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literatura contemporânea

  • Bate-papo [conto]

    [21:23:59] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: Oi
    [21:24:15] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: ola
    [21:24:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tudo bem?
    [21:24:31] M amizade entra na sala.
    [21:24:45] h mama h diz para Todos: algum cara aí afim?
    [21:25:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: sim e vcs?
    [21:25:27] coroa safado entra na sala.
    [21:25:40] Moreno22 diz para Todos: aumente seu pênis de forma natural. {www.penislandia.cz}
    [21:25:47] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tbem
    [21:25:53] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: da onde tcm?
    [21:25:55] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:26:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: ZS e vcs?
    [21:26:07] Carol15 entra na sala.
    [21:26:10] KRALHUDO fala reservadamente para Ele&Ela: 19cm de rola para esposinha e maridão…...afim?
    [21:26:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: ZN
    [21:26:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: quantos anos vcs tem?
    [21:26:47] Hserio entra na sala.
    [21:26:54] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: eu 32 e ela 35 e vcs?
    [21:26:59] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:27:13] Safado CAM1 entra na sala.
    [21:27:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: eu 38 ele 42
    [21:27:32] Coroa safada diz para h34: tenho muita coisa para te ensinar ahahhaha
    [21:27:45] Kzado quer entra na sala.
    [21:27:48] Loirinha sai da sala.
    [21:27:53] Macho sai da sala.
    [21:28:10] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:28:20] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: o q vcs fazem?
    [21:28:33] Gordinho T entra na sala.
    [21:28:47] Einsten entra da sala.
    [21:28:55] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: somos liberais, gostamos de fazer tudo
    [21:29:13] Safado CAM1 fala reservadamente para Ksal Discreto: quer ver um homem de verdade fuder sua mulher seu corno?
    [21:29:33] Mulher entra na sala.
    [21:29:42] Hserio fala reservadamente para Ela&Ele: oi
    [21:29:50] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:29:53] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: legal, mas eu quis dizer no q vcs trabalham rsrsrs
    [21:30:10] Marta ZO entra na sala.
    [21:30:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: rsrsrs eu sou arquiteta e ele é advogado e vcs?
    [21:30:33] h mama h diz para Todos: algum cara afim?
    [21:30:49] Paola entra na sala.
    [21:30:57] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: sou empresário e ela é médica
    [21:31:04] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: vcs tem filhos?
    [21:31:24] Einstein sai da sala.
    [21:31:37] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: temos 2 e vcs?
    [21:31:45] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: legal, nós temos 1
    [21:31:50] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: até por isso a gente quer ser discreto
    [21:32:04] Coroa safada diz para Safado CAM1: vamos
    [21:32:10] Hilda Hilst entra na sala.
    [21:32:17] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: nós tbem gostamos de ser discretos
    [21:32:23] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: não vamos em casas de swing ou coisas assim
    [21:32:30] Maduro entra na sala.
    [21:32:42] H22cm diz para Todos: cavalo comendo famosa sem vaselina {www.animalfuck.jh}
    [21:32:57] Carol15 diz para Todos: alguém quer tc?
    [21:33:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: nós tbem não
    [21:33:10] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: como vc são?
    [21:34:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: eu 1,70m, 65kg, loira e olhos castanhos, ele 1,85m, 93kg, moreno e olhos castanhos e vcs?
    [21:34:25] H pintudo sai da sala.
    [21:34:07] Hilda Hilst diz para Todos: alguém aqui quer só tc?
    [21:34:16] Hserio diz para Hilda Hilst: oi
    [21:34:40] Marcelo sai da sala.
    [21:34:59] Carol15 diz para Maduro: não
    [21:35:05] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: eu 1,80, 80kg, loiro e olhos castanhos, ela 1,75, 68kg loira e olhos verdes
    [21:35:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: o q vcs procuram?
    [21:35:34] h mama h diz para Todos: algum cara aí afim? tenho local na ZN
    [21:35:43] paulo17 sai da sala.
    [21:35:55] Safado CAM sai da sala.
    [21:36:10] H66 diz para Madura CAM: vc é homem seu viado
    [21:36:13] H66 diz para Todos: cuidado!!!! a Madura CAM é uma bixa loca
    [21:36:30] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:36:40] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: uma aventura com um casal discreto e vc?
    [21:37:13] H pintudo entra na sala.
    [21:37:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: isso aí tbem rsrs
    [21:37:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: uma aventura sem compromisso
    [21:37:30] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: vcs já saíram com outros casais?
    [21:38:05] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: não, e vcs?
    [21:38:30] M inversão diz para H66: me dexa em paz seu escroto
    [21:38:40] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tbem não
    [21:38:55] renato bi sai da sala.
    [21:39:03] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: o q vcs quiseram dizer quando disseram que gostam de fazer tudo? rsrs
    [21:39:19] Evangélica amizade sai da sala.
    [21:39:30] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:39:50] M inversão sai da sala.
    [21:40:18] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: nós dois somos bi, gostamos de tudo entre 4 paredes rsrsrs
    [21:40:30] Hserio sai da sala.
    [21:40:47] Mario 47 entra na sala.
    [21:41:09] PAU DURO CAM sai da sala.
    [21:41:30] Moreno22 diz para Todos: aumente seu pênis de forma natural. {www.penislandia.cz}
    [21:41:51] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: do que vcs gostam?
    [21:42:03] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: a gente estava pensando mais em uma troca de casais
    [21:42:13] Caroline entra na sala.
    [21:42:31] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: podemos fazer várias trocas rsrsrs
    [21:42:47] Elton21anos sai da sala.
    [21:43:11] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: não sei, nunca transei com outro homem
    [21:43:21] DotadoCAM entra na sala.
    [21:43:30] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: minha esposa disse que já transou com outras mulheres na faculdade
    [21:43:40] DotadoCAM diz para Mulher Perdida: oi
    [21:43:43] DotadoCAM diz para h passivo: oi
    [21:43:48] DotadoCAM sai da sala.
    [21:44:11] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: as coisas acontecem de forma natural
    [21:44:19] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: o q rolar rolou rsrsrs
    [21:44:32] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: seu marido sai com outros homens sempre?
    [21:44:50] Hilda Hilst sai da sala.
    [21:45:09] Matheus sai da sala.
    [21:45:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: não, a gente tem uns brinquedinhos para se divertir
    [21:45:30] Ninfa diz para Todos: famoso confessa que gosta de transar com cabras {www.semvergonhadacabra.hg}
    [21:45:48] Caroline diz para Ksado43: 18
    [21:46:12] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: desculpem, mas acho que isso não vai dar certo
    [21:46:22] Caroline diz para Ksado43: q nojo
    [21:46:34] Caroline sai da sala.
    [21:47:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tudo bem
    [21:47:22] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:47:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: até
    [21:47:30] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: até
    [21:47:45] Ksal Discreto sai da sala.
    [21:47:55] Ela&Ele sai da sala.
  • Beleza se põe à mesa?

    Lembro- me de quando eu estava no pré vestibular, na primeira aula de redação e a professora nos propôs o seguinte tema: Beleza, se põe ou não à mesa? Ali, eu com uma intelectualidade mínima, preso a paradigmas religiosos que me impossibilitava pensar em frases pornográficas e ainda com a vergonha de expor minhas ideias, características educacionais que me foram impostas, como agressões físicas (palmadas), tratamentos para reeducação com berros dos meus pais e uma exclusão informativa que me foi atingida durante toda minha miserável vida acadêmica. Fiquei repleto de duvidas e sem o que dizer. Mas agora, antes tarde do que nunca (frase que ouvia de um amigo de infância, espero que ele se manifeste aqui), tenho minha opinião. Beleza, se põe sentada na cadeira. Com postura, com educação e habilidades sofisticada para utilizar de forma correta os talheres. Além dessas características, deves ser alguém que agradeça de forma humilde os serviços prestados pelo garçom. Que se vista com elegância suficiente para atrair olhados, mas deixa claro em suas ações que se respeita acima de qualquer opinião alheia. Que se orgulha da pessoa que é, e que não satisfeita busca uma nova melhoraria todos os dias. Que sabe sorrir diante a uma problemática, não por maluques, mas por total lucides de conseguir enxergar uma possível solução. Que valorize as relações sociais que foram estabelecidas por si, e que tenha empatia para respeitar ainda mais as que não foram. Que entenda que as diferenças sempre existirão e que o príncipe perfeito, sempre dependerá de quão princesa tu és. Que ame os animais, bem mais que os humanos. Que seja uma pessoa que encante com suas ideias inovadoras. E que utilize a mesa para escrever seus mais belos textos.
  • Bistância

    tele   visão
    tele   vazão
    tele   vazio
  • Bruno, Maira em uma tarde qualquer

    Bruno acordou como foi dormir, desempregado. Pegou a última colher de café e fez um chá preto fraco. Queria um cigarro, mas o cinzeiro não tinha bitucas. Precisava de dinheiro. Pensou em ligar para o César. Ele estava bem. Era gerente de alguma coisa numa multinacional há anos. Foram grandes parceiros de truco nos tempos de escola. Não se falavam desde o enterro do Muleta, dois, três anos atrás. Depois ficou com vergonha porque não sabia nem o que ia pedir. Dinheiro? Trabalho? Good times? Tudo junto? Bruno estava fodido. Morando de favor no sofá da sala do pai, roupa mal lavada e cara de desocupado. Procurou umas moedas nos potes da cozinha, depois nos da sala, e no sofá. Achou o suficiente para uma dose de qualquer coisa barata e um cigarro. Sem muitos destinos a seguir ele rumou para o Bar do Jaime. Chegando lá sentou numa mesa na calçada e ficou esperando o tempo passar na companhia solitária de um copo de conhaque. Quando parecia que o mundo inteiro estava alheio a sua existência Maira sentou ao seu lado.

    - Não vai me oferecer uma bebida?
    - Não tenho dinheiro e esta é uma dose individual. Mas você pode ficar sentada aí se quiser.
    - Então eu pago a bebida.

    Maira entrou no bar e voltou com uma garrafa de cerveja e uma dose de conhaque. Serviu dois copos com a cerveja e sentou.

    - Não consigo me imaginar trabalhando, casada, com filhos. Nasci para ser livre.
    - Dá para ver.
    - O que dá para ver?
    - Que você nasceu para ser livre.
    - Mas as pessoas não aceitam. Querem transformar você numa coisa que você não é.
    - As pessoas são foda.
    - Você nasceu para ser o que?
    - Nada. Vou no banheiro.

    Bruno se levantou e entrou no bar. Quando voltou tinha um outro cara na mesa e um mostruário hippie apoiado na parede.

