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literatura contemporânea

  • A Última Viagem

    Rapidamente atravessei o porto de Londres,estava deveras atrasado para uma VIAGEM ,que seria,a mais esperada por mim até então.A data era 19 de maio de 18...,e meu amigo,o capitão John Franklin,estava para partir com seu gigantesco navio cargueiro EREBUS,nosso destino era o Ártico Canadense,a bordo 84 oficiais e 40 homens de expedição, Seu objetivo era navegar através das águas traiçoeiras que separavam os oceanos Atlântico e Pacífico. Liderada por  John Franklin, a embarcação tinha como missão  coletar amostras e realizar estudos científicos ao longo do caminho.
    Como havia recebido o convite do amigo John,integrei-me a expedição para registrar por escrito as aventuras nos mares gelados pelo qual tencionávamos passar. Homens com vidas espartanas,frugais pesquisadores,mesmo que apenas para permitir a realização de seus ideais.
    Tratei imediatamente de acomodar-me em uma pequena cabine, havia outras de tamanho e acomodações mais agradáveis,mas aquela tinha algo de especial para mim,ela ficava ao lado da ponte de comando,o que me era muito favorável visto que tinha que estar atento a todos os detalhes daquela magnífica aventura que se aproximava a cada minuto.
    Por fim partimos lentamente,e por longos dias e noites fiquei em minha cabine tentando entender aquela pilha de cartas náuticas que fora colocada em minha mesa,e degustando  uma garrafa do mais puro malte,que foi gentilmente destinada a mim pelo capitão.Somente em uma determinada noite,quando ao olhar pela escotilha do navio,percebi na penumbra da noite que já havia envolvido a embarcação algo de diferente.
    Saí de cabine e caminhei vagarosamente até a borda do tombadilho, quando vi uma singularíssima nuvem isolada no lado noroeste do céu. Distinguia-se não só pela sua cor ,como se fosse um gigantesco véu,como por ser a primeira que tínhamos visto desde a partida do Porto de Londres. .Mesmo mergulhados em uma escuridão profunda da noite,aquela nuvem se aproximava rapidamente,poderia dizer sem dúvida que se tratava de um forte nevoeiro,o que confesso,me deixou um tanto quanto temeroso.
    A nuvem aproximou-se com uma velocidade espantosa e em meio ao gélido nevoeiro que já começava a penetrar a polpa do navio,pude ouvir a capitão John perguntar ao imediato;
    - Em que ponto do pacifico estamos?
    E a resposta foi imediata
    :-Estamos contornado as Ilhas do Rei Wilham ,Senhor.
    Foi então que houve um silêncio mortal, que durou por quase um minuto, durante o qual a queda de uma folha ou o flutuar de uma pena poderiam ser escutados,porque os motores estavam paralisados,e a densa nuvem engoliu o majestoso cargueiro,sem que pudéssemos visualizar a um metro de nosso olhos.
    Não sei bem por que motivo,mas imediatamente me veio a mente a casa onde morava e a imagem de minha já falecida esposa. Da minha cidade e da minha família tenho pouco que dizer. Os meus péssimos costumes e o decorrer dos anos tornaram-me estranho a ambas. Graças ao meu insignificante patrimônio, nunca tive o benefício de uma educação mais aprimorada, mas a inclinação do meu espírito para a contemplação deu-me possibilidades de classificar metodicamente todo esse material instrutivo acumulado pelo estudo mais apurado da leitura.
    As obras dos filósofos ingleses, sobretudo, causaram-me infinitas delícias,não por admiração pela sua eloqüente narrativa, mas pelo prazer que, por virtude dos meus hábitos de rigorosa análise, sentia surpreendente os seus meios de tornar o irreal quase realidade.
    Criticaram-me muitas vezes pelo gênio forte e a falta de Paciência com os cínicos.O Senso crítico  das minhas opiniões tornou-me célebre,ou indesejado,não sei  ao certo.Talvez por estes motivos,tivera eu ,recebido de John o convite para a viagem.Meu bom amigo quisera talvez,afastar-me,mesmo por curto tempo,dos vícios e das maledicências da sociedade londrina.
    A nuvem aos poucos foi tornando-se menos densa,e aos poucos foi possível visualizar a proa do navio quase por completo,e minha reação foi a mais apavorante que se possa imaginar,encontrava-me sozinho envolto naquela  névoa que tirava-me o fôlego.Agarrado as bordas do tombadilho vaguei cambaleante,estonteado que estava pela imersão naquela fumaça diabólica,tentei sem sucesso encontrar alguém da tripulação,ou alguém do grupo de pesquisa.O cargueiro EREBUS estava completamente abandonado nas águas gélidas do Canadá.
    O medo e o pavor tomou conta de meus sentidos,desesperadamente dirigi-me a porta do depósito principal,na parte inferior do navio,lá havia caixas com bebidas,todas  haviam caído e espantosamente  as garrafas estavam a rolar pelo chão com balanço da embarcação.Já pensava em esconder-me até entender o que de tão inacreditável  havia acontecido,quando um som cortou a tenebrosa neblina e chegou aos meus ouvidos,pareceu-me uma voz , alguém chamando ou pedindo socorro,então corri,ou tentei correr,em direção aquela voz,que poderia ser de algum tripulante,que como eu,deveria estar tomado pelo mais terrível pavor.Enquanto me aproximava mais e mais da proa do fantasmagórico navio,o som chegava com mais clareza,e um sentimento aterrador dominou-me quando,gelando até o fundo de minha alma,já na parte superior do cargueiro,em meio aquela infernal neblina,alguém chamava por mim.
    Meu nome era ouvido em todas as direções,acompanhado com o som de lamentações,um lamento com uma voz  feminina e por demais aterrorizante,lembrando-me imediatamente minha esposa,em seus momentos finais de vida, vindo sei lá de onde,perecia-me  sair dos cantos mais profundos do inferno,e ressoava entre a escuridão e neblina,numa combinação diabólica.   
    Seria aquele momento o meu juízo final,aqueles tripulantes que não vejo  mais estariam todos salvos,e somente eu fiquei para vagar pela eternidade neste mar de lamentações e penúrias.Caindo de joelhos no convés da embarcação,com a cabeça entre as mãos,desejei nunca ter estado ali,pois não sei qual destino,Deus ou o Diabo traçaram para mim.
  • A união do complexo medo atraente

    Penetrara no karma atual da moderna sociedade virtual em que nasceu, cresceu e ainda vive, mergulhado numa atmosfera de medos e complexos que lhe foi imposto por uma sociedade de valores hipócritas e sentimentos ilusórios. Essa triste “realidade” que até então vivenciava, teve sua extrema abrangência com o poder que lhe foi outorgado através da internet e seus recursos digitais. Passara em muito pouco tempo de um simples telespectador para um aspirante astro internauta autodidata.

    Através da internet e suas redes sociais, como um cyberpunk moderno, percebeu que a espada encantada cravada na grande pedra, não pertencia somente ao lendário e valente Rei Arthur e seus cavaleiros da távola-redonda, como era antes o caso monopolista da grande mídia. Agora sabia que também ele obtivera o direito de possuir sua própria espada mágica, e, foi encantado e possuído por ela.

    No início não podia prever as consequências de tal poder. Tudo era maravilhosamente maravilhoso. Estava perplexo diante dos inúmeros portais mágicos que lhe fora aberto por esses dispositivos radiativamente encantados, onde tudo começou com o poder telepático de enviar e receber nossos pensamentos, desejos e sentimentos nos virtualizando em palavras, falas e imagens. Abrangendo nossas perspectivas limitadas, além dos nossos vínculos sociais mais próximos, alcançando o desconhecido em milésimos de segundos, entre os milhares quilômetros de distâncias. Até o Mago Merlim se aqui entre nós, nesse momento, estivesse, ficaria impressionado com tamanho poder e proeza outorgado a todos.

    Porém, a espada de Arthur continha dois gumes e cortava dos dois lados.

    Percebeu-se ainda, que, não tarde, o poder que lhe foi ofertado pelos deuses tecnológicos exigia de nós sabedoria para possuí-lo. Essa poderosa espada mágica Kaledvouc’h como se outrora pensava, estava inacessível ao grande público há tanto tempo, encrustada na grande pedra, pelo nobre motivo daquele a quem seria o seu possuidor, ter que passar por ensinamentos de vida rigorosos, pelo qual o seu espírito e o seu coração fossem meticulosamente testados. Só assim, teriam a primazia de obter a força dos deuses para puxar a espada da grande pedra. Essa sagrada espada é raramente denominada “Excalibur”, e é retirada por Arthur como símbolo milagroso de sua Nobreza e direito ao trono da Bretanha.

    Entretanto, agora se questionara: Será que todos possui esse direito e nobreza do Rei Arthur?

    Fomos preparados e disciplinados para empunhar tamanho poder?

    Virtualmente, se deparou com os muitos casos de jovens que por uma simples brincadeira nas redes sociais, acabaram causando dor e destruição a si mesmos e aos outros. Como foi o caso da menina russa de 17 anos que morava nos Estados Unidos, que filmou um ato de estrupo em um aplicativo de postagens de vídeos, com duração de nove minutos, só para obter likes. Intentara que naquele momento durante a filmagem, a jovem poderia usar o seu dispositivo para pedir ajuda ligando para polícia, ou um adulto responsável, também notara, que as pessoas que estavam assistindo o vídeo online, em vez de dar likes, poderiam aconselhá-la para impedir aquele ato brutal. Que alcançou milhares de visualizações.

    Daí, meditara, que o poder sem a responsabilidade é cegamente egoísta e brutal.

    Entretanto, dualisticamente, não esquecia ele, que Excalibur é uma espada pontuda afiada de dois gumes que corta, penetra e dilacera. Podendo afastar as pessoas, ou uni-las. Mas, nesse bidimensional mundo de algoritmos binários computacional e ilusório, afirmava ele somente conhecer causas e efeitos mecânicos, e nunca as Sagradas Leis Naturais em si mesmas. Por isso, que ao unir as pessoas, afastava a solidariedade entre elas, em que camuflado e protegido em sua privacidade, por detrás das telas negras caleidoscópicas brilhantes, o indivíduo se julgava ir além do respeito e dos sentimentos fraternos, soltando sua naja língua pensante, em seus rápidos dígitos dedos, envenenada nos seus mais mesquinhos sentimentos obscuros de inveja, cacoetes, ego e porcas maldades. Que no mundo fenomenal das aparências, só percebia bidimensionalmente ângulos e superfícies, e nunca o integral das coisas.

    Obviamente, ele sabia que a dialética da consciência da proximidade física dos corpos pensantes, que tudo entende por intuição, através das palavras audíveis, figuras simbólicas, gestos, movimentos, olhares e expressões voluntárias e involuntárias fora cruelmente ofuscada pela dialética racional do intelecto presente nas redes sócias, fóruns e plataformas proprietárias de mensagens instantâneas baseadas em nuvem, que nada tem de essência natural humana, e sim, apenas o ilusórico poder formulativo de ideias e conceitos lógicos preconcebidos, que por mais brilhante que seja, e por mais que se julgue de qualidade e de utilidade nos inúmeros aspectos da vida prática e cotidiana, nada tem de valor para existência e ecologia humana, resultando apenas em obstáculos subjetivos, incoerentes, torpes e pesados para nossa simbiose como seres fraternais coletivos, e que nada tem de verdade.

    No fim, diante da verdade, percebeu-se sendo o pobre poderoso, precisando de alento (likes, em legais polegares opositores), precisando de algo que o anime (coraçãozinhos vermelhos, e rostos redondos sorridentes amarelados), sentiu-se com o ego demasiadamente forte e personalidade terrivelmente débil, por sua própria mesquinha natureza apodrecida em si mesmo, encontrando-se numa situação completamente desastrosa, e sem vantagens, em que o sono lhe foi roubado, a ansiedade descontrolava as batidas do seu coração, e a vaidade tomara o controle de sua alma, tendo a depressão como amante e companheira.

    E no seu estado deprimente, porém, contemplativo, sabia ele que nos primórdios da nossa existência como uma das muitas espécies que habita esse ecossistema terráqueo, éramos simplesmente um ser coabitando e interagindo com os outros inúmeros seres aqui existentes. Não víamos a natureza como esse belo quadro pintado a óleo ou aquarela, ou como as ‘pixeladas’ imagens digitais no fundo dos nossos desktops eletrônicos e dispositivos móveis. Não ansiávamos pela chegada do tempo limitado do fim de semana para passear com a família nos bosques e pradarias, e nem tão pouco esperávamos a chegada das férias para curtir os muitos lugares paradisíacos, ou nos aventurar em trilhas, escaladas e caminhadas nos ditos ambientes naturais e ecológicos. Essa coisa alheia que hoje denominamos “NATUREZA” era intimamente o único e o primeiro mundo vital e cultural que existíamos. Nossos antepassados não só viviam em contato íntimo com as outras criaturas vegetais, animais e inanimadas, como se comunicavam diretamente com os seus espíritos e coração. Daí que surgem as fabulosas histórias e contos de fadas, gnomos, duendes, devas, ninfas, curupiras, orixás, anjos, caboclos, entre outras inúmeras manifestações do que hoje classificamos como “espíritos inorgânicos da natureza” em diversas culturas humanas espalhadas pelo mundo.

    Por isso, ficou muito difícil para o seu entendimento humano separar a sua espiritualidade, cura e boa qualidade de vida da Mãe Natureza. E, entendeu o porquê dos diversos movimentos esotéricos, xamanísticos, taoístas, hinduístas, budistas, cabalistas, sufistas, gnósticos, wicca, candomblé, entre outros da busca da espiritualidade, como também os movimentos de cura, saúde mental, e medicina ancestral e alternativa se situarem em ambientes naturais abertos e ecológicos.

    Nisso, percebeu que ao longo do nosso rigoroso processo civilizatório, em que gradualmente nos separamos do nosso natural habitar, que o SAGRADO em nós foi naturalmente esquecido. Deixamos de ouvir as MENSAGENS DOS VENTOS, paramos de falar a LÍNGUA DAS ÁRVORES E MONTANHAS, abandonamos o afeto de SENTIR COM O CORAÇÃO, e os nossos olhos se cegaram para o MUNDO INVISÍVEL. E, para piorar mais ainda a sua situação, vira que como espécie se transformara no pior predador que já existiu em todos os tempos, ‘Satânico Aniquilador’ das muitas culturas existenciais em todos os aspectos da natureza, e, dele mesmo.

    Meditara ainda mais profundamente de que como espécie, nos tornamos existências humanas desencantadas, prisioneiras de nós mesmos em frente a uma tela Touch Screen de valores, e, de falsas concepções virtuais, mendigando uma irreal atenção em salva de palmas, likes e emotions de coraçãozinhos vermelhos, rostos redondos amarelados (caras de bolachas) e legais polegares opositores. Vira que as proximidades humanas se basearam em distantes conexões WI-FI, em que ignoramos cruelmente os nossos presentes íntimos entes queridos a nossa volta, em ser um direto participante na criação do Aqui e Agora, para nos tornar um observador e um observado distante do passado alienado dos desejos, anseios, críticas e felicidades do desconhecido “amigo” internauta. Preferimos viver solitários com políticas de privacidade essa virtual ruptura do contato natural, nos separando plenamente do sentido existencial da vivência humana, e minimizando a nossa consciência social, afetiva e emocional ao estado simplista do observador e do observado, e de que a tecnologia não promove e nunca promoverá, assim, como, as propostas da comunidade científica, uma fusão harmoniosa com a existência humana e a natureza. Sua meta desde a revolução industrial é unicamente modificar. Acreditando melhorar, otimizar, maximizar, implantar, oportunizar e assegurar um conceito evolucionário de humanidade ciberneticamente supranatural, onde poderíamos viver sem depender dos recursos naturais e afetos sociais para nossa existência. Para assim, em vez de (como eles acreditam) subsistirmos, ‘sobre-existirmos’ na lua, em Marte, ou em uma cosmológica galáxia distante como prega e aliena a NASA e Hollywood.

    Sentira que perdera a simplicidade da vida e o seu primeiro amor, e se tornara um ser imediatista, arrogante, conformista, impaciente, tempestuoso, depressivo e penoso. Ignorava suas crianças, e assim, fazia com que elas o ignorasse, transformando-as no subproduto mesquinho dele mesmo. Nisso, vira que ignoramos os nossos semelhantes como nunca antes já vivenciado no mundo, em todos os tempos de nossa comunal existência, ofertando para os nossos irmãos e irmãs o que tem de pior em nós mesmo. E, dessa forma e maneira, acumulamos dores e sofrimentos para o nosso último sopro de vida, e assim, morremos existencialmente porque matamos nossa essência dentro dos nossos filhos e filhas, chegando a tal ponto de não mais nos perpetuarmos nos novos corpos.

    Percebera que a verdadeira expressão para o mundo tecnológico de hoje é ABSOLUTA TRISTEZA. E isso dói na alma… adoecemos! E o pior é de que não sabemos que estamos existindo enfermos. Acumulamos muitos bens do Aqui e pouca coisa do Agora, e a Magia da Alegria abandonou a Morada do Coração, e o Sagrado Entendimento que em tudo dança se ocultou. Então, eis a questão e desafio existencial da nossa cultura humana: ATÉ QUANDO FICAREMOS CALADOS E INERTES, TRANSMITINDO PARA AS GERAÇÕES FUTURAS ESSA GRANDE DEPRESSÃO EXISTENCIAL, PELO QUAL NOS CONVERTEMOS NO TIRANO PROBLEMÁTICO DESTRUIDOR DA BELEZA DE TODAS AS COISAS? Entretanto, quem se movimentará e falará com loucura e paixão para o despertar da grande massa? Quem será esse novo Meshiach e Avatar? Mas, enquanto ELE ou ELA não chegar ficaremos inertes, atrofiando nossa mente e coração nas telas e internet? Imbuído nessas íntimas e totalitárias questões, analisara que os desafios para o retorno do SAGRADO em nossas vidas são tremendamente numerosos.

    E, contemplando todo aquele panorama, se viu com sua poderosa espada na palma de sua mão, a mágica Kaledvouc’h, o espelho negro. E como um pedaço de madeira arrastado pelo rio, tentando resolver as coisas por sua própria conta, reagindo ante qualquer dura palavra, qualquer problema e qualquer dificuldade, lamentavelmente, o medo empoderou o seu ser, fabricando nos cinco cilindros da máquina orgânica, em que lhe compunha e que o seu SER habitara, os inumeráveis multifacetados eus-demônios, aplicativos escravos de si mesmo.

  • A união do complexo medo atraente

    Penetrara no karma atual da moderna sociedade virtual em que nasceu, cresceu e ainda vive, mergulhado numa atmosfera de medos e complexos que lhe foi imposto por uma sociedade de valores hipócritas e sentimentos ilusórios. Essa triste “realidade” que até então vivenciava, teve sua extrema abrangência com o poder que lhe foi outorgado através da internet e seus recursos digitais. Passara em muito pouco tempo de um simples telespectador para um aspirante astro internauta autodidata.

    Através da internet e suas redes sociais, como um cyberpunk moderno, percebeu que a espada encantada cravada na grande pedra, não pertencia somente ao lendário e valente Rei Arthur e seus cavaleiros da távola-redonda, como era antes o caso monopolista da grande mídia. Agora sabia que também ele obtivera o direito de possuir sua própria espada mágica, e, foi encantado e possuído por ela.

    No início não podia prever as consequências de tal poder. Tudo era maravilhosamente maravilhoso. Estava perplexo diante dos inúmeros portais mágicos que lhe fora aberto por esses dispositivos radiativamente encantados, onde tudo começou com o poder telepático de enviar e receber nossos pensamentos, desejos e sentimentos nos virtualizando em palavras, falas e imagens. Abrangendo nossas perspectivas limitadas, além dos nossos vínculos sociais mais próximos, alcançando o desconhecido em milésimos de segundos, entre os milhares quilômetros de distâncias. Até o Mago Merlim se aqui entre nós, nesse momento, estivesse, ficaria impressionado com tamanho poder e proeza outorgado a todos.

    Porém, a espada de Arthur continha dois gumes e cortava dos dois lados.

    Percebeu-se ainda, que, não tarde, o poder que lhe foi ofertado pelos deuses tecnológicos exigia de nós sabedoria para possuí-lo. Essa poderosa espada mágica Kaledvouc’h como se outrora pensava, estava inacessível ao grande público há tanto tempo, encrustada na grande pedra, pelo nobre motivo daquele a quem seria o seu possuidor, ter que passar por ensinamentos de vida rigorosos, pelo qual o seu espírito e o seu coração fossem meticulosamente testados. Só assim, teriam a primazia de obter a força dos deuses para puxar a espada da grande pedra. Essa sagrada espada é raramente denominada “Excalibur”, e é retirada por Arthur como símbolo milagroso de sua Nobreza e direito ao trono da Bretanha.

    Entretanto, agora se questionara: Será que todos possui esse direito e nobreza do Rei Arthur?

    Fomos preparados e disciplinados para empunhar tamanho poder?

    Virtualmente, se deparou com os muitos casos de jovens que por uma simples brincadeira nas redes sociais, acabaram causando dor e destruição a si mesmos e aos outros. Como foi o caso da menina russa de 17 anos que morava nos Estados Unidos, que filmou um ato de estrupo em um aplicativo de postagens de vídeos, com duração de nove minutos, só para obter likes. Intentara que naquele momento durante a filmagem, a jovem poderia usar o seu dispositivo para pedir ajuda ligando para polícia, ou um adulto responsável, também notara, que as pessoas que estavam assistindo o vídeo online, em vez de dar likes, poderiam aconselhá-la para impedir aquele ato brutal. Que alcançou milhares de visualizações.

    Daí, meditara, que o poder sem a responsabilidade é cegamente egoísta e brutal.

    Entretanto, dualisticamente, não esquecia ele, que Excalibur é uma espada pontuda afiada de dois gumes que corta, penetra e dilacera. Podendo afastar as pessoas, ou uni-las. Mas, nesse bidimensional mundo de algoritmos binários computacional e ilusório, afirmava ele somente conhecer causas e efeitos mecânicos, e nunca as Sagradas Leis Naturais em si mesmas. Por isso, que ao unir as pessoas, afastava a solidariedade entre elas, em que camuflado e protegido em sua privacidade, por detrás das telas negras caleidoscópicas brilhantes, o indivíduo se julgava ir além do respeito e dos sentimentos fraternos, soltando sua naja língua pensante, em seus rápidos dígitos dedos, envenenada nos seus mais mesquinhos sentimentos obscuros de inveja, cacoetes, ego e porcas maldades. Que no mundo fenomenal das aparências, só percebia bidimensionalmente ângulos e superfícies, e nunca o integral das coisas.

