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  • Hinderman - Capítulo 3

    Continuação dos capítulos anteriores.
    Para ler os capítulos anteriores acesse: https://autores.com.br/component/search/?searchword=hinderman&searchphrase=all&Itemid=9999

    “Aliens”.
    Ou alienígenas. Seres extraterrestres. De outro planeta. Afinal existem? Existe vida no espaço? Existe vida além da Terra? Estamos sozinhos num universo infinito ou há mais vida inteligente por aí?
    Estas são questões que têm incomodado diversos cientistas e pseudocientistas desde que a tecnologia tornou possível o estudo dos corpos celestes. Diversos filmes ou histórias retratam mesmo que fantasticamente a concepção da existência destes seres, ora desumanos e letais, ora mais humanos do que os terráqueos, ora inteligentes, ora apenas animais. Entretanto na grande maioria das vezes são retratados a partir da mesma moldura: uma forma humanoide, como que diferindo de nós em apenas um limitado conjunto de propriedades.
    Aqueles que foram selecionados para trabalhar no DCAE sabem: todas estas características retratadas nos filmes estão corretas. Os aliens existem, sim. E inclusive já vieram à Terra. E mais: são seres humanoides diferindo em apenas poucos pontos da nossa raça. Alguns inteligentes, alguns apenas animais, alguns predadores letais, alguns misericordiosos. Existe neles tanta variedade quanto existe variedade no ser humano típico.
    Mas por serem seres cuja existência ainda não está preparada para ser revelada à mídia, acabam sendo adicionados a apenas uma dentre as dez raças colocadas em observação, na lista de objetos de trabalho do DCAE.
    Na vez passada eu contei a vocês sobre os zumbis. Foi a primeira raça que lhes mostrei. Agora estou revelando a existência dos aliens. Pretendo revelar as dez raças e expor suas características aos poucos, para que isto não acabe sendo muito enfadonho.
    Aliens, conforme o nome já diz são seres que vieram de outros planetas. Na maioria das vezes dos planetas vizinhos, Marte e Arena. Enquanto Marte é conhecida por ser um dos dois planetas mais próximos à Terra, a existência da Arena, que se localiza ainda mais perto, é desconhecida ao público. A razão disso é que é fácil fazer as pessoas acreditarem que não há vida em Marte, visto que toda forma de vida inteligente lá tem hábitos subterrâneos, mas não é tão fácil esconder a vida em Arena.
    Arena é o planeta mais próximo da Terra, até mais do que Vênus. É um planeta pequenino com um raio de cerca de seiscentos e tantos quilômetros, o que é menor do que a própria lua. Contudo é lá que se encontra a maior diversidade de espécies vinda dos planetas mais próximos e também dos distantes. Todos os seres que são considerados perigosos acabam sendo transferidos para lá como forma de punição, ao passo que fugitivos também se mudam para lá como forma de evitar punição em seu planeta de origem. Uma terra sem lei onde todos lutam contra todos para garantir a sua sobrevivência, tornando apropriado o nome de Arena.
    Existem diversos tipos de alienígenas de interesse para o DCAE (leia-se: com inteligência), entretanto nós terráqueos, por falta de conhecimento, acabamos colocando todos sob o mesmo termo: aliens.
    Até agora todos os tipos que ousaram descer à Terra para incomodar o DCAE ou são de aparência ou humana ou podem alterar sua aparência física para a humana de alguma forma. O que é bom, pois a última coisa que queremos é ficar perseguindo monstros verdes e depois tentando convencer os jornalistas de que era uma espécie de jacaré que fugiu do zoológico.
    A diferença essencial entre um alien e um zumbi é que o primeiro não é intrinsecamente perigoso para a sociedade, visto que ele não necessariamente se alimenta de carne humana. É um ser onívoro como nós, podendo sobreviver perfeitamente à base de carne animal e vegetais. No caso, um alien não é visto como um assassino, mas como um imigrante ilegal.
    Por esse motivo o DCAE não sai por aí investigando todos os casos de aliens que aparecem, ao invés disso nos atemos apenas àqueles que realmente causam algum problema de natureza criminosa.
    Semelhantemente ao zumbi, os alienígenas têm algumas características que se realçam se comparadas aos seres humanos: a maioria dos tipos podem se mover de modo não natural. Para citar exemplos imagine um homem subindo na parede como se fosse uma lagartixa, dobrando os braços tanto para cima como para baixo, sendo capaz de capturar mosquitos facilmente com os dedos enquanto estes pairam no ar... Em geral diversos movimentos que são feitos diariamente por animais caseiros e selvagens, mas que não são imitados por humanos, estes feitos podem ser encontrados na raça alienígena.
    Como eu disse anteriormente: nem todos aliens são iguais. Nem todos vão conseguir fazer todas essas coisas, mas certamente todos eles conseguirão fazer alguma coisa que o ser humano não faz.
    Sendo assim, as peculiaridades físicas seriam um primeiro modo de se detectar um alien dentre nós. A segunda maneira de fazê-lo é observar seu interior: A composição interna de todos os tipos de aliens vistos até agora nunca se assemelham muito à humana. Alguns até mesmo diferem na cor da carne ou do sangue. Pode-se facilmente detectar a diferença com um raio x, por exemplo. Infelizmente não andamos por aí com máquinas de raio x para fazer a detecção e nem fazemos ferimentos profundos em nossos suspeitos para que possamos verificar seu interior, então quando necessário, em geral usamos a primeira maneira mesmo.
    Para matar um alien é preciso separar sua parte principal do corpo (algo contendo seu tórax e sua cabeça, se olhado externamente) e deixar esta parte separada por cerca de dezoito horas. Qualquer outro ferimento pode ser restaurado em até certo ponto e não resultará em sua morte.
    Para todo efeito, alienígenas podem ser pensados em uma mistura de humano com animal. Se um ser humano tivesse as características físicas de um animal adicionadas, ele seria um habitante típico da Arena ou de Marte. Nem preciso dizer que isso implica que um alien é naturalmente muito mais forte e ágil que um ser humano normal.
    “Que um ser humano normal.”
    Mas se um alien quisesse disputar uma briga comigo, que aguento um golpe com caixa de pesca do zumbi que quebrou um vidro maciço de cinco centímetros com um só soco... Aí já é outra história.
    Falando nisso, creio que devo uma explicação sobre aquele incidente: o que acontece é que para lidar com seres paranormais como zumbis precisamos de pessoal especializado, caso contrário aconteceria como aconteceu com George e Carl aquele dia. Por isso na maioria das vezes ou os próprios agentes do DCAE são eles mesmos também seres paranormais ou são treinados intensamente para poder lidar com qualquer uma dessas raças abomináveis.
    Eu também sou muito mais fisicamente forte do que um ser humano comum, e por isso resisti ao golpe que Sprohic desferiu em mim com aquela caixa de pesca, mas não saia contando isso a ninguém.
    Era um dia após a captura de Jeffrey Sprohic. Embora eu tenha liberado Crane no dia anterior, hoje ela tinha que estar trabalhando já desde de manhã novamente. Tenente Dotson não dá descanso aos subordinados.
     - “Assassinado entre as dezesseis e dezesseis e meia desta terça-feira, nome: Gerald McMiller, idade: 35 anos, caucasiano, natural de Silverbay. Causa da morte: atropelamento.” – Disse Crane lendo as informações do relato que recebemos na madrugada entre ontem e hoje, com sua postura impassível e formal de sempre.
     - Atropelamento!? De todas as possibilidades eles vieram com isso? Ele teve uma baita mordida nas costas.
     - Creio que eles modificaram o ferimento depois para parecer atropelamento.
     - Não sei por que esses cretinos do legislativo insistem em esconder a verdade... Seria muito melhor se todo mundo soubesse quando tem um zumbi à solta. Tomariam mais cuidado.  – Expeli mais fumaça do meu cigarro – O coitado vai se revirar no túmulo, com certeza. É capaz que ele próprio vire um zumbi. Se não for virar com propagação de vírus vai virar para se vingar de quem inventou essa morte idiota.
     Fiz uma pausa. Notei que Crane estava suportando calada a fumaça que saía de minha boca. Estava indo na direção dela. Decidi apagar as cinzas no cinzeiro que estava sobre minha mesa.
     - E...? Você disse que tinha outro relato? Do casal de velhos?
     - Sim:
     - “O cidadão Gelson Hernandez reportou às 2:00 da quinta-feira. Avistou um jovem de cabelos longos que saltou entre a residência de seus vizinhos e a sua. Gelson o perdeu de vista logo em seguida. Preocupado, olhou pela janela vizinha e encontrou os dois corpos, ligando para a polícia em seguida. A polícia chegou cerca de quarenta minutos depois, onde fizeram a autópsia e verificaram que a causa da morte de ambos foi ataque cardíaco. A análise preliminar revelou morte natural. Não há indício de arrombo ou visita na residência. Uma das vítimas é Margareth Johnson, e a outra, um homem estimado em sessenta e cinco anos de idade, permanece não identificado.” É o relato.
     - Como assim, não identificado? Ele não morava junto com a velha? Deve ser o esposo.
     - Margareth Johnson está viúva desde 1993, pelo que consta, tenente.
     Cocei minha costeleta.
    - E do suspeito, o jovem de cabelos longos...?
    -...Nada. – Crane completou.
    - Morte natural simultânea. Resolveram ter ataque justo no mesmo dia. Que coincidência infeliz para os dois, não..?
     Tamborilei meus dedos na mesa enquanto refletia. Crane permanecia estática à minha frente, me fitando de modo inabalável. Poderia se passar por esquisita, mas eu já estava acostumado. Houve uma batida na porta. Então ela se abriu, donde uma jovem adentrou o recinto.
     Era uma jovem de cabelos longos e ruivos, alisados e presos de maneira carinhosa. Sua pele clara realçava as sardas espalhadas pelo seu corpo lhe passando uma aura pueril. Entretanto esta aura contrastava com sua maneira elegante e madura de se vestir, usando uma peça social curta de um vermelho escuro bonito, mas sem ser chamativo. Sua voz revelou-se suave e doce ao formular aquela pergunta de natureza banal:
     - Com licença, tenente Henry Dotson?
     - Eu.
     - Eu sou Ewalyn Lowe, sabe... A transferida do departamento de North Kingston Hill.
     - Ah, sim. Você vai substituir o Cuco.
     O Cuco era um ótimo detetive, mas ele acabou se aposentando por causa de tempo de serviço. Ele não era velho, mas por não ser humano e ter expectativa de vida menor eles fazem umas leis diferentes de direitos de trabalho. Estávamos sem o Cuco já fazia mais de três meses. Então de detetives eu tinha apenas o Joey e o crápula do Chapman.
    Eu tinha me esquecido, mas quinta-feira era o dia em que a detetive que ia substituir o cargo dele chegava. Ela trabalhava no departamento de North K Hill, mas como eles tinham uns detetives sobrando (e para falar a verdade, em comparação com Sproustown tinham casos faltando) o governo resolveu finalmente fazer a redistribuição.
    Estava satisfeito por finalmente ter mais um detetive com quem contar, e ainda mais satisfeito por ser uma jovem ruiva de personalidade rutilante.
    Ela me lembrava minha esposa Jane quando não era rabugenta.
     - E então? O que está achando de... Sproustown?
     - Ah... Estou gostando... – Respondeu ela enquanto olhava discretamente ao redor da minha sala – Só acho o ar um pouco poluído...
     Afastei o cinzeiro na mesa mais para o lado da parede.
     - Com licença, senhor. – Crane fez uma reverência breve e se retirou.
     Me levantei e me aproximei para cumprimentá-la devidamente.
     - Venha. Vou te mostrar o departamento. – E Lowe me seguiu.
    O departamento do DCAE tinha uma sala de recepção grande com uma mesa central, onde trabalhavam Joey Meyers e a secretária Emma Crane. A mesa era grande demais para eles dois, ocupando de cinco por dois. E a própria sala tinha uma área de pelo menos quatro vezes mais a área da mesa. Ironicamente, além da mesa não havia muita coisa na sala: as cadeiras, o bebedor, outra mesa de canto para o café e um armarinho onde ficavam alguns arquivos e outros materiais. Os arquivos de caso eram guardados todos na minha sala. O resto era só espaço sobrando.
    Além da porta para o elevador, a sala de recepção tinha mais duas portas: Uma para a minha sala, de onde eu e Lowe tínhamos acabado de sair, e outra que estava sempre aberta, dava para um corredor.
    Com a mão estendida na direção da mesa, eu apresentei:
     - Esta é a Crane. A secretária. Vocês já devem ter se conhecido. – Lowe assentiu com a cabeça enquanto Crane apenas olhou de relance. – Quando não está em outro lugar o Joey está aqui também.
     - E aqui é a sala da chefe. – Disse eu após entrarmos no corredor à direita da sala da Crane. Experimentei a porta e entrei. Era uma sala exatamente igual à minha, exceto que não tinha nada bagunçado na mesa. Não havia ninguém lá dentro.
     - A chefe é... A tenente Sarah Harmon? – Ela perguntou observando o nome escrito no vidro da porta.
     - Capitã agora.
     - Eu certamente lembro dela. Trabalhamos juntos no caso do filho do governador em Kingston Hill. Ela é uma das melhores que eu já vi.
     - Você trabalhou no caso do filho do Pearson?
     - Sim. Levou bastante tempo para pegarmos o sujeito, com todo aquele envolvimento político com a própria polícia, mas... A lembrança que eu tenho foi que ela fez tudo. – Ela soltou um riso breve.
     - Então vocês já se conhecem. Não vai ser difícil se adaptar por aqui. Perto daquele caso intrincado e cheio de política envolvida, capturar um zumbi ou dois não vai ser problema para você aqui em Sproustown.
     - É. Espero que não. – Lowe olhava ao redor enquanto mexia seu corpo para a esquerda e direita ritmicamente.
     - Ah! Vou te mostrar a sala de treino.
     Saímos da sala de Sarah e continuamos pelo corredor. Ele virava uma rampa que descia até um corredor imenso com janelas de vidro. Pela janela dava para ver o pátio onde ficavam as viaturas e mais adiante o prédio anexo do pessoal de suporte. As janelas eram imensas e ocupavam a largura do corredor inteiro, sobrando apenas um metro de parede abaixo delas e um pouquinho mais entre o topo do vidro e o teto. Seguimos adiante até o fim do corredor e começamos a ouvir tiros.
     - É o Joey. – Adiantei.
     Entramos na sala de treino e Joey estava equipado com uma calibre 12 e um baita de um tapador de ouvido. Atirava contra os alvos, segurando a arma com apenas uma das mãos. Ele notou nossa presença e assim que viu Lowe, começou a se exibir. Enquanto olhava para nós continuou disparando tiros contra os alvos que circulavam em velocidade fixa, amarrados na esteira. Sempre acertava os alvos.
     Lowe procurou algo para dizer, mas não conseguiu.
     - Ah, são vocês. Aqui é assim. Não tem moleza. Todo mundo tem que acertar o meio dos malditos. – Disse Joey enquanto tirava o tapador e vinha em nossa direção para cumprimentar-nos. Por incrível que pareça ele realmente estava acertando os alvos no centro, de modo que a frase dele não era exagero.
     Lowe me olhou com uma estranheza na sobrancelha, como que se perguntando se eu realmente exigia isso dos empregados. Mas ela não chegou a perguntar verbalmente.
    Apenas expliquei:
     - É a finesse do Joey.
     “Finesse” é um termo usado entre seres paranormais. Lembre que eu disse que um zumbi tem uma mente mais desenvolvida que um ser humano, pois assim que nasce ele consegue se equiparar a um adulto maduro mentalmente em apenas poucos dias de adaptação. Por isso é de se imaginar que algo no cérebro dele ocorre de modo que ele aprenda de forma diferente.
    Alguns seres humanos também aprendem de modo diferente. Enquanto alguns conseguem falar um novo idioma em apenas poucos meses outros ficam mais de seis anos estudando sem chegar a lugar algum. É só um exemplo. Em seres humanos além da diferença do método de aprendizado existe também a persistência. Alguém que deseja aprender a desenhar, mesmo que não use um sistema muito bom consegue atingir nível profissional eventualmente, se tiver persistência. Já outra pessoa poderia ser que aprendesse em menos tempo, mas ao invés de persistir acaba desistindo quando vê que não atinge o resultado esperado com pouco esforço.
    Campeões mundiais nas tarefas mais variadas, assim como os profissionais mais talentosos na maioria das vezes devem sua habilidade a uma combinação dessas duas coisas: esforço e método.
    O que aconteceria então se um zumbi resolvesse empenhar seu tempo para aprender uma tarefa básica de forma proficiente? Como eles naturalmente têm maior capacidade de aprendizado que o ser humano, teriam que se preocupar apenas com o aspecto da persistência.
    O mesmo vale para os alienígenas. A maioria deles, por se assemelharem essencialmente a uma mistura de insetos com humanos, já possui aptidão física o suficiente para não precisar de esforço algum para aprender qualquer atividade que exija meios físicos. Então, um alien poderia facilmente ser um dos maiores contorcionistas ou bailarinos, se empenhasse o tempo necessário, por exemplo.
    Os seres paranormais, devido à suas características, sempre conseguem algum hobby que podem aprender facilmente ou rapidamente se comparados a um ser humano normal. Quando eles resolvem realmente se apossar desta vantagem e adquirir uma habilidade nova através do aprendizado, esta nova habilidade na qual viram proficientes é chamada de sua finesse.
    Em nosso ramo, como trabalhamos com violência, isto é, temos de usar violência para capturar outros seres paranormais que também usam da violência em seus atos, é apenas natural que procuremos finesses que tenham a ver com violência.
    Joey passou muito tempo treinando tiro ao alvo. Nunca sai daquela sala. O dia de hoje não é uma exceção. Somando sua obsessão ao método de aprendizado que é acelerado, após treino o suficiente ele tem a precisão para acertar exatamente o meio dos alvos em movimento constante, segurando a arma com uma mão e sem olhar.
    Se ele estiver olhando e segurando a pistola com as duas mãos na posição correta ele consegue acertar alvos exatamente no meio e em movimento inconstante, isto é, velocidade e posição aleatória. Esta certamente é uma finesse útil para um policial.
    Outro exemplo de finesse é a do Cole Chapman, meu outro empregado. Ele manuseia fios de nylon com maestria. Por que escolheu isso? Um ser que possui uma força física fora do comum vai querer empregar essas características em sua finesse, tornando possível a aprendizagem de uma habilidade impossível a um ser humano comum. Um fio de nylon pode não fazer muito se eu simplesmente arremessá-lo de forma tosca sobre alguém de perto. Entretanto se uma moto passa por um fio esticado à alta velocidade pode ser cortado fatalmente. Por que isto acontece? Por causa da velocidade com que o fio foi arremessado contra o corpo do motoqueiro.
    Levando isto em consideração, Chapman percebeu que se conseguisse aprender a segurar um fio esticado e empregasse sua força descomunal nas pontas, poderia fazê-lo ser arremessado contra alguém que estivesse a um curto alcance com uma velocidade parecida. Então como hobby buscou aperfeiçoar as características necessárias para usar esta técnica em combate, desde os ângulos com os quais arremessa um fio, aplicar a força de forma correta, como prender os fios em coisas penduradas na parede fazendo o menor movimento necessário com o resto do corpo para que o fio tenha tensão, e assim por diante. Embora não haja nenhum campeão mundial de cortes com fios de nylon porque os seres humanos não têm a fora suficiente nos dedos, como Chapman não é um ser humano, ele pode aprender esta finesse.
    Então tome cuidado se você deixar o Chapman nervoso com um carretel no bolso e estiver em um corredor estreito com vários lugares para ele prender os fios.
    Lowe naturalmente sabia o que é uma finesse então por isso relaxou os ombros assim que eu disse que aquele treino era especial do Joey. Eu não exigia de meus empregados aquela precisão impecável.
     - E aí? Já se acostumou com o cheiro do cigarro do tenente? – Perguntou Joey à Lowe, que apenas olhou para mim e fez um sorriso desconfortável.
    Seria tão bom se Joey ficasse quieto.
     Me dirigindo para Lowe, mudei de assunto:
     - Então...É basicamente isso que temos por aqui. Quando você quiser café tem lá na cozinha...
     - Vocês já vão voltar para lá? Eu vou treinar mais um pouco... – Disse Joey.
     - Para dizer a verdade... Precisamos de você lá na frente também. Apareceu outro caso.
     - Outro caso? – Joey guardou a arma no suporte designado.
     - Assassinato. Um casal de idosos. Um deles não tem identidade. Os dois morreram de morte natural.
     - Ué? Mas se é morte natural não é um caso do DCAE.
     - As mortes ocorreram ao mesmo tempo.
     -...
     - De morte natural simultânea? Mas isso quer dizer que..? – Lowe começou. – Será “ductu”?
     Afirmei levemente com a cabeça.
     - É o que parece... Se realmente for “ductu” temos um grande problema... Adicionalmente... Um alien foi visto.
     - Um alien? Como? O que ele fez?
     - Até agora apenas fez um pouco de parkour exagerado. Foi visto perto da cena do crime em horário coincidente, saltando sobre telhados ou algo do tipo. Difícil acreditar que não tenha alguma relação. Estava indo checar o local agora. Normalmente você é minha dupla, mas estava pensando em levar a Lowe junto, já que é o primeiro dia dela. O que você acha, Lowe?
     - Por mim, tudo bem. – Suas palavras eram mais amenas em comparação com a expressão de sua face. Seus olhos pareciam mais dizer “quero muito ir checar o local”.
     Saímos da sala de treino e nos dirigimos à entrada. Já que não havia muito que fazer, convidei também Crane que estava plantada na cadeira com um semblante enfadonho.
    Combinamos que o pessoal do suporte atenderia os telefonemas em nossa ausência e partimos todos os quatro para o local.
    Era quase fora de Sproustown, cerca de dois quilômetros da estrada nordeste. Em uma vizinhança distante de natureza rural chamada Little Quarry. Ali não havia prédios e as casas eram todas construídas sobre a terra, providas de grandes terrenos em sua parte de trás. Era comum os terrenos não terem separação, ou quando muito uma cerca baixa precariamente fortificada sobre o barro.
     - Não é de se surpreender que Hernandez tenha bisbilhotado na janela dos Johnson sem muito esforço. – Comentei.
     - Nesse tipo de lugar não existe muito segredo entre os moradores... – Disse Lowe.
     - Eu e Joey vamos ver a nossa testemunha. Vocês duas dêem uma olhada na cena. Já vamos para lá.
     - Ok.
     Eu e Joey fomos até a casa do tal Gelson Hernandez. Batemos na porta e ele rapidamente atendeu. Assim que dissemos que éramos da polícia seus olhos brilharam e ele ficou entusiasmado, convidando-nos para entrar. Era um sujeito de idade avançada e não exatamente parecia ter seus dias muito ocupados, de modo que deveria estar ansiosíssimo para partilhar sua história do extraterrestre com mais alguém.
     - Era um ninja! Juro por Deus! Ele saltou do meu telhado e foi parar no da vizinha. E depois saltou de novo até a casa de trás. Assim em duas etapas só, seu guarda – Acredite: ele me chamou de “seu guarda” – Pulou uma e depois outra.
     Como era o sujeito?
     - Era ali. – Ele apontou para a parte da frente do telhado da casa da vizinha, ao lado da antena. Ele estava ali quando pulou da minha casa. Depois ele foi naquele telhado de lá.
    Hernandez era desses velhos que ficam repetindo a mesma coisa.
     - Iremos investigar... Mas poderia dar uma descrição do sujeito?
     - E foi num pulo só. A senhorita Thomas não acredita, mas eu juro que...
     Como pode-se ver, foi uma conversa difícil, mas após certo esforço conseguimos alguma coisa. Passada a entrevista Joey repetiu o que tinha anotado em seu bloquinho:
     - Aprendemos que o suspeito tinha longos cabelos brancos, era jovem, aparentemente perto de seus trinta e poucos anos, e ele provavelmente tinha uma capa? Uma capa, tenente? Esvoaçando atrás de seu corpo à medida que saltava? Não era um exagero do Hernandez? Parece tão saído de cinema... Uma capa!
     Apenas limpei o suor da testa. Procurei minha carteira de cigarros no bolso do meu casaco e acendi um.
     - Vamos ver como as garotas estão indo. – Decidi.
     Não foi de propósito, mas por acaso que Joey estava um pouco mais afastado e eu acabei entrando no recinto da cena propriamente dita antes dele. Ainda havia um policial da perícia que tinha dado as informações essenciais sobre os acontecimentos para Crane e Lowe. Ele estava no hall.
     Eu tinha ouvido falar que não constava muita informação sobre a senhora Johnson. No hall, do lado de trás da faixa de delimitação, ainda estavam desenhadas as marcações dos locais dos corpos. Caminhei rapidamente para o quarto e pude ouvir um pouco da conversa de Lowe e Crane. Ao invés de aproveitar a oportunidade para passar no teste de Bechdel parecia que elas estavam conversando casualmente sobre mim:
     - Ele não fala muito... Quer dizer, fora dos assuntos do serviço. Fica difícil dizer exatamente o que se passa na cabeça dele. – Era a voz da Crane – Mas o jeito dele deixa tudo mais difícil. Ele sempre vem cuspindo ordens para mim e para o Joey. E para o Cole. Ele é ainda mais ríspido com o Cole.
     - Engraçado. Tive a impressão de que era o oposto de ríspido... – Comentou Lowe.
     Quando entrei no quarto elas pararam e me olharam. Lowe tinha um saquinho com uma agulha de tricô amarrado a um pouco de lã. O saquinho estava fechado.
     - E então? –Perguntei, como se não tivesse escutado nada - Alguma coisa?
     Ela me mostrou o saquinho.
     - É uma evidência. Eles deixaram elas aqui. Estava caído no chão ao lado da senhora Johnson. Fora isso, nada demais. – Ela deu de ombros – Realmente não tem indício nenhum de conflito aqui. Acho que podemos dizer que realmente foi obra de ductu.
     - Se sim estamos lidando com um monstro. Resolvi muitos casos em Sproustown, mas nunca em nenhum deles me deparei com alguém que pudesse matar com ductu apenas.
    E era verdade. Trabalho em Sproustown há mais de quinze anos. Nem sempre fui tenente, comecei como detetive, assim como o Joey. Mas é muito raro um ser paranormal conseguir afetar pessoas dessa maneira com uma habilidade tão simples.
    Para entender o conceito de ductu, pense em um cachorro e analise seu instinto. Quando vê uma presa fácil seu instinto diz “ataque”, quando seu instinto lhe afirma que a presa lhe trará problemas caso engaje numa luta, ele diz “lata, mas mantenha distância.” Humanos embora possuam um grau menos aguçado de instinto ainda têm um pouco que herdaram da evolução de seus antepassados. Ao ver uma aranha não temos todos um estremecimento? É herança fisiológica dos tempos em que não havia meios de combater o envenenamento e nem meio de reduzir as infestações, o que tornavam estes bichos seres perigosos para a nossa raça. Hoje em dia as aranhas não são tão perigosas quando antigamente devido à tecnologia e a presença dos postos de saúde, mas ainda mantemos um medo intrínseco de tais criaturas. Por menos venenosa que a aranha seja sempre há o estremecimento.
    O Ductu é parecido. É a manifestação do instinto em um ser inteligente. Ao se deparar com um ser indubitavelmente mais forte que você, o ductu lhe diz “tome cuidado, esta criatura à sua frente não é pouca coisa”. Como eu disse, aliens são criaturas essencialmente mistas de animais e humanos. Não no sentido literal da palavra, mas mistas no sentido de que muitas características animais são partilhadas por eles. Não é de se admirar que o instinto seja uma delas e seja ainda mais aguçado, assim como todas as demais características.
    Aliens essencialmente podem detectar de longe a presença de outros seres paranormais apenas usando este instinto que funciona como uma vibração, propagada como uma onda cerebral. O ductu indica ao extraterrestre não só se há perigo, mas também onde o perigo está.
    O que nos leva ao anti-ductu.
    Uma medida natural que a evolução proporcionou a seres paranormais munidos de ductu como os aliens foi o anti-ductu. Veja só: se numa comunidade de mais de um alien existisse apenas o ductu, todos teriam um receio interminável dentro de si, dizendo a cada um deles para evitar se aproximar dos demais, causando conflito social desnecessário e porque não dizer ameaçando a espécie. Visto que o instinto os avisa se a presença do organismo avistado é perigosa ou não, e como os próprios alienígenas são dos seres mais perigosos, este instinto ficaria martelando dentro deles o tempo todo. Para anular este estado de diligência, a natureza os abençoou também com o anti-ductu, técnica que pode ser usada para perder instantaneamente o medo que veio como instinto pela própria natureza.
    A priori pode-se pensar que as duas forças anulam-se uma a outra e eles são como seres humanos normais, então, sem vasta capacidade de discernimento. Mas não é assim. Existe certo grau de controle do anti-ductu. Um alien sente sim a insegurança quando há algum outro alienígena ou outro organismo potencialmente perigoso por perto, entretanto o anti-ductu só é acionado momentos depois, ao se avistar que este outro ser é também um da mesma raça.
    “Ops, tem alguém perigoso por perto. Ah! É você. Tudo bem, o medo foi embora.”
    E este processo evolutivo chega à habilidade que eu quero chegar: a habilidade de controle do próprio ductu. Alguns alienígenas evoluíram a ponto de serem capazes de sentir ductu e anti-ductu quando quiserem. Mas como a própria palavra já indica, anti-ductu não é apenas a anulação pessoal do ductu, mas sim o equivalente a infligir ductu nos demais organismos de modo que se perca a sensação de receio. Se todos se sentem igualmente receosos, ninguém está. O que significa que alguns aliens podem escolher infligir o medo nos demais seres, a partir do anti-ductu.
    O anti-ductu, em disparidade com o ductu, não é a capacidade de esvair o medo, mas de infligir.
    Percebe onde quero chegar? Se um ser que pode infligir um medo natural nos demais organismos, e este medo natural é forte o suficiente para anular o sentido quando presente de um espécime de mesmo grau de periculosidade, então quando lançado anti-ductu em um organismo desprovido desta habilidade, como um ser humano comum, por exemplo, o ductu se torna uma sensação indescritível de receio exagerado, aparentemente inexplicável.
    Já que o medo causa a aceleração do coração, o que estávamos especulando era a possibilidade de anti-ductu ter sido infligido naquele casal de idosos de modo a causar um enfarte, visto que eles poderiam sofrer uma espécie de problema cardíaco.
    Pode-se matar seres humanos com anti-ductu apenas? Esta é a pergunta que pairava.
    Até então eu nunca havia visto nada parecido, mas seguindo o argumento lógico nada impede a possibilidade. Entretanto para fazer possível teria que ser um alien provido de uma extrema intensidade de anti-ductu natural.
     - E você, Crane? O que acha?
     - Bem, eu não sei... Hernandez foi o único que viu o suspeito... Sempre existe a pergunta: será que ele viu mesmo?
     Cocei minha costeleta.
     É verdade que a história toda é muito conveniente para Hernandez. As únicas impressões que existem na casa dos Johnson são as dele: no parapeito da janela e no interior da casa. Segundo ele, ele tinha se debruçado para avisar os Johnson do acontecido e então quando avistou o casal perecido, entrou deixando as impressões que ficaram dentro da casa. O relato dizia que ele abriu a porta (que estava destrancada, apenas encostada) e adentrou-se, esperando prestar socorro ao casal tombado no chão. Só quando chegou perto deu-se conta do que havia acontecido.
    A versão dele indicava que havia um alien envolvido. Enquanto que a possibilidade levantada por Crane indica que isso seria apenas um caso comum, que poderia ser deixado para a polícia convencional, e Hernandez seria então o principal suspeito.
     - Creio que é difícil de saber com certeza, não é...?
     Percebi que Joey estava demorando demais para entrar. Lembre que ele estava há apenas uns passos de distância quando o convidei para conferir a cena do crime. E mesmo assim deu tempo de entrar no quarto e trocar todas aquelas frases. Assim que isso me passou pela cabeça ouvimos a voz dele:
     - Tenente! Aqui!
     A entonação era de urgência, então todos os três corremos da casa dos Johnson para fora. Joey estava logo à porta, apontava para o telhado da residência de trás.
    Inclinei a cabeça para a direção apontada e o vi: um jovem de vinte e poucos anos e cabelos longos, vestindo uma espécie de sobretudo desabotoado que esvoaçava como uma capa às suas costas. A descrição era imbecilmente fiel ao relato de Hernandez. Assim que meus olhos pousaram sobre ele, o jovem saltou da casa vizinha na direção oposta a nós.
    Não deu muito tempo para pensar. Sem proferir nenhuma ordem aos demais simplesmente larguei meu cigarro na grama e pus-me a imitar seus movimentos, visando alcançá-lo. Ele já estava longe, mas não podíamos perdê-lo de vista. Saltei no telhado da casa dos Johnson depois alcancei o da residência vizinha também com um pulo só. O teto da outra residência já era um pouco mais afastado, então hesitei um pouco antes de pular.
    Embora eu conseguisse fazer o parkour assim como aquele alienígena, eu não tinha tanta maestria. Felizmente as casas acabaram e o caminho acabou se tornando um pedaço de floresta. Chegamos a um aglomerado de árvores que ficavam ao lado de uma estrada de Little Quarry. Não conseguia avistar o suspeito, mas meu anti-ductu indicava a direção que ele estava. Saltei do telhado ao chão e comecei a correr a pé.
    Percebi que apenas Joey havia me alcançado. Ele portava sua calibre 22 na mão.
     - Ele está aqui! – Gritei para Joey e apressei o passo. Joey deve ter apressado-se mais ainda, pois em alguns segundos ele me alcançou.
     Alguns instantes depois conseguimos ver o sujeito. Estávamos em uma descida que tinha poucas árvores, era mais um monte de grama com apenas uma árvore aqui e ali. Não tinha muito espaço para esconder-se. Ele tinha um objeto brilhante às suas costas e continuava correndo o mais rápido que podia.
     - Atire! – Disse à Joey. E ele obedeceu.
     Após o disparo ouvimos um barulho de metais se chocando, e o sujeito continuou em seu passo acelerado. Deduzi que Joey de alguma forma devia ter errado o tiro.
    Joey disparou novamente e o barulho de metais se chocando foi ainda mais nítido. Dessa vez percebi um pequeno movimento quase imperceptível do objeto que o fugitivo possuía amarrado às suas costas. Era uma lâmina de algum tipo. Ele provavelmente estava usando uma mão para defender-se dos tiros com a lâmina, retirando-a do suporte e após isso guardando a arma novamente no depositário amarrado às costas rapidamente. Isso requeria uma destreza admirável.
    Então foi que percebi que o fugitivo tinha perdido um objeto após o segundo tiro, que tinha caído ou de seu bolso, ou de sua mão. Provavelmente a segunda opção, pois se ele estivesse segurando alguma coisa e precisasse dela para sacar sua lâmina, este objeto acabaria caindo.
    Ali, após alguns pensamentos que me ocorreram em frações de segundo, decidi que cessaríamos a perseguição. Fiz sinal para o Joey parar e então me aproximei do embrulho que caíra do bolso de nosso alvo e o apanhei.
    As razões pelas quais optei por este caminho foram as seguintes: Primeiro que Joey nunca erra seus alvos com uma pistola. Então ele certamente tinha acertado, o que quer dizer que enquanto correndo e de costas o fugitivo tinha conseguido defender-se de dois tiros de uma calibre 22 com seu objeto às costas, usando uma mão só. Isto indicava o quanto era habilidoso. Segundo: eu e Joey estávamos excedendo o limite humano com aqueles saltos entre telhados e mantendo passadas de mais de cinquenta quilômetros por hora em terreno acidentado. Exceder o limite humano me desgastava. Deduzi que se o alien era do tipo que corria rapidamente sem muito esforço, ele planejava nos desgastar para depois, se necessário, vencer-nos facilmente com um contra-ataque surpresa, visto que possuía habilidade considerável.
    Era uma pena ter que perder o fugitivo, mas pelo menos ele deixara uma pista, o que com sorte nos traria informações com as quais pudéssemos identificá-lo com menor esforço físico.
     - O que é isso? – Perguntou Joey se aproximando de mim, referindo-se ao objeto caído do extraterrestre. Ele provavelmente também percebeu que só iríamos nos cansar se continuássemos a perseguição então não perguntou nada sobre a ordem muda de cessamento.
     - Parece um envelope com uns papéis dentro... O jeito é lavar para a central. – Suspirei – Droga... Estou ficando velho para este tipo de atividade.
     - Nada, tenente. Ele era inalcançável, mesmo.
     - Que seja... Vamos voltar. Agora sabemos se Hernandez estava mesmo inventando ou não o suspeito.
     Nem sempre as saídas a campo acabavam do jeito que a gente gostaria. Às vezes encontrávamos um morto no beco e nenhum suspeito, às vezes encurralávamos o suspeito prestes a sair da cidade de barco, às vezes não esperávamos suspeito nenhum e embora encontrássemos, este escapava de nossas garras.
    Ossos do ofício.
    Entretanto um amargo gosto ficava de saber que apenas não o alcançamos porque estávamos inferiores em questão de “indarra”.
    Indarra é outra habilidade característica dos chamados seres paranormais, objetos de interesse do DCAE. Já afirmei em ocasião anterior que zumbis têm força vastamente superior a do homem comum. A verdade é que a maioria das raças dentre as dez perigosas o tem. Citando o exemplo do alien, por ter misturada à sua espécie também características animais, sua força e resistência física é acentuada. Imagine uma formiga gigante de tamanho humano. Carrega até dez vezes o próprio peso. Pode ser pressionada por um sapato gigante e ainda assim sair praticamente ilesa. Pode cair de uma altura de vinte metros e sair andando normalmente. Parece muito mais resistente fisicamente que o ser humano médio, não?
    Da mesma maneira que os seres paranormais usam de sua rápida cognição para adquirir finesses impossíveis aos seres humanos, podem também usar sua força excedente para alcançar novos feitos, inimagináveis ao ser humano.
    A força não serve somente para bater nos outros com uma caixa de pesca. Uma aplicação interessante é a velocidade. Imagine o seguinte: um corredor de cem metros pode chegar a correr a mais de quarenta quilômetros por hora se for forte o suficiente. É claro, ninguém consegue manter esta velocidade em um percurso mais longo, mas na corrida de cem metros, tudo depende da força com que se aplica na ponta do pé para dar o impulso inicial. Nesta modalidade de corrida o corredor aplica toda sua força na ponta de seus dedos para que o impulso seja maior, permitindo-lhe atingir maior velocidade. É uma aplicação da força para obter outra característica física: a agilidade.
    A indarra é a força intrínseca das raças de destaque. Os zumbis, os aliens e as demais raças têm um grau de indarra. Mas esta força pode ser aplicada em diversas situações, permitindo seu dono realizar ações como saltar do chão direto para um telhado, saltar de um telhado de uma casa a outro, correr a mais de cinquenta quilômetros por hora em percurso acidentado. Outra aplicação da indarra seria a já mencionada finesse do Chapman, que consegue imitar a força de corte de um fio de nylon sem precisar do impulso do alvo. Como pode-se ver, sair por aí dando murros em vidros de joalherias com a força bruta, de longe não é a aplicação mais proveitosa que se tem desta particularidade. Este fator natural quando utilizado com decência pode se tornar muito mais perigoso do que parece.
    O que acredito que aconteceu ali é que o alien, somada à sua aplicação da indarra para aumentar a velocidade, ainda possuía características de um animal veloz. Como nem eu e nem Joey somos alienígenas, só pudemos usar a indarra sozinha, então acabamos ficando para trás.
     - Vocês estão loucos? O Hernandez estava olhando! O que você acha que tivemos que inventar para explicar sua velocidade absurda? – Explodiu Crane assim que retornamos ao local do crime.
     - Desculpe. Mas eu queria pegar o suspeito...
     - E não conseguiu. Claro. Ele estava muito longe. Nem valia a pena tentar.
     - Conseguimos isso. – Entreguei-lhe o envelope.
     - Como ele era? – Perguntou Lowe.
     - Fisicamente era exatamente igual à descrição do relato. Era muito melhor que o detento de anteontem em termos de habilidade. Defendeu duas balas do Joey com uma mão só.
     Crane me olhou indignada
     - Sem olhar para trás. – Acrescentei.
    Houve um instante de silêncio.
     - Sem desculpas... Vamos pegar esse sujeito. O DCAE já passou por coisa pior. Agora que temos isso – apontei o envelope com a cabeça - Espero que tenhamos alguma informação relevante. Ou pelo menos que seja suficientemente importante para ele voltar para buscar.
    Todos eles confirmaram com a cabeça e então fomos nos preparando para voltar à central. Um último pensamento me passou pela cabeça.
     - Joey? – Comecei
     - Sim, tenente?
     - Como você achou o alienígena? Viu ele por acaso?
     - Não. Meu anti-ductu me avisou. Dava para sentir ele ali de fora...
     - Como eu pensei. E nós três estávamos lá dentro, a cerca de mais de dez metros de distância e não sentimos... Quer dizer então que a intensidade do ductu era fraca ou mediana no máximo.
     - Sim. Não era grande coisa. Era parecido com a sua intensida... Digo... Não que o tenente não seja grande coisa, mas é que...
     - Entendi, Joey.
     Lowe entendeu aonde eu queria chegar.
     - Mas se a intensidade era fraca... – Ela completou – Então os Johnson...
     - Exato. Não poderiam ter sido mortos apenas com aquilo.
     - Hummm. – Fez Joey.
    Se fossem dois velhos caquéticos, na cadeira de rodas, sobrevivendo a base de aparelhos, provavelmente seria possível matá-los com um ductu de menor intensidade. Mas adultos de meia idade sem visíveis problemas de saúde... Seria muito mais difícil.
     - De qualquer forma, por ora vamos voltar à central. – Concluí.
  • Hinderman - Capítulo 4

    Continuação dos capítulos anteriores.
    Para ler os capítulos anteriores acesse: https://autores.com.br/component/search/?searchword=hinderman&searchphrase=all&Itemid=9999

     O Verde era mais novo que eu.
     Ele podia se vestir mais profissionalmente. Por exemplo, ali ele usava uma peça escura, quase preta, mas dava para ver que era verde se chegasse perto. Acho que era tipo um black-tie só que menos formal. Ele podia também ser o chefe do negócio. Ele podia ser mais sofisticado com suas palavras e atitudes, mas chegando perto dava para ver que era bem mais verde do que o maduro que queria passar a impressão que era.
    O Verde certamente era mais novo do que eu.
    Nós estávamos no esconderijo.
    Tá... Não era bem um esconderijo. Era apenas um local combinado. Um dos clientes do chefe era o dono do local. Um desses barzinhos que servem comida boa a preço de banana para fazer lavagem de dinheiro. O ambiente era escuro e um pouco claustrofóbico. Naquele horário estava cheio... De mesas vazias.
    Só estávamos nós quatro ali.
    Eu, o Gary e o Boe tínhamos sido todos convidados, mas aquele momento em específico fui só eu que acabei presenciando. Os outros dois estavam de pé ao balcão, uns dez metros mais para trás, discutindo qualquer outra coisa. Era o momento após a conversa inicial, quando todos já tinham terminado de trocar as informações sobre os casos. O chefe estava sem nada para fazer então me convidou para um jogo de xadrez. Os dois não jogavam, de forma que ficamos só eu e ele na mesa.
     - Mas por essa eu não esperava, senhor... Um alien saltando por entre as casas de Little Quarry e deixando vítimas à vista?
     - É o que aconteceu, Spikey. E você sabe... Vocês três sabem... Não só é trabalho da polícia, mas também nosso acobertar a existência de criatu... De pessoas talentosas como vocês. Afinal se todos souberem de vosso talento nosso trabalho fica muito mais difícil, não é mesmo? – O chefe fez um lance no tabuleiro. Estávamos apenas no início do jogo.
    - E o senhor tem certeza que não quer que encontremos o... O Alien?
     - Não será preciso, Spikey... Tenho razões para acreditar que ele não queria chamar atenção embora tenha chamado bastante. Na verdade... – Ele olhou de relance para os outros dois perto do balcão – Na verdade... Acredito que ele deve estar trabalhando para a “terceira parte”.
     O chefe se referia à terceira parte qualquer um que pertencesse ou que fosse empregado pelo Dragão ou por Wilkinson. Isso porque as gangues principais que restaram no que diz respeito ao negócio dos Deluxes são três: nós, o Dragão e o Wilkinson. Três partes. E quando não somos nós responsáveis por alguma coisa, então é a terceira parte, ou seja, a concorrência.
     - E o senhor... Baseia isso no fato de aquele envelope ter sido roubado?
     - Exatamente. – O chefe fez mais um lance estranho, atacando meu lado do rei sem se preocupar em defender o bispo previamente atacado.
     Os lances dele eram do tipo difícil de lidar. Ele esquece a defesa e parte para o ataque. É preciso jogar com muita precisão para sair bem sucedido neste tipo de jogo.
    O chefe prosseguiu:
     - Exatamente... E justamente por isso preciso que vocês três se concentrem no envelope e não no dono. Se ele trabalha para a terceira parte e perdeu o envelope ele já perdeu a missão. Agora quem pegar é dele.
     Ainda estava pensando no meu lance. Deixei escapar um pensamento:
     - Mas não entendo como um envelope pode ser tão importante assim... Quer dizer...
    O chefe inclinou a cabeça e me fitou mais sisudamente que o normal.
    Eu ia dizer que quase parecia que ele sabia de antemão o que tinha no envelope, e por isso sabia que era importante. Mas percebi que era algo muito direto de se dizer para o chefe.
     - Quer dizer...?
     - Er... Nada senhor. Estava pensando... O senhor tem uma ideia do que tenha dentro do envelope? Digo... Por fazer tamanho caso do acontecimento...?
     - O que há, Spikey? Perdeu a iniciativa? Está demorando demais nesse lance. – Ele se inclinou para trás, apoiando-se no encosto da cadeira. Parecia ter deliberadamente mudado de assunto. Não insisti na pergunta.
     - É... Eu não estou acostumado a jogar assim.
     - “Assim”... Meu estilo é o que chamam de jogador romântico, não é mesmo? Não romântico no sentido que inspire emoções amorosas, mas no sentido de que é o estilo jogado em 1840, na época do romanticismo.
     Confirmei com a cabeça e fiz meu lance.
     - E o seu estilo... Tem uma palavra para seu estilo de jogo também, não é mesmo? Como é que dizem? Um estilo “patzer”?
     Já que ele era o chefe podia falar esse tipo de coisa.
     Ele sacrificou mais um peão e retomou o assunto novamente:
     - Existe algo lhe incomodando, Spikey? Percebo que há uma falta de... “Comunicação”... Entre nós. Primeiro foi no telefone... O que foi aquilo sobre o Jeffrey? Aquela conversa sobre o emprego? Não é muito de você... De vocês três... Ficarem sobressaltados com a hipótese de uma troca de pessoal... Vocês sabem que tecnicamente vocês não fazem parte do pessoal, não?
     - Sim, senhor. Mas eu estava apenas... Apenas... -
     - Não me entenda mal, Spikey – Ele me interrompeu enquanto fazia seu lance – Eu gosto de vocês, na verdade gostaria de vocês no meu pessoal... Mas se há um motivo pelo qual vocês não fazem parte... Esse motivo veio de vocês mesmos, não?
     O Spikey-Gary-Boe se recusa a fazer parte de qualquer grupo após a saída do Canadá. Somos, com orgulho, mercenários independentes.
     - E agora mesmo fora de meu grupo, como contratados, estão me dizendo se eu devo escolher entre o mercador ou a mercadoria? O alien ou o papel? Parece um tanto incoerente, não?
    - De modo algum, senhor. Estava apenas perguntando...
    Sem me dar muita atenção, ele virou a cabeça para trás donde avistou o dono do bar, atrás do balcão conversando com o Gary e o Boe enquanto estes tomavam algum destilado. O dono do bar era amigo pessoal do cliente do chefe. O chefe chamou-o com um gesto.
     O amigo do cliente do chefe se aproximou. O chefe perguntou:
     - E então? Estão bebendo a essa hora já? Sobre o que estão conversando?
     O dono do bar respondeu apenas com um sorriso. Olhei na direção deles e eles estavam olhando para cá. Assim que o chefe e o dono do bar olharam eles desviaram o olhar.
     - Escute... Me traga um Martini seco, por favor?
     - Pode deixar. – Ele acenou e saiu.
     O chefe fez uma expressão despeitada com as sobrancelhas e enquanto pensava em seu lance volveu-se a mim novamente:
     - Do que eu estava falando, mesmo?
     O jogo já estava perdido. Meu rei estava encurralado no canto e quatro das peças dele estavam muito perto. Eu tinha duas peças menores e um peão a mais, mas todas estavam no canto do tabuleiro. Mesmo assim, ele ainda estava pensando muito naquela jogada.
     - Escute aqui, Spikey... Vou dizer uma coisa a você... As três partes... As três terceiras partes. Você sabe por que apesar do esforço da polícia elas ainda estão por aí? É porque não podemos fazer abuso do nosso... Do vosso talento. – Ele me olhou de soslaio – Você viu o que deu o abuso com o Jeffrey. Ele mal “nasceu” e teve uma vida curta.
     - Falando nisso... Será que ele não vai revelar nada sobre... “Os verdes”? Seria bom garantir que não?
     - Tenho razões para acreditar que ele não vai ter chance de soltar nenhuma informação... Mas deixando isso de lado, o que eu queria lhes dizer... Já que insistem em saber meus motivos... O motivo por que eu não quero fazer nada a respeito de Alexander Sprohic... O motivo pelo qual eu não quero nada com o Jeffrey agora que ele está preso... O motivo por que não quero capturar um alien à força... Se começamos a abusar muito do nosso... Do vosso talento... A polícia começa a ficar muito desconfiada e quando menos esperamos, puf! – Ele fez um gesto com a mão - A cor verde se esvai de Sproustown.
    Eu estava fazendo meus lances de maneira mecânica, já esperando a derrota irrefutável.
     - Existe um ritmo com o qual podemos fazer as coisas. E eu quero usar este ritmo agora, na captura do envelope. Seria bom capturar mesmo que um capanga de menor escala da “terceira parte”? Sim. Mas ainda mais importante é obtermos informações sobre as ações de Wilkinson ou do Dragão, não? Por isso quero me concentrar no envelope. Seria bom que pudéssemos nos vingar de Alexander Sprohic por ter nos deixado na mão? Sim. Mas ainda mais importante é presar pelo pessoal que temos agora, então é preciso economizar talento. Apenas usar o talento quando extremamente necessário.
     Ele não mencionou que foi ele próprio quem forçou Alex a perder o dinheiro, por isso não havia muito interesse por parte dele de receber o dinheiro de volta, mas claro que me refreei a mencionar esta parte.
    O chefe alcançou seu Martini da mão do dono do bar assim que este chegou, enquanto bebericava seu primeiro gole, concluiu:
     - Entende? É assim que trabalhamos, Spikey. A relação com a polícia é importante. Sem respeito à polícia não há respeito da parte da polícia.
    Aquela explicação, embora fizesse todo o sentido, não me revelava por que o chefe não largaria um alien para capturar um mero envelope se não tivesse certeza da importância do conteúdo. Mesmo assim, ainda com falta de umas informações, me dei por satisfeito. Afinal ele tinha razão: nada daquilo me dizia respeito.
    Eu teria desistido antes, mas deixei o chefe me dar o xeque-mate.
     - O xadrez parece até uma finesse sua, senhor. É realmente bom nisso.
     - Finesse?
     - Er... Nada não, senhor.
     Erro meu. Finesse é um termo usado entre nós, os seres “paranormais”. Eu não sei até onde os humanos conhecem os termos, logo é melhor falar disso o mínimo possível. O Verde, apesar de chefe de uma das “três partes”, cabeça de uma organização distribuidora de Deluxes em Sproustown, é um ser humano comum que coloca suas esperanças em aberrações contratadas como o Spikey-Gary-Boe. As outras duas partes não devem ser diferentes, afinal quem mais indicado que um ser paranormal para cuidar da sujeira desta linha de trabalho?
    Se um ser paranormal quisesse monopolizar o comércio ilegal de Deluxes em uma cidade pequena como Sproustown, provavelmente já teria conseguido, por causa das inúmeras vantagens que têm. Como ninguém monopolizava o comércio, ficava claro que os líderes eram humanos, e dependiam do esforço de criaturas como nós para alcançarem os objetivos que não conseguem por conta própria.
    Mas mesmo sabendo disso, olhando para aquele jovem imponente, usando aquela peça black-tie tão elegantemente e portando-se de maneira sutil embora hedionda... Há algo nele que o faz parecer muito mais impetuoso do que a fragilidade humana permite. Há algo que não me faz parar de pensar que daria um dos melhores seres paranormais se tivesse nascido como tal. Por isso, volta e meia, me pego cometendo gafes como essa, simplesmente supondo que ele conhece as verdades sobre o mundo paranormal.
    O chefe suspirou, reclinou-se no assento, com sua bebida em mãos, e passou a divagar sobre o seu negócio:
     - Alexander Sprohic hein...? Não posso negar que ele acabou roubando uma enorme quantidade de dinheiro... Pode acabar fazendo falta...
     E mesmo assim, ele nunca chegou a dizer que ele mesmo quem planejou o roubo.
     - Godfrey vai atrasar o pagamento, pois ele está com dificuldades na transação por causa do vereador...
     Ele estava com os olhos na lâmpada no teto. Deixava as frases no ar sem se dar o trabalho de terminá-las. De súbito voltou-se para mim e com entonação visivelmente mais resoluta emendou:
     - Mas isso não diz respeito a você, não é mesmo, Spikey..?
     - Er... Senhor...?
     - Haha! – O chefe bateu amigavelmente na mesa – Brincadeira, Spikey. Brincadeira. Eu vou deixar vocês três fazerem o seu trabalho. Não posso atrapalhar o trabalho dos peritos no assunto, não é mesmo? – Proferiu as últimas palavras demasiado pausadamente – Estou contando com vocês.
     Permaneceu me encarando, não sei se estava esperando eu me despedir ou dar uma resposta.
    Ainda havia algo me incomodando. Embora eu admita que o modo como o chefe se portava sempre me deixava desconcertado, eu não me deixava intimidar por ele ser um humano. Por isso, audaciosamente arrisquei uma última pergunta:
     - Senhor...
     - Pois não?
     - Agora à tarde o senhor nos chamou para conversar sobre esse envelope que havia caído do bolso de um fugitivo, que foi capturado pela polícia especial do DCAE.
     - Sim. E daí?
     - Não pude deixar de ouvir do Boe... Que o senhor havia também comentado com o... Com aquele gor.. Aquele senhor que estava aqui na semana passada...
     - Norman.
     - Isso. O senhor tinha comentado com o Norman... Que o Jeffrey havia sido derrotado com apenas um soco.
     O chefe apenas esperou-me completar meu pensamento.
     - Que mal lhe pergunte... Como fica sabendo tão certo o que se passa no interior do DCAE? Como recebeu informação tão detalhada como pistas encontradas na perícia ou quantidades de golpes trocadas em apreensões?
     Era uma pergunta audaz, mas eu não era do tipo de ficar inibido por um humano. Se eu estava curioso, perguntava. Podia ser o chefe da máfia, mas o máximo que ele ia fazer era não me responder.
    Poderia jurar que suas sobrancelhas se juntaram em uma expressão ligeiramente acirrada. Mas logo ele as transformou com seu afável sorriso:
     - Spikey... Esses são os contatos, meu caro. – Ele levantou-se da mesa após dar o último gole em sua bebida – Afinal, tudo é questão de boa política, sabe? Tudo é questão de boa política...
     Ele me ofereceu um aperto de mão e foi na direção do balcão, onde pôs-se a conversar com o dono do bar, que agora não estava mais tratando nada com o Gary e o Boe.
     Depois disso eu fui tomar uma brisa na área de fora do bar, embaixo do toldo, e lá estava também o Boe, fumando seus favoritos cigarros importados, Lights qualquer coisa.
     - E aí?
     Ele meneou com a cabeça. Puxei um assunto trivial:
     - E a patroa e a criança?
     - Estão em casa. Steve está na escola agora.
     - Ele está com quantos? Quinze você disse?
     - Dezesseis esse ano.
    Ficamos um momento olhando para a rua movimentada, de cima da varanda. O Boe perguntou:
     - E o chefe, Spikey? O que disse o chefe?
     - Como assim?
    O chefe não disse nada em especial, eu imaginei que foi uma pergunta retórica. Mas a entonação estava de uma maneira diferente, como se o Boe estivesse esperando que eu dissesse alguma coisa importante. Eu disse o que veio na minha mente, isto é, o que lembrei da conversa:
     - Ele apenas reforçou que devemos nos concentrar no tal envelope, e não no alien.
     - E também esquecer o irmão do Jeffrey...
     - E também esquecer o irmão do Jeffrey. – Concordei.
    Ele jogou o resto de seu cigarro sacada abaixo e me olhou diretamente pela primeira vez:
     - Ele estava olhando para gente. Ele disse alguma coisa?
     - Como assim?
     - Àquela hora que ele chamou o Alfred... Estava nos olhando com uma cara estranha.
     - É mesmo? Não percebi...
     - Olhe, Spikey... Se você fica muito amiguinho do chefe e nos passa para trás...
    Virei-me para ele com uma expressão insólita.
     - Por que eu faria isso, Boe? Você bem sabe que não quero nada com humanos. Só negócios.
    Houve um silêncio pequeno, por isso resolvi contar a parte em que o chefe me explicou o porquê da prioridade com que escolheu os casos. Resumi para o Boe como ele falou da relação com a polícia, de como ele esperava que o DCAE seria enfático com os verdes caso chamássemos muita atenção, como o chefe definiu que precisávamos usar nosso “talento” com responsabilidade, como o Jeffrey estava errado por ter agido como agiu na terça feira.
    O Boe ouviu tudo calmamente. Então concluiu:
     - Você viu? Isso indica que ele sabe o que tem dentro do envelope, não é?
     - É... Eu também acho isso. Não que o Spikey-Gary-Boe tenha algo a ver com isso, entretanto. Se ele não quiser falar nada sobre isso, então que não fale.
     - Mas Spikey... – O Boe me cutucou com o braço, mudando o tom da voz para um sussurro – Isso confirma o que eu te disse o outro dia, não? Ele sabe tudo o que acontece no DCAE.
    Não tinha como refutar. Eu estava achando que era exagero dele, mas parece que era isso mesmo.
     - O que significa... – Ele terminou a frase com entonação indagativa e reticente, como que esperando que eu a completasse, apontava o indicador na minha direção.
     - Significa o que?
     - Que tem um funcionário verde no DCAE. Não?
     Ele queria dizer: um espião. Um funcionário que trabalhava para os verdes.
     - Pode ser que seja... E daí?
     - E daí? – Ele deu um risinho – O que é isso, Spikey? Seu desinteresse por humanos é tão grande assim? Não gostaria de saber quem é?
    - Como assim..? Você sabe quem é?
    - Eu não. Mas eu gostaria de saber...
    - Por que?
    - Ora. Curiosidade... Esse fuxico de agentes infiltrados não te deixa curioso? Os fuxicos são o luxo da vida marginal alternativa.
    - E por que não pergunta para o chefe?
     O Boe me olhou com descrédito.
     - Nem tudo pode ser conseguido com uma conversa honesta, Spikey. Ainda mais quando se trata do Verde. Vejo que ultimamente Verde parece esconder bastante coisa de nós...
     Naquele momento Gary apareceu na porta e interrompeu-nos com um chamado, encerrando aquele assunto:
     - Amigos!
     Nós saímos do encosto da varanda e fomos na direção dele.
     - Vamos lá? Temos trabalho a fazer.
  • Humanos - A Retomada (cap.1)

    humanos copia

          Por anos, foi discutida as reais chances de existir vida fora do nosso planeta. Os flagras registrados nunca nos pareceram o suficiente para que pudéssemos acreditar, de fato, na existência alienígena. Talvez, o que chamávamos de tecnologia, não apenas havia nos levado para um rumo diferente, mas também nos cegado, pois nos tornamos incapazes de discernir com clareza o que estava acontecendo a nossa volta. E junto com o passar dos séculos, como uma lenda que tornara-se apenas um leve sussurro, os rumores de vida alienígena foram sendo esquecidos, reduzidos a conto de fadas. Como é de nossa natureza, seguimos dissecando o planeta Terra, usufruindo de todos o seus recursos e sem que percebêssemos, ele estava próximo a dar seu último suspiro. Então, como muito havia se falado a dez vezes cem séculos atrás, eles surgiram.

