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filosofia,

  • Brechas

                                                                              
    Entre as brechas de nossa calmaria
    Facilmente poderá ser encontrada
    A água corrente que pode fugir
    De nosso controle;

    Poderá ser encontrada
    Pedras, troncos, gritos roucos
    Que mantemos em um calabouço
    Quando nos convém;

    Entre as brechas de nossa calmaria
    Nos deparamos com o que nos põem a prova
    Com o que nos consome ou deteriora
    Lentamente em nosso íntimo;

    E em algum momento
    Ou algum instante...

    Encontramos o que de fato,
    Nos torna ou mostra
    O quanto somos pequenos
    Simplesmente ínfimos;

    Assista a Prosa: https://www.facebook.com/Marcos.negrarte/videos/1235547686524968/
  • Brilho do seu olhar !!

    Eu não me perco no brilho do seu olhar, mais nele encontro tudo aquilo que eu procurava !!
  • Buscando a luz da verdade

    Quando ainda era criança, aprendi com meu pai que deveria sempre dizer a verdade e jamais mentir. Desde então eu pedia a Deus em minhas ora­ções que sempre me mostrasse a luz da verdade.Por mais cruel que pudesse ser, e que eu tivesse o discernimento necessário para poder en­tende-la de maneira correta.
    Os anos se passaram e posso afirmar com toda convicção que meu pedido foi satisfeito, e conheci verdades que me levaram a rever tudo aquilo que pensava ou fazia.Hoje arrependo-me de ter feito tal pedido, pois percebi que a verdade em sua essência tem a força necessária para destruir a vida de alguém.A sua revelação carrega consigo o poder de separar uma família, ou transformar um lindo sonho em uma triste realidade.
    Aquilo que buscamos incansavelmente e chamamos de verdade pode em segundos fazer desmoronar os sentimentos mais puros, e fazer brotar dentro de nós o que existe de mais sórdido em nossa alma.Este  trans­torno entre sentimento e verdade leva-nos a abrir mão de inúmeras coisas que até então julgávamos de suma importância.E entre elas esta a nossa própria vida.
    Quando procuramos obstinadamente por uma verdade, nem sempre compreendemos que a sua descoberta trás consigo a necessidade de to­marmos decisões.E é claro, na maioria dos casos estas decisões interferem não somente em nossas vidas.Em algumas situações estas verdades influ­enciam diretamente no ambiente em que vivemos, e conseqüentemente na vida das pessoas ao nosso redor.E isto pode ser um cenário difícil de se lidar.
    Então fica a pergunta:
    Será que estamos realmente preparados para encontrar a verdade que tanto buscamos?
       
  • Cão Morto

    Muito morto, tanto quanto pode ser. Sim. E mais: Contente.
    Senti uma bofetada no rosto. Ele não, estava morto. Um morto não se assusta com um vivo, muito menos aquele desvivido, bravo. Negaram, abandonaram, maltrataram e por fim, mataram-no. E mesmo assim, permanecia como um monumento anônimo numa rua perdida de uma Curitiba estranha. Olhos escancarados em desafio inconveniente à vida que lhe foi tão custosa, a língua para fora estancando um sorriso macabro.
    Voltando ao golpe. Fui pego de surpresa, mas é redundante, golpes são assim. Eu que, arrogantemente, andava em plena vida nesse mundo de imortais, me virei, dei de cara com a morte. E ela me esbofeteou. Justo. Sem aviso ou mensagem, interrompi sua peça póstuma em ousadia digna de gente. Como quem não quer nada adentrei em sua morada e chutei o trabalho de sua, ironicamente, vida.
    Mas foi ela (a vida) quem primeiro me bateu, a fragrância de milhões e milhões de seres vivos lutando uma batalha infinda pelos restos do cão, excretando compostos dos mais variados e malcheirosos. Desculpa, menti, afinal a vida e a morte são a mesma donzela, e seu tapa era igual. E ele ria, em deboche. Ele? Sim, o cão.
    Porque, fruto do desprezo de milhares de pessoas estava ali, morto mas nunca tão cheio de vida, contra a vontade de todos que empinaram o nariz a ele. Havia vencido. Pela ação de milhões de decompositores cada pedaço de matéria em sua carcaça renasceria, era imortal e isso lhe dava certo contentamento a morte e a vida que teve.
    Um dia, pensei eu afagando o rosto moralmente doído, ele será gente, e empinará o nariz para aqueles que um dia lhe foram irmãos no abandono. Ai eu entendi. Tempos atrás, havia sido cão e, algum dia, amaldiçoei essa raça esnobe e estranha que me negava. Ironicamente, em uso do ciclo interminável da matéria, eu renasci gente e tive a chance também de negar meu passado oculto. Devo tê-la tomado, não lembro, o que torna o pecado ainda pior.
    Ele ria entre moscas e tive pena, por fim. Meu rosto já esfriava, o dele era o próximo. As mil próximas vidas lhe custariam muito mais que essa, ele ria, morto, contente, inocente.
  • Capítulos vagos de vidas miméticas e contemporâneas

                    Certamente é um assunto bastante recorrente nos dias de hoje as questões sobre a tecnologia e a vida, as divergências e compatibilidades sobre conceitos que se criam e as maneiras de se adaptar a um mundo que ao mesmo tempo se torna maleável e em outros aspectos tão caótico, e não apenas no sentido de uma presente apostasia, mas sobre infelizmente um sentido auto reflexivo, que nos conduz a natureza humana, que por mais fascinante que possa parecer também apresenta uma realidade decepcionante
                   Certa vez me deparei com um sujeito no começo de minha graduação em psicologia e que viria a ser um grande amigo, e me surpreendi com o fato de que ele não tinha facebook e nem whatsapp, me recorreu que se tratava de alguém que não tinha o menor interesse em certos assuntos que a um ano atrás por incrível eu pareça não me interessavam também, já que eu também não tinha whatsapp e o meu fecebook estava parado a muito tempo. Tratei de me dar o luxo de refletir sobre a conversa que tivemos neste mesmo dia e me surpreendi como fazia tempo em que não conversava de forma tão franca com alguém, e para minha maior felicidade ele declarou a mesma coisa no dia seguinte ao falarmos sobre a conversa que tivemos no dia anterior, pois não a nada mas felicito para um mero estudante que procura o conhecimento saber que ele não é o único a estar num caminho que poucos procuram trilhar nos dias de hoje. Indo mais fundo eu quis refletir mais um pouco e voltei cerca de 2 anos atrás quando estava no ensino médio e relembrei alguns momentos em que observava as pessoas ao meu redor fazerem planos para um futuro pouco distante já que tinham a ideia de terminar o ensino médio, fazer uma faculdade e arrumar um bom emprego. Era totalmente incongruente com a realidade do que a vida pode significar
                    As pessoas após um tempo de reflexão percebi eu, estavam vivendo uma realidade que não era a delas, mas sim uma realidade que foi projetada. A medida em que eu pensava sobre os aspectos que a levaram a tal decisão percebi que elas simplesmente reproduziam o que viam em filmes, livros de uma péssima literatura e logicamente como qualquer brasileiro comum o que os famosos passavam como uma vida justa, tranquila e repleta de felicidades. Sinto muito em dizer que isso não se trata da vida, nem mesmo se trata de um rastro do que seja ela em sua essência. A vida é nossa única viajem, a viajem que devemos entender nossos propósitos e nossas necessidades como pessoas que podem ter tudo e se sentirem legitimamente pessoas com vidas vagas e sem um sentido, ou podemos ter poucas coisas numa visão geral do mundo mas com a satisfação de sentir que não lhes falta algo, pois o vazio cósmico do qual muitos declaram ter não faz parte de sua vida, mas sua própria história faz parte de uma história de vida digna da qual viveu, ou ainda termos ter em um sentido material, financeiro e mesmo assim ainda entender que isso pode fazer parte de você, mas não de uma vida cuja essência tem muito mais a oferecer do que propriamente o dinheiro e bens materiais. Acreditem quando digo que mesmo com todas nossas falhas e sendo naturalmente corrompidos tão facilmente, existe um sentido para sermos dignos de uma vida da qual nos abstemos de todas as coisas tão facilmente conquistadas num sentido contemporâneo, do que muitas vezes pode ser uma mera ilusão da qual passamos tanto tempo de nossa vidas tentando conquistar, porém não se trata daquilo que é inerente a cada ser humano em sua singularidade, a sua vocação, aquilo que nascemos para cumprir, nosso propósito. Se em algum momento de sua vida passou por sua cabeça que as coisas da qual tem lutado tanto para conquistar não estão fazendo o mínimo sentido, suspeite que isso se trata de uma pequena centelha daquilo que seu espírito tem clamado por toda uma história deturpada pela contemporaneidade.
                   Em um momento decisivo de minha vida, encontrei um grande amigo me aconselhou em muito aspectos, se tratava de alguém com grande fé e me lembro claramente de um momento em que ele me aconselhou sobre questões de relacionamentos que podem ser para um vida toda, se tratando especificamente de casamento. E ele me contou sobre experiências de vida com outras pessoas a qual aconselhou e relatou também sobre como as coisas desde quando ele era jovem tinham mudado, principalmente em relação a sociedade em um processo de decadência contínua. As palavras naquele momento me invadiram de tal forma que me lembro quando disse: “Se quer uma vida abençoada, viva sem reservas!”, pode parecer um tanto leviano, mas repare bem quando ele disse que seria uma vida abençoada, e não apenas uma vida da qual vivemos sem o mínimo de abstinência sobre aspectos que não acrescentam nada ou mesmo ações que levam a uma satisfação momentânea, se trata de uma vida inteira a ser refeita todos os dias, dando o nosso melhor por um presente que constituirá e dará em certo a certeza de um futuro melhor. A contemporaneidade com seus conteúdos manipuladores e maléficos tem matado essa essência de esperança na vida das pessoas. Não estou dizendo que as pessoas tem que parar de fazerem o que gostam, somos humanos e temos nossas satisfações em coisas que são de nossas preferências, porém temos que nos libertar de coisas que não fazem parte de nossa singularidade como pessoas únicas se tratando de um sentido maior que a leviandade, e de renunciar aspectos que não nos levam a lugar algum, apenas nos fazem desejar aquilo que não é feito para nós e que se trata de uma publicidade qualquer ou de um filme romantizado que nos expõe como humanos fracos que somos e seguimos tão fielmente aquilo que nos é posto com um prato atrativo todos os dias. Sinto dizer que se em algum momento achamos que o que vivemos durante todo o decurso de uma vida é decisão apenas nossa, que em algum momento acreditamos estar certos sobre como a nossa vida termina, estamos absurdamente errados sobre o que se trata a vida em seu maior sentido. A vida como anteriormente deixei claro se trata de uma viajem, uma única viagem da qual estamos fadados a trilhar com a certeza de um momento em que teremos de deixar as coisas aqui conquistadas e trilharemos outro caminho. Nossos corações devem estar no sentido maior da vida, tem que estar em algo que não nos decepcione ou mesmo nos faça acreditar em algum momento nos abandonará. Deus se trata do maior sentido da vida, ele é a Fé, o Amor e a Esperança que a humanidade necessita.
  • Celeiro de José

    O dardejar dos raios de sol pressagiava mais uma aurora naquela fazendola no interior agrestino. As sabiás e os bem-te-vis desatavam a cantar e as cigarras já indicavam o castigo solar que vinha. Seu José acordou tremendamente diferente, tinha tido um pesadelo que talvez prenunciasse a algo. Acordou abatido, mesmo assim, não se deixou levar pelas intempéries oníricas, foi metodicamente realizar seus quefazeres cotidianos: ordenhar a vaca, cuidar da ração dos bois e carneiros, alimentar as aves; enquanto isso Maria, sua mulher, estava preparando o café. Quando foram tomar café, maria notou josé muito abatido e questionou-o: 
    —o que aconteceu com você? 
    —nada não mulher. 
    —deixe de enrolação, sei muito bem quando está incomodado com alguma coisa. 
    —deixe de bobagem e vá tomar seu café. 
    —Mas num vou de jeito nenhum. cuide e desembuche logo. 
    —eu já disse 
    — você num disse nada. pois tá bem. 
    e assim maria saiu arretada da cozinha. Durante a tarde, após José chegar da roça, maria notou muito estranho; ele estava escrevendo algo em um papel. Maria ao vê-lo, gritou: 
    —Que danado tu tá fazendo agora? 
    —nada não 
    —endoidou agora. Este matuto tá escrevendo agora. Meu Deus, é o fim do mundo. 
    —não tô escrevendo. Cuide procurar o que fazer. 
    —Vish maria, tá perdendo o juízo. Nem cinquenta anos tem ainda e já tá pirando. 
    Após esse ínterim, Maria foi preparar uma sopa para o jantar. Seu José ainda não saiu do quarto e isso causou novamente um grande incômodo a maria. Ao terminar a sopa, maria pegou uma colher de pau e foi até ele descobrir o que estava fazendo. 
    —O que danado tu tai fazendo zé. 
    —já disse, nada. 
    —cuide, me dê esse papel aí. 
    E maria ferozmente tomou o papel da mão de josé e ficou muito surpresa, ele não estava escrevendo e sim desenhando; desenhou uma espécie de casa. 
    —que diabos é isso agora? você virou desenhista foi? 
    —não! disse ele friamente 
    — e o que é isto então? 
    —já falei que não é nada. 
    —Mas num to cega. Você vai me dizer dum jeito ou doutro. cuide desembuche de uma vez hôme. 
    —Eita mulher para aperrear meu juízo. Isto aí é apenas um desenho que veio na minha cabeça. 
    —pra que tu quer isso? 
    —pra nada. 
    foi quando maria pegou uma vassoura que estava no quarto e ameaçou ele impiedosamente. Ele, temendo levar umas porradas, acabou contando o que estava por trás daquele desenho. 
    Maria ao ouvir, disse que ele estava bem doido mesmo. José calmamente retrucou: talvez! 
    No dia seguinte josé foi coletar madeira para tal projeto e isso deixou maria perplexa. 
    Passaram 4 meses, José estava prestes a terminar o seu projeto. Maria cada dia ficava mais preocupada com a loucura dele. José de tempos para cá, começou a trabalhar incansavelmente, plantando, colhendo, estocando, construindo... 
    Quando por fim terminou seu projeto, não aparentava uma casa e sim um grande celeiro. Ele estocou comida não só para ele como também para seus animais. Os vizinhos acharam josé muito estranho, eles se perguntavam o por quê de tanto trabalhado, e além do mais, para quê um celeiro no sertão. Certa vez, veio uns primos distante até a casa de José, com uma pretensão implícita, eles vieram trazer alguns produtos orgânicos como forma de omitir sua verdadeira intensão: descobrir o porquê dessa construção. Ao passar o dia, eles em uma conversa trivial, acabaram induzindo ao questionamento do celeiro. José disse que era para se proteger contra o frio, e assim, eles discretamente riram, e retrucaram: 
    —Seu zé, de onde é que esse frio virá? Aqui é sertão e o único frio que tem é o da geladeira. 
    José por um momento se omitiu mentalmente, refletindo sobre o seu sonho assustador. Após alguns segundos, ele retornou e disse: 
    — Certa vez tive um sonho curioso. E que me fez fazer isto. 
    — Que sonho, conte-nos? 
    — A terra quente e amarronzada do sertão ficava fria e branca. 
    —Mas zé, ter pesadelos é normal, pesadelos e sonhos são distorções da realidade. 
    —tempos atrás, sonhei durante 2 semanas o sertão morrendo, não pelo calor e sim pelo frio, nos dois últimos dias da sucessão de sonhos, vi uma casa no meio do gelo, era grande e abrigava animais, era o celeiro que fiz. 
    —Zé, aqui é agreste, é até difícil chover, imagine gear . Sertão é seco, nem Antônio estava certo, quando disse que o sertão ia virar mar. E agora vem você, dizendo que vai nevar. 
    —Se não acreditas, não cabe a eu julgar. O que eu tive foi uma visão, que por mais que seja bobagem, a convicção que tenho é que esta estiagem vai dar lugar a uma passagem, em que ninguém ia imaginar. 
    E assim, seus primos saíram rindo, e josé calado ficou, Maria cada vez mais preocupada com José, pensou que ele deva está doente e que o sol quente tenha fritado seu juízo. 
    Em uma noite calma, uma chuvinha fina dançava sobre as telhas. Acresce que, aos poucos essa chuvinha começava a engrossar, e José na cama dizendo que a hora já ia chegar. De manhã cedo, José acordou, a chuva ainda estava forte, pegou um guarda-chuva, e foi até seus bichos guardar no celeiro. Quando voltou molhado, a mulher se arrepiou, pensava ela: será que ele está certo, será que com o dilúvio a neve vai chegar?. Mas tarde a chuva parou e o sol novamente raiou, sem piedades evaporou tudo que na terra foi abençoado. O calor reinou e com isso maria viu que josé estava errado. José não ficou preocupado, disse a maria que no seu sonho, aquilo era um aviso, e mas tarde a neve ia chegar. Passaram semanas, meses, e o sol cada vez mais forte, o sol castigava tudo e todos, a água estava escassa e josé ainda não desanimou. Maria estava com medo de José perder o resto do juízo que tinha com aquela ideia fixa. Após 3 meses do projeto de josé ter sido finalizado, a chuva começava a lavar a terra estéril, o pasto vagarosamente crescia, os animais se deliciavam, as seriemas gritavam anunciando a vida que nascia do solo rachado — era o paraíso. José sempre com a convicção iminente, tinha fé na sua profecia. Os meses foram se passando e a seca foi reinando, tudo que em um momento vivia o apogeu, viu seu declínio sendo devastado com sol... 
    Até hoje os bisnetos de José levam a profecia do tataravô como uma emblema. Quem sabe um dia do sertão o sol se canse, da chuva a neve surja e José fique lembrado como um profeta do passado, que tanto foi criticado, com seu sonho enigmático.
  • Céus de Sangue

    Retrato e conclusões absurdas num caminho que ergui com maestria a vida dos mortos fúnebres agora eles não me impedem de ver o Escuro estóico eu me vou a sonhar pelos encantos do sangue oh vida de Nosferatu!... E agora? Somente peço à morte que não me falte ela me falará de caixões e rosas tudo um holocausto breve vamos Rumanesk! Agora a vida te cala nos céus dos Soturnos angélicos fálicos.
  • cicatrizes

    vida,eu já sinto tanto a tua falta,minha vida está muito vazia,o meu coração está vazio. será que tu sente a minha falta como eu sinto a sua? será que tu pensa em mim como eu penso em ti?nós quebramos as nossas promessas,nós erramos,eu errei,você errou,eu errei comigo mesma ao achar que nosso amor devia acabar,minha vida tava um caos,eu tomei várias decisões erradas,ter te deixado foi a maior delas,e agora eu não posso mais voltar atrás.
    acho que sempre estarei esperando a tua volta,me culpo todos os dias por não ter coragem e força o suficiente para ir atrás de você. você aconteceu na minha vida. e meu corpo e a minha alma ainda estão conectadas a ti.
  • Clássicos De Verão


    classicos de verão

    Na Divisão Dos Movimentos Kudza É Um Resultado Sísmico, Capaz De Ascender Um Big Bang Com A Simples Ajuda De Um Palito De Fósforos, Quando Deus Deu Luz A Vida Ele Usou O Meu Corpo Como #PapelQuímico, Eu Sou Um Universo Vivo, Sou O Esboço De Histórias Que Só Ganham Vidas Quando São Expostas Em Livros, Raros São Os Humanos Que ConseguemOlhar-se Com Os Olhos Dos Outros, Se Vidas Fossem Como Partículas De Água Os Oceanos Seriam Neutros, Já As Nuvens Seriam Os Monstros. Esse Telhado De Vidro É Um Obra De Arte, O Coração Desespera Mas O Espírito É Um #NegócioAParte O Meu Tem A Fisionomia De Uma 13ª Arte, Só Existe Uma Coisa Que Eu Gostaria De Saber, Como É Que O Céu No Céu É? Somos Acordados E Postos A Dormir Pela Mesma Insignificância, A Morte Só Te Permite Viver Pois Ela Ama A Vida, Sou Nada Mais Que Um Pombo Correio Entregando As Mensagens Deste #NamoroADistância, Não Sigas A Tendência Pois Estamos Sempre De Partida.

    O Sabor Do Medo Condensado Sobre A Tua Pele, Bloqueia O Consciente Incapacitando-Me De Comentar, Kudza Acabaste De Entrar Em #ModoEfeitoDeEstufa Está Na Hora De Deixar O Planeta Respirar, Vagarosamente O Ovo Desfirmamenta, Por Cada Mesma Aparência Perdemos Uma Nova Existência, Kudza- Porque Que Sempre Que O Mundo Fala, O Burro Nunca Pousa As Orelhas E Nunca Se Cala? Quando O Passado Bate A Porta A Gente Nunca Abre, Atenção Ao Que Hoje Dizes Pois O Amanhã…#AGenteNuncaSabe, As Negativas Influências São As Mais Letais, Desgastado Por Inexistentes Inexistências De Vidas, Que Apenas Ao Dinheiro É Que São Leias, Vou Dando A Corda E O Mundo Gira, Pessoas São Como Cobras, Entre Enroladas Entre Cordas E Só Nas Costas Ficam…#ÉlaQueCriticam. Kudza- Eu Tenho Uma Vida Conturbada, Vocês Perto De Mim Não Passam De Fantasmas Em Depressão, É Bom Que Tenhas Uma Cratera Paradoxal, Muitos Trazem Aquela Conversa Fiada, Mais Baixam Sempre A Cabeça A Corrupção. 

     “A Maior Distância Entre Duas Pessoas É O Mal Entendido”

    Essa Sorte Tornou-se Num Azar, Os Meus Atormentos Estão Mais Aterrorizados Que Um Coração Num Altar, Se Está É Uma Pergunta De Sim Ou Não, Porque Que Pressuponho Que A Resposta, Tem O Poder De Fazer O Matriz De Um De Nós #SeDesintegrar, Adicionei Alguns Anos De Dor, Aos Maliciosos Movimentos Enviados Pelos Que Gostam De Odiar, Moldei-o Na Forma De Um Coração, Kudza Concedeu-lhe Vida, Kedson- Agora É A #HoraDeReenviar, A Derradeira Desilusão Terá Acontecimento No Momento De Revelação Da Verdadeira Ilusão,Kudza Dá-me Dá-me Um Bolt De Sorte, Pois Eu Não Avisto Meta, Pequenos Desafios Ensinam O Corpo A Manejar A Dor, Se Este Percurso Fosse Uma Linha Reta, Hoje Eu Já Teria Conquistado O Teu Amor, O Sentimento É Prematuro Mas Já Afetou A Mente, Eu Vivo Desligado Mas Por Ti Liguei-me A Corrente, Kedson Encontra-se Perdido Entre Os Perdidos E Achados, A #FlacidezEmocional São Como Novos Horizontes Esperando Ser Revelados.

    Eu Não Lamento, Eu Não Esqueço, Eu Não Prometo! Se Os 2 Sentimos O Amor Porquê Que Não O Usas, Em Vez Disso #AbusasDoPoder Aparentas Ser A Minha Heroína Mas Não Me Das A Chance De Te Poder Converter, A Minha Carência Carece Por Uma Deusa, A Tua Beleza É A Armadilha Na Qual Fui Submetido, #DemasiadasEscolhasRelacionadas, Mas… O Meu Amor Não Carrega Duplo Sentido, Eu Sou O Indivíduo Que Não Se Concilia Com A Multidão, Kedson Foi Convertido Pelas 12 Horas De Luz Enquanto Kudza Foi Metamorfoseado Pelas 12 Horas De Escuridão, Palavras Digitalizadas Neste Abismo Onde, Egos São Mais Surdos Que O Amor Que Encargo No Meu Coração, Se Morrer É Acordar Então #VivemosSemDormir, Amassaguei A Cama Espreguicei Os Lençóis E Deixai A Almofada A Refletir.  

     “Viver Não É Necessário. Necessário É Criar”

    Porque Que A Tua Imagem Está Constantemente A Invadir A Minha Privacidade? O Teu Sorriso É Tão Ágil Quando A Minha #MentalAgilidade Kudza- Ela É A Filha Proveniente Da Primeira Lágrima Entornada Pelo Criador, No Intercâmbio De Palavras Descarto Certas Memórias, Pois Essas Mesmas Carregam Histórias Onde O Final Nunca É Promissor, Mas Nesta Memória Eu Quero-te Ao No Meu Roteiro, Prestigiada Por Uma Alma Pura Ela, E A#BelezaDaNatureza E Eu Sou A Verdura, O Coração Só Recebe A Mensagem Quando Já É Tarde Demais, O Pensamento Vive Em Conflito Contra Ideias Quem Nem Sempre São As Mais Ideias, Mas Eu Prometo Beijar Os Teus Lábios Da Mesma Maneira Que As Ondas Beijam A Areia, Serei O Teu Príncipe E Tu A Minha Pequena Sereia, Essa Vida É O Nosso#PontoDeEncontro, Vem Comigo Criar Um Novo Conto, Somos Anjos Caídos Procurando O Caminho De Volta Para Casa, Tu És A Outra Metade Da Minha Asa, Só Juntos Poderemos Alcançar O Céu, E Viver No Paraíso Que Deus Prometeu.

    “A Arte É A Auto/Expressão Lutando Para Ser Absoluta”

    Kedson
  • COM CERTEZA ELES NÃO ACREDITAM EM NADA DO QUE PREGAM!

    “Santidade”, hipocrisia e falta de caráter definem a personalidade de muitos dos que se escondem atrás de uma bíblia!
      Será que a grande maioria dos que dizem ser “povo de deus” e a quase totalidade dos líderes religiosos acreditam de fato em deus, em suas pragas, recompensas, castigos ou em todos os atributos inventados e a ele referidos?
     Claro que não! Se acreditassem em pelo menos 3% do que dizem acreditar a respeito desse ser, de sua fúria e do seu “zelo” pela justiça jamais fariam o que fazem e não usariam a sua “santa palavra” para explorar os incautos, levar vantagens sobre o povo ignorante ou para abusar de quem quer seja de forma alguma.  
      Dizer acreditar em algo e fazer o oposto do que se diz pode ser sinal de descrença, de loucura ou de mau-caratismo! No mundo real, as coisas funcionam de modo diferente, pois toda força ou ação aplicada tem efeito equivalente, duplicado ou reduzido à força que fora aplicada. No mundo das fantasias tudo pode ocorrer de acordo com um roteiro pré-programado pelos editores e equipes de apoio.
      A crença na justiça, santidade, onipresença, onisciência, onipotência e amor incondicional de deus supera o melhor dos roteiros de ficção já elaborados pelos homens, pois é possível trazer para a vida real e viver o antagonismo dessas ideias num mesmo “filme” e ainda assim ser aplaudido como se fosse sinal de inteligência.
       Como em toda obra intelectual, os criadores de tais produções detém os direitos reservados sobre suas obras, podendo inclusive projetar níveis diferente de ações com o objetivo de aumentar suas lucratividades ou envolvimento do personagem com o público, a depender do dos que irão consumir tal obra.
      Com a “obra de deus” não é diferente, e tanto os criadores dos roteiros e personagens, quanto os que irão protagonizar as cenas podem viver de forma permanente os personagens que desejam encarnar dando vida a cada um deles, vivendo o tempo todo entre o real e o imaginário se dar conta disso.
      Como prova que vivem em um eterno conflito dual de realidades, usam deus como arma de ataque, defesa ou como álibi em ocasiões e propósitos específicos podendo inclusive acreditar e não acreditar em seus poderes e atributos de modo simultâneo.
      Na vida real, ninguém em sã consciência pega em um fio de alta tensão sem proteção mediante aviso prévio por meio de sinal visual ou sonoro pois sabe muito bem que será prontamente fulminado.
       Ninguém tão pouco em perfeito equilíbrio emocional toma veneno, pula em queda livre a partir de uma certa altura, se joga na frente de um automóvel pesado ou penetra a si mesmo com objetos contundentes em pontos vulneráveis pois sabe que irá morrer ou se ferir gravemente.
      Esses atos tem efeito imediato, são reais e de fato podem matar ou “punir” instantaneamente o praticamente. A menos que o indivíduo esteja querendo dar cabo a própria vida faria tais coisas e assim mesmo o faria justamente por sabe que funciona!
      O engraçado é que os que se dizem ser povo de deus e tementes a sua palavra mesmo afirmando que deus é real, justo, punitivo e que nada escapa dos seus olhos insistem em matar, estuprar, mentir, roubar, extorquir, e acima de tudo cometer delitos e todo tipo de abuso em nome desse ser mesmo sabendo que a morte e o castigo eternos os aguardam.
       São essas pessoas suicidas ou o que? Isso não te parece estranho? Não seria isso uma prova viva de que eles mesmo não acreditam em nada que pregam? Na verdade os que agem dessa forma no fundo sabem que as qualidades atribuídas ao objeto de culto ou o próprio não passa de uma fantasia coletiva e por isso não serão punidos a menos que essa punição seja dada pelos homens “pecadores”.
       Para justificarem a própria fantasia em manterem viva em mente essa mitologia herdade de outros povos, os únicos atributos não verbalizados e não expostos “biblicamente” desse deus que eles acreditam de fato são a inércia e a conivência.
      A esses atributos eles dão o nome de perdão, graça divina e favor imerecido, ou seja: um passe livre para aprontar infinitamente sabendo que serão isentos de punição só por que creem justamente num ser cujas características foram inventadas com propósitos específicos.
       Fraqueza e manipulação do demônio posso afirmar que esses comportamento não são, pois se fossem, nos países de maioria ateísta esse comportamento seria mais frequente e no entanto é o contrário: onde menos as pessoas terceirizam suas responsabilidades aos deuses, mais responsáveis elas costumam ser e ali, onde direitos e deveres andam lado a lado, “o diabo” não tem vez!
      Na cabeça desse “povo de deus” os “atributos divinos” como justiça, retidão, onisciência, onipresença e onipotência servem apenas para intimidar outras pessoas quando numa tentativa de diálogo pacífico não se tem mais argumentos para emitir ou pode ser usado também para manter os súditos mais obedientes sob capricho das lideranças.
      Afirmar que deus é justo, que cuida do seu povo e que atende todos os que invocam ou seu nome e ao mesmo tempo se deparar com situações diárias de tragédias dentro das próprias “casas de deus” onde tais atributos para nada serviu, é preciso ser muito insano ou ter adaptado a mente para viver duas realidades antagônicas ao mesmo tempo.
       Esse deus imaterial, todo poderoso, cultuado no ocidente cuida tanto do seu povo quanto um ídolo de barro “cuida” de qualquer um que lhe peça alguma coisa!
       Que digam isso os que diariamente por pessoas diversas morrem massacrados, estuprados e violados clamando até o último suspiro pelo nome desse ser que nada faz para os livrar.
       Que digam isso todos os indefesos e vulneráveis que diariamente tem seus corpos ou seus direitos violados justamente por aqueles que usam vestes de santidade e ocupam funções clericais dentro dos “recintos sagrados”.
       Que digam isso todos aqueles que são ludibriados pela ganancia e são levados a investirem até o ultimo centavos em projetos de enriquecimento de vigaristas religiosos achando que estão fazendo alguma coisa para deus. Do alto de sua inercia, o inexistente aprecia e nada poderá fazer a menos que nós mesmo venhamos tomar as dores uns dos outros.
       Nesses casos, a velha frase: “entrega teu caminho ao senhor, confia nele e ele tudo fará” deveria ser substituída para: “entrega teu caminho ao senhor, confie nele e você vai se ferrar”! Ou ainda: “entrega seu caminho ao senhor, confia nele e trouxas tu serás”! E a pior de todas: “entrega teu caminho ao senhor, confie nele e você vai tomar naquele lugar”...
       Se nós humanos, falhos e “pecadores” não cuidarmos, amarmos e respeitarmos uns aos outros, deus nenhum o fará! Como animais em processo constantes de evolução, para alguns de nós, certos arquétipos sociais mais atrapalham do que ajudam na maioria dos casos.
       O arquétipo de um deus justo e verdadeiro que guarda o seu povo é um deles que serve apenas para provocar inercias, irresponsabilidades, culpas, vitimíssimo, ganancia, soberba e abusos de todos os níveis. .
      Para muitos desses “ungidos do senhor” de caráter duvidoso, não há estratégia maior e mais eficaz de exploração e manipulação que fornecer informações falsas que preencham justamente o nível de ganancia e medo dos que se sujeitam a essa classe, como se eles fossem linhas teofânicas ligadas diretas ao telefone pessoal do chefão do universo.
       Uma cortina de fumaça feita por um ilusionista bem treinado oculta até os mais impuros gestos num dia límpido de verão diante de uma plateia de crédulos. Esse truque eles sabem fazer perfeitamente.
       Não há um ilusionismo maior que dizer: “faça o que eu mando mas não faça o que eu faço”! Ou ainda: “se vivemos de modo antagônico a tudo que cremos não há problema algum, desde que publicamente afirmemos que acreditamos e estamos na verdade e o resto é tudo mentira!
      A maioria das pessoas foram levadas a crer por meio de alguns desses ilusionistas que se auto intitulam “homens de deus” que é por causas dos ateus, dos que não acreditam em deus, que o mundo vive o mal que vive, que deus estar irado com esse planeta justamente por uma minoria que não acredita nele.
      Não deveria ser o contrário? Isso não te parece antagônico? Já que a grande maioria das pessoas acreditam em deus, ele deveria estar muito feliz com todos e derramar bênçãos infinitas sobre todos de igual modo, cumprindo à risca suas funções jurídicas de justiça, onisciência e onipotência.
       Mas não...sua ira se derrama sobre a terra por causa de um punhado de pessoas que não se dobram a contos de fadas! Ahhhh...Vão catar coquinhos! Vão lamber sabão! Até jornalistas renomados falam com frequência esse tipo de absurdos em cadeia nacional e o povo aceita sem questionar!
       Segundo a visão desse mesmo tipo de gente, deus estar ocupado demais vigiando quem faz sexo anal para punir no dia do juízo final. Deve ser por isso que não tem tempo de proteger todos os indefesos que clamam incessantemente por ele. Nem mesmo os “bichinhos de Jacó” foram poupados dos nazistas por acreditar na proteção divina, pois foram exterminados mais de 6 milhões deles em poucos anos, acreditando que ele no último instante seriam salvos como estar escrito nos livros de mitologia do seu povo.
      Se deus realmente existisse, a sua ira não estaria voltada para quem não acredita nele, mas justamente contra quem dizendo crer nele faz justamente o oposto de tudo que pregam a exemplo da grande maioria das lideranças cristãs! Isso sim seria motivo de castigo. Mas sendo um deus justo ele puniria apenas os infratores e não todo um planeta, incluindo animais e plantas que nada tem a ver com o “pecado” do homem!
       Para quem vive em função de monitorar e condenar ateus simplesmente por estes não se dobrarem a divindade alguma, saibam que os maiores ateus do mundo não usam “símbolos satânicos” nem falam mal de deus abertamente. Eles fazem justamente o oposto disso para não criarem suspeitas. Os maiores ateus do mundo usam “vestes de santidade”.
      Eles usam termos caros, batinas, vestes sacerdotais e linguagem que enfeitiçam o público com suas palavras de devoção de modo que o povo não venham a comparar o que prega com o que fazem ou com o estilo de vida sanguessuga e predador que muitos desses líderes adotaram.
       Em casa que não tem dono, marginais, víboras e insetos diversos passam a habitar seus cômodos. Nos recintos sagrados vemos tudo isso, e ninguém nunca viu deus punindo ninguém por isso.
      Em algumas cidades do interior do Nordeste tem o seguinte ditado: “em casa que não tem macho, malandro entra e abusa de todos”! Com base nesse conceito, podemos concluir também que “em igreja que não tem deus, líder religioso estupra, mata, rouba, extorque, manipula e se aproveita do povo”!
       Como em praticamente todo agrupamento religioso acontece pelo menos um desses delitos, podemos concluir que...deus não existe? Que é cego, surdo e mudo? Que é um insensível? Que nenhuma das qualidades a ele atribuídas são reais? Todas as alternativas?
        Como exemplo disso, um dos últimos casos de abusos de grandes proporções registrado aqui no Brasil, atribui-se ao líder religioso João de Deus, o abuso sexual de mais de 330 mulheres e a lista cresce com vários outros crimes diferentes! Outros casos desse tipo de menor repercussão acontecem minuto a minutos em alguns dos mais de 200 mil pontos de cultos espalhados nesse imenso país. E sabe o que deus faz? Justamente o que faz um nadador: NADA! Um guardião desse tipo tem tanta utilidade quanto tem um cachorro morto!
    No próximo texto concluiremos esse raciocínio!
    AGUARDEM!
  • Com Licença Poética Novamente

