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literatura marginal

  • o que é ser escritor?

    Todo mundo pode ser escritor, mas na hora certa, é preciso sofrer um pouco antes, é preciso se apaixonar, perder amores, beber até vomitar e continuar bebendo, mas sobretudo é preciso morrer um pouco, só um pouco e ter a paciência para superar suas barreiras. 
             Era muito comum também, me pegar escrevendo algum poema em folhas ou até mesmo em guardanapos nas mesas de bares, alguns eu deixava ali mesmo, outros eu dava de presente para algumas gurias, mas raramente eu os levava para casa, assim talvez o fardo fosse menor, compartilhar a escrita é uma forma de não enlouquecer de fato, ainda sim tem um jeito certo para se compartilhar. As horas passavam, as pessoas começavam a deixar as mesas, apenas sobravam os bêbados de verdade e as garotas de programa que respiravam entre um cliente e outro. Há tantos países que ainda não visitei, mas sinto que não dá mais tempo meu fim está a chegar depressa, a morte se torna vizinha e logo logo baterá em minha porta para pedir um pouco de açúcar. Era tão patético, mas precisava dançar mais um pouco. 
  • o que me resta

    só me havia isso.. algumas cervejas, uma cachaça... a saudade daquela buceta... uma alma de sonhador, minha fala francesa... nessa geração que não escrevem mais que 140 caracteres, onde andará o amor? por onde vieres?
  • O surto

    A cabeça de Aguinaldo estava martelando. Ele precisava ter uma ideia. Uma daquelas que muda o destino da humanidade. Precisava de dinheiro. Precisava de muito dinheiro rápido. O mundo estava ruindo ao seu redor, como o final de Scarface quando o Al Pacino enfia a cara numa montanha de pó. E ele não conseguia pensar em nada. Só sabia que precisava de dinheiro. Muito dinheiro. Para uma casa, para um carro, a escola das crianças, a viagem para a Disney. Tinha que ser em dólar. Aguinaldo andava de lá para cá, com a mão direita apoiando a arma na cabeça, mas a ideia não vinha. Ele precisava de dinheiro grosso, não uns trocados. Tinham que ser maletas transbordando dólares igual nos desenhos animados da televisão. E tinha que ser rápido. A ideia tinha que ser algo monstruoso. Daquelas que resolvem todos os problemas e não dão muito trabalho para colocar em prática. Daquelas que rendem milhões para quem fica sentado no sofá cercado de mulheres, tomando champagne e fumando legítimos charutos cubanos. Daquelas que só precisam de uma vez e depois nunca mais.
    Era uma mega-sena. Aguinaldo precisava acertar na mega-sena e ficar com todo o dinheiro. Para comprar roupas, colares e tênis. Tinha que ser muito dinheiro. Quilos e mais quilos de ouro. Em tantas barras que ele ia usar uma como peso de porta e outra como peso de papel. As pessoas iam chegar, e perguntar sobre o dinheiro, sobre a ideia. Ele não tinha nada, só um trinta e oito com cinco balas e as mãos tremendo. Sentava, levantava. Fumava um cigarro depois do outro, e nada. Tudo que ele conseguia pensar era que precisava de dinheiro. Precisava de dinheiro rápido. Em dólar, ouro, latinha, papelão. Em qualquer coisa que valesse muito. Tinha que ser muita coisa de qualquer coisa. Depois ele ia viajar, conhecer o mundo num iate cheio de garotas peladas e sexo e droga e rock’n roll. A ideia tinha que ser tão boa que ia sair no jornal. Todo mundo ia saber e todo mundo ia querer ter tido. Uma ideia simples e perfeita. Que nunca ninguém tinha tido. E ele pensava e pensava e pensava. Tinha que pagar o condomínio, o motorista, o jardineiro, a empregada. Era de muito dinheiro que ele precisava.
    Mas ele precisava da ideia. Aguinaldo sabia que ela estava lá, na sua cabeça, mas ela não saia. Tinha alguma coisa prendendo. Estava quente, vermelha, suando. A ideia queria explodir, mas não explodia. E ele batia, batia e batia com a mão e a arma na cabeça. Se agachava e chorava como uma criança perdida no supermercado. Precisava de dinheiro. Precisava de uma fortuna com filhos bonitos e inteligentes. Precisava de um cofre como o do Tio Patinhas para nadar em dinheiro com a sua escolhida. Não podia demorar. Não podia ser pouco. Não podia dar trabalho. E ele deitou, respirou fundo, sentiu o coração disparar. Precisava de dinheiro. Para fazer uma festa como a do Conde de Montecristo e mostrar para o mundo que ele tinha conseguido. Para comprar balões, castelos e pessoas. O prazo já tinha acabado. Ele precisava de muito dinheiro agora. Não dava mais para esperar. A ideia tinha que vir. As pessoas iam querer saber, iam querer ver, iam querer tocar. Ele precisava de caminhões com dinheiro até o talo.
    Sem a ideia não ia ter dinheiro, sem o dinheiro não ia ter a festa, a vida fácil, nem helicóptero. Ele precisava de tanto dinheiro quanto o Cidadão Kane, para poder perder um milhão por mês por toda a vida. Ele precisava de mais dinheiro que os mafiosos dos filmes do Scorsese. E tinha que ser rápido, como no cinema. Como no Lobo de Wall Street, de uma cena para outra. Porque ele não tinha tempo. E Aguinaldo chorava e arrancava os cabelos para tentar fazer a ideia sair. Para poder fazer caridade por aqueles que ele achasse que merecessem. Para ser feliz como Jack Nicholson pulando de paraquedas com o Morgan Freeman em Antes de Partir. Ele olhava para os lados, escutava os passarinhos cantando, esperava que a ideia surgisse como música para os seus ouvidos. Que finalmente todas as respostas saíram de sua boca quase como que por encanto. Não ia chegar por telefone, ou pela internet. Ia ser tão natural que ele nem ia perceber. Quando visse já estaria com todo dinheiro. Tomando marguerita numa praia do caribe. Ele precisava sair daquela casa, sentir o vento na cara trazer a ideia a tona como uma semente germina para ser uma grande árvore.
    Aguinaldo marchava pela rua perseguindo a ideia. A cabeça continuava martelando sem parar. Vermelha, quente, suando. Precisava de dinheiro. De muito dinheiro. Ele via pessoas com muito dinheiro passando nos seus carros, saindo dos prédios. E ele precisava de mais dinheiro do que elas. E tinha que ser rápido. Como se soubesse exatamente o que fazer ele entrou num banco atirando primeiro nos dois seguranças, e depois no caixa que não entendeu o que ele disse. Ele precisava de muito dinheiro, rápido, dentro de uma sacola. Para comprar um apartamento duplex na beira praia, um sítio para descansar. Ele precisava do dinheiro de todos os caixas, e do cofre, e do bolso das pessoas que estavam lá. Precisava de todo dinheiro do mundo rápido, sem perguntas, sem gaguejar. É só colocar tudo dentro do saco. Rápido. Mais, mais, mais. As moedas também. Tudo. Todo o dinheiro. A polícia chegou. Cercou todo o lugar com carros e sirenes. Começou a falar alto num megafone. Aguinaldo tinha que fugir dali. Com todo o dinheiro num saco. Rápido. Ele abriu a porta e sai correndo. Ele deu seu último tiro na direção do megafone que mandava ele parar, e a polícia fuzilou Aguinaldo antes dele chegar até a esquina.
  • Os freelancers [conto]

