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literatura marginal

  • Lembrar

    Pena que nada
    acontece duas vezes
    quando a gente quer
    repetir
    de novo

    "Tudo que eu já fiz
    de novo acontecesse,
    cem vezes dessas 
    ou mais de cem vezes"

    Diz pra mim
    que não disse sim
    nas vezes que eu pedi
    que me esquecesse

    Sinta minha falta,
    diz que vai voltar
    atrás

    e vem me ver um dia desses.
  • LEVANTE DO INACABADO

    Acorda para o mesmo,
    antes de abrir os olhos
    arranja a eternidade
    estancada no instante.

    Está para o mesmo,
    o processo atualiza
    fome sem controle
    repete o sem fim.

    O inicio é o fim de outro desmaio;
    franjas do arco envergado,
    tudo é um acordo de preservação.

    Pesam pálpebras vultos pintados
    numa caverna soterrada no Piaui.

    Uma assinatura na lápide rasga
    o véu que separa o negrume;
    é encarnado inumerável
    o levante do inacabado.
  • Lua de Meu Existir

    Minha Amada que fertiliza o meu existir.

    Em plena beleza me perco em teu reflexo deitado sobre as águas escuras de minha alma.

    Mesmo com toda calma e mansidão de tua noite em que te revelas nua, cheia e completa.

    Teu reflexo iluminador é tremulo, desconexo e vibrante, intercalado por linhas negras que desconfiguram em saudades meu pobre e solitário coração de poeta.

    Ao subir lentamente cheia, contemplo a tua chegada no meu inabitado lago interior.

    Ao passo que te levantas se abre vagarosamente uma estrada de luz ‘brancamente’ prateada em meu encontro.

    Ó! Doce fonte de luz que me intensifica… ainda que eu possa ser tocado por tua energia iluminada, estás tão ‘lusitaneamente’ longe de mim…

    De súbito me imagino a caminhar em tua prateada e tremula estrada, então, poder ao menos abraçá-la calorosamente, enquanto ainda não flutuastes em mágica para o mais alto dos céus estrelados… tua influência elementar do Sagrado Feminino em mim, desperta a Consciência Mística da intuição emotiva do meu ser, quebrando os meus viciantes padrões interiores em ciclos de transformações ascendentes e decadentes de toda uma existência apaixonada.

    Como eu te amo, Meu Amor!

    Ó! Fruto do meu desejo insaciável…

    Sobes agora livremente… e tua estrada de luz desaparece nas águas de minha emoção, e agora debaixo de tua luz prateada, volto a minha singularidade pequenina e frágil, onde realizo o meu ritual de amor à tua Lua Cheia embelezada em sua aureola majestosa repleta de teu amor.

    Nisso, me vejo sendo irradiado pela luz azul de sua aureola… meu corpo negro encandece inflamado pela sua onda radiativa, tornando-se fosforescente, atraindo toda espécie de pequeninos seres noturnos em divindade graciosa. Pela tua dádiva amorosa, tornei-me um ser luminescente, e… quem me dera ser carregado pelos pequenos vaga-lumes que agora me cercam, no único amoroso objetivo de poder pousar em teu grandioso ventre oculto nos teus misteriosos segredos noturnos.

    Tua pele branca me seduz, teus cabelos de nuvens negras a flutuar me enfeitiçam. Como és bela! Como sou teu!

    Embora possa, eu, ser um diurno ser flamejante, de que me vale toda essa potência… se em minha forte luz te ofusco, ao ponto de nem eu mesmo poder contemplar a tua clara beleza? Estou preso na majestade de mim mesmo, e nisso, sigo meu solitário baile diário.

    Ó! Meu Amor, meu doce Amor… Meu Encanto! Como te imagino e me imagino juntos… ao te contemplar no silêncio de uma tarde em que apareces repentinamente no reflexo espelhado no limpo céu azul… mas, esta linda visão que tenho no dia, bela e cheia de graça… apenas se faz ecoar, ecoando a ecoar… a ecoar.

    Em tua face clara, lusa e juvenil me vejo iluminar. Abrindo meus olhos… retirando de mim as impregnações infrutíferas e residuárias de meu sofrido passado e presente agoniante tedioso.

    No meu mágico ritual… derramo as águas de aquários em uma bacia de prata e deixo exposta à luz de tua Lua Cheia, para que parte de Ti possa se desprender e lá habitar. Ponho minhas mãos sobre as águas e o recipiente, e faço riscos imaginários mágicos escrevendo palavras místicas de amor… em oração Celta na alta voz… dizendo:

    — Ó! Sagrada Mística Sabedoria Lunar… que tua luz fêmea caia sobre essas águas, envolvida na Magia da Prata e, de suas perenes divindades noturnas do Argentum branco e brilhante. Invoco sua áurea iluminada que reflete o poder divino de tua purificação e amor. Ser gigantesco feminino que controla todas as forças ocultas das águas naturais, que constitui todos os seres orgânicos e abarca os seres inorgânicos… se faça aqui fluidamente presente no Sagrado Agora… vem, e me Ilumina!

    Ao terminar meu mágico culto de oração… vi sua luz em forma feminina descer em baile e encanto, se deleitando nas águas… transformando-as em plasma prateado. Ali mesmo sob a luz de tua magnífica e sagrada presença me despi de minhas rudimentares vestes, assim como, também, estavas despida dos teus véus de nuvens negras. Derramei o teu leite prateado em meu corpo nu… pude te sentir me tocando todo e por completo, onde me acariciava com beijos de uma paixão apaixonadamente purificante… a este tocante… me perdi em fluxos energéticos de amor que me fazia flutuar e ecoar… ecoando a ecoar.

    Quando regressei a mim… já tinhas desaparecido, restando apenas a lembrança do teu beijo, teu calor, tua sensação purificadora e teu carinhoso amor, e teu céu noturno no vazio estrelado.

    Minha Amada… silenciosamente fechei meus olhos em reverência, e, de mim, restou lhe dizer:

    — Te amo… Te amo… e Te amo!
  • Lua Escura

    Querida minha

    Hoje passeio em devaneios pela noite escura a sua procura
    Hoje não me contemplaste com tua bela face iluminada, e triste caminho por essa trilha incerta do existir sem ti

    Apenas um vazio em meu coração palpita reclamando a sua presença
    Na tua ausência percebi que o céu era vasto e imenso de estrelas a cintilar
    Porém, vazio do mistério e do segredo de te amar

    Minha Querida
    Onde foste que não me levaste
    Por que de mim te ocultaste
    Sabes que te amo, e sem ti, sou cego em meu solitário noturno caminhar

    Triste, sento-me novamente na beira do meu interno lago, fecho os meus olhos no escuro do infinito abismo de escuridão… de que me importa os olhos abertos se não posso te contemplar fora… volto-me para morada do coração, e lá te imagino a me iluminar com teu claro sorriso.

    Te vejo nos meus amorosos pensamentos deitada sobre o teu céu escuro na cama ilustrada de planetas errantes e estrelas, em pequenos passos lentos e silenciosos vou ao teu encontro, e vejo que dormes encoberta pela sombra da terra. Apenas silenciosamente te contemplo, admirando o teu sono profundo… estou aqui contigo Meu Amor

    Em minha meditação adentro em teus mágicos sonhos… como estás bela a dançar com tuas guirlandas de estrelas. De repente, nossos olhos se encontraram, e não entendi porque ficaste estagnada com minha sutil presença, e lágrimas vi cair em seu lindo rosto que se evaporaram em uma cortina de serenos noturnos… de súbito repentino, me vejo te abraçando… e novamente nada entendi, porque evaporaste súbita e repentinamente dos meus braços como uma gota d’água a tocar uma superfície aquecida… e solitário me vejo, também, chorando, culpado por interferir em sua intimidade.

    Ó! Meu Amor… que maldição é essa que nos prende ao estar separado e nos separa ao estar preso?

    Te vi triste Meu Amor, e em tristezas doloridas estamos
    Dançamos juntos de mãos dadas ao som dessa música melodiosamente triste
    Nossos corpos chorando se juntam embalados por essa solidão
    Que segredos o seu coração guarda?
    Que mistérios esconde a tua face oculta?
    Do que sabes que não sei!?
    Por que tamanho silêncio?
    Não percebes que estou aqui para ti!
    Por que me abandonaste hoje?

    Somos tocados pela dor da separação…, mas, haveria tanta beleza se estivéssemos agora juntos?
    O que separa o Criativo do Receptivo senão a beleza do caminhar separado, ao se unir no imaginário! Então, caminhemos eternamente juntos com nossas mãos dadas na doce solidão a imaginar

    Quero te ouvir, que tristeza melodiosa canta seu coração
    Neste céu silenciosamente noturno, em que ansiosa volta tua face iluminada para baixo… o que pensas?
    Quero te compreender… me fale de tua tristeza, pois sei que a oculta quando enxuga suas lágrimas rapidamente em gotículas de sereno

    Por que só te revelas para mim em parte, se para você sou o todo de tudo em toda face?

    Te vi sentada no trono da noite
    Suas mãos acariciavam o rio do Nilo celeste
    E sentada sobre os seus calcanhares na taça da flor de lótus, o rio luminoso em que tocas arrasta infinitas flores estrelares
    Estás festivamente adornada de luminescências e cintilantes aureolas Meu Amor

    Vi uma beleza sobrenatural no seu amável rosto…, e, uma tristeza oculta… um mistério!
    Em sua majestade vejo que rege a Estrela Mágica, e oito vezes com sua foice crescente a decepaste do noturno céu enviando-a para mim, como a linda Estrela da Manhã. Porém, oito vezes com sua foice minguante, novamente decepaste do céu agora diurno, tomando-a de volta para si, como a linda Estrela Vésper… Essa Estrela é a nossa Mensageira do Amor… de nosso solitário Amor

    Dorme tranquila Meu Amor
    Em sua luz encoberta de encantamento na paz de tua força interior

    Sinto seu amor… Meu Amor… pleno de força plena
    Sua atmosfera mágica me envolve no frescor de seu sereno carinhoso pelo qual solitário me condena

    Hoje! No breu da noite
    Estudarei em meditação as tuas leis celestes
    Na sombra terráquea em que dorme te vestes

    E, nesse céu em que hoje de mim te ocultas
    Esperarei no amanhã a sua doce poesia
    Pelo qual me revela a sua face oculta
    Na companheira doce tristeza do meu amargo solitário alegre dia

  • MANDELA

    Somos parte
    Da vida de Nelsinho.
    Contaremos sua história
    Nos livros de história:
    O homem de alma livre
    Cárcere de sua cor.
    Amordaçado,
    Gritou livre nas vozes
    Dos apartados.

    Ganhou
    Liberdade,
    Eleição.
    Governou
    Com igualdade,
    Para todo tipo de cor:
    Da apartada,
    Ao apartador.
    A vítima,
    Nunca vitimou.
  • Mecanicidade Metódica de Si Mesmo

    Voltara-se para dentro de si como nunca, antes, já vivenciado… se viu completamente protegido da ventania de egos que soprava contra sua casa forte. Resolveu olhar para si mesmo com os olhos da Graça, e se viu com os olhos Divinos, quando, de repente, abriu em sua mente um panorama existencial de sua trajetória cósmica unilateral, e sem partidos. Se vira nu… nu de alma, embora o seu corpo estivesse vestido.
    De tal forma sublime, ignorava em difíceis sacrifícios os seus inúmeros sofrimentos psicofísicos, para elevar-se muito além de suas fraquezas. Vira a mecanicidade e o voluntariado dos seus mais íntimos sofrimentos, exposto em um quadro mental de sua consciência adormecida, encoberta por um grosso cobertor de culpa, na cama psicológica dos seus erros e defeitos. A sua triste, entediante, monótona e adormecida consciência, amontoava sentimentos e pensamentos de um cansaço íntimo frustrante. E sempre lamentava por constantemente não conseguir, apesar de muito esforço, o fruto dos seus desejos, em que se sentira ofendidamente enganado por pensar que a vida lhe devia tudo que não fora capaz de conseguir.
    O mundo lhe devia satisfação.
    As pessoas ao seu redor tinham por obrigação, e direito, admirá-lo, e, também, a primazia de honrá-lo.
    Sabia que era bom e honesto em tudo que fazia, e, em tudo que se propôs a realizar. Porém, não entendia tal barreira energética que o prendia a má sorte, e sofria com a rejeição e a inveja alheia voltada contra ele. Isso bem que lhe parecia uma maldição, um encanto malicioso. Pois a inveja alheia lhe cobria nas mais simples coisas, manifestando nas mais simples formas… a sua simples maneira de sorrir… seu educado comportamento… a sua forma singela de olhar… a sua voz doce e agradável… o jeito em que prendia seu cabelo… as suas boas ações para com o próximo. Sendo, que por mais simples e singelo fosse em sua natural conduta, maior lhe seria a inveja alheia. Por ser o oposto do política e corretamente manifestado, envolvido em uma pureza e inocência de proteção e amor divino, que o fazia distante da hipócrita ironia social.
    Verdadeiramente, um doce de homem… lindo, maravilhoso, gentil e encantador.
    Nos ambientes era femininamente amado e masculinamente rejeitado, ao mesmo tempo que era masculinamente invejado e femininamente odiado… por um segundo o glorificavam o colocando no mais alto pico dos interesses, contudo, em um complô inconscientemente coletivo, silencioso e secreto, o sabotavam, precipitando-o pico abaixo do mais alto desfiladeiro, ignorando-o nas conversações grupais, e lhe presenteando com as viradas de olhos e costas. Por isso, tinha pena e dó de si mesmo, ao se ver abandonado e discriminado em invejosas soberbas alheias. E por esse sentimento que o apunhalava nos grupos sociais, deteve todo progresso interior de seu MARAVILHOSO SER, se trancando em si mesmo, envolvido em sua própria bolha de medo, rejeição, complexos e culpa no calor refrescante de sua ilha desértica.
    Em sua mente em conflito, inúmeros ‘eus’ perversos e ressentidos, impregnados de ódios e maldições, tapavam com um lençol negro o sol da Autorrealização do seu SER. Culpava tudo… odiava o mundo… tudo era tão feio e cinzento… e as pessoas eram por demais perversas, maldosas, egoístas e interesseiras.
    Entretanto, ainda não sabia ele que sua existência inteira estava alienada na identificação com essas inferiores emoções. Ao ponto de não poder enxergar além de suas bolhas de sabão, assopradas por si mesmo. Essas inferiores emoções eram-lhe feridas abertas inflamadas de sentimentos de vinganças; ansiedades; ressentimentos pessoais e odiosos pelos males alheios lhe causado; pensamentos violentos; inveja; ciúme; medo; desconfiança de si e dos demais; pena de si mesmo. E… em sua autoanálise resolveu limpar o pus de sua ferida, que constituía em uma grave enfermidade difícil de curar. Por isso, ali sentado, resolveu sacrificar todos os seus sentimentos, emoções e pensamentos de bem e mal. Perscrutou a si mesmo, investigando a sua triste alma como algo alheio ao seu ser. Ausentou-se de si, sobrevoando todo o fato interno e externo, e se vira como um fósforo, morando em uma caixa de fósforo. E se percebeu tão frágil ao ser inflamado pela cabeça ardente dos outros palitos, ao serem riscados na lateral da caixa. E, se perguntava: “Por que tenho que me ressentir pelos sentimentos alheios e externos a mim?”… “Por que as palavras e atitudes dos outros me incomodam tanto?”… “Por que me sinto ofendido por suas más ações?”. E, também, questionará: “Por que preciso que me tratem bem ou me bajulem?”… “Por que necessito do alento externo e dos seus aplausos?”… “Por que me render ao bem e mal de todas essas coisas e do mundo?”. Intentara que sacrificando seus anseios e sofrimentos, e sacrificando mais ainda a si mesmo, poderia se livrar da prisão cíclica da caixa de fósforo, de esperar na fila entediante do abrir e fechar da caixa, o momento disfuncional de ser o próximo palito a ser riscado.
    Nisso! Uma ideia clareara em sua mente racional… o atraso… pensou na ponderação… não reação. E decidiu fazer um desafio a si mesmo, pondo um pé atrás, dizendo em alta voz:
    __ De agora em diante… silencio todos os meus sentimentos e emoções. Pois, a graça da felicidade e alegria de viver é um presente que só eu próprio posso me dar… e ninguém mais… e nada mais.
    Vira a Vaidade, a Inveja, a Tolice e todos os outros sentimentos agregadores de sofrimentos dentro de si… eram todos ‘ele’ mesmo. Sua versão maldosa… e como era feia, magra e ressequida… pele e ossos. Percebeu que essa versão Maldosa do SER e de ser, se constituía de inúmeros ‘eus’ demônios, apresentados como os diversos aplicativos funcionais de sua totalidade Maldosa motora… Viu o seu ‘eu’ Mentiroso com seus filhos Calúnia e Difamação seguindo o seu ‘eu’ Medo, pai do seu ‘eu’ Desgraça, que era um ‘eu’ bebê de leite, da mãe ‘eu’ Ignorância… vira que todos os seus ‘eus’ demoníacos amantes dos prazeres, drogas, porcas sexualidades, luxuria, classismo, falsidades, ganancia, egoísmo, vaidades, cacoetes e bajulações eram escravos de algo externo ao seu SER. Nisso!… Mais uma vez intentará na totalidade do seu SER, como o todo de tudo em sua infinita paz de um amor inefável… e vira os seus pequenos demoníacos ‘eus’ em agitação constante, dependentes do externo e alheio… vira a vítima… e era ‘ele’ mesmo… vira o mundo… e era ‘ele’ mesmo. E, disse:
    __ Como és feio, pequeno, medroso, fraco e pidão. Se faz de vítima constantemente só para obter atenção alheia. Pensa que o mundo gira ao seu redor, e afirma com toda convicção para se justificar que cada cabeça é um mundo, não conhecendo o seu próprio mundo, e julgando com imensa culpa o mundo alheio. Ó criatura ignorante e medrosa, eu te repudio em mim… como ainda não posso me livrar de ti, pelo fato desse corpo estar preso ao povir… te colocarei rédeas, e cavalgarás apenas pelo meu comando, e no caminho que eu indicar… Ó besta cruel de mim, te enfiarei na prisão e verá o mundo apenas pelas grades da sua jaula… Eu agora sou o Senhor de Mim, o Dono da Casa… Construí agora um farol forte no meu centro motor, para a autorrealização intima do SER DIVINO que Eu Sou, e estou em constante auto-observação luminosa, em todas as atividades que minha consciência atuar… Não sorrirei alegremente quando me bajularem, e não sofrerei tristemente quando me humilharem…, não amaldiçoarei com palavras más aos que me amaldiçoam…, não ferirei nem mesmo em pensamentos os que me ferem… Estou agora livre, porque nada e nem ninguém tem o poder de me fazer feliz ou triste… grande ou pequeno… feio ou bonito… perdedor ou vencedor. Não estou no controle do mundo… e por saber disso… não me deixo mais ser controlado pelo mundo. Pois, se ignorantemente digo que estou no controle de tudo ou de todos, aí sim, estarei controlado por tudo e todos. Portanto, não sou mais cúmplice da infraimaginação e sua autoimagem de sonhos e fantasias do externo alheio de coisas, ambientes e pessoas.
    Simples de mente e sentado. Sentira uma energia de imensa alegria que expandia de dentro para fora. Uma força calorosa o aquecia por dentro, e no centro do seu peito havia um vazio iluminador potente de energia. Em pleno sentimento do divino sagrado, uma paz aconchegante o cobria de uma luz melosa de ouro, lavando todo seu corpo da cabeça aos pés. O mais Alto dos altos o ungia com azeite dourado. Dos seus pês brotaram finas raízes de luz dourada, que cresciam, aglomerando e se bifurcando, lenta… e rapidamente, adentrando a terra e engrossando seus tentáculos como raízes de figueira a procura das doces águas subterrâneas.
    Sentiu em sua destra, na parte superior ao meio de seus olhos, um ponto de energia vital que expandia… sua visão se aguçará, e pontos de luz faiscante se via. Seu coração calmo pulsava. Percebeu-se não parte, porém, algo que por espécie não poderia ser negado. Algo do Amor Divino… algo do ser amado… algo a ser puramente vivenciado. Tudo era tão forte e tão intenso, sentia tudo e, todos sentia… sentimentos que em sua pele doía, em sua pele ardia. A energia vivificadora atravessa seu corpo se movimentando em espiral, adentrando e saindo, formando em seu centro motor o ponto ‘X’ do oito universal. Assim, compreendeu a sua própria mecanicidade, e como máquina orgânica biológica e alma metódica intelectual, se deletou. Despertando a Consciência Transcendental na íntima recordação divina de si. Na sagrada sabedoria popular que diz: “Quando um não quer, dois não brigam!”

  • Memórias de um empurrador de árvore [conto]

    Nunca entendi porque a Cláudia não gostava de comer queijo ralado barato. O macarrão podia ser uma massa qualquer de ovos, o molho de saquinho com catchup, a salsicha podia ser qualquer uma, mas o queijo tinha que ser faixa azul. Se não fosse o legítimo ela não comia e ficava emburrada. Era quase uma afronta. Uma vez o pai dela disse que ela era igual a mãe dela, só queria coisa de marcas famosas. Mas isso nunca fez muito sentido. Ela adorava chocolate ruim. Cheguei a gastar mais com essa exigência que com todos os outros ingredientes da macarronada juntos. E estamos falando de um momento da vida onde comer uma barra de chocolate ruim era um luxo.
    A gente se conheceu na faculdade. Eu fazia administração e ela publicidade. Na verdade foi trabalhando. Ambos precisávamos de uma bolsa pra viver, e a biblioteca precisava de monitores. No alto dos meus 19 anos nunca tinha estado tão perto de alguém como a Cláudia. Vibrante, bonita, inteligente, confiante. Queria passar o resto da vida com ela. Não tenho a menor ideia do que ela via em mim. A gente ficava conversando a maior parte do tempo sobre os problemas da minha família, e eles não eram interessantes. Mas ela dava risada, e eu também. Nós estávamos nos tornando amigos, e aquilo me enlouquecia.
    Nunca tinha tido um namoro sério. Tinha ficado com cinco garotas na vida e transado só com uma. A Camila era uma amiga da escola. Nenhum de nós dois tinha uma segunda opção, então a gente acabou ficando umas vezes. Era estranho. Nós mal nos falávamos na escola, mas no fim do churrasco a gente sempre acabava se beijando. Transamos no dia da festa de formatura, mas só eu era virgem. Tudo foi muito estranho também. Na cabine do banheiro do salão onde era a festa. De repente ela abriu minha calça e montou em cima de mim e eu tava todo gozado. A Márcia, que era melhor amiga dela, estava transando com o Carlos na cabine do lado. Pensando agora acho que elas tinham combinado tudo aquilo.
    Enfim, mulheres não eram minha especialidade. Não sabia muito bem o que fazer com a Cláudia. Passei horas pensando em como ia convidar ela para um encontro. Depois de um tempo que a gente estava namorando ela me contou que sempre esperou eu convidar ela para sair, chegou até a pensar que eu não queria nada com ela. Lembro que em uma sexta-feira cheguei decidido. Na quinta a tarde tinha perguntado para ela se ela ia numa festa de república que ia ter na sexta. Ela tinha dito que não sabia, que ninguém tinha chamado ela. Mal dormi aquela noite arrependido de não ter convidado ela aquela hora.
    Apesar de toda a minha certeza passei a maior parte da manhã me escondendo dela com vergonha de mim mesmo por ter vergonha de chamar ela para festa. Até que uma hora ela sentou do meu lado na bancada e falou: “Você tá fugindo de mim?” Respondi tremendo e suando: “Não, estou pensando numa forma de te convidar para ir comigo na festa hoje.” Ela riu e disse que “sim”. Eu ri e disse “que legal”. Passamos o resto daquele dia sem se falar direito. As vezes a gente se olhava e ria, o que para mim significava que eu estava no caminho certo.
    Combinamos de se encontrar num posto de gasolina perto da republica onde ia ser a festa. Tinha me oferecido para passar na casa dela, mas a Cláudia que sugeriu o posto e só concordei. Na festa a cerveja quebrou todas as nossas barreiras de timidez e vergonha antes da segunda lata. Nenhum de nós dois era muito acostumado com bebida e rapidinho já estávamos rindo de qualquer coisa que qualquer um falasse. Até dancei com ela e algumas amigas dela umas músicas toscas para parecer descolado. Não demorou muito para a gente começar a se pegar pelos cantos.  
    Não sei dizer muito bem como chegamos a conclusão de que íamos para casa dela, mas nós fomos. A garota que morava com ela estava vendo um filme com o namorado na sala, e quando percebi já estávamos os dois pelados se agarrando compulsivamente na cama dela. Estava louco de tesão. Só subi em cima dela e comecei a bombar o mais rápido que conseguia. Ela gemia cada vez mais alto e quando ela gritou que ia gozar meu pau explodiu e esporrei em cima dela toda, e na cama depois que ela começou a desviar. Peguei minha cueca e tentei limpar ela, mas ela foi tomar um banho. Me vesti e fiquei deitado vendo aquele teto girar.
    Depois disso namoramos por quase quatro anos. Aprendi que além de queijo faixa azul a Cláudia gostava que eu gozasse dentro da camisinha para evitar a sujeira. Isso faz um bom tempo já. A gente se formou, ela foi fazer mestrado na Europa e eu passei num concurso público. A última vez que vi ela foi um pouco antes de ela viajar. Trocamos dois ou três e-mails nos primeiros meses. Ela tinha tido uns problemas pra se adaptar mas logo ficou bem. Nunca mais tive notícias da Cláudia nem daqui e nem de lá. Outro dia acho que cruzei com ela na rua. Ela não me reconheceu. Também não tenho certeza se era ela.
  • Mística Realidade Intelectualmente Ofuscada

    Encontrava-se no assoalho de madeira no sótão da sua casa destemidamente radiante, ouvia os respigares da chuva forte, sobre as finas placas de metais brancas preenchidas de isopor, que substituiu as antigas avermelhadas telhas de cerâmica, em que seu isolante termoacústico não conseguia conter os muitos estalares das gotículas de águas celestinas. Percebia-se confortavelmente protegido do molhado e úmido escuro frio externo.

    De repente, algo clareara em seus externos pensamentos, se via em uma paz de simplicidade e momento, indescritivelmente descontraída, livre de tudo que o prendera pelos dias ociosos e ansiosos que distraidamente o arrastaram por longas avalanches de tormentos internos. Em um estado de êxtase profundo que o dominara, indo além de sua vontade, obteve a graça de ouvir a sinfonia das esferas celestiais. E dos mundos e dimensões superiores a este, criaturas luminosas incandescentes e fosforescentes esverdeadas lhe falaram em melodias insonoras, que ressoaram o maravilhoso coral musical do infinito universal multiverso.

    Essa música ressoava no lótus do sol e da lua, pelo perfume luminoso refletido em seus raios de luz, ao tocar os brotos fechados. Que mesmo pela sua distância, o beijo luminoso de ouro e prata que o tocava, emanava seus acordes no desabrochar de suas pétalas, pelas ondas que pululam se precipitando em uma catarata sinfônica de vibração amorosa pelo ar.

    Assim, compreendeu que a música é a base constante e permanente de toda matemática geométrica da criação.

    Despertara a mística intuição interior, assim sua razão de realidade mundana que se assentava no campo das escolhas e opções, fora ofuscada pela mística intuição em que a ferramenta do raciocínio já fora ultrapassada. Dessa forma, fora coroado com a clarividência de ver os seres inefáveis que não podem ser nomeados ou descritos, em razão de sua natureza mística, beleza inebriante e indivisível encanto indescritivelmente maravilhoso.

    De vítima das circunstâncias passara para o estado inabalável da maestria existencial. Percebia crescendo em seu ser, estados latentes de poderes formidáveis e paz infinita de um vazio iluminador. A sua personalidade fragmentada, individualizada, limitada, confusa, medrosa e insolente fora instantaneamente compreendida, e assim desintegrada nesse iluminado absoluto vazio. Sentira que era o tudo de todo que sempre foi, é e será. Fundiu-se a unidade unilateral da vida livre em movimento. Era a pétala que suavemente caiu da flor. A cana arrastada pelo rio cristalino que repousava no mar da tranquilidade. A ave, o peixe, o verme. Era tudo, menos um indivíduo.