    Quando nasci nenhum anjo, nem o torto, nem o esbelto,
    nem um desses que tocam trombeta, anunciou:
    Vai ter sentido na vida.
    Deste evento, o niilismo interno aflorou,
    coisa pouco eventual e previsível, naquele momento.
    Procurei, em diversos momentos, os caminhos,
    muitos desses levaram-me a estrada bipartida de sonhar.
    E desses acontecimentos, tirei as conclusões mais malucas
    E de nenhum anjo eu ouvia: continua, vai ser Lucas.
    Existencialista não é desdobrável, eu não sou.
  • Como água do mar

    Hoje nada mais faz sentido
    A saudade já bate mais forte
    Preciso daquele abraço,do seu abraço
    Sai desse lugar e vem me encontrar
    Estou te esperando de frente pro mar

    Vem,não faz isso comigo
    Não me deixe mais uma vez
    Viva comigo,o que temos a perde?
    Deixa falarem,que no nosso romance nem nos entendemos
    Se deixa levar,nosso amor é mais lindo que a água do mar

    Que sorriso é esse
    Me conquisto em 2 segundos
    Fiquei louca só de imaginar
    Mil coisas para nos amar
    Uma tarde não basta
    Quero toda a eternidade
    Esse brilho no olhar

    Vem que hoje é o nosso dia
    Vamos aproveitar cada segundo
    Eu te quero mais do que posso suportar
    O seu sorriso me despertou
    Todo esse amor,o que faço agora?
    Já que sem você eu estou.
  • Como assim?

    Como assim?
    Por que ele está tão animado?
    Vejo todos os outros seguindo normalmente
    Mas... algo nele me chama atenção
    Por que ele dança se nenhuma melodia é tocada?
    O que ele admira, se vivemos num mundo sem cor ou vida?
    Melhor eu prosseguir, não posso perder tempo
    Mas...
    Ele despertou em mim essa curiosidade
    Ele vê coisas, ou eu não vejo nada?
    Será se ele desenvolveu a capacidade de ouvir a doce melodia
    De que os antigos tanto falam,
    De que textos tanto profetizam,
    De que a natureza tanto promete?
    Ela deve ser linda, pois ele continua a admirando
    Sem se importar parecer ridículo
    O admiro por não se importar com a crítica social
    Por ser mais próximo da liberdade que muitos...
    ... por conseguir viver, enquanto muito de nós apenas existem
    Mas, vamos deixar isso pra lá
    Não posso perder tempo
    Afinal, devo continuar a andar
    assim como todos os outros
  • Complexo Vazio

    É interessante notarmos como expressões que carregamos conosco de forma tão natural e vazia, datam de um distanciamento cronológico inimaginável. É igualmente incrível percebermos como algo, hoje tido como tão simples, é resultado de um profundo e complexo processo de estruturação e criação intelectual.
      Tomemos como exemplo o "carpe diem", ideal amplamente difundido e idolatrado pelos “novos sangues” da nossa sociedade. O termo em questão é formalmente poético, mas essencialmente filosófico, compondo a principal base da linha de pensamento dos estoicos, vertente que buscava propor, literalmente, uma filosofia de vida.
      Dar-lhes-ei um pensamento comum que o estoicismo contrapõe. Digo contrapõe, uma vez que não rebate. Se dissesse rebate, estaria cometendo um anacronismo, dado que agora me utilizarei de uma expressão contemporânea a qual muito possivelmente não estava formalmente inserida na cultura helenística (peço perdão pela falta de conhecimento da cultura de tal período): “Os ignorantes são mais felizes”.
      São mais felizes, pois não arrastam o peso da reflexão e a petulância do descontentamento. Para o estoico, entretanto, o feliz é o sábio. Aquele que porta a sabedoria consegue viver do momento presente, consegue viver da contemplação, e não da intervenção. Tudo fará sentido mais adiante, não se preocupe.
      A "theoria", contemplação do divino, é a base de tudo. Divino para os gregos da época seria o "cosmos", a ordem pela qual o universo é racionalmente regido, ou melhor, racionalmente se rege. A busca de todo ser humano deveria ser entender tal ordem, e viver de acordo com ela, e não necessariamente de acordo com a ordem dos homens.
      Como já foi dito, a essência é a contemplação, e não a transformação. O indivíduo observa e aprende, observa e se adapta, buscando viver consoante a ordem do "cosmos". Ele visa encontrar seu lugar e sua função dentro da harmonia natural preestabelecida, ele vive de acordo com ela, não contra ela.
      Mas veja bem, isso não se dá de forma acéfala, mas sim através da sabedoria. Após captar a essência (o "cosmos"), ele elabora o conhecimento. Ele não apenas deixa que a vida flua, mas ele entende que a vida deve fluir, e como deve fluir. É então que retomamos o ponto introdutório dessa divagação.
      Como foi dito, a vida tem de fluir, e para que isso ocorra, é necessário que o indivíduo se concentre no momento atual, no presente. Ele precisa se desvencilhar das ancoras do passado e das falsas amarras que levam até o futuro. A nostalgia e, diferente do que o cristianismo afirma, a esperança devem ser combatidas. O fim único de nossas vidas não está no futuro, não consiste  no transcendental, alcançado após a morte e oferecido pela fé religiosa, mas no material, no atual.
      O ser humano tem uma necessidade – compreensível – de se eternizar, a vida mortal não o satisfaz. A religião tenta entregar isso a ele através do imaterial, enquanto a filosofia entrega através do material. A vida não deve se sustentar na esperança da salvação espiritual, ou da possibilidade de vida após a morte. Ela não deve ser um meio, mas sim um fim.
      A vida é um fim em si. O sábio se desvincula daquilo que não compõe seu momento, da angústia, da tensão e da nostalgia. Ele aprende a seguir a ordem e a contemplar o "cosmos", consolida seu lugar no universo a cada instante. O sábio não necessita que seja lembrado por seus sucessores, ou que tenha lugar em algum outro plano espiritual.
      Ele sabe que a eternidade reside em cada momento, ele eterniza o presente, transcende o atual. Assim, o futuro não o frustra e o passado não o prende. Ele é eterno.
      "Carpe diem".
  • Conselhos real realidade

    Todos nossos conselhos a outras pessoas, se baseiam em vivencias de nossa realidade, e experiencias vividas por nós, então nossos conselhos de vida não leva em consideração a realidade da pessoa e sim, a nossa, por mais que vivemos com aquela pessoa, nossa realidade que acreditamos e a que aconselhamos !
  • Contos Griot: Os nossos Primeiros Pais e as Nossas Primeiras Mães

    Ali, sentado numa grande pedra com o seu M’bolumbumba na mão direita, segurando como se fosse um cajado. E seu cachimbo na mão esquerda, levando-o sempre à boca, em que dava várias pitadas. Estava o preto velho em plena paz de espírito. E todos que o fitavam podiam sentir essa paz. Seu rosto negro reluzia de serenidade iluminado pelos raios solares. E seus olhos, brancos como as nuvens do céu, transmitiam uma profunda força como o próprio sol em seu esplendor. Então, todos os k’ilombolas com as suas crianças se sentavam ao redor da grande pedra onde o ancião se encontrava, para beber das águas de sabedoria que proviam de suas palavras. E como era doce e confortante a voz que saía de sua boca. Assim, as crianças corriam, e eram as primeiras a se sentarem aos seus pés. E os jovens e os adultos iam cada qual se sentando e acomodando-se por detrás das criancinhas.
    O velho griot ancião, ao ver o povo sentado ao seu redor, pegava o seu M’bolumbumba, levava à barriga e começava a tocar. E o som do seu instrumento ecoava pela floresta e na cabeça de cada pessoa que se encontrava ali presente. Todos se maravilhavam com o toque daquele instrumento e a beleza de sua música. Criando, assim, um clima de magia e nostalgia a todos que ouviam. E o velho Djeli contava uma história cantada. E todos ficavam em grande silêncio e prestavam muita atenção a cada som que emanava da sua boca. E dessa maneira contava o preto velho griot Djeli:
    — No tempo dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães, toda vida na nossa amada Ama Terra estava iluminada e devidamente equilibrada e unificada. E toda humanidade era um só povo. Uma só raça. Uma só cor. Uma só nação. Um só pensamento. Um só sentimento. Uma só expressão. Uma só língua. Um só amor. E havia uma só terra que formava um único e grande continente. E nessa terra havia um único e só rei, Kee’Musoo: “Aquele que Criou o Todo e o Tudo”…
    Nesse tempo, Kee’Musoo. A grande e maravilhosa Essência que habita em todos e em tudo. O grande Criador de todo o universo e de toda a natureza, onde toda a vida caminha, vive e respira. O Maravilhoso dos maravilhosos. O mais Belo dos belos que dá cor, cheiro e embeleza toda a vida. Aquele que é Rei dos reis e o Senhor dos senhores, e o maior Amor de todos os amores. Aquele que é a Fonte. Aquele que é Raiz. Aquele Luminoso que é a matriz da luz, do cheiro, do som e de todo o sentir, da visão, da inteligência e de todo o entendimento. Essa magna Energia Vivificante que movimenta, sustenta e faz existir todas as coisas pela sua imensa sabedoria. Sempre habitava e sempre imperava nas cabeças e nos corações dos homens e das mulheres…
    Sendo Kee’Musoo o maravilhoso e Amado Esposo para as mulheres e a bondosa e Amada Esposa para os homens. E, assim, os homens e as mulheres viviam em eterna comunhão de amor com o seu Criador…
    Kee’Musoo, “Aquele que Criou o Todo e o Tudo”, era ação, e não palavras. Era harmonia, e não esforço. Era caridade, e não sacrifícios. Era a fonte da fé e de todo amor dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães…
    “Aquele que Criou o Todo e o Tudo” nunca os corrigia. Pois a venda da ignorância do orgulho e de todo egoísmo humano ainda não existia nos olhos dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães. Dessa forma, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães tornavam a luz “Daquele que Criou o Todo e o Tudo” útil. Dentro, entre e fora dos seus corpos. Emanavam apenas sentimentos bons, positivos e amorosos. Fazendo-se um só com “Aquele que Criou o Todo e o Tudo”. E caminhavam como reis e rainhas em meio a todas as outras criaturas, em todas as formas, em toda existência individual, como em toda a comunidade e em toda Luz…
    Não procuravam compreender o porquê de todas as coisas: Quem eram? O que eram? De onde vieram? E todas essas perguntas que sufocam a nossa consciência. E nem pensavam em questionar ou ir contra as leis naturais e universais de toda a vida. Apenas viviam o que eram…
    A mais perfeita de todas as criações “Daquele que Criou o Todo e o Tudo”…
    Os corações dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães pulsavam em ressonância com o coração da Vida Infinita, através dos rufares dos seus tambores. Nos seus rituais sagrados, os seus espíritos eram arrebatados pela canção das estrelas, que os faziam dançarem em círculo por toda a noite, ao redor de uma grande fogueira, com labaredas ardentes azuladas, amareladas e avermelhadas. Dançavam imitando os movimentos dos astros ao redor do fogo, que representava o sol. Dançavam imitando as nuvens que caminhavam ofuscando o brilho da lua e dos outros inúmeros corpos celestiais que animavam e iluminavam o escuro do céu…
    Em seus rituais sagrados celebravam a magia da vida conservando a Criança Interior, dançando em volta da Fogueira da Alegria. Fazendo a Magia do Sorriso florescer em seus corações…
    Dentro dos seus peitos as vozes de todo o universo e toda a natureza faziam a Magia da Canção acontecer. E dessa forma o povo alado do imenso céu ensinava-lhes a arte de ver o que hoje é oculto aos nossos olhos de carne…
    Através dos seus trabalhos ritualísticos e das suas manifestações culturais circulares, a Magia do Amor se manifestava nos seus corpos. Por terem a humildade de fincar os seus pés descalços no chão e olhar para as alturas e para as bordas do horizonte infinito, obtendo a dignidade de compreender que emanação “Daquele que Criou o Todo e o Tudo”, eles e elas eram…
    Para os nossos Primeiros Pais e para as nossas Primeiras Mães, o Amor era o solo fértil onde cresciam todas as suas ações. A alma da nossa amada Ama Terra, iluminada pelo nosso amado Padrasto Sol e pela nossa amada Madrasta Lua pulsava em seus corpos, sentindo a sabedoria do Sagrado e Eterno Contínuo que existe em todos e em tudo. Dessa maneira, a superficialidade das aparências que existe no mundo hoje não os iludia. Não impedindo em seus crescimentos como manifestações da mais pura e perfeita perfeição…
    Ouviam a Canção da Criação que se renova de tempos em tempos. E que pelo movimento perfeito da sua dança a tudo faz crescer e embeleza…
    Nesse tempo em que a nossa amada Ama Terra era unida, formando uma grande e elevada montanha plana, no meio de um grande e único oceano de águas reluzentes, que estava envolto e contido por imensos paredões de gelos, como se o nosso mundo fosse o olho único de um gigante ciclope universal, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães conheciam que “Aquele que Criou o Todo e o Tudo” dançava em todas as coisas, e falava através de todo movimento que se podia ver, ouvir, cheirar, sentir e perceber. Pois os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães podiam ver, ouvir, cheirar e sentir com o coração. Pelo coração entendiam o Movimento Sagrado que impulsiona a circulação de todas as coisas…
    Conheciam Aquele que Criou o Todo e o Tudo nos seus próprios corpos e nas três manifestações primárias da vida, que pela verdade entendiam ser uma só. O ÚNICO CRIADOR, TODA A CRIAÇÃO E AS VARIADAS CRIATURAS. Que de geração em geração se manifestava em nossa natureza como: Pai “CRIADOR”, mãe “CRIAÇÃO” e filhos “CRIATURAS”. E, assim, reconheciam a maravilhosa presença e vida “Daquele que Criou o Todo e o Tudo” neles mesmos, nelas mesmas e nos seus filhos…
    Os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam a vida em toda sua totalidade. Tinham o entendimento oculto de reconhecer que vivíamos em um corpo. Sabiam que esse corpo era a nossa primeira casa. E que essa casa deveria ser tratada como um Templo Sagrado de Pureza Sublime da Morada da Alma e Manifestação da Vida. E que éramos, entretanto, seres bipartidos e, por consequência, seres sexualizados. Assim, compreendiam o conhecimento oculto que há por detrás de nossa sexualidade, servindo como um veículo para honrar e respeitar a vida de todos os seres, através da união sexual dos corpos bipartidos. Fazendo do “Dois (2) Um (1), e do Um (1) Três (3)” na chegada dos novos seres. Aí está o segredo do Sagrado e Eterno Contínuo de Toda Criação, manifestado nas formações das criaturas…
    Isso particularmente eu chamo de O PODER DAS PIRÂMIDES.
    Pois, naquele tempo, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães louvavam a Grande e Perfeita Criação. Provinda da união amorosa do Grande e Majestoso Universo Magnífico “Kee, O Esposo”, com a Grande e Majestosa Natureza Maravilhosa “Musoo, A Esposa”, representados nos seus corpos como o MACHO e a FÊMEA…
    Este era o momento mais sagrado para os nossos Primeiros Pais e para as nossas Primeiras Mães. Pois compreendiam perfeitamente que, pela união dessas manifestações, manifestava-se O NOVO. Assim, o ato sexual era o que havia de mais sagrado, e só podia ser vivenciado num imenso ritual de amor e dança sob a luz da lua nova. E unicamente se aprofundavam nesse prazer só para gerar uma nova existência. Nesse momento, eles e elas compreendiam o poder em que o Dois (2) se faz Um (1). Pelo nascimento de uma nova vida no mundo, provinda pela união dos seus corpos…
    Assim, pela manifestação e popularização da vida, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães entendiam que vivíamos em um mundo de relacionamentos, contatos e sentimentos com nossos semelhantes e outras criaturas animadas e inanimadas. E éramos, entretanto, seres sociais. E que cada contato nos oferta presentes e surpresas, e cada relacionamento nos oferece inúmeras alegrias, desafios e oportunidades de seguirmos AS VIAS DO CONHECIMENTO. Dando e recebendo de bom grado. Aprendendo e depois ensinando. Sabendo respeitar o momento em que todas as coisas se encaixam. E de que tudo tem o seu tempo, lugar, coração e inteligência certa…
    Os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam que todos nós participamos direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente das estruturas que nos governam, e de que somos seres poderosos e politizados em virtude dessa participação. Sabiam, dessa forma, que nossa vida sempre permite contribuir para a criação de estatutos, leis e estruturas que respeitem a dignidade e o espírito de todos os seres…
    A ninguém adulavam, bajulavam ou prestavam homenagens, nem davam poder aos homens e às mulheres que hoje julgamos ser grandes e poderosos. Nem ninguém classificava ou distinguia os homens e as mulheres por suas notáveis habilidades, cargos, posições hierárquicas ou acúmulos de posses. Pois todos observavam os dons e os talentos em si e no outro. Sabendo que cada existência individualizada é única. Trazendo em si mesma sua sabedoria individual, pelo seu pessoal ponto de vista do universo e da natureza, que contém um mistério envolto em um segredo oculto que só esse ser individualizado pode conceber…
    E, por isso, seus trabalhos se baseavam em aprimorar as suas faculdades inatas, como Portadores da Luz em diversas faces, em adoração e obediência ao Criador de Todas as Coisas Existentes. Sendo cada homem e cada mulher ponte para o outro homem e para a outra mulher na diversidade dos seus dotes, talentos e conhecimentos. Formando uma natural cadeia comunitária de autoajuda, suficiência e sustentabilidade solidária…
    Os sacerdotes e governantes eram como as grandes montanhas e vulcões. E o povo era como as grandes árvores, e os outros seres como as pequenas plantas e arbustos em meio a uma imensa biodiversidade florestal. Dando sua sombra, água dos páramos, adubos, alimentos e proteção, para suprir as necessidades do ciclo de toda vida da natureza, em troca e comunhão contínua…
    Todos eram honestos, bondosos, fiéis e justos sem se darem conta de que estavam sendo o que verdadeiramente deviam ser. Naturalmente amavam-se uns aos outros. Mas não se classificavam bons, ou se qualificavam generosos, ou compreendiam e valorizavam por meio de doutrinas e dogmas o significado do amor ao semelhante e ao seu próximo…
    A ninguém enganavam, usurpavam ou tiravam proveitos de nenhuma situação adversa, tiranicamente em intrigas e mentiras. Mas nenhum deles sabia o que era ser sincero e o que era ser honesto…
    Eram fiéis ao seu rei, à natureza e ao universo, ao equilíbrio, ao seu Deus: “O AMADO e A AMADA”. Quem chamavam de: “PAI-MÃE DE TODA CRIAÇÃO”, “GRANDE E PODEROSO ESPÍRITO”, ou simplesmente “AQUELE QUE CRIOU O TODO E O TUDO”. Mas desconheciam ser esse entendimento a verdadeira fé e verdade…
    Viviam todos juntos em plena liberdade, dando e recebendo em comunhão contínua. Mas não sabiam o que era gentileza, o que era generosidade e o que era liberdade…
    Assim, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam e entendiam essas simples, porém grandes, coisas. Respeitavam a Natureza como sua mãe, o Universo como seu pai e todas as Coisas Vivas como irmãos…
    Cuidando deles, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães sabiam que estavam cuidando de si mesmos…
    Dando a eles, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam que estavam dando a si mesmos…
    Ficando em paz com eles, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães sentiam em seus corações que estavam sempre em paz consigo mesmos…
    Aceitavam a responsabilidade pela energia que ambos manifestavam. Tanto na sua atividade como um integrante das suas comunidades sociais, quanto no Reino Sutil de se conhecerem como parte integrante do Reino Animal. E, quando os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães estavam admirando uma bela flor, pela prática da observação, eles e elas não viam apenas um acontecimento isolado. Mas raízes, folhas, galhos, caule, água, solo, minúsculos seres da terra, vento e sol, estrelas, lua e o todo do cosmos. Cada um deles se relacionando com os demais, e as pétalas aflorando dessa bela relação…
    E, olhando para Si mesmos ou para as outras pessoas, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães podiam ver a mesma coisa. Grandes árvores e pequenos insetos. Complexos seres humanos e a simplicidade da beleza das flores. Pássaros voando no firmamento e animais rastejando no solo. Sol escaldante e lua deslumbrante. Astros luminosos, planetas errantes, estrelas cintilantes, águas correntes e um minúsculo grão de areia parado no chão. E em sua superioridade como imagem e semelhança da Fonte Criadora, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam e entendiam que suas próprias energias tinham parte nisso…
    Em seus pensamentos não havia a separação das coisas, e nem havia as variadas fragmentações do saber de cada coisa. Tudo e todos eram um só em toda sua biodiversidade, manifestando uma grande espiral de personificações, em um único perfeito movimento contínuo do existir…
    Não contavam as horas do dia, nem contavam os dias, nem tampouco os meses e os anos. Apenas viviam de acordo com os ciclos da Majestosa Natureza Maravilhosa, em plena comunhão com o Magnífico Universo Absoluto…
    Naquele tempo os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães não dividiam o dia como hoje fazemos. Não havia manhãs, tardes ou noites. Mas percebiam o movimento do dia como o ciclo da vida de todas as coisas existentes. Início, trajetória e fim. Luz e trevas, trevas e luz. E no movimento do dia percebiam a dança de todas as coisas existentes em evolução contínua, e em diversas situações de ganho e perda, vida e morte. E nas mudanças das estações podiam compreender a totalidade dos ciclos de suas vidas…
    Primavera, verão, outono e inverno…
    Nascimento, juventude, maturidade e velhice…
    O início e o fim, o fim e o início…
    Não possuíam a linguagem escrita. Não por ignorância ou por serem julgados como povos primitivos. Mas porque em seus pensamentos não existia o esquecimento do Saber do Sagrado e Eterno Contínuo, que manifestava na nossa amada Ama Terra o Entendimento Ancestral. Pois, de geração em geração, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães guardavam as palavras dos antepassados dentro deles e dentro delas, desde muito tempo. E continuavam a passar para os seus descendentes, AS CRIANÇAS. As quais nossos Primeiros Pais e nossas Primeiras Mães compreendiam que seriam os herdeiros da vida e guardiães do mundo, manifestando O NOVO…
    Em suas linguagens não existiam palavras que denominassem toda e qualquer forma egocentrista. Não existia eu… seu… ou meu… só havia NOSSO. E não existia nenhuma palavra ou expressão que justificasse falsidades, infelicidades, discórdias, avarezas ou mentiras. E assim os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães valorizavam as suas palavras como o Alimento Sagrado da Alma. E através de suas palavras de puro e pleno poder transmitiam a visão e conhecimento do não tempo, das estrelas e dos astros, das coisas, dos animais, das plantas, de todo o Universo e de toda a Natureza, do SER e do Espírito a cada um…
    Assim, o Saber Ancestral do Sagrado e Eterno Contínuo nunca morria, e os pais de seus pais e as mães de suas mães sempre se faziam eternamente vivos em seus corpos por indefinidas gerações. Pois sabiam que o novo é a continuação do velho. E, assim, velho e novo não existiam. Era o fim e o começo do ciclo da roda girante do Sagrado e Eterno Contínuo…
    Hoje, com a quebra do Sagrado e Eterno Contínuo, e por desvalorizarem as histórias e banalizarem as palavras de sabedoria dos templários antepassados ancestrais, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães morreram nos novos corpos. E o Saber Ancestral, que transmitia o princípio educacional das maravilhas deste mundo, pela ignorância se extinguiu. Por esses motivos, seus feitos por muito tempo até os dias de hoje nunca foram narrados. E, como consequência, o esquecimento do Sagrado e Eterno Contínuo se tornou o conhecimento dos povos. E a sede do Espírito se tornou a decadência dos novos…
    E os novos seres de hoje seguirão tentando inutilmente inventar mais cores, mais sabores, mais odores, mais luzes, mais deuses, mais líderes e gurus, mais ídolos, mais verdades, mais religiões e mais ciências. E inúmeros mais objetos e mais utensílios, sendo que caminharão e cambalearão de lugar em lugar procurando inutilmente o que é de mais sagrado para tentarem matar essa sede insaciável do espírito. Que nos torna cada vez mais ignorantes e distantes da vida, da natureza e do universo, da verdade, do saber e do “Criador de Todas as Coisas Existentes”…
    E o Saber Ancestral do Sagrado e Eterno Contínuo, que transmitia o princípio educacional das maravilhas deste mundo, se extinguiu. E dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães…
    Fez-se uma breve pausa. E o ancião Djeli com os olhos mergulhados no vasto horizonte verde. Onde as inúmeras palmeiras de guarirobas bailavam ao movimento suave e dançante dos ventos marítimos. Exclamou com um tom forte e firme de voz, balançando a cabeça para um lado e para o outro:
    — Não nos restaram mais lembranças!
    (Trecho do livro: O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA — A incrível saga do Quilombo dos Palmares no Novo Mundo, Jp Santsil, CHIADO BOOKS, 2019)
  • Contos Griots: A Criação Yoruba

