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literatura marginal

  • O gordo contra o mundo

    - O Senhor está bem?
    - Sim, e o Senhor?
    - Também. Pensou em uma resposta para minha pergunta? No porque nós dois estamos aqui?
    - Pensei, mas não sei direito por onde começo.
    - Pode ser da onde você quiser.
    - Pode ser de quando eu queria fazer alguma coisa?
    - Que coisa?
    - Eu ainda não sabia o que era, mas eu queria fazer alguma coisa que mudasse tudo.
    - Como assim mudasse tudo?
    - Que as coisas fossem melhor, sabe?
    - Queria que você falasse mais dessas coisas.
    - Então, eu queria mudar elas, e ia começar pelo preconceito contra os gordos. Você sabia que eles são a maioria da população do Brasil e representam quase um terço da população mundial?
    - Sabia, mas porque você pensou nos gordos e não nos negros, por exemplo. O racismo não te incomoda?
    - Claro, claro que o racismo me incomoda. Eu pensei sobre isso, em começar a mudar as coisas por aí, mas eu não poderia virar negro depois que eu nasci branco. Enfim, este é um grande problema, mas eu estaria preso a certas limitações. O gordo também tem uma coisa de diferente, eu pensei. Tem gordos de todos os tipo, ricos e pobres, brancos e negros, católicos e ateus, e todos eles sofrem com o mesmo preconceito, ser gordo.
    - Sim, entendo, e você sofria esse preconceito?
    - Não, eu só escutava falar, lia notícia. Mas era porque eu era magro, e eu precisava ser gordo para saber o que era isso. Por isso comecei a comer tudo que eu podia até ficar assim, gordo.
    - Então o Senhor ficou gordo para poder sofrer preconceito?
    - Isso. Me sentia muito mais livre para falar sobre todas as injustiças e julgamentos que os gordos sofrem. Os olhares nos ônibus, a discriminação na hora de conseguir um emprego, o bullyng. Para protestar mandei fazer uma camiseta escrito bem grande: “Sou gordo porque eu quero e posso.” Olha o meu tamanho, e olha que eu era maior, era um outdoor ambulante.
    - E o que aconteceu?
    - O que acontece com todo gordo. As pessoas se afastam, eu virei motivo de piada. Então eu fui procurar apoio naqueles grupos onde os gordos vão para tentar emagrecer.
    - Você queria emagrecer?
    - Não. Todo o preconceito começa com essas pessoas. Essa conversa de que o gordo é bonito por dentro, que ser gordo é uma doença, que gordo é preguiçoso, eu descobri que tudo isso é a raiz do problema. A cultura, a velha e culpada cultura. Mas voltando. Esses programas nunca funcionam, só servem para as pessoas ficarem deprimidas, se isolarem. Então eu comecei a falar com essas pessoas. Explicar que ser gordo não é feio, nem crime, nem doença, não significa nada.
    - E assim você ia mudar as coisas?
    - Isso.
    - E as coisas mudaram?
    - Não muito, mas cheguei a algumas conclusões.
    - Porque você acha isso?
    - As pessoas me olhavam com cada vez mais desprezo. Mas eu percebi que as pessoas que me olhavam assim eram as magras. Quanto mais eu engordava menos atenção me davam. Preferiam ir de pé no ônibus do que ir sentada do meu lado. Não era assim que eu ia mudar as coisas. As pessoas gordas se aproximavam, vinha conversar, conseguiam enxergar as coisas diferentes. A ideia é que as pessoas sejam iguais, mesmo se parecem diferentes.
    - E como você se sentia?
    - Eu me sentia bem em ser gordo e poder falar sobre tudo isso. O que eu sentia na pele era o preconceito dos magros. Cheguei até a ser entrevistado por uns jornais. Tenho tudo guardado. Mas aquele sentimento de mudar as coisas continuava martelando a minha cabeça. Sabe, eu nasci para mudar as coisas. Acho que sou meio que predestinado.
    - Como assim?
    - Por exemplo, a família do meu pai e da minha mãe se odiavam. O meu avô, por parte de pai, era prefeito, e meu avô, por parte de mãe, presidente da câmara de vereadores. Eles viviam brigando. Mas aí eu nasci e mudei as coisas, porque as duas famílias ficaram amigas e a câmara dos vereadores e a prefeitura começaram a trabalhar juntos e tudo melhorou na cidade.
    - E o Senhor acha que foi o Senhor o responsável por essa mudança?
    - E não?! As famílias se odiavam mesmo. Tem até história de morte. O Senhor pode ter certeza que não estou aqui por acaso. Estou aqui para mudar as coisas. Só contei essa história para o Senhor entender que sempre foi assim, de mudar as coisas.
    - Mas o Senhor estava dizendo que não ia muito bem com relação ao preconceito dos gordos, a relação com os magros era difícil.
    - Isso, mas era difícil por causa deles. Com o tempo fui percebendo que as pessoas estavam hipnotizadas pelas ideias dos magros, e foi quando desenvolvi minha teoria de que se todos fossem gordos não haveria preconceito. E, convenhamos, é bem mais fácil, e legal, os magros virarem gordos que os gordos virarem magros.
    - Mas o Senhor não acha que querer que todos os magros virem gordos é igual querer que todos os gordos virem magros?
    - Sim, mas é diferente, porque os gordos não tem preconceito contra os magros, mas os magros tem preconceito contra os gordos. Mas eu entendo as reclamações de que minha teoria foi bastante radical. Eu também entendo que mudar as coisas é difícil, leva tempo, só de estarmos falando sobre isso já foi uma pequena vitória. Falar do preconceito contra os gordos já é um começo. Já dei o primeiro passo. Mas eu nasci para fazer coisas maiores, mudar tudo.
    - Como assim?
    - Percebi que para mudar as coisas, e muitas coisas tem que ser mudadas, então tenho que dar vários primeiros passos, entende?
    - O Senhor quer dizer um passo de cada vez?
    - Não, quer dizer que eu tenho que ser tudo que gera algum tipo de preconceito. Assim eu vou poder sentir tudo, e falar sobre tudo, e mudar todas as coisas. Agora eu vou ser pobre.
    - Entendo. Falaremos sobre isso na próxima sessão, os enfermeiros irão acompanhar o Senhor até seus aposentos.
  • O homem, a mulher e Matheus [conto]

    [00:30]
    Matheus está na base da escadaria que corta o quarteirão e liga a rua de cima a rua de baixo.
    Uma mulher começa a descer a escada.
    Matheus surge no meio do caminho tentando assaltá-la a ameaçando com uma arma.
    Ele é surpreendido por um golpe pelas costas e cai desacordado.
    A mulher e um homem arrastam Matheus até o porta-malas de um carro estacionado na rua e saem dali.
    [01:00]
    Matheus acorda deitado e amarrado numa mesa como se estivesse pronto para um desmembramento.
    Uma mulher, com o nariz vermelho e o olho inchado, o encara.
    “Você matou meu filho.”
    “Não sei do que você está falando.”
    “Seu assassino…...você matou meu filho.”
    “Do que você está falando?”
    “Você não se lembra de ter atirado no meu filho ou não sabe quem era o meu filhos dentre os que você matou?”
    “Nunca matei ninguém……..quem são vocês?.........o que tá acontecendo?”
    [01:15]
    Uma toalha cobre o rosto de Matheus enquanto a mulher vira uma jarra da água, como quem enche um copo, entre seu nariz e sua boca.
    “Confessa que você matou meu filho.”
    “Eu nunca matei ninguém.”
    “Claro que sim. Você era só um vigilante garantindo a paz no escadão.”
    “O que você faz com uma arma?”
    “É de chumbinho……..nem está carregada……...é só para assustar.”
    “Assustar?...........como?............assim?”
    O homem acerta Matheus repetidamente com a coronha da arma, até que ele desmaia.
    [01:30]
    Ele acorda com o homem passando amônia no seu nariz.
    “Você matou meu filho por causa de um celular?”
    “Nunca matei ninguém…...nem sei quem é seu filho.”
    “Ele era o jovem que estava descendo a escada depois de sair do metrô e você atirou nele por causa de um celular.”
    “Porque você não pode ter um celular ninguém pode ter………..é isso?”
    “Não…..eu nunca matei ninguém.”
    “Matou sim.”
    “Você sabe o que os árabes fazem com quem é pego roubando?”
    “Por favor…..não…..”
    Empunhando um machado o homem decepou quatro dedos e quase metade do dedão de Matheus, que mais uma vez apagou.
    [01:45]
    Homem e mulher cuidam do ferimento na mão.
    “Calma, ele vai confessar.”
    “Já tem sangue para todo lado, você sabe o trabalho que vai dar para limpar isso depois?”
    “Eu limpo com removedor depois.”
    “Vamos ser mais limpos, liga o choque no saco dele.”
    “Aí você vai limpar o chão todo cagado e mijado depois?”
    “É melhor do que sangue.”
    “Precisa de uma extensão maior que essa pro cabo chegar até a mesa.”
    “Tudo bem, vou pegar uma maior lá em cima.”
    [02:00]
    Matheus acorda, assustado, com a amônia no seu nariz.
    Ele sente o curativo na sua mão esquerda e os cabos grudados no seu saco.
    “O que vocês estão fazendo?”
    “Ajudando você a falar a verdade.”
    “Quantas pessoas você já matou?”
    “Nunca matei ninguém.”
    Choque.
    “Mentira. Você matou meu filho e quantos mais por causa de um celular?”
    “Eu não sei quem era o seu filho.”
    “O que você matou com um tiro na barriga, abatido como um animal.”
    Choque.
    Choque.
    Choque.
    “Porque você matou meu filho?”
    Choque.
    Choque.
    Choque.
    “Não fui eu.”
    Choque.
    [02:15]
    A mulher pega uma tábua de madeira e começa a bater na cara e no corpo de Matheus.
    “Confessa……..você matou meu filho……..a sangue frio……”
    “Não……..nã……..não……”
    “Matou sim seu desgraçado……...ele estava vindo para casa……….ele ia para faculdade……..estava tudo bem……….e você matou ele porque ele não quis te dar o celular………”
    “Não……..nunca matei…….”
    “Covarde……..você matou meu filho……….”
    [02:30]
    Com um potinho de amônia perto do nariz o homem acorda Matheus, que abre o olho com a expressão de quem está prestes a desmaiar.
    A mulher joga um balde de água na sua cara, ele engasga e vomita sangue.
    O homem levanta a tampa da mesa em 90°.
    Matheus consegue ver duas prateleiras lotadas com potes de palmito gigantes com cabeças e um líquido amarelado dentro.
    “Por favor……..me deixem ir………..eu tenho família…….”
    “Olha só…….agora ele tem família……..é quase uma pessoa de bem…….”
    “Rouba porque não tem trabalho, né?”
    “Porque você não pensou nisso quando matou meu filho?”
    “Eu não matei seu filho……...foi ele…..”
    “Agora você lembra do meu filho……o valentão resolveu abrir o bico…..….sabe até quem matou ele……..”
    “Foi você sim…….matou, matou sim…….você matou ele de todas as formas que você poderia matar…..”
    [02:45]
    Com três machadadas o homem arrancou a cabeça de Matheus do corpo, pegou ela pelos cabelos e colocou dentro do pote.
    A mulher encheu o pote com clorofórmio e colocou na estante junto com as outras cabeças.
    O homem desprendeu o resto do corpo da mesa, enrolou numa lona, e depois usou três cordas para amarrar tudo.
    “Vou me livrar do resto deste traste enquanto você vai limpando as coisas por aqui.”
    “Você disse que ia ajudar com o sangue.”
    “Quando eu voltar eu ajudo, agora tenho que cuidar disso.”
    “Já vi esse filme, você vai parar no bar e voltar já com o dia amanhecendo.”
    “E quando eu voltar eu limpo o sangue, mas a bosta e o mijo são seus……...eu avisei do choque.”
    “E eu já disse que a gente tem que ser mais limpos……….vamos usar armas……….a gente já tem um monte.”
    “Não………..quem usa arma são estes animais.”
  • O Klan-Destino

    o klan destino

    A Tua Vida É Um Presente De Deus, A Maneira De Como Escolhes Viver É Um Presente Para Deus.
    Sem Persistência Estes Sonhos Não Passam De Uma Ilusão, Sem Assistência Esses Olhos Jamais Enxergarão A Flor Que Brilha Sobre O Sol Padrão, A Fantasia Tem Os Seus Direitos Mas Nem Todos Seguimos Os Seus Deveres, A Realidade Baseia-se Entra As Palavras Que Mancham Os Prazeres Dos Nossos Numéricos Poderes, O Limiar Invisível Das Comédias Alegres Largamente Indecentes, Agem Como Se Essa Vida Fosse Um Entrevista Para A Próxima, É Como Se Morte E As Suas Vertentes Não Passassem De Mais Uma Forma De Renascimento Em Reverso, Que Caminha Pelo Pacífico Clima De Hiroshima, Identificando As Silenciosas Fontes De Propósitos Adormecidas Nas Costas Do Universo, É Como Se O Passado Estivesse A Ser Teatrado Pelo Tempo A Espera De Ser Assistido, Recolhendo As Humanas Sensações E Depositando-as Na Fonte Onde O Abatido Coração E Mantido, De Forma A Confrontar As Nossas Próprias Frustrações, Eu Sou Um Agente Livre Que Usa A Sabedoria Para Valorizar As Destruídas Fundações, Porque Nós… Somos O Fidelíssimo Retrato Dos Privados Atos Friccionados Em Átomos Que Constituem Os Fatores De Debate Que Hoje São Vistos Como Rumores, Interliguei-me A Ligação Do Criador Manipulando-me Da Evolução Que Faz Procedência Ao Macaco, Eu… Não Sou Um Macaco, Eu.. Sou A Palnitude Das Energias Espirituais Elucidadas Pelas Estrelas Do Zodíaco, Que Rutilam A Nossa Esperança A Partir Do Paradisíaco. 