    Dessa forma, montara na personalidade em vez da personalidade montar nele. Vencera o diálogo entre o intelecto racional e a consciência mística, na linguagem intuitiva superlativa do ser, em sua resposta rápida e sem palavras, que se adiantou à dialética do raciocínio lógico e banal, em sua essência intelectual. Ofuscando, portanto, todos os poderes formativos e formulativos de conceitos precoces e lógicos da bestialidade cartesiana, e euclidiana humanidade civilizada. Que apenas se torna útil, nos planos terrenos e fenomenais dos fatos, e atos práticos da idiossincrática existência de páreas patrióticas, personificadas na formalidade cidadã.

    Vira o tempo e o espaço se dissolver na multiplicidade dos eventos fantasmagóricos que constituía ele mesmo. Deu em questão de milésimos de segundos, se fosse basear no ilusório tempo na sua mente em prisão, uma volta de trezentos e sessenta graus, se também, tivesse base no espaço corporal de matéria solidificada em partículas subatômicas. Ira e voltará em si mesmo em ondas no interior e o exterior, percebendo estar ele fora e dentro de si mesmo, ao mesmo tempo, saindo e entrando em tudo do que era existente nele mesmo, e por ele mesmo exteriorizado, se vendo de uma dimensão maior, em um salto de dentro para fora e de fora para dentro. Não tendo como descrever em palavras, imaginar em pensamentos, ou expressar em sentimentos o que agora pouco sentira e presenciara. E, se viu limitado pelas expressões e dialéticas em descrever o indescritível. E viu o torpe, subjetivo incoerente da pesada realidade objetiva. E, diante da verdade e do real… a única expressão confiável era o absoluto silêncio do vazio iluminador.

    Em todo caso, depois do nostálgico acontecido, a sua mente, se é que agora a possuía, esforçara-se inutilmente na normalidade dos seus sentidos, para relembrar a experiência do sagrado em si. E, depois de severas racionais análises, sentiu a necessidade de ratificar em papel tal conceito, mas seu pensamento e sentimento imbuído do intelecto racional, apenas, limitou toda magia da experiência existente em delirantes loucas palavras, agregadas, consequentemente, a uma forma peculiar humana de intelectualismo místico religioso. E no caso mais grave, no que se refere aos preconceitos alheios, enquadrou-se no psiquismo da loucura, ou a ingestão psicodélica de alucinógenos.

    Percebendo ele, que o intelectualismo não passa de um pobre, medroso e arrogante pensamento mecânico filosófico machista, egoísta, aristocrático, e inteligente tenebroso, que ofuscara em palavras toda a sua sagrada feminina mística compreensão iluminada. Em que, esse mesmo intelectualismo, se sustenta em uma singular corda bamba, temendo a queda em um dos extremos lados do dualístico abismo bilateral, imbuído de metas e objetivos de alcançar a segura plataforma pluralizada de uma sociedade predadora civilizatória, sustentada na ponta do pêndulo balançar constante, de um obelisco falo ereto, onde a ignorância miserável de muitos sustentava o sucesso e o prestígio social, econômico, filosófico, artístico, religioso e político de, uns tantos, poucos.

  • Mosca morta em movimento linear uniforme [conto]

    Droga. Minha vida continua. As marcas na cara dizem que alguém tentou dar cabo dela ontem a noite. As dores no corpo gritam que tento fazer isso faz tempo, e nem isso eu consigo. Mas ao menos cada dia estou mais perto. O sangue no vômito é uma prova incontestável. Não consigo achar motivos para sair da cama. Se eu fosse o Iggy Pop todos os meus problemas estariam resolvidos, mas eu não sou. Então vou ter que continuar enfiando a mão na merda até tirar alguma coisa que salve a minha vida dessa desgraça miserável, ou ela acabe. Será que eu precisaria viver se não tivesse contas para pagar? Vou fazer um café para ver se encontro alguma coragem para encarar o mundo lá fora sem ter um surto de loucura e desespero. Ainda há cigarros, então há esperança. Tem um pedaço de queijo na geladeira, não contava com isso. Sinto a mão de Deus aqui.
    Rumo para o bar do Jaime como um rato condicionado num estudo de Skinner. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu sei quem foi B. F. Skinner e o que ele fazia nos verões passados com as suas cobaias. Não sei onde a filha do Jaime passa as tardes, mas ela nunca está por aqui. Ele não consegue disfarçar todo o desprezo por mim e o resto da humanidade. Coloquei uma nota de dez no balcão e colhi uma garrafa de cerveja e uma dose de pinga. “Eu estive aqui ontem a noite?” O velho carrancudo franziu a sobrancelha e começou a suar. Entendi como um sim. “Preciso de trabalho. Você está sabendo de alguma coisa?” Ele pegou um pedaço de papel e escreveu um endereço.
    O lugar era um armazém gigante ali perto. As portas estavam abertas, e um tipo Vic Vega andava de um lado para o outro com um copo de refrigerante numa mão e um cigarro na outra. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu também assisto aos filmes do Tarantino. “Quem te mandou aqui?” “O Jaime, do bar. Perguntei de trabalho e ele me deu seu endereço.” “E você aguenta o trabalho pesado?” “Se eu não aguentar você não me paga.” “Fechado. São cem mangos. Espera com o resto ali que o trabalho já está chegando.” “Tem um cigarro?” O cara ficou me olhando como seu eu tivesse falado qualquer coisa absurda, tipo, você chupa pinto? “Não.”
    Fui me juntar aos outros. Fiz um sinal e o camarada com cara de marinheiro sem navio me deu um pouco de tabaco e um guardanapo de lanchonete. Éramos seis. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu sei que esse é um livro do Maria José Dupré adaptado para a televisão e o cinema, mas não tem nada a ver com o contexto aqui. Sei o que é contexto também. E estamos falando só de seis pessoas que não falavam nada, e a maioria preferia ficar olhando para baixo a maior parte do tempo.
    Três caminhões refrigerados entraram no depósito ao mesmo tempo que o metido a chefe que não era chefe de porra nenhuma gritou: “Vamos cambada de vagabundos. Chegou o trabalho.” Eles abriram as portas e entre as carcaças mortas e penduradas por um gancho havia caixas com sabe-se lá o que. “Vamos seus preguiçosos, todas as caixas para fora. Rápido.” Alguém tirou um par de tábuas de madeira de não sei da onde e fez uma rampa no primeiro caminhão. Cada caixa devia pesar uma duas toneladas. Ok, não eram duas toneladas, foi só uma ironia. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, mas eu sei usar figuras de linguagem.
    Tinha um moleque tosco que queria provar alguma coisa para não se sabe quem. Enquanto todos os outros vagabundos fodidos descarregavam uma caixa ele descarregava duas. Quando começamos o segundo caminhão tinha a sensação de que não ia conseguir chegar até o fim daquela empreitada. O Vic Vega apareceu na frente da rampa e gritou para mim: “Ei, estorvo, se não aguentar eu não pago, lembra?” Os tiros começaram enquanto ele ria. Um o acertou em algum lugar e ele caiu. Me escondi no fundo do caminhão e só escutava gritos, tiros e o estalar dos metais. De repente o caminhão começou a se mexer, saiu do galpão e acelerou sem dó pela rua.
    Me sentia como o Eddie Murphy nas primeiras cenas de Um tira da pesada I. É, eu posso ser um viciado, estar enterrado na bosta até o pescoço, e ter desperdiçado a adolescência assistindo Sessão da Tarde, mas e daí caralho? O caminhão parou me lançando para o chão e o fundo do baú simultaneamente, confirmando violentamente todas as leis de Newton. Foda-se se eu sei ou não as três malditas leis de Newton. Sai correndo e pulei no meio do trânsito. Era um semáforo. Escutei a porta da cabine do caminhão abrir e um grito de “Ei!” e corri como nunca meio abaixado até conseguir virar a esquina. Me certifiquei de que não estava sendo seguido e percebi que estava todo cagado e mijado. As pessoas desviavam de mim e eu tremia como uma máquina de lavar roupas velha. Fui para casa antes que alguém me oferecesse ajuda.
  • Nadando numa piscina de bolinhas [conto]

    Quando entrei na sala estava tudo acontecendo ao mesmo tempo. A Dani e o Rato tavam se pegando no nível novela das 23h num pufe no canto. Não era exatamente o que mais me chamou a atenção numa primeira olhada. O prato com duas giletes e vestígios de um pó branco que repousava em cima no criado mudo perdido no canto do sofá, do lado oposto a eles, brilhava nos meus olhos. “Tem mais daquilo no prato?” A Sheila olhou para mim com um sorrisinho do mal e tirou um pino do meio do peito e chacoalhou. Peguei o prato e ela jogou uma pedrinha branca nele. Triturei e separei em dois tiros. Ela primeiro e depois eu. Raspei todo prato e tirei mais um tirinho. Peguei um copo abandonado do lado do prato com alguma coisa com pinga e estava começando a ficar pronto.
    Lá no fundo estava tocando alguma música. Era um batidão com uns riffs de guitarra que não conseguia distinguir muito bem. A Sheila tentava me explicar todos os problemas dela com o pai dela, ou o contrário. “Sei que parece ridículo, mas era importante para mim. Não ia mudar nada, mas era importante para mim.” Não podia fazer muita coisa além de dar um apoio moral. “Família é foda.” E tinha tanta gente rindo em volta, entrando e saindo de todas as portas, que ficar ali escutando lamúrias enquanto o pó atingia violentamente o lóbulo frontal me fazia sentir como se o fim estivesse próximo. “Vamos andar por aí. Quero ver a galera.” Com uma cara de ‘eu tenho pó para a gente cheirar a noite inteira’ ela veio atrás de mim.
    Passando pelo corredor vi o Zé, a Mari e o Canário cortando um pedacinho de papel bastante suspeito. “Vai sobrar um quarto, quer?” “Corta em dois que divido com a Sheila.” “Tô de boa.” Dei uma golada no veneninho que tava carregando e passei ele pra frente. Depois coloquei o papelzinho debaixo da língua e fiquei só escutando a conversa para não correr o risco de ver o pedacinho do céu voar da minha boca numa risada inocente. “Gente, é como o Spud diz em Trainspotting 2, primeiro vem a oportunidade, depois a traição.” “Aqui não tem amigo, é tudo colega.” “Também não é assim, mas droga não é pão.” Aquilo tudo me parecia lavagem de roupa suja, e eu nem sabia de quem eram os trapos. Dei um pega no baseado que estava rolando, passei para Sheila, deixei ela lá na discussão e fui para os fundos.
    Surgi no quintal e a Paula veio correndo lá detrás gritando meu nome e se jogou em cima de mim. Perdi completamente o referencial e caímos os dois no chão rindo. Ficamos lá rolando e se trombando um no outro. O mundo girava para cá e para lá batendo meu cérebro como um liquidificador. Eu virava a cabeça para a esquerda rapidamente e sentia meu crânio puxando o olho para o lado quando travava o movimento e me virava para o outro lado. Era uma coisa tipo Helter Skelter dos Beatles com Cocaine do Clapton. A hora que levantei percebi que todo mundo ria da gente. A Paula me abraçou e me deu um beijo, mas acho que ela não estava preparada para minha língua. De repente ela se afastou, tossiu duas vezes e começou a vomitar.
    Talvez devesse ter feito alguma coisa, ou ter tido uma reação melhor que colocar a mão na cara e sair de perto rindo como se não tivesse sido a boca que eu beijei. Mas talvez fosse uma resposta da minha mente aos ataques de C16H16N2O2, ou a falta de foco da minha visão, mas não pareceu tão nojento quanto uma transcrição pode fazer parecer. Foi mais como se cada momento daquele fosse ser lembrado com glória e nostalgia quando eu fosse velho e pensasse nos bons tempos. Foi fantástico me sentir ali, vivo, vivendo in loco aquela história que eu contaria o resto da vida. A consciência de tudo isso era coisa do pó. Cheirei muito lendo Holden Caulfield tentando racionalizar os momentos simples da vida em cento e vinte e poucas páginas. Por isso que às vezes eu fico assim, pensando que tudo é histórico.
    A Sheila apareceu com mais uma rodada de farinha no prato. Não sei mais exatamente o que estava fazendo efeito, mas ao mesmo tempo em que me sentia leve não era fácil para a cabeça carregar o resto do corpo. Tinha um copo na minha mão e não sabia do que se tratava. Dei uma golada e vi que era forte. Foi quando me toquei que estava na cozinha, tentando me escorar na pia enquanto a Nati falava alguma coisa sobre a Bebida Púrpura do  Hans-Thomas ser, na verdade, uma espécie de morfina. Aquilo pareceu pesado demais até mesmo para mim, que saí de fininho e tentei me esconder no canto do sofá.
    Agora me sentia perto do Perfect Day do Lou Reed. Tudo já era só uma lembrança vazia de tempos que nem existiram. Esse vácuo de sentimento desceu para o meu estômago e começou a assar. Minha boca secou como se eu tivesse mastigado um rodo mop. Estiquei o braço e peguei uma lata de cerveja quente esquecida ao meu alcance. Respirei fundo, dei um gole, fiz um bochecho e deixei a mistura descer. Fui soltando o ar aos poucos para poder controlar qualquer reação adversa que aquela insensatez provocasse. Sobrevivi ao primeiro teste, mas o corpo pedia mais. Alguém sentou do meu lado e começou a bater uns tiros numa capinha de CD. De repente os apetrechos estavam na minha frente com alguém me oferecendo um tubo de caneta sem a carga. Mandei tudo para dentro e senti aquele gosto amargo descendo rasgando a minha garganta e abrindo uma marginal de acesso entre o meu nariz e o pulmão.
    Não conseguia mais distinguir se as pessoas falavam comigo ou só entre elas sem nem se darem conta que eu estava ali quase enterrado. Arrisquei mais um gole de cerveja e tentei me levantar do sofá. Fiz tanta força para me manter de pé que me caguei inteiro. Como ninguém falou nada achei que não tinham percebido. Eu era invisível. Mas sentia aquele fiozinho de merda mole escorrendo pela perna e o alívio no estômago que não me deixavam fingir que nada tinha acontecido. Me arrastei até o banheiro, tirei a roupa, deitei pelado no chão e fiquei vendo o teto rodar até tudo parecer que ia acabar bem.
  • Nem a lua nem a Ásia existem

    Camilo acordou na Guiána-Francesa. Estava calor, não havia nada para comer e a água sempre tinha um gosto amargo de remédio. O sol já invadia seus pensamentos e saia em forma de suor. Ele precisava cair fora dali de qualquer jeito, então foi para Noruega, que ficava no quarto ao lado e tinha um clima bem mais ameno. Trabalhou duro por seis meses como pescador de bacalhau, o que lhe conferiu grande autoridade para dizer aos quatro cantos que já tinha visto cabeça de bacalhau. Isso incomodou os Ministério da Cultura local que o mandou embora do país num voo para o Afeganistão. Lá ele se arranjou numa fazenda de plantações de papoula. As flores transportavam Camilo para uma realidade onde não existia tristeza ou dor. Ele aprendeu tão rápido como manipular aquela maravilha da natureza que rapidamente foi elevado ao posto de leão de chácara, se tornando braço direito do Xeique que era dono de tudo. Cavalgava pelo campo estalando o seu chicote toda vez que uma pétala caia sem que o motivo fosse o propósito natural de uma flor, isso é, murchar. Sempre manteve uma postura dura com quem não tratava as flores com o carinho que elas merecem. Até que um motim foi organizado por um refugiado Sírio e ele fugiu por um buraco para a Holanda junto com o Xeique. Chegando lá ampliou seus conhecimentos agrícolas para plantações de maconha. Os dois conseguiram comprar um grande área no sul de Amsterdã e começaram a cultivar a erva em grande escala.
    Seu interesse pela canabis o levou ao consumo. Pensando melhor sobre como conduzia seus negócios decidiu pagar um salário justo aos trabalhadores e não mais usar o chicote enquanto caminhava calmamente pela plantação. Mesmo com o aumento exponencial da produção, suas novas práticas não agradavam seu sócio. Quando Camilo tentou estabelecer um gerenciamento horizontal do negócio o Xeique passou a conspirar contra ele, boicotando a própria plantação com uma praga de spidermites. Depois do fracasso na colheita ele virou hippie e decidiu viver nas ruas do distrito de Haight-Ashbury em São Francisco. Lá começou a tocar violão na rua e conheceu um gaitista chamado Bill. Os dois tocavam na calçada por algumas moedas até que a pós-modernidade os atingiu como uma bala de canhão destroça uma barquinha. De repente Camilo estava tocando nos maiores palcos da América ao lado de lendas como Bob Dylan, Hendrix e cia. Ele fritava no palco. E foi justamente entre Purple Haze e Blow in the wind que ele se perdeu numa pequena cidade do norte, e de lá pegou um ônibus para Chicago, onde serviu de cobaia remunerada para uma companhia farmacêutica testar uma nova droga. Os efeitos colaterais apagaram a segunda metade de sua memória, o que fez ele automaticamente retroceder para a primeira. Camilo se sentia um jovem preso num corpo velho e cambaleante.
    Depois de, pela segunda vez, submeter seu corpo a todas as experiências existenciais possíveis a alguém com vinte e poucos anos, Camilo decidiu que precisava recuperar seu passado. Para isso passou por um ritual xamânico para entrar na toca do coelho e voltar no tempo para descobrir o que tinha esquecido. Ciente de passado, presente e futuro, percebeu que o melhor era não saber de nada. Fugindo de si mesmo ele se isolou num antigo templo religioso no Senegal. Através de Fa Kébeté, um ancestral muito renomado, aprendeu técnicas tântricas de meditação que o levaram a se sentir o próprio Holden Caulfield procurando por seu lugar no universo. Depois de dois longos meses explorando sua caverna interior ele foi apresentado a Ndooy, um sipikat de um vilarejo próximo que tinha o contato dos maiores produtores de yamba do país. Camilo se abasteceu com dois quilos de erva e centenas de sementes e se mandou dali para rumo ao paraíso da Austrália. Arrumou um lugar no deserto onde pudesse plantar suas sementes. Os aborígenes o receberam muito bem, assim como um colono, Stewart, que começou a levar a djamba de Camilo para a Europa as toneladas. O negócia ia tão bem que ele e o inglês abriram uma empresa de transporte de cargas marítimas para poder controlar melhor a distribuição. Mas quando os dois foram surpreendidos por piratas do governo em uma de suas rotas os dois tiveram que pular do navio. Então os dois mergulharam no Atlântico para emergirem no canal do Panamá. Lá receberam o apoio de Noriega para continuarem operando com sua mercadoria através do canal. Estabeleceram a plantação no sul do país e aproveitaram o clima favorável para expandir seus negócios por toda América.
    Numa noite, tendo uma conversa com Stewart, revelou que estava cansado de tudo e que queria ir embora para casa, apesar de não se lembrar de onde ela fica exatamente. O colono argumentou que ele ia perder muito dinheiro, e que poderia ser preso, seja lá para onde quer que fosse. Mas Camilo não queria mais ter que esconder de ninguém o que fazia e porque fazia, e abriu uma igreja para Jah no centro da cidade, onde recebia vagabundos, drogados, doentes e pais de família. Durante os cultos todos fumavam maconha, repetiam o mantra da liberdade e oravam para que uma força sobrenatural interviesse nas suas vidas. Mas a relação de Noriega com o poder azedou, e a guerra e o povo invadiram as ruas. Com medo dos revolucionários que pregavam ordem e progresso Camilo se escondeu no banheiro e, descendo pela privada, chegou até o Brasil e, em plena hora do rush, surgiu de um cano de esgoto no Rio Tietê. Assustado, e sem amigos, se escondeu no mundo debaixo de uma ponte da Marginal Pinheiros, onde foi preso e levado para o Hospital Vera Cruz para tratar seus vícios. Numa manhã de domingo percebeu que nunca havia acordado na Guiána-Francesa.
  • Nosso Amor - PARTE 1 - A Garota Perfeita

    THEO
    Memories fade
    Like looking through a fogged mirror
    Decisions to decisions are made and not bought
    But I thought this wouldn't hurt a lot
    I guess not"(*)
    - "Kids", MGMT
      Acordei assim que meu detestável celular começou a fazer barulho. Eu gemi, peguei o objeto e desativei o modo “despertador”, me sentei e espreguicei-me, controlando a vontade quase irresistível de voltar a dormir.
      Eu levantei e andei lentamente – muito lentamente - até o banheiro, fechando a  porta em seguida. Me livrei da bermuda que vestia e tomei um banho quente. Depois de desligar o chuveiro, me sequei e enrolei a toalha em volta da cintura.
      Fui para meu quarto – mais lento ainda -  e vesti minha calça jeans desbotada e rasgada, meu uniforme e calcei meus tênis sujos e gastos, peguei minha mochila, tomei meu café da manhã, meus remédios e meu pai me levou para a escola de carro.
      Cumprimentei todos os meus amigos quando cheguei, eu podia ser considerado um menino “bem conhecido”, estudava aqui desde o 1° ano do Ensino Fundamental, já tinha dado tempo de conhecer muita gente que veio e ficou ou já se foi.
      Fui direto para a arquibancada, onde meu melhor amigo já me esperava. Subi até o último degrau, fizemos nosso aperto de mão particular e me sentei ao seu lado.
      ─  Como foi o final de semana, meu querido Theodoro? ─  Pedro perguntou, já recebendo um soco meu, odiava que me chamassem pelo nome (meus pais tinham um certo fascínio por nomes ridículos).
      O inverno havia acabado de chegar, e aquela manhã de segunda-feira estava insuportavelmente fria. O tom do céu projetava um tipo estranho de melancolia por todo aquele lugar.
      ─  Normal ─  respondi, jogando a mochila para o lado ─  Saí no sábado, mas fiquei o dia inteiro em casa ontem.
      ─  Que saco.  ─  disse meu amigo, começando a mudar de assunto.
      Mas eu não prestava mais atenção nele. Estava olhando para a garota que acabara de chegar. Joanna. A menina perfeita, de jeito meigo, risos contagiantes e muito bela. Era assim que eu a via. Claro que sabia que era impossível alguém ser completamente perfeito, eu tinha em mente que ela possuía defeitos. E, ainda assim, sabia que estava perdidamente apaixonado por ela.
      Eu a observava de longe há alguns meses, sempre prestando atenção em cada pequena coisa que ela fazia. Notava que ela não usava roupas de manga curta – mesmo no verão – e que chorava dentro do armário de bugigangas que ninguém mais usava na Quadrinha Abandonada da escola. Sabia o caminho que ela pegava para ir para casa – era o mais longo, sempre ia pelo caminho ao contrário (somos vizinhos).
      ─  Ei, você ouviu? ─  olhei para Pedro que chamava minha atenção ─  Você ouviu o que eu disse?
      ─  Não. O que é? ─  perguntei.
      ─  Eu fiquei com a Kayla. No final de semana.
      ─  Ah ─  suspirei e voltei a olhar para Joanna ─  Que legal.
      ─  Você não está nem aí!
      ─  É, não estou mesmo.
      Meu amigo bufou e se deitou, apoiando a cabeça em sua mochila. Depois de alguns segundos começou a tagarelar sobre outro assunto. Eu ainda não queria prestar atenção.
      Joanna estava sentada, abraçando os joelhos e olhando para o nada, enquanto as amigas estavam à poucos centímetros dela, rindo e conversando sobre coisas divertidas. Mas ela, não. Parecia estar isolada do resto do mundo. Eu queria saber o por quê.
      ─ Theo! ─  Pedro gritou no meu ouvido.
      ─  O que é, porra?! ─  gritei de volta.
      ─  A despedida de solteiro vai ser em dois meses.
      ─  Que despedida de solteiro?
      ─  A do meu primo.
      ─  Que primo?
      ─  Cara, te mandei o convite faz duas semanas!
      ─  Mas ainda faltam dois meses!
      ─  É pra confirmar presença, seu idiota. E você precisa ir.
      ─  Onde vai ser? ─  perguntei, não ligando muito para a resposta.
      ─  Na Casa dei Ciliegi ─  respondeu, orgulhoso.
      Meu coração quase parou – literalmente.
      A Casa dei Ciliegi era a casa noturna mais cara do país, além de ser um lugar muito misterioso, apenas os homens podiam entrar. As normas do lugar eram mais esquisitas ainda: seu celular era confiscado, para ter certeza de que você não tirou nenhuma foto quando estava lá dentro (pois é, que tipo de casa noturna faz isso?), eles também não davam muitos detalhes do interior do lugar. E era por isso que os homens iam, por curiosidade.
      ─  Tá falando sério? ─  perguntei, quase sem acreditar.
      ─  Pois é, querido amigo. Vamos adentrar o paraíso das mulheres nuas por uma noite.
      O sino tocou, anunciando que todos os alunos deveriam ir para suas salas. Eu peguei a mochila, esperei Pedro se levantar e fomos para nossa sala.
      Enquanto as aulas ocorriam diante de mim, ficava pensando que aquela segunda-feira era a mais tediosa de toda a minha vida. Assim como pensava todos os dias.
      Não conseguir trocar nem ao menos uma palavra com Joanna me deixava deprimido. Eu desejava falar com ela todos os dias, por horas, aproveitar cada minuto e segundos da presença dela. Por isso, dentro da sala de aula, gostava de pensar em cada detalhe de seu rosto: os olhos grandes – um pouco puxados no final -, a boca carnuda, levemente rosada e mal desenhada, seus cabelos castanhos – ondulados e volumosos -, o nariz um pouco largo, as bochechas cheias, sobrancelhas profundamente negras – igual aos cílios enormes e bem curvados -, os olhos castanhos claríssimos que ficavam laranjas quando o Sol os encontravam e a pele branca como as nuvens.
      Eu achava ela a criatura mais linda que já vira. Queria tocá-la, abraça-la e beijá-la até sua respiração cessar.
      Quando o último sino, anunciando a hora da saída, tocou, não vi Joanna em lugar algum. E isso se estendeu por um mês inteiro.

      UM MÊS DEPOIS
      Durante um mês as pessoas não sentiram falta da presença dela. Quando eu perguntava à alguém da sala do segundo ano sobre Joanna, ninguém ao menos se importava em me dar uma resposta séria. As tão queridas amigas não sabiam onde ela estava, e nem queriam saber.
      Tudo aquilo era muito estranho e triste.
      Cheguei em casa ao meio-dia e logo me sentei para almoçar. Enquanto comíamos, minha irmã mais nova – Améllie – contava como fora seu dia na escola, e meu irmão mais velho – Dexter (pra ficar menos ridículo, a gente chama ele de Dex) – reclamava da desgastante rotina da faculdade. E eu apenas comia em silêncio.
      ─  Como foi seu dia, querido? ─  perguntou minha mãe.
      ─  Entediante. ─  respondi.
      ─  Você sempre diz isso. ─  riu, sem humor.
      ─  Porque é entediante todos os dias.
      Assim que o jantar terminou, eu e Dex lavamos a louça e limpamos a cozinha, enquanto Améllie gritava de dois em dois minutos que já estava na hora de ir para cama. Ela sempre fazia isso para que eu a levasse para seu quarto e lesse um livro infantil para que ela conseguisse dormir.
      ─  Vamos, Li ─  virei-me e ela se jogou nos meus braços ─  Qual livro você quer dessa vez?
      ─ O Senhor dos Anéis: As Duas Torres!
      Digamos que eu estava refinando o gosto dela pela leitura.
     


      ─  Está com algum problema na escola? ─  minha mãe perguntou baixinho, assim que entrou no meu quarto e se sentou ao meu lado na cama.
      Ela começou a fazer carinho nos meus cabelos.
      ─  Na verdade, não ─  eu respondi.
      ─  Então, por que está agindo estranho ultimamente? Já faz mais de um mês que está estranho.
      Eu vi a preocupação e o medo nos olhos dela e me senti muito culpado. Um dos grandes amores da minha vida era a minha mãe. Deixá-la preocupada era quase um castigo.
      ─  Mãe, eu estou bem ─  insisti. ─  Só estou cansado da escola.
      Alguns minutos, depois de forçar ela a acreditar que eu realmente estava bem, ela saiu, deixando-me sozinho para ler um livro que estava começando a gostar. Mas, mesmo que o enredo fosse o mais interessante, não conseguia pensar em mais nada além da garota que costumava observar todos os dias. Sentia falta dela.