    Obviamente, ele sabia que a dialética da consciência da proximidade física dos corpos pensantes, que tudo entende por intuição, através das palavras audíveis, figuras simbólicas, gestos, movimentos, olhares e expressões voluntárias e involuntárias fora cruelmente ofuscada pela dialética racional do intelecto presente nas redes sócias, fóruns e plataformas proprietárias de mensagens instantâneas baseadas em nuvem, que nada tem de essência natural humana, e sim, apenas o ilusórico poder formulativo de ideias e conceitos lógicos preconcebidos, que por mais brilhante que seja, e por mais que se julgue de qualidade e de utilidade nos inúmeros aspectos da vida prática e cotidiana, nada tem de valor para existência e ecologia humana, resultando apenas em obstáculos subjetivos, incoerentes, torpes e pesados para nossa simbiose como seres fraternais coletivos, e que nada tem de verdade.

    No fim, diante da verdade, percebeu-se sendo o pobre poderoso, precisando de alento (likes, em legais polegares opositores), precisando de algo que o anime (coraçãozinhos vermelhos, e rostos redondos sorridentes amarelados), sentiu-se com o ego demasiadamente forte e personalidade terrivelmente débil, por sua própria mesquinha natureza apodrecida em si mesmo, encontrando-se numa situação completamente desastrosa, e sem vantagens, em que o sono lhe foi roubado, a ansiedade descontrolava as batidas do seu coração, e a vaidade tomara o controle de sua alma, tendo a depressão como amante e companheira.

    E no seu estado deprimente, porém, contemplativo, sabia ele que nos primórdios da nossa existência como uma das muitas espécies que habita esse ecossistema terráqueo, éramos simplesmente um ser coabitando e interagindo com os outros inúmeros seres aqui existentes. Não víamos a natureza como esse belo quadro pintado a óleo ou aquarela, ou como as ‘pixeladas’ imagens digitais no fundo dos nossos desktops eletrônicos e dispositivos móveis. Não ansiávamos pela chegada do tempo limitado do fim de semana para passear com a família nos bosques e pradarias, e nem tão pouco esperávamos a chegada das férias para curtir os muitos lugares paradisíacos, ou nos aventurar em trilhas, escaladas e caminhadas nos ditos ambientes naturais e ecológicos. Essa coisa alheia que hoje denominamos “NATUREZA” era intimamente o único e o primeiro mundo vital e cultural que existíamos. Nossos antepassados não só viviam em contato íntimo com as outras criaturas vegetais, animais e inanimadas, como se comunicavam diretamente com os seus espíritos e coração. Daí que surgem as fabulosas histórias e contos de fadas, gnomos, duendes, devas, ninfas, curupiras, orixás, anjos, caboclos, entre outras inúmeras manifestações do que hoje classificamos como “espíritos inorgânicos da natureza” em diversas culturas humanas espalhadas pelo mundo.

    Por isso, ficou muito difícil para o seu entendimento humano separar a sua espiritualidade, cura e boa qualidade de vida da Mãe Natureza. E, entendeu o porquê dos diversos movimentos esotéricos, xamanísticos, taoístas, hinduístas, budistas, cabalistas, sufistas, gnósticos, wicca, candomblé, entre outros da busca da espiritualidade, como também os movimentos de cura, saúde mental, e medicina ancestral e alternativa se situarem em ambientes naturais abertos e ecológicos.

    Nisso, percebeu que ao longo do nosso rigoroso processo civilizatório, em que gradualmente nos separamos do nosso natural habitar, que o SAGRADO em nós foi naturalmente esquecido. Deixamos de ouvir as MENSAGENS DOS VENTOS, paramos de falar a LÍNGUA DAS ÁRVORES E MONTANHAS, abandonamos o afeto de SENTIR COM O CORAÇÃO, e os nossos olhos se cegaram para o MUNDO INVISÍVEL. E, para piorar mais ainda a sua situação, vira que como espécie se transformara no pior predador que já existiu em todos os tempos, ‘Satânico Aniquilador’ das muitas culturas existenciais em todos os aspectos da natureza, e, dele mesmo.

    Meditara ainda mais profundamente de que como espécie, nos tornamos existências humanas desencantadas, prisioneiras de nós mesmos em frente a uma tela Touch Screen de valores, e, de falsas concepções virtuais, mendigando uma irreal atenção em salva de palmas, likes e emotions de coraçãozinhos vermelhos, rostos redondos amarelados (caras de bolachas) e legais polegares opositores. Vira que as proximidades humanas se basearam em distantes conexões WI-FI, em que ignoramos cruelmente os nossos presentes íntimos entes queridos a nossa volta, em ser um direto participante na criação do Aqui e Agora, para nos tornar um observador e um observado distante do passado alienado dos desejos, anseios, críticas e felicidades do desconhecido “amigo” internauta. Preferimos viver solitários com políticas de privacidade essa virtual ruptura do contato natural, nos separando plenamente do sentido existencial da vivência humana, e minimizando a nossa consciência social, afetiva e emocional ao estado simplista do observador e do observado, e de que a tecnologia não promove e nunca promoverá, assim, como, as propostas da comunidade científica, uma fusão harmoniosa com a existência humana e a natureza. Sua meta desde a revolução industrial é unicamente modificar. Acreditando melhorar, otimizar, maximizar, implantar, oportunizar e assegurar um conceito evolucionário de humanidade ciberneticamente supranatural, onde poderíamos viver sem depender dos recursos naturais e afetos sociais para nossa existência. Para assim, em vez de (como eles acreditam) subsistirmos, ‘sobre-existirmos’ na lua, em Marte, ou em uma cosmológica galáxia distante como prega e aliena a NASA e Hollywood.

    Sentira que perdera a simplicidade da vida e o seu primeiro amor, e se tornara um ser imediatista, arrogante, conformista, impaciente, tempestuoso, depressivo e penoso. Ignorava suas crianças, e assim, fazia com que elas o ignorassem, transformando-as no subproduto mesquinho dele mesmo. Nisso, vira que ignoramos os nossos semelhantes como nunca antes já vivenciado no mundo, em todos os tempos de nossa comunal existência, ofertando para os nossos irmãos e irmãs o que tem de pior em nós mesmos. E, dessa forma e maneira, acumulamos dores e sofrimentos para o nosso último sopro de vida, e assim, morremos existencialmente porque matamos nossa essência dentro dos nossos filhos e filhas, chegando a tal ponto de não mais nos perpetuarmos nos novos corpos.

    Percebera que a verdadeira expressão para o mundo tecnológico de hoje é ABSOLUTA TRISTEZA. E isso dói na alma… adoecemos! E o pior é de que não sabemos que estamos existindo enfermos. Acumulamos muitos bens do Aqui e pouca coisa do Agora, e a Magia da Alegria abandonou a Morada do Coração, e o Sagrado Entendimento que em tudo dança se ocultou. Então, eis a questão e desafio existencial da nossa cultura humana: ATÉ QUANDO FICAREMOS CALADOS E INERTES, TRANSMITINDO PARA AS GERAÇÕES FUTURAS ESSA GRANDE DEPRESSÃO EXISTENCIAL, PELO QUAL NOS CONVERTEMOS NO TIRANO PROBLEMÁTICO DESTRUIDOR DA BELEZA DE TODAS AS COISAS? Entretanto, quem se movimentará e falará com loucura e paixão para o despertar da grande massa? Quem será esse novo Meshiach e Avatar? Mas, enquanto ELE ou ELA não chegar ficaremos inertes, atrofiando nossa mente e coração nas telas e internet? Imbuído nessas íntimas e totalitárias questões, analisara que os desafios para o retorno do SAGRADO em nossas vidas são tremendamente numerosos.

    E, contemplando todo aquele panorama, se viu com sua poderosa espada na palma de sua mão, a mágica Kaledvouc’h, o espelho negro. E como um pedaço de madeira arrastado pelo rio, tentando resolver as coisas por sua própria conta, reagindo ante qualquer dura palavra, qualquer problema e qualquer dificuldade, lamentavelmente, o medo empoderou o seu ser, fabricando nos cinco cilindros da máquina orgânica, em que lhe compunha e que o seu SER habitara, os inumeráveis multifacetados eus-demônios, aplicativos escravos de si mesmo.

  • A verdade está onde nunca a procuramos — Crônicas do Parque

    Era uma daquelas manhãs escaldantes com temperaturas que variavam de trinta e cinco a trinta e oito graus célsius, com sensação de quarenta a quarenta cinco no centro-norte de Israel. Como de costume me encontrava todos os Yom Sheni (segunda-feira) no parque de Kfar Saba, fazendo manutenção nas piscinas ecológicas.

    Pegava meu bastão de rede, uma caixa plástica preta dessas de armazenar verduras em supermercados, e um balde vazio de comida de peixes ornamentais. Entrava na piscina e submergia até os joelhos no primeiro terraço em que ficava as Nymphoides, espécies do gênero das plantas aquáticas que crescem enraizados no fundo com as folhas a flutuar à superfície da água, de cores brancas, amarelas e variadas tonalidades de flores rosa, da família Nymphaeaceae.

    Prendia meu smartphone pela sua capa ao cordão que ficava no meu pescoço, em que segurava ao peito um Magen David (Estrela de Davi) com um rosto de leão no centro, e colocava uma música suave para iniciar o meu trabalho de cuidar dos nenúfares.

    Em especial, aquela era a piscina ecológica que eu mais gostava dentre todas outras que dava manutenção no centro-norte. Pois além de ser a maior dessa região, estava em um parque bonito e tranquilo arrodeado de belas esculturas. Essa piscina era especial, pois era a única de todas que tinha uma original carpa cinza gigante, espécie de peixe de água doce originário da China, e também havia um canteiro com Lotus Branco (Nelumbo Nucifera), um género de plantas aquáticas pertencente à família Nelumbonaceae da ordem Proteales, e também era lotada de peixes Koi (Nishikigoi), tendo o Higoi (carpa vermelha), o Asagui (carpa azul e vermelha) e o Bekko (branca e preta), que são carpas ornamentais coloridas ou estampadas que surgiram por mutação genética espontânea das carpas comuns (carpas cinza) na região de Niigata no Japão, tendo também outras inúmeras variedades de peixes ornamentais como: peixes dourados, peixes barrigudinho (Guppy) de diversas cores, aruanãs, entre muitos outros.

    Nesse dia em especial, me senti constantemente sendo observado por um senhor de chapéu azul e cabelos grisalhos que aparentava ter a idade de oitenta anos. Estava bem vestido e mantinha sempre um sorriso no rosto. Ele se encontrava sentado em um banco largo que ficava próximo a piscina. E lentamente eu me aproximava dele ao curso do meu oficio de retirar as folhas amareladas dos nenúfares. E ao me aproximar daquela figura atraente, eu o cumprimentei com um Boker Tov (Bom Dia), e ele me respondeu com um Boker Or (Manhã de Luz). Assim trocamos sorrisos, e me voltei novamente para o meu ofício matinal.

    Quando o balde em que colocava as folhas amareladas e flores mortas dos nenúfares se encontrou cheio, me retirei da piscina para esvazia-lo, o despejando na caixa plástica preta que estava perto do banco em que o senhor de chapéu azul se encontrava sentado. E ao me retirar para regressar a piscina, ele elevou a sua doce voz anciã, perguntando-me:

    _ Atah Rotze coz cafeh (Você aceita um copo de café)?

    Então, de imediato lhe respondi:

    _ Ken, efshar (sim, aceito).

    Então, ele retirou de uma sacola de pano um bojão de gás pequeno e enroscou uma pequena boca de fogo nele, acoplando. Colocou o aparato ao solo, e retirou da sacola uma garrafa pet de coca-cola com água, uma pequena chaleira e dois copos de aço inoxidável. E, enquanto ele despejava a água no recipiente e ascendia o fogo com um isqueiro para ferventar, fez um sinal com as mãos para eu me sentar ao seu lado.

    Enquanto a água estava para ferver, nos apresentamos e ele me fazia inúmeras perguntas sobre mim e meu oficio. Perguntas comuns que eu já estava calejado em responder. E depois que ele preparou o café, comecei também a interroga-lo. Para minha surpresa descobri que ele não era judeu, mas árabe. Sendo que falava um bom hebraico sem sotaque e se vestia elegantemente, como um velho Ashkenazi. Além dele ter olhos de uma cor azul claros como o céu que estava sobre nossas cabeças. (…Nós, e nossos pré-julgamentos…).

    Ele me falou que viveu muito anos na Espanha, sendo um mestre sacerdote de Sufi gari (Tasawwuf), uma arte mística e contemplativa do Islão, assim como é a Kabbalah para os judeus. Ele viu o Magen David em meu peito, e disse que era bonito esse símbolo com um rosto do leão no centro. Também, me falou que esse símbolo em que os judeus se apropriaram o colocando em sua bandeira, é de muita importância para o Tasawwuf (Sufismo). E me revelou segredos importantes sobre o significado desse símbolo.

    Conversamos sobre muitas coisas, e eu o interrogava mais e mais, pois vi que esse senhor era muito sábio e ciente de tudo que falava. Ele me revelou coisas sobre a conduta do corpo, como postura e fala. Falou-me sobre pensamentos, músicas e danças místicas, e, sobre alimentação e jejuns para se ter uma vida espiritual equilibrada com o corpo físico. Nesse assunto, eu perguntei a ele porque não se deve comer carne de porco. Até porque eu já tinha perguntado a muitos rabinos e religiosos judeus o porquê de não comer a carne desse animal, e muitos não sabiam me responder ao certo. E os que respondiam, falavam que estava escrito nos Livros da Lei, a Torah, mas não sabiam perfeitamente o porquê.

    Diante da minha pergunta, ele sorriu e me disse algo em que fiquei atônito. Contava ele que os porcos eram seres humanos amaldiçoados, por levar uma vida sexual pervertida na sua última encarnação. Ele me disse que por isso dentre todos os animais o porco era o mais inteligente, e, que seus órgãos internos como fígado, rins e coração são muito parecidos com os nossos, pois na verdade era um ser humano que encarnou nessa condição com a total consciência de sua vida passada, mas que devido ao fato de estar em um corpo animal atrofiado não podia se comunicar para se revelar como tal. Nasceu nessa condição devido a decadência espiritual de sua vida anterior como ser humano, ao se entregar aos prazeres sexuais nojentos e tenebrosos, por isso esse animal pode levar até trinta minutos tendo orgasmos. E assim, veio nessa condição para viver em sua podridão, ao comer seu alimento e dormir misturado as suas fezes, mesmo tendo a inteligência de defecar em um mesmo lugar, são condicionados pelos seus criadores (seres-humanos) a viver junto ao seu excremento. Também, ele me falou que o porco não tem a capacidade de olhar para cima, não podendo ver o céu, e sua pele não pode ser exposta a luz solar por muito tempo, pois não consegue transpirar, e pela falta de umidade decorrente do suor pode sofrer fortes queimaduras. Nasceu para olhar para baixo e se esconder da luz, sendo forçado por essa natureza a viver na lama. Ele também me disse, que o porco é o animal mais amaldiçoado do que a serpente, pois os porcos são invulneráveis às suas picadas venenosas. E concluiu:

    _ É por isso que não se deve consumir a carne desse animal, pôr na verdade ser um ser-humano totalmente consciente em forma atrofiada. _ e, acrescentou me revelando algo_ Você sabia que não a diferença de gosto entre carne humana da carne suína… ambas possuem a mesma textura e sabor.

    Uau! Diante desses fatos que me foram apresentados por esse velho sacerdote Sufi, eu fiquei estupefato. E, entendi o porquê de George Orwell escolher os porcos para serem os protagonistas da revolução em seu romance satírico (Animal Farm — A Revolução dos Bichos). Provavelmente, ele sabia desse conhecimento do Tasawwuf. E isso me fez pensar, o quanto os antigos sabem do que não sabemos. Essas são respostas que não podemos encontrar no oráculo Google. Respostas de um velho de oitenta e poucos anos sentando em um banco de parque.

    O velho me vendo atônito, colocou seus aparatos de café na sua sacola, levantou-se, despediu-se e saiu sem mais nada a dizer.

    E lá no banco do parque de Kfar Saba fiquei com a mão no queixo, vendo os peixes e as nymphaeas. Tão Ignorado em minha ignorante aquariofilia.
  • A vida e um fio de linha muito frágil

    A vida e um fio de linha muito frágil, hoje estamos aqui,com nossos sonhos, metas e objetivos, amanha podemos ser só lembranças
  • A vida mal escrita de um teclado errante

    Sou um teclado. Um teclado normal, de um computador normal. Passo a vida normalmente sendo digitado, palavras normais. Essa é minha vida. Normal.
    Quero começar a contar ela, então, pelo dia que me compraram. Fui colocado num lugar escuro, me sacudiram e com num passe de mágica, me liguei! Recebi energia e liguei! 
    Agora com as teclas todas funcionando, eu ia sair do marasmo daquela caixa  e poderia, enfim, conhecer o mundo. Digitar, combinar, pesquisar, abrir páginas e aumentar volumes!
    Ahhhh... que vida mais maravilhosa a de um teclado, você deve tá pensando.. . “Ele tem todas as letras e pode conhecer todas as palavras, ir para qualquer lugar que a internet o levar. E pode, além de tudo isso, escrever a história que quiser. Ele é um teclado! Que sortudo!”. Confesso que também pensaria isso. Mas não, meu caro. Sou um teclado de biblioteca.
    Você consegue imaginar  como é te – di – o – sa a vida de um teclado de biblioteca?
    Ninguém quer mais vir aqui.
    A bibliotecária mal encosta aquelas mãos inchadas e unhas roídas em mim. 
    Pensando melhor, é até bom mesmo. Vai saber onde aquelas mãos esquisitas iam me levar.
    Cada pessoa que passa ali, um click, um bip, um enter e nada mais. Nem sequer um sorrisinho ou um destino novo no Google. Qualquer coisa que não fosse aquela mulher encostando em mim, mas não. E ali estava eu, fadado a ser um teclado errante com uma vida mal escrita.
    Você conseguiria imaginar quantas possibilidades e mundos eu poderia criar ou conhecer se tivesse parado nas mãos de um sonhador?
    Ahhhh minha doce Clarisse, quem dera eu ter sido o teclado que registrou a exata Hora da Estrela. Ou então aquele que, sem nenhum pudor, ajudou Eça a mostrar para o mundo que “Basílio era mais que parente”. Brincadeiras à parte. Sou um teclado brincalhão. Por mais incrível que isso pareça.
    Tanto tempo por aqui me ajudou a conhecer as palavras através de livros. Acredita? 
    Tenho até senso de humor...veja só.
    Dentro de mim existem mundos, existe esperança em cada toque nas minhas letras, em cada pessoa que passa por mim. Hoje, eu completo 2 anos de perfeito funcionamento e só o que conheço são paredes frias, toques secos, olhares sem amor. Quase não passam pessoas por aqui. Ouvi dizer numa conversa de intranet que os livros estão em baixa. Ler livros hoje em dia é bem raro. Esse é o motivo do baixo movimento por aqui. Tudo bem. A internet tem dominado as paradas de sucesso...
    E falo por mim, um teclado que guarda tantas vontades e sonhos, jamais me faltará esperança de um dia poder desbravar o mundo, conhecer todas as árvores que começam com a letra S, todas as paisagens que o Google imagens pode oferecer e todas as histórias que eu puder, incansavelmente, escrever.
    E essa é minha vida normal. De um teclado ABNT normal. Ligado a um computador normal. Cheio de esperanças. Normal.
  • A vida no inferno

    O trabalho nunca assustou Natália. Muito ao contrário. Desde os 15 anos ela já acordava antes do sol nascer para poder estudar e ser secretária do seu tio dentista. Podia até ser uma forma de ele ajudar a família do irmão, que não tinha paradeiro conhecido, mas as seguidas investidas com a mão embaixo da saia de Natália, e seu olhar psicótico, diziam outra coisa sobre as intenções do homem por detrás da máscara. Qualquer coisa seria melhor que ter que conviver diariamente com um boçal. Por isso, quando fez 18 anos e acabou a escola, saiu da clínica para trabalhar numa empresa de telemarketing. Sua missão agora era convencer pessoas que não podem pagar um plano de saúde a pagar por um que não funciona. “O Senhor esta ciente de que, segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil tem um dos piores serviço público de saúde do mundo? Pior que o da Argélia, Senegal e Cabo Verde, por exemplo.” Ao lado do seu teclado havia uma folha sulfite plastificada com algumas frases que ela poderia recorrer. Tudo sempre começava com um “bom dia, meu nome é Natália e estou contactando o Senhor, em nome da ExploraMed, para oferecer uma oferta especial válida só por hoje.”
    Assim que ela desligava o telefone vinham as metas absurdas e os prazos corrosivos. “Pessoal, aqui nós trabalhamos com números.” Eram uma ligação a cada três minutos e no mínimo 20 contratos assinados por dia. “Parece muito, mas se vocês seguirem as técnicas que nós ensinamos é possível.” Informações como a superlotação, “segundo o Tribunal de Contas da União 64% dos hospitais estão sempre com lotação superior a sua capacidade”, ou “consultando os dados do Conselho Federal de Medicina o Senhor vai ver que, entre 2005 e 2012, o Sistema Único de Saúde eliminou 41.713 leitos.” Teoricamente, de posse destes dados, qualquer um deveria se desesperar e pagar até o que não podia para dormir com a consciência tranquila de que se acordasse no meio da noite, tendo um ataque cardíaco, não morreria num chão qualquer esperando a boa vontade de um bom samaritano que se importasse. Mas não era o suficiente. As pessoas precisavam de muito mais que um plano de saúde, assim como Natália, que precisava de muito mais que um salário mínimo para ter alguma perspectiva de não chegar aos 40 anos sem ter atravessado as fronteiras do ritmo casa-trabalho / trabalho-casa.
    Foi pensando num futuro melhor que ela começou a ver as etiquetas coladas nos orelhões do centro da cidade com outros olhos. “Oi garanhão, procurando prazer e diversão?” A voz meio masculifeminilazida do outro lado da linha fez ela reparar na palavra Travesti depois do nome Sheila no adesivo. Por um momento ela se sentiu envergonhada, mas não foi o suficiente para parar. “Oi, eu queria saber quanto você cobra.” “Ai gatinha, é só você que quer brincar ou seu namorado também quer participar da festa?” “Que?” “Hum, é só você que quer saborear novas aventuras, não é? São R$250 para fazer essa carinha doce suspirar amor por uma hora, e eu atendo no meu apartamento aqui no centro.” Natália respirou fundo com o valor e desligou o telefone. Em uma hora ela podia ganhar mais que em uma semana sentada numa cadeira incomodando alguém pelo sistema de discagem randômico. Olhando por esse ponto de vista parecia até mais decente. Trabalhando umas duas vezes por dia ela podia até pensar em fazer uma faculdade e ajudar a sua mãe, que sofria limpando banheiro de crianças irritantes filhas de adultos imbecis. Quanto mais pensava mais tinha certeza de que valia a pena correr os riscos, que na verdade não eram consideravelmente maiores que ser menina num ônibus lotado, chegar em casa depois de ter escurecido ou trabalhar como secretária do seu tio.
    Enquanto tirava fotos dos anúncios colados pelos orelhões e postes da cidade pensava nos detalhes. Primeiro: ia ter que ter um número de celular secreto, só para aquilo. Ninguém poderia ficar sabendo. Atenderia seus clientes em algum dos hotéis que alugam quartos por hora no centro, e como o cliente que ia pagar ele poderia até escolher qual. Depois, cobraria o dobro para dar a bunda e exigiria que o cliente sempre usasse camisinha. Acreditava que assim estaria evitando os maiores problemas que a profissão oferecia. Agora era a hora de elaborar o anúncio. Com um caderno na mão sentou na cama e começou a ver as fotos que tinha tirado no celular. “Paula Ninfeta. Insaciável. Depiladinha. Anal total. 93327-9869.” Parecia muito vulgar. “Brenda Casada. Para fetiches e fantasias. Homens, mulheres e casais. 93267-9765.” Esse não era chamativo. Depois de olhar dezenas de imagens, e escrever outra dezena de rascunhos, Natália chegou ao anúncio perfeito: “Paola (sempre achou esse nome chic) Amor (ora, do que aquilo se tratava?). Carinho e sexo para homens (não saberia o que fazer com mulheres e se sentiria estranha em 3). 24h (era importante estar sempre a disposição). NOVO NÚMERO DE CELULAR.”
    Cheia de confiança e expectativa Natália acordou mais cedo que o habitual. Vestiu sua melhor roupa e se maquiou como quem vai para uma festa de gala. Na entrada da estação de trem comprou um chip novo para o celular e começou a olhar para todos os homens como potenciais clientes. Pensou que eles estariam bem vestidos, afinal, quem pode pagar R$250 por hora tem que ganhar muito bem, e quem trabalha bem vestido geralmente ganha muito bem. Passou na Tele CO. e se demitiu resumindo os motivos em “arrumei um emprego melhor”. Eles insistiram em saber aonde a ponto de Natália se sentir acuada, mas ela se manteve firme. Assinou o que tinha que assinar e dali foi para uma lan house. As risadinhas que o moço dava enquanto ela ditava o que queria escrever na etiqueta a deixaram um pouco envergonhada. Com os adesivos em mãos começou a divulgar seu novo emprego. Deu preferência para os orelhões perto de prédios de vidro ou postes perto de lojas caras. Quando acabou com tudo Natália se sentou num banco na praça e, meio nervosa e meio ansiosa, ficou esperando o telefone tocar.
  • Ação e Reação

