ruas, os bares estavam fechados, ainda era cedo, a cidade pertencia a mim. Eu reinava absoluto sobre aquele amontoado de “nadas” e me sentia também parte daquele gigantesco “nada” que se assemelhava a uma espécie de refúgio para quem já não tem nada a perder. Um amontoado de seres que juntos eram nada.

    Só é possível existir sozinho. Era nesse refúgio que eu me perdia e me sentia ameaçado. Havia chegado agora a uma grande avenida onde encontrei algumas pessoas tão perdidas e ameaçadas quanto eu. Uma garota, bonita até, olhou nos meus olhos quando passei, tinha um rosto triste e um olhar de quem ainda não se deu conta de que pode enxergar. Passei por ela, assim, sem dedicar-lhe maior atenção. Era finalmente o existir. Sentia-me impressionantemente feliz. A alegria de quem se sentia livre e a angústia da consciência do limite, eram as causas da singular felicidade que sentia.

    Perdia-me em devaneios sob os olhos ocultos da realidade, amava aquele mundo que parecia tão pouco meu, tão distante de minha compreensão. Sentia-me como alguém que perdeu todos os sentidos, que não podia reconhecer nada, mas que ainda era capaz de amar… amar desesperadamente a solidão, amar o próprio desespero de estar só. Solidão… uma palavra com um gosto amargo que está sempre na boca de todos, pronta para ser pronunciada e se espalhar como uma peste noite adentro. Mas não a pronunciam; embriagam-se para escapar dela, encontram outras pessoas para esquecê-la, ou simplesmente se matam. No entanto, toda fuga é inútil e tudo o que se consegue é perder, visceralmente, a dignidade.

    Cheguei a um cruzamento e parei para esperar que o sinal abrisse, enquanto isso, percebi que a noite já reinava soberana sobre a cidade, e desta só restavam escombros. Ninguém mais se reconhecia, eram todos estrangeiros, que só não se matavam por um estranho senso mútuo de cumplicidade e dependência. Por que? Como é possível que vivam assim, os homens? Será que só eu tinha a consciência de que todos se odiavam e queriam acabar com o primeiro que cruzasse seus olhares? A cidade parece ter um mecanismo invisível que impede tal coisa, o império de um imperador que não existe, um império que se sustenta sobre o vazio e que não tem razão de existir, mas, nem por isso se entrega a própria ruína. Era nessa impressão de real que eu estava me afogando, me consumindo como se tragasse um cigarro … era a lei da noite, e eu não podia fazer nada que não resultasse vão. Os olhos do eterno suprimiam toda coragem e toda nobreza, o porvir era tudo e o presente se perdia como algo inatingível. Angustiado, olhei para o nada e decidi rir…


    Janeiro de 2007
  • A união do complexo medo atraente

    Penetrara no karma atual da moderna sociedade virtual em que nasceu, cresceu e ainda vive, mergulhado numa atmosfera de medos e complexos que lhe foi imposto por uma sociedade de valores hipócritas e sentimentos ilusórios. Essa triste “realidade” que até então vivenciava, teve sua extrema abrangência com o poder que lhe foi outorgado através da internet e seus recursos digitais. Passara em muito pouco tempo de um simples telespectador para um aspirante astro internauta autodidata.

    Através da internet e suas redes sociais, como um cyberpunk moderno, percebeu que a espada encantada cravada na grande pedra, não pertencia somente ao lendário e valente Rei Arthur e seus cavaleiros da távola-redonda, como era antes o caso monopolista da grande mídia. Agora sabia que também ele obtivera o direito de possuir sua própria espada mágica, e, foi encantado e possuído por ela.

    No início não podia prever as consequências de tal poder. Tudo era maravilhosamente maravilhoso. Estava perplexo diante dos inúmeros portais mágicos que lhe fora aberto por esses dispositivos radiativamente encantados, onde tudo começou com o poder telepático de enviar e receber nossos pensamentos, desejos e sentimentos nos virtualizando em palavras, falas e imagens. Abrangendo nossas perspectivas limitadas, além dos nossos vínculos sociais mais próximos, alcançando o desconhecido em milésimos de segundos, entre os milhares quilômetros de distâncias. Até o Mago Merlim se aqui entre nós, nesse momento, estivesse, ficaria impressionado com tamanho poder e proeza outorgado a todos.

    Porém, a espada de Arthur continha dois gumes e cortava dos dois lados.

    Percebeu-se ainda, que, não tarde, o poder que lhe foi ofertado pelos deuses tecnológicos exigia de nós sabedoria para possuí-lo. Essa poderosa espada mágica Kaledvouc’h como se outrora pensava, estava inacessível ao grande público há tanto tempo, encrustada na grande pedra, pelo nobre motivo daquele a quem seria o seu possuidor, ter que passar por ensinamentos de vida rigorosos, pelo qual o seu espírito e o seu coração fossem meticulosamente testados. Só assim, teriam a primazia de obter a força dos deuses para puxar a espada da grande pedra. Essa sagrada espada é raramente denominada “Excalibur”, e é retirada por Arthur como símbolo milagroso de sua Nobreza e direito ao trono da Bretanha.

    Entretanto, agora se questionara: Será que todos possui esse direito e nobreza do Rei Arthur?

    Fomos preparados e disciplinados para empunhar tamanho poder?

    Virtualmente, se deparou com os muitos casos de jovens que por uma simples brincadeira nas redes sociais, acabaram causando dor e destruição a si mesmos e aos outros. Como foi o caso da menina russa de 17 anos que morava nos Estados Unidos, que filmou um ato de estrupo em um aplicativo de postagens de vídeos, com duração de nove minutos, só para obter likes. Intentara que naquele momento durante a filmagem, a jovem poderia usar o seu dispositivo para pedir ajuda ligando para polícia, ou um adulto responsável, também notara, que as pessoas que estavam assistindo o vídeo online, em vez de dar likes, poderiam aconselhá-la para impedir aquele ato brutal. Que alcançou milhares de visualizações.

    Daí, meditara, que o poder sem a responsabilidade é cegamente egoísta e brutal.

    Entretanto, dualisticamente, não esquecia ele, que Excalibur é uma espada pontuda afiada de dois gumes que corta, penetra e dilacera. Podendo afastar as pessoas, ou uni-las. Mas, nesse bidimensional mundo de algoritmos binários computacional e ilusório, afirmava ele somente conhecer causas e efeitos mecânicos, e nunca as Sagradas Leis Naturais em si mesmas. Por isso, que ao unir as pessoas, afastava a solidariedade entre elas, em que camuflado e protegido em sua privacidade, por detrás das telas negras caleidoscópicas brilhantes, o indivíduo se julgava ir além do respeito e dos sentimentos fraternos, soltando sua naja língua pensante, em seus rápidos dígitos dedos, envenenada nos seus mais mesquinhos sentimentos obscuros de inveja, cacoetes, ego e porcas maldades. Que no mundo fenomenal das aparências, só percebia bidimensionalmente ângulos e superfícies, e nunca o integral das coisas.

    Obviamente, ele sabia que a dialética da consciência da proximidade física dos corpos pensantes, que tudo entende por intuição, através das palavras audíveis, figuras simbólicas, gestos, movimentos, olhares e expressões voluntárias e involuntárias fora cruelmente ofuscada pela dialética racional do intelecto presente nas redes sócias, fóruns e plataformas proprietárias de mensagens instantâneas baseadas em nuvem, que nada tem de essência natural humana, e sim, apenas o ilusórico poder formulativo de ideias e conceitos lógicos preconcebidos, que por mais brilhante que seja, e por mais que se julgue de qualidade e de utilidade nos inúmeros aspectos da vida prática e cotidiana, nada tem de valor para existência e ecologia humana, resultando apenas em obstáculos subjetivos, incoerentes, torpes e pesados para nossa simbiose como seres fraternais coletivos, e que nada tem de verdade.

    No fim, diante da verdade, percebeu-se sendo o pobre poderoso, precisando de alento (likes, em legais polegares opositores), precisando de algo que o anime (coraçãozinhos vermelhos, e rostos redondos sorridentes amarelados), sentiu-se com o ego demasiadamente forte e personalidade terrivelmente débil, por sua própria mesquinha natureza apodrecida em si mesmo, encontrando-se numa situação completamente desastrosa, e sem vantagens, em que o sono lhe foi roubado, a ansiedade descontrolava as batidas do seu coração, e a vaidade tomara o controle de sua alma, tendo a depressão como amante e companheira.

    E no seu estado deprimente, porém, contemplativo, sabia ele que nos primórdios da nossa existência como uma das muitas espécies que habita esse ecossistema terráqueo, éramos simplesmente um ser coabitando e interagindo com os outros inúmeros seres aqui existentes. Não víamos a natureza como esse belo quadro pintado a óleo ou aquarela, ou como as ‘pixeladas’ imagens digitais no fundo dos nossos desktops eletrônicos e dispositivos móveis. Não ansiávamos pela chegada do tempo limitado do fim de semana para passear com a família nos bosques e pradarias, e nem tão pouco esperávamos a chegada das férias para curtir os muitos lugares paradisíacos, ou nos aventurar em trilhas, escaladas e caminhadas nos ditos ambientes naturais e ecológicos. Essa coisa alheia que hoje denominamos “NATUREZA” era intimamente o único e o primeiro mundo vital e cultural que existíamos. Nossos antepassados não só viviam em contato íntimo com as outras criaturas vegetais, animais e inanimadas, como se comunicavam diretamente com os seus espíritos e coração. Daí que surgem as fabulosas histórias e contos de fadas, gnomos, duendes, devas, ninfas, curupiras, orixás, anjos, caboclos, entre outras inúmeras manifestações do que hoje classificamos como “espíritos inorgânicos da natureza” em diversas culturas humanas espalhadas pelo mundo.