    No princípio existia um lugar… em que nada do que existe hoje havia e existia.
    Esse lugar é o primeiro mundo, que se chama Orún.
    No Orún, o primeiro reino, só existiam os seres de luz e a Grande Fonte Luminosa. Que é o Ser Supremo, que criou o todo e o tudo e deu existência a todas as coisas que hoje existem.
    Esses seres luminosos eram um só em comunhão ao Grande Espírito Supremo. E só uma coisa diferenciava uns dos outros, apenas os brilhos dos seus corpos e a cor da luz que eles emanavam.
    Esses seres eram completos e perfeitos em união e reverência à Grande Fonte Luminosa. E manifestavam no Orún um grande baile luminoso, que formava um redemoinho em espiral repleto de todas as cores que se possa imaginar.
    Assim, o Orún resplandecia uma beleza de maravilhas de luzes e cores, que nem um baú repleto de pedras preciosas multicoloridas, irradiadas pelos raios solares que penetram em uma janela dentro de um quarto escuro, podia emanar.
    A Grande Fonte Luminosa, O Deus Todo-Poderoso, O Primeiro e o Último, que além dele não há outro deus. É conhecido pelos povos iorubás pelos atributos de Olódùmarè, que quer dizer “Aquele Luminoso que possui o imenso brilho que ninguém pode alcançar”. Ou Olórun, que quer dizer “Aquele Luminoso que impera no Céu”. Ou simplesmente Olófin, que quer dizer “Aquele Luminoso que é o Rei dos reis e Senhor dos senhores” e também Olodúm, que quer dizer “Aquele Luminoso que é o senhor dos destinos”.
    Os habitantes do Orún, os seres luminosos criados por Olódùmarè, eram chamados Imolè.
    Os Imolès eram uma comunidade de seres de luz regidos por um único Rei, Olódùmarè. Tendo alguns ordenadores templários que eram chamados Funfuns. Esses seres eram assexuados, pois eram à semelhança de Olódùmarè.
    Os Funfuns foram os primeiros seres luminosos criados por Olódùmarè, e os seus corpos são transparentes como os cristais, e as suas luzes são de cor branca, como as luzes das estrelas.
    Olódùmarè, “Aquele que é não criado”, antes de criar o Orún, era inconcebível e inimaginável.
    Era o tudo e era o nada, e não era o tudo e não era o nada. Pois nem o tudo, nem o nada ainda não veio à existência.
    Olódùmarè, o solitário não criado, de repente, movimentou-se em si mesmo e começou a inflar-se, gerando em si mesmo a EXISTÊNCIA. E a EXISTÊNCIA era a LUZ.
    Olódùmarè inflamava e se expandia cada vez mais, e mais, e mais, e mais. A partir desse momento, Olódùmarè existiu dentro de si mesmo, e o nada se tornou o todo dentro dele mesmo.
    A EXISTÊNCIA era o primeiro PENSAMENTO de Olódùmarè, o sonho da Criação.
    Olódùmarè prendeu o PENSAMENTO por uma eternidade de oito ciclos, e ao longo dos ciclos Olódùmarè se expandia cada vez mais. No final do nono ciclo e no início do décimo ciclo eternário, Olódùmarè não conseguiu mais se conter. E saiu de dentro de si o èmí, um sopro entoado pela primeira vez, que deu origem ao òfurufú, a PALAVRA. E a PALAVRA era a VIDA. E Olódùmarè disse bem alto, pronunciando:
    EU SOU!
    Olódùmarè explodiu ao pronunciar “o sopro entoado”, o èmí. Expelindo para fora de si a PALAVRA, o òfurufú.
    E a PALAVRA se fez EXISTÊNCIA, e Olódùmarè, olhando a EXISTÊNCIA, se viu pela primeira vez. Pois a EXISTÊNCIA ainda não tinha forma definida, porque a EXISTÊNCIA estava dentro de Olódùmarè. E era Olódùmarè.
    A PALAVRA estava com Olódùmarè no princípio, e, Olódùmarè era a PALAVRA. Por meio da PALAVRA, Olódùmarè gerou todas as coisas criadas e nada do que veio à EXISTÊNCIA veio a ser sem a PALAVRA, que era Olódùmarè.
    A PALAVRA veio a ser a FONTE DA LUZ. E dessa PALAVRA todas as criaturas, coisas e formas se iluminaram. E a LUZ brilhou pela primeira vez nas trevas, essa LUZ veio a ser a VIDA, e a VIDA compreendeu o Todo e o Tudo, e Olódùmarè veio a ser, expelindo-se para fora de si mesmo.
    A EXISTÊNCIA agora estava fora de Olódùmarè. Mas Olódùmarè estava agora dentro e fora da EXISTÊNCIA que se tornou LUZ.
    E a LUZ era a VIDA. A VIDA ganhara corpo e forma. E quando a VIDA observou Olódùmarè, o seu criador, a VIDA ganhara também CONSCIÊNCIA. E dessa CONSCIÊNCIA surgiu o SENTIMENTO. E esse SENTIMENTO foi o AMOR, em forma de um singelo sorriso.
    E Olódùmarè amou a VIDA. E desse AMOR a FELICIDADE raiou iluminando a CRIAÇÃO. E dessa LUZ surgiu a HARMONIA. E a HARMONIA manifestou a PERFEIÇÃO. Então, Olódùmarè disse:
    — VOCÊ É MEU PRIMEIRO FILHO. ATRAVÉS DE VOCÊ EU VIM A EXISTIR E FIQUEI CONHECIDO. EU ESTOU EM VOCÊ E VOCÊ ESTÁ EM MIM. SOMOS UM SÓ, POIS SEM VOCÊ EU NÃO EXISTO, E SEM MIM VOCÊ NÃO PODERIA EXISTIR. EU TE VEJO PORQUE VOCÊ ME VÊ. EU TE SINTO PORQUE VOCÊ ME SENTE. MEU PRIMOGÊNITO, MEU ESPÍRITO ESTÁ LIGADO AO SEU, E O SEU AO MEU, POR TODA VIDA E QUALQUER ETERNIDADE.
    Olódùmarè, depois de dizer essas palavras, o chamou de Obàtálá, que quer dizer “Rei Supremo de luz branca acima de tudo e de todos”.
    Obàtálá, rei supremo e filho único de Olódùmarè, foi coberto de um véu de luz majestosamente branco. Olódùmarè, vendo o seu filho amado que flutuava solitário no espaço como a Grande Estrela de todas as tardes e manhãs, aquela que mais brilha, disse:
    — VAMOS, MEU FILHO, E CONSTRUAMOS UMA CASA PARA QUE JUNTOS POSSAMOS HABITAR.
    E Olódùmarè, junto a Obàtálá, edificou o Orún. Depois da edificação do Orún, Olódùmarè percebeu que Obàtálá necessitava de um ser semelhante a ele, para coagir e interagir. Pois Olódùmarè não tinha forma definida, podendo ser qualquer coisa, e ele se manifestava a Obàtálá de diversas formas e maneiras. Sendo que Obàtálá não tinha nenhuma referência dele próprio, porque não havia ainda na criação um ser semelhante a ele. Então, Olódùmarè disse:
    — VAMOS, MEU FILHO, SOPRAREI SOBRE VOCÊ O ÈMÍ, O MEU HÁLITO.
    Olódùmarè, ao soprar o èmí sobre Obàtálá, fê-lo girar como um redemoinho. E, ao girar, parte de si desprendeu-se dando origem a outro corpo. Porém, esse corpo estava estático e sólido como uma rocha porosa. Vendo-o, Olódùmarè disse:
    — AGORA SOPRAREI SOBRE ESSA FORMA O MEU ESPÍRITO, O ÒFURUFÚ, MEU AR DIVINO. PORQUE MEU ESPÍRITO É A PALAVRA DA VIDA, E DOU LUZ A TUDO QUE QUERO.
    Olódùmarè soprou o seu òfurufú sobre a forma sólida e acinzentada, e ela ganhou Luz e Vida. E da mesma forma que fez com seu filho único Obàtálá, o encobriu com um manto de luz de cor branca.
    E Olódùmarè o chamou de Èsú’Yangí, que significa “A esfera porosa que ganhou movimento”.
    Èsú’Yangí foi a primeira forma viva individualizada do universo. Pois Èsú’Yangí fora retirado diretamente de Obàtálá, sendo por natureza inferior a Obàtálá, o primogênito de Olódùmarè. E Olódùmarè, disse:
    — ÈSÚ’YANGÍ, VOCÊ SURGIU DE OBÀTÁLÁ E AGORA VOCÊS SÃO IRMÃOS. VOCÊ DEVERÁ HONRAR SEU IRMÃO MAIS VELHO E RESPEITÁ-LO COMO SUPERIOR A VOCÊ. POIS SEM ELE VOCÊ NÃO PODERIA VIR A EXISTIR. PORÉM, EU TE FIZ À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA, E TAMBÉM TE ENCOBRI COM O MESMO VÉU DE LUZ QUE O ENCOBRI, PARA QUE VOCÊS SEJAM UM SÓ PERANTE MIM. MAS SEU IRMÃO É O MAIOR, POR SER ELE À MINHA IMAGEM E TER PROVINDO DE DENTRO DE MIM, PORQUE EU O GEREI E ME MANIFESTEI ATRAVÉS DELE. PORTANTO, HONRA E AMA A ELE COMO VOCÊ DEVE HONRAR E AMAR A MIM. ESTE É O ÚNICO MANDAMENTO QUE LHE DOU.
    E Olódùmarè disse a Obàtálá:
    — MEU PRIMOGÊNITO, VOCÊ SABE QUE O MEU ESPÍRITO ESTÁ EM TI, E ATRAVÉS DE TI TODAS AS COISAS VIVAS SERÃO CRIADAS. E ENCHEREI TODO UNIVERSO DE VIDA ATRAVÉS DE TI. CUIDA ASSIM DO TEU IRMÃO, POIS ELE É FRUTO DE TI, AMA-O COMO VOCÊ ME AMA E EU TE AMO, AMA-O COMO VOCÊ DEVE AMAR A SI MESMO PELA MINHA VIDA EM TI. ESTE É O ÚNICO MANDAMENTO QUE TE DOU. POIS A COROA DA VIDA É SUA, SENDO TU MESMO REI SOBRE TODA A VIDA.
    Depois de dizer essas palavras e dar os seus primeiros mandamentos aos dois. Olódùmarè se retirou do meio deles e os observava, pois ele mesmo já sabia o que havia de acontecer com a criação.
    Obàtálá e Èsú’Yangí eram puros como as criancinhas, pois ainda não havia maldades na criação.
    Juntos caminhavam, dançavam e brincavam no Orún, e Olódùmarè sempre os vigiava. Até que pela primeira vez surgiu uma desavença entre os dois, pois Obàtálá queria dançar, e Èsú’Yangí queria brincar.
    Olódùmarè, vendo essa desavença, foi até eles para interrogá-los, e disse:
    — MEUS AMADOS FILHOS, QUAL O PORQUÊ DESSA DESAVENÇA ENTRE VOCÊS DOIS? VOCÊS DEVERIAM ESTAR FELIZES, UM EM COMPANHIA DO OUTRO.
    Obàtálá, então, disse:
    — Tudo isso foi por causa de Èsú’Yangí, pois estávamos brincando o tempo todo, aí eu falei para ele que eu não queria mais brincar, e chamei-o para dançar e ele não quis.
    Èsú’Yangí disse em resposta a Obàtálá:
    — Já tínhamos dançado antes de brincarmos, e eu não queria mais dançar.
    Olódùmarè ouvindo-os, percebeu que nesse momento havia dois mundos. E que sempre existiria rivalidade entre eles pelas divergências de suas vontades. E isso o preocupou. Pois a sua criação não se tornará harmônica, e sem harmonia não poderia existir a perfeição. Olódùmarè pensou por um momento e disse:
    — ALGUM DE VOCÊS DOIS VAI TER QUE SE RENDER A FAZER O QUE O OUTRO QUER. QUEM SERÁ?
    Obàtálá, então, disse:
    — Eu sou o primeiro. E sendo eu o primeiro, Èsú’Yangí tem que fazer a minha vontade.
    Èsú’Yangí também disse:
    — Eu sou o seu irmão, portanto você tem obrigações comigo, pois provim de você, e por isso, você tem que me servir.
    Então, eles viraram as costas um para o outro, como sinal de não se rederem um à vontade do outro.
    Olódùmarè, vendo que a coisa só piorava, percebeu que a igualdade individualizada entre os dois criara a rivalidade. E, dessa forma, decidiu criar outro ser em aparência como a deles, mas diferente. Pois Obàtálá e Èsú’Yangí eram assexuados, mas em semelhança masculina.
    Assim, enquanto os dois se encontravam de costas, Olódùmarè pegou um pouco de luz dos seus corpos e fez surgir no meio deles um ser de beleza sublime e de forma afeminada.
    Este ser também de luz branca era tão lindo e de grande pureza, que ninguém o poderia resistir. Este ser surgiu das divergências de Obàtálá e Èsú’Yangí. E Olódùmarè o chamou de Odùduwà, que quer dizer “Aquela que jorra a harmonia do Criador”. Assim, Olódùmarè se retirou e os deixou.
    Obàtálá e Èsú’Yangí de repente ouviram por detrás de si um choro, e, virando-se os dois ao mesmo tempo, depararam-se com um ser luminoso de beleza encantada, e juntos maravilharam-se. E Obàtálá perguntou:
    — Quem é você e por que chora?
    — Meu nome é Odùduwà. Estou chorando porque vocês não querem brincar e dançar comigo. — Respondeu.
    Èsú’Yangí, disse:
    — Eu quero brincar.
    — E eu quero dançar. — Disse em seguida Obàtálá.
    E juntos brincaram e dançaram. Foi assim que Olódùmarè, o Senhor de toda Criação, apaziguou as primeiras divergências no Orún. Pois agora a criação se tornara perfeitamente harmônica.
    Olódùmarè decidiu criar outros seres de luz para popular o Orún, e assim fez, gerando a sua corte real de Imolès Funfuns, “Aqueles de Luz Branca”.
    Os principais Imolès Funfuns, eram Obàtálá, que foi o primeiro, sendo este o rei de todos os Imolès, Èsú’Yangí, representando a disputa dual que movimenta o uno, Odùduwà, a trindade da harmonia que traz a perfeição, e por consequência Eteko, Akiré, Olúorogbo, Ògiyán, Olufan, Oko, Òkè, Lòwu, Ajagemo, Olúwofín, Pópó, Eguin, Jayé, Olóbà, Obaníjìta, Alajere, Olójó, Oníkì, Onírinjà, Àrówú, Ko, entre outros Funfuns. E, os criando, Olódùmarè se retirou.
    Os Imolès Funfuns viviam em perfeita harmonia com o seu Criador no Orún. Mas sentiram algo faltando na criação, e não sabiam o que era. Algo como sentir fome, mas não existir comida. Sentir sede, mas não existir bebida.
    Então, todos, de mãos dadas, se reuniram no centro do Orún, em um grande círculo invocando a presença de Olódùmarè. Perguntando que coisas era essa que faltava? Que vazio era esse a ser preenchido?
    Olódùmarè, o sem forma que adquire todas as formas, o não criado que criou o todo e o tudo, ascendeu em uma grande chama de luz extremamente branca no meio dos seus filhos. E, quando isso aconteceu, a sua grande, potente e poderosa luz atravessou os corpos cristalinos dos Imolès Funfuns, gerando por detrás deles as maravilhas das muitas cores. Transformando o Orún em um universo mágico de um grande e circular arco-íris multicolorido. E Olódùmarè, disse:
    EU SOU!
    E ao pronunciar a sua grande e poderosa presença, todas as cores adquiriram vida, e novos Imolès multicoloridos vieram a existir no Orún. Preenchendo o vazio que faltava dentro e entre os Imolès Funfuns.
    E esses novos seres multicoloridos foram chamados Irun Imolè.
    E esse vazio que faltava no Orún era o que conhecemos hoje como os SENTIMENTOS.
    Pois cada cor manifestada despertara nos Funfuns os variados sentimentos que no princípio todos eram de ordem positiva. A partir desse momento, os SENTIMENTOS se tornaram os alimentos dos Imolès, e suas vidas agora giravam em torno deles.
    O Orún resplandecia sua luz de pureza harmônica por ciclos e ciclos eternários. Até o dia que Èsú’Yangí ficara insatisfeito com a sua posição na Criação. Pois ele queria ser como Obàtálá, e ter a coroa do primogênito de Olódùmarè, o Criador.
    E, pela primeira vez no Orún e na Criação, surgiu algo de que nenhum Imolè ainda tinha conhecimento e consciência. Algo que ninguém nunca experimentara, um sentimento terrível que surgiu em Èsú’Yangí, e foi a origem de todos os males conseguintes.
    Um sentimento de tristeza perante o que Obàtálá tinha, e Èsú’Yangí não entendia o porquê de que ele não tinha. E este sentimento gerou o desejo de ter exatamente o que Obàtálá possuía, a primazia e a coroa de rei dos Imolès.
    Este sentimento, até então, não experimentado na criação era definido como uma vontade frustrada de Èsú’Yangí querer possuir os atributos ou qualidades de Obàtálá. Sendo esse sentimento o que conhecemos hoje como a INVEJA e a COBIÇA.
    Secretamente, entretanto, Èsú’Yangí procurava uma maneira de persuadir Obàtálá para que ele pudesse cometer alguma falha em sua administração no Orún e ter sua moral rebaixada perante Olódùmarè.
    Olódùmarè, o Criador onisciente, onipresente e onipotente já sabia do rigoroso teste, em que a criação tinha que passar para o aprimoramento espiritual das suas almas criadas. E principalmente sabia da importância e do papel de Èsú’Yangí nisso.
    E Olódùmarè pensou: “Eis que já começou a provação dos seres que criei, agora não depende só da minha vontade. Como eu quis que isso nunca acontecesse com os meus filhinhos amados, mas tudo tem um propósito sem propósito, sendo que agora toda alma vai ter que ser lavada com a água do arrependimento e purificada com o fogo do sofrimento, para encontrar a verdadeira felicidade e vida em mim. Mas não deixarei meus amados sozinhos, corporificarei a minha SABEDORIA, com a qual criei todas as coisas, para que eles possam encontrar auxílio nela, e ela servirá como um guia e protetor para eles me encontrarem, quando arrependidos, humildemente me buscarem”.
    Assim, Olódùmarè convocou todos os Imolès Funfuns para uma reunião na Morada dos Justos, o Àwosùn Dàra, seu palácio que até então ficava no centro do Orún. Mas excluiu Èsú’Yangí, pois ele já não era mais digno de sua presença, pelo fato de se encontrar impuro, pela maldade que se fez crescer em seu coração, não tendo mais a dignidade de entrar no Àwosùn Dàra.
    E na presença de todos os Funfuns reunidos na Morada dos Justos, Olódùmarè disse:
    — MEUS AMADOS FILHOS, É CHEGADO O MOMENTO EM QUE TODA CRIAÇÃO PASSARÁ PELO DESERTO DA ILUSÃO, ONDE AS TREVAS TENTARÃO EM VÃO OFUSCAR A LUZ. MAS, NO FINAL A LUZ PREVALECERÁ. DURANTE ESSE MOMENTO EU RETIRAREI MINHA PRESENÇA DO MEIO DA CRIAÇÃO, PARA QUE TODA VIDA SEJA PROVADA PELA FÉ EM MIM. PORÉM, CORPORIFICAREI MINHA SABEDORIA E ELA VIVERÁ COM VOCÊS, E ME COMUNICAREI COM VOCÊS ATRAVÉS DELA. ASSIM MEUS AMADOS, NÃO PODEREI MAIS PERMANECER JUNTO A VOCÊS NO FUTURO. SENDO QUE VOCÊS NÃO MAIS PODERÃO ME VER COMO ME VEEM AGORA. POIS SOU PURO E SEM MÁCULA, SENDO EU O SANTO DOS SANTOS E O JUSTO DOS JUSTOS, DEVO PERMANECER NA MINHA MORADA QUE É A CASA DOS JUSTOS.
    Assim, Olódùmarè retirou de si o seu Espírito Santo de grande e perfeita sabedoria, e o corporificou, o chamando de Ibi Keji Olódùmarè, que significa: “O Segundo Espírito de Olódùmarè, que testificou a criação”. Porém, os Funfuns o chamaram de Orunmilá, que significa: “A palavra criadora que deu luz ao mundo”. Orunmilá ganhara um palácio no Orún e sua morada fora chamada de Ifá, que significa: “Morada da Beleza”. E Olódùmarè, ao corporificar e individualizar Orunmilá, falou:
    — ORUNMILÁ, MEU ESPÍRITO SANTO DE SABEDORIA, COM VOCÊ EU CRIEI O ORÚN E SUAS ALMAS, E OS COLOQUEI NO LUGAR PRÓPRIO. VOCÊ SERÁ COMO UM FAROL PARA AS ALMAS PERDIDAS NO MAR DA ILUSÃO. SERÁ UM EDUCADOR DE ALMAS QUANDO A IGNORÂNCIA PREVALECER SOBRE ELES. E ESTARÁ DO LADO DOS JUSTOS E SE AFASTARÁ DOS INSENSATOS. A PARTIR DE AGORA, TODA ALMA QUE DESEJE ME ENCONTRAR E ESTAR EM COMUNHÃO COMIGO, DEVERÁ SER ABENÇOADA POR TI. POIS SÓ A VOCÊ, ORUNMILÁ, É CONFIADA A CHAVE QUE ABRIRÁ TODAS AS PORTAS. E TODAS AS ALMAS QUE TE HOMENAGEAREM E TE TEREM COMO PRIMAZIA POSSUIRÃO ESSA CHAVE.
    E Olódùmarè, virando-se para os Funfuns, disse:
    — MEUS AMADOS FILHINHOS, LEMBREM-SE DAS MINHAS PALAVRAS E NUNCA AS ESQUEÇAM. FAÇAM O QUE EU DIGO E VOCÊS VIVERÃO. PROCUREM CONSEGUIR SABEDORIA E COMPREENSÃO. NÃO ESQUEÇAM, NEM SE AFASTEM DO QUE EU DIGO. NÃO ABANDONEM A SABEDORIA, E ELA PROTEGERÁ VOCÊS. AME-A, E ELA LHES DARÁ SEGURANÇA. PARA SE TER SABEDORIA, É PRECISO PRIMEIRO PAGAR O SEU PREÇO. USEM TUDO O QUE VOCÊS TÊM PARA CONSEGUIR A COMPREENSÃO. AMEM A SABEDORIA, E ELA OS TORNARÁ IMPORTANTES, ABRACE-A E VOCÊS SERÃO RESPEITADOS. A SABEDORIA SERÁ PARA VOCÊS UM ENFEITE, COMO SE FOSSE UMA LINDA COROA. ESCUTEM, MEUS FILHINHOS! ACEITEM O QUE ESTOU DIZENDO E VOCÊS TERÃO UMA VIDA LONGA. EU LHES TENHO ENSINADO O CAMINHO DA SABEDORIA E A MANEIRA CERTA DE VIVER. SE VOCÊS ANDAREM SABIAMENTE, NADA ATRAPALHARÁ OS SEUS CAMINHOS, E VOCÊS NÃO TROPEÇARÃO QUANDO CORREREM. LEMBREM-SE SEMPRE DAQUILO QUE VOCÊS APRENDERAM COMIGO. A SUA EDUCAÇÃO É A SUA VIDA, GUARDE-A BEM! NÃO VÁ AONDE VÃO OS QUE SE FARÃO MAUS. NÃO SIGAM O EXEMPLO DELES. NÃO FAÇAM O QUE ELES FAZEM. AFASTEM-SE DO MAL. DESVIEM-SE DELE E PASSEM DE LADO. ESSES QUE SE FARÃO MAUS NÃO PODERÃO DORMIR SEM TER FEITO ALGUMA COISA MÁ, ELES FICARÃO ACORDADOS ATÉ CONSEGUIREM PREJUDICAR ALGUÉM OU A SI MESMOS. PORQUE PARA ELES A MALDADE E A VIOLÊNCIA SERÃO COMO COMIDA E BEBIDA. A ESTRADA EM QUE CAMINHAM AS PESSOAS DIREITAS É COMO A LUZ DA AURORA, QUE BRILHA CADA VEZ MAIS ATÉ SER DIA CLARO. MAS A ESTRADA DAQUELES QUE SE FARÃO MAUS É ESCURA COMO A NOITE, ELES CAIRÃO E NÃO PODERÃO VER NO QUE FOI QUE TROPEÇARAM. FILHINHOS, PRESTEM ATENÇÃO NO QUE EU DIGO. ESCUTEM AS MINHAS PALAVRAS. NUNCA DEIXEM QUE ELAS SE AFASTEM DE VOCÊS. LEMBREM-SE DELAS E AMEM-NAS. ELAS DARÃO VIDA LONGA E SAÚDE A QUEM ENTENDÊ-LAS. TENHAM CUIDADO COM O QUE VOCÊS PENSAM, INDEPENDENTEMENTE DAS CIRCUNSTÂNCIAS EM QUE VOCÊS SE ENCONTRAREM, POIS AS SUAS VIDAS SÃO DIRIGIDAS PELOS SEUS PENSAMENTOS. NUNCA FALEM O QUE NÃO FOR VERDADE, NEM DIGAM PALAVRAS QUE NÃO FOREM BOAS. OLHEM FIRME PARA FRENTE, COM TODA CONFIANÇA, NÃO ABAIXEM A CABEÇA, ENVERGONHADOS. PENSEM BEM NO QUE VOCÊS VÃO FAZER, E TODOS OS SEUS PLANOS DARÃO CERTOS. EVITEM A MALDADE QUE INSISTIRÁ EM REINAR NA CRIAÇÃO, ESSA ILUSÃO QUE LOGO SE FARÁ MANIFESTA NO REINO, E CAMINHEM SEMPRE EM FRENTE, NÃO SE DESVIEM NEM UM SÓ PASSO DO CAMINHO CERTO. E EM TUDO O QUE VOCÊS FIZEREM, PEÇAM CONSELHOS AO MEU ESPÍRITO SANTO DE SABEDORIA QUE AGORA SE ESTABELECEU NO MEIO DE VOCÊS.
    Enquanto acontecia o concílio promovido por Olódùmarè, reunido com os Imolès Funfuns no Àwosùn Dàra. Èsú’Yangí, percebendo sua exclusão, nem se importou e começou a colocar o seu plano malévolo em prática.
    Também era a oportunidade certa, porque todos os Funfuns não estavam presentes nas periferias do Orún.
    Èsú’Yangí percebeu que a hegemonia de Obàtálá perante todos os Imolès era porque no Orún havia um só pensamento, um só sentimento e uma só expressão.
    Então, Èsú’Yangí teve uma ideia e saiu para colocá-la em prática.
    Èsú’Yangí viu dois Imolès um ao lado do outro conversando, e disse a si mesmo: “Se eu tão somente fizer esses dois discordarem um do outro, eu quebrarei a unidade de pensamento, expressão e sentimento no Orún”.
    Rapidamente, Èsú’Yangí se disfarçou e vestiu um manto de duas cores. De um lado o manto era branco e de outro lado o manto era preto. Assim, quem olhasse Èsú’Yangí de um lado pensaria que ele estava vestindo um manto branco, e quem olhasse Èsú’Yangí do outro lado pensaria que ele estava vestindo um manto preto.
    Èsú’Yangí, vestido com o seu manto de duas cores, preto e branco, apressou-se e passou no meio dos dois Imolès, que se encontravam sentados um ao lado do outro sem nem ao menos os cumprimentar, e desapareceu. Os dois Imolès, vendo o acontecido ficaram pasmados, e um disse ao outro:
    — Que estranho aquele Imolè de manto preto que passou assim por nós sem nem nos cumprimentar. — Ele disse isso, porque sempre os Imolès saudavam uns aos outros em reverência e afeto ao se encontrarem, e continuou:
    — Quem será ele, pois nunca o vi aqui no Orún.
    — Manto preto?! — Exclamou o outro Imolè, e continuou:
    — Eu não vi nenhum Imolè de manto preto, o manto era branco.
    — O Manto era preto, irmão. — Disse o primeiro.
    — Não! O manto era branco. — Disse o segundo.
    E dessa forma eles ficaram discutindo o tempo todo. Um dizendo que o manto era preto e outro dizendo que o manto era branco. Èsú’Yangí, às espreitas, via tudo isso e se divertia muito, pois conseguira o seu objetivo com sucesso.
    Os Imolès que discutiam sobre a cor do manto acabaram brigando e foram para suas moradas, e começaram a espalhar toda aquela discórdia e confusão.
    Dessa maneira, influenciaram os outros Imolès em ideologias adversas, até que o Orún se dividiu em dois lados.
    Do lado direito estavam aqueles que defendiam a ideologia do manto preto, e do lado esquerdo estavam aqueles que defendiam a ideologia do manto branco.
    Eles construíram assim uma grande cerca, e pela primeira vez no reino da criação houve uma fronteira. Havendo uma fronteira, houve a fragmentação dos pensamentos, sentimentos e expressões. E a esfera da dualidade que movimenta todas as coisas veio à existência por obra mentirosa de Èsú’Yangí.
    Quando os Imolès Funfuns se retiraram da presença de Olódùmarè no Àwosùn Dàra, perceberam algo de errado no Orún. E viram o Àwosùn Dàra subir ao mais Alto dos altos e desaparecer. Uma energia de luz acinzentada e pesada pairava sobre o primeiro reino.
    E, observando mais, viram os Imolès separados por uma grande cerca, onde de um lado vestiam mantos pretos, e do outro lado vestiam mantos brancos. E ambos os mantos ofuscavam as suas multicoloridas luzes corporais.
    Os Funfuns, nada entendendo, foram perguntar a Orunmilá o que se sucedeu no Orún enquanto estavam ausentes. E Orunmilá disse:
    — É chegada a hora em que os seres se afastaram da verdade única e absoluta, do todo em comunhão e unidade com o seu Criador. Os seres agora repeliram de si o vivificante e inspirador Espírito Santo de sabedoria do Grande e Poderoso Criador. É por isso, meus irmãos, que me faço presente no meio de vocês corporificado. Para que também vocês não possam repelir a verdade absoluta e serem dominados pelo mal que agora insiste em existir. Falo que insiste em existir, pois o mal é uma mentira, e como toda mentira, o mal não é verdade. É por si só falsidade e ilusão, não existindo, mas fingindo existir. Porque tudo que verdadeiramente existe é somente o Criador e a sua Criação, sendo o Criador a mais pura e perfeita perfeição e verdade, tudo o que foi feito por ELE/ELA é perfeita perfeição e verdade pura e absoluta também. Assim sendo, o mal não foi criado pelo Criador. Portanto, o mal com seus frutos de sofrimentos não possui vida e luz em si próprio. Sendo mentiras que encobrem a verdadeira perfeição do Criador. Agora a dualidade se faz presente na Criação, e com ela veio o conflito, onde o ilimitado se limitará num todo fragmentado. Então, o que é belo que sempre existiu será conhecido pelo feio que pela mentira se fez existir. O bom que sempre existiu será conhecido pelo mal que pela mentira se fez existir. E a verdade que sempre existiu será conhecida pela mentira que se fez existir. Os seres se perderão nos conflitos dos seus pensamentos fragmentados, entrando no labirinto sem saída da dualidade. E assim fugirão do difícil e procurarão o fácil. Amarão o grande e desprezarão o pequeno. Valorizarão o alto e rejeitarão o baixo. Distinguirão o som do silêncio. O passado e o futuro. E em seus pensamentos dualísticos fragmentarão e nomearão todas as coisas. E a isso chamarão de inteligência, esquecendo-se da Grande e Perfeita Sabedoria do Criador, que nos ensina sem palavras. Que tudo cria e faz, nada tomando para si. Realizando todo o trabalho sem colocar seu nome neles. Terminando sua Grande Obra, mas sempre se mantendo no princípio de todas as coisas. Dando o livre-arbítrio a todos os seres. E só interferindo nos seus destinos unicamente por compaixão. Porque se assim não fosse, pelo mal que insiste em existir, nenhuma vida ainda subsistiria.
    Os Imolès Funfuns vendo uma nuvem acinzentada que encobria o Orún, que era tão belo e colorido pelas resplandecentes emanações das luzes dos corpos dos Irun Imolès, se entristeceram e choraram de tristeza pela primeira vez.
    Em vão eles tentaram reconciliar os Irun Imolès. Mas eles não queriam reconciliação. Pois cada um defendia a sua parte e filosofia, e queriam que um aderisse à verdade do outro, e só assim haveria paz.
    E os Funfuns sabiam que ambas as ideologias que eles sustentavam nada tinham de verdade. Porque a verdade une, e nunca separa.
    Passaram-se então outros ciclos eternários e o Orún se afundava mais e mais em trevas.
    Èsú’Yangí fora banido do Orún, e perdera a dignidade e a honra de vestir um manto branco, e dessa forma não era mais um dos Imolès Funfuns. Agora, Èsú’Yangí habitava nos arredores do Orún, guardando as suas fronteiras e vivendo absolutamente solitário. Pois tornara-se feio e medonho, porque a cólera e a raiva o dominaram.
    Sem a presença de Olódùmarè no Orún, também os Imolès Funfuns se dissiparam e foram viver cada um por sua própria conta. Mas sempre se reuniam de tempos em tempos na morada de Ifá, tomando conselhos e louvando o Grande Criador de todas as coisas existentes.
    Depois de alguns ciclos eternários, desde a decadência do Orún e da corrupção que imperava na criação, Olódùmarè, com toda a sua glória, sabedoria e compaixão, percebendo que o mundo que criara ficara feio e sem luz, triste e cinzento, e que o ódio dominara os seus seres de luz, resolveu, a partir dali, criar um novo reino.
    Então, Olódùmarè apareceu a Obàtálá, e disse:
    — MEU FILHO OBÀTÁLÁ, ESTOU MUITO TRISTE COM O ORÚN E COM O QUE ELE SE TORNOU. APESAR DE JÁ SABER O QUE VIRIA A ACONTECER, OS DETALHES E MODOS PERVERSOS DOS MEUS SERES ME IMPRESSIONARAM. POIS O MAL CRESCE E EVOLUI TAMBÉM, E O ABISMO SE TORNA CADA VEZ MAIS PROFUNDO E TENEBROSO. ABRIREI UMA PORTA PARA VOCÊ ENTRAR NO ÀWOSÙN DÀRA, A MORADA DOS JUSTOS. SE PURIFIQUE E VÁ AO CENTRO DO ORÚN, ONDE ANTES EU HABITAVA.
    Obàtálá sem demora partiu de sua habitação para o centro do Orún, como Olódùmarè pediu. Chegando lá, viu uma coluna de luz estendida ao mais Alto dos altos, e falou para os seus seguidores esperarem por ele ao redor da coluna de luz.
    Obàtálá adentrou na coluna luminosa e elevou-se até o Àwosùn Dàra. Estando lá, Olódùmarè ascendeu em chamas na sua frente, e falou:
    — MEU PRIMEIRO! FICO MUITO FELIZ POR TER ATENDIDO O MEU PEDIDO. EIS QUE AQUI ESTOU, E UMA GRANDE MISSÃO TE DAREI. QUERO QUE VOCÊ, MEU FILHO, REALIZE ESSE IMPORTANTE TRABALHO. OBSERVEI VOCÊ DURANTE TODO ESSE TEMPO PELO QUAL O ORÚN DECAIU, E VI QUE VOCÊ NÃO ABANDONOU AS MINHAS LEIS E OS MEUS MANDAMENTOS SAGRADOS. PORÉM, UMA ACUSAÇÃO TENHO CONTRA VOCÊ, MEU FILHO. VOCÊ SE JULGA SER MAIS DO QUE VOCÊ É, E MENOS DO QUE PODERIA SER. SE APOIANDO NA SUA PRÓPRIA SAPIÊNCIA, E DESMERECENDO A SABEDORIA DE QUEM TEM ALGO A LHE ACRESCENTAR. CUIDADO! POIS O CAJADO EM QUE VOCÊ SE SUSTENTA É O MESMO QUE LHE FARÁ TROPEÇAR.
    Olódùmarè disse isso advertindo Obàtálá do seu amor próprio. Mas Obàtálá pensara que Olódùmarè falara do seu òpá-sóró, que ele sempre trazia nas mãos. E Olódùmarè continuou a dar-lhe instruções:
    — AQUI ESTÁ UM SACO COM O ELEMENTO PRIMORDIAL DA EXISTÊNCIA, O ÀPÒ-IWÀ, PEGUE-O E VÁ À MORADA DE IFÁ E PEÇA CONSELHOS A ORUNMILÁ. IFÁ LHE DIRÁ O QUE VOCÊ DEVE FAZER PARA CRIAR O MEU NOVO REINO, QUE SERÁ CHAMADO DE ÀIYÉ. É ESSA A MISSÃO QUE TE DOU.
    Obàtálá pegou o saco primordial da existência, o àpò-iwà, e retirou-se da presença de Olódùmarè, descendo da coluna de luz no Àwosùn Dàra até o centro do Orún. Lá, se ajuntou aos seus seguidores e sem demora foi para a morada de Ifá, para pedir conselhos a Orunmilá, o Grande Oluwò, O Senhor da Sabedoria e do Destino.
    Ainda no centro do Orún, Obàtálá deu uma volta ao redor de si mesmo, a fim de observar toda a circunferência do primeiro reino. E um sentimento estranho que ainda nenhum ser criado sentira apossou-se dele.
    Obàtálá começou a sentir uma grande satisfação pela sua capacidade de realização, e um sentimento elevado de dignidade pessoal, que logo se transformou em um senso de superioridade sobre os demais seres do Orún, levando-o a pensamentos de ostensivas arrogâncias, de modo que ele mesmo se colocou no centro do universo e da criação, em pretensões de superioridade aos demais. Por se achar digno de ser o único Imolè incumbido para criar o novo reino, o Àiyé…
    Esse sentimento é o que nós conhecemos como: o ORGULHO, a SOBERBA, a VAIDADE, a OSTENTAÇÃO de si mesmo, e tudo o que resume a manifestação do EGOÍSMO.
    Obàtálá, centrado em si mesmo, disse aos seus seguidores, os outros Imolès:
    — Como é grande a missão que o mais Alto dos altos me confiou. Isso comprova o meu grande poder, a fim de mostrar a todos a minha grandeza e a minha glória. De agora em diante serei conhecido como Òrínsànlá. — que quer dizer o “O Grande entre Todos os seres do Criador”.
    E todos os seus seguidores o reverenciaram, e juntos partiram para a morada de Ifá…
    Ao chegar à morada de Ifá. Obàtálá, que agora se chamava Òrínsànlá, pensava consigo mesmo: “Por que Eu, Òrínsànlá, filho unigênito de Olódùmarè, tenho que pedir conselhos a Orunmilá?”.
    Mas logo percebera que precisava de instruções, até porque ele mesmo não sabia onde e como criaria o Àiyé. E o que deveria fazer com o saco da existência, o àpò-iwà, que continha o elemento primordial da criação.
    Então, só por conveniência e interesse próprio, Òrínsànlá fora pedir conselhos a Orunmilá.
    Nos portões da morada de Ifá, Òrínsànlá arrogantemente falou ao porteiro:
    — Vá e diga a Orunmilá que eu, Òrínsànlá, o primeiro entre todos os Imolès Funfuns e toda a criação, o unigênito de Olódùmarè, pelo qual recebi do mais Alto dos altos a incumbência de criar o novo reino, desejo-lhe falar.
    Apressadamente, o porteiro da morada de Ifá foi ao encontro de Orunmilá. E, antes que ele pudesse abrir a boca para falar, Orunmilá lhe disse:
    — Diga a este, que eu não conheço nenhum Imolè de nome Òrínsànlá.
    O porteiro foi e disse a Òrínsànlá o que lhe foi dito. E Òrínsànlá disse ao porteiro:
    — Vá e fale a Orunmilá que Obàtálá, que agora se chama Òrínsànlá, é quem aqui está.
    E, antes que o porteiro pudesse virar-se e ir, Orunmilá lá estava. E disse:
    — Entre, Obàtálá, que agora pelo seu próprio poder se chama Òrínsànlá, tenho conselhos a te dar. Para que sejas vitorioso na empreitada que Olódùmarè te confiou.
    Òrínsànlá e os seus seguidores entraram na morada de Ifá. E Orunmilá lhe falou:
    — Vejo um grande cajado que estava em pé diante do mais Alto dos altos cair. Mas que, ao cair, pequenos brotos surgiram de sua cana, e tornou-se um grande arbusto. E muitos animais rastejantes, como também insetos e pequenas aves dos céus fizeram morada nele. E uma fonte de águas borbulhantes ali brotou, e dela jorrou um grande rio. E no lugar onde esse arbusto floresceu surgiu uma grande floresta. E um jardim foi posto ali, donde proveio toda a vida animada e inanimada, inteligente e de instinto que há de existir na face da terra.
    — Do que você está falando? — Perguntou Òrínsànlá.
    — De você, filho de Olódùmarè. — Respondeu Orunmilá.
    — Não posso perder tempo com suas parábolas, Ó Grande Oluwò. Vamos, me fale o que eu tenho que fazer para criar o novo reino. — Disse Òrínsànlá.