    Tenho ouvido por ai a lei da ação e reação. Ela é usada em qualquer situação social e vou me ater, somente, no momento de desentendimento num relacionamento a dois, não vem ao caso qual seja o tipo de relacionamento, ampliarei para todas as classes, seja homo, seja heterossexual. Acontece que em momentos de conflitos conhecemos verdadeiramente quem é o nosso parceiro. Não é no sexo, nem no cinema, nem na casa da sua mãe, nem na viagem e no jantar romântico. É aqui (no desentendimento), que poderemos identificar qual é a sua personalidade e acredite: Se você não gostar da ação ou reação do seu parceiro, tome cuidado! Desde da violência física, verbal e consequentemente psíquica até aos atos de suposta traição ou desejo de trair. Acontece que no período de conflito é que demonstramos quem somos de verdade. O quanto de autocontrole e respeito para com o outro temos. Aqui demonstramos o nosso verdadeiro afeto e amor e o mais importante nossa índole. Se somos pacientes, altruístas, fieis, respeitosos e bondosos com o outro. O importante é se relacionar com quem lhe entenda e te aceite nos momentos felizes e saiba te tratar ainda melhor em tempos de conflitos. Mas por favor, saiba identificar e valorizar o comprometimento do próximo, pois você também está sendo analisado.
  • Acorde como um sonhador

    Acorde como um sonhador, levante como um vencedor e viva como uma pessoa realizada
  • ALIEN

     
    A beleza é só mais uma ilusão:
    outra forma de dominar o ser,
    encaNcerando-o numa prisão,
    ainda que pelo próprio prazer...




    © do Autor, IN: Concursos literários do Piauí. Teresina, Fundação Cultural do Piauí, 2005. 226 p. Página 177.



  • All Star #44

    Já faz um tempo que descobri que estudar não é fundamental para terminar o colégio. Só precisa estar lá no dia-a-dia e fazer uma prova que quase sempre é coletiva. A escola não quer reprovar ninguém e os pais dos alunos não querem os filhos reprovados. Isso basta. Então, como diz o Gabriel Pensador, gosto de pensar que estou usando este tempo para aprender a viver. Não é fácil com um monte de gente dizendo que tudo é importante todo tempo, mas é agradável quando a Júlia vem conversar sobre qualquer coisa. “Você tem um cigarro pra mim fumar no intervalo?” “Mas você não fuma…” “Estou começando. Ontem fumei um com a Alina e o Enrolado. Hoje queria fumar com você no intervalo.” “Você que sabe, mas acho que isso não é legal.” “Por favor, não venha você, que fuma quase um maço por dia, dizer que fumar faz mal e blá blá blá…” “Nunca disse que me orgulho.” Ela me olhou com aquele sorriso de ironia, um pouco envergonhada. As borboletas estralaram por todo o meu estômago e gritaram em coro: “ela quer ficar sozinha com você idiota!” Um contido eu murmurou: “vamos no fundo da garagem dos ônibus então?” “Legal, vou falar com a Alina e o Enrolado também.” E as borboletas voltaram a ser lagartas parasitas que roubavam toda minha coragem de dizer para ela tudo que eu queria.
    Fumar escondido no corredor entre os dois ônibus que ficavam na garagem era como sentir a liberdade inflando os pulmões. “Ontem, escutando National anthem conclui que Radiohead é pura arte.” Na verdade tinha passado a tarde de ontem inteira escutando este som. “Arte do suicídio?” A Julia tinha me dito uma vez que tinha medo de escutar Radiohead sozinha. “Arte é uma coisa que te diverte, tira você do ar, Radiohead deprime.” “Quem te disse isso cara?” “Que Radiohead deprime?” “Não, que arte é diversão.” “Não é?” “Não. Arte é uma coisa que causa estranheza e não tem finalidade por si só.” “Então você é arte!” Me sinto duas vezes mais idiota quando o enrolado faz eu parecer um idiota na frente da Julia. Já faz um tempo que descobri que um dia, que não vai demorar muito, tudo que acontecer aqui não vai significar absolutamente nada. Mas enquanto essa hora não chega qualquer coisa parece com hambúrguer para o apocalipse. Como sempre acontece trinta segundos antes do sinal do tacar o Sergião estava de olha na gente lá no fundo para ver se ninguém ia pular o portão para fugir daquele hospício. “Vamos fumar um lá na beira da pista para ver o pôr-do-sol no fim da tarde?” Jamais diria não para a Julia. “Nós temos que terminar o trabalho de inglês depois da aula hoje.” Quando a Alina tirou ela e o Enrolado do rolê as borboletas voltaram a estralar no estômago. “Eu topo.” “Legal, vou ver se o Jhony quer ir com a gente, tudo bem?” E as borboletas voltaram a ser lagartas parasitas que roubavam toda a minha coragem de dizer para ela tudo que eu queria.
    Passei a tarde inteira pensando em um jeito de escapar do destino implacável de amar alguém. Escutei In my darkest hour do Megadeth, depois o acústico inteirinho do Alice in Chains, Lithium do Nirvana, e nada. Os contos do Bukowisky me diziam que as coisas ainda podiam piorar. Nem Holden Caulfield podia me salvar, e Beleza Americana confirmava um fim trágico para a vida se eu continuasse no caminho que os professores, meus pais, avôs, o mundo, traçava para mim. O melhor mesmo seria se jogar no abismo de uma faculdade pública qualquer longe daqui. Nos últimos tempos perdi umas horas pesquisando a relação candidato vaga em universidades do norte e nordeste. Da para passar em filosofia, sociologia ou um curso ia qualquer em um monte delas. Já faz um tempo que descobri que ainda não tenho a menor ideia do que quero ser na vida. Enquanto eu não souber o que vai ser o melhor a fazer é ganhar tempo. Uma temporada longe da Julia podia ser bom para ela sentir minha falta. Isso fazia as borboletas do estômago estralarem como nunca. Eu voltando para casa, formado numa faculdade pública, e a Julia morrendo de saudades, também formada, e a já casada com um cara qualquer que ela conheceu na faculdade. Era o mais provável. E as borboletas voltaram a ser lagartas parasitas que roubavam toda a minha coragem de dizer para ela tudo que eu queria.
    A Julia passou em casa, com o Jhony, e o trio princesa, príncipe e o bobo saíram para passear. O jeito que um falava com o outro, e a empolgação deles em falar um com o outro, gritava que eu estava sobrando lá. Só quando já estávamos perto do limite da cidade, e acendi o baseado, minha presença foi notada com um comentário do Jhony. “Hummm….senti aquele cheirinho da erva vinda do norte.” Os dois riram como se o Ari Toledo tivesse contado uma piada. Não fiz questão de disfarçar um sorriso forçado, e a Júlia tentou criar alguma ligação entre nós três. “O Jhony tava me falando outro dia que começou a ler O senhor do anéis…..você já leu, né Neb?” “Não, eu acho o Tolkien muito descritivo, prefiro ficção científica.” Passei o baseado para ela e nem olhei para ele, que tentava invocar uma amizade que nunca existiu. “Eu gosto bastante de umas coisas mais mitológicas.” “O Neb me emprestou uma vez A revolução dos bichos e eu gostei muito. Mas não consigo ler O senhor dos anéis.” Os dois não concordavam em alguma coisa, foi o suficiente para as borboletas no estômago estralarem como a esperança que surge sem explicação todo começo de primavera. “Mas os filmes são sensacionais. Eu tenho os três.” “Nossa, eu nunca vi.” “A gente podia combinar de fazer uma maratona e assistir os três qualquer dia em casa.” Os dois se olharam e a Júlia deu pra ele um sorriso que ela nunca me deu. E as borboletas voltaram a ser lagartas parasitas que roubavam toda minha coragem de dizer para ela tudo que eu queria.
  • Almoço fast-food

    Seu Alcides entrou no flat desviando o olhar, um tanto quando encabulado, e carregando uma maletinha dessas de executivo. Tirou um envelope do bolso e agitou com a mão. “Olá baby…pode deixar isso aí em cima da mesinha.” “Oi….boa tarde…..posso ir no banheiro?” “Claro, fica ali.” Ele abriu a maletinha e tirou dois saquinhos zip locks. “Você pode vestir isso?” “Adoro fantasias amor. Tenho vários brinquedinhos aqui também.” Seu Alcides entrou no banheiro e abriu sua maletinha como um estojo de figurino. Antes de qualquer coisa tirou a aliança, colocou num saquinho zip lock desses pequenos e guardou a jóia no bolso de dentro do paletó. Pegou dois cabides, um para pendurar o terno e a calça e outro para a camisa e a gravata. Se despiu com cuidado para não amassar a roupa, removeu as toalhas de dois suportes que estavam atrás da porta, entulhou-as no terceiro e pendurou seus cabides com cuidado. Olhou no espelho, ergueu as mão para o céu e fez uma oração. Então começou a se preparar. Primeiro se maquiou espalhafatosamente. Batom, lápis no olho e pó de arroz. Em seguida colocou uma calcinha com cinta liga, meia três quartos e uma saia. Vestiu uma camisetinha branca apertada, um lenço no pescoço e saiu do banheiro carregando um consolo numa mão e um tubo de ky na outra. Sheilla já estava preparada deitada na cama. Usava um vestido preto, de mangas compridas, um pouco acima do joelho e uma meia calça. No peito um pequeno crucifixo de metal, um véu preto com elástico branco na cabeça e um chicotinho de couro na mão.
    Aquela putaria toda na hora do almoço fazia Seu Alcides se sentir o Deus do mundo. Sem nenhum minuto de atraso, e sem nenhuma suspeita, às 13:30 em ponto ele estava sentado em sua sala no escritório contábil Estoril. Eram uma dúzia de mesas alinhadas no terceiro andar do edifício Mega Rich Tower. Cada uma com um computador, um telefone e quilos de papéis espalhados. De acordo com o senso comum estabelecido por ele quem não está focado no um, e/ou falando com alguém no dois, está enrolando. Depois de duas dezenas de anos dedicados à causa Seu Alcides era o dono da razão e da empresa. Sua conduta de legalista e implacável faziam dele o monstro mais temível de todo universo para quem dependia de sua benção para continuar pagando as contas no fim do mês. Sempre chegava meia hora antes que os funcionários de manhã e achava que quem cobrava o pagamento de hora extra não dava o devido valor ao emprego. Era sempre o último a sair. “Dona Suzana, com o rendimento que o seu departamento teve nos últimos dias o que a Senhora vai falar na reunião sobre produtividade?” Tudo que Suzana entendia era que estava no bico do corvo. “Esse mês está difícil, muitas empresas estão fechando Seu Alcides. Quase ninguém alcançou as metas.” Nos ouvidos de Seu Alcides isso soava como desculpa de aleijado é muleta.  “E se dependermos de pessoas com o pensamento da Senhora nós seremos os próximos. A Senhora já perdeu sete clientes este mês e repôs apenas um. Preciso de mais trabalho e menos desculpas. Cobre mais de sua equipe e se esforce mais também.” Na sua cartilha isso significava faça mais do que deve e se sinta feliz por isso. “Sim, senhor.” Suzana saiu com a certeza de que em breve seria uma desempregada.
    Enquanto revisava alguns relatórios Seu Alcides relembrava das cenas do encontro com a madre superiora. Calculando quanto da piroca de Sheilla que ele conseguiu enfiar na boca concluiu que ela devia ter pelo menos 20cm. Era a maior piroca que ele já tinha visto. Os peitões dela eram uma delícia e não tinham gosto de plástico como os da Lana, nem eram caídos e moles como os da Gabrielle. Se sair com o mesmo travesti duas vezes não fosse tão arriscado para sua reputação Seu Alcides com certeza voltaria no flat da Sheilla de novo no fim da tarde. Seus pensamentos foram interrompidos pelo telefone. “Sim, Dona Luiza.” “O Dr. Ricardo está na linha dois.” “Pode passar.” “Seu Alcides?” “Boa tarde, Dr. Ricardo.” “Boa tarde, como está o Senhor?” “Estou bem, e o Senhor?” “Também, obrigado. Seu Alcides, eu não recebi as guias de recolhimento de impostos desse mês. O Senhor sabe como gosto de manter tudo organizado por aqui, e já é dia 12. Transferi o dinheiro no dia 5 como todo mês mas as guias não chegaram. O Senhor pode ver isso para mim?” “Claro que sim. Desculpe-nos, isso não pode acontecer.” Cinco minutos depois Paulo estava tremendo como vara verde na frente do chefe. “Mas Seu Paulo, como assim essas guias se perderam? Isso não existe.” “Desculpe Seu Alcides, talvez o office boy tenha esquecido elas no caixa do banco ou o caixa esqueceu de entregar para ele. Já solicitamos as segundas vias e até amanhã deve estar tudo com o Dr. Ricardo. Eu também já conversei com ele.” “Conversou o que, Senhor Paulo? Então porque ele me ligou?” “........” “De qual você está falando? Daquele novo que vem trabalhar de boné e bermuda?” “Sim, senhor.” “Diga para esse moleque que qualquer hora dessas eu vou fazer ele ter que esquecer de vir trabalhar.”
    Toda vez que ele se mexia na cadeira, e uma dorzinha na bunda lembrava Seu Alcides daquela pirocar enorme entrando e saindo freneticamente, seu pau ficava duro como uma pedra. Com medo de dar algum sinal de prazer, ele encarava Dona Luiza com um desprezo que beirava o insulto enquanto ela falava. “Aqui estão os relatórios de produtividade que o Senhor pediu da Suzana e do Paulo. A Dona Ana já está sob aviso no RH também e pediu para avisar que é melhor esperar o período de experiência do office boy acabar para mandar ele embora.” “Só isso, Dona Luiza?” “A Dona Kátia mandou pedir para Senhor passar na padaria e pegar umas coisas pro lanche antes de ir para casa, e de pegar pão integral para o Jorginho. Ela também mandou avisar que chamou o sogro e a sogra do Senhor para o lanche, para o Senhor não chegar tarde.” “Pelo amor de Deus Dona Luiza, é só isso?” “Sim, Senhor.” “Então pode ir. Até amanhã.” Já passava das 20h quando Suzana passou na sala dele e avisou que era a última a sair.
  • Amadureça

    No peito leva os bons momentos
    Não que tenha esquecido das feridas
    Apenas deixou cicatrizar com o tempo
    E decidiu receber da vida as coisas mais bonitas

    Sente falta das conversas, risadas, briguinhas
    Das noites acordada, dos conselhos dados e recebidos
    Um novo rumo tomou a sua vida
    Novos sonhos, novas vontades, novos amigos

    Olha só, o gosto para tudo mudou
    Mudou dos pés à cabeça
    A vida realmente transformou
    Antes confusa, hoje pessoa de certezas

    No fundo do olhar vai ver um pouco de antes
    Talvez reconheça, talvez conheça
    A vida tem desses tempos marcantes
    Possa ser uma forma de fazer com que amadureça
  • Amarelo

    A maré
    Amarelo
    Do Sol.


    Poema do meu primeiro livro de poesias, Átomo, lançado em dezembro de 2018, com prefácio de Rafael Cortez e apresentação de Thomas Pescarini e disponível em formato físico e ebook na Amazon.
  • Amei

    Amei

    Apenas uma vez

    Mas isso eu já sei

    Agora estou chorando

     

    Se errei

    Foi ao não dizer

    O quanto eu te amei

    O quanto ainda te amo

     

    Eu sei

    Que não tornarei a ver

    A beleza do teu ser

    Os teus lábios que me encantam

     

    Eu vi

    Um brilho pelo ar

    Ao ver você chegar

    Mas tudo era um sonho

     

    E você... e você

    Se foi pra longe

    E você... e você

    Sumiu pelo horizonte 

  • Amor

    Se no começo
    Não houver tremor
    Melhor findar antes
    Sem dor.


    Poema do meu primeiro livro de poesias, Átomo, lançado em dezembro de 2018, com prefácio de Rafael Cortez e apresentação de Thomas Pescarini e disponível em formato físico e ebook na Amazon.



  • Amor entre palavras

    Mesmo que as palavras 
    Não fazem mais parte de mim
    Construirei um mundo ao teu lado! 

    Mesmo que eu não tenha mais 
    Força de se expressar 
    Continuarei te amando! 

    Mesmo calada 
    Gritarei dentro 
    De mim, que você foi a melhor 
    Coisa que aconteceu em minha vida! 
    Mesmo que o mundo diga ao contrário

    Direi a todos que você 
    Foi o melhor para mim, você foi a minha
    "Cara metade" como todos dizem! 

    Mesmo que a tristeza me abater
    Lembrarei dos momentos 
    Bons que tivemos! 

    Mesmo que tudo acabe 
    Lembrarei de ti! 
    Pessoas importantes não tem

    Como esquecer, sabe porquê? 
    Elas ficam marcadas e acima 
    De tudo pregada na alma da gente!
  • AMOR LONGEVO

    Fim de tarde, brisa leve
    Sorvete de três sabores
    Flocos é meu preferido
    Põe confete
    Um pouco mais
    Bem alegre
    Eu gosto mesmo assim

    Penicilina para todo amor
    Uma brisa para toda flor
    E se a enfermeira
    também gostar de mim
    "Aumenta a dose, por favor?"

    A noitinha, ao luar
    Correr na praia, descalçar
    E pelos pés vou resfriar
    Na beira do mar
    Correndo fazendo aviãozinho
    Bem alegre
    Gosto assim

    Penicilina para todo amor
    Uma brisa para toda flor
    E se enfermeira
    não gostar de mim
    "Aumenta a dose, por favor?"

    Amanhece, à fogueira
    E um embalo na viola
    Serenata e declaração
    Iô-iô também brinca
    com altos e baixos
    Meio alegre
    Meio assim

    Penicilina para todo amor
    Uma brisa para toda flor
    E se enfermeira
    hoje não vir...
    "Desliga, meu amor.."