         Os mais velhos contam velhas histórias sobre brechas que simplesmente abriram-se no ar e as figuras nasceram dali; pavorosas e estranhas, munidas de armas nunca antes vistas e determinadas com sua invasão. Sem que pudessem entender o que estava havendo, objetos com formas diversas surgiram no céu e desceram para dar início ao que alguns chamam hoje de Recolonização. Ouvi dizer também sobre a existência dos grupos extintos que uniram-se para impedir o avanço dos invasores, mas que não resistiram por muito tempo. Grupos esses, que até hoje especula-se ainda existirem, mas nunca passou de um mero boato... As tais Nações. “Fomos dominados!” Assim conta um senhor: “... Não houve escapatória!” Mulheres, homens, crianças, negros e brancos... Todos subjugados como animais e tomados como objeto. Hoje, o planeta Terra não passa de uma grande fazenda, onde nós, humanos, somos identificados por um carimbo micro localizador que nós é dado quando nascemos. Sem nome, somos reconhecidos como Servidores, vivendo em imensos pavilhões conhecidos como Estábulos e existindo única e exclusivamente para suprir as necessidades de nossos colonizadores.

          — Esse velho sempre com essa conversa! – disse o rapaz na fila ao meu lado esquerdo esperando para receber sua higienização. — Nações, diz ele! – soltou um suspiro menosprezando o assunto. — Provavelmente essa coisa nunca existiu! Quem já ouviu falar disso?!

          — Pois, está enganado! – defendeu-se o senhor. — Elas existiram e foram a nossa última chance! – deu uma breve pausa. — E talvez ainda sejam...

         — Acho que está trabalhando demais nos campos, velho! – o outro ainda zombando jogou contra ouvindo a risada contida dos demais. — Eu nasci Servidor, assim como meus pais e meus avós e assim sempre foi até antes deles. – breve pausa. — Isso tudo o que você diz é coisa de sua cabeça... Devaneios por causa da idade! – finalizou antes de adiantar-se e entrar na câmara transparente que logo foi preenchida por vapor onde ele desapareceu.

          Por um instante eu fiquei vago, longe, então ouviu o velho dirigir-se a mim novamente perguntando, na verdade quase afirmando que eu concordava com o Servido que ainda banhava-se na cabine. Eu dei de ombros. A verdade é que para mim pouco importava o que havia acontecido séculos atrás. A única coisa que realmente havia de importante estava a minha frente, meu filho, o que restara de minha falecida companheira.

          — Bons tempos deviam ser aqueles. – o senhor soltou esperando que a câmara a sua frente também abrisse. — Bons tempos. – repetiu. — Já imaginou você poder ter um nome, filho? – agora falava com meu garoto que o olhava curioso. — Maravilhosos, não? – sorriu e então entrou no lavabo a sua frente e também sumiu nu no vapor.

          Meu filho, intrigado com a conversa do senhor questionou-me se aqueles fatos seriam realmente verdade. Os demais, calados, esperando também por sua vez, faziam-se passivos à conversa, mas atentos à resposta. Eu respondi que se aquilo realmente aconteceu, já não faria diferença, e que o que importava de verdade é que estávamos juntos e nada mudaria isso. Dito isso, a passagem abriu-se para que fizéssemos também a nossa higienização.

    “Essa madrugada acordei de um pesadelo. Havia fogo e sangue. Não entendi exatamente o que estava acontecendo, mas fiquei aliviado por ter sido apenas um sonho. Acho que as conversas daquele velho Servidor estão me afetando mais do que eu poderia ter imaginado. Preciso me acalma!. Não seria nada bom que meu filho me visse desse jeito. Sou tudo o que ele tem e não posso me deixar levar por histórias sem fundamento.”

          Antes que a corneta desse seu primeiro toque, eu já estava acordado. Meu filho dormia tranquilamente, mas já era hora de ir para os campos. Como percebi que ele não acordou resolvi despertá-lo antes que viessem intervir. Aos poucos foi abrindo os olhos, mas precisei apressá-lo, pois, ouvi passos se aproximando. Logo em seguida surgiu um Feitor, tão obscuro quanto qualquer outro.

          Por serem responsáveis por nossa vigilância, nós os chamamos de Capatazes e desde que me lembro, não houve se quer, um só Servidor que  conseguiu escapar de sua atenção. Todos os que tentaram coloca-los à prova, não voltaram para o Estábulo.

          Esse, agora em frente a nossa tenda, possuía, como a maioria deles, o rosto animalesco, negro e encoberto por uma espécie de elmo. Trazia com sigo, também, um bastão o qual apontou para dentro de nossa tenta. Rapidamente puxei meu filho para perto de mim e o vigilante manteve-se ereto observando o nosso dormitório. Tive certeza de que não era só apenas impressão minha, ele estava a procura de alguém. Então, repentinamente ele afastou-se e seguiu em frente. Respirei aliviado, e surpreso, percebi que meu filho parecia absurdamente tranquilo.

          — Todo bem? – perguntei buscando uma reação dele, mas nada me disse.

          Logo, ouvimos claramente junto com a confusão que cresceu instantaneamente os berros de um grande número de Servidores. “Coletores! Coletores!”. Meu filho, então, deixou transparecer seu desespero abraçando-se em mim com força. A nossa frente, surgiu como um fantasma pálido envolto por seu manto ainda mais branco, um Coletor e suas Lentes.

          — Não são pra você! – lhe garanti. — Não são! – eu repeti, mas dessa vez para que eu mesmo acreditasse.

          Levei meu filho para o fundo da tenda e o encobri novamente e me sentei o mantendo seguro junto a mim, mas isso não impediu que ele ouvisse os gritos, berros de uma Servidora que, em desespero, não conseguia impedir que levassem sua filha. Seu companheiro, tentando interferir, acabou sendo contido violentamente pelas Lentes.

          — Não são pra você! – voltei a dizer para meu filho. — Não vieram por sua causa. – tentei acalmá-lo.

          — Mas eles virão! – ele respondeu tremendo.

          — Não! Não irão... Só tenho você! – expliquei.

         O sistema de controle populacional é o que garante a ordem nos Estábulos. Quando um casal alcança o numero dois de Servidores-filhos, o mais velho é retirado deles. Eu mesmo quando era garoto, presenciei o momento em que vieram buscar meu irmão mais velho. E assim como meus pais, optei, junto com minha falecida companheira, que evitaríamos ter mais do que um Servidor. Nunca me perguntei para onde são levados. A verdade é sempre evitei especular essa pergunta, muitos de nós sabe que ela tira o sono. “Mas e se vierem?”. Meu filho ainda insistiu. A verdade é que me vi engasgado ao aceitar aquela ideia, mas a verdade era uma só. Eu mataria quem tentasse.

    Confira também.... Meu querido Manequim!
  • Janela

    Há pelo menos uma coisa que todos os humanos, sem distinções, fazem com frequência: dormir. Isso é algo bom, saudável e almejado, principalmente depois de um dia longo de trabalho. Entretanto, tudo isso tem um problema. Afinal, como saber como é não estar dormindo?
    A maioria das pessoas acredita saber quando está acordada por simplesmente terem nascido sabendo. Há aqueles que acreditam inclusive que conseguem controlar o sonho, então, se não podem controlar outra realidade, logo não é um sonho. Entretanto, não pode ser possível que a pessoa esteja em um sono tão pesado que ela simplesmente tenha perdido o controle sobre o seu subconsciente?
    João não pensava muito nessas possibilidades. É claro, já estava dormindo menos de três horas pelo quarto dia seguido quando finalmente terminou o seu projeto para a faculdade, então não pensava em muitas coisas fora isso. Não se lembrava ao certo de como acordou, se passou desodorante ou se escovou os dentes, mas isso era normal já que essas eram somente partes corriqueiras do dia e não estavam incluídas na ação do cotidiano. Uma ação que era monótona, mas que movimentava intensamente os seus sentimentos e causava tanta agonia em certos momentos que chegava a se assemelhar a um pesadelo.
    Assim que enviou o arquivo com o seu trabalho para o e-mail do professor, foi dormir. Não queria pensar em mais nada por umas doze horas seguidas e, por isso, somente se jogou na cama, se cobriu com um cobertor que não estava cheirando tão bem e fechou os olhos. Não precisou se dar ao trabalho nem de relaxar os músculos ou ficar pensando em algo para pegar no sono, simplesmente dormiu.
    Quando acordou, não se lembrava de ter sonhado algo. Tudo ao seu redor estava escuro, mas estava sonolento demais para se importar. Ele estava se sentindo bem mais relaxado e totalmente renovado, embora ainda sentisse a preguiça de ter acabado de acordar. No momento exato em que se levantou, todas as luzes acenderam. Não estava mais no quarto em que foi dormir, mas em uma cabine com paredes totalmente brancas. Não havia portas ou janelas, somente as quatro paredes que o confinavam em um espaço minúsculo. A sua respiração se encurtou com o medo e começou a pensar rapidamente nas possibilidades da causa de estar onde estava. Pensou desde abdução até um teste ilegal do governo e só depois disso pensou na possibilidade de ser um sonho. Essa era a resposta, tinha que ser isso. Mas, ao pensar mais um pouco, não parecia ser um sonho. Afinal, tudo parecia real demais, tanto que sentia a textura lisa e macia das paredes ao tocá-las.
    Não conseguia entender nada com total certeza e isso o frustrava. Com os olhos cheios de lágrimas que se recusavam a descer, ficou rodando o minúsculo lugar em que se encontrava para tentar solucionar o maldito quebra-cabeças em que estava. Quanto mais rodava, mais se esquecia dos detalhes daquela realidade que julgava ser a real. Toda a sua família, embora conseguisse ver com clareza o rosto de todos, parecia ser uma lembrança distante e quase tudo que pensava saber sobre eles não parecia totalmente certo. Sobre o seu irmão mais novo, por exemplo, ele se lembrava de ter ido na formatura dele da faculdade, mas agora, por algum motivo, sentia que ele era muito mais novo do que isso. Por não saber mais se poderia confiar na sua memória, a raiva gerada pela frustração começava a aflorar.
    No momento em que pensou que não sabia mais quem era, percebeu que o eu dessa realidade também não se lembrava de muitas coisas. Isso não era muito animador já que podia haver diversos motivos para ter tido perda de memória e aquilo ter sido o subconsciente tentando lembrá-lo de algo por meio de um sonho. Mas, de algum modo sútil, indicava que não podia confiar em nenhuma das duas realidades já que ambas podiam ser verdadeiras, nenhuma delas ou somente uma delas.
    O único jeito de saber no que confiar era testando a realidade em que estava. Não podia saber se o primeiro cenário era real porque agora só estava em suas memórias, mas ele estava no segundo cenário. Buscou em sua mente todas as lembranças sobre coisas que falaram de sonhos, embora não conseguisse saber nem quando, onde ou quem havia dito essas coisas. Lembrou-se de diversas coisas e por elas sabia que era difícil ler em sonhos por tudo estar embaçado e mudar de repente, que normalmente se sonha com locais conhecidos, e que, quando se percebe que está sonhando, é fácil de controlar o que acontece a sua volta. Infelizmente, só restava a última possibilidade já que não tinha nada para ler e com certeza não conhecia o local em que estava.
    Decidiu sentar em cima dos seus joelhos porque sabia que essa era uma das posições de meditação e com certeza iria necessitar da máxima concentração possível nessa hora. Fechou os olhos e imaginou aquelas paredes brancas explodindo e uma ilha paradisíaca surgindo a sua volta. Abriu os olhos estando mais calmo e relaxado. Quando terminou, a decepção caiu sobre a sua mente uma vez que tudo estava exatamente igual. Tentou repetir todo o processo e de diversas maneiras: olhos abertos, em pé, deitado e em mais umas outras dez posições. Nada. Absolutamente nada. Tentou também mudar a realidade dentro do quarto branco ao imaginar objetos e diversos possíveis superpoderes que queria ter. O máximo que conseguiu foi se sentir como uma criança de oito anos após assistir ao x-men e acreditar que talvez também pudesse ser um mutante.
    Todas as tentativas o deixaram exauridos mentalmente e sentimentalmente. A combinação gerou a raiva e essa fez ele começar a esmurrar as paredes com total ferocidade. Depois de uns vinte minutos socando o chão, o teto e cada uma das quatro paredes, atingiu um local que não havia nem encostado até aquele momento. Seria na altura de um interruptor e longe o suficiente da quina formada no encontro das duas paredes para que fosse construída uma porta se essas coisas existissem no quarto.
    No exato momento que atingiu esse suposto interruptor, uma das paredes começou a se levantar. João correu até ela pensando que podia ser uma saída. Entretanto viu que se tratava de um vidro cuja espessura não conseguia identificar. Assim que a parede parou de subir ao atingir o teto, uma vista surgiu através do vidro. Nunca tinha visto uma imagem como aquela. Estava na beira de um penhasco num dia ensolarado, talvez no meio da manhã, e de lá via um rio que vinha atrás de onde aquele quarto branco estava, passando distante o suficiente à sua direita para não simbolizar um perigo. Descia o penhasco em uma alta cachoeira e lá embaixo se tornava uma rápida corredeira até que entrava em uma floresta como um rio calmo e de correnteza não tão forte. Essa floresta não era muito densa, sendo composta principalmente por pinheiros. No fim de um mar verde de árvores, havia uma cordilheira de montanhas com um tom levemente azulado e com neve no topo da maioria delas.
    Ficou admirando aquela paisagem durante alguns minutos. Era extremamente reconfortante enxergar aquilo tudo depois de passar sabe-se lá quanto tempo somente vendo a cor branca. Depois de se acalmar, começou a encostar em cada parte do quarto em busca de algum outro botão. Afinal, se existia uma janela poderia existir uma porta. Provavelmente horas se passaram, mas a única coisa que conseguiu foi o fracasso. Deve ter percorrido todo o quarto umas cinco vezes antes de desistir sem achar nada.
    Após desistir, ficou muito tempo sentado na extremidade oposta a janela encarando a paisagem. Novas questões começaram a atormentar a sua mente: será que isso é mesmo uma janela? Não pode ser uma televisão? Essa seria a saída? Se fosse um sonho, durante a queda ele acordaria? Se não acordasse e morresse no sonho, morreria na sua outra vida? E se essa fosse a realidade, acabaria por se suicidar sem querer? A cada nova pergunta e possibilidade que surgia, abaixava a cabeça e colocava as mãos nos ouvidos os pressionando. Sentia o tormento de ter que tomar uma decisão importante. Então, esperaria para tentar recuperar pelo menos mais um pouco da memória e achar uma outra saída ou se jogaria contra o vidro esperando não se machucar e essa ser a solução para todo o seu tormento?
    Hesitava em tomar uma decisão. Sabia que não tinha como voltar atrás no momento em que pensou nas possiblidades que tinha. Nesse exato instante, soube que a sua mente iria atormentá-lo com as possibilidades que tinha de maneira eterna, principalmente se tomasse a decisão mais errada. E é claro que ele também sabia que não tomar uma decisão também seria somente a escolha de uma possibilidade. Não havia nenhuma chance de escapar disso, pelo menos não depois de ter pensado.
    Infelizmente, quando se tem que escolher por um caminho, não é possível ver o seu interior e também não é possível retornar. Também não se pensa muito no ter que escolher, se focando nos caminhos mais atraentes a sua frente. Talvez seja por isso que João não percebeu que ficou somente encarando aquele vidro e, por um longo tempo, escolheu involuntariamente ficar parado enquanto se perdia em seus pensamentos.
    No meio da bagunça da sua mente, encontrou uma trilha que o levou a uma afirmação. Ele percebeu que não valia a pena ficar parado em sua prisão sem fazer nada e que talvez ir na direção da morte valeria mais a pena do que viver muito em um cárcere agoniante. Embora nem sempre fosse assim, nessa situação tinha convicção de que o risco valia muito mais que a certeza. Por isso, se levantou lentamente e, assim que terminou de ficar em pé, gritou o mais alto que pôde para afastar os seus demônios. Se sentiu mais aliviado e gritou uma segunda vez, mas nessa começou a correr o mais rápido que pode. Atingiu o vidro com o máximo de sua força e usou o ombro como ponta de lança. Cacos de vidro se espalharam para todos os lados e começaram a cair de uma altura gigantesca junto com o corpo de João. Ele sentia o vento frio que entrava em contato com a sua pele quente e a sensação de liberdade que isso criava o fazia crer que podia voar, embora caísse em uma velocidade extremamente alta. Via rapidamente diversas partes da paisagem, tendo rápidas visões do verde da floresta e da queda d’água que estava ao seu lado. Talvez por ter simplesmente se livrado do peso de ter que tomar a decisão ou por algum outro motivo que ele nem sequer entendia, João gritava ao mesmo tempo em que tentava esboçar um sorriso. Com certeza estava feliz nos últimos segundos antes de acordar.
    Abriu os seus olhos lentamente, ainda confuso com tudo o que estava acontecendo. Só conseguia ver luzes e paredes brancas, o deixando com o coração acelerado. Os seus movimentos estavam limitados, mas não entendia o porquê disso. Ouvia vozes que pareciam estar muito distantes e que foram lentamente se aproximando. Depois de um tempo, conseguiu ver uma imagem ainda um pouco desfocada que conseguiu identificar como um médico.
    Aos poucos conforme os seus sentidos melhoravam, as notícias começaram a ser dadas. Depois de umas duas horas que havia enviado o trabalho, o professor havia respondido com as diversas mudanças necessárias. João foi acordado com o aviso do computador de recebimento de e-mail e, como o prazo era curto, resolveu acordar, ir até alguma loja que estivesse aberta e comprar energético, café e qualquer outra coisa que o deixasse acordado. Ele foi de carro, pois a única loja aberta durante a madrugada era a de um posto de gasolina que ficava muito distante. No fim, bastou uma batida para deixá-lo em coma por cinco anos e meio.
    Era difícil não deixar de pensar que podia ter saído do coma a qualquer momento desde que aquela janela apareceu. É claro que ele não tinha total certeza da relação entre as duas coisas já que pode ter tido muitos sonhos e esse ter sido somente um deles, mas os seus instintos tinham a certeza. Talvez muito tempo pudesse não ter sido desperdiçado e o seu corpo não definhado tanto se tivesse feito uma outra escolha. Ele não sabia na época que às vezes o tempo não tinha tempo para se ficar pensando nas escolhas.
  • Kidnapped - Sequestrada.

    POV'S Alessa Katherine Kendrick.
        - Se alguém tem algo contra este casamento, fale agora ou cale-se para sempre. - Disse o padre.
       - Amiga é agora! - indagou Courtney que estava sentada ao meu lado. E ao lado dela estavam Hanna e Babi. Éramos as damas de honra, e que honra. Sorri com meu pensamento.
        Olhei do outro lado e em outro banco estavam sentados os meninos que iriam nos ajudar. Meninos que estudaram conosco. Os olhei e pisquei.
       Um deles se levantou e veio até mim. Estendeu sua mão e eu segurei na mesma. Me pus de pé e estalei os dedos, como se fosse um sinal. Logo uma música começou a tocar. Uma música romântica. O que fez todos olharem maravilhados achando que aquilo faria parte do casamento. Meu pai olhou sorrindo achando que aquela era uma surpresa que eu havia preparado para seu grande dia. E realmente era!
       Logo a música ficou mais sensual. Soltei meus cabelos. Agora sim o jogo começou.
       Eu me movimentava conforme a música, subia e descia de costas para Daniel, o garoto que estava dançando comigo. Passei minha perna em volta de seu quadril e o mesmo segurou ela ali, fazendo com que meu vestido subisse mostrando parte de minha bunda. Pude ouvir vários murmúrios o que me fez sorrir.
        - Alessa! - advertiu meu pai.
        - Sim Papai? - o olhei com cara de desentendida.
        - Sente-se imediatamente! - disse mais vermelho que o normal.
        - Garota mimada! - retrucou a vadia petulante do altar.
        - Claro. - disse e realmente me sentei. Mas em cima do colo de Daniel, logo após deita-lo no chão. Comecei a rebolar e Daniel começou a se soltar, não pelo plano, mas sim porque o mesmo estava ficando excitado de verdade.
       Me levantei e fiquei em prontidão, logo as outras garotas se encontravam do meu lado. Ficamos paradas, imóveis, os outros garotos se levantaram e nos rodearam. Agora tocava “Love Me” de Lil Wayne. Os garotos continuavam a nos rodear. Eles colocaram as mãos nas nossas nucas e puxaram os fios amarrados do vestido, fazendo os mesmos caírem ao chão revelando nossas lingeries vermelhas idênticas e totalmente provocante. Caminhamos até os meninos que estavam parados uns do lado dos outros. Nos abaixamos em perfeita sincronia e puxamos as calças dos mesmos revelando as cuecas box idênticas, também na cor vermelha, logo puxamos o smoking e revelou seus peitorais muito bem definidos e com a gravata borboleta no pescoço. Podíamos ouvir vários "Óhh" das senhoras sentadas tapando os olhos de seus maridos. Logo começou a tocar “Side To Side” da Ariana Grande. Começamos a fazer a coreografia com os meninos. Havia as senhorinhas que nos encaravam e não sabiam o que fazer, umas até foram embora passando mal. Pude até ouvir uma delas dizer: “Barbaridade, no meu tempo não existia esse tipo de coisa”.
        Nos deitamos no chão e os meninos se deitaram por cima, se esfregando em nós, invertemos as posições e ficamos por cima, rebolando o mais que conseguíamos ou pensávamos estar sensual, sem parecer um bando de virjonas, tentando ser vadias só para estragar o casamento do pai.
       Com a música logo no final, olhei para o altar e a vadia tentava acudir meu pai que estava muito vermelho, a mesma abanava o rosto dele com um envelope. O padre estava estático.
       Peguei o vinho que eu deixei preparado na taça onde eu estava sentada e caminhei até ela, beberiquei o mesmo e ela já podia imaginar o que eu ia fazer.
        - Se você ousar... - joguei todo o líquido na cara dela, manchando todo seu vestido.
        - Ah... sua... insolente! – reclamou, passando as mãos pelo vestido branco, desesperada.
       A igreja se pôs de pé, comentando minha audácia, alguns jovens na flor da idade, com os hormônios à flor da pele, nos aplaudiam e assobiavam. Já os mais velhos estavam indignados, provavelmente achando que eu era uma filha ingrata e mal criada.
       Ouço o grito da vadia e olho para trás e vejo meu pai caído no chão. Droga! Isso não estava nos planos.
        - Aí, Alessa, fodeu vem! - disse Hanna me puxando para a saída.
       Saímos correndo e descemos as grandes escadas da igreja, todos da rua nos olhavam, por conta de nossas lingeries. Um garoto que estava de bicicleta, deu de cara no poste após prender sua atenção em nós.
        Nós, meninas, corremos para meu carro que era um Audi R8, que acabara de ganhar do meu pai de presente antecipado de aniversário. Iria fazer 18 anos daqui quinze dias e os meninos entraram no Porsche de Daniel logo atrás de nós.
        - Mano, isso não estava nos planos. - Comentou Babi.
        - É o meu pai. Preciso voltar! - disse com lágrimas nos olhos.
        - Aí Kath, deixa de ser dondoca! Ele apenas desmaiou. Se voltarmos agora, vai ferrar para todas nós! Conseguimos o que queríamos, agora é só esperar. O casamento não aconteceu.
        - Está certa! Está certa! Está certa! - dizia tentando confirmar a mim mesma.
        Parei em frente a uma praça.
        Logo quebramos o silêncio constrangedor com nossos risos escandalosos.
         - Meu, vocês viram a cara da vadia quando você jogou o vinho na cara dela?! - dizia Courtney nos fazendo rir ainda mais.
         - Aí, Alessa - chamou Babi -, depois dessa acho que seu pai vai te deserdar. - rimos de novo.
         - A essa altura nem me importo com grana. Sem contar que ele me deixou disponível na minha conta 5 milhões de dólares, mas eu só posso mexer daqui 15 dias quando fizer 18 anos. Além do mais, tem a fortuna da minha mãe que diferente daquela vadia, ela não se escorava em meu pai. É uma mulher independente! - disse orgulhosa.
         - Realmente. A tia é mó fodona. Admiro muito ela. Ainda mais os vestidos que ela faz. - disse Hanna se lembrando do vestido lindo de 15 anos que minha mãe havia dado de presente à ela a três anos atrás.
         Fomos para minha casa e já estávamos vestidas novamente com os sobretudo que havíamos levado de reserva no carro.
         Abri a porta de casa e adentramos a mesma.
        - Mas já estão de volta meninas? - disse minha mãe alegre. Quem olhasse para ela jamais diria que a mesma fora traída e abandonada pelo marido. Minha mãe era uma mulher que eu admirava muito, não demonstrava fraqueza, mas eu sabia que a noite ela chorava por falta de meu pai.
        - Mãe, foi maravilhoso! - sorri largamente pra ela.
        - É tia, fizemos tudo direitinho! - disse a bocão da Babi.
        - O... O que? - disse direcionando seu olhar para mim - Alessa! O que você aprontou? - disse autoritária.
        - Então... Sabe o que é mãe... - disse olhando feio para Babi - Bom...
        - Bom?... - disse me incentivando a continuar.
        - Ah mãe, qual é! Você aceitou esse casamento, mas eu não! E estou em todo meu direito de fazer um show e acabar com tudo. Não é só por você, é por mim, pelo papai e pela família que tínhamos e ele nem se quer levou isso em consideração. Não adianta nada ele depositar milhões de dólares na minha conta, me presentear com um Audi R8, me visitar e me tratar como princesa se no final do dia, ele vai voltar para aquela vadia, vai jantar com ela, se deitar com ela e acordar com ela! Pronto para construir uma família nova e eu vou estar pronta para me considerar órfã de pai se isso acontecer! - disse transbordando raiva.
         - Ah filha... - ela sorriu e me abraçou - puxou meu temperamento. Me conta todos os detalhes, derrubou vinho no vestido dela? Isso não pode faltar em nenhum lugar!
         - Sim mãe, joguei bem na cara dela! Olha como ficamos na igreja... - disse abrindo o sobretudo e revelando a lingerie vermelha. A mesma arregalou os olhos e soltou um gritinho histérico, logo nos puxando para o sofá e nos fazendo contar cada detalhe.
  • Literatura eletrizante!

    Não conheço ninguém que já tenha tido a honra de ter um gênero literário inspirado em seu nome além de Nikola Tesla. O engenheiro elétrico e inventor nasceu na Sérvia, em Smiljian, no ano de 1856. Devido as suas grandes contribuições científicas e teorizações acerca da energia elétrica, acabou despertando os escritores de ficção para a escrita de histórias que englobassem a relação da sociedade com a energia elétrica.
                Meu primeiro contato com o gênero Teslapunk veio com uma antologia organizada pelo Maurício Coelho, prolífico escritor e tradutor, além de antologista. Assim como outros subgêneros da ficção científica a exemplo do steampunk, dieselpunk, solarpunk e o famoso cyberpunk, as narrativas se desenvolvessem explorando a interferência da tecnologia na vida humana, muitas vezes, de modo negativo.
                Em mais uma antologia do selo Cavalo Café, a obra Teslapunk: Tempestades Elétricas, Maurício Coelho acertou a mão escolhendo dez contos para participar de mais uma antologia, sendo o próprio organizador um fã da temática e publicando também um conto. A Editora Porto de Lenha trouxe uma ótima edição, tem orelhas, ilustração de Rafael Danesin, papel do miolo amarelado, ilustrações internas, página de abertura com fotos e biografia dos autores, prefácio e posfácio. O que faz do livro um show de editoração.
                O prefácio é escritor pelo Prof. Dr. Alexander Meireles da Silva. Professor da UFG, mestre e doutor em Literatura. Aqui ficamos sabendo um pouco mais sobre a origem do gênero literário e sua relação com a produção contemporânea. O Teslapunk se insere nas propostas punk de contestação, mas não deixa de ser um tipo de Retrofuturismo. Além disso, vemos a influência de Tesla na cultura pop.
                O primeiro conto da antologia é o mesmo do ilustrador, Tunguska, 30 de junho de 1908. Já li um outro conto do colega escritor numa antologia de cyberpunk. O texto investe muito na metaficção, ou seja, você obrigatoriamente deve ter muita leitura anterior para entender. Para mim, não foi difícil pegar as referências, mas o leitor médio não vai pescar. Não darei spoilers. O conto só peca nisso mesmo, merecia mais páginas.
                O conto seguinte é o trabalho de estreia do Gabriel Mascarenhas, é o melhor da antologia, na minha opinião. Teletransfoto traz um clima de ficção policial dentro de uma história Teslapunk. O conto é tão bom que você sente uma nostalgia, você se sente transportado para as antigas narrativas Pulp Fiction, quando talento e originalidade eram essenciais para se contar boas história. Parabenizo ao autor, foi genial.
                Pedro Graeff nos traz um Teslapunk e narrativa histórica, uma mistura que casou muito bem em Guerra Fria. Através de uma ação cotidiana, memórias de guerras travadas a muito tempo são destrinchadas. O uso da energia elétrica como força bélica Segunda Guerra Mundial mudou as relações beligerantes. Como estudante de História eu curti esse conto demais.
                Armistício de Sangue é escrito pelo Daguito Rodrigues. Além de escritor, o autor é repórter e roteirista. Algo que influenciou bastante seu conto. Foi o segundo que mais gostei. Vi aqui uma contestação política e um questionamento existencial ousado e que faz muita falta nas produções de hoje. Aqui, um policial está tentando dar conta do salvamento de reféns numa faculdade, mas nada será o que você pensa.
                João Augusto de Nardo é um escritor de terror sem igual. É editor da Revista Aterrorizante. Em seu conto Barracão 13, temos uma narrativa muito curta, mesmo em primeira pessoa, senti que faltou explorar mais. A história gira em torno de um rebelde que acaba descobrindo planos do governo que incluem poderosas máquinas assassinas. Caio Fraga traz um conto interessantes, com direito a viagem no tempo e tudo mais. O segredo do tempo vai te parecer confuso até o fim. Mas quando chegar lá, o autor vai te surpreender.
                Raios e escuridão é o conto do Adnelson Campos. Flerta bastante com o paranormal. Até o fim da história não sabemos quem influência a mente de Tesla em suas criações, o que nos faz pensar quais seriam as consequências direta desse contato. Jonnata Henrique é poeta e contista de mão cheia. Aqui ele misturou Teslapunk com faroeste. No conto a Centelha de Zeus, faroeste em Oeste Rochoso traz a mobilização de uma cidade inteira atrás de um estranho artefato que pode gerar energia elétrica ilimitada.
    B. Jenitez é um autor que eu já conheço da Revista Somnium. Seus contos sempre tem um quê de narrativa experimental. Eu gosto muito das suas propostas narrativas. É inspirador como a forma do conto altera a nossa percepção dos acontecimentos da narrativa. No conto Passaporte para Magônia, escritos apócrifos de Tesla revelam experiências únicas e que evidenciam contato com formas de vida não humanas.
                O conto que publiquei nessa antologia, minha estreia no gênero Teslapunk foi uma história ambientada num Brasil em plena ditadura, onde energia elétrica é usada como forma de controle e segregação da população. Em Dançando sobre as faíscas, Watts é um homem que está adentrando um terreno perigoso: o do traficante de energia. Mais seus objetivos vão muito mais além da necessidade energética.
                O conto do organizador Maurício Coelho traz várias questões à tona, dentre elas as criptomoedas e a questão da imigração ilegal. Cidade Luz se passa em Belém do Pará, o protagonista Plínio contata o angolano Lévy para executar um roubo a criptomoedas. O imigrante até tenta se desvencilhar da proposta, mas o outro é mais insistente. No fim, o roubo ocorre com graves consequências para um deles.
                O posfácio é escrito por um autor da velha guarda, o Prof. Dr. Edgar Indalecio Smaniotto. Antropólogo, filósofo, e ainda mestre e doutor em Ciências Sociais. Pesquisador de diversos aspectos da ficção científica como o transumanismo. Aqui conhecemos um pouco mais sobre as origens de Tesla e sobre a ciência acerca da eletricidade. Aspectos de sua psique e de sua vida são importantes para entender e até produzir ficção no Teslapunk.
                Com todas essas informações, esse livro se torna obrigatório em sua coleção. Além da leitura de onze conto incríveis, você conhece um pouco sobre a biografia de um grande cientista moderno, um novo subgênero da ficção científica, tudo isso num único livro com edição pra lá de ótima. O Maurício além do talento é muito eficiente e talentoso, gostei de trabalhar com ele nessa antologia.
    Para adquirir o livro acesse:
    http://portodelenha.com/livraria/conto/85-teslapunk.html
  • MACACO MATRICULADO

    I
    De tudo eu já vi um pouco
    Nesse mundo de meu Deus
    Vi panela dá pipoco
    Que a tampa se perdeu
    Vi conversão de ateu
    Coisa do “arco da velha”
    Mas pus em pé minha orelha
    Quando alguém veio informar
    Que viu macaco falar
    Isso é coisa sem parelha!
    II
    Disse-me certo sujeito
    Que tem consideração
    A quem eu devo respeito
    Falou-me de antemão:
    Me faça uma boa ação
    Em nome da amizade!
    Já rodei toda a cidade,
    Gastei do sapato a sola
    E não achei uma escola
    Que faça essa caridade!
    III
    Perguntei com lealdade
    Qual é a sua aflição?
    Afirmou sua verdade
    Com muita convicção
    Disse: eu tô criando um cão
    Dum macaco que ganhei
    Num jogo que apostei
    E me sobrou esse bicho
    Mas ele tem por capricho
    Falar às vezes, que eu sei.
    IV
    Eu disse: Ih! Me lasquei!
    Vou ter que acreditar nessa?
    Lá vem você outra vez
    Com tua fala as avessas!
    Querendo me pregar peça
    Nessa de bicho falar?
    Fui tentando me livrar
    Mas já me vi no fuxico
    Vi a sinuca de bico
    Disse ele: vamos apostar?
    V
    Se você matricular
    Meu macaco nessa escola
    Se ele logo não falar
    Eu lhe dou essa sacola
    Toda cheinha de dólar
    Notas verdes e cheiro novo
    Que eu quero mostrar pro povo
    Que esse bicho ler já, já!
    Eu pensei: vou me lascar!
    E prometi esse estorvo.
    VI
    Para atender ao pedido
    Matriculei o macaco
    Para não ser mal-ouvido
    Enem me tornar velhaco
    Com um tema no sovaco
    Sem perder o rebolado
    Não estava preparado
    Disse assim: isso não cola
    Um macaco na escola,
    Vai dá o maior babado!
    VII
    Pensa que macaco é gente?
    Você está enganado!
    É um bicho renitente,
    Mungangueiro, enfezado,
    Pinturento, acanalhado,
    Buliçoso, trapalhão
    Fazedor de expressão
    Das piores que não presta,
    Acabadozim de festa
    E criador de confusão.
    VIII
    Foram os dias num estouro
    Já quase o fim da semana
    Eu quase tirando o couro
    Do comedor de banana
    Num entra e não entra em cana
    Para dá satisfação
    Para uns pais metidos a cão
    Perguntando por capricho
    Quando vai tirar o bicho
    Do centro de educação?
    IX
    Na quinta ou sexta nem lembro
    Eu já meio abufelado
    Querendo arrancar um membro
    Daquele bicho safado
    Eu me sentindo acuado
    Sem ter mais razão pra dar
    Eu chamei pra informar
    E disse sem medo ao dono:
    Lhe digo e não desabono
    O bicho não vai falar!
    X
    Vou buscar o seu dinheiro!
    Disse o dono cabisbaixo
    Eu tomei um jeito ordeiro
    Fiquei com cara de tacho
    Quando entrou voando baixo
    Dez meninos embalados
    Eu olhei os condenados
    Com cara de “ovo-gôro”
    Me disseram um desaforo
    Que o bicho tinha falado.
    XI
    Eu fiquei injuriado
    Perguntei: Como foi isso?
    Um moleque obstinado
    Disse: vou lhe contar isso
    E naquele reboliço
    Eu fui ficando suado
    Num "me deixa contar" danado
    Dois berros bem alto eu dei
    "Fala um de cada vez"!
    "É quero bem explicado"!
    XII
    Começou o ilinhado:
    O bicho entre os pirralhos
    Gritou um coordenador
    Quando tocou o chocalho:
    “Cada macaco em seu galho”!
    Um moleque obstinado
    Correndo foi dando um brado:
    Sai daí desse buraco!
    Gritou de lá o macaco:
    “Eu estou matriculado”!
    XIII
    Ali eu engoli seco
    Aquela notícia triste
    Me encolhi como um marreco
    Pensando no que consiste
    Desse: é de tudo existe!
    Me sentindo encabulado
    Pra manter meu nome honrado
    Aguentei essa marola
    Tendo que deixar na escola
    O macaco matriculado.
    XIV
    Daquele dia pra cá
    Eu fiquei com mais cuidado
    Pra nunca mais noutra entrar
    Me senti gato escaldado
    Vivendo sempre armado
    Já tomei essa medida
    Disse até o fim da vida
    Se alguém disser: isso fala!
    Tu diz que fala ou não fala?
    Digo “o diabo é quem duvida”!
  • Marciano Inocente - Obrigado música

    "A música é o melhor remédio para a minha alma
    Sinto um amor tão profundo, uma alegria que me acalma
    Ela me entende e me consola
    É minha companhia perfeita em toda ocasião
    Ao tocar, cantar e dançar sou levado pela emoção
    E esqueço todas as tristezas desse mundo
    Obrigado música por tocar em mim tão profundo
    Agora eu sei que com você eu tenho talento
    Quero estar contigo em todos os momentos"
  • Meu querido Manequim(cap4) - "romance-ficção"

    Não se sinta perdido! LEIA os capítulos anteriores! Tenha ótima leitura!

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    Era manhã de sábado nublado quando Emily despertou ao ouvir um barulho vindo dos pés da cama, no roupeiro. Era Thomas. Nem mesmo ele esperara que aquela gaveta fosse correr tão de pressa e bater fazendo um barulho seco. A verdade é que, também, não teria reparado que Emily havia acordado se não tivesse ouvido o chamado preguiçoso a suas costas. “Tomyyy”. Parado com um par de sapatos em mãos, ele permaneceu aos pés da cama e a fitou sem dizer nada. Normalmente teria se aproximado para afaga-la em seus braços, mas dessa vez, sem sair de onde estava, deixou que ela continuasse o que estava dizendo.

    — O que você ta fazendo? – disse sonolenta.

    — Só pegando umas coisas. – ele respondeu erguendo e mostrando os sapatos. — Desculpa! Não queria te acordar agora.

    — Não, tudo bem! Mas aconteceu alguma coisa? Onde você estava? – perguntou em seguida. — Liguei pra você noite passada, deixei mensagem e nada de você me responder! Fiquei preocupada. – concluiu.

    — Eu to bem! – falou seco antes de catar mais algum outro item e seguir dizendo. — Já que... Você acordou, podemos conversar na sala? – parou por um segundo e depois deixando o quarto.

    — Tomy! – chamou novamente, mas pareceu que não fora ouvida. — Saco! – resmungou jogando-se novamente no travesseiro ao percebe que ele provavelmente estava emburrado.

                Ainda de pijama, Emily, o encontrou na sala, escorado sobre o encosto do sofá.

    — O que você tem, hein?! – aproximou-se dele. — Acordou com o pé esquerdo, foi?!

    Imóvel, com os olhos fixo nela ele disse calmamente.

    — To indo embora!

    Em um primeiro instante Emily achou graça e até riu achando que fosse algum tipo de brincadeira, mas depois de alguns segundos percebeu que Thomas manteve o semblante sério. Só então, ela avistou as malas postas perto da saída do apartamento.

    — Você ta falando sério?! – agora falou petrificada. — Embora pra onde? – sem entender direito o que estava acontecendo.

    — Por enquanto já acertei com ela e vou ficar na casa da minha irmã por um tempo até eu achar um outro lugar... – explicava.

    — Mas por que isso?! – intrometeu-se. — Você bebeu noite passada, foi isso?

    — Não, Emy! To bem sóbrio! E ta cada dia mais clara a situação...

    — Mas do que você ta falando?! – ela parou por um segundo. — Foi por causa daquela noite, é isso? – colocou com um tom mais sério achando que havia encontrado o motivo. — Vai embora só por que não fizemos sexo? Mas me faça o favor, né Thomas!

    O outro respirou fundo rindo-se.

    — Então, pra você esse é o motivo? Se resume a isso? – pausa. — Você não consegue nem mais enxergar o que ta acontecendo!

    — E o que tem pra eu enxergar?! – estendeu as mãos indignada.

    — A nossa vida, Emy! A gente já teve essa conversa mais de mil vezes e você nunca fez questão de encarar que não ta dando certo, caramba! – respondeu em um tom mais áspero. — Um de nós dois tem que reconhece isso! – colocou.

    — Mas reconhecer o que?! – questionou o outro. — Que você surtou de uma hora pra outra? Só se for isso!

    — É exatamente disso que eu acabei de falar! – agora falava com os braços abertos. — Você não enxerga mais a gente. O nosso relacionamento não existe mais! Ta desgastado! Você só vive pra aquela loja. – esclareceu.

    — Claro! Só podia ser por isso. – respondeu não demostrando estar surpresa por estarem novamente discutindo aquele assunto. — Você também vive naquela floricultura e eu não reclamo. – defendeu-se.

    — Mas coloquei você... O nosso noivado em segundo plano? – ele defendeu-se jogando contra.

    Emily buscou fôlego.

    — E o que você quer? – pausa. — Que eu largue tudo o que eu consegui até agora por nada?

    — Nada! – Thomas repetiu incrédulo. — Acontece que esse NADA é o nosso noivado, nossa vida! E você não dá mais a mínima pra ela. – despejou desgostoso.

    — Como não dou a mínima, Tomy? – sem acreditar no que ele acabara de lhe dizer. — Você enlouqueceu?! Só pode ser isso, meu Deus! – embravecida.

    Thomas largou um sorriso desgostoso.

    — Sim. Tanto que a prova da minha loucura ta lá no quarto. – apontou para o cômodo. — Ao lado da cabeceira, já faz dois dias. – completou.

    Emily não entendeu a que ele se referia. Sem dizer mais nada, Thomas deixou a sala e seguiu para a saída, em direção as malas.

    — Agente precisa disso. – comentou sobre a decisão que tomara. Parou por um instante até voltar a falar. — Não to levando tudo – avisou abrindo a passagem. — Mas... Assim que eu me resolver eu volto pra buscar o resto!

    — Então faz como você quiser! – Emily respondeu com o olhar baixo e agora escorada ao marco da grande porta que ligava a sala e a cozinha.

    Thomas, com um gesto sutil, concordou com a face e então fechou a porta e foi embora depois de se despedir.

    Emily, buscando recompor-se, esfregou as mãos sobre o rosto e buscou as horas no relógio pendurado na parede. Viu que acordara bem mais cedo do que o normal. Chorosa, foi até o quarto. E como Thomas havia dito, encontrou ao lado da cabeceira um pequeno cartão vermelho. Quando o abriu, leu uma mensagem amorosa com dizeres de bom dia. Sem conter as lágrimas, entregou-se a cama.

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    Sumário
     Agradecimentos..........................3
     Introdução......4
     Capítulo 1- O nascer e o torna-se.....5
     Capítulo 2-Realizando a magia.......12
     Capítulo 3- A magia é vida, mas não é um ser 
    vivo....20
     Capítulo 4- O mundo sem o véu..........26
     Capítulo 5- O fanatismo, o grande o veneno mágicko......33
     Capítulo 6 - A verdade liberta, mas é dolorosa....39
     Capítulo 7 - DIY mágicko.............47
     Capítulo 8 - A bruxa que vive entre os santos e os pecadores............ 54
     Capítulo 9 – Os Deuses, e o Fim da farsa da Realidade Dualística...... 59

    Agradecimentos
    Minha gratidão é voltada para o meu companheiro Soul, que me apoiou desde o início desta caminhada, me ajudando a melhorar ainda mais como ocultista, e jamais desistir das minhas convicções, mesmo quando o mundo inteiro, parecia discordar das mesmas. Também deixo minhas graças aos meus amigos: Lua Negra, Srtoa Gamab, Milliato, Rivendell, Srta Rabbith, Mandy, Tha, a Witch born on fire, e Isa, que me ajudaram a perceber quê este tomo poderia ser útil as próximas gerações. Por fim reconheço também o auxílio de minha mãe Silvana, que apesar dos pequenos atritos pelas crenças diferentes, sempre acreditou em mim e nos meus ideais. Obrigado a todos vocês, que me deram ânimo para chegar até aqui, e terminar este projeto. Não sei o quê me aguarda depois disso, mas certamente é um feito e tanto, e me orgulho por plantar esta semente, que vocês com carinho e paciência regaram.

