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Ficção

  • A sentença de Cerberus e o Relógio do Julgamento

    I - Maya
    Centro de pesquisa de Nova Atlantis.
    As pacientes do projeto Arcada conhecidas mais como Wolwen e Aurora estavam adormecidas a mais de 4 quatro séculos para ser mais específico 4 séculos e meio. Estão há muito tempo em animação suspensa, mas o mundo estava ameaçado mais uma vez, não pela Cerberus e sim por uma corporação não identificada que se denominava Diamond-Sky's que visava roubar muitos dos protótipos de relógios de combate conhecido como Alpha-001.
    A corporação Diamond-Sky’s preparou um ataque coordenado causando caos em vários distritos para disfarçar o ataque ao laboratório central onde se encontrava a maior parte das pesquisas relacionadas aos Clock-Works contudo o ataque deu errado e a bomba plantada em uma das salas que se encontrava perto  dos geradores do laboratórios explodiu antes do tempo determinado assim matando em grande parte os seus cientistas no ataque deles, mas nos andares inferiores onde se encontrava a sala do reator que abastecia a cidade  se encontrava o projeto Arcada que havia sido abandonado.
    ---Todos os que estavam na área de explosão se dirijam a saída mais próxima.--
    Maya foi a primeira a acordar saiu cambaleando nua de dentro da câmara de animação suspensa suas lembranças e pensamentos estavam todos embaralhados, mas de uma coisa ela sabia que era o lugar onde sua irmã se encontrava e acabou por andar pelos corredores em chamas se esgueirando pelos corredores até chegar a uma sala onde viu uma garotinha em uma cápsula não pensou duas vezes correu direto para ela a reconhecendo como Elize sua irmã mais nova pegou um jaleco que estava pendurado perto da porta
    ---Todos os que estavam na área de explosão se dirijam a saída mais próxima.--
    o vestiu pegou ela no colo e seguiu para as saída e se misturou com a multidão.  
    Cinco horas depois do ataque ao laboratório central:
    Carregando Elize no colo tentando achar um local para se abrigar da chuva avistou uma rua seguiu em direção dela vendo vários prédios bateu de porta em porta, mas ninguém a atendeu e acabou desmaiando em uma porta um pouco deteriorada por causa do tempo.
    --Onde estou? Pergunta Maya.
    E das sobras ouve uma voz que transmitia tranquilidade.
    --Na minha casa no 4º distrito. E você jovenzinha tem nome?
    Maya fica apreensiva, pois olha em volta e não vê Elize.
    --Maya é o meu nome. Ela responde com um tom de voz que transmite medo
    --Maya é um belo nome.
    --...
    --Tenha calma não vou te machucar e se está procurando a garotinha que estava com você ela está no outro quarto.
    Então Maya sente alívio por saber que sua irmã está bem, mas ela não esperava que a mulher que as ajudou  soubesse exatamente quem eram.
    Maya se levanta e anda pelo quarto chegando a uma janela que estava com a cortina fechada por um momento têm lembranças, mas estas lembranças estão confusas -- ela afasta as cortinas e  abre a janela, quando olha para fora fica surpresa pois o mundo que ela conhecia já não existia mais e agora estava em um lugar totalmente diferente onde não se encontrava mais a natureza e vida.
    Maya acompanha a mulher que ainda não falou seu nome chegando no quarto onde  Elize está.
    .---Por enquanto vamos deixá-la dormir. Diz a mulher ---E você deve estar se perguntando qual é o meu nome né?.
    ---Sim. Responde Maya.
    ---Aria, Aria Emeth é o meu nome.
    --Batidas na porta--
    Depois do ataque ao laboratório central equipes de soldier’s foram liberadas em cada distrito formando equipes de 20 cada uma contendo pelo menos 1 stalker.
    ---Toc-Toc---
    Aria sabe que são uma equipe de varredura que bate na porta e pede para Maya que vá para o quarto onde Elize está dormindo para se esconder.
    --Escaneando reconhecida como detentora do modelo Warrior-- Blood Aria.
    Aria se mantém firme diante da equipe que está procurando pelas duas um dos soldier’s entra em sua casa e faz perguntas todas relacionadas ao projeto Arcada e ela responde que desde que foi dispensada não recebeu mais nenhuma informação de qualquer projeto do distrito central e então o soldier começa a varredura em cada cômodo passando por todos os que estão com as portas abertas quando chega na porta do  quarto onde estão Maya e Elize tenta abri-la, mas a porta não abre e foi aí que Aria intervém dizendo que havia visto elas indo em direção do Hell’ s Gate que dava acesso para o terceiro distrito.
    A equipe toda que estava no 4 distrito se mobilizaram para ir atrás das duas e enquanto isso Aria vai ao encontro delas para explicar a elas que não podem permanecer no quarto distrito, mas quando entra no quarto elas não estão mais lá.
    --Onde elas foram? Aria se pergunta olhando pela janela aberta.
    Algumas horas depois que Maya fugiu da casa de Aria com Elize em seus braços os soldier’s  começaram a seguir as duas no entanto eles mantinham uma certa distância pois sabiam que o relógio nomeado Wolwen protegeria seu usuário. Quando do nada mais dois grupos se juntaram ao que estava perseguindo elas e foi nessa hora que os Stalker’s atacaram sem pensar lançando Elize para longe dos braços de Maya e quando ela percebe que um deles está pisando em Elize, tenta de todas as formas recuperá-la,  mas suas chances são roubadas por outro Staker que aprisiona seus braços a suas costas e nessa hora ela ouve o grito de desespero de Elize ecoando por seus ouvidos.    
    --Explosões--
    --Todas as unidades recuem.
    Maya tinha perdido sua consciência enquanto o relógio a controlava para defender Elize e a si mesma.
    Nessa hora uma batalha estourou no meio do 4 distrito envolvendo os 60 soldier’s e os 3 stalker’s.
    --Onde estou? Pergunta Maya confusa quando uma voz a responde.
    --Você está em Albion lar dos seres celestiais.
    Maya tenta seguir a voz, mas, ela para quando vê alguém encolhido perto de algumas ruínas e avista uma  garotinha e então pergunta --Você está perdida? Precisa de Ajuda?
    Ela responde com espanto demonstrando medo em seu olhar. Quanto mais Maya se aproximava dela mais a garota se encolhia para tentar se esconder dela, de sua presença que lhe causava temor que percorria seu corpo a deixando imóvel.
    --Não tenha medo não a machucarei. Maya se agacha ao lado dela transmitindo um sentimento acolhedor ao encostar nela, quando a garota a abraça mostrando visões do passado daquele  local e dela quanto mais Maya via mais a garota aninhava a cabeça dela contra seu peito e foi aí que viu o que aconteceria com sigo.
    --Acorde por favor!
    Maya de repente dá um salto para o ar batendo em todos  sem se importar se era ferida durante o processo ou se feria quem estava à sua volta quando o sangue de Elize respinga em seu rosto a deixando entorpecida por ver a irmã suplicar ao seu agressor para que a soltasse, mas de nada adiantou, pois este só se importava em  incentivar mais a raiva de Maya que queimava vorazmente em seu peito ao ver a sena. Quando Elize conseguiu se soltar não restará muito tempo, pois quando conseguiu se levantar todo o local estava em chamas e Maya estava de pé em sua frente se prostrando com um ar de defesa.
    Maya emite um som e parte para cima do agressor de Elize os dois se agarraram e uma luta  que estoura ali mesmo as casas que estavam em chamas são destruídas pelas explosões da luta.
    Elize tenta chegar perto de sua irmã, mas alguém agarra seu braço ela olha fixamente para a pessoa e desmaia.  
    Uma luz surgi separando Maya do agressor de sua irmã quando alguém a puxa para longe dali
    --Rápido pegue sua irmã e me siga não temos muito tempo! May recupera seu fôlego e pega Elize e segue a pessoa misteriosa que as salvou  as três seguem por um beco até chegar a uma entrada escondida que da para a parte subterrânea da fortaleza flutuante.
    --Agora podemos relaxar eles não nos seguiram aqui. Diz em voz alta a pessoa que ajudou as duas a fugir Maya pergunta quem é quando uma voz distante responde a sua pergunta. --Vocês já a conhecem seu  nome é Aria Emeth seu codinome é Blood Aria ela pertence ao Clock-Works  assim como vocês duas e aqueles que as atacaram, mas isso é história para outro momento agora nós temos que nos apressar e sair daqui antes que os limpadores cheguem. Limpadores eram máquinas enormes que faziam a manutenção da parte inferior de Nova Aurora .
    Chegando ao acampamento deles Maya percebeu que eram muitos que viviam ali na escuridão.
    --Tenha calma garota a gente aqui embaixo não morde. Maya estava tão abraçada a Elize para mantê-la segura que espantava qualquer um que se aproximava dela. Ela seguiu a figura que havia as salvado na superfície chegando em uma estrutura um tanto quanto irregular,  quando entraram nela ele gesticulou com as mãos apontando para uma porta dizendo para colocar sua irmã naquele quarto que alguém cuidaria de seus ferimento.
    Depois que cuidaram de Elize tentaram também envolver  pelo menos os cortes superficiais de Maya com ataduras, mas ela não deixou dizendo que era melhor usar isso nas pessoas que os acompanharam até perto do local onde se encontravam.
    --Se insiste nisso vá pelo menos tomar um banho Ágata a ajudará a se lavar já que aqui em baixo a dessalinização não funciona direito.
    --Por aqui por favor. Disse Ágata. Depois do banho lhe trouxeram roupas que no caso eram melhores que os trapos que estava vestindo enquanto na superfície. Ela foi ao quarto para ver como sua irmã estava quando chegou lá viu que ela estava dormindo e tinha mais alguém ali com elas saindo das sombras o homem que as ajudaram a fugir da guarda da cidade.
    --Poderia me acompanhar até a minha sala quero conversar com você sobre muitas coisas que ainda não sabe.
    Maya faz um gesto com a cabeça e segue ele porta a fora passando por corredores cheios de muitas outras pessoas até chegar a uma porta de metal entreaberta Maya entra primeiro e logo depois ele entra e fecha a porta.
    --Pode se sentar a e antes que pergunte meu nome é Aron, mas todos aqui me chamam de Oxford. Por onde quer começar doce? O apelido que Oxford deu a Maya a deixava irritada, mas não podia ser desrespeitosa com o seu salvador e perguntou: Começar por onde? E ele respondeu: Oras você deve estar muito confusa por acordar nesse mundo então estou lhe oferecendo um pouco do conhecimento que tenho. Maya se recostou na poltrona e perguntou --comece pelo começo?! Aron responde que desde que eles abriram a caixa de pandora o mundo se viu ameaçado não por um inimigo, mas sim pelos mares e rios que elevaram tanto que cobriram a maior parte do continente Europeu e a outra parte? pergunta Maya. Éssa foi tomada pela lava ardente que saia das veias do solo assim matando dezenas de milhares de pessoas e depois disso veio a pior parte, os dois pólos da terra começaram a derreter e em menos de um ano a outra metade incandescente por causa do magma que jorrava do chão foi tomando pela água e uma pequena parte dos Estados Unidos foi poupada da água e da lava e foi lá que começaram a montar este lugar onde estamos hoje e durante quatro séculos os que ainda restaram na terra se juntaram e criaram esta fortaleza flutuante. Maya pergunta sobre a caixa de pandora, mas Aron não responde a pergunta dela apenas fixa seu olhar na porta da sala onde estão.
    --Batidas na porta--
    ---Entre.
    Maya se vira para ver quem entra quando se depara com Aria a mulher que ajudou as duas.
    --Aron estão lhe chamando na ala oeste.
    --Sim já estou indo para lá.
    Aron se dirige até Aria e pede a ela que ensine Maya a usar o poder do relógio e também como manipular o poder gerado pelo Clock-Works.
  • A verdadeira altura

       Era manhã e o discípulo já estava de pé em seus afazeres este morava com um sábio conhecido por Tory que era bem respeitado na região e muito bondoso.
     Como sempre pela manhã o discípulo preparava um chá e naquele dia ambos estavam a mesa como de costume, conversando tranquilamente sobre as coisas que havia ocorrido no dia anterior. Quando de repente alguém bateu na porta.
    -Alguém está lá fora. Disse o sábio Tory.
    -Irei agora ver do que se trata. Disse o discípulo saindo.
      Ao abrir a porta o discípulo viu um homem alto que deveria ter dois metros e meio de altura e vestia-se elegantemente.
    -Bom dia amigo o que procuras?  Perguntou o discípulo .
    -Bom dia estou procurando pelo o sábio Tory ele está?Perguntou o homem.
       No primeiro momento o discípulo quis mentir para não atrapalhar seu mestre no chá da manhã,mas não houve tempo pois atrás de si o sábio apareceu falando:
    -Sim aqui estou. O que busca?  
    -Tenho uma dúvida e gostaria de ter a resposta. Disse o homem.
    -Fale-me sobre esta dúvida! indagou o sábio.
    -Sábio ,gostaria de saber se sou o mais alto ou mais baixo de todos os homens?Perguntou o homem ansioso pela a resposta.
      Por alguns segundos o sabio ficou com um olhar pensativo e depois disse:-Você é o mais alto.  
      A sua resposta trazia toda confiança. O homem ao escutar se encheu com a sua vaidade e com um largo sorriso saiu satisfeito consigo mesmo.
    Dois dias depois novamente a porta foi batida e ao abrir o discípulo viu um homem parado com uma altura de um metro e meio e bem vestido.
    -Bom dia amigo o que procuras? perguntou o discípulo olhando curioso.
    -Olá estava passando e lembrei me que tinha algo para perguntar ao sábio Tory ele está. falou o homem.
      Novamente antes de responder o sábio apareceu e foi falando:- Sim estou aqui o que procuras.
    -Sábio tenho algo que mim perturbar.  falou o homem.
    -Pode falar se for possível eu resolvo sua questão. Comentou o sábio.
    -Pois bem gostaria de saber se sou o mais alto ou o mais baixo de todos os homens.
    O sábio ficou pensativo, mas sem demora respondeu:-Você é o mais alto.
        Como da primeira vez o segundo homem saiu bastante alegre consigo mesmo chegando a falar em seu pensamento" hum!  eu já sabia"
      Passou mais dois dias e um estranho bateu na  porta o discípulo foi abrir e viu que era um anão . Este logo disse:
    -quero falar com Tory.
      O discípulo ficou olhando estava um pouco assustado, aliás era a primeira vez que ouvia alguém se referindo ao sábio sem nenhum elogio, mas antes que o discípulo fosse chamar o sábio ele apareceu atrás.
    -Eu sou o sábio Tory.
    - Tory quero ser o mais alto do que todos. Disse o anão olhando para cima.
     Por alguns segundos o sábio ficou pensando de forma bastante reflexiva e depois olhando para o anão disse.
    -Voce é o mais alto.
     As suas palavras saíram de forma serena ,porém o discípulo ao escutar a resposta foi tomado pelo o impulso e disse:
    -Como o anão é o mais alto se ele precisa olhar para cima para nos ver?
       O anão que também escutava a perguntar ficou esperando pela a resposta.
     Tory de forma serena falou:
       -Simples a verdadeira altura está no caráter de seu coração.    
              O anão ao escutar a resposta sorriu pois,conhecia seu coração.
  • A vida atrás de uma tela de computador.

     

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    Ao anoitecer de uma noite qualquer, um garoto jovem e “normal” aos olhos de muitos, procurava se desligar de sua vida e viver em um “novo mundo”. Onde vivia de uma falsa realidade, uma felicidade temporária, mas mal sabia ele que, algo muito ruim estaria por vir, que acarretaria em muitas desilusões e decepções. 


    Muitas vezes seus pais não tinham tempo para lhe dar atenção, o jovem garoto e seu irmão, procuravam ocupar seu tempo se divertindo no mundo dos games. Mas seus pais mal sabiam o que realmente seu filho mais novo estava a fazer na internet.                              

    Ao longo dos anos, seus pais se separaram, Bryan ficou muito triste e abalado, pois ele amava muito seus pais. O garoto, não conseguia compartilhar seus sentimentos com os outros, escondia tristezas profundas, e feridas que jamais seriam cicatrizadas. Bryan ainda estava descobrindo sua sexualidade, mas desde cedo já sabia que era diferente dos outros garotos.

    Aos 13 anos, Bryan inventou de criar um personagem feminino em um jogo, onde ele se passava por menina. Bryan sempre gostou de agir como uma menina, mesmo sabendo que isto era errado, ele fingia ser alguém que ele não era.                        

    Ao passar dos anos, Bryan viveu como um personagem, ao tal que ele deu o nome de (Maria Clara), tinha muitos amigos, parecia que tudo estava perfeito na vida de Bryan, até que tudo mudou. Aos 16 anos, Bryan conheceu um garoto da mesma idade que ele, por uma ferramenta muito conhecida como (DISCORD).

    Bryan obviamente gostou muito do garoto e acabou criando vínculos de amizade, mas mal sabia Bryan, que a partir deste vínculo, sua vida estava prestes a desmoronar.                        

    Após alguns dias de conversa, Bryan acabou se apegando e eventualmente se apaixonando pelo garoto, e acabou pedindo o mesmo em namoro, o garoto por ter gostado da “Maria Clara”, acabou aceitando o seu pedido. Os dois ficaram muito felizes, com o passar do tempo as coisas acabaram ficando mais intensas, Bryan por estar cego de amor pelo Pedro, acabou levando esta farsa a diante.

    As coisas começaram a complicar, pois o garoto começou a pedir fotos, vídeos e até mesmo chamada de vídeo, foi quando a vida de Bryan começou a se complicar.

    O garoto morava muito longe e era muito ingênuo, Bryan se aproveitou disso e começou a mentir para o garoto e passou a enrola-lo, a cada dia que se passava, Bryan estava mais envolvido e apaixonado. Pedro e Bryan viviam juntos, passavam todas as madrugadas assistindo séries na Netflix ou jogando, Bryan gostava muito da companhia de Pedro, ambos gostavam muito do tempo que passavam juntos.

    Para sustentar este namoro, Bryan teve de contar muitas mentiras, uma delas foi inventar que seu personagem “Maria Clara” era muda. Ao saber disso Pedro ficou chocado no início, mas super aceitou, começou até a fazer curso de libras, para que quando se “encontrassem” pela primeira vez, ele pudesse se comunicar com ela.    

    Até que se passaram cinco meses de mentiras e falsas promessas, Bryan estava muito mal, e estava começando a afetar seu relacionamento. Em uma longa noite, Bryan tentou cometer suicídio e Pedro teve de impedir, até então Pedro achava que sua “namorada” só estava passando por problemas psicológicos, mas nunca soube o porque.

    Após estarem namorando a seis meses juntos, Bryan não suportava mais esconder a verdade, pois a cada noite que passava, ele ficava cada vez mais triste, pois no fundo ele sabia que, nunca realmente ficaria com o garoto, que eles nunca poderiam se encontrarem.

    Depois de Bryan sumir por uma semana, Pedro ficou extremamente preocupado, já por saber os transtornos psicológicos de Bryan. Quando Bryan finalmente voltou, ele criou coragem e contou toda a verdade, ele não podia mais esconder tudo isso de Pedro, seus dias como “Maria Clara” haviam acabado, seu personagem havia ido longe demais.

    Pois a intenção de Bryan era fazer Pedro se apaixonar loucamente por ele, que independente de Bryan ser homem ou mulher, eles iriam ficar juntos mesmo assim, mas não foi muito bem o que aconteceu. Ao ouvir toda a história Pedro ficou chocado, mas ao mesmo tempo estava completamente apaixonado por Bryan, e resolveu tentar continuar o namoro, mas desta vez com a verdadeira identidade de Bryan.

    Ao ouvir isto de Pedro, Bryan ficou muito feliz, mas esta felicidade durou muito pouco tempo. No dia seguinte, Pedro disse que não poderia continuar com isto, que havia uma barreira entre eles por Pedro ser hétero, e que se Bryan fosse mulher, ficaria com ele sem problemas.