  • Amores passados

    Sempre fui diferente.
    Diferente dos amigos, dos parentes, da família, de todos à minha volta. A chamada ovelha negra. Mas isso nunca foi um problema para mim. Nunca liguei para as fofocas dos vizinhos que adoravam comentar sobre minha sexualidade, já que eu já tinha vinte e poucos anos e era totalmente solteira, além de nunca ser vista com um namorado a tiracolo como todas as moças da minha idade. Vocês sabem: se uma mulher não tem um homem, ela não é mulher - essa sempre foi a lei da sociedade doentia em que vivemos.
    Como era de se esperar, cresci em meio a colegas de escola que já namoravam desde os 15 anos de idade e que hoje, estão todos casados e com filhos nos braços. Eu no entanto... bem, eu nem era paquerada ou coisa do tipo, que dirá namorar com tal idade. Mas para mim tudo estava bem quando eu era adolescente porque tudo para o que eu ligava era para a música e para os livros, minhas duas grandes paixões. Para mim, o amor nunca viria, e disso eu tinha certeza. Cresci assim, com essa ideia na cabeça e claro, com o tempo e a idade passando, a solidão e a depressão, que já eram bem presentes na minha vida quando eu era mais jovem, se acentuaram mais fortes do que o normal. E o pior, é que quanto à solidão, eu não tinha muito o que fazer.
    Mas, se por um lado eu nunca tive sorte nesse ramo da vida, por outro, minha carreira subiu rapidamente. Havia me tornado musicista ainda muito jovem, e para me aperfeiçoar, fiz faculdade de música, aprendendo a tocar diversos instrumentos facilmente e ainda a cantar. Eu queria finalmente correr atrás do meu sonho de adolescente: tocar guitarra numa banda de rock, nem que fosse apenas para me divertir e levar um pouco de música para uma galera pequena – fazer sucesso e vender discos nunca passou pela minha cabeça, ainda mais vivendo no Brasil, já que lá, viver de música – isso para não dizer apenas tocar rock – era a mesma coisa que achar um diamante no bueiro. Não, sempre tive consciência de que isso não era para mim também, assim como achar alguém legal com quem me relacionar para toda a vida.
    Assim, me contentei em tocar violão para músicos pequenos de MPB, e ganhar relativamente bem, o que me proporcionou uma economia boa para sair do país assim que pude. Estava com 31 anos quando embarquei para a Helsinque na Finlândia e de lá, me mudei para Rovaniemi, uma cidade menor e que me tiraria da bagunça de uma metrópole. Vivi em São Paulo a vida toda, não queria mais aquilo.
    Desci do avião sob o frio de 30 graus negativos que fazia naquele dia. Foi um choque claro, mas foi maravilhoso ao mesmo tempo. Minha primeira reação ao tocar o solo cheio de neve do pequeno país nórdico, foi chorar. As lágrimas vieram involuntariamente e instantaneamente congelaram no meu rosto, o que me fez rir. A sensação de felicidade plena e do resultado de uma vida inteira de lutas, estava ali na minha frente. Eu finalmente estava na Finlândia, palco dos meus sonhos desde a infância. E era ali, que minha vida finalmente teria início. Eu mal sabia o que me esperava.
    Durante meus anos no Brasil, eu havia estudado inglês e finlandês, o suficiente para me tornar fluente. E era assustador como sempre tive facilidade com o idioma nórdico, o que elevava minhas crenças pagãs de que eu já pude ter vivido por lá, em alguma vida. Fora isso, tive várias sensações de deja vus durante minha ida do aeroporto para o hotel onde eu esperava me hospedar até o dia amanhecer para me mudar para a casinha que havia alugado. Minhas coisas estariam vindo na mesma noite, e chegariam no endereço pela tarde. Tudo isso o meu antigo trabalho havia me proporcionado, e pude bancar o transporte das coisas que realmente importavam para mim: meus livros e claro, alguma mobília como cama e colchão.
    Com algumas semanas morando na cidade, tentei conhecer algumas pessoas para conseguir um trabalho, e logo, estava trabalhando num restaurante – que não era o melhor lugar do mundo, diga-se de passagem – mas que incrivelmente, pagava muito bem e eu ganhava mais do que quando era musicista no Brasil ou em qualquer outro emprego que tive por lá, algo que embora eu já soubesse que aconteceria, me surpreendeu da mesma forma. Viver na Escandinávia se mostrou a melhor escolha que fiz na vida.  
    Os meses se passaram, minha vida seguia solitária como sempre na casinha que eu havia alugado – pequena mas perfeita para uma pessoa só. Tinha apenas uma sala, um quarto e uma cozinha. Fiz o possível para decorar do meu jeito com quadros, pôsteres e coisinhas que eu sempre amei voltadas para a música e a cultura nerd – principalmente Star Wars, que eu amava desde criança. O senhor que me alugou o pequeno chalé, foi muito amável e me disse que eu poderia ficar o tempo que precisasse ali e eu, imediatamente carimbei meu estilo e impressão naquele local.
    Certo dia, no sábado, depois do trabalho resolvi andar pela cidade. O inverno estava quase findando mas ainda fazia muito frio, embora a neve estivesse derretendo e o verde voltando à vida. Caminhei por várias ruas que já conhecia e me arrisquei por novas, sem medo de me perder como quando cheguei em Rovaniemi. Continuava deslumbrada com a cidade mesmo estando ali a tanto tempo já. Foi graças a essa vontade de me aventurar, que me deparei com um anúncio num poste de luz que dizia que uma banda em formação inicial precisava de um guitarrista solo. Pensei que tivesse voltado aos anos 80, mas ali na Finlândia, isso era extremamente comum como eu ficaria sabendo alguns meses depois. Entrei em êxtase. Aquela era minha chance. O anúncio dizia que o músico interessado deveria comparecer no endereço citado no próximo domingo para um teste. Eu precisava pelo menos ensaiar um pouco antes e afinar minha guitarra. Voltei para casa correndo e treinei durante a tarde toda. Mal poderia esperar para chegar domingo à tarde. Era meu sonho que estava se realizando depois de tantos anos.
    Mal dormi a noite. A ansiedade e o nervosismo me consumiam. Passei a madrugada toda andando para lá e para cá pela casa feito um zumbi. Quando o cansaço me dominou, por volta das 3 da manhã, desabei no sofá e peguei num sono pesado, sonhando com minha apresentação para esse teste. Acordei por volta das 9 da manhã, assustada. Mal consegui comer. Almocei o que meu estômago revirado de ansiedade conseguiu aceitar: um parco sanduíche simples de frios. Me vesti em seguida, com um sobretudo preto de couro, coturnos pretos que poderiam não apenas me proteger do frio, mas também, me deixar mais estilosa, além de calça de couro e uma blusa preta de seda por baixo de um casaco mais fino. Tinha que causar uma boa impressão. Calcei as luvas e às 13 horas, saí de casa carregando a caixa com minha guitarra, um medo genuíno nos ombros e a velha ansiedade como companhia. Chamei um táxi e entreguei ao motorista o endereço. Chegamos em vinte minutos ao local, uma casa simples de madeira vermelha, com dois andares. Agradeci ao taxista, paguei-lhe e desci do carro. Poderia ter ido a pé de tão perto que era. Não fazia ideia de que meu destino fadado estava ali, a vinte minutos de casa.
    Respirei fundo antes de bater na porta, ajeitei o cabelo, a roupa e finalmente, tomei coragem para subir o degrau e chamar pelos membros da banda com uma batida leve. Uma música que eu podia ouvir ao fundo, parou e foi substituida pelo som de passos se aproximando. O frio rigoroso da Finlândia há meses não me incomodava tanto quanto quando eu cheguei no país, mas agora, quando eu estava ali esperando, o vento gelado parecia ter penetrado minha pele e congelado todos os meus ossos e órgãos. Estava petrificada. Pensei que minhas entranhas se dissolveriam em água, pois eu estava quase urinando de tanto nervoso. Meu estômago revirava o sanduíche e me arrependi de tê-lo comido na mesma hora.
    Finalmente os passos chegaram à porta e ela foi aberta. Um rapaz alto e magro, de cabelos castanhos que alcançavam o meio de suas costas, apareceu com a cabeça para fora, sorrindo.
    - Olá – disse ele em finlandês e pousou os olhos na minha guitarra. Seu sorriso ficou ainda maior – ah, você veio para o teste! Que bom!
    Sorri de volta para ele e respondi que sim, meio gaguejando.
    - Vi o anúncio de vocês e bom... eu toco um pouco sabe...
    O rapaz riu do meu nervosismo e abriu mais a porta, puxando um casaco atrás dela.
    - Não fique nervosa – incentivou vestindo o casaco e saindo – aqui você se sentirá em família. Sabe, não é como uma droga de entrevista de emprego.
    Sorri mais confiante. Ele parecia bem espontâneo. Era difícil ver um finlandês assim.
    - Eu sou Marcos – se apresentou. Seu sotaque era um pouco diferente das outras pessoas que eu estava acostumada a conversar no trabalho. Ele não parecia um finlandês, nem na aparência, nem no jeito de falar, embora seu finlandês fosse bastante fluente. Porém, foi ouvir seu nome e a entonação em sua voz para pronunciá-lo, que percebi algo diferente. Fitei-o de cenho franzido.
    - Você não é finlandês – decretei em português.
    Marcos ergueu as sobrancelhas olhando para mim surpreso e depois, abriu um enorme sorriso.
    - Caramba! Me pegou Sherlock! – riu ele
    Sorri calorosamente. Era muito bom depois de tanto tempo, encontrar um conterrâneo naquele país gelado. Os finlandeses eram conhecidos pela sua frieza e para um brasileiro, povo caloroso por natureza, isso era bem complicado.
    - Eu sou Elizabeth – me apresentei também, ainda falando em português. Marcos pareceu se animar também, e apertou minha mão enluvada bastante contente.
    - Olhe, vou lhe dizer: estou vivendo aqui há pelo menos 6 anos e ainda não tinha encontrado um brasileiro, embora os turistas vindos para cá, sejam em um número muito grande deles. Se bem que, temos alguém aqui na banda com sangue brasileiro: nossa baterista, o Aarne. O pai dele é brasileiro, mas veio para cá ainda muito pequeno e está aqui até hoje. Aarne nasceu aqui, mas percebo nele traços brasileiros de vez em quando, embora ele deixe bem claro que deteste minha terra natal.  – ao dizer isso, Marcos deu uma gargalhada.
    Sorri de volta.
    - Compartilho de seu sentimento. Também não fiz amizades brasileiras aqui. Mesmo que eu estivesse cansada daquele país, é fato que as pessoas lá são muito amigas e companheiras.
    O músico concordou com um aceno de cabeça, ainda sorrindo. Depois, me convidou a entrar. Entramos e eu tirei as luvas e o casaco pois a casa estava relativamente aquecida. Vi que havia um cabide atrás da porta, de onde Marcos provavelmente havia tirado o seu casaco e onde agora o pendurava novamente.
    - Pode deixar aqui suas coisas – disse amigavelmente – o nosso estúdio improvisado fica lá nos fundos. Vou te levar para te apresentar aos rapazes da banda. Você vai gostar deles. Ah, devo dizer-te que nossas influências musicais flutuam de Maiden, Priest, Sabbath até Korpiklaani, Ensiferum, essas coisas. Eu sou o vocalista. Além de mim e do Aarne, temos também o Matti, nosso guitarrista base e o Timo, no baixo.
    Assenti sorrindo e pendurei o casaco no cabide, colocando as luvas em um dos bolsos dele.
    - Não poderia ser mais perfeito – respondi. Os caras gostavam das mesmas coisas que eu. Só podia estar sonhando, não era possível.
    Olhei ao redor, analisando a casa. A sala era relativamente simples, com apenas dois sofás em frente a uma lareira, um carpete felpudo e uma mesinha de madeira no centro. Do lado direito, havia uma escada que levava aos cômodos do andar de cima e no lado esquerdo, um extenso corredor, abrigava várias portas que com certeza eram quartos. Marcos se ofereceu gentilmente para pegar a guitarra das minhas mãos e me conduziu ao último dos quartos no corredor. Ao fim dele, percebi uma cozinha também simples, com apenas uma geladeira, uma mesa e um fogão, além da pia.
    Paramos na frente da porta e o rapaz girou a maçaneta. Entramos e eu me vi num estúdio muito bem montado. As paredes foram acolchoadas com casca de ovo, e havia vários equipamentos eletrônicos, como mesas de som, computadores, e claro, cabos por todos os lados, ligados aos instrumentos musicais. Entrei meio sem jeito. Bem iluminado, o cômodo era comprido, mas um pouco estreito na largura. A bateria ficava lá no fundo, num pequeno tablado de dois degraus e uma guitarra, um baixo e microfones estavam logo a frente dela. Os outros membros da banda, sorriram para mim ao me ver entrar. Estavam sentados num sofá pequeno perto da porta. Marcos nos apresentou, mas eu não ouvi nada porque nesse momento, olhei para Aarne, o baterista que ele havia mencionado. E foi aí, que meu mundo todo desabou. O músico também olhou para mim e percebi que seu queixo foi levemente pendendo do rosto. Seu rosto mostrava uma expressão de incredulidade e tenho certeza, que minha cara não era das melhores também. Tudo a minha volta sumiu. O estúdio, os outros membros da banda, os objetos. Havia apenas eu e Aarne ali, parados olhando um para o outro sem conseguir desviar o olhar. Meu estômago revirou mais ainda do que já estava, comecei a tremer e as pernas ficaram bambas. Se eu não sabia o significado de alma gêmea, naquele momento passei a saber. Era como se eu conhecesse aquele rapaz a séculos, mesmo se fosse a primeira vez que estivesse olhando para aquele rosto. A pele clara, os olhos verdes e os cabelos castanho escuros repicados e caídos nos ombros. Sentado atrás da bateria a meio caminho de se levantar, sem saber exatamente o que fazer, ele pareceu a criatura mais perfeita que eu já tinha visto na vida. Tinha um olhar sereno e me fitava num misto de perplexidade e admiração. Não sei quanto tempo ficamos assim, mas para mim pareceu uma eternidade. Alguma coisa mudou dentro de mim, como se algo se encaixasse e como se o sentimento de solidão, fosse embora de repente. Eu não sei explicar porque, mas senti vontade de chorar na mesma hora, mas não era tristeza. Não soube explicar o que era.
    Saímos de nosso devaneio graças às baquetas de Aarne que escorregaram de sua mão e caíram no chão provocando um barulho alto que ecoou pelo estúdio abafado pelas cascas de ovo. Pisquei surpresa e ouvi Marcos me chamando assustado e sem entender nada
    - O que deu em vocês dois? – perguntou o vocalista alarmado.
    Olhei para ele com o cenho franzido e os olhos arregalados. Eu ainda estava ali no estúdio e no entanto, parecia que havia viajado por eras desconhecidas em que o único elemento familiar, era o rosto de Aarne. Meu rosto pegou fogo de vergonha. Abaixei os olhos sem saber o que dizer ou o que fazer e escorreguei pela parede, sentando no chão. Eu não conseguia mais parar em pé. Foi o baterista quem respondeu e num português tão fluente que até me assustou. Ou ele percebeu que o amigo brasileiro estava assustado demais para falar em outro idioma ou achou que eu era finlandesa e não entenderia o que ele estava dizendo.
    - Nada – respondeu sem graça. Com um gesto, chamou o amigo até o tablado e num sussurro perguntou quem eu era quando este foi até ele.
    Levantei a cabeça e olhei para os dois. Marcos olhava de mim para Aarne obviamente sem entender nada. O mesmo acontecia com Matti e Timo. Eu mesma também não entendia nada. Havia levado um choque muito grande, como se algo tivesse me derrubado e agora eu me sentia nocauteada. Percebi que Aarne se sentia do mesmo jeito. Vi que suas mãos tremiam. Decidi tomar uma atitude e dizer algo, afinal, eu estava ali para fazer parte da banda.
    - Eu sou Elizabeth – respondi sua pergunta em português, com a voz trêmula.
    Obviamente o baterista se sobressaltou porque não esperava que eu tivesse entendido o que ele havia falado. Me levantei do chão e vi que ele olhava para mim de um jeito meigo. Sorriu docemente, desceu do tablado e foi até mim, ainda me olhando nos olhos, mas meio sem jeito. Eu ainda tremia da cabeça aos pés e suava frio. Quem era aquele rapaz? Aarne se aproximou e seus olhos se nivelaram aos meus, pois era apenas um pouco mais alto. Ele parecia me analisar, tentando entender o que havia acontecido agora a pouco ali, tentando me sondar. Naqueles olhos eu vi muita coisa, como se séculos de vida se sustentassem ali de alguma forma. Sustentei o olhar e, me surpreendendo, cavalheiramente, ele se curvou com uma mão nas costas, tomou minha mão e beijou delicadamente os dedos. Eu olhava aquilo de queixo caído.  O rapaz se ergueu e sorriu para mim, depois coçou a cabeça um pouco sem graça.
    - Desculpe-me por isso – disse em português ainda. Ele era tão fluente que era inacreditável que fosse mesmo finlandês – permita-me que eu me apresente. Sou Aarne, baterista dessa fatídica banda - riu fazendo um gesto para o ambiente.  – É um prazer, senhorita.
    Continuei olhando para o baterista sem saber o que dizer. Havia um nó na minha garganta. Eu sentia uma vontade imensa de abraçá-lo. Era como se eu tivesse reencontrado alguém que não via há muito tempo. Abaixei os olhos ainda corada. Acho que já devia ter ficado de todas as cores, menos na minha natural. Emiti um sorriso amarelo.
    - Não precisa pedir desculpas. – gaguejei. Levantei o olhar novamente para ele – você fala português muito bem – elogiei.
    Aarne corou levemente e também sorriu amarelo.
    - É... meu pai me ensinou. Ele é brasileiro. Posso praticar com ele também e por isso, acabei me tornando fluente. Mas fora meu pai e nosso querido vocalista aqui – ele apontou com o dedão para o atordoado Marcos ao nosso lado que ainda nos fitava confuso – eu ainda não tinha conhecido outro brasileiro.
    Assenti. Percebi que Aarne estava tremendo. Suas mãos se debatiam involuntariamente. Será que ele estava sentindo o mesmo que eu? Ficamos olhando um para o outro novamente sem dizer nada, parados feito duas estatuas, sem saber o que falar, sem saber como agir, com expressões sérias estampadas no rosto, um avaliando o outro, um tentando entender o outro. Neste momento, um dos outros rapazes tossiu, meio que pigarreou na verdade e novamente eu voltei a mim. O teste! Eu havia me esquecido completamente. Tossi nervosa e me afastei do baterista, indo até onde estava minha guitarra.
    - Bom eu... é... – gaguejei tentando controlar meus tremores. Esperava que depois de tudo que aconteceu eu ainda conseguisse tocar alguma coisa. – está na hora de eu mostrar do que sou capaz, não é mesmo?
    Tirei o instrumento da caixa, passei a alça por sobre a cabeça e peguei o cabo para conectar em algum dos amplificadores Marshall ali presentes. Olhei para Timo e Matti e pedi desculpas novamente. Acho que eu passaria a tarde me desculpando. Estava morrendo de vergonha ainda.
    - Eu acho que não fomos devidamente apresentados – disse estendendo a mão para eles, que apertaram-na afetuosamente.
    - Sem problemas. – disse um deles – eu sou Matti. – Ele olhou de soslaio para Aarne que ainda permanecia de pé ali, meio confuso, olhando para baixo, perdido em pensamentos. Foi até ele e passou o braço por seus ombros, assustando-o. – sabe, é difícil ignorar o charme do nosso amigo baterista aqui, então, fique tranquila. – O sorriso que ele deu ao dizer isso, foi enorme.
     Arregalei os olhos e meu rosto entrou em combutão novamente. Lancei um olhar a Aarne que aparentemente havia engasgado com alguma coisa invisível. Seu rosto estava roxo e ele tossia sem parar. Deu um cutucão em Matti e sem falar nada, se desvencilhou de seus braços, indo para a bateria. Se escondeu atrás dela, morrendo de vergonha.
    Eu não estava em melhor situação. Mas resolvi mudar de assunto porque aquilo já estava me matando por dentro. Perguntei aos rapazes sobre como eles gostariam que eu tocasse, se solo ou em conjunto com eles, executando uma canção inteira. A decisão foi tocar em conjunto. Eles ainda não tinham músicas prontas e próprias pois a banda estava apenas começando. Então, tocamos covers de Judas Priest e Iron Maiden, e depois, mandamos o Folk Metal do Korpiklaani, o que me deixou muito satisfeita, já que eles são a minha banda favorita. Ainda não sei explicar como consegui tocar perfeitamente, sem errar nenhuma nota, porque eu parei de tremer só uma eternidade depois que estava em casa, sozinha. Bastava me aproximar de Aarne, para começar tudo de novo.
    O teste terminou por volta das 16 horas. Eu já estava com os dedos esfolados, pois há muito tempo não tocava tanto. A apreensão tomou conta de mim quando os rapazes começaram a conversar sobre eu fazer parte da banda ou não, afinal, haviam gostado de mim, porém poderiam aparecer outros candidatos.
    - Você se importaria de esperar até anoitecer? – perguntou-me Marcos sem jeito – sabe, eu adorei. Você toca muito bem e achei que se encaixou muito bem na banda. Só que deixamos anúncios pela cidade toda, então devemos esperar um pouco.
    Respondi que tudo bem por mim e tirando a guitarra dos ombros, me sentei no sofá, me servindo de um copo de água de uma jarra que estava numa mesinha ao lado. Descobri depois que a casa era de Marcos e que ele morava sozinho. Num dado momento, a fome bateu em todos e ele decidiu preparar um lanche. Saímos do pequeno estúdio e fomos para a cozinha. Eu estava adorando fazer essas novas amizades e Aarne... bem, ele me intrigava. Enquanto todos estavam na cozinha conversando distraídos, me esgueirei pela porta e fui para fora tomar um ar sem ninguém perceber, ou pelo menos eu achei isso. Andei um pouco pelos fundos da casa, sobre a neve que começava a derreter. O sol brilhava fraco no céu e refletia na neve, o que fez meus olhos arderem. Havia algumas árvores por ali e eu caminhei até uma delas, e encostei o corpo no tronco, de costas para a porta da casa, tentando respirar, os olhos fechados, a mão sobre eles, a cabeça baixa. O que estava acontecendo comigo? O frio começou a me incomodar já que eu estava apenas com um casaco fino, mas eu preferia ficar ali fora sozinha por um tempo. Estava um pouco constrangida.
    20 minutos depois, ouvi a porta se abrindo e ergui a cabeça sem olhar para trás. Eu sabia que ele estava vindo ao meu encontro. Meu coração saltou dentro do peito. Não é possível. Será que eu não poderia ter um momento a sós comigo mesma? Ouvi seus passos inseguros se aproximando devagar, até que ele parou do meu lado, sem olhar para mim. Fitei-o. Ali na luz do dia, era ainda mais bonito. Aarne viu que eu olhava para ele e retribuiu o olhar, sorrindo.
    - Desculpe-me mais uma vez – proferiu baixinho em finlandês – eu... não sei o que deu em mim.
    - Está tudo bem – respondi segura de mim. Não queria que ele achasse que eu estava nervosa por causa dele. – eu...
    Não consegui finalizar a frase. Aquilo tudo era muito estranho e era a primeira vez que algo do tipo acontecia comigo. Claro que eu já havia me apaixonado antes, mesmo sem ser correspondida. Mas aquilo ali... aquilo era muito maior do que algo eu já houvesse sentido alguma vez na vida. Suspirei e voltei meu olhar para a frente. Ficamos em silêncio um tempo e logo senti que ele se encostou na árvore, suas roupas roçando nos meus braços.
    - Tenho a sensação de que te conheço de algum lugar – frisou – mas também sei que nunca vi você por aqui antes. Isso é estranho. Não entendo o que foi que aconteceu quando olhei para o seu rosto. Me senti como se alguém muito querido por mim, tivesse finalmente voltado. Você consegue explicar isso?
    Balancei a cabeça negativamente, mentindo. Eu poderia ter uma ideia. Aarne e eu poderíamos ter nos conhecido em vidas passadas. Poderíamos ser almas gêmeas. Mas eu não iria falar disso com ele naquela hora. Primeiro porque eu não sabia se o rapaz tinha as mesmas crenças que eu. Segundo porque eu acabara de conhecê-lo. Como iria tocar num assunto tão delicado? Torci os dedos das mãos nervosa, olhando para baixo. Ele percebeu e se postou na minha frente. Fitei-o calada. Ele pegou minhas mãos entre as suas e sorriu de um jeito meigo. Seu toque era quente e suas mãos macias.  
    - Não precisa de todo esse medo de mim. Eu não mordo – riu-se – vamos dar uma volta por aí? Adoraria poder te conhecer um pouco melhor.
    - Mas e a banda? E se chegar alguém para se candidatar? – era impossível negar algo para aqueles olhos. E eu também adoraria conhecer Aarne melhor e dar uma escapulida da vista dos outros membros da banda. Ainda estava envergonhada. Aarne sorriu afetuosamente.
    - Não se preocupe. Duvido que apareça alguém – zombou ele.
    Era a segunda vez que eu o via fazer deboche da banda.
    -Você não gosta da banda? – perguntei confusa
    - Claro que gosto. Sempre amei tocar e já participei de várias bandas. Mas esta é a única séria, de verdade. Conheci Marcos na faculdade e foi lá que tivemos a ideia de levar música para uma galera. Porém, nos dias de hoje, ninguém quer tocar rock, mesmo aqui na Finlândia. Você com certeza já está fazendo parte, eles só não quiseram falar ainda.
    Meu rosto iluminou-se. Era inacreditável tudo que estava acontecendo de uma vez só naquele dia. Aarne ainda segurava minhas mãos entre as suas e soltando a esquerda, puxou a direita para entrarmos na rua e caminharmos juntos.
    - Espere. Essa roupa não me aquece o suficiente – informei – meu casaco ficou lá dentro. Estou com um pouco de frio.
    O baterista olhou para mim e sem pensar duas vezes, tirou seu casaco mais grosso e jogou-o por cima dos meus ombros. Ele não iria sentir frio porque estava com outro por baixo, mas mesmo assim, seu gesto me espantou. Seu sorriso foi a coisa mais linda que vi ali sob a luz do sol refletida na neve. Ele abanou a mão fazendo um gesto para o casaco.
    - Pode vestir. Não se preocupe, eu estou bem – disse.
    Assenti e vesti o casaco.
    - Obrigada – sorri sem graça.
    Saímos do quintal por cima de uma cerquinha de madeira e começamos a andar pela calçada. Durante um tempo, um silêncio constrangedor reinou entre nós. Ninguém sabia o que falar e não era para menos também. Eu torcia as mãos a toda hora e Aarne às vezes arrastava o pé no chão enquanto andava, com as mãos nos bolsos. Num dado momento, porém, parece que ambos resolvemos falar ao mesmo tempo:
    - Então...
    Fitamos um ao outro e depois de uns segundos, caímos na risada, o que ajudou a quebrar o gelo um pouco. E graças a isso, uma conversa animada sobre amenidades foi se instalando entre nós. Falei do meu emprego, da minha vida anterior no Brasil, da infância, essas coisas. A conversa foi toda no idioma local e Aarne me elogiou diversas vezes por minha fluência, me deixando corada.
    - Porque está envergonhada? – perguntou ele divertido – tenho certeza que você estudou muito para aprender finlandês, afinal, é um idioma muito difícil até mesmo para nós nativos.
    - Claro, estudei sim, mas eu sou humilde – rebati.
    Aarne deu uma risada alta e eu, contagiada por sua alegria genuína, acabei rindo também. Comecei a me sentir mais à vontade com ele, mas estava tentando esconder os tremores e ignorar o coração batendo forte no peito.
    Passamos em frente a um café e ele me perguntou se eu não gostaria de tomar um chocolate quente. Olhei para ele e conferi a hora no celular, tirando-o do bolso.
    - Já faz meia hora que saímos – informei – vamos ter problemas.
    O baterista riu
    - Relaxe – disse passando o braço em volta do meu pescoço e pousando a mão no meu ombro – eles sabem que estamos juntos. Talvez até tenham nos visto sair. Se precisassem de mim, já teriam me ligado.
    Observei-o. Ele estava muito próximo de mim. Muito próximo de novo e seu abraço era reconfortante. Respirei fundo e afirmei com a cabeça, guardando o celular novamente.
    -Tudo bem então – concordei rendida – vamos ao chocolate quente.
    Ele apertou mais a mão no meu ombro e me puxou para entrarmos no café. Fizemos o pedido no balcão e nos sentamos para esperar. Aarne perguntou mais algumas coisas sobre minha vida e me contou sobre a sua. Acabei descobrindo que seus pais eram sócios do resort Kakslauttanen Arctic, os famosos hotéis iglus localizado em Saariselkä, não muito longe dali. Fiquei extasiada. Era um sonho de toda uma vida me hospedar naquele resort, passar uma noite num quarto iglu de vidro e observar a Aurora Boreal, nem que fosse por uma noite só. Mas os valores não eram para mim. Eu não ganhava o suficiente para isso. Contei isso a Aarne displicentemente e ele me disse que isso poderia ser arranjado facilmente. Minha expressão foi de assombro. Primeiro, a banda. Depois, a presença hipnótica daquele rapaz. E agora, eu poder me hospedar em Kakslauttanen? Era um sonho.
    -É sério isso? – inquiri de olhos arregalados
    Aarne riu da minha expressão. Ele viu que aquilo parecia muito importante para mim.
    - Claro que sim – o baterista abanou a mão e continuou sorrindo – basta eu falar com meus pais. Eles podem conseguir um quarto para você por um final de semana, com tudo pago. Posso falar com eles hoje mesmo se você quiser.
    Fitei-o boquiaberta sem saber o que dizer. Eu não merecia aquilo. O garçom trouxe nosso chocolate e para não ter que dizer nada, dei logo um grande gole queimando o canto da boca e a garganta.
    - Ah, droga! – xinguei levando a mão ao pescoço como se pudesse aliviar a queimação.
    Aarne se alarmou e pediu um copo de água ao garçom. Rapidamente ele trouxe uma jarrinha e um copo que bebi em goles ruidosos.
    - Está melhor? – indagou assustado o baterista levando a mão ao meu pescoço sem a menor cerimônia um tempo depois. Depois subiu e acariciou meu rosto onde o chocolate havia me queimado, como se medisse minha temperatura. 
    - Já aliviou – respondi sem graça. Obrigada.
    Ele sorriu e retirou a mão do meu rosto, voltando ao seu chocolate quente.
    - E então, quer que eu fale com meus pais ou não? – perguntou voltando ao assunto do resort.
    - Seria maravilhoso – murmurei – mas você não precisa fazer isso, Aarne.
    - Se você não quiser, tudo bem, claro – disse balançando a cabeça aparentemente chateado – mas meu pai é muito bondoso e iria adorar fazer isso por você. Basta eu dizer que é alguém especial para mim. – finalizou sorrindo docemente como se não tivesse dito nada demais, e deu um gole no seu chocolate.
    Engasguei e meu rosto ficou roxo. Fitei-o de olhos arregalados e ele pareceu perceber o que falara e ficou sem jeito.
    - Ah, me desculpe, é que... eu... – gaguejou mas não terminou a frase, abaixado os olhos e apoiando a cabeça na mão.
    - Tudo bem, não se preocupe – fiz um gesto de desdém com a mão para acalmá-lo. – olha, vou aceitar sim sua proposta. Desde que me mudei para cá ainda não pude aproveitar as florestas, caminhar por entre as árvores, e claro, observar a Aurora. Sei que é muito difícil de ver, mas quem sabe eu dou sorte, não é mesmo?
    Aarne sorriu triunfante
    - Ótimo. Vou falar com meu pai. Você tem trabalhado demais, pelo que me disse. – rebateu – restaurante... imagino que não seja fácil. Está aqui há seis meses e não teve tempo de se divertir... A Finlândia é um lugar para se aproveitar cada dia e cada centímetro dela.
    Assenti baixando os olhos triste.
    - Foi o único emprego que consegui e reconheço que é horrível. Mas pelo menos eu ganho bem e consigo viver e...
    - Viver ou sobreviver? – Aarne me interrompeu astuto e aparentemente chateado.
    Suspirei um pouco alto. Ele tinha razão. Parecia que minha vida na Lapônia não estava tão diferente da de São Paulo. Tinha fugido de empregos ruins por lá, para cair num pior ainda.
    - Sei que não é o melhor trabalho do mundo – argumentei – mas até que eu consiga algo melhor, não posso sair dele.
    Meu amigo contraiu os lábios contrariado. Aparentemente esse assunto estava incomodando-o.
    - Você é talentosa, Elizabeth – elogiou – e jogar fora esse talento num avental e num bloco de notas de pedidos de comida, é um desperdício. Eu também não tenho um trabalho maravilhoso, mas acho que é menos puxado que o seu.
    - E como você trabalha?
    - Na loja de um amigo meu que vende cds, discos, instrumentos musicais, camisetas, essas coisas que roqueiros gostam – riu ele – inclusive metade do meu salário fica todos os meses por lá.
    Rimos juntos.
    - Que bacana! Mas e o hotel? Você não quis trabalhar com seus pais e os patrões deles? – perguntei
    Aarne balançou o dedo indicador negando.
    - De jeito nenhum. Acho que seria pior que um restaurante – desdenhou – tenho 33 anos e minha vida está passando. Se nossa banda conseguir subir, eu vou sair da loja e ficar apenas na música. É isso que amo fazer e é o que farei.
    Maravilhei-me porque sempre adorei pessoas com esse tipo de pensamento. Eu mesma sempre quis fazer o que amava, mas desde que cheguei na Finlândia, tive que fazer o que a necessidade mandava.
    - Penso como você, Aarne – redargui – mas esse emprego foi tudo que consegui. Puxando um gancho da sua fala, se eu permanecer na banda e pudermos viver disso, será a maior felicidade da minha vida.
    Aarne sorriu afetuosamente e pousou sua mão sobre a minha
    - E nós vamos conseguir, querida, você vai ver – finalizou.