      NO DIA SEGUINTE
      Quando acordei na manhã de terça-feira decidi não ir à escola e voltei a dormir. Dez minutos depois, minha mãe entrou no quarto para me acordar. Eu acabei repetindo minha rotina diária mais uma vez. O que me fez pensar no quanto a vida era maçante e patética.
      Cheguei na escola cumprimentando os mesmos amigos do dia anterior, fui para a arquibancada com o mesmo melhor amigo do dia anterior e conversamos sobre o mesmo assunto do dia anterior. A única diferença era que eu, dessa vez, respondia.
      Estava tão interagido que quase mal percebi a presença nova e interessante ao meu lado. Quase. Ela, agora, tinha cabelos no tom de vermelho vivo. Olhei para as mãos da garota, o moletom, o par de calça surrado e rasgado, a curva de seus lábios carnudos... e mal desenhados.
      "Joanna."
      O sinal, para que todos fossem para suas salas, tocou. Então peguei minha mochila, deixei Pedro para trás e desci da arquibancada, seguindo os passos de uma Joanna quase irreconhecível.
      Em meio ao amontoado de pessoas, acabei a perdendo de vista. Suspirei e segui em direção às escadas. Subi o primeiro andar e, logo quando me virei em direção ao próximo lance de escadas, esbarrei com a menina na qual estava perseguindo. Joanna e sua bolsa caíram no chão, espalhando cadernos, livros e – eu vi, claramente -  um conjunto bem ousado de lingerie vermelha, quase do mesmo tom que o cabelo novo, com lantejoulas brilhantes.
      Eu olhei para os olhos dela – enquanto ela fazia o mesmo, ninguém em volta assistia, e eu notei que os olhos da minha querida estavam vermelhos e inchados. Ela me olhava como se estivesse pedindo ajuda, mas, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, juntou e guardou suas coisas ferozmente, ajoelhada no chão. Quando se levantou, eu disse:
      ─  Me desculpe.
      Ela virou-se de costas e seguiu escadas a cima para sua sala como se não tivesse escutado ou nada tivesse acontecido.
      Abaixo dela, parado, um Theodoro Albuquerque estava atordoado com o que havia acabado de ver.
      "Por que alguém traria um conjunto de lingerie vermelha para a escola?"
      E percebi que havia mais coisas das quais não sabia sobre a menina do que imaginava.
      Eu tentei prestar atenção na aula de Matemática, mas achava aquilo uma perda de tempo. Depois veio a aula de Filosofia, que era mais fácil de entender.  Quando o sino, anunciando o intervalo, tocou, saí quase que correndo para fora da sala. Queria ver Joanna.
      Fui direto para o pátio e a procurei por todos os lados. Não a vi em lugar algum. E estava preocupado, muito preocupado. Procurei-a por cada cantinho do pátio, perguntei às amigas dela – que não deram a mínima. Até que me dei conta de que não havia procurado no lugar certo.
      "O armário da Quadrinha Abandonada."
      Corri para dentro do prédio da escola, desci as escadas subterrâneas e abri o portão que sustentava uma placa com o aviso “NÃO ENTRE”. Fui até o armário e o abri devagar.
      Mas não havia ninguém ali dentro.


      UMA HORA E CINQUENTA E CINCO MINUTOS DEPOIS
      A chuva caía com muita força e rapidez, o que dificultava muito minha volta para casa. Apenas trinta segundos haviam se passado, mas eu já estava completamente encharcado, e insistia em andar lentamente. Estava perdido em pensamentos.
      Perguntava a mim mesmo se teria que aguentar mais um mês sem olhar para o rosto de Joanna, o que teria acontecido com ela, onde ela estaria e o que estaria fazendo.
      Todas essas perguntas foram respondidas no mesmo instante em que decidi olhar para frente.
      Ali, encostada no muro branco do pequeno mercado, uma garota de cabelos vermelhos – abraçando as próprias pernas e com a cabeça apoiada nos joelhos – chorava tão desesperadamente que, mesmo com os trovões, era quase impossível não ouvir o sofrimento misturado com as lágrimas.


    (*)Memórias desaparecem 
    Como olhar através de um espelho embaçado 
    Decisões por decisões são feitas e não compradas 
    Mas eu pensei que isso não doeria tanto 
    Eu acho que não 
  • O amor eterno

    Três anos depois de entrar para faculdade de arquitetura Camila já sabia que poderia ser muitas coisas na vida, mas não arquiteta. Sentada em cima da mesa do Dr. Fernandes, com uma taça de vinho e a perna aberta, ela nem queria. Ele dispensou o copo de wiskey e posicionou sua cadeira de modo a não precisar abaixar muito para se enfiar em baixo do vestido de colegial dela. Em uns doze minutos ela tinha acabado com o serviço e em mais dez estava descendo o elevador do Business Money Tower. Passando pelo lobby perguntou para o Seu Antenor, só para ter assunto, “alguém mais me procurou?” Apenas o fato de ele responder mais que uma palavra já a preocupou. “Doutor? Não, mas hoje mais cedo veio um cara dizendo que era policial perguntando de alguém com o seu nome e muito parecida com a Senhorita.” “E o que você respondeu?” “Que não, mas ele disse que voltava.” “Obrigado querido, você é um amor. Se ele voltar de novo você me avisa, tá?” Ela pediu dando um beijo no rosto dele e comprimindo seus peitos na cara dele.

    Sempre que estava com o pé rua ela olhava para todos os lados para tentar se certificar que ele não estava atrás dela. Paulo estava esperando na entrada do flat, sob o olhar atento e preocupado do porteiro. “Vamos conversar?” “Nós já falamos tudo que tínhamos para falar. Por favor Paulo, vá viver a sua vida.” “Minha vida é com você. Isso não esta certo!” Com a ordem de segurança nas mãos, que dizia que ele não podia se aproximar mais que 50m dela, Camila advertiu em tom sério: “Se você não sair da frente do prédio eu vou chamar a polícia.” “Não adianta Dona Camila. Ele fica sentado ali na curva olhando.” Interveio Manuel do alto falante ao lado do portão. “Vai cuidar da sua vida porteiro de bosta!” “SOME DA MINHA VIDA!” Ela parou na portaria nervosa e falou para o porteiro: “Se ele estiver a menos de 50m da entrada do prédio chama e polícia e mostra isso para eles.” Ele pegou o papel e foi até o portão. “Ei, camarada, acho que você não vai conseguir mais nada aqui. Procura um bar longe daqui e enche a cara. Amanhã quando você acordar só segue em frente.” Ele saiu agitando o papel. Paulo andou uns metros na calçada, subiu numa árvore e começou a rezar. Ficava observando todos que entravam no prédio. Na sua cabeça os homens eram todos clientes de Camila, menos os gays, e as mulheres eram todas garotas de programa.

    Sem ter tempo a perder ela arrumou o apartamento e acendeu uns incensos. Construiu um ninho de amor na banheira com espuma, umas toalhas dobradas e pétalas de rosa. Colocou pilha no vibrador e deixou ele a mão junto com outros brinquedinhos. Pouco depois de terminar de se maquiar o interfone tocou. “Dona Camila? Posso deixar o Senhor Marcos subir?” “Sim Manu, obrigada.” “Olha, aquele outro esta em cima de uma árvore aqui do lado do portão dos carros. Já chamei a polícia mas eles não vieram. A Senhora quer que eu te ajude a resolver isso? Ele não vai mais querer chegar perto da Senhora.” Ela negou a oferta da surra e esperou a campainha tocar na frente da porta. Quando Marcos entrou ela já estava de cinta-liga e pronta para atacar. Ele tirou a roupa e foi para cima dela com tamanho apetite que não conseguiu chegar até o ninho de amor do banheiro. Só precisou do vibrador que Camila foi buscar com entusiasmo quando solicitado por ele. Ela prendeu uma cinta na cintura, encaixou o troço e fodeu ele com força. Ele se divertiu tanto que até se ofereceu para pagar uma pizza e bater o papo por metade do preço da hora. Ela topou e os dois só não dormiram porque Marcos tinha que ir buscar o filho na escola de inglês. Depois de dois clientes e um barraco Camila dormiu assistindo o jornal.

    Quando acordou de manhã estava preocupada com Paulo. Interfonou para portaria e perguntou para o Jonas, porteiro do diurno, se ele ainda estava na árvore. “Acho que não Dona Camila.” Ela tentou falar com a irmã dele para ajudar ele a seguir com a vida, mas ela não atendia mais as ligações desde que Camila pediu a ordem de segurança. Um tanto quanto insegura ela continuava tentando ajeitar a vida. A jornada ia ser tripla, sendo que só o último cliente ela atenderia em sua casa. O primeiro era um político do sul que gosta de transar minutos antes de reuniões importantes. Como ele tinha uma destas ela ia encontrar ele num hotel perto do centro de convenções. Depois almoçaria com uma amiga no shopping e iria para o consultório de um dentista na zona sul, para no fim da tarde encontrar o Marcos no flat. Não dava um passo sem tentar olhar para todas as direções em busca de Paulo. Era difícil se convencer de que ele não a estava seguindo.

    No caminho para o centro de convenções recebeu uma mensagem adiando o encontro. O prefeito tinha solicitado uma reunião e a diversão ia ter que ficar para outro dia, por que no fim da tarde a agenda de Camila já estava cheia. Com tudo, o almoço com Karen ganhou um pouco mais de tempo e as duas ficaram batendo perna no shopping. “Estou pensando em sair do flat e comprar um apartamento na zona sul. Quero independência do Marcos.” “Cuidado amiga, você já tem um ex louco atrás de você. Te disse para não aceitar dinheiro do Marcos sem sexo. Ele esta apaixonado por você.” “É diferente. O Paulo foi meu primeiro namorado, e eu a primeira namorada dele. Perdemos a virgindade juntos, ficamos dez anos juntos. O Marcos é casado, tem filhos, família. O que ele gosta em mim é outra coisa, e vou continuar dando, ou ele vai continuar.” As duas riram alto e todo mundo olhou. Vendo toda aquela felicidade Paulo não se controlou. Apareceu repentinamente detrás de uma pilastra e acertou dois tiros em Camila. Depois caiu ao seu lado e pediu desculpas antes de atirar contra a própria cabeça.
  • O ANJO DO JULGAMENTO