    Por isso, ficou muito difícil para o seu entendimento humano separar a sua espiritualidade, cura e boa qualidade de vida da Mãe Natureza. E, entendeu o porquê dos diversos movimentos esotéricos, xamanísticos, taoístas, hinduístas, budistas, cabalistas, sufistas, gnósticos, wicca, candomblé, entre outros da busca da espiritualidade, como também os movimentos de cura, saúde mental, e medicina ancestral e alternativa se situarem em ambientes naturais abertos e ecológicos.

    Nisso, percebeu que ao longo do nosso rigoroso processo civilizatório, em que gradualmente nos separamos do nosso natural habitar, que o SAGRADO em nós foi naturalmente esquecido. Deixamos de ouvir as MENSAGENS DOS VENTOS, paramos de falar a LÍNGUA DAS ÁRVORES E MONTANHAS, abandonamos o afeto de SENTIR COM O CORAÇÃO, e os nossos olhos se cegaram para o MUNDO INVISÍVEL. E, para piorar mais ainda a sua situação, vira que como espécie se transformara no pior predador que já existiu em todos os tempos, ‘Satânico Aniquilador’ das muitas culturas existenciais em todos os aspectos da natureza, e, dele mesmo.

    Meditara ainda mais profundamente de que como espécie, nos tornamos existências humanas desencantadas, prisioneiras de nós mesmos em frente a uma tela Touch Screen de valores, e, de falsas concepções virtuais, mendigando uma irreal atenção em salva de palmas, likes e emotions de coraçãozinhos vermelhos, rostos redondos amarelados (caras de bolachas) e legais polegares opositores. Vira que as proximidades humanas se basearam em distantes conexões WI-FI, em que ignoramos cruelmente os nossos presentes íntimos entes queridos a nossa volta, em ser um direto participante na criação do Aqui e Agora, para nos tornar um observador e um observado distante do passado alienado dos desejos, anseios, críticas e felicidades do desconhecido “amigo” internauta. Preferimos viver solitários com políticas de privacidade essa virtual ruptura do contato natural, nos separando plenamente do sentido existencial da vivência humana, e minimizando a nossa consciência social, afetiva e emocional ao estado simplista do observador e do observado, e de que a tecnologia não promove e nunca promoverá, assim, como, as propostas da comunidade científica, uma fusão harmoniosa com a existência humana e a natureza. Sua meta desde a revolução industrial é unicamente modificar. Acreditando melhorar, otimizar, maximizar, implantar, oportunizar e assegurar um conceito evolucionário de humanidade ciberneticamente supranatural, onde poderíamos viver sem depender dos recursos naturais e afetos sociais para nossa existência. Para assim, em vez de (como eles acreditam) subsistirmos, ‘sobre-existirmos’ na lua, em Marte, ou em uma cosmológica galáxia distante como prega e aliena a NASA e Hollywood.

    Sentira que perdera a simplicidade da vida e o seu primeiro amor, e se tornara um ser imediatista, arrogante, conformista, impaciente, tempestuoso, depressivo e penoso. Ignorava suas crianças, e assim, fazia com que elas o ignorasse, transformando-as no subproduto mesquinho dele mesmo. Nisso, vira que ignoramos os nossos semelhantes como nunca antes já vivenciado no mundo, em todos os tempos de nossa comunal existência, ofertando para os nossos irmãos e irmãs o que tem de pior em nós mesmo. E, dessa forma e maneira, acumulamos dores e sofrimentos para o nosso último sopro de vida, e assim, morremos existencialmente porque matamos nossa essência dentro dos nossos filhos e filhas, chegando a tal ponto de não mais nos perpetuarmos nos novos corpos.

    Percebera que a verdadeira expressão para o mundo tecnológico de hoje é ABSOLUTA TRISTEZA. E isso dói na alma… adoecemos! E o pior é de que não sabemos que estamos existindo enfermos. Acumulamos muitos bens do Aqui e pouca coisa do Agora, e a Magia da Alegria abandonou a Morada do Coração, e o Sagrado Entendimento que em tudo dança se ocultou. Então, eis a questão e desafio existencial da nossa cultura humana: ATÉ QUANDO FICAREMOS CALADOS E INERTES, TRANSMITINDO PARA AS GERAÇÕES FUTURAS ESSA GRANDE DEPRESSÃO EXISTENCIAL, PELO QUAL NOS CONVERTEMOS NO TIRANO PROBLEMÁTICO DESTRUIDOR DA BELEZA DE TODAS AS COISAS? Entretanto, quem se movimentará e falará com loucura e paixão para o despertar da grande massa? Quem será esse novo Meshiach e Avatar? Mas, enquanto ELE ou ELA não chegar ficaremos inertes, atrofiando nossa mente e coração nas telas e internet? Imbuído nessas íntimas e totalitárias questões, analisara que os desafios para o retorno do SAGRADO em nossas vidas são tremendamente numerosos.

    E, contemplando todo aquele panorama, se viu com sua poderosa espada na palma de sua mão, a mágica Kaledvouc’h, o espelho negro. E como um pedaço de madeira arrastado pelo rio, tentando resolver as coisas por sua própria conta, reagindo ante qualquer dura palavra, qualquer problema e qualquer dificuldade, lamentavelmente, o medo empoderou o seu ser, fabricando nos cinco cilindros da máquina orgânica, em que lhe compunha e que o seu SER habitara, os inumeráveis multifacetados eus-demônios, aplicativos escravos de si mesmo.

  • A verdade está onde nunca a procuramos — Crônicas do Parque

    Era uma daquelas manhãs escaldantes com temperaturas que variavam de trinta e cinco a trinta e oito graus célsius, com sensação de quarenta a quarenta cinco no centro-norte de Israel. Como de costume me encontrava todos os Yom Sheni (segunda-feira) no parque de Kfar Saba, fazendo manutenção nas piscinas ecológicas.

    Pegava meu bastão de rede, uma caixa plástica preta dessas de armazenar verduras em supermercados, e um balde vazio de comida de peixes ornamentais. Entrava na piscina e submergia até os joelhos no primeiro terraço em que ficava as Nymphoides, espécies do gênero das plantas aquáticas que crescem enraizados no fundo com as folhas a flutuar à superfície da água, de cores brancas, amarelas e variadas tonalidades de flores rosa, da família Nymphaeaceae.

    Prendia meu smartphone pela sua capa ao cordão que ficava no meu pescoço, em que segurava ao peito um Magen David (Estrela de Davi) com um rosto de leão no centro, e colocava uma música suave para iniciar o meu trabalho de cuidar dos nenúfares.

    Em especial, aquela era a piscina ecológica que eu mais gostava dentre todas outras que dava manutenção no centro-norte. Pois além de ser a maior dessa região, estava em um parque bonito e tranquilo arrodeado de belas esculturas. Essa piscina era especial, pois era a única de todas que tinha uma original carpa cinza gigante, espécie de peixe de água doce originário da China, e também havia um canteiro com Lotus Branco (Nelumbo Nucifera), um género de plantas aquáticas pertencente à família Nelumbonaceae da ordem Proteales, e também era lotada de peixes Koi (Nishikigoi), tendo o Higoi (carpa vermelha), o Asagui (carpa azul e vermelha) e o Bekko (branca e preta), que são carpas ornamentais coloridas ou estampadas que surgiram por mutação genética espontânea das carpas comuns (carpas cinza) na região de Niigata no Japão, tendo também outras inúmeras variedades de peixes ornamentais como: peixes dourados, peixes barrigudinho (Guppy) de diversas cores, aruanãs, entre muitos outros.

    Nesse dia em especial, me senti constantemente sendo observado por um senhor de chapéu azul e cabelos grisalhos que aparentava ter a idade de oitenta anos. Estava bem vestido e mantinha sempre um sorriso no rosto. Ele se encontrava sentado em um banco largo que ficava próximo a piscina. E lentamente eu me aproximava dele ao curso do meu oficio de retirar as folhas amareladas dos nenúfares. E ao me aproximar daquela figura atraente, eu o cumprimentei com um Boker Tov (Bom Dia), e ele me respondeu com um Boker Or (Manhã de Luz). Assim trocamos sorrisos, e me voltei novamente para o meu ofício matinal.

    Quando o balde em que colocava as folhas amareladas e flores mortas dos nenúfares se encontrou cheio, me retirei da piscina para esvazia-lo, o despejando na caixa plástica preta que estava perto do banco em que o senhor de chapéu azul se encontrava sentado. E ao me retirar para regressar a piscina, ele elevou a sua doce voz anciã, perguntando-me:

    _ Atah Rotze coz cafeh (Você aceita um copo de café)?

    Então, de imediato lhe respondi:

    _ Ken, efshar (sim, aceito).

    Então, ele retirou de uma sacola de pano um bojão de gás pequeno e enroscou uma pequena boca de fogo nele, acoplando. Colocou o aparato ao solo, e retirou da sacola uma garrafa pet de coca-cola com água, uma pequena chaleira e dois copos de aço inoxidável. E, enquanto ele despejava a água no recipiente e ascendia o fogo com um isqueiro para ferventar, fez um sinal com as mãos para eu me sentar ao seu lado.