    Voltamos para a casa de Marcos e entramos por onde havíamos saído. Já fazia mais de uma hora e os rapazes agora se encontravam no estúdio, a mesa da cozinha com o resto do lanche que havíamos comido. Aarne me acompanhou lado a lado até o estúdio e entramos sorrateiros. Os meninos tocavam aleatoriamente seus instrumentos e quando nos viram, fitaram-nos com perplexidade. Um olhar de cumplicidade passou entre Matti e Timo e eu não pude deixar de sorrir ironicamente.
    - Ah, apareceram as margaridas – disse Marcos
    Aarne lançou-lhe um olhar de cenho franzido.
    - Juro que nunca vou entender essa gíria brasileira – disse e foi para trás de sua bateria no tablado. Marcos e eu rimos.
    - E então? – indaguei nervosa – a vaga é minha?
    - Desde o início a vaga sempre foi sua, minha flor – respondeu Timo no lugar do vocalista – seja bem vinda.
    Houveram palmas, vivas, assovios e gritos. Sorri triunfante como se estivesse em cima de um pedestal. Meu sonho se tornara realidade.


    Minha inclusão na banda aumentou minhas atividades do dia a dia e logo eu estava exausta, estressada e cansada. Mesmo que amasse ensaiar com os rapazes, o meu trabalho me exauria e a ideia de me hospedar no resort Kakslauttanen nunca foi tão sedutora. Mas não foi como Aarne esperava. Ele havia falado com seu pai naquele dia, porém o resort estava lotado e eu só poderia desfrutar de um dia como esse, quando houvesse algum quarto vazio, o que era quase impossível de acontecer. Para piorar, meu chefe começou a me pressionar dizendo que meu trabalho não estava rendendo. Ele era um homem difícil de lidar, e para falar a verdade, suas atitudes com suas funcionárias não era das melhores. Diversas vezes, o empresário havia assediado alguma das minhas colegas. Comigo ainda não havia acontecido isso, talvez porque ele parecia me respeitar de alguma forma. De qualquer jeito, eu não confiava nele e estava a um passo de denunciá-lo. É horrível quando você precisa de um emprego assim. Por cobrar demais de mim, por diversas vezes cheguei no ensaio – que ocorria todos os dias depois do trabalho de todos – de mau humor, cansada e muitas vezes errava as notas das músicas. Felizmente os rapazes eram compreensivos e até eles mesmo erravam às vezes, já que havíamos começado a compor nossas próprias músicas há dois meses. Acho que ninguém, exceto Aarne, havia percebido que alguma coisa estava errada comigo. Por isso, num certo dia, ao fim do ensaio, quando eu estava indo para casa, ele veio até mim, me acompanhando pelo caminho.
    - Você está bem? – perguntou de forma atenciosa correndo para me encontrar.
    Eu continuava sentindo algo por ele, mas não ousava dizer. Claro que ele sabia porque eu também sabia que ele sentia a mesma coisa, mas essa relação não passava de amizade, porque nenhum dos dois conseguia vencer a timidez. Entretanto, sua atenção para comigo e seu carinho, denunciavam tudo. Eu sorria e recebia tudo com gratidão. Ele era muito atencioso e protetor.
    - Sim estou – menti – está tudo bem. Eu estava à beira das lágrimas naquele dia, de puro estresse e cansaço.
    Aarne me fitou e tocou meu ombro delicadamente, me fazendo parar e olhar nos olhos dele. Mais uma vez, aquela sensação de ver algo que eu conhecia por trás do verde das suas pupilas. Suspirei e coloquei a mão na testa com a cabeça baixa. Sem dizer nada, ele me puxou contra si e me abraçou.
    - Alguma coisa está ocorrendo com você – murmurou – pode confiar em mim.
    As lágrimas vieram involuntariamente e ele percebeu, mas continuou me abraçando. Retribui o abraço com uma mão e a outra ficou pendida do lado segurando a caixa com minha guitarra. Contei a ele tudo que estava acontecendo e alarmado ele disse que eu precisava de férias e de ficar longe daquele chefe maluco.
    -Eu sei – redargui – mas ele nunca me dará férias. Ele é um déspota maldito.
    Aarne me soltou e segurando meus ombros me olhou nos olhos.
    -Vou te levar para se divertir um pouco – disse sem pensar duas vezes – você confia em mim?
    Assenti com a cabeça. Eu precisava mesmo de descanso.
    - Então vem comigo.
    Ele puxou minha mão, tomando a caixa da guitarra e carregando-a ele mesmo. O inverno tinha acabado e as flores dominavam a paisagem. Perdi as esperanças de ver a Aurora Boreal no hotel, mas se eu conseguisse ir para aquele resort, poderia até ser no sol escaldante que eu não iria reclamar.
    Aarne chamou um táxi e fomos para longe da agitação da cidade. A cada quarteirão, o número de casas diminuía e aumentavam o número de chalés. Estávamos longe de Kakslauttanen então eu não sabia onde poderia estar sendo levada, porque ele só entregou um endereço ao motorista em silêncio e seguimos o caminho. Sentado ao meu lado, ele passou a mão na minha cabeça, bagunçando meus cabelos. Dei-lhe um empurrão com o corpo para que ele parasse e em minutos estávamos morrendo de rir dentro do carro. O taxista nos olhava feio porque parecíamos crianças fazendo bagunça.
    Em quarenta minutos chegamos ao destino. Era uma pista de esqui e ali, havia neve suficiente para cobrir Rovanieme inteira. Isso era possível graças à altitude das montanhas. Olhei para Aarne alarmada.
    -Não sei esquiar – argumentei – se você quer que eu quebre o pescoço, é só me dizer.
    Ele gargalhou
    - Calma. É super fácil, você vai ver – respondeu – vem, vamos subir no teleférico. Lá em cima tem um local para guardar nossas coisas.
    Dito isso, me puxou pela mão e saímos correndo para subir nas cadeirinhas. A tensão do dia estava começando a se esvair da minha mente. Sentamos lado a lado e ele pegou a mochila tirando de lá uma blusa de frio.
    - Tome, vista – disse.
    Olhei para ele que estava apenas com uma blusa de manga comprida, com tecido fino. Eu estava com um casaco relativamente quente. Era primavera, mas o frio que fazia a noite na Finlândia não era brincadeira. Recusei o casaco. Ele estava com muito mais frio do que eu, tinha certeza.
    - De jeito nenhum – empurrei a roupa com a mão – olhe para você, apenas com essa blusa fina – puxei o tecido da manga dele.
    - Mas eu nasci aqui, estou acostumado haha. Se você não vestir, não vai aguentar quando cair na neve, acredite em mim. Já fiz isso aqui um milhão de vezes, até de camiseta.
    - Não é possível – reclamei – não há como argumentar com você. Peguei a blusa e vesti rapidamente pois já estávamos chegando ao topo da montanha.
    - Não mesmo, e é melhor ir se acostumando – respondeu desafiador dando-me uma piscadinha.
    Não falei nada pois neste momento tivemos que saltar. Havia uma cabana lá em cima. Fomos até ela, e entramos. Era basicamente um depósito com equipamentos de esqui por todos os lados, que a gente poderia alugar por uma hora por um valor simbólico. Nos fundos, um guarda sentado em uma mesa, vigiava um guarda volumes. Ele pegou nossas coisas e nos desejou boa sorte e boa diversão. Agradecemos e saímos da cabana.
    Devo dizer que foi muito mais fácil e divertido do que eu imaginava. Desde criança eu tinha vontade de esquiar, mas essas coisas são apagadas da nossa mente a medida que envelhecemos. Entretanto, àquela hora, relembrei da minha infância e estava feliz como naquela época. Aarne me ensinou todos os truques, e eu aprendi rápido, o que não me impediu de levar vários tombos na neve, situação que rendeu boas risadas. Bom, pelo menos eu não quebrei o pescoço.
    Depois de uma hora, voltamos para pegar nossas coisas e o teleférico para voltar para o final da montanha. Antes de irmos embora, Aarne me conduziu pelo meio da floresta, porque sabia que eu adorava a natureza e árvores cheias de neve, eram o paraíso para mim. Andamos por um tempo, de mãos dadas e eu nem percebi, já que estava sem luvas e minhas mãos estavam como duas pedras de gelo.
    - Tudo aqui é maravilhoso – murmurei
    Aarne me olhou satisfeito. Havia conseguido tirar o estresse dos meus ombros e isso parecia lhe dar uma sensação de vitória. Um sorriso genuíno iluminou seu rosto.
    - Eu disse que você ia amar. Sempre que quiser vir, é só me chamar. Conheço essas florestas como a palma das minhas mãos.
    Continuamos andando por um bom tempo, conversando, até que nos vimos de volta à estrada. Tivemos que continuar a pé o caminho para a cidade, já que ali não haveria um táxi disponível ou coisa do tipo. Aarne me deixou na porta de casa.
    - Obrigada, Aarne – disse pegando minhas chaves na bolsa – você me ajudou muito hoje. Obrigada pela gentileza e por se preocupar comigo.
    Ele sorriu amavelmente apertando meu ombro.
    - Faria tudo de novo – rebateu – sempre que precisar de mim, é só me chamar.
    Sorri e assenti.
    -Nos vemos amanhã – falei e entrei em casa lançando-lhe um último olhar admirado. 


    Ao longo das semanas seguintes, trabalhamos para escolher um nome para a banda e depois de muito discutir, optamos por Rapidfire, assim, tudo junto mesmo. Achamos que seria um nome que causaria impacto e não deu outra. Depois de entregarmos CDs demos com algumas músicas nossas que gravamos no nosso parco estúdio, recebemos ofertas para pequenos shows em bares, restaurantes, e eventos. O primeiro show que fizemos, num evento beneficente na cidade, foi um sucesso, mesmo que estivéssemos com os nervos à flor da pele e suando visivelmente.
    As pequenas apresentações nos renderam um jovem empresário, praticamente um menino de 20 e poucos anos chamado Joosep, muito mais novo do que todos nós. Ele veio falar conosco ao fim de uma das apresentações num sábado, dizendo que gostara de nosso som e, quis nos oferecer um contrato. Era um dia antes do meu aniversário, e quando os meus amigos souberam, resolveram fazer uma comemoração dupla, me levando a um pub. Mal sabiam eles que eu nem tocava em uma gota de álcool.
    A noite toda Marcos, Timo e Matti se embebedaram com todo tipo de bebida alcoólica que se possa imaginar, principalmente Vodka. Coisa de finlandês mesmo. Eu no entanto, estava me sentindo horrível com aquilo pois, não conseguia me enturmar com pessoas cheias de álcool no sangue.
    - Poxa, é o seu aniversário – disse-me Timo me oferecendo um copo com uma mão enquanto com a outra, mandava vários goles de tequila goela abaixo – tome pelo menos uma cerveja.
    Rejeitei o copo com um gesto da mão.
    - Desculpe-me, meu amigo. Não fui feita para bebida alcoólica.
    O baixista abaixou o copo e assentiu parecendo amargurado.
    - Tenho a sensação de que estamos estragando o seu aniversário. Sinto muito.
    Sacudi a cabeça e fiz um gesto com as mãos como negação. Não queria que pensassem que eu estava chateada, pois a comemoração ali era muito mais pelo nosso contrato do que qualquer outra coisa.
    - Está tudo bem. A festa é também para vocês, e não só para mim – argumentei – posso me contentar com meu suco de frutas vermelhas. – Dito isso, dei um gole no suco. Aarne sentado ao meu lado, tomava uma taça de vinho. Ele também não parecia muito afim de outras bebidas.
    - Você não vai beber com seus amigos? Vai tomar apenas isso? – perguntei apontando para a taça.
    Ele assentiu com a cabeça engolindo o vinho.
    - Parece que temos muito mais em comum do que eu imaginava – disse galanteador e me deu uma piscadinha. Abaixei os olhos sem graça. Esvaziando a taça, o baterista depositou-a na mesa e pegou sua mochila ao lado da cadeira. Abriu o zíper e tirou de lá um pacote vermelho. – comprei algo para você. – Ele enrubesceu. Parecia constrangido. Imagina então como eu estava vendo aquele pacote sendo estendido para mim. – Feliz aniversário.
    - Ai, Aarne... – comentei insegura, pegando o pacote que constatei ser uma caixinha – não precisava fazer isso. Eu... obrigada.
    - Claro que precisava. É o seu aniversário.
    Sorrindo, olhei para o pacote ainda sem abrir.
    - Faz muito tempo desde que alguém se lembrou do meu aniversário – murmurei um pouco triste – e nunca foi uma data espetacular. Sempre esperava demais quando chegava o dia e aí, nada demais acontecia e eu me frustrava. Acabava ficando depressiva num dia que deveria estar feliz.
    Meus olhos marejaram e uma lágrima teimosa caiu, não sei se por recordar o passado ou se pela emoção de ter um aniversário lembrado finalmente. Ainda olhando o pacote, senti os dedos de Aarne tocarem meu braço num gesto de solidariedade. Olhei para ele que sorria amorosamente para mim. Vendo a lágrima escorrendo, ele levou as costas das mãos ao meu rosto, limpando-a. Os outros não prestavam atenção na gente e nem nós neles. A algazarra no pub estava grande, a música alta mas de repente ela ficou longe, e eu não ouvi nada mais. Aarne e eu nos fitamos calados por um tempo, como aconteceu da primeira vez que nos vimos. Mais uma vez tudo sumiu ao nosso redor. Sua mão continuava pousada em meu rosto. Entre nós existia muito mais do que algo que nos atraía ambiguamente. Existia respeito e cumplicidade, algo vindo de eras passadas, algo inexplicável e que nos unia como uma só pessoa, de alguma forma. Naquele momento eu percebi que o amava e respirei fundo para controlar esse sentimento que não me atrevia a revelar.
    - Quer dar uma volta por aí, sair desse tumulto? – questionou de repente me assustando – estou vendo que isso está de incomodando.
    Suspirei profundamente. Aarne me acalmava de uma forma tão genuína que até a amargura das lembranças passadas foi ficando de lado lentamente.
    - Sim – respondi – vamos sair daqui.
    - Com prazer – ele se levantou e ofereceu a mão para me ajudar a levantar. Aceitei-a.
    - Você sempre foi cavalheiro assim? – perguntei enquanto saíamos do pub – Ou está fazendo isso apenas para me conquistar?
    Aarne arregalou os olhos e ficou muito vermelho nas faces. Dei uma risada e levei a mão aos seus cabelos, bagunçando-os sem dizer nada. Ele também ficou mudo por um tempo.
    Fomos até uma pracinha um pouco à frente do pub, do outro lado da rua.  O inverno voltara e a praça estava coberta da neve da tempestade que acontecera na noite passada. Achamos um banco e tentamos limpá-lo da melhor forma possível para podermos nos sentar. Coloquei o pacote do presente no colo para abrir enquanto meu amigo me olhava com expectativa. Quando terminei de rasgar o papel e vi o que era, perdi a cor do rosto. Um Action Figure edição limitada da Rey de The Last Jedi, algo que sempre quis ter. Com cara de espanto, abri a caixa e tirei a bonequinha lá de dentro, tomando cuidado para não deixar as pecinhas caírem. Minha expressão fez Aarne rir divertido. Analisei a bonequinha centímetro a centímetro depois olhei para ele de olhos arregalados, as sobrancelhas erguidas.
    - Você é louco! – exclamei – isso aqui custa uma fortuna!
    - Não se preocupe com isso. É o seu aniversário – argumentou levando as mãos aos cabelos para tirá-lo dos olhos – você merece muito mais. Sabia que ia gostar. Mas... tem mais uma coisa que eu queria te dar.
    Ele pegou a mochila novamente e revirando um bolsinho, tirou de lá um pequeno envelope que me entregou com uma cara de satisfação completa. Peguei-o.
    - O que é isso? – indaguei abrindo o envelope; tirei um cartãozinho lá de dentro que dizia: “Vale uma estadia por um final de semana no resort Kakslauttanen” – Oh!
    Aarne emitiu um largo sorriso. Não me contive e me joguei em seus braços em agradecimento. Ele retribuiu o abraço rindo.
     - Demorou mas eu consegui uma vaga para você. – comentou por cima do meu ombro. – Agora você vai poder ver a Aurora Boreal e ainda vai poder escolher quando quer ir porque o vale não tem data de expiração.
    Sacudi a cabeça vigorosamente soltando-o. Eu não estava cabendo em mim mesma. Parecia crescer e a qualquer momento iria explodir.
    - Posso te perguntar uma coisa? – inquiri
    - Claro que sim.
    - Você existe mesmo ou eu estou sonhando?
    Aarne riu baixinho e corando levemente, abaixou os olhos entrelaçando as mãos no colo.
    - Sou apenas um ser humano normal, Elizabeth – disse me lançando um sorriso – eu só... eu gosto de fazer o que estiver ao meu alcance pelas pessoas que gosto.
    - Mas isso aqui é um Action Figure de Star Wars e uma estadia no resort de seus pais! – insisti – é muita coisa. Sabe, esse figure da Rey... bem, eu estava querendo-o a muito tempo. Como você adivinhou?
    Aarne suspirou lançando-me um olhar afável.
     - Bom... sabe eu adivinhei – dito isso fez um gesto com as mãos em forma de garras e levou-as ao alto da minha cabeça imitando um zumbi com a expressão vazia – entrei no seu cérebro. Cééérebroooooo!! – Suas mãos se fecharam sobre meus cabelos e senti a ponta dos dentes na minha cabeça. Caí na risada.
    Logo estávamos morrendo de rir em meio a uma neve fina que começava a cair.
    - Essa não. Melhor voltarmos para casa antes que isso aqui vire uma tempestade – proferi me levantando e pegando minhas coisas.
    Aarne assentiu e me levou embora. A noite findou e a madrugada chegou e foi sem dúvida um dos melhores aniversários que tive.
    Mal sabíamos nós o inferno que viveríamos nos próximos dias.