    Prólogo
    A maldade silenciosa.
    Vivo num mundo cruel e sem salvação. Onde monstros se disfarçam de homens, e crianças são tratadas como adultos. Sigo por ruas pavimentadas, pagas com o sangue dos trabalhadores, e a dor dos inocentes. Criminosos crescem como pragas, e andar por qualquer cidade, já não é mais seguro. Ligo minha TV para esquecer que a perversão cresce lá fora, e me deparo com materiais doentios direcionados aos menores. A maior rede social de vídeos do mundo, proíbe minhas denúncias, garantindo que o material não chegue aos adormecidos. Mas minhas palavras não podem ser caladas. Há uma inútil luta na sociedade, para saber qual religião é melhor que a outra, ou se o homem é maior que a mulher, e vice e versa. Enquanto todos dão atenção para assuntos tão triviais, verdadeiros males ocorrem em torno do mundo com um único objetivo: manter a dominância de uma Elite doentia, que tem pervertido a magia, desde que o homem era somente um projeto de uma raça superior. Não me diga que ainda acredita, que os demônios vivem abaixo dos seus pés, e que Deus não é uma inteligência magnânima, que deu origem a isto tudo. Não, não me confunda como uma religiosa fanática, pois estou bem longe de ser. Não, também não me chame de satanista, este é um nome que não cabe a mim. Estou muito além destes rótulos, para ser definida somente por eles, por isso peço que me respeite, e me chame apenas por anjo do julgamento. Já que estou acima do bem e do mal, e apta para determinar a sentença dos seus homens e mulheres. Vim para este mundo, como uma de vocês, nasci de uma barriga humana, embora fique cada vez mais claro, que não sou deste mundo. Cresci como uma criança normal, sem saltos no tempo, ou perseguições de um grupo secreto. Porém sempre carreguei comigo, uma maldade gigantesca, que me levava a manipular, me aproveitar, e torturar os outros. Talvez tenha sido uma menina psicopata, talvez somente acima da média, mas uma coisa é muito clara, esta crueldade frívola nunca me abandonará, e dado as atuais circunstâncias, é melhor que assim seja. Na minha fase adulta, o meu destino ficou cada vez mais claro, quando seres poderosos, entraram em contato comigo através de pensamentos obscuros, e sinais nos céus, que jamais cessariam, até eu aceitar a minha conduta. Em janeiro de 2020, fui seguida por um grupo de frades tradicionais, após ter tido vários pesadelos, com inúmeras mortes causadas pelas minhas mãos. Eu senti medo, pois após tantos anos de terapia, enfim tinha descoberto que sofria de um mal psicológico, que poderia me transformar numa assassina de uma hora para a outra, o quê para mim, era cruel e demoníaco, e eu precisava controlar, senão vidas inocentes iriam pagar pelo meu problema. Eles me chamaram por um nome, que tentei esconder debaixo do tapete, todavia evitar o quê era, não foi o suficiente para me deixarem em paz, e assim tive de seguir com eles. Muito antes de evitar as minhas asas negras, já havia imaginado que um grupo viria até mim, e me levariam a algum lugar sombrio, por isso implorei aos deuses para me protegerem, ou me deixarem escapar. Infelizmente cheguei ao meu destino, e ninguém me salvou. Eles eram assustadores, e tentaram me atacar, mas o meu desejo insaciável por sangue, me levou a ficar viva e ilesa. Manchada de vermelho, me afastei do monte de cadáveres, pronta para me entregar a polícia. Só que dois padres surgiram, e aplaudiram o meu desempenho. “Ela é perfeita.” Concordaram entre si, e fiquei desconfiada, esperando que me dessem uma explicação. Eles pestanejaram, e me vi obrigada a puxar a faca. “Digam quem são, e o quê fazem aqui.” Perguntei sentindo a adrenalina fluir. “Somos os filhos de Jesus. Pertencentes a ordem sagrada de Cristo.” Eles me responderam, e eu gargalhei. Afinal o quê uma ordem de tamanho poder religioso, iria querer com um anjo caído, que negava a própria alcunha? Eles me disseram que precisava ir com eles ao mosteiro de Santa Marta, e que lá receberia explicações mais detalhadas. Naturalmente opinei por não ir, contudo cedi a minha curiosidade, e com eles eu segui. Muitas horas se passaram, até me levarem ao topo de uma montanha rochosa. Outra vez o medo de ser destratada, e sofrer torturas preencheu o meu ser, até que o vi. Era um homem loiro, de cabelos escuros, olhos penetrantes e claros, que intercalavam entre o rio e o mar, muito bonito , que vinha em minha direção. “Minha filha.” Ele disse, e eu não segurei o riso. Até ali tinha noção que de quê havia conhecido o paraíso, porém filha daquela figura bíblica? Era cômico demais. “Preferes desta forma?” Disse ao fazer chifres de bode crescer em sua cabeça, enquanto o corpo mudava. “Não pode ser.” Fiquei catatônica, e acabei por desmaiar em seus braços. Ao acordar ele me explicou tudo, e pude reagir de outra maneira, o abraçando forte, por saber que estava diante do meu verdadeiro pai. Assim me tornei uma dos seus seguidores, e me dediquei a cumprir a minha missão, de destruir os ímpios, e iluminar a terra, com a minha chama sagrada. Pois ele só havia voltado, para que o julgamento se iniciasse, e o mesmo só poderia ser feito com o poder da sua amazona, e filha mais velha, a própria morte, ou seja eu. No início senti culpa pelas vidas que ceifei, no entanto bastou ver a lista dos culpados, para que o arrependimento se transformasse em paz. Não estava tirando aqueles homens e mulheres de suas famílias, e sim devolvendo demônios de volta para o inferno, do qual nunca deveriam ter saído, e seguiria fazendo isso até limpar o planeta, desta maldita escória de covardes.
    Capitulo 1- Verdades
    Inconvenientes
    A MORTE NARRA:
    Um dia eu tive uma amiga, que acreditei que seria para sempre, mas agora era somente outra neblina de inveja e prepotência, que precisava se dissipar. Ela era bonita, e de corpo desejável, mas embora tivesse tais atributos, não era feliz ou satisfeita consigo mesma, por mais que escondesse isso, através de um sorriso tão vazio quanto a sua cabeça sonhadora. Sei que parecem sinais de ódio, todavia posso assegurar-lhes que é somente mágoa. Eu confiei nela, depositando em suas mãos todos os meus sonhos, medos, e anseios, como se fosse a única confidente que tive na vida, e o quê achei que duraria até o Armagedom, hoje era apenas um motivo de dor e tristeza. Ela seguiu uma vida criminosa sem retorno a cidadania de bem. Algo que tentei lhe alertar, que não teria um fim nobre. Já eu me juntei a Ordem secreta, que conhecia as duas faces do demônio, e passei a julgar os meliantes que trucidavam inocentes. Desde sempre estava claro, que éramos o lado diferente da moeda. Só que para a minha surpresa, não fui eu, a servir as trevas, cometendo iniquidades, apesar dos demônios que sempre me acompanharam, nas profundezas da minha mente. “Thamara.” Meu superior me chama, enquanto sigo pelo escritório, olhando os relatórios da empresa, com um par de óculos, que por intervenção divina, não mais necessitava, porém precisava para manter as aparências. “Seu desempenho foi excelente neste mês. Logo se formará com louvor.” Ele me elogia, e o olho sem muito interesse nas finanças. “Que bom. Não vejo a hora de terminar o curso, e voltar a trabalhar em casa.” Deixo escapar, e isso o magoa, já que acha que eu não valorizo seus esforços para me sentir bem ali. Não me importo muito, pois após ter conhecido tantos que usavam a máscara de bons moços, para esconder seus crimes. Gentilezas não mais me atraem. “Tha.” Ouço a voz do meu amado, e sorrio ao ver o belo moreno de terno que vem na minha direção. Ao chegar o abraço com todas as minhas forças, pois ele é a minha luz, neste mundo sombrio. Nós terminamos as simulações de compra e venda de ações, e descemos pela escadaria. Ao entrarmos no carro, nossas feições de alegria mudam, e ele segura a minha mão. “Sei que não será fácil. Mas é preciso.” Diz tentando me dá forças, e eu aceno com a cabeça, me preparando para tempestade que há de vir. Ele estaciona o carro, eu desço com o cabelo amarrado, num coque para trás, luvas, e tudo o quê é necessário para cometer um crime. Estamos numa floresta densa e escura, e o cheiro de morte impregna o ar. “Ela esteve aqui.” Aviso, ao o seguir sem fazer muito barulho. “De fato.” Meu marido pega duas cabeças de recém-nascidos, mortos, que tiveram seus olhos arrancados, e pela quentura do sangue, percebo que o infanticídio foi praticado a poucas horas. “Droga!” Esbravejo furiosa, e nós abandonamos o local do sacrifício. Assim me livro das vestimentas que nos ligam aos assassinos, exatamente como os filhos de Jesus me ensinaram, e seguimos como inocentes. Meu celular toca, e o atendo com grande desgosto.
    _Thamara.
    _Não chegamos a tempo de capturá-la.
    _Eu sei. Sua irmã pode ser uma
    cabeça oca, mas ordem a qual ela
    serve, é cheia de membros
    perigosos.
    _Para uma menina, ela tem me
    causado uma bela dor de cabeça.
    _É porquê tem sentimentos por ela,
    e no fundo se sente culpada pelo
    caminho que tomou.
    _Pai. Eu sou o monstro da família.
    Se tivesse controlado meu ego,
    talvez pudesse salvá-la.
    _Não, não poderia. Ela tinha o livre
    arbítrio, e optou por seguir para
    as trevas.
    _Ela não é tão má. Eu sei, porquê
    na hora das mortes...
    _Thamara. Você desliga as emoções
    , para julgar os que merecem. Ela o faz
    para sorrir, se divertir, e você já viu.
    Não há comparação.
    Meu pai estava certo. Minha irmã, e antiga melhor amiga, agora era um monstro imparável, que não se preocupava com o dia de amanhã, e já tinha cometido mais de 10 assassinatos, em nome da Ordem das Corais. Uma seita religiosa que tem planos malignos para o planeta, e precisa ser detida, pois apesar de seu número ser pequeno, a mesma é responsável por todo o serviço sujo, da ordem piramidal dos Iluminados. Algo terrível, que me trouxe memórias cruéis... “Katherine!” Gritei ao vê-la arrancar a cabeça de uma criança, mas ela me ignorou, tinha se entregado a escuridão, e nada poderia ser feito para regressar. “Ela nunca vai parar.” Conclui retornando aos tempos atuais. Era hora de matá-la, mas não sabia se teria a mesma frieza que desenvolvi ao exterminar os outros.
    A viagem de volta para casa foi longa e silenciosa. Bartolomeu sabia o quanto aquela situação me afetava. Ao chegarmos, notei que os portões da minha luxuosa casa estavam abertos, então coloquei um dos pares de luvas, e amarrei os cabelos. “Thamy.” Meu marido segurou o meu pulso, assim que coloquei o pé para fora, já com a adaga na mão. Meus olhos subiram, e vi a silhueta de minha mãe Lina, brincando com minha filha e cópia Ramona. “Não traga os seus trabalhos para casa. Seu pai jurou que manteria sua identidade protegida, e enviaria os melhores guardas para cuidar do nosso lar. Confie na palavra dele.” Ele me disse, porém não quis ouvir, andava tendo visões de que a casa seria invadida pela Ordem das Corais, e seria arrastada pelos Iluminados para dentro de um abismo, e não podia abaixar a guarda. A noite...Jantamos lasanha, com muito refrigerante, agindo como a família normal que não éramos, para manter a mente de Ramona sã. Um acordo que firmei com Bart, para garantir que a menina tivesse a infância que não tivemos, e somente mais tarde viesse a saber O quê nós somos. A pequena sempre carinhosa, nos deu beijos de boa noite, e foi para o seu quarto, ler seus contos favoritos dos irmãos Grimm. Apesar de sua doçura, ela sempre teve inclinações para assuntos obscuros, pois as histórias contadas para outras crianças, lhe davam sono. Era uma prodígio, e por isso eu ficava cheia de dores de cabeça, quando minha mãe vinha em casa. “Thamy você tem que colocá-la numa escola especializada.” Disse minha mãe, enquanto eu colocava os pratos na lava louça. “Já falamos sobre isso. Nem eu, nem Bartolomeu gostamos da ideia. O mundo não é seguro para uma garota gentil como ela.” Respondi esperando o furacão Lina, derrubar todos os objetos da cozinha, mas a idade a deixou mais calma, e isso me surpreendeu. “Filha você sempre reclamou por não termos explorado o seu potencial quando criança. Nós não fizemos isso, porquê não percebemos, seu pai não percebeu, mas você e Bart veem, não acha justo lhe darem a oportunidade?” Usou o velho argumento irritante, de quê fui um prodígio não reconhecido, por culpa do meu pai terrestre, e isso me chateou muito, contudo respirei fundo, e sentei a mesa, ligando o meu notebook. “Venha aqui.” Chamei-a, e a mulher baixinha e empinada, se juntou a mim, com seus óculos fundos. “Está vendo estas notícias?” Mostrei o novo sistema de pesquisa inteligente, conhecido como SIP-I. O programa que substituiu o Google em 2022, quando a Deep Web, deixou de ser uma rede subterrânea, para se tornar superficial, devido a grande popularidade de materiais distribuídos como inofensivos. Ao contrário do programa do Bill Gates, o SIP-I, era controlado por uma inteligência artificial, criada por um gênio e pai de família, que a desenvolveu exclusivamente para garantir que os filhos, ficassem longe dessas mídias danosas. O Google ainda existe, porém é uma ferramenta usada por criminosos, que agora podem agir a olho nu, graças a intervenção da Elite, para satisfazer seus desejos doentios. A policia, os guardas, os seguranças, os advogados, e todas as ferramentas para se fazer a justiça, não passam de teatros financiados pelo grupo piramidal, para fingir que ainda há um meio de salvar a todos. Sim, o mundo está um completo Caos, e não posso colocar a minha preciosa herdeira do verdadeiro Novo Mundo, nas garras dos monstros do atual. Não tive todo o cuidado de filtrar a sua programação, lhe formar em cursos a distância, para agora entregá-la de mãos beijadas ao sistema deles. “Menina de 10 anos, é estuprada em banheiro unissex por garotos da mesma idade. -Menina desaparece em escola, sem deixar rastros- Menina é agredida ao voltar para casa sozinha- Meninas tendem a sofrer 75% das agressões e abusos no país -Professor é preso por molestar as alunas. Preciso ler mais?!” Disse ao configurar o SIP-I com a minha biometria, para conteúdo adulto no meu computador portátil. “O mundo não é só isso Thamara.” Ela tenta me convencer, e eu acabo rindo, pois praticamente todo mês tenho que matar muitos, por conta da perversão que se expandiu. “Pode até não ser. Mas tudo o quê vejo é esse descontrole, e enquanto Ramona não for capaz de matar, em vez de ser morta, ela fica em casa.” Disse com frieza, e minha genitora se calou. A conversa que tive com a Dona Lina, me deixou bastante apreensiva, e trouxe de volta demônios, que há anos não me perturbavam. “Cuidado em casa.” Disse uma das vozes de minha consciência. “Você não deve confiar em nenhum homem.” Repetiu, e o medo se apoderou de mim. A passos lentos segui pelo corredor do quarto da minha menina, a porta estava entreaberta, e o meu bebê de 10 anos dormia totalmente embrulhado em sua coberta lilás, que por meu intermédio havia se tornado a sua cor favorita, desde que era menor. Entrei no cômodo, e me sentei ao seu lado, fiquei lhe fazendo cafuné, e vi o seu sorriso. “Você é a coisa mais importante do mundo para mim.” Disse-lhe, e ela me abraçou forte. Foi então que ouvi ruídos, e me vi obrigada a me esconder. Como não tinha para onde ir, usei um dos poderes da morte, a invisibilidade. Bart apareceu ali, e sem perceber acabei por deixar a menina descoberta, com o seu pijaminha de short curto. Respirei fundo, se algo ruim fosse acontecer, teria que ser naquele momento, pois meu marido pensava que eu ainda estava a conversar com a sua sogra. Ele a observou sorridente, e a cobriu, dando-lhe um beijo no rosto. “Sua mãe e você, são tudo para mim.” Falou com ternura, e eu não consegui me conter. Meu corpo tremulou entre o intangível e tangível, e acabei por surgir no canto da parede. “Thamara? Mas o quê faz aqui?” Disse já incomodado. “Eu precisava ver se a Ramona estava bem.” Foi o meu primeiro impulso a dizer. “Se era só isso, por quê se escondeu atrás da cortina?” Questionou com o ar de inteligência, sabendo no fundo o quê aquilo significava. “Nem precisa dizer.” Concluiu me deixando para trás, e sai atrás dele, pronta para me explicar.
    _Bart.
    _Thamy. Você lida com o mal o tempo todo.
    Como é que ainda pensa isso de mim?
    _É só que você é todo liberal, e gosta muito
    de mim, sendo que pareço uma menina
    de 14 anos.
    _15. Mas você tem 24, há diferença.
    _Até o dia que envelhecer...
    _Primeiro se envelhecer, sempre será a minha
    mulher. Segundo você não envelhece, é
    parte de ser a morte.
    _Mas se não consigo julgar nem a Katherine,
    que é minha irmã, imagine a você que é
    o amor da minha vida?
    _Eu não sou a Katherine. Tenho prazer de matar
    pela mesma razão que você. Pra limpar o mundo
    dessa escória maldita, que se tornou uma
    epidemia!
    “Tem prazer de matar? Pela mesma razão que ela?” Ouvi uma terceira voz na discussão, e meus olhos se arregalaram, lá estava a minha mãe na porta do quarto da minha filha, que se escondia atrás da sua longa camisola azul. “Ah! Fantástico!” Explodi, e ele lutou para se manter calmo. “Agora todos os meus planos para a Ramona foram por água abaixo. Está feliz?!” Deixei fluir o ódio. “Espera, vai me culpar? Foi você que iniciou a discussão!” Ele rebateu, e embora tivesse razão, preferi negar a culpa, e inspirei “todo o ar do ambiente”, até me tranquilizar, para explicar tudo o quê tinha acontecido, pois embora tivesse o dom de tirar a vida das pessoas, não tinha a capacidade mudar seus rumos. O tempo nunca volta para a morte, isto se dá por uma força maior que a minha, e até mesmo a de meu pai.
    Nos sentamos a mesa, a mesma onde deveriam haver conversas comuns e entediantes, em vez do grande “elefante” que estava entre nós. Ramona ficou a me observar com seus olhinhos negros, que estavam esperando uma explicação, enquanto minha mãe tremia como um rato diante do gato, achando que minha doença, tinha enfim chegado ao estágio final, e agora eu matava sem ter um código de conduta. “Eu poderia mentir para vocês, e acreditem em mim quando digo: Adoraria fazer isso. Mas esconder a verdade, as levariam a pesquisar por conta, e tirarem conclusões mais absurdas que o próprio axioma, por isso vou lhes contar tudo.” Tentei soar culta e fria, mas por dentro temia que não me entendessem, e me jogassem numa casa de apoio emocional e psicológico, um nome bonito para hospício do século XXI. Bart mesmo magoado pela acusação, segurou a minha mão me dando apoio, e apesar de meus demônios o odiarem, por me fazer tão fraca, uma pequena parte de mim, se sentiu segura por tê-lo ali, e assim ambos sorrimos sem vontade, um para o outro. “Lembram-se quando sumi por mais de 6 meses, quando estava perto de fazer 28 anos?” Iniciei o meu relato, com uma pergunta, para adaptá-las ao ambiente do passado. “E que Bart lhes disse que tínhamos tirado um ano de férias longe da Ramona, que tinha se tornado cada vez mais pestinha?” Conclui, e a velha conservada Lina, revirou os olhos, já se recordando do fatídico tempo. “É claro que sim, foi o seu ato mais egoísta em relação a pobrezinha.” Resmungou seca, e isso me fez sorrir com satisfação, pois agora ela se calaria com a verdadeira razão do meu sumiço. “A verdade é que eu tinha sido recrutada por uma antiga Ordem que...” Tentei terminar mas a avó, já veio atropelando a minha narrativa. “Você entrou para os Iluminados?! Depois de tudo o quê me falou sobre eles e sua maldade e...” Desta vez eu atropelei suas palavras. “Não! Eu entrei para a Ordem de Cristo. Na qual os verdadeiros devotos da luz celestial, ou estrela da manhã, são treinados pelo filho de Deus, para limpar o mundo de tamanha crueldade, provocada pela má interpretação das Escrituras Sagradas, que foram corrompidas pelo homem, para atender suas ambições.” Respondi quase automaticamente, e ela ficou emudecida. “Mas você é má. Como o filho de Deus, a aceitaria em seu rebanho?” Inquiriu desapontada com o seu grande ídolo divino. “Eu sou má, porquê preciso ser, e Jesus me escolheu porquê sou a filha dele e Madalena.” Disse com desgosto. Após ter entrado em tantas casas, para matar homens merecedores desta sorte, não gostava de ser associada a maldade diabólica, pregada por palavras vãs, de homens loucos por poder. “Mas você não é filha de Lúcifer?!” Ela ficou ainda mais confusa. “Tive a mesma reação ao descobrir. Mas sim Lúcifer e Jesus são o mesmo ser.” Esclareci, e ela cuspiu a água que tinha começado a beber. “Meu pai cometeu muitos erros mãe. Um deles foi tentado introduzir neste mundo, virtudes para os quais não estava preparado.” Baixei a cabeça, lamentando pelo surgimento da outra face, do príncipe do mundo. “Seu pai é o Alexandre! Esse homem que a induz a matar é um blasfemo!” Gritou como uma fanática, e com o meu dedo indicador apontei minha energia para a planta no meio da sala, que por “mágica" começou a secar, enquanto meus olhos mudavam de castanho para violetas. “Tudo é um, e o um é tudo.” Disse ao abrir a palma, e soprar a vida de volta para a flor, que brotou ainda mais linda e brilhante.
    _Como fez isso? Esse Homem. Esse homem é um alien?!
    _Não, bom é, mas não da forma que está pensando.
    Eu sou o cavaleiro do Apocalipse mãe, eu sou
    a Morte.
    _Mas como isso é possível? Sua gestação foi normal,
    embora houvessem complicações!
    _E você rezou a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro,
    para que eu não morresse, e me chamou de seu
    milagre.
    _Minha filha. É um peso tão grande para carregar.
    _Eu sei que é mãe. Sei que posso ficar louca. Mas pela
    primeira vez na vida, tudo realmente faz algum sentido,
    e principalmente, eu não preciso mais ficar de braços
    cruzados, vendo o mundo ruir.
    _Mas você é tão jovem, bonita, e inteligente.
    Ele não pode escolher outra em seu
    lugar?
    _Eu tenho 666 irmãos. Mas nenhum deles tem o
    meu poder mãe.
    _Eu sabia que um dia isso ia acontecer.
    _Não tá planejando me colocar no hospício não é?
    _Não, não minha filha. Apenas espero que saiba
    o quê está fazendo, pois um erro e...
    _Mamãe eu não morro.
    _Mas pode se ferir, e depois de tudo o quê já passou, não
    quero que se machuque ainda mais.
    Ela me abraçou, e Ramona ficou calada, ponderando sobre tudo o quê sabia a respeito de Cristo e Lúcifer. Naquela madrugada tive de falar tudo a minha pequena, de uma forma que ela pudesse entender, e acabamos por adormecer.
    O MISTERIOSO MARIDO NARRA:
    Thamara dormiu junto de nossa filha, e eu fiquei a mesa, arrumando os pratos, cheio de doces que devoramos ao ouvir as palavras da minha esposa. Lina não conseguia dormir, por isso ficou sentada no sofá com o olhar vazio. Embora quisesse transmitir confiança a filha, ainda não tinha aceitado os fatos, e suas mãos tremulantes, alegavam que estava a beira de um surto. Olhei-a por cima dos ombros, e respirei fundo. Se não a ajudasse agora, a Thamy iria sofrer as consequências mais tarde, e não podia deixar isso acontecer. Como quem não quer nada, sentei-me ao seu lado, e ela como que por desespero virou-se para mim, dando-me um baita susto, com seus grandes olhos vermelhos e enrugados, marcados pelo pânico do desconhecido.
    _Bart.
    _Eu mesmo Lina.
    _Thamara não me contou como você foi envolvido
    nessa matança.
    _Ah, é simples. O par da Morte, sempre será
    o Peste.
    _Espera você também acredita que é um dos Cavaleiros
    do Apocalipse?
    _Mas é claro que sim. Fui treinado junto com
    a Thamy.
    _Isso é loucura Bart!
    _Não, não é. Basta parar de ver a Thamy como somente
    sua filha, que verá os sinais entorno dela.
    _Vocês tomaram alguma droga, quando conheceram
    esse guru que acha que é Cristo?!
    _Lina. Se acalma. O tal “guru" salvou sua filha de ficar
    cega.
    _Então é um alien! Um alien maldoso!
    _Lina. Ele é realmente Cristo, sua filha é a Morte, e
    eu sou o Peste. Precisa aceitar isso.
    _Por quê?!
    _Porquê com você como nossa aliada, podemos
    iniciar o quanto antes, os treinos de Ramona para
    esta seguir o destino que lhe foi escrito.
    _E seria?
    _Herdar nossos poderes e manter o mundo
    em equilíbrio.
    A conversa com Lina, não me pareceu muito proveitosa. Era evidente que Thamara tinha puxado a cabeça dura dela. Todavia obtive algum êxito, e por isso pude dormir em paz naquela noite. “Você tem que matá-la.” O sussurro de minha própria voz passou pelos ouvidos. Minha esposa não estava de todo errada, haviam demônios na minha mente, só que ao contrário do quê ela pensava, não representavam perigo algum a nossa filha, não da forma que com veemência me acusava, pelo menos. Meus pensamentos eram mais piedosos, me falavam sobre matar a família inteira, e depois a mim mesmo, não torturá-las com maldade, como fazia com minhas “vítimas”, ou de maneira sexual, como algumas das “vítimas” faziam com terceiros.
    Mergulhado no vazio obscuro dentro de mim, eu os vi. Eram vários de mim, cada um com uma ideia de diferente, e como eu sou o rei deste Inferno mental, caminhei lentamente entre eles, mostrando-lhes a minha força e imponência. O meu eu assustado se recolheu de imediato, ou meu eu raivoso, saltou na minha direção, e por isso o peguei pelo pescoço. “Ela nunca vai te amar! Não é capaz de amar a alguém!” Ele gritou e isso me fez sorrir, ao puxar seu crânio ensanguentado para fora do esqueleto. “Eu que mando aqui, e se não respeita a minha amada deusa, deve morrer como todos os outros.” Esclareci, e o frio e calculista veio até mim. “Ela não é controlável como a Célia. Não é um bom negócio, seguir com aqueles que estão além dos fios de nossa manipulação.” Olhou para mim, e eu lhe acertei com um machado que projetei. Não tinha tempo para ouvir as asneiras, de partes minhas, para as quais somente a Thamara ainda dava vida. “Ele seguiu por aquela direção.” Disse o meu eu viciado em violência, e por isso segui cautelosamente até a escuridão, que crescia da direção em que aquele demônio tinha se enraizado. “Ela te deixou uma vez.” Foram as suas primeiras palavras. “Ela seguiu com Dave, e te ignorou. Só retornou porquê Dave não a ama.” Continuou com seu monólogo de mágoa. “Só há uma razão para odiá-la tanto. Sr. Tristeza.” Brinquei ainda atento ao ataque dele. “É Sr. Melancolia.” Ele gritou enfurecido. “Pra mim parece mais o bebê chorão. Aquele tempo se foi Bart Melancólico.” O alfinetei, e depois recobrei o sentido, se somos o mesmo, não cairia numa provocação barata. “Não para mim. Eu ainda a vejo nos braços do outro, exatamente como ela desenhou.” Respondeu com mais intensidade, e pude chegar até ele, porém ao pisar no topo de uma colina, iluminada pela luz da lua, percebi que aquela voz vinha do meu inconsciente. “Ela nos ama. Me ama, e é só o quê importa.” Disse ao olhar para baixo. “Não é tão simples.” Suas sombras se materializaram, agarrando meus pés como tentáculos, e me arrastando para dentro do breu. Uma vez disse a Thamara que eu tinha entrado em depressão quando me deixou, mas eu menti, ela tinha criado algo muito pior dentro de mim, pois nunca havia amado tanto alguém antes dela, e agora esse mesmo monstro queria me puxar para o fundo, com o intuito de se tornar o 70% de mim, que controlava os meus outros demônios. Isso já tinha acontecido uma vez, e até hoje sofro com consequências do Bart Melancólico, que me levou a trair a minha esposa, mesmo que só emocionalmente, e ela nunca me perdoou. “Ela irá fugir com o primeiro homem bonito que aparecer.” Ele disse tentando me desnortear, mas desde que tinha completado 30 anos, não era o garoto de antes, o emprego e pequenas intervenções de Thamy, tinham me tornado atraente o suficiente, para não me sentir ameaçado, caso surgisse mais um novo rival, na batalha pelo coração da minha companheira. Por isso concentrei raios de luz na minha palma, e cortei os braços da criatura, antes de chegar na ponta do precipício. “Eu não entendo por quê você ainda existe. Eu já superei o passado, então faça o mesmo. Não importa as batalhas que perdemos, e sim que vencemos a guerra, e teremos a Thamara para sempre.” Disse iluminando o meu corpo ao máximo, para ser intocável pelo poder obscuro, do ser que habita as profundezas da minha cabeça. “Dave, Thomy, e outros, não foram os últimos.” Ele me disse, e retornei ao meu estado ativo.
    Já eram 7: 30 da manhã, e Thamara já havia iniciado suas negociações com o Robô da Ibov. “Me atrasei?” Brinquei com o meu sorriso mais sem graça, e ela seguiu com os seus olhos vazios, procurando por algo que nem a mesma sabia. “Está atrasado em 15 minutos, e só não perdeu 140 USD, porquê entrei em seu Login.” Respondeu seca, e isso me preocupou bastante. Se ela soubesse a luta que vivo toda noite, para continuarmos juntos, talvez valorizasse o meu amor, ou não. Conhecendo a senhorita “Não te amo há muito tempo.” Certamente não. “Obrigado meu peixe.” Agradeci citando o nosso apelido próprio, na intenção de alcançar as suas emoções. Só que ela seguiu inerte, me ignorando, e isso fez com quê o pesadelo da noite passada, parecesse bem real. Sentei-me do seu lado, meio desarrumado, tinha apenas escovado os dentes, e lavado o rosto. Sua pequena e delicada mão procurou pela minha, e isso me fez sorrir. “Não Bart Melancólico estava errado. Ela me ama sim.” Pensei tentando esconder o riso de alegria, e sem dizer nada ela se encostou no meu ombro, ainda focada na tela da FT. Era o seu jeito de dizer Eu te amo, sem o uso das palavras, e eu adoro isso, pois depois do carinho silencioso, sempre vem o beijo, e neste sinto toda a sua energia amorosa fluir com bastante gosto.
    A MORTE VOLTA A NARRAR:
    Ainda estava enfurecida pela noite passada, ele me traiu com uma garota mais jovem, de 18 anos, quando tinha 22. O quê quer que eu pense? Que é um homem digno que não se interessa por garotinhas? É difícil. Pois achei que o fato de ser 2 anos mais nova, me dava uma vantagem que as outras não podem ter. Afinal desde nova, sempre sofri muita rejeição dos caras da minha idade, e recebi bastantes pretendentes mais velhos. Assim conclui que meu par teria de ter sempre um ou dois anos acima de mim, do contrário sempre seria sempre um fracasso. Meus planos caíram por terra! Mesmo sendo mais nova, ele procurou por uma ainda mais nova, 4 anos mais nova. O quê me levou a concluir que se tivesse 17, teria um relacionamento com uma menina de 13 anos, algo tão patético, quanto o quê Roger, o lixo que me desvirginou fez. Depois de tal fato, nunca mais o vi com os olhos do encanto, porém ainda sim, mesmo ferida, e quebrada por dentro, não deixei de amá-lo. Só que como ele nunca valorizou os meus esforços, para manter longe os abutres que queriam destruir o nosso relacionamento, sempre que esse rancor crescia dentro de mim, acabava por dizer que não sinto mais nada, pois a verdade é que não queria sentir, mas por alguma razão era o único que não era capaz de deixar de amar totalmente. Talvez fosse o pacto que fizemos, quando ele tinha 18 e eu 16, ou quem sabe somos almas gêmeas. Já não sei mais, pois cansei de fazer inúmeros rituais para nos desamarrar, e continuarmos voltando aos dias de intensa paixão da juventude, e nos amando ainda mais. Como uma maldição sem fim, da qual nunca poderia escapar. Karma também é uma opção, consequência por desafiar a ordem divina. Contudo poderia ter me prendido a um homem cachaceiro, que me bateria, ou não me reconheceria nem mesmo com magia. Porém acabei junto dele, e apesar de ter sido o maior dos idiotas, foi a melhor opção, entretanto se pudesse voltar no tempo, eu teria impedido essa união de todas as formas, e com certeza me espancaria até desmaiar, antes de juntar nossas gotas de sangue, e transformá-las numa só, envolvendo o nome de Lúcifer e Lilith. Talvez fosse melhor ter invocado a própria Afrodite e o seu Adônis endeusado, mas isso é duvidoso, pois muitos no círculo dos magistas alegam que Lilith é Vênus, e se isso é verdade, então Lúcifer seria Áries ou será que era o pobre Efestos? Aquele que foi expulso do Olimpo pela própria mãe, e se tornou um Deus por sua cruel astúcia, ao descobrir as fraquezas daqueles que um dia o humilharam. Tanto faz. Só sei que rezei aos deuses errados, pois mesmo que a minha vítima cedesse, passamos por vários problemas ligados a este bendito ritual diabólico. O amo muito, ele é a minha vida, não vivo sem ele, parece que quem se amarrou fui eu. É duro sentir tal coisa, sendo que nunca tive tal emoção, por nenhum outro homem antes, e pior ainda é gostar dele deste forma, depois de tudo o quê aconteceu. Eu piso, humilho, chuto como se fosse outro psicótico a ser julgado, e na hora de partir o agarro forte, e faço o quê estiver ao meu alcance para não deixá-lo ir. Meus médicos dizem, que é culpa do meu mal, que não o amo de verdade, só gosto de sua submissão, e de torturá-lo friamente. É tudo tão simples para eles, que chega a me dar raiva. Não é que não o ame, pois se assim fosse, não perderia a cabeça só de imaginar ele com outra. “E isso se dá porquê o trata como sua posse, e acredita que ninguém mais pode tocá-lo.” Já até ouço o Doutor Fernand dizer, e reviro os olhos. Oras se não quero que ninguém toque nele, é porquê é importante para mim, e as mãos impuras de terceiros não devem corromper o meu imaculado amado.
    _O quê está pensando Thamy?
    _Nada.
    _Olha lá a mentira patológica gente.
    _Não importa.
    _Ainda é sobre aquele assunto irritante?
    _Em parte sim.
    _Hm.
    _O quê quer para o café?
    _Nada.
    _Isso só funciona comigo. Deixa de graça.
    _Eu realmente estou sem fome.
    _Então vou fazer bolinhos de queijo
    , presunto, salsa, e recheio de
    requeijão.
    _Quero 2.
    _Ótimo. Vou aguardar você terminar
    aqui.
    Sorri da maneira mais cínica, e isso o contagiou. É nessas horas que percebo o quanto me ama. “Eu vou. Mas só porquê me garantiu 140 dólares ainda pouco.” Fez a face de senhor da razão, e eu gargalhei. Está querendo enganar a quem querido? É evidente que expande a quantidade de oxitocina no seu organismo por mim. Tomamos o café-da-manhã, já em clima de harmonia, sorrindo como se por alguns minutos todos os males tivessem ido embora. Uma perfeita relação abusiva, na qual para surpresa de todos, era a mulher que estava pisando de salto alto nos sentimentos do homem. O telefone tocou, e fechei a cara, pois não era Lúcifer que estava me ligando, e sim a minha irmã que tinha se bandeado pro lado dos Iluminados.
    _Luciféria.
    _Pai!
    _Precisa vim a Santa Marta o quanto antes.
    _O quê? Por quê?
    _Sua irmã despertou da lavagem cerebral
    das Corais, e está a beira da morte!
    _Ela... O quê?
    _Venha ao mosteiro, e explicarei tudo.
    _Está bem.
    Ele desligou, e eu olhei para Bart. Nós entramos no carro, e dirigimos até o monte dourado. Katherine estava totalmente desidratada, caída no piso, como se implorasse pelo seu último suspiro. Sem dizer nada, afastei todos os frades, e me ajoelhei diante dela. Concentrando minhas energias na palma, vi ambas se tornarem esferas de luz radiante, e soprei para dentro da sua boca, infelizmente minha irmã não estava só morrendo, e sim tinha sido acometida por um vírus, e somente o sangue do Peste, poderia curá-la. “Vai em frente.” Disse ele estendendo o pulso, e com minha unha de energia, perfurei sua pele rasgando-a, até pingar gotas vermelhas na língua da moça, que pouco a pouco se restabeleceu de sua doença.
    Passadas algumas horas...Caminhei pelo mosteiro, e fumei um cigarro de maconha para me acalmar. Meu pai viu, e sorriu, erguendo a mão, para tirá-lo da minha. Sem questionar o entreguei, e para a minha surpresa, ele o levou aos lábios, e puxou toda a fumaça com gosto. “Parece que o lado Lúcifer segue aí dentro.” Brinquei, e ele olhou para o céu. “Lúcifer nunca irá embora, Magda.” Respondeu com calmaria. “É Luciféria, Luciferiel.” O corrigi. “Luciféria no céu, Magda na Terra, Arádia na Magia, Matheuccia na Religião...São apenas nomes. O quê importa é a sua essência, pequena princesa.” Citou meus “20 nomes", e me fez entender o seu propósito. “De fato. Lúcifer no céu, Jesus Cristo na Terra, Agrippa na Magia e na Religião.” Devolvi na mesma moeda, e ele riu com compaixão. “Então reconheceu minhas palavras, até mesmo através de um homem? A eduquei direito pelo visto.” Olhou para o lado, e ergui os ombros. “Quando falou que o Ar não era um elemento, e sim uma cola que unia os outros 3, como se o mesmo fosse o mais poderoso dos elementos, ficou bem óbvio na verdade.” Completei, e ele seguiu a fumar a erva sagrada, que aos olhos do sistema, era maldita, pois fazia o cérebro trabalhar mais rápido, e se tornar menos passivo ao controle. “Pena que nem todos os meus filhos aprenderam direito a respeito da palavra sagrada.” Olha para a frente, e a silhueta de violão da Coral, surge querendo se aproximar de nós. “As deixarei a sós.” Ele de imediato se retira. “Espera, ela é sua filha. A minha está em casa lendo e aprendendo.” Resmunguei colocando minha mão em seu peito, não o deixando passar. “Mas quando sua mãe criou ódio dos homens, você cuidou dela, como se fosse sua. Queria uma chance de se redimir? É esta.” Me relembrou, e acabei por ficar sem argumentos. Como uma criança, a morena veio até mim, e eu segui com a postura fria de mágoa.
    _Lucy.
    _É Thamara.
    _Pra mim sempre será Lucy, a minha irmãzinha
    mais velha.
    _Irmã mais velha, não venha com diminuitivos
    para despertar meus sentimentos.
    _Como sempre fria como gelo não é?
    _Diria mais fria como a Antártica.
    _Não vai querer saber como te encontrei?
    _Você sempre se fez de lesa, mas é inteligente.
    Não há nada surpreendente em ter chegado
    até aqui.
    _Eu ouvi um elogio da Sra. Crítica?
    _O quê quer aqui Katherine? Já não nos traiu
    o suficiente, ao se misturar as Corais?
    _Isso está além do quê pode compreender
    Thamara Mary.
    _Que você tinha sede de poder, e se meteu
    com as pessoas erradas? Não, é bem
    fácil.
    _Se me ver como a velha Lilá, sim, é só isso.
    Mas entrei na Ordem das Corais, para vigiá-las,
    e te entregar constantes relatórios sobre os
    crimes.
    _É Agarath e disso eu me lembro. Então num fatídico dia, simplesmente me levou para uma armadilha, e por pouco não morri.
    _Eu me apaixonei Lucy, e assim como você
    e Bart, ele era o meu parceiro de outras
    vidas.
    _Outro loiro de olhos claros com o rosto
    de uma estátua grega?
    _Guarde o seu sarcasmo. Ele era moreno,
    de olhos castanhos, e sem um gigante
    porte físico.
    _Deixe-me adivinhar, era o líder das Corais?
    _Não. Era outro subalterno como eu, e quando as
    Corais descobriram que tinha traído elas, juraram
    matá-lo, e me entregar o seu coração numa
    folha.
    _Então por um amor de verão traiu
    alguém de seu próprio sangue.
    Interessante.
    _Ele não era um amor de verão Lucy!
    Estávamos juntos, desde que me infiltrei
    na Ordem das Corais!
    _E já se passou pela sua cabecinha infantil,
    que ele pode ser o vigia delas, para testar
    a sua lealdade queridinha?
    _Já! É claro que já! Você me treinou lembra?
    _Então como ainda pode me trair?
    _Porquê ele era diferente do John. Me ligava,
    Mandava flores, fazia planos comigo, e me
    fazia ver que Bart não era o único homem
    na face da Terra, a amar uma mulher.
    _Não te usava? Não te ignorava? Não
    pisava em você? Não dava sinais claros
    de manipulação, e que não estava
    afim?
    _Não. Havia tanta devoção da parte dele,
    que várias vezes as Corais tentaram o matar,
    somente por me proteger.
    _Então te amava mesmo.
    A conversa prosseguiu, e vi os olhos de Katherine. Apesar dos sinais de um amor realmente recíproco, estava claro que aquela história não tinha tido um final feliz.
    A MEMBRO CORAL NARRA:
    Quando entrei no clube das Corais, que até aquele momento não era uma ordem reconhecida pelo mundo, tinha apenas um objetivo, orgulhar a minha mestra, irmã, e segunda mãe que já tinha conhecido. A tarefa era simples, apenas observar os relatórios através do Whatsapp e repassá-los para a minha superior, que havia praticamente retornado dos mortos. Contudo praticamente da noite para o dia, o Clube das Corais, ganhou destaque, e passou a ser notado por diversos países. Assim em vez do pequeno grupo que só tinha conversas online, agora os membros ganhavam passagens, para se encontrarem pessoalmente. Entrei num lugar com estátuas de Gárgula, cheio das mais diversas artes clássicas e góticas. Quem tivesse conhecido a líder antes, não acreditaria, que Ane Marrie agora era uma das mulheres mais ricas do Brasil. Mas isso tinha um preço, que era caro demais para pagar. “Olá meus filhos. Eu sou a deusa. Lúcifer não virá, mas os homens de Cristo, bateram a nossa porta, e não podemos deixá-los esperando.” Disse Ane, enquanto os 9 membros principais, se aproximavam de seu trono de mármore, uma regalia necessária, oferecida por ninguém menos que os iluminados. “Luz é o quê este mundo precisa, e é a ela que agora serviremos, sem perder a nossa autonomia.” Prosseguiu, sentindo-se a dona do mundo. “Se Lucy assistisse a essa cerimônia, teria revirado os olhos, e cochichado algo sarcástico.” Pensei ao me ajoelhar perante os pés da “deusa Marrie". A festa foi bastante recatada, até o momento em que ela pediu que nos despíssemos. Tremi um pouco, pois só havia eu e mais uma garota, chamada Pauline, e um dos homens veio até mim. Seu nome era Timothy, e o olhar cheio de desejo, me fez ter repulsa, por achar que era um pervertido qualquer. Porém quando segurou minha mão, e a beijou, soube que mesmo sendo um tarado, era um cavalheiro. “Não é bem o lugar para ser educado.” Joguei verde, para ver se era um teatro e ele riu. “Com alguém tão bela quanto você, é sempre hora de ser educado.” Ele me olhou com os seus escuros olhos penetrantes, e sem graça deixei meu riso escapar. Após o evento, em que por nome dos deuses tivemos de copular, Ane Marrie notou uma conexão entre nós, e nos fez um par, segundo ela éramos deuses antigos, que agora tinham reencarnado para clarear a sociedade. Novamente se Lucy ouvisse tal coisa, iria surtar, pois parecia uma cópia malfeita da historia dela e do marido, e se saísse da minha boca, certamente brigaríamos, pois ela iria pensar que a ideia teria sido minha, por conta dessa “mania de poder". Timothy andava pela cidade, sentindo-se o Senhor das Ruas, por conta do título que a “deusa" lhe proporcionou. Eu seguia ignorando isso, minha deusa era outra, e a mesma dizia que eu só me tornaria como ela, no dia em que finalmente despertasse, de maneira tanto física quanto intelectual. Só que o meu parceiro achava mesmo que Ane Marrie, era alguma entidade poderosa, por isso tentava fazer a minha cabeça para ver a sua grandeza, e jamais seguir a renegada filha de Lúcifer, que não fazia parte das Corais, por ser uma egocêntrica, metida, que achava ter mais poder que a “nossa" majestade. “Sempre não é Lucy?” Mas estes embora pareçam ser defeitos, no fim eram suas qualidades, e eu admirava esse desempenho frio e turrão de ser. Percebendo que a glória da Rainha Cobra, não me tocava o coração, ele desistiu de falar de seus feitos, e passou a mudar de assunto. “Obrigado Satã por sinal.” Foi então que vi que Timothy, não era só um ingênuo seguidor da “deusa nada virgem", como Lucy costumava chamar, e pouco a pouco, meus pensamentos sempre focados na minha irmã, foram desaparecendo, e sendo substituídos por todos os segundos e minutos que ficava perto dele. É claro cometíamos muitos crimes hediondos, em nome dos Iluminados, por intermédio da majestosa Marrie. Mas tudo o quê ficava na minha mente, eram os milk-shakes com hambúrguer que comíamos na volta para casa. Os meses se passaram, e a minha aproximação com ele, se tornou cada vez maior. O quê deveria ser somente uma parceria de negócios, logo se tornou um romance, e quando dei por mim estávamos vivendo juntos, no apartamento simples dele, que nós chamávamos de ninho do amor. Mesmo que um filho de Eva morresse em minhas mãos todos os dias, tudo o quê importava, era o calor do seu colo no final da noite, pois nada mais era importante além de nós dois, ou assim pensei.
    Certa noite cheguei em casa, e Timothy não estava lá. Somente o nosso cachorro Vlad, se encontrava no apartamento. Logo o medo de algo ter acontecido invadiu o meu pensamento. Liguei em seu telefone, e o mesmo estava desligado. Estaria ele aprontando sem mim? Questionei. Só que o meu amor, me deixou um pouco mais lúcida, e por isso decidi verificar os meus recados. “Amor. O Vlad tá com saudades.” Foi a primeira mensagem, as 7:30. “Amor hoje vai ter pizza na janta, quer escolher o sabor?” Foi a segunda, na hora do almoço. “Amor trouxe sua pizza favorita, com muito queijo e...” A ligação caiu as 19:45. “Merd...!” Deixei escapar, e fui para a próxima e última mensagem. “Sabemos de sua conexão com a deusa renegada, e se quiser ouvir outra declaração patética do seu amado, vai ter que fazer o seguinte...” Anotei as instruções com a mão trêmula. Sabia que Thamara jamais me perdoaria, pelo que ia fazer. Contudo Timy era o amor da minha vida, e eu não me perdoaria se algo acontecesse a ele. Precisava tomar uma decisão, que mudaria a minha vida sempre, e tinha apenas alguns minutos para cruzar a linha da traição. Foi então que segui o plano delas, e enviei uma falsa localização para a minha irmã, que a enviaria direto para o abate. Ela não havia despertado ainda, mas assim como eu tinha alguém que me amava, ela também tinha, e certamente ele iria resgatá-la, e caso isso falhasse, havia uma força celestial disposta a mudar o tempo, para salvá-la, e sendo assim ela era importante o suficiente para o universo intervir. Ao contrário do Timothy que tinha menos de 2 horas de vida, e poderia desaparecer para sempre, pois era um criminoso, e mesmo sendo um filho do Inferno como eu, ficaria preso ali, por sua afronta a ordem natural, ao seguir as leis erradas. Era o fim da minha parceria com a minha irmã, e por isso não conseguia aguentar as lágrimas, mas mesmo assim, eu segui em frente, e entrei naquele depósito. Timy estava preso dentro de um vidro cheio de água, acorrentado até o pescoço, com panos brancos que estavam vermelhos de sangue. Só haviam 7 minutos de vida agora, e eu precisava encontrar o painel. Corri de um lado para o outro, tentando achá-lo, até que notei os olhos do meu amado, e segui na direção indicada por estes. Quando o líquido já tinha ultrapassado o queixo, eu consegui desligar, e sem pensar duas vezes, entrei no tanque, e usei a chave que me entregaram, após mandar minha irmã para a morte. Ao nos encontrar nos abraçamos mais forte do quê nunca, e nos beijamos ali dentro. Mas após ter comprometido toda a Ordem das Corais, eu mesma paguei o preço. O tanque se fechou, na parte de cima, e a própria Ane Marrie, veio nos executar. Pensei que ia morrer, pois agora não só subia água, e sim um liquido verde, que segundo a mesma estava contaminado, com um vírus que tinha ficado adormecido há 7 mil anos. Eu gritei, e me debati, enquanto Timothy ficou parado. Não entendi a razão, até ver a enorme e gosmenta criatura na sua nuca, que brilhava mais que neon, e que seus olhos estavam vazios. “Este? É um presente da nossa bióloga renegada, que antes de sair me ensinou sobre todos os poderes da ciência... e seus malefícios.” A rainha sorriu, e entrei em desespero. Sem saber o quê fazer, passei a me empurrar na ordem contrária ao apoio do tanque. A queda poderia me machucar, só que era melhor que morrer. Empurrei várias vezes, impulsionando o meu corpo, até que a cúpula caiu no piso e se partiu. Me arrastei entre os cacos, e peguei a mão do meu namorado. Sabendo que não éramos mais bem vindos, sai correndo até a saída mais próxima. Nós dois corremos até a floresta, e quando vi um frade passar por ali, gritei pedindo por ajuda. “Eu sou Úrsula, a outra irmã de Thamara a filha mais velha de Cristo!” Foi tudo o quê pude pronunciar, antes de desmaiar. Se falasse meu nome verdadeiro, eles não nos ajudariam, Thamara tinha deixado isso bem claro, na sua “doce” carta de despedida, por isso fui obrigada a mentir. Mas ainda bem que fiz isso, pois me trouxe até o único lugar, em que Timothy pôde ser curado, para que possamos iniciar uma nova vida, longe dos crimes da Ordem das Corais. Sei que somos dois ímpios, mas se meu pai é mesmo Cristo, ele ensinou os outros a perdoarem, e certamente não negaria uma segunda chance, para uma das suas filhas, e o sobrinho, filho de seu irmão Belial.
    _Então mentiu para chegar aqui?
    _É só o quê ouviu?!
    _Não, foi apenas a parte mais marcante, pois pensei
    que tinha me rastreado de alguma maneira, algo mais
    inteligente, do quê apenas sorte.
    _Foi inteligente, do contrário Timothy teria morrido.
    _E agora espera que a Ordem de Cristo os abracem
    , e ofereçam um banquete pela sua chegada?
    _Queremos somente redenção Thamy.
    _Sem coroas, deuses, ou as velhas regalias que
    foram ofertadas por Marrie, para tentá-los ?
    _É claro que sim.
    _Estão prontos para o trabalho duro,
    que lhes confere alguma nobreza
    entre nós?
    _Se tiver um quarto, comida boa, e bons
    livros.
    _Acha que está no direito de exigir?
    _É o mínimo para um ser humano.
    _Então terá de se dirigir ao pai.
    Ele quem lida com essas
    coisas.
    Thamara era bastante firme em suas palavras, porém era evidente o alívio que sentia no peito, por me ter de volta ao seu comando. Uma vez irmã, sempre irmã, e mesmo com toda a frieza, ficava claro que se importava do contrário, não teria feito o seu marido “O Peste" me dá o sangue da cura.
    A MORTE NARRA:
    A volta da minha irmã mais nova deveria me trazer alegrias, mas por mais feliz que estivesse pela sua volta, não podia me esquecer dos males que tinha causado, e de quê nem Ramona escapou das suas teias diabólicas. Inspirei fundo, e caminhei para longe dela, deixando-a sem respostas. Tudo sempre foi muito fácil para Katherine, então não me admira a sua “cara de pau”, de vim até Santa Marta em busca de perdão. Nosso pai poderia lhe perdoar, afinal ele sempre foi o cara que perdoo as faltas do mundo, mas eu neste sentido, era tão implacável quanto minha mãe Madalena Lilith.
    A noite... Timothy e Katherine ficaram agarrados um ao outro, sorrindo, ao beberem a sopa do nosso chefe e padre João. Quem os visse ali, pensaria que eram almas gêmeas, puras e inocentes, entregues aos desejos da juventude. Fiquei com o cotovelo apoiado na mesa, pousando a mão abaixo do queixo. Os observando com cautela e fúria. Vendo o meu estado, Bart deitou sua cabeça no meu ombro, dando-me beijinhos no pescoço, até me fazer rir, e sussurrou para nos afastarmos de todos. De mãos dadas, nós seguimos até a beira do rio cristalino, e nos sentamos na ponta da terra, deixando a água cobrir os nossos pés. “Não gostei da volta dela.” Ele iniciou, e dei graças aos deuses, por não ser a primeira a dizer. “Ela é minha irmã, mas eu também não estou satisfeita com isso.” Concordei, e ele se deitou no meu colo, deixando a água fria cobrir metade do seu corpo, já que a fenda estava rasa, e “secando”.
    _Por pouco você e Ramona não morreram
    naquele dia. Não é algo fácil de se perdoar.
    _Se Ele não tivesse parado o tempo...
    _E ainda tem essa. Graças a ela o Arcanjo voltou.
    _Ciúmes, bonitinho?
    _Sempre terei ciúmes de você. É o amor da
    minha vida.
    _Você também é o amor da minha...
    _Mas?
    _Você sabe...
    _Está muito magoada comigo, para sentir
    alegria por isso.
    _Olha, não é que é esperto?
    _Engraçadinha.
    _Sou mesmo.
    _Eu te amo Thamy. Sei que falhei feio contigo, como marido,
    mas não vai se passar um dia da minha vida, que não deixarei
    de lutar para ser digno do seu perdão.
    Ele ergueu a face para cima, e pude vê as estrelas se refletirem nos seus olhos. Aquelas íris brilhantes, e a pupila tão dilatada ao olhar para mim, me fizeram entender porquê mesmo depois de tantos anos, sofrendo por ser incapaz de dar uma segunda chance a alguém, ainda seguia ao seu lado, e afastava todos os possíveis pretendentes, tornando-o minha primeira e única opção. “Também te amo Bart. É difícil pra mim perdoar, qualquer pequena falha que seja. Mas por você estou tentando.” Me esforcei para me declarar. Escrever é fácil, porém falar dos meus sentimentos, sempre foi algo complicado, pois é como se eu não fosse capaz de amar, ao ponto de literalmente esquecer de mim, e levar um tiro para proteger alguém que não está dentro desse corpo. Contudo Bart era o único por quem eu realmente me esforçava para ser melhor, e por mais que o Dr. Fernand ou o Dr. Augusto dissessem o contrário, isso para mim, era o mais perto do amor que podia conhecer. Sem que percebesse, meus dedos fizeram carinho em sua cabeça, e meus lábios foram até os seus. Talvez amar, não fosse algo que trouxesse somente felicidade e satisfação, e sim a caminhada longa e tortuosa, na qual os dois enfrentam todas as barreiras para continuarem juntos.
    O PESTE NARRA:
    Outra vez seus impulsos românticos a traíram, era óbvio por causa da sua face corada de vergonha, ao afastar o rosto depois de me beijar, e praticamente criar alguma distância emocional, ao se recostar para trás. Ainda bem que tínhamos voltado a brigar por nosso relacionamento, não queria me lembrar, do dia em que quase perdi a mulher da minha vida, e o fruto desse amor que nunca se apaga. Droga. Estou começando a lembrar outra vez...Já ouço o som do temporal que caia, e a voz dela ao telefone. “Bart por favor me ajude.” Foi tudo o quê ouvi, antes de ligar sua localização, e seguir até o meio da mata escura. A mesma em que há poucos dias, havíamos encontrado sacrifícios infantis, em nome dos “ofídios em forma de humanos”. O sangue estava espalhado por toda parte, - ao contrário do quê fizeram com Marcele, outra membro que abandonou as corais, antes da mesma se transformar numa ordem mundialmente famosa, por suas atrocidades. – Eles queriam mesmo executar a Thamara, sem fazer parecer suicídio. Minha respiração era calma, porém a cada passo que dava, o medo crescia dentro de mim, e os suspiros pouco a pouco se aceleravam. As folhas se quebraram abaixo dos meus pés, mesmo tentando ser sorrateiro, e isso fez meu coração subir até um pouco acima das costelas. Um pouco trêmulo, me aproximei das árvores, para observar o ambiente. Sentindo a força de Gaia fluir pela copa, ganhei energia para enfrentar os monstros que tinham levado a minha amada, e a minha filhinha. Minha áurea obscura cresceu, e por alguns segundos o Bart viciado em violência, tomou 70% do controle do meu corpo, pois estava pronto para me “banquetear” com a carne de certas corais. Meus dedos arranharam o tronco, como se fossem obsidianas, e por um momento senti que meus olhos queimaram, e se tornaram amarelos como ouro, dando-me o poder de ver no escuro. Foi então que a vi, nos braços dele, e minhas íris se tornaram vermelhas como rubi, pois o Bart melancólico quem assumiu. “O quê faz aqui?” Perguntei ao ver o homem de longos e cacheados cabelos negros, que segurava a minha esposa, e ficava ao lado da minha filha, me encarando com seus olhos azuis, que brilhavam de maneira tão inumana quanto os meus. “Se soubesse cuidar dela. Eu não precisaria intervir.” Ele me respondeu, e isso me fez rir de raiva, pois jamais deixava de salvaguardar a minha amada. “O quê aconteceu?” Perguntei lentamente, pronto para matá-lo com todos os requintes da maldade, assim que me entregasse a minha companheira. “As corais vieram atrás dela.” Disse sem parecer se importar, e ela despertou. “Você?” Perguntou para ele, com certa mágoa, e este sem querer sorriu. “Estou fazendo hora extra.” A colocou no piso, e levantou voo. “Ela precisa de proteção. Não importa quem você seja, sabe que somente o Pai tem tal poder.” Disse ao passar por mim. Apesar de ser um engomadinho celestial, ele estava certo, porém conhecendo a mulher que tinha, havia a certeza de quê ela não seria a favor de tal intervenção, por isso só deixei escapar um barulho de lata de refrigerante sendo aberta.
    No caminho de volta para casa...Thamara ficou em completo silêncio, segurando Ramona que tinha dormido em seus braços. Pelo retrovisor pude vê-la. Seu olhar era vazio, tinha marcas de garras nos ombros, o lábio estava roxo, como se tivessem torturado e depois a forcassem a beber veneno. Eu queria saber o quê tinha acontecido, mas ela parecia sem reação. Ao passar pela entrada de casa, ela pulou no meu colo e me abraçou forte. “Ela saiu. Eu preciso ir embora.” Foram as suas palavras. Sem pensar, a segurei contra o meu peito. “Não.” Foi tudo o quê consegui sussurrar, e ela me deu um beijo no rosto, seguido de um beijo na boca, que pareceu sugar as minhas energias. Era como se ela fosse a Hera Venenosa das revistas em quadrinhos, mas seus olhos ficavam violetas e vítreos, quando minha vida era engolida por sua boca roxa. “Eu te amo muito. De verdade. Mas meu ódio pode te machucar, então adeus.” Ela disse e dei o meu último suspiro, caindo desmaiado no piso.
    Os dias se passaram...Minha sogra entrou em desespero, e veio para dentro da nossa casa, me oferecer ajuda para cuidar de Ramona, enquanto eu procurava por minha esposa. Cheguei a voltar a beber e fumar, coisa que só fiz na adolescência após termos terminado por conta dos seus inúmeros pretendentes, e querer vivenciar todos os prazeres da juventude. Ela certamente diria que o fez, pra ficar com o tal Dave, porém anos mais tarde, vim saber que não tinha só o babaca, outros estavam aos seus pés. Não acho isso negativo, porquê eu também era o homem de muitas, após termos nos afastado. Pra mim isso só significava que a separação nos tornou duas criaturas frias e maldosas, que deixaram um rastro de destruição por onde passaram, mas se reencontraram mesmo nas trevas, pois eram perfeitos um para o outro. Infelizmente acho que ela não via assim, e por isso tinha partido de vez. Ela, seu outro Eu sempre saia em momentos de adrenalina. Então isso pra mim, era uma desculpa mais do quê esfarrapada. O sino da porta do bar tocou, e foi tudo muito rápido. Um grupo de mascarados, com uma braçadeira vermelha, jogaram um frasco ovalado no piso, que se partiu e deixou todos doentes.
    No meio daquela névoa verde, eu via mulheres e crianças gritando, ao chorarem lágrimas de sangue, enquanto os homens vomitavam sem parar pelos cantos, e alguns tremiam como se sofressem o efeito colateral de um remédio psiquiátrico. O quê quer que seja, era mortal, mas me sentia normal, por isso caminhei por ali, até chegar a saída, onde encontrei um grupo de homens de túnica branca. “Eis que o filho do nosso senhor enfim aparece entre as sombras, iluminando-as com a sua luz.” Disseram em coro, e ergui uma sobrancelha de incredulidade. “Saudamos-te ó grande cavaleiro iluminado, que deve acompanhar a amazona negra que com a sua mortalha e foice limpará o mundo.” Eles se ajoelharam diante de mim, com itens em suas mãos. “Eu sonhei que muitas pessoas morriam por minhas mãos.” Me recordei, com a voz dela. “Não podia ver o rosto, mas andava a cavalo com um guerreiro de armadura prata, que me levava até os outros dois. Era como se eu fosse a Morte” Foi o segundo lampejo. “E se um dos cavaleiros, não for apenas uma corrupção machista, e a Morte na verdade é uma amazona?” Foi o quê me fez ter certeza que era dela que se tratava. “Onde ela está?!” Peguei um deles pela túnica, e ergui contra a parede, pronto para destrui-lo caso tivesse feito mal a minha amada. “Está em Santa Marta, porém assim como a mesma está treinando, você deverá fazê-lo, para terem controle dos seus poderes, e não serem controlados por eles.” Me respondeu aquele ficava ao lado do outro. “Olha pra minha cara. Vê se eu me importo com isso? Só quero achá-la.” Disse com impetuosidade. “Se quiser ver a minha filha. Terá de ser merecedor dela.” O quarto e último homem impôs, e quando olhei para trás, vi seus olhos brilhantes como uma lâmpada no escuro. “Lúcifer?” Questionei desconfiado. “É apenas um dos meus nomes, meu filho rebelde.” Me respondeu. “Ela está bem? Não estão abortando seus filhos, e lhes dando o feto para comer não é?” Inqueri me recordando das terríveis visões da minha companheira. “Não somos Os Iluminados. Nosso treinamento é mais rigoroso e evolutivo. Ela está aprendendo a controlar o poder da Morte, e não se tornar o próximo grande Demônio, já temos você pra isso.” Respondeu e brincou no final. “Do quê está falando?” Perguntei sem entender a razão de tal acusação. “Então o bloqueio de memória foi um sucesso.” Se aproximou de mim, e pousou a mão no meu ombro direito. “Infelizmente Baal Hadad, não poderá viver para sempre nesta mentira, de quê só Thamara Mary, viveu no Inferno, e tem o meu sangue.” Tais palavras me deixaram um pouco receoso. “É hora de enfrentar o seu grande demônio, e fazer juiz ao fato de ser o príncipe deste mundo.” Ele prosseguiu. “Esse não é o teu título?” Perguntei com certa curiosidade. “Eu sou o novo Deus, meu filho, o título de Diabo é, e sempre será seu.” Ele me respondeu, e meus olhos se engrandeceram. “Isso não seria uma blasfêmia para o Altíssimo?” Notei os aspectos bíblicos dos quais Thamy sempre falava. “Seria, se ele não tivesse concedido esta glória, para se tornar o sucessor do seu bisavô.” Outra vez ele respondeu algo de quê não tinha muito conhecimento, a não ser pelas aulas da minha linda descendente dele.
    _Eu tenho um bisavô?
    _É muito para explicar. Mas sim. Você é parte da terceira
    gerações dos deuses.
    _Então este bisavô é o Caos da mitologia nórdica?
    _Sim, e dele nasceram os primeiros deuses supremos,
    que são os seus avós.
    _É muito para processar...
    _Ficará mais fácil depois que desbloquearmos sua memória.
    _Não.
    _O quê? Por quê?
    _Se sou mesmo o Diabo, não quero machucar Thamara
    ou minha filha, é melhor deixá-lo adormecido.
    _Isso é um excelente sinal. Porém embora tenha machucado
    muitos com a sua frieza e sadismo, tenho certeza que não
    praticou algum mal contra elas.
    As palavras de Lúcifer me acalmaram, e por isso segui com os frades, para receber o devido treinamento de meu poder, e ver a minha amada outra vez. Foram 6 meses de teorias e práticas, sobre o meu porte físico e espiritual. Os cientistas da ordem diziam, que minha saliva era uma fonte de doenças nocivas, que se transformava no quê minha mente desejasse, e que o meu próprio sangue, continha antígenos praticamente sobre-humanos para cada um desses males. Por vários meses fui estudado numa estufa, ás vezes dentro de um tanque, outras numa maca, para definir o limite dos meus poderes, que faziam de mim, uma bomba biológica, com a cura para as mesmas doenças que causava, por isso me chamaram de Peste. Contudo embora fosse parte das minhas habilidades, ter esses vírus vivendo em meu corpo, e os curar, não era todo o meu poder, pois graças aos seres microscópicos, poderia modificar o meu DNA, para me tornar qualquer ser existente na galáxia...Mas não vem ao caso, como dizia...No sexto mês finalmente pude encontrá-la, ela continuava linda e radiante como a lua. Como tanto gostava, estava usando um vestido preto longo e decotado, sendo seguida por homens e mulheres cobertos por capuzes amarelos. Ao contrário dos costumeiros olhos vazios, parecia tão serena quanto na adolescência, e sorria com a confiança, que nós dois acreditávamos que tinha morrido.
    _Bart?
    _Thamara...
    _Como chegou até aqui?
    _Digamos que nossos caminhos se cruzaram.
    Você não é a única filha cósmica.
    _Sério? Eu sabia! Você é meu par eterno!
    _Não, não sou. Sou apenas o deus que ficou
    louco de amores por você, e não te deixou
    viver na solidão.
    Eu segurei em sua face e a beijei com carinho. Ao sentir o seu corpo no meu, meu coração pulsou com muita intensidade. Foi assim que as memórias do passado tomaram conta da minha mente... Eu era somente um garoto loiro, semelhante um viking, quando nos reencontramos. Ela era somente uma menina de cabelos vermelhos, com olhos violetas e vítreos. Nós discutimos no começo, pois a figura baixinha, tinha contas para acertar comigo. Mas como sempre fomos estranhamente um atraído pelo outro, acabou por me contar a verdade. Sentia-se vazia, e nem sempre do nada, nascem as melhores coisas, por isso ela tomou a pior decisão. Com o uso dos seus poderes, ela abriu a porta da minha cela, e me soltou no universo. Então o quê Deus havia decretado como um caso resolvido, voltou para lhe assombrar. Pouco a pouco me infiltrei no paraíso, e fiz com quê os anjos ficassem encolerizados. Os fracos pereceram diante de meu poder, e o caos se fez no cosmos. Para mim, era como uma festa sem fim, com muitos gritos, sangue, e desespero. Mas para ela, era como uma falha grotesca, que precisava ser corrigida antes que descobrissem o quê fez. Eu espalhei entre as multidões, todo o sofrimento possível para me fortalecer, e ela veio com a sua foice, para lhes dá paz mesmo no Inferno, entre os seres materializados. Seu pai tinha sido o anjo que tirava a vida dos vivos. Porém após o seu nascimento, ele foi coroado como príncipe celestial, e outro teve de assumir o seu posto. Muitos dos seus bravos filhos, lutaram para provar que eram dignos de tal glória. Assim eles limparam a galáxia, ceifando todas as almas que pudessem, com suas armas especiais. Contudo foi na única menina, que o poder se manifestou, e por isso esta que recebeu a sorte grande. Ao contrário dos irmãos, ela não matava somente para se provar merecedora da foice de seu pai, mas sim de acordo com o seu código de conduta, no qual os culpados eram friamente punidos, e os justos levados cuidadosamente para o outro lado. Seus irmãos só se focavam em quantidade, ela não, e esta era a virtude secreta do seu pai, quando ele atuava como tal. Eu a admirava, tanto pela sua impetuosidade violenta com os ímpios, quanto pelo cuidado que tinha com os inocentes. Por isso também tomei a pior decisão. Certa vez a Morte, estava a tomar banho no rio sagrado, e eu entrei na água, infectando-a, para lhe tornar inofensiva. Ela lutou com valentia, usou seus poderes para tentar curar a água, mas por algum mistério da natureza, a pobrezinha não tinha forças para vencer a mim, pois eu era a própria doença, era o vírus que carregava outros dentro de mim, era a própria Peste, em forma humanoide. Ela não suportou a enfermidade que lhe provoquei, e caiu em meus braços. Estava fraca, e bastante vulnerável, quase irresistível. Passei a mão por sua face pálida, ela me olhou preocupada, quase dizendo "não" para a minha proximidade, porém mesmo assim a beijei, e a tomei para mim. Por alguns anos, ela desapareceu, e os homens deixaram de respeitar o poder celestial, assim como acreditaram que não havia punição para os seus crimes, pois eu também não atuava. "Vou beber até cair hoje, pois o meu fígado não mais adoce vadia!" Disse um bêbado ao espancar a esposa, que segurava o símbolo dos celestiais. "Deus porquê não me permite morrer, e me deixa sofrer? Não pequei tanto para acabar assim!" Chorou com a boca toda ensanguentada. Ela não era a primeira a perder a fé. Outros estavam em níveis mais avançados, chegando até mesmo a acreditar, que Deus os tinha abandonado a mercê do mal, do qual tinha lhes prometido proteção. Inúmeras criaturas iam as ruas, protestar contra as iniquidades divinas, e haviam os que tentavam assumir o papel, da única juíza consagrada pelos deuses, deste universo. “Então você queria encontrar a paz, depois de tudo o quê me fez?" Um homem num plano de vingança, apontou a arma para a cabeça de outro. "Eu lamento te informar, mas não existe mais morte, e por isso sou livre para estourar a tua cabeça, quantas vezes desejar." Atirou na testa do culpado, várias e várias vezes, com um sorriso cada vez maior, que o tornava pior do quê aquele que ele julgava. Este não era um caso isolado, os assassinatos se expandiam mais do quê as doenças, que costumava espalhar. Para uns era um parque de diversão macabra, e para os que não tinham tal coragem, parecia a visão mais do quê realista do Inferno dos mortais. Cabeças decepadas, gritavam pelas ruas, e os sádicos lhe perfuravam os olhos, e chutavam-nas para a lama, afogando-as sem parar. Pessoas que tinham perdido o corpo na briga para sobreviver, se arrastavam pelos cantos, para tentar se livrar daquela tortura sem fim. As mulheres se uniam em instalações, para cuidarem uma das outras, já que nesta realidade sem final ou consequência, os pervertidos também ganhavam espaço, e se sentiam no poder de abusar das mesmas. Nem mesmo as crianças, conseguiam manter a inocência, e por isso ficavam divididas: Entre aquelas que matavam, e as que corriam. Meu ato egoísta, tinha feito da galáxia, o próprio Tártaro dos Gregos, e o Inferno dos Católicos, pois eu os privei de manter a bondade, e de receber a devida a punição, ao levar a nossa Morte, para o único lugar, no qual somente o seu Eu daquela realidade, tinha a permissão de julgar, e esta era somente como qualquer criatura que habitava aquele Cosmo. Como desde cedo trabalhei para o céu, como o auxiliar do meu pai, o veneno de Deus. Sabia de todos os pontos fracos da Morte, desde a sua jurisdição, até o quê poderia prendê-la para sempre. Acorrentada no fundo do universo, ela brigava para sair, amava o seu trabalho, e não queria ver ninguém lhe substituir. Só que nunca me dirigia a palavra, e evitava até olhar em meus olhos, devia me odiar bastante. Todavia eu não conseguia deixá-la ir, pois só o fato de tê-la por perto, era o suficiente para me sentir bem, e não me importava com quantos sofreriam no processo. "Já não basta o quê fez?" Ela finalmente disse, com seus braços presos ao aço, banhado com a luz do buraco branco, que sintetizei para imitar o poder supremo, do pai do príncipe celestial. "Foi culpa de nossa mãe, e você sabe." Respondi de imediato. "É só o quê sabe dizer. Mas se fosse forte, teria dito não." Ela retrucou. "Você não pode me culpar por aquilo para sempre. Se soubesse lutar, também teria impedido.” Rebati, e ela ficou indignada. “Vai culpar a vítima? É sério?” Sua voz era alegre, mas cheia de raiva. “Eu sou o Peste. O quê esperava? Que eu me arrependesse? Fui treinado para ser impiedoso!” Mostrei a minha ira, e ela voltou ao silêncio. “Ao menos sentiu algo por mim?” Aquele tom me deixou desnorteado, parecia triste, quase magoada. “Você sabe que sim. Haviam dois destinos naquela noite: te possuir, ou te fazer desaparecer para sempre da minha realidade.” Desabafei com tristeza, quase me encolhendo de vergonha. “Eu não podia ficar sem você.” Segurei em sua face, erguendo seu queixo, e olhei no fundo daquela neve, coberta pela luz do rouxinol. “Mas você sempre foi o pior dos filhos. O Forte, O Implacável por ser incapaz de amar.” Argumentou, sem acreditar. “Parece que a única fraqueza da Peste é a própria Morte.” A beijei, e mesmo com as mãos acorrentadas, ela me puxou para a si. Aquela atração mortal e doentia, tomou conta de nós dois, e a boca mais fria que existe, pareceu quente por uns minutos. Com suas pernas salientes e fatais, ela montou em mim e me arranhou, se entregando a enfermidade do amor. Logo arranquei a sua mortalha, e tirei a sua armadura, enquanto ela me despiu as vestes de cavaleiro. Minhas mãos desceram pela sua costa frágil e nua, a sua boca não quis desgrudar, e quando o fez, foi somente para me beijar o corpo inteiro, e voltar ao meio das coxas, onde fez vários movimentos de vai e vem, deixando sua doce saliva escorrer por meu membro. Contudo não a deixei somente me satisfazer. A deitei no piso, segurei seus pulsos, e passei a minha língua por entre os seios delicados, descendo, até chegar no ponto do prazer, do qual bebi todo o júbilo com gosto, até escorrer pelo canto dos lábios, e quando vi que praticamente implorava, para que a completasse, sorri maldosamente. “Você realmente me deseja ?” Beijei-lhe a virilha, e ela corou de vergonha. “Sim.” Respondeu com sua voz doce como chocolate amargo, o meu favorito. “Então peça por mim.” Impus, e ela relutou, até que se deu conta de quê só havia nós dois, como na segunda vez, em que estivemos juntos, e cedeu a sua vontade. “Me possua Peste.” Aquelas palavras me deixaram eletrizado, e por isso entrei dentro dela com ímpeto, arrancando-lhe suspiros tão intensos, que foi capaz de suar. Aquele rosto, aquele sorriso, aquelas bochechas rosadas de prazer, seguido de seus gemidos, me deixaram louco. Por dias repetimos o feito, e creio que a Morte, foi a primeira a desenvolver a Síndrome de Estocolmo, por isso esta doença é vista de maneira tão mórbida. Mas ela não mais se importava, nem sequer ligava para o quê fazia, só com quem fazia. Se ela me amava, eu não sabia, acreditava que estava usando seu charme fatal somente para ganhar a liberdade. Porém no dia que enfim a libertei, esta saiu voando para fora do cativeiro, e se deparou com a luz de uma das luas do planeta em que estávamos. Estava tão feliz, que pensei que nossos momentos de amor doente, ficariam para trás, assim que retornasse, para impor a ordem ao nosso “mundo". “Vamos?” Segurou em meu pulso, e fiquei paralisado. “Quer que eu vá? Eu o Peste, o demônio, o...” Me silenciou com o dedo indicador. “Nem tudo é preto e branco Peste. Você causou sim muito sofrimento, mas graças a ti famílias se mantém unidas, homens mudam a conduta, e mulheres valorizam a felicidade.” Seus olhos eram de uma criatura sã, contudo suas palavras me pareciam insanas. “Se isso é verdade, por quê sempre atrapalhou a minha tarefa? Como se quisesse me corrigir, após ter me libertado?” Questionei incrédulo, e ela sorriu. “Porquê tua execução é tão sombria e implacável, que mesmo as vítimas dos criminosos, se apiedavam destes. Que de acordo com o meu dever, mereciam uma punição ainda mais severa, por toda a eternidade.” Ela explicou. “O meu erro foi te libertar, mas você quem escolheu atender o meu pedido. Portanto é só você que pode corrigir isso. O quê já se passou, não dá para voltar atrás, sem alterar todo o equilíbrio já existente. ” Ela completou, e eu percebi que estava errado, não era uma falha grotesca que tentava controlar. Nós retornamos para a nossa galáxia natal, tudo estava destruído, e muitos imploravam por seu regresso, enquanto me destetavam mais do quê nunca. Pouco a pouco, ela fez o seu trabalho, não haviam muitos para receber o atestado de óbito, por isso eliminou os executores com punhos de ferros e sem piedade, e trouxe enfim o descanso para os que tinham temido, que aqueles dias jamais teriam fim. Nosso pai quis julgá-la, porém eu assumi a responsabilidade por tê-la raptado, e assim a livrei de perder o manto que tanto adorava. Achei que após a confissão, voltaria para a cela, contudo por ter me provado um pouco mais maduro, o pai decidiu me tornar o segundo juiz consagrado, que auxiliaria a Morte em seu trabalho. Tão grande foi a minha alegria, ao ouvir tal coisa, pois em vez de me afastarem dela, nos juntaram como a metade oposta e complementar da mesma moeda. Desde então, as duas criaturas mais perigosas do universo, seguiram de mãos dadas por toda a eternidade, se amando de uma maneira que os mortais não seriam capazes de compreender. Já que onde Morte fosse, a Peste certamente ali estava... “Bart?” Ouvi a voz dela dizer, e outra vez estávamos a beira do rio. Todavia enquanto me perdia em lembranças passadas, já havíamos trocado de lugar, e agora ela tinha se sentado em meu colo, e ficava a olhar para os peixes na água, ao entrelaçar seus dedos aos meus. “Oi...” Falei olhando para as nossas alianças, próximas uma da outra, por causa da união das palmas. “Promete nunca me deixar?” Disse se encolhendo, quase sem voz, e a luz da lua brilhou sob o aço dos anéis. “É claro que sim meu amor. Não importa o quê os astros digam, sempre seremos um do outro.” Beijei sua cabeça, e ela retribuiu beijando as minhas mãos.
  • O chamado [conto]