    O cara usava um terno azul, com gravata vermelha, mocassins e gel no cabelo, como se fosse o próprio Vincent Vega. As diferenças iam do Chevette velho que ele dirigia até o fato que ele não estava num estúdio em Los Angeles, além de que o que tocava no rádio era Thiaguinho e não Kool & the Gang. O Chevy encostou no meio-fio e um tipo carcamano do Scorcese, italiano, gordo e vestindo camisa florida, entrou e sentou no banco do passageiro. “Que merda é essa que você está usando, cara?” “Chama estilo meu caro, estilo.” Os dois riram e o estiloso saiu sem fazer alarde pelo trânsito.
    “Quem te disse que não existe PM nos Estados Unidos?” “Não é isso, lá não existe Polícia Militar.” “Como assim? Claro que tem polícia na rua. Eu vejo isso em vários programas na TV.” “Tem, mas eles são civis, não militares.” “E qual a diferença? É tudo polícia, porra.” “Tem muita diferença. No treinamento, na forma de agir, na burocracia do trabalho, em tudo.” “Esse treco que você tá vestindo tá afetando sua cabeça. O que você está falando não faz sentido.” “Cala a boca. Sabia que nos lugares mais seguros do mundo a polícia não usa armas?” “Então vamos para lá.”
    Como se tivessem pulado da Tela Quente direto para a Sessão da Tarde, Debi & Lóide pararam numa lanchonete. Pediram café com pão na chapa e sentaram do lado do vidro que dava para o estacionamento. Enquanto comiam um tipo Clint Eastwood meio assustado sentou na mesma mesa. A garçonete se aproximou e o sujeito teve que fazer o pedido três vezes até que ela entendesse que ele queria só um café.
    “São vinte mil.” “Certo.” “Você paga metade agora e metade depois.” “Tudo bem. E o que vocês vão fazer?” “Exatamente o que você está pagando.” “Mas como?” “Se quiser pode estar lá para ver.” “Não, não, não quero. Tudo bem.” “O dinheiro está aí com você?” “Está aqui.” “Não, não tira ele aqui. Vai até o banheiro e coloca o envelope atrás do lixo da segunda cabine.” “Quando vai ser?” “Eu te procuro para pegar a outra metade quando estiver tudo feito.”
    A versão cagão do Clint levantou e foi até o banheiro, depois pagou a conta da mesa no balcão e saiu sem olhar para trás. Uns dois minutos depois o carcamano do Scorcese foi até o banheiro, deu uma cagada, pegou o envelope e voltou pro Chevette que emanava todo o romantismo de Zezé de Camargo e Luciano. Já no centro da cidade eles acolheram um Stallone depois de várias feijoadas e um monte de invernos.
    “Então já está tudo certo?” “Mais ou menos. São dois caras, tá aqui as fotos deles.” “Isso escrito aqui atrás é o endereço da casa deles? Vão ser duas ações?” “Não. É o endereço de onde eles almoçam todo dia.” “E como vai ser? A gente espera eles saírem e resolve?” “Não sei, o que vocês acham aí na frente?” “Me parece mais fácil esperar eles saírem. No restaurante pode ter câmera.” “Bem pensado.” “A gente pode fazer assim: vai eu e ele e fica esperando os dois saírem do restaurante. Você fica com o carro parado na esquina detrás. Se eles tentarem correr você pega eles.” “Vamos fazer assim então.”
    Com tudo arranjado os solucionadores de problemas seguiram até a frente do local escolhido para o abate para armar a tocaia. Como que numa cena perfeitamente dirigida por Kubrick, todos tiraram seus revólveres da cintura e checaram as balas. Depois colocaram na cintura de novo e olharam para a porta do restaurante como se estivessem pensando de que forma tudo aconteceria, onde poderia haver falhas e como reagir a qualquer tipo de eventualidade.
    “Olha só, primeiro o jornal diz que comer alface evita o câncer, no outro dia você vai no supermercado e não tem mais alface, porque todo mundo quer comer alface e evitar o câncer.” “Tá, e daí?” “Do que esse cara está falando?” “E daí que podem ter envenenado o alface, pode ser uma jogada para subir o preço, entende?” “Cara, você está ficando louco.” “Estou escutando um monte de baboseiras desde de o café. Acho que este penteado afetou o cérebro dele.” “São vocês que são dois alienado.” “Calem a boca. Olhem lá, acho que são os caras ali, porra.”
    Carcamano do Scorsese e Vincent Vega saíram cada um por um lado, atravessaram a rua em câmera lenta como uma tomada de Cães de Aluguel. Sacaram suas armas e começaram a atirar sem economizar na direção dos dois homens que estavam na frente do restaurante. Uns correram, outros se jogaram no chão, mas nenhum tiro errou os alvos. Toda área de strike virou uma peneira. Quando se colocaram de pé na frente dos corpos caídos nenhum dos dois tinha mais balas. Eles pegaram um punhado de munição do bolso e encheram os tambores. Depois deram um tiro de misericórdia na cabeça de cada um. Tudo a tempo do Stallone feijoada manobrar o Chevy e se posicionar exatamente onde a ação acontecia, já com a porta aberta. Vincent e Carcamano pularam para dentro e saíram pela rua sem chamar a atenção.
  • Os homens do esgoto [conto]

    A tampa do bueiro na frente da portaria do Edifício Vida Mansa se abriu e quatro homens vestidos com macacões emergiram, carregando uma mochila grande cada, e saíram andando, em fila, na direção do norte. Seu Antenor achou aquilo muito estranho. Eles não tinham identificação nenhuma, não falaram uma só palavra, mal se olhavam e pareciam não se importar em nada com o que acontecia à sua volta. Tudo neles parecia mecanizado. Alí, da portaria do Edifício Vida Mansa, ele ficou esperando atentamente alguma coisa acontecer ou explodir. Na primeira meia hora nada mudou, até que a tampa se abriu novamente e mais quatro homens, vestidos com macacões, emergiram do bueiro carregando uma mochila grande cada e saíram andando, em fila, na direção do norte. Eles não tinham identificação nenhuma, não falaram uma só palavra, mal se olhavam e pareciam não se importar em nada com o que acontecia à sua volta. Agora Seu Antenor não tinha mais dúvidas: alguma coisa errada estava acontecendo ali.
    Seguindo o protocolo de segurança da portaria ele chamou o chefe dos vígias pelo rádio. “Eles estavam usando macacões iguais operário? Marrom, azul, cinza, sei lá.” “Azul, mas não tinha identificação nenhuma. Faziam tudo muito sincronizado.” “E saíram do bueiro e foram embora? Não mexeram em nada, não entraram em nenhum carro, nada?” “Isso. Eles estavam carregando umas mochilas grandes também. Pareciam pesadas.” “A câmera externa pegou isso?” “Pegou sim, tá tudo gravado.” “Então não se preocupe, deve ser a Companhia de Água consertando alguma coisa.” A explicação não satisfez Seu Antenor, que se sentiu até um pouco ofendido com o desdém do chefe, mas a hierarquia colocou ele de volta no seu posto sem nenhuma das ações que ele esperava.
    Pouco tempo depois a tampa se abriu de novo, e mais quatro homens vestidos com macacões emergiram, carregando uma mochila grande cada, e saíram andando, em fila, na direção do norte. Seu Antenor não se conteve, saiu correndo de seu posto e foi até a grade. “Ei. Vocês aí do bueiro. Ei. O que esta acontecendo?” Nenhum deles fez alguma menção às chamadas do porteiro. Aquilo fez o sangue dele ferver. Seu Antenor tinha certeza que alguma coisa muito errada estava ocorrendo ali, debaixo do seu nariz, naquele instante.
    Desta vez, além de alertar o segurança pelo rádio, ele interfonou para a síndica. “Dona Selma, em menos de duas horas uma dúzia de homens saiu daquele bueiro carregando mochilas pesadas. Tem alguma coisa estranha acontecendo aqui. Escuta o que eu estou falando.” “O que o Senhor acha Seu Camilo?” “Olha Dona Selma, do jeito que o Seu Antenor me falou pareceu que eram funcionário da Companhia de Água. Se a Senhora quiser podemos ver as imagens, o Seu Antenor disse que a câmera pegou.”
    Enquanto chefe da segurança e sindica debatiam se alguma coisa estava acontecendo, ou não, a tampa do bueiro se abriu, e mais quatro homens vestidos com macacões emergiram, carregando uma mochila grande cada, e saíram andando, em fila, na direção do norte. “Olhem lá. Olhem lá. De novo. Do mesmo jeito. Mais quatro.” “Seu Camilo, por favor, veja o que está acontecendo.” O chefe da segurança saiu pelo portão andando rápido para tentar interceptar os homens, mas voltou alegando que não conseguiu alcançá-los e quando virou o quarteirão não viu mais eles. “Tudo bem Seu Camilo. Também me pareceu que eram da Companhia de Água. Seu Antenor, vamos deixar eles trabalharem em paz.”
    O porteiro voltou para sua casinha com a pulga atrás da orelha. Podia ser qualquer coisa, de terroristas extremistas até extraterrestres que habitam os esgotos, mas não eram da Companhia de Água. Quando mais uma vez a tampa do bueiro se abriu, e mais quatro homens vestidos com macacões emergiram, carregando uma mochila grande cada, e saíram andando, em fila, na direção do norte, ele resolveu tomar uma atitude drástica. Ligou para a polícia. Depois de um tempo uma viatura parou na frente do Edifício Vida Mansa. Seu Antenor não se conteve. “Fui eu que liguei para vocês. Olha só, o que está acontecendo é que tem uns caras estranhos saindo do bueiro de tempo em tempo e...” “Nós já averiguamos Senhor. Estamos aqui para sua segurança. Por favor, volte ao trabalho.”
    Seu Antenor voltou para seu posto ansioso para ver a tampa do bueiro se abrir. E foi batata, mais quatro homens vestidos com macacões emergiram, carregando uma mochila grande cada, e saíram andando, em fila, na direção do norte. Pareciam nem terem notado a presença da polícia alí. Os policiais também não tiveram nenhuma reação a tampa do bueiro se abrindo e os homens surgindo. Agitando os braços e visivelmente alterado Seu Antenor saiu da portaria esbravejando o porquê de ninguém fazer nada sobre o que estava acontecendo. Haviam homens saindo de dentro do bueiro de tempos em tempos, carregando mochilas, vindo não se sabe da onde e indo para não se tem ideia. Aquilo era muito suspeito. Seu Antenor exigia saber o que estava acontecendo.
    Sob a ameaça de ser preso por desacato e desobediência ele voltou para dentro e continuou sentado na portaria vendo homens vestidos com macacões emergirem do bueiro, carregando uma mochila grande cada, e saírem andando, em fila, na direção do norte. Sempre em quatro, de tempos em tempos, durante o dia inteiro.
  • PAIXÃO NA BOSSA

    Recusa ser feliz
    Por que tanto olha o mar?
    Faz sentido para amantes
    Para um, é só um mar.