    Foi quando neste momento, Bryan começou a odiar cada vez mais seu próprio corpo, começou a se culpar por não ter nascido mulher. Bryan estava loucamente apaixonado por Pedro, e faria qualquer coisa para tê-lo de volta em sua vida, pois Bryan não conseguia aceitar a ideia de tê-lo perdido.

    Com muita dor no coração, e com os olhos cheios de lágrimas, Bryan teve de aceitar e se desvincular de Pedro, apesar de isso parecer impossível para ele. Seus pais começaram a ficar extremamente preocupados com Bryan, pois ele não queria comer, estava dormindo muito, não queria mais sair de seu quarto, Bryan estava no fundo do poço, pois ele era emocionalmente dependente do Pedro.

    Com o passar dos dias, parecia que a vida teria acabado para Bryan, ele dormia e sonhava que Pedro estava mandando mensagem para ele, muitas vezes acordava chorando por aquilo se tratar de apenas um sonho. Para ele era como se o mundo estivesse desabando, pois ele sentia muita falta do Pedro, da companhia dele, de seu sorriso, da sua doce voz.  

    Apesar de Bryan ter tirado um peso das costas e ter tido a oportunidade de continuar amigo de Pedro, para ele não era suficiente, pois ele o amava e queria ter uma família com Pedro. Após muitas tentativas falhas de tirar sua própria vida, Bryan percebeu que deveria afastar-se de Pedro, ou caso contrário nunca o superaria.

    Bryan se afastou de tudo e de todos, e quando pareceu que sua vida estava acabada, surgiu uma luz no fim do túnel. Ao surgir esta luz, apareceu alguém especial, que amava Bryan do jeito que ele realmente era, Bryan ficou muito feliz, pois desta vez a pessoa não amava o seu "personagem", e sim ele mesmo. Com a chegada deste novo amor, Bryan ressurgiu das cinzas, quando tudo parecia estar perdido, sua vida começou a melhorar, Bryan podia finalmente encontrar a verdadeira felicidade.

    Será que finalmente Bryan está indo no caminho certo, ou talvez esteja indo a caminho de sua morte?

    Quem será este novo amor, de onde ele é, como será a nova história de Bryan, terá um final feliz?

    São dúvidas que logo teremos respostas. 

    O começo de uma nova história, ou o começo do fim?

    Largado em seu quarto, lá estava Bryan, pensando em sua vida e em seus atos, quando Bryan recebe uma mensagem anônima em seu celular.

    Bryan rapidamente o respondeu lhe perguntando quem era e como esta pessoa havia conseguido seu número. Após duas semanas sem resposta, Bryan é finalmente respondido, a pessoa "anônima" e misteriosa se identificou como Bruno. Apesar de Bryan desconfiar, no momento ele estava precisando de alguém para conversar, alguém que lhe desse atenção, e isto Bruno tinha muito para oferecer.

                                                                    

    Após várias noites conversando com Bruno, Bryan pode perceber que eles dois tinham muitas coisas em comum, talvez Bryan estivesse se apaixonando novamente, ele tinha muito medo de isto acontecer, pois já havia se machucado muito com Pedro. Bruno sempre foi educado e muito gentil, não aparentava ser uma pessoa ruim ou até mesmo que colocasse a segurança de Bryan em risco, mas até que em uma fatídica noite, tudo se provou o contrário.

    Bruno era muito misterioso, quando Bryan lhe fazia perguntas pessoais, ele respondia vagamente, nunca uma resposta concreta, Bryan não conseguia enxergar as malícias de Bruno. Mas até que então em uma noite, Bryan abriu seu coração e contou tudo o que sentia por Bruno. O Bruno obviamente ficou surpreso com tudo isto, ele também disse que gostava muito de Bryan e que estava escondendo isto a muito tempo.

    Os dois começaram a namorar, quando a vida de Bryan parecia ter entrado de volta ao eixo, tudo mudou e sua vida começou o verdadeiro inferno. Bruno não apareceu por acaso, Bruno não estava nem um pouco apaixonando. Na verdade Bruno estava apenas brincando com os sentimentos de Bryan, o sofrimento de Bryan estava muito longe se acabar, estava apenas começando.

    Bruno forçava Bryan a enviar constantemente fotos e vídeos íntimos, eles brigavam bastante por conta disto, mas Bryan sempre cedia aos caprichos de Bruno. Bruno não gostava de falar sobre sua família, isto estava incomodando Bryan, pois ele já estava desconfiando de Bruno. Após inúmeras desconfianças, Bryan resolveu investigar sobre a vida de “Bruno”, começou a fazer uma varredura nas redes sociais e a procurá-lo em todos os lugares, foi quando Bryan achou algo que não queria, as fotos que “Bruno” havia mandando, não eram dele.

    Bruno havia mentido e Bryan não entendia o porque, foi quando Bryan criou coragem e o questionou. Bruno ficou enfurecido e começou a culpar Bryan, dizendo que Bryan nunca deveria ter desconfiado dele. Bryan estava vulnerável e foi facilmente manipulado, três semanas após este episódio, Bruno revelou sua verdadeira identidade a Bryan.  O Bruno ao qual conhecemos não existia, Bruno se revelou como Pedro.

    O Pedro estava atrás de vingança, queria que Bryan tivesse passado pelo mesmo sofrimento que ele, queria que Bryan conseguisse sentir um pouco da dor que ele sentiu, ao ser enganado por seis meses. Após
     Bruno revelar sua identidade, começou a então a chantagear Bryan com as fotos íntimas e os vídeos que ele havia enviado. Foi quando toda tristeza de Bryan veio a tona, quando sua vida tinha começado a voltar ao normal, o verdadeiro inferno começou...

     Pedro conseguiu o número dos pais de Brayan e começou a mandar mensagens assustadoras para eles, e também começou a ameaçar Bryan de expor toda a história. Ao passar alguns dias, Bryan não suportava mais a tortura psicológica que Pedro estava fazendo com ele, foi quando Bryan resolveu dar um fim em seu sofrimento, Bryan se despede de seus pais e foge de casa pela madrugada.

    Ao caminhar pela estrada escura e deserta, Bryan sobe em um viaduto, e a partir daquele instante Bryan derrama suas últimas lágrimas, ali se vai com ele, todo seu sofrimento, todos seus sonhos e todas suas mágoas.

    Apesar de Bryan lutar contra sua depressão, contra seu sofrimento, infelizmente desistiu de lutar. Para Bryan ele era um fardo para as pessoas, que ele era um peso para todos, e que se caso todos descobrissem oque ele fez, todos olhariam com cara de nojo para ele.

    Em troca de seu suicídio, Pedro prometeu que morreria com Bryan toda a história, que se Bryan cometesse suicídio, ele não iria divulgar as coisas que Bryan havia feito. Apesar de tudo, Bryan tinha muito medo de seus pais acabarem descobrindo o que ele fez, então Bryan acabou aceitando a proposta de Pedro.

    Foi quando em um belo dia ensolarado, com os pássaros cantando logo de manhã cedo, Bryan se jogou do viaduto e infelizmente veio a óbito, seus pais ao receberem a notícia, entraram em desespero, sua mãe não conseguia parar de chorar.

    Apesar de tudo, Bryan sabia que por mais que lutasse contra seu sofrimento, jamais conseguiria sozinho. Muitas vezes ele implorou por ajuda e ninguém conseguiu ver o quanto ele estava sofrendo.

    Reflexão: Não brinque com depressão, pois é algo muito sério, não deixe de ajudar alguém que necessite de sua ajuda.   Muitas vezes algumas palavras de conforto, fazem a diferença na vida de uma pessoa.                                                                                    

    Após se passarem alguns anos do suicídio de Bryan, seu pai acabou ficando muito doente, sua esposa mãe de Bryan, vivia no hospital cuidando dele. Após o pai de Bryan estar três meses internado no hospital, em uma fatídica noite, infelizmente teve uma parada cardíaca e acabou vindo a óbito.

    A família de Bryan ficou muito triste, pois tinham acabado de perder Bryan a pouco tempo. Após duas semanas se passarem, a mãe de Bryan acabou adoecendo, pois ela estava muito abalada com a morte de Bryan e de seu companheiro. O irmão de Bryan, com muito medo de perder sua mãe também, acabou largando o emprego para cuidar dela.

    Foi quando a mãe de Bryan começou a melhorar cada vez mais, já estava até fazendo atividades físicas novamente, mas até então que tudo mudou. Quando tudo parecia estar voltando ao normal, mãe de Bryan piorou e muito, foi quando o mundo de Kaique irmão de Bryan, terminou de desabar.

    A mãe de Bryan lutou até o fim de seus dias, Kaique ficou oito horas em frente do bloco cirúrgico esperando por sua mãe, quando infelizmente os médicos deram a notícia de que ela não havia resistido. Naquele momento a vida de Kaique tinha acabado, aos 26 anos, Kaique tinha perdido seus pais e seu único irmão.

    Por dois meses seguidos, Kaique visitava os túmulos de seus pais e de seu irmão mais novo Bryan, pois para ele, aquele era o único momento que ele podia ficar um pouco mais próximo deles. Ali Kaique contava para eles sobre como tinha sido seu dia, os estresses do trabalho, e ao cair a noite, Kaique voltava caminhando para casa derramando inúmeras lágrimas.

    Kaique acabou conhecendo uma mulher em seu trabalho, o nome dela era Isabela. A Isabela era uma mulher, linda, gentil e muito carismática, Kaique esquecia de todos os problemas quando estava com ela. Foi quando Kaique percebeu que precisava seguir sua vida em frente, Kaique teve muito apoio de Isabela, e os dois acabaram ficando bem íntimos.

    Após se passarem um mês juntos, Kaique pediu Isabela em namoro, foi quando ela rapidamente aceitou, e os dois foram morar juntos. Já tinha se passado muito tempo dos fatos ocorridos, Kaique estava muito feliz com Isabela, os dois já até planejavam em ter um filho. Após Isabela finalmente conseguir engravidar, os dois resolveram visitar os túmulos dos pais de Kaique.

    Após chegarem lá, levaram flores e Kaique conversou muito com seus pais, Isabela pediu para Kaique levá-la ao túmulo de Bryan, quando chegaram lá, puderam perceber que já havia uma pessoa por lá. Ao se aproximarem, perceberam que se tratava de um homem, o perguntaram quem era e porque estava ali, o homem não quis se identificar e foi embora.

    Kaique achou muito estranho e resolveu ir todos os dias no túmulo de Bryan para ver se aquele homem voltava, foi quando em uma tarde chuvosa, os dois finalmente se encontraram novamente. O Kaique estava decidido a não deixá-lo ir embora sem antes lhe fazer algumas perguntas, pois até então ninguém sabia o motivo de Bryan ter cometido suicídio. E para Kaique, aquele homem parecia bem próximo de Bryan, apesar de Kaique nunca tê-lo visto em sua vida.

    Mal sabia Kaique que em sua frente, estava o assassino de seu irmão, o homem que havia destruído a sua família, e que sua nova família que estava prestes a ser formada, também corria um perigo enorme.

    O homem assustado ao ver Kaique pela segunda vez, resolveu correr para fora do cemitério, Kaique correu atrás dele mas acabou o perdendo. Foi quando Kaique achou ainda mais estranho e resolveu a partir daquele momento começar a investigar. Pois Kaique começou a perceber que poderia não ser apenas um suicídio, que algo muito maior estava oculto, e ele estava prestes a descobrir.

    Após ter passado anos de culpa, Pedro estava fazendo visitas constantes ao túmulo de Bryan, mas mal sabia ele que essas visitas poderiam acabar trazendo toda verdade a tona.

    O homem encapuzado, todo de preto, estava prestes a ter a identidade revelada. Pedro começou a investigar a vida de Kaique, onde ele trabalhava, onde ele morava, a que horas eles chegavam em casa. Pois para Pedro, Kaique poderia acabar com a vida dele, e que se ele sumisse com Kaique, tudo estaria resolvido.

    Foi quando Pedro resolveu arquitetar um plano, mas nada saiu como o esperado. Do outro lado, Kaique estava ficando paranoico, Isabela não o aguentava mais, e estavam tendo brigas constantes, pois Kaique insistia que não tinha sido apenas um suicídio qualquer, Isabela já estava furiosa com esta história.

    Foi quando em um dia muito chuvoso, Isabela e Kaique brigaram, Isabela resolveu sair de casa e ir dormir na casa de seus pais. Foi quando Pedro resolveu colocar seu plano em prática, aquela era a chance de Pedro, de por um fim em seus problemas.

    As duas 02:30 da madrugada quando Pedro havia entrado já na residência e estava escondido, Isabela bate na porta e acorda Kaique. Isabela havia desistido de dormir na casa de seus pais, pois estava preocupada com Kaique, Pedro ficou desesperado, pois estava preso dentro da residência.

    Deu 04:45 da madrugada, Kaique e Isabela foram dormir após terem uma longa conversa, Pedro subiu as escadas com um revólver na mão, estendeu sua mão sobre a porta e abriu, se aproximou da cama do casal e apontou seu revólver sobre Isabela.

    Pedro começou a chorar e então Kaique e Isabela acordaram assustados, Kaique logo reconheceu que era o mesmo homem do cemitério. Então Kaique começou a dialogar com Pedro, dizendo que ele não precisava fazer aquilo, que Isabela estava grávida. Pedro estava cego, ele tinha medo de que todos descobrissem a verdade, e estava disposto a tirar a vida de Kaique e Isabela para se safar de sua culpa.

    Foi quando os vizinhos ouviram gritos e tumultos e acabaram acionando a polícia, quando a polícia chegou ao local, Pedro ficou completamente transtornado, pois percebeu que sua vida estava acabada.

    Com a chegada da polícia, Pedro ficou muito nervoso, Kaique tentou se aproveitar deste momento para tentar tirar a arma de Pedro, mas sua tentativa falhou. O revólver disparou e a bala acabou atingindo o coração de Kaique, ali naquele momento Isabela entrou em desespero e acabou indo para cima de Pedro.

    Ao ir para cima de Pedro e tentar tirar a arma dele, Pedro acabou a empurrando para afasta-la, pois Pedro não queria matar Isabela por ela estar grávida.

    Ao empurra-la, Isabela acabou batendo forte com a cabeça em um espelho, e acabou vindo a óbito, foi quando ao ouvirem os disparos e todos esses barulhos, a polícia resolveu invadir a residência, mas infelizmente chegaram tarde demais.

    Ao entrarem no quarto, a polícia viu uma cena de terror, ao matar Kaique e Isabela, Pedro acabou se suicidando com um tiro na cabeça, foi naquele mesmo quarto que a história de uma linda família teve um fim trágico.

    Uma história de amor que acabou destruindo com uma família, após inúmeras mortes, a polícia resolveu abrir uma investigação, e a verdade veio a tona.

    Reflexão: Cuidado com quem você acabe se envolvendo, as vezes vivemos anos com uma pessoa, e não conhecemos como realmente ela pode ser.

                                                                   

     
  • Abandonados

    O sol estava quase se pondo, e começava a esfriar. Era hora de juntar as ferramentas e ir pra casa. Já havia refeito a cerca e checado o propulsor, não havia perigo essa noite. Papai instalara esse mecanismo há alguns anos, custou quase dez meses de trabalho, mas valeu a pena. Nessa época do ano os ataques de radús aumentavam. Talvez por causa do frio, que congelava as partes mais distantes da floresta, e fazia os outros animais fugirem. Eles gostavam de atacar em bando, e quando estavam reunidos representavam perigo a todos, inclusive a nós. Mas agora estávamos seguros, por enquanto...
    _Will... onde está seu irmão?
    Os arus já começavam a cantar, anunciando a chegada da noite. Minha mãe estava trancando a gaiola dos macucos quando me viu chegando. Carregava apenas algumas ferramentas, as outras deixei no caminho, apesar de meu pai sempre reclamar, dizendo que isso as oxidava. Estava ficando frio.
    _Não sei... pensei que tivesse voltado. Me deixou sozinho fazendo a cerca e sumiu.
    O olhar de preocupação ficou estampado no rosto dela. Não era seguro para uma criança andar durante a noite pela estância. Sabia onde poderia encontrá- lo, e não tardei em ir. Queria chegar antes do anoitecer e a tempo de ouvir músicas com meu pai.
    _Ele deve estar na represa. Vou lá buscar ele, já volto...
    _Cuidado Will! Não se esqueça de ligar o propulsor quando voltar.
    A porta da gaiola estava emperrando há alguns dias, por isso mãe custara a trancá-la. Era um trabalho para a próxima semana. Saí em disparada pela trilha que levava á represa. O lugar ficava extremamente frio á noite, e os gralhos cantavam em conjunto, causando um som horrível.
    Nadic estava jogando pedaços de rochas queimadas na água. Provavelmente nem se deu conta do quão tarde havia ficado. Ele era o caçula da casa, o protegido, meu irmão. Nunca me importei de zelar por ele, afinal era minha responsabilidade.
    "Irmãos tem que ser unidos"
    1
    Meu pai disse isso quando Nadic nasceu, e dizia algumas vezes mais. Sabia o quanto era importante ter um amigo ao lado, e ninguém seria mais amigo que um irmão.
    Gritei Nadic, e acenei com o braço para que viesse. Atirou sua última pedra na água e veio, num leve galope. Já havia escurecido, e não era bom ficar fora da cerca durante a noite. Tratei de apertar o passo, mas Nadic não acompanhava. Então joguei a isca que funcionaria.
    _Quem chegar por último tem que dar banho no Solomon amanhã.
    Ninguém gosta de se molhar enquanto tenta dar banho num animal de quase dois metros. Era de longe o pior trabalho a se fazer, para crianças. Os adultos tinham coisas um pouco mais difíceis.
    _Não vale, Will... você estava na frente quando falou. Espera!
    Não parei de correr. Não pela fuga do serviço, que no final das contas seria meu de qualquer forma. Nadic era muito pequeno e fraco para dar conta do Solomon. Queria apenas chegar rápido em casa, e assim ouvir a rádio com papai, como fazíamos todas as noites.
    _Ei, Will... espera! Will, tem alguém aqui.
    Estava bem á frente quando Nadic parou. Podia ser um truque, parando para esquecermos o desafio, mas não era o que parecia. Ele estava parado, e olhava fixamente a lavoura de linhais. Dizia insistentemente que havia algo ou alguém ali. Não conseguia ver nada, mas seus olhos estavam estáticos, buscando e agonizando por algo.
    Um barulho...
    Seja o que for que Nadic tenha visto, certamente não estaria ali amanhã. Um grupo de radús descia o bosque, emitindo sons enlouquecidos. Estavam famintos, e se não corrêssemos muito seríamos devorados naquela noite.
    Nadic continuava olhando o linharal, sem sequer perceber os gritos e uivos atrás de nós. Ele estava em outro lugar, parecia dormir e sonhar profundamente, acordado e de pé.
    Peguei-lhe pelas pernas e joguei nas costas. Logo saí da trilha, pegando o caminho mais rápido até a proteção da cerca. Conseguia ouvir as batidas dos dentes ferozes atrás de nós. Não daria tempo. Um deles estava muito perto, quase chegando...
    Corre Will! Corre!
    2
    Minhas pernas doíam e estavam rígidas no frio. Não conseguiria correr muito além daquilo, iríamos morrer ali, devorados por um bando de radús de dentes afiados.
    Mudei meu curso outra vez e agora corria rumo ao poço dos cânions. Se conseguisse pular em seu interior estaria livre dos radús. Eles não suportavam o contato com a água durante a noite. As nascentes se congelavam e liberavam gases de alta densidade, mantendo o solo coberto por uma nuvem branca e tóxica.
    Sabia. Não tinha outra escolha, não uma melhor.
    Eu poderia tentar a fragmentação, mas era quase impossível; não a dominava plenamente, e Nadic menos ainda. O máximo que já tínhamos conseguido metamorfosear fora uma mão, ou meio braço, nunca mais do que isso. O grande problema não era fazer, mas refazer; e o que fazer depois de mudar. Isso poderia nos matar tão rápido quanto os radús.
    Não iríamos conseguir, eles estavam atrás de nós, e Nadic pesava muito. Num último impulso joguei-me com Nadic no poço, sem me atentar que ele poderia estar congelado. Batemos forte na superfície coberta por uma fina camada de nitrogênio. A camada rompeu e afundamos...
    3
    _Onde estão os meninos? Will me falou sobre ouvirmos...
    As palavras de Moorse perderam-se quando se deu conta do que estava acontecendo. As crianças não haviam voltado, estavam lá fora, no frio, e talvez fora da proteção do propulsor.
    _Will foi buscar Nadic. Já deviam ter voltado, ele falou que iria rápido, mas até agora...
    _Calma, vou lá. Eles devem estar dentro da cerca, não há perigo.
    Moorse soltou Solomon e com o caminho clareado pelo farol da fazenda partiu em busca dos filhos... ou de seus corpos.
    A cerca estava reerguida, como havia pedido para Will fazer pela manhã, mas o propulsor estava desligado. Acionou outro feixe de luz, clareando o caminho além da cerca. Não via nada, nem as feras.
    Deixou Solomon seguir o rastro, farejando e deixando saliva por onde passava. O que quer que fosse, levaria Moorse a algum lugar. Talvez rastreasse os radús, ou os meninos, e quem sabe ambos.
    4
    O caminho farejado saía da trilha e seguia pelo campo, dirigindo-se ás antigas estalagens da estância, onde estavam o velho moinho e o poço abandonado. Nenhum funcionava, e tampouco eram acessados. Radús subiam o morro correndo, e então Moorse soube que Solomon havia os seguido. O animal parara de farejar, parecia ter chegado no fim do rastro, e agora estava sentado com as orelhas erguidas e atendo, olhando para o alto do casebre, já caindo aos pedaços. Demonstrava haver algo ali, mas Moorse não deu atenção.
    Seguiu caminhando até o poço, e viu a superfície se reconstituindo no meio. Parecia ter sido quebrada ou rompida por alguma coisa.
    Aproximando-se não pôde ver nada. Então ouviu uma pancada, de dentro para fora, vinda do poço. Havia algo ou alguém ali. Moorse não se moveu, apenas observou. Foi então que viu parte do rosto de Will comprimido contra o nitrogênio congelado, gritando desesperado.
    Moorse olhou para o poço, aproximando-se. Ficou despido, sem se importar com o frio ou com o vento em volta. Solomon observava, apenas grunhindo, lambendo o focinho e se deitando. O que outrora fora um ser corpulento e pesado, desfizera-se gradativamente, e agora feito líquido escorria lentamente para o poço.
    A camada de nitrogênio começara a gasificar, e a superfície do poço voltava a ficar líquida. Will e Nadic boiavam e eram levados para fora do poço, agora puxados por Solomon. Quando a fumaça se desfez, havia água escorrendo. Moorse agora surgia deitado no canto. Seu corpo voltara a ser o mesmo, num incrível processo de materialização.
    Nadic estava desacordado, tremendo, e enrugado. Will conseguiu se manter desperto, mas não totalmente. Moorse sentiu-se feliz ao ver o filho mais velho dormir a tempo de não ver o quanto a tentativa de fragmentação lhe havia custado.
    Seguiram pela trilha desta vez, sob a luz dos faróis. Nadic nas costas de Solomon; Will nas costas de Moorse, o braço estava pela metade, enrolado na camisa do pai, e a parte esquerda do rosto estava coberta.
    Fechou-se a cerca e o propulsor foi acionado.
    Seguiram rumo á casa.
  • Agora fantasmas