    Não Duvides Das Possibilidades Porque O Stresse Não Se Classifica Com O Limite, O Coração Esta Destinado Em Impulsionar O Essencial E Procurar Sempre Pelas Verdades Que O Sangue Transmite, Se A Arte Representa A Paixão Da Alma Eu, Sou Uma Desintegração Atómica Que Universalmente Nunca Englobará O Teu Click, Tenho A Esperança Transformada Em Desespero Devido A Traição De Quem Mentio Magoou E Largou A Minha Mão, É Perigoso Desistir Demasiado Cedo, Uma Nova Publicação Que Vem Comprovar A Ausência De Medo, Tu Não Estás Na Minha Lista De Salvação, A Tua Inteligência Só E Ativada Perante A Avaliação Dos Meus Dilemas, Fugir Do Que És, É Como Sentenciar Uma Outra Pessoa Com As Normas Dos Teus Sintomas, Mas Quando Te Encontras No Lugar Da Vitima A Boca Materializa-se Num Instrumento Para Distribuir Desculpas, Prevejo O Ressurgimento Do Drama Entre As Etapas, Das Causas Que Te Impossibilitam De Sacrificar O Êxito Imediato, Mas Atenção! O Klan É O Mundo Que Separa A Tua Vida Do Próximo Corpo Candidato, As Expectativas São Evidenciadas Através Dos Comportamentos Da Janela Do Tempo, A Depressão E A Atitude Não Andam Juntas São Como Os Momentos Microscópios Que Procurar Acertar As Suas Contas Conjuntas, Enquanto As Tradições Comuns Condenam Antes De Tentar, Continuaremos Escravizados Pelas Provocações Da Ignorância E Da Sua Saúde Suplementar, A Tamortugia Das Informações Alternativas Sobre A Criação, Não Têm Registo Na Mente De Quem Escolhe Sabotar O Sucesso Klan-Destino Afiliado A Retaliação. 
    Deus Criou-nos Para Ver Como Ele Era.

    Procuro Entre As Colecções De Experiências Desencadear-me Do Restritivo Quotidiano Que Lota A Mente Impedindo-me De Expandir O Crescimento, A Fama É Um Mundo Onde Facilmente Tornas-te Presa Dos Horrores Que Arquivam O Aumento Do Monitoramento, A Constante Atualização Das Condições Materiais De Observação Levam-te A Procurar Pelos Mais Superficiais Métodos Que Expliquem A Minha Loucura, É Como Se Eu Andasse A Resolver Os Teus Problemas Com o Silêncio Que Se Encontra Fora Do Universo, Disperso Os Gritos Desta Amargura Que Pouco A Pouco Vão Atingindo Um Inflamável Estado De Rutura, Depois Disso, Não Esperes Que Eu Vá Pintar A Minha Arte Nas Tuas Paredes Vaginas, A Sequência Dos Acontecimentos Disse-me Que Tu Mereces Ser Amada, Mas Não Por Mim… Tenta Os Pescadores Profissionais, O Segundo Degrau Apenas Será Restrito Para Os Que Se Relacionaram Com A Vingança, 1 Pessoa 2 Sentidos Separados Pela Tempestade Mas Apenas Um Caminho Te Encaminhará De Volta A Segurança. 

    É Normal Ter Medos Das Respostas… Mas Tu Não As Podes Evitar, Uma Nova Ideia É Como Um Outro Sedativo Para Os Nervos Que Leva O Inteletual A Contemplar, As Mais Vastas Leis Do Movimento Que Barram A Minha Compaixão, Sem Génio Mas As Admiráveis Qualidades Removeram As Misérias E Deram Sentido A Paixão Que Conecta-se Com O Ser Esquecido No Mundo Virtual, As Estratégias Reprodutivas Criaram Um Terreno De Debate Onde Todo Artigo Publicado É Como Uma Inseminação Artificial, É Como Se Eu Futuramente Já Tivesse Procriado A Próxima Geração, Hoje Estou De Volta Ao Passado Para Restaurar A Mente De Todo O Agente Adormecido Relembrando-te Que O Matrix Causou A Nossa Destruição, Parece Que Os Sonhos Onde Estamos A Morrer São Onde Mais Gostamos De Viver, Eu Quero Uma Vida Inteira Não Apenas Um Infinito Dia De Férias, Eu… Quero A Liberdade De Poder Cometer Os Meus Próprios Erros E Despedir Das Minhas Artérias Todas Essas Bactérias Difamatórias. 
    Olha Para O Teu Próprio Barco.

    Fui Enviado Da Eternidade De Volta A Nova Temporada, A Missão É Relembrar Que As Mulheres Formam Criadas Para Serem Honradas E Respeitadas, Não Para Serem Tituladas Como Simples Namoradas, As Pessoas Só Não Te Valorizam Porque Não Compreendem O Que Possuem, Não Transformes Os Teus Sentimentos Em Lágrimas Porque Não São Apenas Palavras Que Te Constituem, Mesmo Quanto Te Sentires Definida Pela Social Visão Reivindicalista Que Oprime O Teu Grande Potencial, Lembra-te De Que Somos Capazes De Tudo… Menos De Falhar, A Informação Genética É Uma Essencial Unidade Individualista Que Fez Da Nossa Alma Uma Ferramenta Para Amar, Primeiro Somos Fatigados Pela Injustiça E Só Depois E Que Questionamos A Lógica, Da Doença Lúcida Que Deu Nascimento Aos Acontecimentos De Toda A Decisão Trágica, Eu Sei Que A Privacidade Leva-me Ao Conhecimento Pessoal, Ainda Assim Permito-me Viver Na Prisão Produzida Pela Talento Da Minha Projeção Pessoal, Reforço O Interesse Evitando Situações E Conversas Incapazes De Alcançar A Estimulação Mental, É Como Competir Com Alguém Que Te Deveria Complementar, Sinto O Cheiro Da Esperança Mas Vejo Ela Fugir Assim Que Chega O Primeiro Bloqueio Orçamental, Acabei Por Me Tornar Naquilo Que Falo, Eu Não Te Deixo Falar Porque É Apenas Com O Klan-Destino Que Eu Falo.  

    As Evoluções Paralelas Das Consagradas Chamas Gêmias Só Têm 2 Identidades, Até Os Animais Sabem Diferenciar As Atividades Demónicas Das Sementes Da Liberdade, Somos Todos Livres Em Fazer O Que Bem Entendemos, Somos Todos Livres Ao Ponto De Escolhermos Como Havemos De Perder A Nossa Divindade, Mas... Eu Escolho Em Viver A Minha Vida Nunca Lamentado Por Quem Teve A Sua Perdida, Escolho Em Aceitar O Anjo Que Sou E Nunca Envergonhar A Dádiva Que Me Foi Concedida, A Inspiração É Espiritual A Informação É Tecnológica, A Auto-avaliação Das Nossas Ações E Obras São Examinadas Pelas Ferramentas Ecológicas, Não Pelas Receitas Ateu Que Se Seguem Por Uma Refeição Agnóstica, E Se O Céu For Apenas Mais Uma Estrada, Eu Estou Pronto Para Caminhar Até Ao Final Desta Piada Sarcástica, Atravessarei Todas As Fronteiras Até Alcançar O Plano De Existência, Sempre Acreditando Que O GPS Das Minhas Decisões E Escolhas Encaminharão A Essência, Pelas Montanhas De Impossibilidades Localizadas No Hemisfério Direito, Sentado Com Dignidade Na Encruzilhada Que Destabiliza O Ser Da Virtualidade Do Preconceito, Avistarei A Escada Dourada Que Liga O Paraíso A Glória, Porque A Morte Não Representara O Final Da Nossa Jornada, Mas Sim A Entrada Para A História Da Sabedoria. 
    Compreender O Sentido Da Nossa Função Histórica. 

    Kudza Klan 
  • O matadouro [conto]

    Minha perna estava quebrada. Tinha certeza que estava quebrada. Doía desgraçadamente como dói uma perna quebrada. Mas não arredei o pé. Dei dois tiros, tomei um comprimido de anfetamina com vodka e voltei pronto para continuar até o fim. Faltavam quatro. O filho da puta soltou a carcaça lá de cima do túnel, e a força do peso morto preso no gancho como um rolamento num cabo de aço tosco veio descendo, embalado pela gravidade, na minha direção com a mesma potência de um ônibus voando direto para a mão do recebedor num jogo de baseball. Abri o peito e pow! aquela merda explodiu entre a minha barriga e meu pescoço como um gancho de esquerda do Ali com uma joelhada do Dhalsim, me jogando para trás abraçado com aquela bolsa de carne e sangue sem vida. Respirei fundo e inclinei o peso para frente. Fui me arrastando até o caminhão e soltei toda aquela merda lá dentro. “Já são sete, velho. Mais um e perco a aposta no paralelo.” Aquele corno filho de uma puta tinha algum tipo de prazer asqueroso em ver eu me fudendo. Não era nem de longe maior que o meu de fazer aquele bastardo olhar para o lado com medo quando cruzar comigo na rua. Ter a sensação de que ele se arrepende amargamente de ter me dito qualquer coisa que não tenha sido “obrigado por não me mandar para o inferno, Senhor.”
    Minha perna estava quebrada. Tinha certeza que estava quebrada. Doía desgraçadamente como dói uma perna quebrada. Mas não arredei o pé. Dei dois tiros, tomei um comprimido de anfetamina com vodka e voltei pronto para continuar até o fim. Faltavam três. “É sério mesmo?” O cretino de cima do túnel ria, o imbecil do caminhão ria, os retardados que tinham apostado quando eu ia cair riam, só eu não ria. “Vai logo com essa merda, porra.” O gancho veio zunindo pelo cabo e conforme o som aumentava sentia como se um muro tivesse vindo violentamente na minha direção e eu não ia conseguir desviar. De repente ele me atinge no peito violentamente na forma de uma carcaça morta e sem vida. Abracei ela e bambiei para cá, depois para lá. Talvez eu tenha algo quebrado além da perna, ou já tenha cheirado cocaína e tomado anfetamina o suficiente para não sentir mais dor, mas parece meu braço virou ao contrário para segurar o monte de carne. Me curvei um pouco para trás para contrabalancear o peso e depois me lancei para frente. Embalei nas forças de Newton e consegui largar a peça no caminhão.
    Minha perna estava quebrada. Tinha certeza que estava quebrada. Doía desgraçadamente como dói uma perna quebrada. Mas não arredei o pé. Dei dois tiros, tomei um comprimido de anfetamina com vodka e voltei pronto para continuar até o fim. Faltavam dois. “Para com isso. Se você morrer vai dar o maior problema.” Minha respiração não estava controlada o suficiente para responder qualquer coisa. Minhas narinas se abriam quando eu respirava como o touro que quer matar o Pica Pau no desenho que passava de manhã na televisão. Com a cara travada e olhar vidrado fiz um sinal com a mão para o estúpido lá de cima lançar o próximo míssil. Ele veio voando pelo túnel numa rota descendente reta e seca até estourar em cima de mim. Dei uns dois passos para trás e senti algumas mãos me segurando. Minhas costas já estavam sensíveis. “Não toca em mim, droga.” Fiz um malabarismo do capeta para conseguir me manter minimamente ereto e com a carcaça sob controle. Colocando todas as minhas fichas no meu senso de direção me joguei para o lado direito e trombei com o caminhão. Me virei já botando toda massa de carne para dentro num movimento só. “Seu velho dos infernos.” “Vai se fuder.”
    Minha perna estava quebrada. Tinha certeza que estava quebrada. Doía desgraçadamente como dói uma perna quebrada. Mas não arredei o pé. Dei dois tiros, tomei um comprimido de anfetamina com vodka e voltei pronto para continuar até o fim. Faltava um. “Cala a porra dessa boca e solta isso logo seu desgraçado.” Como se fosse a própria vingança de Edmond Dante aquele trambolho morto e sem vida bateu em mim para matar. Tudo girava como um globo da morte. Meu peito não se enchia mais de ar e respirar era como buscar força num motor 1.0. Não tinha torcida, nem palmas, nem silêncio. Eram risadas. Eu queria morrer. Ali. Na frente daquele bando de estrume. Carregando aquelas carcaças podres para dentro de um caminhão refrigerado desligado. Cair, estrebuchar um vai tomar no cu e adentrar o infinito sono profundo dos justos no céu dos judeus. Estava tudo ficando embaçado e escorregadio. Não foi sangue, suor e lágrimas. Foi a cocaína que equilibrou aquele monstro de carne com o joelho e a vodka com anfetamina giraram a minha cintura e lançaram o pacote para dentro do caminhão como se fosse o Jordan arremessando um lance livre. Cesta. De chua. Caralho.
    Minha perna estava quebrada. Meu braço estava quebrado. Tinha costelas quebradas. Tudo doía desgraçadamente até eu dar dois tiros e tomar um comprimido de anfetamina com vodka. Não faltava mais nenhum. “Cadê meu dinheiro, seus animais.” Ninguém mais ria. Nem fazia piadinha escrota. Nem falava nada. Um a um eles passavam por mim e me davam cem mangos cada e depois ficavam falando baixinho qualquer porcaria num canto como crianças mimadas repreendidas pelo bedéu. Me escorei na parede, fui respirando com mais calma e tudo foi começando a ficar claro e dolorido. O mundo parecia que estava diminuindo. Eu tremia como uma máquina de lavar roupa velha que parece que vai levantar vôo. Talvez estivesse babando. Eles olhavam para mim como quem espera o moribundo dar o último suspiro para tripudiar em cima do corpo morto. Dei mais dois tiros e tomei mais um comprimido de anfetamina com vodka. “O dobro ou nada que carrego mais dez, cambada de porco.”
  • O Medo Apavorante da Mula sem Cabeça