    Enquanto a água estava para ferver, nos apresentamos e ele me fazia inúmeras perguntas sobre mim e meu oficio. Perguntas comuns que eu já estava calejado em responder. E depois que ele preparou o café, comecei também a interroga-lo. Para minha surpresa descobri que ele não era judeu, mas árabe. Sendo que falava um bom hebraico sem sotaque e se vestia elegantemente, como um velho Ashkenazi. Além dele ter olhos de uma cor azul claros como o céu que estava sobre nossas cabeças. (…Nós, e nossos pré-julgamentos…).

    Ele me falou que viveu muito anos na Espanha, sendo um mestre sacerdote de Sufi gari (Tasawwuf), uma arte mística e contemplativa do Islão, assim como é a Kabbalah para os judeus. Ele viu o Magen David em meu peito, e disse que era bonito esse símbolo com um rosto do leão no centro. Também, me falou que esse símbolo em que os judeus se apropriaram o colocando em sua bandeira, é de muita importância para o Tasawwuf (Sufismo). E me revelou segredos importantes sobre o significado desse símbolo.

    Conversamos sobre muitas coisas, e eu o interrogava mais e mais, pois vi que esse senhor era muito sábio e ciente de tudo que falava. Ele me revelou coisas sobre a conduta do corpo, como postura e fala. Falou-me sobre pensamentos, músicas e danças místicas, e, sobre alimentação e jejuns para se ter uma vida espiritual equilibrada com o corpo físico. Nesse assunto, eu perguntei a ele porque não se deve comer carne de porco. Até porque eu já tinha perguntado a muitos rabinos e religiosos judeus o porquê de não comer a carne desse animal, e muitos não sabiam me responder ao certo. E os que respondiam, falavam que estava escrito nos Livros da Lei, a Torah, mas não sabiam perfeitamente o porquê.

    Diante da minha pergunta, ele sorriu e me disse algo em que fiquei atônito. Contava ele que os porcos eram seres humanos amaldiçoados, por levar uma vida sexual pervertida na sua última encarnação. Ele me disse que por isso dentre todos os animais o porco era o mais inteligente, e, que seus órgãos internos como fígado, rins e coração são muito parecidos com os nossos, pois na verdade era um ser humano que encarnou nessa condição com a total consciência de sua vida passada, mas que devido ao fato de estar em um corpo animal atrofiado não podia se comunicar para se revelar como tal. Nasceu nessa condição devido a decadência espiritual de sua vida anterior como ser humano, ao se entregar aos prazeres sexuais nojentos e tenebrosos, por isso esse animal pode levar até trinta minutos tendo orgasmos. E assim, veio nessa condição para viver em sua podridão, ao comer seu alimento e dormir misturado as suas fezes, mesmo tendo a inteligência de defecar em um mesmo lugar, são condicionados pelos seus criadores (seres-humanos) a viver junto ao seu excremento. Também, ele me falou que o porco não tem a capacidade de olhar para cima, não podendo ver o céu, e sua pele não pode ser exposta a luz solar por muito tempo, pois não consegue transpirar, e pela falta de umidade decorrente do suor pode sofrer fortes queimaduras. Nasceu para olhar para baixo e se esconder da luz, sendo forçado por essa natureza a viver na lama. Ele também me disse, que o porco é o animal mais amaldiçoado do que a serpente, pois os porcos são invulneráveis às suas picadas venenosas. E concluiu:

    _ É por isso que não se deve consumir a carne desse animal, pôr na verdade ser um ser-humano totalmente consciente em forma atrofiada. _ e, acrescentou me revelando algo_ Você sabia que não a diferença de gosto entre carne humana da carne suína… ambas possuem a mesma textura e sabor.

    Uau! Diante desses fatos que me foram apresentados por esse velho sacerdote Sufi, eu fiquei estupefato. E, entendi o porquê de George Orwell escolher os porcos para serem os protagonistas da revolução em seu romance satírico (Animal Farm — A Revolução dos Bichos). Provavelmente, ele sabia desse conhecimento do Tasawwuf. E isso me fez pensar, o quanto os antigos sabem do que não sabemos. Essas são respostas que não podemos encontrar no oráculo Google. Respostas de um velho de oitenta e poucos anos sentando em um banco de parque.

    O velho me vendo atônito, colocou seus aparatos de café na sua sacola, levantou-se, despediu-se e saiu sem mais nada a dizer.

    E lá no banco do parque de Kfar Saba fiquei com a mão no queixo, vendo os peixes e as nymphaeas. Tão Ignorado em minha ignorante aquariofilia.
  • A vida e um fio de linha muito frágil

    A vida e um fio de linha muito frágil, hoje estamos aqui,com nossos sonhos, metas e objetivos, amanha podemos ser só lembranças
  • A vida no inferno

    O trabalho nunca assustou Natália. Muito ao contrário. Desde os 15 anos ela já acordava antes do sol nascer para poder estudar e ser secretária do seu tio dentista. Podia até ser uma forma de ele ajudar a família do irmão, que não tinha paradeiro conhecido, mas as seguidas investidas com a mão embaixo da saia de Natália, e seu olhar psicótico, diziam outra coisa sobre as intenções do homem por detrás da máscara. Qualquer coisa seria melhor que ter que conviver diariamente com um boçal. Por isso, quando fez 18 anos e acabou a escola, saiu da clínica para trabalhar numa empresa de telemarketing. Sua missão agora era convencer pessoas que não podem pagar um plano de saúde a pagar por um que não funciona. “O Senhor esta ciente de que, segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil tem um dos piores serviço público de saúde do mundo? Pior que o da Argélia, Senegal e Cabo Verde, por exemplo.” Ao lado do seu teclado havia uma folha sulfite plastificada com algumas frases que ela poderia recorrer. Tudo sempre começava com um “bom dia, meu nome é Natália e estou contactando o Senhor, em nome da ExploraMed, para oferecer uma oferta especial válida só por hoje.”
    Assim que ela desligava o telefone vinham as metas absurdas e os prazos corrosivos. “Pessoal, aqui nós trabalhamos com números.” Eram uma ligação a cada três minutos e no mínimo 20 contratos assinados por dia. “Parece muito, mas se vocês seguirem as técnicas que nós ensinamos é possível.” Informações como a superlotação, “segundo o Tribunal de Contas da União 64% dos hospitais estão sempre com lotação superior a sua capacidade”, ou “consultando os dados do Conselho Federal de Medicina o Senhor vai ver que, entre 2005 e 2012, o Sistema Único de Saúde eliminou 41.713 leitos.” Teoricamente, de posse destes dados, qualquer um deveria se desesperar e pagar até o que não podia para dormir com a consciência tranquila de que se acordasse no meio da noite, tendo um ataque cardíaco, não morreria num chão qualquer esperando a boa vontade de um bom samaritano que se importasse. Mas não era o suficiente. As pessoas precisavam de muito mais que um plano de saúde, assim como Natália, que precisava de muito mais que um salário mínimo para ter alguma perspectiva de não chegar aos 40 anos sem ter atravessado as fronteiras do ritmo casa-trabalho / trabalho-casa.
    Foi pensando num futuro melhor que ela começou a ver as etiquetas coladas nos orelhões do centro da cidade com outros olhos. “Oi garanhão, procurando prazer e diversão?” A voz meio masculifeminilazida do outro lado da linha fez ela reparar na palavra Travesti depois do nome Sheila no adesivo. Por um momento ela se sentiu envergonhada, mas não foi o suficiente para parar. “Oi, eu queria saber quanto você cobra.” “Ai gatinha, é só você que quer brincar ou seu namorado também quer participar da festa?” “Que?” “Hum, é só você que quer saborear novas aventuras, não é? São R$250 para fazer essa carinha doce suspirar amor por uma hora, e eu atendo no meu apartamento aqui no centro.” Natália respirou fundo com o valor e desligou o telefone. Em uma hora ela podia ganhar mais que em uma semana sentada numa cadeira incomodando alguém pelo sistema de discagem randômico. Olhando por esse ponto de vista parecia até mais decente. Trabalhando umas duas vezes por dia ela podia até pensar em fazer uma faculdade e ajudar a sua mãe, que sofria limpando banheiro de crianças irritantes filhas de adultos imbecis. Quanto mais pensava mais tinha certeza de que valia a pena correr os riscos, que na verdade não eram consideravelmente maiores que ser menina num ônibus lotado, chegar em casa depois de ter escurecido ou trabalhar como secretária do seu tio.
    Enquanto tirava fotos dos anúncios colados pelos orelhões e postes da cidade pensava nos detalhes. Primeiro: ia ter que ter um número de celular secreto, só para aquilo. Ninguém poderia ficar sabendo. Atenderia seus clientes em algum dos hotéis que alugam quartos por hora no centro, e como o cliente que ia pagar ele poderia até escolher qual. Depois, cobraria o dobro para dar a bunda e exigiria que o cliente sempre usasse camisinha. Acreditava que assim estaria evitando os maiores problemas que a profissão oferecia. Agora era a hora de elaborar o anúncio. Com um caderno na mão sentou na cama e começou a ver as fotos que tinha tirado no celular. “Paula Ninfeta. Insaciável. Depiladinha. Anal total. 93327-9869.” Parecia muito vulgar. “Brenda Casada. Para fetiches e fantasias. Homens, mulheres e casais. 93267-9765.” Esse não era chamativo. Depois de olhar dezenas de imagens, e escrever outra dezena de rascunhos, Natália chegou ao anúncio perfeito: “Paola (sempre achou esse nome chic) Amor (ora, do que aquilo se tratava?). Carinho e sexo para homens (não saberia o que fazer com mulheres e se sentiria estranha em 3). 24h (era importante estar sempre a disposição). NOVO NÚMERO DE CELULAR.”
    Cheia de confiança e expectativa Natália acordou mais cedo que o habitual. Vestiu sua melhor roupa e se maquiou como quem vai para uma festa de gala. Na entrada da estação de trem comprou um chip novo para o celular e começou a olhar para todos os homens como potenciais clientes. Pensou que eles estariam bem vestidos, afinal, quem pode pagar R$250 por hora tem que ganhar muito bem, e quem trabalha bem vestido geralmente ganha muito bem. Passou na Tele CO. e se demitiu resumindo os motivos em “arrumei um emprego melhor”. Eles insistiram em saber aonde a ponto de Natália se sentir acuada, mas ela se manteve firme. Assinou o que tinha que assinar e dali foi para uma lan house. As risadinhas que o moço dava enquanto ela ditava o que queria escrever na etiqueta a deixaram um pouco envergonhada. Com os adesivos em mãos começou a divulgar seu novo emprego. Deu preferência para os orelhões perto de prédios de vidro ou postes perto de lojas caras. Quando acabou com tudo Natália se sentou num banco na praça e, meio nervosa e meio ansiosa, ficou esperando o telefone tocar.
  • A VIOLÊNCIA E A DISPUTA COMO FORMA DE REAFIRMAR A MASCULINIDADE NA OBRA INCIDENTE EM ANTARES