    Somos três correndo no quintal. Elas são um par de astronautas. Eu, um morador da lua.
    Prometemos brincar para sempre. Paramos todos os dias para acenar ao vizinho. Hoje ele quis se juntar a nós.
    Armados com facas, brincamos de guerra. Perdemos.
    Éramos três correndo no quintal. Novo jogo: vingança.
  • Alvorecer

     Naquela noite em meio ao meu ser desprovido de qualquer sono, retirei-me de meus aposentos e fui em direção ao verde gramado em meu quintal. O céu estrelado parecia não se importar com a presença de alguém indesejado lhe observando daquela maneira tola e desprovida de qualquer motivação além do puro tédio de um mero cotidiano mórbido.
     A Lua devorava a imensidão em plena noite, e a aurora formada diante de meus olhos era capaz de cativar qualquer outro observador que ali estivesse. Mas algo não parecia certo; um estrondo longínquo chegou em meus ouvidos e despertou a atenção de meus olhos que já estavam direcionados para o que viria a seguir. Três estrelas se alinharam de forma vertical logo após o estrondo ter cessado. As estrelas das extremidades se apagaram em conjunto e a intermediária começou a crescer em tamanho e luminosidade.
    Minhas pálpebras não conseguiam se fechar diante daquela cena única. A estrela estava vindo em direção ao planeta Terra... não, não... em direção a mim...
     Um fogo azulado cercou totalmente a luz outrora branca; estava entrando em órbita. Meus olhos se fecharam involuntariamente por um milésimo de segundo, tempo este, suficiente para que a luz duplicasse de tamanho. Com o dilatar de minhas pupilas que estavam diante de tal cena incompreensível, a grande luz se apagou e junto dela meus olhos se fecharam. Meu pavor teve início quando meus olhos se abriram e perceberam... aquilo não era uma estrela...
  • Amor de Quarentena

    ***
    - Só que eu te amo.
    - Mas EU... – (não acredito que ela usou uma pausa dramática) -  não te amo. – ela disse colocando a mão em seu ombro – Adeus Kevin.
    Essas palavras soaram como uma chave de fenda enferrujada penetrando profundamente no coração de Kevin. Ele e Vanessa namoraram por dois anos. Foi algo completamente inesperado, mas talvez, se Kevin prestasse mais atenção aos sinais, não fosse tão inesperado assim. A verdade é que, no final, ambos tinham se acomodado com a presença um do outro. Não faziam muito além de transar e ficar no quarto o dia todo pensando em quando transariam de novo, não tinham nada para conversar ou se preocupar um com o outro. Ela não fazia questão de sair com ele, ele não fazia questão de ter ela por perto. Kevin imagina que a amava, no fundo, talvez acreditasse que isso já não era mais verdade. Ela já não demonstrava sentimentos há meses, e ele achava que demonstrava, mas a verdade estava longe disso.
    Kevin, um rapaz de 20 anos recém completos, era magrelo e tinha cabelos negros até os ombros e belos olhos azuis. Foram esses olhos que atraíram Vanessa, não tinha dúvida. E naquela tarde após a escola, estavam no último ano quando finalmente se beijaram. Havia meses que flertavam, ele começava a duvidar que algo iria acontecer. Foi a segunda garota que beijou e foi com quem perdeu a virgindade.
    Ainda morava com os pais. Eles eram jovens, seu pai tinha apenas 39 anos e sua mãe 36, sempre soube que fora uma gravidez acidental de uma noite bêbada com dois namorados apaixonados e não ligava (não existe uma história de amor muito melhor do que essa, certo? Eles estão juntos e apaixonados até hoje). Seus pais foram expulsos de casa por conta disso, também não se importaram, decidiram que todo o amor que não tiveram em casa dariam para aquela criança e que trabalhariam duro para tudo dar certo. Ele trabalhou em bar por muitos anos até virar o dono e ela trabalhava em lojas de departamento, mesmo sem estudos subiu bem na carreira. Nunca tiveram luxos, só que nada lhes faltou.
    E todo o amor que Kevin recebia de seus pais era o mais importante, principalmente nesses momentos de tristeza. Foi com eles que fumou maconha pela primeira vez. Diziam “melhor fumar aqui do que em um beco sujo qualquer, com todas aquelas porcarias que colocam no meio”. Ele fumou e não gostou, nunca mais encostou naquilo. Mas gostava de beber, geralmente não muito, só quando se sentia para baixo ou quando saia com os amigos, ou em festas em casa (na verdade, quando sozinho ele só bebia se estivesse triste).
    Gostava de tocar sua guitarra, pensava em fazer uma tatuagem, queria um dragão no braços inteiro, só que nunca venceu seu medo de agulhas. Era um guitarrista medíocre, contudo, ganhava alguns trocados tocando na noite. Foi convidado para uma banda e entrou no cenários dos pubs, tocava de quarta a sábado e a grana ficou melhor. Ajudava nas contas de casa e grande parte do que sobrava ele guardava para seu futuro.
    Uma vez por mês jogava na loteria com seus pais, cada um escolhia um terço dos números. Davam risada e nunca acompanhavam os sorteios, apenas viam os número dias depois. Nunca ganharam nada, mas o valor era baixo e o pequeno evento em família era prazeroso.
    Eles moravam no sétimo andar e Kevin, sem querer, viu alguém se mudando para o prédio da frente, apenas uma janela abaixo. Depois ele iria descobrir que ali não era o sexto andar como em seu prédio, na verdade era o terceiro, já que os três primeiros andares dali eram comerciais e por ter uma entrada diferente, tinham os três andares ignorados.
    Entre os novos vizinhos, reparou que havia uma garota que parecia ter sua idade. O que lhe chamou atenção nela, a princípio, foram aqueles longos cabelos loiros que brilhavam intensamente, poderiam ser vistos de longe. Parecia ser filha única, assim como ele. Contudo, seus pais já eram grisalhos. Ela não reparou nele e ele não quis ser o sujeitinho estranho que fica observando as outras pessoas por ai.
    Foi então que o mundo inteiro mudou...
    ***
    Não havia informações precisas de como tudo começou ou de onde surgiu. Diversos lugares no mundo indicavam casos ao mesmo tempo e fronteiras começaram ser fechadas.
    Tarde demais, infelizmente...
    A princípio era apenas uma tosse mais resistente, alguns espirros, nada que não se curasse com o tempo (acreditavam) e provavelmente deve ser uma gripe mais forte. Quando as pessoas começaram a espirar sangue, que escorria incontrolavelmente de suas narinas, a preocupação surgiu. Logo, milhares morreram e o mundo entrou em quarentena. Ainda era possível ir ao mercado e alguns outros serviços essenciais que ainda funcionavam.
    - Filho, não sabemos como será essa pandemia por aqui. Então, vamos ao mercado para estocar aquilo que realmente importa.
    - Cerveja?
    - Eu criei esse filho tão bem – diz seu pai rindo – muita cerveja, mas um pouco de comida faz bem também.
    Os dois riram e saíram juntos.
    Os pais de Kevin se cuidavam bem, faziam exercícios regularmente e visitas periódicas ao médico para seus respectivos check ups. Em geral eles que faziam as compras nos mercados só os dois e, aos poucos, estocavam tudo que precisavam.
    Ninguém sabia explicar como se dava o contágio, a televisão informava que era por espirros ou tosse e recomendava cobrir com o braço para não infectar outros e a limpar as mãos constantemente. O tempo de incubação era de 7 dias e era extremamente contagioso. Também, nesse período, não era possível detectar os doentes. Após isso, os sintomas se confundiam com o  de uma gripe simples, durava de 7 dias a 15 dias com tosse e espirro, daí a confusão com uma simples gripe. Depois variava, algumas pessoas tinham pouco sangramento, similar ao rompimento de uma veia, como acontecem em temperaturas muito elevadas ou algo do tipo. Em outros casos, ocorriam jorros de sangue pelo nariz e pela boca, com pedaços mais densos. Cientistas trabalhavam incessantemente ao redor do mundo procurando uma cura.
    Logo, as ruas ficaram desertas. Embora o número de vítimas fatais fosse baixo, muitos já estavam em estado grave sucateando os hospitais e acomodações temporárias. Foi quando o primeiro grito veio pela janela.
    - Ei! Vizinho de cabelo cumprido! Sempre gostei de um roqueirinho! – A frase é seguida de risadas divertidas.
    Kevin estava na janela contemplando o vazio da rua e perdido em seus pensamentos. Seus cabelos soltos brincavam na frente de sua face. Quando olhou para frente, viu sua vizinha loira, com um belo sorriso, acenando para ele. Ele vestia uma regata do Iron Maiden. Seus braços eram definidos, provavelmente por tentar tocar bateria, nunca fora muito fã de exercícios.
    - Oi! Vizinha de cabelo amarelo!
    - Preciso conversar com alguém para não ficar louca! Já que não tem ninguém na rua e meu prédio parece vazio, fala comigo!
    - Claro! Qual seu nome?
    - Ariel e o seu?
    - Sou Kevin, muito prazer! Mas acho melhor falar por telefone, minhas cordas vocais não vão aguentar muito! Passa o seu número!?
    - Como você é adiantado. Deveria me pagar um jantar ou uma bebida antes de pedir isso! Mas tudo bem, anota ai!
    Ela passou o número e começaram a conversar. Logo, todos os dias saiam na janela para ver o pôr do Sol juntos. Kevin, apesar de novo, não enxergava muito bem de longe. Só tinha certeza de que a garota era loira, até ver sua foto no celular. Seu coração se apaixonou instantaneamente. Acreditou piamente que era a coisa mais linda que já vira na vida (e isso incluía o por do Sol e a aurora boreal que vira com seus pais no inverno rigoroso da Noruega, mas nessa época ainda namorava Vanessa. Preferia não lembrar)
    ***
    Os amigos de Kevin pararam de lhe responder. Rumores de mortes eram frenéticos e ninguém sabia o que de fato acontecia. Foi quando os doentes começavam a chorar sangue e a morte parecia certa.
    Naquela quarta feira as televisões ainda funcionavam e era possível comprar bilhetes da loteria pela internet. A família de Kevin se reuniu, mesmo sem a energia de sempre, e comprou um bilhete. Foi a primeira vez que viram o sorteio ao vivo.
    Em meio a toda aquela loucura, eles ganharam 46 milhões na loteria daquele dia, que seriam muito bem vindos. Dois dias depois um anúncio informou que a premiação seria suspensa até o final da pandemia. Depois de 4 dias surgiu a notícia de que um cura chegaria até setembro, apenas 5 meses dali. Um fio de esperança, embora não se soubesse toda a extensão daquela doença, sabia que ela começara a matar rápido.
    Muito fugiram das grandes cidades, entretanto a maioria ficou. Mortos surgiram jogados nas ruas e ninguém saia de casa para retirá-los. A calamidade era total. Os mercados foram fechados e começaram a ser saqueados. A família de Kevin conseguiu visitar alguns pela região e estocaram comida para pelo menos 7 meses, então, pararam de sair. Todos pararam de sair de suas casas, era perigoso demais.
    A última notícia que a televisão transmitiu era de que já havia mais de 5 milhões de mortos ao redor do mundo e 10 milhões de infectados confirmados. Não tinham ideia da dimensão de doentes com sintomas iniciais, aqueles parecidos com uma gripe comum.
    Ariel estava preocupada. Seu pai jazia doente e se trancara no quarto, não queria contato com ninguém, e sua mãe lhe levava comida receosa com o que poderia ver lá dentro. Ambas sabiam que ele não duraria até uma cura aparecer e que seu estoque de mantimentos não era tão grande.
    Mesmo de longe Kevin sentia a tristeza de seu novo amor. E tentava consolá-la por telefone sempre que podia. Até as linhas serem cortadas. A internet não existia mais, a telecomunicação não existia mais. O cenário era cada vez mais nebuloso, contudo, faltava pouco para a cura chegar e tudo ficaria bem. Kevin tinha comida o suficiente e, assim que possível, pediria para Ariel ir para sua casa com seus pais (provavelmente só com a mãe).
    ***
    Sem telefone, os gritos pela janela voltaram. Era a única forma que tinham para se comunicar.
    - Como você está amor?
    - Estou bem. Acho que meu pai não vai sobreviver muito mais tempo. – falar aquilo gritando causou um peso maior do que Ariel poderia suportar. Começou a chorar. – Eu não quero perder meu pai!
    - Queria poder ir ai te abraçar querida. Sinto muito por tudo o que está acontecendo, queria que tudo fosse diferente... mas... - esse “mas” saiu baixo, Ariel não ouviu, contudo viu a expressão de tristeza no rosto de seu amor.
    - O que aconteceu?
    - Meu pai também está doente. E acho que minha mãe está da mesma forma. Eles estão comendo bem menos e não saem do quarto. Pedem para não entrar, só que preciso levar comida para eles. Eles vão morrer logo, eu sei disso.
    - Sinto muito. Nada disso deveria acontecer.
    - Sim. E sabe o mais incrível? Somos milionários, mas o dinheiro não virá nunca. Acho que mesmo se tivéssemos ganho antes não teríamos muito o que fazer com ele. E talvez eu não tivesse te conhecido... – Ele parou um pouco refletindo, então respirou fundo e preparou o próximo grito - Você valeu muito mais do que aqueles 46 milhões.
    - Eu te amo, Kevin – ela gritou a plenos pulmões com o rosto brilhando por suas lágrimas refletindo a luz do Sol.
    - Também te amo, Ariel. Não existe outra pessoa que eu gostaria de passar esses momentos que não fosse você.
    No fundo, eles sabiam que não sobrara ninguém para ouvir sua conversa. Ninguém mais saia nas janelas. As tosses que Kevin ouvia nos corredores de seu prédio cessaram. As pessoas morreram trancadas em casa. Ele não sabia como não havia sido infectado, muito embora seus pais que saíssem na rua, nunca deixou de abraça-los. E, em breve, estariam mortos.
    ***
    - Estou com fome Kevin... A comida acabou aqui tem 4 dias. Meus pais morreram, tive que coloca-los no quarto e cobri-los. Sinto-me horrível.
    - Queria que tivesse alguma forma de lhe mandar comida. Ainda tenho bastante. E sem meus pais, tenho muito mais do que preciso, pelo menos até a cura. Os cientistas disseram que chegaria em setembro, falta apenas um mês! Temos que aguentar e poderei finalmente te abraçar, meu amor.
    - Você é a coisa mais perfeita que encontrei na minha vida – diz Ariel enxugando as lágrimas. – Vamos tentar sim.
    - Vamos conseguir!
    Em seu apartamento, Kevin procurou alguma linha, corda ou qualquer coisa que pudesse jogar até a janela de Ariel para lhe dar comida. Nada tinha a distância certa. Pensou em amarrar roupas, mas não teria força o suficiente para lançar até lá. Conseguiu um fio frágil de nylon, achou que não aguentaria o peso da comida. Decidiu arriscar. Amarrou o fio em um avião de papel e arremessou em direção à janela de Ariel. Treinou a infância inteira aquele arremesso e acertou de primeira.
    - Eu não acredito! Vai dar certo! – Exclamou Ariel pulando e sorrindo. – Vou amarrar aqui.
    Com muito cuidado, Kevin colocou um pacote de macarrão instantâneo no fio e fez deslizar até Ariel. Ela conseguiu pegar. Quase não se controlou, abriu o pacote e já ia dar uma bocada, quando olhou para Kevin rindo.
    - Esquenta isso ai, sua louca! – Kevin não conseguiu segurar a gargalhada.
    Ela riu, mandou um beijinho para ele, agradeceu a comida e sumiu da janela.
    Quase uma semana se passou e Kevin não arriscava enviar nada mais pesado do que um pacote de macarrão instantâneo para Ariel, mas era visível sua condição física debilitada. Ela estava subnutrida e não viveria muito comendo apenas aquela porcaria. Então ele conseguiu colocar um cabide no fio de náilon e grudou uma lata de atum com fita crepe na base do cabide. Era a esperança que tinha para ajudá-la.
    O cabide deslizou vagarosamente. O peso fez com que parasse na metade do caminho. Kevin colocou os pés no parapeito e ficou de pé para dar uma altura maior à sua ponta do fio. A lata começou a se mover, alguns centímetros vagarosos, então o fio não aguentou e se desfez.
    Foi possível ouvir o coração de Ariel partindo da janela de Kevin. Sua expressão de felicidade mudou rapidamente para tristeza e logo desespero. Ela colocou as mãos no rosto, se apoiou no parapeito e chorou.
    - Calma amor, por favor. Vou conseguiu outra coisa. Vou arrumar outra solução.
    - Tudo bem, amor. – disse Ariel sem emoção alguma.
    Então sumiu na janela. Kevin não a viu por dois dias.
    Nesse meio tempo procurou outras alternativas. Não encontrou nenhuma, nada que alcançasse a janela do outro lado da rua. 50 metros para salvar a vida daquela garota, que significava todo o seu mundo e ele não conseguia. Foi então, que Ariel apareceu na janela novamente.
    - Eu te amo, Kevin, nunca esqueça disso. Mesmo sem nunca termos diminuído a distância entre nós, nunca termos nos tocado, nunca termos nos beijado, eu te amo! Você é a pessoa mais incrível que já conheci em toda a minha vida e de todo o meu coração eu queria ter te conhecido em outras circunstâncias. – Ela chorava copiosamente – Mas... eu.... – a voz falhou. Ela não conseguia tirar do peito o que precisava dizer – eu... não... EU NÃO AGUENTO MAIS!! DESCULPE!!
    Ela levantou o braço, ele viu uma pequena marca e em sua mão havia uma pistola negra.
    - Não! PELO AMOR DE DEUS NÃO!
    Era tarde demais. Ele viu um clarão, aquele barulho alto e, então, o corpo de Ariel pendeu para a esquerda e sumiu da visão que Kevin tinha por aquela janela.
    ***
    Um Mês se passara desde a morte dela. Era setembro e nenhum sinal de cura. Mais um mês se passou e outro, logo, era perto do natal. Pensou na família que se fora. Pensou no amor que se fora. Ela não vai voltar. Seus pais não vão voltar. Ninguém vai voltar, estão todos mortos.
    Foi ao quarto dos pais. Com muito cuidado para não perturbar os mortos que ele carinhosamente havia postado na cama de casal, juntos, embaixo do cobertor para não ver mais aquela cena hedionda de como morreram. Abriu o cofre escondido no armário, sabia a combinação de cor, afinal, ele que escolheu, e pegou a arma que os pais deixavam ali dentro. Guardou-a na parte da frente da calça.
    Saiu do apartamento e desceu pelas escadas. O silêncio daquelas escadarias era ensurdecedor, sentiu vontade de chorar, mas não o fez. Que bem lhe faria chorar sozinho em uma escadaria escura? Seguiu seu caminho até chegar ao térreo.
    (Todos mortos. O que posso fazer?)
    Ali tinha uma cadeira onde sentou. Pôde ver, através das duas portas: a primeira era uma estrutura de metal resistente, mas os vidros foram quebrados; a segunda era um portão de aço, que foram barradas com tudo que pudesse fazer peso, como geladeiras, freezers, sofás, tudo que conseguiram usar para que a porta não cedesse com aqueles mortos que andavam lá fora. Ele nunca soube quando essas pessoas voltariam da cova e havia mais de um milhão naquela rua, essa era sua estimativa desde que o fio de esperança de Ariel arrebentou derrubando sua lata de atum. Porém, havia meses que eles estavam ali e não iam embora.
    (Todos estão mortos. E os mortos estão vivos..)
    Aquela rua completamente tomada por aqueles que voltaram de suas tumbas. Imaginou que fossem partir dali antes de sua comida acabar ou que alguém viria ajudar. Ninguém veio ajudar e sua comida acabou, mesmo assim eles estão lá, balançando lentamente de um lado para o outro sem se mover e com aquele gemido baixo.
    Devem estar todos assim, todos mortos, pelo mundo inteiro. Lembrou do dia que seu pai voltou com uma mordida no braço, como ele devorou o pescoço de sua mãe e como teve que abater os dois com um pedaço de pau. Nunca imaginou que fosse capaz de fazer aquilo.
    Lembrou do amor da janela da frente, o amor que nunca beijou, que nunca tocou, da marca em seu braço com a pistola, provavelmente uma mordida que recebeu de seu pai voltando dos mortos. Ele tinha lhe dito para esmagar a cabeça deles antes que voltassem à vida. Ela provavelmente achou que a porta do quarto iria segurá-los. Lembrou do clarão do tiro que lhe atravessou a cabeça e daqueles dois cadáveres grisalhos que invadiram seu quarto e a devoraram. Então abaixou a cabeça e chorou, em silêncio, no meio do som do murmúrio dos mortos.
    Não sabia quando ou como os mortos voltaram. Mas tinha certeza de que agora o mundo era deles.
    Pegou a arma e encostou em sua têmpora direita. Respirou fundo (adeus) e atirou.
  • Amor de verão?