    - Esse é o Alberto. Ele vende artesanatos. Perguntou se eu aceitava um colar em troca de uma cerveja e eu aceitei.
    - Tudo bem.
    - Qual o seu nome?
    - Bruno.
    - Eu também não sabia, nem tinha perguntado.
    - Tudo bem.
    - A gente estava falando do preconceito que o Alberto sofre por ter escolhido vender artesanatos na rua. As pessoas acham que ele é vagabundo.
    - Negro como eu então, o preconceito é dobrado.
    - As pessoas são foda.
    - Costumo dizer que sempre desconfie quando alguém pergunta o que você faz. Ela quer saber como ela pode se aproveitar de você.
    - Eu acredito mais no que as coisas são do que no que elas podem fazer.

    Maira morava sozinha num apartamento, no centro, que sua família lhe deixou como herança. O vizinho de baixa mora onde morou sua vô um dia, e como ela não mora no céu Maira que recebe o aluguel. Tinha feito o antigo magistério, mas nunca usou o título para nada. De repente abriu a cortina da sala e se deparou com Bruno, sentado sozinho no bar com um copo na mesa, desanimado. Ela não queria ficar sozinha sem fazer nada em casa, de longe ele parecia que também não. Por um instante ela pensou que tinham sido feitos um para o outro, então resolveu descer. No elevador ela lembrou de quantas vezes este pensamento invadiu sua cabeça, e que a esperança é uma doença. Mas ela não tinha nada a perder e já estava no meio do caminho. Depois de uns goles, e de Alberto voltar para a batalha da rua, Bruno ganhou o status de intrigante.

    - Você não gosta muito de falar, né Bruno?
    - Não.
    - Porquê?
    - A chance de falar besteira é menor.
    - Meu pai dizia que em boca fechada não entra mosca.
    - É.
    - Você é meio misterioso, tem cara de inteligente. Gosta de ler?
    - Não.
    - Eu também não. Prefiro outras coisas para viajar. Ahahahahha.
    - ….
    - Tem gente que acha que você tem que ler, ter cultura, estudar. Acho que estas coisas só deixam os outros mais chatos, metidos a besta. Ficam se achando superiores.
    - As pessoas são foda.
    - Como se saber uma conta de matemática ou ter lido todos os livros do mundo fizessem de alguém mais inteligente. Você terminou a escola?
    - Não.
    - Você por exemplo, não gosta de ler, não terminou a escola, e parece muito inteligente.
    - ….
    - Acho que se aprende mais aqui, vivendo a vida na rua, do que com um professor metido a besta numa escola que parece uma cadeia.
    - É.
    - O que você tem para fazer?
    - Nada.
    - Eu também. Acabou a cerveja. Tenho mais lá em casa, quer subir?
    - Sim.

    Os dois foram para o apartamento dela e deram uma meia foda. Bruno teve uma parte do ânimo tomado pelo conhaque e Maira desanimou com a falta de jeito dele com a coisa. Depois de tentar um pouco os dois desistiram e Bruno voltou para o sofá da casa do pai.
  • Cague

    O olho de quem pensa que enxerga
    não vê o que acontece do meu lado
    Escolho o que minha mente nega
    nem tudo que eu peco eu pago

    Eu já fui conserto
    fiz
    coisas diferentes de um estrago

    Quase nunca sou o que quiz
    A penas caminho
    Vago

    Eu triste é você feliz
    estou pego
    mas não atado

    A mente de quem é aprendiz
    tem mais alcance
    que a de um estudado

    Não tem lápis, tinta ou giz
    só textos sobre não ser
    calado

    Eu já tentei ser poeta
    fiz 
    o que por ninguém pode ser
    pensado

    E fui consciente
    diz
    a reza

    Na lenda dizem que eu fui um
    drogado

    Viaja no que eu te fiz
    Relaxa leitor(a)
    Sossega

    Solta um cago.
  • Caia sete, levante oito vezes!

                Qual o limite entre autor e obra? Muitas vezes, não vemos determinismo entre “criador” e “criatura”, mas um estranha e até mesmo simpática inter-relação. Masashi Kishimoto com Naruto, representa sua fase inicial de carreira, alguém rejeitado, mas com um grande potencial que só queria se divertir com o que mais gostava. Samurai 8 – Hachimaruden mostra um autor consciente, porém debilitado pelas barreiras autoimpostas, mas que ainda assim se direciona a um sonho.
                As diferenças não param por aí. Naruto é uma fantasia urbana com doses de guerras épicas, que ao longo do tempo desbanca para a alta fantasia. Samurai 8 – Hachimaruden é uma mistura de histórias de samurai, cyberpunk e space opera numa deliciosa excêntrica mistura que só os mangakás sabem fazer. Mas porque comparar? Para que julgar o novo usando as medidas do velho? Vejamos o que esse samurai pode fazer!
                Aconselho a todos a lerem o capítulo zero. Nele teremos a dose de mistério e empatia pelo protagonista. O jovem Hachimaru é uma criança ciborgue que vive conectado a uma unidade de suporte vital, uma grande máquina que impede sua morte. O garoto tem condição debilitada devido as alergias e uso de próteses no lugar do braço e da perna esquerda. Sem contar a sua aicmofobia, medo de objetos perfurantes.
                Suas únicas companhias são um cachorro robótico chamado Hyatarou e seu pai, um inventor e seu “enfermeiro particular”. Logo no capítulo zero, nós temos vários elementos que poderão ajudar o leitor a se decidir se lerá ou não o novo mangá. Mas recomendo que o leitor não seja precipitado, e avance para o capítulo 1. É nessas 72 páginas, algumas delas coloridas, que veremos todo o potencial a série.
                Não espere aqui encontrar protagonistas cheios de energia ou poderosos logo de cara, o desenvolvimento do personagem se dá de modo lento e gradual. Com nuances, camadas de shonen intercaladas com drama e ficção científica. Para Hachimaru, se livrar de suas fraquezas é tão relevante quanto poder ter uma vida normal, mas o seu maior sonho é se tornar um samurai, aqueles que estão acima dos guerreiros.
                No capítulo um, o protagonista aprofunda sua condição degradante ao leitor. Quase pessimista. Chegamos a sentir as limitações de Hachimaru na pele, e como se refugia na tecnologia. É um dos poucos mangás com inserção de pessoas com necessidade especiais que já vi na vida. Sua relação com seu pai é conflituosa, e ele será o estopim da evolução de Hachimaru, claro que de modo inconsciente.
                Um encontro inesperado com um gato robótico chamado Daruma, que já foi humano, revelará os potenciais latentes do pequeno Hachimaru. O antagonista da obra, não direi “vilão” ainda, não tem nome, embora tenha marcado grande presença num primeiro capítulo tanto com sua personalidade e poder de luta. Sua inserção na trama foi eficaz e preparou terreno para muita coisa.
                Samurai 8 – Hachimaruden tem roteiros de Masashi Kishimoto e desenhos de Akira Ohkubo. O traço de Akira difere do traço mais realista e sóbrio de Naruto Shippuden e do traço mais arredondado de Mikio Ikemoto de Boruto – Naruto Next Generation. Seu desenho é limpo e plástico. Confesso que o designer das tecnologias pode causar estranheza, tem algo biotecnológico envolvido, é simples, mas funcional.
                O autor prometeu uns dez volumes da obra. Bem sabemos que promessa de mangaká não se deve levar em conta, principalmente os famosos e os que trabalham na Shonen Jump. Esses dez volumes podem virar mais de 50 exemplares fácil. Vocês acham que para salvar a galáxia atrás de sete chaves é vai levar quanto tempo? Espero que tempo suficiente para Masashi Kishimoto desenvolver uma história sem os vícios de seu mangá antecessor e possamos ver a evolução da bela arte de Akira Ohkubo.
  • Calidoscópio

    para tia Francisca Miriam

    Do outro lado    odal ortuo oD

    Ohlepse on ameop o    o poema no espelhO

    Não esconde nada    adan ednocse oãN

    Sarvalap sa euqrop    porque as palavraS

    São apenas um jogo    ogoj mu sanepa oãS

    Oãça-snegami ed    de imagens-açãO

     

     

     

     

     

     

     

     





    ..................................

    © "Copyright" do Autor, IN: Concursos literários do Piauí. Teresina, 2005, Fundação Cultural do Piauí. 226 p. Página 192.
  • Caridade pela metade

    O homem moderno não quis dar alimento, nem água, nem abrigo a quem pediu, pois ninguém estava lá para ver e aplaudir. Ele foi embora com o coração cheio dos seus preciosos pronomes possessivos.

  • Carmas

    As faces do homem moderno
    Estão desintegrando
    Há um além indizível
    A terra nos segura
    É importante tê-la, pra depois, merecidamente, não mais
    Mais uma lição.
    Poema do meu primeiro livro de poesias, Átomo, lançado em dezembro de 2018, com prefácio de Rafael Cortez e apresentação de Thomas Pescarini e disponível em formato físico e ebook na Amazon.
  • CARMOND - CAPÍTULO I