    O passado tão presente
    Dele é tão refém
    Condenaras-te à tristeza
    Não só tu, a mim também.

    Carga fatigosa
    Descompassa o coração
    Joga a todos para longe
    Desesperado empurrão.

    Quando estiveres pronta
    No presente arriscar
    Larga ao chão todo esse peso
    E vem pra cama me amar.
  • Paradoxo da vida perdida

    Meu Deus, ainda estou vivo. Não sei como. Mais uma vez o improvável venceu. De algum jeito cheguei na casa da Paula e ela me deixou ficar no quarto de hóspedes. Preferia o quarto dela, mas não foi desta vez. Também não sei o que aconteceu ontem a noite. Nem quero saber. Checo tudo para ter certeza de que estou sozinho. Tem um aviso na geladeira pedindo para eu não fumar dentro de casa, mas teoricamente não vi. Fiz um café forte para viagem e sai antes que ela pudesse chegar para me repreender. “Você esta fodendo com a sua vida”, ela ia dizer. “Se eu quisesse foder com a minha vida arrumava um emprego e casava com você”, eu ia responder. Acho que talvez tenha escutado aquilo e respondido isso ontem a noite. Explicaria o quarto de hóspede.

    O bar do Jaime estava começando a receber o grande público. Ele fingiu que não me conhecia, e a filha dele não conseguia esconder que odiava me amar. “Meu pai não quer mais você aqui.” “Faz tempo que ele não me quer aqui, mas ele gosta da onça pintada?” “Filho da puta.” Com um copo de Campari e uma garrafa de cerveja a vida até parece que vale a pena. Peguei o Mutarelli no bolso do casaco e comecei a ler como se estivesse numa biblioteca. Era como se o mundo tivesse parado de girar e o tilintar dos copos era uma barreira contra qualquer coisa que tentasse entrar no meu mundo. Mas não foi o suficiente para parar a Sandy. “Ninguém vem aqui para ler!” “Eu não sou ninguém.” “Tenho um negócio aqui para você que vai te tirar dessa pasmeira.” “Não, obrigado.” “Tem certeza?” Ela tirou um vidro de remédio com um conta gostas e um líquido preto e viscoso. “O que é essa merda?” “Lubrificante social.” Ela pingou duas gotas no meu Campari, que ficou meio marrom, e deu uma golada. Olhei para ela sorrindo como o pote de ouro no fim do arco-íris e terminei com o que tinha sobrado.

    Então o mundo mudou, apesar de continuar o mesmo.

    Comecei a afundar num chão aveludado e a brasa no meu estômago virou um lança chamas. A filha do Jaime trouxe mais bebida e disse alguma coisa sobre eu ser um babaca. A Sandy estava dançando loucamente com alguém que parecia ser eu. E era. Aquela coisa preta tinha feito um outro Neb nascer e aprender a dançar, o antigo continuava sentado na mesa lendo Mutarelli em alguma outra dimensão. Ou poderia estar realizando os desejos sexuais da filha do Jaime. Numa terceira hipótese casado e com filhos na casa da Bárbara. Em algum plano ainda não descoberto pelos departamentos de física eu ganhava o Nobel de literatura e falava no discurso: “só sei ler e escrever, então tive que me virar com isso.”

    Talvez, para garantir a paz entre todos no bar, seria indicado que só fossem aceitos adeptos do Lubrificante Social. Assim não haveria nenhum problema em sair caindo em cima da mesa dos outros. Em algum momento, sem razão aparente, concluí que era o Super Homem e tentei alçar voo para o infinito e além, mas fui interrompido pela ausência do supernatural e a implacável gravidade. De repente minha cara estava ao alcance de um coturno cheio de um pé com muita vontade de me chutar. Primeiro tentei me teletransportar para a nave do Capitão Spock. Quando percebi que não ia funcionar já e tinham ido boa parte dos dentes que me restavam. Me esforcei tanto para me fingir de morto que cheguei a acreditar que era verdade. O Jaime apareceu com um taco de beisebol e muitos gritos. Apaguei com a certeza de que acordaria muito melhor.
  • Passagem da Vida

    Faça valer a pena, pois mumca se sabe quando estará bebada jogada na sarjeta.
    Entre essa fumaça do cigarro que consumo, tento não pensar num passado...
    Pois agora sou jovem e ainda existe beleza feminina, mas me pergunto..
    Até quando meninas?
  • Peso morto em CNTP [conto]

    Nos últimos tempos tem crescido um sentimento em mim de querer ser abandonado. Acordar e descobrir que todo mundo que um dia me conheceu teve este detalhe menor da vida deletado da memória. Meu número desapareceria do celular das pessoas, meu e-mail nunca mais receberia mensagens e os crianças da rua iriam ter medo da casa abandonada na esquina. Ninguém ia me cumprimentar quando me visse andando até o supermercado, se desse sorte as pessoas até desviariam de mim quando eu passasse. Mas por mais que eu reze, fuja, ou não tome banho, não adianta, o mundo insiste em me atormentar.
    O Bar do Jaime não é o lugar perfeito para se esconder, mas diminui consideravelmente as chances de se ser encontrado. É sujo, as bebidas são de segunda e os frequentadores não são exatamente o que uma mãe quer para um filho quando ele crescer. Vai ver que é por causa disso que o Jaime tem essa cara de filho da puta. “Não tem nada para você aqui.” A moral é assim, fascista. “E para o mico?” Ele coloca uma cerveja no balcão. “O mico também quer alguma coisa quente e uns amendoins.” Brotam uma porção de amendoim e uma dose de conhaque na minha frente.
    Peguei o jornal e vi alguma coisa sobre empregos não serem mais empregos. O que existe agora é prestação de serviço. Me senti no limbo: se não existem mais empregos também não existem mais desempregados. Não sou nada. Como não tenho CNPJ não sou nem números. As pessoas vão continuar por aí me enchendo o saco, mas o governo parece ter ouvido minhas preces. Mas é sempre bom estar preparado, a qualquer momento ele pode enviar um mensageiro do inferno na minha porta dizendo que devo alguma coisa por, sei lá, ainda estar vivo e não ter um CNPJ.
    Se minha leitura tivesse chegado até o horóscopo teria descoberto que hoje não era um bom dia para encontrar pessoas com quem se tem relações sexuais ocasionais (e que meu número da sorte é 13, o que não muda nada porque hoje é 31. Talvez as coisas tendam a acontecer ao contrário para mim). Enfim, não cheguei até o horóscopo, mas a filha do Jaime chegou de não sei onde e passou por mim como um banqueiro que cruza com um mendigo. Me recolho na minha insignificância e continuo comendo amendoim por unidade para o Jaime não me considerar um peso morto e me chutar do bar.
    A dose de conhaque começa a fazer algum efeito e aos poucos vou me sentindo melhor. É como se um pavio de esperança se acendesse dentro de mim. Deus envia um sinal através de uma arara selvagem que pula do meu bolso e se transforma em uma cerveja e outro conhaque. A filha do Jaime passa por mim no vai e vem do salão e não consigo arrancar dela nem um olhar de desprezo. O Jaime me dá muito mais que isso. “Na minha época vermes como você sumiam na noite e ninguém dava falta.” “Acho que estou vivendo na época certa então.”
    Um grupo de três ou quatro engravatados entraram no bar rindo alto e tomando posse do ambiente e tudo que estava nele. “Põe uma garrafa de pinga aqui.” O velho rabugento redirecionou todo seu ódio para eles com uma cara de “onde você pensa que está, imbecil?” “Não vim aqui fazer amigo. Coloca uma garrafa de pinga aqui pra gente, porra.” O mais parrudinho sacou um Pantanal de onças do bolso e bateu com uma só no balcão. Tinha a impressão de que todo mundo estava parado olhando aquela cena, menos eu que procurava a bunda da filha do Jaime no meio de tudo aquilo. Ele, por sua vez, fez menção de recorrer ao sossega malandro que fica permanentemente ao alcance da mão atrás do balcão. “Não é o suficiente?” O parrudinho libertou mais duas onças. Revelando sua condição de refém do capitalismo cruel o Jaime pegou a pior garrafa de pinga que tinha, abaixou a cabeça, e colocou no balcão junto com os copos sem abrir a boca ou desviar o olhar.
    Continuava procurando sem sucesso a bunda da filha dele enquanto os bêbados de butique vivendo uma noite muito louca espantavam qualquer pessoa de bem que quisesse entrar lá. Quando já estava quase convencido de que ela tinha ido embora com alguém que tinha um CNPJ escutei um grito agudo e achei a bunda dela na mão de um dos donos do mundo. Como que por instinto quebrei uma garrafa em um deles que estava mais perto ao mesmo tempo em que o sossega malandro do Jaime acertou o dono da mão no meio da testa. A filha dele veio correndo e chorando na minha direção como uma criança que se perdeu da mãe no supermercado. Abri os braços para segurar ela e alguém me acertou com uma cadeirada por trás. O Jaime pulou o balcão deu um mata leão com cada braço arrastando dois dos trolhas para fora do bar. Depois voltou e jogou os outros dois sacos de estercos na calçada e fechou a porta. Enquanto ele varria os destroços da confusão a filha dele fazia curativos nas minhas costas.
  • Physika MystiKa

    Cansado da procura infinita do fora de si, ao estudar os muitos processos intermediários e primários do existir, em que se entregara a resolução de conflitos dualísticos do corpo-mente, espírito-matéria pelas muitas filosofias mesopotâmicas e posteriormente egípcias, gregas, hindus, hebraicas, árabes, ameríndias, yorubas e congolesas… absorveu o problema da existência mundana e consciência divina sobre outra pressuposição, e se perguntara em pensamentos avassaladores onde estariam os segredos superiores, senão dentro de si mesmo, em seu próprio corpo, psique e coração… resumindo… a vida do aqui e agora, o momento presente, o falar, o respirar, o agir, o sentir… enfim, o viver e depois morrer… a própria existência com todas as suas dores e alegrias, ilusões e fantasias… o bailar constante do bem e mal em si que o movimentava.