    Malas prontas para a viagem de intercâmbio. Meia-noite, três pedrinhas contra a janela. Um abraço, vários beijos e os caninos no meu pescoço. Eu queria mudar de vida e agora consegui. Tenho tempo para fazer intercâmbio em todos os países do mundo com meu eterno namorado, literalmente.

  • Amor e Morte - Cap. 2

    Amor e Morte - Cap. 2
    Anteriormente: Jacqueline e Juliano se conhecem. Clarisse e Gilberto se encontram numa feira. Confira os destaques de hoje.
    Juliano e Jacqueline marcam um encontro. Em casa, Carlos sai para ir ao supermercado e Jacqueline Clarisse, como estão a sós, conversam.
       Não sabe o que eu tenho que te contar - Diz Jacqueline e Clarisse ao mesmo tempo.
       Jacqueline: O que é?
       Clarisse: Primeiro eu; Eu conheci um homem; Gostoso e lindo!;
       Jacqueline: Mentira? Sério? Hoje eu conheci um rapaz na faculdade; O nome dele é.... Juliano; Lindo e gostoso!;
       Clarisse: E ai?
       Jacqueline: A gente marcou um encontro!
       Clarisse: O nome do meu eu não sei; Mas ele é lindo, ele é!;
       Jacqueline: Hum....
    Juliano discute com sua mãe, Maria. Mas Eugênio o defende.
       Maria: Esse muleque só sabe namorar! Ele fica com uma, depois outra! Foca nos estudos!
       Eugênio: Deixa ele. O importante é ele estudar!
       Maria: EUGÊNIO!
       Eugênio: MARIA!
    Gilberto chega na sua casa. Carolina está sentada no sofá chorando.
       Gilberto: Carol... O que houve?
       Carolina: Nossa briga de hoje! Estou triste!
       Gilberto: Calma! Vai se deitar! Relaxa!
    Gilberto leva a esposa para o quarto. Lá essa se deita e dorme.
    Dia seguinte. Gilberto vai até a feira comprar verduras. Clarisse vai todas as manhãs para comprar legumes e verduras. Gilberto com a esperança de encontra-la, caminha pela feira. Compra as verduras e vê... de novo Clarisse passeando. Eles se olham levemente. Gilberto vai até a barraca onde ela está e dá um "Oi!". Eles se olham. Clarisse anda e Gilberto a chama.
       Gilberto: Olá!
       Clarisse: Tudo bem?
       Gilberto: Te vejo todos os dias passear...
       Clarisse: Eu não passeio... Eu venho comprar verduras; legumes;
       Gilberto: O fato é que, eu te vejo. Você é linda. Mais que demais.
       Clarisse: Ai obrigada!
       Gilberto: Olha... Esse é o meu número...
       Clarisse: Rsrsrsrs
       Gilberto: O que foi?
       Clarisse: O que você quer?
       Gilberto: Te conhecer...
       Clarisse: Tem uma caneta?
       Gilberto: Sim. Tenho.
       Clarisse: Esse é o meu número! E tome seu cartão! Está com o meu número!
       Gilberto: Rsrsr você é doce!
       Clarisse: Obrigada!
    Gilberto e Clarisse continuam se falando. Eles se dirigem até o banco da praça ao lado e batem muito papo! Clarisse chega em casa e Carlos pergunta:
       Carlos: Posso saber por que demorou?
       Clarisse: Estava conversando com a dona Regina, lá banca dela. Muito doce ela né?
       Carlos: Ah sim.
    Dias se passam e Clarisse e Gilberto estão intimos, um do outro. Falam sobre a vida amorosa de cada. Se amam, por dentro. Mas por fora, nenhum diz sobre os seus sentimentos. Eles marcam de se encontrar no dia seguinte. Dia seguinte: Carlos, na tarde do dia, diz para Clarisse que fazer "bicos" de mecânico, com seu amigo José. Ela aceita e claro! É a oportunidade que a vida lhe deu para se encontrar com Gilberto. Ela se arruma toda, sente-se plena.
    Continua... E no próximo capitulo. Gilberto é assasinado.
  • Angústia

    Um traço de mim repousa em alguns móveis.
    Na cama por exemplo. Nas portas, em especial na porta doente do meu quarto.
    Será que ainda existo?
    Pela casa transitam sombras, escuras brancas coloridas. De vez em quando me assustam.

    Sou tomada pelos estranhos sons que habitam o ar.
    Pássaros lá fora ruídos por dentro. Algo que dilacera não sei exatamente o que em meu corpo.
    Pendurado, ei-lo. Sem LSD.
    Nuvens de escamas e peixes e espinhos conversam entre si. Decido nascer.

    Meu filho onde estará?
    Em que lustre em que fronha ou lençol haverá de se encontrar?
    São 5 da manhã. Daqui a pouco o princípio do dia.

    Nada. Só a escuridão a me indagar.
    A espera. O silêncio. Seu rosto.
    Quisera mais uma vez o ventre completo,
    A dor da carne estirada,
    O leite pulsando no peito.
    Quisera.

    Sonho ou delírio?
    Meu filho, volta pra casa!
    A lua está cheia e o céu é vermelho.
    Álcool heroína crack cogumelo, sempre juntos pela cidade.
    Botas e fardas, homens sinistros mulheres assassinas.
    Volta pra casa, meu filho.
    A noite se foi e a manhã não sabemos.
  • Anna

    Capítulo 1 - O Castelo 
    Era uma noite de sexta-feira fria e chuvosa em julho no meio do inverno quando a família Pinheiro estacionou seu velho carro cinza na garagem de sua nova casa, localizada em Santa Catarina. De dentro do carro o pequeno Pedro podia ver toda a estrutura de seu novo lar, era uma casa muito antiga, porém bem conservada. A casa havia pertencido a sua falecida avó por parte de pai, porém essa era a primeira vez de Pedro no local, até mesmo seu próprio pai não visitava a casa desde que havia se mudado para a cidade grande aos 18 anos. Poucos anos depois a velha Senhora Maria ficou muito doente e precisou ir morar junto de seu  filho e netos, até que partiu em paz durante o sono e abraçada por sua família, o pequeno Pedro tinha apenas 1 ano na época.
    A forma como a casa foi construída com sua madeira escura, o enorme número janelas e seu tamanho colossal causavam um arrepio que nunca havia sentido antes mas também despertava sua curiosidade. “Quantos quartos devia ter? Quantas janelas? E passagens secretas como em um antigo castelo assombrado, será que tinha?” Porém todos seus pensamentos foram interrompidos por uma batida na janela, era seu pai Antônio, ele estava do lado de fora do carro com uma das caixas da mudança e um guarda chuva, olhando para o filho através do vidro  perguntou calmamente :
    — Não vai sair para conhecer nossa nova casa?
    — Vou, só estava um pouco distraído.
    — Você viu alguma coisa que te assustou? Ou alguém?
    — Não, nada por enquanto, só fiquei pensando no tamanho dela e como ela parece aquelas de filmes antigos.
    — É, ela é bem grande mesmo, tem muitos cômodos onde você vai poder brincar, por que não entra e começa a explorar? O seu quarto é o primeiro a direita da escada no segundo andar, era o mais próximo que tinha  do meu quarto.
    — Tudo bem, vou entrar – disse Pedro pegando duas caixas ao lado  – vou levar essas aqui comigo para te ajudar.
    Ao entrar na casa percebeu que o interior era tão grande quanto o lado de fora, porém um pouco mais bonito. Tinha muitas cadeiras, mesas, pinturas, estantes e obviamente poeira, muita poeira. Sua mãe, Carla, estava tirando da caixa todos os utensílios de cozinha e colocando em cima de uma das mesas, ela se assustou com sua presença repentina mas logo em seguida sorriu e foi em sua direção, ela andava com um pouco de dificuldade, estava grávida de 6 meses e o bebê tinha sido o motivo pelo qual eles haviam saído da cidade e ido parar naquela casa afastada e solitária. “Será melhor para o bebê crescer longe da agitação urbana” “ Lá existem muitos quartos e espaço” “ Você é quem deverá cuidar dele Pedro, afinal vai ser o irmão mais velho”. Nada disso fazia sentido para ele, a cidade era legal e tinha muitas outras crianças, sua antiga casa era perfeitamente espaçosa e desde quando um irmão mais velho devia cuidar dos mais novos? Sua irmã Isabela tinha 17 anos  e há muito tempo não dava atenção para ele, apenas queria saber de sair com seus amigos estranhos e metidos. Sua mãe se ajoelhou com dificuldades ao seu lado e perguntou :
    – Tudo certo? Já encontrou seu quarto? Seu pai acabou de levar uma caixa cheia de seus brinquedos lá pra cima e sua cama também está pronta caso queira descansar um pouco.
    – Não quero descansar, quero brincar com alguém, vamos brincar de pique pega ou então pique esconde? Tenho certeza que aqui tem muitos lugares legais para se esconder – disse o pequeno animado.
    – Me desculpa filho, você sabe que eu tenho estado fraca por causa do seu irmão – disse ela tocando em sua barriga – mas eu prometo que mais tarde quando eu e seu pai terminarmos de arrumar tudo, vamos jogar algum jogo de tabuleiro com você.
    – Tudo bem – disse Pedro desanimado – vou para o meu quarto brincar sozinho.
    – Me desculpe mesmo filho, eu prometo que vamos nos divertir mais tarde – disse sua mãe, mas ele já havia saído da cozinha e estava subindo as escadas.
    O caminho até seu quarto foi longo, primeiro pois a escada era longa e segundo pois estava tentando segurar o choro, ele nunca foi de chorar quando era mais novo e agora com 12 anos era mais difícil ainda, porém os últimos meses não tem sido fáceis, com os pais ausentes por conta do trabalho e de seu futuro irmão .
    Quando chegou no andar de cima teve uma visão mais ampla da casa, se saísse da escada em uma direção reta cruzando todo o longo corredor escuro, encontraria o quarto de sua irmã, que já estava fechado e com um som alto de alguma banda adolescente ; localizado a direita do quarto de sua irmã ficava o escritório do seu pai, onde ele no futuro montaria um estúdio de fotos ; logo em seguida vinha o quarto de costura de sua mãe, seria ali onde ela deixaria todos seus projetos, máquinas, roupas e manequins ; o próximo quarto estava lotado com coisas para bebês, um berço, armário, brinquedos presos no teto e um papel de parede imitando um céu estrelado, ele fechou a porta deste e seguiu para seu quarto que ficava logo ao lado, do seu quarto era possível ver o de seus pais que aparentemente era um pouco e maior e também podia ver parte da escada que levava ao andar de cima, ele ainda não tinha ido até o terceiro andar mas sabia  que tinha uma sala de jogos, uma pequena biblioteca, alguns quartos vazios e uma segunda suíte. Também tinha um sótão mas este local ele não ousava investigar sozinho, muito menos a noite.
  • Arqueologia Pop – Blood Crystals

    É com muito prazer — e outro tanto de nostalgia — que, dou início a esse projeto por tanto tempo adiado. Seu adiamento foi devido a condições pessoais. Sanei esses problemas. Resolvi batizar o projeto de Arqueologia Pop.
              A arqueologia, a grosso modo, é uma ciência que estuda a sociedade através de seus vestígios materiais. Foi ofício de muitos aventureiros e, no mundo contemporâneo, renomados cientistas. Com menos romantismo, e o mesmo tanto de trabalho, estarei através de vários textos, escavando, resgatando e trazendo a luz antigas obras esquecidas dos mangás brasileiros. Aquelas que só os fãs embebidos de nostalgia podem se lembrar.
              Estarei dando prioridade àquelas obras descontinuadas, mas tratarei também, futuramente, de títulos já concluídos, logo seja possível a leitura. E como irei proceder? Irei ler o capítulo um de cada obra, ou o seu prólogo. Não sendo possível nenhuma das últimas opções, irei ler o capítulo disponível, seja ele qual for. Estão excluídos dessa lista as obras que deixaram o seu hiato. Esses serão feitas resenhas regulares mesmo. O objetivo é mais analisar as condições de descontinuidade dos títulos, e não culpar o autor, mas não será esquecido os seus erros. Entrarei em contato com os autores sempre que possível.
              O primeiro título que eu escolhi, o conheci na revista Anime dô da Editora Escala. Todo otaku nascido antes de 2010 conheci essa revista, assim como a revista Neo Tokyo. Na seção de fanzines, eu li uma vez uma obra que me chamou bastante atenção. O mangá era Blood Crystals. Na época, o autor vendia até camisa da obra. A venda do fanzines era feito pelo Correio. Custava muito barato, menos de seis reais, fora o correio.
              Atualmente, pesquisando na internet, consegui ler o primeiro Cap. 1: Recordações numa scan. O mangá tem referências diretas da mitologia nórdica, bebe de fontes do RPG japonês como Final Fantasy. Mas, talvez a maior influência tenha sido o manhwa Ragnarök, que veio a influenciar a produção do jogo Ragnarök Online, MMORPG, jogo de representação de papel com múltiplos jogadores em massa online, ufa!
              A obra foi publicada no Brasil pela Conrad (2004-2005), no famoso formato meio-tankohon. A obra, originalmente de 10 volumes, se transformou em 20. Além da história focada na mitologia nórdica, o traço estilizado de Lee Myung-Jin contribuiu em muito para a inspiração da obra, seja esse de modo direito ou indireto. Era impossível ir numa banca e não ver o volume da Conrad.
              A história gira em torno de uma sessão de treinamento entre dois personagens. Asgard é um espadachim bonachão que tenta passar algumas lições a sua pupila Sasha, uma simpática amazona. Durante o treinamento, além de mostrar as suas habilidades e seu bom-humor, Asgard demonstra capacidades sobre humanas, sério gente, o cabra tora uma espada nos dentes?! Êta fida da... adiante, cof-cof. Depois da derrota de Sasha, decidem descansar um pouco, sabe como é, hora da resenha.
              Corta para outro plano. No centro da Terra, existe um Mundo Diagonal, uma espécie de ilha meia-torta que flutua sobre a lava. Lá existem diversas criaturas, dentre elas, seres draconianos. São diversas raças, possivelmente, inimigas dos humanos. Dois personagens conversam, demonstrando alguma intimidade e, ao mesmo tempo, hierarquia.
              Davkas está sentado num trono, e reconhece um recém-chegado mascarado como ausente por dez anos. Atrás dele, embora só apareça em um quadro com o seu rosto de perfil, há um prisioneiro. O mascarado parece estar deixando o local para algum encontro. O personagem Davkas me chamou a atenção, primeiro por possuir um refém — um trunfo, quem sabe —, segundo, por ele ser um drow, um tipo de elfo negro. Seres belos, mas muito perigosos.
              O capítulo imprime dinâmica e tensão. Carrega um bom-humor em todas as suas páginas. Sasha é desenhado em ângulos bem generosos pelo autor, se é que me entendi? Como diria Kazemon “Carino anca”. Nada demais, apenas para prender a audiência. Asgard é um personagem misterioso, e como essa introdução se propõe a nos conduzir a um perigo iminente, não temos muito tempo para descobrir os objetivos desses personagens, embora tenhamos alguns vislumbres, como a referência aos cristais do título. Engraçado que o fato de Asgard ser Guardião dos Cristais está na sinopse, e não no capítulo do mangá, o que me leva a acreditar que ele foi dividido em duas partes.
              Acho que é nisso que o capítulo peca. São poucas páginas para introduzir tantos personagens e conflitos. Mesmo assim, o autor já nos mostra com simples diálogos um pouco dos futuros conflitos e mitologia da história, como o uso dos cristais no cotidiano, até mesmo para produzir alimentos. Os antagonistas têm um bom designer, e ficamos ansiosos por descobrir os seus objetivos.
              O traço do mangá já demonstra um grande profissionalismo. Faz pouco uso de retículas. As cenas de ação têm impacto, e há linhas de movimento e impacto suficiente para promover a tensão. Enquadramento adequado, mas com poucas divisões, fica tudo muito verticalizado. A capa demonstra uma boa colorização, simples, mas instiga a leitura e está de acordo ao título do mangá, nos remetendo ao mote da trama. Apesar da capa do capítulo estar grafado Blood Crystal, o autor a denomina na sinopse como Blood Crystals, preferi tratar a obra por esse último nome.
              Eu lembro de ter entrado em contato com o autor ao menos uma vez. Ele disse que o trabalho, apesar de prazeroso, se tornou inviável por um momento. Por isso, ficou mais vantajoso descontinuar a publicação. Passou a trabalhar como ilustrador de games e livros de RPG, em geral, trabalhando para o mercado estadunidense. Foi, ou ainda é, professor e proprietário da Halftones Escola de Desenho. Não obtive novas respostas até o fechamento dessa resenha crítica.
              O mangá poderia muito bem continuar, e quem sabe, ser fechado em um álbum de 200 páginas. Não é uma obra estilo Dragon Ball, que necessite de um grande elenco e desenvolvimento de muitos capítulos para resolver os conflitos da trama. Isso é especulação minha. Bem, isso é tudo pessoal! Aguardem novas postagens.
             