    CAPÍTULO UM

    Foi em meados de junho e o inverno era um dos mais rigorosos já vividos no vilarejo, até aquele ano. Na noite em que o jovem médico chegou à pequena e distante Carmond, além do frio, caía uma chuva torrencial.
    _ Aqui é sempre tão frio assim? Ele perguntou ao simpático motorista que o havia buscado, na estranha estação ferroviária, algumas horas atrás, e agora, o ajudava a retirar suas malas do carro.
    _ Sim, e é bom ir se acostumando, doutor! Lá pro final do mês tende a ficar pior, muito pior. Às vezes chega a nevar.
    Augusto sorriu e pensou tratar-se de uma brincadeira do homem que caminhava apressadamente à sua frente em direção à porta da pensão. A única do local.
    _ Porque está sorrindo, doutor? Acha que estou de brincadeira?
    _ Então é sério? Oh meu Deus! Isso é inacreditável, lá na capital quase nunca faz frio.
    _ Nem mesmo no inverno?
    _ Muito pouco, meu amigo.
    O motorista colocou a última mala na recepção, deserta, e tocou algo parecido com um sino.
    _ Espere só mais uns dias e verás o que é frio, meu doutor. É de trincar os dentes.
    Nesse momento, os dois ouviram passos apressados no chão de madeira que vinham em direção a eles e não demorou a surgir uma senhora baixa e rechonchuda que carregava um castiçal com velas acesas. Só então, Augusto se deu conta que todo o vilarejo estava na escuridão. Estranhou, mas, imaginou que a chuva fosse a responsável pela falta de luz elétrica.
    _ Boa noite, meus senhores!
    _ Boa noite, Xica. Demoramos, mas, chegamos.
    _ Já estava mesmo preocupada, Piu. Essa chuva toda e vocês à deriva nessas estradas perigosas.
    _É, minha amiga! Realmente o trajeto não foi fácil, penso que o doutor nunca tinha enfrentado uma chuva dessas na vida. Mas, ele teve sorte em ter esse velho aqui como motorista. Além disso, ele está estranhando muito o frio aqui da região, não é mesmo, doutor?
    _ Pois não? Augusto perguntou meio perdido, pois ficara observando o casal conversando e imaginando há quanto tempo eles se conheciam. Na maioria das vezes e em lugares pequenos como Carmond, as pessoas se conhecem de uma vida toda.
    O motorista tocou em seu ombro e repetiu parte do diálogo:
    _ Estava a dizer para Xica que o senhor não está acostumado com o frio que faz por essas bandas.
    _ Ah sim! É verdade, dona...?
    _ Francisca, mas eu prefiro que me chamem de Xica.
    _ Como quiser, dona Xica! Pois então, eu realmente não estou acostumado com tanto frio. Lá na capital a temperatura está sempre muito elevada.
    Xica e Piu trocaram um sorriso cheio de cumplicidade, como quem queria dizer: “É bom se preparar” e ela que havia deixado o castiçal sobre o balcão, voltou a pegá-lo e pediu que eles a seguissem.
    _ Não posso me demorar, Xica. Agora que o doutor está entregue, sã e salvo, preciso ir pra casa descansar pro dia de amanhã.
    _ Nada disso, Piu. Você não vai embora sem antes tomar um prato daquela sopa que você adora e que está ali quentinha esperando por vocês.
    Augusto entendeu que não seria necessário a dona da pensão insistir, Piu tomou suas malas nas mãos outra vez e foi seguindo dona Xica através do imenso corredor cheio de portas, até que ela parou diante de uma delas e entregando o castiçal para Augusto, retirou do bolso uma chave.
    _ Este é o seu quarto! É tudo muito simples, mas muito bem cuidado, doutor.
    Mesmo com a pouca claridade, Augusto percebeu que o quarto, apesar de simples, era aconchegante.
    _ Tem tudo o que eu preciso aqui! E sendo assim, não poderia ser melhor, podem acreditar!
    _ Fique tranquila, Xica. O doutor aqui não é cheio de frescuragens como aquele último que esteve no vilarejo. Não é mesmo, doutor Augusto? O motorista perguntou enquanto terminava de colocar as malas alinhadamente num canto do quarto.
    _ Não se preocupem comigo, tenham a certeza que ficarei muito bem acomodado. Só preciso tomar um banho e trocar essa roupa que está um pouco úmida.
    _ Aqui nessa cômoda tem toalhas limpas e passadas, e o banheiro é logo ali no final do corredor. Vou acender algumas velas para ajudá-lo.
    _ Por falar em acender, o que houve com a luz? É por decorrência da chuva?
    _ Não, meu doutor. A chuva não tem nada haver com isso. Todas as noites, após as oito horas, a vila fica na escuridão. Com chuva ou sem chuva.
    _ Como assim? O que há com a eletricidade daqui?
    Piu se posicionou ao lado de Xica na porta do quarto e os dois trocaram um olhar de cumplicidade que deixou ainda mais claro para Augusto o quanto aquele casal se conhecia.
    _ É uma longa história, meu jovem. Por ora, tome o seu banho e venha nos fazer companhia na cozinha. Estaremos te esperando para tomar uma sopa deliciosa, modéstia à parte, eu sempre acerto na sopa. Não é mesmo, Piu?
    _ Tenha a certeza disso, doutor Augusto. Não existe sopa melhor, nem na capital, nem no mundo inteiro.
    Augusto sorriu e os dois deixaram o quarto indo em direção à cozinha. Enquanto o barulho dos passos ia se distanciando, o médico ficou a pensar na questão da luz elétrica e inevitavelmente as histórias que seus amigos haviam lhe contato sobre a vila retornaram à sua memória com força total.
    Não! Pensou ele. Todas aquelas histórias eram bobagens dos meus amigos, que não queriam que eu viesse à Carmond.
    E foi tentando afastar esses pensamentos que Augusto seguiu para o banheiro do final do corredor.
  • CARMOND - CAPÍTULO III

    CAPÍTULO TRÊS
    O ponto de parada onde fora deixado era diferente de todos os outros já conhecidos e imaginados por Augusto. Ficava num lugar qualquer da estrada e não havia nenhum sinal de vizinhos, ou ainda, nenhum bar ou qualquer outro tipo de estabelecimento como são de costumes nesses lugares.
    A chuva não dava tréguas e tudo que ele fez foi correr até uma velha tapagem, já bem deteriorada pelo tempo, e ficou lá aguardando pelo motorista, no meio da chuva e do nada. Essa espera, permeada pelas lembranças da conversa que havia tido com os amigos, durou mais de uma hora, até que, finalmente, ele viu surgir bem distante, os faróis de um carro que deslizava nas estradas enlameadas.
    Graças a Deus! Ele balbuciou e já foi tratando de ajeitar as malas nas mãos na expectativa de deixar o quanto antes aquele lugar.
    _ Por acaso o senhor é o doutor que está vindo da capital para tratar do Coronel? O motorista perguntou de dentro do carro e com o vidro do lado direito entreaberto.
    _ Sim, sou eu mesmo! Me chamo Augusto.
    _ Prazer, doutor! Sou seu motorista. Pode me chamar de Piu. Venha! Saia dessa chuva.
    Augusto realizou o embarque rapidamente e os dois tomaram o caminho de volta até Carmond, o vilarejo que tanto amedrontava seus amigos.
    _ Demoraremos muito para chegarmos?
    O homem sorriu meio desanimado.
    _ Um cadinho, doutor. Ainda mais com essas estradas ruins como estão. O senhor tem pressa?
    _ Não trata-se de pressa. Acho que é apenas curiosidade mesmo! Já passei o dia todo dentro de um trem, penso que mais algumas horinhas viajando não me farão mal.
    Piu sorriu novamente e ergueu as sobrancelhas indicando o banco traseiro.
    _ Tem uma garrafa e dois copos aí no banco de trás. Faço o favor de pegá-los e servir um chá pra gente, se não for incômodo, é claro.
    Augusto achou aquilo maravilhoso. Estava precisando mesmo tomar alguma coisa quente, depois do banho de chuva que tomara enquanto aguardava.
    _ Não é incômodo algum, ao contrário, será um prazer. O senhor parece ter lido meus pensamentos.
    _ Eu nunca saio sem a minha garrafa, principalmente em noites como esta. Um chazinho quente é sempre uma excelente companhia para quem vive tão solitário.
    Augusto encheu um dos copos e entregou para Piu que segurando-o com a mão esquerda, continuava a guiar o veículo com a direita.
    _ Posso lhe fazer uma pergunta, doutor?
    _ Depois desse chá você pode perguntar o que quiser.
    Sorriram os dois.
    _ Pois bem, o que levou o senhor a aceitar o convite para vir até o nosso vilarejo?
    Inevitavelmente Augusto lembrou-se dos amigos.
    _ Por que isso parece tão estranho? O que há de errado com o seu vilarejo, meu senhor?
    _ Carmond não é o melhor lugar do mundo para se estar, doutor. Tudo lá é muito difícil, desde o acesso, como o senhor mesmo está podendo constatar, até nas outras coisas mais simples.
    _ Por exemplo?
    _ Qualquer coisa que é normal em outro lugar, lá o senhor verá que se torna difícil.
    _ E porque isso acontece?
    _ Pelo visto o doutor não conhece nada mesmo do nosso vilarejo, né?
    Augusto balançou a cabeça negativamente e virou o último gole do chá.
    _ Não, meu senhor. Tudo que sei são as histórias, ou melhor, as lendas que as pessoas inventam e acabam chegando até a capital.
    Piu entregou o copo para ele e voltou a segurar o volante com as duas mãos. Nesse instante estavam passando sobre a velha ponte que já havia sido carregada duas vezes em enchentes que atingiram a região, e fora restaurada pelos próprios moradores.
    _ Boa parte dessas lendas são verdadeiras, meu jovem. As pessoas podem até aumentar, mas elas nunca inventam, já diz o ditado.
    _ O que há de errado em Carmond? O que acontece por lá?
    Piu reduziu a velocidade e olhou para o rapaz.
    _ Saberás logo logo, meu doutor. Afinal, o senhor foi contratado para cuidar do maior de todos os problemas desse vilarejo.
    Augusto percebeu que as últimas palavras foram pronunciadas com certo rancor e ao mesmo tempo tristeza, e isso deixou-o ainda mais curioso.
    _ Então está me dizendo que o problema todo, ou melhor, a maior parte dele provém do Coronel? Mas até onde sei esse homem está à beira da morte.
    _ Não acredito que ele vá morrer tão facilmente, seria sorte demais, e o povo de Carmond aprendeu desde cedo que a sorte parece não gostar muito daqui.
    E foi com a cabeça cheia de interrogações que Augusto seguiu o restante da viagem e nem se deu conta ao entrar no vilarejo que tudo estava escuro, a única luz acessa eram as dos faróis que cortavam a chuva e iluminava a rua diante deles.
  • cicatrizes

    vida,eu já sinto tanto a tua falta,minha vida está muito vazia,o meu coração está vazio. será que tu sente a minha falta como eu sinto a sua? será que tu pensa em mim como eu penso em ti?nós quebramos as nossas promessas,nós erramos,eu errei,você errou,eu errei comigo mesma ao achar que nosso amor devia acabar,minha vida tava um caos,eu tomei várias decisões erradas,ter te deixado foi a maior delas,e agora eu não posso mais voltar atrás.
    acho que sempre estarei esperando a tua volta,me culpo todos os dias por não ter coragem e força o suficiente para ir atrás de você. você aconteceu na minha vida. e meu corpo e a minha alma ainda estão conectadas a ti.
  • Ciclo

    — Temos mesmo que ir? Eu estou com medo, mamãe.
    — Estarei bem do seu lado, além disso, não podemos resistir, filhinho.
    O vento empurrou com força. Não conseguiram mais segurar. Caíram.
    Com a descida cada vez mais rápida, sentiram antes mesmo de acontecer, que se separavam.
    Lá vinha o telhado. Como poderia ser tão aterrorizante? Uma telha era tão grande assim? Seria muito dura?
    Descobriu mais cedo do que imaginava. Bateu na telha, rolou por ela e caiu outra vez.
    Foi aterrissar em algo macio; perfumado; alaranjado. Parecia uma cama.
    Enrolou-se como em um cobertor e dormiu. Esqueceu do medo.
    Acordou com uma sacodida violenta. O medo voltou! Escorregou pelo caule e foi para o chão.
    Um buraquinho na terra com outras conhecidas.
    — Mamãe! Te encontrei!
    — Blin! Você está bem! Eu nem acredito.
    O sol brilhou e Blin sentiu-se estranho.
    — Mamãe, o que está acontecendo? Estou desaparecendo! Me ajuda!
    Viraram vapor juntos e foram subindo para o céu outra vez.
    Blin não queria ir. Tinha medo de altura.
  • Ciclos M - MOÇA

    Moça, os tempos não são fáceis, né ? 
    A mente parece ter dado nó, parece que tudo está fora do lugar.
     