    A vida seguiu seu curso normal no dia seguinte, um sábado. Saí cedo para o trabalho e assim que cheguei ao restaurante, meu chefe mandou me chamar em sua sala. Fiquei apreensiva pois eu tinha medo dele de verdade. As moças que trabalhavam comigo me olharam preocupadas. Elas sabiam o que ele queria. Hoje fico embasbacada de pensar em tudo que elas passaram caladas, sem coragem de denunciar. O miserável as ameaçava o tempo todo e soube que ele levava uma arma para o restaurante. Além disso, possuía homens perigosos a seu serviço.
    Por isso mesmo fui até a sala do homem. Fiquei com medo de levar um tiro quando estivesse voltando para casa. Cheguei na porta e bati levemente. Ele mandou que eu entrasse. Abri-a e o vi sentado atrás de sua mesa arrumando uma pilha de papéis. Era um homem de 50 e poucos anos, acima do peso e de estatura mediana. Seu nome era Arvo. Seus olhos emitiam uma frieza desconfortável e eu não me lembro de já tê-lo visto sorrir. Não entrei na sala na hora. Estava tremendo de medo. Fiquei de pé ali no batente enquanto ele me analisava.
    - O senhor mandou me chamar? – perguntei aflita
    Ele me lançou um olhar guloso de cima a baixo que me deu nojo.
    - Ah, é você. Entre, por favor e sente-se – disse com um gesto para uma cadeira do outro lado da mesa.
    - Prefiro ficar aqui mesmo. O senhor pode dizer o que quer.
    O homem se levantou parecendo aborrecido. Inflou as bochechas e soltou ar, caminhando até mim.
    - Ah é, os boatos chegaram até você – ele disse se aproximando lentamente – não acredito que possa pensar isso de mim, Elizabeth. Eu que te empreguei, coloquei uma estrangeira na minha empresa, logo uma brasileira, povo que tem uma péssima fama. Está sendo muito mal agradecida, moça.
    E dito isso, Arvo pegou meu braço e me puxou com uma força descomunal pra dentro da sala. Cai no chão esparramada e ouvi a chave sendo girada no trinco. O pânico tomou conta de mim. Meu estômago despencou. Me levantei imediatamente indo para um canto da sala, o mais longe possível daquele maluco.
    - Fique longe de mim – gritei rouca
    Ele deu uma risada alta e foi se aproximando. Meu coração estava na boca. Não era possível que aquilo estava acontecendo comigo! Olhei a sala ao redor procurando algo com o que me defender ou mesmo se poderia pular pela janela. Mas constatei que ela possuía grades, com certeza colocadas ali propositadamente. O empresário chegou até mim com rápidas passadas, desabotoando a camisa lentamente. Corri até a mesa e peguei a cadeira que ele estava sentado antes e sem pensar duas vezes, joguei-a nele. Ela acertou sua cabeça e abriu um talho na testa. Isso só o deixou mais furioso e depois de segurar a cabeça por um tempo, conseguiu me alcançar rapidamente e me segurou pelos braços, sujando-me de sangue.
    - Venho te observando há muito tempo – rugiu ele – você achou que escaparia de mim? Eu só emprego mulheres bonitas e solteiras e as observo ao longo dos meses. Quando elas conhecem alguém, eu faço o que posso com elas, para mostrar-lhes que não existe amor, e que eu, sou muito melhor.
    Essas últimas palavras saíram num grito de sua boca enquanto eu me debatia, tentando me soltar de todas as formas. Mas ele era muito mais forte do que eu, 3 vezes maior. Suas mãos alcançaram partes do meu corpo de forma lasciva e eu senti vontade de vomitar. Tentou rasgar minha blusa e eu gritei o mais alto que pude e por isso, o empresário me deu um soco na boca. Doeu, vi estrelas mas aproveitei a chance de que ele havia soltado uma das mãos dos meus braços e não me fiz de rogada. Peguei seu punho e o torci ao mesmo tempo que elevei o joelho direito em seus testículos. Ouvi-o arfar. Entretanto, não se rendeu. Tentei novamente mas ele se desviou. Porém, estava fraco com a dor e por isso, consegui soltar meus braços e dessa vez, chutei novamente suas partes íntimas, enfiando a ponta da bota o que o fez desabar no chão, encolhido. Aproveitei para lhe dar mais um chute, dessa vez no joelho e um grito de dor agudo escapou de sua boca.
    Cuspi em seu rosto.
    - Você mexeu com a mulher errada, seu merda – grunhi – vou acabar com sua vida!
    Abaixei-me procurando a chave em suas roupas que eu sabia estarem escondidas ali. Achei-a no bolso da calça. Destranquei a porta e saí daquele inferno sob o olhar arregalado das minhas colegas de trabalho. Ninguém havia feito nada, era inacreditável. Lancei-lhes um olhar furioso e pegando minhas coisas, fui embora para não voltar nunca mais.



    Corri pelas ruas como uma desvairada, o mais depressa que minhas pernas bambas conseguiam enquanto as lágrimas escorriam abundantes pelos meus olhos. Não ousava parar, não ousava olhar para trás. Fui direto para a casa de Marcos, pois lá, me sentia segura e o psicopata maluco não sabia onde era – pelo menos eu esperava. Tinha medo de ir para casa e ele mandar seus capangas atrás de mim.
    Todos da banda possuíam uma cópia da chave da casa para quando precisassem ir para o estúdio ensaiar sozinho. Entrei fechando e trancando a porta atrás de mim. A casa estava vazia num silêncio absoluto. Marcos estaria no trabalho naquele horário. Corri para o estúdio aos tropeções e chegando lá, entrei e tranquei a porta, acendi as luzes e desabei no chão esparramada, perdendo os sentidos.



    Acordei ouvindo a voz de Aarne chamando meu nome aparentemente apavorado. Senti sua mão deslizar pelo meu cabelo e o ouvi fungar. Abri os olhos devagar e constatei que ele estava chorando. Olhei ao redor e me vi deitada em uma cama num quarto que eu não conhecia, as paredes cheias de pôsteres de bandas, um pequeno guarda-roupas de frente para a cama e duas estantes cheias de livros, CDs e vinis do lado. Uma janela ficava na parede logo à esquerda da cama.
    - Aarne – consegui murmurar. Olhei-o aflita vendo seu rosto banhado pelas lágrimas – Aarne! – exclamei levando a mão devagar até conseguir alcançar seu rosto. Limpei suas lágrimas como consegui e ele segurou minha mão enchendo-a de beijos. Estava sentado ao meu lado.
    - Graças aos deuses – gaguejou – graças aos deuses!
    Senti mais lágrimas suas pingarem no meu braço.
    - Não chore – pedi – por favor.
    Ele não disse nada, apenas acariciou meu rosto. Neste momento, Marcos apareceu com um pano nas mãos.
    - Ela acordou? – indagou indo até mim e vendo que eu estava com os olhos abertos, os seus marejaram – ah, graças aos céus! – Ele colocou o paninho na minha testa e percebi que estava húmido. – o que aconteceu com você, menina?
     Não respondi porque minha mente estava em branco. Claro que lentamente as lembranças horríveis daquele crápula passando a mão em mim, foram voltando à minha memória e uma dor perpassou meu corpo e meu coração.
    - Onde estou? – perguntei
    - No meu quarto – respondeu nosso vocalista – diga-nos o que houve, por favor!
    Aarne sacudiu a cabeça ainda segurando minha mão. Ele não parecia querer soltar-me nunca mais.
    - Calma, Marcos. Ela acabou de acordar. – disse.
    Marcos assentiu e os dois ficaram em um silêncio respeitoso por uns minutos, fitando-me. Recostei minha cabeça no colo de Aarne. Não queria sair dali nunca mais se pudesse. Aos poucos fui ordenando as memórias e resolvi contar a eles o que havia acontecido, sem omitir nenhum detalhe. Quando terminei o relato, os dois estavam furiosos. Aarne se levantou da cama de supetão, com o rosto vermelho de fúria.
    - Vou matar aquele desgraçado! – bradou possesso. Eu nunca o tinha visto daquele jeito. – filho de uma puta! Quem ele pensa que é? Desgraçado!
    O repertório de palavrões não parou por aí e enquanto ele falava, também andava de um lado para o outro no quarto.
    - Temos que fazer alguma coisa – disse Marcos com os punhos fechados encostado na parede do outro lado da cama.
    - Claro que temos. Vamos lá e vamos acabar com ele! – rebateu Aarne pisando duro.
    Me levantei devagar da cama sentindo o mundo girar. Quando a vertigem passou, caminhei até Aarne e segurei seus ombros para que ele parasse de andar daquele jeito.
    - Não adianta nada você ficar assim – murmurei – e não podemos fazer nada a não ser acionar a polícia e isso também de nada vai adiantar porque eles vão querer provas. O cara é perigoso e há homens que trabalham para ele. Todos andam armados, todos são treinados para matar e fazer o mal. São verdadeiros psicopatas.
    - E ninguém faz nada contra esse miserável? – Aarne perguntou nervoso. – e as mulheres que trabalham lá e ouviram você gritar? Elas não podem testemunhar? Não podem depor para te ajudar?
    Sacudi a cabeça.
    - Elas morrem de medo dele. Ninguém vai fazer nada – respondi desconsolada.
    - Eu vou lá embaixo ligar para a polícia – informou Marcos – eles têm que fazer alguma coisa. – E saiu do quarto nervoso.
    Fitei Aarne e tentei acalmá-lo com um abraço sem aviso. Ele suspirou fundo e retribuiu o gesto, mas senti que chorava de novo.
    - Não consigo suportar a ideia de que esse miserável tocou em você – disse com o rosto encostado no alto da minha cabeça – se você não tivesse se defendido, o que é que teria acontecido?
    - Não devemos pensar no que poderia ter acontecido e sim no que aconteceu. Eu me defendi dele e é isso que importa.
    Senti sua cabeça se movimentando em sinal positivo.
    Mesmo tentando ser forte, as lembranças me doeram no fundo da alma e as lágrimas voltaram involuntariamente. Uma das mãos de Aarne deslizou pelas minhas costas e a outra apertou minha cabeça forte contra seu peito.
    - Eu sei que está doendo – ele sussurrou – porque em mim também está. Como se nós fossemos um só. E eu sei o porquê disso. – dito isso, afastou-me um pouco para olhar nos meus olhos. – não é a melhor hora para falar disso mas acho que nunca conseguiria em um outro momento, já que estou dominado pela emoção. – suas mãos seguraram meu rosto encharcado. – eu... eu sei que você e eu... bom é... eu acredito na verdade, que...
    - Somos almas gêmeas – completei num sussurro, quase em delírio, como se a presença dele ali na minha frente, fosse uma miragem embaçada.
    Vi sua expressão mudar da fúria que estava sentindo, para a emoção. As lágrimas escorreram abundantes de seus olhos. Um sorriso amarelo nasceu em seus lábios e ele piscou, com uma expressão de afeto.
    - Eu... eu amo você – continuou falando num sussurro. A conversa toda foi sussurrada. – eu amo você e esperei a vida toda para te encontrar. – Seus dedos acariciavam meu rosto e eu fechei os olhos absorvendo aquelas palavras.
     Comecei a respirar com dificuldade. Nunca imaginei que ele poderia pensar isso de nós. Era realmente um homem sensível e diferente dos outros. Fitei-o longamente. Uma brisa fria entrou pela janela do quarto brincando com nossos cabelos.
    - Os deuses nos uniram nessa vida e nas outras. Fomos feitos para ficarmos juntos – disse Aarne.
    Não aguentando mais, aproximei meu rosto do seu.
    - Concordo. Eu também amo você – sussurrei com os lábios encostados nos dele e o beijei docemente.



    Quando Marcos retornou ao quarto, Aarne e eu estávamos sentados na cama e ele beijava meu rosto em todos os cantos, me fazendo cócegas. Conseguiu até me fazer rir um pouco mesmo diante de tudo que eu estava passando. Nosso amigo entrou no quarto pigarreando e olhei para ele assustada. Ele emitiu um sorrisinho de canto de boca como se dissesse: “até que enfim”.
    - Liguei para a polícia. – contou – eles disseram que precisam de provas para prendê-lo.
    - Que droga! – xingou Aarne batendo o punho fechado no travesseiro. – Só farão alguma coisa depois que acontecer algo pior. E se esse maldito vir atrás dela?
    Balancei a cabeça revoltada.
    - Eles esperam que filmemos o cara nos estuprando para poder denunciar? – rebati nervosa – não é possível!
    Marcos assentiu chateado.
    - Vamos pedir ao Timo para acabar com a raça daquele maldito. Ele é campeão de Jiu Jitsu – disse vingativo socando a mão esquerda com a direita.
    - Claro que não. Ele pode ser mestre e tudo mas não é páreo para uma arma de fogo. – falei. – eu preciso pensar. A única coisa que sei, é que não quero ir para casa porque sei que Arvo pode tentar me procurar por lá. Ele sabe onde moro.
    Aarne e Marcos concordaram.
    - Mas o que você vai fazer então? – perguntou Aarne
    Uma ideia surgiu na minha cabeça. Era hora de usar aquele vale do resort. Não seria um final de semana de folga maravilhoso mas era melhor isso do que ir para casa.
    - Vou para Kakslauttanen – informei – seu presente veio na hora certa, meu amor. Sorri para Aarne e ele retribuiu.
    - Ótima ideia – reagiu.
    - Mas... você pode ir comigo? Eu não quero ficar sozinha lá. Antes eu até ia sozinha, mas agora...
    Aarne ficou desconcertado. Isso implicava que ele teria que dormir na mesma cama que eu. Eu também não estava muito confortável mas situações desesperadas pedem medidas desesperadas. Eu queria a proteção e companhia dele, mesmo que essa proteção fosse simbólica de alguma forma. Fitei-o esperando sua resposta e depois de uns minutos ele concordou.
    - Sim, vou com você.
    Aquiesci em agradecimento.
    - Ótimo então, eu posso levá-los de carro se vocês quiserem – ofereceu Marcos – acho que seria perigoso vocês irem sozinhos.
    Concordamos prontamente.
    Passamos o resto dia na casa do vocalista e esperamos os outros chegarem para contar a eles o que tinha acontecido. Ambos tiveram a mesma reação que Aarne e Marcos mas já deixamos claro que nós não poderíamos fazer nada. Era melhor deixar baixar a poeira até Arvo sumir do mapa graças a minha ameaça. Não tinha essa esperança. Acreditava mais que ele me caçaria até o inferno na verdade.
    Ao fim do dia, Marcos nos levou para o resort. Passei em casa para pegar o vale e algumas roupas e Aarne fez o mesmo. Timo e Matti foram conosco. No caminho tentamos conversar amenidades para esquecer tudo aquilo mas volta e meia, todos estávamos sombrios de novo.
    Chegamos em Kakslauttanen uma hora depois e Marcos nos desejou sorte.
    - Vocês vão precisar – disse – e qualquer coisa, mandem mensagem, liguem se precisarem de nós. Vamos continuar telefonando para a polícia, está bem?
    Consenti balançando a cabeça e, dando a mão a Aarne, observamos o carro sumir na floresta pela estrada. Entramos no resort para dar nossa entrada num dos quartos iglus. Os pais dele não trabalhavam a noite e ainda bem porque eu não iria gostar de conhecê-los assim, de repente. Entreguei o vale e o atendente do balcão o pegou, cumprimentando Aarne com a cabeça. Ele analisou o cartãozinho, pegou uma chave numa gaveta e nos entregou.
    - Aarne conhece bem o local. Quarto 212, seguindo o caminho a direita, uns 200 metros.
    Agradecemos ao rapaz e seguimos o caminho do quarto. A neve estava espessa demais ali e era preciso quase levantar a perna toda para conseguir andar. O frio era cortante.
    - Se eu conseguir ver uma aurora hoje, esqueço toda essa merda, juro. – confessei.
    Aarne sorriu e me apertou contra seu corpo.
    - Tomara que vejamos uma então – torceu
    Achamos o quarto facilmente e rapidamente, tomamos conta do espaço, espalhando nossas coisas sobre a cama de casal que ficava no centro, ligando o aquecedor e comendo as coisas do frigobar na cozinha. O teto, totalmente de vidro nos permitia ter uma visão maravilhosa do céu. A noite deveria ficar esplêndido ali na floresta. Na frente da cama, havia uma mesinha com tampo de vidro e duas cadeiras acolchoadas na cor marrom. O banheiro ao fundo, perto da pequena cozinha, era luxuoso, com um lavabo do lado de fora. Devo confessar que o iglu de vidro era um pouco claustrofóbico. O manto branco de neve do lado de fora, era visível na altura dos olhos e parecia que a qualquer momento nos cobriria até o teto.
    Sentei-me em uma das cadeiras acolchoadas colocando as pernas para cima. Suspirei.
    - Isso aqui é maravilhoso. – murmurei.
    Aarne se achegou atrás de mim e começou a massagear meus ombros.
    - Eu sabia que você ia amar. – disse – espere até chegar a noite. Espero que você possa aproveitar, mesmo com tudo que passou hoje.
    Segurei sua mão e ele se abaixou e me deu um beijo no rosto. Levantei o braço e abracei seu pescoço, acariciando seus cabelos enquanto ele me abraçava entrelaçando as mãos no meu abdome.
    - Vou aproveitar pode ter certeza – garanti – e quero que você também aproveite e esqueça toda essa merda. Temos o final de semana pra nós.
    - Com você aqui comigo vou esquecer tudo, até de mim mesmo. – confidenciou-me e depois, dando a volta pela cadeira para sentar na beira da cama, me lançou um olhar com a sobrancelha levantada e um sorriso travesso.
    Explodi numa risada
    - Quem era mesmo que estava sem jeito de ter que dormir comigo na mesma cama? – brinquei.
    Explodimos em uma gargalhada uníssona. Pouco a pouco, eu estava deixando de lado as lembranças do assédio. Aarne tinha esse poder.
    A noite chegou e fomos para a pequena cozinha assaltar o frigobar novamente. Pegamos os quitutes assados que haviam lá dentro, recheados com carne, esquentamos num micro-ondas pequeno e levamos tudo para a mesinha perto da cama. Comemos olhando para o céu o tempo todo, ansiosos para ver uma aurora, nem que fosse só um pouquinho.
    Nada aconteceu. Aquele não era meu dia de sorte mesmo. Então, Aarne e eu resolvemos dormir, por volta das 2 da manhã. E aí sim, uma pequena Boreal começou a se formar no céu, seu rastro verde iluminando tudo ao redor. Já estávamos debaixo dos cobertores, minha cabeça deitada no peito dele, mas levante- me de uma vez, sentando-me extasiada.
    - Olhe lá – apontei – finalmente!
    Aarne também se sentou na cama e passando o braço pela minha cintura, posou o queixo no meu ombro. Aquilo para ele não era novidade, claro, mas para mim, era a coisa mais magnífica que já tinha visto. Fiquei hipnotizada e a imagem com certeza ficou registrada na minha cabeça para sempre. A noite terminara de forma mágica para mim, e eu esqueci de tudo, passando a noite em claro com Aarne ao meu lado, fazendo o possível para que minha mente permanecesse no aqui e agora, deixando o dia para trás.