    Disparada, intencionalmente pelos ‘GRANDES, e podres, PODERES’, por uma resposta a uma ansiedade fisiológica em massa nacional. Em uma reação social, descomunal, obtida por estímulos de crenças e imaginações interpretadas como um alerta de reações físicas e mentais, facilmente observáveis pelos corpos orgânicos em ênfase de pavor. Temendo antecipadamente ir de encontro contra o ‘mal imposto’, e pregado pela GRANDE MÍDIA, que comprometia as diversas relações sociais e familiares, na causa dos muitos enganos, até as exageradas causas de fobia e pavor que gerava desconforto, entre mínimas ansiedades a grandes sofrimentos psicológicos. Que as tensões sociais, políticas e militares voltaram à tona em meados da década de 1950.

    O medo, intencionalmente criado e imposto, nos dominou!

    Medo esse, pregado pelos monopolistas e latifundiários e seus beneficiadores como: os conservadores católicos, a burguesia industrial, e óbvio, os magnatas da grande mídia de rádioteledifusão e de comunicações impressas. Nisso, as Forças Armadas Brasileiras que já tinham grande influência e poder na política, desde a Proclamação da República e anteriormente na Guerra do Paraguai, não deixando de citar a Revolução de 1930. Se aliaram aos magnatas ativistas de direita, tentando impedir as posses de suas ameaças, representado nas pessoas de Juscelino Kubitschek e João Goulart. A grande ameaça que esses presidenciáveis representavam eram as implementações de políticas de esquerdas, como a reforma agrária e a nacionalização de empresas em vários setores econômicos da sociedade brasileira. O que ameaçava o poder do capitalismo classista no Brasil, e os seus poucos beneficiadores monopolistas, também, como a forte influência econômica dos Estados Unidos nos países da América do Sul.

    Nessa época, ‘EU’, por questões de segurança prefiro não ser identificado, trabalhava em um famoso jornal do sudeste do país como colunista e cronista. Foi quando começaram as censuras muito antes do golpe de estado de 1964. Em que fiquei pasmado ao escrever uma coluna, intitulada “Medo Nacional”, que foi rejeitada por meu editor-chefe, dizendo ele, que esses tipos de artigos agora estavam proibidos para serem publicados nos periódicos. Então, ele rasgou a minha coluna e foi depressa a sua mesa, para pegar uma pequena minuta rabiscada, como se estivesse escrita às pressas. Nela estava escrita um tema sobre a Guerra fria, e me deu severas instruções para que escrevesse um artigo em que endemonizasse os soviéticos, em pactos de conspiração com Cuba na América Latina. Tudo isso, com objetivos de polarizar a sociedade brasileira, implantando o temor do Brasil se juntar a Cuba como parte do bloco comunista. Fortalecendo as bases de direita, em que parte da classe média, junto aos latifundiários e toda grande mídia solicitavam uma “contrarrevolução” por parte das Forças Armadas para remoção de João Goulart do governo.

    Quatro anos depois dessas investidas, a mobilização foi iniciada por parte das tropas militares rebeldes pregando uma “Grande revolução”, e no dia 1 de abril de 1964 o presidente João Goulart partiu para o exílio no Uruguai. Tudo isso graças a mim, e minhas colunas fantasiosas de uma ameaça comunista no Brasil. Fui o primeiro a escrever um artigo com aquele tema, que como uma ponta acesa de um charuto cubano, caíra despreocupadamente sobre os talos de trigos e joios secos, incendiando todo o campo. Mas, como toda boa mentira tem uma base de verdade, utilizei-me da informação de alguns guerrilheiros brasileiros que foram treinados por investidores cubanos, ainda no governo de JK. O que não representava nenhuma ameaça na atualidade, pois esses grupos foram dispersos antes mesmo da posse de Jânio Quadros. Contudo, me serviu para criar uma tempestade em um copo d’água. E, por retirar a cabeça da mula, fui condecorado pelos golpistas ocultos da ‘Grande Mídia’, em que me ofereceram um cargo de editor-chefe de imprensa nas Forças Armadas.

    Ao ver a “Mula sem Cabeça” brasileira, que eu ajudei a criar, institucionalizada e empossada num golpe militar e ditadura. Com suspensão de liberdade de imprensa, de eleições, em cassações e prisões por posicionamento político. Senti aquela mesma sensação que me traumatizou quando criança, ao cair no fundo do poço no quintal da casa de papai e mamãe. Em que me esforçava violentamente para sair de lá, arranhando em desespero os meus braços e pernas nas sufocadas paredes de pedras esverdeadas de limo que me circulavam. As lembranças do sofrimento da água fria voltaram a me afligir, enquanto eu me pendurava no balde de cavilhas preso a uma corda pela alça de ferro. O pavor e os gritos agonizantes que dava, rasgando minha garganta e ecoando por todo poço, ecoaram agora em meus pensamentos. Dessa vez, papai e mamãe não estavam ali para me salvar. Dessa vez, só o medo estava ali. Apontando o dedo para mim, e gritando: Culpado!

    Depois que fui salvo do fundo do poço pelos meus pais, aprendi, por instinto de medo, com aquela dura lição, de nunca mais brincar em suas beiras. E, vendo o papel, a caneta, o lápis e a moderna máquina de datilografar Olivetti em minha frente… sobre minha mesa… em momentos de silêncio profundo. Tive uma certa sensação de pânico e pavor, como se estivesse na beira do poço de infância.

    Era óbvio que tudo aquilo era uma farsa. A ‘Mula sem Cabeça’, não nasceu sem cabeça. A cabeça fora intencionalmente cortada, e, seu corpo tenebrosamente assustador fora entalhado e animado por ‘Mestres manipuladores de Fantoches’. Gerando o engodo, caos e medo popular. A sociedade brasileira cega e manipulada, e agora oprimida, não podia racionalizar o fato acontecido. Pois, assim, como a mula, suas cabeças, também, foram cortadas. Todos os maiorais sabiam que bloco soviético estava financiando inúmeras guerrilhas na Europa Ocidental, porém, mesmo essa parte do mundo, sendo a mais afetada pelo “mal comunista”, países como o Reino Unido, a Itália e até a Alemanha não estavam sofrendo golpes militares e regimes ditatoriais durante esses tempos de Guerra Fria. ‘EU’ sabia de tudo, pois criei o mito da ‘Mula sem Cabeça’ no Brasil. Sabia quem eram os verdadeiros financiadores das forças golpistas de Castelo Branco. Sabia quem mandava e quem cumpria, e de todo apoio logístico e militar do ‘UNCLE SAM’.

    Por instinto, provocado pelo medo, não podia recusar a proposta dos militares de os representar via imprensa. Senão, é claro! Eu que seria a ‘Mula sem Cabeça’, ou melhor, o ‘Homem sem Cabeça’. Entretanto, sabia eu que perdi a minha cabeça há muito tempo, quando aceitei a escrever aquela maldita matéria inicial, que provocou toda essa discórdia. Podia ter recusado… fui contra todos os princípios e éticas do jornalismo. E, as lembranças do juramento que fiz no dia da formatura me atormentaram todos aqueles infernais dias dentro do meu escritório. Ainda me lembro como se fosse hoje, em que estava diante da imensa plateia ao receber o meu diploma, vendo meus pais orgulhosos, e lágrimas de felicidades escorrendo no rosto de minha mãe, enquanto repetia em alta voz aquelas palavras proferidas pelo meu mentor: “Juro exercer a função de jornalista, assumindo o compromisso com a verdade e a informação. Atuarei dentro dos princípios universais de justiça e democracia, garantindo principalmente o direito do cidadão à informação. Buscarei o aprimoramento das relações humanas e sociais, através da crítica e análise da sociedade, visando um futuro mais digno e mais justo para todos os cidadãos brasileiros. Assim eu Juro!”

    Agora aqui estava eu, andando e correndo com a burrinha, tendo que sustentar a mentira com mais mentiras. Me vendo com a função de tornar a ‘Mula sem Cabeça’ mais assustadora do que já era. Ficando encarregado de justificar o golpe militar e a política externa dos Estados Unidos, em transformá-lo em um herói nacional brasileiro, pela intervenção com sua suposta missão de liderar o “mundo livre” e frear a expansão do comunismo na América Latina, na retirada do presidente Jango, que fora democraticamente eleito pelos cidadãos brasileiros, e, ainda, tendo sido eleito com mais votos que o próprio presidente Juscelino Kubitschek.

    Fui amaldiçoado, como a mulher que dormiu com o padre, e condenado a me transformar na ‘Mula sem Cabeça’. E dores de cabeça me atormentavam todas as noites, vi que em vez de cabeça tinha um chama ardente de fogo no lugar. E depois da minha semana entediante de trabalho, galopava através dos campos urbanos desde o sol de quinta-feira até o sol de sexta-feira, bebendo e me embriagando pelos bares, boates e puteiros do Rio de Janeiro. E me vi transformado em um monstro, no pecado da mulher amaldiçoada, que virou a burrinha de padre.

    Assim, resisti na minha função caluniadora até o governo de Castello Branco e seus atos institucionais que ajudei a redigir. Porém, durante a repressão, restrições aos direitos políticos, liberdade de expressão, violência e tortura aos opositores do regime no governo de Costa e Silva e seu decreto AI-5, não pude mais aguentar tamanha pressão. E labaredas ardentes saíram de minha cabeça cortada. E vi que o encanto que me amaldiçoava só poderia desaparecer, se eu tivesse a coragem de arrancar da minha cabeça flamejante o freio de ferro.

    Então, em plena sexta-feira, no escuro do meu apartamento, comecei a confeccionar um aparelho constituído por uma grande armação reta, com medidas e pesos indicados pelas normas francesas, com aproximadamente 4 metros de altura, em que suspendi uma lâmina losangular que pesava cerca de 40 kg, guiada pela parte superior da armação por uma corda. A estrutura era meio arcaica e construída com pedaços de madeiras armengadas, mas, com as precisões certas, para quando a corda ser liberada cair de uma distância de 2,3 metros de altura, seccionando o freio de ferro.

    Depois de arrancar o freio de ferro que me prendia aquela maldição, surgi nos paraísos infernais como uma mulher arrependida pelos seus pecados.