    Um ser humano qualquer, pode ser em qualquer lugar, em qualquer hora, ele abre uma gaveta e, inesperadamente, encontra uma arma, e pega ela.
    É pesada.
    Gelada.
    A sensação é o que pode se chamar de empoderamento.
    “Heavy is good, heavy is reliable.”
    Então ele sente que pode solucionar todos os problemas da humanidade.
    Fazer justiça.
    Este ser humano qualquer, nosso personagem, coloca a arma na cintura e sai para rua como o guardião da paz e do certo.
    O guardião da paz e do certo precisa estar armado porque alguém pode atentar contra a paz e o certo, e ele tem que estar pronto para as defendê-las, responder a altura.
    Defender a paz e o certo com sangue, suor, lágrimas e balas se for preciso.
    “They pull a knife, you pull a gun. He sends one of yours to the hospital, you send one of his to the morgue.”
    Vamos dar um nome para este ser humano.
    Valéria.
    Nosso ser humano personagem é uma mulher.
    Agora ele tem nome e gênero, é ela.
    Com uma arma na cintura, pronta para defender a paz e o certo com unhas, dentes e balas.
    Cansada de ver as ruas do mundo real dominadas por marginais que se aproveitam da fragilidade de pessoas honestas.
    Roubam, matam e estupram.
    Todo dia.
    “Here is a man who would not take it anymore.”
    Ela está lá.
    No centro de São Paulo em pleno Séc. XXI, procurando Al Capone nas redondezas da Barão de Itapetininga.
    Putas, travestis, traficantes, gigolôs, maconheiros, bêbados, viciados, vagabundos, todos estão envolvidos com Al Capone ameaçando a paz e o certo.
    No mundo real os bandidos de Al Capone estão nas ruas e as famílias trancadas em suas casas.
    Não está certo.
    Cabeças vão rolar.
    “Nobody's innocent in this shit.”
    Porque se cabeças não rolam não existe justiça.
    Justiça tem que ser feita pelo povo e para povo.
    E ela está lá.
    Pelo povo e para o povo.
    Para fazer a vontade do povo.
    Com as próprias mãos.
    Ela não tem nada, só o primeiro nome, Valéria, e uma arma.
    Uma pessoa qualquer, em uma hora qualquer, com uma arma na mão.
    Disposta a fazer o que for preciso contra quem for preciso.
    Ela é o povo.
    ***
    Ali está a tão esperada.
    A oportunidade de exercer todo poder incubido a ela por uma força superior.
    “As long as you are going to be thinking anyway, think big.”
    A chance de fazer justiça pelo povo e acabar com um dos maiores problemas da sociedade ocidental moderna e de todos os tempos.
    O criminoso.
    A criminalidade.
    Assumir a responsabilidade de dar a resposta.
    Mostrar a verdade.
    Lutar a guerra.
    Ser a mão pesada e imperdoável do carrasco.
    Desmascarar o malvado ladrão e lhe dar a devida punição.
    Doa a quem doer.
    No mundo real um punguista surrupiou a carteira da bolsa de uma velha Senhora que andava calmamente entre as lojas vendo as vitrines do centro da cidade.
    Uma Senhora inocente que teve sua bolsa violada e sua carteira, com documento, dinheiro e tudo mais, subtraída sordidamente por um ladrão sem arrependimento ou remorso.
    Meticulosamente ele cortou o couro da distinta bolsa branca que a Senhora carregava e retirou a carteira e mais alguns pertences.
    E ela nem percebeu.
    Ninguém percebeu.
    Pobre Senhora.
    Punguista vagabundo tem que ser punido de forma inquestionavelmente exemplar.
    Dura.
    Para servir de exemplo para quem quer que seja que se atreva a pensar em roubar uma inocente e desprotegida Senhora que olha vitrines tranquilamente num dia de sol no centro da cidade.
    Sem perceber que está sendo vigiado pela justiça o punguista tenta sair sorrateiramente.
    Mas ela está lá, à espreita.
    A justiça.
    Encarnada em Valéria.
    Um ser humano qualquer, com uma arma na mão e pronta para atender o chamado.
    “And I will strike down upon thee with great vengeance and furious anger those who attempt to poison and destroy My brothers.”
    ***
    Valéria atirou.
    Sem vacilar.
    Com cara de raiva, gritos de ódio e a certeza de que estava ali exercendo a força divina e implacável do certo.
    Descarregando toda raiva contra a escória de Chicago e desferindo um golpe fatal na organização criminosa que assola os homens e mulheres de bem.
    Exercendo o direito que qualquer ser humano tem de defender os valores de uma sociedade livre e justa.
    “For God and country, Geronimo, Geronimo, Geronimo!”
    Nossa personagem travestida de povo e empunhando a justiça pegou o punguista desprevenido e abriu um buraco para vermes no meio da cabeça dele.
    Por trás.
    A queima roupa.
    Sem dar a menor chance ao meliante.
    Se encostou na parede e ficou esperando ele passar, e quando ele passou ergueu o braço com a arma na mão e sentou o dedo mirando direto no osso interparietal.
    O bem havia vencido e a paz havia sido restabelecida e garantida.
    A grande batalha tinha terminado.
    O dito cujo se desmanchou no chão sem nem saber da onde veio o tiro.
    Voou sangue e miolo para todo lado.
    Na cara de Valéria, na roupa de Valéria, na Valéria inteira.
    O que todo mundo viu foi uma mulher magra, de meia idade, toda ensanguentada com uma arma na mão e cara de assustada.
    Com o braço travado em 90° e o cano fumegante.
    O povo estava pasmo, sem reação.
    Valéria começou a tremer.
    Exasperadamente tentou limpar aquela sujeira da roupa, depois do rosto.
    Mas os miolos se espalhavam e se impreganavam no pano e na carne.
    Ela olhou a arma toda suja de cabeça de punguista e soltou o peso da justiça.
    A arma caiu no chão.
    A pressão baixou, e a visão foi se desfocando cada vez mais até que Valéria desmaiou.
  • O estupro [conto]