    O final de semana chegou ao fim. Passamos o domingo andando pelo resort, comendo sem parar e curtindo cada canto da floresta cheia de neve. Fizemos bonecos de neve, anjos, jogamos bolas de neve um no outro até ficarmos exaustos, rimos até as lágrimas surgirem e, quando não aguentávamos mais, pedimos chocolate quente no restaurante do resort e fomos nos sentar na neve no meio das árvores. O dia estava no fim e a noite se aproximava.
    - Se eu pudesse, não voltava para a cidade – comentei com a cabeça encostada no ombro de Aarne – ficaria aqui para sempre.
    Senti sua cabeça encostar na minha e balançar em sinal afirmativo.
    - Eu também – disse – estou preocupado com toda aquela situação. Com certeza a polícia não resolveu nada se não, Marcos teria nos mandado mensagem.
    Concordei
    - Não posso fugir disso a vida toda. Teremos que enfrentar o que tiver que vir pela frente.
    Ele assentiu calado e parou de tomar seu chocolate. Também não quis mais o meu, pois meu estômago havia dado um nó. De repente, a bebida pareceu insossa e sem gosto.
    Às seis horas, voltamos para o iglu para pegar nossas coisas. Era hora de voltar para casa. Aí, foi inevitável conhecer os pais de Aarne, que nos abordaram na recepção do resort enquanto devolvíamos a chave do quarto. Quase morri de vergonha por eles nos verem juntos ali, com mochilas e tudo. Cumprimentei-os corada e Aarne igualmente vermelho nas faces, nos apresentou. Porém, eles foram doces e gentis comigo e eu pude entender a quem meu querido namorado havia puxado.
    Os dois decidiram nos dar uma carona. Me levaram até em casa e Aarne me disse baixinho para ligar para ele imediatamente caso acontecesse alguma coisa. Seus pais não perguntaram nada, mas eu sei que ele contaria tudo no caminho para casa. Bom, seria melhor assim. Quem sabe eles pudessem nos ajudar?.
    Entrei em casa apreensiva, mas pelo menos ali tudo estava em ordem. Mas eu não sabia que o pesadelo ainda não tinha acabado.
    Semanas depois, comecei a receber mensagens e ligações de ameaça de morte. Inicialmente, foram pessoas ligadas ao meu antigo chefe, mas depois, o próprio Arvo estava me telefonando sem parar. Dizia que iria se vingar e que eu deveria aguardar pela própria morte. Isso depois que ele fizesse comigo o que achasse que teria direito. Em pânico, fui até a casa de Aarne e ligando para nossos amigos, decidimos nos reunir na casa de Marcos. Entretanto, a reunião nem chegou a acontecer de fato. Nós dois fomos abordados na rua, na esquina de baixo da casa de nosso amigo. Podíamos vê-la logo acima, tão perto mas ao mesmo tempo, tão longe. Fui agarrada por trás, alguém tampou minha boca e me elevou do chão. E quanto a Aarne, deram-lhe uma pancada forte na cabeça, nocauteando-o. Olhei de olhos arregalados enquanto ele caia no chão, batendo a cabeça na neve macia. Me debati como podia, chutando as pernas no ar. Consegui morder a mão do meu agressor e ele me soltou gritando. Caí de joelhos no chão, mas não consegui dar dois passos, pois logo fui puxada pelo cabelo e pelas pernas.
    - SOCORROOOO! – gritei o mais alto que pude.
    Não sei quantas pessoas estavam me agredindo, mas calculei pelo menos uns cinco homens. Não vi Arvo junto deles. Entretanto, ouvi o barulho de um carro parar bem perto de mim enquanto os homens tentavam me jogar lá dentro. A porta de passageiros foi aberta por dentro e vi meu ex-chefe sentado no banco do motorista. Golpeei da melhor maneira que pude, chutando, esmurrando, socando e eles tiveram dificuldades de me colocar dentro do carro. Então Arvo saiu do veículo e foi até mim.
    - Vocês são uns inúteis! – esbravejou o homem. Puxou-me das mãos dos seus capangas com uma facilidade monstruosa. – vai me bater agora de novo? – perguntou furioso próximo do meu ouvido antes de me dar um soco no estômago e apontar uma arma para minha cabeça. Dobrei ao meio e me senti fraca. Ele me arrastou até o carro mas neste momento, uma viatura da polícia passava ali perto. Gritei socorro de novo e os militares pararam o carro. Cinco policiais saíram dela correndo. Percebi que Arvo hesitou por um momento e logo me puxou para ficar de pé, com a arma ainda na minha têmpora. Os policiais se aproximaram e graças aos céus, vi meus amigos chegarem para socorrer Aarne. Timo desapareceu do meu ponto de vista, indo para trás do carro do empresário. Matti foi até Aarne e o ergueu, tentando acordá-lo. Os policiais chegaram com armas em riste e os capangas de Arvo começaram a atirar neles. Apavorada gritei para que os rapazes saíssem dali.
    - Cale a boca, sua maldita – bradou Arvo me dando uma coronhada na cabeça. Senti o sangue jorrar quente onde um talho se abriu acima da sobrancelha. Comecei a chorar. Será que iria morrer ali, daquele jeito?.
    Os policiais continuaram trocando tiros com os capangas, procurando se esconder atrás de qualquer coisa que os protegesse. O próprio Arvo estava tentando atirar nos militares. Parece que ele havia se esquecido de mim ali sob seu poder. Entretanto, fraca como estava, não consegui me soltar de seu braço gordo.
    Três capangas foram alvejados depois de um tempo e os outros dois fugiram rua acima mas não por muito tempo, pois um dos militares correu atrás deles e conseguiu, com duas pistolas em ambas as mãos, atirar a distância, acertando ambos nas pernas.
    Um policial loiro e bem pálido pediu reforços no microfone. Depois, o vi se aproximar com arma em riste apontando para Arvo.
    - Solte a moça – ordenou rispidamente – solte-a imediatamente, Arvo. Você está preso por estupro, assédio, agressão e homicídio.
    Arregalei os olhos. Aquele homem era realmente perigoso e era conhecido da polícia e mesmo assim, eles não haviam feito nada antes. Era inacreditável! Os outros militares chegaram para o apoio e logo, as várias viaturas de reforço pedidas pelo policial loiro, lotaram a rua. Pelo canto do olho, vi meus amigos se aproximarem. Aarne estava de pé novamente, embora segurasse a cabeça numa expressão de dor. Fitei-o assustada e vi que ele perdeu a cor do rosto ao me ver naquela situação.
    - Não vou soltar coisa nenhuma – Arvo bradou apontando a arma para minha cabeça novamente. O sangue escorria pelo meu olho, dificultando minha visão – ela é minha, você está entendendo? Minha! Afaste-se e abaixe essa arma ou ela vai morrer aqui e agora.
    Os policias tentaram negociar com ele, mas nada adiantava. Ele queria se vingar de todas as formas. Queria me atingir.
    E conseguiu.
    Antes, tivesse me matado ao invés de fazer o que fez.
    Se aproximando de seu carro e me arrastando da melhor forma que podia, ele viu seus homens caídos. Alguns mortos, outros sendo algemados e levados para as viaturas. O empresário pareceu se dar conta de que estava em desvantagem pelo número de policiais que o cercavam, inclusive por trás de seu carro. Eu os ouvia gritar para que o homem me soltasse, ouvia os gritos de meus amigos, ouvia a voz de Aarne implorando. Então, resignado e furioso, Arvo me jogou no chão de bruços. Esperei por uma pancada ou por um tiro mas ele simplesmente pisou nas minhas costas e eu gritei sob seu peso imenso. Olhei para cima e o vi mirar sua arma para Aarne. Atirou.
    - NÃO! – gritei me debatendo, as lágrimas vindo com força no meu rosto sujo de lama e neve da rua – AARNE! AARNE!
    Vi meu amado cair no chão, vi meus amigos entrarem em pânico, vi os policiais se aproximando do empresário e outros, de meus amigos, tentando socorrer Aarne. Vi tudo aquilo como se tivesse com uma nuvem por trás de meus olhos. Eu estava em choque. De repente ele me puxou pelo casaco e tentou mais uma vez me arrastar para dentro do carro mas neste momento, Timo apareceu e o desarmou habilmente, levantando seu braço para cima e lhe dando um golpe na costela direita, depois, um soco no rosto. O nariz de Arvo quebrou e ele caiu para trás no seu carro, soltando-me. Cai de quatro no chão e me arrastei para chegar até Aarne, as lágrimas banhando meu rosto. Não olhei mais para trás. Cheguei até ele e constatei que o tiro, havia atingido seu peito. Porém, estava acordado.
    -Aarne, Aarne – gritei apavorada, sacudindo-o. O sangue do ferimento na minha testa se misturou com minhas lágrimas, fazendo meus olhos arderem. Acariciei seus cabelos e ele sorriu afetuosamente para mim. Ia falar mas eu o impedi.
    - Não fale. Poupe suas forças.
    Beijei-o delicadamente nos lábios e comecei a chorar sobre seu peito. Ele conseguiu erguer a mão e tocar meu rosto, erguendo minha cabeça.
    - Eu te amo – sussurrou olhando nos meus olhos.
    Balancei a cabeça vigorosamente e encostei meu rosto no dele.
    - Eu também te amo. Vamos te tirar dessa, amor.
    Marcos e Matti tocaram meus ombros ao mesmo tempo, enquanto a ambulância que eles haviam chamado, chegava. Os bombeiros desceram da viatura, colocaram Aarne delicadamente numa maca e o levaram para o caminhão realizando procedimentos de primeiros socorros. Subi junto e me sentei ao lado da maca.
    - Eu vou junto – informei aos bombeiros que assentiram e fecharam a porta. A ambulância partiu a toda para o hospital, com os giroflex gritando. Fitei o bombeiro que cuidava de Aarne, rasgando sua camiseta e limpando o ferimento. – Ele vai ficar bem?
    O bombeiro assentiu vigorosamente.
    - Não tenho porque acreditar que não. – respondeu – a bala não parece ter atingido o coração. Está alojada logo abaixo, numa costela. Fique tranquila, seu namorado vai sobreviver.
    Fiz que sim com a cabeça e segurei a mão de Aarne. Ele havia perdido os sentidos e ela estava frouxa.
    Chegamos ao hospital menos de 10 minutos depois. Aarne foi levado para a sala de cirurgia e eu fiquei esperando, sentada no chão do corredor ali próximo. Marcos, Timo e Matti chegaram meia hora depois, trazendo os documentos do baterista. Deram a entrada dele no hospital e indo até mim, não fizeram questão de me levantar do chão. Apenas se sentaram ao meu lado em silêncio e esperaram. Minutos depois, Marcos foi até o banheiro e molhou seu lenço me oferecendo para limpar o ferimento na minha testa. Aceitei-o com gratidão.
    As enfermeiras que passavam insistiram para que eu fosse dar pontos no talho mas eu me recusei a sair de perto da sala de cirurgia. Por fim, elas desistiram.
    Uma hora e meia depois, o médico que havia atendido Aarne apareceu. Nos levantamos na mesma hora.
    - E então, doutor? – perguntou Marcos porque eu não tinha nem uma réstia de voz.
    O Médico sorriu assentindo e amoleci de alivio.
    - Ele ficará bem – disse – conseguimos retirar a bala e ela nem passou perto do coração. Na verdade, não atingiu nenhum órgão. O pulmão ficou protegido pela costela, onde ela se alojou.
    Murmurei uma oração de agradecimento aos céus.
    - Obrigada, doutor – agradeci – eu posso vê-lo?
    - Ele está sedado agora. Acordará em algumas horas. Mas, se você for a acompanhante dele, poderá ficar no quarto. Os outros, terão que esperar o horário de visitas, daqui a uma hora. Tudo bem?
    Concordamos. Os rapazes foram para a sala de espera e eu fiquei ali, esperando que o tirassem da sala de cirurgia.
    Quando finalmente saíram, acompanhei os enfermeiros. Levaram-no para um quarto particular, no segundo andar do prédio. Estava ligado a um aparelho para ajudar a respiração e, uma bolsa de soro e outra com analgésico estavam conectadas por uma agulha em seu braço. Ele dormia como se nada tivesse acontecido. Instalaram-no no quarto e eu sentei-me ao lado da maca, em uma cadeira acolchoada.
    Não sei quanto tempo se passou porque perdi a noção de tudo. Por várias vezes, chorei copiosamente no quarto, torcendo para que ele não acordasse e me visse daquele jeito. Aarne levara um tiro por minha culpa e eu me sentia horrível. Fui ao banheiro, lavei o rosto e fitei meu reflexo no espelho. Eu parecia um cadáver de tão pálida. Me dei conta de que não havia comido nada desde a hora que saíra de casa e de repente, senti uma fome terrível.
    Saí do banheiro e quando olhei para Aarne, ele estava acordado. Arregalei os olhos.
    - Aarne! – chamei-o correndo em sua direção.
    Ele me fitou e sorriu calorosamente.
    - Aarne! – repeti e o abracei me debruçando em cima dele, esquecendo que estava com um buraco no peito. Mas ele não pareceu se incomodar. Seus braços me envolveram.
    - Oi, meu amor. – sussurrou ele – pensei que tinha te perdido para sempre.
    - Nunca! Estou aqui agora, e nunca vou te deixar. – Levantei a cabeça e ergui o corpo de cima dele, acariciando seu rosto.  – Sinto muito. Tudo isso é culpa minha, Aarne. Você poderia ter morrido.
    Amargurada, abaixei os olhos. Ele acariciou minha mão.
    - Você não tem culpa de nada. Uma vez uma sábia mulher me disse que o que importa é o que aconteceu e não o que poderia ter acontecido – respondeu sorrindo com carinho – você não vai se livrar de mim assim tão fácil.
    Emiti um sorriso divertido em troca. Sentei na beirada da cama com a mão em seu rosto e conversamos sobre o que tinha acontecido. Ele me perguntou se Arvo foi preso.
    - Não sei – respondi – depois que você foi baleado, eu não prestei atenção em mais nada. A única coisa que sei, foi que Timo o desarmou enquanto ele insistia em me jogar dentro daquele carro.
    - Timo o desarmou? – indagou surpreso – eu não sabia que Jiu Jitsu ensinava essas coisas.
    - Nem eu – ri
    Os rapazes entraram no quarto no horário de visitas e a conversa se tornou um pouco mais animada. Nos contaram finalmente que Arvo fora preso sim, e que Timo, iria receber uma gratificação da polícia pelo que fez.
    - Mais do que merecido, Timo – elogiei-o – você salvou minha vida. Agora, só tenho algo a te pedir.
    Ele me olhou surpreso.
    - O quê? – questionou
    - Que me ensine aquele golpe – repliquei e todos caímos na risada.


    A Rapidfire gravou seu primeiro álbum. Levamos meses trancados em estúdio dia e noite para que saísse algo perfeito. E quando vimos o resultado, foi um orgulho gigantesco. Agora, precisávamos torcer para vender o suficiente e conquistar uma leva de fãs. Fizemos alguns shows tanto na Finlândia quanto fora e conseguimos uma boa divulgação do mesmo. Nosso som agradou muitas pessoas. Tanto que tocamos em eventos grandes como o Wacken Open Air que acontece na Alemanha todos os anos. Não foi no palco principal, mas significou muito mesmo assim.  Agora, poderíamos nos dedicar somente à música e todos largaram seus antigos empregos.
    Um ano e meio havia se passado depois do fatídico episódio que quase matou a mim e Aarne. Arvo fora condenado a prisão perpétua e nós, agora, estávamos todos morando em Helsinque. O passado ficara para trás e a dor e o sofrimento também. Aarne se recuperou rapidamente e saiu do hospital duas semanas depois de ser baleado. Passamos a morar juntos numa casa de madeira no meio da floresta.
    Estava agora sentada na varanda, no chão, observando a neve de dezembro que caía, enquanto tomava um chocolate quente. Ouvi-o se aproximar de mim e sentar ao meu lado, me envolvendo em seus braços. Me aconcheguei a ele, beijando-lhe o rosto e ele sorriu, retribuindo o beijo só que na minha testa. Ficamos ali em silêncio por um tempo, até que um carro se aproximou da estrada e vi que era Marcos. Timo e Matti o acompanhavam. Levantamos do chão para recebê-los, e eles vieram e nos abraçaram agitados.
    - Vocês não vão acreditar – disse Marcos quase dando pulinhos de alegria.
    - O que foi? – indaguei franzindo o cenho.
    - Joosep nos ligou agora a pouco e nos contou que nosso disco vendeu cem mil cópias só aqui na Finlândia. Fora do país então, deve ter vendido o triplo. Eu nem imagino o número disso. Sabe o que isso significa? Que estamos famosos, ricos e tudo isso graças a nossa música.
    Entramos em êxtase. Foram gritos de alegria, vivas, pulos, abraços e beijos. Aarne me beijou longamente e me abraçou forte.
    Agora sim, minha vida finalmente poderia começar.
  • Ao vivo é muito pior

    A vida no pântano não era das mais fáceis, porém Leila já estava mais do que acostumada.
    Ria-se dos seus desprazeres, pois para ela eram motivo de alegria. Ria-se ainda mais quando podia causar desprazeres nos outros. Nada melhor para uma mente pequena do que a desgraça alheia. Não qualquer desgraça como uma topada na calçada, não. Uma desgraça como a fome, frio ou perda de um ente querido. Era isso que a divertia mais.
    Mesmo com sua formação de professora, Leila tinha uma mentalidade retrógrada e até mesmo vil. Cantarolava mentalmente as marchinhas militares dos anos 60 e 70 ao sair de casa e ter de atravessar o pântano todo dia para ir trabalhar.
    Há tempos que não sabia o que era lavar sua bota velha e lamacenta. A lama já fazia parte de sua alma. Era algo já indissociável que para ela de nada importava. Sua alma era lamacenta assim como o local onde vivia.
    Pé ante pé ela ia caminhando. Com um pé afundando depois do outro. Esquerda, direita, esquerda, direita. Sempre afundando um pouco mais numa mistura perfeita entre água, plantas aquáticas, lama, seres microscópicos e, é claro, um certo teor elevado de eutrofização que dava àquele emaranhado biológico um odor de podridão capaz de inutilizar os olfatos mais sensíveis.
    Ela não se importava. Gostava de viver nesse lugar horrível. Gostava de viver no que outros considerariam uma merda. O cheiro e as profundezas daquele barro pegajosos eram coisas já entrelaçadas ao seu ser. Desde que o Fürhermorreu, sua família vivia a beira da sociedade. Muitas fugas, muitos países. Muitos lugares inóspitos.
    Ou seja, ela só estava continuando o legado da família. Um legado de desprezo pela vida. Depois descontaria suas mazelas nos alunos e estava tudo certo. Essa era sua satisfação do dia a dia.
    Leila ensinava biologia.
    Sim, por mais contraditório que fosse, uma disciplina para aqueles que buscavam entender um pouco mais a natureza, para aqueles que de certa forma eram amantes da natureza.
    Não no seu caso. Nem tudo é o que parece. Cada vez mais a vida nos joga na face que não devemos nos amarrar nos pré-conceitos que criamos.
    Leila gostava do obscuro, gostava do que é feio. A natureza para si significava crueldade, significava sobrevivência a qualquer custo. A sobrevivência do mais apto. E ela era a mais apta. Ela era um exemplo a ser seguido. Uma imagem a ser contemplada e venerada por todos. Quem não cumprisse seus padrões de vida, ela desejava nada menos que a morte. Lenta e tortuosa. Essa era sua teoria da evolução. Sua teoria de vida. Sua visão de mundo impregnada como lama seca e fedorenta em sua mente. A natureza, assim como a sociedade, lhe era somente um lugar onde as mais variadas atrocidades aconteciam diariamente e ninguém se dava conta. Sua existência era uma dessas atrocidades.
    Por isso resolvera morar ali, rodeada por um pântano, um brejo repleto de jacarés do papo amarelo, jiboias e sabe-se lá mais o que. Onde kodamas eram expulsos e repelidos. Não tinha medo dos animais. Eles é que tinham medo dela. Ela gostava disso. Humanos são superiores em relação a qualquer outro ser vivo, disso ela tinha certeza.
    Na sua varanda ficavam penduradas algumas lembranças dos animais que por algum ato importuno do destino toparam com ela pelo seu caminho. Crânios de jacarés. Peles de cobras. Lagartos empalhados. Até mesmo insetos dos mais variados tamanhos e impensáveis para os moradores da cidade. Sua casa era definitivamente um circo dos horrores para os desavisados que esbarravam com ela quando se davam por perdidos durante alguma trilha.
    Felizmente, poucos tinham esse desprazer.
    Quando estava na escola, Leia era bem calada.
    Bem medíocre também.
    Só conseguia trabalho correndo atrás de político. Nunca teve a capacidade de passar em algum concurso ou conseguir trabalho por mérito próprio. Se não fosse a indicação política, não sei o que seria dela. Teria que viver do pântano. Comer lama. Não que fosse algo novo em sua vida.
    Nenhum aluno gostava dela. Ela dava as piores notas. As provas mais difíceis. Tratava todos com o mesmo desprezo com que tratava a vida. A palavra empatia não existia em seu vocabulário. Um ser que vive na merda tem prazer em transformar a vida dos outros em merda também. Leila representava bem esse personagem. Sentia-se solitária nesse caminho que escolhera para a vida, mas de forma alguma infeliz.
    Nem com outros professores conseguia manter alguma amizade. A direção da escola era obrigada a suporta-la somente para cumprir a legislação. Leila sabia disso, mas nem por isso deixava de levantar seu nariz pelos corredores da escola na tentativa de se mostrar superior aos outros.
    Superior em que?!
    Pois é. A auto ilusão é realmente um traço de personalidade a ser estudado com mais afinco.
    E sua vida seguia nessa toada. Escola, casa, pântano.
    Até que certo dia ao retornar da escola percebeu um murmurinho vindo do abismo brejoso que era sua vizinhança.
    Sons mecânicos vinham da direção sua casa.
    Eram maquinas. Muitas maquinas.
    Eram pessoas. Muitas pessoas.
    Por mais inacreditável que fosse Leila estava ganhando vizinhos.
    Encucada com o que estava acontecendo, Leila correu o mais rápido que pode em meio a lama. Se é que isso era possível. Sua bota já tinha ficado pelo caminho, mas depois ela pegava, pensou. Conhecia aquele lugar como a palma das mãos. Ao se aproximar do primeiro ser humano que vira, ela foi logo inquirindo-o:
    – Ei você, o que está acontecendo? Vocês estão malucos?! Por acaso vocês vão construir alguma coisa aqui?
    – Oi, senhora. Tudo bem? Vamos sim, se Deus quiser. Nós vamos morar aqui. Por enquanto está programado dez casas e duas igrejas. Dez famílias no total. — Continuou — Mas não se preocupe, são todos cidadãos de bem. Assim como a senhora.
    Leila ficou boquiaberta.
    Pensou: “Isso está realmente acontecendo? Será mesmo verdade isso?! As pessoas finalmente estão reconhecendo que a vida que levo é a melhor forma de viver? Melhor forma de criar uma sociedade? Ah se a Oma pudesse estar aqui pra ver isso!”
    O homem, ao ver que a moradora mais antiga do local estava sem palavras, continuou:
    – Pois é, senhora. Ninguém aguenta mais a roubalheira dos políticos. Nos roubam cada dia mais esses comunistas. Todos estamos cansados disso. Aqui, em meio ao pântano, com esse ar puro e límpido a sociedade brasileira há de se erguer, há de se reestruturar. Aqui fincaremos raízes pautadas no respeito à família de bem brasileira. A senhora é uma previu isso tudo, não é mesmo? A senhora é uma visionária, uma inspiração para todos nós!
    Leila, incrédula, já ia retornando para sua casa quando o homem finalizou:
    – Deus te proteja, senhora.
    – Sim, sim. — Ela murmurou.
    As obras iam de vento e popa. Os dias iam passando. Semanas. Meses.
    Cada vez mais pessoas chegavam.
    Leila já perdera a conta da quantidade de vizinhos.
    Ela nunca fora tão feliz. Finalmente encontrara pessoas que a compreendiam. Fizera amizade com todos. Todos que chegavam eram pessoas como ela, pessoas que viam a beleza em viver naquela lama, naquele lugar em eterna decomposição. Idolatravam o que era precário.
    Era um verdadeiro milagre.
    Obra do Messias.
    Obra de Deus.
    Leila percebia que aquele sentimento se espalhava pelo país. Aquilo em que ela sempre acreditou ia se tornando realidade. Na escola ouvia os burburinhos. Na TV não se falava em outra coisa.
    Não era um milagre pontual, não era só ali que isso acontecia.
    “Mais e mais pessoas optam por viver em brejos e pântanos.”
    Essa era a manchete do Jornal Nacional.
    Enfim seu sonho estava se realizando. A sociedade se transformando. Era um sinal de novos tempos para o povo brasileiro. Tempos de justiça, sem criminalidade e sem bandidagem estavam por vir.
    Na escuridão que estava por vir, enfim via sua vida fazer sentido.
    Não conseguia controlar sua alegria.
    Seu riso estava frouxo.
    Tão frouxo que sentiu um dente cair e ficar perdido pela sua boca com a língua a tentar domá-lo.
    Ela acordou. Um suspiro alucinado.
    Olhou para os lados assustada. Olhos arregalados. Desesperados. Pupilas buscando o melhor formato para visualizar onde estava.
    A memória vinha aos poucos.
    Quarto branco. Roupas brancas. Braços imóveis. Pernas imóveis. Cabeça imóvel.
    Somente seus olhos mexiam e tinham liberdade.
    De repente uma porta, grande e incólume, surge em meio ao branco das paredes que a rodeavam.
    Uma pessoa toda aparamentada dos pés acabeça de um traje típico de usinas nucleares amarelo entra no quarto.
    Mesmo abafado pela máscara que usava, é perceptível o tom de deboche em sua voz quando ele fala:
    – Vamos, presidente. Acabou a mamata.
    Pegando seu radinho na cintura, o enfermeiro comunica:
    – Solicito a liberação da estação de choque. Levando o sujeito 01 agora.
    – Confirmado. Pode trazer. — disse uma voz eletrônica do outro lado.
  • Aprendi ou finjo que aprendi