    — “Owe ni Ifá Ipa òmòràn ni ímò ó”, Ifá fala sempre por parábolas e sábio é aquele que sabe entendê-las. Vamos ver o que o oráculo tem a falar. — Disse Orunmilá.
    E, jogando para o alto os seus dezesseis búzios, os Odus, quinze dos dezesseis deles caíram no chão e apenas um flutuou. O primeiro Odu de nome Ejiogbe. E falou Orunmilá:
    — Eis que você será testado e passará por uma grande dificuldade em sua jornada, pois assim Olódùmarè, o Deus Supremo, determinou. Você deverá ir até a fronteira dos mundos no Òrun Àkàsò. Para que alcance o lugar determinado por Olódùmarè, em que você criará o Àiyé. Lá você encontrará um grande pilar, o Òpó-Òrun-oún-Àiyé. É lá que você deverá realizar esse grande trabalho. Aconselho-te que leve consigo outro saco com alguns itens e elementos, para que sejas vitorioso em sua missão. Pois você sabe muito bem que o Òrun Àkàsò, o reino astral, tornou-se a prisão etérea do acusador dos nossos irmãos. Aquele disseminador de ofensas e pai de toda mentira, que fora banido do meio dos Imolès Funfuns. Você sabe muito bem de quem eu falo, o pai de toda desarmonia, Èsú’Yangí.
    E, tomando a palavra, Òrínsànlá disse:
    — Eu não temo Èsú’Yangí. E também não preciso de sua magia e dos seus itens e utensílios, Ó Grande Oluwò. Eu, Òrínsànlá, primogênito entre todos os Imolès Funfuns, filho unigênito de Olódùmarè, provarei para você que derrotarei aquele traidor, com o poder e a magia do meu òpá-sóró.
    — Mas o que eu tenho a lhe dar, Òrínsànlá, será de grande valia para que sejas bem-sucedido em sua missão. — Disse Orunmilá.
    — Você, Ó Grande Sacerdote de Ifá, já me deu o bastante para o sucesso da minha missão. A localização exata para eu realizar o trabalho. A respeito de Èsú’Yangí, cuido eu. — E Òrínsànlá, falando isso, retirou-se da morada de Ifá.
    Orunmilá, avistando Òrínsànlá partir, disse consigo mesmo: “Eis que este caminha para o seu próprio fracasso. Pois rejeitou os conselhos de quem tem algo a lhe acrescentar. O seu orgulho o cegou, e eis que caminha em direção ao precipício. A sua grande loucura o levará à cova”.
    Orunmilá, sabendo que Òrínsànlá fracassaria em sua missão por não ouvir os seus conselhos, mandou os seus seguidores chamar Odùduwà. Pois Orunmilá acreditava que se Odùduwà fosse falar com Òrínsànlá, talvez ele pudesse corrigir o seu erro e seguir os conselhos do grande oráculo de Ifá.
    Odùduwà sem demora partiu com os seguidores de Orunmilá para a morada de Ifá. Chegando lá, Orunmilá lhe disse:
    — Odùduwà, a cabaça de onde Olódùmarè jorrou a vida, você será a Grande Mãe da existência material, e os novos seres que lá viverem te chamarão de MÃE NATUREZA. Eis que Obàtálá, que por amor a si próprio agora se chama Òrínsànlá, está prestes a tropeçar pelos seus próprios pés. Pois rejeitou os conselhos de Ifá, e daquele que tem sabedoria de lhe instruir. Peço-te, pelo amor que você tem por ele, que vá e o ajude. Para que ele possa se proteger de si mesmo e, assim, possa se desviar do caminho do precipício. Mas, se ele não te ouvir, e fracassar na sua missão, então você deverá realizar a Grande Obra do mais Alto dos altos. Pegue este saco, que contém um camaleão, cinco galinhas das que têm cinco dedos em cada pé, cinco pombas brancas e uma corrente de dois mil elos. Vá e siga Òrínsànlá às espreitas. Ele te conduzirá ao local exato para realizar a Grande Obra.
    E Orunmilá, pegando os seus dezesseis Odus, os jogou para o alto, e o segundo búzio, Oyeku Meji, que é a contraparte de Ejiogbe flutuou. Orunmilá então disse:
    — O mesmo que vem contra Òrínsànlá virá contra você. Mas, ao contrário do que acontecerá com Òrínsànlá, você obterá a vitória contra o acusador dos nossos irmãos. Ele tentará você para que tropece no caminho, você necessitará de ajuda, e no momento certo ela virá. Também não se preocupe de como você deverá realizar a Grande Obra. Ouça o seu coração e vai entender, pois toda inspiração vem do ouvir o coração…
    Odùduwà, retirando-se da morada de Ifá, convocou os outros Imolès Funfuns e partiu ao encontro da comitiva de Òrínsànlá. Alcançando-os no Òna Òrun, a via que dava acesso para o Òrun Àkàsò. E Odùduwà disse a Òrínsànlá:
    — Obàtálá, que por amor a si próprio agora se chama Òrínsànlá, viemos ao seu encontro para ajudá-lo em sua missão.
    — Odùduwà, Eteko, Akiré, Olúorogbo, Ògiyán, Olufan, Oko, Òkè, Lòwu, Ajagemo, Olúwofín, Pópó, Eguin, Jayé, Olóbà, Obaníjìta, Alajere, Olójó, Oníkì, Onírinjà, Àrówú, Ko e os demais Imolès Funfuns. Fico feliz em saber que vocês estarão comigo, me assistindo na criação do novo reino. Pois a mim foi confiada a honra, o poder e toda glória de criar o novo reino. Para isso terei que combater o meu maior inimigo e o malfeitor de todos os Imolès, que com ajuda de vocês serei vencedor. — Disse Òrínsànlá aos Imolès Funfuns.
    E Odùduwà lhe disse:
    — O poder, a honra e a glória não vêm de ti, Ó Grande Imolè, ela vem do mais Alto dos altos. E você rejeitou os conselhos provindos do grande oráculo. Viemos aqui para ajudar você a combater o seu maior inimigo, que pelo que vemos não é Èsú’Yangí, e sim você mesmo. Ouça o nosso conselho e siga as instruções de Ifá.
    — Eu, o Grande e o Primeiro Imolè, Òrínsànlá, a quem o mais Alto dos altos deu a missão de realizar a sua Grande Obra, tenho que ouvir os seus insultos. Saiam diante de mim, porque tenho um grande trabalho a realizar.
    Dizendo isso à comitiva dos Imolès Funfuns, Òrínsànlá virou-se e, sem demora, seguiu seu rumo em direção ao Òrun Àkàsò.
    Odùduwà e os outros Imolès Funfuns observaram a comitiva de Òrínsànlá partir. E Odùduwà disse aos demais:
    — O oráculo me falou que Òrínsànlá não vai ter sucesso nessa empreitada. Vamos segui-los às escondidas e vejamos o que acontecerá.
    Chegando aos portões do Òrun Àkàsò. Que é a faixa etérea, sendo o reino astral entre o Orún e o Òpó-Òrun-oún-Àiyé, delimitando o primeiro reino e o caos, Òrínsànlá, com sua impetuosidade, deu ordem aos seus súditos que abrissem os portões. Mas logo sem demora Èsú’Yangí, o banido que se tornará o porteiro e guardião das fronteiras dos mundos, surgiu e falou:
    — Quem ousa abrir os portões do Òrun Àkàsò sem me pedir permissão e me trazer oferendas.
    — Desde quando Eu, o filho unigênito de Olódùmarè, o Primeiro entre os primeiros, tenho que pedir permissão a um velho Imolè banido e traidor? — Disse Òrínsànlá.
    — Obàtálá, por sua causa vim eu a morar aqui neste ermo. E ainda você tem a coragem de vir aqui me desafiar? Saiba que o Òrun Àkàsò é o meu reino, e só eu decido quem entra e quem sai. E ninguém pode aqui entrar sem me render homenagens. — Disse Èsú’Yangí.
    — Saia da minha frente, seu traidor, ou eu, Òrínsànlá, te farei desaparecer com o poder do meu òpá-sóró. — Disse Òrínsànlá severamente.
    — Pois bem. Que seja feita a sua vontade, Ó Òrínsànlá. Pois não precisarei guerrear contigo, nessa batalha eu já sou vencedor. Pois o mal que agora há em ti é a brecha que eu tanto esperava, para que eu possa habitar finalmente em tua morada. — Èsú’Yangí, dizendo isso, deu uma sinistra gargalhada e sumiu diante da vista de todos.
    E assim Obàtálá, que por amor a si mesmo se fez Òrínsànlá, abriu sem permissão os portões do Òrun Àkàsò e seguiu caminho adentro.
    E, assim, desprezou as ordens de Olódùmarè, recusando os conselhos do oráculo de Ifá e repudiando Èsú’Yangí, que agora o dominara.
    Èsú’Yangí, olhando para o alto, falou, com o intuito que Olódùmarè ouvisse:
    — Aí está, Ó Grande Olórùm, o seu filho amado pelo qual Tu tanto te orgulhas. Desprezando e rejeitando as suas leis e mandamentos. Que diferença tem este de mim, Ó Grande Olódùm. Sei que, como conheces tudo e sabe do destino de todas as coisas, sabíeis Vós que isso viria a acontecer, e que seu protegido fracassaria. Se encontrando ele agora nos meus domínios e sob as minhas regras. Diga-me, Ó Grande Oló, o que eu devo fazer com ele. Pois bem sei eu que Tu o amas. E de que nada posso fazer com este sem que Tu o permitas.
    E uma forte voz, como de uma trombeta, potente como um trovão, vindo do mais Alto dos altos, falou:
    — ACUSADOR. SEI QUEM É VOCÊ, E SEI QUEM É O SEU IRMÃO. VOCÊ PECA CONTRA MIM, PORQUE SABE MUITO BEM O QUE FAZ A TODO O MOMENTO, E POR QUE O FAZ. JÁ O SEU IRMÃO APENAS FALHA CONTRA MIM, POIS ELE NÃO SABE O QUE ESTÁ FAZENDO. POR IMATURIDADE ELE FAZ ESSAS COISAS, E POR ISSO AQUI ESTOU PARA CORRIGI-LO. MAS VOCÊ, Ó ASTUTO, FAZ TODAS AS SUAS MALDADES COM A MAIS PLENA CONSCIÊNCIA, E CÁLCULO, E MAQUINAÇÕES. ESTA É A GRANDE DIFERENÇA ENTRE TI E O TEU IRMÃO. FUI EU QUE O ENTREGUEI EM SUAS MÃOS. APENAS NÃO O DANIFIQUE, MAS FAÇA COM ELE DE ACORDO COM O SEU BEL-PRAZER, PARA QUE SE ACUMULE A SUA MALDADE E PECADO. E NO DIA DA MINHA IRA EU POSSA COBRÁ-LA DE TI. — E, depois que a Voz do mais Alto dos altos falou isso, houve um grande silêncio e calmaria.
    Èsú’Yangí, sabendo que Òrínsànlá estava sob o seu domínio, apressou-se em lhe fazer o mal. Então, Èsú’Yangí estendeu o seu cajado de três pontas, em que cada ponta continha um crânio de bode com chifres envergados. E dos crânios de bode saíram uma tenebrosa fumaça preta, que seguiu ao passo de Òrínsànlá.
    De repente, ao redor da comitiva do Grande Imolè Funfun, surgiu uma névoa tenebrosa e assustadora. Que por um instante foi inalada por Òrínsànlá.
    Ao inalar aquela fumaça preta, Òrínsànlá ficou completamente desorientado no Òrun Àkàsò, que logo se transformara num sombrio deserto de areias, pedras e grandes rochas.
    Òrínsànlá e seus seguidores caminharam arduamente por longos tempos, que pareciam eternidades. Então, pararam para descansar debaixo de uma grande palmeira, o Igí-òpe.
    Ao observar aquela grande árvore, Òrínsànlá e seus seguidores ficaram abismados. Pois nunca vira algo assim parecido no Orún.
    Curioso, Òrínsànlá pegou o seu òpá-sóró e cravou a sua base dentro da grande palmeira. Então, uma seiva jorrou de dentro do seu tronco, o emun. E, vendo aquele sumo, o emun, ser derramado, um encanto saiu do Igí-òpe e dominou Òrínsànlá.
    De repente uma sensação desconfortante de insatisfação, iniciada por estímulos originados dentro de Òrínsànlá, o dominou. Uma sensação horrível que jamais nenhum outro Imolè sentira antes.
    Òrínsànlá desejava fortemente pôr algo dentro dele. Algo que faltava e que ele não sabia o que era. Algo que o deixava irritado e desesperado por não o ter. Essa sensação é o que conhecemos como SEDE. Òrínsànlá estava sedento.
    Òrínsànlá, ao ver o emun derramando pelo tronco do Igí-òpe, sentiu-se fortemente atraído, necessitado e desejoso do líquido. Naquele momento e naquela situação era o que ele mais queria.
    Então, ele jogou todas as coisas que carregava para fora de si. Como o seu manto, o seu cajado e também o saco da criação, que continha o àpò-iwà. E, correndo desesperadamente, debruçou-se embaixo da grande palmeira e começou a beber freneticamente todo o suco que escorrera dela.
    Porém, o que Òrínsànlá não sabia é que o emun é um sumo fermentado contido no tronco do Igí-òpe, com um alto teor alcoólico.
    Saciando sua sede, Òrínsànlá apresentou um comportamento inquieto, estava excitado e falante como um macaco. Mas ainda consciente dos seus atos e palavras, falando aos seus seguidores eloquentemente, atingindo níveis elevados de persuasão, como jamais eles o ouviram antes.
    Mas, passado um determinado tempo, Òrínsànlá tornava-se mais confuso, e como um leão ficara nocivo e voluntarioso, agindo irrefletida e violentamente. Fazendo com que os seus seguidores tomassem certa distância.
    E logo mais lá estava Òrínsànlá como um porco, completamente atirado ao chão, molhado pelo emun, que fizera uma poça no solo.
    Òrínsànlá estava em estado de sono profundo, caído ali debaixo do Igí-òpe, descuidado. Jamais nenhum Imolè sentira isso, que é o que conhecemos como a EMBRIAGUEZ.
    Os outros Imolès, seus seguidores, vendo aquele estado de Òrínsànlá. Ficaram assustados e perplexos diante de tais acontecimentos e transformações. Nunca viram aquilo antes e nada entendiam.
    Então, temerosamente se aproximaram com muito cuidado do corpo do seu mestre estendido ao chão. E começaram a observá-lo por longos tempos, e viam que nada acontecia. Pois os Imolès não têm a necessidade do sono, nem um período de repouso para o corpo e a mente, como nós seres humanos. Sendo este estado experimentado pela primeira vez por Òrínsànlá.
    Enquanto os seguidores de Òrínsànlá o observavam. Formou-se no meio deles um pequeno redemoinho de fumaça acinzentada, que evoluiu e logo se transformou em um corpo enegrecido, dando forma a Èsú’Yangí. Este rapidamente pegou o saco da existência, que continha o àpò-iwà, e da mesma forma que surgiu desapareceu.
    Èsú’Yangí mais uma vez elevou sua voz ao mais Alto dos altos, atestando:
    — Ó Grande e Poderoso Oló, aqui está o àpò-iwà, comprovando a falha do teu amado filho na missão que tu o deste.
    E uma grande voz veio do mais Alto dos altos, dizendo:
    — DEPOSITA O CONTEÚDO DO SACO EM UMA DE SUAS CABAÇAS QUE TRAZ NA CINTURA. SELA-O, E ENTREGUE A CABAÇA A QUEM PRIMEIRO TE PEDIR PERMISSÃO PARA ENTRAR.
    E assim Èsú’Yangí o fez, se posicionando nos portões das fronteiras dos mundos.
    Ainda na via Òna Òrun que dava acesso ao Òrun Àkàsò, Odùduwà e os outros Imolès Funfuns aguardavam um sinal do fracasso de Òrínsànlá em sua missão. Quando, de repente, eles avistaram ao longe um ser de aparência franzina e de pele enrugada, cabelos cinza e andar descompassado. Este ser de aparência estranha, estava caminhando como se viesse do Òrun Àkàsò. E, aproximando-se da comitiva dos Imolès Funfuns, este ser de aparência estranha os cumprimentou, e disse:
    — Saudações, grandes Imolès, eu sou Olónan, o senhor dos caminhos. Não se assustem com a minha forma decadente. Venho aqui a mando de Olódùmarè, para lhes dizer que Òrínsànlá falhou em sua missão. Prossigam até o Òrun Àkàsò e levem os presentes ao porteiro, e sereis bem-sucedidos.
    Falando isso, o velho prosseguiu caminhando e desapareceu. Entretanto, o que os Imolès Funfuns não sabiam é que aquele ser estranho era Èsú’Yangí empossado.
    Chegando aos portões das fronteiras dos mundos, o Òrun Àkàsò, Odùduwà, que carregava o saco das oferendas, que contém um camaleão, cinco galinhas das que têm cinco dedos em cada pé, cinco pombas brancas e uma corrente de dois mil elos, apressou-se na frente dos outros Imolès Funfuns, e disse em alta voz:
    — Porteiro! Peço permissão para passar. Eu e meus irmãos Funfuns.
    — Ninguém pode entrar no meu reino sem primeiro me render oferendas. — Disse o Porteiro.
    — Aqui estão as suas oferendas. — Falando isso, Odùduwà deixou o saco com as oferendas que Orunmilá lhe deu aos pés do portão, e se afastou.
    O Porteiro se aproximou, pegou o saco com as oferendas e, abrindo-o, viu os presentes que lhe foram ofertados. E disse:
    — Odùduwà, se aproxime. — Odùduwà foi até o Porteiro, e este lhe disse. — Dá-me o teu braço. — Odùduwà estendeu o seu braço e o Porteiro retirou do saco a corrente de dois mil elos. E, retirando um dos elos, colocou em seu pulso, e disse. — Faço isso como um sinal eterno, comprovando que você obteve a graça de realizar a Grande Obra. — Depois o Porteiro lhe deu o restante da corrente, e ainda uma galinha das que têm cinco dedos em cada pé, um pombo e o camaleão, e lhe disse:
    — Tome isso, pois eu costumo agradar àqueles que me agradam e menosprezo aqueles que me menosprezam. Aqui, também, está a cabaça contendo o àpò-iwà. Todos esses utensílios que lhe dei serão importantes para a boa conclusão do seu trabalho. Entre e prossiga na sua jornada.
    Os portões do Òrun Àkàsò se abriram, e Odùduwà, junto aos demais Imolès Funfuns, entraram e prosseguiram em direção ao grande pilar, que ficava nas bordas das fronteiras dos mundos, o Òpó-Òrun-oún-Àiyé.
    Entretanto, como estava previsto pelo oráculo de Ifá, Èsú’Yangí não deixaria Odùduwà passar livremente pela sua morada sem lhe fazer passar por dificuldades e provações.
    Quando a comitiva dos Imolès Funfuns prosseguia pelo grande caminho reto, este se bifurcou logo mais à frente. Sendo que um dos caminhos estava iluminado por uma cor vermelha, e o outro estava iluminado por uma cor azul. E na encruzilhada dos dois caminhos estava ali bem no meio um ser de forma feminina vestida com uma grande túnica púrpura de um vermelho escarlate. E, quando a comitiva dos Funfuns se aproximou, Odùduwà, então, disse:
    — Quem é você?
    — Não está me reconhecendo. Nos encontramos na via Òna Òrun. Sou eu, Olónan, o senhor dos caminhos quem vos fala.
    — Mas você está diferente, como pode isso ser assim. — Disse Odùduwà.
    — Posso ser o que quero, e ter a forma de qualquer coisa que penso ou desejo. — Disse Olónan.
    — Você, que é o senhor dos caminhos, pode me ajudar a escolher o caminho certo para chegar no Òpó-Òrun-oún-Àiyé? — Falou Odùduwà.
    — Um caminho é o caminho da verdade, e lá se encontra o Òpó-Òrun-oún-Àiyé, que pode ser o vermelho ou o azul. E o outro caminho é o caminho da mentira. E lá nada se encontra. E esse caminho também pode ser o azul ou o vermelho. Sendo que eu provim de um dos dois caminhos. O enigma é: se eu vim do caminho da verdade, eu te falarei apenas a verdade, e lhe direi qual o caminho certo a tomar. Mas, se eu vim do caminho da mentira, eu te falarei apenas a mentira, sendo que te conduzirei ao caminho errado, onde as trevas os aguardam. Você só pode me fazer apenas uma pergunta. Caso você acerte, saberá qual o caminho certo a tomar para chegar ao Òpó-Òrun-oún-Àiyé. Se errar, você e seus irmãos ficarão presos para sempre nas trevas, e atormentados pela escuridão. — Disse assim Olónan.
    Diante daquele enigma, Odùduwà e os demais Imolès Funfuns sabiam que Olónan verdadeiramente era Èsú’Yangí disfarçado.
    Então, eles se reuniram para debater o assunto, e logo chegaram a uma conclusão. Sendo que Oko, um dos Funfuns de grande sabedoria, que conhecia e manipulava bem as palavras e seus enigmas, disse aos demais:
    — Irmãos, agora ouçam com atenção, a chave para essa questão é muito simples. A pergunta correta a se fazer é… (e cochichou bem baixinho para todos). Pois, se Olónan proveio do caminho da mentira, e este for mentiroso, e falar que o caminho é azul, então, saberemos que o caminho azul é o verdadeiro. Pois ele estará mentindo, porque ele veio do caminho vermelho. E se por acaso ele veio do caminho da verdade, e, deste modo, for verdadeiro, e nos falar que o caminho é azul, é este o caminho correto! Porque ele veio do caminho azul. E essa regra vale também se ele disser que o caminho é vermelho. Aí então, saberemos que o caminho azul é o falso caminho, e neste caso o caminho vermelho é o verdadeiro caminho. Portanto, amados irmãos, independentemente do que ele diga, sendo verdade ou mentira. A verdade sempre prevalecerá!
    A maioria dos Imolès Funfuns estando de acordo, e outros ainda em dúvida, não entendendo a explicação de Oko, decidiram então fazer como ouviram, e Odùduwà adiantou-se, e disse a Olónan:
    — Não adianta se esconder em disfarces, ó acusador e traidor dos nossos irmãos. Bem sei quem és, ó enganador.
    Olónan, quando viu o seu disfarce cair, tomou a sua originária forma de Èsú’Yangí, e disse:
    — Odùduwà, como eu te amava. Mas agora você e seus irmãos serão os meus prisioneiros para sempre. Pois quem é sábio o bastante para decifrar os meus enigmas? E, mesmo que consigas desvendá-lo, passarás aqui uma eternidade de ciclos, até a destruição total do Orún. — E, dando uma grande e sinistra gargalhada, calou-se.
    — Acusador e traidor dos nossos irmãos, eis aqui a minha pergunta: qual a cor do caminho de onde você veio? — Disse Odùduwà, respondendo ao enigma.
    Èsú’Yangí, vendo que Odùduwà perguntou sabiamente, sendo que a verdade prevaleceria não importando qual cor ele desse como resposta, e assim, tendo sido decifrado inteligentemente o seu enigma, viu-se encurralado na pergunta, e derrotado desapareceu como fumaça no ar.
    Então, o caminho, que antes era bifurcado, converteu-se em uma reluzente estrada dourada, de brilho tão intenso, que, quando os Funfuns pisavam nela, seus pés desapareciam submersos em tamanha luminosidade.
    A comitiva dos Imolès Funfuns, liderada por Odùduwà, avistou ao longe um monólito na figura de um obelisco, constituído de um pilar de pedra única em forma quadrangular alongada e sutil, que se afunila ligeiramente em direção a sua parte mais alta, formando uma pequena pirâmide em sua ponta.
    Era o Òpó-Òrun-oún-Àiyé
    Chegando no Òpó-Òrun-oún-Àiyé, Odùduwà falou aos seus irmãos Funfuns:
    — Eis aqui o lugar exato onde iniciaremos o nosso grande trabalho de criar o novo reino.
    Mas o que agora incomodava Odùduwà era o fato de não saber como fazer esse grande trabalho. Pois Odùduwà continha em suas mãos todos os elementos para a Grande Obra, mas faltava a explicação exata para realizá-la.
    Então Odùduwà meditou e recordou-se das palavras de Orunmilá, o sacerdote de Ifá, que dizia: “Escute o seu coração e vai entender”.
    Odùduwà fechando os seus olhos, centrou-se em si mesma, buscando o mais profundo do seu íntimo, até alcançar as vias que levam ao coração. E, ainda meditando, perguntou aos seus irmãos quais eram os elementos que continham o saco para a realização da Grande Obra. E os Funfuns responderam:
    — Temos a corrente e ainda uma galinha, um pombo e o camaleão. E a cabaça contendo o elemento primordial, o àpò-iwà.
    Odùduwà, vendo um dos elos da corrente preso em seu pulso, disse:
    — Dá-me a corrente.
    E, pegando-a, prendeu uma das pontas no elo do seu pulso. E a outra ponta prendeu no grande pilar, o Òpó-Òrun-oún-Àiyé.
    Então, pegou o saco com o restante dos conteúdos e pulou para o caos. Ficando pendurada pela corrente, em meio ao nada, Odùduwà assim pensou: “Lançarei primeiro nesta vastidão o elemento primordial, que foi dado pelo mais Alto dos altos”.
    Odùduwà retirou a cabaça que continha o àpò-iwà, que estava dentro do saco. E, quebrando-a com uma das mãos que se encontrava livre, fez com que o seu conteúdo caísse sobre o vazio do nada, que escorregava leve e lentamente pelos seus dedos.
    Esse conteúdo, o àpò-iwà, é o que conhecemos hoje como as minúsculas pedras que formam os grãos de areia. O que chamamos de TERRA.
    O àpò-iwà, ao cair, formou uma base flutuante sobre a vastidão do nada, e continuou se estendendo até formar uma grande montanha. Odùduwà, vendo aquela montanha, sentiu a necessidade de jogar a galinha.
    E, lançando-a sobre a montanha recém-formada, a galinha de cinco dedos em cada pé começou a ciscar e espalhar a terra ao redor. Deixando somente uma grande elevação de terra no centro, formando uma grande montanha plana.
    Odùduwà, vendo o que a galinha fizera à terra, sentiu a necessidade de descer. Mas, temendo que a terra não fosse firme, jogou sobre ela o cameleão.
    O camaleão, ao cair sobre a terra, começou a andar lentamente e suas pisadas pilavam a terra fofa, as tornando mais condensadas e firmes. Sendo que em alguns lugares a terra descia extremamente, em quanto em outros lugares a terra se mantinha firme, formando grandes buracos e ecos na terra, junto a grandes platôs.
    Vendo que a terra era realmente firme, Odùduwà largou-se da corrente e saltou caindo com um dos pés sobre a terra recém-criada. E assim Odùduwà pisou no novo reino, deixando sobre a terra a sua primeira pegada, que até hoje existe na nossa Terra-Mãe África. O nome dessa primeira pegada deste ser alado gigante é Esè-Ntaiyé-Odùduwà.
    Quando os Imolès Funfuns viram Odùduwà caminhar sobre a terra, que era o segundo reino recém-criado, ficaram maravilhados. Então, choraram de grande emoção. E de lá de cima das bordas do Orún as suas lágrimas preencheram e nutriram toda a terra, dando origem às chuvas. E as águas ocuparam os grandes buracos formados pelas pegadas do camaleão, o que veio originar os grandes oceanos de hoje.
    Odùduwà, então, retirou do saco das oferendas a pomba. E, como um sinal de agradecimento pela maravilha da criação, lançou-a no ar em reverência ao mais Alto dos altos. A pomba, ao voar batendo as suas asas, lançou sobre a terra o vento e espalhou as águas. E sobre a terra formaram-se as lagoas e os lagos. Dando origem aos berços dos vales com seus planaltos e planícies.
    E por detrás do grande monte uma forte luz raiou, subindo lentamente, e clareando pela primeira vez o segundo reino. Era Olódùmarè em sua nave em forma de disco de fogo, e assim o mais Luminoso dos luminosos disse:
    EU SOU!
    E da terra começaram a brotar ervas diversificadas. E a vida se expandiu sobre a terra. E, assim como fizera no primeiro dia, todos os dias Olódùmarè visita a sua criação em seu disco de fogo, dando voltas em toda a Terra e depois partindo para sua morada, o Àwosùn Dàra.
    E Odùduwà concluiu a Grande Obra e criou o novo reino.
    Assim, pelo sucesso do seu trabalho, Olódùmarè deu a Odùduwà o título de Olófin. Que significa “O Senhor do Palácio”, por assim criar o novo mundo. Assim Olófin Odùduwà criou o novo reino em lugar de Obàtálá…
    Nesse ínterim, enquanto Olófin Odùduwà e os outros Funfuns contemplavam a criação do novo reino. Obàtálá, que por amor a si próprio se fez Òrínsànlá, despertou do seu sono profundo.
    Quando retornou a si, atordoado e ainda muito confuso, rapidamente levantou-se, vendo os seus seguidores o cercando. E, não se lembrando de muita coisa, perguntou a eles o que lhe se sucedeu. Então, os seus seguidores começaram a lhe relatar todo o acontecido depois que ele bebeu o néctar da palmeira.
    Nisso, enquanto os seus seguidores ainda falavam. Òrínsànlá foi com a mão em sua cintura para pegar o àpò-iwà, e logo percebeu que o saco não se encontrava mais ali. E de súbito perguntou aos seus seguidores:
    — Cadê o saco com o elemento da criação que o mais Alto dos altos me deu?
    Os seus seguidores, então, contaram tudo o que lhe sucedera depois do sono.
    Rapidamente, Òrínsànlá, junto aos seus seguidores, foi ao local indicado por Orunmilá, onde se deveria criar o novo reino, o Òpó-Òrun-oún-Àiyé.
    Chegando lá, e para sua maior dor, Òrínsànlá teve uma visão surpreendente do novo reino criado. E ali mesmo, segurando a grande pilastra, Òrínsànlá sentiu pela primeira vez um complexo de sentimentos que ainda nunca foram sentidos na criação.
    Uma dor profunda do âmago do seu íntimo o dominou, sentiu-se tão fraco que não mais conseguia erguer-se em seus pés, senão ficar de joelhos. Seus olhos se fecharam por não poder olhar mais os seus seguidores, pois diante deles se sentia fracassado. Lembrara-se de todas as coisas que fizera de errado, principalmente por não ouvir os conselhos do oráculo. E as recordações das palavras de Orunmilá e Odùduwà eram-lhe como estacas cravadas em seu coração.
    Essa dor era tão forte, que o sufocava gravemente.
    Òrínsànlá, que antes se sentira o maior entre todos os seres criados, agora se sentiu o pior entre todos os seres da criação.
    A maior das dores ainda estava por vir, era a de encarar Olódùmarè. Pois fracassara na missão que o mais Alto dos altos lhe confiou, e pela qual tanto se orgulhava.
    Ali mesmo, aos pés do Òpó-Òrun-oún-Àiyé, Òrínsànlá sentiu a vontade de querer desaparecer. Depois que experimentara o sono desejou nunca acordar, quem dera antes tivera dormido para sempre, e de ir embora, e nunca mais voltar.
    Um vazio imenso o dominara. Um desespero o cobrira. Uma impotência. Uma inutilidade de si mesmo o despira. Sentiu-se pela primeira vez numa dor interna tão forte e agonizante. E, em todos esses complexos sentimentos que deram origem ao que hoje conhecemos como a CULPA, a VERGONHA, a TRISTEZA, a MELANCOLIA, o ARREPENDIMENTO, o FRACASSO e todos esses demais sentimentos derivados da DERROTA, que afligem a alma dos seres pensantes e dominantes sobre esta terra.
    Rasgando suas vestimentas e depois caído ao solo, Òrínsànlá, sussurrando dolorosamente, disse aos seus seguidores:
    — Por favor, eu já não tenho mais forças para caminhar, me levem ao centro do Orún. Depois me deixem lá e vão procurar outro mestre, pois eu já não sou mais digno desse título.
    Seus seguidores, vendo o estado do seu senhor, entristeceram-se e fizeram tudo quanto este o pediu. Carregaram-no e caminharam em direção aos portões que davam acesso ao Orún.
    Ao se aproximarem dos portões, o Porteiro lá estava, e este começou a caçoar de Òrínsànlá, dizendo:
    — Ora, ora! Eis aí o mais poderoso entre todos os Imolès da criação. Pelo que vejo, já não tem mais esse poder todo que dizia. Diante dos meus olhos aí está um fracassado… Hahahahaha… Também tu serás banido, seu derrotado, assim como eu por sua causa, também fui.
    Òrínsànlá, diante das palavras de Èsú’Yangí, nem se abalou, pois tudo já perdera sentido diante dos seus olhos. Então, atravessaram os portões e foram até o centro do Orún, e os seus seguidores o deixaram ali como ele mesmo pedira.
    Quando Òrínsànlá viu que se encontrava só no centro do Orún, ajoelhou-se e olhando para o alto rogou:
    — Grande Oló, o mais Alto dos altos, o mais Belo entre os belos em que toda beleza se faz. Os mistérios e os segredos que a tudo embeleza se fazem em tua manifestação. Força dos fortes. Poderoso és Tu. Grande Presença que a tudo preenche e que movimenta, dançando em todas as coisas. Matriz de todos os sentidos e de todas as cores. Fonte luminosa que a tudo incendeia, encandeia e floresce. Grande e Magnífico Espírito de Santidade Infinita! Ouve os meus gemidos de dor e de angústia. Não te escondas de mim, porque estou aflito. Venha a mim, e que eu possa ascender a sua morada. Tive raiva daqueles que me aconselharam. Não ouvindo os que tinham sabedoria a me acrescentar, e eis-me aqui, fracassado e caído em desgraças. Sinto uma dor tão profunda, como se estivesse queimando em chamas por dentro. Já não sou mais digno, Ó Grande Oló, do sopro de vida que me deste. Leve esta vida de mim, e apaga essa chama que alumia, pois, o peso que carrego me enfraqueceu, e não tenho mais olhos para olhar mais nada e nem ninguém.
    Sem que Òrínsànlá percebesse, enquanto ainda suplicava, Olódùmarè o levou ao Àwosùn Dàra, a Morada dos Justos. Òrínsànlá ainda se encontrava de joelhos com o rosto prostrado ao solo, quando o mais Alto dos altos falou:
    — OBÀTÁLÁ, MEU FILHO, ERGA-SE E LEVANTE!
    Òrínsànlá, ouvindo a voz do mais Alto dos altos, e percebendo que se encontrava no Àwosùn Dàra, continuou de joelhos, e disse:
    — Grande Oló e meu Pai-Mãe Amado, não sou mais digno de tua Grande Presença, pois falhei na missão que me deste. Devo também ser banido como meu irmão Èsú’Yangí.
    — MEU FILHO, VOCÊ SABE QUE TE AMO, E VEJO QUE VOCÊ ESTÁ ARREPENDIDO. VOCÊ NADA TEM A VER COM SEU IRMÃO. LEVANTA-TE DEPRESSA, POIS TENHO OUTRA MISSÃO MUITO MAIS IMPORTANTE PARA TI. VOCÊ TEM AGORA O MEU PERDÃO.
    De repente, o ânimo de Òrínsànlá se restabeleceu. Então, ele se levantou e Olódùmarè continuou a lhe falar:
    — EIS QUE O NOVO REINO ESTÁ FORMADO, E AGORA EU SOU O SENHOR DO ÒRUN E DO ÀIYÉ. O QUE ERA PARA SER UM SÓ REINO AGORA É DOIS. E EIS O QUE ERA PARA SER UM SÓ SER, AGORA SERÃO DOIS. DOIS PRINCÍPIOS, DUAS SUBSTÂNCIAS E DUAS REALIDADES. EIS AGORA O CONHECIMENTO DO OPOSTO, DO DIFERENTE E DA DISCRIMINAÇÃO, E DO QUE SE FAZ REALIDADE, E DO QUE SE FAZ ILUSÃO. CONFUSÃO, E DETURPAÇÃO, E SUBORDINAÇÃO. SEPARAÇÃO E UNIÃO. VIDA E MORTE. NÃO E SIM. MACHO E FÊMEA. O ABSOLUTO E O VAZIO. AS TREVAS E A LUZ, E A LUZ E AS TREVAS. O CAIR E O LEVANTAR. EIS QUE AGORA O UNO SE FARÁ DUAL E NÃO MAIS ME VERÃO, QUANDO O DUAL SE FIZER UNO, EU ENTÃO RETORNAREI AO QUE VERDADEIRAMENTE EU SOU. E ME REVALAREI.
    — Das coisas que falou, Ó Grande Oló, eu nada entendi. — Disse Òrínsànlá…
    — AGORA, MEU FILHO, NADA ENTENDE. MAS LOGO ENTENDERÁ. AFINAL, VOCÊ TAMBÉM MUDOU. OU SERÁ QUE AINDA NÃO PERCEBEU?!
    Quando Òrínsànlá se olhou nos reflexos do palácio de cristais luminosos do Àwosùn Dàra, para seu espanto, viu que agora tinha duas cores. De um lado ele era branco, e de outro lado ele era negro, e disse:
    — Grande Oló, o que vem a ser isso?
    — UMA NOVA RAÇA BROTARÁ DE TI, E DENTRE ELA OUTRA RAÇA, E RAÇAS INTERMEDIÁRIAS TAMBÉM. PORQUE EU SOU O UM, E TAMBÉM O DOIS, E NISSO ME FAÇO TRÊS. POIS ENTRE UM E OUTRO, EU SOU A EXCEÇÃO. ESCUTE! AGORA TE DAREI UMA NOVA MISSÃO. OLÓFIN ODÙDUWÀ CRIOU O ÀIYÉ. E DOS TRÊS ANIMAIS ELEMENTARES, A SABER: A POMBA, A GALINHA DE CINCO DEDOS EM CADA PÉ E O CAMALEÃO, A VIDA ANIMAL SE DESENVOLVEU POR ADAPTAÇÃO. QUERO QUE VOCÊ CRIE OS SERES QUE HABITARÃO ESSE NOVO REINO, PARA DO ÀIYÉ SEREM SENHORES, REIS E DEUSES. ESSES SERES SE CHAMARÃO IGBÁ IMOLÈS. DESSA FORMA, MEUS PRIMEIROS SERES SÃO OS IMOLÈS FUNFUNS, DOS QUAIS VOCÊ FOI O PRIMEIRO, SENDO AQUELES DE COR E LUMINOSIDADE BRANCA. DEPOIS ACENDI MINHA LUZ ATRAVÉS DE SEUS CORPOS TRANSPARENTES, E FORMEI DE VOCÊS OS IRUN IMOLÈS, PARA LHES SERVIREM E LHES ALEGRAREM, QUE SÃO AQUELES DE CORES E LUMINOSIDADES MÚLTIPLAS E VARIADAS, E QUE DIVIDEM O ORÚN COM VOCÊS. AGORA QUERO QUE VOCÊ VÁ E CRIE OS IGBÁ IMOLÈS.