    _ Extra! Extra! Famoso jornalista morre na manhã de sábado, lenta e dolorosamente ao tentar decapitar a sua cabeça em uma guilhotina artesanal feita por ele mesmo. Venham! Comprem o jornal!
  • O MENINO DO ORFANATO

    As dores guardadas no peito de um menino podem ser libertador para outros meninos, porque você passa entender que apesar de todas as dificuldades que um menino pobre possa passar, existem dores que nunca vão acabar independente de qualquer classe social. Esses relatos precisam ser contados como forma de denúncia.
           Uma família de classe média vivia em um dos melhores bairros da cidade de São Paulo, o pai era um homem exemplar para todos que o conheciam, a mãe uma mulher do lar dedicada, esse era o quadro perfeito para todos da vizinhança. O filho Heitor de  seis anos sempre bem vestido com roupas caras e com todos os brinquedos que uma criança possa desejar, porém sempre muito triste. Outras crianças tentavam brincar com ele, mas Heitor sempre muito recluso, com olhar cansado e distante.
             Certa vez uma vizinha perguntou a sua mãe se ele não tinha algum problema, pois era muito tímido.
             ─ Não querida, ele não tem nada sempre foi muito tímido não é Heitor?
             ─ Sim mamãe. Estou bem.
             Por algum motivo àquela vizinha não acreditou, o olhar do menino era um pedido de socorro, mas era algo que não era da sua conta. Como mãe apenas se preocupou com a criança, mas se ele falou que estava bem, então tudo certo.
             Uma noite ela percebeu que o menino chorava muito, ouvia de sua casa, levantou-se e foi até a janela. Não enxergou nada, voltou a deitar pensativa. No dia seguinte logo que viu a mãe do menino perguntou:
             ─ Oi Márcia tudo bom?
             ─ Olá querida, estou ótima.
             ─ Ouvi O Heitor chorar ontem de madrugada, ele está doente?
             ─ Não, não, às vezes tem pesadelo e chora alto.
             A mãe do menino falou bruscamente e foi saindo sem nem dar tchau. A vizinha ficou mais pensativa e desconfiada.
             Heitor já não aguentava mais aquilo, sabia que não era certo. A mãe sempre falava para ele ficar quieto porque o papai só fazia aquilo porque o amava. Mas não era certo. Heitor sabia que não, mesmo no seu mundo de criança onde se enxerga os adultos como poderosos, ele sabia que aquilo era covardia. Naquela noite ele chorou alto, pensou naquela senhora boa que o olhou preocupada, chorou para que alguém parasse com aquilo. Ele sabia que tinha que amar o papai e a mamãe, mas só pensava que seria maravilhoso se eles morressem. Daí tudo aquilo acabava.
            No dia seguinte Heitor não pôde ir à escola, não dava para levantar, seu corpinho miúdo estava dolorido e ele não chorava, só olhava para um brinquedinho de carrossel no chão com o palhaço a sorrir. Sentiu raiva daquele palhaço que parecia rir dele, pensou naquele momento que não gostava mais de palhaços.
            Os dias foram passando e passando e nada mais aconteceu. Heitor estava indo para a escola com sua mãe, o carro parou no farol e ele viu três meninos maiores pouca coisa que ele, os meninos vendiam bala e pediam moedas para comprar comida, Heitor sentiu inveja deles. Que bom seria só sentir fome.
            Passaram-se meses desde aquele dia, a boa vizinha mudou, Heitor ficou triste, não a via mais na rua. Estava brincando na sala, sua mãe estava no sofá com aquele pó que ele odiava, ela dizia que era pra ficar calma, mas ele sabia que quando ela cheirava aquilo ficava malvada. Logo o pai chegou nervoso, Heitor correu para seu quarto e ficou sentado na cama olhando para porta a espera, escutou as risadas e ouviu sua mãe chamar, não respondeu.
             Seu pai gritou seu nome e ele congelou, começou a suar, sabia o que viria depois. A porta abriu e sua mãe, já meio nua entrou totalmente descontrolada, era o pó, estava dominada. Pegou Heitor pelo braço e começou a arrastá-lo, ele tentou resistir e a implorar.
              ─ Por favor, mamãe não faz isso não. Não quero mamãe.
              ─ Cala sua boca menino, você é uma vergonha, se chorar vai ser pior – ela deu um tapa em seu rosto, ele caiu e começou a chorar. Seu pai ouvindo os gritos, foi até ali, no corredor entre os dois quartos, Heitor só teve tempo de levantar o rosto e ver seu pai sorrindo, quis correr, a mãe o segurou e tirou sua roupinha e ali mesmo o pai o violentou, Heitor não gritou, mas resistiu o quanto teve forças. Sua mãe assistia  a tudo e dizia com naturalidade:
            ─ Cuidado querido, não deixe marcas.
            A casa da vizinha estava à venda, Heitor sempre pensou que ela pudesse ser a pessoa que iria lhe ajudar, ficou mais triste, agora ele tinha sete anos, era maior e queria fugir daquela casa, mas sabia que se fugisse o trariam de novo e seria pior.
             No seu aniversário levou uma surra daquelas, o pai bebeu muito e fumando aquele cigarro de folhas ficou louco, chamou Heitor várias vezes, mas ele não foi. Quando seu pai o encontrou foi pior as brincadeiras, ele queimava o Heitor com a ponta do cigarro, como o Heitor não chorava ele repetia.
             ─ Menino fraco, chora mulherzinha – não vendo reação do menino ficou zangado, quando se levantou o cigarro caiu em cima de suas pernas nuas e o queimou nas coxas, ele ficou pulando como um macaco de circo, Heitor riu. Ele deu um soco na boca do menino, Heitor desmaiou.
            Quando ele acordou a mãe estava gritando com o pai, ele ficou feliz, agora ela ia defendê-lo, mas logo voltou a ficar triste ao ouvir suas palavras.
            ─ Você marcou o braço dele Carlos, agora vão ficar fazendo perguntas, quero só ver se descobrirem, temos que dar um jeito nele.
            ─ Cala boca Márcia, ninguém vai descobrir nada não, é só dizer que ele está doente, diz na escola que ele está com catapora, ninguém vai estranhar as marcas, sabe aquele amigo meu médico? – falou rindo debochado – vou pedir uns atestados pra ele.
            ─ Meu amor você é um gênio – ela abraçou o marido rindo e olhando para Heitor.
    O menino conhecia aquele olhar, ela era doente, gostava de assistir o que o pai fazia com o filho e se satisfazia com isso, ele sentiu tanto nojo daquela mulher que sem saber o porquê começou a gritar, gritar e gritar, como se sua vida dependesse disso.
           ─ Sua puta descarada, seu monstro, vou matar vocês, o diabo tem de existir pra levar vocês – repetia tudo o que o pai dizia em seu ouvido quando estava em cima dele.
            Os pais surpresos  começaram a gritar, a mãe estava em vias de matá-lo, pegou uma cinta e passou em seu pescoço, o menino esperneava, o pai disse que ia lhe dar uma lição. Com a mãe o segurando e o sufocando o pai baixou suas calças e foi pra cima do menino, mas Heitor se recusou a ceder, mordeu sua mãe e correu para cozinha, pegou a faca. Seu pai veio com ódio e gritou para mulher.
            ─ Márcia, te avisei que esse menino é filho do demônio, vem ver o que o filho da puta quer fazer – e riu de Heitor, aquele sorriso bestial, na hora o menino lembrou do brinquedinho, aquele palhaço. E sentiu muita raiva. Correu como um louco pra cima do pai.
            Mas que defesa uma criança de sete anos tem contra dois adultos monstros? Conseguiram pegar o menino, bateram muito nele e como se não bastasse a surra o pai o estuprou várias vezes naquele dia. Heitor chegou à conclusão que odiava aniversários.
    Seu corpinho nu ficou ali na cozinha, o deixaram como um monte de lixo, suas perninhas roxas e o sangue a escorrer no chão. Ele desejou a morte e pensou que ela tinha chegado a lhe buscar quando a campainha tocou.
            Como um anjo a vizinha que havia mudado, apareceu. Com ela trazia o conselho tutelar, pois a professora da sua filha, que também era professora do Heitor, havia lhe contado sobre o texto que leu do menino, no texto ele queria matar os pais, também comentou que estava preocupada porque Heitor vinha faltando muito à escola. A vizinha, junto com a professora denunciou os pais do menino, pedindo para que o conselho tutelar fosse até aquela casa, comentou que quando morava perto ouvia o menino chorar algumas noites e que ali havia sinais de abusos.
            Heitor foi levado, seus pais presos em flagrante por abuso de menor, tráfico e contrabando. Ninguém quis acolher o menino, os familiares diziam que Heitor seria uma criança problemática, então ele foi deixado em um orfanato. 
            Hoje Heitor tem dezessete anos, falta pouco pra ser maior de idade, é um menino estudioso e quer prestar vestibular na área de ciências sociais. Numa entrevista de trabalho quando a atendente perguntou seu endereço e ele passou do orfanato, ela o olhou e disse:
             ─ Nossa que triste viver em um orfanato – ele a olhou sorrindo e respondeu feliz.
            ─ Não é triste não moça, foi o dia mais feliz da minha vida.
  • O Poder Sagrado da Arruda e do Limoeiro

    Como de costume no final de tarde estava a trabalhar no seu pequeno jardim, em especial, no canteiro de ervas que fizera ao fundo do quintal de sua casa, próximo de uma cerca feita de pequenas varas de bambu-chinês. Esse pequenino canteiro horizontal, confeccionado por pequenas pedras de calcários brancos enfileiradas, era um dos pontos mágicos e sagrados do seu jardinzinho orgânico. Ali encontravam-se plantadas, uma após outra, plantas de poder e de cura, medicina para o espírito, para a alma (psique ou coração) e para o corpo, como: Capim Santo (Elionurus candidus), Erva Luíza (Aloysia citrodora), Erva Cidreira ou Melissa (Melissa officinalis), Sálvia (Salvia officinalis), Babosa (Aloe Vera), Manjerona (Origanum majorana) e duas espécies de lavanda ou alfazema (Lavandula angustifólia e Lavandula pedunculata).

    Progressivamente em fila, encabeçando o canteiro, plantara um Pezinho de Limão: "Mas, o que tem de haver um Pé de Limão junto a plantas medicinais e de poder?". Na verdade, o Pé de Limão fora colocado no lugar, em que se encontrava um saudável e farto arbusto de Ruta-de-Cheiro-Forte (Ruta graveolens), que misteriosamente em uma demanda espiritual de ordem negativa vinda externamente contra ele, o arbusto em caridade protetora, secou gradualmente, aos poucos, em sacro-sacrifício e morreu. Daí lhe veio, como sempre, a doce recordação de infância nas sábias palavras de sua (já desencarnada) bisavó, que era uma poderosa parteira, rezadeira e curandeira. Muito bem conhecida em toda a região onde morava, entre outras muitas fantásticas manifestações, por realizar mais de três mil partos entre humanos e animais, inclusive o dele próprio, sem deixar desfalecer um ser vivo sequer, não importando a gravidade de risco. Praticamente todos os meninos e meninas da localidade nasceram pelas benditas mãos dela, que devido a tal prodigiosa façanha ficará conhecida por todos como Dona Darluz, apesar de ser mais uma Maria das muitas da região.

    A respeito da Ruta-de-Cheiro-Forte, sua bisa lhe dizia advertindo: "Essa planta tenho para mim como a mais sagrada de todas as plantas, pois pertence unicamente ao Sagrado Positivo, e, por isso deve ser sempre colocada na entrada da casa. Assim, nada de negativo pode entrar em seu ambiente."

    Devido a tal nostálgica recordação, ele resolveu colocar umas mudinhas da Ruta-de-Cheiro-Forte na entrada da sua casa, e plantar um Pé de Limão no lugar do arbusto que morrera no fundo-de-casa.

    Sim! Mas, por qual razão plantar o Pé de Limão no fundo da casa?

    Sua bisavó, D. Darluz, lhe falara que o Limoeiro (Citrus limon) era a contrapartida da Ruta-de-Cheiro-Forte. Dizia ela que toda planta tem sua contraparte no mundo, sendo: positivo e negativo, feminino e masculino, inercia e movimento, absorção e repulsão... se completando em ciclos espiralados. Além, é claro, que toda contrapartida deve pertencer a mesma família. No caso o Limoeiro e a Ruta-de-Cheiro-Forte pertencem à família das Rutáceas. Por isso, falara também, que o Limoeiro sempre deve ser plantado no fundo da casa, dessa forma poderia fechar um ciclo para proteção do ambiente, em que o Limoeiro atraia para ele tudo que era de negativo que a Ruta-de-Cheiro-Forte deixara passar se a carga negativa fosse maior que a capacidade da planta barrar, completando assim a proteção energética ambiental.

    Sempre em que se entregava a dar manutenção no seu canteirinho de ervas de poder, seus pensamentos, imbuídos em muito sentimentos, voltavam-se com todo carinho para a figura mística da sua bisa, a popular D. Darluz. Seu nome verdadeiro era Maria da Piedade, nascida em Portugal na antiga Vila da Arruda e hoje atual município Arruda dos Vinhos, no distrito de Lisboa (Região de Lisboa e Vale do Tejo), comunidade intermunicipal do Oeste Cim. Dona Darluz dizia ser descendente das famosas curandeiras de sua região, pejoradas pelos ignorantes como Bruxas da Arruda, que por assim, eram descendentes das feiticeiras e sacerdotisas dos antigos Povos Celtas, mas que devido às misturas culturais e étnicas, e de conquistas de outros muitos povos, com seus costumes e crenças, ainda as mulheres de sua família mística mantinham as antigas tradições, com meras e significantes influencias dessas novas culturas que foram ao longo do tempo agregadas (Não citando as muitas mazelas que sofrera sua mística linhagem durante os massacres do Tribunal do Santo Ofício, com a perseguição religiosa da inquisição portuguesa, promovida pelo clero católico dominicano). Imigrara junto a sua família para o nordeste do Brasil nos meados da primeira década do século XX (entre 1910 a 1920), aos vinte anos, devido à crise que se alastrava na Europa, como resultado da conclusão da Primeira Guerra Mundial e da gripe espanhola. Sendo assim, se fixara no Novo Mundo absorvendo também as muitas sabedorias místicas que ali existiam, tanto dos povos ameríndios como dos afrodescendentes.