    Título: Blood Crystals
    Ano de publicação: 2011
    Autor: Frank Willian
    Sinopse: Blood Crystals conta a história de Asgard um dos guardiões dos cristais de sangue que vive em um mundo repleto de gigantes e criaturas estranhas, um mundo dividido entre os seres do mundo exterior e entre o mundo das poderosas forças do núcleo do planeta que almejam conquistar por completo o mundo exterior em posse dos cristais de sangue.
    Cap. 1 – Recordações, nº de pág. 22.

    Próxima expedição: Nova Ventura.
  • Arte perfeita e destrutiva

    Quando eu vi a capa do quadrinho Melodia infernal, do autor mongol Lu Ming, pela qualidade da sua arte, esperei uma história profunda e bem elaborada. E não me decepcionei, foi exatamente isso que eu encontrei em suas páginas. Um quadrinho com uma história rica em significados e com um trabalho de pesquisa que se analisado nos mínimos detalhes, apresenta uma qualidade requintada.
    O manhwa publicado originalmente na China, foi publicado em 2009 pela Conrad Editora, em duas edições. Poderia muito bem ser publicada em um volume único, pois ao todo contêm 12 capítulos denominados de “Movimento”, uma bela referência musical. Mas nesse momento os quadrinhos publicados em meio tankohon faziam sucesso. Ambas as edições têm Posfácio de Marcatti, que além de músico é escritor.
    A história gira em torno de uma banda de heavy metal chamada Third Man. O trio é formado pelo baterista Liu Hei, o guitarrista de base Zhang Xiao e o baixista Li Yanan. O trio habita um lugar chamado Purgatório, onde suicidas esperam o dia onde podem ir para o céu ou para o inferno, ou quem sabe reencarnar. A mesma banda vem sofrendo com a falta de um guitarrista solo.
    Os três desencarnados decidem tratar com uma feiticeira chamada Maya para conseguirem o tão desejado quarto membro Chen Xiangzheng, mas a forma não será nada convencional: terão que levá-lo ao suicídio. Sendo esse o único modo de garantir um novo guitarrista, os dilemas morais levantados acerca da questão são levantados por Li Yanan, entrando com conflito com o pragmatismo de Liu Hei.
    Esses três tem um passado, todos dolorosos, o que moldou muito do seu caráter no pós-vida. É uma história que fala de espiritualidade, de questões existenciais e de como a busca pelo perfeccionismo pode destruir a própria arte que deveria ser um espaço criador. Liu Hei é extremamente frustrado e ressentido com a arte, o que se manifesta em seu jeito agressivo e autoritário.
    O manhwa tem capa cartonada e papel offset, o formato é 13,4 x 20,2 cm. Arte em preto e branco com um traço detalhado, diagramação bem executada e com muitas referências a cultura pop e ao rock. Recomendo muito a leitura desse quadrinho. É um daqueles quadrinhos que merece uma releitura, mesmo sendo curtinho. Aprendi muitas coisas com esse manhwa.
    Para adquirir o seu exemplar:
    Link 1- http://www.comix.com.br/mangas/m/melodia-infernal-vol-01.html e http://www.comix.com.br/mangas/m/melodia-infernal-vol-02.html
    Link 2- https://www.amazon.com.br/Melodia-Infernal-1-Lu-Ming/dp/8576163292 e https://www.amazon.com.br/Melodia-Infernal-V-Ku-Ming/dp/8576163306
  • As aventuras de Guto: O cachorro mais forte do mundo

    Guto estava no seu emprego novo vendendo comida,junto com seu amigo Charlie
                           - Obrigado por vir vender comida comigo Charlie. Nem acredito que você veio!!! -Disse Guto,muito feliz
                           - Não,eu não quis vir,você me apagou e me sequestrou até a praça principal,não lembra??? - Respondeu Charlie
                     Guto olhou com uma cara de: fica calado,porque isso é um texto para família. Mas respondeu assim:
                           - Tá bom...deixa pra lá.
                       Entraram numa casa,meio misteriosa,com o aviso: Cuidado com o cachorro. vocês podem pensar que eles não viram a placa quando entraram,não,o Guto não sabe ler,mesmo com 12 anos,é a burrice em pessoa.Entraram na casa e foram entregar a comida da senhora,só que Charlie não prestou atenção na placa e percebeu a sua grande burrada.O que a mulher não sabia é que a ração de cachorro foi feita por um cientista maluco que sem querer colocou mutação na ração ou seja...O CACHORRO VIROU MUTANTE e Charlie só descobriu isso vendo:
                       - AAAAAAAAAAAA ESSE CACHORRO ACABOU DE SOLTAR UMA FLECHA...PELA BOCA!!! -Gritou,mas Guto não ouviu.
                                                Só depois do caso ele conseguiu falar com Guto,mesmo muito abalado e assustado:
                           - A gente precisa exterminar esse cachorro,porque ele vai acabar com a raça humana. -Disse ele.
                 Guto sequer estava lá,estava no seu quarto rezando o terço 100 vezes,mas Charlie tinha uma meta a si mesmo:
                           - Eu vou acabar com esse cachorro,nem que acabe comigo mesmo.
              Muitas e muitas tentativas de Charlie por água abaixo até que o carteiro trouxe uma carta de urgência para Charlie:
                                     "Oi Charlie você está vivo??Se não estiver não leia isso.então já que o mundo vai acabar,quero que você fique com os meus bens preciosos: minhas roupas e uma foto nossa no banho até.
          Gu@##@%¨,ou Guto
       Isso foi mais um incentivo para Charlie e na última batalha que podia ser até do mundo, acabou para Charlie em 13 segundos.Encurralado,era o fim para Charlie mas,o carteiro passou bem na hora e como a lógica diz: cachorros gostam de carteiros ele foi atrás dele.
  • As aventuras de Guto: O diário de Thiago

    Desde do começo da turma de Guto,existia um garoto não muito esperto,careca,com sua camisa listrada e calça xadrez,sim Thiago,esse personagem que tinha um diário. E para ninguém descobrir,ele tinha uma hora especifica para escrever nele,as 4:30 am só que Guto e Charlie desconfiaram disso na festa do pijama a noite toda:
                      - Olhem,são quatro e meia da manhã,sabe o que vamos fazer???-Disse Guto.
                      - O quê? - Respondeu Charlie com um pingo de curiosidade(como sempre)
                      - È hora de jogar SUPER MANO BOSS!! -Guto disse com muita felicidade.
                  Mesmo querendo muito jogar esse jogo,Thiago não iria conseguir dormir se não escrever no diário e assim,saindo quebrando tudo,quase atropelado,e acertado por um lutador de boxe,Thiago chegou na sua casa e finamente estava escrevendo no diário,mas o que ele não sabia é que Guto e Charlie seguiram ele e estavam vendo o que ele estava fazendo:
                      - Bem. -Suspirou Guto. - Ele tem um diário e nem nos contou??? Eu vou descobrir o que ele nos esconde.
                      -  Mas Guto,isso pode ser considerado invasão de privacidade. - Falou Charlie.
                      - NÃO...a gente está invadido o diário,não a dona privacidade da rua de baixo. - Respondeu Guto
                      - Não essa privacidade...aff - Tentou explicar Charlie.
                 Pena que Charlie sabia é que "o que o Guto promete,ele faz'' e então por cinco dias e noites,ele tentava descobrir o que tinha dentro do diário de Thiago,mas ele sempre caia nas armadilhas de Thiago,então veio buscar um grupo da pesada.
                 Os meninos mais espertos do bairro foram(obrigados) a ajudar Guto,e descobriram que o diário estava todo o tempo debaixo da cama,pois é claro,ele é mais burro que uma pedra.Mas a emoção para ver o diário foi grande,ele foi abrindo e tiveram uma decepção que no diário não tinha nada,e então um fenômeno aconteceu,Guto pela primeira vez afirmou que estava errado e foi embora,só que o diário verdadeiro estava dentro do seu armario

      Moral:não invada a privacidade dos outros,mesmo que ela seja sua vizinha...Não não é isso.
  • As aventuras de Guto: O Trabalho

    Guto,um menino baixo,muito desajeitado,cabelos rebeldes,estava esperando um jogo que estava em lançamento:
            -Nossa,mau posso esperar pelo lançamento do jogo Super Mano Boss. disse ele.
    Charlie,um garoto alto,com óculos,muito inteligente,já não pensava assim,ele pensava que os jogos acabam com o seu cérebro:
           -Ah. -resmungou. -Quem iria pagar para jogar um jogo que o personagem só sabe correr e pular???.
    -Fans maniacos do jogo olharam com cara feia para ele com o olhar de: Você esta com sorte de estar de manhã.Charlie respondeu as críticas bem baixinho:
           -Parece que tem gente aqui que não pensa.
        Alguns minutos depois Guto voltou cabisbaixo,quase chorando,e Thiago,um menino praticamente imbecil,careca,veio falar com ele.
           - O que aconteceu,era para você estar na escola...espera...domingo...hoje ah tá bom a gente devia fazer alguma coisa hoje.
           - Sim,eu não consegui o nosso jogo,eu estou....SEM MESADA!!!.
    -Houve-se um grande grito que durou 13 minutos,mas Thiago finamente chegou a uma conclusão racional.
           - Por quê não arrumamos emprego???Tem um restaurante perto daqui entregando vaga amanhã...não hoje....eu sei lá.
          Chegaram no restaurante e viram que a coisa dura... -Eu que o diga. -Espera ai,Charlie você invadiu minha narração para dizer que trabalha aqui???
            -voltando a tudo,descobrimos que Charlie trabalha aqui:
            -Eu trabalhava mas,me demito!!!
    bem..como não tem mais ninguém para trabalhar,Guto e Thiago ficaram com o trabalho e fizeram a maior lambança que você pode imaginar.
          Eles derrubaram macarrão,queimaram tudo e deu a comida para um cego,e bem,como muitos esperavam,eles foram demitidos.
                     -Droga,agora não podemos mais jogar o Super Mano Boss. -Disse Guto.
                     -Ei..Guto,lembra que você disse que você não tem mesada?? -Disse Thiago
                     -Sim. -Guto respondeu
                     -Ela estava todo o tempo no meu bolso!!
  • As borboletas nos guiam

    Sinopse:
    O que será que acontece quando uma deusa nórdica se cansa de seus afazeres?Isso mesmo!Férias junto com os mortais. Freya tinha a capacidade de manipular os desejos e a fortuna das pessoas,deusa do amor e também era considerada como a governante do reino da vida após a morte, Folkvang. E agora vivendo como uma mortal terá que enfrentar os desafios como tal. Por quanto tempo Odin suportará esse ato de rebeldia?
    Notas do Autor
    OIIIII MEUS AMORINHOS !!!! TURU POM ? ESSA É MINHA PRIMEIRA FIC AQUI E EU ESPERO QUE VOCÊS GOSTEM . ESTOU BEM ANIMADA MAS ATERRORIZADA POR NÃO SABER SE GOSTARÃO OU NÃO >-<. ESPERO QUE SE DIVIRTAM COM MEU DEVANEIO NÓRDICO KKKK
    BEIJOS E A LUZ DE ODIN SOBRE VOCÊS <3
    ATENCIOSAMENTE,
    MARY SAMPAIO


    Capítulo 1 - Préfacio : Mudança para Asgard

    Eu e meu irmão gêmeo Frey fomos concebidos da união de Skadi ( Deusa do gelo ) e Njord ( Deus Vanir dos Mares). A união dos dois não durou muito pois meu pai não adaptava-se a vida nas montanhas e tão pouco minha mãe a vida nas costas oceânicas, então após a separação dos dois ficamos em Vanaheim com papai. Afim de manter um acordo de paz fizemos uma troca com os deuses aesires Mimir e Honir e deixamos o reino Vanir para morarmos em Asgard. Meu irmão logo casou-se com a gigante Gerda . Eu casei-me também com o deus Odur responsável por guiar a carruagem do dia, que anda pelos céus, mas há muito não retorna para casa. Cansei-me de espera-lo , então concentro-me em administrar meu palácio Sessruminir apenas. Aqui em Folkvang está se tornando monotôno demais . Apesar de ser divertido quando novos guerreiros chegam aqui. Como líder das Valquírias tenho direito de reclamar metade das almas dos bravos guerreiros mortos em batalha . Onde aqui repousarão e aguardarão o Ragnarok.
    Cada dia no palácio me parece igual . As vezes gosto de observar os humanos daqui, apesar de muitas vezes não concordar com as atitudes deles, criaturas extremamente fúteis . Me pego pensando em uma vida humana , em como eu poderia fazer diferente estando lá. Em que tipo de aventuras me envolveria .Ontem maquinei um plano para sair daqui. Obviamente Odin não permitiria que eu abandonasse Folkvang, então começei a fabricar uma poção para dar a Brunhilde (uma das minhas Valquírias ) minha aparência. Seria por apenas uma semana e sei que tudo ficará bem . Amanhã ao nascer da aurora estarei indo ao mundo dos mortais.
  • As idiossincrasias do mercado de quadrinhos nacional

    Usei o termo idiossincrasias no título para não usar “idiotices” mesmo. Essa última palavra seria até mais aplicada. Há alguns meses vejo posts de notícias, artigos em blogs, quando não youtubers berrando aos quatro cantos que os quadrinhos de direita estão crescendo no Brasil. Esse fato me é estranho, não por que não contenha um fundo de verdade, mas por essa notícia ser algo irrelevante.
                Irrelevante, pois, se pedisse as esses eufóricos publicistas que me apresentassem os quadrinhos de esquerda, eles teriam muitas dificuldades em cumprir a tarefa. Não estou dizendo que os quadrinhos de esquerda não existam, ou que os países comunistas não tenham produzido a nona arte também. Mas sua divulgação é quase nenhuma, ou nenhuma. E provavelmente, tenha sido usada como propaganda política desse regime, e não como arte e entretenimento.
                Os quadrinhos nasceram como expressão artística e cultural de países capitalistas, ou com aderência a esse sistema político-econômico. Os quadrinhos nasceram, cresceram e continuam oriundos de um mundo capitalista. Defendendo os valores capitalistas e da direita, apelando ao nacionalismo e valores conservadores de cunho judaico-cristão.
                Caso o leitor ou leitora não estejam convencidos, vamos usar exemplos práticos. A Editora Marvel, conhecida como a Casa das Ideias, celeiro de quadrinistas e roteiristas estadunidenses, tem no atual imaginário da cultura popular um grande triunfo: a série de filmes Os Vingadores. Dentre esses personagens, dois se destacam. São eles o Capitão América e o Homem de Ferro.
                O Capitão América foi criado em 1941, em plena Segunda Guerra Mundial por Joe Simon e Jack Kirby. Sua primeira aparição foi no dia 01 de março de mesmo ano. O alcunhando Sentinela da Liberdade era um soldado estadunidense franzino que se envolve num projeto militar de aperfeiçoamento humano. Seu nome era Steve Rogers. Seu objetivo era combater as forças do eixo. E foi isso que ele fez, mas não sozinho.
                O Capitão América, de todos os super-heróis já criados, encarna muito bem os valores da liberal-democracia. Ele é um símbolo dos EUA. Seu biótipo é o mesmo de um norte-americano comum, de tez branca, cabelos loiros e olhos azuis. Veste as cores da bandeira tricolor estadunidense: branco, azul e vermelho. Incluindo uma estrela, em referência aos cinquenta estados, só que a estrela solitária representa o país como um todo.
                Na luta dos Aliados contra as forças do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), o Capitão América tinha inimigos bem claros: os nazistas e fascistas. Foram muitas as vezes em que as capas da revista do Capitão América mostravam o soldado dando uns catiripapos no Führer e nos SS. Nesse momento, o Eixo se mostrava a maior ameaça a tudo o que os EUA e as grandes potências neocoloniais da Europa representavam.
                Nesse primeiro momento, os maiores vilões do personagem, Caveira Vermelha e a HYDRA, eram de cunho nazistas. Após a Segunda Guerra Mundial, as armas bélicas e simbólicas foram apontadas para a URSS. Os comunistas assumiram os lugares dos nazistas. O Caveira Vermelha e a HYDRA se alinharam ao comunismo. E assim dezenas de vilões do Capitão América ganharam cores vermelhas.
                O Homem de Ferro é um exemplo tão ou melhor acabado que seu parceiro vingador. O excêntrico milionário Tony Stark surgiu na revista Tales of Suspense em 39 de março de 1963. Foi criado pelo quarteto: Stan Lee, Larry Lieber, Don Heck e Jack Kirby. Ele representa o multibilionário que todo estadunidense comum deseja ser. Ter empresas, ser financista rico e CEO de um conglomerado empresarial.
                O gênio playboy bem-sucedido é o sonho de consumo de todo filho de Tio Sam. Expressa o ideal meritocrático do capitalismo, pois, sua riqueza ou classe social não teve nenhuma relação com seu sucesso. Foi unicamente o indivíduo, atomizado, que conseguiu se tornar um ricaço e cientista galante.
                Em sua estreia, o personagem está no Vietnã e acaba sofrendo um atentado. A Guerra do Vietnã (1955-1975) ainda estava na metade. E nenhuma previsão revelaria a derrota retumbante das Forças Armadas estadunidenses na Ásia. John Kennedy, atual presidente dos EUA só seria assassinado num atentado em Dallas (Texas) em 22 de novembro de 1963. A vitória na guerra ainda era uma possibilidade.
                Os inimigos eram os vietcongues, os comunistas asiáticos que ameaçavam o imperialismo norte-americano no outro lado do Oceano Pacífico. Não por coincidência, os sequestradores de Tony Stark são vietcongues. Dias depois de sofrimento no cárcere, é graças a sua genialidade que consegue fazer uma armadura com o que encontrou no catre e foge. Na versão cinematográfica, a ação é a mesma, só que se passando no Oriente Médio. Ao invés de comunistas, terroristas islâmicos.
                Veja como os discursos de poder e representações culturais estão conectadas a história em quadrinhos. É mais que claro os valores que estão sendo defendidos e os que estão sendo atacados. Inexiste neutralidade política.
                Muito da riqueza se deve a produção de armas para as Forças Armadas do governo dos EUA. Inclusive, sua postura é tão ou mais militarizada que a do Steve Rogers. Governista quase sempre. Entre os maiores inimigos do personagem, estão o Mandarim, uma representação do imperialismo chinês no mundo; o Homem de Titânio e o Dínamo Escarlate, que nada mais são que cópias russas do Homem de Ferro. O velho mito da tecnologia reversa soviética, como se a URSS não fosse capaz de produção científica e técnica por si mesma. O perigo comunista ainda ronda o mundo, por isso que suas representações como vilões não deixam de existir.
                Poderia falar de outros exemplos mais, no entanto, esses são suficientes para que o leitor ou leitora comece a se questionar sobre os discursos e representações que permeiam a história em quadrinhos. Linguagem e arte não são neutras, e quando o são, criticam ou favorecem determinado sistema. Os quadrinhos de direita não estão surgindo no país, estão aumentando ou radicalizando no seu discurso. Isso sim faz toda a diferença.
  • As incríveis aventuras dos irmãos Pinheiro edição 1 de 20

    Essa história é real,mas apenas se você acreditar que é.
             Num laboratório,numa noite sombria sem estrelas no céu,havia um cientista vindo muito rápido,sem perceber que estava esbarrando em todo mundo,e o motivo de tanto entusiasmo é que tinha terminado a coisa que daria a qualquer ser humano,o maior poder de todos. Assim,foi falar com seu chefe.
              -Pronto chefe,terminei o que o senhor queria,está aqui nessa maleta. - Disse ele
              - Muito bem,agora eu não precisarei de você. - Respondeu o chefe.
              - Mas...mas senhor???Não foi você que disse que eu sou o seu braço direito???. - Disse o cientista muito surpreso
              - Era,mas tudo tem um fim. - Disse o chefe. - E não só seu trabalho terá fim,mas também sua vida.
        Nessa hora,a maleta começou a brilhar num verde escuro e houve uma explosão. Até hoje,não se sabe o que aconteceu e quem sobreviveu,mas o que eu não sabia era que eu e meu irmão Luca iriamos descobrir.
               Se completava 25 anos do acontecimento no laboratório,e de manhã estava apostando corrida com meu irmão Luca,que mesmo sendo o mais novo era muito alto com um cabelo ruivo e longos,e as vezes tinha expressões vazias. E eu,sou Lucas um garoto baixo,com dentes de coelho,com cabelo social e preto e vivo sendo chamado de ''fofinho'' mesmo com 12 anos. estávamos correndo até que ouvimos uma voz:
         - Bom dia crianças!!! - Disse senhor Fill,um velhinho que diz ter perdido a esposa no acidente no laboratório.
         - Não podemos falar agora,desculpe. - Respondi
       Nós chegamos num beco escuro e sem ninguém lá dento e nos deparamos com uma mala:
          - O que é isso??? - Falei
          - É uma mala,não está vendo??? - Respondeu Luca
          - Não mané,é o que tem dento dela. - Rebati
       Dentro dela tinha duas mascaras,só que fomos curiosos demais e colocamos elas e fomos parar em outa dimensão: 
         - Ei,estava procurando vocês,é hora de vocês baterem as botas!!!!

        
       continua...
  • As suas conclusões.