    INTRODUÇÃO
                O enfoque deste trabalho firma-se nas abordagens de reafirmação da masculinidade através da violência e da disputa presentes na obra “Incidente em Antares” do escritor Érico Verissimo.
                Problematiza a estrutura social e ideológica do comportamento do homem em relação a sua masculinidade e seu olhar sobre o feminino. Na perspectiva de mostrar como cada ato de violência é construído, expondo assim o desejo sexual reprimido.
                Os personagens analisados serão das famílias rivais de Antares, Vacarianos e Campolargos.
                                 A VIOLÊNCIA E A DISPUTA COMO FORMA DE REAFIRMAR A MASCULINIDADE NA OBRA INCIDENTE EM ANTARES
                 O livro “Incidente em Antares” do escritor Érico Verissimo, apresenta algumas questões referentes à violência do homem como meio de reafirmar a sua masculinidade. Na sua primeira parte é exposta uma violência desmedida envolvendo os personagens masculinos, caracterizando uma disputa de poder, a qual está mais relacionada à identidade desse grupo.
                 A obra expõe o autoritarismo, formas de torturas, disputas de poder e dominação do homem sobre o outro, tanto no campo ideológico como no social. Isso fica evidente em sua primeira parte, onde é construído o histórico da cidade. Duas famílias, as quais têm como protagonistas homens, que buscam dominar a cidade, causando um derramamento de sangue em ambos os lados.
                 Os trechos analisados foram referentes a dois personagens que sofrem a violência sexual, uma tortura exposta a outros homens como meio de dominação e perca de sua masculinidade. Segue o primeiro episódio:
    “Xisto mandou reunir na praça os homens da cidade e ordenou que mulheres e crianças ficassem fechadas em suas casas. De mãos amarradas às costas, Terézio foi trazido à sua presença (...) Xisto mandou amarrar o prisioneiro pelas pernas e pendurá-lo no galho duma árvore , com a cabeça a poucos centímetros do solo. Depois acercou-se de sua vítima, empunhando um grande funil de lata, cujo longo bico lhe enfiou às cegas no ânus, profundamente. Com a cara contraída de dor e vergonha, Terézio cerrou os dentes mas não deixou escapar o gemido”. (VERRISIMO, p. 31)
                 Nesse episódio pode-se analisar que Xisto faz uso da exposição do corpo de Terézio para lhe dominar, ao penetrar o funil no ânus do seu oponente, lhe tira a masculinidade perante os homens que estão presentes, e reafirma a sua própria por meio da violência.
                 A dominação do corpo sobre o outro é compreendida como um ato de provar a masculinidade de quem pratica a violência, no caso entre homens, um se torna ativo e o outro passivo. Nesse episódio, ao ser penetrado e exposto, Terézio ocupa um lugar do feminino, que para ele é a causa de sua “vergonha”, pois isso o torna fraco. Sendo assim, ele sente mais vergonha do que a dor de ser violado.
    “Os planos de Xisto, porém, eram mais terríveis. Todos compreenderam o que ele ia fazer quando gritou: “Tragam o tempero da salada!”, e dois de seus homens, vindos do quintal do casarão dos Vacarianos, aproximaram-se conduzindo com todo o cuidado, para não se queimarem, uma grande chaleira de ferro cheia de azeite em ebulição. (...) Xisto murmurou: “Sabes o que vou te fazer, sacripanta? Te incendiar as tripas”. A uma ordem sua, os dois homens começaram a despejar lentamente no funil todo o conteúdo da chaleira. Terézio Campolargo soltou um urro e começou a estrebuchar.” (VERRISIMO, p. 31)
                  A violência desse ato de Xisto é humilhar seu rival, impondo-lhe a desonra da feminilidade, usando a perversão sexual como castração do outro, mesmo que Xisto não estuprou Terézio, ele assistiu e sentiu satisfação em ver a dor do outro, como se ele mesmo estivesse penetrando.
                 O desejo em observar um ato sexual violento, tanto pode ser compreendido como o desejo de ser o abusado ou o abusador, mas nesse caso em específico, a dor causada em Terézio pelo líquido quente foi  o modo que Xisto encontrou para repugnar, e não aceitar o desejo que sentia. Dessa forma ele domina tanto o oponente quanto seu próprio desejo.
                 Essa violência causada pela família dos Vacarianos desperta a ira dos Campolargos, não só a morte de um dos seus, mas a forma que foi praticada manchou a masculinidade deles.
                 A coragem e a vingança são  atribuídas ao masculino, e a aquisição da virilidade nunca é definitiva, constantemente precisa ser reconquistada, pois a fraqueza da feminilidade não é aceitável no campo simbólico do homem. Isso se torna claro no comportamento dos Campolargos, pois a violência que Terázio sofreu gera agressividade e resulta em competição constante e extrema.
                 A vingança seria a reparação da perda de masculinidade, caso eles não se posicionassem e revidassem, seriam vistos como passivos (atribuído ao feminino), e os Vacarianos como ativos. Sendo assim, desenrola-se uma vingança, tão violenta quanto à sofrida. Segue o trecho:
    “Romualdo Vacariano foi trazido à presença de Benjamim Campolargo, que exclamou: “Tirem toda a roupa desse sujeitinho!”. Três de seus homens obedeceram à ordem. “As botas também...Bom. Agora amarrem ele na mesma árvore onde penduraram o meu irmão. Assim não! Com a barriga contra o tronco, as pernas abertas... Isso!” (...) Um  círculo duns cento e poucos homens formavam uma espécie de muro ao redor da árvore (...) Benjamim chamou um dos seus companheiros, um negro alto e corpulento. (VERRISIMO, p.33)
                 Nesse trecho percebe-se que a vingança foi pensada de uma forma semelhante, porém numa forma mais direta, corpos sobre corpos, onde se escolhe o homem que mais representa a força da masculinidade no campo simbólico, no caso o negro.
                 Essa reafirmação da masculinidade mostra que a violência sexual é a forma aceitável de salvaguardar o perigo da contaminação pela feminilidade. Efetivamente, o meio para conseguir o domínio sobre o outro. E testemunhar um homem violando o outro é o desejo inconsciente do homem pela homossexualidade. Uma fantasia que se concretiza pela pratica do outro.
                 Porém, é a recusa do negro Elesbão que desconcerta o Benjamim, além de sua autoridade ser questionada causa também a frustração do seu desejo e assim, ele tenta justificar que não poderia perder “um companheiro de valor”. Essa recusa de Elesbão retrata a tão temida feminilidade, pois o medo de perder sua masculinidade está sempre presente, sendo mais aceitável a morte ou a constante disputa. Mesmo Elesbão não aceitando, outro negro se propõe a praticar o estupro, assim satisfazendo o desejo de Benjamim. Segue o trecho:
    “Quem salvou a situação foi um caboclo parrudo e mal-encarado, o Polidoro, contumaz barranqueador de éguas, que se apresentou voluntariamente para executar a tarefa. (...) E o caboclo violentou Romualdo. Uns três ou quatro homens soltaram risadinhas. Outros, porém – a maioria - retiraram-se do local para não assistirem à cena degradante. Um capitão bigodudo chegou a gritar: “ Isso não se faz a um macho, coronel! Por que não mata logo o miserável?”. Benjamim, que saboreava o espetáculo, não deu a menor atenção ao protesto. Consumado o ato, gritou: “Agora soltem a moça!”. (VERISSIMO, p. 34)
                 A dominação e a posse sofrida por  Romualdo é vista como uma manifestação de potência, um ato exercido que simboliza a superioridade da masculinidade, causando a feminilidade no violado. Romualdo sofre a desonra e a perda do seu lugar como homem viril e íntegro, restando-lhe como saída apenas a morte, pois não aceita ser comparado a uma “moça”.
    “Dois soldados desamarraram Romualdo, que deu alguns passos, como se estivesse bêbedo, a cara aparvalhada. De repente soltou um urro, como um animal ferido de morte e, nu como estava, saiu a correr na direção do rio, atirou-se no chão, no alto da barranca, e rolou declive abaixo, até cair n’água. Pôs-se a nadar e, a uns trinta metros da margem, deixou-se afundar. Seu corpo jamais foi encontrado.” (VERISSIMO, p.34)
                 A violência do ato sofrido por Romualdo pode ser entendida como uma castração, a paranoia de não pertencer a seu grupo e de ser visto como um covarde fraco, um feminino, o enlouquece e ele tira a própria vida.
                 Esses personagens são uma representação da sociedade que organiza os grupos e reafirma o preconceito, constroem instituições padronizadas que impõem aos cidadãos a normativa dos gêneros, assim, muitos homens não superam os seus desejos inconscientes e se transformam em agressores e violadores.  O desejo da dominação geralmente é direcionado ao ato sexual, o poder de violar é sempre utilizado e o mais forte sempre sofre de recalcamento, como diz Bordieu:
    “Se a relação sexual se mostra como uma relação social de dominação, é porque ela está construída através do princípio de divisão fundamental entre o masculino, ativo, e o feminino, passivo, e porquê este princípio cria, organiza, expressa e dirige o desejo – o desejo masculino como desejo de posse, como dominação erotizada.” (BOURDIEU, 2002, p.15)
                 Portanto, na obra “Incidente em Antares” a masculinidade é caracterizada pelos atos de violência sexual, pela disputa de poder e por  uma dominação erotizada.
    CONCLUSÃO
                 No livro “Incidente em Antares”, Érico Verissimo construiu personagens homens que evidenciam a busca da masculinidade, visto que ela não é definitiva e precisa ser reconquistada e disputada.
                 Esses personagens utilizam a violência sexual para reafirmar ser macho, mas ao mesmo tempo mostram  o desejo inconsciente por outro homem, o desejo é presente quando testemunham a violação de outro corpo e sentem satisfação.
                 Essa obra não só retrata os homens daquela época, mas também da atual. A realidade é pior, pois a violência contra os considerados “fracos e femininos” é louvada por pessoas que ocupam locais de poder e têm influencia sobre determinado grupo.
                 O machismo e a reafirmação da masculinidade estão sendo cada vez mais ensinada e imposta na instituição familiar. Ideias de segregação de gêneros são aceitas e proliferadas nesse meio. Discursos preconceituosos como “meninos usam azul e meninas usam rosa”, reforçam a violência dos considerados fortes e machos e sufocam os que têm conceitos diferentes. Isso só reforça o preconceito já existente nessa sociedade hipócrita e patriarcal.
    BIBLIOGRAFIA
    BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. 2ª Edição.Editora Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2002.
    BOTTON, Fernando Bagiotto. As masculinidades em questão: Uma perspectiva de construção teórica. Revista  Vernáculo, n. 19 be 20, 2007. Disponível em: <https://revistas.ufpr.br/vernaculo/article/view/20548/13731> acesso em: 04/01/2019.
    CECCARELLI, Paulo Roberto. A construção da Masculinidade. In Percurso, São Paulo, vol. 19, p.49-56, 1998. Disponível em: < http://www.ceccarelli.psc.br/texts/a-construcao-masculinidade.pdf > acesso em: 04/01/2019.
    MORENO, Marco Julián Martinéz. Ser macho nesse país é coisa de macho: A culturalização da masculinidade e sua relação assimétrica com a igualdade. Anuário Antropológico, p. 33-55. [ONLINE], II |2016. Disponível em: <https://journals.openedition.org/aa/1795> acesso em: 04/01/2019.
    SILVA, José Remon Tavares da. Masculinidade e Violência: Formação da identidade masculina e compreensão na violência praticada pelo homem. 18º Redor. Pernambuco, 2014. Disponível em: < http://www.ufpb.br/evento/index.php/18redor/18redor/paper/viewFile/686/808> acesso em: 04/01/2019.
  • Almoço fast-food