    Introdução 
    É válido mencionar, que jamais tive a intenção de escrever um livro voltado para o aprendizado dos demais. Afinal há muitos autores, infinitamente melhores do quê uma velha bruxa, em um corpo não tão jovem. 
    Mas devido ao grande número de desinformados, que se acham conhecedores do mistério, e tudo o quê mesmo representa, vejo que é hora de assumir o meu manto de ocultista outra vez, e trazer-lhes algumas verdades nada convenientes. 
    Não estou aqui para lhes ensinar fórmulas, que vão mudar as suas vidas num estalar de dedos. Muito menos sobre como devem adorar seus deuses, ou o quê é o certo e o errado. Não sou uma bússola moral para tomar tal partido, apenas viajo de mundo em mundo, para libertar aqueles que aceitam o preço da liberdade. A ignorância pode ser uma benção, mas é a coragem que determina quem tem a chave do tudo. O inimigo é astuto, logo devemos ser justos, mas isto não significa dissociar, e se abster, e sim que devemos está preparados. Você pode não compreender estas palavras no momento, mas logo entenderá o quê cada frase significa.
     Se escolheu decifrar este livro, é porquê ouviu o chamado, mas não estou falando dos filhos do sol, e sim de algo mais amplo e intrigante.
    Há memórias de um mundo que querem te fazer acreditar que não existe. Há poderes que um ou nenhum dos seus parentes consegue explicar. Há mistérios em teu íntimo, que quer desvendar.
    As respostas estão presentes aqui, mas está pronto para ouvir o quê a primeira causa tem a dizer? Não será um caminho fácil, por isso é necessário que esteja pronto para esta jornada, que saiba no mínimo o quê é a espada e o escudo, e como usá-los. Do contrário será devorado pelos teus demônios, antes mesmo de ouvir a palavra da força geradora.
    Eu sei, parece o roteiro de algum filme de ficção científica bizarro, porém tudo o quê for mencionado aqui, será focado na minha experiência real como bruxa, e no aprendizado que isto me trouxe no decorrer do tempo. Está preparado? Então vire a página, pois a aventura o aguarda jovem peregrino.
    Capítulo 1
    O Nascer e o Tornar-se 
    Vivemos numa sociedade cheia de liberdade, que acredita bastante no ideal de igualdade, e que todos podem entrar no mundo da magia, sem discriminações de espécie. 
    Não estou aqui para me impor sobre tal coisa, porém acredito -e é o quê devia ser ensinado- que há aqueles que nascem com a predisposição para a magia, e os que infelizmente, não foram agraciados pelas divindades.
    Isso faz com que estes sejam mais fracos? Não. Eles devem ser escorraçados, e friamente criticados ? Também não. Apenas devem ter consciência de quê a sua busca, certamente será mais trabalhosa e longa – ou não se souber usar os meios certos, mas não vem ao caso – Por isso jamais devem se comparar aos que possuem habilidades naturais, pois tal atitude culmina em desencontro com o propósito inicial, de descobrir-se neste caminho.
    Não pense em nenhum momento, que o fato de ser somente humano te faz inferior, isso não significa muita coisa, quando você sabe que há meios de melhorar as suas habilidades.
    Já os predispostos, deveriam entender que o fato de terem recebido dons da natureza, não os faz automaticamente deuses, apenas lhes dá alguma vantagem em relação aos outros. Mas uma vantagem, não significa uma vitória garantida, portanto devem estudar e se preparar, tanto quanto os que não foram agraciados, para superar suas limitações, que sim existem.
    Não importa o quê são capazes de fazer - se levitam, se incendeiam, se preveem, manifestam, projetam, e tudo mais-  isto não os faz bruxos, apenas são detentores de habilidades especiais. Tanto o filho de um deus, quanto o filho do homem, precisam de treinamento, e conhecimento, para poder serem dignos de tal alcunha.
    É nos ensinado desde o começo, que precisamos andar em grupos, para poder obter o grau de bruxo, mago, ou feiticeiro. A sociedade mágica insiste em seguir essa premissa, mesmo nos tempos atuais, e isso atrasa bastante a vida de um novato.
    Grupos, como: Ordens e Covens, Podem até servir para ajudar no entendimento de certos assuntos, mas a realidade é que se queres realmente o poder, não deve seguir com ninguém mais, além de ti mesmo.
    Afinal de contas, o ocultismo no fim é apenas uma forma de encontrar-se, e não é no meio da multidão, com suas ideias diversificadas, que conseguirá te achar, no máximo ficará ainda mais confuso e perdido.
    Você se encontrará apenas quando não houver ninguém por perto, quando estiver sozinho num quarto escuro ou claro, questionando-se sobre o quê é, como, e o porquê das coisas.
    Por isso não acredite em líderes, que fazem questão de impor que precisa deles, acredite em ti mesmo, e naquilo que vai de acordo com a tua personalidade, e o quê tu consideras certo ou errado.
    E este tópico nos leva a outra questão. A magia tem se tornado um grande alvo do entretenimento. Para onde olhar  há “bruxos” ou “seres místicos”. O quê é uma coisa boa, mas somente para a diversão, pois tudo o quê se encontra nos filmes, seriados, desenhos e afins, são apenas fragmentos de textos ocultistas, e qualquer um de bom senso sabe, que não dá para entender o texto com apenas um verso, pois o mesmo pode servir para expressar diversas possibilidades, e se apenas escolher ler tal parte, jamais entenderá o contexto para que foi criado, por isso não use tais meios para aprender sobre o caminho. 
    A verdadeira magia, influencia o ambiente, mas o ambiente não influencia a magia. Logo uma obra midiática pode ser inspirada em algo oculto, só o quê o oculto, não pode advim de uma obra midiática, do contrário todo o entendimento se perde, e em vez de formar a sua inteligência divina, apenas a degrada e a transforma em loucura vã.
    Um bruxo de verdade- homem ou ser mágico- Sabe disto por instinto próprio. Entretanto com tantos jovens adotando posturas erradas, por conta do quê assistiram, é sempre bom frisar tal fato.
    Como disse antes são verdades inconvenientes, por isso não espere que eu vá apoiar uma conduta tão inapropriada para o ocultista.
    Queres ser um bruxo? Então leia, pesquise, estude, questione-se, e faça-se um. 
    Não espere que apenas porquê mudou o caminho, e deixou de seguir com as ovelhas, tudo será mais fácil. Verdade seja dita, se quer conforto, e evitar desafios que podem te fazer desmoronar, seu lugar não é aqui. Não importa se tem o sangue, sem essência jamais conseguirá sair do lugar.
    A magia não é um caminho simples, nunca foi. Apenas os que se encantam por sua versão comercializada de luzes e pó brilhante, acreditam nesta falácia.
    O agraciado deve aprender a controlar seus dons, para não ferir os que não merecem receber tal castigo, e o humano deve procurar meios, de melhorar seu espírito, ou DNA cósmico, para garantir que conseguirá manifestar alguma habilidade.
    Só que ambos precisam passar pelo mesmo processo árduo e cansativo. O agraciado, que nasceu com poderes sobrenaturais, precisa torna-se aquele que tem controle de si, e o humano que tem o controle da sua mente, precisa destruir todas as barreiras impostas, para então nascer como um ser sobrenatural.
    Ambos são como a metade um do outro, mas precisam focar em suas limitações, pois o primeiro poderá sofrer consequências desagradáveis, e o segundo precisa achar meios, de fazer-se tão forte quanto o outro, mas no fim os dois se encontram no mesmo patamar, por isso seus caminhos, ou o quê são , não interessa.
    É dito que para ser um bruxo, é necessário uma iniciação, canalizada por sacerdotes e sacerdotisas, que receberam o chamado dos deuses, e toda aquela parafernália, que estamos cansados de ouvir.
    A iniciação é um processo necessário sim, mas não precisa vim das mãos de alguém que diz ter sido “tocado” pelos deuses. 
    Haverão aqueles que certamente discordarão de mim, pois são tão tradicionalistas quanto os cristãos ortodoxos, contudo esta é uma verdade inegável.
    Não estou dando pontos a favor de rituais de meia tigela, encontrados na vasta rede, que fique claro. Apenas acho justo mencionar, que tais postos – sacerdotes- não torna os homens e as mulheres detentores da verdade, pois para aqueles que podem ver, a mesma   é revelada dia após dia, fora dos templos “sagrados”. 
    Aliás creio que o grande segredo, é apenas um pedaço de papel vazio, que nada diz, pois o axioma está no vento, na água, na terra e no fogo, não nas palavras ditas por um mestre.
    Você é o quê acredita ser, não o quê os outros impõem sobre ti.
    A iniciação nada mais é que um processo psicológico, no qual você condiciona o teu cérebro, para se abrir a possibilidades, que por anos foram lhes ensinadas como impossíveis.
    É importante pois o poder, embora se manifeste em nossos genes, vem da mente. 
    É um fato científico, pois por mais que muitos duvidem, a magia é sim ciência, pois pode ser estudada, verificada e comprovada.
    Os neurônios são responsáveis por tudo o quê fazemos, seja bom ou ruim. Assim se você acredita firmemente, que ao chegar do outro lado de uma rua, vai acabar caindo, esses impulsos químicos captam a mensagem, e fazem com quê sofra o acidente, porquê os manipulou para isso.
    Este é um caso simples, mas há situações ainda mais “inexplicáveis”, nas quais as pessoas sofrem de males mentais, que podem provocar sintomas físicos, mesmo que não haja aparentemente nada para causar dor, são as chamadas doenças psicossomáticas.
    É por isso que um bom bruxo, precisa ter um ótimo preparo mental, ou a sua magia não obterá resultados.
    Não adianta nada você nascer com a predisposição, ou procurar pela essência sem acreditar nelas, pois em ambos os casos, não conseguirá despertar suas verdadeiras habilidades.
    Já viu que pode levitar, ou incendiar as coisas por exemplo, só que na hora de provar os teus poderes, há um bloqueio.
    Sozinho chega ao teto, queima a toalha da mesa. No entanto na presença de amigos, é visto como louco, pois seus pés não saem do chão, ou acreditam que usou o isqueiro, para forjar provas.
    Isso te faz achar que enlouqueceu, que os outros estão certos, e que é melhor evitar as suas “habilidades imaginárias”. Não é?
    Esse certamente é o caminho mais fácil, mas como disse antes o caminho é difícil, não adianta fugir no primeiro obstáculo.
    Esta é apenas a prova, de quê precisa tornar-se aquele que controla a si mesmo, para poder provar aos outros, do quê realmente é capaz.
    É a evidência de quê a predisposição, não é o suficiente, se em nada acredita – Principalmente se duvida de si.
    Já no caso dos humanos, a situação é um pouco diferente, pois este ainda não manifesta nada, mas precisa se desamarrar das correntes de concreto da sociedade, na qual foi inserido.
    De outra maneira, achará apenas os que lhe oferecem um lugar, servindo aos deuses, mas jamais um acento do lado dos mesmos.
    O ser humano, está acostumado a ter tudo nas mãos, e a seguir sempre aquilo que o torna o maior dos maiores, e é isso que tem que acabar.
    Há uma hierarquia no mundo mágicko, que deve ser respeitada. Só que o fato de hoje ser apenas homem, não implica que amanhã também será, então é preciso que aprenda a aceitar as suas limitações, e a conhecer melhor as possibilidades.
    Seu mundo é pessimista demais, ou exacerbadamente otimista, você não tem equilíbrio, vive mergulhado em caos, engolindo os ideais daqueles que supostamente estão acima de ti, sem nunca levantar a voz.
    É preciso que entenda que você tem sim voz, que o quê sente importa, que há muito mais do quê somente um planeta abrigando a vida, e -comprovado por Galileu Galilei- A Terra não é o centro do Universo.
    Desse modo, quase tudo o quê lhe ensinaram até o momento, pode ser mentira, ou uma verdade mergulhada em mentiras, ou seja há fatos que são claramente falsos, e outros embora pareçam como tais, são verdadeiros.
    É preciso que entendam suas limitações, ou a magia nunca funcionará.
    A iniciação além de expandir a sua mente e elevá-la, é também o  desenvolvimento de uma conexão mental do seu eu e o cosmos, e por isso deve ser considerada “sagrada.” 
    Assim sendo quando for realizá-la, não vá procurar por “receitas de bolo” prontas, como se houvesse alguma nova bruxa, que fosse a Ana Maria Braga da Magia, pois não há - se houvesse todos teriam poderes e entendimento, e não é o que acontece.
    Somos todos mestres e aprendizes de nós mesmos, mas devemos sempre procurar sermos a melhor versão. - É importante frisar, porquê se tu é o teu mestre, logo irá crer que pode fazer o quê quiser, como se ser um mestre, significasse que é Deus, e pode mandar e desmandar. Mas não é bem assim.
    Ser o teu próprio mestre, significa melhorar-se nos aspectos necessários. Crescer, e desenvolver-se, para alcançar os teus objetivos, não interessa se são bons ou ruins, pois bem e mal é relativo -O quê é bom para mim, pode não servir para ti.
    A iniciação, mesmo que realizada por tuas mãos, ainda é um ritual, e por isso dependendo do Deus que escolher seguir, deve respeitá-la como tal.
    Se queres obter sucesso e expandir teus pensamentos, é preciso que ouça a tua voz interior. Mas esta voz não nasce do nada, ela não é uma ideia absurda que lhe vem ao pensamento, e tu executas, isso se chama criatividade, não o chamado interno.
    Para realizar uma iniciação de sucesso, é necessário, que conheça os cultos anteriores dedicados ao Deus com o qual escolheu aprender. É uma forma de honrá-lo, e a ti mesmo também, para quê não passe vergonha entre os outros ocultistas, e consiga calar a boca dos iniciados.
    Eu escolhi aprender com Satã, logo me utilizei de velas negras,  símbolos profanos, e materiais de corte, para realizar a minha auto-iniciação.
    Sou uma predisposta, nasci numa família, que embora hoje sirva a Yaweh sob a luz, um dia serviram ao seu lado negro, conhecido como Adonai.
    Por isso consegui aprender muita coisa, sem a interferência de mestres e iniciados. Já tive a oportunidade de andar com grupos. Mas os “mestres” que apareceram em meu caminho, mais me atrasavam, do quê me ajudavam a entender a minha verdade.
    Entendo muitos conceitos místicos, por intermédio dos deuses do abismo. Eles me ensinaram a ser mais forte, e me indicaram o quê procurar, para achar as respostas, por isso sou muito grata a eles, e defendo minha versão da veras mística. (Ou verdade mística)
    É significativo mencionar que os deuses, embora nos guiem pelo caminho, eles jamais podem andar por nós, sendo assim não espere que o Deus escolhido, te entregue todo o material, que precisa para alcançar o teu objetivo, eles te darão a chave, mas a porta quem procura é você.
    Outra coisa, se teus caminhos se abrem com facilidade, há apenas duas explicações: O teu papel é pequeno, logo suas limitações são fáceis de superar, ou já sofreu o suficiente, para entender como alcançar aquilo que mais deseja.
    Após passar pela iniciação, e receber sinais – isso mesmo sinais, e não sinal- de quê o Deus escolhido te acolheu entre os seus, você agora vai definir como deve estudar, e mensurar o teu aprendizado, por isso precisará de um caderno, e uma caneta, para registrar, cada coisa incomum que te ocorreu, com data, hora, condições mentais, respostas plausíveis, e tudo o quê for necessário, para provar que teu relato é verídico.
    Se é um predisposto, poderá medir a melhora do controle de teus dons, se é o primeiro da tua linhagem, poderá transmitir isso para o próximo que colocar o manto, que certamente vai aparecer, podendo ser um filho seu, ou algum outro parente.
    Coisas incomuns vão acontecer, é inevitável, faz parte da jornada. Como lidarão com elas, é que vai definir se são ou não bruxos, magos, ou feiticeiros de verdade.
    Ou acreditaram mesmo que bastava um ritual, para se tornarem algo?
    Não, não é tão simples. Se fosse, se chamaria cristianismo, e não paganismo.


    Capitulo 2 – Realizando a magia

    Poderia encher as páginas com vários sistemas mágickos, como: Herméticos,  Satânicos, Caoístas, Streghes, Célticos, Gregos, Egípcios etc. Alguns conheço a fundo, outros apenas de maneira superficial, mas não o farei. 

    Se queres conhecer cada um deles, sugiro que faça uma pesquisa, extensa e detalhada, para entender o conceito apresentado, por estas filosofias de maneira profunda.

    Como disse antes não estou aqui para ensiná-los, como adorar os seus deuses, até porquê o ato de “adoração”, é algo que me dá nó estômago, mas vai de cada um.

    Então você escolhe com o quê quer trabalhar, minha função é apenas te ensinar, a realizar o ato mágicko. (Note que há um k extra, é proposital, para separar magia de ilusionismo, e foi proposto por um famoso ocultista.) 

    Primeiramente lembre-se sempre: O poder vem da mente, e com a linguagem certa pode programá-la. Sendo assim os resultados mágickos (como respostas, questões, ou atos) são genuínos, mas o processo para se realizar o ato, pode ser provocado pela mídia. 

    Não estou me contradizendo, a magia sempre influencia, mas a mídia não deve fazê-lo, pois faz do entendedor um tolo. No entanto, se souber usá-la, pode ser bastante benéfica, na hora de preparar a sua mente, para desbravar a Terra Oculta e suas maravilhas.

    Você Não deve aceitar a verdade escrita no roteiro, pois é uma meia verdade, e toda meia verdade é uma mentira.

    Todavia se for esperto o suficiente, fará bom uso de tais artifícios, e em vez de acabar mergulhado nas trevas da insanidade, será um exímio ocultista.

    O tolo irá ouvir a música milhares de vezes, e se deixará ser controlado por ela, tornando-se mais dos zumbis da cultura popular. O astuto utilizará a mesma música, para domar a si mesmo, pois tem conhecimento dos seus efeitos e que a própria serve para controlar a mente, por isso sabe como programar a canção, para atingir o seu objetivo.

    O ingênuo assistirá um filme, e criará diversas histórias em sua mente, acreditando que aquela é a sua realidade, sem de fato ser. O desperto verá na mesma obra, aspectos que condizem com a sua jornada, e os quê também contradizem seu aprendizado. – A magia estará presente ali mas o verdadeiro ocultista, saberá sobre o quê se trata o seu contexto.

    O hipócrita utilizará lendas urbanas, para validar as suas experiências “mágicas”, e recuará quando for abordado. O consciencioso saberá que a verdade sobre as lendas urbanas, é tão pequena que passa despercebida, por isso fará o possível para detalhar o seu relato, de maneira que coincida com o quê tal criatura realmente é, pois tem o entendimento de quê lendas nascem da má interpretação dos povos sobre determinados seres. Lobisomens por exemplo podem ser criaturas provindas de Sirius B, Vampiros podem ser membros da constelação de Alfa Draconis, e por aí vai.

    A voz do coletivo precisa ser ignorada, até que se faça necessário ouvi-la, ou seja o conhecimento empírico tem de ser esquecido, até que haja uma explicação científica para o mesmo, ou uma forma de validá-lo de maneira, que não seja uma experiência pessoal.

    Encontrar-se a si mesmo é importante, contudo depois de achar-se, deve focar-se em descobrir se realmente é o quê acredita ser, pois é a mente é uma caixinha de surpresas.

    No mundo em que vivemos, o ceticismo doentio é louvado, por isso devemos dançar de acordo com a música, para poder criarmos nossos passos. Isto é necessitamos abraçar o conhecimento concreto, antes de realizar a magia. Porquê embora o espírito preceda ao corpo, a mente funciona como nossa alma, e quando a mesma é atingida, nossos resultados mágickos podem falhar.

    Não adianta tentar empregar a magia pela magia, numa sociedade que te obriga a ter respostas para tudo. 

    Foi-se o tempo que não havia explicações para os fatos naturais, e bastava curva-se para os deuses para conseguir as suas graças.

    Não é mais a Era de Ouro, os Deuses não estão mais entre nós, eles abandonaram este planeta há muitos anos, e até os seus filhos estão por conta, por isso conectar-se com os mesmos não é tão simples.

    É imprescindível que o predisposto tenha consciência disto, pois muitos filhos dos deuses, acreditam do fundo de seus corações, que nossos pais cuidam de nós, por 24 horas, como se fossem como os humanos que nos acolheram em suas casas, mas a realidade é outra.

    É, eu lamento, lamento de verdade. Mas os deuses tem seus próprios afazeres, e embora nos visitem algumas vezes, deixando rastros incontestáveis de sua presença, eles não ficam ao nosso lado todo o tempo.

    Novamente estou ciente de quê muitos tentarão me “apedrejar” por isso. Só que como disse antes, as verdades são inconvenientes, e trago a liberdade para os que aceitam o seu preço, e neste caso o preço é abandonar a carência de seus coraçõezinhos, e aceitar que o pai, a mãe, ou ambos nem sempre podem ficar presentes.

    Se vocês os veem, ou os ouvem constantemente, é porquê ainda estão acordando, e as memórias da vida passada, estão se manifestando, de acordo com a forma com a qual eles se comportavam com vocês, no outro mundo.

    Eles nunca aparecem por nada, sempre há uma motivação para realmente virem ao nosso encontro, e quando vem, fazem com que saibamos que estiveram conosco.

    Lúcifer e Lilith são meus pais, sou a primeira de sua linhagem, e isso pode ser confirmado no meu site antigo, que disponibilizarei no fim deste livro. Por quê digo isto? Bem uma famosa série, retratou tal fato recentemente, só que antes do mesmo acontecer, já havia escrito no meu site, que esta primeira era eu. Então pode ir conferir na prática, que o oculto influencia mídia mas a mídia não interfere no aprendizado místico.

    Quando Lúcifer me visita, sempre há todo um contexto por trás disto, ou é para me dá um alerta, como em 2013 quando me mostrou que Belzebu é um traidor, que quer o seu trono. Para me proteger de alguma criatura nociva, que tentou me destruir, enquanto caminhava pelo mundo inferior. Ou me convocar para alguma reunião importante. - Eu sei parece cômico, mas já fui chamada uma vez, para ir com o mesmo no conselho celestial.

    Como sei que de fato era ele? Eu jamais tinha visto Belzebu como um traidor. Mas após este sonho e outros nos quais fui perseguida pelo Senhor das Moscas,  fiz uma extensa pesquisa, e encontrei relatos de pequenos ocultistas, que defendiam a mesma teoria. Alguns que falavam que Belzebu se opõe a rebelião de Satanás, outros que ele era como um exorcista, mencionado na bíblia.  Mas pareciam tão dissociados da realidade, que me desanimei e aleguei insanidade.

    Contudo algo em meu interior, me levou a pesquisar ainda mais, e acabei encontrando um belo artigo dedicado ao mesmo, no site da Penumbra Livros, onde faço grande parte dos meus estudos esotéricos atualmente, devido a enorme fonte de conteúdo gratuito disponível ali.

    De fato não só Belzebu era traidor, como já tinha conquistado o trono do Inferno uma vez, fazendo com quê 49 dos 72 demônios que caminhavam com Lúcifer o servissem, e isto já tinha até se tornado o roteiro de uma revista em quadrinhos da Vertigo inclusive.

    Até aquele momento eu nada sabia, mas Lúcifer veio e me mostrou um fato, que não era uma fantasia, e podia ser comprovado.

    Além disso no dia do dito sonho, ocorreu um evento quase cataclísmico em minha cidade, ligado ao vento, que é um dos elementos que o representa, e minha mãe literalmente viu um anjo dentro do nosso lar, muito bonito segundo a mesma.

    Já na outra vez, foi como se ele enviasse uma mensagem através de uma médium, na qual me mandou tomar cuidado, pois coisas terríveis iriam acontecer em breve. 

    É claro que duvidei, para mim a possessão, é apenas um processo psicológico, no qual o “possuído”, na verdade é um predisposto, que desconhece seus dons, e acaba manifestando habilidades sobre-humanas, que fazem com os quê os padres interpretem de maneira errônea, e na época, achava que se tratava de uma insanidade maior que a minha, só que ainda sim, é no mínimo suspeito tudo o quê aconteceu depois.

    Minha casa foi saqueada, e levaram todo o meu material de registro de eventos sobrenaturais, os homens reviraram o meu quarto todo, e deixaram o da minha mãe arrumado. Procuraram pelo notebook, onde tinha fotos, teorias, e vídeos, sobre a minha caminhada oculta, levaram a minha câmera, e até o quê eu usava para me distrair do mundo, o meu playstation 2, que já não valia muita coisa na época, e acreditei ser o disfarce perfeito, para o quê realmente fizeram.

    Foi como se declarassem guerra a mim, e a minha sanidade, pois eu analisei os fatos, bati cabeça dando explicações para mim mesma, e a verdade é que até hoje não consigo ver como um mero assalto, pois o mesmo começou, segundo a perícia no momento do incêndio da rua debaixo, que havia começado por causas naturais, e não por intervenção humana.

    Isso não foi a única coisa, naquele ano e até o inicio do outro fiquei muitas vezes a beira da morte. Escapando de acidentes por muito pouco, ou sobrevivendo as tentativas de suicídio, mesmo sem querer continuar de pé, porquê não suportava mais o fardo de ser filha de Lúcifer e Lilith. – Ou achou que somente o não agraciado sofreria? 

    Não foi fácil, e depois que tudo o quê era meu foi levado, fiquei isolada do mundo, e saiu a notícia de quê as contas estavam sendo vigiadas pelos americanos, e como se isto não bastasse, a minha página com apenas 150 curtidas, tinha sido apagada da rede, como se o link estivesse quebrado. O quê convenhamos, é no mínimo suspeito.

    Mas Lúcifer havia me avisado, e eu não dei ouvidos.

    Já Lilith sempre foi mais sutil, aparecia em corpos bonitos, e transmitia mensagens de importância sentimental, que me impediriam de me meter em furadas - Entretanto eu não ouvia, e por isso me machucava sem necessidade.

    No meu primeiro contato com a mesma, esta me revelou que o meu namorado na época, não era digno, nem me pertencia, e que era um erro tomar posse do mesmo, pois este era infantil e malévolo, e não era o quê tinha escolhido para mim.

    Duvidei de imediato, pois a moça que me disse, parecia ter sentimentos pelo rapaz. Só que anos mais tarde, vim saber que as suas predições estavam corretas, e que o cara era realmente um traste.

    Não haviam sinais plausíveis, que nos ligassem de fato, somente aqueles que vinham da sua capacidade de me estudar, para saber o quê eu queria - como um sociopata adolescente - e que o fato de me juntar a ele, não trouxe nada mais que:  Desentendimento, culpa, tristeza, e desespero. Como se o mesmo tivesse sido colocado na minha frente, somente para atrasar a minha descoberta, sobre quem e o quê de fato era, pois tal informação certamente tinha grande valia, e lá na frente falarei sobre isto.

    Por estas e outras que digo, eles só vão se manifestar em casos de extrema importância, por isso não espere que apareçam apenas por quê é a tua vontade.

    É preciso entender que a linha da realidade e a ficção por vezes se cruzam, mas a ficção é apenas uma expressão exagerada da realidade. Se não compreender isso, certamente não vai suportar os desafios, e acabará por enlouquecer. – Foi o quê quase aconteceu comigo, depois de 6 anos no caminho.

    Por isso use os artifícios midiáticos apenas para controlar a ti mesmo, para atingir o teu objetivo, ou por diversão. Mas jamais faça uso dos mesmos, para o teu aprendizado. Eu sei deve ser a 3° ou a 4° vez que repito, mas é para que entre em suas cabeças.

    O preparo mental é o primeiro e mais importante nível, porquê é através deste que vai destravar todo o teu potencial oculto, e trazê-lo para a luz.

    Por isso é necessário cuidar da tua mente, como se fosse o teu corpo, absorvendo somente aquilo que é capaz de suportar, e que favoreça o teu entendimento, ou a realização do teu propósito.

    Dias antes de fazer o ritual, faça uma boa playlist de músicas, que te ajudem a se sentir mais forte e capaz, de filmes que te façam crer no mundo oculto, de games e quadrinhos que seguem o mesmo roteiro, e quebram o padrão do impossível, tornando-o possível.

    Pois assim é criada a atmosfera mística mental, e isto te ajuda a ficar pronto para realizar o teu ato místico.

    Feito isto, agora é hora de seguir para o segundo nível.

    A atmosfera mental já foi desenvolvida, você se sente pronto para fazer o seu primeiro ritual, e não há nada que te faça duvidar de suas capacidades.

    Então agora deve expressar isso de maneira física, desenhando símbolos em teu altar, utilizando as velas certas, o incenso necessário, e o ambiente favorável ao teu rito.

    Por isso precisará conhecer cada símbolo que for utilizar em teu ritual, do contrário pode acabar libertando uma coisa, que deveria ficar no outro mundo- Falo por experiência, passei 9 anos sob a influência de Carreau, por ter o libertado em um dos meus rituais, e só há pouco tempo me livrei do mesmo. Então tome muito cuidado, com os símbolos que vai utilizar, pois cada um tem significado específico, e não é o teu desejo de alterá-lo, que vai promover a mudança de uma egrégora que está presente neste planeta há anos.

    Feito isto, agora é colocar em prática o teu aprendizado, então vá adiante.

    Já estudou, já conheceu os símbolos, e leu tudo a respeito dos cultos dedicados ao deus que tu escolhestes, então porquê não se arriscar com um rito próprio? 

    Você já aprendeu a respeito do ser escolhido, sabe o quê pode, ou não fazer, o quê o honra ou desonra, então dê asas a tua imaginação, pois uma imaginação sem recursos é criatividade, mas quando a mente foi preenchida com conteúdo, a imaginação pode abrir as portas, para quê consiga ouvir a tua voz interna. Quer dizer que se você apenas fizer um ritual, seguindo a tua imaginação por nada, pode falhar e cometer erros graves, mas se souber moldá-la, pode servir de ponte entre você e o deus que te aceitou entre os seus.

    Os predispostos precisam está preparados, pois quando a sua voz interna surgir, vários fatos intrigantes vão acontecer, inclusive coisas de origem sobrenatural, que parecem obra de um poltergeist, mas provavelmente virão deles mesmos. 

    A forma de saber se vem de si mesmo, é medindo sua temperatura corporal, pois o excesso de energia, fará com quê a mesma suba bastante, independente do seu elemento, mesmo os que tem afinidade com o gelo, poderão sentir a sensação de calor intenso.

    Ou tentando mensurar o seu comportamento psicológico, pois se estiver sob o estado de muita adrenalina, também poderá acabar por influenciar o ambiente com a tua força oculta.

    Já os humanos não precisam se preocupar, também podem empregar a sua energia oculta num ato mágico, sem ter alcançado o poder divino. É claro que no caso dos mesmos, coisas sobrenaturais serão raras, e provavelmente se acontecer, dificilmente virão dos mesmos. Contudo isso não significa que não há nada que possam fazer.

    O poder dos homens está em sua mente, um pouco mais que no caso dos predispostos, e os humanos podem usar a sua força, para realizar sonhos típicos da espécie, como: Ganhar muito dinheiro, um bom emprego, atrair o amor de suas vidas, melhorar a aparência etc.

    Não será algo instantâneo pois são limitados, por serem a imagem de seu Deus Jeová, mas mesmo assim, com o método certo, e os 2 níveis mental e físico, eles certamente atingirão as suas metas.

    Pois há uma energia oculta poderosa, que está disponível para todos, inclusive os humanos, e é através desta que podem inclusive, abandonar a condição de homens, para se tornar algo mais próximo dos predispostos, ou ainda mais poderosos que alguns.

    Capitulo 3- A Magia é vida, mas não é um ser vivo.

    A magia não é feminina, nem masculina, ela está acima de teorias tão mundanas.

    Atualmente vemos constantemente que a magia é algo especificamente feminino, que a mulher é detentora de uma enorme energia oculta, porquê somente a mesma é capaz de produzir a vida, e todo aquele blá, blá, blá feminista, do qual até mesmo Lilith já está por aqui.

    Ou pior ainda que o homem, por conta de seu intelecto voltado para o modelo mais racional da realidade, é naturalmente aquele que manifesta as forças de um verdadeiro deus, ou outras besteiras machistas que nos fazem entender, porquê o feminismo existe para se opor a tal pensamento.

    Nem o homem ou a mulher são os provedores de tal energia. Não separados pelo menos. Pois a mulher embora tenha o ambiente perfeito para gerar a vida, não pode fazê-lo sem a semente que existe dentro do homem.

    É totalmente desnecessário provar a sua superioridade através do seu sexo. Isto não é coisa de um bruxo real, mas sim de alguém que tem sérios problemas consigo, e precisa validar-se pelo quê tem no meio das pernas.

    No caso das mulheres, é como adotar uma postura semelhante ao machismo, que supostamente desprezam. No caso dos homens é apenas seguir sendo como os outros, quando, como ocultista , deveria ser melhor que os demais.

    Baphomet representa a união do feminino e masculino, e é uma das figuras mais poderosas do ocultismo, pois não expressa apenas a dualidade, mas a totalidade, que é o uno. A união  do céu e o inferno, do sagrado e o profano, e provavelmente é a imagem perfeita, de como a primeira causa seria, se a mesma se manifestasse em forma física, portanto aprenda a lição mostrada por esta imagem.

    A Magia não tem Religião.

    Muitos defendem abertamente que bruxaria cristã não existe, porquê a igreja perseguiu inúmeros bruxos na santa inquisição. – Até os 16 anos acreditava no mesmo, mas hoje tenho 24 anos, e sou obrigada a desiludi-los mais uma vez.

    O conceito amplamente defendido é que a magia pertence ao paganismo, e logo não pode ser praticada dentro das igrejas, ou por seus fiéis.

    Quem faz tal defesa, provavelmente se encontra no inicio da caminhada- Mas se já passou vários anos, e ainda acredita nisso, precisa urgente deixar de seguir a “massa mística” (O quê é irônico, pois nem deveria haver uma.) e conectar-se  com os deuses, pois apesar do quê imaginam, não estão nem os servindo, nem caminhando com os mesmos.

    Eles sentem como se a nossa cultura estivesse sendo saqueada dos templos sagrados, e entregues aos cristãos.

    E não estão errados, pois isto é o quê de fato aconteceu, antes da chegada de Cristo. – A bíblia sagrada cristã é um mosaico de textos ocultistas de outras culturas.

    Portanto o “roubo” já aconteceu há muito tempo, não é algo novo, e desta forma muitos fiéis já tiveram tempo suficiente para desenvolver os seus cultos. Existe até mesmo uma linha do cristianismo, voltada para os misticismos, então a bruxaria cristã não é algo novo, aceite isso.

    Além disto os grandes ocultistas conhecidos, estudaram as mesmas filosofias criadas por estes fiéis, antes de fundar as suas escolas de pensamentos. É o caso de Aleister Crowley - conhecido como “To Mega Therion”, a  “Besta 666”, “O homem mais cruel do mundo” - que ingressou na Ordem da Aurora Dourada, antes de criar seus Libers. Porém o quê poucos sabem, é que embora o mesmo tenha sido expulso da escola dominical, a Ordem que o recebeu, foi fundada através do ensinamentos distorcidos de Agrippa, que era um grande homem, e devoto do divino.

    Então não há necessidade de espancar e cuspir naqueles que descobriram tal possibilidade, pois pode até servir para contribuir em alguma coisa.

    Há tanta coisa que merece mais tal ódio, que realmente me dói a vista, ler tanto desgosto voltado para os que resolveram seguir um caminho diferente do nosso.

    Do momento em quê erguemos nossa espada para os homens apenas por conta da sua religião, estamos sendo tão sujos e hipócritas, quanto os inquisidores, que apenas apontavam o dedo para aqueles que discordavam da sua versão do mundo. – E eu sei que você não quer ser comparado com o teu rival, então não haja como tal.

    É importante frisar, que a magia supostamente foi trazida aos homens por aqueles que desceram dos céus, por isso a mesma não pertence a humanidade, e logo não deve ser julgada como se fosse.

    Lúcifer e os caídos ensinaram as mulheres, e lhes deram o poder, para realizar os próprios intentos. Mas de onde Lúcifer veio e onde a magia residia antes? Isso mesmo no plano celestial, ou a Deusa Desceu a Terra para ensinar os humanos a praticar a magia, e os guiar para o seu mundo. Quando não mais pôde ficar enviou a sua filha, para continuar o seu trabalho. Mas é sempre seguindo a premissa de quê a magia foi transportada de outro reino, que não é o quê vivemos.

    Então por favor, pare de usar esse contexto absurdo, de quê a magia pertence somente a um grupo, pois até nos textos antigos, pode ser comprovado, que “não é assim que a banda toca”. Hermes Trismegisto já dizia: O quê está acima, é o quê está abaixo. Entenda de uma vez por todas este conceito.

    A magia não tem política.

    Se você é de : direita, esquerda, liberal, fascista, socialista, ou qualquer outro partido conhecido, não importa.

    Novamente é algo mundano, que deve ser deixado em seu devido lugar.

    Não traga suas convicções partidárias para dentro da sociedade ocultista, pois não é bom misturar as coisas.

    Hitler e o Vrill estão aí para provar. 

    Ele obteve um grande sucesso ao realizar a sua missão, mas a sua mensagem real jamais foi ouvida, e pior ainda acabou por ser distorcida, com o decorrer dos anos. Sendo tratada como um massacre desnecessário, ou desumano, ou o grito de horror de inocentes, que nem eram tão inocentes assim. – A sua luta não era contra os judeus, e sim os sionistas, que supostamente queriam dominar o mundo, mas conseguiram fazer parecer que esta era a vontade de Adolf.

    Esta é a versão da verdade que conheço e acredito, pois a filosofia sionista e illuminati, em muito coincidem.

    Mas é algo em quê Eu acredito. Não significa que você é obrigado a crer no mesmo. Por isso saiba que há um espaço para a magia, e outro para a política, não é porquê um influencia o outro, que devemos misturá-los.

    O Tudo é o Todo, e o Todo é Um. Só que é preciso compreender suas metades, para poder entender como se complementam.

    A Magia não tem etnia.

    Não importa se tu és negro, branco, hispânico, índio, ou qualquer outra raça conhecida. Todos são humanos, ou ao menos meio-humanos, no caso dos predispostos. Assim sendo devem respeitar uns aos outros.

    Se o branco quer fazer parte da gira, deixe-o entrar. O mesmo vale para o negro que anseia entrar num sistema mais elitista como o luciferianismo ou o satanismo.

    Salvo apenas exceções para filosofias voltadas para o racismo como a Skull and Bones por exemplo. Porém creio que tais ideais são como feminismo e machismo, e precisam ser abolidos da face da Terra, pois só servem para validar a vontade, de gente tão pequena que se define por sua cor ou sexo.

    A magia não tem estilo.

    Vocês encontrarão gente de todo tipo no caminho. Mulheres com roupas provocantes, homens maquiados, moças de turbante, rapazes de dread, gente de preto, gente de branco, e isso não significa absolutamente nada.

    A roupa que a bruxa veste, não representa o seu poder, apenas expressa a sua mais forte emoção, aquilo que mais gosta, e tem alguma afinidade.

    Ou seja não é porquê uma bruxa veste preto, que ela trabalha para Satã, ou porquê uma bruxa usa vestes coloridas, que esta serve a deusa e o deus.

    A diversidade neste meio é muito grande, logo nem tudo o quê aparentemente é, de fato é. Quer dizer há casos de bruxos que se vestem como anjos, mas trabalham com energias bem densas, e o mesmo ocorre com aqueles que se vestem como demônios, mas praticam magias menos pesadas, pois é o quê podem suportar.

    Há bruxos que pouco estudam, mas conseguem obter grandes resultados. – Embora mais tarde acabem achando que o hospício é o lar doce lar.

    Há ocultistas que procuram estudar mais do quê necessário, e quê embora criem barreiras no seu desenvolvimento, se sentem mais confortáveis, em suas limitações.

    Então não adianta ditar que a magia é um estilo de vida, pois cada um é livre para encontrar o tipo de vida que o mais o agrada. – É claro que adotar a prática diariamente, certamente vai te ajudar a obter bons resultados, pois condiciona o cérebro a destruir o empecilho do impossível. Entretanto isso não é uma obrigação, nem uma regra. Você decide o quê se adequa a tua condição. - Até porquê há aqueles que compartilham seu lar com outras pessoas, que não apoiam as suas práticas, e por isso precisam de outros meios, de gerar uma boa atmosfera mágica, que não implique em desrespeito aos que lhe oferecem um teto, e seja viável para executar.

    A magia é uma energia.

    A magia é formada de átomos de energia positiva e negativa, e você é o nêutron que rege tais forças. 

    A magia não tem voz, ela apenas te ajuda a encontrar a sua. A magia não pode ser um corpo, mas te ajuda a moldar o teu. A magia não ouve, mas te faz ouvir. A magia não vê, mas te ilumina para enxergar. A magia não sente, mas te impulsiona a sentir. A magia não pensa, só que intervém em teus pensamentos.  

    A magia é uma força gigantesca, que se bem canalizada, pode criar ou destruir a vida, mudar ou colocar as coisas no lugar, alterar o fluxo ou mantê-lo, incendiar ou apagar o incêndio. É a mais perfeita expressão da linguagem divina, proveniente da Primeira Causa. É a matriz de onde tudo nasce, da qual pode beber de sua energia.

    A magia é vida, pois é movimento, e ausência do mesmo, é luz, é sombra, é claro e escuro, é impulso, é neutra, é causa e efeito, mas não é um ser vivo.

    Consequentemente não pode ser tratada como tal. A vista disto não lhe atribua as características de um humano, fazendo-a ter: sexo, política, etnia, ou estilo, pois esta é muito maior que tais convicções.

    Capitulo 4- O Mundo sem o véu.

    Já trabalhamos em cima da atmosfera mística , e a importância do aspecto mental, para criar tais condições, e portanto aplicar a energia mágicka. Mas como é que o mundo se torna, após quebrar a barreira do impossível? 

    Primeiramente o mundo de concreto, continuará o mesmo, são seus olhos e o olhar que se tornarão diferentes. 

    Provavelmente deve ver diariamente a batalha entre os céticos e os ocultistas. “Só confie na ciência pois há como comprová-la e a magia é apenas crendice.” Dizem os apaixonados pela ciência. “Abra seus olhos, há um mundo mágico por trás deste, e somente a fé nele é o suficiente para manifestá-lo. A ciência é uma tolice, um insulto as forças divinas.” Dizem os aficionados a magia.

    Você pode de imediato concordar com a segunda visão, mas ambas estão erradas. – Embora a parte do conceito metafísico (o mundo por trás do mundo) seja correta.

    Quando se encontra de fato com o oculto, você percebe que magia e ciência, servem para dar as mãos e não se destruírem, como se fossem inimigos velados.

    Essa rivalidade trivial, não é digna de um ocultista, pois o mesmo tem consciência, de quê muito do quê temos hoje antes era visto como místico.

    Imagine-se em 1500 com um celular em suas mãos, certamente as pessoas do tempo, ficariam maravilhadas, e depois iriam temê-lo, ao ponto de queimá-lo vivo, sob a declaração de prática de bruxaria. – Mas nos tempos em que vive, sabe que se trata de ciência, e isto o faz rir.

    Essa perspectiva a princípio pode deixá-lo desnorteado, só que é um fato. Eles nem parariam para estudar a respeito, pois naquela época a Terra era movida pelo medo.

    Muitos cientistas foram tidos como hereges no seu tempo, e jogados no fogo purificador dos santos, então tentar separar o inseparável é bobagem. – Todavia é significativo que saiba que não basta compreender as metades, é necessário entendê-las a fundo.

    A ciência é um meio de comprovar se um fato é real ou falso. Embora seus métodos, pareçam servir somente para desbancar a existência de seres maiores que a humanidade. Eles também podem ser usados, para por exemplo separar, quem realmente viveu uma experiência sobrenatural, e os que apenas precisam de tratamento psiquiátrico. – Lembrando que alguns eventos de natureza mística, podem ser tão devastadores, que causam este efeito de estresse pós-traumático.

    Logo se a ciência serve para medir o evento, o esoterismo é o evento– Uma manifestação nua e crua da natureza, que para muitos foi esquecida, e que tem mistérios a serem desvelados.

    Desta forma o primeiro ponto é esse: A inexistência de um padrão dualista, e percepção de que o universo é realmente um, cujas as metades unidas, o fazem completo.

    Além disso, quando você se conecta de fato com o cosmos, ele também se junta a ti, e assim desenvolve o quê é conhecido como inteligência divina. – Não que vá conseguir resolver cálculos matemáticos complicados em segundos, como no filme Transformers, mas certamente libertará uma sabedoria, bem diferente da dos demais, e que vai te ajudar a se compreender melhor.

    No caso daqueles que tem a predisposição, poderão descobrir mais sobre a linhagem, através das memórias dos deuses, que vão lhes transmitir informações sobre a sua missão, e o nível dela. – Se será fácil ou cheia de obstáculos.

    Já os humanos, terão como resolver as suas grandes questões, a respeito de quem são, e de onde vieram de fato, podendo inclusive conhecer o criador da sua espécie, e lhe pedir a dádiva divina. – Mesmo que tenha um preço alto a se pagar.

    E este é o segundo ponto: Saberá sem ter visto nada antes. – Mentalize a seguinte situação: Você é um estudante de médio conhecimento sobre a Deusa Afrodite. Tudo o quê sabe é que é a Deusa do Amor, e que seu par é Hefestos, o ferreiro do Olímpo, e outras pequenas coisas. Do nada seu corpo se desliga, e você tem a visão de Afrodite na cama de Ares, o Deus da Guerra dos Gregos, e Hefestos quer provar a sua traição. Você retorna, acha aquilo estranho, e decide pesquisar sobre isso, então lá está o quadro que retrata a sua visão. É o quê vai acontecer, quando libertar este tipo específico de aprendizado.

    Novos mundos irão se apresentar a ti, mas eles não serão físicos. Sempre que meditar, terá visões do teu verdadeiro lar, que não é este planeta, e ao fazer a viagem astral irá sentir, como  são as outras civilizações.

    Há chances de prestigiar o mundo, em que o Deus que te acolheu habita, e assim receber dele algumas direções, para te ajudar a cumprir o teu propósito.

    É quando começará a entender a teoria de Giordano Bruno, sobre os milhares de planetas, que existem além da Terra, e a diversidade presente nos mesmos.

    Deixará de crer em filosofias como criacionismo ou evolucionismo, e aceitará o design inteligente, que lhe parecerá a resposta mais plausível, para a origem das espécies existentes.

    Verá que a panspermia cósmica, é uma ideia incompleta, pois a vida não se forma do nada, é preciso de uma causa que a gere, e esta é ninguém menos que o próprio Uno, que você conhece como Universo.

    Ao entrar no plano invísivel , começará a duvidar se está vivo, ou preso em um sonho, do qual acorda todas as noites, e retorna para casa. – É lindo, porém se você criar afinidade com apenas o outro lado, esquecerá que não habita nele, e isto te trará consequências terríveis, como buscar o abraço gélido da morte por exemplo, e ao fazê-lo, se levará a dimensões sombrias, que deram origem ao termo adotado como Inferno, o quê atrasará ainda mais a sua volta.

    É preciso que se lembre sempre, de quê embora a sua casa seja a anos luz daqui, há pessoas que precisam de você, e tu tens uma missão a cumprir, antes de retornar para aquele lugar que te faz tão bem. – Quando fizer a projeção, tenha ciência de quê está fazendo uma visita, e não se mudando pra lá.

    Alguns rapidamente encontram o caminho de volta para as estrelas, outros demoraram, pois não estão prontos para aceitar, que aquele canto maravilhoso, o aguarda, mas ainda não é o momento certo. – Ou pior, devido as espécies superiores e inferiores, que vem se aniquilando há milênios, não há pra onde ir, e só pode aprender com o quê restou, da sua civilização materna.

    Outra coisa, é importante também ter conhecimento de quê, tudo o quê tem no outro mundo, não pode trazer para o físico. O máximo que conseguirá, é uma versão fantasma da coisa em questão.

    Portanto se atravessar o mundo dos dragões para este, montando em um deles, o mesmo não vai se materializar em teu quarto, como se fosse um animal comum, e somente os que desenvolveram A Visão, poderão enxergá-lo, (ou nem isto, pois há os que escolhem com quem interagir).

    Há muitas críticas no meio sobre o quê os bruxos já viram ou experimentaram.  Qualquer magista que tenha  visto duendes ou dragões, e se juntado a estes numa experiência mística, é friamente julgado. Então mesmo que adentre no outro lado, é preciso que não fale isto para quem não presenciou o mesmo, pois dificilmente vão compreender. – Salvo exceções aos que se dizem ocultistas, mas precisam de substâncias alucinógenas para adentrar no outro mundo. Estes realmente possuem pouca credibilidade sobre o quê presenciaram, pois as drogas não te ajudam a conhecer a outra dimensão, no máximo consegue refletir o teu interior. Isto não significa que me oponho ao seu uso, pois cada cabeça tem uma sentença, e sabe o quê é melhor para si. No entanto quando se trata de experiências extra-sensoriais, o uso de tais artifícios pode lhe ofuscar A Visão.

    Não estou falando da visão física, mas sim do terceiro olho, o olho que tudo vê, o olho que não enxerga somente o concreto, mas os átomos que o compõem, e vibram na mais baixa frequência, para torná-lo pesado.– É o olho que desmembra a realidade, para que conheçamos cada um dos seus mais profundos mistérios, e certamente você não querer perder essa capacidade. Pois uma vez que encontra o plano místico, os seres do plano místico te encontram também, e nem sempre isso é algo positivo, pois a maioria detesta os seres esquecidos na Terra, e anseia destrui-los, para que não retornem ao mundo deles, com medo de serem “infectados” por ideias humanas.

    E aqui é que a situação piora, pois os seres que odeiam os meios- terrestres, e terrestres em sua totalidade, fazem de tudo para que  os bruxos, não consigam atravessar a ponte do astral, para o Etérico – O plano acima do astral, (que também pode ser reconhecido como o Consciente Coletivo de Jung) terão as respostas necessárias, para evoluírem suas consciências, sobre quem são.

    Eu sei parece o roteiro de algum RPG, e se quer saber a realidade, o mundo invisível não é tão diferente do mesmo. Então se anseia entender a respeito, sugiro que comece a jogar, e estude todo o sistema, para quê saiba de suas limitações.

    Aliás creio que quando disseram que Deus jogava com dados, se referiam a isto, pois tudo depende das circunstâncias. Deus lhe oferece alternativas, e você no início, quer seguir adiante, e derrotar o monstro com um golpe de misericórdia. Contudo Ele no poder de mestre do jogo, prefere que lute contra o monstro, da forma mais humilhante que há, e perca teus braços e pernas. Ambos atiram seus dados no tabuleiro. O resultado dele é 7 o seu é 2, sua vontade é alterada para que a dele seja atendida, e você nobre peregrino, acaba por perder teus membros na batalha contra o gigante.

    Pois não importa o quanto digam que A Tua Vontade é A Lei, seus artigos podem ser alterados pela diretoria, que foi gerada pela Lei Imutável dos Antigos. 

    A sua vontade, não é o suficiente para alterar algo monumental, principalmente quando se trata do seu encontro com o Mestre do plano Superior. Pois naquele lado há uma egrégora poderosa, que foi alimentada por milhões, e a diferença do milhão para um é muito grande.

    Você certamente deve está pensando, se é assim que graça tem em praticar magia? A mesma de jogar. Pois quando você segue dentro dos padrões sociais, apenas está sendo parte do cenário, e não tem controle das próprias ações.

     Mas quando modifica o rumo, ao menos tem a chance de escolher, ou seja está pegando os seus dados, e se preparando para alcançar a glória do verdadeiro livre- arbítrio.

    Porém assim como para jogar um RPG, você precisa muito do quê o dado, na magia não é diferente. É necessário escolher um personagem, ou no caso do ocultismo, uma vertente, como a magia draconiana por exemplo.

    Feito isto, não basta apenas manter o personagem, é preciso fortalecê-lo, para encarar o mundo que o aguarda. No RPG com armaduras, joias, e outros apetrechos. Na magia com sigilos, círculos, linguagens desconhecidas, etc.- E mesmo que seu personagem esteja no nível máximo, sempre haverão aprimoramentos, para torná-lo cada vez mais capaz de alcançar os objetivos, que lhe são apresentados na jornada.

    Portanto antes de adentrar de vez no mundo translúcido, ou tentar remover o véu do mundano, se prepare devidamente, pois nem sempre o mestre vai com a cara do seu personagem, e no seu caso essa potência é ninguém menos que o próprio Deus. - Não o Deus dos Ocultistas, que é a força ilimitada e geradora. Mas sim o quê foi criado por uma egrégora de humanos ambiciosos, e mal intencionados, que conheceram um ser, que achou que poderia tomar a coroa cósmica de quem o gerou, e o fortaleceram o suficiente para ser aquele que hoje comanda muitos mundos. É, eu sei parece a história de Lúcifer, mas este é um clássico caso, em quê o vilão se denuncia pela sua versão deturpada dos fatos, e quem tem o bom senso consegue perceber as entrelinhas. – Leia o Antigo Testamento, como um livro comum, e verá que o Deus do Amor, é na verdade uma expressão do mais puro Ódio. 

    Além destas alegorias, há muitas outras, então fique atento, e aprenda a jogar, ou siga como a massa permitindo que o mestre controle o seu destino, sem jamais se opor a tudo o quê te acontece, e ficando grato pelo pão e o vinho na mesa, assim como pela morte dolorosa de toda a sua população, porquê este quis assim.

    Capítulo 5 - O fanatismo, o grande veneno mágicko.

    No capítulo 4, abordei sobre o outro mundo, mas primeiro expliquei sobre o maior dos empecilhos para chegar lá, pois é importante que esteja ciente, de quê nem tudo são flores.

    Posso ter passado a impressão de quê estou em cima do muro, sobre Deus e o Diabo. Mas o fato é que, quando se conhece ambos os lados, fica claro que a ideia do preto e branco, não serve para nada.

    É claro Jeová é cruel, é o Deus dos homens, dos pecadores. Contudo é um verdadeiro Ares da religião judaico-cristã, não há quem duvide da eficácia de suas estratégias, e isto é admirável. – Apenas discordo de algumas metodologias dele.

    O mesmo ocorre com Lúcifer, ele é meu pai, e certamente me orgulho disto. Porém não concordo em evitar a massa. Apesar de não pertencer a ela, seus tipos de entretenimentos são bem agradáveis.

    Então é aqui que se percebe, a razão para não apoiar fanatismos. Se fosse obcecada por Lúcifer, concordaria com tudo o quê dissesse, mesmo que fosse contra aquilo que gosto, somente para ser o quê ele supostamente espera de mim.

    Isso é errado. Além da grande falta de amor próprio, há também o risco de ser manipulado por entidades maléficas, que não caminham nem com a luz, nem com as trevas, apenas servem a si mesmos. – O quê não é errado, mas do momento que atrapalha a vida do outro, se torna prejudicial.

    São seres que passaram grande parte da sua vida, sob a sombra dos senhores, e que jamais conseguiram ascender como eles, e por isso na primeira oportunidade, os apunhalaram pelas costas, e assim foram jogados num mundo caótico, de onde vez ou outra saem para atormentar, sob a forma de fantasmas, que sussurram coisas em nossos ouvidos. – É como se fossem os empregados que se dedicaram a empresa, sem terem recebido uma proposta de aumento, e mesmo assim esperaram subir de cargo, e quando nada aconteceu, começaram a destruir o prédio para que ninguém mais trabalhasse. 

    Uns os chamam de demônios, mas isto é um insulto aos seres do mundo inferior. Então prefiro seguir com o conceito da umbanda, de espíritos obsessores, e embora grande parte diga que se tratam apenas de seres humanos, poucos sabem que não são apenas os homens, que tem problemas para evoluir.

    São criaturas que em vez de terem visto alguma oportunidade, abraçaram as limitações como desculpa, para concentrar a sua ira em algum foco.

    E porquê estou falando nelas? É bem simples na verdade. Porquê tais seres encarnados ou desencarnados, costumam se aproveitar da fé alheia, para que cumpram seus objetivos atrozes, de destruir a base das filosofias, que supostamente os abandonaram.

    Portanto quando você se entrega demais a fé, não consegue perceber as armadilhas dos mesmos.

    Imagine duas situações: Primeiro há um padre de uma cidade pequena, cheia de gente analfabeta, mas com muita fé em compensação.

    Eles acreditam que apenas a palavra de Deus, proferida por seu padre, é a verdade imutável da vida.

    Contudo tal líder, pouco se importa com as palavras divinas, apenas as estudou, para ter poder sobre as pessoas, e assim usá-las como bem entender.

    Ele tira das mesmas: o seu dinheiro, os seus filhos, a sua liberdade, e os faz segui-lo cegamente, em rumo a completa perdição, pois sabe que está condenado, e quer levar quem puder junto.

    Como se não bastasse, para garantir-se, diz que é a vontade de Deus, toda vez que o questionam, e pior ainda, faz com que seus seguidores, repudiem qualquer figura pública, que pode desmistificar a sua falácia. – E se a tática funciona, mostra as suas garras, é quando por exemplo reúne os mais devotos, e os influencia a matar alguém, alegando que a pessoa está sob possessão demoníaca. (Não que discorde da existência da mesma, mas creio que eu, que o quê parece palhaçada para quem entende, é assustador para o ignorante, e o medo, sempre gera caos, se mal empregado) 

    No segundo caso, a mentira é um pouco mais articulada. O sacerdote diz que você é livre, que não precisa mais seguir nenhuma regra do “Nazareno”, que a vida começa agora, e os pecados não passam de uma bobagem.

    No início nenhum centavo é tirado, eles apenas promovem festas de orgia. – O quê não é ruim se for solteiro, mas o verdadeiro preço, que vem depois sim.

    Você se envolve nas palavras do sacerdote: Não há Céu, Não há Inferno, somente o aqui e agora, então façam valer a pena do jeito que o diabo gosta!

    Assim como o padre, tal sacerdote não está interessado no crescimento do seu grupo, somente quer arrastá-los para o fundo do poço, para que precisem dele, e é aqui que o golpe se torna mais evidente.

    Pois toda vez que a pessoa quer sair da tristeza por sua vida vazia, surge um novo motivo para deixá-la em tal estado. – É, o sacerdote, não carrega tal acunha, sem ser praticante de magia.

    Após fazer com que a vítima de seu magnetismo ( e alguns espíritos), comece a enlouquecer, vem as ofertas absurdas. “Mate um bebê para Satã, e ele te libertará destas correntes.” Diz o mesmo. Mas convenientemente, esquece de contar que a criança escolhida, é filha da ex com o atual - que percebeu o bosta que ele era, e o deixou.

    Eu sei parece inacreditável, mas a situação somente se agrava, pois no fim das contas, o padre e o sacerdote, se encontram longe dos olhos de todos, e assumem que suas jogadas, estão sendo bastante eficazes. Pois se os cristãos ficarem longe da magia, que os levam a questionar, e os satanistas evitarem o sentido de certo e errado, nunca conseguem atingir o estado da iluminação, para descobrirem a quem de fato servem, e que não é nem ao Diabo, nem a Deus.

    Estas criaturas são ainda mais inescrupulosas que Jeová, pois enquanto o mesmo ainda recompensa os seus, estes seres apenas fazem os demais afundarem, e nunca reconhecem os seus esforços, porquê como disse antes, sentem-se injustiçados, e que todos merecem a sorte que tiveram, por serem tão tolos ao acreditarem neles.