    — Grande Oló, como eu criarei esses seres, e qual elemento tu me darás para formá-los? — Perguntou Òrínsànlá.
    — DESTA VEZ NÃO TE DAREI MAIS ELEMENTOS. POIS VOCÊ PERDEU O ELEMENTO QUE TE DEI PARA A REALIZAÇÃO DA SUA PRIMEIRA MISSÃO, EM QUE VOCÊ FRACASSOU. E TAMBÉM, VOCÊ NÃO TERÁ MAIS CONSELHOS DOS SÁBIOS E DO ORÁCULO. POIS NEGLIGENCIOU AQUELES QUE TINHAM ALGO A LHE ACRESCENTAR. AGORA TODA AÇÃO TERÁ UMA REAÇÃO, E TODA CAUSA TERÁ UM EFEITO. VOCÊ COMERÁ AQUILO QUE COZINHOU, E COLHERÁ AQUILO QUE PLANTAR. VÊ, OBÀTÁLÁ, QUE TODAS AS COISAS COMEÇAM E TERMINAM EM VOCÊ. E TUDO QUE TE OCORREU OCORRERÁ NAQUELES QUE PROVÊM DE TI. VOCÊ SERÁ O ARQUÉTIPO DOS NOVOS SERES. E EM VOCÊ ELES ESPERARÃO E SE ESPELHARÃO. SAIBA TAMBÉM QUE O SEU OPOSTO, SERÁ TAMBÉM O OPOSITOR DELES. A ELES ENGANARÃO, SENDO QUE FARÁ DE TUDO PARA COLOCÁ-LOS CONTRA VOCÊ. ENTÃO, VOCÊ TERÁ QUE FAZER UMA ESCOLHA E DESCERÁ NO MEIO DELES, SE TORNANDO FRÁGIL E MORTAL COMO ELES, E SE SACRIFICARÁ PARA SALVÁ-LOS. E, MESMO ASSIM, MUITOS DELES TE REJEITARÃO, E NÃO MAIS TE RECONHECERÃO COMO O SEU CRIADOR E SALVADOR. VOCÊ SE LEVANTARÁ E ASCENDERÁ NOVAMENTE AO MAIS ALTO DOS ALTOS, E SE ASSENTARÁ COMIGO NO MEU TRONO, À MINHA DESTRA. E EXPULSARÁ O OPOSITOR DA EXTREMIDADE DO PRIMEIRO REINO, PRECIPITANDO-O NO ÀIYÉ. E QUANDO VOCÊ ESTIVER COMIGO, NÃO EXISTIRÁ MAIS NEM EU E NEM TU, POIS SEREMOS UM, SENDO QUE TUDO QUE É MEU SERÁ SEU. E JUNTOS PROCURAREMOS UM OUTRO, QUE NASCERÁ NO ÀIYÉ, O ÚLTIMO DA TRINDADE, E NELE FAREMOS MORADA PARA TODO O SEMPRE, E QUANDO ESTE VENCER, EU, TU E ELE SENTAREMOS NUM SÓ TRONO. E O ORÚN DESCERÁ AO ÀIYÉ E O ÀIYÉ SUBIRÁ AO ORÚN. E O UM QUE SE TORNOU VÁRIOS TORNARÁ A SER UM NOVAMENTE. MAS, POR AGORA MEU FILHO AMADO, REALIZA A TUA MISSÃO, E RESOLVE AS TUAS PENDÊNCIAS COM OS TEUS IRMÃOS, PARA QUE TUA OBRA SEJA PERFEITA, PELA OBSERVÂNCIA DA HARMONIA.
    Ao descer do Àwosùn Dàra, a Morada dos Justos, Obàtálá, que por amor a si próprio se fez Òrínsànlá, deu uma volta ao redor de si mesmo, olhando toda a circunferência do Orún.
    E um profundo sentimento de desconforto tomou conta de si. De repente, se viu desolado e imbuído em muitas dúvidas. Por um lado, obteve o perdão de Olódùmarè, e por outro tinha que enfrentar as consequências dos seus atos passados, para realizar um trabalho sem informações de como fazê-lo, e elementos para criá-lo. Também desta vez não podia nem pensar em fracassar na sua nova missão.
    Diante de todas essas coisas, que rodopiavam em seu íntimo, Òrínsànlá sentou-se, e pôs-se a meditar em todas as coisas que o fizeram falhar em sua primeira missão.
    Percebeu que o seu orgulho o autodestruíra, e desta vez queria reparar todos os erros passados, para que sua nova missão seja bem-sucedida e perfeita. E, pesando seus pensamentos consigo mesmo, disse:
    — A partir de agora em diante, não mais me autoproclamarei Òrínsànlá. De agora em diante todos me chamarão Òòsàálà. — Que significa “Aquele humilde de luz branca que a todos iluminará”.
    Òòsàálà iniciou sua jornada convocando todos os Irun Imolès que se encontravam no Orún. Pois os Imolès Funfuns se encontravam no Àiyé. Onde, a mando de Olófin Odùduwà, fundaram uma casa-cidade que chamaram de Ilé, que significa “casa, morada ou comunidade”.
    Òòsàálà convenceu os Irun Imolès a deixarem de lado todas as suas divergências e se unirem a ele, para fazerem parte de sua nova missão. E eles se despiram dos seus mantos brancos e pretos, unindo-se ao Grande Imolè Funfun.
    Reunindo todos os Imolès, Òòsàálà partiu em direção ao Òrun Àkàsò. Para de lá ir ao Òpó-Òrun-oún-Àiyé, e descer pela corrente até chegar ao Àiyé, e ir reunir-se aos demais Funfuns no Ilé.
    Os Irun Imolès, ao comando de Òòsàálà, chegaram nos portões das fronteiras dos mundos, o Òrun Àkàsò. Òòsàálà adiantou-se, e disse:
    — Porteiro, abra os portões para a corte dos Imolès passar.
    O Porteiro, vendo toda aquela multidão de Imolès juntos e unidos a Òòsàálà, ficou perplexo e indignado. Pois acreditava ele que o seu opositor Obàtálá se encontrava derrotado, e que os Irun Imolès estavam divididos em divergências entre eles por causa do engano.
    Mas agora Òòsàálà se apresentava diante dos seus olhos mais pleno de poder e com uma luminosidade muito clara, como se fosse o próprio Olódùmarè estando ali presente. Temeroso de receber alguma represália da parte de Òòsàálà, este nada questionou. Apenas abriu os portões e desapareceu diante da vista de todos.
    Chegando ao Òpó-Òrun-oún-Àiyé, a corte dos Irun Imolès, liderada por Òòsàálà, avistou ao longe e abaixo o novo reino. E como era belo, parecia um grande globo ocular azul com uma pupila amarronzada ao meio! Um montante de terra arrodeada por águas, contida num recipiente de gelo. Pois naqueles primeiros dias da criação a terra era unificada num só continente, que mais parecia uma grande montanha plana.
    Enquanto isso, no Àiyé, Èsú’Yangí fora rapidamente encontrar os Imolès Funfuns no Ilé. Chegando lá, ele se disfarçou e se apresentou aos Funfuns como Òjísé, o mensageiro. E disse-lhes:
    — Trago-lhes uma mensagem do Grande Oló. Obàtálá, que se fez Òrínsànlá, depois de ter fracassado na missão de criar o novo reino, ficou furioso e, assim, reuniu todos os Irun Imolès e agora planeja uma revanche por vocês terem furtado o saco com o elemento da criação, o àpò-iwà, e realizado a Grande Obra. Neste exato momento, eles já se encontram no Òpó-Òrun-oún-Àiyé.
    Quando Olófin Odùduwà e os demais Imolès Funfuns ouviram isso, ficaram tão apavorados que nem questionaram a notícia e nem o mensageiro delas, que por alguma razão, pela arrogância que eles já presenciaram da parte de Òrínsànlá, essa informação lhes parecia óbvia.
    Nesse ínterim, enquanto os Imolès Funfuns discutiam entre eles o assunto, Èsú’Yangí, disfarçado como Òjísé, desapareceu rindo ironicamente sem que eles o percebessem.
    Então, diante desse fato apresentado a eles por Òjísé, os Imolès Funfuns decidiram fortificar a cidade de Ilé, com uma grande muralha feita de grandes tijolos de pedra.
    Enquanto isso, Òòsàálà e os Irun Imolès desciam em fila pela corrente que unia o Orún ao Àiyé. E, pisando no Àiyé, Òòsàálà sentiu uma forte dor nos seus pés, que a cada passo ia se dissolvendo até parar.
    Então, eles caminharam em direção ao Ilé e encontraram uma grande cidade fortificada por muralhas de pedra. Ao chegar aos portões da cidade de Ilé, Òòsàálà disse em alta voz:
    — Irmãos Funfuns, abram os portões! Pois eu e a corte dos Irun Imolès queremos entrar e falar-lhes sobre uma nova missão que o mais Alto dos altos nos deu.
    Então, os Imolès Funfuns subiram nos muros da cidade, e Olófin Odùduwà adiantou-se, e disse:
    — Obàtálá, que por amor a si próprio se fez Òrínsànlá, o que temos nós contigo? Sei que você veio nos destruir, porque pelo seu fracasso realizamos a Grande Obra.
    — Não, meus irmãos, eu jamais faria isso. Pelo contrário, aqui estou arrependido diante de vocês, e venho lhes pedir perdão. E já não sou mais Òrínsànlá, o orgulhoso, e sim Òòsàálà, o humilde. E eis que agora me faço o menor dos menores entre vocês.
    — Vemos que você se tornou mentiroso como o traidor dos nossos irmãos. Pois, através de um mensageiro vindo do mais Alto dos altos, sabemos que você veio nos destruir, e por isso reuniu todos os Irun Imolès. — Disse assim Olófin Odùduwà.
    — Que mensageiro é este, que veio vos falar? Não vim destruir vocês, e sim lhes pedir ajuda. Pois o mais Alto dos altos me deu uma nova missão, que é a de criar os novos seres que habitarão este mundo. E, como eu falhei na minha primeira missão, por causa do meu orgulho, agora eu reuni todos os Imolès, do mais alto ao mais baixo entre eles, para que juntos viéssemos aqui encontrar-vos, e assim realizarmos juntos esse grande trabalho. Porque essa é a maneira que encontrei de me redimir, e de pedir perdão a todos pela minha primeira falha.
    Ouvindo isso, os Imolès Funfuns ficaram confusos e procuraram pelo mensageiro para pô-lo à prova diante de Òòsàálà, e não o encontraram. Então, eles rogaram ao mais Alto dos altos para que lhes esclarecessem aquela dúvida. E, uma voz potente como a de um trovão vinda do mais Alto dos altos, falou:
    — IMOLÈS! POR QUE DISCUTEM ENTRE SI OS MEUS MANDAMENTOS E AS MINHAS DETERMINAÇÕES? NÃO DEEM OUVIDOS A CONVERSAS E DIVERGÊNCIAS ENTRE VÓS. ÈSÚ’YANGÍ, AQUELA ESFERA PEDRA POROSA E FRÁGIL, QUE HABITA ENTRE VOCÊS, OS DIVERGIU, E AINDA CONTINUA DIVERGINDO. NÃO TROPECEM MAIS DE UMA VEZ NESSA CANA QUEBRADA, APRENDAM COM OS SEUS PRÓPRIOS ERROS.
    Ao ouvirem essa voz, eles compreenderam que aquele mensageiro de nome Òjísé, era de fato Èsú’Yangí disfarçado.
    De repente, as muralhas de pedra que separavam os Imolès se dissolveram na vista de todos. E Òòsàálà, junto aos Irun Imolès, entrou na cidade de Ilé e se uniu a Olófin Odùduwà e os demais Imolès Funfuns.
    Quando todos os Imolès estavam reunidos no Ilé. Surgiu de repente no meio deles o grande sacerdote do oráculo de Ifá, Orunmilá.
    Orunmilá chamou todos os Imolès, e falou para que eles ficassem em círculo com as mãos dadas. Sendo que fizeram dois círculos, um dentro do outro. Havia um círculo maior composto pelos Irun Imolès, que eram a maioria, e dentro dele um círculo menor, formado pelos Imolès Funfuns.
    Esses círculos eram tão perfeitos de tal forma, que todos observavam o grande sacerdote de Ifá que estava no centro dele. Pois cada Irun Imolè se posicionava entre os espaços das mãos dadas dos Imolès Funfuns.
    Ali, diante de todos Imolès, o grande sacerdote de Ifá, Orunmilá, convocou ao centro Òòsàálà e Olófin Odùduwà, e disse:
    — Imolès, seres do Orún, que é o primeiro reino da criação. Aqui estamos todos reunidos no novo reino, o Àiyé. Agora todos juntos celebraremos a união que se deu com o fim das divergências entre vós.
    Orunmilá, com sua mão esquerda, pegou a mão direita de Òòsàálà. E com sua mão direita pegou a mão esquerda de Olófin Odùduwà. E, ali no centro, uniu as mãos dos dois Funfuns, e disse:
    — Faço isso em representação da união de todos os seres criados. Esse dia será sempre um dia de comemoração entre vocês, e também entre aqueles que virão de vocês. Os novos seres que habitarão este novo mundo. Esses seres que serão um, virão como dois. Macho e fêmea. Os machos serão da descendência de Òòsàálà, o universo. E as fêmeas serão da descendência de Olófin Odùduwà, a natureza. Um representará o acima e o outro o abaixo. Um será forte e ardente como o dia, sendo este o sol. Outro será calmo e leve como a noite, sendo este a lua. Um agitará e o outro acalmará. Um completará o outro, e juntos movimentarão. Nascerão separados, mas viverão unidos. E pela união dos seus corpos a vida se multiplicará. Assim como agora eu faço com Òòsàálà e Olófin Odùduwà, eles também farão da mesma maneira diante de um sacerdote, para juntarem-se e se multiplicarem. Este dia será conhecido como Odù Ifá Ìwòrì-Òbèrè. O dia em que celebrarão o casamento, o acordo e o pacto de união.
    Falando isso, o sacerdote de Ifá pegou uma cabaça e pintou-a de branco. Depois cortou essa cabaça horizontalmente ao meio, separando-a em duas partes. Então, fez com que Òòsàálà ficasse ao lado de Olófin Odùduwà. Fazendo com que eles se abraçassem de lado com um dos braços. Sendo que Òòsàálà ficou ao lado esquerdo de Olófin Odùduwà, abraçando-a pelas costas com seu braço direito. E Olófin Odùduwà ficou ao lado direito de Òòsàálà, abraçando-o também pelas costas com o seu braço esquerdo.
    O grande sacerdote pegou uma das metades da cabaça, que era a parte de cima, e colocou na mão esquerda de Òòsàálà. Depois pegou a outra metade, a parte de baixo e colocou na mão direta de Olófin Odùduwà. Fazendo isso ordenou com que Olófin Odùduwà e Òòsàálà levassem ambas as metades da cabaça ao centro dos seus corpos. Sendo que Olófin Odùduwà segurava a sua metade abaixo, e Òòsàálà segurava a sua metade acima…
    Então, o grande sacerdote pegou do solo um pouco do àpò-iwà, colocando dentro da metade da cabaça que servia como base, que estava na mão de Olófin Odùduwà, para representar o elemento primordial da criação do novo reino.
    Também, colocou outros elementos primordiais da criação. Como carvão para representar o sangue da terra. O efun, que é o sangue branco, onde toda vida orgânica germina. E o osún, que é o sangue vermelho, onde a vida no novo reino habitará.
    Depois ordenou que Òòsàálà descesse com sua metade da cabaça sobre a metade que se encontrava na mão de Olófin Odùduwà, selando-a. E disse:
    — Eis aqui o igbá-odù. A representação do útero de toda a vida no novo reino. Separar as duas partes do igbá-odù, significará a própria destruição deste mundo.
    Falando isso, Orunmilá se retirou ascendendo ao Orún, levando consigo o igbá-odù.
    Então, Òòsàálà e Olófin Odùduwà se abraçaram e se beijaram. E, quando estavam se beijando, acendeu neles um glorioso sentimento que nunca fora antes sentido dessa forma em toda a criação.
    Sentiram o que depois viemos a conhecer como a atração que um homem sente por uma mulher, e que a mulher sente por um homem em seu primeiro contato. Esta sensação que une o macho e a fêmea. Sentiram e presenciaram uma nova e real forma de experimentar o AMOR.
    Depois daquele primeiro beijo, em que o inexplicável brotou, eles já não eram mais os mesmos, pois experimentaram o que ninguém jamais provou. O amor dos amantes. E a partir daí a cidade de Ilé se tornou Ilé-Ifè, a “Morada do Amor”.
    Òòsàálà, movido por uma grande compaixão, compartilhou sua missão com todos os Imolès ali presentes. Mas nem Òòsàálà e nenhum dos outros Imolès sabiam como poderiam criar os novos seres. Pois não havia elementos dados da parte de Olódùmarè, e nem instruções a serem dadas pelo sacerdote do oráculo de Ifá, Orunmilá.
    Òòsàálà, meditando nessa questão, obteve uma iluminação. Ele sabia que muitos dos Irun Imolès trazia consigo um segredo palpável. Sendo na verdade esse segredo um elemento que o representava.
    Então, ele teve a ideia de ir a cada Irun Imolè e lhe pedir o seu elemento, para ver se serviria para criar os novos seres, os Igbá Imolès.
    Òòsàálà foi pessoalmente a cada um dos Irun Imolès, do mais alto ao mais baixo em luz e sabedoria. Procurando um único elemento específico, para ver se era possível, a partir dali, moldar os corpos dos novos seres.
    Òòsàálà foi até Aganjú e lhe pediu o seu segredo. E Aganjú lhe revelou o enxofre. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, mas não deu certo. Pois o enxofre era mole, frágil e leve, e se quebrava com facilidade. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.
    Òòsàálà foi até Egbé e lhe pediu o seu segredo. E Egbé nada tinha para lhe oferecer. Pois, naqueles dias antes da criação dos Igbá Imolès, havia alguns dos Irun Imolès que não conheciam os seus segredos. Só sendo revelados a eles depois da criação dos Igbá Imolès, quando esses elementos ainda desconhecidos, se tornassem futuramente úteis para os novos seres.
    Òòsàálà foi até Elegbàrà e lhe pediu o seu segredo. E Elegbàrà, também, nada tinha para lhe oferecer.
    Òòsàálà foi até Erinlè e lhe pediu o seu segredo. E Erinlè, também, nada tinha para lhe oferecer.
    Òòsàálà foi até Ìdejì e lhe pediu o seu segredo. E, também, Ìdejì nada tinha para lhe oferecer.
    Òòsàálà foi até Ògún e lhe pediu o seu segredo. E Ògún lhe revelou o ferro. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, mas também não deu certo. Pois o ferro era rígido, muito duro e pesado, e não havia possibilidades de moldá-lo. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.
    Òòsàálà foi até Òsùn e lhe pediu o seu segredo. E Òsùn lhe revelou o ouro. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, mas, também não deu certo. Porquanto, o ouro era um pouco rígido, um pouco duro e pesado, e também, não tinha como moldá-lo. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.
    Òòsàálà foi até Obà e lhe pediu o seu segredo. E Obà lhe revelou o minério. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, porém, também não deu certo. Pois o minério às vezes era rígido, duro e pesado, e às vezes era mole, frágil e leve. Não tendo assim, como moldá-los. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.
    Òòsàálà foi até Sànpànná e lhe pediu o seu segredo. E Sànpànná nada tinha para lhe oferecer, além de palhas e cipós. Òòsàálà viu que com as palhas e cipós ele nada poderia formar que se assemelhasse a um novo ser. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.
    Òòsàálà foi até Òrànmíyàn e lhe pediu o seu segredo. E Òrànmíyàn, também, nada tinha para lhe oferecer. Pois, ainda não conhecia o seu segredo.
    Òòsàálà foi até Òsànyìn e lhe pediu o seu segredo. E Òsànyìn, também, nada tinha para lhe oferecer. Pois, também, ainda, não lhe foi revelado o seu mistério…
    Òòsàálà foi até Òsóòsì e lhe pediu o seu segredo. E Òsóòsì, também, nada tinha para lhe oferecer. Pois, naqueles dias, ainda, não lhe foi revelada a sua bravura.
    Òòsàálà foi até Òsùmàrè e lhe pediu o seu segredo. E Òsùmàrè, também, nada tinha para lhe oferecer. Pois, ainda não lhe foi revelado o seu dote.
    Òòsàálà foi até Oya e lhe pediu o seu segredo. E Oya lhe revelou o fogo. Porém, o fogo não era maleável e a tudo consumia. Então, Òòsàálà foi até Sàngó e lhe pediu o seu segredo. E Sàngó lhe revelou os gases. Òòsàálà tentou pelo menos conter os gases em sua mão, algo que lhe parecia impossível, e não deu certo. Não podendo nem ao menos conter os gases e nem o fogo, Òòsàálà jogou esses elementos na terra, e a terra os absorveu…
    Òòsàálà foi até Yemoja e lhe pediu o seu segredo. E Yemoja lhe revelou a prata. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, mas, também, não deu certo. Pois, a prata era um pouco rígida, um pouco dura e pesada, e, não tinha como moldá-la. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.
    Òòsàálà foi até Yewa e lhe pediu o seu segredo. E Yewa lhe revelou o cobre. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, mas também não deu certo. Pois também o cobre era rígido, duro e pesado e não tinha como moldá-lo. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.
    Òòsàálà prosseguiu indo a cada Irun Imolè, e de um a um pedia o seu elemento. Uns tinham algo a lhe oferecer e outros não tinham. Mas, nenhum dos elementos apresentados pelos Irun Imolès lhe serviu para criação dos novos seres.
    Depois de falar com todos e provar todos os elementos, Òòsàálà entristeceu-se. Porque desta vez não poderia fracassar em sua missão. E, se afastando de todos, Òòsàálà subiu numa grande montanha para ali meditar. E de joelhos e cabeça baixa ao solo, em cima da grande montanha, Òòsàálà chorou de tristeza.
    Òòsàálà chorou tanto, que suas lágrimas escorreram pelo pico da grande montanha. E as lágrimas tristes de Òòsàálà formavam pequeninos flocos cristalizados, embranquecendo toda região acima.
    As lágrimas de neve de Òòsàálà foram se derretendo da metade da montanha para baixo, formando nascentes de águas doce. Essas nascentes formaram grandes extensões de águas flutuantes, que deram origens aos primeiros rios.
    Porém, havia um dos Irun Imolès com quem Òòsàálà não se encontrou, porque se encontrava na beira do mar.
    Esse Irun Imolè estava encantado com as águas do novo reino. E, desde que pisou no Àiyé, brincava na beira do mar, entre as águas e a areia. O nome deste Irun Imolè é Nàná Bùùkúù.
    Nesse ínterim, enquanto Nàná Bùùkúù brincava à beira-mar, ela avistou os fluentes de águas provocados pelas lágrimas de Òòsàálà indo ao seu encontro. E, chegando velozmente, precipitaram-na ao mar. As águas arrastaram Nàná Bùùkúù até as profundezas do oceano.
    Ciclos eternos se passaram, e Nàná Bùùkúù, depois de dar um grande giro nas profundezas marítimas, regressou ao lugar onde se encontrava antes. Porém, viu que o lugar mudara. E, onde antes havia grãos de areia, surgiram grandes piscinas de águas acinzentadas pela lama, que resultaram do encontro do rio com o mar.
    Maravilhada, Nàná Bùùkúù começou a brincar com toda aquela lama, e dela formou muitas pequeninas criaturas, modelando-as com esse material. Essas são as muitas criaturas do mangue. Os variados tipos de crustáceos, conchas e moluscos. E, desde aquele momento, a lama se tornou o elemento de Nàná Bùùkúù.
    Descendo montanha abaixo pela neve branca, Òòsàálà já não tinha mais esperança de realizar sua grande missão que o redimiria. E, chegando à cidade de Ilé-Ifè, Òòsàálà estava prestes a contar a todos o seu fracasso, quando Olófin Odùduwà lhe contou que havia mais um dos Irun Imolès que ele não entrevistara.
    Òòsàálà recebendo essa boa notícia, restabeleceu o seu ânimo rapidamente, pois algo lhe dizia que sua missão não estava perdida. E sem demora foi ao encontro desse Irun Imolè.
    Os outros Irun Imolès lhe contaram que Nàná Bùùkúù se encontrava brincando na beira do mar. Então, Òòsàálà reuniu todos os Imolès, e juntos foram ao encontro de Nàná Bùùkúù.
    Chegando lá, Òòsàálà a cumprimentou e viu-a modelando as pequeninas criaturas no novo habitat que se formou pelo encontro do rio com o mar. Então, Òòsàálà foi até Nàná Bùùkúù e lhe pediu o seu segredo. E Nàná Bùùkúù lhe deu a lama negra acinzentada do manguezal.
    Òòsàálà pegou esse elemento, e moldou o primeiro Igbá Imolè à imagem e semelhança dele mesmo.
    Vendo que esse era o elemento certo para formar os novos seres, Òòsàálà encheu-se de alegria. Então, ele foi a Olófin Odùduwà e pediu que fizesse o mesmo, assim como ele fez. Olófin Odùduwà moldou o segundo Igbá Imolè a sua imagem e semelhança.
    Então, macho e fêmea os criaram. E a estes dois primeiros moldes Òòsàálà chamou de Egungun.
    Òòsàálà falou para que todos os Imolès o ajudassem a modelar mais corpos à semelhança dos Egunguns. E a estes derivados de corpos, Òòsàálà chamou de Egun.
    Depois de terem modelado todos os corpos dos Igbá Imolès, todos se reuniram em um grande círculo ao redor do montante de corpos feitos de lama enegrecida do manguezal. E juntos suplicaram ao mais Alto dos altos para que manifestasse sua glória, e respirasse o seu hálito de vida nos corpos de lama dos novos seres. E do mais Alto dos altos veio um sopro de vida dizendo:
    EU SOU!
    Então, os corpos de lamas criaram vida e se animaram. Todos ficaram maravilhados diante dos novos seres. E Òòsàálà foi bem-sucedido em sua missão de criar os seres que cuidarão do novo mundo.
    Mas de repente, diante de todos, Yemoja levantou uma questão e disse:
    — Se os Igbá Imolès cuidarão do Àiyé e de suas outras criaturas, quem cuidará dos Igbá Imolès?
    Yemoja disse isso porque sabia da fragilidade dos novos seres, já que eles eram feitos de lama, sendo que os seus corpos negros eram densos e grotescos. Muito diferentes dos corpos luminosos e graciosos dos Irun Imolès e dos Imolès Funfuns.
    De repente, Òòsàálà se viu diante de mais uma questão, que tornava sua missão ainda incompleta e imperfeita na criação. Mais uma vez Òòsàálà pôs-se a meditar, e, refletindo, obteve uma iluminação, e disse a todos:
    — Imolès do Orún, quero que cada um de vocês que tem um segredo, tome para si determinado grupo de Igbá Imolès.
    E, assim, como Òòsàálà disse, eles fizeram. E Òòsàálà continuou a dizer:
    — Agora com o dedo furem a cabeça de todos os Igbá Imolès, e coloquem em cada um o seu elemento dentro dela. Aqueles que ainda não tiverem elementos não se preocupem, pois no tempo certo em que o segredo for revelado a cada um de vocês, eu, também, lhes darei um grupo de Igbá Imolès. E aqueles que por ordem da própria natureza universal, não tiverem seus segredos nunca revelados, serão os pais e guardiões dos seres inorgânicos que farão companhia e servirão aos novos seres deste mundo. Por esse tempo, auxiliem os seus irmãos a cuidarem desses novos seres e de toda criação.
    E assim todos fizeram como Òòsàálà falou. E os Irun Imolès se tornaram os guardiões e pais dos Igbá Imolès.
    Porém, aconteceu uma coisa estranha e imperfeita na criação. Os Igbá Imolès do grupo dado a Nàná Bùùkúù agiam de forma esquisita e medonha. Òòsàálà vendo isso, se escandalizou. E, pôs-se novamente a meditar para resolver essa questão e obter a perfeição na criação, que era a satisfação de todos os seres.
    Òòsàálà meditando percebeu que cada segredo dos Irun Imolès, sendo colocado na cabeça dos novos seres, lhes dava personalidades, faculdades, inteligências e habilidades específicas. Sendo estes segredos a alma deles.
    E viu que esse novo ser já era composto de lama, e que colocar novamente lama em sua cabeça faria seres desmiolados e sem especialidades. Seres desprovidos de alma. Por isso que eles se comportavam de forma esquisita.
    E, rapidamente, Òòsàálà impediu Nàná Bùùkúù de colocar seu elemento nas cabeças dos corpos dos novos seres, e lhes tirou os seus filhos.
    Diante desse acontecido, Nàná Bùùkúù se sentiu muito ofendida, pelo fato de contribuir com o seu elemento para formação dos corpos dos novos seres. Mas, porém, não ser digna de obter a graça de nem sequer ter um só Igbá Imolè para cuidar.
    Òòsàálà mais uma vez pôs-se a meditar, e se viu diante de um problema hediondo e difícil de resolver. Pois ele sabia que, se um dos Imolès do Orún não estivesse satisfeito com a criação, não haveria perfeição. Porque a perfeição é a plena satisfação e aprovação de todos.
    Então, diante desse problema, Òòsàálà teve que tomar a decisão mais triste diante de toda a vida. E lembrou-se das palavras ditas a ele por Olódùmarè, de que a dualidade será a expressão dos novos seres e do novo reino. Pois se há vida no segundo reino, haverá também a morte.
    E, chorando lágrimas vermelhas, que escorreram na terra do novo mundo, que deram origem ao barro vermelho que provém a argila, Òòsàálà disse a Nàná Bùùkúù:
    — Nàná Bùùkúù, ouça! Você, que deu a lama, que foi responsável para formar o corpo dos seres deste mundo, digo-te agora que esse elemento lhe será devolvido. Porquanto, os seres deste mundo nasceram com uma dívida contigo. Dívida essa, de um empréstimo que todos eles terão que te pagar mais cedo ou mais tarde. E no dia desse pagamento, em sua morte, os seres deste mundo chorarão de tristeza, assim, como também, choraram de alegria ao nascerem, quando receberam de ti este valoroso empréstimo. E depois de acertarem as suas contas contigo, Nàná Bùùkúù, os segredos postos em suas cabeças pelos demais Irun Imolès, que permanecerem puros pelas suas ações de vida no Àiyé, subirão ao Orún e terão a permissão de passar pelos portões das fronteiras do mundo, o Òrun Àkàsò. Mas, aqueles que corromperem as suas almas no Àiyé e se acinzentarem, e, assim, atrofiarem os seus segredos, não terão permissões para passar pelos portões das fronteiras do mundo. Sendo que ficarão presos para sempre no reino astral, o Òrun Àkàsò.
    E, assim, Òòsàálà concluiu sua missão, obtendo a perfeição tão almejada pela Criação e pelo Criador de todas as coisas existentes.
    O Orún voltou a ser perfeito e iluminado como era no princípio, e suas fronteiras foram dissipadas. Pois, os seus seres alados estavam muito ocupados e felizes de cuidar dos novos seres do novo reino.
    E, assim, os Imolès Funfuns tinham os Irun Imolès por filhos, e estes tinham os Imolès Funfuns por pais. E os Imolès Funfuns se ocupavam e se empenhavam em manter a harmonia entre os Irun Imolès.
    E os Irun Imolès tinham os Igbá Imolès por filhos, e estes tinham os Irun Imolès por pais alados e celestiais. E os Irun Imolès se ocupavam e se empenhavam em manter a harmonia entre os Igbá Imolès.
    Por sua vez, os Igbá Imolès se ocupavam por cuidar deles mesmos, dos seus semelhantes e dos seus descendentes. E, também, de manter a harmonia entre os seres e as criaturas que dividem o Àiyé com eles.
    Dessa forma, Olódùmarè, o Deus Supremo, Pai e Mãe de toda Criação, encontrou uma perfeita solução para harmonizar os seus seres. Dando-lhes responsabilidades uns para com os outros, para manutenção da própria vida e de toda sua criação.
    E essa responsabilidade de cuidar um dos outros, é a mesma que o mais Alto dos altos tem com toda a sua criação.
    E essa responsabilidade é o único propósito de nossas existências neste mundo.
    É o que nos faz semelhantes ao nosso Criador Perfeito, O Pai e Mãe de Todas as Coisas Existentes.
    Essa responsabilidade é o que hoje conhecemos e sentimos como o verdadeiro AMOR, o verdadeiro AMAR e o verdadeiro SER AMADO.
    E os Irun Imolès, juntos aos Imolès Funfuns foram chamados pelos Igbá Imolès de Òrìsà, que quer dizer: “Aquele que me deu a minha alma” ou “Aquele que comanda a minha cabeça”.
    E, finalizando o conto, Djeli encarou N’zambi e disse:
    — Por isso, meu jovem, que na crença dos povos iorubás, os homens ao nascerem vêm com a cabeça aberta. Pelo fato de os Òrìsàs terem naquele momento colocado o seu elemento-alma dentro dela.
    O céu começara a clarear no K’ilombo dos Palmares, quando o preto velho griot Djeli terminou de contar a história da criação iorubá. O jovem príncipe N’zambi sentiu que vivenciou toda aquela experiência contada. E teve uma leve e profunda sensação de viver uma eternidade naquela noite. Vivera e experimentara todo o drama dos Òrìsàs. E algo do que ele não sabia havia mudado dentro dele. Sentiu uma mudança na maneira de como via e interpretava a vida, e o mundo em que vivia. Mas, também, se sentia muito confuso e desconfortável com as suas credulidades. Já que desde muito jovem fora educado no pensamento cristão do catolicismo, que não admitia outra forma de crença, senão as dos seus dogmas religiosos.
    Houve um silêncio profundo entre Djeli e N’zambi naquele momento. O preto velho esperava que N’zambi quebrasse o silêncio lhe perguntando algo. Porém, ambos permaneceram sentados por algum tempo, ao lado das cinzas do que antes era fogueira. Restando apenas poucas brasas, que soltavam uma leve fumaça. Enquanto o céu se acinzentava, anunciando que um novo dia estava preste a brotar.
    Djeli vendo que o rapaz permanecera numa quietude profunda, preso em seus próprios pensamentos, resolveu quebrar o silêncio ao comtemplar a solitária Estrela da Manhã, dizendo:
    — Imaginemos um grupo de pessoas vivendo uma fantasia. Imaginemos agora, que esse grupo de indivíduos não saiba que vive em uma fantasia, e que essa fantasia seja a realidade do mundo em que vivem. Agora imaginemos que dentro dessa “realidade”, algumas pessoas desse grupo criem fantasias para suas diversões e entretenimentos. Para, digamos, sair um pouco dessa “realidade” entediante em que eles vivem. E, também, criem fábulas para darem respostas para o porquê de eles existirem naquele grupo. Feito isso, agora eis a pergunta: Se algumas pessoas desse grupo procurarem saber a verdade, como elas distinguirão a realidade da falsa “realidade” e a “fantasia” da verdadeira fantasia?
    Fez-se um breve silêncio. N’zambi encarou o velho griot meio que embaraçoso em seus pensamentos, e Djeli continuou:
    — Se você acha isso complexo, meu jovem. Saiba que a nossa realidade não passa de fábulas e fantasias, dentro de outras muitas fábulas e fantasias ao longo dos tempos e gerações. Em que também, o tempo e o espaço e toda cadeia de pensamentos, palavras e sentimentos são meramente falsos e fantasiosos.
    — E o que é então a realidade e a verdade, Djeli? — Perguntou o jovem príncipe desesperado.
    — É aquilo que não se encontra, porque não se procura. — Disse o preto velho.
    — Se não se encontra e não se procura, é porque a realidade e a verdade nunca se perderam. Então, onde ela está, Djeli? — Tornou a questionar o jovem.
    — No aqui e no agora!
    Exclamou Djeli, e continuou:
    — Preferimos acreditar e viver as fantasias, não é? Porque encarar a realidade… hahahahaha… a realidade não tem cara! Vamos, meu jovem, o dia já raiou e você precisa descansar.
    E, sorrindo, abraçou com força o jovem príncipe, olhou profundamente em seus olhos, e disse:
    — Há de se construir sempre bons sonhos, pois o pesadelo em que vivemos é real.
    (Texto retirado do livro: O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA — A incrível saga do Quilombo dos Palmares no Novo Mundo, Editora Chiado Books, Jp Santsil)
  • Corrosão