    Passou muito tempo até agora na infinita busca externa do Grande Mistério, e olhando para si mesmo… se percebeu esse Grande Mistério.

    Ao sentir-se misterioso, se envolveu em si mesmo com paixão, examinando a si por completo. Vira-se como uma fragrância do todo em tudo, e nele mesmo exalava um perfume do néctar dos deuses. E se auto questionou, dizendo em voz alta para si, em um diálogo monólogo do externo com o interno:

    — Ó matéria pela qual sou constituído, veículo orgânico e atômico de mim mesmo… Ó Sagrado que habita em cada partícula e onda de energia em mim. Foste constituído pelos deuses a Ordem Magna da Consciência Una Superior… A Fonte em que jorra o rio da Sagrada Mística Sabedoria na física de mim mesmo… se te vejo fora não estou dentro, pois, sei que até o que julgo como fora saiu de dentro da outra forma individualizada de Ti mesmo. Então, tudo que saiu de Ti, deve por ordem e dever retornar a Ti. Porque se me conheço e sou conhecido, não é por mim, e sim pelo outro. O que é o externo, senão, o interno alheio exteriorizado em criação e concretização? Ó Sagrada Mística Sabedoria… divina, amada e desejada… te venero em mim mesmo, e a partir de agora não vejo e nem sinto diferença entre o eu e o outro, entre a mente e o objeto… ao te procurar em mim mesmo, percebi que tudo era eu, diferente de quando eu te procurava fora, onde tudo era o indiferente outro externo fragmentado, partidário e polarizado … estava eu perdido procurando fora o que sempre estava comigo. Ó Grande em mim mesmo, revela-se para mim! Porquanto, sou a chave da minha própria prisão… a resposta da minha própria pergunta… o achado da minha própria busca. Dentro de mim está o mercúrio, o sódio, o enxofre e todos os elementos para constituir o ouro puro dos alquímicos, forjado no forno do meu ser, constituindo a Grande Obra em mim mesmo. Assim Eu Sou! Sempre uma única coisa… o superior… o algo mais… o coletivo individualizado… a supra consciência multiversal uniforme que me forma.

    Tornando-se ao ‘UM’, ao se livrar do julgamento que discrimina e separa todas as coisas, vira que o fragmento era uma mera ilusão e verdadeira ignorância… era a criança; o velho; a bela donzela; a senhora fragilizada; o rapaz bonito e valente; o fraco doente; o vivo; o morto; a barata; o verme; o cachorro; o tomate; a carne; o theion divino… não havendo em si e no outro diferença, a partícula se dissolveu em ondas de energia penetrando todas as coisas existentes inexistindo… e de todos teve compaixão, em que ele mesmo era o todo em tudo apaixonado.

    O canto do grilo noturno era ele mesmo a embalar o movimento das estrelas no escuro dos céus…

    Era o próprio galo o despertando pela manhã…

    O gato ao caçar o rato…

    A venenosa serpente a descamar-se…

    O velho vizinho que lhe desejara bom dia era ele mesmo criando vínculos de proximidade em gentilezas…

    O garoto arrogante e brigão…

    O homem chato…

    A lesma se rastejando em sua gosma…

    O esquadro e o compasso de sua própria construção…

    A mesma escada que tanto desce como sobe…

    O engodo de si mesmo e a verdade do outro…

    Assim, em sua livre busca se perdeu nele mesmo em quietude… se encontrando no outro em prisioneiro movimento… em um labirinto em que o dentro e o fora o representava inconscientemente no coletivo individualizado do ordinário Grande Ser em sua pequena forma extraordinária.
  • Precauções do COVID-19

    Se cuide do jeito certo
    Se os sintomas surgir
    Se afaste de perto 
    Depois chame um médico

    Mantenha distância do infectado
    Fique o mais possível afastado
    Mantenha-se mascarado
    Faça tudo que logo estará curado

    Se o resultado der negativo
    A proteção deverá continuar
    Se esforce para seguir protegido
    Que logo a vacina chegará
  • Rato condicionado perdido no labirinto de Skinner [conto]

    Acordei de novo. Não lembro do que aconteceu ontem a noite. Não faz muita diferença. Não gosto de lembrar muito das coisas. Lembranças podem arruinar uma vida inteira em busca de porquês. Também não lembro de onde vem as dores, tenho a impressão que elas sempre tiveram aqui. Sempre soube que é muito mais fácil aprender a conviver com os problemas do que tentar resolvê-los. Não gosto de ir contra minhas convicções, e a experiência me mostrou que o melhor jeito de conviver com os problemas é bebendo. Por isso, antes que perceba que estou tremendo a ponto de não conseguir andar sem me escorar na parede, fiz um café com conhaque e raspei dois pinos que achei no bolso da calça de ontem para desentupir o nariz. Foi o suficiente para me sentir vivo, mas quando os urubus no estômago enviaram os primeiros sinais de que precisavam de mais carniça fui para o bar do Jaime.
    Entrei no bar e o velho me olhou como se eu fosse um fiscal do imposto de renda. “Me dá o que essas moedas puderem pagar.” Ele empurrou as moedas para a gaveta e me deu meia dose de pinga. Um tipo texano surgiu como uma aparição do meu lado falando como quem pode mudar o rumo de uma vida. “Tá precisando de dinheiro?” “Um homem precisa pagar suas contas.” Ele estendeu uma nota de cem com uma mão e um trinta e oito com a outra. Não estava preparado para aquilo, não é o tipo de trabalho que normalmente me oferecem num fim de tarde de uma terça-feira ensolarada enquanto estou curtindo meu momento de entretenimento forçado. “Você sabe usar uma dessas?” “Sei.” Não era o que eu estava acostumado a fazer, mas também não estou acostumado a viver sem pagar o aluguel. “Você só me dá cobertura junto com o Grandão ali e o Tonhão aqui.” “Certo.” “Se você sobreviver te dou a outra metade do pagamento.” Essa última fala me fez pensar que talvez aquele trabalho não fosse para mim, além de esperar alguma coisa melhor como informação, tipo: “é um negócio arriscado, então fica esperto” ou “não é nada demais, só precaução.” Ele me mandou esperar na frente do bar com os outros e encostou no balcão para tomar mais uma.
    Ficamos na frente do bar como capangas guardando o QG. O Grandão acendeu um cigarro, pedi um para mim e colei do lado dele. “Que tipo de negócio vamos fazer?” “Não interessa, só se preocupa em proteger o chefe.” “Não sou da polícia, só quero saber onde estou me metendo.” “Você recebeu uma boa grana e uma arma, com certeza não é para olhar as crianças no parquinho enquanto a Dona Dondoca fode com o jardineiro.” Não parecia que seríamos grandes parceiros de trabalho. Também não sei se quero trabalhar com essa organização. Me parece que eles atuam numa faixa de mercado com a qual não estou muito familiarizado. Foi nesse momento que pensei: que bom que eles não sabem que nunca atirei em nada. Em seguida um pensamento atormentador começou a sombrear minha mente: e se eles soubessem que eu não sei atirar só pelo meu jeito pacífico de otário e me pegaram para ser bucha de canhão?
    Quando já estava perto de voltar para o bar e devolver a arma, o dinheiro e pedir desculpas por ter aceitado um trabalho que não tinha coragem de fazer o chefe saiu pela porta vai e vem. “Vamos rapazes, chegou a hora de me recompensar por pagar vocês tão bem.” Entramos os quatro dentro do Santana que estava parado na esquina e rumamos para o encontro onde é melhor levar gente armada para te defender. Saímos sem fazer barulho e andando dentro do limite de velocidade. “Olha só, nós vamos fazer assim: eu e o Tonhão vamos entrar na casa, Grandão, você fica na porta de olho no que acontece aqui fora. E você, Tripa Seca, vai ficar com o carro parado na esquina da frente observando o arrabalde. Qualquer coisa errada você aparece na frente da casa já no piloto que o Grandão sabe o que fazer.” Era isso? Ficar no carro vendo o movimento da esquina? “Ok.” “Presta atenção, se você for atirar, atira para matar. Se a gente não sair em quinze minutos vocês entram fudendo com tudo.”
    Definitivamente eu não estava pronto para aquilo. Todo momento eu tentava chegar a uma fórmula que me permitisse desistir da empreitada e sair dali carregando minha honra e andando pela vontade das próprias pernas. Como diria meu pai, o covarde é quem sobrevive para viver com a glória do herói. Não quero a glória de nada, só sobreviver já me basta. Quando reparei a gente estava passando pela Vila do Médicos. O chefe parou o carro numa esquina e mandou eu assumir o piloto. “Tá vendo onde estão aqueles dois carros parados? Deixa a gente na frente daquela casa. Depois para no fim da rua. Fica esperto no Grandão que ele que vai te dar o sinal pra você vir buscar a gente. Se você notar alguma coisa errada aqui fora você senta o dedo e vem buscar a gente aqui na frente.” Notar o que errado? Um bêbado nessa rua ia me parecer estranho, deleto ele?
    Tremendo e sem saber o que fazer deixei os três na frente da casa e me posicionei onde achei que o chefe tinha dito para parar. Coloquei o cano no colo e fiquei olhando pelo espelho retrovisor. O Grandão ficou parado na frente da casa conversando com outro brutamonte que tinha aparecido lá. A cada cinco segundos o Grandão dava uma olhada para mim parado na esquina. Aquilo não parecia certo. Agora era a hora de aparecer atirando? De repente um barulho de pneu derrapando fez eu dar um salto no banco e a arma cair no assoalho. Me abaixei para pegar e quando levantei o carro que tinha feito a curva na esquina a milhão parou na frente da casa e dois caras saíram pela porta detrás e começaram a atirar a esmo. Liguei o carro, engatei primeira, virei a esquina sem chamar a atenção e fui embora antes que eles percebessem minha presença.
  • redução de danos