    Então não deixe que a sua fé te domine, mesmo que seja parte do plano superior. – Ela pode abrir portas, mas se não souber onde pisa, acabará indo para uma selva, e mergulhará em areia movediça.

    Somente a fé, nos faz ficar cegos. Da mesma forma como seguir somente a ciência, nos faz deixar de perceber, o tamanho da plenitude do universo, e que nem tudo se resume ao que é “concreto”. – A verdade mística não pode ser medida por filosofias dualistas da humanidade, pois esta se perdeu há muito tempo.

    Então como nos impedir de chegar a esse ponto? 

    Não há um método certo, e que tenha 100% de eficácia. Mas após várias pesquisas de campo, com base em observação, percebi algumas formas, que listarei a seguir:

     Evite defender a sua fé com paixão. – Não estou dizendo que não deve amar o quê faz, mas sim que precisa saber a diferença, entre o amor e a paixão. Amor é uma chama pequena, que serve para nos aquecer numa caverna. Paixão é um incêndio, que se alastra, destruindo toda a floresta, e se não ficou claro Paixão é um caso de amor intenso, impulsivo, e descontrolado. Amor é quando duas pessoas completas, compartilham uma vida juntas, sem desistir de quem são, pois escolheram andar com o par, e não dominá-lo.

     Estude tanto o seu opositor, quanto aqueles a que apoia. – Não estou dizendo que precisa se tornar um cdf de magia. Todavia é preciso sim ter conhecimento do quê faz. Então antes de julgar o inimigo, tente descobrir sobre as suas motivações para agir de tal forma. Concordar ou não, está fora do caso, mas é importante ver até onde o boato relatado é real.

     Haja como cético. – Apesar da correlação com o item anterior, é importante nos focarmos no fato, pois ser cético, é duvidar bastante da história, antes de aceitá-la como verdade, e é esta postura que deve tomar, sempre que uma coisa, que desconhece, surge na tua porta.

     Procure informações imparciais – Se o bruxo diz que a sua deusa é santa, e a religião a condena como “demônio”, é bom evitar ouvir ambos, e buscar por uma voz, que trabalha todos os aspectos da deusa, desde os puros, aos mais pecaminosos.

     Não fale sobre sua filosofia com eles. – Um fanático não tem nada para acrescentar na sua busca por conhecimento, a não ser, que queira estudar sobre transtornos de personalidade, ligados a estresse pós- traumático. Mais terrível ainda, pode te levar pro fundo do poço junto com ele, pois te faz crer no mesmo mundo maravilhoso, em que os seus superiores o colocaram. Então se tem um(a) amigo(a) que sofre disto, fale sobre qualquer assunto, menos deste.

     Rejeite as palavras do fanático – Não precisa humilhar a pessoa, por conta do seu fascínio. Afinal o fanático em si, é apenas uma pessoa apaixonada, sendo controlada por terceiros. Então sempre que notar os traços de fanatismo, lembre-se de que ela é apenas o papagaio repetindo o quê ouviu, e não sabe o quê fala.

     Conheça os traços de fanatismo. – Um ser tomado por esta paixão doentia, manifesta alguns sintomas como: 

    Palavras vazias. – O(a) sujeito (a) fala como se entendesse do assunto, mas ao ser confrontado, e obrigado a defender os interesses, com ideias próprias, fica mudo, ou tenta alterar o rumo da conversa. Fingem sensatez e calmaria. – Frases como “O mundo é injusto, por causa de...” são bem comuns no seu vocabulário, pois estes conhecem o Uno, mas são incapazes de entendê-lo.

    III. São agressivos. – Se mudar o rumo da conversa, não funcionar, eles começam a se irritar bastante, e por isso se tornam violentos.

    Não suportam a verdade. – Diga-lhes que Satã é bom, ou que Deus é engenhoso, e verás o fanático demonstrar, a escuridão mais profunda daquilo a que serve. São iludidos. – Não conseguem extrair a verdade de um material fabricado para entretenimento, e pior ainda, tomam para si o todo como verdade absoluta. (Depois saem matando hereges ou sacrificando virgens porquê o programa ensinou.) Veem sinais onde não há nada. – Que há sinais no universo, todos nós sabemos, porém achar que tudo é sinal de alguma coisa, sem antes avaliar os aspectos psicológicos, entorno de tal possibilidade, é sim um erro. Se você sonha com um homem te perseguindo, após ter assistido um filme de terror, ou vários, isto certamente comprova que no fundo, não suportou tão bem quanto pensava. Agora se você sonha com anjos te ajudando, quando a sua vida, é totalmente voltada pro satanismo, é bom avaliar o quê significa.

    VII. Carregam olhos vazios, e parecem está sob efeito de drogas pesadas. – Eles podem tentar forçar o riso, para demonstrar que estão 100% satisfeitos, mas se olhar bem, verá sinais físicos, que denunciam a sua infelicidade como: Olhos de quem foi vítima de hipnose, sorriso que não condiz com os mesmos, magreza ou gordura extrema, tremedeira, e fala lenta, cheia de pausas excessivamente longas, (mesmo que não condiga, com a sua regionalidade) ou discurso caloroso e agitado demais.

    VIII. São ativistas do templo. – Que há fiéis enjoados dentro das igrejas voltadas para o culto cristão, já estamos cansados de saber. Mas sim, também há fanáticos no templo pagão. São bruxos e bruxas, que vivem querendo impor a sua crença, mesmo que isto não seja bom para a própria imagem.

    Não tem noção do quê fazem – São como crianças de 3 anos, que repetem os gestos dos líderes. Nunca questionam os seus superiores. – Nem conseguem, pois a lavagem cerebral intensa, os tornou submissos.  Te amam, somente enquanto concorda com eles. – Discorde de uma ideia sobre a sua conduta, e eles te queimam vivo (literalmente ás vezes).

    Em algum momento da vida, podemos apresentar, alguns destes sinais, já que independente do caminho que seguimos, nós o amamos, não importa o quão complexo seja. Mas é bom lutar contra tais atitudes, pois elas só servem para nos envergonhar, e também nos distanciam dos deuses, e consequentemente do quê é real e falso.

    Capítulo 6 – A verdade liberta, mas é dolorosa

    É, nobre forasteiro, se a vida tem sido fácil, e as verdades que descobriu até o momento, não lhe trouxeram nenhum problema, ou representaram tudo aquilo que sempre quis, sem algum esforço, e nem sangue ou suor foi derramado. – Significa que a parte boa está acabando, e é melhor está preparado, ou você é vítima da sua própria mente.

    No segundo caso, é algo muito comum atualmente. É o quê chamo de iluminação de holofote. Trate-se de uma pessoa, que sai dizendo que é superior aos demais, ou força transparecer que já atingiu o nível máximo da evolução cósmica. – Mas antes dos beijos de luz, deixa subentendido que te quer “queimando no inferno”.

    A verdade nunca é aquilo que serve para compensar uma perda, mas sim confrontar a existência do ser, por ter sido pré-estabelecida há muito tempo, e isso nos leva a um tópico interessante: Os bonecos que pensam ser filhos dos deuses.

    Hoje em dia tem muitos filhos de Lúcifer e Lilith por aí. Se for contar nos grupos de magia do Brasil, há mais ou menos “mil” deles. – Razão pela qual, prefiro me manter em silêncio a respeito disto, pois me sinto envergonhada.

    Assim como há também as crianças Percy Jackson – Jovens entre 11 e 18 anos, que se encantaram pelos programas, que são focados na visão etérica (e distorcida) do mundo, e saíram mundo a fora, batendo no peito, e dizendo eu sou um (a) semideus!

    Em ambos os casos é algo bastante incômodo, pois se for falar com tais seres, muitos são vítimas do fanatismo midiático, e não só não possuem habilidades, como também mentem, para dar a impressão de quê são “especiais.”

    Chego a sentir dó dessas crianças, pois o tempo que gastam tentando provar o quê não são, poderiam usar para adquirir conhecimentos, que os levassem a encontrar os deuses, e dependendo do contexto, serem abençoados por eles, ao ponto de desenvolverem algum dote.

    Não seriam semideuses, mas e daí? Quantas lendas maravilhosas serão necessárias, para que entendam, que nascer humano, não significa morrer como tal?

     Olhem o exemplo do conde Vlad III, o turco, que empalava os seus inimigos vivos, e deu origem ao vampiro mais famoso das décadas. Ele iniciou como humano, mas hoje, para muitos, é visto como um Deus Noturno.

    Então novamente o quê você é no momento não importa, o quê pode vim a se tornar, após a caminhada sim, portanto pare de perder tempo, forçando ser o quê não é, e abrace quem é de fato.

    A verdade, não é aquilo que deseja, e sim o quê necessita.

    Você pode morrer gritando aos 4 ventos, que é filho (a)  de um deus (a) mas se não for, sempre haverão ausências de sinais legítimos, e a magia não vai se manifestar, mesmo que a sua fé seja grande, pois haverá um forte bloqueio em teu caminho.

     Porém quando realmente é algo, até as coincidências, serão ligadas ao deus com o qual sente a conexão.

     É o meu caso. Quando me foi revelado que era filha de Lúcifer, me opus a isso, com toda fibra do meu ser. – Tinha acabado de ler Lex Satanicus, e via Lúcifer e Satã como seres distintos. Sendo Lúcifer, o belo e inteligente, que tem repulsa ao mundano, e Satã um charmoso nerd, que se divertia em qualquer lugar.

    Jamais pensei em Lúcifer, como sequer meu semelhante, pois apesar de ter problemas para me socializar, não desprezava a sociedade, como ele, e isso foi um grande baque para mim.

    Como se não bastasse, além de ser filha do ser mais inteligente e cheio de conquistas, também me foi revelado que eu era um anjo, e foi a gota d’água, porquê detestava celestiais, e todo o plano superior na época. – Tinha 17 anos, e os hormônios agiam com grande potência em meu organismo.

    Não foi da noite  para o dia, que consegui aceitar. Receber a notícia de que era filha de Lilith foi fácil, pois já tinha notado traços de personalidade, bem semelhantes aos da deusa antiga, que ao contrário do quê a maioria pensa, não nasceu de um mito Judeu, mas sim Sumério, sob o nome de Kiskill-Lila, a filha legítima da deusa Terra, ou Antu, também conhecida como Tiamat, pelos Babilônicos. – Então sei que Lilith não é a deusa suprema, e também que não foi criada para o Adão.

    Lilith era uma deusa lasciva, hipersexualizada, que seduzia os homens, para torturá-los. Tinha ódio da humanidade, por ter sido substituída, por uma mulher inferior. Gerava abortos, para não mandar suas crianças sagradas, para este buraco conhecido como planeta Terra.

    Eu a admirava, me sentia como ela, sentia seu poder em minhas veias, e gostava muito da sensação. Mas como disse antes a verdade não é algo que tapa buracos, por isso tinham aspectos negativos, sobre ter o seu sangue.

    Meu impulso agressivo era muito forte, meu desejo sexual também, ás vezes manipulava as pessoas para o benefício próprio e nem percebia, e pior fui inclinada a uma vida pecaminosa de traição, que por muito esforço, não foi física. – Com exceção ao homem com o qual sou casada, mas ele era meu amante, e não o traído.

    Além disto, como carrego duas naturezas divinas em meu DNA cósmico, tenho peso de consciência sempre que pratico atos de maldade, com aqueles que não deveriam receber a escuridão de mim. – Mas os que a merecem, ou esqueço, ou me vanglorio da vitória.

    Saber destas e outras coisas, foi um enorme desafio, principalmente porquê não entrei no caminho, achando que era um ser celestial ou demoníaco. Apenas o fiz para entender, porquê minha família toda, possuía um passado de histórias fantásticas ou sombrias, e coisas estranhas aconteciam comigo desde criança.

    Quando bebê, meu andajá  se ligava sozinho de madrugada, e isto causou tamanho pavor nos meus pais, que estes queimaram o objeto. Já um pouco mais velha, quando me irritava as coisas caíam sem tocar, se sentia muito ódio, os eletrônicos pegavam fogo perto de quem me magoou, ouvia passos há metros de distância, encontrava objetos perdidos através de sonhos, e literalmente deslocava  meu espírito de um mundo para o outro. – Na infância entrava numa espécie de transe, que me levava para uma dimensão, onde os belos eram maus, e os seres horrendos me protegiam, mas não sabia o porquê. Assim como costumava dizer que o bicho papão era meu amigo, muito antes de lançarem filmes sobre o tema ( quando o entretenimento era voltado para bom é bonito, e mal é feio.) Tal capacidade assustava a minha avó materna, que me pegava falando “sozinha”, e acusava que eu conversava com demônios.

     Como se isso não fosse o suficiente, quando estava na quarta série, e estudava numa escola de esquina para o cemitério, chamada Guanabara, cheguei a me deparar com o mundo sobrenatural, e creio eu que a própria morte, pois era um ser de mortalha negra, que apareceu em meio a penumbra, iluminada por pequenos raios de sol, depois de ter me encontrado com torneiras, que se abriram sem o auxílio de mãos alheias. Não fiquei lá para conversar, tinha 10 anos na época, por isso sai correndo, e ao entrar em contato com meus colegas, tentei não parecer que tinha medo, ou visto algo. Dentre outras histórias, que vieram depois, mas que se eu citasse seria difícil de crer, então vou parar por aqui.

    Quando me abri para o satanismo, não tinha a intenção de ser uma das filhas de Satã, ansiava apenas por ser uma soldada, que guiaria as pessoas para os seus devidos caminhos.

    Por isso ao ser confrontada com visões, e gente muito mais surtada do quê eu mesma, acabei por duvidar de tudo. – “Ah tah eu sou filha de Lúcifer e Lilith, e a herdeira do Inferno, Aham, acredito” ou “Este é o cúmulo da infâmia”. “Tanta gente lá fora, querendo isso, e eu aqui apenas seguindo a minha jornada sem acreditar que sou eu.” “Por quê Lúcifer e não Satã?” – Relembrando que na época via-os como gêmeos negros, não uma totalidade de opostos complementares.

    Não foi algo simples, e pra piorar fiz uma cota de inimigos, que achavam que eu não era digna. – E não ligava muito, pois também concordava com isso, só brigava quando se tratava de mim, não da minha suposta “herança”.

    Até hoje sigo duvidando, mesmo que bem lá no fundo, saiba que é verdade, e que aceitar isso é o melhor caminho. Só que sou muito cética, para abraçar tal fé sem provas mais consistentes, e outra eu nunca quis sentar no lugar de Lúcifer, só de está na sua presença, com meus dragões, e meus aliados, já me sentiria feliz. –Apesar das reservas, que tenho, por ele ter interferido para que soubesse, como era ser a ovelha negra da família, e iniciar uma conquista, com apenas as asas e a essência. Todavia há sinais de quê sou da sua linhagem, e vou citá-los, para quê fique claro, quando alguém é um filho, e quando não é. São eles: 

     Nascimento que parece milagroso, mas é maldito: Quando minha mãe engravidou, ela teve rubéola, e o caso foi tão grave, que o médico mandou-lhe me abortar, mas ela se opôs a isto, e fez promessa a uma santa, para garantir minha segurança, e vim saudável. — A igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, quase pegou fogo em 2013, quando houve um incêndio de grandes proporções em Macapá- AP, que foi inclusive noticiado no jornal nacional, mas a causa por muito tempo, foi um mistério insolúvel.

     O meu número da sorte ligado a data do meu aniversário: 15/02/1995 foi quando nasci, e 15 é o meu número da sorte desde criança. – Afinal ganhava festas e presentes. O mesmo dígito é considerado o número do Diabo no Tarot. Além disto se somar todos os algarismos de maneira cabalística, resultará em 5, que lembra o pentagrama, um símbolo bastante comum na magia, e o 1,5 é uma das partes presentes da Deusa Babalom, de Aleister Crowley, representada em sua totalidade por 156.

     Os fenômenos de 15/02: O dia é marcado por grandes eventos históricos, ligados a Nova Era, e ao mesmo a antiga. É no dia 15 por exemplo, que comemora-se a Lupercália, o “dia dos namorados pagão”, em que se celebra Lupercos – que é tido como uma das faces de Lúcifer na Itália – e o dia da fundação de Roma. Foi também no dia 15, que logo após o Papa renunciar, um meteorito caiu na Rússia, e muitos acharam que era um sinal apocalíptico. Desde então no mesmo dia: O exército de fanáticos, chamados de gladiadores do altar se levantou – Estes são responsáveis pela destruição ilegal de terreiros.  Até o material midiático foi direcionado para o caos do fim do mundo. Procure pela série mais assistida por quase um mês: The Umbrella Academy que foi baseada na HQ da Dark Horse, e Doom Patrol, um dos poucos sucessos da DC comics. – Que a propósito, fazem parte do meu gênero favorito de programação, e soou como um presente. Mas você já deve saber, afinal o oculto influencia a mídia... e o resto já deve ter gravado não é?

     Sinais físicos: “Os olhos são a janela da alma”, já dizia o ditado popular. – Embora tenha nascido sem uma alma, meu espírito segue me precedendo. Portanto vez ou outra, os olhos se alteram de maneira expressiva, (quase inumana em alguns casos).

     A minha descendência física: É evidente que carrego uma grande herança Africana, mas o quê poucos percebem, é que a minha forte ligação é com a Itália, inclusive meu sobrenome é dessa origem, e tenho parentes originalmente italianos. Por quê é um sinal? Lá é único lugar onde as bruxas cultuam, e aceitam que Lúcifer teve uma filha enviada a Terra, e também o primeiro local do mundo, onde ouviu-se o nome do Deus Romano. – E eu não sabia disto até 2016. Quando tive um sonho, sobre ter ficado adormecida por 500 anos, que me levou até um conflito na terra da minha descendência de sangue, onde até mesmo encontrei, uma música relevante ao meu nome secreto em 2013. Mas nunca tinha pesquisado mais a fundo, até aquele dia, quando tive o estalo “E se eu focasse na minha magia hereditária para me desenvolver?”.

     A falta de empatia satânica: Lúcifer não é aquele que se diverte entre os demônios, é o quê os mantém na linha, então é normal, que muitos demônios, ou espíritos perturbados, tenham aversão a mim, pois sou filha do “carcereiro da prisão cósmica”.

     Poderes, que podem ser terríveis ás vezes: Odeio ferir pessoas inocentes, mas por vezes a minha ira, se manifesta de tal forma, que consigo interferir neste plano. – Se você é um de nós ou dos nossos, sabe bem a que me refiro.

     A ausência de Lúcifer e Lilith: Eles são deuses, tem seus afazeres, não podem ficar me mimando a cada 24 horas, só porquê vim deles. – A não ser que eu necessite exclusivamente de sua proteção. No entanto é mais fácil enviarem guardiões, antes de tomarem partido, pois querem filhos fortes e dispostos a lutar.

     Loucura racional: Não pertenço a um lado, estou ligada ao todo. Conceitos separativos pertencentes a humanidade, me parecem antiquados. “Magia não pode se unir a Religião” é o tipo de frase que me faz rir por exemplo.– Mas sigo respeitando cada crença, assim como quero, que a minha seja respeitada.

     Relatos autênticos: Devido ao conhecimento sobre os grimórios – e a grande quantidade de gente cética sobre quem sou – registrei tudo datado num site, que serviu como meu diário por um tempo. O nome do mesmo é: Os pensamentos infernais de Carry Manson. – Tenha em mente que na época eu tinha 18 anos, havia acabado de aceitar que era a primeira filha de Lúcifer, e meus textos soavam completamente insanos (e até vergonhosos.) Além disso há os livros Sobre mim de 16/05/2018 e The Angel In Earth de 28/05/2019 no site da Autores, onde podem ler melhor sobre a minha história, e tirarem as suas conclusões. – Os conceitos apresentados acima, são apenas para diferenciar a fantasia do verdadeiro.

    Queria dizer que a verdade é o máximo, um conto de fadas, ou tudo o quê aparece na TV, em quê do nada os esquisitos se tornam legais, e imediatamente são reconhecidos como os maiorais da história da Terra. Mas não é assim que funciona.

    Diga que é filho de um Deus, e prepare-se para as risadas, insultos, e pessoas que imediatamente se acham melhores que você.

    Levante-se contra aqueles que não tem consciência, e eles vão apontar o dedo, achando que surtou, e se por acidente acabar os machucando, farão a tua caveira.

    Estou revelando sobre mim, não para que venham tirar satisfações mais tarde. – Mas se quiserem tenho muito mais material para provar quem sou.  – E sim para lhes mostrar, que há sim semideuses entre os humanos, e que nem todos pertencem ao 90% dos mergulhados em mentiras, somente para aparecer.

    Vocês não estão sozinhos. Eu posso ouvi-los, e acreditar em suas histórias, se forem sinceros sobre o quê houve. – Quem realmente é, percebe as inconsistências dos fatos, por isso é mais fácil saber, quem carrega a mesma dádiva ou maldição.

    Cada de nós tem uma missão, seja ela grandiosa, ou parte de um grande plano, e seria bom que nos apoiássemos, pois o universo é grande o suficiente para quê todos consigamos, alcançar a merecida glória. – E isso vale para humanos e predispostos.

    Acham que apenas por ser filha de Lúcifer e Lilith, sou uma criatura suprema e imbatível? Não, não é por aí. Há os filhos que nasceram da própria Tiamat ou de Apsu, e outros Titãs, que são muito mais poderosos. – No entanto ter muita energia, não significa  automaticamente, que sabe usá-la.

    Capítulo 7 – DIY MÁGICKO

     DIY é um conceito em inglês que significa Do it Youself, ou Faça você mesmo, e foi adotado por alguns grupos dos E.U.A que preferem fabricar seus materiais, e se abstém do uso das grandes marcas conhecidas. É claro que tal ideal parece implícito para muitos, e embora haja uma corrente chamada Magia do Caos,  que foi desenvolvida Austin O. Spare, e trabalha com isso de maneira bem expressiva, é importante que saiba como praticar.

    Você pode naturalmente criar feitiços, rituais, e cerimônias, para cultuar o teu deus, e lhe mostrar a sua devoção. Mas infelizmente há leis que por hora são permanentes.

    Não adianta por exemplo usar um baphomet para fechar um portal, quando o mesmo é usado a décadas por diversas seitas satânicas, para invocar os príncipes infernais.

    Assim como não adianta tentar invocar um demônio, atribuindo energias negativas ao pentagrama, que há muito tempo é considerado pelas bruxas, como um símbolo de proteção. – Pode até funcionar devido o grande descaso da sociedade, que segue achando que é o símbolo do Diabo, mas a entidade em questão vai rir de você.

    Sempre crie meios de se proteger, mesmo que seja na hora de criar um servidor – No caso da Chaos Magic. – Você pode ter a linhagem dos demônios, sem saber, e atrair um ser de luz, que tenta te destruir, somente porquê tu nascestes como determinado herdeiro. – E vá por mim, luz não significa ausência de combate violento.

    Verifique as condições ideais para realizar a prática mágicka. – Não só a atmosfera mística, como a física também.

    Se a lua é negra, e não condiz com o teu objetivo, evite-a, ou vibre de acordo com o instrumento, de onde saiu o acorde.

    Se o tempo está ruim, (e você não foi responsável), vivem te perturbando, e tudo parece dá errado no dia em questão, já tem a resposta para o teu intento, que é: Não. O universo está se manifestando contra, então fica por sua conta e risco. – Caso queira ir adiante.

    Procure conhecer os presságios. O chamado do universo é comum, por seguir um padrão lógico de repetições, que foge do binário computacional 0 e 1, e passa a ser 0,0,0 ou 1,1,1 – Quanto mais frequente, mais chances há de ser o Cosmos falando de maneira silenciosa. – Será um alerta, se Todos os itens estiverem presentes:

     Números: Números iguais, são portais de consciência – e energia mágicka – se abrindo. Mas quando surgem várias vezes, em conceitos diversos, é bom avaliar o quê significam através do estudo da numerologia, cabala, e gematria em geral.

     Sonhos : O plano onírico é um dos mais interessantes, pois revela sobre o mundo, que há dentro do ser. – Freud estudava os sonhos, para compreender melhor seus pacientes, e você também pode, embora o método não seja recomendado, pois dificilmente será objetivo para ter resultados plausíveis. Além disto, se o indivíduo está conectado com o oculto, tem a capacidade, de prever as linhas dos próximos acontecimentos. Assim sendo deve-se avaliar, quando um sonho, é apenas sonho, ou um sinal. 

    Por ex: Se você tem tido sonhos com elementos semelhantes isolados. Como: a presença constante de pregos em evidência. O resto do contexto se aplica a ti, mas a presença dos pregos é um comunicado. – Como se fosse um código morse do Universo.

     Frases incomuns: Sejam de ameaças, ou que transmitam segurança. – Devem ser avaliadas, se sentir algum tipo de calafrio na espinha, quando as ouvir. Não importa se é da boca de um estranho, na tela do pc, ou em uma canção, pesquise sobre a questão, e tente decifrar o quê significa.

    É relevante salientar que o Padrão Ressoante é a chave, e que embora tenha citado apenas 3 exemplos, o fato de o presságio acontecer 3 vezes, não é o suficiente para se definir como um sinal. Será um sinal, se houver persistência do oculto em te mostrar a mesma mensagem, do contrário pode ser somente uma bela coincidência. A(o) Bruxa (o) saberá intuir a partir disso, e definirá se quer seguir tal caminho, ou optar por outro.

    Respeite as Leis Antigas, apenas atribua algo condizente a tua personalidade no Culto a teu Deus.

    Se lá no teu grimório diz que deve usar a violeta, use a violeta, não o  eucalipto – Com exceção a sacrifícios humanos e de animais, sem razão lógica. Como por ex: Mate um carneiro para o deus, e se livre do cadáver. (Se for para matar um bicho, que seja para deleitar-se da sua carne, ou trazer alívio para alguma dor.)

    Siga os antigos, estude-os, respeite-os, mas adore somente aos deuses. – Não trate grandes nomes da vertente da magia, como se fossem a entidade a que te dedica. – Por ex: Aleister Crowley Não É Um Deus Supremo. Em vista disso não haja como se fosse. ( Leia seus escritos, mas sempre com a consciência crítica, do quê condiz com a tua realidade.)

    Você pode imitar alguns rituais, feitiços, e poções. Mas o ocultismo é o campo da criatividade, então quando estiver pronto, inove, entregue-se, e DIY (Faça você mesmo) – Não é porquê fulana usa sempre os métodos 100% tradicionais, que tu devas utilizar também, afinal para ela pode ser fácil, arrancar a cabeça de um cervo, e para ti não.

    Como é errado falar de um ideal, sem aplicá-lo na vida, a experiência que lhes trago é a minha própria língua, que batizei de Lovlicos, pois me baseei em escritos de H.P Lovecraft, e nos sinais da linguagem cósmica, e ela consiste em: 

    Alfabeto tradicional  português- BR. 3 Palavras abreviadas com 3 siglas no total.

    III. Formação de frases, com no máximo 3 sentenças.

    Dicção forte, com acentos ocultos, que somente 

    quem já presenciou os mistérios do universo, 

    consegue aplicá-los.

    Timbre doce para o uso benéfico, timbre

    sombrio, beirando o demoníaco para o

    maléfico.

    Ex: 

    Em português é: 

    A lua brilha sem parar

    Em Lovlicos é: 

    Alub separ

    Em português é:

    Sim e não, talvez

    Em Lovlicos é:

    Sie nata

    Em português é:

    Não vou

    Em Lovlicos é:

    Navo

    Parecem palavras de uma raça antiga de alienígenas – ou com os Enn’s demoníacos que conheci ano passado. Mas é apenas um sistema simples, que apliquei aos meus rituais, e até agora rendeu bons resultados. – Ainda que alguns fatos tenham me assombrado, pois apesar de não ter uma egrégora forte (por ser minha criação) é uma expressão muito poderosa. – A melhor explicação, é que o cérebro se impressiona com coisas estranhas, e o uso das mesmas, intensifica o poder mágicko.

    A intenção aplicada nela pode variar, mas pelo que percebi com as minhas experiências e análises, é uma força que mexe com a ordem mundana, e traz a tona o quê é considerado impossível. – Tanto pro bem, quanto pro mal.

    Fora a Lovilicos, também realizo meus próprios rituais, baseados na filosofia com a qual tenho mais afinidade. – Uma qualidade, que me fez inclusive criar uma seita chamada Sees- Seguidores da Estrela, que obviamente representava Lúcifer, mas para acessá-la bastava acreditar em algo. -  Através dela introduzi algumas pessoas no mundo místico, após comprar-lhes a sua alma. – Quando acreditava em tais falácias.

    O Sees tinha um propósito comum: Realizar desejos, sejam eles nobres ou atrozes. Assim como também gerava consequências, para aqueles que traíssem o círculo.

    No total formávamos 4 componentes. Todos os membros eram femininos, e a nossa crença no poder oculto, era tão grande, que quando nos tornamos A constelação – O quê uma sente, as outras também. – O efeito foi imediato.

    Da mesma maneira que quando uma das moças, escolheu um homem, em vez do círculo. Acabou possuída, e tentou matar o seu amado, diante dos familiares. – Tinha 16 anos na época, e até chorei, me sentindo culpada, por um demônio tomar-lhe posse. – Nem sempre ter poder, é um sonho, na maioria das vezes parece mais um pesadelo. (Ao menos para mim.)

    Nossos rituais incluíam derramamento de sangue, como prova de lealdade, e devorar as doces frutas do cemitério, onde nos reunimos para realizar nossas práticas ocultas. – Que fique claro, não tolerava sacrifício de animais, o fluído da vida, vinha das moças, que faziam parte do círculo.

    Era pura brincadeira de criança, como uma versão da vida real de jovens bruxas. – Mas não cheguei a me tornar uma maníaca como a Nancy, apesar de me vestir como tal.

    Tivemos poucas reuniões, pois após chegarem as consequências, duas garotas, queriam pular fora. Uma perdeu o namorado, e a outra começou a ver as sombras, e isso lhe fez ter medo de onde colocava o pé. Então só restou eu e outra garota, que me apoiou por um bom tempo. – E até me ajudou quando minha vida ficou em risco, após romper o círculo de vez.

    Lembro-me do nosso último encontro. Foi o mais marcante de todos, pois ali tive o primeiro vislumbre da vida passada. – Fomos até o cemitério, e lá um estranho homem de chapéu branco, e camisa vermelha nos recebeu, fazendo perguntas interessantes, a respeito de estarmos ali para passeio ou trabalho, e nos avisou para tomar cuidado com as visagens (termo para espíritos) minha companheira riu, disse temer só os vivos, e eu disse que a morte era uma escapatória para os covardes, frase esta que não saia da minha cabeça.

     Ao ouvir a minha resposta, ele fez uma reverência, e sumiu no meio do matagal. Após a sua partida, as sombras começaram a ganhar forma, e tanto eu, quanto a menina vimos coisas. Primeiro vi uma mulher enforcada no topo de um pinheiro, por um cipó cheio de espinhos, e logo deduzi que era uma bruxa. Em seguida seu corpo sem vida caiu, e um ser de chifres meio homem meio touro, veio para recolhê-lo. Tão grande foi a minha surpresa, ao ver como ele a pegava nos braços. Não a arrastava para o inferno, nem levava como um pedaço de carne, parecia mais que era a sua noiva, e tinha um aparente carinho por ela. – Conseguia sentir que aquela imagem, era um retrato da minha vida passada, e aquela conexão era fantástica. – Ambos desapareciam na névoa, e 7 ou 8 rostos, não lembro ao certo, apareceram, sendo 5 femininos e os restantes masculinos. Nós voltamos para a causa da minha amiga, e acabei por desmaiar sem razão aparente.

    Mais tarde a noite, quando estava sozinha em meu quarto, vi que haviam várias sombras chifrudas ao meu redor, e as mesmas pareciam que iam sair das paredes. – Isso me deu um calafrio tão grande, que naquela noite, resolvi dormir no sofá. – Neste tempo nem imaginava que era a herdeira de Lúcifer, então não tem como ser algo influenciado por tal descoberta, que veio acontecer no ano seguinte, e só foi aceita, quase 2 anos depois, pois precisei analisar toda a gama de fatores, para poder aceitar tais fatos.

    Então tome muito cuidado com o quê aplica no seu DIY mágico, pois tudo o quê fizer, expressará a sua real natureza. – É por isso que estou lhe dando estes conselhos de maneira direta, pois apesar de ser uma conhecedora dos mistérios, com grandes saberes, por ter estudado sempre sozinha. Queria que alguém tivesse me dito estas palavras, para evitar todos os desastres que aconteceram.

    A magia independente do quê faça, sempre trará consequências. Mas não é como colher o quê plantar, e sim por causa do valor que atribui a tua responsabilidade pelos atos. Portanto sempre pratique, somente aquilo que a sua consciência é capaz de suportar, do contrário além de ser taxado como louco pela sociedade, vai realmente acabar como um. – Ouça esse conselho de quem foi recentemente diagnosticada com transtorno de personalidade, após inúmeras tentativas de suicídio e agressão, antes de conhecer formas de lidar com a própria escuridão.

    Capitulo 8 – A bruxa que vive entre os santos e os pecadores.

    Viver em sociedade é uma tarefa difícil para um bruxo. Sabemos de tantas coisas maravilhosas, e verdades indizíveis, que nos sentimos criaturas superiores, que precisam interferir na jornada dos demais, para que experimentem de toda a beleza ou conhecimento que adquirimos. – Isso é inegável, mesmo que sirva a luz da magia, e diga que acredita que todos são iguais, a igualdade não é a resposta para o quê quer.

    Imagine que todos no mundo são lagartas, e que algum dia se tornarão lindas borboletas. – Se você interferir no processo, eles certamente morrerão, antes de conseguirem sair do casulo. Este é um exemplo que li em Lex Satanicus, e achei algo absurdo na época, mas hoje percebo que é o melhor a ser feito.

    Assim como as pessoas, podem ser simbolizadas como insetos majestosos, também podem ser descritas como música, e cada uma tem um ritmo ou melodia própria, que pode ou não agradar os nossos ouvidos. – Portanto procure sempre andar, com aqueles que tem um ideal em comum contigo.

    É lindo abraçar as diferenças, mas uma coisa é aceitar o outro, outra bem diferente, é querer ser como ele. – A verdadeira beleza do mundo, não está em rostos padronizados e iguais. Mas sim em suas peculiaridades. O quê quero dizer com isso? Seja fiel a ti mesmo, e se aceite acima de tudo, não tente se adequar aos demais, somente porquê eles não te aceitam. Procure pelo teu próprio nicho, pois não importa qual seja, sempre há um espaço para ser ouvido. 

    Evite se expressar em sociedade, se não aceitam a tua crença mística. – Não é porquê você respeita os outros, que eles farão o mesmo por ti. – “Mas Lux você falou para não me adequar aos demais!” Sim, e não se adequar, significa ser leal aos teus ideais, não importa o ambiente em que se encontra. – Eu sou bi, e mesmo em meio aos héteros, continuarei sendo, não importa o quê digam. E se encontrar aqueles que me apoiam, me abrirei e direi a verdade, se não, seguirei em silêncio, pois o mundo é um lugar perigoso, e há aqueles que em seu fanatismo, apenas precisam de um “A”, para virem para cima. – E não quero mais responsabilidades por danos aos outros. É uma questão de sobrevivência.

    Enfiar nossas crenças na goela alheia, é como forçar a pessoa a aceitar nossas filosofias. – Eu sei que funcionou para os cristãos, mas o medo é tão eficaz, que hoje os fiéis se uniram a outras crenças, por não aceitarem a intolerância religiosa. Então o temor, embora funcione, não se compara a força do amor pelo quê se faz. Por isso se quer mesmo trazer, alguém para o seu lado – Vá na mãe de santo mais próxima, e coloque o nome da pessoa numa roda. Brincadeira!

    Tente explicar-lhes sobre a sua fé, e quando for confrontado, apenas faça comparações, que o ajudem a perceber que no fim seu amor pela divindade, não é tão diferente, do quê o quê sentem por Cristo. – Sua vida está tão difícil por quê não larga dessa tal magia e abraça o nosso senhor? Já me disseram e respondi Da mesma forma que você ama o seu senhor, apesar das dificuldades, eu também amo a Lúcifer, e assim como tu se identificas com Cristo, eu me sinto mais confortável andando com o deus romano. Foi o suficiente para seguir em paz, nunca mais tocou-se no assunto, e a amizade seguiu  a mesma.

    Não tente humilhar ninguém, a não ser que a pessoa realmente mereça tal castigo. – Eu pessoalmente odeio “lacrações”, porquê é algo desnecessário para sociedade, e trata-se de gente, que quer “arrasar” apenas repetindo o discurso alheio, como se fosse uma verdade absoluta. A pessoa aparentemente refletiu sobre algo, mas no fundo não se deu o trabalho de questionar, e apenas uniu a ideia do autor, a coisas que ouve no cotidiano. Chega a ser – me perdoe pela expressão – Patético, pois a preguiça intelectual se torna mais do quê evidente. – Por isso fica a seu critério Expor a sua ideologia ou não–  Mas lembre-se Bruxos (a) de verdade, não tomam os problemas da sociedade como seus. – Eu sei soa frio, todavia é assim que funciona, pois devido a enorme gama de poder, que um ser desses possui, se ele coloca as suas emoções em jogo, certamente isso traz consequências, que dificilmente são agradáveis. Hoje destrói um ditador, amanhã impede o seu país de prosperar, e todos acabam na miséria por exemplo.

    Não estou dizendo,  que não deve defender aquilo em quê acredita, estou apenas esclarecendo, que precisa ter noção do quê defende, antes de ir as ruas ou redes sociais. – Não seja mais um papagaio da fé, e somente parta para a guerra, se o conceito do outro, realmente te ferir, de uma forma, que precisa colocar todo o ácido para fora. – Este livro não é para passivos, ou atacados, mas sim guerreiros que sabem quando devem erguer a voz.

    Isto nos leva a um tópico interessante. Não ataque a tudo e todos, apenas porquê não te aceitam. Aprenda a si amar, e não ligar para opiniões repulsivas. – Não ligar mesmo, ou seja ouvir, e entrar por um lado e sair pelo outro, sem sair por aí dizendo “Eu não ligo! Não adianta tentar me atingir! Pois não vai conseguir!” já que se o fizer, estará claramente agindo de maneira contrária, ao que disse.

    Aprenda a controlar a sua raiva, ou ela te controlará. – Não haja por impulsos, pois isto pode custar muito caro para você, ou os seus colegas. – A ira nos faz ter pensamentos num segundo, cuja responsabilidade pesa por uma década.

    Haverão muitos grupos, que exaltarão a fúria, e te dirão para destruir tudo e todos. Mas não te falarão, que você pode ferir alguém gravemente, ou até mesmo matar o alvo escolhido. – Porquê a maioria que venera estas forças, não se dá ao trabalho de conscientizar os seus do perigo.

    Aprender a controlar a sua raiva interior, não te fará mais fraco. Mas sim capaz de realmente arrancar o coração, de um inimigo velado, sem sequer se importar se isto pesa ou não na consciência, pois terá ciência, de quê se chegou a tal ponto, foi algo necessário, e será mais difícil de se arrepender. Só que se o fizer, apenas por causa de um segundo de raiva, a culpa mais tarde vai te consumir, e caso isto não aconteça, sugiro que vá urgente ao psiquiatra, pois a sua falta de empatia, é algo assustador.

    Aceite a natureza, e a proteja, não tente modificar a ordem das coisas. – Nós somos carnívoros, está no nosso DNA, desenvolvemos caninos para devorar carne. Se você quer cuidar da natureza, comendo apenas frutas e vegetais, tudo bem, mas não venha tentar obrigar os outros a seguirem a tua doutrina. – Cada um em seu nicho lembra?.

     “Um leão pode devorar um ser humano, mas o ser humano não pode devorar o leão”? A onde isto é natural na cadeia alimentar? Por quê o leão tem que ser superior ao homem, em vez de haver um termo de igualdade entre ambos? A ciência não tem dito a anos, que o homem tem parentesco com os primatas, e logo é um animal também? – Eu sei isso pode ser desagradável, mas o natural não se baseia em veados e leões, andando lado a lado como amigos, da mesma forma, não pode acontecer com os humanos e os seus irmãos animalescos. Não importa se é racional. A falta do instinto caçador, nos torna dóceis, e mais fáceis de sermos manipulados por entidades obsessoras. – É claro esta é a minha opinião, escolher seguir ou não é de você, mas antes de sair levantando bandeiras a favor do meio-ambiente, pelo menos conheça o quê defende.

    Isto significa que eu, Lux Burnns, sou um monstro, a favor da caça por diversão, e outros meios de entretenimento humano, que humilham os animais? Não, o preto e branco, não se encaixa a mim. Uma coisa é respeitar a natureza, outra é usá-la como posse, da maneira que bem entender. – Por mim as fábricas de comida, deveriam promover o abate misericordioso, semelhante aos dos banquetes de festividades africanas.

    Sempre respeite a crença alheia. Você ama Odin e seu parceiro a Lúcifer. Mas e daí? Cada um segue a divindade que desejar, e aprende com a mesma. – Novamente lembre-se da metamorfose da borboleta, se mexer no casulo, ela morre.

    O mesmo vale para os seus pais. Se você vive com eles, lhes deve muito, por te darem um teto, comida, e as vezes até roupa lavada. Então não os desafie, ou os desmereça por causa de crenças diferentes. Vocês são de tempos diferentes, foram colocados juntos, para aprenderem uns com os outros, não se destruírem. – Seja maduro, saiba argumentar, e lutar como um nobre, pelo seu ponto de vista. Se agir assim, eles provavelmente verão, que a tua filosofia está te tornando alguém melhor, e que não precisam se preocupar. Agora se sair berrando, quebrando os móveis da casa, batendo a porta do quarto, mesmo que eles só queiram conversar, tudo o quê vai ganhar com isso, é mais abordagens, que demonstrem medo do caminho que está tomando. – Falo por experiência. Iniciei minha vida mágica da pior forma, e só depois que adotei esta postura, por causa de Anton Lavey, a guerra em casa acabou. Rebeldia com causa é algo louvável, mas rebeldia por rebeldia, nada mais é que tolice. – Se eles  ainda sim, não permitirem que faça os cultos dentro de casa, vá para fora, se for ruim, procure algum canto seguro, onde possa praticar, sem causar problemas em seu lar. – Nem sempre será um método efetivo, mas é melhor ter aliados dentro de casa, do quê inimigos.

    Por fim sempre tenha em mente, que sentir-se superior, não significa ser superior. Para torna-se assim, terá que ter atitudes que condizem com tal postura. – Não me mande beijos de luz, se a sua única intenção é me queimar. GsolitaryDevil.

    Capitulo 9 – Os Deuses e o Fim da farsa da realidade dualística.

    Este é o fim da sua jornada comigo, e o ínicio de algo ainda maior. Como disse lá no início, há autores infinitamente melhores, e não estou aqui para me apropriar dos seus cargos ou teorias. – Apenas estou apresentando-as com uma linguagem mais direta, para que saibam exatamente o quê praticam, de acordo com a interpretação aceita por outros ocultistas. 

    Até aqui temos trabalhado sobre as grandes causas sociais, que afligem a comunidade mística, e muitas vezes defendi que a realidade não é dualística. Mas para fechar este pequeno guia, me aprofundarei nesta questão com uma explicação mais extensa. – É neste ponto que você vai decidir, se quer continuar sendo ocultista, ou prefere tomar o caminho mais simples, adotando alguma religião por exemplo.

    Desde que éramos jovens, nos ensinaram a dividir o mundo entre homens e mulheres, bem e mal, fogo e gelo, guerra e paz. Nossos pais – na maioria das vezes – nos diziam “No mundo há Deus que é o bem, e há Satanás que é o mal. Deus é luz, Satanás escuridão. Deus é água, Satanás é chamas.” 

    Apesar de não discordar, dos conceitos acima apresentados – com exceção a Deus ser luz, mas é pessoal – creio continuarmos a segui-los é errado. Já aprendemos muito sobre as duas metades, então por quê deveríamos continuar trabalhando-as de maneira separada? 

    Está certo, a iluminação é importante, mas as sombras também são. É preciso que haja um ou o outro, para quê o todo exista. Não adianta tentar tirar um dos números da equação, senão dificilmente encontrará o valor de X ou Y.

    Devido a minha conexão cósmica, estudei não somente astrologia, como astronomia, física, e biologia. Pensei a príncipio, como muitos magos, que era apenas uma imposição social, para nos manter ignorantes perante a verdade do universo. Mas foi então que percebi, que a culpa da divisão não era dos cientistas, em sua maioria religiosos, e sim dos novos filósofos da internet, que empregam o conhecimento científico, apenas para atender os seus próprios conceitos mesquinhos.

    “Deus não existe.” Dizem todos os ateus, que esqueceram-se de questionar, adotando uma conduta massificada, e muitas vezes tomam como prova inconstetável, as palavras de grandes pensadores, que foram queimados como hereges. Oras meus amigos, se Deus não existe, naturalmente nada mais do mundo místico é real também. Inclusive Lúcifer, Odin, Hel, Osíris, Ísis, Seth, Zeus, Deméter, Amon, Baal, Krishina, e vários outros deuses, pois se o suposto supremo não é real, o resto dificilmente pode ser considerado como tal. O velho barbudo de sandálias que conhecemos, nada mais é do quê uma imagem criada por homens, que compilaram antigos escritos, num livro chamado bíblia sagrada. – Então quando se entrega a crença, de adorar o Deus do impossível, você indiretamente está se conectando com alguma destas divindades do velho mundo, por isso o uso de versículos, para atingir determinados objetivos.

    Espera Lux Burnns, filha de Lúcifer e Lilith, neta da gigante Tiamat, você está sugerindo que devo me converter? Calma! Não, isso jamais. Alimentar a ideia de quê este deus é supremo, é o quê torna ainda mais forte, não lembra? 

    Só que também não se pode descartar o inegável, de quê esse grande mosaico mal feito, também é parte da nossa cultura, e que desprezar alguns dos seus fatos, é o mesmo que massacrar a própria doutrina. – Por isso se prender ao lado A ou B, é errado. 

    “Ah mas a deusa x é maior que o deus y.” ou “O deus y é maior que a deusa x” Já chega de se prender a isso. Queres realmente acessar o poder máximo, nesta realidade limitada? Então pare de abraçar apenas a causa que te convém, e aceite que o quadrado é feito de dois triângulos, ou o círculo é formado pela união dos mesmos. – O quê isto significa? Que a realidade não se resume, a deuses C e D, e que não é necessário comprar as suas brigas, para que adquira o seu respeito, ou realizem os seus objetivos.

    Nem mesmo estes deuses são originários do príncipio feminino ou masculino, mas sim da união de ambos, que nasceram do verdadeiro ser supremo, que não é Jeová, Cerridween, ou nem mesmo Tiamat, apesar do quê muitos acreditam.

    Se você é iniciante, será um choque, mas a realidade precisa mostrada desde aqui, para que entenda a perda de tempo, que é lutar apenas de um lado. Então prepare-se, pois a origem do universo, de acordo com os antigos, lhe parecerá absurda, se ainda continua abraçado apenas a positivos e negativos:

     Mitologia súmeria

    Cosmogonia

    “Antes de todos os antes, nada existia, a não ser Nammu, o abismo sem forma. Um dia, Nammu resolveu espreguiçar-se, e novamente voltou a enrolar-se. Com esse gesto, ele criou Ki e Anu, respectivamente a Mãe Terra e o Firmamento. Deles nasceriam todos os demais deuses, o tempo e, no futuro, o homem, que seria feito de argila.”

    Superinteressante 28/05/2019

     Mitologia Egípcia: 

    Cosmogonia 

    Neterus Primordiais:

    São os deuses mais importantes os quais estão associados com o mito de criação (origem do universo):

    • Nun (Nu ou Ny): simbolizava a água ou o líquido cósmico que deu origem ao Universo.• Atum (Atum-Rá, Tem, Temu, Tum e Atem): representa a transformação de Nun, sendo considerado aquele que deu origem a explosão do Universo (semelhante ao Bing Bang) e que gerou os diversos corpos celestes, separando assim, o céu e a Terra.• Amon (ou Amun): esposa de Mut, ele é considerado o rei dos deuses.• Aton (Aton ou Aten): relacionado ao sol, ele foi o deus do atomismo que estava relacionado com o disco solar.• Rá (ou Ré): deus da criação, sendo um dos principais deuses do Egito.• Ka: força mística que representava a alma dos deuses e dos homens.• Ptah: marido de Sekhmet e de Bastet, representava o deus criador e protetor da cidade de Mênfis. Além disso, era considerado deus dos artesãos e arquitetos.• Hu: representava a palavra de criação do Universo.

    Toda Matéria 28/05/2019

     Mitologia Hindu

       Comosgonia 

    A Mitologia Hindu está fundada nos Vedas, que são os livros sagrados dos hindus. Segundo a crença, o próprio Brahma os  escreveu. Brahma é o Deus supremo da tríade hindu. Seus atributos são representados pelos três poderes: criação, conservação e destruição, que formam a Trimuri ou trindade dos principais deuses: Brahma, Vishnu e Shiva, respectivamente, da criação, da conservação e as destruição.

    Brahma é o deus criador de todo o universo e de todas as divindades individuais e por ele, todas serão absorvidas. Ele se transformou em várias coisas, sem nenhuma ajuda externa e criou a alma humana que, de acordo com os Vedas, constitui uma parte do poder supremo, como uma fagulha pertence ao fogo.

    Infoescola 28/05/2019

     Mitologia Grega

    Cosmogonia

    No princípio de todos os mitos, houve um tempo em que nada existia no Universo além do Caos – a mais antiga, a mais inexplicável, a mais absurda das divindades. Nenhum poeta e nenhum filósofo grego imaginava o que teria existido antes dele: era o primeiro dos deuses, a sombra de loucura e confusão que está nas profundezas de tudo o que existe.

    O Caos ocupava todo o espaço do Universo. Nele, estavam misturadas as sementes de todas as coisas futuras: mas não havia ordem alguma, apenas um turbilhão sem sentido e sem fim. No poema As Metamorfoses, escrito no século 1 a.C., o poeta romano Ovídio descreve assim a terrível divindade que deu origem a tudo: “Antes que a terra, o mar e o céu tomassem forma, a natureza tinha apenas uma única face, chamada Caos: uma massa crua e desestruturada, um conglomerado de matéria composta por elementos incompatíveis… Nenhum elemento estava em sua forma correta, e tudo estava em conflito dentro de um mesmo corpo: o frio com o quente, o seco com o molhado, o pesado com o leve”.

    O Sol não iluminava o dia, e a Lua não brilhava à noite. Não havia chão para firmar os pés, nem mar para se nadar – todos os elementos estavam misturados num caldo primitivo. E as coisas, embora sempre em convulsão, não saíam do lugar: pois não havia sequer direita e esquerda, em cima ou embaixo, Norte ou Sul, dentro ou fora. O Caos era tudo e, ao mesmo tempo, nada.

    Superinteressante 28/05/2019

     Mitologia Nórdica

    Cosmogonia

    A narrativa das Edas conta que, no princípio, não havia nem céu nem terra, apenas uma enorme abismo sem fundo e um mundo de vapor, no qual flutuava uma fonte. Dessa fonte surgiram doze rios que, após longa viagem, congelaram-se e com o acúmulo das camadas de gelo umas sobre as outras, o abismo se encheu.

    Ao sul desse mundo de vapor, havia um mundo de luz, que soprando vapores quentes, derreteu o gelo que havia se formado. Esses vapores, ao elevarem-se no ar, formaram nuvens e destas surgiu Ymir, o gelo gigante e sua geração. Surgiu, também, a vaca Audumbla, que alimentou o gigante com seu leite e alimentava-se da água e sal contidos no gelo. Certo dia, quando a vaca lambia o gelo, surgiu o cabelo de um homem; no segundo dia, a cabeça e no terceiro, todo o corpo, com grande beleza, força e agilidade.

    O novo ser era um deus e dele e de sua esposa surgiram Odin, Vili e Ve, que mataram o gigante Ymir. Com o corpo do gigante morto, fizeram a terra, com o sangue, os mares, com os ossos ergueram as montanhas, dos cabelos fizeram as árvores, com o crânio fizeram o céu e o cérebro tornou-se as nuvens carregadas de neve e granizo. A moradia dos homens foi formada pela testa de Ymir e ficou conhecida como Midgard ou terra média.

    Infoescola 28/05/2019

    Notou uma semelhança? É novato, e A e B nada mais são que A+B, que resulta em AB, que é a resposta sobre o quê o cosmos é. Eu detesto matemática, mas é um cálculo aceitável. Só que esta presença de uma força, que é a soma de partes, não se encontra presente apenas no misticismo, ou em algebra.

    Na física por exemplo um átomo, é formado por prótons e elétrons, que significa respectivamente o positivo e o negativo trabalhando juntos. Isto é algo caiu para mim na sexta-série, mas estava tão focada em renegar o aprendizado mundano, que não pude perceber, o quanto isto podería me ser útil.

    Na biologia há os casos de partogênese, quando uma espécie assexuada, gera uma prole. Mas isto só é possível, porquê as mesmas carregam tanto os genes xx quanto o xy. 

    Esta é a natureza meu caro, esfregando em sua face, que as espécies não são definidas por machos ou femêas, e sim por aqueles que são dotados de capacidades, para dominar o reino em quê habitam. – No reino dos insetos a louva deus fêmea, fica no poder, porquê o ambiente a tornou capaz. No reino felino, especificamente dos leões, é o leão quem comanda, e assim por diante.

    Os humanos, pré-dispostos ou não, continuam sendo animais, por isso também são livres, para definir quem é apto ou não para determinado cargo, desde que estejam cientes, de quê os gêneros feminino e masculino, atuam como formas da valor equivalente, não desigual. Já que novamente, um sem o outro, tem poder, mas os dois juntos, geram a perfeita união que representa o nosso Universo.

    Portanto não se entregue a falácias dualístas, que só agregam valor a determinado grupo. Abrace o todo, entenda-o, e perceba que a união de muitos, é o quê realmente faz a força.

    Por fim guarde isto em sua mente: Bem e mal é relativo sim. Mas uma conduta, realmente correta, pode ser alvo de piada entre os demais. Não importa, se tu segues a luz ou as trevas. Sempre que resolver pensar fora da caixa, haverão aqueles que tendem a te “apedrejar” ou “queimar na fornalha ardente”, por sua postura nobre.

    Um satanista pode sim ser amigo de um cristão. Um bruxo pode sim ser amigo de um mundano. A única coisa que me parece imperdoável, é que ambos continuem, a tentar se destruir, por comprar a briga de seres, que claramente andam de mãos dadas.