    Era uma daquelas festas open bar de bebida de primeira, onde todo mundo está aberto a tudo e a fim de tudo. Num sítio longe da cidade, com música alta e gente bonita. César tinha chegado acompanhado, mas Maria teve que sair no meio da alegria porque não estava se sentindo bem. Na verdade ela não gostava desses lugares, mas era uma boa companheira. Sabia que ele queria muito curtir o rolê, e não seria ela a atrapalhar. Foi embora com a certeza de que era a melhor namorada do mundo. Para ele era como namorar a melhor namorada do mundo, o que se traduzia num sentimento de preciso aproveitar essa liberdade da forma mais aproveitável possível enquanto ela ainda existe. Paula não estava bebendo nem mais nem menos que ninguém. Se não fosse pela notável beleza passaria despercebida por aquela passarela. Tentando reabastecer seu copo sentiu um corpo flácido de meia idade espremendo o seu no meio da multidão. Depois uma mão começou a apalpar sua bunda procurando o caminho por debaixo da saia. Quando se virou viu César a olhando psicoticamente. Com calma pegou seu copo e passou para outra mão. “Se segura aí, cowboy. Vamos conversar um pouco.” Paula ofereceu um gole de cerveja gelada, que ele não negou.
    “Então, baby, acho que a coisa já está esfriando aqui. Vem comigo para um lugar mais quente.” César agarrou ela pela cintura e começou a empurrar Paula na direção de um banheiro, tentando ser sedutor falando em seu ouvido. “Aqui não. Vamos para o meu carro.” Disse ela. “Melhor ainda, baby. Vou te fuder gostoso no banco de trás.” Os dois saíram para o estacionamento. César mal conseguia andar e se agarrava nos peitos e na bunda de Paula para tentar se manter de pé. Quando ela abriu o baú da Fiorino branca ele despencou no colchão como um saco de batatas e soltou um peido. “Não se preocupa baby, o outro lado está funcionando bem.” Paula fechou ele lá dentro e assumiu o volante. Mariana estava sentada no lado do passageiro ouvindo música. “Como ele está, baby?” “A fim de diversão.” As duas se beijaram e o carro avançou pela noite. O boa noite cinderela já falava através de César, que ia no embalo do som que emanava da cabine da Fiorino, que entrou num celeiro meio abandonado não muito longe da festa.
    “Agora a zoeira vai começar”, declarou Paula quando abriu a cabine e pulou em cima de César. “São duas mesmo? Não faço um ménage com duas vagabundas assim desde a faculdade.” Foi a última coisa que ele disse antes de Mariana colocar um silver tape em sua boca. César nem percebeu que ela já tinha amarrado suas mãos e seus pés. Tirado sua roupa. As amigas empurraram César para fora do carro e o ergueram de cabeça para baixo com a ajuda de duas roldanas abandonadas com uma corda. Então, de alguma forma descritível apenas pelo instinto de sobrevivência, César começou a entender o que estava acontecendo e a se debater. As garotas se pegavam como numa cena de clip do Aerosmith na década de 1990. Os brinquedinhos começaram a aparecer nas mãos de uma e também nas mãos da outra. Põe daqui e tira de lá e as duas gozaram loucamente no chão velho de madeira. César olhava tudo lutando contra sua cabeça que teimava em girar. Sua concentração se perdia e ela já não se debatia. Ele pensava mais do que sentia tudo que estava acontecendo.
    Paula e Mariana começaram a andar em volta de César, que tentava olhar para ambas ao mesmo tempo. “Você não quer brincar com a gente também, gostosão?” Paula girava o vibrador na mão e olhava com ar sexy para César. “Conheço bem esse tipo. Essa carinha de mau. Gosta de um fio terra né, garanhão?” César agonizava e se retorcia tentando afrouxar as cordas. “Olha esse cuzinho aqui, amor. Meu dedinho não vai ser a primeira coisa a entrar aqui, né?” Os tornozelos presos na corda tentavam forçar o corpo para cima e curvar a bunda para longe, mas as mãos presas junto ao peito não ajudavam. Mariana enfiou o dedo do meio no cu de César que gemeu abafado pela boca tampada e sentiu a agonia explodir no estômago. “Cutuca mais que ele tá gostando, olha só.” O pau dele ficou duro como uma pedra e ele começou a chorar desesperadamente. Paula caiu de boca e César soltou o corpo não suportando mais a rigidez. “Olha só, o bezerrão tá a ponto de bala.” Paula começou a punhetar César que suplicava por piedade através de murmúrios emitidos através da fita adesiva na boca. Mariana tirou o dedo e colocou o vibrador sem pedir licença. Um filete de sangue começou a pingar no chão com o corpo dele entregue as lágrimas que escorriam. “Goza garanhão, goza.” Paula punhetava ele quando foi surpreendida pelo dedo de Mariana em sua buceta. As duas se beijavam e se tocavam com uma mão enquanto punhetavam César com a outra. Todos gozaram juntos.
    Mariana e Paula caíram se abraçando calorosamente curtindo aquele êxtase. César relaxou o corpo por completo e ficou num estado de rigidez perdido numa inconsciência consciente rezando para, de alguma forma, não sair vivo dali. Era como se tivesse sido crucificado. As duas se vestiram, juntaram os brinquedos e tiraram as amarras de César. Quando o colocaram no chão ele estava tremendo e suando. Na posição fetal em que caiu ficou mesmo com os pés e mãos desamarrados. Nenhum som saiu de sua boca depois que ela foi destampada. César mal conseguia abrir os olhos e respirava pouco, prendendo o ar, enquanto Mariana e Paula riam compulsivamente. Elas jogaram as roupas em cima dele e foram indo na direção da Fiorino. “Vamos lá garanhão, a gente sabe que você gostou do ménage. Não precisa ter vergonha.” “Não sei não, mas acho que você nunca gozou tanto na vida, ainda estou toda lambuzada.” Ambas saíram juntas do galpão e deixaram César estirado no chão. Depois de seis horas, com a ajuda dos primeiros raios de sol, ele conseguiu colocar as roupas e sair dali.
  • O fim do mês e a conta na mercearia [conto]

    A vida para Eliana parecia ser bastante simples. Ela acordava às 5h, chegava no centro de telemarketing unificado às 8h, saía às 11h para o almoço, que terminava meio dia. Às 17h estava liberada para ir para casa, onde chegava às 19:30. Seu trabalho não exigia muito. Atender o telefone, respostas no caderno ao lado ou na tela do computador. O mais chato eram os relatórios, pouco tempo para fazer e exigiam um número de informações infinitos. Mas ela não levava trabalho para casa, também não precisava estudar, e depois de 12 meses ainda tinha direito a férias remuneradas, além de um salário mínimo por mês. Pagar as contas e fazer tudo isso de novo seis dias por semana. Para algumas pessoas, em tempos de crise, só isso já era o suficiente para agradecer à Deus o resto da vida pela benção recebida. Para Eliana não. Para ela isso tudo não tinha nada de fácil, nem legal, nem vantajoso, nem nada. Principalmente porque a mãe dela estava devendo na mercearia do Seu João, e o dinheiro não era o suficiente para pagar a conta. “Pode levar as compras, mas pede para sua mãe vir conversar comigo amanhã à tarde.”
    O tom do “pede para sua mãe vir conversar comigo amanhã à tarde”, somado ao olhar ensandecido nas coxas de Eliana, revelaram cedo para ela como as coisas se resolviam. “O Seu João pediu para você ir amanhã a tarde conversar com ele sobre a conta.” A fala saiu normal para sua mãe enquanto ela guardava os tomates e o alface na geladeira. Não era primeira vez que ela transmitia o recado. Sua mãe suspirou e por um segundo o instante atormentador da complacência fez Eliana tremer. “Tudo bem. Amanhã vou lá falar com ele.” A resposta foi como o fim temporário de um ponto de interrogação gigante. Todo fim de mês sentia a angústia de não saber em qual dia teria que dar o fatídico recado. Por mais que desse quase todo seu dinheiro para as contas da casa, nunca era o suficiente. Desde que começou a desvendar os significados de tons e olhares pensava no que aconteceria o dia que sua mãe respondesse que não ia conversar com o Seu João no outro dia a tarde. “Você já jantou?” Assim, com uma pergunta trivial, a normalidade podia voltar a reinar. “Estava te esperando, é só esquentar o macarrão.” “Vou fazer uma salada.” E tudo estava novamente nos trilhos.
    No dia seguinte, quando chegou em casa, sua mãe estava sentada no sofá fumando um cigarro com cara de quem chorou por horas e mais horas a fio. Uma pontada atingiu o fundo do estômago de Eliana e foi ecoando por todo corpo que quase saiu do chão levado pelo arrepio. Num primeiro momento ela não sabia o que falar. O que ela sabia era exatamente do que aquilo se tratava. Era hora de falar sobre como uma mulher sem carteira assinada faz para criar uma filha. “Ele não me quer mais.” “Como assim, do que você está falando?” Eliana sempre soube, mas parecia querer escutar com todas as palavras para que aquilo virasse realidade. “O Seu João. Do que mais eu taria falando? Você não é mais criança há muito tempo.” Não, não era, e mesmo assim parecia não estar preparada para falar sobre como uma mulher sem carteira assinada faz para criar uma filha. “Eu estou com gonorreia. Ele disse que não quer mais uma puta velha doente.”
    Essa última informação deixou Eliana completamente fora de órbita. Parada na frente do sofá ela se instalou num estado de negação que se traduzia em um silêncio apático. “Tentei ligar para todo mundo que eu conheço, mas ninguém tem como ajudar a gente agora.” A visão de Eliana estava desfocada, era como se ela estivesse de alguma forma tentando sumir dali, viajar no tempo para depois de tudo aquilo. Num tom resignado e baixo, resgatando o choro de uma tarde inteira, a mãe dela falou: “Ele quer você.” Os arrepios retornaram para o estômago de uma forma tão fulminante e letal que Eliana entrelaçou os braços entre si e se retraiu. Não é que ela não conseguia falar, é que ela não sabia o que falar. Depois de uns segundos de silêncio ela perguntou. “Quanto a gente deve para ele?” “Não sei. Ele é o dono da casa também.” Era como se um grande quebra-cabeça tivesse acabado de se completar na sua mente. As viagens da escola, a formatura, o vestido para o baile e todo dinheiro que sua mãe tinha. Era o Seu João que pagava tudo desde sempre.
    Quando desceu do ônibus no outro dia depois do trabalho percebeu que Seu João a olhava com um sorriso sacana na porta da mercearia. Ele fez um sinal com a mão para que ela fosse até ele. Eliana estava notavelmente incomodada. “Sua mãe falou com você?” Ela acenou lentamente que sim com a cabeça olhando para baixo. “Então espera eu fechar, umas nove horas e vem aqui para gente conversar.” Ela só andou para casa sem conseguir olhar para cara dele ou dizer uma palavra. Quando chegou sua mãe estava trancada no quarto. Ela deitou na cama em posição fetal e ficou chorando baixinho esperando dar a hora que ele marcou. Três minutos antes das nove ela levantou e foi para a mercearia. Seu João estava na frente, com porta sanfonada já fechada pela metade. “Entre minha querida.” Eliana tremia. “Não precisa ter medo. Não vou fazer nada que você não queira.” O estômago dela queimava, e ela tremia e não conseguia conter as lágrimas. Seu João foi apalpando sua bunda até o escritório. Ele se jogou no sofá, tirou o cinto, abaixou as calças e tirou o pau duro para fora da cueca. “Vem cá meu amor, mama um pouquinho o papai, vai.” Ela virou a cara para não ter que ver aquilo e viu uma tesoura em cima da mesa. Ela pegou a tesoura e foi para cima dele. Começou a estocar a tesoura no peito dele e a gritar não compulsivamente. Quando se sentiu cansada e completamente desorientada parou de golpear aquela carcaça de carne sem vida.
  • O fim do resto [conto]

    No futebol da educação física do colégio o primeiro a ser escolhido não é só o melhor. Ele é o melhor, o mais legal, o mais bonito, com um futuro brilhante, inteligente e o orgulho do Sr. e da Sra. Oliveira. Daí para baixo vem o resto, encabeçados pelos melhores amigos dos melhores, depois um goleiro, alguém que joga mais ou menos mas é chato, e o ruim. Esse é a escória da sociedade, a maçã podre, o menino sem futuro e peso morto. Esse era eu. Deveria ter me matado quando tinha 17 anos. Naquela noite com a Sara, em que ela estava peladinha deitada na minha cama, pronta para o amor, e eu não consegui fazer nada. Aquela deveria ser a primeira e última vez que isso aconteceu. Mas ela estava bêbada, não lembrou do que tinha acontecido na noite anterior, e eu não me matei. Teria poupado minha alma, e a humanidade, de todos esses anos de merda.
    Acabei dormindo no sofá assistindo “só é feliz e saudável quem tem…”. Não sou nem feliz e nem saudável. Nem tenho nada. Quem é feliz e saudável nem sabe que eles ficam vendendo estas porcarias toscas na madrugada. Enquanto eu fervia a água para o café me imaginei numa casa grande, com um par de carrões na garagem, num condomínio, de terno, fazendo café numa daquelas máquinas que eles vendem na madrugada. A Sara descendo as escadas com as crianças, desviando do nosso Dachshund, que ia chamar Cofap. Talvez seja melhor eu voltar a dormir assistindo algum programa de igreja. Esse calor é medonho, comecei a suar antes mesmo de começar a viver. O sofá, minha roupa, meus pensamentos, esta tudo ensopado de suor.
    Caguei fumando um cigarro e fui direto para o banho. Não adianta colocar o chuveiro no modo verão, a água é quente porque o sol é quente, o tijolo da parede esta quente, o cano esta quente, o inferno esta quente. Depois fiz um café quente, tomei fumando uma ponta que queimou meu dedo, peguei o táxi, liguei o ar condicionado e saí para trabalhar.
    Desci a Radial Leste inteira até o centro sem pegar um passageiro. Subindo a Avenida Ipiranga, ali na altura da Praça da República, três estudantes fizeram sinal. “Quanto fica uma corrida até a Barra Funda?” “Pra vocês três?” “É.” “Faço vinte para cada um.” “Tá muito caro!” “É bandeira dois, tem o trânsito desse horário, no taxímetro vai dar mais.” “Tudo bem.” Como cavalheirismo virou machismo, o cara veio sentado na frente e as duas garotas foram atrás. “Vocês cobram muito caro, por isso que todo mundo só pega Uber.” “Se cobrando caro não sobra dinheiro nem para tomar café com leite, se eu cobrar menos só vai ter água quente.” “Mas também, você quer tomar café com leite todo dia?” “Você não?”
    Deixei os três na subida da rampa do terminal e fui rodar. Passando na frente do fórum da Barra Funda um engravatado me parou. Entrou no banco de trás meio atabalhoado e ofegante. “Para um pouco antes da saída daquele estacionamento ali. Pode ficar com o taxímetro ligado.” Porque não ficaria? “Nós vamos ter que seguir um carro. Você é taxista, deve ter experiência dessas coisas. Ela não pode perceber.” “Tudo bem.” Não, não tenho direito a uma vida tranquila. Um carro prata, desses grandes de madame, saiu do estacionamento. “Ali, aquele SUV, fica com ele.” O tom dele era de investigação policial que ia dar bosta.
    Fomos para as Perdizes. Subimos a rua Tucuna, desembocamos no Parque Antártica e o SUV parou numa farmácia. Uma loira de uns quarenta anos, dessas de fazer muita garota de vinte parecer uma criança, desceu e entrou na farmácia. “É a minha esposa.” “Parabéns.” Comecei a reparar que ele tremia e tinha uma cara que de idiota se transformava em psicótica com o passar do tempo. “Ela quer o divórcio. Tenho certeza que ela esta me traindo.” Parece que essa corrida é uma ameaça aos meus planos de uma vida pacata e tranquila. Me sentia perdendo a chance de dizer: “Você não quer descer aqui e refletir melhor sobre tudo isso? Procura ajuda. Não precisa pagar a viagem. Boa sorte. Até nunca mais.”
    “Olha lá!” A loira de cabelos reluzentes e pernas grossas de um metro e meio saiu da farmácia e entrou no carro. “Você conseguiu ver o que tinha na sacolinha? O que ela comprou? Foi muito rápido. Tenho certeza que não foi remédio.” Já não me preocupava mais em responder com a esperança de que isso fosse entendido como um sinal para ele parar de falar e sair logo do carro. “Continua atrás dela. Vamos, vamos.” Agora meus pensamentos já seguiam mais na direção de “puta merda, não quero ter que ir na polícia. Por favor, desce.”
    Nos embrenhamos pelo bairro até sair na Avenida Sumaré. Fomos indo sentido Pinheiros. “Se ela esta pensando que vai me deixar fácil assim ela esta delirando. Não sou otário.” Comecei a sentir pânico cada vez que via a cara dele no retrovisor. “Ela me deve, sabia? Sem mim ela não ia ser nada. Agora ela quer me deixar, e ficar com o dinheiro ainda por cima. Ela esta louca. Quem pagou a faculdade de arquitetura em Barcelona? Quem pagou as roupas, as festas, as joias?  Ela me deve.” Aumentei o rádio. “Baixa isso cara, por favor.”
    Chegamos até Pinheiros. Descemos a Cardeal Arco Verde e o SUV entrou num estacionamento depois do cemitério. “Para na esquina de baixo, para na esquina de baixo.” A mulher saiu do estacionamento, andou uns metros na calçada e entrou numa portinha com várias salinhas de profissionais liberais. “Eu sabia que era aquele filho da puta do psicólogo. Aquele papinho de terapia era só fachada. Ele queria mesmo era comer minha mulher. Vou resolver isso agora.” O cara sacou um trinta e oito, desses pequenos, de dentro da pasta. “Fica aqui esperando que quando eu voltar você me leva para casa e te pago o dobro.” Esperei ele entrar na portinha e fui embora para longe dali o mais rápido possível.
  • O gordo contra o mundo