    poucos estão acordados
    para a corrida
    da redução de danos
    os outros acham que não é com eles
    fazendo crianças
    comprando leite
    rezando o terço
    criam a geração
    que não terá água
    e terá que ser outra espécie
    para viver no mundo que herdará
    no salão do cartola clube
    o barulho da tosse é uma despedida
    de bons tempos antes odiados
    no maracatu pasteurizado da vila madalena 
    a juventude se afoga com alegria
    no limbo da cegueira
    mertiolate que não arde
    paliatvos para o brasil sem rock
    sem nobel
    sem governo
    pão invísível e circo de horrores
    amanhã tem mais?
  • reflexão simples

    a humanidade tem um gosto amargo.
  • Respiração

    Tá cada vez mais difícil
    continuar vivo ultimamente
    Meu corpo anda exausto 
    da poluição
    da minha mente

    Eu tenho sido suicida
    Um esboço sem graça 
    de mim sangrento
    rindo
    sem dente

    Ontem
    eu soube me amar
    Hoje em dia nada 
    faz
    que eu tente.
  • REVOLUÇÃO

    Num dia rotineiro, no final de um plantão, observo atentamente o sol brilhante da estação. Não demora, vai embora encantando a multidão, que aplaude agradecida, mais um dia de verão.
    Apagando no horizonte, iluminando o firmamento, deixa tudo tão dourado, num fim de dia de dezembro.
    Chega à lua sorrateira, do lado da constelação, brilha mais que as companheiras, no manto da escuridão.
    Sigo encantado, com toda aquela movimentação, agradecendo o infinito, pela dádiva da visão.
    Após o retorno congestionado, desço da lotada condução, chego à casa delirante, impressionado com a translação.
    No bolso apertado, não acho a chave do portão, grito desesperado, o nome da minha paixão.
    Um beijo demorado, ali mesmo no portão, me lança no espaço, me tirando o pé do chão. Passo eu desnorteado pela lua, ao lado daquela constelação.
    Caio em terra em brasa viva, feito bucha de balão.
  • Rosas cor de sangue

    Eu acompanho o canal do Ferréz há algum tempo no YouTube. Eu gosto do trampo do mano, tem postura e manifesta opiniões bem coerentes. Me encantei ainda mais quando soube que ele é escritor, poeta, tem uma ONG chamada Interferência e sua própria grife de roupas. Como ele consegue dar conta disso tudo? Não sei, mas quando vi o seu álbum Os inimigos não mandam flores, eu logo comprei.
    Tava com muita curiosidade de ler a escrita marginal do Ferréz, que roteirizou o álbum. Autor de livros como Capão Pecado e Manual prático do ódio, é um cronista da favela, que vai tecendo a trama como quem picha um muro. A mente dele não processa, ejeta ideias que ganham corpo e falam o dialeto das ruas. É inevitável ler o álbum e não identificar — ou se identificar — com os dilemas dos personagens.
    O que dizer de um quadrinho sem falar dos traços? Esses ficam por conta Alexandre De Mayo, meio realismo, meio grafite.  A diagramação usa e abusa de páginas duplas e páginas inteiras, deixando tudo com cara de um panorama cotidiano. A colorização investe em tons terrosos e escuros, deixando tudo sufocante e acalorado, quase sombrio, mesmo que um sol mortiço brilhe no horizonte.
    A história do álbum é rápida como um tiro, mas densa e cheia de tensão, como uma espiral de dor, sem tempo pra catarses. Se dividindo em dois momentos — mas conectados —, a obra nos leva a dura realidade marginal brasileira, onde policiais mais torturam que interrogam os acusados, e a cooptação do tráfico não respeita nenhuma barreira social. Choca ao mesmo tempo em que nos transborda de consciência social.
    No início do quadrinho, o acusado Igordão está sendo sovado igual a bolo numa delegacia da Zona Sul de São Paulo. Estão tentando fazê-lo assinar uma confissão, mesmo que pela força, o que o acusado se recusa a ceder. O jogo só vai aumentando a pressão. Na segunda parte, um classe média desempregado tenta ganhar a vida no submundo do crime paulistano, e descobre da pior forma que os inimigos não mandam flores.
    O título conta com um prefácio do repórter e crítico Rodrigo Fonseca, e uma super entrevista com Ferréz e Alexandre De Mayo que nos ajuda a entender um pouco de nosso país nos anos 2000. O desenhista Alexandre foi editor das revistas Rap Brasil, RapNews e Grafitti, quando fizeram o álbum Os inimigos não mandam flores, contavam com certa inexperiência, mas que em nada prejudicou a condução dos trabalhos.
    O álbum foi publicado pela Pixel Media no longínquo ano de 2006, e continua atual como nunca. Em 2019 Ferréz fundou a editora Comix Zone em parceria com o apresentador Thiago Ferreira, investindo num catálogo diversificado, já contando com mais de trinta títulos. A editora conta com seu próprio canal no YouTube com mais de 50 mil inscritos.
    Ferréz ainda tem uma empresa de bonecos chamada Porcovelha, que já conta com dois personagens em sua linha: Diomedes e Chupetin, ambos personagens criados pelo quadrinista Lourenço Mutarelli. A sua empresa, a 1DASUL é uma marca que vende roupas e acessórios exclusivos, com temática de rua e favela. Por fim, é o coordenador da ONG Interferência, lá no Capão Redondo, ufa! Seus empreendimentos são empresariais e sociais também, retornando a sociedade o que conquistou coma a sua força e esperança.
    Para adquirir acesse:
    Link 1 - http://www.comix.com.br/os-inimigos-n-o-mandam-flores.html
    Link 2 - https://shopee.com.br/Os-inimigos-n%C3%A3o-mandam-flores--Uma-hist%C3%B3ria-da-Periferia-em-Quadrinhos-%28Usado%29-i.317248030.7570006218
    Link 3 - https://www.amazon.com.br/Os-Inimigos-N%C3%A3o-Mandam-Flores/dp/8573164867
    Link 4 - https://www.travessa.com.br/os-inimigos-nao-mandam-flores-uma-historia-da-periferia-em-quadrinhos-1-ed-2006/artigo/05cf8b36-435a-44a4-a7df-ddae94999996
    Outros links de interesse:
    ONG Interferência - https://pt-br.facebook.com/onginterferencia/
    Loja 1dasul - https://www.1dasul.com.br/
    Selo Povo - https://www.1dasul.com.br/departamento/159069/17/livros
    Porcovelha Toys - https://www.1dasul.com.br/departamento/159065/16/porcovelha
    Comix Zone - https://www.1dasul.com.br/departamento/79449/13/hqs-comix-zone-
    Canal do Ferréz – https://www.youtube.com/c/Loja1dasulBrsp
    Canal da Comix Zone - https://www.youtube.com/c/canalcomixzone
  • Salvação