    A tristeza vem me corroendo cada vez mais por dentro, a falta de carinho me mata a cada pequeno segundo que se passa, minha mente que grita a todo momento me atormenta mais que uma mãe em estado de parto, minha vida vai se encolhendo cada vez mais, e meu coração batendo cada vez mais forte, só queria dizer para que não bata tão forte assim, porque mesmo com todos os problemas que tento enfrentar, quero viver, pois minha missão ainda desconhecida ei de enfrentar e entender, os bons combates ainda hei de combater, sem derramar uma gota, uma gota de sangue, aquela que também passa e faz bater forte esse mesmo coração...
  • Crônicas do Parque: A verdade está onde nunca a procuramos

    Era uma daquelas manhãs escaldantes com temperaturas que variavam de trinta e cinco a trinta e oito graus célsius, com sensação de quarenta a quarenta cinco no centro-norte de Israel. Como de costume me encontrava todos os Yom Sheni (segunda-feira) no parque de Kfar Saba, fazendo manutenção nas piscinas ecológicas.

    Pegava meu bastão de rede, uma caixa plástica preta dessas de armazenar verduras em supermercados, e um balde vazio de comida de peixes ornamentais. Entrava na piscina e submergia até os joelhos no primeiro terraço em que ficava as Nymphoides, espécies do gênero das plantas aquáticas que crescem enraizados no fundo, com as folhas a flutuar à superfície da água, de cores brancas, amarelas e variadas tonalidades de flores rosa, da família Nymphaeaceae.

    Prendia meu smartphone pela sua capa ao cordão que ficava no meu pescoço, em que segurava ao peito um Magen David (Estrela de Davi) com um rosto de leão no centro, e colocava uma música suave para iniciar o meu trabalho de cuidar dos nenúfares.

    Em especial, aquela era a piscina ecológica que eu mais gostava dentre todas outras que dava manutenção no centro-norte. Pois, além de ser a maior dessa região, estava em um parque bonito e tranquilo arrodeado de belas esculturas. Essa piscina era especial, pois era a única de todas que tinha uma original carpa cinza gigante, espécie de peixe de água doce originário da China, e também havia um canteiro com Lótus Branco (Nelumbo Nucifera), um género de plantas aquáticas pertencente à família Nelumbonaceae da ordem Proteales, e também era lotada de peixes Koi (Nishikigoi), tendo o Higoi (carpa vermelha), o Asagui (carpa azul e vermelha) e o Bekko (branca e preta), que são carpas ornamentais coloridas ou estampadas que surgiram por mutação genética espontânea das carpas comuns (carpas cinza) na região de Niigata no Japão, tendo também outras inúmeras variedades de peixes-ornamentais como: peixes-dourados, peixes barrigudinho (Guppy) de diversas cores, aruanãs, entre muitos outros.

    Nesse dia em especial, me senti constantemente sendo observado por um senhor de chapéu azul e cabelos grisalhos que aparentava ter a idade de oitenta anos. Estava bem-vestido e mantinha sempre um sorriso no rosto. Ele se encontrava sentado em um banco largo que ficava próximo à piscina. E lentamente eu me aproximava dele ao curso do meu ofício de retirar as folhas amareladas dos nenúfares. E ao me aproximar daquela figura atraente, eu o cumprimentei com um Boker Tov (Bom Dia), e ele me respondeu com um Boker Or (Manhã de Luz). Assim trocamos sorrisos, e me voltei novamente para o meu ofício matinal.

    Quando o balde em que colocava as folhas amareladas e flores mortas dos nenúfares se encontrou cheio, me retirei da piscina para esvaziá-lo, o despejando na caixa plástica preta que estava perto do banco em que o senhor de chapéu azul se encontrava sentado. E, ao me retirar para regressar a piscina, ele elevou a sua doce voz anciã, perguntando-me:

    — Atah Rotze coz cafeh (Você aceita um copo de café)?

    Então, de imediato lhe respondi:

    — Ken, efshar (sim, aceito).

    Então, ele retirou de uma sacola de pano um bojão de gás pequeno e enroscou uma pequena boca de fogo nele, acoplando. Colocou o aparato ao solo, e retirou da sacola uma garrafa pet de coca-cola com água, uma pequena chaleira e dois copos de aço inoxidável. E, enquanto ele despejava a água no recipiente e acendia o fogo com um isqueiro para ferventar, fez um sinal com as mãos para eu me sentar ao seu lado.

    Enquanto a água estava para ferver, nos apresentamos e ele me fazia inúmeras perguntas sobre mim e meu ofício. Perguntas comuns que eu já estava calejado em responder. E, depois que ele preparou o café, comecei também a interrogá-lo. Para minha surpresa, descobri que ele não era judeu, mas árabe. Sendo que falava um bom hebraico sem sotaque e se vestia elegantemente, como um velho Ashkenazi. Além dele ter olhos de uma cor azul-claros como o céu que estava sobre nossas cabeças. (…Nós, e nossos pré-julgamentos…).

    Ele me falou que viveu muitos anos em Espanha, sendo um mestre sacerdote de Sufi gari (Tasawwuf), uma arte mística e contemplativa do Islão, assim como é a Kabbalah para os judeus. Ele viu o Magen David em meu peito, e disse que era bonito esse símbolo com um rosto do leão no centro. Também, me falou que esse símbolo em que os judeus se apropriaram o colocando em sua bandeira, é de muita importância para o Tasawwuf (Sufismo). E me revelou segredos importantes sobre o significado desse símbolo.

    Conversamos sobre muitas coisas, e eu o interrogava mais e mais, pois vi que esse senhor era muito sábio e ciente de tudo que falava. Ele me revelou coisas sobre a conduta do corpo, como postura e fala. Falou-me sobre pensamentos, músicas e danças místicas, e, sobre alimentação e jejuns para se ter uma vida espiritual equilibrada com o corpo físico. Nesse assunto, perguntei a ele porque não se deve comer carne de porco. Até porque eu já tinha perguntado a muitos rabinos e religiosos judeus o porquê de não comer a carne desse animal, e muitos não sabiam me responder ao certo. E, os que respondiam, falavam que estava escrito nos Livros da Lei, a Torah, mas não sabiam perfeitamente o porquê.

    Diante da minha pergunta, ele sorriu e me disse algo em que fiquei atônito. Contava ele que os porcos eram seres humanos amaldiçoados, por levar uma vida sexual pervertida na sua última encarnação. Ele me disse que por isso dentre todos os animais o porco era o mais inteligente, e, que seus órgãos internos como fígado, rins e coração são muito parecidos com os nossos, pois na verdade era um ser humano que encarnou nessa condição com a total consciência de sua vida-passada, mas que devido fato de estar em um corpo animal atrofiado não podia se comunicar para se revelar como tal. Nasceu nessa condição devido à decadência espiritual de sua vida anterior como ser humano, ao se entregar aos prazeres sexuais nojentos e tenebrosos, por isso esse animal pode levar até trinta minutos tendo orgasmos. E, assim, veio nessa condição para viver em sua podridão, ao comer seu alimento e dormir misturado as suas fezes, mesmo tendo a inteligência de defecar em um mesmo lugar, são condicionados pelos seus criadores (seres-humanos) a viver junto ao seu excremento. Também, ele me falou que o porco não tem a capacidade de olhar para cima, não podendo ver o céu, e sua pele não pode ser exposta à luz solar por muito tempo, pois não consegue transpirar, e pela falta de umidade decorrente do suor pode sofrer fortes queimaduras. Nasceu para olhar para baixo e se esconder da luz, sendo forçado por essa natureza a viver na lama. Ele também me disse, que o porco é o animal mais amaldiçoado do que a serpente, pois os porcos são invulneráveis às suas picadas venenosas. E concluiu:

    — É por isso que não se deve consumir a carne desse animal, por na verdade ser um ser-humano totalmente consciente em forma atrofiada. — e, acrescentou me revelando algo — Você sabia que não há diferença de gosto entre carne humana da carne suína… ambas possuem a mesma textura e sabor.

    Uau! Diante desses fatos que me foram apresentados por esse velho sacerdote Sufi, fiquei estupefato. E, entendi o porquê de George Orwell escolher os porcos para serem os protagonistas da revolução em seu romance satírico (Animal Farm — A Revolução dos Bichos). Provavelmente, ele sabia desse conhecimento do Tasawwuf. E isso me fez pensar, o quanto os antigos sabem do quê não sabemos. Essas são respostas que não podemos encontrar no oráculo Google. Respostas de um velho de oitenta e poucos anos sentando em um banco de parque (se bem que agora poder ser encontrada no Google).

    O velho me vendo atônito, colocou seus aparatos de café na sua sacola, levantou-se, despediu-se e saiu sem mais nada a dizer.

    E lá no banco do parque de Kfar Saba fiquei com a mão no queixo, vendo os peixes e as nymphaeas. Tão Ignorado em minha ignorante aquariofilia.

  • CULPA, VERGONHA E SENTIMENTO DE TRAIÇÃO!