    D. Darluz tinha uma presença magneticamente atraente, sendo uma linda senhora alta, bonita, nem muito magra e nem muito gorda e de olhar penetrante. Morava em uma casa que fora construída metade de pedras e outra metade de madeira a arquitetura arcaica mediterrânea, toda ela erguida com o suor de seus pais, seus irmãos e dela mesma. Em uma chácara com cerca de quarenta hectares. Lá havia um grande pomar com diversas árvores frutíferas, uma horta orgânica, campos de flores e ervas medicinais e muitos animais domésticos, como: cabras e bodes, cavalos e éguas, mulas e burros, jumentos (Equus asinus), galos e galinhas de diversas raças, perus, pombos, papagaios, pavões, patos, gansos, porcos, vacas e bois, além dos muitos animais silvestres da região. E, sobrevivia da produção de derivados de leite (queijos, doces e coalhadas de cabra e vaca) e de suas práticas místicas de reza e cura, que, na verdade, esses serviços sagrados eram lhes recompensados por doações. Pois, ela sempre dizia que a verdadeira proteção e cura não podia ser comprada, apenas recompensadas pelas atribuições dos beneficentes, o que estes julgavam de coração contribuírem de acordo com que achavam ser merecido, e, nunca cobrava nada e nem recebia doações, um centavo sequer, pelos partos que realizava, afirmando ser (esse Sagrado Ofício) a sua verdadeira missão na terra: DAR A LUZ!

    Como toda boa portuguesa milagreira em terras brasileiras tinha lá suas queixas, que eram verdadeiramente mínimas e de questões culturais. Sentia falta dos vinhedos e dos bons vinhos, das oliveiras e de suas azeitonas e azeites, dos muitos temperos e ervas naturais do mediterrâneo, das ovelhas e suas deliciosas coalhadas e queijos, do frio nas pradarias e do aconchego da lareira... suas queixas se baseavam em suas saudades de uma terra mágica e romântica... de Portugal, sua gente pacata e sua península ibérica. O Azeite, produto das oliveiras, lhe era sagrado, pois, era através dele que realizava os seus milagres adivinhatórios de cura e proteção. Em que pingava gotas de azeite no consulente, depois com o dedo retornava a pingar o azeite em um prato raso com água, lendo as gotas de óleo que davam forma as verdes letras mágicas no líquido, em seu processo místico divinatório. Também, conseguir o azeite de oliva puro era muito difícil no nordeste do Brasil, porquanto, encomendava algumas sacas de azeitonas do Uruguai com os caminhoneiros que lá iam e regressavam, e, manufaturava pessoalmente o seu azeite. Sendo que nessas consultas com esse processo, independente das doações, cobrava uma certa quantia fixa, apenas, para cobrir os custos do material importado e sua trabalhosa produção.

    Em sua casa havia um pequeno quarto dedicado ao sagrado, com uma grande mesa servindo de oratório em que se realiza os muitos milagres, curas e adivinhações. Essa mesa era repleta de objetos místicos, tigelas com água e azeite, vasos com vinhos e porções de cura, pedras semipreciosas, ossos, pequenos frutos e animais dessecados, potes de unguentos e cataplasmas, pedaços de madeiras e galhos secos, velas, óleos essenciais, cristais, pequenos jarros de barro e porcelana, potes com incensos, incensários, instrumentos, lápis e cadernetas de receitas místicas, papeis para anotações, muitas flores e frutas para oferendas, sal grosso, sal amargo, mel, livros e todo teto era coberto com ervas medicinais, arrancadas pelas suas raízes, penduradas de cabeça para baixo. Criando um ambiente de um universo místico com os seus muitos odores e fragrâncias mágicas.

    Voltando-se para o aqui e o agora, no seu pequeno jardim, com as tantas recordações da sua bisa, lágrimas rolaram de seus olhos ao relembrar de sua infância, em que vivera da idade de dois anos até os seis na companhia dessa mística senhora portuguesa na sua maravilhosa chácara (Chácara Celeste), que depois veio a falecer tranquilamente dormindo com a idade de 97 anos. Recordou-se das tantas histórias que sua bisavó lhe contara de sua terra natal, como: O Caso da Perua, em que um lavrador descobriu que sua vizinha era uma feiticeira que se transformava em um peru; as lendas de lobisomens e maldições; O Demônio do Pinhal do Álamo, em que um curioso rapaz achou um cabrito branco que, na verdade, era um demônio; A lenda de Nossa Senhora da Ajuda; A Lenda de São Tiago dos Velhos; A Lenda do Ouro e da Peste; A Lenda da Parteira e dos Mouros; A Lenda da Cobra e das Cinzas; A Lenda de D. Manuel I e da Peste; A lenda dos Fornos das Antas; A Lenda dos Quarenta Queimados... E, a lenda que ele mais gostava 'A Cova do Gigante', que é um monte do município Arruda dos Vinhos que dizem ser a sepultura de um enorme gigante ciclope Grou que assolava a região.

    Sendo que, além de todas essas maravilhosas lembranças, sempre lhe vinha à mente as muitas sabedorias mágicas que aprendera com sua bisa, em especial ao que diz sobre as ervas de poder. Sua bisavó lhe ensinou que as ervas tinham poder de curar e empoderar o Espírito, a Alma (psique ou coração) e o Corpo, sendo que não toda erva era para cura de ambos. Existia um grupo de ervas para cada seguimento dessa tríade, porém, apenas um pequeno grupo de ervas, conhecida por ela nas terras sul-americanas, serviam para cura e, dar poder aos três veículos. Dentre elas estavam o Tabaco (Nicotiana tabacum), a Acácia ou Jurema Preta (Mimosa hostilis), a Chacrona (Psychotria viridis) e o Mariri (Banisteriopsis caapi), a Diamba (Cannabis sativa), a Folha de Louro (Laurus nobilis) e por último, a que segundo ela era a mais sagrada de todas, a Ruta-de-Cheiro-Forte, muito usada em sua tradição milenar Celta, em que ela utilizava para todos os seus processos milagrosos.

    E foi por causa da influência de sua bisavó entre as parteiras, rezadeiras, mães-de-santo e curandeiras do Novo Mundo, que a 'Erva de Cheiro' como era conhecida no Brasil, trazida das terras mediterrâneas pelos portugueses no período colonial, passou a se chamar nessas terras tropicais do Novo Mundo de: Arruda, em reverência a vila natal de Maria da Piedade, a D. Darluz.
  • o que é ser escritor?

    Todo mundo pode ser escritor, mas na hora certa, é preciso sofrer um pouco antes, é preciso se apaixonar, perder amores, beber até vomitar e continuar bebendo, mas sobretudo é preciso morrer um pouco, só um pouco e ter a paciência para superar suas barreiras. 
             Era muito comum também, me pegar escrevendo algum poema em folhas ou até mesmo em guardanapos nas mesas de bares, alguns eu deixava ali mesmo, outros eu dava de presente para algumas gurias, mas raramente eu os levava para casa, assim talvez o fardo fosse menor, compartilhar a escrita é uma forma de não enlouquecer de fato, ainda sim tem um jeito certo para se compartilhar. As horas passavam, as pessoas começavam a deixar as mesas, apenas sobravam os bêbados de verdade e as garotas de programa que respiravam entre um cliente e outro. Há tantos países que ainda não visitei, mas sinto que não dá mais tempo meu fim está a chegar depressa, a morte se torna vizinha e logo logo baterá em minha porta para pedir um pouco de açúcar. Era tão patético, mas precisava dançar mais um pouco. 
  • o que me resta

    só me havia isso.. algumas cervejas, uma cachaça... a saudade daquela buceta... uma alma de sonhador, minha fala francesa... nessa geração que não escrevem mais que 140 caracteres, onde andará o amor? por onde vieres?
  • O surto

    A cabeça de Aguinaldo estava martelando. Ele precisava ter uma ideia. Uma daquelas que muda o destino da humanidade. Precisava de dinheiro. Precisava de muito dinheiro rápido. O mundo estava ruindo ao seu redor, como o final de Scarface quando o Al Pacino enfia a cara numa montanha de pó. E ele não conseguia pensar em nada. Só sabia que precisava de dinheiro. Muito dinheiro. Para uma casa, para um carro, a escola das crianças, a viagem para a Disney. Tinha que ser em dólar. Aguinaldo andava de lá para cá, com a mão direita apoiando a arma na cabeça, mas a ideia não vinha. Ele precisava de dinheiro grosso, não uns trocados. Tinham que ser maletas transbordando dólares igual nos desenhos animados da televisão. E tinha que ser rápido. A ideia tinha que ser algo monstruoso. Daquelas que resolvem todos os problemas e não dão muito trabalho para colocar em prática. Daquelas que rendem milhões para quem fica sentado no sofá cercado de mulheres, tomando champagne e fumando legítimos charutos cubanos. Daquelas que só precisam de uma vez e depois nunca mais.
    Era uma mega-sena. Aguinaldo precisava acertar na mega-sena e ficar com todo o dinheiro. Para comprar roupas, colares e tênis. Tinha que ser muito dinheiro. Quilos e mais quilos de ouro. Em tantas barras que ele ia usar uma como peso de porta e outra como peso de papel. As pessoas iam chegar, e perguntar sobre o dinheiro, sobre a ideia. Ele não tinha nada, só um trinta e oito com cinco balas e as mãos tremendo. Sentava, levantava. Fumava um cigarro depois do outro, e nada. Tudo que ele conseguia pensar era que precisava de dinheiro. Precisava de dinheiro rápido. Em dólar, ouro, latinha, papelão. Em qualquer coisa que valesse muito. Tinha que ser muita coisa de qualquer coisa. Depois ele ia viajar, conhecer o mundo num iate cheio de garotas peladas e sexo e droga e rock’n roll. A ideia tinha que ser tão boa que ia sair no jornal. Todo mundo ia saber e todo mundo ia querer ter tido. Uma ideia simples e perfeita. Que nunca ninguém tinha tido. E ele pensava e pensava e pensava. Tinha que pagar o condomínio, o motorista, o jardineiro, a empregada. Era de muito dinheiro que ele precisava.
    Mas ele precisava da ideia. Aguinaldo sabia que ela estava lá, na sua cabeça, mas ela não saia. Tinha alguma coisa prendendo. Estava quente, vermelha, suando. A ideia queria explodir, mas não explodia. E ele batia, batia e batia com a mão e a arma na cabeça. Se agachava e chorava como uma criança perdida no supermercado. Precisava de dinheiro. Precisava de uma fortuna com filhos bonitos e inteligentes. Precisava de um cofre como o do Tio Patinhas para nadar em dinheiro com a sua escolhida. Não podia demorar. Não podia ser pouco. Não podia dar trabalho. E ele deitou, respirou fundo, sentiu o coração disparar. Precisava de dinheiro. Para fazer uma festa como a do Conde de Montecristo e mostrar para o mundo que ele tinha conseguido. Para comprar balões, castelos e pessoas. O prazo já tinha acabado. Ele precisava de muito dinheiro agora. Não dava mais para esperar. A ideia tinha que vir. As pessoas iam querer saber, iam querer ver, iam querer tocar. Ele precisava de caminhões com dinheiro até o talo.
    Sem a ideia não ia ter dinheiro, sem o dinheiro não ia ter a festa, a vida fácil, nem helicóptero. Ele precisava de tanto dinheiro quanto o Cidadão Kane, para poder perder um milhão por mês por toda a vida. Ele precisava de mais dinheiro que os mafiosos dos filmes do Scorsese. E tinha que ser rápido, como no cinema. Como no Lobo de Wall Street, de uma cena para outra. Porque ele não tinha tempo. E Aguinaldo chorava e arrancava os cabelos para tentar fazer a ideia sair. Para poder fazer caridade por aqueles que ele achasse que merecessem. Para ser feliz como Jack Nicholson pulando de paraquedas com o Morgan Freeman em Antes de Partir. Ele olhava para os lados, escutava os passarinhos cantando, esperava que a ideia surgisse como música para os seus ouvidos. Que finalmente todas as respostas saíram de sua boca quase como que por encanto. Não ia chegar por telefone, ou pela internet. Ia ser tão natural que ele nem ia perceber. Quando visse já estaria com todo dinheiro. Tomando marguerita numa praia do caribe. Ele precisava sair daquela casa, sentir o vento na cara trazer a ideia a tona como uma semente germina para ser uma grande árvore.
    Aguinaldo marchava pela rua perseguindo a ideia. A cabeça continuava martelando sem parar. Vermelha, quente, suando. Precisava de dinheiro. De muito dinheiro. Ele via pessoas com muito dinheiro passando nos seus carros, saindo dos prédios. E ele precisava de mais dinheiro do que elas. E tinha que ser rápido. Como se soubesse exatamente o que fazer ele entrou num banco atirando primeiro nos dois seguranças, e depois no caixa que não entendeu o que ele disse. Ele precisava de muito dinheiro, rápido, dentro de uma sacola. Para comprar um apartamento duplex na beira praia, um sítio para descansar. Ele precisava do dinheiro de todos os caixas, e do cofre, e do bolso das pessoas que estavam lá. Precisava de todo dinheiro do mundo rápido, sem perguntas, sem gaguejar. É só colocar tudo dentro do saco. Rápido. Mais, mais, mais. As moedas também. Tudo. Todo o dinheiro. A polícia chegou. Cercou todo o lugar com carros e sirenes. Começou a falar alto num megafone. Aguinaldo tinha que fugir dali. Com todo o dinheiro num saco. Rápido. Ele abriu a porta e sai correndo. Ele deu seu último tiro na direção do megafone que mandava ele parar, e a polícia fuzilou Aguinaldo antes dele chegar até a esquina.
  • O Tempo

    Todos os dias eu vejo...a minha vida inteira:
    Começo e meio de tudo o que em mim é vida.
    Os ciclos das eras são um dia meu em suas horas,
    A herança milenar das estrelas é rotação
    De cada um dos meus instantes.
    E todos os dias eu vejo...a minha vida inteira,
    Em suas idades arquitetadas sem tempo:
    Na noite vem aurora a se apresentar,
    Na aurora vem dia quente já a se movimentar,
    Na tarde de se aquietar,
    A noite de nascer e morrer a chamar.