    Seu Alcides entrou no flat desviando o olhar, um tanto quando encabulado, e carregando uma maletinha dessas de executivo. Tirou um envelope do bolso e agitou com a mão. “Olá baby…pode deixar isso aí em cima da mesinha.” “Oi….boa tarde…..posso ir no banheiro?” “Claro, fica ali.” Ele abriu a maletinha e tirou dois saquinhos zip locks. “Você pode vestir isso?” “Adoro fantasias amor. Tenho vários brinquedinhos aqui também.” Seu Alcides entrou no banheiro e abriu sua maletinha como um estojo de figurino. Antes de qualquer coisa tirou a aliança, colocou num saquinho zip lock desses pequenos e guardou a jóia no bolso de dentro do paletó. Pegou dois cabides, um para pendurar o terno e a calça e outro para a camisa e a gravata. Se despiu com cuidado para não amassar a roupa, removeu as toalhas de dois suportes que estavam atrás da porta, entulhou-as no terceiro e pendurou seus cabides com cuidado. Olhou no espelho, ergueu as mão para o céu e fez uma oração. Então começou a se preparar. Primeiro se maquiou espalhafatosamente. Batom, lápis no olho e pó de arroz. Em seguida colocou uma calcinha com cinta liga, meia três quartos e uma saia. Vestiu uma camisetinha branca apertada, um lenço no pescoço e saiu do banheiro carregando um consolo numa mão e um tubo de ky na outra. Sheilla já estava preparada deitada na cama. Usava um vestido preto, de mangas compridas, um pouco acima do joelho e uma meia calça. No peito um pequeno crucifixo de metal, um véu preto com elástico branco na cabeça e um chicotinho de couro na mão.
    Aquela putaria toda na hora do almoço fazia Seu Alcides se sentir o Deus do mundo. Sem nenhum minuto de atraso, e sem nenhuma suspeita, às 13:30 em ponto ele estava sentado em sua sala no escritório contábil Estoril. Eram uma dúzia de mesas alinhadas no terceiro andar do edifício Mega Rich Tower. Cada uma com um computador, um telefone e quilos de papéis espalhados. De acordo com o senso comum estabelecido por ele quem não está focado no um, e/ou falando com alguém no dois, está enrolando. Depois de duas dezenas de anos dedicados à causa Seu Alcides era o dono da razão e da empresa. Sua conduta de legalista e implacável faziam dele o monstro mais temível de todo universo para quem dependia de sua benção para continuar pagando as contas no fim do mês. Sempre chegava meia hora antes que os funcionários de manhã e achava que quem cobrava o pagamento de hora extra não dava o devido valor ao emprego. Era sempre o último a sair. “Dona Suzana, com o rendimento que o seu departamento teve nos últimos dias o que a Senhora vai falar na reunião sobre produtividade?” Tudo que Suzana entendia era que estava no bico do corvo. “Esse mês está difícil, muitas empresas estão fechando Seu Alcides. Quase ninguém alcançou as metas.” Nos ouvidos de Seu Alcides isso soava como desculpa de aleijado é muleta.  “E se dependermos de pessoas com o pensamento da Senhora nós seremos os próximos. A Senhora já perdeu sete clientes este mês e repôs apenas um. Preciso de mais trabalho e menos desculpas. Cobre mais de sua equipe e se esforce mais também.” Na sua cartilha isso significava faça mais do que deve e se sinta feliz por isso. “Sim, senhor.” Suzana saiu com a certeza de que em breve seria uma desempregada.
    Enquanto revisava alguns relatórios Seu Alcides relembrava das cenas do encontro com a madre superiora. Calculando quanto da piroca de Sheilla que ele conseguiu enfiar na boca concluiu que ela devia ter pelo menos 20cm. Era a maior piroca que ele já tinha visto. Os peitões dela eram uma delícia e não tinham gosto de plástico como os da Lana, nem eram caídos e moles como os da Gabrielle. Se sair com o mesmo travesti duas vezes não fosse tão arriscado para sua reputação Seu Alcides com certeza voltaria no flat da Sheilla de novo no fim da tarde. Seus pensamentos foram interrompidos pelo telefone. “Sim, Dona Luiza.” “O Dr. Ricardo está na linha dois.” “Pode passar.” “Seu Alcides?” “Boa tarde, Dr. Ricardo.” “Boa tarde, como está o Senhor?” “Estou bem, e o Senhor?” “Também, obrigado. Seu Alcides, eu não recebi as guias de recolhimento de impostos desse mês. O Senhor sabe como gosto de manter tudo organizado por aqui, e já é dia 12. Transferi o dinheiro no dia 5 como todo mês mas as guias não chegaram. O Senhor pode ver isso para mim?” “Claro que sim. Desculpe-nos, isso não pode acontecer.” Cinco minutos depois Paulo estava tremendo como vara verde na frente do chefe. “Mas Seu Paulo, como assim essas guias se perderam? Isso não existe.” “Desculpe Seu Alcides, talvez o office boy tenha esquecido elas no caixa do banco ou o caixa esqueceu de entregar para ele. Já solicitamos as segundas vias e até amanhã deve estar tudo com o Dr. Ricardo. Eu também já conversei com ele.” “Conversou o que, Senhor Paulo? Então porque ele me ligou?” “........” “De qual você está falando? Daquele novo que vem trabalhar de boné e bermuda?” “Sim, senhor.” “Diga para esse moleque que qualquer hora dessas eu vou fazer ele ter que esquecer de vir trabalhar.”
    Toda vez que ele se mexia na cadeira, e uma dorzinha na bunda lembrava Seu Alcides daquela pirocar enorme entrando e saindo freneticamente, seu pau ficava duro como uma pedra. Com medo de dar algum sinal de prazer, ele encarava Dona Luiza com um desprezo que beirava o insulto enquanto ela falava. “Aqui estão os relatórios de produtividade que o Senhor pediu da Suzana e do Paulo. A Dona Ana já está sob aviso no RH também e pediu para avisar que é melhor esperar o período de experiência do office boy acabar para mandar ele embora.” “Só isso, Dona Luiza?” “A Dona Kátia mandou pedir para Senhor passar na padaria e pegar umas coisas pro lanche antes de ir para casa, e de pegar pão integral para o Jorginho. Ela também mandou avisar que chamou o sogro e a sogra do Senhor para o lanche, para o Senhor não chegar tarde.” “Pelo amor de Deus Dona Luiza, é só isso?” “Sim, Senhor.” “Então pode ir. Até amanhã.” Já passava das 20h quando Suzana passou na sala dele e avisou que era a última a sair.
  • Amor em brechas