    Aprendi que amores eternos podem acabar em uma noite, que grandes amigos podem se tornar grandes inimigos, que o amor sozinho não tem a força que imaginei. Que ouvir os outros é o melhor remédio e o pior veneno, que a gente nunca conhece uma pessoa de verdade, afinal, gastamos uma vida inteira para conhecer a nós mesmos. Que os poucos amigos que te apoiam na queda, são muito mais fortes do que os muitos que te empurram. Que o 'nunca mais' nunca se cumpre, que o 'para sempre' sempre acaba, que minha família com suas mil diferenças, está sempre aqui quando eu preciso. Que ainda não inventaram nada melhor do que colo de mãe desde que o mundo é mundo, que vou sempre me surpreender, seja com os outros ou comigo. Que vou cair e levantar milhões de vezes, e ainda não vou ter aprendido tudo. É necessário crescer.
    Luca Schneersohn
  • Arroz com feijão [conto]

    Rafael estava com um problema com seus pais: eles descobriram que ele fumava maconha. O jovem vacilou com uma ponta no carro, e depois que sua mãe abriu o carregador de 12V para plugar o celular, e se deparou com aquele celofane do diabo, o garoto especial já não era tão especial assim. Na verdade era um problema. Aliás, vários problemas. “Quem pois aquela porcaria na boca dele?” “Será que ele está só nisso?” “Onde nós erramos?” Dr. Sampaio e a Sra. Sampaio estavam apavorados. Em estado de choque. A sujeira tinha chegado em casa. Era o primeiro sinal do fim dos tempos.
    Estava tudo abalado. Admiração. Confiança. Futuro. Quando eles chegaram em casa, colocaram aquela ponta na mesa da sala e olharam para Rafael, seu pai foi eloquente: “Não me venha com esse papo de é de um amigo.” “Você fumou isso no carro?” Foi o primeiro questionamento da chorosa Sra. Sampaio. Rafael estava sendo crucificado, e assim como Jesus parecia querer aquilo. Ele olhava para uma e para o outro com o desdém com que Pôncio Pilatos lavou as mãos. Como quem não tem nada para dizer.
    A postura era ultrajante. Inaceitável. “Também não é nenhuma novidade. Olha só para você.” “Depois que começou a faculdade você virou outra pessoa.” Era uma mistura de negação com raiva. “Você não tem nada para dizer?” Que tinha sido um erro. Que estava arrependido. Que não ia acontecer de novo. Que aquela droga maldita tinha pegado ele num momento de fraqueza e com a ajuda de Deus ele ia se livrar daquele terrível mau. Os dois topavam escutar qualquer coisa que soasse como um mea culpa. Assumir é sempre o primeiro passo.
    “Como assim não significa nada?” Significou muita coisa quando Césinha, o primo da Sra. Sampaio, foi preso com dezoito anos fumando maconha na praça. Foram cinco anos de cana. Nunca mais ele se recuperou. Significou muito para o Tio Joe, que começou assim e hoje é viciado em crack. “Que mané planta. Que outros tempos coisa nenhuma.” Vai pra cadeia sim. Não tem essa. É crime. Contra a lei. Vicia. Mata. “A única coisa que mudou  aqui é que você está metido com essa merda.” É coisa de vagabundo. Ninguém nunca viu alguém de bem envolvido com isso. Era como se o apresentador no jornal da noite estivesse narrando a verdade mais verdade de todos os tempos.
    Estupefata era o verbete que melhor definia a Sra. Sampaio. “Me diz que você não vai fazer mais isso, por favor.” Rafael olhou para o outro lado. O Sr. Sampaio bufou. “Conversa com a gente.” Implorou a mãe. E ele dizia: “Eu não deixo de fazer nada por causa disso.” Era um dos primeiros da XXVIV Turma de Biologia da faculdade, tinha um bom estágio, planos. Isso era só diversão, no fim do dia, como uma cerveja. “Como assim?” Não é simples assim. “Você vai precisar de mais, e mais e mais.” Não dá para controlar. É droga. “Em muitos lugares já é legalizado.” “Mas aqui não.”
    Conversa vai, conversa vem. “Meu filho, você não precisa disso.” Agora já parecia possível que o garoto especial fosse um especial com asterisco. “Como eu vou poder ficar tranquilo sabendo que você está por aí com drogas?” O Sr. Sampaio apelava e demonstrava amor ao seu jeito tosco. “Onde você vai para comprar essa porcaria? Olha o tipo de gente que você está se envolvendo.” Se as leis não servem aos interesses da sociedade, ou se as políticas públicas favorecem confrontos sociais, “não são assuntos para serem debatidos em casa”, entre uma família que tenta salvar sua cria. “Isso não é problema seu. Você tem que trabalhar,” finalizou o patriarca.
    Minutos de silêncio. Agonia. Choramingos. “Isso é só uma fase” era a frase que piscava em um luminoso de neon que brilhava dentro da cabeça da Sra. Sampaio. “E enquanto você tiver nessa fase vai ter que se virar sozinho” era a reação que parecia óbvia para um pai, segundo as convicções do Dr. Sampaio. “Tudo bem”, era a forma mais rápida que Rafael via de acabar com a contenda.
    Uma pulga saltou de trás da orelha da Sra. Sampaio gritando: “ele vai embora de casa, ele vai embora de casa.” Dr. Sampaio não se oporia. “Tome um banho que vou arrumar o jantar”, disse a matriarca na esperança de restaurar a harmonia e a família. Rafael levantou e foi para o quarto. O pai olhou para mãe com cara de preocupação, depois ligou a TV. Ela foi para cozinha preparar o jantar.
  • As Três Maravilhas

    Os dias passaram o arrastando por trombadas de sentimentos incontroláveis. Pensava ele estar acima das suas emoções, porém, por pensar estar acima, tirara a mão do mastro, e fora arrastado pelas tempestades sentimentais. Forças destrutivas o empurraram novamente a lama, e se sentira energeticamente imundo. Abrira a porta escrotamente para o mal de si, e violara a regra de sua santidade e perfeição. O mal o rondara, e percebera-se insano.

    Não podia crer que novamente tropeçara… o mesmo ciclo vicioso… a cobra que morde o próprio rabo… a mordida na própria língua.

    Entretanto, o Sagrado com toda a sua Mística o amava. E como uma mulher estéril que sorriu de felicidade pelo fim de sua improdutividade, ao ter um varão, na sua velhice… o Sagrado, assim, pacientemente, e rigorosamente, o educava com AMOR.

    O Místico Amor…

    O Amor do Amante e do Ser Amado… que faz do dois, três, e das três maravilhas uma só PRESENÇA.

    Havia entre eles compreensão e trabalho mútuo… era o pequeno e O GRANDE… o fraco e O FORTE… o encarnado e O IMANIFESTO…, que se despontavam em duas formas distintas, o inferior e O SUPERIOR. Contudo, um dependia do outro para ser visivelmente revelado.

    A Inteligência Superior a ele ofertada o fazia diferente dos demais, por isso, ao cair se levantava rapidamente… O SAGRADO compreendia que os tempos atuais eram ofuscados por uma sombra de trevas e ignorância, e que a LUZ teria como trabalho romper a cápsula de ignorância em que o SER AMADO nasceria, pois não tinha como nascer numa poça de lama sem estar melado por ela… só que ele mesmo (O Ser Amado) estava cansado dessas repetidas quedas na poça suja. Suas quedas eram mínimas em sua totalidade, nada que magoasse alguém, nada que ferisse… nada que matasse… nada de inveja, cacoetes, ou avareza… nada de arrogância, intolerância e cinismo… nada de extrema ignorância ou alienação. Caía contra ele mesmo… caía em sua perfeição, em sua santidade.

    E assim, se magoava e se autopunia, porquanto, almejava o principado. Por isso, os cavaleiros sombrios o perseguiam, e caía, quando, enganado pelo pequeno eu, amante da luxúria, cega e apaixonadamente o dominava. Entretanto, sabia quem era o inimigo, o estudara, o observara… e, também, o compreendeu… e dele mesmo teve compaixão.

    Vira os seus pequenos filhos que ao longo do seu nascimento no mundo das ilusões, nascera de suas traumáticas experiencias. Todos eles estavam berrando e choramingando por comida. O seu filho Medo tinha como iguaria a egoística proteção e isolamento, e a culpa era sua sobremesa favorita; Já a sua filha Ambição se deliciava de glamour, com biscoitos recheados de estrelismos. Porém, o que mais lhe preocupava, era seu filho mais velho Desejo, que crescera além da conta, e, trouxera sua amante Luxúria para habitar em sua morada, e juntos se deliciavam no doce picante chocolate da paixão.

    Notara que alimentar esses filhos seus era trabalho de sua personalidade mecânica e falsa, habitante dos infra mundos, cultivada exatamente por todas as coisas que contraiu e aprendeu em toda sua vida social metropolitana, fixa pelas teias de pontos de vistas alienados a uma realidade criada nos padrões ilusórios do pensar, sentir e agir mecanicamente.

    Sim! Ao se observar e autoanalisar a sua personalidade induzida…, sem sombra de dúvidas em sua mecânica ambiguidade, se percebera homem-máquina… um mero robô-humanoide que trabalha, se alegra, sofre, se droga, goza, come e dorme. E, pensara na etimologia da palavra robô, provinda do russo Работа (rabota), que quer dizer: trabalho, algo meramente mecânico, e percebera que seu instinto não passava disso… uma mera programação… pronta para executar as suas funções animais de prazer e dor. Graças a uma ignorante educação equivocada, que o adestrou a atuar, desde infância, em um frágil mundo de mentiras, em razão dos múltiplos episódios exteriores e de choques aleatórios, que abrolham em seu interior algumas mudanças quase sempre errôneas, ou não coincidentes com o evento em tese.

    E, assim, oculta e perspicazmente se sentara na poltrona da sua existência…, e vira seus malcriados filhos, que, insistindo em crescer em sua persona, desde cedo, assumir o controle da condução de sua vida mecânica, pois, estes, veio a existência unicamente por causa da pressão dos dramas, tragédias e comédias que se apresentam nas telas e palcos da vida. Claramente vira, que por culpa dessa mecanicidade do ser, O SAGRADO perdera sua essência e fragrância, despossibilitando a sua santa e perfeita manifestação harmoniosa, em sua vivência material orgânica. Já que toda forma de ação conscientemente mística-divina, fora substituída pelo automatismo mecânico do individuo social… o chamado cidadão comum.

    Analisara que sua débil e frágil personalidade mecanizada e controlada pelos ‘eus’ criados de si se adaptava a ambientes e pessoas. Escaneando e criando autoimagens em costumes e hábitos moldáveis pelo intelecto, utilizando de discursos e palavras, pensamentos e movimentos ilusórios, que utilizavam de hipnose consciente para o adormecimento da própria consciência.

    Ao se perceber mecanizado, resolvera ir a fonte de tudo que o programava… sentou-se em profundo silêncio, fixando os olhos ao chão… fizera uma pergunta ao universo do seu ser… e, prometera a si mesmo levantar-se, apenas com a resposta. Fixo em sua empreitada, o tempo, destruidor de todo gênero e criações humanas, ali parou. E, percebeu a expansão do seu próprio Ser Divino, além matéria, e viu o quanto era amado e protegido por essa Absoluta Grandeza. Também, junto a essa visão divina, se culpava por não se dedicar totalmente a esse Primeiro Amor… era o Ser Amado, porém, por não ter o Divino Amante por primazia, ainda não o conhecia. E, por ainda não o conhecer em sua Divina Essência, não se tornou o instrumento musical de suas harmoniosas canções… não alcançando ainda o Imanifesto que manifesta tudo.

    Em sua meditação sabia que a viagem era longa, e o trabalho pesado, a vida corpórea orgânica e encarnada tinha que enfrentar o mundo para se livrar de suas rédeas e freios. Sabia que o mundo material não passava de uma escola da alma, por isso, o alienado entretenimento social não o sequestrava.

    E, clamando silenciosamente orou: “Ó Sagrada e Mística Essência Divina que se assenta no trono de meu coração; Grande Sol Central Esplendoroso, mais radiante entre todas as luzes desse plano material; Magnifica Lua Cheia que ofusca as luzes cintilantes de todas as estrelas no imenso escuro dos céus; Consciente Inteligência do Eterno Sentido Divino; Grande Oceano pelo qual desagua todos os rios; Soberano entre as fontes de todos os néctares nascentes; Leão de todas as selvas e pastagens. Ó tu de olhos abertos em todos os lugares, fala-me diretamente sem intermediações, pois, tenho sede de ti. Como poderei eu te conhecer… aqui sentado e meditando?”

    Ali, parado, meditando por horas afinco, nada ouvira… nada vira… e não deslumbrara nada.

    Portanto, sabia que para poder receber as ondas de vibrações harmoniosas do SUPERIOR, primeiro tinha que se domar: educar todos os seus sentidos… peneirar todos os seus pensamentos… frear todos os seus sentimentos… adestrar todas as suas emoções. Se conhecer e ser o senhor de si mesmo, deixando de alimentar os seus ‘eus’ criados, e, assim, matá-los de fome e sede, para que educadamente perceba a superioridade do Pai, e possa o servir com frequente piedade e fé inquebrantável.

    Intentara evolutivamente que a melhor riqueza e nobreza do ser humano é a FÉ. Que seguindo a missão de sua existência no aqui e agora, atrairia a verdadeira felicidade que é independente e indiferente a ter alguma coisa, e ser algo ou alguém de sucesso para viver. Que, interiorizando e espiritualizando cada ação, até o ato de limpar uma fossa de merda pública em reverencia e gratidão, chegaria à maestria e principado. Degustara o doce mel da verdade, e queria obter os melhores dos bens e serviços devocionais, vivendo a vida sabiamente vivida purificando todas as maldades suas e dos demais. Descobriu que pela Fé… atravessaria as tormentas, pela Sinceridade… o mar dos egos e, pela Bonança e compaixão… o outro lado do reino da morte.

    De repente, em sua meditação, o espírito destruidor que o tentava, o inundou de maus pensamentos, gerando em sua mente maus sentimentos. Vira claramente a face do Anjo da Destruição, prateada como a lua em sua feminina forma tentadora, que faz lançar a culpada alma nos infra mundos infernais, e que goza de toda desolação. Ela estava deslumbrantemente irresistível, e cheirava paixão e luxúria. Seu sexo molhado de gozo tentador estava exposto, e latejando desejo o chamava. Sua boca parecia doce como mel, melados de néctar do prazer. No entanto, um pensamento de morte passou como vulto em sua consciência… e, meditando profundamente, enquanto se via nos braços demoníacos da luxúria, freou sua paixão, e disse, dessa vez, em voz audível: “Ó Dona de meu Desejo, como és bela e tentadora, estou agora ardendo de paixão e tesão por ti, porém, sinto seu calor arder como brasa, se me entrego a ti queimarei minha alma em sua chamas mortíferas. Ó Espírito de Tentação! Penso agora em minha morte, e tenho ela agora como fiel companheira. Você não tem mais lugar em mim”. Falando isso, o Tentador se dissolveu diante de seus olhos como um monte areia a esparramar pelo chão.

    A partir daquele dia as três maravilhas abundou o seu ser… de um que era se tornou vários; de vários, um; manifesto ou invisível atravessa sem resistências as paredes, as rochas como se penetrasse uma queda d’água de cachoeira; submergia na terra, e tornava a subir como se fosse o mar; caminha nas águas como se fosse terra firme; voava pelos ares como os pássaros, e sentava nas nuvens como os seres inefáveis; até a lua e o sol inflamados de calor, Ele acariciava com suas mãos, e no mundo dos deuses e semideuses se manifestava em glória; conhecia os homens e lia os seus pensamentos, sabia dos caminhos de sua alma, aquilo que faz elevar e tropeçar, dizendo: “Esse é o seu pensamento e desejo. Isso ou aquilo está em seu espírito. Este é o destino que te espera.”; E tinha sabedoria e inteligência para instruir e adestrar qualquer alma vivente.

    E assim, se manteve calmo e sereno em sua iluminação. O AMOR do AMANTE envolveu o SER AMADO, purificando de todas as impurezas acumuladas em seus centros orgânicos. O humanoide de programação emocional, deletou sua atividade efemeramente mecânica, transcendendo o corpo biológico, que agora era o receptáculo do SAGRADO em si mesmo.

    Nada mais o afetava, livrou-se do medo… fez da morte física sua companheira, e matou-se a si mesmo, renascendo das cinzas do sofrimento, se purificando nas águas do arrependimento, emergindo no ar do Sagrado Conhecimento… não por estar isento de emoções e sentimentos. Mas, unicamente por se livrar do corpo mortificado do desejo… que, ilusoriamente se ajoelhava perseguindo o prazer, e alienadamente orava fugindo da dor.
  • Azul sempre foi a cor mais quente

    Azul sempre foi a cor mais quente
              Eu já havia lido light novels na internet. Acho esse gênero literário tipicamente japonês adequado ao nosso frenético século XXI. Não vamos confundir com contos ilustrados, pois, cada título é lançado periodicamente, formando um ou vários volumes. Além disso, a narrativa se ampara nos diálogos, e não nas descrições. Períodos curtos, linguagem sintética e acessível. Ótimas para iniciar alguém na leitura.
              No Novembro Negro, eu adquirir alguns títulos na Comix Book Shop, loja que todo leitor de quadrinhos ou otaku deve visitar. Comprei mangás nacionais e uma light novel. Pela primeira vez eu iria ler uma obra desse gênero impressa. A novel é um spin-off da franquia multimídia K. O livro é intitulado K: Side Blue, em volume único. A obra é escrita por Furuhashi Hideyuki (GoRa) e ilustrada pelo Suzuki Shingo (GoHands).
              A obra segue a rotina da organização Scepter 4, que tem seus componentes formados por espadachins com capacidades sobre humanas. O órgão é ligado ao governo japonês, e está sob liderança de Reishi Munakata, “o Rei Azul”. O objetivo desses leais espadachins é combater os denominados “sensitivos”, pessoas que também possuem poderes especiais, os “Betas”.
              O “protagonista” da trama, se é que podemos falar dele assim, é Takeru Kusuhara. Kusuhara era um jovem policial que acabou entrando em contato com “Betas” e de modo inesperado, desenvolveu seus poderes psíquicos. Ele é convidado para entrar na Scepter 4, mas para isso, terá que dominar as suas habilidades e saber manejar o seu sabre. Ao longo de sua trajetória, ele conhece o sombrio Gouki Zenjou, seu misterioso veterano.
              Reishi Munakata parece até pouco na obra, embora estampe a capa. O vemos em ação em momentos decisivos, mas só. Kusuhara opera mais como um alivio cômico, embora tenha destino trágico. Quem rouba a cena da light novel é Zenjou, o espadachim de um braço só. A escolha é interessante. O relacionamento entre os personagens e a virada da trama são excelentes.
              Aparece muitos termos originais, mas todos possuem nota de rodapé. A ação da obra é de cunho intimista, desenvolvendo mais os conflitos internos dos personagens. A obra tem uma história coesa e fechada em seu tomo. Tem bastante humor, e até um pouco de fanservice, nada demais, achei bem leve. As ilustrações são medianas, parecem mais o reaproveitamento dos modelos de personagens do anime de K, mas representam bem as cenas do livro.
              A leitura foi rápida e bem fluída. Achei alguns períodos muito longos, sem vírgulas ou aposto. Eu confio na tradução da Karen Kazumi Hayashida, sei que foi publicada em 2012, mas ela já tinha experiência com tradução. Senti falta mesmo foi de uma melhor revisão, Fábio Sakuda e Patricia Pereira Homsi poderiam ter feito um trabalho de adaptação bem melhor.
              Acho que se você quiser uma leitura descompromissada, leve, se deseja conhecer a narrativa de uma light novel ou se iniciar no mundo da leitura, essa obra é a certa para você. Mas se você quiser conhecer a franquia, eu recomendaria o anime ou mesmo os mangás. Ela se passa antes de alguns acontecimentos da obra original, foca em um lado da história, então não serve como introdução.
              A obra possuí 190 páginas divididos em 6 capítulos. Tem orelhas em capa cartão, capa e contracapa ilustrada. Tem uma galeria de personagens logo no início, cada capítulo tem uma ou duas ilustrações, algumas em páginas duplas, todas preto e branco. O papel do miolo é offwhite e de baixa gramatura. Eu recomendo por ela ser volume único e apresentar uma história que mesmo quem não viu ou leu K pode entender.
    Para adquirir com descontos, acesse aqui:
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  • B A I I S C T N Â

     

     

                           B                              A

                              I                         I

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                        t e l e              v i s ã o

     


                        t e l e             v a z ã o

     


                        t e l e              v a z i o

     

     

     

     

     




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    © "Copyright" do Autor, IN: Concursos literários do Piauí. Teresina, 2005, Fundação Cultural do Piauí. 226 p. Página 188.

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