    Não, não, aguantarei firme, não gritarei. Não, silêncio. Dois socos na costela e um tapa na cara. Meu corpo esvanece, eu estou roída, minha alma se desprendeu de mim e meu corpo é, somente, um involucro vazio. Dessa casca oca não sairá nenhum suspiro, não posso demonstrar uma gota de vida a esse homem.
    Nada mais me importa, se queres me morta, por que não me matas? Nós últimos anos a guerra tinha se tornado insuportável. O Estado aumentou drasticamente a repressão, foi, assim, que meu pai despareceu e seu corpo nunca foi encontrado. Eu tinha medo, hoje não temo mais, um gosto insuportável de sangue não sai de minha boca. Nasci no Rio de Janeiro, família pobre, nascida e criada no Candomblé, sou filha de Iansã, por muitos anos, em minha juventude, descia aquelas vielas estreitas, com uma enorme quantidade de pessoas nas portas de suas casas, e sentia o cheiro da favela entrar pelo meu nariz, percorrer todo meu sistema respiratório e morrer tranquilo em meus pulmões. Aquele cheiro era o sinal que eu estava viva, cheiro de merda misturada com o arroz e feijão que as donas de casas coziam em seus barracos.
    Minha cabeça esta confusa, ele de novo não, por favor, pare, não fale, não grite. Você tem que estar morta para ele. Choque de novo, ele me pega abre minhas pernas com uma violência descomunal e, com seus olhos azuis brilhando, introduz dois elétrodos em minha vagina, descarga, mais uma. Meu corpo inteiro estremece, aquela corrente flui em minha alma, a dor é terrível. Eu continuo em silêncio, não posso dar prazer a esse homem, ele quer que eu o aceite como meu salvador, Oxalá me proteja.
    A dois anos atrás esse homem me surpreendeu em uma emboscada, meu pai estava morto, mas eu continuei a lutar contra essa podridão que, ainda, infesta nosso país. Eu e mais 5 companheiros, armas em punhos, era matar ou morrer, mas nem matamos e eu pelo menos ainda não morri, aos outros sobraram choques, pancadas, estupros, chutes, socos assim como a mim, mas se estão mortos ou vivos, isso procuro bloquear de minha mente.
    Nós dentro de um fusca, de repente, cercados pelos cães do governo, raça podre. Não tínhamos para onde correr, aqueles comedores de carniça, nós cercaram e colocaram cada um de nós em carros diferentes. Imediatamente, arrancaram minha roupa e vendaram meus olhos. Somente os ouvidos trabalhavam naquele momento. Carro velho, amortecedor rangendo, cheiro de cigarro, fedo de perfume barato, carro passa em um buraco, prossegue, grunhidos dos porcos comemorando a nossa derrocada ação, ligam a sirene, a velocidade aumenta e eles gozam a minha desgraça.
      Eu ouvia, de suas bocas podres, que me consideravam o premio máximo, o capitão desejava me conhecer pessoalmente. Por que logo eu? Mulher, negra, pobre, macumbeira e comunista, qual desses adjetivos os deixavam mais furiosos, eu não sei, o que eu sabia é, irremediavelmente, encontraria o capitão.
    Meus ouvidos nada mais me informaram naquele trajeto, somente os uivos daqueles desgraçados vibrando com minha desventura.
    Ele está chegando de novo, a sala é escura, não posso vê-lo com toda lucidez. Homem alto, cabelos longos, barbas claras e olhos azuis, deve ser europeu. Sempre usando uma espécie de túnica que deixa aparecer apenas seu rosto e seu pênis. O falo é seu símbolo, ele esfrega em mim, quer que eu me curve ao seu poder, nunca. Eu estou o tempo todo amarrada nessa cadeira, me tira daqui e me coloca direto no pau de arara. Acaricia-me, diz que: ele é meu único salvador, o tenho que aceitar assim, só ele pode me salvar. Beije minha mão, aquela voz doce diz, e eu cuspo nela.
    Desde que cheguei aqui, a única coisa com que me alimentam é uma espécie de biscoito de farinha, uma circunferência sem gosto algum e que se adere ao céu da boca com enorme facilidade, para beber é sempre alguma bebida a base de uva, não sei se é vinho, o gosto de sangue e ferro em minha boca é constante.
    O capitão sobe na cadeira e começa a esfregar toda sua masculinidade contra minha face, gritando: - Aceita-me, aceita-me, eu sou o seu salvador. Nem pensar, esse homem podre, como ele pode me salvar se eu não procuro ser salva, salvar-me de que? De ser mulher, de ser negra, sou comuna e sou Iansã. Carrego comigo o pegado original bem no meio de minhas pernas, Helena de Troia, Hécuba, Olga, Rosa........
    Muita vezes, ele coloca sua mão gélida em minha vagina, e diz: - Essa chaga logo vai se fechar, operarei um milagre em vós. Chaga? Se, assim, for esse sofrimento é meu e dele me aproprio, ademais o gozo. Nada irá se fechar, o que posso fazer perante esse Homem?
    A minha salvação e não ter salvação, espero em silêncio meu fim, apanhei e continuo a apanhar constantemente, mas meu sangue me nutre. Eu estou inteira quebrada, nunca mais vi a rósea manhã se levantar ou a penetrante luz do sol do meio dia. Quero ser somente eu e mais nada, mulher e negra, sem medo, vai em frente. Morro na cruz de meu salvador
  • SASSÁ

    Alma tenra de casca dura
    Gentil com consanguíneos
    Estende aos irmãos da alma
    Cuidados, preces e carinho.

    Extrínseco de Virgulino
    Parentela no sobrenome carrega
    Intrínseca alma de menino
    Quem te mira nos olhos enxerga.

    Diante dos males que te atingem
    Sorri matreiro das provas
    Malogros e reveses não te afligem.

    Quem desiste sem lutar
    Não conhece a história
    Do meu grande amigo Sassá.
  • Ser louco para muitos e errado

    Ser louco para muitos e errado, para min e ser verdadeiro, e pensar de maneira diferente do que somos impostos a viver e pensar, por isso vivo minhas loucuras sem me importar com o que vão pensar
  • Simples assim

    Atenciosamente consciente, pleno de si no aqui e paciente consigo mesmo no agora, depois de abandonar a morada do automatismo dos falsos e inúmeros ‘eus’ do psicológico imposto em disfunções, que o prendia a má sorte, e toda a cadeia de desejos ilusórios que se arraigaram a sua persona frágil, dualística e fragmentada, involucrada nas camadas da má educação social em traumas, ignorâncias e tormentas de pressões socioeconômicas, e, cultura provinciana pós colonial escravagista afro-ameríndia urbana… resolveu viver a simplicidade de cada momento, se autodisciplinando na recordação do SAGRADO CRIATIVO em si mesmo. Voltando as práticas primordiais sacras da Gnóstica Mística Sabedoria, na consciência voluntária da harmonia com o Infinito ‘Multiversos’ Universal, em sincera atenção consciente, espontânea, natural e plena realização. Espiritualizando a tudo que seu espírito e corpo se aplicava.

    Essa morada do automatismo inconsciente em que nasceu, em que os diversos ‘eus’ autônomos de si fora criado com alusões em imagens e referências ilusórias do patriótico patriarcado cidadão comum, reagindo sem controle e se movendo mecanicamente com brutalidade, de maneira especial, nos hábitos e costumes ligados a falsa e excêntrica personalidade doentia… era a família… a comunidade… a civilização… o conflito. Era definitivamente o seu mundo, sempre e constantemente envolto as novas formas de opressão, ignorância e escravidão cultural, social e ambiental que impera na moderna e industrial, tecnológica e agora virtual sociedade global de personalidades físicas e personificações jurídicas capitalistas.

    Essa moderna morada arcaica filosofal da intelectualidade humana, com: sua fundação e pilar base colonial Renascentista; paredes erguidas com pesados tijolos e argamassa do escravagista Barroco; teto com lumes dourados do político ditador Iluminismo; piso de ladrilhos cerâmicos do clero ortodoxo Cartesiano; janelas e portas com brancos e alvos cortinados do industrial corporativo Epistemológico; varanda adornada com flores pretas e brancas do Dualismo mente-corpo… Fora a sua miserável habitação inconsciente de todos esses anos, em que os variados ‘eus’ do psicológico cresceram. Tornando no CENTRO MOTOR, o produto do meio.

    Entretanto, graças a um terrível e belo acidente, chamas pandêmicas ardentes e apelativas inflamaram o ambiente em que se encontrava a sua antiga morada, almejando incendiar a casa que às pressas fora abandonada pelo aglomerado de ‘eus’ do psicológico, para provocar o agora indigente CRIATIVO. O dualístico antigo morador, separado em si mesmo, sentiu que parte de si olhara para traz, porém, o pequeno e temeroso, agregados, ‘eu’ psicológico estava atrelado agora ao GRANDE EU SUPREMO, e subordinado à sua SANTA EDUCAÇÃO. Assim, o CRIATIVO trabalhava em si mesmo, como o Ancião e a Criança amargurada que abandonara a velha casa em perigo de chamas para viver sem lar, e assim, juntos em uma só trilha caminhar.

    Apesar de seus lados e extremos opostos na totalidade do seu DIVINO SER, pela subordinação do pequeno ao GRANDE, a harmonia imperava no CRIATIVO, pois ambos se tornavam funcionais e, por assim completo, movimentando o caminho circular perfeito da GRANDE ESPIRAL.

    Para o pequeno tudo era visto como GRANDE.

    Para o GRANDE tudo se tornou pequeno.

    Ao lado do Ancião a Criança em sua jornada se ponderava em sua fome e sede das coisas do viver.