    Num exercício de existir, todos os dias eu vejo...
    A minha existência sendo e precedendo a arte de ser,
    Sendo em seu existir a arte de seguir e de prever,
    Girando em sua própria roda o recomeçar de suas luzes,
    Seus próprios dias.

    Todos os dias eu vejo...a minha vida inteira.
    Os meus dias não são dias,
    Não começam, não terminam,
    São recomeço de vida inteira em mim,
    Os ciclos das minhas estrelas quietas me chamam
    Em seu estampado em céu da minha aurora
    A descansar nas horas do meu dia alto,
    Porque no meu ver de vida inteira,
    É na noite minha em seus e meus
    Esconder e prometer de luzes
    Que todas as manhãs estão em seu exercício de existir,
    Eu, sendo e precedendo o meu existir,
    No que tempo se retoma em tempo,
    Eu em morrer e nascer de minhas próprias luzes,
    Em minha roda, eu, na minha vida inteira,
    Os meus próprios dias.
  • Os freelancers [conto]

    O cara usava um terno azul, com gravata vermelha, mocassins e gel no cabelo, como se fosse o próprio Vincent Vega. As diferenças iam do Chevette velho que ele dirigia até o fato que ele não estava num estúdio em Los Angeles, além de que o que tocava no rádio era Thiaguinho e não Kool & the Gang. O Chevy encostou no meio-fio e um tipo carcamano do Scorcese, italiano, gordo e vestindo camisa florida, entrou e sentou no banco do passageiro. “Que merda é essa que você está usando, cara?” “Chama estilo meu caro, estilo.” Os dois riram e o estiloso saiu sem fazer alarde pelo trânsito.
    “Quem te disse que não existe PM nos Estados Unidos?” “Não é isso, lá não existe Polícia Militar.” “Como assim? Claro que tem polícia na rua. Eu vejo isso em vários programas na TV.” “Tem, mas eles são civis, não militares.” “E qual a diferença? É tudo polícia, porra.” “Tem muita diferença. No treinamento, na forma de agir, na burocracia do trabalho, em tudo.” “Esse treco que você tá vestindo tá afetando sua cabeça. O que você está falando não faz sentido.” “Cala a boca. Sabia que nos lugares mais seguros do mundo a polícia não usa armas?” “Então vamos para lá.”
    Como se tivessem pulado da Tela Quente direto para a Sessão da Tarde, Debi & Lóide pararam numa lanchonete. Pediram café com pão na chapa e sentaram do lado do vidro que dava para o estacionamento. Enquanto comiam um tipo Clint Eastwood meio assustado sentou na mesma mesa. A garçonete se aproximou e o sujeito teve que fazer o pedido três vezes até que ela entendesse que ele queria só um café.
    “São vinte mil.” “Certo.” “Você paga metade agora e metade depois.” “Tudo bem. E o que vocês vão fazer?” “Exatamente o que você está pagando.” “Mas como?” “Se quiser pode estar lá para ver.” “Não, não, não quero. Tudo bem.” “O dinheiro está aí com você?” “Está aqui.” “Não, não tira ele aqui. Vai até o banheiro e coloca o envelope atrás do lixo da segunda cabine.” “Quando vai ser?” “Eu te procuro para pegar a outra metade quando estiver tudo feito.”
    A versão cagão do Clint levantou e foi até o banheiro, depois pagou a conta da mesa no balcão e saiu sem olhar para trás. Uns dois minutos depois o carcamano do Scorcese foi até o banheiro, deu uma cagada, pegou o envelope e voltou pro Chevette que emanava todo o romantismo de Zezé de Camargo e Luciano. Já no centro da cidade eles acolheram um Stallone depois de várias feijoadas e um monte de invernos.
    “Então já está tudo certo?” “Mais ou menos. São dois caras, tá aqui as fotos deles.” “Isso escrito aqui atrás é o endereço da casa deles? Vão ser duas ações?” “Não. É o endereço de onde eles almoçam todo dia.” “E como vai ser? A gente espera eles saírem e resolve?” “Não sei, o que vocês acham aí na frente?” “Me parece mais fácil esperar eles saírem. No restaurante pode ter câmera.” “Bem pensado.” “A gente pode fazer assim: vai eu e ele e fica esperando os dois saírem do restaurante. Você fica com o carro parado na esquina detrás. Se eles tentarem correr você pega eles.” “Vamos fazer assim então.”
    Com tudo arranjado os solucionadores de problemas seguiram até a frente do local escolhido para o abate para armar a tocaia. Como que numa cena perfeitamente dirigida por Kubrick, todos tiraram seus revólveres da cintura e checaram as balas. Depois colocaram na cintura de novo e olharam para a porta do restaurante como se estivessem pensando de que forma tudo aconteceria, onde poderia haver falhas e como reagir a qualquer tipo de eventualidade.
    “Olha só, primeiro o jornal diz que comer alface evita o câncer, no outro dia você vai no supermercado e não tem mais alface, porque todo mundo quer comer alface e evitar o câncer.” “Tá, e daí?” “Do que esse cara está falando?” “E daí que podem ter envenenado o alface, pode ser uma jogada para subir o preço, entende?” “Cara, você está ficando louco.” “Estou escutando um monte de baboseiras desde de o café. Acho que este penteado afetou o cérebro dele.” “São vocês que são dois alienado.” “Calem a boca. Olhem lá, acho que são os caras ali, porra.”
    Carcamano do Scorsese e Vincent Vega saíram cada um por um lado, atravessaram a rua em câmera lenta como uma tomada de Cães de Aluguel. Sacaram suas armas e começaram a atirar sem economizar na direção dos dois homens que estavam na frente do restaurante. Uns correram, outros se jogaram no chão, mas nenhum tiro errou os alvos. Toda área de strike virou uma peneira. Quando se colocaram de pé na frente dos corpos caídos nenhum dos dois tinha mais balas. Eles pegaram um punhado de munição do bolso e encheram os tambores. Depois deram um tiro de misericórdia na cabeça de cada um. Tudo a tempo do Stallone feijoada manobrar o Chevy e se posicionar exatamente onde a ação acontecia, já com a porta aberta. Vincent e Carcamano pularam para dentro e saíram pela rua sem chamar a atenção.
  • Os homens do esgoto [conto]

    A tampa do bueiro na frente da portaria do Edifício Vida Mansa se abriu e quatro homens vestidos com macacões emergiram, carregando uma mochila grande cada, e saíram andando, em fila, na direção do norte. Seu Antenor achou aquilo muito estranho. Eles não tinham identificação nenhuma, não falaram uma só palavra, mal se olhavam e pareciam não se importar em nada com o que acontecia à sua volta. Tudo neles parecia mecanizado. Alí, da portaria do Edifício Vida Mansa, ele ficou esperando atentamente alguma coisa acontecer ou explodir. Na primeira meia hora nada mudou, até que a tampa se abriu novamente e mais quatro homens, vestidos com macacões, emergiram do bueiro carregando uma mochila grande cada e saíram andando, em fila, na direção do norte. Eles não tinham identificação nenhuma, não falaram uma só palavra, mal se olhavam e pareciam não se importar em nada com o que acontecia à sua volta. Agora Seu Antenor não tinha mais dúvidas: alguma coisa errada estava acontecendo ali.
    Seguindo o protocolo de segurança da portaria ele chamou o chefe dos vígias pelo rádio. “Eles estavam usando macacões iguais operário? Marrom, azul, cinza, sei lá.” “Azul, mas não tinha identificação nenhuma. Faziam tudo muito sincronizado.” “E saíram do bueiro e foram embora? Não mexeram em nada, não entraram em nenhum carro, nada?” “Isso. Eles estavam carregando umas mochilas grandes também. Pareciam pesadas.” “A câmera externa pegou isso?” “Pegou sim, tá tudo gravado.” “Então não se preocupe, deve ser a Companhia de Água consertando alguma coisa.” A explicação não satisfez Seu Antenor, que se sentiu até um pouco ofendido com o desdém do chefe, mas a hierarquia colocou ele de volta no seu posto sem nenhuma das ações que ele esperava.
    Pouco tempo depois a tampa se abriu de novo, e mais quatro homens vestidos com macacões emergiram, carregando uma mochila grande cada, e saíram andando, em fila, na direção do norte. Seu Antenor não se conteve, saiu correndo de seu posto e foi até a grade. “Ei. Vocês aí do bueiro. Ei. O que esta acontecendo?” Nenhum deles fez alguma menção às chamadas do porteiro. Aquilo fez o sangue dele ferver. Seu Antenor tinha certeza que alguma coisa muito errada estava ocorrendo ali, debaixo do seu nariz, naquele instante.
    Desta vez, além de alertar o segurança pelo rádio, ele interfonou para a síndica. “Dona Selma, em menos de duas horas uma dúzia de homens saiu daquele bueiro carregando mochilas pesadas. Tem alguma coisa estranha acontecendo aqui. Escuta o que eu estou falando.” “O que o Senhor acha Seu Camilo?” “Olha Dona Selma, do jeito que o Seu Antenor me falou pareceu que eram funcionário da Companhia de Água. Se a Senhora quiser podemos ver as imagens, o Seu Antenor disse que a câmera pegou.”
    Enquanto chefe da segurança e sindica debatiam se alguma coisa estava acontecendo, ou não, a tampa do bueiro se abriu, e mais quatro homens vestidos com macacões emergiram, carregando uma mochila grande cada, e saíram andando, em fila, na direção do norte. “Olhem lá. Olhem lá. De novo. Do mesmo jeito. Mais quatro.” “Seu Camilo, por favor, veja o que está acontecendo.” O chefe da segurança saiu pelo portão andando rápido para tentar interceptar os homens, mas voltou alegando que não conseguiu alcançá-los e quando virou o quarteirão não viu mais eles. “Tudo bem Seu Camilo. Também me pareceu que eram da Companhia de Água. Seu Antenor, vamos deixar eles trabalharem em paz.”
    O porteiro voltou para sua casinha com a pulga atrás da orelha. Podia ser qualquer coisa, de terroristas extremistas até extraterrestres que habitam os esgotos, mas não eram da Companhia de Água. Quando mais uma vez a tampa do bueiro se abriu, e mais quatro homens vestidos com macacões emergiram, carregando uma mochila grande cada, e saíram andando, em fila, na direção do norte, ele resolveu tomar uma atitude drástica. Ligou para a polícia. Depois de um tempo uma viatura parou na frente do Edifício Vida Mansa. Seu Antenor não se conteve. “Fui eu que liguei para vocês. Olha só, o que está acontecendo é que tem uns caras estranhos saindo do bueiro de tempo em tempo e...” “Nós já averiguamos Senhor. Estamos aqui para sua segurança. Por favor, volte ao trabalho.”
    Seu Antenor voltou para seu posto ansioso para ver a tampa do bueiro se abrir. E foi batata, mais quatro homens vestidos com macacões emergiram, carregando uma mochila grande cada, e saíram andando, em fila, na direção do norte. Pareciam nem terem notado a presença da polícia alí. Os policiais também não tiveram nenhuma reação a tampa do bueiro se abrindo e os homens surgindo. Agitando os braços e visivelmente alterado Seu Antenor saiu da portaria esbravejando o porquê de ninguém fazer nada sobre o que estava acontecendo. Haviam homens saindo de dentro do bueiro de tempos em tempos, carregando mochilas, vindo não se sabe da onde e indo para não se tem ideia. Aquilo era muito suspeito. Seu Antenor exigia saber o que estava acontecendo.
    Sob a ameaça de ser preso por desacato e desobediência ele voltou para dentro e continuou sentado na portaria vendo homens vestidos com macacões emergirem do bueiro, carregando uma mochila grande cada, e saírem andando, em fila, na direção do norte. Sempre em quatro, de tempos em tempos, durante o dia inteiro.
  • PAIXÃO NA BOSSA

    Recusa ser feliz
    Por que tanto olha o mar?
    Faz sentido para amantes
    Para um, é só um mar.

    O passado tão presente
    Dele é tão refém
    Condenaras-te à tristeza
    Não só tu, a mim também.