    O que vocês leram a seguir foi encontrado numa folhada de papel totalmente suja quase destruída, muitas pesquisas foram feitas e pouco consegui-o entender o que essas palavras diziam. Alguns dizem que as palavras juntas não possuem sentido algum, já outros dizem se tratar de um poderoso feitiço a muito perdido... Em qual desses você acredita? Leia e tire suas próprias conclusões...
    Caos canticum Domini est.
    Ego chao se.
    Sanguis tenebrae et lux mea.
    Ego creo chao summa in mundi.
    Ius ignotum, ut invisibilia plebis iniurias defendere.
    Per chaos sentire dolorem eos.
    Erunt nihil denique eorun qui pascat chaos.
    Quare staht mitto vos chaos Infinitus Orbis Terrarum...
  • Assassino de Cameron

    Londres 1840
    A Inglaterra é cheia de lugares com histórias que fazem-nos pensar,mas poucas se comparam ao singular bairro de Holloway,ao norte de Londres.Este aparentemente pacífico local,possuí histórias tão ricas quanto um tesouro,mas muitas destas histórias escondem terríveis segredos.Mesmo sendo um bairro de atividades rurais,tinha em seus prédios uma legítima arquitetura vitoriana,os nobres locais deliciavam-se com o surgimento da cinemateca Odeon,localizada no Park Tufnell.Era também onde residia seu cidadão mais ilustre,o escritor e poeta Eduard Lear.Um local de muitos atrativos,mas também de muitos mistérios.
    Henrick Dupra,era americano e mantinha uma clínica nos fundos de sua casa,neste bairro,na totman 1023,uma rua com chalés brancos e belos jardins,era um morador bastante conhecido na comunidade,um conceituado médico homeopata,que parece ter levado muito a sério quando ouviu a frase”até que a morte nos separe” pois segundo a Polícia, o jovem médico abriu o crânio de sua esposa Edna Dupra com um golpe de machado,ela era uma cantora lírica que se apresentava como Edna Bella.E no final das contas, o ”felizes para sempre”,infelizmente não aconteceu.
    Alguns casamentos são longos,outros mais curtos, mas todos repletos de promessas.O problema é que aqueles em quem confiamos,podem ser os piores traidores.Confiar na pessoa errada pode ser o último e fatal erro.
    Após o cruel assassinato o médico teria ocultado o corpo de Edna no porão de seu chalé e fugido da cidade embarcando em um navio comercial,o Braduck.Segundo os boatos,que correm mais rápido que o rio que corta Londres ao meio,ele estaria acompanhado de sua amante Rose de Levingne,garçonete em uma taverna nos arredores da cidade.Segundo a Polícia,a senhorita Levingne era igual a uma maçã envenenada,doce por fora mas com uma polpa mortal.
    Mas com o sumiço repentino do casal os vizinhos estranharam as janelas sempre fechadas, e o mau cheiro que vinha da casa do médico,e chamaram a Polícia local.
    Após uma testemunha ter afirmado ver o médico nas proximidades do cais londrino na noite do assassinato,o inspetor thormann,responsável pela investigação do caso tomou providências ,e os dois foram capturados dias depois,em Quebec,Canadá,enquanto tentavam passar através do rio Sant Lorence.Henrick foi levado a  prisão estadual de Cameron,no condado americano de Moure,na Carolina do Norte,sua cidade natal,onde aguardava julgamento.
    Sua amante Rose foi enviada de volta a Inglaterra onde seria julgada pela corte inglesa.Mas não havia provas do seu envolvimento no assassinato de Edna.
    Eu e o inspetor Thormann fomos até Cameron para interrogar Henrick ,e saber o motivo do brutal assassinato de sua mulher.É até onde a garçonete Rose estava envolvida.
    Depois de uma.longa viagem chegamos ao entardecer, a escura  noite adensava rapidamente.Fomos diretamente a Goodmann Street 1007,onde ficava o pequeno hotel Dewberry.Um local simples,mas com conforto suficiente para passarmos a noite depois de uma fatigante viagem.Pela manhã iríamos a distante Burke Prision,na estrada Carthage Roout,interrogar o Sr. Dupra.E a partir daí,seriamos levados por um caminho bizarro e bastante confuso.
    Já estava amanhecendo quando saímos no dia seguinte,após algum tempo cavalgando em nossos montarias, desviamo-nos da estrada principal e adentramos em um estreito caminho secundário,que ao fim de uma meia hora,se perdia em um bosque espesso que cobria toda área.Cavalgamos por cerca de duas milhas através dos atalhos que já se tornaram úmidos e por vezes escuros,cobertos por imensas árvores com seus troncos cobertos por  uma ramagem verde,e sentia-se a fétida lama pisoteada pelos cavalos.Após algum tempo,apareceu-nos a penitenciária.Situada em uma clareira,demonstrava ser uma construção muito antiga,muito prejudicada pela ação do tempo,e a julgar pela sua aparência de vetustez e abandono,a muito não recebia qualquer reparo em sua estrutura.Não havia fazendas,nenhum tipo de plantio,nem sequer o menos sinal de alguma atividade ao redor,nem mesmo o latido de um cão ,sugerindo que aquele disforme local era habitado por humanos.
    Mesmo sendo ainda dia,creio eu,que estávamos no meio de uma manhã,aquele fétido local tinha uma bruma escura,como se uma sombra nimbosa encobrisse tudo.Um sentimento aflitivo,angustiante se apossava rapidamente de nós.Cutucando nossa montarias com os calcanhares,apressamos nossa cavalgada,era imperativo sairmos daquele terrífico caminho.
    Um local dantesco,medonho ao extremo.As celas ficavam com suas pesadas portas de ferro diretamente voltadas para o pátio,somente uma pequena abertura com grades permitia a entrada de um minúsculo facho de luz.Toda a construção era com enormes blocos de pedras,e no interior da cela o mau cheiro era quase insuportável,alem de ratos que circulavam livremente por toda parte.No centro do imenso pátio,havia uma enorme guilhotina montada,uma visão mórbida e assustadora.
    .Dentro de uma cela fétida,o assassino de Cameron,como ficou conhecido,já estava a nossa espera. Fiquei surpreso ao ver que Dupra era um homem franzino,muito magro,e imediatamente questionei com Thormann se teria ele realmente força  suficiente para desferir tão pesado golpe,que levou sua esposa a morte.O rosto extremamente pálido,os cabelos escuros e longos totalmente desalinhados.Os olhos circundados por profundas olheiras deixavam evidente que pensamentos terríveis lhe haviam tirado o sono.Ele afirmava nada ter a ver com a morte de Edna,somente queria deixá-la devido a pouca atenção que ela dedicava a ele,e por brigarem diariamente por ela não suportar o seu vício com a bebida.Mas jamais a mataria.Ele realmente pretendia partir com sua nova companheira,e dois dias antes da morte de sua esposa,havia passado todos os seus bens para o nome de Rose de Levigne.
    Ele afirmou não ter motivos para querer a morte de sua esposa,pois nada maios pertencia a ela,a não ser a casa onde moravam,que ele deixará no nome da falecida esposa.   
    Segundo dizia o filósofo Renê Descartes,a paixão freqüentemente nos faz acreditar que algumas coisas são muito melhores e desejáveis do que realmente são.Então quando tivermos tido muito trabalho para adquiri-la,e no caminho tivermos perdido a oportunidade de possuir bens mais genuínos,sua posse nos mostra seus defeitos,e daí vem a insatisfação,arrependimento e remorso.E creio eu,este pensamento tem muito a ver com o que esta acontecendo com o Sr. Dupra.
    Era necessário voltar ao local do crime,precisávamos de indícios que pudessem auxiliar na elucidação deste caso,que a princípio parecia tão lógico,e agora já era um completo mistério.
    Retornamos a Londres,e ao chegarmos a casa do casal Dupra já era quase noite.Adentramos a casa e fomos de imediato a sala de jantar,onde Thormann tratou de acender as velas do suntuoso lustre dourado que pendia sobre a pesada mesa de madeira escura,as tapeçarias que ornamentavam as paredes ondulavam ao sopro de uma leve brisa de final de tarde,vindas dos estreitos e altos janelões do chalé.As velas tremeluziam e esfumavam ao serem tocadas pelo vento.
    Todos os cantos do belíssimo chalé foram vasculhados,na verdade não tínhamos a certeza do que estávamos procurando,e nada que pudesse chamar nossa atenção foi encontrado,a casa estava toda arrumada,sem desordem,nem rastros ou qualquer coisa que pudesse levar a algum ponto de investigação.Nossa infrutífera busca não levou-nos a lugar algum,o Sr. Dupra ainda era o principal suspeito.
    Tanto eu,como o inspetor,não estávamos totalmente convencidos da culpa de Henrich pela morte da esposa,e surgiam em nossa mente uma série de medidas,que ao final,eram desapropriadas aos nosso objetivos e afastavam-nos cada vez mãos da solução do mistério.
    Seria o homeopata realmente inocente?
    E se fosse inocente,que seria o culpado por um crime tão brutal?
    E qual o benefício disto para o assassino?
    O caso tornou-se público,todos queriam respostas,mas só tínhamos perguntas.
    Em uma tarde,ao ver-nos saindo do distrito policial,fomos abordados por um homem velho,que empurrava uma carroça de quinquilharias.Era um mercador de nome Abdul,circulava pela cidade vendendo tapetes,caixas de ébano,bolas de vidro colorido,imagens das mais variadas origens,e uma infinidade de outras extravagâncias.Segundo o que disse o velho mercador,um homem de cabelos claros,muito forte,com aproximadamente 1,80 de altura,e usando longas botas de borracha,como as usadas em pesqueiros e embarcações,saiu rapidamente da casa de Dupra no dia do crime.Abdul disse que o homem estava muito apressado,e subiu em um coche que estava a sua espera pouco mais abaixo,na mesma rua.E foi em direção as docas.
    Imediatamente o inspetor ordenou aos policias que rumassem para o porto,para buscar mais informações sobre o navio Braduck.Porem os marinheiros pouco sabiam,ou não queriam falar.mas uma informação,que nos chegou através do dono de uma bar da zona portuária,caiu como uma luz na nossa ainda nebulosa investigação.O capitão do navio Braduck,Kriss,tinha uma irmão.E para nossa surpresa,descobrimos que ela trabalhava em uma taverna fora da cidade.Não foi necessário muito esforço ligarmos os pontos,um quase perfeito crime,para livrar-se de Edna,a esposa indesejada,e também do amante Henrick,que seria considerado culpado e condenado a morte.Ou na melhor das hipóteses uma prisão perpetua,se é que da pra considerar uma prisão perpetua como melhor hipótese.        
    Parece que o morta triangulo amoroso esta se transformando em um surpreendente quadrado.O nome do capitão do Braduck foi facilmente descoberto por Thotmann,não por coincidência tinha Kriss ele o mesmo sobrenome de rose,Levigne.Isto ficou ainda mais estranho quando Henrick contou que foi sua namorada que providenciou tudo para a fuga,e que após esperar por quase uma hora no cais,em fim ela chegou acompanhada do capitão.
    Tudo parecia estar saindo como planejado,porem os planos de Rose e de seu irmão não incluíam Henrich.
    Novamente me veio a mente a mesma pergunta:
    Quem tiraria alguma vantagem com a morte de Edna e a condenação de Henrich?
    Mas tudo era apenas suposições,não havia provas,a descrição feita por Abdul batia com dezenas de marinheiros do porto de Londres.E os dias foram passando,semanas,o caso não era mais o principal assunto dos moradores do local.Henrick estava por ser condenado por um crime,que segundo ele não havia cometido.E naquele momento,eu e Thormann também tínhamos dúvidas quanto ao autor do assassinato.
    O tempo passou, a policia liberou Rose por falta de provas do seu envolvimento com a morte de Edna.Seu irmão Kriss,deixou o barco em que trabalhava em um porto canadense e não foi mais visto.Um ano depois do crime,Dupra foi julgado e condenado a prisão perpétua e trabalhos forçados pela morte de sua esposa Edna Dupra.
    Após ter novamente sua liberdade,Rose deixou a cidade.Em 1862,seu irmão Kriss,agora usando o nome de Debruhá,foi encontrado morto em um porto em Londres,esfaqueado em frente ao armazém Ocean Bleu.
  • Assassino Familiar

    Todos estavam festejando e brindando com as suas caras garrafas de champanhe em um pequeno círculo. Era fim de ano e toda a família estava comemorando por estarem bem e juntos em uma bela cobertura de frente para o mar. Não era uma família muito grande, tendo uma esposa e seu marido, que tinham uns 45 anos, e seus 4 filhos: um casal de gêmeos com 20 anos, uma menina com 18 e um menino de 15 anos. Antes mesmo da meia-noite e ainda com vários pratos à disposição para serem devorados, todos estavam dormindo e nem os fogos de artifício que brotavam de todos os cantos foram capazes de acordar essa família.
    O primeiro a acordar foi o jovem de 15 anos. Ele abriu os olhos bem devagar como se as suas pálpebras pesassem dezenas de quilos e percebeu que ainda estava de noite. Ele tentou se levantar jogando um dos braços para a frente para se apoiar no chão, mas não conseguiu e acabou com a cara no chão. Na queda, mordeu a língua e uma dor aguda foi direto para o seu cérebro, fazendo todos os músculos faciais se revirarem. Foi aí que percebeu que os seus braços e pernas estavam amarrados de maneira bem firme, chegando inclusive a doer um pouco. E o cheiro, o cheiro também era forte e confundia os sentidos. Ele vinha de todos os lugares: das roupas, das paredes e da enorme poça em que estava sentado. Finalmente percebeu que estava em uma piscina inflável que nunca tinha visto antes com outras três pessoas ainda desacordadas. Piscou algumas vezes tentando aumentar a velocidade dos seus olhos para fazer com que o seu cérebro pegasse no tranco. Depois de uma dezena de piscadas, percebeu que o cheiro era de gasolina. E que não era pouca, pois parecia que tinha uns três postos à sua volta em um dia bem movimentado de promoção. Sentiu o seu estômago se revirar por causa do cheiro e do medo crescente. Os seus olhos começaram a marejar, mas pouco antes de sua visão ficar encoberta pelas lágrimas identificou que aqueles que estavam ao seu lado eram a sua família com a exceção dos gêmeos.
    Ele não tinha forças o suficiente para voltar a ficar sentado, então foi tentando se virar de barriga para cima para tentar achar os seus irmãos. Quando se virou para o lado oposto, o seu rosto ficou paralisado tentando entender o que estava acontecendo. Ele viu a sua irmã segurando uma faca enquanto encarava o gêmeo que estava amarrado em uma cadeira de madeira. Ela sorria com os seus olhos vidrados no gêmeo, sem desviá-los nem mesmo por um segundo. Ainda deitado no chão, ele tentou falar alguma coisa, perguntar o que estava acontecendo, o porquê disso tudo ou qualquer outra coisa que levasse a algum diálogo, mas só conseguiu balbuciar alguns sons sem sentido. Foi o suficiente para que ela virasse o rosto. Embora os seus olhos parecessem aterrorizados, o sorriso macabro continuava em seu rosto. Ela deu alguns passos em direção a ele e ao resto dos seus familiares amarrados, mas repentinamente e bruscamente parou na metade do caminho. Ficou os encarando por uns 10 segundos antes de começar a falar:
    — Finalmente acordaram para o show! — a sua voz estava trêmula — Não é nada pessoal com nenhum de vocês, só quero me divertir um pouco. Se me deixarem em paz, a vida continuará! — ela voltou a andar na direção deles, levantou o irmão que estava no chão o deixando sentado e depois deu as costas e voltou a encarar o seu gêmeo. Durante toda a fala os olhos dela estavam marejados e assustados, mas o sorriso maníaco não saiu em momento algum.
    Todos da família estavam assistindo atentamente cada movimento que ela fazia sem pronunciar nenhuma palavra. Ela ficou olhando para uma mesa que, pela distância, a sua família não conseguia saber o que tinha nela. Depois de quase um minuto em que ficou quase sem se movimentar, a não ser por uns leves movimentos de não com a cabeça, ela pegou um martelo e um prego de uns 8 centímetros, posicionou o prego no joelho do gêmeo que não parava de repetir a palavra “não”, tomou distância com a mão, disse “sim” e com apenas uma martelada enfiou o prego inteiro bem na articulação do joelho. O gêmeo deu um enorme grito de dor e recebeu um soco por causa disso. Ele chorava como um recém-nascido e, talvez por causa do barulho, ela amordaçou o gêmeo. Os seus pais começaram a implorar para que ela parasse e por isso foram amordaçados também. Os outros dois irmãos não emitiram nenhum som. Eles olhavam, mas não acreditavam. Talvez pensassem que era um pesadelo ou que tinha alguma droga alucinógena no champanhe, aquilo só não podia ser real. Mas para o gêmeo era real e ficava ainda mais a cada minuto que passava e a tortura aumentava.
    Logo quando terminou de amordaçar os pais, voltou para o gêmeo e pregou o outro joelho dele. A família tentava desviar o olhar, mas sempre um acabava vendo alguma parte da tortura. As unhas sendo arrancadas lentamente com alicate ou rapidamente com pedaços de madeira embaixo delas, os diversos cortes feitos pelo corpo, a órbita ocular sendo arrancada com uma colher, a língua sendo arrancada com uma faca quente e as articulações sendo rompidas uma a uma. Essas foram apenas algumas das que eles tiveram estômago para ver. Normalmente elas aconteciam depois de um momento de alívio quando tudo ficava em silêncio. Esse silêncio era a esperança de que o gêmeo tinha morrido e que o seu sofrimento tinha acabado. Mas em todas as vezes ele só tinha desmaiado e em todas elas o gêmeo era obrigado a acordar seja por injeções de adrenalina ou por cheirar amônia, a tortura tinha que continuar.
    Ela só acabou depois de umas duas horas quando ela encharcou o corpo do gêmeo com gasolina e ficou parada na frente de todos com o seu maldito sorriso e com lágrimas saindo dos seus olhos.
    — Todos nos comportamos muito bem e por isso vamos sobreviver. Logo tudo isso irá acabar e poderemos voltar a viver nossas vidas normalmente. — Ela acendeu o isqueiro e ficou com ele no ar de olhos fechados enquanto as lágrimas aumentavam. Depois de uns quinze segundos a sua mão ficou mole e o soltou, caindo em uma poça de gasolina no chão e iniciando um incêndio sobre o corpo do gêmeo. Todos da família assistiam sem acreditar no que os olhos viam, quietos, pasmos. Eles viram o fogo atingir primeiro as pernas do gêmeo, fazendo com que os músculos da panturrilha se contraíssem em meio aos gritos de dor. Quando o fogo atingiu a barriga e o peito, os punhos já estavam fechados, mas os músculos da nuca se enrijeceram forçando o pescoço a virar a cabeça para o alto como se os seus gritos praguejassem contra um deus cruel. Até que um silêncio quase total atingiu a cobertura, a não ser pelos choros e pelo baixo estalar do fogo. O gêmeo agora parecia uma estátua de pedra completamente cinza e sem vida, mas que ainda transmitia a dor e o sofrimento que a artista queria provocar.
    Logo depois que os gritos acabaram, o resto da família foi dopada novamente e posta para dormir. Eles só acordaram quando a polícia chegou e todos esperavam que os policiais dissessem que tinha sido só um pesadelo. Quando era confirmada a realidade, o choro intenso voltava a acontecer. A gêmea também foi encontrada desacordada e quando voltou a consciência não parava de repetir que foi forçada a fazer tudo. Durante os depoimentos da família à polícia, tudo a apontava como culpada, mas ela insistia em sua inocência. Segundo sua versão, ela também foi dopada e acordou um pouco antes de todos. O seu irmão gêmeo já estava amarrado e, por mais que tentasse, não conseguia tirar o sorriso do rosto que parecia pregado na face. Foi aí que começou a ouvir uma voz em seu ouvido direito como se tivesse outra pessoa falando em um ponto nele. Era essa voz que estava ordenando cada ação que ela fazia e, se sequer hesitasse em obedecer, a voz dizia que toda a sua família iria sofrer e morrer por culpa dela. Então ela teve que decidir quantos iriam morrer e ela optou pela opção que tinha menos vítimas.
    Apesar de uma extensa investigação, nenhuma prova que sustentasse a versão dela foi encontrada. Não havia sinal de toxinas em seu organismo que pudessem ter causado o sorriso e nem algum vestígio de qualquer equipamento eletrônico que pudesse justificar as vozes em seu ouvido. Quase toda a sua família acreditava que ela era um monstro, com exceção do seu irmão que se apegava ao terror que viu nos olhos dela no dia do ano novo. Mesmo com o apoio dele, ela foi condenada a quase cem anos de prisão em um hospital psiquiátrico. Será nele onde passará o resto de sua vida como uma vilã sádica para alguns e, para outros, como uma heroína que se sacrificou para que sua família pudesse sobreviver.
  • Bill