    Ao lado da Criança o Ancião ia pela estrada encarando com alegria jovial os inúmeros desafios do trilhar.

    Dualístico em si mesmo, movimentado e espiralado, o SER CRIATIVO se criava.

    O mesmo cajado que sustentava no chão o Ancião, riscava a areia educando no chão a Criança.

    Sendo o chão que fazia da vara cajado.

    Sendo a vara que fazia do chão quadro.

    E ambos, todo conjunto, o pequeno e o GRANDE, o Ancião e a Criança na SANTA EDUCAÇÃO se sustentavam. E GRANDE e pequeno, Criança e Ancião não existiam mais… Tornou-se o movimento da GRANDE ESPIRAL.

    Não foi tarefa fácil querer se conhecer, pois viu o fraco de si… feio… esquisito… tenebroso… maldoso. Mesmo que não se manifestassem… eles estavam lá. Esperando o momento propício para se manifestarem e assumirem o controle do ‘eu’ psicológico… o pequeno fraco ‘eu’ (que na verdade era múltiplos)… a criança abandonada. Ao se ver no corredor interno da sua mente culturalizada em falsas e destrutivas manipulações da existência verdadeira, cercado de portas nos extremos opostos da realidade fantasiosa em alienada ilusão… teve medo! Mas, curioso queria saber realmente o que havia dentro de si. Porém, o ESPÍRITO o tomara. E compreendeu que sendo a síntese de toda existência como CRIATURA, o bem e o mal habitavam dentro de si… ora disputando… ora harmonizando… ora equilibrando… ora guerreando. Vendo o mundo dentro de si e o caos à sua volta, percebeu que a bagunça era maior do que imaginava, e que a vida real é ainda mais surpreendente do que qualquer novela, ficção, ou roteiro televisionado. Todavia, as forças obscuras que manipulam o invisível não queriam perder mais um gerador de deliciosos sentimentos e doces emoções… e resolveram acionar os agregados ‘eus’, meticulosamente implantados em sua psique neurobiologicamente cerebral orgânica. Vira e enfrentara, convivera e educara cada ‘eu’. E cada ‘eu’ acionado pelo obscuro viveu, sofreu, enfrentou, caiu, levantou e, se auto educou a educar cada ‘eu’. E cada ‘eu’ se tornou um escravo aplicativo de si mesmo, para executar uma determinada função de aprendizado, e ao final ser deletado.

    — Há de se perder toda e qualquer identificação, parentesco, amor e ódio com todos os acontecimentos ilusórios, traumáticos, pecaminosos, inferiores e tudo que for mentira, e toda negatividade decadente de nossas vidas. — gritou bem alto de sua janela.

    Seus ‘eus’ psicológicos eram heranças dessa vida e de outras vidas… vivenciando a educação ignorante no falar, pensar e agir… produto da aberrante arrogância do mal comportamento social e cultural enraizado no trauma familiar. Programado na tendência inconsciente de imitar automaticamente o orgânico animal intelectual bestializado a sua frente, em falsas manipulatórias impressões motoras e virtuais formadoras de ignorantes opiniões.

    Percebeu-se em um derrame de energia ao colocar sua valorosa FORÇA, — a atenção — , nos jogos, prazeres da carne e entretenimentos. Vampiros de energia vital… sugadores de existência… formadores de ignorantes… roedores de cérebros… hipnose do mal. E viu que tudo o que dava atenção, iluminava e manifestava vida. E, parou de jogar pérolas aos porcos… e de fazer com que o seu sal perdesse o sabor. Dedicou-se por inteiro a SANTA EDUCAÇÃO.

    Agora dominando todos os seus sentidos, não mais gerando alimentos sentimentais para seus ‘eus’ psicológicos, demônios aplicativos escravos de si mesmo. Fechando a torneira da tolice… da tagarelice… do gritar e da organicidade de todas as suas ações involuntárias. Amando a vida em todas as suas manifestações, e trabalhando para bem-comum de todas as criaturas orgânicas e inorgânicas da existência. Com toda dificuldade a ele apresentada, em sua carne e espírito, almejava alcançar o SAGRADO IMANIFESTO que a tudo manifestava.

    Com a plena atenção consciente, cheio de si e paciente, fixo completamente no SAGRADO SUPERIOR, servindo ao IMANIFESTO CRIATIVO, com amor e fé inquebrantável, espiritualizou-se!

    Assim, a SUBLIME VITÓRIA pela sua paciente perseverança no CRIATIVO originou das profundezas primordiais do seu verdadeiro SER. O CRIATIVO o remodelou de corpo e alma especificando a sua VERDADEIRA NATUREZA, em concordância perene com a GRANDE HARMONIA.

    E assim, disse não as consequências cármicas do seu nascimento. E sim! A sua conduta correta de pensar, falar e agir, atuar, interagir e existir. Domou-se pela verdade se afastando de tudo que era mentira. Guiou-se no amor se afastando da ira. E com toda sua consciência, em sua solidão visionaria, desconfiando dos espíritos enganosos deste mundo, ultrapassou os limites étnicos culturais, acadêmicos, socioeconômicos e classistas a ele imposto, nessa tela de valores virtuais, voltando-se para simples prática real do plantar e colher, amar, dançar, brincar, cantar, escrever e viver.
  • Sinopse do livro: Generalismo

    Generalismo
    a religião de um ateu
    O generalismo é um ponto de vista supersticioso sobre a vida e o universo(ambiente), assim como as religiões já existentes. Tal ponto de vista acredita, que nosso ambiente; ou universo, possa ser "artificial" e/ou interativo; baseado em algorítimos behavioristas de causa e efeito, capaz de manipular toda matéria, e todas as consciências contidas nele; as agrupando por nível\estágio de evolução a cada momento. Acredita que este universo, ou foi criado por uma civilização específica ou foi gerado gerado pela mesma; e é usado para: reabilitar consciências "reativas", que prejudiquem seu ambiente ou a população dele; produzir informação, que é semelhante a "minerar" bitcoin; fornecer experiencias de vida, e talvez algo a mais. E de haver uma distorção de tempo entre os 2 universos, que faria possível em curtos períodos de sono no universo original, se conseguir experiencias de vida de talvez até 200 anos.
    Segundo o generalismo, todas as consciências concebíveis nesse universo, podem ser originarias de um único universo. Este universo faria parte de um gênero, de ambientes, estáveis e talvez perpétuos;e seria ou artificial, ou a materialização de uma consciência. E cada consciência que manipule a vida com amor, ao final de sua jornada existencial se torna além de uma consciência,um universo.
    Para o generalismo, tudo e todos, estão conectados ao ambiente onde existem(e estão contidos) e as consciências existentes neles; porém a um nível natural(minimo necessário); a intensidade da conexão depende de fatores como intenção;caráter;similaridade... E toda informação; conscientizada ou "pensada" nesse universo, tem o objetivo de proporcionar uma nova chance de evolução, consciente, ou inconsciente, ao sujeito.
    O generalismo almeja; uma utopia, onde as nações estejam fundidas numa unica pátria, possivelmente interplanetária; capaz de habitar com extremo conforto, 1 ou mais planetas, até quando se precisar viver de outra estrela.
    No generalismo; visa-se analisar toda informação, classificando-a principalmente por gêneros, mas também por; circunstâncias; intensidade; intenção... Cada consciência, tem o seu próprio, ponto de vista; jeito de conscientizar e jeito de praticar; reflexões ou atos;. E imagina-se, a possibilidade; do livre arbítrio nesse universo, combinado com a vida em um "corpo"(que é literalmente maquina fisiológica); capaz de registrar infinitas informações, em 100% de suas células; são a unica forma, de se julgar formalmente, alguém no universo original. Possivelmente; somente analisando o dna pós morte, se consegue distinguir e analisar, caráter e linha de raciocínio reais; sem interferência de atuação, do sujeito em analise, ou envolvimento emocional, do avaliador.
    Nossos "problemas", ou desgostos; de doenças, a rotinas básicas de higiene; seriam parte da linguagem do universo, através deles e alguns outros fatores, o universo garante um padrão de pensamentos\opiniões; ou pontos de vista, este padrão garante uma similaridade mínima entre as consciências retidas nesse universo. Destas; muitas estão dormindo, por alguns minutos, em mais um treino de vida, acrescentando informações, atualmente; de até duzentos anos de vida, por sono. Muitas são consciências reativas, momentaneamente toxicas para seu universo; estão re-encarnando aqui até poderem re-encarnar em seu universo original. E talvez; algumas, estejam por opção.
  • Solitário Amor Lunar

    Querida Amada! Lua de mim encarnada!