    Vivemos das brechas que a rotina de se viver em cidade grande nos dá, vivendo a espera de uma fenda de algumas horas para podermos nos encontrar, mas quando nos amamos, fazemos em expansão, somos assim, um cômodo ou um lugar não parecem tão suficientes pra nós. Topa irmos pra sala? Cozinha? Banheiro? Um banho não parece má ideia. É nesse amor em ampla construção e vontade louca de destruição de móveis que a gente vai vivendo.
    Me diz em que momento foi que você cravou teus dentes no meu peito? Essas marcas estão com cara de que vão me acompanhar por uns bons dias. Tudo bem. Melhor do que apenas a lembrança ou o cheiro do teu perfume impregnado nas minhas roupas é ver que as marcas que você deixou em mim não são só metáforas, são reais, estão na minha pele, na tua pele. Nos mostram que de um lado houve a passagem de uma boca empenhada e entregue ao prazer e do outro um trabalho bem feito em causar arrepios na nuca, braços, coxas... onde houver pêlos.
    Quando nos vemos de novo? Essa marca já está sumindo, tua boca precisa dar uma retocada aqui e a minha cama esses dias anda muito arrumada, não lembra em nada os dias que você a revira, tira o meu lençol, minha camisa, meu juízo, meu sono, minha solidão. Você deixou só os teus cabelos aqui e não a tua cabeça encostada no meu travesseiro. Como eu faço pra ter você aqui de novo? Só a próxima semana? Quando você sai mais cedo? Essa cidade grande! Precisamos de rotina, mas quem foi que disse que seus beijos também não podem ser diários?
    Vamos pro interior, parece que lá a gente pode parar de viver de brechas e começa a viver de amor.
  • Aprendi ou finjo que aprendi

    Aprendi que amores eternos podem acabar em uma noite, que grandes amigos podem se tornar grandes inimigos, que o amor sozinho não tem a força que imaginei. Que ouvir os outros é o melhor remédio e o pior veneno, que a gente nunca conhece uma pessoa de verdade, afinal, gastamos uma vida inteira para conhecer a nós mesmos. Que os poucos amigos que te apoiam na queda, são muito mais fortes do que os muitos que te empurram. Que o 'nunca mais' nunca se cumpre, que o 'para sempre' sempre acaba, que minha família com suas mil diferenças, está sempre aqui quando eu preciso. Que ainda não inventaram nada melhor do que colo de mãe desde que o mundo é mundo, que vou sempre me surpreender, seja com os outros ou comigo. Que vou cair e levantar milhões de vezes, e ainda não vou ter aprendido tudo. É necessário crescer.
    Luca Schneersohn
  • Apresentação

    Frequentemente me pego relembrando o passado, como se tivesse algo nele que eu vivi e esqueci de aprender, algo que passou batido e que não notei.
    Os assuntos são variados, desde pessoas que nunca mais soube noticias, até momentos e  os sentimentos que senti neles.
    Acredito que peguei este hábito nas aulas de história do ensino médio, a professora Aninha sempre me instigava a saber toda a história para entender como chegamos no hoje, do porque daquilo tudo, por mais que a história fosse complicada.
    Minha história de vida não é daquelas chamativas, esta mais para uma história parada e monótona, porem quando se afasta um pouco para se observar de longe tem tantos capítulos que você leva um susto e se pergunta em como virou tudo aquilo, pois nem pareceu tantas histórias dentro de um livro só.
    Tenho atualmente 23 anos, paulistana, moro com os pais, trabalho a quase 7 meses em um petshop... um resumo da vida financeira, porem não de mim, não da minha história, daquilo que me define...
    O que me define é um conjunto das minhas ações, das pessoas que estão em meu cotidiano ou já estriveram, e todos meus pensamentos.
    Sei que esse texto ficou muito desconexo mas só precisava escrever sobre eu, sobre me afirmar no meio de tudo o que tenho passado, espero ser mais clara...
  • Arroz com feijão [conto]

    Rafael estava com um problema com seus pais: eles descobriram que ele fumava maconha. O jovem vacilou com uma ponta no carro, e depois que sua mãe abriu o carregador de 12V para plugar o celular, e se deparou com aquele celofane do diabo, o garoto especial já não era tão especial assim. Na verdade era um problema. Aliás, vários problemas. “Quem pois aquela porcaria na boca dele?” “Será que ele está só nisso?” “Onde nós erramos?” Dr. Sampaio e a Sra. Sampaio estavam apavorados. Em estado de choque. A sujeira tinha chegado em casa. Era o primeiro sinal do fim dos tempos.
    Estava tudo abalado. Admiração. Confiança. Futuro. Quando eles chegaram em casa, colocaram aquela ponta na mesa da sala e olharam para Rafael, seu pai foi eloquente: “Não me venha com esse papo de é de um amigo.” “Você fumou isso no carro?” Foi o primeiro questionamento da chorosa Sra. Sampaio. Rafael estava sendo crucificado, e assim como Jesus parecia querer aquilo. Ele olhava para uma e para o outro com o desdém com que Pôncio Pilatos lavou as mãos. Como quem não tem nada para dizer.
    A postura era ultrajante. Inaceitável. “Também não é nenhuma novidade. Olha só para você.” “Depois que começou a faculdade você virou outra pessoa.” Era uma mistura de negação com raiva. “Você não tem nada para dizer?” Que tinha sido um erro. Que estava arrependido. Que não ia acontecer de novo. Que aquela droga maldita tinha pegado ele num momento de fraqueza e com a ajuda de Deus ele ia se livrar daquele terrível mau. Os dois topavam escutar qualquer coisa que soasse como um mea culpa. Assumir é sempre o primeiro passo.
    “Como assim não significa nada?” Significou muita coisa quando Césinha, o primo da Sra. Sampaio, foi preso com dezoito anos fumando maconha na praça. Foram cinco anos de cana. Nunca mais ele se recuperou. Significou muito para o Tio Joe, que começou assim e hoje é viciado em crack. “Que mané planta. Que outros tempos coisa nenhuma.” Vai pra cadeia sim. Não tem essa. É crime. Contra a lei. Vicia. Mata. “A única coisa que mudou  aqui é que você está metido com essa merda.” É coisa de vagabundo. Ninguém nunca viu alguém de bem envolvido com isso. Era como se o apresentador no jornal da noite estivesse narrando a verdade mais verdade de todos os tempos.
    Estupefata era o verbete que melhor definia a Sra. Sampaio. “Me diz que você não vai fazer mais isso, por favor.” Rafael olhou para o outro lado. O Sr. Sampaio bufou. “Conversa com a gente.” Implorou a mãe. E ele dizia: “Eu não deixo de fazer nada por causa disso.” Era um dos primeiros da XXVIV Turma de Biologia da faculdade, tinha um bom estágio, planos. Isso era só diversão, no fim do dia, como uma cerveja. “Como assim?” Não é simples assim. “Você vai precisar de mais, e mais e mais.” Não dá para controlar. É droga. “Em muitos lugares já é legalizado.” “Mas aqui não.”
    Conversa vai, conversa vem. “Meu filho, você não precisa disso.” Agora já parecia possível que o garoto especial fosse um especial com asterisco. “Como eu vou poder ficar tranquilo sabendo que você está por aí com drogas?” O Sr. Sampaio apelava e demonstrava amor ao seu jeito tosco. “Onde você vai para comprar essa porcaria? Olha o tipo de gente que você está se envolvendo.” Se as leis não servem aos interesses da sociedade, ou se as políticas públicas favorecem confrontos sociais, “não são assuntos para serem debatidos em casa”, entre uma família que tenta salvar sua cria. “Isso não é problema seu. Você tem que trabalhar,” finalizou o patriarca.
    Minutos de silêncio. Agonia. Choramingos. “Isso é só uma fase” era a frase que piscava em um luminoso de neon que brilhava dentro da cabeça da Sra. Sampaio. “E enquanto você tiver nessa fase vai ter que se virar sozinho” era a reação que parecia óbvia para um pai, segundo as convicções do Dr. Sampaio. “Tudo bem”, era a forma mais rápida que Rafael via de acabar com a contenda.
    Uma pulga saltou de trás da orelha da Sra. Sampaio gritando: “ele vai embora de casa, ele vai embora de casa.” Dr. Sampaio não se oporia. “Tome um banho que vou arrumar o jantar”, disse a matriarca na esperança de restaurar a harmonia e a família. Rafael levantou e foi para o quarto. O pai olhou para mãe com cara de preocupação, depois ligou a TV. Ela foi para cozinha preparar o jantar.
  • Bate-papo [conto]