    O árduo processo de libertação de um julgo religioso
     
       Imagine uma pessoa que foi sequestrada e mantida em cativeiro por muitos dias e que depois de molestada e tendo sofrido todos os tipos de abusos, humilhações e ameaças de morte contra si e contra seus familiares caso o resgate não seja feito, essa pessoa agora se depara com a porta do cárcere aberto podendo livremente sair, pedir socorro ou inclusive ir à procura da polícia para relatar os fatos e mandar prender os criminosos.
       O carcereiro saiu e acabou esquecendo-se de fechar às chaves a porta do abrigo. Ela sabe que o grupo não vai voltar tão cedo, pois durante os dias seguidos em cárcere, ela memorizou a rotina dos tais e como eles agem. Esta pessoa não estar amarrada em nada, apenas mantida em um quarto fétido e imundo, recebendo alimento apenas duas vezes ao dia e tem dormido em cima de um papelão sujo.
       Apesar de estar em um ambiente à prova de som e não ouvir a movimentação da rua, ela pessoa sabe que não estar afastada da cidade, pois do local do sequestro até o local do cárcere ela lembra que foi um trajeto em um curto espaço de tempo e que a sua salvação e de todos os que com ela se preocupam está bem ali, à poucos metros de distância, basta ela abrir a porta, atravessa a rua e estará em liberdade...
        Agora imagine toda essa situação, toda essa oportunidade de fuga que significa poupar a própria vida, os milhares de reais em resgate que a família ainda não conseguira providenciar, as centenas de horas de buscas feita pela polícia, dos bombeiros, dos investigadores e dos demais profissionais envolvidos...
       Imagine que depois de toda essa chance que a pessoa teve de fugir e se pôr em liberdade ela recua e pensa: “acho que devo primeiro pedir permissão aos meus sequestradores para sair daqui”! ou então: “meus sequestradores me espancou, me humilhou, ameaçou a mim e a minha família mas poupou a minha vida...devo ter consideração a eles e não posso contrariá-los fugindo sem a permissão deles”. Ou pior ainda: “há um propósito em tudo na vida! Eu não me sentia amada e querida por minha família, mas com a intervenção desses sequestradores hoje sei que meus familiares me amam pois estão correndo em busca de um altíssimo valor em resgate de minha vida...”
        Ridículo isso? Pouco provável de acontecer? Utopia? Claro que não! Isso acontece todos dias o tempo inteiro, só que de uma forma um pouco disfarçada entre os que se dizem fazer parte do “povo de deus”. Vou lhes mostrar!
       Agora imagine uma pessoa que passou a vinda inteira numa igreja sob pesadíssimos dogmas religiosos, sendo feito de besta observando mandamentos inúteis e atentando para exigências idiotas dos fundadores da igreja como se fossem um mandamento dito por um real ser divino, além de ter servido exaustivamente como obreiro voluntário, levando grande parte dos ofícios da igreja nas costas enquanto o líder religioso levava todo o lucro sem nada fazer, apenas administrando o rebanho.
        Imagine essa pessoa sendo sempre perseguida e acusada injustamente por causa fofocas de terceiros e que o líder de bom grado aceitava sem prova alguma e apesar de tudo mostrar o contrário, o líder aplicava punições injustas publicamente a essa pobre pessoa sem nem sequer dá-lhe o direito de se defender. 
       Apesar de cumprir à risca tudo o que lhe era exigido como “servo de deus”, de fazer todo trabalho voluntário e desempenho pessoal em prol do crescimento desta igreja, esta pessoa sempre tinha a si mesmo e toda a sua família ameaçada de morte, pragas e inferno todas as vezes em que por algum motivo atrasava o pagamento do dízimo, ainda que não fosse intencional.
       Imagine que esse crente apesar de ser uma pessoa de caráter íntegro, de respeito na sociedade e de ter uma alta grade curricular, precisava se submeter, levar bronca e servir a um líder religioso semianalfabeto e que acima de tudo era conhecido por seu abuso de poder, estando sempre envolvido nos mais diversos escândalos de ordem sexual, politica, financeira ou desvio de recursos doados por membros.  
       Imagine que essa pessoa pelo bem da “obra de deus”, mesmo tendo todas as chances de “enterrar o líder” por várias vezes quando sabia de algum novo ato indecente deste, decidia ficar calado para não causar escândalos na igreja procurando obedecer aos ensinamentos internos quanto a esse assunto.  Desse modo, tal pessoa torna-se ainda mais perigosa na visão do líder que recompensava tal silencio com ainda mais serviços, ainda mais broncas, ainda mais humilhações, ainda mais explorações e ainda mais abusos baseados na tal “autoridade divina” que todo líder religioso alega ter.
        Então essa pessoa, depois de anos à fio nesse ritmo, comendo o pão que o diabo amassou, de repente essa pessoa, levando pressão e abusos de todos os lados, esse “crente fiel” que sempre vivera sob o cabresto da fé e com seu círculo de amizades limitados pela igreja, se depara com pessoas de mente aberta, que pensam, falam e agem diferente dele,  e que não se submeterem a um líder religioso, deus ou igreja alguma e mesmo assim conseguem ter uma vida mais saudável, mais harmoniosa e mais feliz que aquele “servo fiel”. Além de tudo, sem achismo, sem misticismo e sem dogmatismo algum, essas pessoas “sem deus” conseguem mostrar por meio da razão, da lógica e de vários segmentos científicos que esse ele, esse servo “fiel a deus” não passa de um trouxa, e que estar jogando sua vida, sua família, sua saúde e os melhores dias de sua vida fora. Que a palavra mais adequada para o seu estilo de vida é CAPACHO.
       Essa pessoa sente-se assim há anos. CAPACHO é o termo mais apropriado para sua conduta. Besta, bobo, idiota, estupido, tamborete para outros sentarem, tapete para líder religioso limpar os pés... Tudo isso é verdade, mas esta pessoa sempre foi ensinada que isso faz parte do processo de salvação do homem e ela acreditava assim, pois há milhares de anos esse tem sido o comportamento padrão dos líderes religiosos sob os liderados. Ela nunca se dera conta que havia outras opções.
       Durante essa conversa com pensadores diferente, esta pessoa antes oprimida, vê brilhar diante de seus olhos um raio de liberdade, e pela primeira vez depois de muitos anos, em alguns segundos que parecem ser eternos, ela se vê projetando sua vida sem dogmas, sem pressão, sem obediência cega a ninguém, sem medo do inferno, sem ver outra vez sua família sendo ameaçada...Em todos esses anos foi a melhor sensação que aquela  indivíduo já provou desde que se juntou a um grupo paranoico que se acham escolhido por deus.
       Em sua visão de liberdade esta pessoa não se imagina em orgias sexuais, bebedeiras, cometendo crimes ou fazendo coisas que venham destruir a si mesmo ou a outros pelos mais diversos meios. Não é isso que ele pensa. Isso nunca foi para ele um conceito de liberdade. A liberdade em que essa pessoa se vê nesse curto espaço de tempo é uma liberdade em que o peso da religião lhe foi subtraída, onde o líder religioso já não tem influência sobre este, e todas as infames línguas da “irmandade dos santos” que ela teve de suportar até então já existe ou nada significa para si.
       É uma sensação ímpar! Algo à muito tempo não experienciado!
       De repente, em um sobressalto essa pessoa é preenchida por um sentimento de culpa e sente-se um traidor ao imaginar-se “deixando o corpo de cristo” ao abandonar a igreja, seu pastor e o seu grupo. Sente-se um imundo só em pensar em deixar a casa de deus.
       Ela pensa: “por mais que o meu pastor me humilhe, me explore e me ameace, ele está zelando pela salvação de minha alma! Ele é um escolhido por deus e eu não posso deixar de obedecê-lo”. Ainda completa: “por mais que eu esteja no meio de gente paranoica, fofoqueiras, caluniadoras e de caráter duvidoso, eles fazem parte do rebanho de cristo e vamos todos morar nos céus...
       Desse modo, o crente que experienciou uma liberdade momentânea, olha para os que estavam tentando abrir-lhes os olhos e os vê como a personificação do próprio demônio, um instrumento do diabo para desviá-lo dos caminhos do senhor...Este servo fiel se retira amaldiçoando os tais que lhes queriam abrir os olhos e corre para o líder religioso e em particular lhe conta o ocorrido, como ele “vencera o diabo” e repreendera os que “falavam pela boca de um demônio” tentando tirá-lo dos “caminhos santos”, e jura ainda mais lealdade a deus, ao líder e a igreja...
      Lamentavelmente essa cena se repete todos os dias em todos os lugares do mundo, onde um líder religioso fala em nome de deus como se fosse deus ou em favor desse, e onde pessoas que pela cultura em que nasceu, por indução ou por ignorância acabaram caindo nas mãos ou sendo fisgados para sistemas de crenças e convivência que mais parecem diretórios do crime organizado e mesmo assim recebem nomes que remetem a locais onde a boa conduta e o bom caráter se sobrepujam.
        Bem verdade é que nem todos os agrupamentos religiosos são assim e quem nem todo mundo experienciou na totalidade tudo isso que foi citado acima. Mas, bem verdade é também que em todas as igrejas em que o dízimo ou a obediência cega as lideranças é a regra principal do jogo, todos já ouviram de forma polida ou de forma brusca tais citações, principalmente no que diz respeito as ameaças de morte e inferno caso o dízimo não seja pago.
        Bem verdade é que as pessoas que sofrem algum tipo de abuso nas igrejas quais se filiaram jamais assumirão isso para quem estar de fora, pois além de sentirem vergonha, pesam sobre ela o sentimento de culpa e o castigo do próprio deus baseado em Lucas 17:2. Por isso silenciam diante dos mais variados abusos contra si ou contra outros membros do grupo e julgam que isso é um ato de fidelidade ao próprio deus.
        Bem verdade é que ninguém convence ninguém a nada e que quem deseja ser convencido de alguma coisa toma a própria iniciativa, vai aos poucos deixando os pré-conceitos, ouvindo vários pontos de vista sobre o mesmo assunto até encontrar um ponto de equilíbrio entre as teses. O processo de liberdade é longo depende mais do oprimido do que do libertador.
       Tentar mostrar a alguém que ela sofre abusos nas mãos de religiosos é o mesmo que tentar resgatar do cativeiro um encarcerado que não quer ser resgatado, que tem em suas crenças infantis a esperança de que uma mão justiceira e implacável irá surgir do nada a qualquer instante para derrotar de forma mística os sequestradores, e como em conto de fadas trazer à luz sobre aplausos este que antes estava oprimido.  Mas isso não vai ocorrer nunca.
        Pior ainda é quando o sequestrado se apaixona pelo sequestrador e acha que tudo isso faz parte de algum fetiche erótico e toda pressão sofrida aumenta ainda mais a excitação sexual do que é molestado...Quem já fez parte de igrejas com ritos ou líderes abusivos já presenciou por diversas vezes tais paixões indecentes e não adianta tirar o que sofre das mãos de quem os oprime pois este ao invés de agradecer-te irá odiar-te e vai se jogar ainda mais aos caprichos do abusador.
         O máximo que podemos fazer pelos tais é deixar que estes quando cansados, iludidos e abandonados se deixem tomar por um momento de lucidez e sigam por conta própria o caminho que melhor lhe convier, inclusive o caminho da não submissão aos líderes religiosos.
         Toda liberdade tem um preço, e nem todos estão dispostos a abrir mãos de certas coisas para conquista-la. Mas os que a conquistam farão o que for preciso para não se por outra vez sob julgo algum, principalmente dos que dizem ser representante de seres místicos e em nome destes exigir pagamentos, oferendas ou subserviência total.
          Saúde e sanidade a todos
  • DE AMPUTADOS A ESCRAVOS INCONSCIENTES- Parte 1 de 3

    Entenda o doloroso processo de libertação dos que um dia “morreram para o mundo” e “nasceram para deus”!
    PARTE 1 DE 3
       Por que “o mundo” é mal sendo que foi o próprio deus quem o criou? Sendo assim, esse deus é mau, cria o mal para depois oferecer ajuda, ou renomeia de mau qualquer um que não seja um escravo obediente?
       Deus precisa de seres livres e pensantes ou de escravos cegos, surdos, mudos, insensíveis e com incapacidades de questionamentos para continuar existindo e operando seu “grande amor”?
       Por que deus perdoa os que fazem o mal e não perdoa questionadores? Viver para o exercício do mal é mais suave aos olhos de deus do que questionar se algo existe ou não? Em toda história da bíblia, da cultura cristã ou em exemplos cotidianos nas igrejas, vemos pessoas que viveram todas as suas vidas causando mal a dezenas, centenas e milhares de pessoas e foram agraciadas com o “amor de deus” de alguma forma, enquanto pessoas de bem, que nunca fizeram mal a uma mosca sequer, foram, estão sendo ou serão condenadas apenas por questionarem o comportamento de um líder religioso, ou os insondáveis mistérios de deus. Por que questionadores incomoda mais a deus e a seus representantes ungidões do que pedófilos, assassinos e mercadores da fé? Se faz necessário ser devasso, corrupto ou mal caráter para que deus te ame?
      Por que o “poder de deus” geralmente se manifesta mais onde não há questionamentos? Seu poder é semelhante a um número de mágica de circo, que após entendermos como funciona truque, a mágica perde a influência sobre nossos sentidos e o mágico perde sua audiência? Seria os ensinamentos sobre deus um truque barato e seus idealizadores temem que o público veja através dos bastidores para que não percam a influência sobre estes? Por que tentar descobrir os insondáveis mistérios de deus faz ruir qualquer estrutura religiosa por mais “certa” que essa diga ser?
      Por que um fiel religioso tem de se afastar de qualquer outra linha de pensamento que não seja a do grupo inserido para não se contaminar, sendo que os mesmos afirmam que se alimentam da pura água da fonte da vida todos os dias?  Não deveriam os puros purificar os não puros pela sua pureza simplesmente por existirem perto desses?
       Por que o “poder de deus” na vida de um crente se esfacela mediante perguntas simples e objetivas de pessoas que não são do grupo religioso? A pirotecnia gospel serve apenas para os iludidos do próprio grupo? Se deus é a pura verdade em pessoa, por que fazer perguntas tão simples sobre ele deixam as pessoas irritadas, temerosas e com sentimento de culpa?
      Por que o “poder de deus” se enfraquece na vida de um fiel quando esse se torna culto, de mente aberta e de um elevado estado de compreensão do mundo e de senso crítico? Os ensinamentos sobre deus são apenas arquétipos para crianças crescidas que precisam serem ameaçadas com bicho papão ou boi da cara preta para sujeitar-se a vontade de seus dominadores e se tornarem dóceis?
      Por que nas três religiões que cultuam o deus de Abraão, a oferta de amor deus ao seus filhinhos vem sempre seguida de ameaças de morte ou de tortura física e psicológica caso seus servos a rejeitem? Se deus é bom, as pessoas não deveriam ser atraídas a ele, ao invés de serem forçadas a seguir a ele? Por que se faz necessário enclausurar pessoas para que o poder de deus funciona na vida dessas? Ele tendo todo o poder, amor e compaixão pela humanidade como a ele são atribuídos, não seria mais viável ele destruir o inferno que ele mesmo construiu e construir algo mais proveitoso?
       Se as pessoas vivem em estado caótico, não seria exatamente por que os representantes dele deitam e rolam aqui na terra usando seu nome e ele não faz nada? É justo que um pai ausente cobre bons exemplos de seus filhos sendo que ele nunca apareceu como modelo real desse mesmo exemplo? Por que condenar pessoas inocentes e confusas por um mal que ele mesmo deixou se alastrar por negligencia própria e uma má representação de sua pessoa?
      Por que mesmo sendo abusado moral, sexual ou financeiramente, um fiel religiosos ainda continua defendendo seus abusadores, a onipotência e onisciência de seu deus? Faz parte dos planos de deus que as lideranças cometam todo tipo de abuso aos liderados? Que tipo de deus é esse? Nem dos seguidores capeta ouve-se dizer tantas barbaridades em gênero, número e grau, se comparado aos “servidores da luz” e dos representantes desse deus.
      Se deus é universal e pai de todos, por que permite o segregacionismo e guerras religiosas em seu nome, sendo que ele “ama” a todos? O conceito de um deus universal e criador de toda humanidade, não aniquilaria por si só a necessidade de criação de religiões? Por que deixar que seus filhos briguem entre si pelo direito de paternidade sendo que ele mesmo afirma ter gerado a todos?
       Vamos refletir um pouco sobre essas questões. Não precisam ficar com medo. Garanto que nesse texto há menos informações perigosas do que em certos rituais ou livros ditos sagrados de alguns grupos de fé no deus mesopotâmico cultuado por todos os “filhos de Abraão”. Nesse texto não há incentivos a matar, degolar, estuprar, extorquir ou amaldiçoar quem quer seja caso não concorde com essa linha de pensamento. Nos livros sagrados dos seguidores do deus de Abraão há citações desse tipo e mesmo assim são chamadas de sagrados. Apenas leiam e reflitam. Nem precisam concordar a princípio. Só deixar as ideias amadurecerem por si só. Se fosse pecado pensar, seu deus não te faria um ser pensante, a menos que ele não seja tão bom assim, e tenha te dado um cérebro exatamente para te condenar por fazer uso dele da razão, como fez no paraíso, criando tudo de bom, e colocando o mal no meio para provocar o casal e depois expulsá-lo de lá por um mau que ele mesmo poderia ter evitado. Nesse caso, ai sim, surge mesmo a necessidade de se repensar em toda sua crença mesmo! Reflitamos!
    “Quem não abandonar pai, mãe e irmãos por amor a mim, não é digno de mim”... “Aquele que não aborrece a própria família por amor a mim, não é digno de mim”...Palavras atribuídas ao próprio Jesus segundo os evangelhos.
       Na edição do fantástico do dia 30/7/17, foi mostrado uma reportagem sobre pessoas que foram iludidas a “aceitarem a jesus” ou “servirem a deus” em uma determinada seita americana com adeptos também no Brasil, e a partir de então, foram obrigadas a viverem reclusas, longe do convívio com a sociedade em geral, com a própria família, com qualquer outras pessoas fora grupo, e dentro deste inclusive, até as conversas entre as pessoas do próprio grupo eram monitoradas pelos inquisidores do grupo e não eram permitidos certos tipos de assuntos entre os membros. Do modo de vestir, falar, andar e pensar, tudo era regido pelas lideranças. O ensino religioso e secular também eram fornecidos pela própria igreja, e sair dos portões da igreja, só se fosse com a permissão do líder maior e monitorado por algum assistente de confiança da seita.
       Nesse estilo de vida, as pessoas estão literalmente sob regime de escravidão e não percebem, mas quando questionadas, elas afirmam ser esse um caminho para a salvação e ainda dizem ser esse estilo de vida um preço baixo a ser pago, se comparado com o que Jesus sofreu por nós. Tais pessoas são levadas a acreditarem que seus torturadores querem apenas o bem para para elas, e fazem o que fazem como provar de amor e cuidado por eles. Acreditam piamente que os mantenedores da seita os amam e por meio de tantas torturas, pressões e amputações os estão protegendo do mundo, do pecado e das astutas ciladas do diabo que espreita em cada esquina, “rugindo como um leão, buscando a quem possa tragar”. O senso crítico destas pessoas e a capacidade de enxergar o mundo e se relacionar com as pessoas além do grupo, são todas aniquiladas e substituídas pelos comandos curtos e frases repetitivas da seita em questão. Um ser humano com infinitas possibilidade de crescer evoluir, criar e moldar o mundo e a sociedade ao seu redor é reduzido a pessoas amedrontadas, limpadores de banheiro de igrejas, serviçais gratuitos e particulares das lideranças, panfletistas de semáforos, auto inquisidores e como cães de guardas raivosos latem e atacam todos que ousarem chegar perto dos ungidos do senhor e dos limites territoriais da igreja.
      Algumas dessas pessoas que sofreram tais lavagens cerebrais jamais irão se libertar desse estilo de vida, e outros, mesmo depois de abandonarem o grupo, irão sofrer várias sequelas durante muito tempo mesmo não tendo mais o antigo líder como inquiridor, mas tendo o medo, a culpa e a ideia de um deus carrasco os monitorando todos os dias para afligir seus pensamentos. Quanto mais pura for a intenção de um seguidor e quanto mais fiel e dedicado for esta pessoa, mais difícil será seu processo de libertação. Boa parte dos que conseguem se libertar de um grupo religioso acabam sendo tragado por outros igual ou pior, pois criou-se o bloqueio nas comunicações com seus semelhantes e criou-se um buraco enorme no peito desses que só podem ser preenchidos pela “palavra de deus” ou “fazendo a obra do senhor”.
       Esse tipo de agrupamentos religioso causa mais dependência química aos integrantes do que o consumo de entorpecentes a quem faz uso deste. Quem já teve a oportunidade de acompanhar um dependente químico em fase de recuperação sabe que quase nada se diferencia em relação aos que estão buscando se libertar das dependências dos currais da fé. Crises de choros, ansiedade, depressão, medo da morte e do inferno, arrependimento por ter dado primeira tragada, vontade de revidar todo o mau que lhes fizeram, culpa, audições de vozes do além e agressividade sem motivos são sintomas comuns tanto a quem estar em processo de libertação das drogas quanto de quem estar tentando se libertar dos que usam um livro de capa preta para os intimidar e levar vantagem sobre outros. A libertação é lenta e dolorosa para ambos mas é possível em ambos os casos e só depois de libertos, ambas as pessoas poderão ver o mundo com outros olhos.
      Algumas igrejas deveriam receber nomes de hospício, manicômio, casas de detenções, presídios, casas de jogos, ou casas de todo tipo de exploração. Todas elas recebem o nome de casa de deus, lugar da verdade, lugar de amor, justiça e salvação, pelo menos pelos que estão dentro delas. Algumas pessoas até se revoltam quando autoridades judiciais chega a interditar locais como esses quando descobrem o tamanho das barbaridades que ocorrem dentro desses portões de recintos fechados. Os membros encaram isso como ação do próprio demônio, já que este faz de tudo a fim de parar a “obra do senhor” e o projeto de salvação de deus para o homem. Toda igreja tem seu próprio pacote particular de salvação, e uma vez adquirido por meio de uma confissão ou batismo público, querendo ou não, aceitando ou não, admitindo ou não, o novo convertido se torna objeto de interesses particular dos que dirigem aquele grupo, de toda hierarquia para ser mais exato. Tudo em nome da fé e em nome de deus, e o cara onipotente, onisciente e onipresente de lá dos céus olha sem nada fazer, pois afirmar não poder intervir no livre arbítrio de seus servos, a menos que você o questione, ai sim, ele interfere na hora, te ameaça e tal. Caso contrário, todos podem deitar e rolar em seu nome, que no dia do juízo final ele diz que vai acertar as contas com todos.
       Os casos mais comuns de interdição judicial nesses recintos religiosos geralmente acontecem apenas quando veem à tona por meio de séries jornalísticas que demonstram tais abusos. Casos contrário o poder público não se manifesta mesmo sendo patente aos olhos de todos. Os abusos e extorsões financeiras aos fiéis em nome da fé são feitos de modo escancarado diariamente em quase todos os cantos inclusive em canais abertos de TV e as autoridades não se manifestam pois afirmam que as pessoas dão seu dinheiro, tempo livre ou patrimônio de forma livre e espontânea nessas casas de comercio, sem levar em consideração que o princípio de lavagem cerebral ocorre tanto no que é induzido a dar dinheiro e viver “em liberdade” quanto aqueles que são obrigados a viverem reclusos em portões fechados apesar de não darem dinheiro algum, ou viverem sob duras normas de servidão física ou psicológica. Será que os que estão ali naqueles recintos, estão realmente de livre e espontânea vontade? Claro que não! Elas são ameaçadas com inferno, fogo, enxofre, gafanhotos, devoradores e um número sem fim de enfermidades caso se recusem a permanecerem ali ou não obedecerem aos seus líderes. A própria bíblia é um livro recheado de ameaças com dezenas de exemplo de pessoas que se recusaram a obedecer seus líderes e foram punidas por estes ou pelo próprio deus. O caso de Ananias e Safira é o mais usado para ameaçar que se recusar a dar dinheiro pra igreja. Como dizer então que aquelas pessoas estão ali de livre e espontânea vontade todas elas? Quem nasce nesses recintos, não conhece outro mundo senão aqueles e acha que isso é normal.
    CONTINUA...
  • DE AMPUTADOS A ESCRAVOS INCONSCIENTES- Parte 2 de 3

    Entenda o doloroso processo de libertação dos que um dia “morreram para o mundo” e “nasceram para deus”!
    PARTE 2 DE 3
       Se considerarmos o princípio da não coação psicológica garantida por lei, ameaçar as pessoas de irem ao inferno ou de terem suas saúde física ou financeira comprometidas por se recusarem a dar dinheiro dentro de uma igreja para a “obra do senhor” , já seria por si, objeto de apuração para fechar 95% das igrejas que operam em nosso país usando a bíblia como recurso para esse argumento indecente, sendo que o próprio deus a quem eles afirmam existir, seja imaterial, atemporal, incriável, indestrutível e auto suficiente, não dependendo de nada ou ninguém para continuar existindo e que sendo assim, qualquer tipo de valor financeiro destinados a ele se torna uma proposta mentirosa.
      A “justiça” não interdita ou proíbe tais ações dentro das igrejas mesmo sabendo que tais fatos são corriqueiro ao longo de toda história mundial em vários segmentos religiosos, pois a religião sempre serviu de braço forte para o controle das massas e manobras políticas, e um povo sujeito a um deus e pragas imaginárias se tornam bem mais dóceis e fáceis de se controlar do que um povo que não tem o imaginário como opressor maior e usam a razão ao invés da fé para gerar resultados. Como na maioria dos países do mundo mais de dois terços da população é voltada a algum tipo de crença religiosa, quando um político tiver dificuldade em executar suas manobras políticas basta se aliar a um líder religioso qualquer e tudo fica mais fácil e desse modo fica bem mais viável manter políticos inescrupulosos no poder. Não haveria políticos ruins se não fosse a ideia desse deus carrasco para punir questionadores.
       A própria bíblia ensina a sujeitar-se aos políticos como exemplo de obediência ao próprio deus. Seria cômico se não fosse trágico! O próprio cristianismo no modelo que hoje conhecemos, com uma trindade e tudo mais, foi criado do nada exatamente por um “politico” da época no intuito de manter os domínios do seu império que ameaçava ruir. Há quem diga que foi o próprio deus encarnado que desceu do céu e fez tudo que a crença cristã ensina como forma de amor à humanidade. Quando pesquisam a fundo sem a coleira dos líderes perceberão que nada disso é verdade! Por esse motivo, não é novidade nenhuma que igrejas tem servido de currais eleitorais e desde que surgiu a tal de bancada evangélica, pastores são respeitados e valorizados pela quantidade de “cabeças” que tem em seus “currais”, pois tem sido assim há séculos. Mudam-se apenas o nome da bancada, mas o pano de fundo é o mesmo. A inquisição e as leis civis da maioria dos países islâmicos são a maior prova de que religiosos no poder absoluto só fazem o que não presta!
       No artigo 5 de nossa constituição, é citada como legal e permitida a liberdade de expressão religiosa a qualquer indivíduo do nosso país. Porém no mesmo artigo, é citada também vários outros direitos do cidadão como a de expressão artística, intelectual, cientifica e de comunicação além de dizer que ninguém deve fazer nada por coação ou contra a sua própria vontade. Dizer que se alguém não der o dizimo, não aceitar a jesus ou não obedecer cegamente a uma liderança religiosa vai para o inferno, estar ferindo esse princípio garantido por lei.
      O modelo que muitas igrejas cristãs operam no brasil, faz com que muitos dos direitos do cidadão garantidos por lei sejam violados, distorcidos ou manipulados.  De 77 parágrafos que constam nesse quinto artigo da constituição, alguns líderes se valem apenas do parágrafo que diz respeito a liberdade de culto religiosa para obstruir até 50 outros parágrafos inseridos nesse mesmo artigo. Se levarmos em conta a Lei universal dos direitos humanos, alguns grupos religiosos seriam recordistas em infrações e abusos nesse quesito. Pode uma coisa dessas? Pode aqueles que dizem ser os percussores da liberdade do homem, serem os primeiros a infringir tais liberdade? Em nome da fé pode tudo não é? Geralmente alguns líderes religiosos buscam a constituição apenas quando querem ter seus direitos validados, mas quando querem obstruir o direito alheio, usam a “bíblia sagrada” dizendo que somente a ela devemos obedecer. Nesses locais, o livro dito sagrado intimida pessoas mais do que o ambiente hostil que se cria em uma favela infestada de marginais portando fuzis e metralhadoras. Um livro usado para ameaçar e oferecer castigo ou recompensa sendo manuseado por pessoas ignorantes ou de má fé, tem causado mais males do que as maiores epidemias ou guerras que a humanidade já conheceu. A própria história da igreja revela isso e há dezenas de exemplos desse tipo inseridos na própria bíblia. Um livro dito sagrado para ser usado em atitudes profanas. O cúmulo do absurdo!
       Situações semelhantes as que foram mostradas na reportagem da seita americana ocorrem todos os dias em nosso vasto território em dezenas de igreja, sejam extorquindo ou explorando o dinheiro e tempo útil das pessoas, seja forçando-as a seguirem um louco estilo de vida contrário a própria natureza humana, privando-as de prazeres triviais e comum a todos, seja ameaçando-as diariamente com inferno e maldiçoes no presente e no porvir caso não obedeçam cegamente as suas lideranças. Como a ideia de deus e os conceitos do cristianismo são todos subjetivos e passiveis das mais diversas interpretações, cada pessoa que abre uma igreja interpreta de modo particular a vontade desse deus e vira ao mesmo tempo carcereiro e encarcerado de seu próprio mundo particular. Nesse perfil existirão aquelas que te proíbem de usar até um simples shampoo nos cabelos, àquelas que irão te proibir de beber um copo de café ou te obrigar a guardar dias santos, por viverem procurando demônios naquilo que eles mesmo dizem ser a criação perfeita de deus. Essas igrejas se tornam ambientes em que o louco e o médico são as mesmas pessoas e que pessoas livres, honestas e de almas puras, são convencidas de que são miseráveis pecadoras destinadas ao inferno e que precisam estar naquele recinto sendo vítimas de todo tipo de abuso para serem salvas de um crime que nunca cometeram, cujo único crime foi ter nascido humano em um planeta bom criado por um deus bom.
      Quem sabe, se tais pessoas tivessem nascido um simples animal precisariam passar por tudo isso, apesar que tenho quase certeza que o próximo produto vendido pelos exploradores da ingenuidade alheia será a salvação para os PETS da família. Como a sociedade mudou e hoje as pessoas de hoje estão se preocupando mais com a aparência física e bem estar do seu bichinho de estimação. Então, por que não vender a salvação para eles também? Afinal, você ir para os céus sem o seu totozinho não dá, não é? Podem contar os dias e aguardem essa novidade! Será que estou sendo um profeta? Será que estou auto sugerindo a criação de um novo modelo de comercio de fé? Acho que não! Baseado no passado da igreja é muito fácil prever seu futuro, nem precisa de revelação divina para prever tais coisas! Se a igreja vende lixo de construção como objeto sagrado para abençoar seu lar, não seria capaz de vender um pacote de salvação para animais domésticos? Claro que sim! Pode tudo, absolutamente tudo em nome da fé! É pior que a dita casa da mãe Joana! Com aumento gigantesco e oportunista das igrejas da prosperidade, a outra possibilidade lucrativa que vejo nesse mercado de gente mal intencionada, é que qualquer dia desses, para consumirmos carnes, aves e peixes em qualquer açougue, terá de vir não o certificado de vigilância sanitária, mas sim o certificado de que aquele produto tem o selo de alguma dessas igrejas loucas, e se não foi orado, benzido ou ungido por alguma “homem de deus”, essa carne não poderá ser consumida. Se na idade média, até as espadas dos templários eram ungidas pelos sacerdotes para causar uma “morte santa” aos que estavam sendo transpassados, podemos esperar qualquer coisa desse nicho de exploração.
      Poucas pessoas inseridas nesses recintos percebem que são escravas ao invés de pessoas livres e salvas como se auto denominam. Muitos poucos ainda quando percebem, tem a capacidade de se rebelaram contra seus opressores ou um sistema, com medo de represálias em público, ou serem excluídas do convívio social. Em certos casos as pessoas não recuam pois destruíram todos os seus relacionamentos fora do grupo, e por ser um animal social, o ser humano percebe que tem dificuldade de viver fora de grupos. Isso é proposital. A maioria desses líderes te ensinam a destruir suas amizades fora da igreja ou fazer com que você veja todos que estão fora como inimigos exatamente para que você não volte atrás, não recue e não abandone a “casa de deus”. Se seus relacionamentos fora do grupo não forem demonizados, na primeira dificuldade que você passar nesse ambientes eles iriam te perder. Se lá fora você foi levado a acreditar que tudo é do diabo, você se sentirá seguro com seu líder opressor e manipulador. Agatócles, um tirano do passado em Siracusa, quando desembarcou Cártago, cidade que ele iria atacar mandou queimar os próprios navios, vetando assim a possibilidade de seus homens tentarem fugir caso achassem que iam perder a guerra. Incentivar a destruir os relacionamentos sociais fora do grupo e passar a ver a todos os demais como filhos do diabo é importantíssimo para manter qualquer um dentro de um curral para livre exploração.  Até animais selvagens depois que passam muito tempo em cativeiro ficam vulneráveis quando são posto em seus ambientes naturais. O senso de caça e auto defesa são prejudicados e acabam morrendo de fome ou atacados inclusive por animais inferiores a eles.
        Ao serem inseridas em quase todo agrupamento cristão, umas das primeiras coisas que as lideranças inculcam na cabeça no recém convertido, é que ali é o lugar seguro, e que fora daquelas paredes ou da supervisão daquela liderança tudo é mal, pecaminoso, impuro e indecente, incluindo pessoas e objetos inanimados. Dentro daqueles recinto tudo é bom, puro, santo, maravilhoso e há um montão de gente que te ama ali e fora dali tudo é mal, perdição ou do diabo. Essa linguagem construída é repetida tantas vezes que ao ouvido de quem ouve se torna real e depois de um tempo, não se questiona a veracidade dessa informação assim como não se questiona quase nada dito. Na verdade esse aparente amor grupal não passa de uma grande ilusão, pois você só é objeto de desejo enquanto estar fora, depois as mesmas pessoas que te convidaram possivelmente poderá te ver como concorrente caso você alcance um posto mais elevado que o dele e agora tu poderás ser repudiado, perseguido e odiado.
       Em quase todas igrejas de regime fechado os membros são orientados a desfazer ou esfriar suas amizades com “pessoas do mundo” sendo que todos eles moram no mesmo mundo, e são induzidas manterem todo tipo de relação afetiva e amorosa apenas dentro do perímetro marcado pelas lideranças. Se romperes algum limite imaginário marcado pela liderança, a humilhação em público é o mínimo que sofrerás! Faz parte do processo de adestramento castigo-recompensa. Nesses casos, os obreiro das igrejas servem de olheiros e informantes constantes para te denunciar ao líder maior, acrescentando ou inventando ao seu respeito o que viu e o que não viu a fim de serem promovidos a um cargo maior e serem reconhecidos em público pelo serviço de delação premiada que estes voluntariamente se encarregam de prestar. Nesses casos, enquanto o que estar sendo injustamente delatado é humilhado e rebaixado sendo vítimas de calúnias e difamações, o delator é exaltado, ganha notoriedade e sobe de função no grupo. Um verdade inferno se torna esses lugares de forma literal! Desse modo, pessoas simples constantemente são acusadas e punidas por “pecados” que nunca cometeram por que um puxa saco de pastor os dedurou para mostrar serviço e subir na hierarquia da igreja.
    CONTINUA...
     