    Moça, se levante dessa cama 
    Tome um banho de água fria 
    Volte a sorrir !
     
    Moça, tempestades são constantes 
    Mas ao início do outro dia o sol volta a surgir.
    Pare de sofrer pelos tombos 
    veja quantas vezes tu já ressurgiu como fênix. 
     
    Moça, esquece os erros do passado 
    Pense no futuro que te espera alí a frente.
    Esquece das tuas dores e lute pra chegar lá !
     
    Moça, não decepcione a Menina
    Moça, torne a Mulher real
    Moça, eu confio em você
    Moça, não desista de si mesma !
  • Ciclos M - MULHER

    Mulher, espero que tenha recuperado aquele lindo sorriso que tanto encantava.
    Espero que seu amor próprio seja maior do que arranha céu
    Pois sempre foi linda, apenas não reconhecia.
     
    Mulher, ressurgir como fênix é bom
    Mas espero que sua alma não se desconstrua nunca mais.
     
    Mulher, espero que tenha compreendido que sua felicidade depende exclusivamente de você.
    Espero que olhe pra trás e veja que todos os tombos foram necessários.
     
    Mulher, espero que a Menina se orgulhe por ter chegado longe.
    Mulher, espero que a Moça se orgulhe por não ter desistido.
    E eu me orgulharei juntamente 
    pois finalmente a lagarta se transformou em borboleta. 
    Dando asas pra sonhos, e se libertando de tudo aquilo que lhe impedia de voar !
  • Cidinha

    Era uma vez uma bela menina chamada Cidinha. 
     Sua mãe morreu no parto e seu pai, sentindo-se muito sozinho, casou-se de novo pouco tempo depois.
     Sua madrasta fingia gostar dela, mas, após a morte do pai de Cidinha, atingido pela explosão de um bueiro no centro da cidade, se revelou uma verdadeira megera. 
     Com o dinheiro da indenização, foi morar numa casa enorme na zona nobre, próxima ao Morro do Castelo, tratando Cidinha como uma empregada, a colocando para limpar, lavar, passar, cozinhar, etc. 
     As meio-irmãs de Cidinha, duas patricinhas feias e arrogantes, sempre a tratavam mal e atrapalhavam todas as tarefas para que ela demorasse e não tivesse tempo pra mais nada. Seus únicos amigos eram dois garotos que faziam malabarismos no semáforo em frente ao mercado em que Cidinha fazia as compras e a quem ela dava alguns trocados escondida vez em quando.
     Um belo dia, Cidinha viu numa rede social que um funkeiro famoso, MC Princeso, faria um baile, no Morro do Castelo, comunidade em que ele cresceu. Ela, que era fã, ouviu as irmãs comentarem com a mãe e disse que queria ir. As três então riram de perder o fôlego. – Você nem tem roupa pra sair, menina. – disse a madrasta – Se arrumar uma roupa bonita e terminar todas as tarefas, eu deixo você ir. – Disse zombando. 
     Cidinha abaixou a cabeça e voltou para as tarefas chorando. Sabia que era impossível arrumar uma roupa para o baile. 
     Naquele dia, ao ir ao mercado, seus amigos perguntaram o porquê dela estar tão triste e ela contou o motivo. Compassivos com a menina, eles pediram para que a mãe, costureira de mão cheia, fizesse um vestido bonito para Cidinha ir ao baile. 
     No dia do baile, ao ir ao mercado, os meninos entregaram então o vestido. Não era muito requintado, mas, era muito bonito. Se ofereceram, também, para ajudá-la nas tarefas de casa. 
     Cidinha chorou de alegria. Agora poderia ir à matinê do MC Princeso. 
     Aproveitando que as irmãs e a madrasta estavam no salão de beleza, deixou os meninos entrarem e, com a ajuda deles, terminou todas as tarefas bem cedinho. 
     Os meninos se despediram e ela foi tomar um banho para experimentar o vestido. 
     Estava se admirando no espelho quando as irmãs chegaram. O vestido era lindo e realçava toda a sua beleza. Isto despertou a inveja delas que, fingindo brigar uma com a outra, rolaram para cima de Cidinha e “acidentalmente”  rasgaram seu vestido. 
     Ela chorou mais uma vez, de raiva e tristeza, já convencida que não iria ao baile. 
     Pouco antes da hora da matinê, as irmãs e a mãe, devidamente arrumadas, deixando escapar risadinhas, se despediram e saíram. Iria recomeçar a chorar quando o telefone tocou. Era sua madrinha, que não via há um bom tempo. Ela sentiu a menina triste ao falar e perguntou o que houve. Cidinha contou sobre o baile, a roupa e tudo mais. 
     Sua madrinha pediu que não saísse de casa e desligou. 
     Chegou alguns minutos depois com um vestido que a filha de sua patroa havia emprestado. Era bonito e caro. – Comprado em Nova Iorque. – Ela disse. 
     Ajudou a menina a se arrumar e pediu um Uber, além de dar algum dinheiro, mas, tudo isso com uma condição: que Cidinha voltasse antes da meia-noite. A menina aceitou e partiu para o tão esperado baile. 
    – Mando um carro te buscar! – gritou a madrinha enquanto ela saia.
     Chegando no baile, logo encontrou seus amigos malabaristas do semáforo, desta vez, muito bem arrumados. Contou sobre o vestido e pediu desculpas. Disseram estar tudo bem, felizes por ela ter ido. 
     Dançavam muito e a beleza de Cidinha chamava a atenção de muitos rapazes, em especial do MC Princeso, que observava do camarote VIP do baile. 
     Ele pediu que um de seus seguranças chamasse ela até o local em que ele estava. 
     Quando o homem enorme contou para Cidinha que o MC estava chamando, seu coração disparou de empolgação. 
     Chegou no camarote e foi recebida com  dois beijinhos no rosto. 
     – Você dança muito bem – disse Princeso – Vem dançar comigo!
     E dançaram.
     E Todos queriam saber quem era a menina bonita dançando com o MC. 
     – É a Cidinha? – Disse uma irmã. – É a Cidinha! – Disse a outra. E fervilharam de inveja.
     Cidinha riu, dançou e se divertiu, mas, ao ver as horas, se assustou: era quase meia-noite!
     Disse que tinha de ir e Princeso pediu que esperasse. – Tá quase na hora de eu cantar. Fica – disse o rapaz, mas, Cidinha apenas disse não poder e saiu. 
     Na correria, arrebentou uma das sandálias nas escadas, mas, com medo de perder a hora, deixou para lá e partiu. 
     Princeso percebeu que não havia perguntado o nome da menina e pediu que o segurança corresse e perguntasse, mas, mesmo saindo logo após Cidinha, não encontrou nada além da sandália arrebentada. 
     MC Princeso se apresentou naquele dia com a cabeça longe. Na bela menina que o encantou. 
     Cidinha voltou pra casa extasiada. Foi ao baile e ainda conseguiu conhecer pessoalmente MC Princeso. Porém, sua alegria durou pouco. 
     Sua madrasta a repreendeu por ter ido ao baile e suas irmãs, com inveja, sugeriram que trancasse a menina no quarto, saindo apenas para as tarefas. 
     Princeso não conseguia parar de pensar na menina do baile do Morro do Castelo. Mas, não sabia como encontrá-la. Nem mesmo sabia seu nome. 
     Resolveu postar nas redes sociais que estava a procura da garota que esteve com ele no camarote no dia do Baile, com a foto da sandália perdida por ela. 
     Choveu meninas dizendo ser ela, mas, nenhuma realmente era. 
     Já estava desiludido quando viu um mensagem de alguém dizendo que sabia quem era e onde ela morava. 
     Foi até o local indicado encontrar com o menino: um sinal de trânsito em frente a um mercado num bairro nobre.
     Lá chegando, o tal menino e o irmão o levaram até um casarão antigo. 
     Princeso tocou a campainha e as irmãs de Cidinha ficaram sem reação ao atender a porta. 
     A madrasta pediu que entrasse e  as irmãs ficaram tentando roubar a atenção dele. Mas, estava determinado a encontrar  a menina do baile. 
     Quando perguntou se ela estava, uma das irmãs já ensaiava dizer que não quando um grito veio de um dos cômodos: – Eu estou aqui!
     O MC foi em direção ao quarto e, disfarçadamente, a madrasta destrancou a porta. 
     Cidinha saiu do quarto. Estava com roupas simples, mas, não menos bonita por isso.
     Princeso e ela conversaram no sofá por quase uma hora sob o olhar incrédulo da madrasta e os olhares invejosos das irmãs. 
     Ele a convidou para um final de semana numa casa de praia. Sua madrasta disse que iria como responsável, mas, Cidinha disse que chamaria sua madrinha. 
     Se conheceram. Se gostaram. Namoraram por 6 meses. 
     Terminaram após ele se envolver num escândalo com uma dançarina. 
     Aproveitando os holofotes de subcelebridade, Cidinha criou um canal na internet, ganhou algum dinheiro com isso e foi morar com a madrinha. 
     Não foi feliz pra sempre, mas, teve muitos bons momentos, pois é assim que a vida realmente é.
  • Clássicos De Verão


    classicos de verão

    Na Divisão Dos Movimentos Kudza É Um Resultado Sísmico, Capaz De Ascender Um Big Bang Com A Simples Ajuda De Um Palito De Fósforos, Quando Deus Deu Luz A Vida Ele Usou O Meu Corpo Como #PapelQuímico, Eu Sou Um Universo Vivo, Sou O Esboço De Histórias Que Só Ganham Vidas Quando São Expostas Em Livros, Raros São Os Humanos Que ConseguemOlhar-se Com Os Olhos Dos Outros, Se Vidas Fossem Como Partículas De Água Os Oceanos Seriam Neutros, Já As Nuvens Seriam Os Monstros. Esse Telhado De Vidro É Um Obra De Arte, O Coração Desespera Mas O Espírito É Um #NegócioAParte O Meu Tem A Fisionomia De Uma 13ª Arte, Só Existe Uma Coisa Que Eu Gostaria De Saber, Como É Que O Céu No Céu É? Somos Acordados E Postos A Dormir Pela Mesma Insignificância, A Morte Só Te Permite Viver Pois Ela Ama A Vida, Sou Nada Mais Que Um Pombo Correio Entregando As Mensagens Deste #NamoroADistância, Não Sigas A Tendência Pois Estamos Sempre De Partida.