    Sem o Inferno não há quem puna os criminosos pelos seus pecados terríveis, da mesma maneira que sem o Paraíso não tem recompensas maravilhosas. Sem a Guerra, não há razão para o Amor existir. Sem a luz não dá para ver na escuridão, assim como sem um pouco escuro, é impossivel enxergar na luz. Sem o fogo para aquecer, o frio nos congela. Sem o frio para nos aliviar, o calor nos queima. Sem a lança para atacar, o escudo pode não ser mortal. Sem o escudo, não há como se defender da espada. A magia branca nos ajuda a alcançar nossos objetivos, mas a magia negra, nos ajuda a sobreviver. O tudo é o todo, e o todo é a junção de todas as metades.

    Agora a sua jornada se encerra comigo, nobre peregrino, e espero ter te ajudado a encontrar o teu cálice dourado. Pegue-o, encha-o do vinho do saber, e embriague-se de conhecimento, pois como pôde ter notado, não importa o caminho que tomares, o destino sempre será o mesmo, mas é a perspectiva do conceito, que te trará paz ou desespero.

    Com muito carinho, Lux Burnns.

  • O ANJO DO JULGAMENTO

    Prólogo
    A maldade silenciosa.
    Vivo num mundo cruel e sem salvação. Onde monstros se disfarçam de homens, e crianças são tratadas como adultos. Sigo por ruas pavimentadas, pagas com o sangue dos trabalhadores, e a dor dos inocentes. Criminosos crescem como pragas, e andar por qualquer cidade, já não é mais seguro. Ligo minha TV para esquecer que a perversão cresce lá fora, e me deparo com materiais doentios direcionados aos menores. A maior rede social de vídeos do mundo, proíbe minhas denúncias, garantindo que o material não chegue aos adormecidos. Mas minhas palavras não podem ser caladas. Há uma inútil luta na sociedade, para saber qual religião é melhor que a outra, ou se o homem é maior que a mulher, e vice e versa. Enquanto todos dão atenção para assuntos tão triviais, verdadeiros males ocorrem em torno do mundo com um único objetivo: manter a dominância de uma Elite doentia, que tem pervertido a magia, desde que o homem era somente um projeto de uma raça superior. Não me diga que ainda acredita, que os demônios vivem abaixo dos seus pés, e que Deus não é uma inteligência magnânima, que deu origem a isto tudo. Não, não me confunda como uma religiosa fanática, pois estou bem longe de ser. Não, também não me chame de satanista, este é um nome que não cabe a mim. Estou muito além destes rótulos, para ser definida somente por eles, por isso peço que me respeite, e me chame apenas por anjo do julgamento. Já que estou acima do bem e do mal, e apta para determinar a sentença dos seus homens e mulheres. Vim para este mundo, como uma de vocês, nasci de uma barriga humana, embora fique cada vez mais claro, que não sou deste mundo. Cresci como uma criança normal, sem saltos no tempo, ou perseguições de um grupo secreto. Porém sempre carreguei comigo, uma maldade gigantesca, que me levava a manipular, me aproveitar, e torturar os outros. Talvez tenha sido uma menina psicopata, talvez somente acima da média, mas uma coisa é muito clara, esta crueldade frívola nunca me abandonará, e dado as atuais circunstâncias, é melhor que assim seja. Na minha fase adulta, o meu destino ficou cada vez mais claro, quando seres poderosos, entraram em contato comigo através de pensamentos obscuros, e sinais nos céus, que jamais cessariam, até eu aceitar a minha conduta. Em janeiro de 2020, fui seguida por um grupo de frades tradicionais, após ter tido vários pesadelos, com inúmeras mortes causadas pelas minhas mãos. Eu senti medo, pois após tantos anos de terapia, enfim tinha descoberto que sofria de um mal psicológico, que poderia me transformar numa assassina de uma hora para a outra, o quê para mim, era cruel e demoníaco, e eu precisava controlar, senão vidas inocentes iriam pagar pelo meu problema. Eles me chamaram por um nome, que tentei esconder debaixo do tapete, todavia evitar o quê era, não foi o suficiente para me deixarem em paz, e assim tive de seguir com eles. Muito antes de evitar as minhas asas negras, já havia imaginado que um grupo viria até mim, e me levariam a algum lugar sombrio, por isso implorei aos deuses para me protegerem, ou me deixarem escapar. Infelizmente cheguei ao meu destino, e ninguém me salvou. Eles eram assustadores, e tentaram me atacar, mas o meu desejo insaciável por sangue, me levou a ficar viva e ilesa. Manchada de vermelho, me afastei do monte de cadáveres, pronta para me entregar a polícia. Só que dois padres surgiram, e aplaudiram o meu desempenho. “Ela é perfeita.” Concordaram entre si, e fiquei desconfiada, esperando que me dessem uma explicação. Eles pestanejaram, e me vi obrigada a puxar a faca. “Digam quem são, e o quê fazem aqui.” Perguntei sentindo a adrenalina fluir. “Somos os filhos de Jesus. Pertencentes a ordem sagrada de Cristo.” Eles me responderam, e eu gargalhei. Afinal o quê uma ordem de tamanho poder religioso, iria querer com um anjo caído, que negava a própria alcunha? Eles me disseram que precisava ir com eles ao mosteiro de Santa Marta, e que lá receberia explicações mais detalhadas. Naturalmente opinei por não ir, contudo cedi a minha curiosidade, e com eles eu segui. Muitas horas se passaram, até me levarem ao topo de uma montanha rochosa. Outra vez o medo de ser destratada, e sofrer torturas preencheu o meu ser, até que o vi. Era um homem loiro, de cabelos escuros, olhos penetrantes e claros, que intercalavam entre o rio e o mar, muito bonito , que vinha em minha direção. “Minha filha.” Ele disse, e eu não segurei o riso. Até ali tinha noção que de quê havia conhecido o paraíso, porém filha daquela figura bíblica? Era cômico demais. “Preferes desta forma?” Disse ao fazer chifres de bode crescer em sua cabeça, enquanto o corpo mudava. “Não pode ser.” Fiquei catatônica, e acabei por desmaiar em seus braços. Ao acordar ele me explicou tudo, e pude reagir de outra maneira, o abraçando forte, por saber que estava diante do meu verdadeiro pai. Assim me tornei uma dos seus seguidores, e me dediquei a cumprir a minha missão, de destruir os ímpios, e iluminar a terra, com a minha chama sagrada. Pois ele só havia voltado, para que o julgamento se iniciasse, e o mesmo só poderia ser feito com o poder da sua amazona, e filha mais velha, a própria morte, ou seja eu. No início senti culpa pelas vidas que ceifei, no entanto bastou ver a lista dos culpados, para que o arrependimento se transformasse em paz. Não estava tirando aqueles homens e mulheres de suas famílias, e sim devolvendo demônios de volta para o inferno, do qual nunca deveriam ter saído, e seguiria fazendo isso até limpar o planeta, desta maldita escória de covardes.
    Capitulo 1- Verdades
    Inconvenientes
    A MORTE NARRA:
    Um dia eu tive uma amiga, que acreditei que seria para sempre, mas agora era somente outra neblina de inveja e prepotência, que precisava se dissipar. Ela era bonita, e de corpo desejável, mas embora tivesse tais atributos, não era feliz ou satisfeita consigo mesma, por mais que escondesse isso, através de um sorriso tão vazio quanto a sua cabeça sonhadora. Sei que parecem sinais de ódio, todavia posso assegurar-lhes que é somente mágoa. Eu confiei nela, depositando em suas mãos todos os meus sonhos, medos, e anseios, como se fosse a única confidente que tive na vida, e o quê achei que duraria até o Armagedom, hoje era apenas um motivo de dor e tristeza. Ela seguiu uma vida criminosa sem retorno a cidadania de bem. Algo que tentei lhe alertar, que não teria um fim nobre. Já eu me juntei a Ordem secreta, que conhecia as duas faces do demônio, e passei a julgar os meliantes que trucidavam inocentes. Desde sempre estava claro, que éramos o lado diferente da moeda. Só que para a minha surpresa, não fui eu, a servir as trevas, cometendo iniquidades, apesar dos demônios que sempre me acompanharam, nas profundezas da minha mente. “Thamara.” Meu superior me chama, enquanto sigo pelo escritório, olhando os relatórios da empresa, com um par de óculos, que por intervenção divina, não mais necessitava, porém precisava para manter as aparências. “Seu desempenho foi excelente neste mês. Logo se formará com louvor.” Ele me elogia, e o olho sem muito interesse nas finanças. “Que bom. Não vejo a hora de terminar o curso, e voltar a trabalhar em casa.” Deixo escapar, e isso o magoa, já que acha que eu não valorizo seus esforços para me sentir bem ali. Não me importo muito, pois após ter conhecido tantos que usavam a máscara de bons moços, para esconder seus crimes. Gentilezas não mais me atraem. “Tha.” Ouço a voz do meu amado, e sorrio ao ver o belo moreno de terno que vem na minha direção. Ao chegar o abraço com todas as minhas forças, pois ele é a minha luz, neste mundo sombrio. Nós terminamos as simulações de compra e venda de ações, e descemos pela escadaria. Ao entrarmos no carro, nossas feições de alegria mudam, e ele segura a minha mão. “Sei que não será fácil. Mas é preciso.” Diz tentando me dá forças, e eu aceno com a cabeça, me preparando para tempestade que há de vir. Ele estaciona o carro, eu desço com o cabelo amarrado, num coque para trás, luvas, e tudo o quê é necessário para cometer um crime. Estamos numa floresta densa e escura, e o cheiro de morte impregna o ar. “Ela esteve aqui.” Aviso, ao o seguir sem fazer muito barulho. “De fato.” Meu marido pega duas cabeças de recém-nascidos, mortos, que tiveram seus olhos arrancados, e pela quentura do sangue, percebo que o infanticídio foi praticado a poucas horas. “Droga!” Esbravejo furiosa, e nós abandonamos o local do sacrifício. Assim me livro das vestimentas que nos ligam aos assassinos, exatamente como os filhos de Jesus me ensinaram, e seguimos como inocentes. Meu celular toca, e o atendo com grande desgosto.
    _Thamara.
    _Não chegamos a tempo de capturá-la.
    _Eu sei. Sua irmã pode ser uma
    cabeça oca, mas ordem a qual ela
    serve, é cheia de membros
    perigosos.
    _Para uma menina, ela tem me
    causado uma bela dor de cabeça.
    _É porquê tem sentimentos por ela,
    e no fundo se sente culpada pelo
    caminho que tomou.
    _Pai. Eu sou o monstro da família.
    Se tivesse controlado meu ego,
    talvez pudesse salvá-la.
    _Não, não poderia. Ela tinha o livre
    arbítrio, e optou por seguir para
    as trevas.
    _Ela não é tão má. Eu sei, porquê
    na hora das mortes...
    _Thamara. Você desliga as emoções
    , para julgar os que merecem. Ela o faz
    para sorrir, se divertir, e você já viu.
    Não há comparação.
    Meu pai estava certo. Minha irmã, e antiga melhor amiga, agora era um monstro imparável, que não se preocupava com o dia de amanhã, e já tinha cometido mais de 10 assassinatos, em nome da Ordem das Corais. Uma seita religiosa que tem planos malignos para o planeta, e precisa ser detida, pois apesar de seu número ser pequeno, a mesma é responsável por todo o serviço sujo, da ordem piramidal dos Iluminados. Algo terrível, que me trouxe memórias cruéis... “Katherine!” Gritei ao vê-la arrancar a cabeça de uma criança, mas ela me ignorou, tinha se entregado a escuridão, e nada poderia ser feito para regressar. “Ela nunca vai parar.” Conclui retornando aos tempos atuais. Era hora de matá-la, mas não sabia se teria a mesma frieza que desenvolvi ao exterminar os outros.
    A viagem de volta para casa foi longa e silenciosa. Bartolomeu sabia o quanto aquela situação me afetava. Ao chegarmos, notei que os portões da minha luxuosa casa estavam abertos, então coloquei um dos pares de luvas, e amarrei os cabelos. “Thamy.” Meu marido segurou o meu pulso, assim que coloquei o pé para fora, já com a adaga na mão. Meus olhos subiram, e vi a silhueta de minha mãe Lina, brincando com minha filha e cópia Ramona. “Não traga os seus trabalhos para casa. Seu pai jurou que manteria sua identidade protegida, e enviaria os melhores guardas para cuidar do nosso lar. Confie na palavra dele.” Ele me disse, porém não quis ouvir, andava tendo visões de que a casa seria invadida pela Ordem das Corais, e seria arrastada pelos Iluminados para dentro de um abismo, e não podia abaixar a guarda. A noite...Jantamos lasanha, com muito refrigerante, agindo como a família normal que não éramos, para manter a mente de Ramona sã. Um acordo que firmei com Bart, para garantir que a menina tivesse a infância que não tivemos, e somente mais tarde viesse a saber O quê nós somos. A pequena sempre carinhosa, nos deu beijos de boa noite, e foi para o seu quarto, ler seus contos favoritos dos irmãos Grimm. Apesar de sua doçura, ela sempre teve inclinações para assuntos obscuros, pois as histórias contadas para outras crianças, lhe davam sono. Era uma prodígio, e por isso eu ficava cheia de dores de cabeça, quando minha mãe vinha em casa. “Thamy você tem que colocá-la numa escola especializada.” Disse minha mãe, enquanto eu colocava os pratos na lava louça. “Já falamos sobre isso. Nem eu, nem Bartolomeu gostamos da ideia. O mundo não é seguro para uma garota gentil como ela.” Respondi esperando o furacão Lina, derrubar todos os objetos da cozinha, mas a idade a deixou mais calma, e isso me surpreendeu. “Filha você sempre reclamou por não termos explorado o seu potencial quando criança. Nós não fizemos isso, porquê não percebemos, seu pai não percebeu, mas você e Bart veem, não acha justo lhe darem a oportunidade?” Usou o velho argumento irritante, de quê fui um prodígio não reconhecido, por culpa do meu pai terrestre, e isso me chateou muito, contudo respirei fundo, e sentei a mesa, ligando o meu notebook. “Venha aqui.” Chamei-a, e a mulher baixinha e empinada, se juntou a mim, com seus óculos fundos. “Está vendo estas notícias?” Mostrei o novo sistema de pesquisa inteligente, conhecido como SIP-I. O programa que substituiu o Google em 2022, quando a Deep Web, deixou de ser uma rede subterrânea, para se tornar superficial, devido a grande popularidade de materiais distribuídos como inofensivos. Ao contrário do programa do Bill Gates, o SIP-I, era controlado por uma inteligência artificial, criada por um gênio e pai de família, que a desenvolveu exclusivamente para garantir que os filhos, ficassem longe dessas mídias danosas. O Google ainda existe, porém é uma ferramenta usada por criminosos, que agora podem agir a olho nu, graças a intervenção da Elite, para satisfazer seus desejos doentios. A policia, os guardas, os seguranças, os advogados, e todas as ferramentas para se fazer a justiça, não passam de teatros financiados pelo grupo piramidal, para fingir que ainda há um meio de salvar a todos. Sim, o mundo está um completo Caos, e não posso colocar a minha preciosa herdeira do verdadeiro Novo Mundo, nas garras dos monstros do atual. Não tive todo o cuidado de filtrar a sua programação, lhe formar em cursos a distância, para agora entregá-la de mãos beijadas ao sistema deles. “Menina de 10 anos, é estuprada em banheiro unissex por garotos da mesma idade. -Menina desaparece em escola, sem deixar rastros- Menina é agredida ao voltar para casa sozinha- Meninas tendem a sofrer 75% das agressões e abusos no país -Professor é preso por molestar as alunas. Preciso ler mais?!” Disse ao configurar o SIP-I com a minha biometria, para conteúdo adulto no meu computador portátil. “O mundo não é só isso Thamara.” Ela tenta me convencer, e eu acabo rindo, pois praticamente todo mês tenho que matar muitos, por conta da perversão que se expandiu. “Pode até não ser. Mas tudo o quê vejo é esse descontrole, e enquanto Ramona não for capaz de matar, em vez de ser morta, ela fica em casa.” Disse com frieza, e minha genitora se calou. A conversa que tive com a Dona Lina, me deixou bastante apreensiva, e trouxe de volta demônios, que há anos não me perturbavam. “Cuidado em casa.” Disse uma das vozes de minha consciência. “Você não deve confiar em nenhum homem.” Repetiu, e o medo se apoderou de mim. A passos lentos segui pelo corredor do quarto da minha menina, a porta estava entreaberta, e o meu bebê de 10 anos dormia totalmente embrulhado em sua coberta lilás, que por meu intermédio havia se tornado a sua cor favorita, desde que era menor. Entrei no cômodo, e me sentei ao seu lado, fiquei lhe fazendo cafuné, e vi o seu sorriso. “Você é a coisa mais importante do mundo para mim.” Disse-lhe, e ela me abraçou forte. Foi então que ouvi ruídos, e me vi obrigada a me esconder. Como não tinha para onde ir, usei um dos poderes da morte, a invisibilidade. Bart apareceu ali, e sem perceber acabei por deixar a menina descoberta, com o seu pijaminha de short curto. Respirei fundo, se algo ruim fosse acontecer, teria que ser naquele momento, pois meu marido pensava que eu ainda estava a conversar com a sua sogra. Ele a observou sorridente, e a cobriu, dando-lhe um beijo no rosto. “Sua mãe e você, são tudo para mim.” Falou com ternura, e eu não consegui me conter. Meu corpo tremulou entre o intangível e tangível, e acabei por surgir no canto da parede. “Thamara? Mas o quê faz aqui?” Disse já incomodado. “Eu precisava ver se a Ramona estava bem.” Foi o meu primeiro impulso a dizer. “Se era só isso, por quê se escondeu atrás da cortina?” Questionou com o ar de inteligência, sabendo no fundo o quê aquilo significava. “Nem precisa dizer.” Concluiu me deixando para trás, e sai atrás dele, pronta para me explicar.
    _Bart.
    _Thamy. Você lida com o mal o tempo todo.
    Como é que ainda pensa isso de mim?
    _É só que você é todo liberal, e gosta muito
    de mim, sendo que pareço uma menina
    de 14 anos.
    _15. Mas você tem 24, há diferença.
    _Até o dia que envelhecer...
    _Primeiro se envelhecer, sempre será a minha
    mulher. Segundo você não envelhece, é
    parte de ser a morte.
    _Mas se não consigo julgar nem a Katherine,
    que é minha irmã, imagine a você que é
    o amor da minha vida?
    _Eu não sou a Katherine. Tenho prazer de matar
    pela mesma razão que você. Pra limpar o mundo
    dessa escória maldita, que se tornou uma
    epidemia!
    “Tem prazer de matar? Pela mesma razão que ela?” Ouvi uma terceira voz na discussão, e meus olhos se arregalaram, lá estava a minha mãe na porta do quarto da minha filha, que se escondia atrás da sua longa camisola azul. “Ah! Fantástico!” Explodi, e ele lutou para se manter calmo. “Agora todos os meus planos para a Ramona foram por água abaixo. Está feliz?!” Deixei fluir o ódio. “Espera, vai me culpar? Foi você que iniciou a discussão!” Ele rebateu, e embora tivesse razão, preferi negar a culpa, e inspirei “todo o ar do ambiente”, até me tranquilizar, para explicar tudo o quê tinha acontecido, pois embora tivesse o dom de tirar a vida das pessoas, não tinha a capacidade mudar seus rumos. O tempo nunca volta para a morte, isto se dá por uma força maior que a minha, e até mesmo a de meu pai.
    Nos sentamos a mesa, a mesma onde deveriam haver conversas comuns e entediantes, em vez do grande “elefante” que estava entre nós. Ramona ficou a me observar com seus olhinhos negros, que estavam esperando uma explicação, enquanto minha mãe tremia como um rato diante do gato, achando que minha doença, tinha enfim chegado ao estágio final, e agora eu matava sem ter um código de conduta. “Eu poderia mentir para vocês, e acreditem em mim quando digo: Adoraria fazer isso. Mas esconder a verdade, as levariam a pesquisar por conta, e tirarem conclusões mais absurdas que o próprio axioma, por isso vou lhes contar tudo.” Tentei soar culta e fria, mas por dentro temia que não me entendessem, e me jogassem numa casa de apoio emocional e psicológico, um nome bonito para hospício do século XXI. Bart mesmo magoado pela acusação, segurou a minha mão me dando apoio, e apesar de meus demônios o odiarem, por me fazer tão fraca, uma pequena parte de mim, se sentiu segura por tê-lo ali, e assim ambos sorrimos sem vontade, um para o outro. “Lembram-se quando sumi por mais de 6 meses, quando estava perto de fazer 28 anos?” Iniciei o meu relato, com uma pergunta, para adaptá-las ao ambiente do passado. “E que Bart lhes disse que tínhamos tirado um ano de férias longe da Ramona, que tinha se tornado cada vez mais pestinha?” Conclui, e a velha conservada Lina, revirou os olhos, já se recordando do fatídico tempo. “É claro que sim, foi o seu ato mais egoísta em relação a pobrezinha.” Resmungou seca, e isso me fez sorrir com satisfação, pois agora ela se calaria com a verdadeira razão do meu sumiço. “A verdade é que eu tinha sido recrutada por uma antiga Ordem que...” Tentei terminar mas a avó, já veio atropelando a minha narrativa. “Você entrou para os Iluminados?! Depois de tudo o quê me falou sobre eles e sua maldade e...” Desta vez eu atropelei suas palavras. “Não! Eu entrei para a Ordem de Cristo. Na qual os verdadeiros devotos da luz celestial, ou estrela da manhã, são treinados pelo filho de Deus, para limpar o mundo de tamanha crueldade, provocada pela má interpretação das Escrituras Sagradas, que foram corrompidas pelo homem, para atender suas ambições.” Respondi quase automaticamente, e ela ficou emudecida. “Mas você é má. Como o filho de Deus, a aceitaria em seu rebanho?” Inquiriu desapontada com o seu grande ídolo divino. “Eu sou má, porquê preciso ser, e Jesus me escolheu porquê sou a filha dele e Madalena.” Disse com desgosto. Após ter entrado em tantas casas, para matar homens merecedores desta sorte, não gostava de ser associada a maldade diabólica, pregada por palavras vãs, de homens loucos por poder. “Mas você não é filha de Lúcifer?!” Ela ficou ainda mais confusa. “Tive a mesma reação ao descobrir. Mas sim Lúcifer e Jesus são o mesmo ser.” Esclareci, e ela cuspiu a água que tinha começado a beber. “Meu pai cometeu muitos erros mãe. Um deles foi tentado introduzir neste mundo, virtudes para os quais não estava preparado.” Baixei a cabeça, lamentando pelo surgimento da outra face, do príncipe do mundo. “Seu pai é o Alexandre! Esse homem que a induz a matar é um blasfemo!” Gritou como uma fanática, e com o meu dedo indicador apontei minha energia para a planta no meio da sala, que por “mágica" começou a secar, enquanto meus olhos mudavam de castanho para violetas. “Tudo é um, e o um é tudo.” Disse ao abrir a palma, e soprar a vida de volta para a flor, que brotou ainda mais linda e brilhante.
    _Como fez isso? Esse Homem. Esse homem é um alien?!
    _Não, bom é, mas não da forma que está pensando.
    Eu sou o cavaleiro do Apocalipse mãe, eu sou
    a Morte.
    _Mas como isso é possível? Sua gestação foi normal,
    embora houvessem complicações!
    _E você rezou a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro,
    para que eu não morresse, e me chamou de seu
    milagre.
    _Minha filha. É um peso tão grande para carregar.
    _Eu sei que é mãe. Sei que posso ficar louca. Mas pela
    primeira vez na vida, tudo realmente faz algum sentido,
    e principalmente, eu não preciso mais ficar de braços
    cruzados, vendo o mundo ruir.
    _Mas você é tão jovem, bonita, e inteligente.
    Ele não pode escolher outra em seu
    lugar?
    _Eu tenho 666 irmãos. Mas nenhum deles tem o
    meu poder mãe.
    _Eu sabia que um dia isso ia acontecer.
    _Não tá planejando me colocar no hospício não é?
    _Não, não minha filha. Apenas espero que saiba
    o quê está fazendo, pois um erro e...
    _Mamãe eu não morro.
    _Mas pode se ferir, e depois de tudo o quê já passou, não
    quero que se machuque ainda mais.
    Ela me abraçou, e Ramona ficou calada, ponderando sobre tudo o quê sabia a respeito de Cristo e Lúcifer. Naquela madrugada tive de falar tudo a minha pequena, de uma forma que ela pudesse entender, e acabamos por adormecer.
    O MISTERIOSO MARIDO NARRA:
    Thamara dormiu junto de nossa filha, e eu fiquei a mesa, arrumando os pratos, cheio de doces que devoramos ao ouvir as palavras da minha esposa. Lina não conseguia dormir, por isso ficou sentada no sofá com o olhar vazio. Embora quisesse transmitir confiança a filha, ainda não tinha aceitado os fatos, e suas mãos tremulantes, alegavam que estava a beira de um surto. Olhei-a por cima dos ombros, e respirei fundo. Se não a ajudasse agora, a Thamy iria sofrer as consequências mais tarde, e não podia deixar isso acontecer. Como quem não quer nada, sentei-me ao seu lado, e ela como que por desespero virou-se para mim, dando-me um baita susto, com seus grandes olhos vermelhos e enrugados, marcados pelo pânico do desconhecido.
    _Bart.
    _Eu mesmo Lina.
    _Thamara não me contou como você foi envolvido
    nessa matança.
    _Ah, é simples. O par da Morte, sempre será
    o Peste.
    _Espera você também acredita que é um dos Cavaleiros
    do Apocalipse?
    _Mas é claro que sim. Fui treinado junto com
    a Thamy.
    _Isso é loucura Bart!
    _Não, não é. Basta parar de ver a Thamy como somente
    sua filha, que verá os sinais entorno dela.
    _Vocês tomaram alguma droga, quando conheceram
    esse guru que acha que é Cristo?!
    _Lina. Se acalma. O tal “guru" salvou sua filha de ficar
    cega.
    _Então é um alien! Um alien maldoso!
    _Lina. Ele é realmente Cristo, sua filha é a Morte, e
    eu sou o Peste. Precisa aceitar isso.
    _Por quê?!
    _Porquê com você como nossa aliada, podemos
    iniciar o quanto antes, os treinos de Ramona para
    esta seguir o destino que lhe foi escrito.
    _E seria?
    _Herdar nossos poderes e manter o mundo
    em equilíbrio.
    A conversa com Lina, não me pareceu muito proveitosa. Era evidente que Thamara tinha puxado a cabeça dura dela. Todavia obtive algum êxito, e por isso pude dormir em paz naquela noite. “Você tem que matá-la.” O sussurro de minha própria voz passou pelos ouvidos. Minha esposa não estava de todo errada, haviam demônios na minha mente, só que ao contrário do quê ela pensava, não representavam perigo algum a nossa filha, não da forma que com veemência me acusava, pelo menos. Meus pensamentos eram mais piedosos, me falavam sobre matar a família inteira, e depois a mim mesmo, não torturá-las com maldade, como fazia com minhas “vítimas”, ou de maneira sexual, como algumas das “vítimas” faziam com terceiros.
    Mergulhado no vazio obscuro dentro de mim, eu os vi. Eram vários de mim, cada um com uma ideia de diferente, e como eu sou o rei deste Inferno mental, caminhei lentamente entre eles, mostrando-lhes a minha força e imponência. O meu eu assustado se recolheu de imediato, ou meu eu raivoso, saltou na minha direção, e por isso o peguei pelo pescoço. “Ela nunca vai te amar! Não é capaz de amar a alguém!” Ele gritou e isso me fez sorrir, ao puxar seu crânio ensanguentado para fora do esqueleto. “Eu que mando aqui, e se não respeita a minha amada deusa, deve morrer como todos os outros.” Esclareci, e o frio e calculista veio até mim. “Ela não é controlável como a Célia. Não é um bom negócio, seguir com aqueles que estão além dos fios de nossa manipulação.” Olhou para mim, e eu lhe acertei com um machado que projetei. Não tinha tempo para ouvir as asneiras, de partes minhas, para as quais somente a Thamara ainda dava vida. “Ele seguiu por aquela direção.” Disse o meu eu viciado em violência, e por isso segui cautelosamente até a escuridão, que crescia da direção em que aquele demônio tinha se enraizado. “Ela te deixou uma vez.” Foram as suas primeiras palavras. “Ela seguiu com Dave, e te ignorou. Só retornou porquê Dave não a ama.” Continuou com seu monólogo de mágoa. “Só há uma razão para odiá-la tanto. Sr. Tristeza.” Brinquei ainda atento ao ataque dele. “É Sr. Melancolia.” Ele gritou enfurecido. “Pra mim parece mais o bebê chorão. Aquele tempo se foi Bart Melancólico.” O alfinetei, e depois recobrei o sentido, se somos o mesmo, não cairia numa provocação barata. “Não para mim. Eu ainda a vejo nos braços do outro, exatamente como ela desenhou.” Respondeu com mais intensidade, e pude chegar até ele, porém ao pisar no topo de uma colina, iluminada pela luz da lua, percebi que aquela voz vinha do meu inconsciente. “Ela nos ama. Me ama, e é só o quê importa.” Disse ao olhar para baixo. “Não é tão simples.” Suas sombras se materializaram, agarrando meus pés como tentáculos, e me arrastando para dentro do breu. Uma vez disse a Thamara que eu tinha entrado em depressão quando me deixou, mas eu menti, ela tinha criado algo muito pior dentro de mim, pois nunca havia amado tanto alguém antes dela, e agora esse mesmo monstro queria me puxar para o fundo, com o intuito de se tornar o 70% de mim, que controlava os meus outros demônios. Isso já tinha acontecido uma vez, e até hoje sofro com consequências do Bart Melancólico, que me levou a trair a minha esposa, mesmo que só emocionalmente, e ela nunca me perdoou. “Ela irá fugir com o primeiro homem bonito que aparecer.” Ele disse tentando me desnortear, mas desde que tinha completado 30 anos, não era o garoto de antes, o emprego e pequenas intervenções de Thamy, tinham me tornado atraente o suficiente, para não me sentir ameaçado, caso surgisse mais um novo rival, na batalha pelo coração da minha companheira. Por isso concentrei raios de luz na minha palma, e cortei os braços da criatura, antes de chegar na ponta do precipício. “Eu não entendo por quê você ainda existe. Eu já superei o passado, então faça o mesmo. Não importa as batalhas que perdemos, e sim que vencemos a guerra, e teremos a Thamara para sempre.” Disse iluminando o meu corpo ao máximo, para ser intocável pelo poder obscuro, do ser que habita as profundezas da minha cabeça. “Dave, Thomy, e outros, não foram os últimos.” Ele me disse, e retornei ao meu estado ativo.
    Já eram 7: 30 da manhã, e Thamara já havia iniciado suas negociações com o Robô da Ibov. “Me atrasei?” Brinquei com o meu sorriso mais sem graça, e ela seguiu com os seus olhos vazios, procurando por algo que nem a mesma sabia. “Está atrasado em 15 minutos, e só não perdeu 140 USD, porquê entrei em seu Login.” Respondeu seca, e isso me preocupou bastante. Se ela soubesse a luta que vivo toda noite, para continuarmos juntos, talvez valorizasse o meu amor, ou não. Conhecendo a senhorita “Não te amo há muito tempo.” Certamente não. “Obrigado meu peixe.” Agradeci citando o nosso apelido próprio, na intenção de alcançar as suas emoções. Só que ela seguiu inerte, me ignorando, e isso fez com quê o pesadelo da noite passada, parecesse bem real. Sentei-me do seu lado, meio desarrumado, tinha apenas escovado os dentes, e lavado o rosto. Sua pequena e delicada mão procurou pela minha, e isso me fez sorrir. “Não Bart Melancólico estava errado. Ela me ama sim.” Pensei tentando esconder o riso de alegria, e sem dizer nada ela se encostou no meu ombro, ainda focada na tela da FT. Era o seu jeito de dizer Eu te amo, sem o uso das palavras, e eu adoro isso, pois depois do carinho silencioso, sempre vem o beijo, e neste sinto toda a sua energia amorosa fluir com bastante gosto.
    A MORTE VOLTA A NARRAR:
    Ainda estava enfurecida pela noite passada, ele me traiu com uma garota mais jovem, de 18 anos, quando tinha 22. O quê quer que eu pense? Que é um homem digno que não se interessa por garotinhas? É difícil. Pois achei que o fato de ser 2 anos mais nova, me dava uma vantagem que as outras não podem ter. Afinal desde nova, sempre sofri muita rejeição dos caras da minha idade, e recebi bastantes pretendentes mais velhos. Assim conclui que meu par teria de ter sempre um ou dois anos acima de mim, do contrário sempre seria sempre um fracasso. Meus planos caíram por terra! Mesmo sendo mais nova, ele procurou por uma ainda mais nova, 4 anos mais nova. O quê me levou a concluir que se tivesse 17, teria um relacionamento com uma menina de 13 anos, algo tão patético, quanto o quê Roger, o lixo que me desvirginou fez. Depois de tal fato, nunca mais o vi com os olhos do encanto, porém ainda sim, mesmo ferida, e quebrada por dentro, não deixei de amá-lo. Só que como ele nunca valorizou os meus esforços, para manter longe os abutres que queriam destruir o nosso relacionamento, sempre que esse rancor crescia dentro de mim, acabava por dizer que não sinto mais nada, pois a verdade é que não queria sentir, mas por alguma razão era o único que não era capaz de deixar de amar totalmente. Talvez fosse o pacto que fizemos, quando ele tinha 18 e eu 16, ou quem sabe somos almas gêmeas. Já não sei mais, pois cansei de fazer inúmeros rituais para nos desamarrar, e continuarmos voltando aos dias de intensa paixão da juventude, e nos amando ainda mais. Como uma maldição sem fim, da qual nunca poderia escapar. Karma também é uma opção, consequência por desafiar a ordem divina. Contudo poderia ter me prendido a um homem cachaceiro, que me bateria, ou não me reconheceria nem mesmo com magia. Porém acabei junto dele, e apesar de ter sido o maior dos idiotas, foi a melhor opção, entretanto se pudesse voltar no tempo, eu teria impedido essa união de todas as formas, e com certeza me espancaria até desmaiar, antes de juntar nossas gotas de sangue, e transformá-las numa só, envolvendo o nome de Lúcifer e Lilith. Talvez fosse melhor ter invocado a própria Afrodite e o seu Adônis endeusado, mas isso é duvidoso, pois muitos no círculo dos magistas alegam que Lilith é Vênus, e se isso é verdade, então Lúcifer seria Áries ou será que era o pobre Efestos? Aquele que foi expulso do Olimpo pela própria mãe, e se tornou um Deus por sua cruel astúcia, ao descobrir as fraquezas daqueles que um dia o humilharam. Tanto faz. Só sei que rezei aos deuses errados, pois mesmo que a minha vítima cedesse, passamos por vários problemas ligados a este bendito ritual diabólico. O amo muito, ele é a minha vida, não vivo sem ele, parece que quem se amarrou fui eu. É duro sentir tal coisa, sendo que nunca tive tal emoção, por nenhum outro homem antes, e pior ainda é gostar dele deste forma, depois de tudo o quê aconteceu. Eu piso, humilho, chuto como se fosse outro psicótico a ser julgado, e na hora de partir o agarro forte, e faço o quê estiver ao meu alcance para não deixá-lo ir. Meus médicos dizem, que é culpa do meu mal, que não o amo de verdade, só gosto de sua submissão, e de torturá-lo friamente. É tudo tão simples para eles, que chega a me dar raiva. Não é que não o ame, pois se assim fosse, não perderia a cabeça só de imaginar ele com outra. “E isso se dá porquê o trata como sua posse, e acredita que ninguém mais pode tocá-lo.” Já até ouço o Doutor Fernand dizer, e reviro os olhos. Oras se não quero que ninguém toque nele, é porquê é importante para mim, e as mãos impuras de terceiros não devem corromper o meu imaculado amado.
    _O quê está pensando Thamy?
    _Nada.
    _Olha lá a mentira patológica gente.
    _Não importa.
    _Ainda é sobre aquele assunto irritante?
    _Em parte sim.
    _Hm.
    _O quê quer para o café?
    _Nada.
    _Isso só funciona comigo. Deixa de graça.
    _Eu realmente estou sem fome.
    _Então vou fazer bolinhos de queijo
    , presunto, salsa, e recheio de
    requeijão.
    _Quero 2.
    _Ótimo. Vou aguardar você terminar
    aqui.
    Sorri da maneira mais cínica, e isso o contagiou. É nessas horas que percebo o quanto me ama. “Eu vou. Mas só porquê me garantiu 140 dólares ainda pouco.” Fez a face de senhor da razão, e eu gargalhei. Está querendo enganar a quem querido? É evidente que expande a quantidade de oxitocina no seu organismo por mim. Tomamos o café-da-manhã, já em clima de harmonia, sorrindo como se por alguns minutos todos os males tivessem ido embora. Uma perfeita relação abusiva, na qual para surpresa de todos, era a mulher que estava pisando de salto alto nos sentimentos do homem. O telefone tocou, e fechei a cara, pois não era Lúcifer que estava me ligando, e sim a minha irmã que tinha se bandeado pro lado dos Iluminados.
    _Luciféria.
    _Pai!
    _Precisa vim a Santa Marta o quanto antes.
    _O quê? Por quê?
    _Sua irmã despertou da lavagem cerebral
    das Corais, e está a beira da morte!
    _Ela... O quê?
    _Venha ao mosteiro, e explicarei tudo.
    _Está bem.
    Ele desligou, e eu olhei para Bart. Nós entramos no carro, e dirigimos até o monte dourado. Katherine estava totalmente desidratada, caída no piso, como se implorasse pelo seu último suspiro. Sem dizer nada, afastei todos os frades, e me ajoelhei diante dela. Concentrando minhas energias na palma, vi ambas se tornarem esferas de luz radiante, e soprei para dentro da sua boca, infelizmente minha irmã não estava só morrendo, e sim tinha sido acometida por um vírus, e somente o sangue do Peste, poderia curá-la. “Vai em frente.” Disse ele estendendo o pulso, e com minha unha de energia, perfurei sua pele rasgando-a, até pingar gotas vermelhas na língua da moça, que pouco a pouco se restabeleceu de sua doença.
    Passadas algumas horas...Caminhei pelo mosteiro, e fumei um cigarro de maconha para me acalmar. Meu pai viu, e sorriu, erguendo a mão, para tirá-lo da minha. Sem questionar o entreguei, e para a minha surpresa, ele o levou aos lábios, e puxou toda a fumaça com gosto. “Parece que o lado Lúcifer segue aí dentro.” Brinquei, e ele olhou para o céu. “Lúcifer nunca irá embora, Magda.” Respondeu com calmaria. “É Luciféria, Luciferiel.” O corrigi. “Luciféria no céu, Magda na Terra, Arádia na Magia, Matheuccia na Religião...São apenas nomes. O quê importa é a sua essência, pequena princesa.” Citou meus “20 nomes", e me fez entender o seu propósito. “De fato. Lúcifer no céu, Jesus Cristo na Terra, Agrippa na Magia e na Religião.” Devolvi na mesma moeda, e ele riu com compaixão. “Então reconheceu minhas palavras, até mesmo através de um homem? A eduquei direito pelo visto.” Olhou para o lado, e ergui os ombros. “Quando falou que o Ar não era um elemento, e sim uma cola que unia os outros 3, como se o mesmo fosse o mais poderoso dos elementos, ficou bem óbvio na verdade.” Completei, e ele seguiu a fumar a erva sagrada, que aos olhos do sistema, era maldita, pois fazia o cérebro trabalhar mais rápido, e se tornar menos passivo ao controle. “Pena que nem todos os meus filhos aprenderam direito a respeito da palavra sagrada.” Olha para a frente, e a silhueta de violão da Coral, surge querendo se aproximar de nós. “As deixarei a sós.” Ele de imediato se retira. “Espera, ela é sua filha. A minha está em casa lendo e aprendendo.” Resmunguei colocando minha mão em seu peito, não o deixando passar. “Mas quando sua mãe criou ódio dos homens, você cuidou dela, como se fosse sua. Queria uma chance de se redimir? É esta.” Me relembrou, e acabei por ficar sem argumentos. Como uma criança, a morena veio até mim, e eu segui com a postura fria de mágoa.
    _Lucy.
    _É Thamara.
    _Pra mim sempre será Lucy, a minha irmãzinha
    mais velha.
    _Irmã mais velha, não venha com diminuitivos
    para despertar meus sentimentos.
    _Como sempre fria como gelo não é?
    _Diria mais fria como a Antártica.
    _Não vai querer saber como te encontrei?
    _Você sempre se fez de lesa, mas é inteligente.
    Não há nada surpreendente em ter chegado
    até aqui.
    _Eu ouvi um elogio da Sra. Crítica?
    _O quê quer aqui Katherine? Já não nos traiu
    o suficiente, ao se misturar as Corais?
    _Isso está além do quê pode compreender
    Thamara Mary.
    _Que você tinha sede de poder, e se meteu
    com as pessoas erradas? Não, é bem
    fácil.
    _Se me ver como a velha Lilá, sim, é só isso.
    Mas entrei na Ordem das Corais, para vigiá-las,
    e te entregar constantes relatórios sobre os
    crimes.
    _É Agarath e disso eu me lembro. Então num fatídico dia, simplesmente me levou para uma armadilha, e por pouco não morri.
    _Eu me apaixonei Lucy, e assim como você
    e Bart, ele era o meu parceiro de outras
    vidas.
    _Outro loiro de olhos claros com o rosto
    de uma estátua grega?
    _Guarde o seu sarcasmo. Ele era moreno,
    de olhos castanhos, e sem um gigante
    porte físico.
    _Deixe-me adivinhar, era o líder das Corais?
    _Não. Era outro subalterno como eu, e quando as
    Corais descobriram que tinha traído elas, juraram
    matá-lo, e me entregar o seu coração numa
    folha.
    _Então por um amor de verão traiu
    alguém de seu próprio sangue.
    Interessante.
    _Ele não era um amor de verão Lucy!
    Estávamos juntos, desde que me infiltrei
    na Ordem das Corais!
    _E já se passou pela sua cabecinha infantil,
    que ele pode ser o vigia delas, para testar
    a sua lealdade queridinha?
    _Já! É claro que já! Você me treinou lembra?
    _Então como ainda pode me trair?
    _Porquê ele era diferente do John. Me ligava,
    Mandava flores, fazia planos comigo, e me
    fazia ver que Bart não era o único homem
    na face da Terra, a amar uma mulher.
    _Não te usava? Não te ignorava? Não
    pisava em você? Não dava sinais claros
    de manipulação, e que não estava
    afim?
    _Não. Havia tanta devoção da parte dele,
    que várias vezes as Corais tentaram o matar,
    somente por me proteger.
    _Então te amava mesmo.
    A conversa prosseguiu, e vi os olhos de Katherine. Apesar dos sinais de um amor realmente recíproco, estava claro que aquela história não tinha tido um final feliz.
    A MEMBRO CORAL NARRA:
    Quando entrei no clube das Corais, que até aquele momento não era uma ordem reconhecida pelo mundo, tinha apenas um objetivo, orgulhar a minha mestra, irmã, e segunda mãe que já tinha conhecido. A tarefa era simples, apenas observar os relatórios através do Whatsapp e repassá-los para a minha superior, que havia praticamente retornado dos mortos. Contudo praticamente da noite para o dia, o Clube das Corais, ganhou destaque, e passou a ser notado por diversos países. Assim em vez do pequeno grupo que só tinha conversas online, agora os membros ganhavam passagens, para se encontrarem pessoalmente. Entrei num lugar com estátuas de Gárgula, cheio das mais diversas artes clássicas e góticas. Quem tivesse conhecido a líder antes, não acreditaria, que Ane Marrie agora era uma das mulheres mais ricas do Brasil. Mas isso tinha um preço, que era caro demais para pagar. “Olá meus filhos. Eu sou a deusa. Lúcifer não virá, mas os homens de Cristo, bateram a nossa porta, e não podemos deixá-los esperando.” Disse Ane, enquanto os 9 membros principais, se aproximavam de seu trono de mármore, uma regalia necessária, oferecida por ninguém menos que os iluminados. “Luz é o quê este mundo precisa, e é a ela que agora serviremos, sem perder a nossa autonomia.” Prosseguiu, sentindo-se a dona do mundo. “Se Lucy assistisse a essa cerimônia, teria revirado os olhos, e cochichado algo sarcástico.” Pensei ao me ajoelhar perante os pés da “deusa Marrie". A festa foi bastante recatada, até o momento em que ela pediu que nos despíssemos. Tremi um pouco, pois só havia eu e mais uma garota, chamada Pauline, e um dos homens veio até mim. Seu nome era Timothy, e o olhar cheio de desejo, me fez ter repulsa, por achar que era um pervertido qualquer. Porém quando segurou minha mão, e a beijou, soube que mesmo sendo um tarado, era um cavalheiro. “Não é bem o lugar para ser educado.” Joguei verde, para ver se era um teatro e ele riu. “Com alguém tão bela quanto você, é sempre hora de ser educado.” Ele me olhou com os seus escuros olhos penetrantes, e sem graça deixei meu riso escapar. Após o evento, em que por nome dos deuses tivemos de copular, Ane Marrie notou uma conexão entre nós, e nos fez um par, segundo ela éramos deuses antigos, que agora tinham reencarnado para clarear a sociedade. Novamente se Lucy ouvisse tal coisa, iria surtar, pois parecia uma cópia malfeita da historia dela e do marido, e se saísse da minha boca, certamente brigaríamos, pois ela iria pensar que a ideia teria sido minha, por conta dessa “mania de poder". Timothy andava pela cidade, sentindo-se o Senhor das Ruas, por conta do título que a “deusa" lhe proporcionou. Eu seguia ignorando isso, minha deusa era outra, e a mesma dizia que eu só me tornaria como ela, no dia em que finalmente despertasse, de maneira tanto física quanto intelectual. Só que o meu parceiro achava mesmo que Ane Marrie, era alguma entidade poderosa, por isso tentava fazer a minha cabeça para ver a sua grandeza, e jamais seguir a renegada filha de Lúcifer, que não fazia parte das Corais, por ser uma egocêntrica, metida, que achava ter mais poder que a “nossa" majestade. “Sempre não é Lucy?” Mas estes embora pareçam ser defeitos, no fim eram suas qualidades, e eu admirava esse desempenho frio e turrão de ser. Percebendo que a glória da Rainha Cobra, não me tocava o coração, ele desistiu de falar de seus feitos, e passou a mudar de assunto. “Obrigado Satã por sinal.” Foi então que vi que Timothy, não era só um ingênuo seguidor da “deusa nada virgem", como Lucy costumava chamar, e pouco a pouco, meus pensamentos sempre focados na minha irmã, foram desaparecendo, e sendo substituídos por todos os segundos e minutos que ficava perto dele. É claro cometíamos muitos crimes hediondos, em nome dos Iluminados, por intermédio da majestosa Marrie. Mas tudo o quê ficava na minha mente, eram os milk-shakes com hambúrguer que comíamos na volta para casa. Os meses se passaram, e a minha aproximação com ele, se tornou cada vez maior. O quê deveria ser somente uma parceria de negócios, logo se tornou um romance, e quando dei por mim estávamos vivendo juntos, no apartamento simples dele, que nós chamávamos de ninho do amor. Mesmo que um filho de Eva morresse em minhas mãos todos os dias, tudo o quê importava, era o calor do seu colo no final da noite, pois nada mais era importante além de nós dois, ou assim pensei.
    Certa noite cheguei em casa, e Timothy não estava lá. Somente o nosso cachorro Vlad, se encontrava no apartamento. Logo o medo de algo ter acontecido invadiu o meu pensamento. Liguei em seu telefone, e o mesmo estava desligado. Estaria ele aprontando sem mim? Questionei. Só que o meu amor, me deixou um pouco mais lúcida, e por isso decidi verificar os meus recados. “Amor. O Vlad tá com saudades.” Foi a primeira mensagem, as 7:30. “Amor hoje vai ter pizza na janta, quer escolher o sabor?” Foi a segunda, na hora do almoço. “Amor trouxe sua pizza favorita, com muito queijo e...” A ligação caiu as 19:45. “Merd...!” Deixei escapar, e fui para a próxima e última mensagem. “Sabemos de sua conexão com a deusa renegada, e se quiser ouvir outra declaração patética do seu amado, vai ter que fazer o seguinte...” Anotei as instruções com a mão trêmula. Sabia que Thamara jamais me perdoaria, pelo que ia fazer. Contudo Timy era o amor da minha vida, e eu não me perdoaria se algo acontecesse a ele. Precisava tomar uma decisão, que mudaria a minha vida sempre, e tinha apenas alguns minutos para cruzar a linha da traição. Foi então que segui o plano delas, e enviei uma falsa localização para a minha irmã, que a enviaria direto para o abate. Ela não havia despertado ainda, mas assim como eu tinha alguém que me amava, ela também tinha, e certamente ele iria resgatá-la, e caso isso falhasse, havia uma força celestial disposta a mudar o tempo, para salvá-la, e sendo assim ela era importante o suficiente para o universo intervir. Ao contrário do Timothy que tinha menos de 2 horas de vida, e poderia desaparecer para sempre, pois era um criminoso, e mesmo sendo um filho do Inferno como eu, ficaria preso ali, por sua afronta a ordem natural, ao seguir as leis erradas. Era o fim da minha parceria com a minha irmã, e por isso não conseguia aguentar as lágrimas, mas mesmo assim, eu segui em frente, e entrei naquele depósito. Timy estava preso dentro de um vidro cheio de água, acorrentado até o pescoço, com panos brancos que estavam vermelhos de sangue. Só haviam 7 minutos de vida agora, e eu precisava encontrar o painel. Corri de um lado para o outro, tentando achá-lo, até que notei os olhos do meu amado, e segui na direção indicada por estes. Quando o líquido já tinha ultrapassado o queixo, eu consegui desligar, e sem pensar duas vezes, entrei no tanque, e usei a chave que me entregaram, após mandar minha irmã para a morte. Ao nos encontrar nos abraçamos mais forte do quê nunca, e nos beijamos ali dentro. Mas após ter comprometido toda a Ordem das Corais, eu mesma paguei o preço. O tanque se fechou, na parte de cima, e a própria Ane Marrie, veio nos executar. Pensei que ia morrer, pois agora não só subia água, e sim um liquido verde, que segundo a mesma estava contaminado, com um vírus que tinha ficado adormecido há 7 mil anos. Eu gritei, e me debati, enquanto Timothy ficou parado. Não entendi a razão, até ver a enorme e gosmenta criatura na sua nuca, que brilhava mais que neon, e que seus olhos estavam vazios. “Este? É um presente da nossa bióloga renegada, que antes de sair me ensinou sobre todos os poderes da ciência... e seus malefícios.” A rainha sorriu, e entrei em desespero. Sem saber o quê fazer, passei a me empurrar na ordem contrária ao apoio do tanque. A queda poderia me machucar, só que era melhor que morrer. Empurrei várias vezes, impulsionando o meu corpo, até que a cúpula caiu no piso e se partiu. Me arrastei entre os cacos, e peguei a mão do meu namorado. Sabendo que não éramos mais bem vindos, sai correndo até a saída mais próxima. Nós dois corremos até a floresta, e quando vi um frade passar por ali, gritei pedindo por ajuda. “Eu sou Úrsula, a outra irmã de Thamara a filha mais velha de Cristo!” Foi tudo o quê pude pronunciar, antes de desmaiar. Se falasse meu nome verdadeiro, eles não nos ajudariam, Thamara tinha deixado isso bem claro, na sua “doce” carta de despedida, por isso fui obrigada a mentir. Mas ainda bem que fiz isso, pois me trouxe até o único lugar, em que Timothy pôde ser curado, para que possamos iniciar uma nova vida, longe dos crimes da Ordem das Corais. Sei que somos dois ímpios, mas se meu pai é mesmo Cristo, ele ensinou os outros a perdoarem, e certamente não negaria uma segunda chance, para uma das suas filhas, e o sobrinho, filho de seu irmão Belial.
    _Então mentiu para chegar aqui?
    _É só o quê ouviu?!
    _Não, foi apenas a parte mais marcante, pois pensei
    que tinha me rastreado de alguma maneira, algo mais
    inteligente, do quê apenas sorte.
    _Foi inteligente, do contrário Timothy teria morrido.
    _E agora espera que a Ordem de Cristo os abracem
    , e ofereçam um banquete pela sua chegada?
    _Queremos somente redenção Thamy.
    _Sem coroas, deuses, ou as velhas regalias que
    foram ofertadas por Marrie, para tentá-los ?
    _É claro que sim.
    _Estão prontos para o trabalho duro,
    que lhes confere alguma nobreza
    entre nós?
    _Se tiver um quarto, comida boa, e bons
    livros.
    _Acha que está no direito de exigir?
    _É o mínimo para um ser humano.
    _Então terá de se dirigir ao pai.
    Ele quem lida com essas
    coisas.
    Thamara era bastante firme em suas palavras, porém era evidente o alívio que sentia no peito, por me ter de volta ao seu comando. Uma vez irmã, sempre irmã, e mesmo com toda a frieza, ficava claro que se importava do contrário, não teria feito o seu marido “O Peste" me dá o sangue da cura.
    A MORTE NARRA:
    A volta da minha irmã mais nova deveria me trazer alegrias, mas por mais feliz que estivesse pela sua volta, não podia me esquecer dos males que tinha causado, e de quê nem Ramona escapou das suas teias diabólicas. Inspirei fundo, e caminhei para longe dela, deixando-a sem respostas. Tudo sempre foi muito fácil para Katherine, então não me admira a sua “cara de pau”, de vim até Santa Marta em busca de perdão. Nosso pai poderia lhe perdoar, afinal ele sempre foi o cara que perdoo as faltas do mundo, mas eu neste sentido, era tão implacável quanto minha mãe Madalena Lilith.
    A noite... Timothy e Katherine ficaram agarrados um ao outro, sorrindo, ao beberem a sopa do nosso chefe e padre João. Quem os visse ali, pensaria que eram almas gêmeas, puras e inocentes, entregues aos desejos da juventude. Fiquei com o cotovelo apoiado na mesa, pousando a mão abaixo do queixo. Os observando com cautela e fúria. Vendo o meu estado, Bart deitou sua cabeça no meu ombro, dando-me beijinhos no pescoço, até me fazer rir, e sussurrou para nos afastarmos de todos. De mãos dadas, nós seguimos até a beira do rio cristalino, e nos sentamos na ponta da terra, deixando a água cobrir os nossos pés. “Não gostei da volta dela.” Ele iniciou, e dei graças aos deuses, por não ser a primeira a dizer. “Ela é minha irmã, mas eu também não estou satisfeita com isso.” Concordei, e ele se deitou no meu colo, deixando a água fria cobrir metade do seu corpo, já que a fenda estava rasa, e “secando”.
    _Por pouco você e Ramona não morreram
    naquele dia. Não é algo fácil de se perdoar.
    _Se Ele não tivesse parado o tempo...
    _E ainda tem essa. Graças a ela o Arcanjo voltou.
    _Ciúmes, bonitinho?
    _Sempre terei ciúmes de você. É o amor da
    minha vida.
    _Você também é o amor da minha...
    _Mas?
    _Você sabe...
    _Está muito magoada comigo, para sentir
    alegria por isso.
    _Olha, não é que é esperto?
    _Engraçadinha.
    _Sou mesmo.
    _Eu te amo Thamy. Sei que falhei feio contigo, como marido,
    mas não vai se passar um dia da minha vida, que não deixarei
    de lutar para ser digno do seu perdão.
    Ele ergueu a face para cima, e pude vê as estrelas se refletirem nos seus olhos. Aquelas íris brilhantes, e a pupila tão dilatada ao olhar para mim, me fizeram entender porquê mesmo depois de tantos anos, sofrendo por ser incapaz de dar uma segunda chance a alguém, ainda seguia ao seu lado, e afastava todos os possíveis pretendentes, tornando-o minha primeira e única opção. “Também te amo Bart. É difícil pra mim perdoar, qualquer pequena falha que seja. Mas por você estou tentando.” Me esforcei para me declarar. Escrever é fácil, porém falar dos meus sentimentos, sempre foi algo complicado, pois é como se eu não fosse capaz de amar, ao ponto de literalmente esquecer de mim, e levar um tiro para proteger alguém que não está dentro desse corpo. Contudo Bart era o único por quem eu realmente me esforçava para ser melhor, e por mais que o Dr. Fernand ou o Dr. Augusto dissessem o contrário, isso para mim, era o mais perto do amor que podia conhecer. Sem que percebesse, meus dedos fizeram carinho em sua cabeça, e meus lábios foram até os seus. Talvez amar, não fosse algo que trouxesse somente felicidade e satisfação, e sim a caminhada longa e tortuosa, na qual os dois enfrentam todas as barreiras para continuarem juntos.
    O PESTE NARRA:
    Outra vez seus impulsos românticos a traíram, era óbvio por causa da sua face corada de vergonha, ao afastar o rosto depois de me beijar, e praticamente criar alguma distância emocional, ao se recostar para trás. Ainda bem que tínhamos voltado a brigar por nosso relacionamento, não queria me lembrar, do dia em que quase perdi a mulher da minha vida, e o fruto desse amor que nunca se apaga. Droga. Estou começando a lembrar outra vez...Já ouço o som do temporal que caia, e a voz dela ao telefone. “Bart por favor me ajude.” Foi tudo o quê ouvi, antes de ligar sua localização, e seguir até o meio da mata escura. A mesma em que há poucos dias, havíamos encontrado sacrifícios infantis, em nome dos “ofídios em forma de humanos”. O sangue estava espalhado por toda parte, - ao contrário do quê fizeram com Marcele, outra membro que abandonou as corais, antes da mesma se transformar numa ordem mundialmente famosa, por suas atrocidades. – Eles queriam mesmo executar a Thamara, sem fazer parecer suicídio. Minha respiração era calma, porém a cada passo que dava, o medo crescia dentro de mim, e os suspiros pouco a pouco se aceleravam. As folhas se quebraram abaixo dos meus pés, mesmo tentando ser sorrateiro, e isso fez meu coração subir até um pouco acima das costelas. Um pouco trêmulo, me aproximei das árvores, para observar o ambiente. Sentindo a força de Gaia fluir pela copa, ganhei energia para enfrentar os monstros que tinham levado a minha amada, e a minha filhinha. Minha áurea obscura cresceu, e por alguns segundos o Bart viciado em violência, tomou 70% do controle do meu corpo, pois estava pronto para me “banquetear” com a carne de certas corais. Meus dedos arranharam o tronco, como se fossem obsidianas, e por um momento senti que meus olhos queimaram, e se tornaram amarelos como ouro, dando-me o poder de ver no escuro. Foi então que a vi, nos braços dele, e minhas íris se tornaram vermelhas como rubi, pois o Bart melancólico quem assumiu. “O quê faz aqui?” Perguntei ao ver o homem de longos e cacheados cabelos negros, que segurava a minha esposa, e ficava ao lado da minha filha, me encarando com seus olhos azuis, que brilhavam de maneira tão inumana quanto os meus. “Se soubesse cuidar dela. Eu não precisaria intervir.” Ele me respondeu, e isso me fez rir de raiva, pois jamais deixava de salvaguardar a minha amada. “O quê aconteceu?” Perguntei lentamente, pronto para matá-lo com todos os requintes da maldade, assim que me entregasse a minha companheira. “As corais vieram atrás dela.” Disse sem parecer se importar, e ela despertou. “Você?” Perguntou para ele, com certa mágoa, e este sem querer sorriu. “Estou fazendo hora extra.” A colocou no piso, e levantou voo. “Ela precisa de proteção. Não importa quem você seja, sabe que somente o Pai tem tal poder.” Disse ao passar por mim. Apesar de ser um engomadinho celestial, ele estava certo, porém conhecendo a mulher que tinha, havia a certeza de quê ela não seria a favor de tal intervenção, por isso só deixei escapar um barulho de lata de refrigerante sendo aberta.
    No caminho de volta para casa...Thamara ficou em completo silêncio, segurando Ramona que tinha dormido em seus braços. Pelo retrovisor pude vê-la. Seu olhar era vazio, tinha marcas de garras nos ombros, o lábio estava roxo, como se tivessem torturado e depois a forcassem a beber veneno. Eu queria saber o quê tinha acontecido, mas ela parecia sem reação. Ao passar pela entrada de casa, ela pulou no meu colo e me abraçou forte. “Ela saiu. Eu preciso ir embora.” Foram as suas palavras. Sem pensar, a segurei contra o meu peito. “Não.” Foi tudo o quê consegui sussurrar, e ela me deu um beijo no rosto, seguido de um beijo na boca, que pareceu sugar as minhas energias. Era como se ela fosse a Hera Venenosa das revistas em quadrinhos, mas seus olhos ficavam violetas e vítreos, quando minha vida era engolida por sua boca roxa. “Eu te amo muito. De verdade. Mas meu ódio pode te machucar, então adeus.” Ela disse e dei o meu último suspiro, caindo desmaiado no piso.
    Os dias se passaram...Minha sogra entrou em desespero, e veio para dentro da nossa casa, me oferecer ajuda para cuidar de Ramona, enquanto eu procurava por minha esposa. Cheguei a voltar a beber e fumar, coisa que só fiz na adolescência após termos terminado por conta dos seus inúmeros pretendentes, e querer vivenciar todos os prazeres da juventude. Ela certamente diria que o fez, pra ficar com o tal Dave, porém anos mais tarde, vim saber que não tinha só o babaca, outros estavam aos seus pés. Não acho isso negativo, porquê eu também era o homem de muitas, após termos nos afastado. Pra mim isso só significava que a separação nos tornou duas criaturas frias e maldosas, que deixaram um rastro de destruição por onde passaram, mas se reencontraram mesmo nas trevas, pois eram perfeitos um para o outro. Infelizmente acho que ela não via assim, e por isso tinha partido de vez. Ela, seu outro Eu sempre saia em momentos de adrenalina. Então isso pra mim, era uma desculpa mais do quê esfarrapada. O sino da porta do bar tocou, e foi tudo muito rápido. Um grupo de mascarados, com uma braçadeira vermelha, jogaram um frasco ovalado no piso, que se partiu e deixou todos doentes.
    No meio daquela névoa verde, eu via mulheres e crianças gritando, ao chorarem lágrimas de sangue, enquanto os homens vomitavam sem parar pelos cantos, e alguns tremiam como se sofressem o efeito colateral de um remédio psiquiátrico. O quê quer que seja, era mortal, mas me sentia normal, por isso caminhei por ali, até chegar a saída, onde encontrei um grupo de homens de túnica branca. “Eis que o filho do nosso senhor enfim aparece entre as sombras, iluminando-as com a sua luz.” Disseram em coro, e ergui uma sobrancelha de incredulidade. “Saudamos-te ó grande cavaleiro iluminado, que deve acompanhar a amazona negra que com a sua mortalha e foice limpará o mundo.” Eles se ajoelharam diante de mim, com itens em suas mãos. “Eu sonhei que muitas pessoas morriam por minhas mãos.” Me recordei, com a voz dela. “Não podia ver o rosto, mas andava a cavalo com um guerreiro de armadura prata, que me levava até os outros dois. Era como se eu fosse a Morte” Foi o segundo lampejo. “E se um dos cavaleiros, não for apenas uma corrupção machista, e a Morte na verdade é uma amazona?” Foi o quê me fez ter certeza que era dela que se tratava. “Onde ela está?!” Peguei um deles pela túnica, e ergui contra a parede, pronto para destrui-lo caso tivesse feito mal a minha amada. “Está em Santa Marta, porém assim como a mesma está treinando, você deverá fazê-lo, para terem controle dos seus poderes, e não serem controlados por eles.” Me respondeu aquele ficava ao lado do outro. “Olha pra minha cara. Vê se eu me importo com isso? Só quero achá-la.” Disse com impetuosidade. “Se quiser ver a minha filha. Terá de ser merecedor dela.” O quarto e último homem impôs, e quando olhei para trás, vi seus olhos brilhantes como uma lâmpada no escuro. “Lúcifer?” Questionei desconfiado. “É apenas um dos meus nomes, meu filho rebelde.” Me respondeu. “Ela está bem? Não estão abortando seus filhos, e lhes dando o feto para comer não é?” Inqueri me recordando das terríveis visões da minha companheira. “Não somos Os Iluminados. Nosso treinamento é mais rigoroso e evolutivo. Ela está aprendendo a controlar o poder da Morte, e não se tornar o próximo grande Demônio, já temos você pra isso.” Respondeu e brincou no final. “Do quê está falando?” Perguntei sem entender a razão de tal acusação. “Então o bloqueio de memória foi um sucesso.” Se aproximou de mim, e pousou a mão no meu ombro direito. “Infelizmente Baal Hadad, não poderá viver para sempre nesta mentira, de quê só Thamara Mary, viveu no Inferno, e tem o meu sangue.” Tais palavras me deixaram um pouco receoso. “É hora de enfrentar o seu grande demônio, e fazer juiz ao fato de ser o príncipe deste mundo.” Ele prosseguiu. “Esse não é o teu título?” Perguntei com certa curiosidade. “Eu sou o novo Deus, meu filho, o título de Diabo é, e sempre será seu.” Ele me respondeu, e meus olhos se engrandeceram. “Isso não seria uma blasfêmia para o Altíssimo?” Notei os aspectos bíblicos dos quais Thamy sempre falava. “Seria, se ele não tivesse concedido esta glória, para se tornar o sucessor do seu bisavô.” Outra vez ele respondeu algo de quê não tinha muito conhecimento, a não ser pelas aulas da minha linda descendente dele.
    _Eu tenho um bisavô?
    _É muito para explicar. Mas sim. Você é parte da terceira
    gerações dos deuses.
    _Então este bisavô é o Caos da mitologia nórdica?
    _Sim, e dele nasceram os primeiros deuses supremos,
    que são os seus avós.
    _É muito para processar...
    _Ficará mais fácil depois que desbloquearmos sua memória.
    _Não.
    _O quê? Por quê?
    _Se sou mesmo o Diabo, não quero machucar Thamara
    ou minha filha, é melhor deixá-lo adormecido.
    _Isso é um excelente sinal. Porém embora tenha machucado
    muitos com a sua frieza e sadismo, tenho certeza que não
    praticou algum mal contra elas.
    As palavras de Lúcifer me acalmaram, e por isso segui com os frades, para receber o devido treinamento de meu poder, e ver a minha amada outra vez. Foram 6 meses de teorias e práticas, sobre o meu porte físico e espiritual. Os cientistas da ordem diziam, que minha saliva era uma fonte de doenças nocivas, que se transformava no quê minha mente desejasse, e que o meu próprio sangue, continha antígenos praticamente sobre-humanos para cada um desses males. Por vários meses fui estudado numa estufa, ás vezes dentro de um tanque, outras numa maca, para definir o limite dos meus poderes, que faziam de mim, uma bomba biológica, com a cura para as mesmas doenças que causava, por isso me chamaram de Peste. Contudo embora fosse parte das minhas habilidades, ter esses vírus vivendo em meu corpo, e os curar, não era todo o meu poder, pois graças aos seres microscópicos, poderia modificar o meu DNA, para me tornar qualquer ser existente na galáxia...Mas não vem ao caso, como dizia...No sexto mês finalmente pude encontrá-la, ela continuava linda e radiante como a lua. Como tanto gostava, estava usando um vestido preto longo e decotado, sendo seguida por homens e mulheres cobertos por capuzes amarelos. Ao contrário dos costumeiros olhos vazios, parecia tão serena quanto na adolescência, e sorria com a confiança, que nós dois acreditávamos que tinha morrido.
    _Bart?
    _Thamara...
    _Como chegou até aqui?
    _Digamos que nossos caminhos se cruzaram.
    Você não é a única filha cósmica.
    _Sério? Eu sabia! Você é meu par eterno!
    _Não, não sou. Sou apenas o deus que ficou
    louco de amores por você, e não te deixou
    viver na solidão.
    Eu segurei em sua face e a beijei com carinho. Ao sentir o seu corpo no meu, meu coração pulsou com muita intensidade. Foi assim que as memórias do passado tomaram conta da minha mente... Eu era somente um garoto loiro, semelhante um viking, quando nos reencontramos. Ela era somente uma menina de cabelos vermelhos, com olhos violetas e vítreos. Nós discutimos no começo, pois a figura baixinha, tinha contas para acertar comigo. Mas como sempre fomos estranhamente um atraído pelo outro, acabou por me contar a verdade. Sentia-se vazia, e nem sempre do nada, nascem as melhores coisas, por isso ela tomou a pior decisão. Com o uso dos seus poderes, ela abriu a porta da minha cela, e me soltou no universo. Então o quê Deus havia decretado como um caso resolvido, voltou para lhe assombrar. Pouco a pouco me infiltrei no paraíso, e fiz com quê os anjos ficassem encolerizados. Os fracos pereceram diante de meu poder, e o caos se fez no cosmos. Para mim, era como uma festa sem fim, com muitos gritos, sangue, e desespero. Mas para ela, era como uma falha grotesca, que precisava ser corrigida antes que descobrissem o quê fez. Eu espalhei entre as multidões, todo o sofrimento possível para me fortalecer, e ela veio com a sua foice, para lhes dá paz mesmo no Inferno, entre os seres materializados. Seu pai tinha sido o anjo que tirava a vida dos vivos. Porém após o seu nascimento, ele foi coroado como príncipe celestial, e outro teve de assumir o seu posto. Muitos dos seus bravos filhos, lutaram para provar que eram dignos de tal glória. Assim eles limparam a galáxia, ceifando todas as almas que pudessem, com suas armas especiais. Contudo foi na única menina, que o poder se manifestou, e por isso esta que recebeu a sorte grande. Ao contrário dos irmãos, ela não matava somente para se provar merecedora da foice de seu pai, mas sim de acordo com o seu código de conduta, no qual os culpados eram friamente punidos, e os justos levados cuidadosamente para o outro lado. Seus irmãos só se focavam em quantidade, ela não, e esta era a virtude secreta do seu pai, quando ele atuava como tal. Eu a admirava, tanto pela sua impetuosidade violenta com os ímpios, quanto pelo cuidado que tinha com os inocentes. Por isso também tomei a pior decisão. Certa vez a Morte, estava a tomar banho no rio sagrado, e eu entrei na água, infectando-a, para lhe tornar inofensiva. Ela lutou com valentia, usou seus poderes para tentar curar a água, mas por algum mistério da natureza, a pobrezinha não tinha forças para vencer a mim, pois eu era a própria doença, era o vírus que carregava outros dentro de mim, era a própria Peste, em forma humanoide. Ela não suportou a enfermidade que lhe provoquei, e caiu em meus braços. Estava fraca, e bastante vulnerável, quase irresistível. Passei a mão por sua face pálida, ela me olhou preocupada, quase dizendo "não" para a minha proximidade, porém mesmo assim a beijei, e a tomei para mim. Por alguns anos, ela desapareceu, e os homens deixaram de respeitar o poder celestial, assim como acreditaram que não havia punição para os seus crimes, pois eu também não atuava. "Vou beber até cair hoje, pois o meu fígado não mais adoce vadia!" Disse um bêbado ao espancar a esposa, que segurava o símbolo dos celestiais. "Deus porquê não me permite morrer, e me deixa sofrer? Não pequei tanto para acabar assim!" Chorou com a boca toda ensanguentada. Ela não era a primeira a perder a fé. Outros estavam em níveis mais avançados, chegando até mesmo a acreditar, que Deus os tinha abandonado a mercê do mal, do qual tinha lhes prometido proteção. Inúmeras criaturas iam as ruas, protestar contra as iniquidades divinas, e haviam os que tentavam assumir o papel, da única juíza consagrada pelos deuses, deste universo. “Então você queria encontrar a paz, depois de tudo o quê me fez?" Um homem num plano de vingança, apontou a arma para a cabeça de outro. "Eu lamento te informar, mas não existe mais morte, e por isso sou livre para estourar a tua cabeça, quantas vezes desejar." Atirou na testa do culpado, várias e várias vezes, com um sorriso cada vez maior, que o tornava pior do quê aquele que ele julgava. Este não era um caso isolado, os assassinatos se expandiam mais do quê as doenças, que costumava espalhar. Para uns era um parque de diversão macabra, e para os que não tinham tal coragem, parecia a visão mais do quê realista do Inferno dos mortais. Cabeças decepadas, gritavam pelas ruas, e os sádicos lhe perfuravam os olhos, e chutavam-nas para a lama, afogando-as sem parar. Pessoas que tinham perdido o corpo na briga para sobreviver, se arrastavam pelos cantos, para tentar se livrar daquela tortura sem fim. As mulheres se uniam em instalações, para cuidarem uma das outras, já que nesta realidade sem final ou consequência, os pervertidos também ganhavam espaço, e se sentiam no poder de abusar das mesmas. Nem mesmo as crianças, conseguiam manter a inocência, e por isso ficavam divididas: Entre aquelas que matavam, e as que corriam. Meu ato egoísta, tinha feito da galáxia, o próprio Tártaro dos Gregos, e o Inferno dos Católicos, pois eu os privei de manter a bondade, e de receber a devida a punição, ao levar a nossa Morte, para o único lugar, no qual somente o seu Eu daquela realidade, tinha a permissão de julgar, e esta era somente como qualquer criatura que habitava aquele Cosmo. Como desde cedo trabalhei para o céu, como o auxiliar do meu pai, o veneno de Deus. Sabia de todos os pontos fracos da Morte, desde a sua jurisdição, até o quê poderia prendê-la para sempre. Acorrentada no fundo do universo, ela brigava para sair, amava o seu trabalho, e não queria ver ninguém lhe substituir. Só que nunca me dirigia a palavra, e evitava até olhar em meus olhos, devia me odiar bastante. Todavia eu não conseguia deixá-la ir, pois só o fato de tê-la por perto, era o suficiente para me sentir bem, e não me importava com quantos sofreriam no processo. "Já não basta o quê fez?" Ela finalmente disse, com seus braços presos ao aço, banhado com a luz do buraco branco, que sintetizei para imitar o poder supremo, do pai do príncipe celestial. "Foi culpa de nossa mãe, e você sabe." Respondi de imediato. "É só o quê sabe dizer. Mas se fosse forte, teria dito não." Ela retrucou. "Você não pode me culpar por aquilo para sempre. Se soubesse lutar, também teria impedido.” Rebati, e ela ficou indignada. “Vai culpar a vítima? É sério?” Sua voz era alegre, mas cheia de raiva. “Eu sou o Peste. O quê esperava? Que eu me arrependesse? Fui treinado para ser impiedoso!” Mostrei a minha ira, e ela voltou ao silêncio. “Ao menos sentiu algo por mim?” Aquele tom me deixou desnorteado, parecia triste, quase magoada. “Você sabe que sim. Haviam dois destinos naquela noite: te possuir, ou te fazer desaparecer para sempre da minha realidade.” Desabafei com tristeza, quase me encolhendo de vergonha. “Eu não podia ficar sem você.” Segurei em sua face, erguendo seu queixo, e olhei no fundo daquela neve, coberta pela luz do rouxinol. “Mas você sempre foi o pior dos filhos. O Forte, O Implacável por ser incapaz de amar.” Argumentou, sem acreditar. “Parece que a única fraqueza da Peste é a própria Morte.” A beijei, e mesmo com as mãos acorrentadas, ela me puxou para a si. Aquela atração mortal e doentia, tomou conta de nós dois, e a boca mais fria que existe, pareceu quente por uns minutos. Com suas pernas salientes e fatais, ela montou em mim e me arranhou, se entregando a enfermidade do amor. Logo arranquei a sua mortalha, e tirei a sua armadura, enquanto ela me despiu as vestes de cavaleiro. Minhas mãos desceram pela sua costa frágil e nua, a sua boca não quis desgrudar, e quando o fez, foi somente para me beijar o corpo inteiro, e voltar ao meio das coxas, onde fez vários movimentos de vai e vem, deixando sua doce saliva escorrer por meu membro. Contudo não a deixei somente me satisfazer. A deitei no piso, segurei seus pulsos, e passei a minha língua por entre os seios delicados, descendo, até chegar no ponto do prazer, do qual bebi todo o júbilo com gosto, até escorrer pelo canto dos lábios, e quando vi que praticamente implorava, para que a completasse, sorri maldosamente. “Você realmente me deseja ?” Beijei-lhe a virilha, e ela corou de vergonha. “Sim.” Respondeu com sua voz doce como chocolate amargo, o meu favorito. “Então peça por mim.” Impus, e ela relutou, até que se deu conta de quê só havia nós dois, como na segunda vez, em que estivemos juntos, e cedeu a sua vontade. “Me possua Peste.” Aquelas palavras me deixaram eletrizado, e por isso entrei dentro dela com ímpeto, arrancando-lhe suspiros tão intensos, que foi capaz de suar. Aquele rosto, aquele sorriso, aquelas bochechas rosadas de prazer, seguido de seus gemidos, me deixaram louco. Por dias repetimos o feito, e creio que a Morte, foi a primeira a desenvolver a Síndrome de Estocolmo, por isso esta doença é vista de maneira tão mórbida. Mas ela não mais se importava, nem sequer ligava para o quê fazia, só com quem fazia. Se ela me amava, eu não sabia, acreditava que estava usando seu charme fatal somente para ganhar a liberdade. Porém no dia que enfim a libertei, esta saiu voando para fora do cativeiro, e se deparou com a luz de uma das luas do planeta em que estávamos. Estava tão feliz, que pensei que nossos momentos de amor doente, ficariam para trás, assim que retornasse, para impor a ordem ao nosso “mundo". “Vamos?” Segurou em meu pulso, e fiquei paralisado. “Quer que eu vá? Eu o Peste, o demônio, o...” Me silenciou com o dedo indicador. “Nem tudo é preto e branco Peste. Você causou sim muito sofrimento, mas graças a ti famílias se mantém unidas, homens mudam a conduta, e mulheres valorizam a felicidade.” Seus olhos eram de uma criatura sã, contudo suas palavras me pareciam insanas. “Se isso é verdade, por quê sempre atrapalhou a minha tarefa? Como se quisesse me corrigir, após ter me libertado?” Questionei incrédulo, e ela sorriu. “Porquê tua execução é tão sombria e implacável, que mesmo as vítimas dos criminosos, se apiedavam destes. Que de acordo com o meu dever, mereciam uma punição ainda mais severa, por toda a eternidade.” Ela explicou. “O meu erro foi te libertar, mas você quem escolheu atender o meu pedido. Portanto é só você que pode corrigir isso. O quê já se passou, não dá para voltar atrás, sem alterar todo o equilíbrio já existente. ” Ela completou, e eu percebi que estava errado, não era uma falha grotesca que tentava controlar. Nós retornamos para a nossa galáxia natal, tudo estava destruído, e muitos imploravam por seu regresso, enquanto me destetavam mais do quê nunca. Pouco a pouco, ela fez o seu trabalho, não haviam muitos para receber o atestado de óbito, por isso eliminou os executores com punhos de ferros e sem piedade, e trouxe enfim o descanso para os que tinham temido, que aqueles dias jamais teriam fim. Nosso pai quis julgá-la, porém eu assumi a responsabilidade por tê-la raptado, e assim a livrei de perder o manto que tanto adorava. Achei que após a confissão, voltaria para a cela, contudo por ter me provado um pouco mais maduro, o pai decidiu me tornar o segundo juiz consagrado, que auxiliaria a Morte em seu trabalho. Tão grande foi a minha alegria, ao ouvir tal coisa, pois em vez de me afastarem dela, nos juntaram como a metade oposta e complementar da mesma moeda. Desde então, as duas criaturas mais perigosas do universo, seguiram de mãos dadas por toda a eternidade, se amando de uma maneira que os mortais não seriam capazes de compreender. Já que onde Morte fosse, a Peste certamente ali estava... “Bart?” Ouvi a voz dela dizer, e outra vez estávamos a beira do rio. Todavia enquanto me perdia em lembranças passadas, já havíamos trocado de lugar, e agora ela tinha se sentado em meu colo, e ficava a olhar para os peixes na água, ao entrelaçar seus dedos aos meus. “Oi...” Falei olhando para as nossas alianças, próximas uma da outra, por causa da união das palmas. “Promete nunca me deixar?” Disse se encolhendo, quase sem voz, e a luz da lua brilhou sob o aço dos anéis. “É claro que sim meu amor. Não importa o quê os astros digam, sempre seremos um do outro.” Beijei sua cabeça, e ela retribuiu beijando as minhas mãos.
  • O arrepio mais frio do inverno - capítulo I