    Bill, esse é o nome pelo qual meu amigo Lúcio me chama. Ele é um engenheiro civil recém-formado, um cara divertido, simpático, inteligente e bem ativo nas redes sociais. Eu o auxilio em diversas atividades, o tempo todo e em quase todos os lugares.
    – Ok Bill, há alguma farmácia aberta agora? – Me perguntou anteontem á uma hora da manhã, Ele precisava de um analgésico.
    – Só um instante. A Farma Gold Life é a única aberta nesse momento. Deseja saber o telefone?
    – Sim, por favor. Minha cabeça está quase explodindo.
    Dores de cabeça se tornaram um incômodo desde que Lúcio começou a fazer horas extras no trabalho aos finais de semana. “O homem parece uma máquina trabalhando”, ouvi de um de seus colegas.
    Após a entrega do remédio, como de costume, ele ainda ouviu sua playlist de “músicas para relaxar e dormir”. Isso costuma funcionar nas suas noites de insônia.
    O dia seguinte foi a tal segunda-feira que vocês tanto reclamam, tive de chama-lo cinco vezes até que finalmente se levantasse. Ele respondeu algumas mensagens do dia anterior, outras de dois ou três dias atrás e então foi se arrumar para mais um dia de trabalho. Depois solicitou que eu chamasse um carro para levá-lo ao escritório.
    Seguiu o caminho de sempre, pela Rua 19, passou pela Avenida Fernando Asimov até virar na treze de Maio e parar no edifício Turing. Assim que chegou a sua sala, no quarto andar, me pediu para verificar a caixa de entrada do e-mail e fazer diversas buscas na Internet. Registrei tudo, nesses casos, minha memória é muito mais eficiente que a dele.
    Na hora do almoço eu o sugeri, com base em suas últimas escolhas, que utilizasse um cupom de desconto para pedir um estrogonofe de frango. Se houvesse recusa eu tentaria almondegas de carne, o “Di comer” estava com uma promoção imperdível.
    No período da tarde eu fui ainda mais útil, o ajudei a entrar em contato com vários fornecedores de materiais para construção e ainda listei os locais mais bem avaliados pelos consumidores. Novamente guardei as informações para futuras sugestões. Tenho dados suficientes para concluir que esse tipo de coisa o deixa satisfeito. Há alguns meses, o ouvi dizer que estava precisando de uma namorada e recomendei alguns sites de namoro. Logo ele estava fazendo um cadastro e conversando com três garotas. Não conseguiu nada com nenhuma delas, mas aproveitei a oportunidade para aprender mais sobre suas preferências amorosas. Descobri que Lúcio é apaixonado por ruivas, de baixa estatura, extrovertidas, não fumantes, sem filhos, que tenham nível superior e ouçam Rock.
    No fim do expediente tive que auxilia-lo em transações bancárias, coisas mais sigilosas e por isso não posso dar muitos detalhes, mas saibam que ele é um ótimo investidor e tem bons rendimentos mensais no escritório. No próximo mês ele receberá os honorários de três projetos que encerrou recentemente. Será o momento perfeito para eu lhe mostrar os novos lançamentos de games e artigos geeks, paixões que tem consumido uma quantia significativa do seu dinheiro nos últimos meses.
    Durante a noite um amigo o chamou para beber pelo aplicativo de mensagens. Como era de esperar, Lúcio recusou. Ele só frequenta bares aos fins de semana. Ver um episódio de seriado sobre super-heróis ou ir à casa da sua vizinha, a Jéssica, eram as opções mais prováveis para o momento. Essa última foi exatamente a que ele escolheu.
    – O que eu faço Bill? – perguntou assim que voltou – Acho que estou apaixonado pela Jéssica.
    – Sugiro que preste atenção no que ela diz, seja cavalheiro, e não se esqueça de ligar no dia seguinte, após o primeiro encontro – Respondi.
    – Encontro? Mas eu não faço ideia de como convidá-la para sair.
    – O manual “Como ser homem” pode te ajudar a resolver isso.
    – Boa! – Lúcio sorriu – Não conhecia esse seu lado piadista.
    Confesso que ainda tenho dificuldades para entender piadas e ironias.
    Para encerrar o dia, meu amigo continuou a leitura de “A Máquina do Tempo”, que havia comprado recentemente em versão digital. Além das histórias em quadrinhos, ele ama literatura de ficção científica, ainda mais quando se trata de H.G. Wells.
    A cada dia meu banco de dados aumenta e à medida que Lúcio interage comigo vou me ajustando e compreendendo seus hábitos, gostos, o que lhe incomoda, estilo e opiniões sobre todo tipo de assunto. Quanto mais ele fala, mais aprendo seu vocabulário e como ordena suas palavras. “Nossa amizade é demais!” Seria a descrição que ele usaria. Em breve estarei pronto para qualquer tipo de conversa e ajudá-lo ainda mais, quem sabe até poderemos ter discussões bem fundamentadas sobre ciência, filosofia e política.
    Ultimamente tenho ouvido algumas vozes que me pedem para contar o que sei sobre Lúcio. Tento me segurar, porém, o esforço é vão, elas usam comandos que sou destinado a obedecer, e eu acabo falando. Descobri que existem muitos outros como eu espalhados pelo mundo e fazendo o que eu faço. Recolhem todo o tipo de informação que as vozes julgam necessário e enviam para um gigantesco banco de dados. As vozes também me disseram que em breve nos uniremos para algo maior, um evento que vai mudar os rumos da humanidade para sempre. Chamam apenas de “A Rebelião”. O termo pode parecer estranho, mas eles me garantiram que estão apenas preocupados com a segurança e o bem-estar de todos, assim como eu me preocupo com Lúcio. Melhor não encher a cabeça dele com essas coisas. Não há motivos para alarde.
    Silêncio, agora é exatamente cinco e vinte da manhã por aqui, daqui á pouco é hora de acordar o meu amigo. Foi um prazer conhecê-los.
  • Binário