    O Sabor Do Medo Condensado Sobre A Tua Pele, Bloqueia O Consciente Incapacitando-Me De Comentar, Kudza Acabaste De Entrar Em #ModoEfeitoDeEstufa Está Na Hora De Deixar O Planeta Respirar, Vagarosamente O Ovo Desfirmamenta, Por Cada Mesma Aparência Perdemos Uma Nova Existência, Kudza- Porque Que Sempre Que O Mundo Fala, O Burro Nunca Pousa As Orelhas E Nunca Se Cala? Quando O Passado Bate A Porta A Gente Nunca Abre, Atenção Ao Que Hoje Dizes Pois O Amanhã…#AGenteNuncaSabe, As Negativas Influências São As Mais Letais, Desgastado Por Inexistentes Inexistências De Vidas, Que Apenas Ao Dinheiro É Que São Leias, Vou Dando A Corda E O Mundo Gira, Pessoas São Como Cobras, Entre Enroladas Entre Cordas E Só Nas Costas Ficam…#ÉlaQueCriticam. Kudza- Eu Tenho Uma Vida Conturbada, Vocês Perto De Mim Não Passam De Fantasmas Em Depressão, É Bom Que Tenhas Uma Cratera Paradoxal, Muitos Trazem Aquela Conversa Fiada, Mais Baixam Sempre A Cabeça A Corrupção. 

     “A Maior Distância Entre Duas Pessoas É O Mal Entendido”

    Essa Sorte Tornou-se Num Azar, Os Meus Atormentos Estão Mais Aterrorizados Que Um Coração Num Altar, Se Está É Uma Pergunta De Sim Ou Não, Porque Que Pressuponho Que A Resposta, Tem O Poder De Fazer O Matriz De Um De Nós #SeDesintegrar, Adicionei Alguns Anos De Dor, Aos Maliciosos Movimentos Enviados Pelos Que Gostam De Odiar, Moldei-o Na Forma De Um Coração, Kudza Concedeu-lhe Vida, Kedson- Agora É A #HoraDeReenviar, A Derradeira Desilusão Terá Acontecimento No Momento De Revelação Da Verdadeira Ilusão,Kudza Dá-me Dá-me Um Bolt De Sorte, Pois Eu Não Avisto Meta, Pequenos Desafios Ensinam O Corpo A Manejar A Dor, Se Este Percurso Fosse Uma Linha Reta, Hoje Eu Já Teria Conquistado O Teu Amor, O Sentimento É Prematuro Mas Já Afetou A Mente, Eu Vivo Desligado Mas Por Ti Liguei-me A Corrente, Kedson Encontra-se Perdido Entre Os Perdidos E Achados, A #FlacidezEmocional São Como Novos Horizontes Esperando Ser Revelados.

    Eu Não Lamento, Eu Não Esqueço, Eu Não Prometo! Se Os 2 Sentimos O Amor Porquê Que Não O Usas, Em Vez Disso #AbusasDoPoder Aparentas Ser A Minha Heroína Mas Não Me Das A Chance De Te Poder Converter, A Minha Carência Carece Por Uma Deusa, A Tua Beleza É A Armadilha Na Qual Fui Submetido, #DemasiadasEscolhasRelacionadas, Mas… O Meu Amor Não Carrega Duplo Sentido, Eu Sou O Indivíduo Que Não Se Concilia Com A Multidão, Kedson Foi Convertido Pelas 12 Horas De Luz Enquanto Kudza Foi Metamorfoseado Pelas 12 Horas De Escuridão, Palavras Digitalizadas Neste Abismo Onde, Egos São Mais Surdos Que O Amor Que Encargo No Meu Coração, Se Morrer É Acordar Então #VivemosSemDormir, Amassaguei A Cama Espreguicei Os Lençóis E Deixai A Almofada A Refletir.  

     “Viver Não É Necessário. Necessário É Criar”

    Porque Que A Tua Imagem Está Constantemente A Invadir A Minha Privacidade? O Teu Sorriso É Tão Ágil Quando A Minha #MentalAgilidade Kudza- Ela É A Filha Proveniente Da Primeira Lágrima Entornada Pelo Criador, No Intercâmbio De Palavras Descarto Certas Memórias, Pois Essas Mesmas Carregam Histórias Onde O Final Nunca É Promissor, Mas Nesta Memória Eu Quero-te Ao No Meu Roteiro, Prestigiada Por Uma Alma Pura Ela, E A#BelezaDaNatureza E Eu Sou A Verdura, O Coração Só Recebe A Mensagem Quando Já É Tarde Demais, O Pensamento Vive Em Conflito Contra Ideias Quem Nem Sempre São As Mais Ideias, Mas Eu Prometo Beijar Os Teus Lábios Da Mesma Maneira Que As Ondas Beijam A Areia, Serei O Teu Príncipe E Tu A Minha Pequena Sereia, Essa Vida É O Nosso#PontoDeEncontro, Vem Comigo Criar Um Novo Conto, Somos Anjos Caídos Procurando O Caminho De Volta Para Casa, Tu És A Outra Metade Da Minha Asa, Só Juntos Poderemos Alcançar O Céu, E Viver No Paraíso Que Deus Prometeu.

    “A Arte É A Auto/Expressão Lutando Para Ser Absoluta”

    Kedson
  • Coletânea "Futuro? Qual será?"

    Sinopse
    Apresentamos a Coletânea "Futuro? Qual será?". Esta é uma Coletânea de Contos Futuristas, de Ficção Científica ou não, sejam Utópicos ou Distópicos (na "onda" de "O Conto de Aia"), que apontem para uma visão de futuro para a humanidade. A questão é: No que vai dar tudo isso que está acontecendo? Onde vamos desembarcar?
    Essa é nossa vigésima Coletânea e nela o leitor encontrará os 25 melhores Textos (na percepção dos julgadores) dentre 56 inscritos. O tema desta Coletânea foi sugerido por John Dekowes, Cesar Luis Theis, Grégor Marcondes e Rafael Sousa; e escolhido dentre várias sugestões. Como nas coletâneas anteriores, a Capa desta obra desenhada por Leonardo Matoso é a capa escolhida pela maioria dos Autores que se inscreveram para a coletânea, dentre 4 (quatro) inscritas para participar da seleção. Continuamos com nossa política de termos em nossas Obras a participação democrática não só de Escritores, mas também de Designers e Leitores.
    Desejamos uma agradável leitura a todos e até a próxima!
    Autores selecionados para esta coletânea:
    Adnelson Campos
    Alberto Arecchi
    Caliel Alves
    Camuccelli
    Carlos Lopes
    Cesar Luis Theis
    Davi M Gonzales
    Gabriel Soares
    Gilberto Vaz
    Giovane Santos
    Igor Martins Lima
    José Luiz Teixeira da Silva
    Leonardo Matoso
    A. Thompson "M. A. Thompson
    Madson Milhome
    Mario Cesar Santos
    Mauricio Duarte
    Milton Jorge da Silva
    Ricardo Gnecco Falco
    Roberto de Jesus Moretti
    Rodrigo Barradas
    Sergio de Souza Merlo
    Sérgio Macedo Ferreira
    Tauã Lima Verdan Rangel
    Thiago Viana Leite
  • Com quem andas?

    Eu fui visto com você
    Por isso disseram que a gente 
    é igual

    Isso quando não se lembraram de 
    lembrar que a gente é muito menos
    bom, que mau

    Nos definiram devaneios
    pros outros
    coitados...

    Falamos sem pensar
    que isso é normal

    A gente é igual a todo mundo
    afobados
    etc e tal...








  • Como a vida é

    A vida e plena
    A vida um dia se acaba
    Se um dia ela se acaba 
    Espero que ate la 
    Eu posso te reencontrar
    Para lhe dizer tudo que queria falar .
  • Como comecei a escrever? - Parte 1