    - O Senhor está bem?
    - Sim, e o Senhor?
    - Também. Pensou em uma resposta para minha pergunta? No porque nós dois estamos aqui?
    - Pensei, mas não sei direito por onde começo.
    - Pode ser da onde você quiser.
    - Pode ser de quando eu queria fazer alguma coisa?
    - Que coisa?
    - Eu ainda não sabia o que era, mas eu queria fazer alguma coisa que mudasse tudo.
    - Como assim mudasse tudo?
    - Que as coisas fossem melhor, sabe?
    - Queria que você falasse mais dessas coisas.
    - Então, eu queria mudar elas, e ia começar pelo preconceito contra os gordos. Você sabia que eles são a maioria da população do Brasil e representam quase um terço da população mundial?
    - Sabia, mas porque você pensou nos gordos e não nos negros, por exemplo. O racismo não te incomoda?
    - Claro, claro que o racismo me incomoda. Eu pensei sobre isso, em começar a mudar as coisas por aí, mas eu não poderia virar negro depois que eu nasci branco. Enfim, este é um grande problema, mas eu estaria preso a certas limitações. O gordo também tem uma coisa de diferente, eu pensei. Tem gordos de todos os tipo, ricos e pobres, brancos e negros, católicos e ateus, e todos eles sofrem com o mesmo preconceito, ser gordo.
    - Sim, entendo, e você sofria esse preconceito?
    - Não, eu só escutava falar, lia notícia. Mas era porque eu era magro, e eu precisava ser gordo para saber o que era isso. Por isso comecei a comer tudo que eu podia até ficar assim, gordo.
    - Então o Senhor ficou gordo para poder sofrer preconceito?
    - Isso. Me sentia muito mais livre para falar sobre todas as injustiças e julgamentos que os gordos sofrem. Os olhares nos ônibus, a discriminação na hora de conseguir um emprego, o bullyng. Para protestar mandei fazer uma camiseta escrito bem grande: “Sou gordo porque eu quero e posso.” Olha o meu tamanho, e olha que eu era maior, era um outdoor ambulante.
    - E o que aconteceu?
    - O que acontece com todo gordo. As pessoas se afastam, eu virei motivo de piada. Então eu fui procurar apoio naqueles grupos onde os gordos vão para tentar emagrecer.
    - Você queria emagrecer?
    - Não. Todo o preconceito começa com essas pessoas. Essa conversa de que o gordo é bonito por dentro, que ser gordo é uma doença, que gordo é preguiçoso, eu descobri que tudo isso é a raiz do problema. A cultura, a velha e culpada cultura. Mas voltando. Esses programas nunca funcionam, só servem para as pessoas ficarem deprimidas, se isolarem. Então eu comecei a falar com essas pessoas. Explicar que ser gordo não é feio, nem crime, nem doença, não significa nada.
    - E assim você ia mudar as coisas?
    - Isso.
    - E as coisas mudaram?
    - Não muito, mas cheguei a algumas conclusões.
    - Porque você acha isso?
    - As pessoas me olhavam com cada vez mais desprezo. Mas eu percebi que as pessoas que me olhavam assim eram as magras. Quanto mais eu engordava menos atenção me davam. Preferiam ir de pé no ônibus do que ir sentada do meu lado. Não era assim que eu ia mudar as coisas. As pessoas gordas se aproximavam, vinha conversar, conseguiam enxergar as coisas diferentes. A ideia é que as pessoas sejam iguais, mesmo se parecem diferentes.
    - E como você se sentia?
    - Eu me sentia bem em ser gordo e poder falar sobre tudo isso. O que eu sentia na pele era o preconceito dos magros. Cheguei até a ser entrevistado por uns jornais. Tenho tudo guardado. Mas aquele sentimento de mudar as coisas continuava martelando a minha cabeça. Sabe, eu nasci para mudar as coisas. Acho que sou meio que predestinado.
    - Como assim?
    - Por exemplo, a família do meu pai e da minha mãe se odiavam. O meu avô, por parte de pai, era prefeito, e meu avô, por parte de mãe, presidente da câmara de vereadores. Eles viviam brigando. Mas aí eu nasci e mudei as coisas, porque as duas famílias ficaram amigas e a câmara dos vereadores e a prefeitura começaram a trabalhar juntos e tudo melhorou na cidade.
    - E o Senhor acha que foi o Senhor o responsável por essa mudança?
    - E não?! As famílias se odiavam mesmo. Tem até história de morte. O Senhor pode ter certeza que não estou aqui por acaso. Estou aqui para mudar as coisas. Só contei essa história para o Senhor entender que sempre foi assim, de mudar as coisas.
    - Mas o Senhor estava dizendo que não ia muito bem com relação ao preconceito dos gordos, a relação com os magros era difícil.
    - Isso, mas era difícil por causa deles. Com o tempo fui percebendo que as pessoas estavam hipnotizadas pelas ideias dos magros, e foi quando desenvolvi minha teoria de que se todos fossem gordos não haveria preconceito. E, convenhamos, é bem mais fácil, e legal, os magros virarem gordos que os gordos virarem magros.
    - Mas o Senhor não acha que querer que todos os magros virem gordos é igual querer que todos os gordos virem magros?
    - Sim, mas é diferente, porque os gordos não tem preconceito contra os magros, mas os magros tem preconceito contra os gordos. Mas eu entendo as reclamações de que minha teoria foi bastante radical. Eu também entendo que mudar as coisas é difícil, leva tempo, só de estarmos falando sobre isso já foi uma pequena vitória. Falar do preconceito contra os gordos já é um começo. Já dei o primeiro passo. Mas eu nasci para fazer coisas maiores, mudar tudo.
    - Como assim?
    - Percebi que para mudar as coisas, e muitas coisas tem que ser mudadas, então tenho que dar vários primeiros passos, entende?
    - O Senhor quer dizer um passo de cada vez?
    - Não, quer dizer que eu tenho que ser tudo que gera algum tipo de preconceito. Assim eu vou poder sentir tudo, e falar sobre tudo, e mudar todas as coisas. Agora eu vou ser pobre.
    - Entendo. Falaremos sobre isso na próxima sessão, os enfermeiros irão acompanhar o Senhor até seus aposentos.
  • O homem, a mulher e Matheus [conto]

    [00:30]
    Matheus está na base da escadaria que corta o quarteirão e liga a rua de cima a rua de baixo.
    Uma mulher começa a descer a escada.
    Matheus surge no meio do caminho tentando assaltá-la a ameaçando com uma arma.
    Ele é surpreendido por um golpe pelas costas e cai desacordado.
    A mulher e um homem arrastam Matheus até o porta-malas de um carro estacionado na rua e saem dali.
    [01:00]
    Matheus acorda deitado e amarrado numa mesa como se estivesse pronto para um desmembramento.
    Uma mulher, com o nariz vermelho e o olho inchado, o encara.
    “Você matou meu filho.”
    “Não sei do que você está falando.”
    “Seu assassino…...você matou meu filho.”
    “Do que você está falando?”
    “Você não se lembra de ter atirado no meu filho ou não sabe quem era o meu filhos dentre os que você matou?”
    “Nunca matei ninguém……..quem são vocês?.........o que tá acontecendo?”
    [01:15]
    Uma toalha cobre o rosto de Matheus enquanto a mulher vira uma jarra da água, como quem enche um copo, entre seu nariz e sua boca.
    “Confessa que você matou meu filho.”
    “Eu nunca matei ninguém.”
    “Claro que sim. Você era só um vigilante garantindo a paz no escadão.”
    “O que você faz com uma arma?”
    “É de chumbinho……..nem está carregada……...é só para assustar.”
    “Assustar?...........como?............assim?”
    O homem acerta Matheus repetidamente com a coronha da arma, até que ele desmaia.
    [01:30]
    Ele acorda com o homem passando amônia no seu nariz.
    “Você matou meu filho por causa de um celular?”
    “Nunca matei ninguém…...nem sei quem é seu filho.”
    “Ele era o jovem que estava descendo a escada depois de sair do metrô e você atirou nele por causa de um celular.”
    “Porque você não pode ter um celular ninguém pode ter………..é isso?”
    “Não…..eu nunca matei ninguém.”
    “Matou sim.”
    “Você sabe o que os árabes fazem com quem é pego roubando?”
    “Por favor…..não…..”
    Empunhando um machado o homem decepou quatro dedos e quase metade do dedão de Matheus, que mais uma vez apagou.
    [01:45]
    Homem e mulher cuidam do ferimento na mão.
    “Calma, ele vai confessar.”
    “Já tem sangue para todo lado, você sabe o trabalho que vai dar para limpar isso depois?”
    “Eu limpo com removedor depois.”
    “Vamos ser mais limpos, liga o choque no saco dele.”
    “Aí você vai limpar o chão todo cagado e mijado depois?”
    “É melhor do que sangue.”
    “Precisa de uma extensão maior que essa pro cabo chegar até a mesa.”
    “Tudo bem, vou pegar uma maior lá em cima.”
    [02:00]
    Matheus acorda, assustado, com a amônia no seu nariz.
    Ele sente o curativo na sua mão esquerda e os cabos grudados no seu saco.
    “O que vocês estão fazendo?”
    “Ajudando você a falar a verdade.”
    “Quantas pessoas você já matou?”
    “Nunca matei ninguém.”
    Choque.
    “Mentira. Você matou meu filho e quantos mais por causa de um celular?”
    “Eu não sei quem era o seu filho.”
    “O que você matou com um tiro na barriga, abatido como um animal.”
    Choque.
    Choque.
    Choque.
    “Porque você matou meu filho?”
    Choque.
    Choque.
    Choque.
    “Não fui eu.”
    Choque.
    [02:15]
    A mulher pega uma tábua de madeira e começa a bater na cara e no corpo de Matheus.
    “Confessa……..você matou meu filho……..a sangue frio……”
    “Não……..nã……..não……”
    “Matou sim seu desgraçado……...ele estava vindo para casa……….ele ia para faculdade……..estava tudo bem……….e você matou ele porque ele não quis te dar o celular………”
    “Não……..nunca matei…….”
    “Covarde……..você matou meu filho……….”
    [02:30]
    Com um potinho de amônia perto do nariz o homem acorda Matheus, que abre o olho com a expressão de quem está prestes a desmaiar.
    A mulher joga um balde de água na sua cara, ele engasga e vomita sangue.
    O homem levanta a tampa da mesa em 90°.
    Matheus consegue ver duas prateleiras lotadas com potes de palmito gigantes com cabeças e um líquido amarelado dentro.
    “Por favor……..me deixem ir………..eu tenho família…….”
    “Olha só…….agora ele tem família……..é quase uma pessoa de bem…….”
    “Rouba porque não tem trabalho, né?”
    “Porque você não pensou nisso quando matou meu filho?”
    “Eu não matei seu filho……...foi ele…..”
    “Agora você lembra do meu filho……o valentão resolveu abrir o bico…..….sabe até quem matou ele……..”
    “Foi você sim…….matou, matou sim…….você matou ele de todas as formas que você poderia matar…..”
    [02:45]
    Com três machadadas o homem arrancou a cabeça de Matheus do corpo, pegou ela pelos cabelos e colocou dentro do pote.
    A mulher encheu o pote com clorofórmio e colocou na estante junto com as outras cabeças.
    O homem desprendeu o resto do corpo da mesa, enrolou numa lona, e depois usou três cordas para amarrar tudo.
    “Vou me livrar do resto deste traste enquanto você vai limpando as coisas por aqui.”
    “Você disse que ia ajudar com o sangue.”
    “Quando eu voltar eu ajudo, agora tenho que cuidar disso.”
    “Já vi esse filme, você vai parar no bar e voltar já com o dia amanhecendo.”
    “E quando eu voltar eu limpo o sangue, mas a bosta e o mijo são seus……...eu avisei do choque.”
    “E eu já disse que a gente tem que ser mais limpos……….vamos usar armas……….a gente já tem um monte.”
    “Não………..quem usa arma são estes animais.”
  • O Klan-Destino

    o klan destino

    A Tua Vida É Um Presente De Deus, A Maneira De Como Escolhes Viver É Um Presente Para Deus.
    Sem Persistência Estes Sonhos Não Passam De Uma Ilusão, Sem Assistência Esses Olhos Jamais Enxergarão A Flor Que Brilha Sobre O Sol Padrão, A Fantasia Tem Os Seus Direitos Mas Nem Todos Seguimos Os Seus Deveres, A Realidade Baseia-se Entra As Palavras Que Mancham Os Prazeres Dos Nossos Numéricos Poderes, O Limiar Invisível Das Comédias Alegres Largamente Indecentes, Agem Como Se Essa Vida Fosse Um Entrevista Para A Próxima, É Como Se Morte E As Suas Vertentes Não Passassem De Mais Uma Forma De Renascimento Em Reverso, Que Caminha Pelo Pacífico Clima De Hiroshima, Identificando As Silenciosas Fontes De Propósitos Adormecidas Nas Costas Do Universo, É Como Se O Passado Estivesse A Ser Teatrado Pelo Tempo A Espera De Ser Assistido, Recolhendo As Humanas Sensações E Depositando-as Na Fonte Onde O Abatido Coração E Mantido, De Forma A Confrontar As Nossas Próprias Frustrações, Eu Sou Um Agente Livre Que Usa A Sabedoria Para Valorizar As Destruídas Fundações, Porque Nós… Somos O Fidelíssimo Retrato Dos Privados Atos Friccionados Em Átomos Que Constituem Os Fatores De Debate Que Hoje São Vistos Como Rumores, Interliguei-me A Ligação Do Criador Manipulando-me Da Evolução Que Faz Procedência Ao Macaco, Eu… Não Sou Um Macaco, Eu.. Sou A Palnitude Das Energias Espirituais Elucidadas Pelas Estrelas Do Zodíaco, Que Rutilam A Nossa Esperança A Partir Do Paradisíaco. 

    Não Duvides Das Possibilidades Porque O Stresse Não Se Classifica Com O Limite, O Coração Esta Destinado Em Impulsionar O Essencial E Procurar Sempre Pelas Verdades Que O Sangue Transmite, Se A Arte Representa A Paixão Da Alma Eu, Sou Uma Desintegração Atómica Que Universalmente Nunca Englobará O Teu Click, Tenho A Esperança Transformada Em Desespero Devido A Traição De Quem Mentio Magoou E Largou A Minha Mão, É Perigoso Desistir Demasiado Cedo, Uma Nova Publicação Que Vem Comprovar A Ausência De Medo, Tu Não Estás Na Minha Lista De Salvação, A Tua Inteligência Só E Ativada Perante A Avaliação Dos Meus Dilemas, Fugir Do Que És, É Como Sentenciar Uma Outra Pessoa Com As Normas Dos Teus Sintomas, Mas Quando Te Encontras No Lugar Da Vitima A Boca Materializa-se Num Instrumento Para Distribuir Desculpas, Prevejo O Ressurgimento Do Drama Entre As Etapas, Das Causas Que Te Impossibilitam De Sacrificar O Êxito Imediato, Mas Atenção! O Klan É O Mundo Que Separa A Tua Vida Do Próximo Corpo Candidato, As Expectativas São Evidenciadas Através Dos Comportamentos Da Janela Do Tempo, A Depressão E A Atitude Não Andam Juntas São Como Os Momentos Microscópios Que Procurar Acertar As Suas Contas Conjuntas, Enquanto As Tradições Comuns Condenam Antes De Tentar, Continuaremos Escravizados Pelas Provocações Da Ignorância E Da Sua Saúde Suplementar, A Tamortugia Das Informações Alternativas Sobre A Criação, Não Têm Registo Na Mente De Quem Escolhe Sabotar O Sucesso Klan-Destino Afiliado A Retaliação. 
    Deus Criou-nos Para Ver Como Ele Era.

    Procuro Entre As Colecções De Experiências Desencadear-me Do Restritivo Quotidiano Que Lota A Mente Impedindo-me De Expandir O Crescimento, A Fama É Um Mundo Onde Facilmente Tornas-te Presa Dos Horrores Que Arquivam O Aumento Do Monitoramento, A Constante Atualização Das Condições Materiais De Observação Levam-te A Procurar Pelos Mais Superficiais Métodos Que Expliquem A Minha Loucura, É Como Se Eu Andasse A Resolver Os Teus Problemas Com o Silêncio Que Se Encontra Fora Do Universo, Disperso Os Gritos Desta Amargura Que Pouco A Pouco Vão Atingindo Um Inflamável Estado De Rutura, Depois Disso, Não Esperes Que Eu Vá Pintar A Minha Arte Nas Tuas Paredes Vaginas, A Sequência Dos Acontecimentos Disse-me Que Tu Mereces Ser Amada, Mas Não Por Mim… Tenta Os Pescadores Profissionais, O Segundo Degrau Apenas Será Restrito Para Os Que Se Relacionaram Com A Vingança, 1 Pessoa 2 Sentidos Separados Pela Tempestade Mas Apenas Um Caminho Te Encaminhará De Volta A Segurança. 

    É Normal Ter Medos Das Respostas… Mas Tu Não As Podes Evitar, Uma Nova Ideia É Como Um Outro Sedativo Para Os Nervos Que Leva O Inteletual A Contemplar, As Mais Vastas Leis Do Movimento Que Barram A Minha Compaixão, Sem Génio Mas As Admiráveis Qualidades Removeram As Misérias E Deram Sentido A Paixão Que Conecta-se Com O Ser Esquecido No Mundo Virtual, As Estratégias Reprodutivas Criaram Um Terreno De Debate Onde Todo Artigo Publicado É Como Uma Inseminação Artificial, É Como Se Eu Futuramente Já Tivesse Procriado A Próxima Geração, Hoje Estou De Volta Ao Passado Para Restaurar A Mente De Todo O Agente Adormecido Relembrando-te Que O Matrix Causou A Nossa Destruição, Parece Que Os Sonhos Onde Estamos A Morrer São Onde Mais Gostamos De Viver, Eu Quero Uma Vida Inteira Não Apenas Um Infinito Dia De Férias, Eu… Quero A Liberdade De Poder Cometer Os Meus Próprios Erros E Despedir Das Minhas Artérias Todas Essas Bactérias Difamatórias. 
    Olha Para O Teu Próprio Barco.

    Fui Enviado Da Eternidade De Volta A Nova Temporada, A Missão É Relembrar Que As Mulheres Formam Criadas Para Serem Honradas E Respeitadas, Não Para Serem Tituladas Como Simples Namoradas, As Pessoas Só Não Te Valorizam Porque Não Compreendem O Que Possuem, Não Transformes Os Teus Sentimentos Em Lágrimas Porque Não São Apenas Palavras Que Te Constituem, Mesmo Quanto Te Sentires Definida Pela Social Visão Reivindicalista Que Oprime O Teu Grande Potencial, Lembra-te De Que Somos Capazes De Tudo… Menos De Falhar, A Informação Genética É Uma Essencial Unidade Individualista Que Fez Da Nossa Alma Uma Ferramenta Para Amar, Primeiro Somos Fatigados Pela Injustiça E Só Depois E Que Questionamos A Lógica, Da Doença Lúcida Que Deu Nascimento Aos Acontecimentos De Toda A Decisão Trágica, Eu Sei Que A Privacidade Leva-me Ao Conhecimento Pessoal, Ainda Assim Permito-me Viver Na Prisão Produzida Pela Talento Da Minha Projeção Pessoal, Reforço O Interesse Evitando Situações E Conversas Incapazes De Alcançar A Estimulação Mental, É Como Competir Com Alguém Que Te Deveria Complementar, Sinto O Cheiro Da Esperança Mas Vejo Ela Fugir Assim Que Chega O Primeiro Bloqueio Orçamental, Acabei Por Me Tornar Naquilo Que Falo, Eu Não Te Deixo Falar Porque É Apenas Com O Klan-Destino Que Eu Falo.  

    As Evoluções Paralelas Das Consagradas Chamas Gêmias Só Têm 2 Identidades, Até Os Animais Sabem Diferenciar As Atividades Demónicas Das Sementes Da Liberdade, Somos Todos Livres Em Fazer O Que Bem Entendemos, Somos Todos Livres Ao Ponto De Escolhermos Como Havemos De Perder A Nossa Divindade, Mas... Eu Escolho Em Viver A Minha Vida Nunca Lamentado Por Quem Teve A Sua Perdida, Escolho Em Aceitar O Anjo Que Sou E Nunca Envergonhar A Dádiva Que Me Foi Concedida, A Inspiração É Espiritual A Informação É Tecnológica, A Auto-avaliação Das Nossas Ações E Obras São Examinadas Pelas Ferramentas Ecológicas, Não Pelas Receitas Ateu Que Se Seguem Por Uma Refeição Agnóstica, E Se O Céu For Apenas Mais Uma Estrada, Eu Estou Pronto Para Caminhar Até Ao Final Desta Piada Sarcástica, Atravessarei Todas As Fronteiras Até Alcançar O Plano De Existência, Sempre Acreditando Que O GPS Das Minhas Decisões E Escolhas Encaminharão A Essência, Pelas Montanhas De Impossibilidades Localizadas No Hemisfério Direito, Sentado Com Dignidade Na Encruzilhada Que Destabiliza O Ser Da Virtualidade Do Preconceito, Avistarei A Escada Dourada Que Liga O Paraíso A Glória, Porque A Morte Não Representara O Final Da Nossa Jornada, Mas Sim A Entrada Para A História Da Sabedoria. 
    Compreender O Sentido Da Nossa Função Histórica. 

    Kudza Klan 
  • O matadouro [conto]

    Minha perna estava quebrada. Tinha certeza que estava quebrada. Doía desgraçadamente como dói uma perna quebrada. Mas não arredei o pé. Dei dois tiros, tomei um comprimido de anfetamina com vodka e voltei pronto para continuar até o fim. Faltavam quatro. O filho da puta soltou a carcaça lá de cima do túnel, e a força do peso morto preso no gancho como um rolamento num cabo de aço tosco veio descendo, embalado pela gravidade, na minha direção com a mesma potência de um ônibus voando direto para a mão do recebedor num jogo de baseball. Abri o peito e pow! aquela merda explodiu entre a minha barriga e meu pescoço como um gancho de esquerda do Ali com uma joelhada do Dhalsim, me jogando para trás abraçado com aquela bolsa de carne e sangue sem vida. Respirei fundo e inclinei o peso para frente. Fui me arrastando até o caminhão e soltei toda aquela merda lá dentro. “Já são sete, velho. Mais um e perco a aposta no paralelo.” Aquele corno filho de uma puta tinha algum tipo de prazer asqueroso em ver eu me fudendo. Não era nem de longe maior que o meu de fazer aquele bastardo olhar para o lado com medo quando cruzar comigo na rua. Ter a sensação de que ele se arrepende amargamente de ter me dito qualquer coisa que não tenha sido “obrigado por não me mandar para o inferno, Senhor.”
    Minha perna estava quebrada. Tinha certeza que estava quebrada. Doía desgraçadamente como dói uma perna quebrada. Mas não arredei o pé. Dei dois tiros, tomei um comprimido de anfetamina com vodka e voltei pronto para continuar até o fim. Faltavam três. “É sério mesmo?” O cretino de cima do túnel ria, o imbecil do caminhão ria, os retardados que tinham apostado quando eu ia cair riam, só eu não ria. “Vai logo com essa merda, porra.” O gancho veio zunindo pelo cabo e conforme o som aumentava sentia como se um muro tivesse vindo violentamente na minha direção e eu não ia conseguir desviar. De repente ele me atinge no peito violentamente na forma de uma carcaça morta e sem vida. Abracei ela e bambiei para cá, depois para lá. Talvez eu tenha algo quebrado além da perna, ou já tenha cheirado cocaína e tomado anfetamina o suficiente para não sentir mais dor, mas parece meu braço virou ao contrário para segurar o monte de carne. Me curvei um pouco para trás para contrabalancear o peso e depois me lancei para frente. Embalei nas forças de Newton e consegui largar a peça no caminhão.
    Minha perna estava quebrada. Tinha certeza que estava quebrada. Doía desgraçadamente como dói uma perna quebrada. Mas não arredei o pé. Dei dois tiros, tomei um comprimido de anfetamina com vodka e voltei pronto para continuar até o fim. Faltavam dois. “Para com isso. Se você morrer vai dar o maior problema.” Minha respiração não estava controlada o suficiente para responder qualquer coisa. Minhas narinas se abriam quando eu respirava como o touro que quer matar o Pica Pau no desenho que passava de manhã na televisão. Com a cara travada e olhar vidrado fiz um sinal com a mão para o estúpido lá de cima lançar o próximo míssil. Ele veio voando pelo túnel numa rota descendente reta e seca até estourar em cima de mim. Dei uns dois passos para trás e senti algumas mãos me segurando. Minhas costas já estavam sensíveis. “Não toca em mim, droga.” Fiz um malabarismo do capeta para conseguir me manter minimamente ereto e com a carcaça sob controle. Colocando todas as minhas fichas no meu senso de direção me joguei para o lado direito e trombei com o caminhão. Me virei já botando toda massa de carne para dentro num movimento só. “Seu velho dos infernos.” “Vai se fuder.”
    Minha perna estava quebrada. Tinha certeza que estava quebrada. Doía desgraçadamente como dói uma perna quebrada. Mas não arredei o pé. Dei dois tiros, tomei um comprimido de anfetamina com vodka e voltei pronto para continuar até o fim. Faltava um. “Cala a porra dessa boca e solta isso logo seu desgraçado.” Como se fosse a própria vingança de Edmond Dante aquele trambolho morto e sem vida bateu em mim para matar. Tudo girava como um globo da morte. Meu peito não se enchia mais de ar e respirar era como buscar força num motor 1.0. Não tinha torcida, nem palmas, nem silêncio. Eram risadas. Eu queria morrer. Ali. Na frente daquele bando de estrume. Carregando aquelas carcaças podres para dentro de um caminhão refrigerado desligado. Cair, estrebuchar um vai tomar no cu e adentrar o infinito sono profundo dos justos no céu dos judeus. Estava tudo ficando embaçado e escorregadio. Não foi sangue, suor e lágrimas. Foi a cocaína que equilibrou aquele monstro de carne com o joelho e a vodka com anfetamina giraram a minha cintura e lançaram o pacote para dentro do caminhão como se fosse o Jordan arremessando um lance livre. Cesta. De chua. Caralho.
    Minha perna estava quebrada. Meu braço estava quebrado. Tinha costelas quebradas. Tudo doía desgraçadamente até eu dar dois tiros e tomar um comprimido de anfetamina com vodka. Não faltava mais nenhum. “Cadê meu dinheiro, seus animais.” Ninguém mais ria. Nem fazia piadinha escrota. Nem falava nada. Um a um eles passavam por mim e me davam cem mangos cada e depois ficavam falando baixinho qualquer porcaria num canto como crianças mimadas repreendidas pelo bedéu. Me escorei na parede, fui respirando com mais calma e tudo foi começando a ficar claro e dolorido. O mundo parecia que estava diminuindo. Eu tremia como uma máquina de lavar roupa velha que parece que vai levantar vôo. Talvez estivesse babando. Eles olhavam para mim como quem espera o moribundo dar o último suspiro para tripudiar em cima do corpo morto. Dei mais dois tiros e tomei mais um comprimido de anfetamina com vodka. “O dobro ou nada que carrego mais dez, cambada de porco.”
  • O Medo Apavorante da Mula sem Cabeça

    Disparada, intencionalmente pelos ‘GRANDES, e podres, PODERES’, por uma resposta a uma ansiedade fisiológica em massa nacional. Em uma reação social, descomunal, obtida por estímulos de crenças e imaginações interpretadas como um alerta de reações físicas e mentais, facilmente observáveis pelos corpos orgânicos em ênfase de pavor. Temendo antecipadamente ir de encontro contra o ‘mal imposto’, e pregado pela GRANDE MÍDIA, que comprometia as diversas relações sociais e familiares, na causa dos muitos enganos, até as exageradas causas de fobia e pavor que gerava desconforto, entre mínimas ansiedades a grandes sofrimentos psicológicos. Que as tensões sociais, políticas e militares voltaram à tona em meados da década de 1950.

    O medo, intencionalmente criado e imposto, nos dominou!

    Medo esse, pregado pelos monopolistas e latifundiários e seus beneficiadores como: os conservadores católicos, a burguesia industrial, e óbvio, os magnatas da grande mídia de rádioteledifusão e de comunicações impressas. Nisso, as Forças Armadas Brasileiras que já tinham grande influência e poder na política, desde a Proclamação da República e anteriormente na Guerra do Paraguai, não deixando de citar a Revolução de 1930. Se aliaram aos magnatas ativistas de direita, tentando impedir as posses de suas ameaças, representado nas pessoas de Juscelino Kubitschek e João Goulart. A grande ameaça que esses presidenciáveis representavam eram as implementações de políticas de esquerdas, como a reforma agrária e a nacionalização de empresas em vários setores econômicos da sociedade brasileira. O que ameaçava o poder do capitalismo classista no Brasil, e os seus poucos beneficiadores monopolistas, também, como a forte influência econômica dos Estados Unidos nos países da América do Sul.