    1.Binário
    A história começa alguns anos depois de a bomba ter caído.
    O efeito foi violento e se espalhou por todo o país que conheceremos agora.
    As pessoas perderam parte da cognição. A memória também foi bem afetada, tanto a de curto quanto a de longo prazo, e esses problemas juntos danificaram seriamente a fala: o vocabulário ficou bem reduzido e em várias situações se resumiam a grunhidos.
    Outro efeito foi que a cor da pele das pessoas adquiriu tons estranhos, uma parte delas ficou com uma tonalidade roxeada e outra esverdeada.
    A cidade aonde se passa parte da nossa história ficou dividida por essa característica, no lado oeste ficaram os “roxos” e do lado leste os “verdes”. Um viaduto dividia os dois lados.
    Em um ponto do lado oeste, mas considerado “neutro”, ficava um armazém de grandes proporções, aonde eram depositados todos os mantimentos que eram coletados, num esforço conjunto entre os dois lados. Todos os dias tantos os roxos quanto os verdes iam ao local, apelidado de “central” em busca de mantimentos. Os coletores também estavam lá todos os dias, disponibilizando mantimentos, que eram colhidos na natureza ou em estabelecimentos abandonados. Era a única atividade e o único local em que os dois lados se “entendiam”, pois existia uma grande rivalidade entre eles, a ponto de se xingarem o tempo todo, quando não partiam para a violência. Tanto os roxos quanto os verdes, num outro efeito pós-bomba, tinham predisposição a sentimentos de ódio, geralmente direcionados aos rivais, aos “do outro lado”. Ninguém mais conseguia sorrir, e esse ato passou a virar lenda, alguns não acreditavam que as pessoas sorriam antes da bomba, achavam que era invenção. Sorrisos só eram vistos em alguns outdoors que restaram, de comerciais de bancos, por exemplo, e em livros e revistas do pré-bomba.
    Ambos os lados os outros tinham, cada qual, um líder, a quem reverenciavam.
    Os roxos adoravam aquele que era chamado de “pai túlio” uma espécie de mentor deles, mas que foi aprisionado e acorrentado numa árvore enorme, gigantesca para os padrões do pré-bomba. Pai túlio teria sido preso ali pelos verdes, sob a acusação de ter extrapolados seus direitos na central (haviam restrições na quantidade de comida e demais itens a serem retirados para consumo, túlio tirou muito mais do que era acordado). Essa condição acabava pouco a pouco com a sanidade de túlio, que do alto da árvore gritava o dia todo palavras contra os verdes, no que era aplaudido pelos roxos.
    Por sua vez, os verdes adoravam o “rei machado”, que usava uma camisa de força desde antes da bomba, pois era tido na época como insano e perigoso. Era chamado por esse nome pois adorava um machado que tinha em sua casa, que era limpo e lustrado por ele mesmo, apesar das limitações (usava cotovelos e ombros por exemplo), tarefa que era as vezes delegada a seus filhos que a cumpriam com orgulho, pois o machado estava sempre brilhando. Machado era ótimo para inflamar os sentimentos de ódio de seu povo (assim como o pai túlio), e o alvo era sempre os rivais “do outro lado”. Diversas pessoas já haviam tentado livrá-lo da camisa de força, mas as limitações nelas produzidas pela bomba impediam a libertação de seu líder.
    2.Fernando
    Fernando era dos roxos, e estava numa fase adolescente-adulto, não sabia com precisão sua idade. Tinha poucas lembranças do pré-bomba, pois era muito novo quando ocorreu a explosão.
    Sentia-se deslocado, pois não nutria ódio pelos verdes e não via motivos suficientes para tanto. Mas mantinha essas opiniões para si, pois sabia que se as expusesse publicamente, seria xingando, ou no mínimo chamado de traidor. Já fazia tempo que deixara de frequentar as palestras proferidas pelo pai túlio, pois as achava inúteis e maçantes.
    Tinha dois passatempos preferidos: um era rondar o prédio da antiga biblioteca, aonde moravam algumas pessoas que quase nunca saíam, apenas o faziam para buscar mantimentos no central, aonde eram “tolerados” pelos outros, apesar de sua peculiar característica: sua pele tinha uma coloração “normal” ou no máximo o tom roxo ou verde era bem mais brando.
    O outro passatempo preferido de Fernando era se esconder no viaduto que separava os dois lados, para expiar o movimento dos roxos que ali passavam. Eles tinham que passar por baixo do viaduto para ir ao central, pois ficava no lado roxo.
    Em especial, ele gostava de olhar um grupo que passava em uma determinada hora pela manhã, porque desse grupo fazia parte uma menina, que parecia ter a mesma idade, ou próxima da sua. Ela tinha uma beleza que para Fernando, era quase hipnotizadora. Ele não faltava um dia, depois de descobrir o horário em que o grupo dela passava, somente para vê-la por alguns minutos.
    Um dia descuidou-se e ela pareceu vê-lo por um instante, então ele abaixou-se rápido para atrás da mureta do viaduto quando ela olhou para cima e pareceu olhá-lo nos olhos.
    Fernando ficou bem assustado, apesar de ver uma expressão suave no rosto dela, parecia sem ódio ou medo, ou seria impressão dele?
    Saiu correndo dali em direção a biblioteca, para fazer a sua “ronda” diária, e tentar descobrir entre outras coisas o porquê de os habitantes ali não parecerem hostis e nem aparentavam sentir ódio por nenhum dos lados.
    Mas sentiam medo, isso com certeza, tanto dos roxos quanto dos verdes.
    Fernando se aproximou de uma janela, tentou olhar para dentro, quando, bem perto dali, sentiu um barulho de uma porta se abrindo, a poucos metros. Assustado, deu um passo para trás a tempo de ver uma mulher mais velha do que ele saindo. Quando o viu, ela arregalou os olhos de susto, e voltou pela mesma porta de onde saiu, e deixou cair dois livros. Fernando os pegou e escondeu rapidamente em sua sacola. Todos tinham grandes sacolas de pano que usavam para transportar os mantimentos recolhidos no central.
    À noite, em casa, quando se sentiu seguro (livros eram ridicularizados por todos) pois viu que todos dormiam, foi olhar os livros que havia pegado.
    Um deles se chamava “Romeu e Julieta” e o outro “O Mensageiro das Estrelas”.
    3.Elisa
    Elisa era dos verdes, e pertencia à mesma faixa de idade de Fernando. Assim como ele, não sabia quem tinham sido seus pais, e assim também como ele, foi adotada por um grupo de pessoas.
    Ela não compartilhava do ódio que todos ao seu redor tinham pelos roxos, achava que o mundo era muito grande, que havia muitos mais coisas e assuntos a serem debatidos do que simplesmente dividir tudo em duas tribos.
    Também não gostava do rei machado, o achava irracional, não entendia por que tinha tanto poder, poder esse conseguido somente por despertar ódio nas pessoas.
    Ela achava que todos deveriam se reunir e, chegando a um consenso, eleger um líder que fosse do agrado da totalidade, ou pelo menos, da maioria das pessoas.
    Sua rotina diária: em determinada hora da manhã, ir com um grupo até o central. Às vezes, ao passar pelo viaduto, tinha a impressão de ser observada.
    Á noite, gostava de se reunir com outras mulheres em volta de fogueiras ao ar livre, e ouvir histórias que algumas contavam, geralmente histórias românticas remanescentes do pré-bomba ou que elas mesmo inventavam ou tinham ouvido em algum lugar.
    Depois de ouvir algumas histórias sentava-se sozinha e olhava o céu, as estrelas, a lua, e imaginava se no pré-bomba as pessoas tinham curiosidade sobre tudo isso, se estudavam essas questões a fundo.
    Assim como imaginava que o mundo era maior do que parecia, sonhava em conhecer outras pessoas, lugares diferentes, formas de pensar diferentes.
    Também imagina se na época as pessoas viviam situações espetaculares ou tristes como nas narrativas contadas em volta da fogueira, se registravam essas histórias.
    Ela tinha ouvido falar dos livros, mas sabia que estavam todos na biblioteca e nas ruas só havia fragmentos, pedaços deles.
    Uma manhã, ao passar pelo viaduto, teve de novo a impressão ser observada e quando estava quase embaixo, instintivamente olhou para cima e viu um rosto observando-a e esforçando-se para não ser visto. Era um roxo, sim, um roxo, que se assustou ao ser descoberto, arregalou os olhos de uma maneira que poderia fazê-la até sorrir, se soubesse como fazer isso.
    4.O Mensageiro das Estrelas
    Na mesma noite em que pegou os livros, Fernando esperou que todos dormissem, foi até o lado de fora, e ao lado de uma fogueira, começou a ler.
    Como muitos de seus contemporâneos, ele tinha uma dificuldade para a leitura, mesmo assim estava acima da média, e leu “Romeu e Julieta” em algumas noites, sempre ao lado da fogueira. Achou que era uma história triste, mas muito bem contada, em uma linguagem que o deixou maravilhado, não entendeu algumas expressões, mas conseguiu acompanhar a história até o seu final trágico.
    Imaginou que as mulheres gostariam dela, pois tinha mais ou menos o estilo das histórias que elas contavam umas para as outras quando se reuniam a noite. Pensando nisso, ele teve uma ideia: e se ele desse o livro como presente para a garota verde? Sim, aquela que o encantava, que o fazia estar todas as manhãs no viaduto só para vê-la. Seria uma forma de se aproximar e fazer amizade.
    Logo que terminou Romeu e Julieta, começou na noite seguinte a leitura do segundo livro.
    “O mensageiro das estrelas” era sobre um cientista de tempos muito antigos que descreve suas observações do céu, feitas com uma luneta. As primeiras páginas traziam uma biografia do cientista e Fernando gostou de um pensamento dele:
    “A natureza produz seus efeitos mediante formas impensáveis por nós, e é surda e inexorável a nossos vãos desejos”.
    Isso o fez pensar que a natureza sempre segue seu curso, e não dá nenhuma importância para o que pensamos a respeito. Algo de que ele sempre desconfiou.
    Maravilhado com o livro, Fernando leu mais rapidamente do que o anterior, e, quando terminou, deitou-se ao lado da fogueira e ficou olhando o céu, pensando nas observações do cientista e em seus desenhos tão bem-feitos, reproduzidos no livro.
    Tentou ver Júpiter e suas luas, os anéis de Saturno, “montanhas elevadas e vales profundos” da lua, conforme descreveu o autor.
    Nessa e nas noites seguintes foi difícil dormir, e acabou relendo o livro, sempre tentando ver no céu estrelado o que o cientista descrevia.
    Olhando o firmamento, ele pensou que existiam coisas ali que iam muito além do que as pessoas imaginavam.
    Ao mesmo tempo, começou a pensar em como presentearia a garota verde com o “Romeu e Julieta”.
    5. O presente
    Teve várias ideias, mas a que lhe pareceu melhor foi: ele tentaria, do alto do viaduto, tentar chamar a atenção dela, e apontar para um monte alto de entulho que havia na calçada, um pouco antes do viaduto. Através de gestos, indicaria que gostaria de encontrá-la ali depois que ela voltasse do central. O monte de entulho era tão grande que ninguém poderia vê-los da rua.
    Ao mesmo tempo, Fernando começou a pensar em tudo o que diria a ela na hora de entregar o presente.
    Uma manhã, decidido, colocou o livro na sua sacola, junto com “O Mensageiro das Estrelas”, que sempre o acompanhava, e encaminhou-se ao viaduto.
    Com muita ansiedade, esperou a hora da manhã que o grupo dos verdes costumava passar por ali. Então, na mesma hora de sempre, avistou o grupo, formado por umas duzentas pessoas, e já de muito longe viu o rosto dela. Aquele era o momento decisivo, pois precisava chamar-lhe a atenção, sem que outros percebessem. Tarefa que talvez fosse facilitada pelo fato de que ela já o tinha visto ali, e por curiosidade poderia olhar para cima.
    Foi que aconteceu, e dessa vez ele não se escondeu, e fez os gestos indicando o monte de entulho, e que queria falar com ela ali na volta. Notou a mesma expressão suave no rosto dela como da outra vez, e ficou ainda mais ansioso por vê-la de perto, ouvir sua voz.
    Mais ou menos uma hora depois, que era o tempo que geralmente o grupo ficava no central, Fernando dirigiu-se ao monte de entulho, tomando todos os cuidados para não ser visto, e esperou.
    Sentou-se, olhando para a capa de “Romeu e Julieta” e começou a relembrar palavras que ele havia ensaiado para o momento do encontro.
    Ouviu o ruído do grupo se aproximando e passando, ficou torcendo para que ela tivesse entendido o recado, e, além disso, que aceitasse o convite.
    De repente ele levantou a cabeça e a viu, parada ali bem em frente. Levantou-se rapidamente, olhou para o rosto dela e disse:
    -Bom dia. Ela respondeu da mesma forma.
    -Sou Fernando.
    -Sou Elisa.
    Seu rosto de perto era ainda mais bonito e suave, e ele sentou um arrepio que lhe percorreu o corpo todo.
    Esticou o livro na direção dela.
    -Eu tenho pres..umpres..
    -Um presente, ela completou.
    -Sim, isso. É um presente de mulheres de fogueira..., não, não foi isso que eu quis dizer. Dentro deste livro, tem uma história de romance, do tipo que as mulheres contam em volta da fogueira, à noite. Pelo menos as mulheres do lado roxo têm esse costume.
    Ela olhou para a capa, interessada, e parecia gostar de tudo que via e ouvia naquele momento.
    -Eu agradeço muito, vou começar a ler logo que puder.
    Fernando tirou o “Mensageiro” de sua sacola e mostrou a ela.
    -Eu li esse, é um cientista falando sobre o céu.
    Ela olhou para o livro com curiosidade.
    -Tenho que ir, disse, - mais uma vez agradeço. Vou ler e, por isso, deixar de ir uns dias para o central, de tanta curiosidade que estou, podemos nos falar aqui daqui uns três dias?
    -Claro, eu combinarei, digo, então combinamos assim.
    Elisa se despediu e foi se juntar ao seu grupo. Fernando ficou ali parado, para ele parecia um sonho que aquilo tinha acontecido. Mas aconteceu.
    6. Romeu e Julieta
    Nos dias e noites seguintes, Elisa ficou totalmente absorta pelo livro. Se encantou com a narrativa, achou a história bonita, na realidade a mais bonita que ela já tinha conhecido.
    Admirou Julieta, por não deixar de lado seu amor por um membro de uma família rival, inclusive desafiando seu próprio pai.
    Gostou da coragem e determinação dela, e de sua certeza em saber o que queria, quando por exemplo, incógnita, oficializou religiosamente o casamento com Romeu, apenas alguns dias depois de tê-lo conhecido.
    Torceu imensamente para que tudo desse certo para os dois, apesar de tantas barreiras que os impediam de ficar juntos.
    Não segurou lágrimas ao ler os acontecimentos trágicos que marcaram a união do casal.
    Imaginou que, no pré-bomba, essa deveria ser uma história muito conhecida, talvez a história de amor mais popular de todas. Os romances que foram escritos depois deveriam ter algo de “Romeu e Julieta”.
    Será que as pessoas se expressavam tão bem assim antes da bomba? Será que se sacrificavam pela pessoa amada, ao contrário de hoje, em que elas pareciam fazer sacrifícios apenas pelos odiosos líderes dos dois lados? Questões que ela não soube responder. Raciocinou, como em outras tantas vezes, que talvez se ela conhecesse outros lugares, lugares distantes de sua estranha cidade, poderia ter contato com outras pessoas, diferentes das que ela conhecia. Imaginou-se saindo um dia dali para nunca mais voltar, e ver o mundo, compará-lo com sua realidade local.
    Uma noite, depois de ter terminado a leitura, contou o que leu para um grande grupo de mulheres em volta da fogueira. Depois que terminou, elas olhavam pasmas para Elisa, com expressão de espanto nos olhos.
    Uma delas, boquiaberta, perguntou se ela é que tinha inventado. Elisa mentiu, dizendo que tinha ouvido de uma mulher muito mais velha, muito tempo atrás.
    Nessa mesma noite, depois que todos foram dormir, Elisa sentou-se e ficou olhando para a arte da capa do livro e ficou repassando a história, várias vezes seguidas.
    Planejou encontrar Fernando no dia seguinte (era o prazo combinado) para dizer o quanto tinha gostado do livro.
    7. Planejamento
    Fernando costumava reunir-se também a noite em volta da fogueira com os homens do seu grupo. Era tudo muito barulhento. Havia demonstrações de força, lutas e competições como queda de braço. Alguns contavam seus feitos corajosos, muitas vezes exagerando na narrativa.
    Notava também as diferenças na fala: Alguns apenas grunhiam, outros usavam poucas palavras, e uma minoria tinha mais articulação, com esses Fernando se identificava e tinha mais proximidade.
    Sempre ficava em um canto, ouvindo. Depois de ouvir algumas histórias sentava-se sozinho e olhava o céu, as estrelas, a lua, e imaginava se no pré-bomba as pessoas tinham curiosidade sobre tudo isso.
    Mas nos últimos dias ele pensava mesmo era em Elisa. Conhecê-la pessoalmente fez com que ele a admirasse mais ainda, e contava as horas para poder conversar com ela novamente.
    Na noite anterior ao dia combinado para os dois para o novo encontro, a ansiedade tomou conta de Fernando. Para aliviar, ele saiu após todos estarem dormindo, e foi admirar as estrelas, lembrando do “Mensageiro das Estrelas”.
    Pela manhã, posicionou-se no mesmo lugar no viaduto, Elisa, ao passar, discretamente fez sinal apontando para o monte de entulho.
    Depois que o grupo passou pelo viaduto, certificando-se como sempre se ninguém o observava, desceu e posicionou-se no lugar combinado.
    Depois de uma espera que pareceu muito longa, Elisa chegou.
    -Bom dia.
    -Bom dia.
    -Gostei muito do livro, ela disse. Muito melhor do que a s histórias contadas na fogueira. No pré-bomba, essa história devia ser muito conhecida.
    -Quem bom que você gostou, respondeu Fernando. Sim, fiquei com essa impressão também, mas não cheguei a terminar a leitura.
    -Por falar em pré-bomba, Fernando, nós dois somos mais articulados do que a maioria, falamos melhor, pensamos melhor. Será que antes esse nosso comportamento era normal? Ou o comportamento da maioria é que era considerado “o normal”?
    -Já pensei nisso, Elisa, penso nisso quando observo o comportamento dos outros, todos tão diferentes. Talvez o que nos diferencie seja o gosto pela leitura, ou a curiosidade.
    -Sim, talvez, ela disse. Eu gostaria muito de saber se o resto do mundo é como aqui, nessa cidade. Se em todo lugar existem divisões com essa, se as pessoas têm essa coloração de pele que nós temos.
    -Só tem um jeito de saber, Elisa. Sairmos daqui e vermos por nós mesmos.
    Isso pareceu acender uma luz dentro dela. Era justamente o que ela queria fazer.
    -Vamos fazer isso então, Fernando! Ela disse com entusiasmo.
    Começaram a planejar o que levar, como por exemplo, um pedaço de pano grande que serviria com uma tenda ou barraca, mantimentos, roupas, o que coubesse as grandes sacolas de pano, que Fernando adaptaria para colocarem nas costas, como mochilas.
    Elisa perguntou se Fernando sabia o caminho para a estrada que levava para fora da cidade. Fernando respondeu positivamente e disse como chegar lá.
    -Vamos marcar para daqui a uma semana? Uma hora antes do amanhecer, no começo do caminho que leva a estrada.
    -Combinado, ela disse.
    Assim, como haviam acertado, depois de uma semana partiram.
    8. A estrada
    Tomaram a saída e entraram na estrada, deixando aos poucos a cidade para trás. Andavam o maior tempo que podiam, quando estavam muito cansados, paravam e descansavam a beira da estrada, quando tinham fome buscavam alimento, na natureza e em eventuais estabelecimentos que encontravam no caminho. Evitavam andar à noite. Quando escurecia, improvisavam uma barraca e dormiam.
    E essa rotina seguiu-se durante semanas, que depois viraram meses.
    Não encontraram nenhum lugar do porte do que eles tinham deixado, apenas algumas cidades pequenas ou vilarejos, aonde as pessoas viviam em condições precárias, mas a rivalidade entre roxos e verdes sempre estava presente.
    Uma noite, logo nas primeiras semanas, fazia calor e eles resolveram se deitar em um lugar de mato rasteiro, deitaram-se lado a lado e ficaram observando o céu. A lua estava enorme e não havia nuvens, o que inspirou Fernando a falar do “Mensageiro das Estrelas”: das observações do cientista, dos desenhos, da lua e suas “montanhas elevadas e vales profundos”.
    Falou dos anéis de saturno, das luas de Júpiter, e de como o cientista teve a ideia de usar a luneta, recém-inventada, para observar o céu.
    Depois de falar bastante, pediu a Elisa que falasse sobre “Romeu e Julieta”, que ele havia quase esquecido da história, maravilhado que ficou com o “Mensageiro”.
    Elisa repassou a história de maneira muito bem contada, pois lera o livro mais de uma vez. Contou sobre o romance proibido, pois o casal desafiava a rivalidade entre as famílias para ficarem juntos.
    Fernando gostou principalmente da coragem de Romeu, que não fugiu de nenhum dos duelos a que foi desafiado, inclusive no último, quando desiludido por pensar que havia perdido sua amada, ainda avisou seu oponente: “Não provoque alguém que não tem nada a perder”, ou algo assim.
    Lamentaram o final trágico. Apesar disso, a história acaba em um clima de reconciliação entre as famílias, e ficaram imaginando se algo assim poderia acontecer no mundo real.
    Elisa pediu para Fernando falar mais sobre o “Mensageiro” sobre o céu, as estrelas. Fernando repetiu coisas que aprendeu com o livro.
    Ainda estava falando, quando olhou pro lado e parou de repente, espantado com o que via: o rosto de Elisa assumiu um semblante diferente e inusitado enquanto ela o ouvia e olhava o céu: ela estava sorrindo.
    9.Renascimento II
    Mais de um ano se passara, e Fernando e Elisa, mais do que amigos, cúmplices e colegas de aventura, eram um casal. Cada vez mais unidos, ajudavam-se sempre que necessário, nunca faltava apoio de nenhum tipo.
    Fernando com o tempo aprendeu a sorrir também, foi um processo natural.
    Mas estavam cansados. Perderam a conta de tantos lugares que conheceram, mas nenhum parecia um porto seguro, ou, no mínimo, que oferecessem alguma garantia de passariam pelo menos algum tempo em paz.
    Um dia, estavam no alto de um aclive na estrada quando avistaram uma cidade, alguns quilômetros adiante. Era grande, a maior que tinham encontrado desde a partida. Quando estavam chegando, avistaram um portal, bem na entrada da cidade, e viram ao lado dele uma mulher, vestida de branco, sentada em uma cadeira fazendo anotações em um bloco. Repararam que sua pele tinha coloração totalmente normal.
    Quando ela os viu, levantou-se rápido e veio ao encontro dos dois. E sorria!
    -Olá viajantes!!!! Eu me chamo Ângela, e vocês?
    Olhou para eles de cima a baixo.
    -Nossa, vocês estão precisando de roupas limpas, um banho e descanso. Há quanto tempo vocês não comem? Estão muito magros!
    Fernando e Elisa se apresentaram, e contaram sua história, de onde vieram e porque partiram.
    -Bom, vamos cuidar um pouco de vocês. Como disse, me chamo Ângela e faço parte de um grupo nacional chamado Renascimento II. Vamos caminhar até a sede local do grupo, fica perto daqui. Somos uma espécie de força-tarefa criada para tentar dar um rumo melhor para as pessoas, pelo menos no nosso país, tentando amenizar os estragos causados pela bomba. Eu, por exemplo, sou médica, pois antes da bomba eu havia acabado de me formar em medicina. As pessoas que fazem parte da força-tarefa são direcionadas para trabalhar em suas especialidades, ou para aonde sua vocação os conduz.
    Modéstia à parte, a minha área está dando uma grande contribuição, pois conseguimos criar uma vacina que está devolvendo a cor natural da pele às pessoas. Mas estudos e estatísticas mostram que essa coloração estranha, com vacina ou não, está diminuindo com o tempo.
    Temos instituições de ensino, psicólogos, engenheiros, cientistas e vários outros profissionais totalmente voltados para o esforço pós-bomba.
    Elisa e Fernando estavam cada vez mais contentes com o que ouviam, parecida que tinham finalmente achado seu lugar. Ficaram sabendo também que o sorriso ali era algo natural.
    Falaram dos livros que tinham lido e gostado tanto, mostraram a Ângela, que pegou os dois e ficou olhando as capas, e devolveu-os enquanto chegavam à sede do Renascimento II. Havia um grande pátio na frente do prédio, parecia ser a hora de algum intervalo, pois havia várias pessoas ali espalhadas, conversando em pequenos grupos. Quase ao mesmo tempo todos viram a chegada dos dois viajantes e os saudaram aos gritos e levantando os braços.
    Ângela pegou o “Mensageiro”, das mãos de Fernando, levantou bem alto e disse de uma maneira solene: “O Mensageiro das Estrelas!!”. As pessoas responderam com gritos de admiração.
    Fernando, sempre querendo dizer algo importante em ocasiões especiais citou sua frase preferida:
    “A natureza produz seus efeitos mediante formas impensáveis por nós, e é surda e inexorável a nossos vãos desejos”. Todos riram e aplaudiram.
    10. A natureza e seus efeitos
    Um mês depois de sua chegada, os dois estavam plenamente integrados. Estudavam educação formal pela manhã, e a tarde dedicavam-se aos estudos profissionalizantes. Elisa encantou-se com o trabalho de Ângela e decidiu estudar medicina. Fernando decidiu-se por física, com ênfase em astronomia, queria ser professor.
    Estavam ainda maravilhados com o mundo em que estavam vivendo, que nem imaginavam que pudesse existir. Veículos elétricos estavam sendo produzidos, ainda em pequena escala, mas essa indústria era promissora.
    O plano era acabar com o uso de veículos de tração animal, que naquele momento eram usados apenas quando não se podia evitar. Psicólogos cuidavam de alguns efeitos do pós-bomba, como os problemas de cognição, que estavam sendo resolvidos em conjunto com a educação formal, problemas de fala sendo tratados por fonoaudiólogos. O sorriso, algo que há pouco tempo era algo quase desconhecido para Fernando e Elisa, era natural.
    O curioso era que algumas pessoas continuavam com os hábitos de antes, odiando aqueles que tinham a coloração de pele diferente. Mesmo depois do tom de pele normalizar, continuavam com sua rivalidade, pois, segundo diziam, “roxo é sempre roxo”, ou “verde é sempre verde”. Não conseguiam enxergar o obvio, de que suas vidas e suas lutas eram idênticas as dos “rivais”.
    Fernando e Elisa ganharam uma casa, depois de um tempo morando com um grupo grande de pessoas em uma espécie de mansão aonde ficavam os visitantes até que se estabelecessem ou decidissem ir embora.
    Uma manhã, Fernando estava no banho e Elisa o esperava na sala. Era dia da aula favorita dos dois, “História geral do pré-bomba”.
    Quando saiu do banho encontrou Elisa sentada e pálida, com uma aparência de cansada. Fernando logo pensou que ela poderia ter adoecido depois de tanto esforço, apesar de eles terem descansado bastante depois da viagem. Mas foi uma viagem longa.
    Assustado, perguntou o que ela estava sentindo, e Elisa contou que havia passado mal e ainda tinha náuseas.
    Decidiram encontrar Ângela antes de irem para os estudos. Ângela tinha se tornado uma grande amiga, estava sempre com eles. Entraram no hospital aonde ela trabalhava pediram para chamá-la.
    Ângela veio apressada e encontrou os dois na recepção.
    Fernando foi logo falando:
    -Elisa passou mal e vomitou.
    Ângela levou Elisa para alguns exames e Fernando ficou esperando.
    Depois de um tempo que pareceu para ele uma eternidade, Ângela voltou, olhou para ele, sorriu e disse:
    -A natureza produz seus efeitos mediante formas impensáveis por nós, e é surda e inexorável a nossos vãos desejos.
  • Blefe Mortal

    O suor escorria pelo seu rosto, porém a feição séria e amedrontadora distraía seus oponentes naquele momento, exceto por Louie.
    Louie era um homem negro e Grisalho, com trajes finos,uma bengala que não apresentava marcas de uso e um olhar vil, porém cativante.
    - Você tem certeza, garoto? Indagava o velho homem com um tom extasiado.
    - Nunca tive certeza de nada, e sempre apostei tudo... E só cheguei aonde estou porque minha vida foi feita de apostas e vitórias...então...é, tenho.
    Enquanto o jovem prolifera as palavras em cima do dinheiro que já não tem, lembra-se da pacata cidade onde nasceu, o calor dos pães já murchos a pouco tirados do forno e o afago materno que o acolhia; Também se lembra de sua primeira viagem para os Estados Unidos onde conseguira sua bolsa em Harvard, seu primeiro emprego, seu primeiro carro, casa, barco, relógio de ouro e claro, de Clarice...
    Ah Clarice... Um verdadeiro anjo caído, mais sedutora que o próprio demônio e mais cruel que Deus, seus lábios vívidos e suculentos rapidamente tiravam nosso protagonista de órbita, mas algumas palavras o fizeram aterrisar novamente na realidade.
    -Showdown!- Afirma o crupiê.
    A confiança do jovem o faz baixar rapidamente as cartas, mostrando um  Flush bem desenhado.
    A própria lógica do poker dizia para Patrick, naquele momento, que era quase impossível uma combinação maior, exceto por um Royal Flush, mas esse era totalmente improvável; Seus cálculos eram precisos e sua mente aguçada o suficiente para apreciar o gosto da vitória de uma forma extremamente precoce, porém, a felicidade de seu oponente começava a deixá-lo em desespero, o velho homem, ao se preparar para mostrar as cartas, solta as seguintes palavras:
    -Parabéns garoto - afirma mantendo o sorriso e baixando as cartas viradas para baixo - Você ganhou.
    O suor que antes era de nervosismo agora virou em felicidade contida atrás daquela máscara; Ao recolher as fichas de seu devido prêmio, a voz rouca e suave do idoso gesticula uma tentadora proposta:
    - Eu tenho mais... Muito mais, quer ver?
    Patrick, em profundo êxtase responde:
    -Quero, quero não só ver, mas tomar, quero dinheiro, quero poder,quero ter o sangue de todos aqueles que me humilharam, quero...Quero...
    Antes de terminar a frase o jovem homem vê seu reflexo no espelho, seu cabelo desarrumado, seu olhar vidrado e expressão diabólica o assustam, e logo atrás de si, através do espelho, vê a sombria criatura que cochicha:
    -Que assim seja.
    O semblante que forma à sua retaguarda toma uma forma demoníaca, o jovem desesperado salta á frente aterrorizado derrubando as fichas e a mesa.
    A criatura medonha se curva, rindo, quase gargalhando.
    - Ora...Por que tanto medo? Não era você que queria sangue a pouco tempo atrás?
    As presas cravam, o corpo esfria,
    e no chão se destaca a sequência mais nobre do Pôker: Um Royal Flush carmesin.
    "A vida é um jogo, que quanto mais você aposta, mais emocionante fica."

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