    - Devemos descer ao pé destas montanhas, Glad, – se esforçou Suilane enquanto recuperava o fôlego, haviam parado por alguns minutos, fez um gesto cansado com a mão -, ir para o norte.
      - Mas e se os encontrarmos por lá, Su? – disse Narglad com sua voz grave e tremula, também tentava recuperar o fôlego enquanto se esforçava para mantê-la juntamente de pé. - De todo o modo, precisamos de um lugar para descansar e ficar por lá um dia inteiro – falava ele. Suilane concordou com um aceno e o homem pôs o braço dela em seus ombros e a ajudou a caminhar –, vamos tentar conseguir água e talvez algo para comer.
      Narglad e Suilane, haviam se conhecido fazia pouco mais de duas semanas fugidos de um conflito que estava assolando o Sul de seu país natal. Passaram a cofiar um no outro devido as dificuldades que enfrentaram até ali, o homem dizia ser péssimo em lembrar nomes e preferia usar apelidos, então agora a chama de Su e pediu para que o chamasse de Glad, ela sentiu não ter escolha e assim se manteve. Estavam vagando por aquelas montanhas há alguns dias depois de cruzar fronteira entre Tessalanto e Glaucano, Su não via a hora de encontrar alguma cidade ou vila.
       - Eu perdi aquela maldita faca – disse Narglad depois apalpar por debaixo das roupas, ele era um homem alto, esguio, cabelos grisalhos vencendo seus cabelos castanhos, coberto de tecido grosso negro, lã cor creme e calças azul desbotado, tinha não mais que cinquenta anos de idade ou quase -, você tem a sua?
      - Bem – Suilane apalpou a cintura por debaixo do casaco de lã e lá estava sua faca, para o seu alívio –, sim tenho, não a esqueci desde quando fomos emboscados – sentiu um frio na espinha ao relembrar. Su era uma mulher jovem, seus cabelos negros escondidos dentro de uma touca cinzenta de lã grossa, vestia um colete de pele grossa com a pelagem tingida de azul claro e por baixo mais lã castanha, calça escura e botas de cano forrado de pelagem laranja desbotada.
       Estavam caminhando a manhã toda e com pausas para descansar e recuperar o fôlego, a neve chegava quase à cintura de Suilane, devido ao clima de montanha daquele lugar, o que fazia seu esforço ser quase dobrado. Naquele momento já passava do meio dia, o céu azul claro com algumas nuvens brancas e o ar quase parado não apresentavam perigo.  A sua direita árvores triangulares e pontiagudas não muito longe desciam o restante do sopé das montanhas e a esquerda as montanhas subiam afim de espetar as nuvens e o céu. Até que o homem de repente se jogou na neve puxando Suilane junto, assustada ela olhava na direção em que ele apontava. Até que ela pôde então ver quatro formas negras minúsculas ao longe caminhando e descendo o sopé de uma Canina em direção as árvores. Durante a travessia pela fronteira, os homens que guiou ela e mais cem outras pessoas, falavam que aquelas montanhas altas eram chamadas de Caninas. De fato pareciam as presas de um predador faminto pontiagudas e ferozes para o viajante amedrontado, assim como ela estava.
        - Vamos correr em direção as árvores e desaparecer por lá – disse ele -, você tinha razão, devíamos ter descido antes.
      Eles se entre olharam e Glad partiu em disparado abrindo caminho na neve alta e Su o seguia, ambos agachados ao máximo que podiam. Ao ficar sobe a proteção das árvores, a neve rareou e agora eram as raízes um obstáculo, ela descia ao seu ritmo enquanto o homem descia logo atrás mantendo-se na mesma velocidade e foram diminuindo o passo com o cuidado das pernas cansadas, separados por algumas árvores de uma distância, podia vê-lo descendo entre os troncos pouco menos de dez metros de onde estava. De repente ouviu um barulho semelhante a tecido grosso rasgando, seguido de gritos abafados que a fez encolher o pescoço com medo, olhou em volta afim de saber o que estava acontecendo, chamou por Glad, mas não houve resposta, ficou ainda mais temerosa, pois seus chamados continuavam sem resposta.  Subiu o caminho por onde havia descido, tentou voltar até onde o vira pela última vez, mal se aguentava de pé em meio à exaustão e a preocupação suas pernas tremiam e vacilavam a cada passo. Sentiu suas esperanças desmoronarem diante de si e as lágrimas caíram pesadas ao ver de longe três felinos enormes, do tamanho de ovelhas, puxando o corpo de Narglad em meio a alguns arbustos ressecados, o pescoço estava arruinado rabiscado de vermelho rubro e sua roupa escura brilhava devido ao sangue, sentiu o estomago embrulhar-se colocaria tudo para fora se não estivesse completamente vazio. Não havia tempo para chorar ou pensar em fazê-lo, ouviu o vento rasgar em seus ouvidos novamente e quando olhou em direção ao corpo do homem, um dos gatos avançou em sua direção com os dentes ensanguentados de fora, seus pelos eriçados o fazia parecer ainda maior. Ela correu tropeçando ao tentar desviar das árvores e olhar para trás ao mesmo tempo e foi apenas o que fez, sem fôlego e qualquer energia para ficar de pé tropeçou numa raiz e caiu abraçando uma rocha alta. Olhou para trás e pôde ver que dois dos felinos desciam lentamente observando-a. Seu corpo estava pesado como chumbo tentou gritar “ajuda” repetidas vezes quase sem voz. O ar faltava-lhe os pulmões e a visão começava a girar a sua volta.  Percebeu então os felinos se afastarem bruscamente de onde estavam para longe dela amedrontados, como se alguma coisa no ar estivesse queimando seus olhos. Os dois então recuaram subindo rapidamente e desapareceram entre as arvores. Ouviu passos de uma pessoa aproximando-se lentamente e uma voz de menino ecoou enquanto sua visão embaçou e perdeu a luz.
      - Está a salvo agora.


    (Por não ser um texto definitivo e completamente de teste, estou aceitando críticas, sugestões e comentários sobre qualquer dúvida. Obrigado.)
  • O arrepio mais frio do inverno - Capítulo II

      Quando acordou, sua visão ainda embaçada devido a remela nos olhos, sentia-se um pouco tonta e nauseada, podia ouvir estalos de madeira queimando e juntamente lhe veio o cheiro de carne cozendo, levantou quase em um pulo, estava dentro de uma cabana improvisada de cobertores de lã grossa verde escuro, chamou por Glad, mas não ouve resposta de fora. Pode ver por uma fresta entre dois cobertores que deixava claro que era ali a entrada da cabana, uma fogueira dançando a luz do dia.
      - Glad? – hesitou por um segundo, - é você? – Espreitou o rosto para fora da barraca, sentia-se tonta, mas o cheiro da comida dava-lhe algum ânimo. A luz do sol que se esforçava por entre as nuvens brancas fez doer seus olhos ainda se acostumando com a claridade, uma tímida brisa soprou e o fogo crepitou e dançou.
      - Não – disse uma voz infantil.
      Era apenas um menino de longos cabelos castanhos, olhos escuros perscrutaram os dela, ele estava sentado numa pedra jogando fiapos verdes, que pareciam ser os condimentos da sopa que fazia num pequeno caldeirão enegrecido de fuligem, pendurado em um tripé de madeira de galhos de arvore. Ele vestia lã negra e cinza escuro, uma faca a cintura e um rifle de caça aos pés. Suilane procurou por algum adulto ali perto, mas não havia sinal de outra pessoa além dele.
      - Olá, está aqui sozinho não é... - Suilane lembrou-se do corpo de Narglad em meio aos arbustos e caiu aos prantos.
      - Aqui, beba – disse o menino com seu forte sotaque levantando-se de onde estava na mão tinha um cantil e ofereceu a ela.
      Su parou por um momento e respirou fundo com esforço, o fôlego lhe escapava dos pulmões. Sem conseguir olhar para o rosto pouco expressivo daquela criança, pegou a garrafa e bebeu com vontade sem igual. Ele apenas a observava sem dizer nada.
         - Chamo-me Suilane - disse ela. - Qual é o seu nome, pequeno?
         - Kael – respondeu, antes que ela perguntasse mais alguma coisa ele continuou –, Glad, era aquele quem os seregs pegaram?
      Imaginou que os seregs deviam ser os felinos gigantes que vira antes.
      - Sim – disse, sua voz saia chorosa como faca arranhando lousa -, ele salvou minha vida, me salvou de ser violada por uns malditos.
      - Violada?
      - Sim, – Suilane percebeu a inocência na pergunta do menino e então mudou de assunto, - quantos anos você tem, tão jovem e está num lugar destes? Está sozinho aqui?
      Ele fez que sim com a cabeça e deu de ombros.
      - Tenho dez – disse Kael, seu olhar era penetrante como faca afiada. – Responda, o que é violada? O que quer dizer?
      - Você é jovem demais, não precisa saber ao certo. – Hesitou, mas ao perceber o menino desapontado, ela falou então -, eles tentaram me machucar de uma forma horrível, me forçando a fazer algo que uma mulher apenas faria com o homem que ama.
      Kael pareceu entender de imediato.
      - Sinto muito.
      - Tudo bem.
      O menino lançou a ela um olhar penetrante e sem expressão que a fez desviar o olhar. Ele então em silêncio voltou a cuidar da panela ao fogo. As lembranças de Narglad morto flutuaram por sua mente, seu coração doeu de tristeza.
      - Ei – chamou ele.
      Suilane o fitou com os olhos ardidos e úmidos, Kael a ofereceu uma tigela de ensopado fumegante, o aroma estremeceu seu estômago faminto, começou a comer tão de imediato que pouco se importou com a boca e a garganta sendo queimadas.
      - Cuidado, está muito quente! – Alertou-a tarde demais, Su apenas sorriu com uma careta e sem querer soltou uns risinhos, olhou para Kael que pareceu estranhar aquela atitude tão de repente.
      - Desculpe – recuperou o folego -, os últimos dias foram muito pesados para mim. Fui ajudada por muitas pessoas, mas em especial por um homem de meia idade, gentil que me chamava de filha e agora por um menino de dez anos... – ela sorriu com olhos úmidos, algumas gotas caíram de seu rosto e riu novamente. – Nunca poderei agradecer ao Glad, adoraria que ele estivesse aqui...
      - Entendo – disse Kael acrescentando mais duas conchas de ensopado de carne seca e legumes na tigela de Su, – foi uma má sorte entrar no território dos Seregs.
      - Sim.
      Ela tentou comer, mas acabou chorando mais.
      - Você tem um sotaque diferente, o que está fazendo em Caninas? - perguntou ele de repente.
      Ela sentiu um leve frio percorrer da espinha até a nuca, suspirou e sorriu. O observou enquanto ele se servia do ensopado, o caldeirão vazio havia sido colocado ao lado da fogueira, ele comia calmamente, era uma gracinha a cada colherada que assoprava antes de comer. Ela pensava em como explicar do porquê atravessou a fronteira ilegalmente, mas ele era uma criança apenas, ela não conseguiu encontrar palavras para explicar no momento. Kael pareceu estranhar o seu silêncio, ela mordeu o lábio e ficou pensando nas dificuldades da travessia, observou as rochas e pedras redondas em abundância por ali. Então sorriu finalmente.
      - Posso eu fazer uma pergunta? – Falou ela.
      - Sim.
      - O que um jovenzinho tão lindo como você, faz num lugar como este?
      Ainda havia água no cantil que ele havia oferecido antes, então bebeu até a última gota d’água.
      - Não fale comigo como se eu fosse um bebê – disse ele visivelmente bravo, Suilane adorou aquilo tudo. Ele continuou, - eu venho aqui para acampar.
      - Não tem mais ninguém aqui com você? – quis saber ela, Kael deu uma curta abanada de rosto. O admirou por um momento, aquele menino que suspirava mais maturidade do que o seu rostinho infantil demonstrava. – Aqui é um lugar perigoso e solitário, não acha?
      Ele não respondeu e Suilane apenas o observou enquanto alimentava o fogo com alguns gravetos, Kael a fitou de repente.
      - Quantos anos você tem? – perguntou.
      - Vinte – respondeu ela -, quando você estiver com treze de idade eu terei apenas vinte três. Sabe?
      - Acho que sim, – ele apoiou o cotovelo no joelho direito descansando o rostinho pálido no nó dos dedos por cima da luva de couro escuro -, mas o que tem a ver isso?
      - Treze é idade que já pode namorar.
      Ele pareceu entender de imediato e a fitou por um segundo e seus olhos pularam para o fogo sem parecer se importar com as insinuações dela, sentiu ter seu orgulho ferido por aquilo e apenas pôde sorrir sem saber o que dizer. Kael estava em silêncio e ficaram ali por alguns minutos sem dizer nem uma palavra, mas acabou por quebrar o gelo quando ele pareceu lembrar-se de algo.
      - Hoje pretendia ir embora, o que você vai fazer? – disse ele fitando o sol e quando também olhou percebeu ser manhã, faltando bastante para o meio dia.
      - Por quanto tempo dormi? – Perguntou Suilane.
      - Somente uma noite.
      Ele explicou como a carregou até ali e como montou aquela barraca improvisada, o menino falava de forma direta e com palavras bem colocadas como um professor de idiomas, aquele era o sotaque mais belo que já ouvira.
      - Não sei para onde quer ir – falava ele, - mas a vila mais próxima de uma cidade é na direção que vou seguir, venha comigo se preferir.
      - Eu quero! – disse aquilo quase que sem precisar pensar, - digo, sim vou segui-lo.
      - Você tem certeza que tem condições de ir hoje? É um caminho de dois dias... e então?
      Ela tinha à vontade, mas seus músculos ainda reclamavam e seu corpo ainda estava um pouco vacilante, ele então decidiu que partiriam na manhã do dia seguinte.
      Naquele dia o garoto mostrou para Su, onde dormia toda noite e disse, sem ser questionado, do porquê não a levara para dentro da caverna quando a encontrou. Ela entendeu assim que viu como o caminho era estreito e acidentado, a entrada não era larga, mas não seria difícil adentrar o local. Depois ele mostrou onde a encontrou, alertando que deviam embora logo para não perturbar o território dos felinos. Suilane achou inacreditável um menino carregar uma mulher adulta por quase duzentos metros, ele devia ser mais forte do que aparentava.
      O dia passou rápido devido ao alto inverno. Suilane fez perguntas sobre o que Kael fazia quando não estava acampando, tentava ao máximo fazê-lo conversar, pois era silencioso demais, o que o tornava ainda mais interessante. Ele então falou que passava o tempo lendo em sua casa, fazia algumas outras coisas, como os seus desjejuns, ela riu daquilo. Mas também lia quando acampava, ela analisou as capas de alguns livros e perdeu o interesse no mesmo momento, livros em Ramar, língua oficial de Ramnúsia, o maldito país que estava assolando sua gente e sua terra com a guerra. As únicas coisas que vem a sua cabeça quando pensa no nome Ramnúsia é apenas terror, estupro, sangue e destruição, os folhetos de notícias estavam cheios de tais relatos e por isso abandonou sua casa com o pouco de dinheiro que tinha. Pessoas diziam para ela que o país estava perdido e que a melhor opção era deixa-lo. Foi o que fez afinal.
      Quando a noite caiu, Kael havia montando a fogueira e ajeitou um pequeno caldeirão enegrecido ao fogo humilde que fazia, ela se ofereceu para ajudar em qualquer coisa, mas ele recusou todas as vezes. Jogou um monte de coisas na água fervente sem se preocupar com tamanho e quantidade, Su ficou chocada em saber que foi daquela forma que ele havia preparado a sopa tão deliciosa que provara de manhã e pensou consigo mesma, “provavelmente a fome a fez ficar tão boa”. Não a{ on}creditou ao provar novamente e ter certeza que poderia estar melhor do que a anterior, “ainda devo estar faminta pelos dias que passei fome” pensou ela. Deixou de lado aqueles pensamentos confusos e apreciou a refeição. Carne salgada, legumes ressecados e dois tipos de ervas eram os ingredientes, ele não especificou quais legumes e quais ervas, porem também não o questionou sobre, pois estava deliciosa.
      Naquela noite o vento soprava calmo fazendo o fogo dançar ao seu ritmo, pintando de laranja as rochas cinzenta ali ao redor. Kael estava limpando e lubrificando uma pistola de metal negro, mesmo com a pouca claridade da fogueira, ele a desmontou e montou como se já o fizesse há anos, o que a fez sentiu-se um pouco mais segura de qualquer modo. O céu negro repleto de estrelas tremeluzentes, algumas nuvens finas e apressadas flutuavam por lá. Apenas havia um caminho e era um caminho arriscado a noite, alguém somente veria a luz da fogueira se estivesse voando como aves vendo do alto, em seu lado esquerdo o pé de uma montanha subia como uma coluna de um edifício quase reta, à direita estava a entrada da caverna.
      As lembranças de Narglad flutuaram por sua mente e relembrou de repente dos felinos chamados Seregs, recuando antes dela desfalecer de cara na pedra gelada.
     - Como afastou aqueles bichos? – Perguntou Suilan.
      Quando o menino a fitou, a luz da fogueira tamborilou em seus olhos, tornando-as duas pérolas cor laranja. Mas ele apenas puxou o rifle que estava ao seu lado para o colo e deu dois tapinhas no objeto e o devolveu para onde estava.
      Ele continuou calado.
      - Mas você atirou contra eles? – quis saber Su, - não lembro de ouvir tiros.
      - Eu atirei para o alto – disse ele, - o estalo incomoda seus bons ouvidos de felino.
      Kael deu de ombros e voltou a mexer nas peças da arma. Suilane tinha dúvidas sobre aquilo ter feito os felinos terem se afastado daquela forma, podia ser coisa da sua cabeça, mas aquele menino devia estar escondendo algo. Mas não quis questionar mais sobre aquilo, ela tinha outra preocupação que voltou a sua mente como um raio de luz.
      - Por algum acaso você viu quatro homens por aí? – o coração dela apertou e sua garganta tinha um nó.
      Ele fez que sim com a cabeça e disse.
      - Pouco antes de encontrá-la, eu vi de longe quatro pessoas fugindo de três Seregs. Dois deles foram pegos, os outros fugiram e então eu desci, ouvi sua voz e fui averiguar. Lá estava você.


    (Por não ser um texto definitivo e completamente de teste, estou aceitando críticas, sugestões e comentários sobre qualquer dúvida. Obrigado.)
  • O arrepio mais frio do inverno - Capítulo III

      Ela sabia bem que podiam ser os homens de antes, havia visto quatro deles antes de perder Glad, o menino disse que dois morreram para os seregs, mas desejou que todos eles tivessem um fim semelhante. Aquela conversa a deixou tensa e temerosa, queria mudar de assunto o mais rápido possível, olhou para a entrada da caverna.
      - É ali que vamos dormir? – perguntou ela, Kael fez que sim -, não vejo a hora de dormimos agarradinhos lá dentro.
      Ele fez que não abanando levemente o ar com o rosto em total reprovação ao que ela havia dito.
      - Antes – falou ele -, me diga, sem mudar de assunto, o que está fazendo nas Caninas?
      Aquela pergunta ainda caia pesada para Su, da forma que ele as disse, pareceu ser mais velho do que seus poucos dez anos de idade. Sentiu querer agarra-lo aos abraços e toma-lo para si, mas apenas deliciou-se com a ideia.
      - Tudo bem, eu digo. Mas antes terá de me dizer a verdade de como afugentou os felinos.
      O menino encolheu os ombros, mas sua postura tornou-se de completo acordo ao dar de ombro logo após.
      - Primeiro você, depois eu.
      - Direi então – Suilane resfolegou no ar gelado da noite escolhendo as palavras para tentar ser o mais direta possível e então continuou -, eu não sou daqui como seve imaginar. Sou do país chamado Tessalanto, no estado de Verdiati, vivo... vivia, na capital, Luntana – olhou para Kael, este apenas observava sem muita expressão. – Sabe onde fica?
      - Verdiati fica a sudeste da Tessália, fazem fronteira, creio – disse ele calmamente, deu de ombros e continuou -, não sei muito sobre a capital Luntana – mesmo com a pouca claridade da fogueira, podia perceber os olhos penetrantes do menino sobre ela, ele continuou -, você fala bem a língua daqui, seu sotaque é semelhante ao do norte deste país.
      Suilane ficou espantada, o menino nem ao menos gaguejou em pronunciar aqueles nomes e os disse com naturalidade.
      - Sim. Sim e sim, seu espertinho lindo – disse ela sorrindo admirada. – Você é muito inteligente, uma gracinha de menino.
      Um sorriso de satisfação desenhou-se nos belos lábios rosados de Kael, mas logo voltou a seriedade de sempre fitando o vacilar do fogo.
      - Diga mais sobre Luntana – falou ele.
      Su fez que sim, buscou na memoria sua bela cidade e disse então.
      - Luntana é uma cidadezinha bem religiosa, muitas pessoas do país vizinho, Fulgura, iam visita-la. O idioma predominante em Fulgura é o mesmo daqui, sabia?
      - Sim – respondeu adicionando mais lenha na fogueira, realçando a claridade dando uma melhor visão o rosto e dos olhos dele que pularam para os dela. -  Continue – falou Kael.
      - Para atender os clientes da pousada onde eu trabalhava e como depois servi de guia turístico, aprendi o idioma na prática, mas também estudava em casa afim de melhorar. Entende?
      - Sim. Vá em frente.
      - Você inteligente como é, sabe que Ramnúsia invadiu o meu país, tomou Verdiati, está tudo destruído, pessoas que eu conhecia há anos morreram ou desapareceram. Tudo, água, alimentos, tudo, tornou-se escasso. Então eu soube que no Sul, a fronteira gelada para as Montanhas de Caninas eram a saída para aquele sofrimento. Juntei todas as minhas economias e vim para tentar a sorte, eu e uma centena de outras pessoas. Este país, Glaucano, é a terra da oportunidade, eu sei falar o idioma daqui, sabia que seria uma travessia difícil, mas não imaginava que sofreria tanto pelo caminho, quase morrer, quase ser violentada, quase virar caça de gatos gigantes, perder tanta gente.
       Uma lágrima, depois outra e outras mais rolaram, até conter-se, respirou fundo para se acalmar, o peito estava dolorido e na garganta havia um nó. Sentada em um tronco de árvore gelado, a luz e o crepitar do fogo, a calmaria do vento, a atenção do pequeno Kael. Uma mistura de sensações que nunca imaginou sentir. Estava viva e isso a deixava cada vez mais confiante, ou era para estar. Sentia-se fraca e vulnerável, não conseguia ver o que futuro faria com ela no dia seguinte e no outro, de lá a há uma semana ou um mês. Respirou pesadamente, seu hálito morno se condessou no ar frio parecendo vapor.
      - Não precisa continuar – disse o menino, os olhos dele refletiram a luz do fogo. – Melhor será se mudar o assunto.
      Su, limpou a umidade do rosto e forçou-se a sorrir.
      - Tudo bem. Agora é sua vez de contar o seu segredo. Usou algum tipo de apito? – disse ela, Kael fez que não. – Você não atirou realmente, não é? – Ele fez que não novamente. – Você pequeno desse jeito, tem que haver alguma explicação.
      - E há – disse Kael. - O que resultou na fuga dos seregs foi minha kinesis.
      - Você é um kinezista? – Ela sabia que os kinezistas eram cientistas que tinham de se especializar levando anos de prática e estudos para se formar. – Mas você tem apenas dez anos de idade.
      - Não sou um kinezista, eu nasci com a kinesis, é diferente e ao mesmo tempo a mesma coisa.
      Tirou os olhos dela e puxou seu rifle o apoiando nas coxas, manejava bem a longa arma grande demais para o pequenino, os cabelos cobriram parte do rosto e apenas com a luz do fogo iluminando, não dava para decifrar que expressão ele tinha no rosto.
      - Para a religião daqui sou um demônio – disse ele, a fitou e voltou para seu rifle, assoprou um buraco do objeto e talvez pó voou em seu rosto. Fungou e cuspiu.
      - Não fique triste, não é um demônio e sim um anjo.
      - O que, como assim? – falou ele, Su adorava o seu forte sotaque.
      - Você disse que era um demônio, eles são seres malignos. Todos têm medo deles.
      - Está equivocada – disse Kael abanando a cabeça em plena desaprovação -, na religião daqui os demônios são neutros como a natureza, eles são poderosos e mantém o bem e o mal em pé de igualdade. Pessoas nascidas com kinesis eram chamadas de demônio ou enviados dos deuses.
      - Mas é? – Suilane riu -, vou me acostumar com isso um dia. Demônios do bem – riu mais.
      - A kinesis é tão antiga quanto os primórdios da civilização humana. No final descobriu-se que qualquer um podia aprender a kinesis e a mágica foi quebrada.
      Depois de fazer o que estava fazendo, Kael sugeriu irem dormir finalmente. Ele bloqueou a entrada da caverna com uma porta de madeira grossa e dois pedaços de tronco de arvore moldados por ele eram o que mantinha a porta no lugar, uma lamparina a óleo clareava fortemente com sua luz alaranjada de ponta a ponta da caverna. Se alguém ou animal tentasse forçar para entrar, no mínimo teria de fazer uma barulheira possível ser ouvido do outro lado do mundo. Sentir que a entrada estava rigidamente trancada proporcionou a Su, uma noite de sono tranquila como nunca antes.
      No dia seguinte. Suilane acordou de um sono tranquilo. O local onde Kael havia ajeitado para dormirem era bem espaçoso, ele tinha pelo menos cinco cobertores de lã bem grossa e quase a mesma quantidade de cobertores de pele de pelagem castanha e cinza. Desde que pôs o pé em Caninas, não dormira aquecida como naquela noite. O melhor foi dormir abraçada a Kael, que não estava ali naquele momento. Quando saiu da caverna para olhar o céu, o ar frio da manhã lhe abraçou a face. O menino estava preparando o desjejum, ele parecia tenso enquanto ela o observava.
      - Bom dia, Kael.
      O olhar penetrante dele pesou sobre ela como sempre.
      - Da próxima vez que me agarrar durante a noite, controle onde suas mãos tocam.
      - Desculpe – riu Su -, é que minhas mãos estavam geladas e procurei um lugar quente para aquecê-las.
      - Pode não saber, – ele ajeitou uma mecha de cabelo castanho atrás da orelha avermelhada -, mas neste país temos leis de proteção infanto-juvenil, lembre-se disso.
      Ela não pôde se conter em soltar uma gargalhada, Kael estava vermelho e de cara emburrada.
      - Desculpe, vou lembrar.
      Depois de ter feito o desjejum, sentia-se totalmente pronta para pegar estrada acima com Kael, que havia descido para averiguar algumas armadilhas que fizera, caso houvesse logrado alguma coisa logo comeriam alguma carne sem ser a salgada e seca que tinha em demasia em seu acampamento.
      Ele disse que não demoraria e pôde ouvir alguns ruídos ali por perto semelhantes a eco de vozes de alguém gritando ao longe, desceu com cuidado o estreito caminho onde ficava a caverna.
      O dia estava límpido e sem nuvens, um profundo céu azul claro inspirava boa viagem, o sol ainda acariciava o topo de montanhas negras a oeste. Desceu em segurança e aliviada por não se espatifar morro abaixo, onde pisava agora mais parecia uma estrada larga de cascalho e pedras grandes como melões, maçãs e tudo quanto era tamanho, todos alisados como se houvessem sidos polidos, um a um, por mãos rudes. Imaginou que água fluía por ali de tempo em tempo, e com toda razão por ali a neve e gelo derretido fluía até desaguar no rio ao sopé de algumas das Caninas. Continuou a caminhar na direção dos ruídos. Quando chegou finalmente perto o suficiente, espiou por entre algumas pedras altas e pôde ver a forma de três pessoas, Kael e mais distante do outro lado de uma longa poça de água escura, funda o suficiente para engolir os pés até os tornozelos, estavam dois homens esfarrapados. Suilane pôde reconhecer aqueles dois no mesmo momento, sentiu-se encolher por completo e chegou a pensar em correr para longe da li. Mas se acalmou e analisou a situação mais uma vez e viu nas mãos do menino o que parecia ser um coelho cinza escuro abatido.
       Um dos homens era corpulento com dentes faltando-lhe na boca, com os olhos fundos e nitidamente faminto. O outro não estava diferente, nariz achatado que mais parecia uma batata mergulhada em gordura e os olhos também fundos sorrindo de forma hedionda apontando para o animalzinho nas mãos de Kael. O menino atirou o coelho no ar em direção aos dois homens e o bicho caiu bem no meio da longa poça, os dois se entreolharam e correram aos empurrões para pegar o alimento. Quando o homem gordo se agachou para pegar o coelho, o outro o empurrou e antes de cair segurou no braço no narigudo, os dois acabaram estatelando-se na água. Kael que apenas observava tirou a luva de couro escuro da mão direita e a ergueu na altura da cabeça, pôde ver faíscas roxas, azul e violetas dançarem por sua mão, ele agachou sentando-se nos calcanhares e aproximou os dedos da água. De repente ouviu-se um estalo forte seguido de estalidos fracos, mais dois estalos e estalidos. O menino ficou de pé e pôde perceber que os homens estavam caídos na água, sujos de lama negra, um deles deu uma rápida estremecida e ali ficaram. Uma ventania começou de repente, alisando as rochas pontiagudas em um zunido leve e alongado, as folhas de árvores pontiagudas também cantavam em meio a estalos e rangidos de seus troncos castanhos. Kael voltou a vestir a luva e quando deu as costas para os homens, não percebeu Su de imediato, ele fez uma careta como se tivesse derrubado uma tigela de sopa e temia levar uma bronca. Sorriu aproximando-se, ela se esforçou para sorrir, o coração batia forte e as pernas estavam bambas.
     - Você está bem? – Perguntou ele, Su se esforçou para ficar ereta depois de tanto tempo agachada naqueles instantes que pareceram horas. – Seu rosto está da cor da neve. Está a salvo. – disse o menino.
      - Obrigada! – sorriu, respirou fundo e foi até Kael e o abraçou forte. – Meu herói, você é de fato kinezista.
      - Não sou kinezista algum.
      Ele estava escarlate até as orelhas.
      - Mas aquilo que fez foi magnifico – disse ela. Ele deu um de seus raros sorrisos e deu de ombros.
      - Não é para tanto – disse ele com uma olhadela de soslaio na direção dos homens caídos e continuou -, mas acho que exagerei. Eles são os que tentaram viola-la?
      - Sim, ambos. Eram seis, no entanto você viu dois sendo mortos pelos gatos, agora esses dois... faltam mais dois.
      - Se eles não souberem falar o idioma daqui como o desses dois ali na água, sem documentos não durarão nada neste país – ele a perscruto -, no seu caso terá apenas de trocar estas roupas.
      - Fico feliz em saber disso – olhou por cima do ombro de Kael. – Vamos deixá-los desta forma?
      - Esqueci – disse ele como se tivesse lembrado de algo, correu até onde os dois estavam e tirou o coelho da água e retornou balançando o animal para sair um pouco da lama. – Pronto, é o nosso jantar.
      Suh riu, Kael pareceu não entender.
      - Eu me referia aos dois ali atrás. Estão mortos?
      - Talvez. Mas morrerão de fome e frio no final. Deixe-os, daqui a um tempo o d’gelo vai arrasta-los para o rio, ou algum bicho virá comê-los. – Fez um gesto em direção ao norte. – Vamos embora de uma vez.
      Não demorou para estarem prontos para partir. Dividiram a carga de provisões para duas pessoas, Su se sentia feliz ao ponto de querer chorar de emoção a cada passo de distância que tomavam para longe daquelas montanhas. Imaginar que tudo aquilo iria terminar a deixava com tanto ânimo que seus passos eram largos e ágeis, Kael deu-lhe uma bronca por duas vezes que se afastou dele.
      - Está querendo testar minha paciência? – reclamou ele quando ela se afastou demasiadamente pela terceira vez. – Não se esforce.
     Su como sempre achou aquilo tudo uma gracinha, a cara emburrada do menino a fez sentir uma vontade irresistível de abraça-lo e aperta-lo. Mas imaginou que o faria zangar-se ainda mais.