    [21:23:59] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: Oi
    [21:24:15] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: ola
    [21:24:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tudo bem?
    [21:24:31] M amizade entra na sala.
    [21:24:45] h mama h diz para Todos: algum cara aí afim?
    [21:25:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: sim e vcs?
    [21:25:27] coroa safado entra na sala.
    [21:25:40] Moreno22 diz para Todos: aumente seu pênis de forma natural. {www.penislandia.cz}
    [21:25:47] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tbem
    [21:25:53] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: da onde tcm?
    [21:25:55] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:26:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: ZS e vcs?
    [21:26:07] Carol15 entra na sala.
    [21:26:10] KRALHUDO fala reservadamente para Ele&Ela: 19cm de rola para esposinha e maridão…...afim?
    [21:26:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: ZN
    [21:26:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: quantos anos vcs tem?
    [21:26:47] Hserio entra na sala.
    [21:26:54] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: eu 32 e ela 35 e vcs?
    [21:26:59] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:27:13] Safado CAM1 entra na sala.
    [21:27:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: eu 38 ele 42
    [21:27:32] Coroa safada diz para h34: tenho muita coisa para te ensinar ahahhaha
    [21:27:45] Kzado quer entra na sala.
    [21:27:48] Loirinha sai da sala.
    [21:27:53] Macho sai da sala.
    [21:28:10] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:28:20] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: o q vcs fazem?
    [21:28:33] Gordinho T entra na sala.
    [21:28:47] Einsten entra da sala.
    [21:28:55] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: somos liberais, gostamos de fazer tudo
    [21:29:13] Safado CAM1 fala reservadamente para Ksal Discreto: quer ver um homem de verdade fuder sua mulher seu corno?
    [21:29:33] Mulher entra na sala.
    [21:29:42] Hserio fala reservadamente para Ela&Ele: oi
    [21:29:50] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:29:53] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: legal, mas eu quis dizer no q vcs trabalham rsrsrs
    [21:30:10] Marta ZO entra na sala.
    [21:30:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: rsrsrs eu sou arquiteta e ele é advogado e vcs?
    [21:30:33] h mama h diz para Todos: algum cara afim?
    [21:30:49] Paola entra na sala.
    [21:30:57] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: sou empresário e ela é médica
    [21:31:04] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: vcs tem filhos?
    [21:31:24] Einstein sai da sala.
    [21:31:37] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: temos 2 e vcs?
    [21:31:45] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: legal, nós temos 1
    [21:31:50] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: até por isso a gente quer ser discreto
    [21:32:04] Coroa safada diz para Safado CAM1: vamos
    [21:32:10] Hilda Hilst entra na sala.
    [21:32:17] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: nós tbem gostamos de ser discretos
    [21:32:23] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: não vamos em casas de swing ou coisas assim
    [21:32:30] Maduro entra na sala.
    [21:32:42] H22cm diz para Todos: cavalo comendo famosa sem vaselina {www.animalfuck.jh}
    [21:32:57] Carol15 diz para Todos: alguém quer tc?
    [21:33:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: nós tbem não
    [21:33:10] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: como vc são?
    [21:34:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: eu 1,70m, 65kg, loira e olhos castanhos, ele 1,85m, 93kg, moreno e olhos castanhos e vcs?
    [21:34:25] H pintudo sai da sala.
    [21:34:07] Hilda Hilst diz para Todos: alguém aqui quer só tc?
    [21:34:16] Hserio diz para Hilda Hilst: oi
    [21:34:40] Marcelo sai da sala.
    [21:34:59] Carol15 diz para Maduro: não
    [21:35:05] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: eu 1,80, 80kg, loiro e olhos castanhos, ela 1,75, 68kg loira e olhos verdes
    [21:35:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: o q vcs procuram?
    [21:35:34] h mama h diz para Todos: algum cara aí afim? tenho local na ZN
    [21:35:43] paulo17 sai da sala.
    [21:35:55] Safado CAM sai da sala.
    [21:36:10] H66 diz para Madura CAM: vc é homem seu viado
    [21:36:13] H66 diz para Todos: cuidado!!!! a Madura CAM é uma bixa loca
    [21:36:30] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:36:40] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: uma aventura com um casal discreto e vc?
    [21:37:13] H pintudo entra na sala.
    [21:37:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: isso aí tbem rsrs
    [21:37:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: uma aventura sem compromisso
    [21:37:30] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: vcs já saíram com outros casais?
    [21:38:05] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: não, e vcs?
    [21:38:30] M inversão diz para H66: me dexa em paz seu escroto
    [21:38:40] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tbem não
    [21:38:55] renato bi sai da sala.
    [21:39:03] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: o q vcs quiseram dizer quando disseram que gostam de fazer tudo? rsrs
    [21:39:19] Evangélica amizade sai da sala.
    [21:39:30] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:39:50] M inversão sai da sala.
    [21:40:18] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: nós dois somos bi, gostamos de tudo entre 4 paredes rsrsrs
    [21:40:30] Hserio sai da sala.
    [21:40:47] Mario 47 entra na sala.
    [21:41:09] PAU DURO CAM sai da sala.
    [21:41:30] Moreno22 diz para Todos: aumente seu pênis de forma natural. {www.penislandia.cz}
    [21:41:51] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: do que vcs gostam?
    [21:42:03] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: a gente estava pensando mais em uma troca de casais
    [21:42:13] Caroline entra na sala.
    [21:42:31] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: podemos fazer várias trocas rsrsrs
    [21:42:47] Elton21anos sai da sala.
    [21:43:11] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: não sei, nunca transei com outro homem
    [21:43:21] DotadoCAM entra na sala.
    [21:43:30] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: minha esposa disse que já transou com outras mulheres na faculdade
    [21:43:40] DotadoCAM diz para Mulher Perdida: oi
    [21:43:43] DotadoCAM diz para h passivo: oi
    [21:43:48] DotadoCAM sai da sala.
    [21:44:11] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: as coisas acontecem de forma natural
    [21:44:19] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: o q rolar rolou rsrsrs
    [21:44:32] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: seu marido sai com outros homens sempre?
    [21:44:50] Hilda Hilst sai da sala.
    [21:45:09] Matheus sai da sala.
    [21:45:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: não, a gente tem uns brinquedinhos para se divertir
    [21:45:30] Ninfa diz para Todos: famoso confessa que gosta de transar com cabras {www.semvergonhadacabra.hg}
    [21:45:48] Caroline diz para Ksado43: 18
    [21:46:12] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: desculpem, mas acho que isso não vai dar certo
    [21:46:22] Caroline diz para Ksado43: q nojo
    [21:46:34] Caroline sai da sala.
    [21:47:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tudo bem
    [21:47:22] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:47:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: até
    [21:47:30] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: até
    [21:47:45] Ksal Discreto sai da sala.
    [21:47:55] Ela&Ele sai da sala.
  • Broto de Bambu

    velha na janela 1



    R. B. Santos / Dezembro,2016.

    Revisão: Luísa Aranha
    Agradecimentos Especiais: “SSEV” – Sociedade Secreta dos Escritores Vivos (Obrigado Camila Deus Dará).



     
    Para ela: “Que dividiu um pão em cinco, fazendo parecer, que eram dez. Por mais de uma vez. Obrigado Mãe”!




    BROTO DE BAMBU

     
     
    O bairro era bem simples, desses de periferia em cidade grande. Onde gente conversa tão alto, que até parece briga. Cachorro late de noite e de dia. Neste, até galo tinha. A rua onde se passa a história não era nada comum, em formação de “S”, com calçadas estreitas, um lugar pobre. No final, logo depois da segunda curva, não bastasse o que faltava de bom, havia ainda uma “boca de fumo”. O vai e vem era constante.

    Num sobrado, mais ou menos no meio da rua, morava Dona Raimunda. Havia duas janelas que davam para a parte da frente. Com isso conseguia uma visão privilegiada de boa parte do local, e também, dos vizinhos e transeuntes.  Era uma senhora já de idade, devia ter mais ou menos uns sessenta para setenta anos, ninguém sabia ao certo. Adorava ficar espiando e conferindo a rotina das pessoas. Gostava tanto, que ás vezes passava da hora de almoçar. Sua filha reclamava, mas ela não ligava. Acordava bem cedo, passava o café, em coador de pano para dar mais sabor, comia dois pedaços graúdos de mandioca cozida, que a manteiga derretia, e se debruçava no seu local predileto. Sua boa e velha janela, “melhor que televisão”, pensava ela.

    “Lá vem ele! É o Sr. José! E pelo jeito, bêbado de novo, logo cedo. Trançando as pernas, mas não cai o desgraçado. Podia cair! Dizem que sorrir faz bem para as rugas, e eu bem que estou precisando. Velho sem vergonha. Nessa idade. Também, a de se entender, não é. Com tanta galha que a mulher colocou na cabeça do homem, não se admira que ele beba. Talvez para esquecer, ou para enlouquecer mesmo”.  Não poupava críticas, ela era assim sem piedade. E continuava enquanto um rapaz caminhava descendo a rua.
    “Agora é o outro. O maloqueiro do Luis Castân. Nem morar aqui mora. Pensa que eu não sei. Vai buscar maconha o safado. E deve até cobrar por isso. Não é possível alguém fumar tanto assim e não morrer. Pela quantidade de vezes que ele sobe e desce, quem sabe não abriu uma concorrência e cobra mais caro. Só pode ser isso. Não vejo outra explicação! É traficante, é sim”.