    Eu nasci em Araçás, uma cidade pequena de coração grande. Aos meus 14 anos eu me mudei para Alagoinhas. Araçás é uma cidade satélite de Alagoinhas, essa última concentra diversos serviços que as demais não possuem. Sem contar o comércio e as faculdades!
                Já estabelecido em Alagoinhas, mais especificamente na sua Zona Rural, passei a estudar no CETEP/LNAB e trabalhar na roça. Venho de uma família de lavradores. E dos meus quatro irmãos mais velhos, só eu entrei no Ensino Superior.
                No Ensino Médio Técnico Integrado eu cursei Técnico de Informático. Embora tenha me decepcionado com a área, aprendi muitas coisas a forjei muito boas amizades, entre alunos e professores.
                Dentre esses professores eu destaco Delson Neto, professor de Filosofia, e Sérgio Luiz de Artes, o poeta e artista plástico Serluzpe. No meu período de estágio obrigatório, eu fui para o setor de tecnologia da SEDUC de Alagoinhas. Lá, trabalhei com Lucas, Marcelo e Joedson. Seu Domingos era o meu monitor. Foi na SEDUC que aprendi os meandros do serviço público e como a educação funciona por dentro, num registro institucional da coisa. Foi na SEDUC que conheci dona Dani, dona Celia e dona Vanuza.
                Nesse período eu comecei a escrever. Embora tenha que ser sincero, eu odiava escrever! Acalmem-se, eu vou explicar.
                Eu sempre adorei ler. Na escola eu tive muita dificuldade em aprender a ler a escrever. Fui alfabetizado tardiamente, na terceira série, quando já havia repetido um ano nessa série. É óbvio que os exercícios de caligrafia e interpretação de texto deixaram sequelas graves. Adquire um hábito de leitura compulsivo, porém, a escrita me era algo muito tedioso. A repetição mecânica da escrita me trouxe grande desconforto na minha trajetória escolar.
                Para minha surpresa, certo dia o professor Sérgio Luiz fez um concurso em sala de aula. Os alunos deveriam fazer um poema e apresentar em sala de aula. O melhor ganharia um livro de poesia de autoria do professor, Revelações. O objetivo era franco, não tinha nada a ver com competição. Era apenas um singelo incentivo a criação e fruição literária.
                Quando sai da aula, fui direto para a SEDUC (esse era o meu percurso todos os dias durante sete meses, pela manhã escola, a tarde era estágio).
                Era um dia de pouco trabalho na SEDUC. Então peguei uma folha de caderno e imaginei o que pousaria no papel. Durante várias horas fiquei olhando para aquela folha branca dividida em linhas precisas. Fechei o caderno. O que escreveria? Embora gostasse de ler eu odiava poesia! Sério, eu lia romance, novela, conto, crônica... até bula de remédio, menos poesia. Não entendia qual era o barato daquela coisa. Os versos nada me diziam, independente de qual escola fosse o poema ou o autor. Lia Drummond com a mesma impaciência e desprendimento com que lia Shakespeare.
                Mas nem tudo estava perdido. Eu tinha alguns exemplares de Bleach, um anime e mangá publicado na Weekly Shonen Jump da Editora Shueisha, autoria de Tite Kubo. Esse autor colocava sempre uma poesia na página de abertura do mangá. Pela primeira vez na minha vida eu lia uma poesia que me tocava em algo. Elas eram totalmente diferentes de qualquer poema que já tivesse sido obrigado a ler na escola numa prova de Português.
                O primeiro volume de Bleach que li foi o 37, na capa estava o personagem Yumichika bem despojado e elegante, um dos meus preferidos dentro da obra. Na capa estava a inscrição The Beauty is so Solitary. Não precisa saber inglês para saber o que está escrito aqui. Quando abri o volume, estava lá um poema, ao invés da tradicional ilustração inédita. O poema dizia o seguinte:
    Não acho as pessoas belas
    Como acho que as flores são
    Pessoas só são flores
    Quando caem mutiladas pelo chão.
                Isso transmite uma beleza e uma paixão cega que eu nunca tinha visto. Eu nunca tinha tido contato com a obra de Tite Kubo, conhecia o pouco que lia através de revistas da Editora Escala como a Anime Dô e a Revista Neo Tokyo, títulos que passei a colecionar. Não tinha computador ou internet para assistir na net, a pirataria nunca trouxe, e comprar o mangá como um colecionador nunca foi possível. Eu adorava a estética do mangá, e para ser bem sincero, achava que ele se passava no Japão Feudal!
                Bem, continuando. Quando eu li o dito volume 37 de Bleach, me apaixonei pela obra. E adquirindo outros exemplares, percebi que isso ocorria em todos os volumes. A própria linguagem do mangá remetia a todo tempo a figuras de linguagens poéticas, com inúmeras camadas de significações.
                Quando resolvi abrir o caderno novamente, esqueci tudo que sabia sobre poesia. Se tivesse que escrever alguma coisa, seria do meu jeito, com minha forma e com o que eu gostava. Então resolvi escrever uma poesia homenageando Bleach de Tite Kubo. A base da poesia foi Ichigo Kurosaki, protagonista da obra. Um personagem com o qual me identifico muito, tanto na personalidade quanto nos ideais.
                Então escrevi no papel minha primeira poesia:
    Orange ranger
    Há um certo cavaleiro laranja
    Que nem bainha sua espada tem
    Quebra a máscara a procura de identidade
    E quando se reconhece, ainda não é ninguém.
                Evitarei aqui as explicações pedagógicas, quem é fã do mangá vai entender muito bem as referências. Considero também que o trabalho do escritor é ser narrativo/descritivo, não explicativo. Esse último papel cabe ao crítico literário.
                Passei o texto a limpo numa folha de papel de ofício.
                Na próxima aula com o professor Sérgio Luiz, ele cobrou a entrega do poema. Mas só eu levei, ninguém dos mais de trinta alunos além de mim fez o poema. Se ele ficou decepcionado, não demonstrou. Ele pediu para eu recitar. Fui lá na frente do quadro com certa timidez e recitei, mesmo quando ninguém prestava atenção. No fim ele me deu o livro Revelações, que tem uma capa linda demais.
                Não sei se vocês perceberam, mas eu ganhei o livro por WO!
                Vou ser sincero a vocês, meus colegas é que perderam. Depois desse fato, eu não tenho como explicar e nem me inclino a saber porque, não parei de escrever poemas. Mas essa história eu vou deixar para as próximas postagens. Continuem a acompanhar os trabalhos.
  • Como comecei a escrever? - Parte 2

    Depois que escrevi o meu primeiro poema, algo mim deve ter despertado. Em tardes no setor de Tecnologia da SEDUC de Alagoinhas ou no Espaço Somar, onde ficava a Xerox que eu tomava conta, eu escrevi muitos poemas. Quanto mais angustiado, revoltado ou cansado eu ficava, mais eu produzia. Claro que escrevi em momentos de calmaria e sossego, nem tudo na alma do poeta é tempestade, tem bonança também.
                Eu escrevia em folhas de papel ofício, em letras de forma, todos os meus poemas têm título, e geralmente eu os destaco entre dois #, tipo #Orange Ranger#. De repente, havia mais de quarenta poemas, então pensei em publicá-los, de modo artesanal mesmo, como um cordel. O intuito nunca foi comercial, só queria dividir os textos com meus amigos. Quando apresentei a ideia a meu irmão, ele me trouxe algo melhor: uma publicação profissional.
                Ele me deu o contato de seu Wasigton de Oliveira, um empresário da região que é criador e gerente da Talento – Comunicação visual & produção de eventos. Como poeta e mecenas, ele aceitou publicar meu livro depois de pedir para ver alguns poemas. Enviei vinte, e para aumentar minhas chances de publicar, disse que havia cem, sim, eu menti. Eu devia ter uns 40 ou 45 poemas, e nem sequer estavam digitados!
                Quando ele me disse que publicaria eu fiquei com o coração minúsculo, alegre, porém, temeroso por ter mentido. Eu criei dois problemas: primeiro, não tinha como digitar, pois não tinha computador; segundo, nem tinha escrito nem a metade do que havia prometido entregar. O jeito foi postergar o máximo possível a entrega do manuscrito. Mas nesse período, eu escrevia num ritmo alucinante, ao menos dois poemas eu fazia por semana, isso diminuiu um problema. O que me preocupava mesmo era a digitação.
                Por nunca ter tido um computador ou feito um curso de digitação, eu digitava na velocidade de uma tartaruga, catando cada letra e sem pontuar, nem sabia como fazia esse troço. Durante uma vez por semana, eu fazia uma via crucies a Alagoinhas. Eu saía da Zona Rural e ia ao centro, pois na comunidade onde moro não tem lan house. O preço da hora equivalia a passagem de ida e volta. Conseguia digitar poucos textos. A tarde eu ia para o estágio. Não lembro se nessa época estávamos em greve nas escolas estaduais ou se estava de férias mesmo. Certo dia, de modo muito despretensioso, fui a Biblioteca Municipal Maria Feijó, em frente à Praça Rui Barbosa.
                Lá, eu acabei descobrindo algo incrível: o setor de laboratório você usava os computadores gratuitamente para pesquisa ou digitação! Assim, não precisei gastar mais dinheiro e finalmente eu pude terminar o manuscrito, com o mínimo de correção e formatação que aprendi aos trancos e barrancos. Ao enviar todo o manuscrito, seu Wasigton, dias depois, convidou-me a acertar os últimos pontos e me mostrar o contrato.
                O nome do livro já estava mais ou menos na minha cabeça. Iria ser Nephilim. Seu Wasigton achou o nome muito erudito para o tipo de público que atingiríamos e ficamos alguns minutos vendo nomes e tentando em consenso. Quando lhe disse qual o objetivo daquele livro, ele chegou a um nome legal: A Revolta do Anjo. Eu achei incrível, resumia bem o que eu queria transmitir.
                A capa e a contracapa ficaram a cargo de meu irmão mais velho. Com um desenhista na família eu não iria desperdiçar uma proposta dessa não é mesmo? E com um rascunho meu feito de palitinho, meu irmão mais velho, Sandro Alves chegou a uma capa fenomenal, em preto e branco e uma contracapa com uma pena de anjo, e dentro da pena se podia ler uma frase que cunhei: “Não deixe que sua revolta se perca na aparência duvidosa da utopia.”, legal né?
                De modo muito sensível, mas realista, ele me disse tudo que eu precisava saber sobre o mundo da literatura. Com sua vasta experiência em publicação e editoração, o meu editor foi bastante incisivo na questão de que eu estava publicando por amor e, que ele, por incentivo à arte. Qualquer retorno que tivéssemos com a publicação seria para cobrir os custos da publicação. E que me daria um valor maior de royalties, pois reconheceu o meu esforço.
                Seu Wasigton disse que uma pequena editora não tem convênio com livrarias e não tem como investir num lançamento. E que ele mesmo já não publicava há algum tempo e que só fazia aquilo porque publicar livros para ele era como “uma cachaça”. A tiragem inicial seria de 200 exemplares, com tudo arcado pela editora. Fiquei surpreso com a realidade do mercado literário e do modo como se investe tanto e se ganha tão pouco com a literatura. Mas eu estava tão empolgado que tudo isso desapareceu numa nuvem de transcendência literária.
                Serei sincero, sem recursos para um lançamento, sem distribuição pelas livrarias, sem apoio dos órgãos públicos e privados, não consegui vender metade dos livros... e quando vendia um livro, ia pagar prontamente o seu Wasigton, mesmo que fosse apenas um. Ele me pagava o royalty na mesma hora, o que criou uma boa relação de confiança entre nós, eu agradeço muito a Deus e seu Wasigton por isso.
                Muitos dos compradores do livro foram o pessoal da SEDUC, os professores do CETEP/LNAB, os professores de Araçás, e a prefeita de Araçás, a Exª. Senhora Maria das Graças que comprou dez exemplares e sorteou no Plano Municipal de Educação de Araçás, e muitos outros dos quais não lembro o nome. Agradeço a todos pela sensibilidade, por me ajudarem a realizar o meu sonho, respeitar o contrato e atender minhas responsabilidades para com quem me deu a mão.
                Chegou um momento que fiquei cansado de correr tanto e não vender mais nenhum livro. Por mais que me esforçasse, eu estava sozinho, só tinha ajuda de Deus. Estava decepcionado com algumas coisas que aconteceram na minha trajetória na literatura, algo que contarei nas próximas partes dessa “autobiografia”. Embora fosse a todos os eventos que pudesse, eu era apenas um ilustre desconhecido!
                Sem dinheiro, sem divulgação e sem nem mesmo um celular para mostrar o meu trabalho e pôr o meu nome na praça. Já estava adulto e as pressões faziam os ombros doer e os joelhos dobrar. Resolvi que escrever seria apenas hobby, um modo de passar o tempo. Se no futuro eu pudesse escrever profissionalmente, quando estivesse empregado e pudesse investir com meu próprio dinheiro, então daria seguimento a publicação de livros.
                Então deixei a escrita um pouco de lado e passei a me dedicar ao estudo para passar no Enem e tentar História. No Ensino Médio finalmente me decidi por fazer Ciências Humanas, queria ser historiador. Tentei o Enem durante três vezes, e só tirei uma nota suficiente na terceira tentativa onde pude entrar no Curso de Licenciatura de História da UNEB/Campus II – Alagoinhas.
                Escrevi muitos poemas nesse meio tempo e até mesmo crônicas, mas a ideia de publicar livros ficou estagnada por um tempo até eu encontrar meios para isso. Meios que embora se dissessem gratuitos, eles também tinham os seus custos embutidos. Pois de nada lhe serve publicar um livro que você não divulga e tem que competir espaço na internet com milhares de títulos. Continue acompanhando e você vai ler coisas ainda mais significantes sobre o assunto.
  • Como o Tempo Passa