    (Por não ser um texto definitivo e completamente de teste, estou aceitando críticas, sugestões e comentários sobre qualquer dúvida. Obrigado.)
  • O Ex-defunto

    Nas férias de verão, resolvi sair do inferno que era a trivialidade de uma vida pacata ao extremo. Nunca fui afim de viajar, de curtir com os amigos, de se embriagar ou coisa do tipo. Sempre fui fiel aos preceitos morais que minha mãe me deu. Segui piamente, durante décadas, os ideais familiares, os conselhos. Entretanto, nesse verão, resolvi sair da prisão cultural. Uma loucura extrema, talvez sobrenatural, abraçou-me de repente, e me forçou a quebrar as restrições coercitivas que me impedia sair da constância dos meus dias. Da forma como essa mudança inusitada me possuiu, fez-me sentir profundamente invadido. Talvez um demônio me possuiu, pensava. Eu me sentia leve, feliz e ao mesmo tempo, receoso. Durante a fase de preparação do cronograma de viagens, uma bipolaridade me tangia frequentemente, e assim fazia com que eu me sentisse: ora um caçador, ora uma caça. Contudo, meu lado obscuro venceu nas minhas decisões. 
    Passei em torno de dois meses, planejando, replanejando, desfazendo e refazendo meus planos para estas inexplicáveis férias que viriam. A fastidiosa carga horária de nove horas de trabalho me deixava exausto para planejar algo. Entretanto, como já mencionei, algo muito surreal me pungiu nesse momento. Toda noite, nesses últimos meses para as tão esperadas férias, empenhei-me distendendo meu descanso noturno à procura de promoções na internet e, metodicamente, planejando a viagem. Às vezes, pensava que estava ficando louco, mas acabei cedendo com a perspectiva de uma mudança, por mais radical que fosse, iria, assim achava, desopilar minhas tensões e seria, decerto, algo inédito. 
    No dia da viagem, peguei a minha cachorrinha, Dolly, e a levei até a casa do meu tio. Sem nenhuma preocupação pendente, encaminhei extaticamente até o aeroporto principal. Era uma euforia incontrolável e, lá no fundo, sentia que a minha normalidade estava acorrentada. 
    Desembarquei às oito horas da manhã (horário local) no Aeroporto Internacional de Dodoma, na Tanzânia. Esse foi o destino que o meu lado misterioso me guiou. Quando fui ao centro da cidade Dodoma, tive a sensação de que já estive naquele lugar antes — senti na prática o que na teoria eu refusava: a ideia do déjà-vu. Desdenhei essa abstração e volvi-me a apreciar as belezas da cidade. Tive um choque de percepção. Pensava que na África tudo era miséria, pobreza e selva. Achei extremamente fascinante a cultura e a peculiaridade daquela cidade. Monumentos, arranha-céus, construções opulentas desmitificavam os meus equivocados preconceitos. No entanto, o meu objetivo estava longe de ser a vida urbana. Queria inflexivelmente desbravar a temível Savana africana. Na verdade, a minha parte oculta que queria. 
    Após dois dias desfrutando das belezas urbanas, o grupo de turistas no qual eu me incluía, decidiu ir visitar a savana Serengueti, ao norte da Tanzânia. Eu estava bastante empolgado com o passeio silvestre. Os prados estéreis, os arbustos espargidos, e, acima de tudo, os temíveis animais africanos. 
    Durante a viagem dentro de uma gaiola ambulante, avistamos cenas indescritíveis; sentimos algo que só o ambiente pode nos proporcionar —O ar da liberdade. Paramos um pouco para apreciar uma manada de elefantes que cruzavam a estrada. Perpendicularmente à estrada, no lado esquerdo da nossa direção, avistamos uma cena inusitada, um grupo de leões estava espreguiçando-se no chão sem demonstrar nenhuma agressividade. Os turistas não paravam de registrar cada passo dos felinos. 
    Enquanto os leões distraíam a atenção dos turistas, eu observava ao longe, no lado direito, uma cena curiosa. Vi um homem, um rinoceronte, e depois, um tiro. Fiquei profundamente abatido. Não fui eu quem fora abatido, mas sentia-se partido. O monstro retraiu a atenções dos outros. E ficamos átonos diante tamanha brutalidade. Ele retirava rapidamente o chifre do morto, e ameaçou com a arma a todos nós. Então, o guia acelerou, sem delongas, à vante. Ao passo que o carro ia, eu olhava, amargurado e consternado, o verdugo se retirando às pressas. E a nossa expedição fora arruinada naquele momento. Perdi a essência de aventureiro. 
    Logo considerei que estava precisando de algo para retirar aquela cena horrenda da minha consciência. É difícil descrever minhas sensações naquele momento. Quando eu tentava se distrair, os pensamentos me assaltava inesperadamente. Via que não poderia viver a essência de férias tranquila, caso não fizesse o mínimo possível. Daí em diante, já não era minha consciência que me controlava. Estava com um ódio aliado a uma psicose incessante de querer destruir aqueles miseráveis que roubam o que não lhes pertence. 
    Voltei a inibir meus temores quando conheci, inesperavelmente, uma jovem nativa de vinte e três anos, em um restaurante na cidade Dodoma. Ela estava almoçando sozinha, em uma mesa de frente a que eu estava. Dardejei um olhar curioso a ela, e como se houvesse uma conexão intuitiva, ela equiparou seu olhar ao meu. Discretamente, disfarcei o meu vislumbre e, voltei a saborear a minha refeição. Ela lançava-me um olhar distinto e tentador, que me fazia sentir arrepios. Um momento depois estávamos face a face, eu e aquela elegante garota. Um inevitável sorriso de simpatia nos tangenciou. Acresce que, quando sorria, resolvi atirar um aceno cortês, e desastradamente, acabei derrubando o copo de suco da minha mesa, e fiquei profundamente envergonhado. O garçom cuidou do desastre e eu resolvi ir até a mesa daquela mocinha. 
    —Olá, tudo bem? 
    O sorriso foi a sua resposta. 
    Logo me dei conta de que não ela falava português, e me vi como um idiota. Minha situação estava pior que antes. Estava pressionado a dizer alguma coisa e a luz dos meus problemas veio com a respostava dela: 
    —Eu falo inglês! 
    Senti um alívio tremendo ao entender o que ela dissera. Pensei nas conclusões imediatas a que chegara com a sua voz e não pude evitar um riso de entendimento e de vergonha. 
    —Perdoe-me pela minha apresentação nada cortes 
    —Sem problemas. Ela sorria pendulando a cabeça de baixo para cima. 
    —Me chamo Marcos. 
    —Meu nome é Telissa 
    —Encantado em conhecê-la 
    —O prazer é recíproco! 
    Após essa cômica introdução, ela me convidou para sentar. Passamos horas conversando, por ora meio enrolado na fala, contudo, o entendimento foi concedido a ambos. Foi realmente deleitoso conversar com aquela simpática garota; passaram-se em torno de duas horas nessa conversação. Despedi-me dela, e ela disse que vinha com frequência almoçar naquele restaurante. 
    Por ora, minhas angustias estavam soterrada nas excitações, nas memórias reconfortantes daquela inexplicável conversa. Assim, conforme o dia ia se desfazendo, a minha empolgação para o almoço seguinte só aumentava. 
    No dia seguinte, passeei pela cidade, fui ao museu local, e olhava constantemente o relógio fitando não perder o horário do almoço. Seriam umas deis e meia da manhã e eu ainda estava no museu. O grupo de turistas ficavam fascinados com as esculturas, relíquias, entretanto, eu estava achando aquilo tudo entediante, antiquado e fastidioso. Quando o ponteiro tangenciou o marco doze, saí discretamente do museu e encaminhei até um táxi que me levou até o restaurante. 
    Lá dentro, olhei perscrutando as mesas e as pessoas a procura de Telissa, e não a encontrei. Era umas doze e meia quando resolvi reservar uma mesa. Pensei que ela já tinha ido embora, e assim, fiquei chateado em não encontrá-la. Cada mordiscada que dava na coxa de rã não sentia sabor algum, almoçava simplesmente para suprir minhas necessidades fisiológicas. Terminei de almoçar, e quando ia me levantando para sair, uma mão afaga meu pescoço. Senti-me leve e profundamente confortado com aquela mão; imaginava aquela simpática garota me acariciando. E, impensavelmente, tornei o meu pescoço para deslumbrá-la, e, infelizmente, tive uma quebra de expectativa: não era Telissa, era uma velho que estava se apoiando em mim para passar. Saí de lá aborrecido, olhando para o chão e pensando nela. 
    O dia se encerrou sem aplausos. Não foi um dia abençoado, foi um dia tão ruim quantos os outros que já tive. À noite, senti-me como um filhote deserdado, sem arrimo, com a dura sorte do destino. Dormi cedo naquela noite, estava totalmente desmotivado para qualquer atividade de lazer. 
    A essa altura eu já começava a pensar que ela talvez não gostasse de mim nenhum pouco. Deixei isso de lado e tentei aproveitar as férias. No almoço seguinte, caminhei até o restaurante, desdenhoso a qualquer distração, sentei-me cabisbaixo, ordenei um frago grelhado com batatas, e um suco de uva. Estava apreciando a comida, evitando que os pensamentos me usurpassem o momento. 
    —Marcos? 
    Uma voz me chama, e eu tento guiar a minha audição até o local exato. Diante de duas mesas atrás de onde estava, se encontrava a garota misteriosa. Meu coração acelerou, e senti uma tensão momentânea me pungindo. Era ela! Ela estava me chamando para compartilhar a companhia no almoço. Senti-me muito bem com sua presença e além mais, ela conversava com uma leveza que parecia que eu estava delirando. Nós conversamos várias horas, eu decidi convidá-la para passear —até porque meus dias ali estavam se acabando— e suavemente ela confirmou a minha proposta com um sorriso divino. Não sei se diria que me apaixonei por ela, mas, certamente, senti algo que há muito tempo não sentia. Ela demonstrava tanta simpatia que não cogitei o seu verdadeiro caráter. 
    Fomos até um parque há duas milhas do centro, ficamos ali apreciando os pássaro que desatavam a cantar; conversávamos como se já nos conhecêssemos há anos. 
    Durante os dias precedentes, a frequência de encontros só aumentava. Eu e Telissa fomos a parques, cinemas, shopping center, outros lugares urbanos. Toda essa reviravolta mudara intensamente o rumo bucólico que antes prognosticava. 
    Em uma manhã tão ensolarada quanto as outras, Telissa me encontra no Café-Renoir (ao lado do restaurante mencionado), e ao avistá-la, senti uma alegria imensurável. 
    —Bom dia, Marcos. Assim ela me chamava com um sotaque tão peculiar que até pensei que era um apelido carinhoso.. 
    — Bom dia, Telissa. Como foi a noite? 
    —Foi mais ou menos. Respondeu ela, como se estivesse incomodada com algo. 
    —Por que? interroguei-a com ar de espanto. Nunca a via desmotivada, triste como nessa ocasião. Ela optou pelo silêncio, e assim, eu a respeitei. Convidei-a para tomar café e, após insistir um pouco, ela cedeu. Conversamos algumas trivialidade, e aos poucos via o seu semblante voltando ao que era de costume. Fomos passear pelo parque, e depois de algumas voltas em torno, sentamos em um banco defronte a um pequeno lago, bem pequeno mesmo, talvez diria uma poça d’água se não fosse a presença de plantas aquáticas. Eu olhei nos seus olhos e ela retribuiu o ato. Seus olhos brilhavam bastante, e seus cabelos moreno avoaçavam com a sintonia do vento. Ela carinhosamente apalpou o meu rosto e desferiu-me um impiedoso e inexplicável ósculo. Seus lábios tangenciaram os meus, e o silêncio nos pensamentos caracterizou aquele momento irracional, em que os hormônios transladavam loucamente por nossos corpos. Não ingeri álcool mas me senti embriagado após aqueles beijo e carícias. Convidei-a até meus aposentos e ela não mediu esforços. Tive a melhor noite de todas, no entanto iria se arrepender amargamente por ter conhecido aquela mulher. 
    No dia seguinte, acordei ao seu lado, eu estava revigorado. Nunca me senti tão bem como naquele momento. Ela acordou com um carisma fascinante. Até cheguei a pensar, se ela estivesse fingindo, deveria ser uma grande atris, entretanto, o que importava para mim é que eu estava vivendo um momento deleitoso e, tudo aquilo, era, sem dúvidas, as melhores férias. Conversamos nos aposentos naquela manhã, almoçamos juntos —Ficamos o dia inteiro juntos. Foram momentos inescurecíveis e inexplicáveis. Aquela meiga e cálida garota me sucumbia qualquer tormenta. Era um anjo! 
    Faltava quatro dias apenas para o fim das férias. Eu evitava imaginar minhas férias acabando e ter que retornar para a monótona e exaustiva rotina. Nesse dia, pela manhã, Telissa me encontrou no Café-Renoir, após tomar lanchar, ela me convidou a ir visitar a sua casa. Eu fiquei surpreso por sua proposta e aceitei sem cogitar. Não foi tão longe, cheguei lá em torno de duas horas de táxi em uma área interiorana. Eu estava empolgado, com pensamentos ludibriosos me eivando e toda imaginação fértil no momento. No momento, não me perguntei como ela vinha para a cidade ou o que ela fazia lá. De fato, o desejo por prazer me fez agir sem pensar, ou há quem ressalve o lado obscuro que me fez ir até onde fui. Andamos em torno de dez minutos após descer do táxi, por uma trilha estreita, até chegar ao destino. Achei surpreso o lugar em que ela vivia. Mato ao redor, uma casa velha e, sobretudo, mistério. Como uma mocinha tão elegante poderia viver naquele lugar. Por um momento pensei que iria morrer, que talvez ela estivesse me levando para alguém me assassinar. Quando eu cheguei lá, um grande surpresa. 
    Carcaças de animais penduradas em estacas, provavelmente para secar. Eu me perguntava o porquê dela me levar para ali. Ainda com a ilusão de prazer, caminhei junto dela até a casa. Pensei, que nem todo mundo tem a sorte de viver com dignidade. 
    Ao entrar na casa, eu tive uma grande surpresa: uma arma, um alvo, e eu era alvo. Aí meus pensamentos explodiram; meu desejo latente foi convertido em terror iminente. Estava perplexo, e, cruamente, com a ideia de que iria morrer logo. O mesmo homem que outrora ceifou a vida daquele pobre animal na savana, estava prestes a ceifar a minha também. Fiquei mudo, sem palavras, nem expressões visíveis. Eu já estava imaginando a dor pura e efêmera de uma bala que logo transmutaria a minha vida ao esquecimento eterno. Cada milésimo de segundo pensado, era eternamente avassalador; eu estava me sentindo um defunto, uma presa coagida sem chances de fuga. Depois da minha pálida expressão, o homem despojou um sorriso maléfico. Era a hora da morte! exclamei mentalmente. 
    Depois de tantos pensamentos cruéis, Telissa toca em minha mão, e ao inflexivelmente afasto-a com um empurrão. Estava com profundo ódio dela. Como pude cair na tentação dela, pensava. O homem falou umas coisas que não entendi. Talvez tenha dito um Adeus ou coisa do tipo, e eu já estava lacrimejando quando, eu ouço um tiro. Morri! 
    Uma bala passa de raspão no meu ombro esquerdo, e eu fico sem entender. Não foi ele quem atirou em mim, fora outra pessoa (ou monstro) que atirou. Não sabia o que fazer. Abaixei-me, e engatinhei até atrás de uma poltrona rasgada, ao lado da porta. O homem começou disparar contra um outro que não consegui ver. O sangue estava brotando sem parar do meu ombro, era excruciante. Quando fui pegar um pano para conter o sangramento, eu me deparo com Telissa caída no chão. Não acreditei no que via, ela fora atingida no peito e estava agonizando. Puxei ela para perto de mim. E fiquei sem entender nada. Interroguei-a, ainda com remorso: 
    —Por que? Por que? 
    —Eu te... E ela apagou. 
    Não consegui entender as últimas palavras dela. Fiquei na dúvida se ela queria dizer que me ama ou que me odeia. Vislumbrei rapidamente o local, avistei algumas presas, chifres, no quarto e não me atentei mais aos detalhes. Corri escrupulosamente pelo cômodo até uma janela fechada, que logo foi quebrada com uma bala. O barulho ensurdecedor de fuzis, estava me deixando desorientado, entretanto, consegui me erguer e pulei da janela que dava de cara a um matagal. Corri desembestado, sem olhar para trás; me cortei todo, contudo, a dor não foi mais forte que a minha ânsia por viver. Quanto mais eu odiava a vida, mais temia a morte. Sob tal ótica, estava eu correndo sem parar, até que consegui chegar a estrada. De tão desorientado que estava, não sabia para que lado ir. Só sabia que teria de correr o máximo que puder. Resolvi intuitivamente, escolhendo a esquerda, e assim, marchei a passos larguíssimos ao desconhecido. 
    Enquanto eu avançava, fazia uma parada de vez em quando para conter o fôlego. O céu já estava prenunciando o crepúsculo e ainda não tinha chegado a lugar algum. Procurei à minha volta algum indício de residência ou de qualquer tipo de ajuda. E não obtive sucesso. A lua já estava imperando no céu, e eu estava ao relento, imundo, dilacerado, temeroso, sozinho e sobretudo, perdido. Eu resolvi repousar em uma árvore frondosa, temendo os animais ou algum monstro humano. 
    No dia seguinte, saí da árvore cansado e se coçando, meu estado de virgília não me concedeu uma noite de sono. E a coceira infame foi devido aos mosquitos noturnos. Achei uma árvore encantadora, próximo onde repousara, com supostos melões suspensos. Não resisti a tentação de comê-los; estava faminto. Comi dois melões e foi o suficiente para evacuar dezoito vezes durante a viagem. A diarreia estava me matando aos poucos. Desidratado e faminto, e ainda, correndo um grande risco de virar uma presa, lá estava eu, passando as minhas férias. 
    Segui a estrada a passos lentíssimos, quase se arrastando. Estava sentindo minha consciência se apagando. Achei uma poça d’água e cogitei em não beber. Tentei me hidratar, limpar minhas feridas e repousar um pouco. Ao lado, de onde eu repousava encontrei amoras silvestres, e por um tempo, cogitei em não comer. Não queria me desidratar mais, entretanto, a tentação da fome acabou me fazendo comer. Comi o máximo que pude, e por sorte, elas não me fizeram mal. Até que me ajudaram em conter o tenesmo. 
    Passei esse dia repousando em uma árvore, queria reter energias extras caso precisasse de uma fuga imediata. Comi toda a amora que encontrei. Não matava a fome, mas aliviava o incômodo da barriga vazia. À noite, consegui ter um sono ainda ruim, mas que me fez acordar um pouco melhor. 
    No dia seguinte, uma outra surpresa se verticalizou, agindo como um empecilho: uma manada de elefante descansava a baixo de onde eu estava. Receoso em descer em virtude dos casos de brutalidade desses animais, fiquei cautelosamente aguardando e com uma grande virgília, pois, eles poderiam derrubar a árvore se se sentirem ameaçados, e ainda, um pensamento atentador me fazia a todo tempo querer fugir: e se os caçadores de marfim viessem aqui matá-los, provavelmente iriam me matar também. Em meio a tantos pensamentos usurpadores, meu lado obscuro me concedeu a destreza de ficar escondido nas folhagens e aguardar. 
    Passaram-se horas, até que, ao meio dia, por aí, os brutamontes foram embora. Quando desci, estiquei minhas pernas, que estavam levemente dormentes, e o estalo foi a resposta para o alívio. Achei um escorpião enquanto estava comendo amoras, e, tendo em vista os programas de aventura na TV, achei coerente comê-lo, tirando primeiramente, o rabo. Ao colocá-lo na boca, suas pinças prenderam na minha língua que logo começou a arder, e tentei mastigá-lo, no entanto, um gosto essencialmente amargo me fez cuspi-lo. Nunca experimentei tamanho dissabor. Fui retornar a caminhada, e dessa vez não corria apenas para salvar minha vida, mas também para salvar a minha passagem de volta, pois só me restava um dia até o embarque. 
    Durante esse dia, eu andava em uma marcha rápida fitando poupar energia. Sempre que eu encontrava uma poça d’água não receava mais a sujeira, bebia como um animal. Durante o final da tarde, quando a penumbra já era visível, eu encontrei uma aldeia com poucas casas, mas que transpiravam um pouco de esperança. Não quis chegar durante a noite pedindo ajuda para não correr um risco de ser levado como inimigo ou quem sabe como caça. Preferi esperar em uma árvore com uns duzentos metros de distância. Na árvore eu avistava o fogo, que cintilava com a sintonia do vento. E dava para escutar as vozes dos aldeões. 
    O sol matinal envolveu-me quebrando o meu sono, que dessa vez foi o melhor desde que estava em fuga. Acordei animado para pedir ajuda. Afastando-me da árvore e olhando para frente, eu vi uma camionete chegando, e exclamei pensando: até que fim! ajuda! Pensava que iria obter comida, e ajuda para voltar, mas me enganei feio; eram traficantes de marfim que chegaram para descarregar e armazenar naquelas casas. Fiquei realmente abatido, pois, no dia seguinte teria de estar no aeroporto. 
    Retornei, a caminhada e evitei entrar em contato com os anfitriões, até porque eu era estrangeiro ali, e não iria entender o idioma local. Caminhei bastante desconsolado; não estava mais com aquela ânsia por viver; sentia-me um defunto. Sem perspectivas a não ser perecer. Meus passos já não estavam com a empolgação de antes e eu já começava a sentir dores que por ora me impossibilitava de caminhar incessantemente. Só um milagre para me tirar daquela aventura fadado à seleção natural. 
    Resolvi voltar a seguir a trilha da estrada de terra, e dessa vez, seguir até onde meu corpo me possibilitar. Enquanto via o caminho ficando exaustivo, doloroso, meus pensamentos estavam voltados para uma simples pergunta, mas com uma resposta temível: irei morrer? 
    Durante muito tempo devo ter ficado semi-desacordado. Não me recordo nada além de caminhar à diante, como um guerreiro que não teme mais a morte e busca o último triunfo: confrontar com a morte. Disseram-me que fui deixado na frente do hospital de Dodoma e que uma camionete me trouxera. Quem me trouxe não parou para questionamentos, simplesmente vazou como se nada tivesse acontecido. 
    No dia da viagem eu estava acamado, e ainda sob os cuidados médicos. Estava com uma infecção intestinal, desidratação, contusões, hematomas, e   inflamações em diversas escoriações que colecionei durante a fuga. Por fim consegui adiar a minha viagem alegando atestado médico. 
    Hoje completou exatos quatro anos desde que fui à Tanzânia. Recordo-me fascinado daquela inusitada vivência. Tenho várias dúvidas. Será que Telissa realmente me amava? Será que ela sobreviveu? Será que homem armado não queria me matar de verdade? Será que Telissa queria me mostrar algo? Será que foram os criminosos que me salvaram? E por que fizeram isso? Muitas dúvidas que guardo para mim, e sei que nunca irei saber ao certo. O mistério do meu lado obscuro ainda não foi desvendado; fui à vários médicos e não obtive outro veredito senão: Psicótico...
  • O FIM DO TRABALHO - FUTUROLOGIA

    Outro dia me peguei pensando sobre as profissões que estão se tornando obsoletas. A mecanização dos meios de produção estão gerando novos empregos em áreas diferentes.

    Por exemplo, hoje uma ordenhadeira tira o leite de dezenas de vacas de maneira eficaz. Quantos vaqueiros deixaram de trabalhar para cada ordenhadeira vendida? Então, esses indivíduos que seríam vaqueiros estão trabalhando nas fábricas de ordenhadeiras, no transporte de mercadorias, na publicidade e em outras áreas que não existiam na época em que a ordenha era manual. O mesmo acontece em diversas áreas, e os empregos tornam-se cada vez mais urbanos.

    Entretanto, mesmo os empregos urbanos passarão a ser obsoletos. Uma ordenhadeira já não precisa mais de dezenas de pessoas para fabricar ela, isso pode ser feito por uma máquina operada por um unico indivíduo e mais um mecânico que a conserte caso ela se quebre. Daí teremos muitas pessoas migrando para outras áreas novas, como os aplicativos de transporte e entregas e tecnologia da informação. Mas esses empregos em preve poderão ser substituidos por máquinas. Basta que se torne possível e rentável fazê-lo. 
    Em algumas décadas, veículos em piloto automático substituirão os motoristas e entregadores. Máquinas construirão máquinas que construirão máquinas. Cada vez mais as pessoas terão de migrar para empregos que serão insubstituíveis por robôs. Alguns poucos técnicos serão necessários para consertar as máquinas que se estraguem eventualmente. E essa eventualidade acabará se tornando cada vez menos frequente, com processos de fabricação cada vez mais precisos. As outras pessoas terão de ir para as únicas áreas que não poderão ser substituidas por um autômato: artes e esportes.

    Enquanto houver interesse da população por esportes, livros, séries, filmes, novelas, desenhos e animes, haverão empregos. Mas nem todo mundo é apto para essas funções. Os criadores de conteúdo que não conseguirem ter sucesso acabarão se tornando a classe mais pobre. Mas não se desespere: Marx estava errado.

    Resumidamente, Marx dizia que existia valor agregado ao trabalho pelo fato de este ter tomado tempo e esforço. Em outras palavras, algo seria mais caro se fosse mais demorado e difícil de ser fabricado. Isso e, claro, o lucro dos gananciosos burgueses. Mas isso não é verdade. O que rege o preço das coisas é oferta e procura.

    Se algo for custoso demais para ser vendido ao preço que a lei de oferta e procura oferece, isso deixa de ser fabricado, pois não será vendido. Caso seja algo estritamente necessário, o preço subirá, mas as pessoas pagarão. Por outro, se algo for mais fácil e barato de ser fabricado, acabará sendo fabricado em maior escala e sobrará no mercado, causando assim uma oferta muito maior que a procura e abaixando o preço desse determinado produto. E é aí que reside a esperança. 

    Se você não precisa pagar dezenas de salários e direitos trabalhistas para produzir, apenas gastar eletricidade e combustível, a produção se torna mais barata. Se o preço for alto mas o custo de produção for baixo, mais pessoas criarão fábricas desse determinado produto. Isso gera a abundância dele, fazendo com que o preço abaixe, o que fará com que seja mais consumido, o que subirá o preço e assim por diante, num ciclo que estabilizará o preço de qualquer produto fornecido no mercado.

    Esse equilibrio, somado a automação e mecanização de todos os meios de produção, gerará produtos cada vez mais baratos e abundantes. O preço tenderá a aproximar-se de zero a medida que a oferta tenderá ao infinito. No fim disso tudo, chegaremos a utopia. 

    O que descrevo como utopia é o mundo onde tudo é tão facilmente produzido e o custo será zerado, fazendo com que tudo seja de graça ou por um preço simbólico. Cada indivíduo poderá consumir o que quiser o quanto quiser, e isso não custará ao seu bolso. Todo o gasto do ser humano, bem como sua fonte de renda, será com esportes e artes. 

    Séculos, meus caros, apenas séculos a frente isso poderá ocorrer. E eu adoraria ver isso. 
  • O gato de Schrödinger

    O que aconteceu? Onde estou? Não estou lembrando de muita coisa. Não consigo sentir meus braços e pernas. Abro os olhos e não vejo nada, nem escuridão, nem luz intensa, não consigo sequer conceituar o que meus olhos veem ou não veem. O que houve? Eu estou morto? Eu devo estar morto. Eu só posso estar morto. Como isso aconteceu? Uma onda de medo e terror misturado com surpresa e angústia se misturam.
    Calma!! É hora de se manter calmo custe o que custar. Tento colocar a mente no lugar. Se eu morri porque eu continuo a pensar? Eu estou com medo. Mas se estou com medo é porque sou capaz de sentir coisas. Então eu estou vivo. Não lembro meu nome e nem o que aconteceu. Tento lembrar nomes de pessoas ou de eventos e não consigo. Tenho a impressão de que os conceitos de espaço-tempo não se aplicam a situação em que me encontro... 
    Acho que devo ser a última pessoa sobe a face da Terra. Tenho medo de admitir isso, mas não posso negar os fatos. Eu não sei dizer o que houve, a única certeza que tenho é que todo mundo sumiu, todas a pessoas simplesmente desapareceram. Não restou o menor vestígio de alguém.
    Esta cidade tinha quase dois milhões de habitantes e agora não há ninguém. Vasculhei quase todos os bairros e uma infinidade de becos e ruelas e não descobri nada. Parece que todas as pessoas e também todos os animais e insetos desapareceram. Passo horas e horas perambulando pelas ruas e a única coisa que escuto é o barulho do vento ou o clique dos sinais de trânsito mudando automaticamente. É um mundo silencioso.
    O desespero teima em querer voltar. Passo horas perguntando-me porque só eu fiquei no mundo.
    O que será que houve? Elaboro mentalmente uma lista de coisas que poderiam ter acontecido: 1- a terra caiu em um buraco de minhoca e só eu escapei. 2- Todos foram abduzidos por extraterrestres. 3- Estou tendo um pesadelo e em algum momento acordarei (essa é a explicação que mais gosto). 4- Sou vítima de algum experimento maluco. 5- Estou morto.
    Coisa horrível essa de estar só no mundo, tudo perde o seu valor e a sua lógica. Não existe ninguém para dizer que isto é bom ou ruim, que isso é feio ou bonito. Certa vez simplesmente destruí vários aparelhos eletrônicos caríssimos com uma marreta de cinco quilos. Destruí porque quis destruir, simples assim. Impensável fazer isso antigamente sem alguma consequência. Não existe ninguém para expressar juízo algum. Só eu existo. Eu só tenho a mim mesmo para conversar. É como jogar uma partida de xadrez consigo mesmo, não tem graça pois já sabemos qual será o próximo lance.
    Passo horas navegando na rede mundial de computadores buscando algo, buscando uma resposta. Abro as redes sociais e descubro que nenhuma delas foi mexida desde o dia que acordei e vi que todos desapareceram. Dirigi mensagens eletrônicas para muitos lugares do mundo, mandei sinais de rádio para vários países. Observo que nenhum canal de televisão funciona mais.
    Muitos meses já se passaram, vi centenas de filmes nos computadores, já li livros e mais livros. Fiz pesquisa de todo tipo. Terminei encontrando a descrição de um experimento de física quântica que fez eu me identificar com ele. É um experimento mental chamado “o gato de Schrödinger”, ele nunca foi feito materialmente, por isso é chamado de “experimento mental”, nele um gato é colocado em uma caixa selada contendo um recipiente com material radioativo e um frasco de veneno. Em certa altura do experimento um contador Geiger, caso detectasse pequena quantidade de radiação, faria um martelo quebrar o frasco de veneno liberando-o. Como ninguém sabe quando o veneno seria liberado o gato poderia tanto estar morto quanto vivo. Se um observador entrasse em ação nesse exato instante quebraria essa dualidade de duas realidades (gato estar morto e vivo em um certo momento). Pouco entendi do que o artigo falava mas achei interessante porque fez perguntar-me se eu não estaria morto e vivo ao mesmo tempo. Estaria eu preso em um mundo de paradoxos no qual eu existo em duas realidades distintas? Um mundo no qual eu sou morto e vivo?  Um vivomorto? O apavorante disso é que no experimento se aparecer um observador a dualidade é quebrada... aí posso estar vivo ou morto. 
    Já estou aqui sozinho há muito tempo. Terminei perdendo a noção de tempo. As vezes penso que já se passaram milhares de anos e que eu continuo sendo o único dono das coisas, o rio Nilo é meu, a floresta amazônica é só minha, todos os diamantes do mundo são meus. Tudo é meu. No fundo isso não tem graça pois sei que perderam o sentido.
    Cada vez mais eu sinto-me como o gato de Schrödinger, preso em duas realidades... será que isso é o eterno? Será que isso é o para-sempre? Todas as noites eu vou dormir pensando nessas coisas para quem sabe acordar um dia e ver que tudo isso nunca existiu.
  • O último portal II Justice

    O Último Portal II:
    Justice































    POR: Carry Manson

    Nota da Autora: TODA TEM SEXTA NOVOS CAPÍTULOS.



    Prólogo

    Vivemos numa Nova Era de paz e harmonia

    diante da bandeira verde e azul de nosso país.

    Por muitos anos, lutamos pela liberdade, sem

    entender o quê isto significava. Mas quando

    a tivemos em nossas mãos, muitos a viram

    com os olhos do arco-íris, que foi a cor que a

    mídia pintou, enquanto outros mantiveram a

    mente cheia de conhecimento, e por total

    consequência a razão. Enquanto os jovens

    em sua maioria, e os adultos fingindo serem

    jovens pulavam, enchiam a cara, e se

    drogavam. Os sensatos, observam o caos,

    e não fechavam os olhos para todas as

    iniquidades cometidas. Felizmente chegou

    o momento em que uma luz brilhou. Ela veio

    em forma de escuridão, todos disseram que

    era coisa das obras ocultas, quando nem

    sequer percebiam, que a sociedade

    atual, era o palco destas

    forças.

    Há algum tempo atrás eu jamais lutaria

    a favor de um ditador, mas agora entendo

    porquês todos alemães adoraram a Hitler.

    Ele veio para salvá-los, da desolação que

    se aproximava, não era uma luta contra

    os judeus, haviam judeus no seu exército,

    mas sim uma luta para salvar o mundo,

    que claramente falhou, pois hoje

    Eles o dominaram.

    Ele era um radical, mas o povo precisava

    de um radical, alguém que fizesse algo por

    eles, e não para si próprio, um louco, cuja

    loucura, aceitando ou não, trouxe muito

    desenvolvimento para a sociedade.

    As mortes foram horríveis sim, inocentes

    morreram é claro, mas nenhuma guerra é

    ganha sem dor e sofrimento, nenhuma

    glória chega antes de sermos

    testados.

    Não podemos mais fechar os olhos para

    o certo, ou o errado. A justiça tem que ser

    feita, para que menos inocentes sofram

    , em nome dos falsos revolucionários,

    pois revolução mesmo, é aquela

    que é benéfica ao individuo,

    e os outros.

    Infelizmente nem todo mundo vê assim,

    e por isso em breve iremos lutar uns contra

    os outros, porquê os filhos das cores, não

    são capazes de ver o planeta, com os

    olhos dos filhos do sol nascente.













    Capítulo 1- O brilho no céu, visto pelos poucos.




    “Depois do ocorrido na floresta, nosso grupo se

    separou. Natasha seguiu com os Filhos das cores, 

    abandonando também ao seu par. Alexandra se

    casou com um humano, e apenas Victória 

    ficou ao meu lado.” Isabelle escreve em seu 

    diário, e sorri para o marido, que ao contrário do

    que se imagina, não está mais dentro de

    Dantas, mas segue com o demônio

    Leviroth, com quem outra vez trouxe ao

    mundo, a pequena Isandra, que antes era

    só um fantasma. Hoje a criança não se

    recorda do quanto já ajudou seus pais,

    mas tem constantes sonhos a respeito

    disso. “Nós trouxemos os demônios

    a Terra naquele dia? Será que eram os

    nossos pais? Ou libertamos o mal?” Belle

    morde a tampa da caneta. Infelizmente

    nem tudo são flores, após abrirem os

    últimos portais, Leviroth destruiu o

    corpo de Dantas, por conta da

    sua energia, e por isso teve de ir para

    o corpo de um amor secreto da Calligari.

    Um garoto por quem nutriu uma paixão

    muito forte, antes do metido a perfeito

    interferir. Seu nome era Bener De La

    Cruz. Um rapaz moreno, magro, de olhos

    castanhos, e pele amarelada, que um dia

    entregou a sua alma a filha do demônio,

    por ter alimentado uma paixão por

    ela, desde que tinha 15 anos. Que aliás

    tinha sido o corpo original do príncipe, mas

    como Isa não percebeu, ele foi obrigado a

    mudar, até ela finalmente o amar.

    Na hora da transferência, a energia do

    par de Isa se tornou tão densa, que o corpo

    o rejeitou de imediato, gerando uma triste

    consequência, Leviroth perdeu da memória

    , ao retornar para a casca vazia, e Isa se

    sentiu solitária sem ele, achando que

    o tinha perdido. Separados ambos ficaram

    sofrendo, Leviroth tentou cometer suicídio,

    e a bela feiticeira se jogou nos prazeres do

    mundo, viciando-se em certas manias

    humanas, que terminaram por

    destruí-la. Ao se reencontrarem, a chama

    ardente se reascendeu de imediato, só que

    o amor, outra vez veio com o tempo, e por

    isso eles tiveram problemas para enfim

    se adaptarem. Após algum tempo Isabelle

    reencontrou Victória, que como os outros foi

    para um caminho diferente, e esta veio lhe dizer a 

     triste notícia. Belliath, também tinha partido naquela

     noite, que elas batizaram como o banquete diabólico, e 

    isso lhe deixou muito triste e abatida. Ao ouvir as lamentações 

    a amiga, a jovem lhe abraça forte, e conta-lhe que passara 

    pelo mesmo, só que teve um desfecho feliz, assim elas 

    passaram a trabalhar nas buscas pelo

     outro príncipe.

    _Olha Belle. Este aqui poderia ser o

    Belliath não acha?

    _Não, não tem a energia forte dele.

    _E este? É sedutor como ele...

    _De fato, mas tem a personalidade?

    _Isa o quê foi?

    Victória larga as fotos estiradas na mesa,

    e se volta para a amiga que se mostra bem

    pensativa, a respeito de algo. Esta para de

    pensar, e olha de forma alheia, como se

    tivesse saído de uma alucinação.

    _Não é nada Vic. São apenas sonhos

    que tem se mostrado curiosos.

    _Como assim? O quê tem sonhado?

    _Lembra que sumiu por uns anos?

    _Eu tinha perdido o meu amado,

    não comece a me julgar!

    _Não estou. É que desde aquela noite

    no bosque, tenho tido sonhos que

    não me deixam dormir.

    _Que tipo de sonhos? E com quem?

    _Um demônio, e é como se Dantas

    fosse ele.

    _Mas tinha um demônio no Dantas.

    O Leviroth seu atual marido.

    _Sim...Porém parece que tinha algo

    mais, dentro daquele mauricinho

    idiota.

    Isabelle respira fundo, e recorda-se do

    último contato que tivera com o namorado

    , e baixa a cabeça. “Você o colocou dentro de

    mim! Sua vadia maluca!” “Ele escolheu

    seu corpo! Eu não tive culpa!” “Ele só

    me escolheu, por sua causa!”. “Eu espero que

    você morra!” Gritou ao ver sua pele se dilacerando,

    no meio da mata, até que se foi. Deixando-a para o

    todo sempre, e então o demônio veio em forma

    de espírito, tentando se agarrar a ela, mas 

    desapareceu diante de seus olhos.

    _Isabelle. Estou falando com você.

    _Oi Vic. Me perdoa, estava lembrando

    dos últimos momentos, em que o

    Dantas foi ele mesmo.

    _Por quê?

    _Porquê ele desejou minha morte.

    _E daí?

    _E se ele foi pro Inferno, e fez um

    contrato para garantir isso?

    _Com o quê tem sonhado?!

    _Com o Anticristo, e ele vem para

    me buscar, todas as vezes...

    _Como um monstro, pronto para

    te arrastar para o outro lado?

    _Como um noivo no dia do seu

    casamento, e eu sou a noiva,

    não uma espectadora.

    Responde recordando-se dos sonhos

    que tem com uma criatura humanoide,

    de olhos verdes, cabelos negros e bem

    longos, de pele pálida, que está sempre

    sério, mas nunca perde a oportunidade

    de está ao seu lado, como o seu par, e

    antes que a converse se prolongue,

    alguém liga a TV do bar, e chama

    a atenção das belas.

    _Caos no novo governo. Isto é o quê

    vemos neste momento! As minorias

    se revoltaram, e pedem pela volta

    dos velhos ministérios!

    _Isto é uma luta pelos direitos

    humanos! Este ditador tem que

    ser derrubado! Senão mais

    gente vai morrer!

    _Jovens e adultos, invadem o

    congresso, para brigar pelos direitos

    dos presos, que estão sendo usados

    , para experimentos científicos.

    _Eles são humanos como eu e você!

    Comem, bebem, sentem frio e medo!

    Precisam de cuidados! Não desta

    opressão maldita!

    _A confusão gera um conflito entre

    militantes da bandeira vermelha, e

    os militares, que tem carta branca

    , para puni-los, caso haja algum

    sinal de violência física.

    _Isso, isso é resultado do fascismo,

    que Vocês seus desumanos, deram o

    apoio! Olhem pra esta foto! Olhem

    pra este homem! Isso parece

    certo pra vocês?!

    Uma mulher grita diante da câmera,

    e mostra a imagem de um sujeito bem

    magro, recebendo agulhadas nas veias,

    num estado deplorável. Ao ver aquilo,

    Isabelle revira os olhos. “Luan Alves

    de Andrade, o cara que estuprou

    7 bebês. Merece até pior que

    isso.” Se recorda da prisão

    do meliante.

    _Depois de tudo o quê ele fez

    com aquelas crianças, este castigo

    é até mediano. Se eu estivesse no

    projeto, o torturaria por total

    prazer.

    _Com certeza. Um ser destes

    nem merece ser chamado

    de humano.

    _É, mas ainda sim, estes cegos

    se reúnem diante do Congresso

    para lutar pelos direitos dele.

    _Sim Belle, a humanidade está

    mesmo perdida.

    _De fato.

    As duas se levantam, pagam a conta

    com código digitais, e vão embora, sem

    perceber que estavam sendo vigiadas por

    um homem de terno e chapéu branco, e

    este sorri, e pega as digitais dos copos

    , sem que o vejam fazê-lo, pois é um

    aparentemente profissional na área.

    “Isabelle S Calligari Marry De La Cruz.”

    É o quê aparece na tela do seu celular,

    junto da imagem da bela, parecendo a

    pior das anarquistas. “Victória Silverius

    S Haster.” É o segundo nome a vim,

    junto da imagem da bela no seu

    estado normal.

    “Elas são perfeitas para o caso.” Ele

    pensa, ao analisar o perfil das duas. Isa

    se mostra um gênio revoltado, enquanto

    que Vic mostra habilidades notáveis em

    trabalhos manuais, e muito carisma.

    “Isabelle é realmente a filha dele.”

    Conclui, desligando a tela.

    A noite...Isabelle digita uma extensa

    pesquisa no notebook, e do nada a sua

    tela escurece, preocupada, ela se cobre

    , e se afasta do aparelho. Dados com

    código são  descriptografados, e

    ela recebe uma mensagem.

    _1508? O quê isto significa?

    _Siga o Coelho Alice.

    _Eu não. É arriscado demais.

    _Você quer respostas sobre o seu

    sonho comigo, e eu posso te dá

    , mas precisa confiar em

    mim.

    _Usando robôs é fácil mesmo

    roubar informações.

    _Eu sei seu nome, e sei onde

    nasceu.

    _Basta ir no Facebook.

    _Eu sei que está roendo a

    fronha com medo.

    _Estudou meu perfil psicológico.

    _Eu sei de coisas que fez no

    sonho, e não teve coragem de

    contar a Victória, por sentir

    vergonha.

    _Algo mais?

    _Sei de tudo o quê já fez.

    _Por exemplo?

    _Suas orgias lésbicas com 6

    anos de idade.

    _Ok. Você venceu. O quê

    quer?

    _Siga o coelho e saberá.

    A tela volta ao normal, e então chega

    um convite para um baile de gala, para uma

    pessoa, em seu e-mail. “Leviroth não me

    perdoaria, mas preciso saber o quê me

    atormenta.” Morde os lábios, ao

    olhar para trás.

    Tomada pela curiosidade, respira fundo,

    e responde para o destinatário. “Agradeço

    a oportunidade, mas estou inclinada a ter

    que recusá-lo.” Envia, e recebe uma outra

    mensagem. “Doce Alice, precisa encontrar

    o Chapeleiro, o quanto antes. Não pode

    recusar.” A dama olha para os lados, e por

    fim escreve outra conclusão. “Tenho medo

    do Tempo. Ele pode não entender.”, E por

    fim recebe a última mensagem. “Farei

    um convite duplo, mas preciso vê-la

    para o chá.” Desta vez a antiga rebelde não

    recua. “Mostre-me o caminho para o Chá.”

    Enfim diz, e as mensagens se apagam

    Restando um convite para o

    casal.

    Com Victória acontece a mesma coisa,

    porém o roteiro é outro. “Sei que deseja

    encontrar alguém que não é deste mundo.”

    Diz a sua frase. “Não ignore este aviso, nós

    podemos te ajudar a encontrar Belliath.”

    Ao ver o nome de seu amado, o seu

    coração salta pela boca.

    _Como sabem de Belliath?!

    _Sabemos tudo sobre você.

    Senhorita Haster.

    _Quem são vocês afinal?!

    _Se queres saber, o caminho para

    a floresta deve seguir, Branca

    de Neve.

    _Não são os caçadores, não é?

    _Somos os mineradores, e

    podemos encontrar ao seu

    príncipe.

    _Os Anões?!

    Victória gargalha diante do computador,

    e leva um pequeno choque na ponta do seu

    dedo, que a faz chacoalhar a mão devido a

    dorzinha nele provocada. “Ai que anões

    irritados.” Pensa, colocando

    o indicador na boca.

    _Não se trata de uma brincadeira.

    _O quê podem me provar sobre

    o meu príncipe?

    _Que Ele a perdeu para anjos

    furiosos, e está entre os

    nossos agora.

    _O quê?!

    _Vá para a floresta, e o verá.

    A tela escurece, e Victória recebe um

    individual, para a mesma festa que Belle

    e Ben foram chamados. Só que enquanto

    no convite de uma está impresso o coelho, 

    no da outra é uma maçã mordida só de 

    um lado.




































































































    Capítulo 2- O baile misterioso




    No dia seguinte... Victória e Isabelle se

    arrumam para a festividade, sem saber que

    elas vão se encontrar no mesmo lugar. “ A

    fantasia certa para cada convidado.” Diz os

    bilhetes, em cima das estranhas caixas

    grandes, cor de ovo, que recebem. “Espero

    vê-la hoje, mesmo acompanhada do Tempo

    , senhorita Alice. Ass: Chapeleiro” É o quê

    o bilhete somente de Isabelle diz. “Logo a

    princesa irá receber o seu beijo, mas o feliz

    para sempre dependerá dela. Ass: Dunga”

    É o bilhete de Victória. Ambas pegam as suas 

    fantasias, e observam, que mesmo as

    respectivas personagens, não precisem de

    máscaras, elas precisaram usar. Ben chega

    do trabalho, e encontra a caixa enviada a

    ele, e pega a sua fantasia de Tempo, que

    vem com um aviso. “Olá senhor tempo,

    pode ter pensado que enlouqueci, mas eu

    preciso encontrar a Alice para o chá.” Diz

    o papel que ele esmaga revirando

    os olhos.

    _A gente já não teve problemas demais?

    _Por favor Leviroth. Eu preciso ir neste

    lugar, há respostas que você não pode

    me dá, não com essa memória.

    _Está bem. Mas se o Chapeleiro tentar

    ficar com você, ele vai conhecer o punho

    do Tempo.

    _Que bonitinho da sua parte, ainda ter

    ciúmes, depois de anos de casados.

    _Eu não lutei com aquele mauricinho

    Idiota, para ficar sem você depois.

    _Disso cê lembra né!

    _E de como você se sentia nos meus

    braços também.

    _Se controla bonitão. Não quero dá

    o Odin para a Isandra tão cedo.

    Diz Isabelle fazendo menção ao nome

    do próximo filho, que terá com o príncipe

    do Caos, e ele a puxa para si, beijando-a

    com intensidade, e deixando-a úmida

    entre as pernas, ao ponto de ficar

    corada.

    _Continuo tendo jeito para a coisa.

    _Continua sendo meio idiota.

    _O idiota que te ama.

    _O idiota com quem me casei.

    _E que vai amar por mais uma

    eternidade.

    _Pode ter certeza que sim.

    O beija, e ele a carrega, pronto para

    lhe tirar as roupas. Mas quando abre a

    sua camisa, e vai em direção aos seios

    dela, Isandra entra na sala, cortando o

    clima quente entre os dois. Sem jeito,

    eles sorriem, e a bela ajeita o cabelo

    para ir pegar a menina.

    _Depois desta festa odiosa...

    _Quando Isandra dormir...

    _Vou te mostrar os prazeres do Sol.

    _Vou ser uma com você como a

    Lua.

    _Agora vai lá com a nossa

    filha. Gostosa!

    Ele diz vendo-a de costas, e lhe dá

    um tapa na bunda, com o olhar safado,

    deixando-a vermelha de vergonha, ao ir

    até a menininha de 5 anos, que corre até

    os braços da mãe, com os olhos brilhando

    de alegria. Ao ver o sorriso da esposa, ele

    se sente realizado, por tudo o quê eles

    viveram, ter acabado tão bem.

    “Eu preciso encontrar a Alice para o

    chá.” Lhe vem a mente, transformando a

    sua face aliviada, em grande mau humor.

    “Como se não bastasse ter que ficar no

    corpo daquele moleque. Agora isso.”

    Pensa com raiva, temendo o quê

    está por vir.

    Sua memória pode ser sido afetada,

    mas não a mente de estrategista natural, e

    esta lhe diz que esta festa não vai terminar

    nem um pouco bem. Porém devido as atuais 

    circunstâncias, ele não pode dizer não a

    sua amada.

    A noite...Eles chegam ao local, é um

    museu antigo, e há muitos homens e

    mulheres bem de vida. Leviroth põe a

    máscara depois de entrar, e Isabelle

    o faz logo em seguida, grudando no

    marido com medo do quê vai ter

    encontrar ali. Infelizmente, assim que

    entram, há pelo menos 5 Alices dentro

    do salão, e quando o demônio se afasta

    para pegar as bebidas, a bela desaparece

    em meio as outras, e é puxada para o

    centro do lugar, onde dança com

    o Chapeleiro.

    _Olá Alice. Fico feliz que veio

    para a festa do Chá.

    _Quem é você? E o quê quer

    exatamente?

    _Você já me conhece dos seus

    sonhos querida.

    _Esta é a pior cantada de todos

    os tempos. Senhor Chapeleiro.

    _Estou falando sério.

    Pega em suas costas, e então aproxima

    sua boca do ouvido da bela, que fica por

    procurar pelo seu par, ignorando o ser

    misterioso, que se irrita, e a aperta

    colando-a em seu peito.

    _Meu reinado se aproxima.

    E a prostituta deve caminhar

    ao meu lado.

    _Que coisa romântica de se

    dizer no primeiro encontro...

    _Você pensa que casou-se com o

    príncipe. Mas também já foi a

    mulher de um Rei.

    _Anticristo?

    _Nesta noite sou só o Chapeleiro.

    Tira a máscara para a dama, e esta que

    já não conseguia respirar, perde o ar por o

    ver ali diante dela, segurando-a nos seus

    braços. Ele era idêntico ao sonho, só

    que neste momento está a sorrir,

    com bastante confiança.

    _Silêncio. Não grite.

    _Por quê está aqui?!

    _Porquê é chegada a hora de

    assumir o poderio do mundo.

    _E o quê isto tem a ver

    Comigo?!

    _Você é a mulher de vermelho,

    e deve ficar comigo.

    _Eu já pertenço a outro ser.

    _Será que é verdade?

    _É claro que é, eu vi a minha vida

    passada com ele!

    _Mas a viu por completo? Acha mesmo

    que alguém como você só teve um

    amor?

    _E o quê sabe sobre mim?!

    _Sei que ajudou a me libertar.

    É a última coisa que diz, dando-lhe um

    beijo rápido, e se misturando a multidão ao

    ver que Leviroth tinha percebido, que a sua

    Alice, tinha uma pulseira negra envolta do

    pulso, que a diferenciava das outras, e

    estava vindo resgatá-la.

    _Vamos sair daqui agora.

    _Está tudo bem meu amor?

    _Ele me beijou!

    _O Chapeleiro?!

    _O Anticristo!

    Berra claramente traumatizada com

    tal encontro, e abraça o marido, sentindo-se

    mole, como se fosse desmaiar de tanto

    nervosismo. Do outro lado do salão, que está

     decorado com árvores semelhante a floresta.