  • DE OLHOS BEM VENDADOS....

    Cegos pela fé, presos pela ignorância e domesticados pela cultura local, religiosos seguem valores invertidos nas igrejas como se fosse algum tipo de virtude!
    Se “rebelar contra o ungido do senhor”. Comentar com pessoas fora do grupo o que de ruim acontece dentro da igreja. Questionar os métodos pelos quais “deus” se utiliza usa para “abençoar” alguém na terra.
       Entre as dezenas de “pecados e proibições” que a igreja inventou, esses são os 3 mais “mortais” no mundo da fé segundo os ditames explícitos ou implícitos, faladas ou não nesses lugares onde sem perceber, o profano é sacralizado a todo instante.
      O primeiro desses “pecado” é capaz de mover contra você, toda uma estrutura hierárquica de uma instituição religiosa, cujos líderes agem como se fossem milicianos, tentando à todo custo dominar territórios já conquistados, conquistar novos territórios ou aumentar o faturamento dentro do território já dominado por eles, utilizando-se de toda e qualquer ferramenta de manipulação existente (ou inventada) para que em nome de deus, seja subtraído o máximo possível do faturamento ou do patrimônio dos fiéis.
      Quem já cometeu esse tipo de “pecado” , o de “se rebelar”, sabe muito bem que por mais “concorrente” que um líder religioso venha ser do outro dentro do mesmo território ou fora deste, quando um crente “se rebela”, todos eles ou a grande maioria deles (dos líderes) se unem para silenciar a todo custo os impulsos anarquista de tal membro, afinal se um líder vier a cair no descrédito por alguma teoria “herética”, todos eles podem cair também, e o motivo pelo qual eles “servem a deus” ficará obsoleto.
       Todos eles sabem que para defender conceitos abstratos e surreais que só existem no mundo da imaginação dos que comprem tais ideias, ações reais e imediatas devem ser tomadas logo, senão todo o universo fantasioso do mundo dos deuses desabará como se fosse um castelo de cartas.
        Desde o início de sua história, a fé cristã, bem como tantas outras foi imposta pela força da espada, da chantagem, de represálias ou de manipulações diversas para que as pessoas viessem “servir a deus” e a igreja por meio dessa crença expandir seus domínios. Servir a deus era o mesmo que servir aos seus representantes e tem sido assim até hoje.
        A VIDA OU A CRENÇA? Essa é a pergunta milenar feita toda vez que um novo território é conquistado para deus em vária religiões. O lado negro da expansão do “reino de deus” jamais te contará. Mas ela se repete todos os dias e você pode conferir por conta própria e só não serás capaz de enxergar se tiveres sido picado pelo vírus “virtuosa irracionalidade”, pois obedecer cegamente a quem impõe a crença faz parte do processo de catequese de todos os conquistados.
      Rebelar-se contra todo abuso, estupidez, infantilidade e imbecilidade faz parte do processo de quem ainda goza de suas faculdades mentais até por que a não reação provocar a perda da vida ou liberdade.
       O modelo de conquista e conversão adotado pela igreja é como um grande trator desgovernado, que sai esmagando tudo o que estar em seu caminho.  Se não for aberto uma vala profunda o bastante para que fiquem preso nela o trator e seu maquinista, é necessário pelo menos tirar as peças principais que fazem girar as engrenagens do sistema, tornando inútil a função da máquina desgovernada e do maquinista louco pois ambos, por meio de tanta truculência, poderiam trazer destruição aos solos mais frutíferos e produtivos da nossa intelectualidade quando substituem os mais diversos plantios e fertilizam nossas mentes apenas com a semente principal da religião que é o medo, a ganancia, a ignorância e a subserviência forçada.
       Desde os primórdios, é sabido que não é preciso muita coisa para irritar um “homem de deus”. A arrogância a prepotência são odores desagradáveis muito peculiares a grande maioria destes. Em certos casos um simples “eu não entendi o que isso quer dizer” pode ser encarado como um sinal de afronta, como se fosse um ato declarado de rebeldia de sua parte para com os tais “guardiões da verdade e justiça”.
       Se o líder religioso possui todos os níveis de graduação em teologia ou se mal sabe escrever o próprio nome e só estar ali por que foi capacho de um líder maior, o orgulho será o mesmo se o único meio de vida destes for o bolso dos crentes que eles governam. As ameaças que eles fazem também terão o mesmo impacto. Porém, quanto mais graduado este for, mais credibilidade terá e mais fácil será ordenhar o grupo. Se não tiver graduação nenhuma, a intimidação pelo “poder da palavra” sempre funcionou!
       Mesmo que esteja ligado a uma pequena ou grande CONVENÇÃO, o líder religioso será sempre INDEPENDENTE no território em que preside, e até que ele venha ser substituído por estar te perseguindo, te prejudicando ou interferindo diretamente na condução de sua vida, de seus negócios ou do teu casamento,  a tua reputação, tua saúde física, tua sanidade mental ou teu patrimônio já poderá ter ido à pique se esperares que deus ou a hierarquia eclesiástica venha te salvar.
       É bem provável que esta fique do lado dele pois ele, a ela representa. Quando não, em casos comprovados que você realmente fora a vítima do absurdo, o máximo que eles farão é transferir o líder maléfico para outro local, para aprontar outras tantas por lá e sair rindo de tua cara ainda, te chamando de trouxa, e você vai ficar no prejuízo chorando pelos cantos, esperando uma justiça divina que nunca virá!
      Como prêmio de consolação, alguns irão te dar um cargo dentro da igreja, para te silenciar, te fazendo trabalhar de graça ainda mais para eles, e farão você acreditar que estava sendo apenas testado por deus para uma causa maior. Nesses casos, mesmo se eles te deres em mão um CERTIFICADO DE TROUXA escrito com letras garrafais, você o exibirá como se fosse um troféu, pois mesmo lendo o que estar escrito, entenderás de outra forma, só por estar recebendo tal premiação das mãos de um “ungido”.
       Quanto ao pecado de número 2 acima citado, é esperado, aconselhável, ou subentendido por todos do grupo, que mesmo que você não entenda ou não concorde com algo dito pelo “ungido” e seus asseclas, que você diga AMÉM e aceite tudo o que for dito por estes. Desse modo você evitará uma avalanche de desafetos contra ti que poderá vir de todos os lados, inclusive ou principalmente de sua própria família, que esperando não ser penalizada também pela sua “rebeldia”, insistirá para que você seja uma ovelha muda e “coma calado” tudo o que o “homem de deus” disser.
       Nem sempre seus parentes religiosos são pessoas com más intenções ao te pedir servidão total às crenças que te ensinaram, ao grupo ou ao “Homem de deus”. É possível que estes, assim como quase todos só estejam com medo, se protegendo, tentando preservar a própria paz, a “honra da família” ou evitar uma condenação eterna por teres se “levantado contra o homem de deus”. É um mau que se arrasta por séculos e as tradições familiares nos fazem parecer que seja melhor trocar a nossa própria liberdade pelo afago de um suposto facilitador que poderá te conduzir aos reinos dos céus.  
      Somente depois de liberto é que uma pessoa é capaz de perceber que as ameaças, agouros ou supostas bençãos que esses possam impetrar contra nós, não tem validade alguma. É do medo que eles vivem, é no medo que eles prevalecem é por meio da intimidação que eles se tornam quem são, com supostos poderes de facilitar a “vida espiritual” de alguém bem como a salvação ou condenação deste. Depois de um tempo, você perceberá que a coisa mais salutar que existe na vida é desprezar tais abomináveis criaturas ameaçadoras, quando estes abrindo um “livro sagrado” e por meio de intimidações baratas tentam te trazer de volta ao “colégio dos oprimidos”.
       Quando um desesperado encontra um vigarista em busca de respostas metafísicas para coisas físicas, desprezando o agente causador, um guru espiritual ou um líder religioso barato fanfarrão tomará forma e como um parasita maldito passará a viver às custas do hospedeiro. Isso acontece há séculos e assim será até que venhamos assumir as rédeas de nossas próprias vidas ao invés de terceirizarmos nossas responsabilidades, buscando respostas surreais para o óbvio. 
        É esperado por parte da grande maioria insana do grupo que os membros silenciem diante dos maiores absurdos cometidos por qualquer líder religioso. A exemplo de João de deus, mesmo que um líder religioso venha fazer algo suspeito ou declaradamente amoral com alguém de dentro ou fora do grupo, durante ou depois do atos litúrgicos, é  aconselhável que o membro do grupo ou a família inteira deste, bem como todos os que presenciaram a cena, mantenham silencio a cerca disto, pois segundo esses vigaristas, deus trará aflições aos que tornam público os escândalos em sua casa.
       O vaqueiro ordena e o gado obedece! Mesmo quando visivelmente uma ovelha estar sendo espancada, maltratada, humilhada ou até “fodida” pelo chefe maior, o silencio deve permanecer e se rebelar contra isso, é assinar o próprio decreto de morte. E chegam a dizer que somente deus pode julgar um ungido, e que isso só será feito no tal dia do juízo final, e que por mais errado que um ungido esteja, há 99% de chance dele ser redimido por deus, enquanto o que sofre em suas mãos será punido por não saber perdoar um ungido de deus em seus momentos de “fraqueza”.
       Dizem que nada se compara estar na casa de deus. E isso é verdade! Em certos casos, nem em um puteiro baixo, de quinta categoria, uma pessoa seria tão humilhada, explorada, abusada e lhe vetado do direito de defesa. Em outros lugares, quando uma pessoa não estar mais gostando do recinto, sai, vai embora e pronto! Na “casa de deus”, quando uma pessoa decide sair por estar sendo feito de trouxa, uma avalanches de maldiçoes, e ameaças de morte e inferno eterno, faz com que a grande maioria retorne aos braços do seu explorador e ainda se sinta grata por ter tal pessoa “zelando pela sua alma”.
       O terceiro pecado imperdoável segundo a visão dos crédulos, é o pecado de questionar os métodos que deus adota para manifestar a sua “gloria”.
       Deus, desde o princípio, sempre usou métodos cabulosos, duvidosos, horrendo e controversos para se manifestar. Ele jamais aceita ser confrontado. Em toda a história de sua “existência” sempre ficou difícil saber quando ele estava ordenando o líder ou quando o líder estava ordenando-o, pois a vontade de um, sempre se confunde ou coincide com a vontade do outro. O desejo de ambos, tanto do líder quanto de deus, sempre fora que as pessoas o obedeçam sem questionar, sem pensar, ser redarguir, pois o cérebro poderosíssimo que “ele criou” não serve para nada, apenas para enfeite, ou apenas para usarmos para pecar contra ele por meio da reação natural ao questionamento.
      Ao tirar o povo do Egito ele fez um estrago danado àquele povo por que Faraó e seus súditos questionam seus métodos e desse modo todos pereceram. No deserto, uma viagem que poderia durar apenas 40 dias ele fez durar 40 anos segundo o que a própria bíblia diz. E o motivo? O povo fez questionamentos sobre como iriam conquistar a terra prometida com tão pouca gente armada e preparada para o combate. Ele parece ser um grande velho louco, insano ao cubo, ao ponto do absurdo de colocar um ser humano, mortal, comum, sem nenhum poder diante de uma situação tenebrosa e se irritar se esse ter dúvidas quanto a solução do problema.
       Durante os 40 anos seguidos no deserto, segundo o que os seus próprios profetas disseram, ele matou a todos os quase 3 milhões de pessoas que saiu do Egito para o servir, e somente os descentes destes vieram herdar a tal de terra prometida. Prometeu, não cumpriu, matou a todos os questionadores e ainda quer ser louvado pela sua “fidelidade”. Pode isso? Literalmente ele tirou o povo da servidão Egípcia para os matar aos poucos no deserto, enquanto fazia exibição do seu próprio poder.
       Baseado nisso, fica muito fácil qualquer imbecíl portando uma bíblia conduzir multidões mesmo contra a vontade destes e mesmo assim convencê-las que não há outra alternativa para os tais, se não for a subserviência total a deus e a seus ungidos.
       Na bíblia todo o pecado de rebeldia ou dúvida foi pago com morte. Desde a sua fundação, o cristianismo tem procurado dar a mesma paga a todos os “rebeldes” e “hereges” que de modo aberto questionam os métodos pelo qual deus trabalha.
       Um ser humano com dúvidas quanto ao agir de deus deveria ser considerado como uma pulga insignificante, no entanto não é assim que eles são tratados. A igreja sabe que o mínimo de dúvida a respeito de algo “sagrado” pode desencadear uma série de fatores que levarão ao poderio que eles têm. O poder que ele tem é real e ao mesmo tempo ilusório que só durará até o despertar de alguém. Por esse móvito, eles procuram literalmente cortar o mal pela raiz, pois o simples ato de questionar os métodos pelo quais deus age, desmonta toda a ideia de deus e toda estrutura hierárquica da igreja, seja esta qual for.
        De olhos bem vendados, confiantes que estão num caminho certo, muitos entregam o controle de suas vidas aos líderes religiosos e por meio de seus conselhos e ameaças estes viverão ou deixarão de viver.
       De olhos bem fechados, fechados por vontade própria ou por intimidação, “irmãos de igreja” veem todos os tipos de abuso sendo cometido contra sua família, seus conterrâneos ou contra indefesos e nada fazem com receio de ameaças humanas ou divinas e acham que o ocultar o próprio abuso ou o abuso alheio é uma virtude que será recompensada pelos deuses.
       Do alto de sua inexistente, glória e poder a figura de deus é aclamada, usado como referência de um grande chefe miliciano que autoriza a exploração das pessoas e o controle das “favelas” onde o seu nome é invocado.
       Onde o seu nome é invocado surgirá a figura de um deus irado. Quando a força da intimidação encontra espaço surge sempre uma geração de gente covarde, abobalhada, vivendo, morrendo e matando em prol de uma ideia absurda ou pelo menos para se proteger dos líderes ferrenhos.
        Quando reconquistamos nossa independência e liberdade intelectual, podemos afirmar sem medo de um deus irado, nem de súditos abobalhados, nem de líderes que religiosos que agem como chefe de milícia que O MELHOR LUGAR DE SE ESTAR EM UMA IGREJA É FORA DELA!
        Saúde e sanidade a todos!
    Texto escrito em 23/2/20
       Esse é o texto final da sequência: UM DEUS IRADO, UM POVO ABOBALHADO, publicado em 3 parte nos últimos 30 dias aqui nessa página!
  • De quem é a culpa?

    Suas dificuldades beneficiarão você na medida que você aceitar a responsabilidade para superá-las. O sucesso começa quando você pára de procurar alguém para culpar e passa a pensar numa solução. Tenha interesse pela solução dos problemas, e não em culpar os demais. Não pense que perdeu o controle de sua vida e não culpe o mundo por ele ser o que ele é. Tais preocupações são improdutivas e freqüentemente pioram a situação. Designar a culpa poderia ser útil se você conseguisse inverter o fluxo do tempo, mas você não pode. Agora mesmo, você pode agir ou pode esperar a vida melhorar. Mas nunca haverá caminho a seguir que não seja de sua responsabilidade. Seus desafios são seus. Eles podem ser os maiores bens que você possui se você aceitá-los e trabalhar para vencê-los. Jamais perca tempo culpando outras pessoas por suas faltas ou as desgraças do mundo. Compreenda que o que importa na vida é aquilo que está sob seu controle. Você pode encontrar falhas nos atos dos demais e nos seus, mas em vez de distribuir censuras ou culpas pessoais, aja para eliminá-las. 

  • DE REPENTE, “DESVIADO” É ALGUÉM QUE CONQUISTOU A PRÓPRIA LIBERDADE!

    Em certos casos, desviar-se de algo é o melhor presente que podemos dar a nós mesmos!
       Rotular pessoas de modo pejorativo parecer ser o objeto de maior aprendizado na maioria das instituições religiosas. Quanto mais fechado estas fores, maiores e mais eficiente serão os “analistas” da vida alheia, medindo, pesando e mensurando tudo o que os outros fazem ou dizem, julgando-se superiores em praticamente tudo só por que “servem a deus e estão andando na verdade”. Uma verdade vista unicamente do ponto de vista daquela instituição, pois fora disso pode não servir pra coisa alguma, sendo inclusive objeto de escárnio ou blasfêmia para outra igreja ou religião, bem logo ali, à poucos metros de onde aquela “igreja verdadeira” existe.
       Dentro desses recintos onde “somente a verdade prevalece”, se uma frase, ação ou linha de raciocínio vier ser emitida de modo espontâneo,  que não esteja de acordo com os padrões de “justiça” ou “santidade” daquela instituição, uma enxurrada de comentários depreciativos surgirá de imediato contra o emissor, até que esse se retrate publicamente ou seja "delicadamente" convidado a deixar o grupo por meio dos mais gigantescos conluios, onde o falso testemunho, a fofoca e a má fé serão usados como escambo entre os “negociantes” que desejam a cabeça deste, e levantar-se-ão contra aquele “maldito infiel”, “rebelde” e “filho do diabo” que ousou dizer uma frase nova, cheia de lógica e sentido, que não fazia parte do “recitário” costumeiro para cauterização e retardo mental comumente aceito entre eles.
      “Onde já se viu usar o cérebro aqui neste recinto? Aqui na igreja não! Aqui você apenas crê, obedece, e permanece a vida inteira repetindo o que todo mundo diz e fazendo o que todo mundo faz, sem jamais intentar querer saber o porquê ou para quê de qualquer coisa tida como verdade, entendeu? Onde você pensa que estar? Numa aula de filosofia por acaso? Isso é uma igreja, entendeu? Aqui não se pensa, não se questiona, apenas obedece ao que imposto. Se não entendeu, caia fora”...
       Se fosse possível verbalizar as manifestações silenciosas da maioria dos religiosos dentro de uma igreja, essa seria a “humilde resposta” que eles dariam para qualquer um que ouse fugir dos padrões de pensamento do grupo.
        Além de rotular de modo negativo a emissão da expressividade falada, o que a pessoa veste, come, bebe, com quem andas ou com que fala será também objeto de discurso nos mais variados círculos onde se reúnem o “povo de deus”.
       Isso vale tanto para quem estar dentro quanto para quem estar fora da igreja, desde que esteja na mira de um “sniper de cristo”. Eles se camuflam, espreitam, esperam e depois atiram uma quantidade enorme de projéteis contra o alvo escolhido, do “ímpio”, do “rebelde”, ou seja, contra todos aqueles que eles julgam estarem vivendo “fora da vontade de deus”.
        Para implantar no fiel uma falsa sensação de segurança, comumente as lideranças eclesiásticas costumam fazer uma falsa interpretação do mundo, dando a entender que só naquele ambiente reside a paz, a verdade e a justiça, rotulando de forma negativa todos que digam o oposto disso.
        Mas isso tudo não passa de um blefe, uma grande mentira repetida de modo intencional ou cultural. Mentira essa que se desfaz o tempo inteiro, todos os dias o dia todo nas mais diversas situações na vida do próprio fiel basta o próprio fiel constatar por conta própria e verás.
        Para se manterem “firmes na fé” como eles dizem, se faz necessário diariamente a repetição de uma série de outras incongruências gritantes, que ao serem enunciadas de forma frequente e coletiva, cria-se a sensação de completude no que estar repetindo tal mantra. Jogar-se num abismo profundo e mentir a si mesmo dizendo que estar voando e não caindo, não muda o fato que a pessoa irá morrer ao chocar-se com um objeto sólido no fundo do abismo.
       Para quem vive “apenas pela fé” é difícil entender isso. Mas um dia a pessoa cansa disso tudo ou simplesmente acorda por meio de estudos aprofundados de história geral, história eclesiástica, filosofia, mitologia, sociologia, biologia, antropologia e outras ciências e percebe que estava em alto mar, viajando à deriva numa grande embarcação, conduzida por um líder pateta quem nem sequer sabe que existe um mapa de navegação, que não tem nenhuma rota traçada, rodeado de marujos enfraquecidos ou mal acostumados que mais se preocupam em subir de patente para ser o novo comandante do navio, do que saber para o onde estão indo.
       “O que importa é servir e fazer a obra!” - é o que dizem os aspirantes à novos cargos das igrejas, no intuito de serem agraciados por seus “capitães”. Que tipo de obra e serviço, nem eles mesmo sabem, apenas remam e ajudam a conduzir a embarcação ao som dos estalos do chicote conivência rumo ao improvável e inexistente, estragando a própria vida e a de todos os passageiros que ali estão.
       Assim podemos comparar o comportamento dos fiéis na grande maioria dos agrupamentos religiosos, que vivem como se estivessem coletando pessoas em cada porto diferente para juntos navegarem sem rumo, dando voltas em círculos, lutando contra criaturas imaginárias, esperando chegar num paraíso também imaginário, chamando de “piratas” todos os que estão navegando em outras embarcações.
        E quais são os adjetivos com que esses “navegantes” costumam rotular os que desceram do barco deles e preferiram navegar sozinhos ou em outro grupo aparentemente mais equilibrado?
       Bom, quanto a isso, a “santa igreja” e o “povo de deus” tem preparado centenas de rótulos negativos e termos pejorativos para os tais no intuito de intimidar os que ainda estão dentro a não saírem de lá e possivelmente realocar os que estão fora.
      Os termos mais usados para descrever quem “abandonou a fé” são: desviados; filhos do capeta; filhos das trevas; filhos do cão; herege; revoltados; rebeldes; ateus; satanistas; maçons ou alguém que se revoltou contra deus, seu ungido e sua igreja e por isso vai pagar um preço alto, não apenas este, o rebelde, mas toda sua família também!
       Pura baboseira...coisa de gente louca, mal intencionada ou desesperada por ter perdido uma massa de manobra, uma fonte de lucro, mão de obra gratuita ou representatividade para o próprio grupo. Até ameaçar a família do “desviado” com pragas e maldições eles o fazem! Daí você pergunta: “eu passei esse tempo todo dentro de uma igreja ou dentro de uma organização criminosa? Será que eu membro do PCC e não sabia”?
       Pois é! Onde já se viu ameaçar com pragas apocalípticas e todo tipo de maldição um indivíduo e toda sua família só por que deseja abandonar um agrupamento religioso (conturbado)? Geralmente isso só se é visto no crime organizado, onde membros proíbem a saída uns dos outros para não revelar o “esquema dos outros”. Na “casa de deus” também isso se vê praticamente todo dia quando tentam avacalhar a saída de alguns membros.
      Muitos destes membros, fiéis escudeiros, ficam à distância, monitorando tua vida, tuas redes sociais, o lugar onde você frequenta e tudo o que você faz, para que uma simples topada no dedinho do pé que você dê numa pedra largada a ermo na rua, eles venham dizer: “está vendo ai? Deus já começou a trabalhar! Aí é a mão de deus pesando por que deixou o aprisco do senhor...”!
      Se na mesma ocasião você fica desempregado, atrasou algum boleto bancário, seu filho tirou uma nota baixa na escola ou um parente seu que você nem sabia que existia, cai enquanto andava de bicicleta lá em outro país à fora, daí, alguns deles chegam a comemorar, festejando, por que deus está “te quebrando”, “te peneirando”, “te moendo”, “te humilhando” e “irá te trazer de volta, pelos beiços, num anzol, ou todo quebrado, amassado e vencido, para provar que ele é deus e para depois te fazer um vaso novo” (numa hora dessa, até línguas estranhas e piruetas rolam num ambiente de culto mediante uma declaração dessa emitido por algum santarrão)...
       Como uma descrição ferrenha dessas sobre “o agir de deus para quem se desviou” você fica se perguntando se estava servindo a deus ou ao capeta! Como pode um deus qual dizem ser a fonte de toda luz, amor, bondade e compaixão planejar tanto mal para uma pessoa só por que esta não quis mais servi-lo? Seria ele o “grande chefão da máfia”? Pela descrição que os seus súditos fazem dele, nem um gangster humano chegaria aos seus pés com tanto mal arquitetado e nem o próprio satã se igualaria no que diz respeito ao nível de maldade que a esse deus é atribuído por seus próprios súditos.
       Essas e outras, provam que deus é apenas uma ideia, que cada um faz o que quer com essa ideia, que a usa como quer, do modo como lhe for mais conveniente e nessa mesma ideia podem ser refletidas a própria personalidade do fiel ou do seu grupo como, níveis de bondade, maldade ou loucuras. Tudo que eles dizem estar falando sobre seu deus, estão apenas revelando sua própria parte oculta.
       Como em praticamente todos os agrupamentos religiosos onde é proibido discutir a personalidade do próprio objeto de culto, o ser cultuado tende a tomar uma forma animalesca e diabólica de acordo com o emissor e o receptor desavisado.
      Proibir comentários e indagações sobre a personalidade de qualquer ser cultuado é a única forma de manter os grupos religiosos que funcionam puramente pela fé, sem obras sociais aparente. Não há outra forma! Os membros devem apenas adorar constantemente, pois o ato de adorar nada mais é que uma forma de ignorar os fatos, adotar incoerências e manter inconsistências para que o ego do idólatra seja nutrido e seus sonhos de grandezas interiormente concretizados.
       Mais ou menos assim: (deus) faz de conta que tu existes, que tu me amas e que serei especial para ti acima de todos os outros por estar te venerando, que eu farei de conta que te adoro, e farei isso por toda minha vida e falarei bem de ti em tudo, mesmo quando não deverias, por que tu és o reflexo da minha própria consciência ou ignorância”! Sacou?
       Com o abandono da eterna infantilidade sugerida pela religião, o comportamento de um fiel pode mudar de forma brusca ou gradual pois, quando muda-se o foco, muda-se a perspectiva do observador e esta por sua vez pode desencadear uma série de outras mudanças.
       Sendo assim, a boca que um dia disse: “bendito seja essa ou aquela divindade”, poderá ser a mesma que hoje dirá que o objeto de sua devoção era apenas um engano, uma ilusão como tantas outras, seguida pela indução coletiva e o sentimento de rebanho comum a todos os que vivem em sociedades.
       E qual o problema disso? Em que uma pessoa se torna mesmo honrada por abandonar certas práticas religiosas que hoje considera inúteis ou sem sentidos? Que crime há nisso? Que pecado há nisso? O que isso tem de errado? Não seria a liberdade de escolha um direito comum a todos?
       Se existe algo de errado, esse algo é não pensar, apenas crer de modo cego, obedecer fielmente a líderes que desconhecem a raiz da crença qual afirma ser a verdade absoluta, que desconhece o próprio passado, que não sabem de onde vem e nem para onde estão indo, que mudam de conceitos conforme o poder e lucratividade (ou pela falta deles). Isso sim é um erro grave, um dos maiores pecados que cometemos contra nós mesmos!
       Além do mais, feio é mentir para si mesmo, viver fingindo, estando confuso no meio de tantas incoerências e inconveniências que a grande maioria do ritos litúrgicos tendem a retratar. Crime é jogar a própria vida e o tempo precioso fora, sendo capacho de líderes mal intencionados ou mal resolvidos, que estão preocupados apenas em controlar a vida dos fiéis e/ou extrair destes tudo que de útil for possível!
       Desonesto é vender aquilo que “por lei” deveria ser gratuito e ameaçar pessoas com inferno, maldiçoes e mortes para que elas “se convertam” ou para que as tais jamais venham a sair do “rebanho”. Isso sim é um crime, mas de tão corriqueiro, estas coisas tornaram-se aceitáveis e usadas como se fosse um mandamento divino.
       Uma pessoa que por décadas foi um membro ou obreiro ativo e produtivo em algum grupo religioso e hoje decide não fazer mais parte de tal agrupamento (ou de nenhum deles), deve ter o seu direito respeitado e não precisa estar dando explicação a quem quer que seja sobre o motivo se sua saída, exclusão ou abandono.  É um direito concedido a todos, tanto pela “lei dos homens” quanto pelas “leis de deus”.
       Quem realmente te ama e te respeita irá te tratar do mesmo modo (respeitoso), independentemente de onde estiveres. Os que tinham em ti apenas um objeto de lucro ou de representatividade eclesiástica, irão tentar te seduzir para retornares, não por que se importam contigo, mas por que de alguma forma você tem algo que eles podem aproveitar em benefício próprio, pois são como parasitas vivendo da energia alheia, ou como construções antigas que precisam de escoras para não cair. Você não precisa ser alimento de parasita, nem servir de escoras para que antigas, condenadas ou inúteis construções venham continuar existindo.  Se não conseguirem te trazer pelo uso do verbo e pela “humildade”, irão usar de calúnia ou difamação contra sua pessoa, ou rogar pragas para ti baseado na bíblia, e que hoje nada mais significam para ti, pois já saístes desse padrão doentio de pensamento.
       Deve-se notar nesses casos, que jamais “o povo de deus” faz questão em chamar de volta para a igreja uma pessoa que não era dizimista, que não cantava, pregava, dava oferta, ou que não tinha nenhuma representatividade social positiva em favor da igreja. Pessoas que com frequência precisou da ajuda financeira ou algum tipo de amparo social da instituição também podem ser rapidamente esquecidas. “Deus não se lembra” ou “não mandar repescar” esses tais! Só gente lucrativa e produtiva! Tadinhas dessas pessoas...
      Uma pessoa que por anos à fio usou o próprio traseiro para “polir os bancos” da igreja enquanto servia de plateia para alguns pregadores insanos, com mensagens repetitivas e improdutivas, essa mesma pessoa hoje pode estar também sentada, só que dessa vez aprendendo algo realmente útil numa escola, numa faculdade, em cursos técnicos, se tornando realmente uma pessoa produtiva para sociedade.
       E que mal há nisso? Quem disse que alguém tem fazer papel de trouxa a vida inteira? Quem disse que a vida social de uma pessoa resume-se apenas em frequentar recintos religiosos, pagar dízimos e ouvir sermões baseados em coações psicológicas ou falsas promessas por toda a vida?
       Uma pessoa só é feito de besta ou de trouxa até o dia que se deixa ser, até o dia em que despertar ou até quando sua força interior for menor que a força dos comentários idiotas e maldições sem sentidos que seu atual grupo tem a oferecer contra todos os “desviados”.      
       Depois disso, o gatinho enfraquecido e amedrontado de outrora, tornar-se-á um leão corajoso, e o domador de bestas cuja arma principal é o chicote da coação psicológica, terá de recuar ou pelo menos não mais incomodar a partir de então esse novo ser.
       Se o “servir a deus” é uma liberdade concedida pela constituição, o “não servir” também o é, e isso deve ser respeitado!  Se para reassumir a própria autonomia, liberdade de escolha e de expressão é preciso suportar o rótulo de desviado, então o desviar-se dessas baboseiras será uma conquista a ser mantida e não um rótulo depreciativo.
       Pensem nisso! Saúde e sanidade a todos.

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