    A praça do bairro mudou
    O jardim não é o mesmo
    As flores não tem mais cor
    Os pássaros vivem ao relento

    Como o tempo passa

    Mudou tudo até mesmo a escola
    São poucas as lembranças
    Agora as ruas tem calçadas
    E diferentes crianças

    Como o tempo passa

    O velhinho do pão nos deixou
    As fofocas sem a zeze não são as mesmas
    Tudo é tão comum para quem chegou
    Mas quem retornou vê toda diferença

    Como o tempo passa

    Parece que foi ontem que me mudei
    Que tive medo de estar perto das pessoas
    Na verdade foram as melhores que encontrei
    Vivemos tanta coisa boa

    Como o tempo passa

    Daqui da janela volto no tempo
    Tantas histórias, tanta vida
    Cabelos brancos ao me olhar no espelho
    Me sinto a vovó Bia

    Como o tempo passa

    É ele passa! Passa tão rápido quem nem notamos.
    Quando percebemos já estamos revivendo um passado distante
    As coisas boas sempre vá aproveitando e guardando
    Pois a vida é feita de escolhas e para viver só temos uma chance!
  • CONTAR

     
    Não sei cantar os teus encantos
    no verso simples que faço:
    eles são muitos, tantos e tantos
    que só cabem mesmo é nos meus braços...


    .................

    © do Autor, IN: Concursos literários do Piauí. Teresina, 2005, Fundação Cultural do Piauí. 226 p. Página 182.