    Carga fatigosa
    Descompassa o coração
    Joga a todos para longe
    Desesperado empurrão.

    Quando estiveres pronta
    No presente arriscar
    Larga ao chão todo esse peso
    E vem pra cama me amar.
  • Paradoxo da vida perdida

    Meu Deus, ainda estou vivo. Não sei como. Mais uma vez o improvável venceu. De algum jeito cheguei na casa da Paula e ela me deixou ficar no quarto de hóspedes. Preferia o quarto dela, mas não foi desta vez. Também não sei o que aconteceu ontem a noite. Nem quero saber. Checo tudo para ter certeza de que estou sozinho. Tem um aviso na geladeira pedindo para eu não fumar dentro de casa, mas teoricamente não vi. Fiz um café forte para viagem e sai antes que ela pudesse chegar para me repreender. “Você esta fodendo com a sua vida”, ela ia dizer. “Se eu quisesse foder com a minha vida arrumava um emprego e casava com você”, eu ia responder. Acho que talvez tenha escutado aquilo e respondido isso ontem a noite. Explicaria o quarto de hóspede.

    O bar do Jaime estava começando a receber o grande público. Ele fingiu que não me conhecia, e a filha dele não conseguia esconder que odiava me amar. “Meu pai não quer mais você aqui.” “Faz tempo que ele não me quer aqui, mas ele gosta da onça pintada?” “Filho da puta.” Com um copo de Campari e uma garrafa de cerveja a vida até parece que vale a pena. Peguei o Mutarelli no bolso do casaco e comecei a ler como se estivesse numa biblioteca. Era como se o mundo tivesse parado de girar e o tilintar dos copos era uma barreira contra qualquer coisa que tentasse entrar no meu mundo. Mas não foi o suficiente para parar a Sandy. “Ninguém vem aqui para ler!” “Eu não sou ninguém.” “Tenho um negócio aqui para você que vai te tirar dessa pasmeira.” “Não, obrigado.” “Tem certeza?” Ela tirou um vidro de remédio com um conta gostas e um líquido preto e viscoso. “O que é essa merda?” “Lubrificante social.” Ela pingou duas gotas no meu Campari, que ficou meio marrom, e deu uma golada. Olhei para ela sorrindo como o pote de ouro no fim do arco-íris e terminei com o que tinha sobrado.

    Então o mundo mudou, apesar de continuar o mesmo.

    Comecei a afundar num chão aveludado e a brasa no meu estômago virou um lança chamas. A filha do Jaime trouxe mais bebida e disse alguma coisa sobre eu ser um babaca. A Sandy estava dançando loucamente com alguém que parecia ser eu. E era. Aquela coisa preta tinha feito um outro Neb nascer e aprender a dançar, o antigo continuava sentado na mesa lendo Mutarelli em alguma outra dimensão. Ou poderia estar realizando os desejos sexuais da filha do Jaime. Numa terceira hipótese casado e com filhos na casa da Bárbara. Em algum plano ainda não descoberto pelos departamentos de física eu ganhava o Nobel de literatura e falava no discurso: “só sei ler e escrever, então tive que me virar com isso.”

    Talvez, para garantir a paz entre todos no bar, seria indicado que só fossem aceitos adeptos do Lubrificante Social. Assim não haveria nenhum problema em sair caindo em cima da mesa dos outros. Em algum momento, sem razão aparente, concluí que era o Super Homem e tentei alçar voo para o infinito e além, mas fui interrompido pela ausência do supernatural e a implacável gravidade. De repente minha cara estava ao alcance de um coturno cheio de um pé com muita vontade de me chutar. Primeiro tentei me teletransportar para a nave do Capitão Spock. Quando percebi que não ia funcionar já e tinham ido boa parte dos dentes que me restavam. Me esforcei tanto para me fingir de morto que cheguei a acreditar que era verdade. O Jaime apareceu com um taco de beisebol e muitos gritos. Apaguei com a certeza de que acordaria muito melhor.
  • Passagem da Vida

    Faça valer a pena, pois mumca se sabe quando estará bebada jogada na sarjeta.
    Entre essa fumaça do cigarro que consumo, tento não pensar num passado...
    Pois agora sou jovem e ainda existe beleza feminina, mas me pergunto..
    Até quando meninas?
  • Peso morto em CNTP [conto]

    Nos últimos tempos tem crescido um sentimento em mim de querer ser abandonado. Acordar e descobrir que todo mundo que um dia me conheceu teve este detalhe menor da vida deletado da memória. Meu número desapareceria do celular das pessoas, meu e-mail nunca mais receberia mensagens e os crianças da rua iriam ter medo da casa abandonada na esquina. Ninguém ia me cumprimentar quando me visse andando até o supermercado, se desse sorte as pessoas até desviariam de mim quando eu passasse. Mas por mais que eu reze, fuja, ou não tome banho, não adianta, o mundo insiste em me atormentar.
    O Bar do Jaime não é o lugar perfeito para se esconder, mas diminui consideravelmente as chances de se ser encontrado. É sujo, as bebidas são de segunda e os frequentadores não são exatamente o que uma mãe quer para um filho quando ele crescer. Vai ver que é por causa disso que o Jaime tem essa cara de filho da puta. “Não tem nada para você aqui.” A moral é assim, fascista. “E para o mico?” Ele coloca uma cerveja no balcão. “O mico também quer alguma coisa quente e uns amendoins.” Brotam uma porção de amendoim e uma dose de conhaque na minha frente.
    Peguei o jornal e vi alguma coisa sobre empregos não serem mais empregos. O que existe agora é prestação de serviço. Me senti no limbo: se não existem mais empregos também não existem mais desempregados. Não sou nada. Como não tenho CNPJ não sou nem números. As pessoas vão continuar por aí me enchendo o saco, mas o governo parece ter ouvido minhas preces. Mas é sempre bom estar preparado, a qualquer momento ele pode enviar um mensageiro do inferno na minha porta dizendo que devo alguma coisa por, sei lá, ainda estar vivo e não ter um CNPJ.
    Se minha leitura tivesse chegado até o horóscopo teria descoberto que hoje não era um bom dia para encontrar pessoas com quem se tem relações sexuais ocasionais (e que meu número da sorte é 13, o que não muda nada porque hoje é 31. Talvez as coisas tendam a acontecer ao contrário para mim). Enfim, não cheguei até o horóscopo, mas a filha do Jaime chegou de não sei onde e passou por mim como um banqueiro que cruza com um mendigo. Me recolho na minha insignificância e continuo comendo amendoim por unidade para o Jaime não me considerar um peso morto e me chutar do bar.
    A dose de conhaque começa a fazer algum efeito e aos poucos vou me sentindo melhor. É como se um pavio de esperança se acendesse dentro de mim. Deus envia um sinal através de uma arara selvagem que pula do meu bolso e se transforma em uma cerveja e outro conhaque. A filha do Jaime passa por mim no vai e vem do salão e não consigo arrancar dela nem um olhar de desprezo. O Jaime me dá muito mais que isso. “Na minha época vermes como você sumiam na noite e ninguém dava falta.” “Acho que estou vivendo na época certa então.”
    Um grupo de três ou quatro engravatados entraram no bar rindo alto e tomando posse do ambiente e tudo que estava nele. “Põe uma garrafa de pinga aqui.” O velho rabugento redirecionou todo seu ódio para eles com uma cara de “onde você pensa que está, imbecil?” “Não vim aqui fazer amigo. Coloca uma garrafa de pinga aqui pra gente, porra.” O mais parrudinho sacou um Pantanal de onças do bolso e bateu com uma só no balcão. Tinha a impressão de que todo mundo estava parado olhando aquela cena, menos eu que procurava a bunda da filha do Jaime no meio de tudo aquilo. Ele, por sua vez, fez menção de recorrer ao sossega malandro que fica permanentemente ao alcance da mão atrás do balcão. “Não é o suficiente?” O parrudinho libertou mais duas onças. Revelando sua condição de refém do capitalismo cruel o Jaime pegou a pior garrafa de pinga que tinha, abaixou a cabeça, e colocou no balcão junto com os copos sem abrir a boca ou desviar o olhar.
    Continuava procurando sem sucesso a bunda da filha dele enquanto os bêbados de butique vivendo uma noite muito louca espantavam qualquer pessoa de bem que quisesse entrar lá. Quando já estava quase convencido de que ela tinha ido embora com alguém que tinha um CNPJ escutei um grito agudo e achei a bunda dela na mão de um dos donos do mundo. Como que por instinto quebrei uma garrafa em um deles que estava mais perto ao mesmo tempo em que o sossega malandro do Jaime acertou o dono da mão no meio da testa. A filha dele veio correndo e chorando na minha direção como uma criança que se perdeu da mãe no supermercado. Abri os braços para segurar ela e alguém me acertou com uma cadeirada por trás. O Jaime pulou o balcão deu um mata leão com cada braço arrastando dois dos trolhas para fora do bar. Depois voltou e jogou os outros dois sacos de estercos na calçada e fechou a porta. Enquanto ele varria os destroços da confusão a filha dele fazia curativos nas minhas costas.
  • Physika MystiKa

    Cansado da procura infinita do fora de si, ao estudar os muitos processos intermediários e primários do existir, em que se entregara a resolução de conflitos dualísticos do corpo-mente, espírito-matéria pelas muitas filosofias mesopotâmicas e posteriormente egípcias, gregas, hindus, hebraicas, árabes, ameríndias, yorubas e congolesas… absorveu o problema da existência mundana e consciência divina sobre outra pressuposição, e se perguntara em pensamentos avassaladores onde estariam os segredos superiores, senão dentro de si mesmo, em seu próprio corpo, psique e coração… resumindo… a vida do aqui e agora, o momento presente, o falar, o respirar, o agir, o sentir… enfim, o viver e depois morrer… a própria existência com todas as suas dores e alegrias, ilusões e fantasias… o bailar constante do bem e mal em si que o movimentava.

    Passou muito tempo até agora na infinita busca externa do Grande Mistério, e olhando para si mesmo… se percebeu esse Grande Mistério.

    Ao sentir-se misterioso, se envolveu em si mesmo com paixão, examinando a si por completo. Vira-se como uma fragrância do todo em tudo, e nele mesmo exalava um perfume do néctar dos deuses. E se auto questionou, dizendo em voz alta para si, em um diálogo monólogo do externo com o interno:

    — Ó matéria pela qual sou constituído, veículo orgânico e atômico de mim mesmo… Ó Sagrado que habita em cada partícula e onda de energia em mim. Foste constituído pelos deuses a Ordem Magna da Consciência Una Superior… A Fonte em que jorra o rio da Sagrada Mística Sabedoria na física de mim mesmo… se te vejo fora não estou dentro, pois, sei que até o que julgo como fora saiu de dentro da outra forma individualizada de Ti mesmo. Então, tudo que saiu de Ti, deve por ordem e dever retornar a Ti. Porque se me conheço e sou conhecido, não é por mim, e sim pelo outro. O que é o externo, senão, o interno alheio exteriorizado em criação e concretização? Ó Sagrada Mística Sabedoria… divina, amada e desejada… te venero em mim mesmo, e a partir de agora não vejo e nem sinto diferença entre o eu e o outro, entre a mente e o objeto… ao te procurar em mim mesmo, percebi que tudo era eu, diferente de quando eu te procurava fora, onde tudo era o indiferente outro externo fragmentado, partidário e polarizado … estava eu perdido procurando fora o que sempre estava comigo. Ó Grande em mim mesmo, revela-se para mim! Porquanto, sou a chave da minha própria prisão… a resposta da minha própria pergunta… o achado da minha própria busca. Dentro de mim está o mercúrio, o sódio, o enxofre e todos os elementos para constituir o ouro puro dos alquímicos, forjado no forno do meu ser, constituindo a Grande Obra em mim mesmo. Assim Eu Sou! Sempre uma única coisa… o superior… o algo mais… o coletivo individualizado… a supra consciência multiversal uniforme que me forma.

    Tornando-se ao ‘UM’, ao se livrar do julgamento que discrimina e separa todas as coisas, vira que o fragmento era uma mera ilusão e verdadeira ignorância… era a criança; o velho; a bela donzela; a senhora fragilizada; o rapaz bonito e valente; o fraco doente; o vivo; o morto; a barata; o verme; o cachorro; o tomate; a carne; o theion divino… não havendo em si e no outro diferença, a partícula se dissolveu em ondas de energia penetrando todas as coisas existentes inexistindo… e de todos teve compaixão, em que ele mesmo era o todo em tudo apaixonado.