    Nessa época, ‘EU’, por questões de segurança prefiro não ser identificado, trabalhava em um famoso jornal do sudeste do país como colunista e cronista. Foi quando começaram as censuras muito antes do golpe de estado de 1964. Em que fiquei pasmado ao escrever uma coluna, intitulada “Medo Nacional”, que foi rejeitada por meu editor-chefe, dizendo ele, que esses tipos de artigos agora estavam proibidos para serem publicados nos periódicos. Então, ele rasgou a minha coluna e foi depressa a sua mesa, para pegar uma pequena minuta rabiscada, como se estivesse escrita às pressas. Nela estava escrita um tema sobre a Guerra fria, e me deu severas instruções para que escrevesse um artigo em que endemonizasse os soviéticos, em pactos de conspiração com Cuba na América Latina. Tudo isso, com objetivos de polarizar a sociedade brasileira, implantando o temor do Brasil se juntar a Cuba como parte do bloco comunista. Fortalecendo as bases de direita, em que parte da classe média, junto aos latifundiários e toda grande mídia solicitavam uma “contrarrevolução” por parte das Forças Armadas para remoção de João Goulart do governo.

    Quatro anos depois dessas investidas, a mobilização foi iniciada por parte das tropas militares rebeldes pregando uma “Grande revolução”, e no dia 1 de abril de 1964 o presidente João Goulart partiu para o exílio no Uruguai. Tudo isso graças a mim, e minhas colunas fantasiosas de uma ameaça comunista no Brasil. Fui o primeiro a escrever um artigo com aquele tema, que como uma ponta acesa de um charuto cubano, caíra despreocupadamente sobre os talos de trigos e joios secos, incendiando todo o campo. Mas, como toda boa mentira tem uma base de verdade, utilizei-me da informação de alguns guerrilheiros brasileiros que foram treinados por investidores cubanos, ainda no governo de JK. O que não representava nenhuma ameaça na atualidade, pois esses grupos foram dispersos antes mesmo da posse de Jânio Quadros. Contudo, me serviu para criar uma tempestade em um copo d’água. E, por retirar a cabeça da mula, fui condecorado pelos golpistas ocultos da ‘Grande Mídia’, em que me ofereceram um cargo de editor-chefe de imprensa nas Forças Armadas.

    Ao ver a “Mula sem Cabeça” brasileira, que eu ajudei a criar, institucionalizada e empossada num golpe militar e ditadura. Com suspensão de liberdade de imprensa, de eleições, em cassações e prisões por posicionamento político. Senti aquela mesma sensação que me traumatizou quando criança, ao cair no fundo do poço no quintal da casa de papai e mamãe. Em que me esforçava violentamente para sair de lá, arranhando em desespero os meus braços e pernas nas sufocadas paredes de pedras esverdeadas de limo que me circulavam. As lembranças do sofrimento da água fria voltaram a me afligir, enquanto eu me pendurava no balde de cavilhas preso a uma corda pela alça de ferro. O pavor e os gritos agonizantes que dava, rasgando minha garganta e ecoando por todo poço, ecoaram agora em meus pensamentos. Dessa vez, papai e mamãe não estavam ali para me salvar. Dessa vez, só o medo estava ali. Apontando o dedo para mim, e gritando: Culpado!

    Depois que fui salvo do fundo do poço pelos meus pais, aprendi, por instinto de medo, com aquela dura lição, de nunca mais brincar em suas beiras. E, vendo o papel, a caneta, o lápis e a moderna máquina de datilografar Olivetti em minha frente… sobre minha mesa… em momentos de silêncio profundo. Tive uma certa sensação de pânico e pavor, como se estivesse na beira do poço de infância.

    Era óbvio que tudo aquilo era uma farsa. A ‘Mula sem Cabeça’, não nasceu sem cabeça. A cabeça fora intencionalmente cortada, e, seu corpo tenebrosamente assustador fora entalhado e animado por ‘Mestres manipuladores de Fantoches’. Gerando o engodo, caos e medo popular. A sociedade brasileira cega e manipulada, e agora oprimida, não podia racionalizar o fato acontecido. Pois, assim, como a mula, suas cabeças, também, foram cortadas. Todos os maiorais sabiam que bloco soviético estava financiando inúmeras guerrilhas na Europa Ocidental, porém, mesmo essa parte do mundo, sendo a mais afetada pelo “mal comunista”, países como o Reino Unido, a Itália e até a Alemanha não estavam sofrendo golpes militares e regimes ditatoriais durante esses tempos de Guerra Fria. ‘EU’ sabia de tudo, pois criei o mito da ‘Mula sem Cabeça’ no Brasil. Sabia quem eram os verdadeiros financiadores das forças golpistas de Castelo Branco. Sabia quem mandava e quem cumpria, e de todo apoio logístico e militar do ‘UNCLE SAM’.

    Por instinto, provocado pelo medo, não podia recusar a proposta dos militares de os representar via imprensa. Senão, é claro! Eu que seria a ‘Mula sem Cabeça’, ou melhor, o ‘Homem sem Cabeça’. Entretanto, sabia eu que perdi a minha cabeça há muito tempo, quando aceitei a escrever aquela maldita matéria inicial, que provocou toda essa discórdia. Podia ter recusado… fui contra todos os princípios e éticas do jornalismo. E, as lembranças do juramento que fiz no dia da formatura me atormentaram todos aqueles infernais dias dentro do meu escritório. Ainda me lembro como se fosse hoje, em que estava diante da imensa plateia ao receber o meu diploma, vendo meus pais orgulhosos, e lágrimas de felicidades escorrendo no rosto de minha mãe, enquanto repetia em alta voz aquelas palavras proferidas pelo meu mentor: “Juro exercer a função de jornalista, assumindo o compromisso com a verdade e a informação. Atuarei dentro dos princípios universais de justiça e democracia, garantindo principalmente o direito do cidadão à informação. Buscarei o aprimoramento das relações humanas e sociais, através da crítica e análise da sociedade, visando um futuro mais digno e mais justo para todos os cidadãos brasileiros. Assim eu Juro!”

    Agora aqui estava eu, andando e correndo com a burrinha, tendo que sustentar a mentira com mais mentiras. Me vendo com a função de tornar a ‘Mula sem Cabeça’ mais assustadora do que já era. Ficando encarregado de justificar o golpe militar e a política externa dos Estados Unidos, em transformá-lo em um herói nacional brasileiro, pela intervenção com sua suposta missão de liderar o “mundo livre” e frear a expansão do comunismo na América Latina, na retirada do presidente Jango, que fora democraticamente eleito pelos cidadãos brasileiros, e, ainda, tendo sido eleito com mais votos que o próprio presidente Juscelino Kubitschek.

    Fui amaldiçoado, como a mulher que dormiu com o padre, e condenado a me transformar na ‘Mula sem Cabeça’. E dores de cabeça me atormentavam todas as noites, vi que em vez de cabeça tinha um chama ardente de fogo no lugar. E depois da minha semana entediante de trabalho, galopava através dos campos urbanos desde o sol de quinta-feira até o sol de sexta-feira, bebendo e me embriagando pelos bares, boates e puteiros do Rio de Janeiro. E me vi transformado em um monstro, no pecado da mulher amaldiçoada, que virou a burrinha de padre.

    Assim, resisti na minha função caluniadora até o governo de Castello Branco e seus atos institucionais que ajudei a redigir. Porém, durante a repressão, restrições aos direitos políticos, liberdade de expressão, violência e tortura aos opositores do regime no governo de Costa e Silva e seu decreto AI-5, não pude mais aguentar tamanha pressão. E labaredas ardentes saíram de minha cabeça cortada. E vi que o encanto que me amaldiçoava só poderia desaparecer, se eu tivesse a coragem de arrancar da minha cabeça flamejante o freio de ferro.

    Então, em plena sexta-feira, no escuro do meu apartamento, comecei a confeccionar um aparelho constituído por uma grande armação reta, com medidas e pesos indicados pelas normas francesas, com aproximadamente 4 metros de altura, em que suspendi uma lâmina losangular que pesava cerca de 40 kg, guiada pela parte superior da armação por uma corda. A estrutura era meio arcaica e construída com pedaços de madeiras armengadas, mas, com as precisões certas, para quando a corda ser liberada cair de uma distância de 2,3 metros de altura, seccionando o freio de ferro.

    Depois de arrancar o freio de ferro que me prendia aquela maldição, surgi nos paraísos infernais como uma mulher arrependida pelos seus pecados.

    _ Extra! Extra! Famoso jornalista morre na manhã de sábado, lenta e dolorosamente ao tentar decapitar a sua cabeça em uma guilhotina artesanal feita por ele mesmo. Venham! Comprem o jornal!
  • O MENINO DO ORFANATO

    As dores guardadas no peito de um menino podem ser libertador para outros meninos, porque você passa entender que apesar de todas as dificuldades que um menino pobre possa passar, existem dores que nunca vão acabar independente de qualquer classe social. Esses relatos precisam ser contados como forma de denúncia.
           Uma família de classe média vivia em um dos melhores bairros da cidade de São Paulo, o pai era um homem exemplar para todos que o conheciam, a mãe uma mulher do lar dedicada, esse era o quadro perfeito para todos da vizinhança. O filho Heitor de  seis anos sempre bem vestido com roupas caras e com todos os brinquedos que uma criança possa desejar, porém sempre muito triste. Outras crianças tentavam brincar com ele, mas Heitor sempre muito recluso, com olhar cansado e distante.
             Certa vez uma vizinha perguntou a sua mãe se ele não tinha algum problema, pois era muito tímido.
             ─ Não querida, ele não tem nada sempre foi muito tímido não é Heitor?
             ─ Sim mamãe. Estou bem.
             Por algum motivo àquela vizinha não acreditou, o olhar do menino era um pedido de socorro, mas era algo que não era da sua conta. Como mãe apenas se preocupou com a criança, mas se ele falou que estava bem, então tudo certo.
             Uma noite ela percebeu que o menino chorava muito, ouvia de sua casa, levantou-se e foi até a janela. Não enxergou nada, voltou a deitar pensativa. No dia seguinte logo que viu a mãe do menino perguntou:
             ─ Oi Márcia tudo bom?
             ─ Olá querida, estou ótima.
             ─ Ouvi O Heitor chorar ontem de madrugada, ele está doente?
             ─ Não, não, às vezes tem pesadelo e chora alto.
             A mãe do menino falou bruscamente e foi saindo sem nem dar tchau. A vizinha ficou mais pensativa e desconfiada.
             Heitor já não aguentava mais aquilo, sabia que não era certo. A mãe sempre falava para ele ficar quieto porque o papai só fazia aquilo porque o amava. Mas não era certo. Heitor sabia que não, mesmo no seu mundo de criança onde se enxerga os adultos como poderosos, ele sabia que aquilo era covardia. Naquela noite ele chorou alto, pensou naquela senhora boa que o olhou preocupada, chorou para que alguém parasse com aquilo. Ele sabia que tinha que amar o papai e a mamãe, mas só pensava que seria maravilhoso se eles morressem. Daí tudo aquilo acabava.
            No dia seguinte Heitor não pôde ir à escola, não dava para levantar, seu corpinho miúdo estava dolorido e ele não chorava, só olhava para um brinquedinho de carrossel no chão com o palhaço a sorrir. Sentiu raiva daquele palhaço que parecia rir dele, pensou naquele momento que não gostava mais de palhaços.
            Os dias foram passando e passando e nada mais aconteceu. Heitor estava indo para a escola com sua mãe, o carro parou no farol e ele viu três meninos maiores pouca coisa que ele, os meninos vendiam bala e pediam moedas para comprar comida, Heitor sentiu inveja deles. Que bom seria só sentir fome.
            Passaram-se meses desde aquele dia, a boa vizinha mudou, Heitor ficou triste, não a via mais na rua. Estava brincando na sala, sua mãe estava no sofá com aquele pó que ele odiava, ela dizia que era pra ficar calma, mas ele sabia que quando ela cheirava aquilo ficava malvada. Logo o pai chegou nervoso, Heitor correu para seu quarto e ficou sentado na cama olhando para porta a espera, escutou as risadas e ouviu sua mãe chamar, não respondeu.
             Seu pai gritou seu nome e ele congelou, começou a suar, sabia o que viria depois. A porta abriu e sua mãe, já meio nua entrou totalmente descontrolada, era o pó, estava dominada. Pegou Heitor pelo braço e começou a arrastá-lo, ele tentou resistir e a implorar.
              ─ Por favor, mamãe não faz isso não. Não quero mamãe.
              ─ Cala sua boca menino, você é uma vergonha, se chorar vai ser pior – ela deu um tapa em seu rosto, ele caiu e começou a chorar. Seu pai ouvindo os gritos, foi até ali, no corredor entre os dois quartos, Heitor só teve tempo de levantar o rosto e ver seu pai sorrindo, quis correr, a mãe o segurou e tirou sua roupinha e ali mesmo o pai o violentou, Heitor não gritou, mas resistiu o quanto teve forças. Sua mãe assistia  a tudo e dizia com naturalidade:
            ─ Cuidado querido, não deixe marcas.
            A casa da vizinha estava à venda, Heitor sempre pensou que ela pudesse ser a pessoa que iria lhe ajudar, ficou mais triste, agora ele tinha sete anos, era maior e queria fugir daquela casa, mas sabia que se fugisse o trariam de novo e seria pior.
             No seu aniversário levou uma surra daquelas, o pai bebeu muito e fumando aquele cigarro de folhas ficou louco, chamou Heitor várias vezes, mas ele não foi. Quando seu pai o encontrou foi pior as brincadeiras, ele queimava o Heitor com a ponta do cigarro, como o Heitor não chorava ele repetia.
             ─ Menino fraco, chora mulherzinha – não vendo reação do menino ficou zangado, quando se levantou o cigarro caiu em cima de suas pernas nuas e o queimou nas coxas, ele ficou pulando como um macaco de circo, Heitor riu. Ele deu um soco na boca do menino, Heitor desmaiou.
            Quando ele acordou a mãe estava gritando com o pai, ele ficou feliz, agora ela ia defendê-lo, mas logo voltou a ficar triste ao ouvir suas palavras.
            ─ Você marcou o braço dele Carlos, agora vão ficar fazendo perguntas, quero só ver se descobrirem, temos que dar um jeito nele.
            ─ Cala boca Márcia, ninguém vai descobrir nada não, é só dizer que ele está doente, diz na escola que ele está com catapora, ninguém vai estranhar as marcas, sabe aquele amigo meu médico? – falou rindo debochado – vou pedir uns atestados pra ele.
            ─ Meu amor você é um gênio – ela abraçou o marido rindo e olhando para Heitor.
    O menino conhecia aquele olhar, ela era doente, gostava de assistir o que o pai fazia com o filho e se satisfazia com isso, ele sentiu tanto nojo daquela mulher que sem saber o porquê começou a gritar, gritar e gritar, como se sua vida dependesse disso.
           ─ Sua puta descarada, seu monstro, vou matar vocês, o diabo tem de existir pra levar vocês – repetia tudo o que o pai dizia em seu ouvido quando estava em cima dele.
            Os pais surpresos  começaram a gritar, a mãe estava em vias de matá-lo, pegou uma cinta e passou em seu pescoço, o menino esperneava, o pai disse que ia lhe dar uma lição. Com a mãe o segurando e o sufocando o pai baixou suas calças e foi pra cima do menino, mas Heitor se recusou a ceder, mordeu sua mãe e correu para cozinha, pegou a faca. Seu pai veio com ódio e gritou para mulher.
            ─ Márcia, te avisei que esse menino é filho do demônio, vem ver o que o filho da puta quer fazer – e riu de Heitor, aquele sorriso bestial, na hora o menino lembrou do brinquedinho, aquele palhaço. E sentiu muita raiva. Correu como um louco pra cima do pai.
            Mas que defesa uma criança de sete anos tem contra dois adultos monstros? Conseguiram pegar o menino, bateram muito nele e como se não bastasse a surra o pai o estuprou várias vezes naquele dia. Heitor chegou à conclusão que odiava aniversários.
    Seu corpinho nu ficou ali na cozinha, o deixaram como um monte de lixo, suas perninhas roxas e o sangue a escorrer no chão. Ele desejou a morte e pensou que ela tinha chegado a lhe buscar quando a campainha tocou.
            Como um anjo a vizinha que havia mudado, apareceu. Com ela trazia o conselho tutelar, pois a professora da sua filha, que também era professora do Heitor, havia lhe contado sobre o texto que leu do menino, no texto ele queria matar os pais, também comentou que estava preocupada porque Heitor vinha faltando muito à escola. A vizinha, junto com a professora denunciou os pais do menino, pedindo para que o conselho tutelar fosse até aquela casa, comentou que quando morava perto ouvia o menino chorar algumas noites e que ali havia sinais de abusos.
            Heitor foi levado, seus pais presos em flagrante por abuso de menor, tráfico e contrabando. Ninguém quis acolher o menino, os familiares diziam que Heitor seria uma criança problemática, então ele foi deixado em um orfanato. 
            Hoje Heitor tem dezessete anos, falta pouco pra ser maior de idade, é um menino estudioso e quer prestar vestibular na área de ciências sociais. Numa entrevista de trabalho quando a atendente perguntou seu endereço e ele passou do orfanato, ela o olhou e disse:
             ─ Nossa que triste viver em um orfanato – ele a olhou sorrindo e respondeu feliz.
            ─ Não é triste não moça, foi o dia mais feliz da minha vida.
  • O Poder Sagrado da Arruda e do Limoeiro

    Como de costume no final de tarde estava a trabalhar no seu pequeno jardim, em especial, no canteiro de ervas que fizera ao fundo do quintal de sua casa, próximo de uma cerca feita de pequenas varas de bambu-chinês. Esse pequenino canteiro horizontal, confeccionado por pequenas pedras de calcários brancos enfileiradas, era um dos pontos mágicos e sagrados do seu jardinzinho orgânico. Ali encontravam-se plantadas, uma após outra, plantas de poder e de cura, medicina para o espírito, para a alma (psique ou coração) e para o corpo, como: Capim Santo (Elionurus candidus), Erva Luíza (Aloysia citrodora), Erva Cidreira ou Melissa (Melissa officinalis), Sálvia (Salvia officinalis), Babosa (Aloe Vera), Manjerona (Origanum majorana) e duas espécies de lavanda ou alfazema (Lavandula angustifólia e Lavandula pedunculata).

    Progressivamente em fila, encabeçando o canteiro, plantara um Pezinho de Limão: "Mas, o que tem de haver um Pé de Limão junto a plantas medicinais e de poder?". Na verdade, o Pé de Limão fora colocado no lugar, em que se encontrava um saudável e farto arbusto de Ruta-de-Cheiro-Forte (Ruta graveolens), que misteriosamente em uma demanda espiritual de ordem negativa vinda externamente contra ele, o arbusto em caridade protetora, secou gradualmente, aos poucos, em sacro-sacrifício e morreu. Daí lhe veio, como sempre, a doce recordação de infância nas sábias palavras de sua (já desencarnada) bisavó, que era uma poderosa parteira, rezadeira e curandeira. Muito bem conhecida em toda a região onde morava, entre outras muitas fantásticas manifestações, por realizar mais de três mil partos entre humanos e animais, inclusive o dele próprio, sem deixar desfalecer um ser vivo sequer, não importando a gravidade de risco. Praticamente todos os meninos e meninas da localidade nasceram pelas benditas mãos dela, que devido a tal prodigiosa façanha ficará conhecida por todos como Dona Darluz, apesar de ser mais uma Maria das muitas da região.

    A respeito da Ruta-de-Cheiro-Forte, sua bisa lhe dizia advertindo: "Essa planta tenho para mim como a mais sagrada de todas as plantas, pois pertence unicamente ao Sagrado Positivo, e, por isso deve ser sempre colocada na entrada da casa. Assim, nada de negativo pode entrar em seu ambiente."

    Devido a tal nostálgica recordação, ele resolveu colocar umas mudinhas da Ruta-de-Cheiro-Forte na entrada da sua casa, e plantar um Pé de Limão no lugar do arbusto que morrera no fundo-de-casa.

    Sim! Mas, por qual razão plantar o Pé de Limão no fundo da casa?

    Sua bisavó, D. Darluz, lhe falara que o Limoeiro (Citrus limon) era a contrapartida da Ruta-de-Cheiro-Forte. Dizia ela que toda planta tem sua contraparte no mundo, sendo: positivo e negativo, feminino e masculino, inercia e movimento, absorção e repulsão... se completando em ciclos espiralados. Além, é claro, que toda contrapartida deve pertencer a mesma família. No caso o Limoeiro e a Ruta-de-Cheiro-Forte pertencem à família das Rutáceas. Por isso, falara também, que o Limoeiro sempre deve ser plantado no fundo da casa, dessa forma poderia fechar um ciclo para proteção do ambiente, em que o Limoeiro atraia para ele tudo que era de negativo que a Ruta-de-Cheiro-Forte deixara passar se a carga negativa fosse maior que a capacidade da planta barrar, completando assim a proteção energética ambiental.

    Sempre em que se entregava a dar manutenção no seu canteirinho de ervas de poder, seus pensamentos, imbuídos em muito sentimentos, voltavam-se com todo carinho para a figura mística da sua bisa, a popular D. Darluz. Seu nome verdadeiro era Maria da Piedade, nascida em Portugal na antiga Vila da Arruda e hoje atual município Arruda dos Vinhos, no distrito de Lisboa (Região de Lisboa e Vale do Tejo), comunidade intermunicipal do Oeste Cim. Dona Darluz dizia ser descendente das famosas curandeiras de sua região, pejoradas pelos ignorantes como Bruxas da Arruda, que por assim, eram descendentes das feiticeiras e sacerdotisas dos antigos Povos Celtas, mas que devido às misturas culturais e étnicas, e de conquistas de outros muitos povos, com seus costumes e crenças, ainda as mulheres de sua família mística mantinham as antigas tradições, com meras e significantes influencias dessas novas culturas que foram ao longo do tempo agregadas (Não citando as muitas mazelas que sofrera sua mística linhagem durante os massacres do Tribunal do Santo Ofício, com a perseguição religiosa da inquisição portuguesa, promovida pelo clero católico dominicano). Imigrara junto a sua família para o nordeste do Brasil nos meados da primeira década do século XX (entre 1910 a 1920), aos vinte anos, devido à crise que se alastrava na Europa, como resultado da conclusão da Primeira Guerra Mundial e da gripe espanhola. Sendo assim, se fixara no Novo Mundo absorvendo também as muitas sabedorias místicas que ali existiam, tanto dos povos ameríndios como dos afrodescendentes.

    D. Darluz tinha uma presença magneticamente atraente, sendo uma linda senhora alta, bonita, nem muito magra e nem muito gorda e de olhar penetrante. Morava em uma casa que fora construída metade de pedras e outra metade de madeira a arquitetura arcaica mediterrânea, toda ela erguida com o suor de seus pais, seus irmãos e dela mesma. Em uma chácara com cerca de quarenta hectares. Lá havia um grande pomar com diversas árvores frutíferas, uma horta orgânica, campos de flores e ervas medicinais e muitos animais domésticos, como: cabras e bodes, cavalos e éguas, mulas e burros, jumentos (Equus asinus), galos e galinhas de diversas raças, perus, pombos, papagaios, pavões, patos, gansos, porcos, vacas e bois, além dos muitos animais silvestres da região. E, sobrevivia da produção de derivados de leite (queijos, doces e coalhadas de cabra e vaca) e de suas práticas místicas de reza e cura, que, na verdade, esses serviços sagrados eram lhes recompensados por doações. Pois, ela sempre dizia que a verdadeira proteção e cura não podia ser comprada, apenas recompensadas pelas atribuições dos beneficentes, o que estes julgavam de coração contribuírem de acordo com que achavam ser merecido, e, nunca cobrava nada e nem recebia doações, um centavo sequer, pelos partos que realizava, afirmando ser (esse Sagrado Ofício) a sua verdadeira missão na terra: DAR A LUZ!

    Como toda boa portuguesa milagreira em terras brasileiras tinha lá suas queixas, que eram verdadeiramente mínimas e de questões culturais. Sentia falta dos vinhedos e dos bons vinhos, das oliveiras e de suas azeitonas e azeites, dos muitos temperos e ervas naturais do mediterrâneo, das ovelhas e suas deliciosas coalhadas e queijos, do frio nas pradarias e do aconchego da lareira... suas queixas se baseavam em suas saudades de uma terra mágica e romântica... de Portugal, sua gente pacata e sua península ibérica. O Azeite, produto das oliveiras, lhe era sagrado, pois, era através dele que realizava os seus milagres adivinhatórios de cura e proteção. Em que pingava gotas de azeite no consulente, depois com o dedo retornava a pingar o azeite em um prato raso com água, lendo as gotas de óleo que davam forma as verdes letras mágicas no líquido, em seu processo místico divinatório. Também, conseguir o azeite de oliva puro era muito difícil no nordeste do Brasil, porquanto, encomendava algumas sacas de azeitonas do Uruguai com os caminhoneiros que lá iam e regressavam, e, manufaturava pessoalmente o seu azeite. Sendo que nessas consultas com esse processo, independente das doações, cobrava uma certa quantia fixa, apenas, para cobrir os custos do material importado e sua trabalhosa produção.

    Em sua casa havia um pequeno quarto dedicado ao sagrado, com uma grande mesa servindo de oratório em que se realiza os muitos milagres, curas e adivinhações. Essa mesa era repleta de objetos místicos, tigelas com água e azeite, vasos com vinhos e porções de cura, pedras semipreciosas, ossos, pequenos frutos e animais dessecados, potes de unguentos e cataplasmas, pedaços de madeiras e galhos secos, velas, óleos essenciais, cristais, pequenos jarros de barro e porcelana, potes com incensos, incensários, instrumentos, lápis e cadernetas de receitas místicas, papeis para anotações, muitas flores e frutas para oferendas, sal grosso, sal amargo, mel, livros e todo teto era coberto com ervas medicinais, arrancadas pelas suas raízes, penduradas de cabeça para baixo. Criando um ambiente de um universo místico com os seus muitos odores e fragrâncias mágicas.

    Voltando-se para o aqui e o agora, no seu pequeno jardim, com as tantas recordações da sua bisa, lágrimas rolaram de seus olhos ao relembrar de sua infância, em que vivera da idade de dois anos até os seis na companhia dessa mística senhora portuguesa na sua maravilhosa chácara (Chácara Celeste), que depois veio a falecer tranquilamente dormindo com a idade de 97 anos. Recordou-se das tantas histórias que sua bisavó lhe contara de sua terra natal, como: O Caso da Perua, em que um lavrador descobriu que sua vizinha era uma feiticeira que se transformava em um peru; as lendas de lobisomens e maldições; O Demônio do Pinhal do Álamo, em que um curioso rapaz achou um cabrito branco que, na verdade, era um demônio; A lenda de Nossa Senhora da Ajuda; A Lenda de São Tiago dos Velhos; A Lenda do Ouro e da Peste; A Lenda da Parteira e dos Mouros; A Lenda da Cobra e das Cinzas; A Lenda de D. Manuel I e da Peste; A lenda dos Fornos das Antas; A Lenda dos Quarenta Queimados... E, a lenda que ele mais gostava 'A Cova do Gigante', que é um monte do município Arruda dos Vinhos que dizem ser a sepultura de um enorme gigante ciclope Grou que assolava a região.

    Sendo que, além de todas essas maravilhosas lembranças, sempre lhe vinha à mente as muitas sabedorias mágicas que aprendera com sua bisa, em especial ao que diz sobre as ervas de poder. Sua bisavó lhe ensinou que as ervas tinham poder de curar e empoderar o Espírito, a Alma (psique ou coração) e o Corpo, sendo que não toda erva era para cura de ambos. Existia um grupo de ervas para cada seguimento dessa tríade, porém, apenas um pequeno grupo de ervas, conhecida por ela nas terras sul-americanas, serviam para cura e, dar poder aos três veículos. Dentre elas estavam o Tabaco (Nicotiana tabacum), a Acácia ou Jurema Preta (Mimosa hostilis), a Chacrona (Psychotria viridis) e o Mariri (Banisteriopsis caapi), a Diamba (Cannabis sativa), a Folha de Louro (Laurus nobilis) e por último, a que segundo ela era a mais sagrada de todas, a Ruta-de-Cheiro-Forte, muito usada em sua tradição milenar Celta, em que ela utilizava para todos os seus processos milagrosos.

    E foi por causa da influência de sua bisavó entre as parteiras, rezadeiras, mães-de-santo e curandeiras do Novo Mundo, que a 'Erva de Cheiro' como era conhecida no Brasil, trazida das terras mediterrâneas pelos portugueses no período colonial, passou a se chamar nessas terras tropicais do Novo Mundo de: Arruda, em reverência a vila natal de Maria da Piedade, a D. Darluz.

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