  • Contos Griot: Os nossos Primeiros Pais e as Nossas Primeiras Mães

    Ali, sentado numa grande pedra com o seu M’bolumbumba na mão direita, segurando como se fosse um cajado. E seu cachimbo na mão esquerda, levando-o sempre à boca, em que dava várias pitadas. Estava o preto velho em plena paz de espírito. E todos que o fitavam podiam sentir essa paz. Seu rosto negro reluzia de serenidade iluminado pelos raios solares. E seus olhos, brancos como as nuvens do céu, transmitiam uma profunda força como o próprio sol em seu esplendor. Então, todos os k’ilombolas com as suas crianças se sentavam ao redor da grande pedra onde o ancião se encontrava, para beber das águas de sabedoria que proviam de suas palavras. E como era doce e confortante a voz que saía de sua boca. Assim, as crianças corriam, e eram as primeiras a se sentarem aos seus pés. E os jovens e os adultos iam cada qual se sentando e acomodando-se por detrás das criancinhas.
    O velho griot ancião, ao ver o povo sentado ao seu redor, pegava o seu M’bolumbumba, levava à barriga e começava a tocar. E o som do seu instrumento ecoava pela floresta e na cabeça de cada pessoa que se encontrava ali presente. Todos se maravilhavam com o toque daquele instrumento e a beleza de sua música. Criando, assim, um clima de magia e nostalgia a todos que ouviam. E o velho Djeli contava uma história cantada. E todos ficavam em grande silêncio e prestavam muita atenção a cada som que emanava da sua boca. E dessa maneira contava o preto velho griot Djeli:
    — No tempo dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães, toda vida na nossa amada Ama Terra estava iluminada e devidamente equilibrada e unificada. E toda humanidade era um só povo. Uma só raça. Uma só cor. Uma só nação. Um só pensamento. Um só sentimento. Uma só expressão. Uma só língua. Um só amor. E havia uma só terra que formava um único e grande continente. E nessa terra havia um único e só rei, Kee’Musoo: “Aquele que Criou o Todo e o Tudo”…
    Nesse tempo, Kee’Musoo. A grande e maravilhosa Essência que habita em todos e em tudo. O grande Criador de todo o universo e de toda a natureza, onde toda a vida caminha, vive e respira. O Maravilhoso dos maravilhosos. O mais Belo dos belos que dá cor, cheiro e embeleza toda a vida. Aquele que é Rei dos reis e o Senhor dos senhores, e o maior Amor de todos os amores. Aquele que é a Fonte. Aquele que é Raiz. Aquele Luminoso que é a matriz da luz, do cheiro, do som e de todo o sentir, da visão, da inteligência e de todo o entendimento. Essa magna Energia Vivificante que movimenta, sustenta e faz existir todas as coisas pela sua imensa sabedoria. Sempre habitava e sempre imperava nas cabeças e nos corações dos homens e das mulheres…
    Sendo Kee’Musoo o maravilhoso e Amado Esposo para as mulheres e a bondosa e Amada Esposa para os homens. E, assim, os homens e as mulheres viviam em eterna comunhão de amor com o seu Criador…
    Kee’Musoo, “Aquele que Criou o Todo e o Tudo”, era ação, e não palavras. Era harmonia, e não esforço. Era caridade, e não sacrifícios. Era a fonte da fé e de todo amor dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães…
    “Aquele que Criou o Todo e o Tudo” nunca os corrigia. Pois a venda da ignorância do orgulho e de todo egoísmo humano ainda não existia nos olhos dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães. Dessa forma, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães tornavam a luz “Daquele que Criou o Todo e o Tudo” útil. Dentro, entre e fora dos seus corpos. Emanavam apenas sentimentos bons, positivos e amorosos. Fazendo-se um só com “Aquele que Criou o Todo e o Tudo”. E caminhavam como reis e rainhas em meio a todas as outras criaturas, em todas as formas, em toda existência individual, como em toda a comunidade e em toda Luz…
    Não procuravam compreender o porquê de todas as coisas: Quem eram? O que eram? De onde vieram? E todas essas perguntas que sufocam a nossa consciência. E nem pensavam em questionar ou ir contra as leis naturais e universais de toda a vida. Apenas viviam o que eram…
    A mais perfeita de todas as criações “Daquele que Criou o Todo e o Tudo”…
    Os corações dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães pulsavam em ressonância com o coração da Vida Infinita, através dos rufares dos seus tambores. Nos seus rituais sagrados, os seus espíritos eram arrebatados pela canção das estrelas, que os faziam dançarem em círculo por toda a noite, ao redor de uma grande fogueira, com labaredas ardentes azuladas, amareladas e avermelhadas. Dançavam imitando os movimentos dos astros ao redor do fogo, que representava o sol. Dançavam imitando as nuvens que caminhavam ofuscando o brilho da lua e dos outros inúmeros corpos celestiais que animavam e iluminavam o escuro do céu…
    Em seus rituais sagrados celebravam a magia da vida conservando a Criança Interior, dançando em volta da Fogueira da Alegria. Fazendo a Magia do Sorriso florescer em seus corações…
    Dentro dos seus peitos as vozes de todo o universo e toda a natureza faziam a Magia da Canção acontecer. E dessa forma o povo alado do imenso céu ensinava-lhes a arte de ver o que hoje é oculto aos nossos olhos de carne…
    Através dos seus trabalhos ritualísticos e das suas manifestações culturais circulares, a Magia do Amor se manifestava nos seus corpos. Por terem a humildade de fincar os seus pés descalços no chão e olhar para as alturas e para as bordas do horizonte infinito, obtendo a dignidade de compreender que emanação “Daquele que Criou o Todo e o Tudo”, eles e elas eram…
    Para os nossos Primeiros Pais e para as nossas Primeiras Mães, o Amor era o solo fértil onde cresciam todas as suas ações. A alma da nossa amada Ama Terra, iluminada pelo nosso amado Padrasto Sol e pela nossa amada Madrasta Lua pulsava em seus corpos, sentindo a sabedoria do Sagrado e Eterno Contínuo que existe em todos e em tudo. Dessa maneira, a superficialidade das aparências que existe no mundo hoje não os iludia. Não impedindo em seus crescimentos como manifestações da mais pura e perfeita perfeição…
    Ouviam a Canção da Criação que se renova de tempos em tempos. E que pelo movimento perfeito da sua dança a tudo faz crescer e embeleza…
    Nesse tempo em que a nossa amada Ama Terra era unida, formando uma grande e elevada montanha plana, no meio de um grande e único oceano de águas reluzentes, que estava envolto e contido por imensos paredões de gelos, como se o nosso mundo fosse o olho único de um gigante ciclope universal, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães conheciam que “Aquele que Criou o Todo e o Tudo” dançava em todas as coisas, e falava através de todo movimento que se podia ver, ouvir, cheirar, sentir e perceber. Pois os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães podiam ver, ouvir, cheirar e sentir com o coração. Pelo coração entendiam o Movimento Sagrado que impulsiona a circulação de todas as coisas…
    Conheciam Aquele que Criou o Todo e o Tudo nos seus próprios corpos e nas três manifestações primárias da vida, que pela verdade entendiam ser uma só. O ÚNICO CRIADOR, TODA A CRIAÇÃO E AS VARIADAS CRIATURAS. Que de geração em geração se manifestava em nossa natureza como: Pai “CRIADOR”, mãe “CRIAÇÃO” e filhos “CRIATURAS”. E, assim, reconheciam a maravilhosa presença e vida “Daquele que Criou o Todo e o Tudo” neles mesmos, nelas mesmas e nos seus filhos…
    Os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam a vida em toda sua totalidade. Tinham o entendimento oculto de reconhecer que vivíamos em um corpo. Sabiam que esse corpo era a nossa primeira casa. E que essa casa deveria ser tratada como um Templo Sagrado de Pureza Sublime da Morada da Alma e Manifestação da Vida. E que éramos, entretanto, seres bipartidos e, por consequência, seres sexualizados. Assim, compreendiam o conhecimento oculto que há por detrás de nossa sexualidade, servindo como um veículo para honrar e respeitar a vida de todos os seres, através da união sexual dos corpos bipartidos. Fazendo do “Dois (2) Um (1), e do Um (1) Três (3)” na chegada dos novos seres. Aí está o segredo do Sagrado e Eterno Contínuo de Toda Criação, manifestado nas formações das criaturas…
    Isso particularmente eu chamo de O PODER DAS PIRÂMIDES.
    Pois, naquele tempo, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães louvavam a Grande e Perfeita Criação. Provinda da união amorosa do Grande e Majestoso Universo Magnífico “Kee, O Esposo”, com a Grande e Majestosa Natureza Maravilhosa “Musoo, A Esposa”, representados nos seus corpos como o MACHO e a FÊMEA…
    Este era o momento mais sagrado para os nossos Primeiros Pais e para as nossas Primeiras Mães. Pois compreendiam perfeitamente que, pela união dessas manifestações, manifestava-se O NOVO. Assim, o ato sexual era o que havia de mais sagrado, e só podia ser vivenciado num imenso ritual de amor e dança sob a luz da lua nova. E unicamente se aprofundavam nesse prazer só para gerar uma nova existência. Nesse momento, eles e elas compreendiam o poder em que o Dois (2) se faz Um (1). Pelo nascimento de uma nova vida no mundo, provinda pela união dos seus corpos…
    Assim, pela manifestação e popularização da vida, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães entendiam que vivíamos em um mundo de relacionamentos, contatos e sentimentos com nossos semelhantes e outras criaturas animadas e inanimadas. E éramos, entretanto, seres sociais. E que cada contato nos oferta presentes e surpresas, e cada relacionamento nos oferece inúmeras alegrias, desafios e oportunidades de seguirmos AS VIAS DO CONHECIMENTO. Dando e recebendo de bom grado. Aprendendo e depois ensinando. Sabendo respeitar o momento em que todas as coisas se encaixam. E de que tudo tem o seu tempo, lugar, coração e inteligência certa…
    Os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam que todos nós participamos direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente das estruturas que nos governam, e de que somos seres poderosos e politizados em virtude dessa participação. Sabiam, dessa forma, que nossa vida sempre permite contribuir para a criação de estatutos, leis e estruturas que respeitem a dignidade e o espírito de todos os seres…
    A ninguém adulavam, bajulavam ou prestavam homenagens, nem davam poder aos homens e às mulheres que hoje julgamos ser grandes e poderosos. Nem ninguém classificava ou distinguia os homens e as mulheres por suas notáveis habilidades, cargos, posições hierárquicas ou acúmulos de posses. Pois todos observavam os dons e os talentos em si e no outro. Sabendo que cada existência individualizada é única. Trazendo em si mesma sua sabedoria individual, pelo seu pessoal ponto de vista do universo e da natureza, que contém um mistério envolto em um segredo oculto que só esse ser individualizado pode conceber…
    E, por isso, seus trabalhos se baseavam em aprimorar as suas faculdades inatas, como Portadores da Luz em diversas faces, em adoração e obediência ao Criador de Todas as Coisas Existentes. Sendo cada homem e cada mulher ponte para o outro homem e para a outra mulher na diversidade dos seus dotes, talentos e conhecimentos. Formando uma natural cadeia comunitária de autoajuda, suficiência e sustentabilidade solidária…
    Os sacerdotes e governantes eram como as grandes montanhas e vulcões. E o povo era como as grandes árvores, e os outros seres como as pequenas plantas e arbustos em meio a uma imensa biodiversidade florestal. Dando sua sombra, água dos páramos, adubos, alimentos e proteção, para suprir as necessidades do ciclo de toda vida da natureza, em troca e comunhão contínua…
    Todos eram honestos, bondosos, fiéis e justos sem se darem conta de que estavam sendo o que verdadeiramente deviam ser. Naturalmente amavam-se uns aos outros. Mas não se classificavam bons, ou se qualificavam generosos, ou compreendiam e valorizavam por meio de doutrinas e dogmas o significado do amor ao semelhante e ao seu próximo…
    A ninguém enganavam, usurpavam ou tiravam proveitos de nenhuma situação adversa, tiranicamente em intrigas e mentiras. Mas nenhum deles sabia o que era ser sincero e o que era ser honesto…
    Eram fiéis ao seu rei, à natureza e ao universo, ao equilíbrio, ao seu Deus: “O AMADO e A AMADA”. Quem chamavam de: “PAI-MÃE DE TODA CRIAÇÃO”, “GRANDE E PODEROSO ESPÍRITO”, ou simplesmente “AQUELE QUE CRIOU O TODO E O TUDO”. Mas desconheciam ser esse entendimento a verdadeira fé e verdade…
    Viviam todos juntos em plena liberdade, dando e recebendo em comunhão contínua. Mas não sabiam o que era gentileza, o que era generosidade e o que era liberdade…
    Assim, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam e entendiam essas simples, porém grandes, coisas. Respeitavam a Natureza como sua mãe, o Universo como seu pai e todas as Coisas Vivas como irmãos…
    Cuidando deles, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães sabiam que estavam cuidando de si mesmos…
    Dando a eles, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam que estavam dando a si mesmos…
    Ficando em paz com eles, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães sentiam em seus corações que estavam sempre em paz consigo mesmos…
    Aceitavam a responsabilidade pela energia que ambos manifestavam. Tanto na sua atividade como um integrante das suas comunidades sociais, quanto no Reino Sutil de se conhecerem como parte integrante do Reino Animal. E, quando os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães estavam admirando uma bela flor, pela prática da observação, eles e elas não viam apenas um acontecimento isolado. Mas raízes, folhas, galhos, caule, água, solo, minúsculos seres da terra, vento e sol, estrelas, lua e o todo do cosmos. Cada um deles se relacionando com os demais, e as pétalas aflorando dessa bela relação…
    E, olhando para Si mesmos ou para as outras pessoas, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães podiam ver a mesma coisa. Grandes árvores e pequenos insetos. Complexos seres humanos e a simplicidade da beleza das flores. Pássaros voando no firmamento e animais rastejando no solo. Sol escaldante e lua deslumbrante. Astros luminosos, planetas errantes, estrelas cintilantes, águas correntes e um minúsculo grão de areia parado no chão. E em sua superioridade como imagem e semelhança da Fonte Criadora, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam e entendiam que suas próprias energias tinham parte nisso…
    Em seus pensamentos não havia a separação das coisas, e nem havia as variadas fragmentações do saber de cada coisa. Tudo e todos eram um só em toda sua biodiversidade, manifestando uma grande espiral de personificações, em um único perfeito movimento contínuo do existir…
    Não contavam as horas do dia, nem contavam os dias, nem tampouco os meses e os anos. Apenas viviam de acordo com os ciclos da Majestosa Natureza Maravilhosa, em plena comunhão com o Magnífico Universo Absoluto…
    Naquele tempo os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães não dividiam o dia como hoje fazemos. Não havia manhãs, tardes ou noites. Mas percebiam o movimento do dia como o ciclo da vida de todas as coisas existentes. Início, trajetória e fim. Luz e trevas, trevas e luz. E no movimento do dia percebiam a dança de todas as coisas existentes em evolução contínua, e em diversas situações de ganho e perda, vida e morte. E nas mudanças das estações podiam compreender a totalidade dos ciclos de suas vidas…
    Primavera, verão, outono e inverno…
    Nascimento, juventude, maturidade e velhice…
    O início e o fim, o fim e o início…
    Não possuíam a linguagem escrita. Não por ignorância ou por serem julgados como povos primitivos. Mas porque em seus pensamentos não existia o esquecimento do Saber do Sagrado e Eterno Contínuo, que manifestava na nossa amada Ama Terra o Entendimento Ancestral. Pois, de geração em geração, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães guardavam as palavras dos antepassados dentro deles e dentro delas, desde muito tempo. E continuavam a passar para os seus descendentes, AS CRIANÇAS. As quais nossos Primeiros Pais e nossas Primeiras Mães compreendiam que seriam os herdeiros da vida e guardiães do mundo, manifestando O NOVO…
    Em suas linguagens não existiam palavras que denominassem toda e qualquer forma egocentrista. Não existia eu… seu… ou meu… só havia NOSSO. E não existia nenhuma palavra ou expressão que justificasse falsidades, infelicidades, discórdias, avarezas ou mentiras. E assim os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães valorizavam as suas palavras como o Alimento Sagrado da Alma. E através de suas palavras de puro e pleno poder transmitiam a visão e conhecimento do não tempo, das estrelas e dos astros, das coisas, dos animais, das plantas, de todo o Universo e de toda a Natureza, do SER e do Espírito a cada um…
    Assim, o Saber Ancestral do Sagrado e Eterno Contínuo nunca morria, e os pais de seus pais e as mães de suas mães sempre se faziam eternamente vivos em seus corpos por indefinidas gerações. Pois sabiam que o novo é a continuação do velho. E, assim, velho e novo não existiam. Era o fim e o começo do ciclo da roda girante do Sagrado e Eterno Contínuo…
    Hoje, com a quebra do Sagrado e Eterno Contínuo, e por desvalorizarem as histórias e banalizarem as palavras de sabedoria dos templários antepassados ancestrais, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães morreram nos novos corpos. E o Saber Ancestral, que transmitia o princípio educacional das maravilhas deste mundo, pela ignorância se extinguiu. Por esses motivos, seus feitos por muito tempo até os dias de hoje nunca foram narrados. E, como consequência, o esquecimento do Sagrado e Eterno Contínuo se tornou o conhecimento dos povos. E a sede do Espírito se tornou a decadência dos novos…
    E os novos seres de hoje seguirão tentando inutilmente inventar mais cores, mais sabores, mais odores, mais luzes, mais deuses, mais líderes e gurus, mais ídolos, mais verdades, mais religiões e mais ciências. E inúmeros mais objetos e mais utensílios, sendo que caminharão e cambalearão de lugar em lugar procurando inutilmente o que é de mais sagrado para tentarem matar essa sede insaciável do espírito. Que nos torna cada vez mais ignorantes e distantes da vida, da natureza e do universo, da verdade, do saber e do “Criador de Todas as Coisas Existentes”…
    E o Saber Ancestral do Sagrado e Eterno Contínuo, que transmitia o princípio educacional das maravilhas deste mundo, se extinguiu. E dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães…
    Fez-se uma breve pausa. E o ancião Djeli com os olhos mergulhados no vasto horizonte verde. Onde as inúmeras palmeiras de guarirobas bailavam ao movimento suave e dançante dos ventos marítimos. Exclamou com um tom forte e firme de voz, balançando a cabeça para um lado e para o outro:
    — Não nos restaram mais lembranças!
    (Trecho do livro: O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA — A incrível saga do Quilombo dos Palmares no Novo Mundo, Jp Santsil, CHIADO BOOKS, 2019)

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