    O canto do grilo noturno era ele mesmo a embalar o movimento das estrelas no escuro dos céus…

    Era o próprio galo o despertando pela manhã…

    O gato ao caçar o rato…

    A venenosa serpente a descamar-se…

    O velho vizinho que lhe desejara bom dia era ele mesmo criando vínculos de proximidade em gentilezas…

    O garoto arrogante e brigão…

    O homem chato…

    A lesma se rastejando em sua gosma…

    O esquadro e o compasso de sua própria construção…

    A mesma escada que tanto desce como sobe…

    O engodo de si mesmo e a verdade do outro…

    Assim, em sua livre busca se perdeu nele mesmo em quietude… se encontrando no outro em prisioneiro movimento… em um labirinto em que o dentro e o fora o representava inconscientemente no coletivo individualizado do ordinário Grande Ser em sua pequena forma extraordinária.
  • Precauções do COVID-19

    Se cuide do jeito certo
    Se os sintomas surgir
    Se afaste de perto 
    Depois chame um médico

    Mantenha distância do infectado
    Fique o mais possível afastado
    Mantenha-se mascarado
    Faça tudo que logo estará curado

    Se o resultado der negativo
    A proteção deverá continuar
    Se esforce para seguir protegido
    Que logo a vacina chegará
  • PRÓXIMA PARADA

    Toda manhã, Mazin passava na 'padoca' no caminho para a estação. Levantava o indicador para o atendente e pedia: "O de R$3!".
    Seu Dadá, velho morador do bairro e dono da padaria era quem atendia, servia-lhe meio copo americano de café preto e uma fatia de pão quente.
    A viagem de trem levava pelo menos duas horas. De uma estação terminal a outra. No caminho, alguém puxava conversa e Mazin se limitava a resmungar trivialidades, como estar fazendo sol ou chuva.
    Numa manhã, o trem parou por quinze minutos que pareciam horas. Um acidente na linha do trem. "Esta composição está aguardando a liberação da linha", o aviso veio pelos auto falantes. Em meio a multidão espremida, Mazin avistou a mulher mais encantadora que já viu.
    Com esforço se aproximou da moça. Tentou falar de cinema, TV, games, música e até falar mal do governo genocida. Gastou seus melhores clichês em quinze minutos.
    A mulher o olhou e deu um breve sorriso, mal pôde ver seus dentes. Ela ameaçou tirar os fones e apenas resmungou, "Ainda bem que está nublado. Seria péssimo se estivesse aquele calor."
    "Seguindo. Próxima Parada Cascadura", anunciou o maquinista.
  • Quarta Feira de Cinzas de 2022

    Meditação do Santo Terço por MTBE em: 02/03/2022 as 08:00. Inicio hoje refletindo sobre o “tripé” que fundamenta o tempo litúrgico que se inicia: a Quaresma, a Quarta-feira de Cinzas marca o início desse tempo que é forte, simbólico e me remete a uma espiritualidade engaja e comprometida com o bem comum, mas penso que o JEJUM, a CARIDADE e a ORAÇÃO precisam também ser resultado de uma prática engajada e comprometida, por isso peço a Deus iluminação e sabedoria para meditando o Santo Terço trazer uma reflexão pertinente à nossa realidade.
    Primeiro Mistério, certamente a caridade me trona ainda mais apto à Misericórdia Divina, não penso em “romantizá-la”, mas é partindo dela que posso atingir o dom da  Humildade e assim reconhecer minha limitação diante dos mistérios da vida e para isso preciso estar em estado permanente de oração engajada e comprometida socialmente. Que assim como Maria que ouviu o anúncio do anjo e acolher a vontade de Deus, eu possa compreender os fatos atuais com esperança e otimismo.
    Segundo Mistério, a caridade também é muito mais que dar esmolas ou fazer ações filantrópicas, muitas das vezes para aparecer bem na foto ou nas propagandas midiáticas, creio que Ela deva ser resultado de um amor-doação, quer seja por uma causa, quer seja por um projeto de vida, por mais que na política e na religião algumas vezes essas duas vertentes se contrastem. Penso muito em Maria que não reputou e dirigiu-se apressadamente, mesmo com as dificuldades, grávida e pela região montanhosa a ir servir sua prima Isabel, ela pôs sua oração em prática mesmo quando poderia ter ficado apenas na intencionalidade de que “Deus já está no comando”.
    Terceiro Mistério, abdicar do que eu gosto nunca foi fácil, no entanto, inúmeras vezes tive que assim fazer devido à casualidades da vida, é um processo difícil e se torna ainda mais complicado quando oque tenho que renunciar ao mesmo tempo me dá prazer. Nesse período da quaresma costumamos fazer abstinência de carne, por exemplo, mas fico me questionando, será que me compensa não comer carne e continuar a meu bel-prazer julgando, caluniando e menosprezando as pessoas e não fazer o mínimo esforço para compreender todas as pessoas como próximas? Pensando que nossa sociedade vive vários retrocessos me pergunto, “qual deve ser minha posição política e religiosa, ser omisso diante de ações e atitudes que não proporcionam a vida, ou reconhecer que Jesus nasceu na pobreza, foi um refugiado e que diariamente varias  crianças passam pela mesma situação, vitimas e refugiadas?”. Que assim como Maria e José que souberam suportar as dificuldades que foi o nascimento de Jesus, eu possa ter as condições de lutar por uma sociedade de fraternidade e paz e também as famílias tenham a mesma força e coragem para seguir adiante.
    Quarto Mistério, a quaresma é um tempo propagado como de mudanças de vida, acredito que essa mudança passa pela adesão a um conhecimento que liberta e aí contemplo Jesus diante da sabedoria de Simeão, percebo aqui o quanto é importante reconhecer na ancestralidade o potencial que gera, não somente alegria, mas aponta para as consequências do transpassamento da dor. Que nessa quaresma Maria seja esse exemplo de fortaleza e de oração comprometida para tantas mães e pais que experimentam o abandono da Educação pelo poder público por isso sofrem a transpassação da dor diante do avanço da criminalidade em suas casas.
    Quinto Mistério, acredito que contemplando Jesus entre os doutores da lei eu possa compreender melhor o quanto Ele preza pela sabedoria. Estou certo que este mistério está profundamente relacionado à Campanha da Fraternidade desse ano, “Fraternidade e Educação” Fala com amor, ensina com sabedoria. Certamente Jesus respeita os ensinamentos dos judeus, mesmo tendo sua convicção sobre o testemunho da verdade, com isso Jesus me mostra o quanto é importante escutar com amor para também alcançar à sabedoria. Que nesse tempo eu possa vivenciar muito mais que discursos, falas e palavras e que a oração seja ação, que o jejum seja abrir mão do que me leva a errar e que a caridade, seja muito mais que dar esmolas para fins filantrópicos e seja mais dar amor, atenção e acolhimento. Assim seja.
  • Rato condicionado perdido no labirinto de Skinner [conto]

    Acordei de novo. Não lembro do que aconteceu ontem a noite. Não faz muita diferença. Não gosto de lembrar muito das coisas. Lembranças podem arruinar uma vida inteira em busca de porquês. Também não lembro de onde vem as dores, tenho a impressão que elas sempre tiveram aqui. Sempre soube que é muito mais fácil aprender a conviver com os problemas do que tentar resolvê-los. Não gosto de ir contra minhas convicções, e a experiência me mostrou que o melhor jeito de conviver com os problemas é bebendo. Por isso, antes que perceba que estou tremendo a ponto de não conseguir andar sem me escorar na parede, fiz um café com conhaque e raspei dois pinos que achei no bolso da calça de ontem para desentupir o nariz. Foi o suficiente para me sentir vivo, mas quando os urubus no estômago enviaram os primeiros sinais de que precisavam de mais carniça fui para o bar do Jaime.
    Entrei no bar e o velho me olhou como se eu fosse um fiscal do imposto de renda. “Me dá o que essas moedas puderem pagar.” Ele empurrou as moedas para a gaveta e me deu meia dose de pinga. Um tipo texano surgiu como uma aparição do meu lado falando como quem pode mudar o rumo de uma vida. “Tá precisando de dinheiro?” “Um homem precisa pagar suas contas.” Ele estendeu uma nota de cem com uma mão e um trinta e oito com a outra. Não estava preparado para aquilo, não é o tipo de trabalho que normalmente me oferecem num fim de tarde de uma terça-feira ensolarada enquanto estou curtindo meu momento de entretenimento forçado. “Você sabe usar uma dessas?” “Sei.” Não era o que eu estava acostumado a fazer, mas também não estou acostumado a viver sem pagar o aluguel. “Você só me dá cobertura junto com o Grandão ali e o Tonhão aqui.” “Certo.” “Se você sobreviver te dou a outra metade do pagamento.” Essa última fala me fez pensar que talvez aquele trabalho não fosse para mim, além de esperar alguma coisa melhor como informação, tipo: “é um negócio arriscado, então fica esperto” ou “não é nada demais, só precaução.” Ele me mandou esperar na frente do bar com os outros e encostou no balcão para tomar mais uma.
    Ficamos na frente do bar como capangas guardando o QG. O Grandão acendeu um cigarro, pedi um para mim e colei do lado dele. “Que tipo de negócio vamos fazer?” “Não interessa, só se preocupa em proteger o chefe.” “Não sou da polícia, só quero saber onde estou me metendo.” “Você recebeu uma boa grana e uma arma, com certeza não é para olhar as crianças no parquinho enquanto a Dona Dondoca fode com o jardineiro.” Não parecia que seríamos grandes parceiros de trabalho. Também não sei se quero trabalhar com essa organização. Me parece que eles atuam numa faixa de mercado com a qual não estou muito familiarizado. Foi nesse momento que pensei: que bom que eles não sabem que nunca atirei em nada. Em seguida um pensamento atormentador começou a sombrear minha mente: e se eles soubessem que eu não sei atirar só pelo meu jeito pacífico de otário e me pegaram para ser bucha de canhão?
    Quando já estava perto de voltar para o bar e devolver a arma, o dinheiro e pedir desculpas por ter aceitado um trabalho que não tinha coragem de fazer o chefe saiu pela porta vai e vem. “Vamos rapazes, chegou a hora de me recompensar por pagar vocês tão bem.” Entramos os quatro dentro do Santana que estava parado na esquina e rumamos para o encontro onde é melhor levar gente armada para te defender. Saímos sem fazer barulho e andando dentro do limite de velocidade. “Olha só, nós vamos fazer assim: eu e o Tonhão vamos entrar na casa, Grandão, você fica na porta de olho no que acontece aqui fora. E você, Tripa Seca, vai ficar com o carro parado na esquina da frente observando o arrabalde. Qualquer coisa errada você aparece na frente da casa já no piloto que o Grandão sabe o que fazer.” Era isso? Ficar no carro vendo o movimento da esquina? “Ok.” “Presta atenção, se você for atirar, atira para matar. Se a gente não sair em quinze minutos vocês entram fudendo com tudo.”
    Definitivamente eu não estava pronto para aquilo. Todo momento eu tentava chegar a uma fórmula que me permitisse desistir da empreitada e sair dali carregando minha honra e andando pela vontade das próprias pernas. Como diria meu pai, o covarde é quem sobrevive para viver com a glória do herói. Não quero a glória de nada, só sobreviver já me basta. Quando reparei a gente estava passando pela Vila do Médicos. O chefe parou o carro numa esquina e mandou eu assumir o piloto. “Tá vendo onde estão aqueles dois carros parados? Deixa a gente na frente daquela casa. Depois para no fim da rua. Fica esperto no Grandão que ele que vai te dar o sinal pra você vir buscar a gente. Se você notar alguma coisa errada aqui fora você senta o dedo e vem buscar a gente aqui na frente.” Notar o que errado? Um bêbado nessa rua ia me parecer estranho, deleto ele?
    Tremendo e sem saber o que fazer deixei os três na frente da casa e me posicionei onde achei que o chefe tinha dito para parar. Coloquei o cano no colo e fiquei olhando pelo espelho retrovisor. O Grandão ficou parado na frente da casa conversando com outro brutamonte que tinha aparecido lá. A cada cinco segundos o Grandão dava uma olhada para mim parado na esquina. Aquilo não parecia certo. Agora era a hora de aparecer atirando? De repente um barulho de pneu derrapando fez eu dar um salto no banco e a arma cair no assoalho. Me abaixei para pegar e quando levantei o carro que tinha feito a curva na esquina a milhão parou na frente da casa e dois caras saíram pela porta detrás e começaram a atirar a esmo. Liguei o carro, engatei primeira, virei a esquina sem chamar a atenção e fui embora antes que eles percebessem minha presença.
  • redução de danos

    poucos estão acordados
    para a corrida
    da redução de danos
    os outros acham que não é com eles
    fazendo crianças
    comprando leite
    rezando o terço
    criam a geração
    que não terá água
    e terá que ser outra espécie
    para viver no mundo que herdará
    no salão do cartola clube
    o barulho da tosse é uma despedida
    de bons tempos antes odiados
    no maracatu pasteurizado da vila madalena 
    a juventude se afoga com alegria
    no limbo da cegueira
    mertiolate que não arde
    paliatvos para o brasil sem rock
    sem nobel
    sem governo
    pão invísível e circo de horrores
    amanhã tem mais?
  • reflexão simples

    a humanidade tem um gosto amargo.
  • Respiração

    Tá cada vez mais difícil
    continuar vivo ultimamente
    Meu corpo anda exausto 
    da poluição
    da minha mente

    Eu tenho sido suicida
    Um esboço sem graça 
    de mim sangrento
    rindo
    sem dente

    Ontem
    eu soube me amar
    Hoje em dia nada 
    faz
    que eu tente.

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