    Por este breve-longo tempo em que de mim te ocultaste
    E encobriste de véu negro a tua bela face
    Estou agora radiosamente pleno
    Banhado em teu carinhoso sereno
    Contemplando o seu estado luminoso, que se faz de novo, em fino arco
    No que me condeno ser o seu solitário amado
    De ciclos em ciclos permanentes a te esperar

    Veja! Preparei para ti em um pedaço de tronco de Carvalho esse pequeno Sagrado Altar. Oculto no oco dessa frondosa Grande Árvore com seus grossos galhos ao céu se elevar

    Nele pus dois chifres que retirei de um crânio de cervos alados que desfaleceu, pelas caçadas de arco e flechas dos Minotauros nas florestas mágicas de Cale. Coloquei-os um ao lado do outro formando assim um círculo oval, representando a vida natural em seu eterno ciclo do morrer e viver

    Fui à beira do meu lago interno, e coletei uma porção de argila, confeccionando um pequeno recipiente de barro… e depois de pronto preenchi com as águas salgadas de Atlantes, e azeite das terras-península de Portus Cale… e sobre o azeite, produto das oliveiras, que emergiu se separando das águas, coloquei uma singela fina flor de calêndula africana, representando o fruto amoroso do teu feminino útero sagrado

    Com minhas mãos envolvendo a representação do teu Sagrado Útero, elevei-as acima de minha cabeça, estendendo-as, o mais longo que pude, ao mais Alto dos altos… e com o meu olhar voltado para imensidão de teus céus estrelados… dei graças a tua fertilidade receptora, e, calmamente, com todo carinho de meu apaixonado coração, pus teu recipiente no centro do círculo oval de chifres sobre o redondo pedaço de tronco de Carvalho, que fora, há tempos, cortado pelos poderosos machados dos gigantes ciclopes, para se aquecerem no rigoroso inverno dessas terras ibéricas, mas, que por algum propósito caiu ao ser transportado e, enrolando sobre os montes nas baixadas planícies se perdeu. Se achando agora aqui!

    Cantando teu amor em graça… passo a passo… com todo prazer e alegria pulsante do alto palpitar do meu apaixonado coração. Fui em pequenos e vagarosos passos na direção do meu encantado jardim, repleto de luzes dos pequenos vaga-lumes e coloridas lagartas luminescentes noturnas. Pedi licença aos pequenos duendes que fizera morada no grande arbusto do Alecrim, e retirei um verde e cheiroso galho em que confeccionei uma linda coroa. Fui a frondosa árvore de Amêndoa, e em reverência sagrada pedi licença, também, as luminosas fadas noturnas, retirando um galho repleto de pequenas flores rosas, aplicando-o, também, a confecção da pequena aureola junto a perfumados e aromatizantes galhos de Sálvia, Hortelã, Arruda e Melissa

    Repleto de amor… puro e majestoso… retornei ao teu altar. Cobri tua coroa de carinhosos beijos em que pronunciava encantadas palavras de preces e conjuramentos, e deitei a natural aureola sobre o Carvalho, envolvendo o recipiente por entre os milenares chifres dos sacrificados cervos alados

    Ao ver tanto amor envolvido a esse ritual… Os anões emergiram dos seus mundos subterrâneos, trazendo consigo os muitos cristais de Quartzo Rosa e Ametista, onde desenhei uma mandala em formato estrelar de pontas a envolver o óvulo de chifres, como um aglomerado de sêmen circundando freneticamente em energias vibratórias, a querer teu óvulo penetrar e teu útero germinar

    Os meus queridos amiguinhos… os gnomos do jardim… carinhosamente ofertaram uma cesta de pétalas sagradas de rosas banhadas em leite de cabras, e folhas de oliveiras banhadas em vinhos de uvas… e fiz uma chuva sagrada de pétalas e folhas a cair sobre todo o altar, ao som dos cânticos mágicos de minha boca a entonar, representando as águas celestes que banha os encantados altos ciprestes… fertilizando-a de Amor… onde se ouviu o uivo do gozo do lobo e o grito de orgasmo da coruja, em gemidos noturnos neste místico ritual da Lua Nova a ecoar

    Ó! Meu Amor… Querida Minha… Minha Querida!
    Receba essa oferta de luzes a pousar sobre o azeite, nesse candelabro de folhas feitas das sagradas parreiras dos altos montes lusitanos, em que dormem nos túmulos montanhosos os gigantes ciclopes, que por tempos de outrora caminhavam por estes solos, e com seu único olho a olhar… a deslumbrava… redondamente, em toda sua imensidão lunar

    Ó! Amada Minha… Meu Amor!
    Encabeçando o seu Sagrado Altar ofereço o meu Talismã Mágico, que nada mais é do que meu coração, em que agora em sangria descubro desse pano de barro enegrecido… nele visualizei os sagrados símbolos e entoei mantras e runas, e numa infusão de Ervas Sagradas dos Encantados Jardins de Avalon, durante nove noites de Lua Nova em que tua face foi oculta de mim, imantei-os com óleos de Linhaça e Bétula, além de unguentos aromáticos de Lavanda e Tea Tree. Este Talismã Mágico, Meu Amor, é o meu singelo coração em sacrifício a ti… toma-o! E guarde-o bem!

    Fecho meus olhos… levo minhas abertas mãos ao peito sangrado do meu coração retirado… e no silêncio visionário do meu ser… seres encantados se aproximam ao me retirar em passos para trás, do oco da Grande Árvore em que pus o teu Sagrado Altar

    Ao me retirar em retrógrados passos mortos… lentamente uma cortina de nuvens a Grande Árvore em espiral veio circundar
    Neblinas e brumas ao redor vieram nela bailar
    E dos mundanos olhos alheios o seu Sagrado Altar foi oculto
    Porque ninguém é capas de desvendar os mistérios e segredos desse culto
    Que a ti… me fiz o coração sacrificar
    Que a ti… o dediquei em rito benefício no Sagrado Altar
    Acabando de vez com os ciclos de bens e males do meu Solitário Amor Lunar

  • Stairway to heaven [conto]

    Vou para Nova York. É lá que os artistas vivem e o dinheiro jorra das gravadoras. Todos os grandes estão em Nova York. Yoko Ono, Jay Z, Alicia Keys. Quem canta em português e toca cavaquinho nunca vai conseguir ir para Nova York. Mas eu canto em inglês, toco violão e gaita como o Bob Dylan. Vão querer saber da história da minha vida e se comover com meu esforço. Eles vão querer me ajudar, fazer tudo que puderem por mim. Vão me ouvir e ficarão surpresos com o timbre da minha voz e a minha batida no violão. Eles vão vibrar com a minha música e querer fazer musicais na Broadway comigo. Meu nome vai estar em neon no letreiro do Madison Square Garden. Minha foto vai sair nos jornais. Minhas músicas não vão parar de tocar nas rádios. Vou ser entrevistado pela Oprah e dormir na suíte presidencial do Plaza. “I want to wake up in that city that never sleeps……….and find I'm a number one…...top of the list……..king of the hill…...a number one…..” Preciso estar no lugar certo, tocando para as pessoas certas. E este lugar é Nova York. Onde o tempo é sempre bom e as luzes fazem você se inspirar e ser feliz. Junto com as melhores pessoas do mundo, que estão em Nova York porque são como eu: talentosas. Só os talentosos vão para Nova York, e eu sou muito talentoso. Todo mundo vai me receber como um rei. Eu mereço comer nos restaurantes mais caros, mereço o glamour, mereço o dinheiro. Não sou qualquer um. Sou educado, inteligente e bonito como as pessoas que moram em Nova York. Não cuspo no chão nem jogo papel na rua como as pessoas por aqui. Uso roupas limpas e passadas. Estou sempre cheiroso. Não vou ficar protestando contra tudo ou reclamando das injustiças feitas com os outros. Estou pronto para sucesso. Por isso eu vou para Nova York, onde tudo acontece. Onde estão os escolhidos. E eu sou um escolhido. Vou andar de limousine tomando champagne cercado de mulheres e fotógrafos. Gisele Bundchen, Caroline Trentini, Raquel Zimmermann. Todas. As pessoas vão querer meu autógrafo e fazer selfie comigo. Ninguém nunca mais vai rir de mim. Todos vão querer estar do meu lado. E eu vou estar sempre sorrindo. Porque em Nova York todo mundo está sempre sorrindo. Lá as leis são cumpridas e não existe corrupção. Não tem gente que fica reclamando e não faz nada. Que só critica. Eles respeitam os artistas e pagam bem eles. Quando estiver em Nova York vou passear no Central Park com meu cachorro, usando cachecol e aquecedor de ouvido por cima da toca. Vou para Nova York de avião, com passagem só de ida. Não quero me despedir de ninguém. Não vou levar nem malas. Nunca vou sentir falta daqui. Lá eu vou ter muitos amigos. Nós vamos andar de táxi amarelo na quinta avenida e comprar na Louis Vuitton. Não existem problemas em Nova York, só soluções. O nome das ruas são números e os semáforos ficam pendurados em fios. Tudo em Nova York é bem pensado. Nada é feito de qualquer jeito. Tudo é diferente. Em Nova York eu vou ser alguém.
  • Sue e Sid-OZ

    Sue é um rasgo de unha
    e risada nas costas
    e Sid-OZ, um bebum 
    em neurose

    Sue supõe que Cid-OZ
    é um aroma de bosta
    Um louco fedido
    de doses

    Sid-OZ imagina que Sue
    o ama. Só com ele ela bebe
    e ouve Ozzy.

    A noite dos dois não acaba
    antes que um faça com que
    o outro goze.

    Sue e Sid-OZ são loucos.
    São seus próprios algozes.

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