     O jovem passou em frente da casa, fez menção com a cabeça em cumprimento e seguiu rua abaixo. Dona Raimunda limpou os óculos no vestido, para melhorar a visão, e olhava agora para a parte de cima da rua.

    “A Sofia nunca mais vai arrumar marido. Depois que inventou de trabalhar fora e fazer faculdade, as brigas com o cônjuge só aumentaram. Brigaram, brigaram tanto, que ele não aguentou e foi embora. Não demorou um mês e a franga já está com outro. Veja que falta de vergonha, os dois num agarro só em frente ao portão. Aposto que já eram amantes”.
    Do outro lado da rua, numa casa térrea e com uma grande área murada na frente, Ivete abria o portão para o amigo Carlos que acabara de chegar. Como o muro era baixo, ficaram ali, apoiados. Papeando e vendo o movimento. Podiam ver a Dona Raimunda dali, mas com certeza, ela não conseguiria ouvi-los. Havia certa distância entre as casas, e a anciã já não escutava muito bem. Ivete, em voz baixa, foi a primeira falar.

    - Veja só, Carlos. Mal amanhece o dia, e lá está ela. A velha coroca. Cuidando da vida de todos. É assim durante o dia todo, não sai da janela por nada.

    - É mesmo Ivete, eu já tinha prestado atenção. Tem gente que não tem o que fazer. Acho que deve ter a vida vazia. – Fez uma breve pausa. - Sabe se a filha ainda mora com ela?

    - Sei lá! Acho que sim. Eu não gosto de ficar reparando na vida de ninguém, tenho mais o que fazer, sabe. A minha já é bastante interessante para mim.  – E com o olhar cerrado na direção da janela, disparou. -Velha rabugenta!

    - Quando essa daí morrer a alma dela vai voltar e ficar nesta janela. Deus me livre! – Observou Carlos.

    Duas semanas depois, coincidência ou não, Dona Raimunda faleceu. Os dois amigos se reencontraram e conversavam no local de sempre, sobre o ocorrido.

    - Ivete! Sabe dizer o que aconteceu com a velha? Do que foi mesmo que ela morreu? – Perguntou enquanto olhava para a janela, agora vazia.

    - Bem, ouvi dizer que foi derrame. Eu não fui ao velório e nem ao enterro. Nunca tive intimidade com a família. E também, não gostava nem um pouco da bruxa. Mas pelos comentários, acho que foi isso sim.

    - Bom... que Deus a tenha. Pelo menos agora a rua ficará mais tranquila. Que coisa! Fazer o que, não é? É o destino de todos nós. – Colocou uma das mãos na cabeça e arrematou. - Ah!... E antes que eu morra também, vou indo... lembrei que tenho que resolver uma coisa.

    Quando Carlos saiu e já ia longe, Ivete ficou por ali, observava do muro.

    “Esse Carlos... sei não, hein. Não trabalha, não estuda e nem namora o infeliz! Resolver uma coisa uma ova! Pensa que eu não sei, vai é dar o rabo para o Ricardo. Tenho quase certeza de que esses dois são dois maricas. ” – Esticou o pescoço para ver melhor.
    “Ei! Espera um pouco aí! Quem é aquele?!... É o Senhor José?!... Nossa! E bêbado...  De novo...”






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  • Café Amargo

    O café da manhã estava frio e sem açúcar. Pela janela, olhei para baixo e vi que a movimentação nos becos onde a droga é distribuída estava amenizando, indicativo de que essa era a hora de sair.  Cumprimentei o Jô,  dono da mercearia, e fui para o ponto de ônibus. Demorado, como sempre, ainda olhei para a janela do quarto onde eu moro para ver se não havia ninguém lá, apesar de morar sozinho. É uma dessas paranoias de quem mora na periferia violenta. Mas o bairro está crescendo, e com ele a bandidagem, não há porque não ter paranóia.
    Depois de três terminais cheguei ao trabalho na agência (de emprego, não de publicidade), e lá deparei-me com as filas imensas de gente para “fazer ficha”. Às vezes tenho vontade de dizer: “Quer fazer uma ficha vá à delegacia mais próxima, quem sabe até eles já não tenham uma sua lá?”. O bom senso predomina e eu fico quieto. Especificamente neste dia fiquei quieto porque cheguei atrasado, e com isso a fila já estava bastante avançada. A crise aumentou o nosso trabalho, sem perspectiva de aumentar o nosso faturamento. Fato que, por consequência, não me dava esperança de aumento de salário.
    Eram onze horas quando chegou um candidato diferente, bem vestido, óculos escuros, currículo digitado, nem precisou fazer a ficha. “Quero trabalhar de gerente, tem alguma vaga?”. Após ler o seu currículo, percebi que ele era, na verdade, auxiliar de escritório. Queria trabalhar de gerente porque estava de terno e gravata? Procurei ser direto: só tinha vaga para auxiliar de escritório, nem precisaria do terno. Ele retrucou num tom de superioridade, mas com aquela gentileza que suprime o ódio: “Creio que não tenha observado, estou fazendo faculdade, olha só, está bem aqui”, disse, mostrando com o indicador no papel que me entregara, e que naquele instante eu tive vontade de amassar e jogar naquela cestinha de basquete que eu tenho atrás da porta da minha sala. É para lá que eu mando aqueles currículos que não tem jeito, ou que eu não gosto por algum motivo, preciso desenhar um garrafão no chão, nunca sei quando minhas cestas valem três pontos. Fui tomado pela ironia naquele momento: “Senhor... Luis Carlos, muitos auxiliares de escritórios que encaminhamos para as empresas estão fazendo faculdade, principalmente de administração, como o senhor. Não há cargos de gerente para pessoas que não sejam formadas e não tenham experiência com supervisão”.  Ele tirou os óculos, meio desacreditado, levantou, tirou o currículo da minha mão, saiu e não falou mais nada.  O pior é que ele levou o currículo, perdi dois pontos na cestinha.
    No dia seguinte, o café estava do mesmo jeito, frio e sem açúcar. Acordei mais cedo para dar uma olhada de graça nas matérias do jornal, que ficam expostas na banca, ao lado da mercearia do Jô.  Tinha bastante gente, estava difícil de ler, quando a voz amiga do Jô me chamou: “Veja isso, aconteceu ontem numa faculdade no centro”. Um homem de terno e gravata invadiu a secretaria da faculdade e matou três funcionários, feriu o diretor e dois professores. Foram seis tiros ao todo, calibre 38. Pelo menos o cara conseguiu fugir, vivo torcendo pelos bandidos nestas histórias, talvez pela minha proximidade e convivência com muitos deles. Não havia fotos na matéria, logo me desinteressei, agradeci o Jô pela olhadela no jornal e corri pegar o desgraçado do ônibus lotado. Na agência (de emprego) a fila já começava a dobrar o quarteirão, crise terrível, só aumenta o trabalho.   O homem bem vestido do dia anterior era o primeiro da fila. Irritei-me ao vê-lo, logo cedo. Enquanto eu abria minha sala, já ia adivinhando o que o safado ia me dizer: “Pensei melhor e quero a vaga de auxiliar de escritório”.  Luis Carlos entrou na minha sala, fechou a porta, sentou calmamente e me falou, em tom sereno: “Pensei melhor, e quero a vaga de auxiliar de escritório”, deixou o currículo sobre a minha mesa. Estava com uma cara horrível, parece que não tinha dormido à noite, a roupa estava amassada, a cara amassada, o currículo também estava amassado, e eu não podia encaminhar um candidato naquelas condições. Desta vez fui mais duro com ele: “Sr. Luis Carlos, o senhor precisa ir para casa descansar, dormir um pouco e trocar essa roupa, está suado, não tomou banho, não deve ir assim a uma entrevista, não o atenderei hoje, volte amanhã e se ainda houver a vaga lhe encaminho à empresa”. Silêncio.
    Ele se levantou, enfiou a mão no paletó, tirou então os óculos do bolso e pegou novamente seu currículo, mais uma vez a cestinha ia ficar na saudade, saiu e bateu a porta.
    Depois deste atendimento fiquei pensando: porque não adocei mais o meu café?
  • Calos e asfalto

    Calos e esfaltos
    Atenta se ao que é verdadeiro
    Desvie a névoa de sua cabeça
    Seja eu,seja você um
    Inteiro

    O sonho da vida,o escândalo da morte
    Réquiem de uma lembrança dos dias elubriantes de sorte

    Em dias que me falta o coração, me farda em desconstrução,em nada assosego, nem ego.
    Se não sua voz como passarinho que me apego

    Calos que beijam o asfalto/ em números iguais rolam os dados
    Sem armas sem palavras não somos soldados!

    Em tempos de guerra ou de paz, Lennon protestava...
    Com calos beijando o asfalto,eu ainda penso que de nada adiantava.

    Quem terás um julgo maior que o meu?
    Quem me julgas todos dias ímpares,se não eu?!
    Porque me pesa os pesares, porque diabos devido as circunstâncias não tenho dias pares?

    Porque a mim me questiono como se eu fosse uma maldita esfinge?
    Nem se quer conheço o Egito,nunca conhecerei .
    Esfinge que se aflige , que às vezes finge

    Carrego todas as dores do mundo! 
    Ah claro que não!!
    Não existe dores quando não se é o mundo
    Quando pisa o raso e não o fundo.

    Dylan ainda escreve,nem sei porquê
    E eu...
    Eu ainda me julgo 
    Nem sei do que.

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