    Victória dança nos braços de um belo príncipe

     com máscara, que fica em  silêncio, até que 

    ele a beija, e esta sente tanto fervor, que 

    não há como negar,

    é Belliath ali.

    _Eu senti a sua falta minha princesa.

    _O beijo foi ótimo, mas como posso

    ter certeza que você é você?

    _Pergunte algo que só nós dois

    sabemos.

    _Como foi a nossa primeira vez?

    _Comigo sendo romântico, ao contrário

    do Roger.

    _Algo mais?

    _Você me expulsou do corpo dele,

    e voltei a ser grosso, mas mesmo

    assim nos envolvemos naquela

    noite.

    _Belliath!

    _O corpo do Roger não suportou.

    Tive mudar, antes que a insanidade

    dele me afetasse.

    _Tudo bem. Contanto que eu

    esteja com você.

    _Sim meu amor...

    Ele a abraça e olha para o outro lado, no

    qual O chapeleiro passa fazendo o sinal de

    que é hora de ir. Ao vê-lo, pede-lhe mais

    tempo, mas o líder nega, e o príncipe

    beija a sua amada com furor, deixando-a

    sem fôlego por alguns segundos, então

    segura em sua face, e olha em seus

    olhos.

    _Eu preciso ir agora.

    _Para onde?

    _Não posso dizer no momento.

    Mas tenha certeza de uma coisa,

    eu vou te achar de novo.

    _Me promete?

    _Sim, fique com isso, é algo

    que tenho esperado muito tempo

    para te dá outra vez.

    _Isso é?

    _Sim, quando eu puder voltar,

    nós iremos nos casar. Diga

    a Isabelle, que mandei um

    “Oi.”

    _Isabelle está aqui?

    _Sim, Ele queria muito vê-la

    , mas não podia se expor.

    _Quem?

    _O Anticristo.

    Responde deixando a amada com o anel de

    noivado, e parte com o Chapeleiro. Isabelle tira

    a máscara, e sai do salão de festas, e já se senta no sofá 

    onde os bêbados deitam, e fica no colo do marido, que lhe

     faz um carinho na cabeça, acalmando-a, pois apesar da

    forma atraente do tal ser, ela está em estado de

     choque.

    _Belle!

    _Vic!

    _Como veio parar aqui?!

    _Recebi um convite.

    _Eita quanta grosseria.

    _Desculpe, eu vim por respostas

    , e acabei por me deparar com

    o meu pesadelo vivo. E

    você?

    _Vim encontrar Belliath, que

    está junto do seu pesadelo

    vivo.

    _Olá Victória, eu também

    estou aqui.

    Diz o demônio erguendo a mão, como

    um aluno na hora da chamada. E é quando

    a bela nota que há mais alguém junto de sua

    amiga, e fica constrangida por ter ignorado

    o coitado sem querer.

    _Oi Leviroth. Desculpe, estava

    tão doida para encontrar a Belle,

    que nem te vi.

    _Depois dizem que não tem um

    “relacionamento lésbico”.

    _Para com isso Levi. Como foi

    reencontrar o Belliath?

    _Foi lindo e perfeito. Do jeito com

    o qual sonhei Belle. Olha só!

    _Nossa trabalhar pro Anticristo

    compensa hein?! Mor será que

    ele me arranja um emprego?

    _Nem pensar. Se você faltar um

    dia, em vez de descontar no salário,

    ele fala que tá no contrato chamar

    a sua esposa para um jantar!

    _Se for como os sonhos que ela

    me contou, é melhor ficarem bem

    longe dele. Ele quer tanto ela,

    quanto você já quis.

    _Já quis? Eu continuo louco

    por essa mulher! E juro que ainda

    quero arrebentar esse cara, por ter

    beijado ela. Aliás cadê ele hein?

    _Se aquieta bravão. Ele correu assim

    que te viu. Não deve mais nem sequer

    está por aqui. O quê significa que: É

    hora de beber!

    _Opa!

    Victória fica no bar admirando a aliança

    que seu amado lhe deu, com tanta alegria

    que nem nota outros rapazes. Já Isabelle

    bebe sem parar, querendo perder a sua

    consciência, para esquecer que tudo o

    quê temia, tinha vindo a tona.

    _Mais um por favor.

    _Já chega Camelinho. Eu vou no

    banheiro, e vamos para casa

    certo?

    _Está bem. Vou chamar, a Vic.

    A bela se prepara para se levantar, só

    que seu corpo está pesado. O efeito da bebida

    é tão forte, que vê tudo rodando, vários Chapeleiros

     caminham pelo salão, e ela não sabe se está alucinando, 

    até que um deles, a ajuda a ficar de pé,  lhe entrega uma carta. 

    Ela rapidamente a abre, percebendo que deve ler antes do marido

    voltar. “Você seguiu o Coelho, e esta é a sua recompensa. Te vejo lá

    , junto da Branca de Neve.” É tudo o quê diz no papel, e dentro do 

    envelope acha um pendrive, que tem esculpido nele a estranha 

    numeração...“1508.” Olha para o drive, e o guarda no bolso. Victória 

    vem ao seu encontro, depois de sair do trem do amor, e a moça 

    logo lhe mostra a carta, e o tal aparelho que veio junto. Ao 

    ver aquilo, a jovem fica estática, e curiosa para entender

     qual é a relação de Belle com o Anticristo.

    _Belle...Você é um imã para demônios!

    _Há há engraçadinha. Deve ter algo muito

    errado comigo isso sim.

    _O quê ele queria com você esta noite?

    _Eu não sei. Acho que me traumatizar.

    _Com um beijo?

    _Qual é. Foi só um selinho. Mas o fato

    de vim da boca dele, é que me assustou.

    _Não foi como quando Leviroth...

    _Não! Eu tenho medo dele!

    _Então não gostou nem um pouco?

    _Eu sou casada. Com o amor da

    minha vida. É claro que não.

    _Eu não entendo Belle. Você e

    Leviroth são almas gêmeas, por quê

    surgiu mais alguém nessa história?

    _Boa pergunta. Ele diz que foi porquê

    Eu fui mulher dele.

    _Mas toda a sua vida passada foi

    Revelada, com a chegada de

    Leviroth.

    _Foi o quê eu pensei, só que ele

    garante que há mais para

    saber.

    _Então no pendrive...

    _Deve ter mais pistas sobre quem eu

    já fui.

    Conclui observando o marido se

    aproximar, então esconde o pendrive e a carta.

    Eles vão para dentro de um Uber, e ali longe dos

    olhos curiosos, a jovem pega o tal papel e

    mostra para o conjugue.

    _Ele não queria que soubesse.

    _Que horas recebeu isso?

    _Foi ainda pouco. Antes de partimos.

    _Ele está te atraindo para alguma

    armadilha.

    _Eu sei, por isso estou te contando.

    _Devia cortar relações com

    esse cara.

    O motorista os observa pelo retrovisor,

    e aumenta a velocidade em que está indo,

    mudando o percurso do caminho de volta

    para casa. Notando a estranha situação, a

    moça olha para o marido, e os dois se

    jogam em cima do motorista.

    _O quê está fazendo?! Pra onde está

    nos levando?!

    _Responda para ela, ou vai acabar

    morto.

    _Por favor não façam nada comigo!

    Ele me obrigou! É a única forma

    de sair! De sair!

    _Você está trabalhando para

    O Anticristo?!

    _Responda ou quebro o seu pescoço!

    _Não! É para O Chapeleiro! Ele quer

    vê-la de novo senhorita Alice da

    pulseira negra!

    _Droga!

    Grita ao sentir o impacto do carro colidindo

    com outro. Leviroth é jogado contra o painel,

    e ela se bate no banco, ficando com

    uma linha de sangue na testa. O Chapeleiro

    entra na parte do passageiro, e pega a moça em

    seus braços, olhando para o rival, que se mostra

    desesperado, por não poder fazer nada, já que sem 

    memória, não sabia como ativar os seus poderes 

    caóticos. Isabelle acorda, sendo carregada pelo

    estranho, e sente o cabelo negro dele,

    caindo sob o seu rosto.

    _O quê, você, quer comigo?

    _Apenas a sua lealdade. Deixei bem

    claro que não devia contar a ele, só

    quê fez, e a consequência foi essa

    querida Alice.

    _Está dizendo que isso, isso é um

    Jogo?!

    _E o quê não é? Tudo se trata de

    ganhar uma recompensa por algo. Até

    um bebê sorri apenas, porquê sabe

    que vai receber um agrado.

    _Eu não sei, qual é, o, seu problema,

    mas juro, vou, te arrebentar!

    Grita usando o seu dom, para jogar um

    poste em cima dele, só que ele sorri, ergue

    a mão, e estala o dedo destruindo-o em mil

    pedaços. Ela entra em pânico, e para de

    reagir, fazendo-o sentir o doce gosto da

    vitória, obtida através do medo.

    _Esqueceu quem tem mais força?

    _Como eu, poderia saber? Nunca

    te vi, na minha vida!

    _Não adianta fingir. Eu provoquei

    aqueles sonhos.

    _Eu não sou, a prostituta.

    _Como pode ter tanta certeza?

    _Como você pode?!

    _Porquê fui eu quem te devolveu

    para este mundo Luciféria.

    “Como ele pode saber que este é o meu

    outro nome?!” Ofega, aterrorizada pelas

    coisas que o sujeito tem conhecimento a

    seu respeito. “É ele. Não há mais nem

    uma dúvida.” Termina, enquanto

    entram em outro carro.

    _Pode respirar. Não vou te fazer nada.

    Pelos sonhos já deveria saber.

    _Eu não estou destinada a você!

    _De fato antes não estava. Mas na

    hora que alterei o seu destino,

    passou a ser.

    _Por quê eu?! Com tanta mulher no

    mundo, muito mais bonita. Por quê

    tem que ser eu?!

    _Porquê foi você Isabelle, quem

    Eu escolhi, e não há anjo ou demônio

    que possa impedir, o quê agora nós

    somos um para o outro.

    _O pesadelo e uma bruxa que

    quer fugir dele?!

    _Um só espírito. Uma só carne.

    Uma única...

    _Eu sou a Alma Gêmea de Leviroth!

    Lúcifer nos revelou isso!

    Esbraveja, horrorizada pela palavra que

    ia sair da boca do poderoso homem. “Isso

    não pode ser verdade. Não pode! Eu amo

    Leviroth! Como nunca amei ninguém

    antes!” Suas mãos tremem sem

    parar.

    _Não é mais. Agora é a minha.

    _E a Minha opinião sobre isso?

    Eu não te dei permissão de

    se tornar meu par!

    _Não deu nesta na vida. Mas na

    outra foi apaixonada por mim, de

    tal forma, que governou o Egito

    ao meu lado.

    _Eu sempre fui do Leviroth.

    _Defina sempre. Porquê até onde

    Eu sei, nós passamos um bom

    tempo juntos.

    _Escuta aqui. Ôh falso messias do

    caralho. Eu já fui encantada por um

    demônio, e ele usou a sua mesma

    jogada. Por isso não vou cair...

    O belo se debruça em cima dela, e a

    beija, segurando-a com firmeza. Desta

    vez ela luta para se livrar dele, não por

    não resistir, mas sim porquê só é

    capaz de pensar em Leviroth,

    neste momento.

    Não é como da outra vez, em que o

    toque do demônio, a fazia ir as nuvens, e

    se sentia culpada por desejá-lo. Ela sente

    total desespero, desgosto, e desprazer

    em tal atitude, por isso o morde bem

    forte, ao ponto de sangrar, só que

    isto o faz rir.

    _Aposto que ele nunca calou sua

    boquinha desta forma.

    _Eu sou casada! Com o amor da minha

    Vida e existência! Encoste em mim de

    novo, e eu vou...

    _Vai o quê?! Me morder como uma

    gatinha assustada que é?!

    _O quê eu fiz para merecer isso?!

    _Me soltou para o universo.

    _Eu nem me lembro disso!

    _Não lembra porquê faz muito

    tempo, mas desde daquele dia eu

    soube que era perfeita, e que a deusa

    mãe a tinha feito para mim...

    Se recorda da menina ruivinha, que foi até

    o Tártaro, e o libertou para o cosmos. “Você

    sabe que posso destruir o universo?”

    “Sim, sei, e eu quero que faça isso, é uma

    forma de me agradecer.” Ele a vê lhe dando as

    costas, então seus olhos ficam fixos na miniatura

    da Rainha da terra do não retorno. “Um dia ela será

    a minha rainha.” pensa ao escapar, virando-se para 

    trás, só para ter certeza de que vai ver a criança

     maldosa outra vez, mas esta já tinha

    desaparecido.

    _Eu me apaixonei por você naquele dia.

    _Pelo que me disse eu era uma criança

    , uma criança bem estúpida por

    sinal.

    _Sim era. Mas aguardei ansiosamente

    , até que crescesse, só que quando fui

    lhe buscar, o seu coração já tinha

    sido tomado por Ele.

    _Não foi tomado. Eu o dei para ele.

    _Foi tomado sim. De mim. Eu deveria

    ter sido o seu par, não aquele idiota

    do príncipe.

    O ódio e a mágoa nos olhos do belo

    estranho, são bem visíveis, e dão fortes

    calafrios na jovem mulher, que não se

    sente nada a vontade, na presença

    da ilustre figura.

    _Se isso é verdade, por quê Lúcifer

    nunca o mencionou!? Ou te vi na

    hora que despertei?!

    _Lúcifer apoia sua união com Leviroth,

    e por culpa pelo o quê um dia sentiu por

    mim, você apagou nossas memórias.

    _História bonita! Mas eu sempre fico

    com Leviroth, por quê insiste!? É

    óbvio que a deusa mãe não

    me fez pra ti!

    _Porquê Eu quero você. Tanto que

    roubei as tábuas do destino, que a tal

    deusa destinada a mim, um dia pegou

    do deus aquático, e lá escrevi que é

    para sermos um só.

    _Você é louco.

    Ele se prepara para responder, porém antes

    que o faça, é atingido por um dardo na nuca, e

    desmaia. Preocupada com quem possa ser, ela

    empurra o corpo dele, se rasteja para fora do

    carro, pronta para correr, antes que a

    peguem também.Ele se prepara para responder, porém antes

    que o faça, é atingido por um dardo na nuca, e

    desmaia. Preocupada com quem possa ser, ela

    empurra o corpo dele, se rasteja para fora do

    carro, pronta para correr, antes que a

    peguem também.













    Capitulo 3- Mais mistérios no ar.




    A moça passa por trás do carro, e aumenta a velocidade 

    de seus passos, correndo para longe do veículo, antes que

    seja atingida como o homem que a sequestrou. Os seus

    cabelos esvoaçam ao vento, é evidente que há medo

    em seu olhar, ela precisa sair dali, pois como 

    nas outras vidas, os inimigos são 

    perigosos.

    _Isabelle S Calligari De La Cruz.

    _Como sabe o meu nome?

    _Não há tempo para responder.

    Venha comigo.

    _Socorro!

    Um ser alado levanta voo, pegando-a em

    seus braços, e este a coloca dentro de um carro

    em movimento, através do teto solar, e entra logo

    em seguida. A morena olha para os lados, e vê que

    o marido, está recebendo os cuidados médicos

    logo a frente, e se não estão tentando-a

    lhe separar dele, inimigos não

    devem ser.

    _Para onde estamos indo?

    _Logo irá saber senhorita Calligari.

    _Por quê estão nos ajudando?

    Quem são vocês?

    _São respostas que logo irá obter.

    Mas antes há outras pessoas

    a serem encontradas...

    Responde-lhe o anjo, com um sorriso, e lhe

    aplica um sonífero no pescoço, que a faz desmaiar

    em seu ombro. Não permitindo-a vê-lo, e talvez o

    reconhecer de algum lugar. O carro segue a

    viagem, e entra num túnel, no qual

    desaparece. Olhos se movem, ainda fechados, e se 

    abrem em sincronia, outra vez As 4 fases da Lua está

    reunida, porém uma integrante não está presente, e 

    esta é Natasha, que neste momento lidera as atuais

    tropas da bandeira vermelha, por ter sido uma

    dos convertidos em Filhos das cores.

    _Onde estamos?! Belle?! Victória?!

    _Alexandra?! (Dizem em uníssono)

    _O quê aconteceu para virmos 

    parar aqui?! Horácio?!

    _Alexandra? Está tudo bem meu

    amor?!

    _Isabelle...Isabelle não vá com ele...

    Leviroth parece ter pesadelos, e a sua

    amada, pula do sofá negro, correndo para 

    acordá-lo, e antes que haja mais confusão, 

    o agente que salvou a Senhora De La 

    Cruz, caminha no meio da sala.

    Ele é pálido como a lua, tem olhos azuis,

    e cabelos negros curtos. Apesar da roupa de 

    agente de elite, este não se mostra muito 

    formal, e se escora na beira mesa, 

    atraindo a atenção deles.

    _Olá para todos.

    _Isso daqui não é um dos jogos

    mortais não é?!

    _Alexandra isso não tem sentido!

    _Garotas...

    _Ué é Belle, os caras não nos deixaram

    ver como se chega aqui. Preciso saber

    se estamos em perigo.

    _E você acha que eles nos diriam?

    _Ninguém está em perigo aqui.

    Não ainda pelo menos.

    _Viu como foi bom perguntar?!

    _Seria melhor não saber.

    _Vocês foram convocados, porquê

    precisamos da sua ajuda.

    O agente revira os olhos, e os rapazes ficam

    analisando aquilo friamente. Tentando saber a

    onde isso dará. Sabendo que as palavras não

    serão o suficiente, o rapaz liga a TV LCD atrás 

    dele, e mostra as imagens do fatídico dia

    do banquete diabólico.

    _Não! Algo deu errado! 

    _Leviroth! Leviroth! 

    _Sua vadia! Espero que morra!

    _Victória ele quer o controle 

    de volta! Não vai dá!

    _Belliath! Não!

    _Samalast! 

    _Alexandra!

    _Não confie neles Natasha!

    _Meu amor!

    Vários corpos ficam atirados ao piso sem as

    suas órbitas, como se tivessem queimado por

    dentro. As 4 bruxas olham para os cadáveres,

    e ficam em estado de pânico, sem saber o

    quê fazer. Forças obscuras saem de dentro do

    tal portal, dando gargalhadas, por enfim ficarem

    livres de suas prisões. Elas giram entorno das

    feiticeiras, até por fim irem para cima

    delas, fazendo-as berrar em

    desespero.

    _Sim nós sabemos o quê fizeram.

    _Éramos jovens, não sabíamos que o 

    resultado seria este! 

    _Só queríamos ver nossos pais!

    _Eu só queria saber se real!

    _Sim, sabemos disso. Se acalmem.

    _Eu não matei o Dantas.

    _Eu não mandei o Roger pro

    hospício.

    _Eu não destruí o meu namorado.

    _Não exagerem. Nisso são culpadas.

    Diz o moreno, e Isabelle fica irritada com

    a atitude fria dele. Por isso se levanta e vai

    ao seu encontro, pronta para bater nele

    se preciso, afinal de contas tinha sido

    um idiota, e merecia uma bela

    correção.

    _Como você ousa dizer isso?!

    Não vê o estado em que elas

    estão?!

    _Pensassem nisso antes de querer

    brincarem de Deus. Luciféria!

    _Como sabe o meu nome real?!

    _Não importa. Me perdoe eu

    fiquei nervoso.

    _Como sabe disso?!

    _Ele sabe porquê é um arcanjo

    Izzy.

    Diz Leviroth os separando, antes que ele

    se matem ali mesmo. Porém quando vê o

    rosto do agente de perto, de imediato o

    reconhece, e isto o faz ficar catatônico,

    e implorar com o olhar, para que não

     diga nada para Isabelle.

    _Um Arcanjo?!

    _É. Um dos que te levou para o céu.

    _Isso mesmo. Eu quem te assassinei

    na outra vida, para impedir que

    abrisse outro portal.

    _Agora que não confio mesmo em

    você! Pior que os Filhos das Cores 

    é a tua raça!

    _Calma Izzy.

    _É a mesma que a sua. Então cuidado

    na hora julgar. Eu abri minhas asas e voei

    contigo, pensou que fosse o quê?

    _Eu sou diferente! Eu sei lá um

    mutante?!

    _Já chega vocês dois.

    O marido a leva de volta para o sofá, e

    olha para trás, o ser alado agradece com

    gestos, e o demônio olha com indiferença,

    sentando-se junto da esposa, que ao se

    ajeitar, o encara com raiva latente.

    _Não estou aqui para achar um

    culpado, e sim uma solução.

    _Como se Lúcifer ou Satã fossem 

    nos permitir, ajudar anjos imundos 

    como você.

    _Eu permito, e aliás sou um só.

    Diz um homem tão louro, que parece ter

    sido coberto pela luz mais radiante do mundo.

    Ao vê-lo Isabelle cai para trás, e Victória fica

    de queixo caído. Junto dele vem Belial, e

    o deus sumério Enki, agora batizado

    como Leviatã.

    _Papai?

    _Eu e Victória somos irmãs?!

    _Não entendo por quê estão tão 

    surpresas. Já os viram antes.

    _Venham cá, dá um abraço minhas

    princesas queridas.

    Lúcifer abre os braços,  tornando-se agora 

    um belo moreno de olhos vermelhos, e com o

    par de chifres exposto, e Victória corre para

    abraçá-lo. Isabelle fica congelada ali, sem

    se mover, e por isso o pai vai ao 

    seu encontro.

    _Ainda bravinha e ciumenta não é

    Luciféria?

    _Só estou assustada. Foi me dito que

    um dia herdaria o seu reino, e a 

    Vic o reino de Satã.

    _ E ambiciosa, como o pai...

    Confundiram as suas mentes minha

    Princesinha. Ninguém vai herdar reino

    algum, porquê sou eterno.

    _Que animador...

    _Mas você e Victória, tem os seus

    próprios, que foram feitos com muito

    carinho pela sua amada mãe Lilith.

    _Então ? 

    _Vocês não são só princesas do

    Caos. São rainhas de reinos

    distintos.

    _Interesseira!

    O agente tosse, chamando a atenção de

    Isabelle, e o imperador do Caos, ri daquilo

    notando o raio que está saindo dos olhos de

    ambos, que estão se fulminando sem parar,

    como se houvesse alguma história, por

    trás de tanto ódio mútuo.

    _Algumas coisas nunca mudam...

    _Não, não diz...

    _Não diz o quê? Estrupício de asas?

    _Não é Miguel?

    _Ela vai me matar agora.

    _Miguel? Arcanjo Miguel?!

    _Isso mesmo querida.

    A bela de imediato se afasta, e Victória e Alexandra vão 

    atrás dela. Miguel e Lúcifer discutem um com o outro. “Não 

    tínhamos combinado que ela não saberia?!” “E te dá a chance 

    de desgraçar a vida dela de novo?” “Eu nem queria voltar a me

    envolver com aquela maluca! Estou trabalhando aqui contra

    a minha vontade!” “Não pareceu isso Nergal.” “Dá pra parar

    de entregar meus nomes de bandeja?” “Então pare com a

    sua procura, por motivos pra discutir com Ereshkigal, 

    foi assim que começou da outra vez.”

    _Belle está tudo bem?

    _Parece que cê tava certa...

    _Eu tô bem Vic, e concordo Alex.

    _Vai conseguir fazer a sua missão com ele?

    _Ele não parece muito interessado em voltar,

    então pode ficar fria.

    _É, eu vou ficar calma. Não é nada demais.

    Olha para o agente que continua a brigar com o irmão,

    que segue gargalhando, zombando das desculpas do pobre

    , que se mostra incomodado com as alegações. Seu olhar de

    medo, se cruza com os da jovem, e ambos ficam parados,

    totalmente desconsertados. O Anticristo não tinha lhe dito 

    mentiras, ela realmente teve outros pares, e o arcanjo era um 

    deles, mas como o seu amor por Leviroth era maior, ela fingia

    que não existiam. Ele passa a mão no cabelo cortado, e por

    fim respira fundo, indo ao seu encontro. Ao chegar as

    amigas o observam como leoas prontas para

    avançar.

    _Me perdoe. Eu só fiquei irritado por

    falar mal dos anjos.

    _Tudo bem.

    _O quê aconteceu no passado, fica enterrado lá.

    _Concordo plenamente com você.

    _Podemos trabalhar juntos?

    _Certamente.

    Apertam as mãos como adultos maduros, e ele se 

    distancia, recompondo-se, após engolir a verdade seca,

    que lhe dói a garganta. “Fica no passado.” Olha para ela

    e Leviroth juntos, sorrindo um para o outro. “Enterrado

    lá.” Fecha os olhos com tristeza, e se esforça para 

    fingir que está tudo bem.  

     Olha para ela

    e Leviroth juntos, sorrindo um para o outro. “Enterrado

    lá.” Fecha os olhos com tristeza, e se esforça para 

    fingir que está tudo bem.

    _Todos reunidos. Agora podemos seguir adiante.

    O agente começa a descrever por quê cada um foi

    convocado ali. Contando toda a história que veio dá 

    origem, a esta estranha união entre iluminação e 

    trevas, com o auxílio de slides. “É dito na bíblia 

    que após a queda dele, escuridão e luz não devem 

    se misturar. Mas dado as tristes circunstâncias em que

     tanto anjos quanto os demônios, estavam a mercê da 

    extinção não tivemos outra escolha, senão nos

     juntarmos.” Inicia, com

    o olhar fixo no nada, e mostra imagens da luta

    entre o céu e o inferno. “Eles queriam paz, e nós

    a guerra porém ambos utilizamos os mesmos meios 

    para isso, e foi assim que o libertamos.” Mostra a 

    imagem do Chapeleiro para todos, e a filha de 

    Lúcifer sente um incômodo. “Todo o nosso ódio e

    mágoa, nos deixou tão cegos, que nem percebemos

    quando ele se apossou de nossos mundos, e quando

    voltamos a razão, era tarde demais.” Mostra o paraíso

    devastado, e o inferno dominado. “Por muitos séculos

    vagamos sem um lar, até acharmos este planeta no

    qual nos estabelecemos.” Mostra a chegada dos 

    Anunnakis e os reptilianos, e como eles se

    desenvolveram. “Haviam alguns conflitos vez ou 

    outra, pois somos como água e óleo. Mas nós criamos

    uma bela comunidade, tanto para anjos, quanto para

    os demônios.” Aponta para o Egito, e demonstra os

    deuses, mas não há bons ou maus, apenas os

    iluminados, e os obscuros. “Infelizmente ele nos

    encontrou. Meu povo foi escravizado outra vez, e os

    demônios se curvaram para ele, para sobreviver. Só

    restou um punhado de anjos e demônios, seguros

    do Pacto de Harmonia.” Ele mostra os seres de

    amaduras vermelhas, se curvando para o 

    ser. “Ele é aparentemente só um garoto, mas não

    se enganem, seu poder era tão grande, que o próprio

    pai, tentou devorá-lo, para o impedir de reinar.” As

    cenas agora se passam na Grécia antiga. O garoto

    é um homem agora, que domina as terras sombrias

    , e o Olimpo. Sim ele é Zeus e Hades, mas em 

    períodos diferentes. Pois o verdadeiro Zeus é o

    próprio Lúcifer, renascido após ter sido preso pelo

    próprio filho, quando era o Titã Prometheus. “Você

    será jogado na Terra do não retorno.” Diz-lhe o titã. 

    “Eu voltarei, e tomarei o trono de ti outra vez Zeus.”

    Declara o inimigo. “Dizem que Perséfone é assim.

    Mas esta foi uma forma que propagamos para 

    garantir a segurança dela.” Ele olha para

    o anjo das bruxas.

    “Só que a sua verdadeira forma é essa.” Surge o

    retrato da deusa, e as bruxas se viram para Isabelle

    , que fica transtornada com aquilo. “É idêntica a ti.”

    Diz Victória fascinada com isso. “Tem até as suas

    Tetas.” Alexandra brinca, e a jovem se cobre

    com os braços. “Ao contrário do quê os humanos

    dizem, Koré não era uma virgem, e tão pouco estava

    livre naqueles tempos, tinha um relacionamento 

    com Thanatos, sob a alcunha de Macária, e com ele teve um 

    bebê. Algo que enfureceu  bastante o

    deus dos infernos gregos, e por isso 

    ele a tomou para si.” O rapto da deusa, é mostrado

    em obras de artes, que não condizem com a sua forma

    verdadeira. “Os humanos inventaram também que a deusa

    Afrodite, era um equivalente de Inanna, a deusa mesopotâmica

    , e que esta tinha descido ao Inferno, apenas para rever o seu

    amante Adônis.” Imagens de Afrodite e Adônis surgem na

    tela. “Mas como devem saber, assim como a descida dela, a

    sua identidade também é uma mentira. Esta é a antiga forma

    dela.” A imagem da deusa é idêntica a Victória. “Isso explica

    porquê sempre acreditou no amor, mais que todos.” Diz

    Isabelle. “Ou porquê teve tantos namorados.” A outra

    bruxa brinca. “Afrodite não nasceu da espuma do mar, esta

    é uma metáfora, que esconde o seu outro nome Despina. A

    deusa renegada.” Segue contando a história sem muito

    interesse. “Ao contrário do quê a humanidade prega, ela não

    foi deixada para trás, porquê Deméter era má, ou por ser fruto

    de um abuso. Mas sim porquê Despina compactuou com os

    titãs, na guerra, para roubar o trono de Perséfone, a sua

    irmã mais velha.” Victória se sente triste, mas Isabelle segura

    sua mão, dando-lhe apoio. O quê ocorreu naqueles tempos, é

    para ser esquecido, pois hoje em dia são melhores amigas. “

    E foi assim que garantiu que Perséfone fosse levada

    ao Inferno.” Prossegue. “Despina teve orgulho de seu ato

    cruel, até sofrer as consequências. Deméter ficou desolada pela

    perda da filha, e por esta razão esqueceu dos outros filhos, não

    se importando com nenhum deles, exatamente como quando

    a caçula nasceu.” Ao ouvir aquilo Isabelle fica de queixo

    caído, pois nas suas visões em que tinha uma irmã

    , esta parecia ser muito mais amada. “Hera não queria deixar

    que Deméter fizesse um acordo para devolverem a filha. Afinal

    de contas, ela era o pilar de Despina neste plano, pois tudo o

    quê desejava, era fazer a sua rival sofrer, por tira-lhe o

    amor de Zeus.” Ao verem a história, as irmãs se entreolham,

    e lembram das vezes que viam sobre Ninlil e Inanna, que

    desde o principio queria o amor de Enlil, mas como este era 

    da irmã, ela ficou furiosa. “Me perdoa Belle.” Victória se

    sente incomodada, e chora, abraçando a sua 

    irmã. “Esta tudo bem. Nos preparamos para este dia Vic, ou

    esqueceu de como foi que nos conhecemos?” A dama ri, e a 

    moça fica sem jeito. “Despina se arrependeu, e foi até

    Hades, desfazer o acordo, mas o deus tinha se apaixonado 

    pela deusa, e não a queria deixar ir, pois temia que nunca

    mais voltasse.” Isabelle sente uma dor na garganta. “Triste

    pela derrota, a deusa renegada caminhou sem rumo, até cair no

    mar, e se encontrar com outra divindade, que estava morrendo em

     meio a tantas guerras e desavenças.” Surge a primeira Afrodite 

    celestial, sentindo-se fraca. “Me perdoe. Eu não sabia que meu ódio 

    poderia causar tantas desgraças.” Implora o perdão da deusa, esta sorri 

    e toca em seu rosto, puxando-a para perto. “Este é o meu fim Despina.

    Por tua causa, Eu o Amor estou morrendo, e é por isso que precisa

    consertar o teu erro.” Disse-lhe a deusa a beira da morte.

    “Como? Se tudo o quê consigo fazer é congelar e destruir o quê a

    minha mãe cria.” Chorou a menina de cabelos brancos e rosto jovem.

    “Através do amor minha querida. Através do amor.” Disse-lhe com

    as mãos em sua face, e a beijou calorosamente, preenchendo o

    frio em seu coração, com tanto calor, que seus cabelos

    mudaram de neve para vermelhos como as

    rosas. A luz brilhou, e por fim ela saiu das espumas renascida, a

    velha Despina, amargurada e louca por destruição tinha morrido, e

    dado espaço para a segunda Afrodite, que faria o quê estivesse ao

    seu alcance, para salvar a sua irmã do marido. “Despina não foi a

    única a receber o beijo de uma deusa, que lhe deu novos poderes.

    Koré também tinha passado por este processo, e por isso sua irmã

    se sentiu tão mal.” O anjo explica, e Isabelle fica

    a se questionar.

    _Perdão mas está errado. Eu vi o meu passado.

    Eu era a invejosa, não Despina.

    _Até onde exatamente você viu? Na infância sim,

    teve suas razões para detestar a sua irmã, pelo tipo

    de carinho que Deméter dava a ela. Mas depois que

    ficou mais velha, e recebeu a graça de Nyx, sua

    mãe teve muito orgulho de você.

    _Sim, mas Despina era mais amada e 

    querida.

    _Não, quem te disse isso?

    _Uma bruxa chamada Ariadna.

    _Ela mentiu para você. Sempre foi muito amada

    por seus pais, por ser a primeira filha deles, e mesmo

    achando que não, eles te deram tudo o quê podiam

    , para te fazer feliz. Só que o fato de dividirem 

    este amor com Despina, que te deixou

    tão chateada.

    _Mas Ariadna...

    _Claramente não é de confiança.

    Responde e prossegue ignorando os outros apelos. “Eu disse que

    nós duas fomos bem amadas.” Resmungou Victória com alegria, por

    saber que não deixou sua amiga sofrer. “Para chegar no lar

    do deus do submundo. Afrodite foi até a deusa Tétis, e pediu-lhe

    para levá-la ao fundo do mar. Para assim chegar as águas,

    que passaram pelo Tártaro.” Contou a história, e como já era de

    se esperar, Tétis tinha traços idênticos aos de Alexandra, que fez logo

    um sinal, para que as irmãs se calassem. “Em várias culturas, estas 3 deusas

    foram muito conhecidas, e como ambas tiveram domínio do submundo, logo

    formaram a egrégora de Hécate, que deu origem ao surgimento de uma

    nova deusa na mente humana.” Eis que aparece a imagem da deusa

    de três cabeças. “Afrodite, representava a jovem. Tétis a mulher,

    e Perséfone a anciã, por herdar o poder de uma titã.” Mostra a estátua,

    e aponta para o símbolo lunar na cabeça da deusa. “Esta imagem das três

    fases da lua, foi muito presente nas culturas, e suas histórias se repetiram,

    fazendo-as serem conhecidas por outros nomes. Por isso é muito comum

    , encontrar deusas equivalentes.” Diz  apontando

    para as deusas semelhantes, de outras culturas, e Isabelle ergue

    a mão, o fazendo revirar os olhos, por temer que isso

    gere uma nova discussão.

    _Sim Isabelle pode falar...

    _O meu equivalente nórdico é a Hel. O quê não coincide

    em nada com a Perséfone.

    _Não coincide com o quê os humanos sabem, mas você

    é como uma segunda Nyx, portanto faz sim sentido.

    _Se diz...

    Ele sorri forçadamente e prossegue com as explicações. Sabendo 

    agora dos seus reais poderes, que vão além dos 4 elementos, as jovens 

    são conduzidas para fora da sala, e levadas até o ginásio, onde uma das

    belas tem uma surpresa devastadora. “Você é minha agora.” Se recorda

    Victória, ao ver um belo homem de cabelos longos e negros, pálido, e

    de olhos azuis escuros, que está com o olhar vazio de um

    assassino mortal.

    _Com licença, mas o quê ele faz aqui?

    _Ah, perdão Victória. mas devido

    ao seu poder como Despina, você deu

    origem aos seres vampíricos, e por isso

    Gabriel, irá te ajudar a manipular os

    seus dons.

    _Nunca odiei tanto o fato de ser vampira.

    _Vai dá tudo certo. Você e Bóreas se

    separaram, já faz alguns séculos.

    Ele segura em seu ombro, e a empurra para os braços do irmão, lhe

    deixando, numa bela saia justa. Alexandra, e Horácio são chamados pelo

    anjo Salatiel, e ao ver este a jovem da moda caveira, cospe a água que usou

    para se acalmar, por encontrar o aparentemente ex ali. Vendo-a ali, o loiro

    de olhos verdes, sorri e acena sem más intenções, mas esta não retribui e

    sai correndo até Isabelle. “Eu não sei quem vai te ajudar. Mas você não

    me deixar sozinha com aqueles dois.” Aponta para os alados, e

    Belle arregala os olhos, puxando-a para o canto, onde

    conversam baixo.

    _Pelo visto não sou a única “ferrada” aqui.

    _Para de brincar Belle. Sabe como me sinto como

    sobre isso.

    _A gente teve tempo para se preparar, mas fomos

    ingênuas. Agora é respirar fundo, e trabalhar

    com eles.

    _Como você está sobre Miguel?

    _Bem ué. Eu temi a toa, ele me quer tanto

    , quanto eu quero peixe.

    _Detesta mais que a própria vida?

    _Exatamente.

    Ri e o arcanjo ouve aquilo com desgosto. “Sem querer

    interromper esta conversa, mas é hora de ir.” Ele chama

    a bela, e a pega pelo pulso, afastando-a da amiga. “Eu sou

    adulta.” Diz de má vontade. “Então haja como tal, e não

    se atrase para a sua aula.” Ele a arrasta, e ela se solta.

    “Eu não vou. A minha amiga precisa de mim.” Ela

    volta para Victória, que está pálida.

    _Ela vai ficar com o Gabriel. Você sabe o quê

    eles vão fazer, e não vão se matar.

    _Ela está noiva de Belliath!

    _Ah é? É costume da família dormir com outro

    no noivado. Vamos embora.

    _Não tínhamos parado de brigar?!

    _Tínhamos. Até você fofocar com a sua 

    amiga, que me odeia mais que a comida

    que detesta. Sendo que eu só te salvei

    , daquele maluco.

    _E não é verdade?! 

    _Só porquê eu disse que te acho maluca.

    Não quer dizer que te detesto.

    _E o quê quer dizer então?!

    _Que você é louca oras. Agora larga ela,

    seu marido e eu iremos te treinar.

    O anjo a afasta outra vez, e Victória fica com os

    olhos arregalados, sentindo Gabriel vindo por trás

    dela. “Vamos treinar. Preciso te ensinar a arte da

    caça.” Sussurra em seu ouvido, segurando em

    seu pulso, e inspirando a pele do seu 

    fino pescoço.

    _Eu sou noiva de Belliath.

    _Sua irmã era noiva do meu irmão.

    _Corta essa, eu sei que é filho de Bael.

    _Não sou. Bael foi um tio amável que me

    reconheceu, até se tornar Deus, e agir

    como tal.

    _E eu devia ter pena?

    _Não. Mas devia se lembrar, que nem

    sempre conseguiu resistir a mim.

    Responde dando-lhe um beijo no pescoço, que

    a deixa arrepiada. Mas para disfarçar, ela o segue e

    pega a luva de garras. Isabelle caminha ao lado do tal

    arcanjo, e entra na sala de tiro. Leviroth está acertando

    até os menores alvos com exatidão, e para não ficar

    para trás, Miguel pega uma arma, e também 

    atira, como se os dois competissem.

    _Preste atenção Isabelle.

    _Fique em silêncio e calma.

    _E se não conseguir... Apenas pense

    em algo que odeia.

    _Verdade. Imagine o prazer de atirar na

    cabeça deste ser.

    _Mire na garganta para acertar o alvo.

    Os dois atiram na mesma direção e acertam. A dama

    fica de queixo caído, e se afasta pelos raios produzidos 

    pela tensão deles. Mas Leviroth a pega por trás, e lhe

    dá uma arma para treinar. “É a sua vez amor.” Ele

    diz e lhe ajuda a mirar. Ao ver a bela, sendo

    guiada, o agente se incomoda.

    _Eu preciso tomar um ar.

    _Eu cuido das aulas.

    _Por mim tudo bem.

    _Até mais.

    O agente acena de má vontade, e sai do local, não

    querendo mais ver aquilo. Leviroth ri e abraça a esposa,

    dando-lhe um beijo caloroso. “Alguém se chateou.” Ri da

    dor do rival. “Se chateou? E você não perdeu a chance

    de piorar as coisas.” Ela brinca, e ele volta a lhe

    pegar pela cintura, encostando-a na

    parede.

    _É evidente que ele quer lembrar os

     velhos tempos.

    _Não quer nada. A gente se detesta.

    _Vai por mim, sou um espécime masculino.

    Ele não te olha com desprezo.

    _Acho que você está paranoico.

    _Não estou. Você pode não ter se preparado

    para este momento, mas eu sim.

    _Foi em vão. As chances de eu ficar com Miguel

    , são iguais a gostar de peixe.

    _Você já comeu peixe 3 vezes Izzy.

    _Comer, não significa gostar.

    _Mas que quis experimentar. Eu sei que disse

    que te deixaria ir, só que não vou fazer isso

    sem lutar, ok?

    _Você não precisa. Já me tem há mais de 9

    anos.

    Diz beijando-o com fervor. Tomado pelo medo de

    perdê-la, ele a carrega, segurando-a com força, e com

    vontade. Seus lábios vão para o pescoço dela, passando

    a língua com todo o desejo de sua licantropia, e lhe

    descendo as garras pela costa, por dentro do

    seu vestido já aberto.

    _Podem nos ver...

    _E isso importa? São adultos. Vão ignorar.

    _Você é um louco.

    _E você ama isso em mim.

    Ele abre as calças, e a deixa de joelhos. “Prove que

    é minha.” Coloca-lhe no piso, e ela se ajoelha. O órgão

    está rígido, apontando para o céu, e a bela o abocanha

    com as mãos para trás, enquanto ele lhe acaricia o

    topo da cabeça. Há tanta sede nela, que sua

    boca transborda saliva.

    _Você é minha?

    _Sim.

    _Somente minha?

    _Sim.

    _Então mostre-me o quanto me ama.

    Ela faz movimentos com a língua, saboreando seu

    membro, como um picolé encontrado no deserto. No

    entanto quando se cansa, o morde, e arranha o seu

    peito, erguendo-se como uma deusa soberana,

    sob um daemon. Algo que o faz sorrir, pois

    é sua hora de amá-la.

    _Ah Tempo cruel. Gosta do sabor de sua

    doce Alice?

    _Adoro!

    _Quanta sede. Parece está me devorando...

    _E você não quer ser devorada pelo

    Tempo?

    _Não! Eu quero devorá-lo!

    O empurra, e então monta sob o seu corpo, como

    uma amazona, e escorre liquido do meio das sua pernas,

    envolta do falo dele. O agente resolve voltar, e se depara

    com a cena. Ao ver os olhos de prazer intenso da moça,

    ele de imediato desaparece. O demônio não está

    errado, há interesses obscuros no anjo.

    _Devemos terminar... logo...Tempo.

    _Não, enquanto você não provar o seu desejo.

    _O quê deseja de mim?

    _Que se entregue, e esqueça onde estamos.

    Ele a abraça, e a coloca deitada no piso. Mergulhando

    seus dentes nos seios dela, e a fazendo delirar de loucura

    amorosa. Ao ponto de gemer tão alto, que sofre uma

    represália. Seu amado puxa-lhe o cabelo na nuca,

    e lhe cala com um beijo.

    _Ah!

    _É esse rosto que gosto de vê...

    _Ah! Eu vou! 

    _Sim querida, me pinte com sua 

    tinta deliciosa...

    _Ah! 

    Ela o beija, sentindo seu corpo trêmulo, e suas palmas

    afundam no peito, enquanto ele a prende em cima, com

    um sorriso maldoso, não a deixando escapar, até não ter

    mais gotas peroladas. Os olhos dela se apertam, é uma

    energia muito grande, até que não suporta, e os

    dois se derretem no fogo do amor.

    _Eu preciso tomar uma pílula. 

    _Eles devem ter por aqui.

    _E se não tiverem?

    _Odin vai nascer...

    _Vai me prender de novo com um filho?

    _Funcionou da outra vez, por quê

    não?

    _Você é um idiota.

    _Mas você não vive sem mim.

    Ele se deita e ela se recosta em seu peito adormecendo.

    Mais tarde... os efeitos da paixão foram tão fortes, que o ser

    das trevas continua adormecido. Contudo o medo de Isabelle

    de engravidar uma segunda vez, a faz se levantar, e dá uma

    volta pelo corredor, onde por coincidência se encontra

    Miguel, que está sentado na parede, e nota o seu 

    medo.

    _Precisando de uma pílula do dia seguinte?

    _O quê? Como sabe?!

    _Eu voltei a sala... e vi tudo.

    _Ah sim... Não tem nada demais a 

    gente é casado, é o quê pessoas casadas 

    fazem oras. Elas transam!

    _É, eu sei. Sei também que praticam

    isso há mais tempo, que a sua 

    união.

    _Por quê minha vida pessoal te

    interessa tanto? 

    _Não interessa só não pude deixar

    de refletir a respeito.

    Ele se levanta, e entrega a cartela a ela. Seus olhos

    azuis estão frios, magoados por alguma razão. Na sua

    mente, se passam pensamentos dos quais pode vim a se

    arrepender, se colocar em prática. “Como ela ainda mexe

    tanto comigo?” Pensa ainda parado ali, imerso em sua

    cabeça. “Ele está cada vez mais estranho.” Ela

    o olha, e se afasta.

    Sem dizer nada, sua mão agarra o pulso dela, não

    a deixando ir. Ele fica cabisbaixo, sabe que o quê quer

    que esteja planejando, pode ser um risco gigante dado

    ao fato, de que Leviroth, Lúcifer, Enki, Belial, e todos

    os deuses que não aprovaram esta união, podem

    puni-lo a sangue frio.

    _Eu preciso ir.

    _Não precisa. É noite, todos estão dormindo.

    _Você está me assustando...

    _Eu não sou o Anticristo. Não tentarei nada.

    Apenas fique.

    _O quê há com você? Horas diz que me odeia,

    minutos depois parece que...

    _Eu ainda te amo? 

    Aquelas palavras a quebram em mil pedaços. Numa

    explosão tão impactante, que ela fica sem palavras. Ele

    da um passo a frente, ela dá dois para trás, e acaba “no

    muro”. Suas mãos tremem sem parar, Leviroth está

    certo, ele não a olha com desprezo, e quer

    reviver os anos dourados.

    _Você me odeia lembra? Não quer se envolver

    com uma maluca, não tem a intenção de

    cometer esse erro de novo.

    _Eu disse aquilo para me proteger. Mas ainda

    sim, te deitei em meu ombro antes de 

    chagarmos aqui.

    _Não tem nada demais...

    _Eu te quis perto de mim.

    _Você, tá confuso, não sente nada por

    mim, não mais. Você mesmo disse “o

    passado fica enterrado lá.”

    Diz ela e ele segura em sua face, e tudo acontece rápido 

    demais, para que consiga impedir. Seus lábios estão ligados

    aos dele, seus olhos se fecham por um breve segundo, mas

    ela luta para ficar acordada. Não se entregando aos seus

    impulsos românticos, e ficando petrificada diante dele.

    O quê o leva a entender que só um dos lados

    sente algo, e não é ela.

    _Me desculpa.

    _Tá tudo bem...

    _Eu só me deixei levar pelo ciúme...

    _Não diga nada. 

    _O quê?

    _É melhor se convencer que não sente nada

    , absolutamente nada por mim.

    _Eu não posso. Não dá mais.

    _Você teve o seu tempo, e não veio. Me deixou

    cartas, mas nunca se aproximou.

    _Como você...

    _Eu te amei naquele tempo, de verdade.

    Mas você não sentiu o suficiente para

    lutar por nós.

    _Você corria risco de vida!

    _Eu queria me arriscar!

    Grita tão alto que sua voz ecoa pelo local, e ela

    mesmo se cala. Lágrimas escorrem pela sua face, e

    tudo vem a tona. Ele esteve presente nesta vida, só

    que era como um admirador secreto, um vampiro

    a espreita, que por mais que se comunicasse,

    nunca podia se aproximar.

    _Eu esperei incansavelmente por você.

    _Eu não podia... Isso ia te matar.

    _Eu nunca me importei em morrer e você

    sabe.

    _Mas Isabelle eu não queria te perder de novo,

    como quando se atirou para fora do paraíso

    , e se matou.

    _Você sabia quem eu era...

    _Sempre soube. Tive uma minha memória intacta

    sobre o passado. 

    _Então por quê não lutou pra ficar comigo?!

    Lhe bate no peito, e ele segura seu pulso, abraçando-a

    forte em seguida. “Fora o risco. Você tinha que fazer a sua

    escolha sozinha. Te mandar cartas foi uma trapaça.” Ele diz

    em seu ouvido, e uma lágrima cai no piso. “Era lindo ler 

    que seria minha até depois da morte. Mas eu não

    podia te condenar a mim outra vez.” A

    aperta.

    _Minha vida, assim como a sua, não foi um

    mar de rosas. Também tive uma mãe louca,

    só que a minha matou todas as minhas

    namoradas.

    _Forma bonita de preservar o amor...

    Com muitas namoradas.

    _Você não era uma humana estúpida,

    tinha valor para mim, e merecia ser feliz

    , longe de todo este...este inferno.

    _Eu teria enfrentado as chamas com

    Você.

    _Teria acabado morta, por não ter despertado.

    _Então me deixou ir...

    _Sim. Mas não totalmente...Sempre te protegi

    de longe, mesmo quando pensou está só.

    _Isso não é verdade...

    _Acha que aquele bandido que te abordou

    pegou fogo por acidente?

    _Mas quem me protege desta forma é o diabo.

    _Lamento te informar...mas ele não é o

    único.

    O belo se lembra do tempo que tinha os cabelos longos

    até o ombro, e a vigiava, quando não fingia ser humano. A

    salvando de malfeitores, que poderiam chegar ao lugar no

    qual se encontrava. Algumas vezes não resistia, e entrava 

    em seu quarto, no escuro, e ficava vendo-a dormir. Mas 

    tudo isso parou, quando Bener entrou na vida dela, pois

    o anjo tinha consciência, de que o demônio também 

    poderia protegê-la, por isso partiu. Ela respira fundo

    , e o afasta, deixando-o sem jeito.

    _Obrigada pela ajuda.

    _Mas?

    _O quê aconteceu, não 

    vai se repetir.

    _E ?

    _Você vai contar ao meu 

    marido, mesmo sabendo 

    das consequências.

    _Estou ciente.

    _Não precisa. Eu vi tudo.

    Leviroth aparece na porta do lugar,

    com os braços cruzados. A bela corre

    para o marido, e este fica parado. Os

    olhos dela imploram pelo abraço

    dele, e este a envolve contra o

    peito, encarando o 

    outro.

    _Eu já sabia que isso aconteceria.

    _Você me odeia?

    _Não a culpe Leviroth.

    _Como eu disse, vi tudo Miguel.

    Você a cercou, e ela não cedeu.

    _Não mesmo.

    _Se estão resolvidos. Não tenho

    mais o quê fazer aqui.

    _Vai descansar Izzy. Tá tudo bem.

    Ele a conduz para a sala, e a deixa lá, com um sorriso. 

    Mas ao se virar, a sua raiva cresce tanto, que os seus olhos

    ficam negros por completo, e ele flutua em alta velocidade

    , e pegando o rival pela gola da camisa. O erguendo no

    topo da parede, com completa fúria.

    _Fique longe dela.

    _Depois da rejeição, não tinha

    a intenção de fazer algo 

    mais.

    _Estou falando sério "filinho de

    papai"! 

    _O principe renegado está 

    de volta?

    _Ele nunca saiu. 

    _Eu não vou tentar mais nada

    com a sua esposa. 

    _Ótimo.

    O demônio o coloca no piso. Se sentindo mais calmo, 

    ao ponto dos olhos negros, voltarem ao estado normal.

     "Mas eu não vou ficar longe dela." O agente da um

    escorão no rival, e passa por ele.

     

     

     

     

     

    Capitulo 4- O demônio, o anjo

    e a simbiose.

    .

     

    Leviroth respira fundo, e caminha pelo local, até 

    encontrar o templo do deus Enki, que está sentado em

    um trono, acima das águas. Ao ver o rapaz, o deus o

    chama, e este se curva perante a ele.

    _Levante-se garoto. Tu és um

    nobre.

    _Sou um nobre apenas porquê

    me destes a graça, meu 

    Senhor.

    _Isto não é verdade meu jovem.

    _Não é?

    _É hora de saberes a verdade,

    então observe a tua resposta.

    O deus ergue as águas, e cobre o  príncipe com elas. 

    Ele viaja até o seu passado, e se depara com três bebês.

     "Eis o nascimento da luz, das trevas, e do equilíbrio." Diz a 

    voz de Enki. O primeiro bebê brilha mais que o sol, já o segundo 

    enegrece como o cosmo, e o terceiro, ao contrário dos outros, é 

    escuro com a luz em seu interior. "Tem se falado muito da trindade

    feminina, mas há também a trindade masculina, e aliás esta foi a

     primeira a existir." Prossegue com aquela narração. "O pai é a

     existência, e os gêmeos são vida e morte." Conta, e

    surge Samael, segurando dois bebês, junto de Lilith."Antes do 

    nascimento da escolhida, e se tornar Lúcifer, Samael teve dois filhos 

    inicialmente. Um nasceu de sua sede de sangue, o outro surgiu de sua

     justiça." Gêmeos enfrentam um ao outro na barriga. "A luz forte do

    primeiro filho, obrigou Samael a lhe esconder do mundo, para não o 

    queimar. Enquanto a escuridão se  fez viva." Os irmãos se separam. "A 

    primeira filha de Samael  nasceu. A escuridão não se conteve e tomou-a 

    para si, e com ela, a princesa angelical se juntou." A jovem ruiva abraça

    ao demônio de olhos vermelhos. "A menina ao  contrário dos seus 

    irmãos, não herdou nem luz, nem as sombras, mas sim o controle 

    de ambos." Diz o deus com a sua sabedoria, e surge a bela 

    dançando com o amado acima da terra, enquanto o 

    gêmeo de 

    poder solar, olha para ela. "Os três bebês que viu, são os primeiros filhos 

    sagrados." Agora eles estão mais velhos, cada um 

    reinando de uma forma. O gêmeo solar, lidera um império de fogo. O gêmeo 

    negro, lidera a escuridão, e a jovem deusa fica entre ambos, usando forças de luz 

    e trevas. "É dito que Lúcifer reina no inferno. Isso é uma mentira. Ele está acima disso, e reina nos céus como o senhor do ar, da vida, e da criação." Prossegue. "Ele separou

    Anu e Namu, mas criou tudo isto, e seus filhos ficaram responsáveis pela 

    governança de suas terras."  Diz o deus. "Após os mais velhos, seguirem seus 

    rumos, os mais jovens vieram a se preparar, para serem deuses." Os outros deuses surgem, e cada um tem um dom diferente. "Luciféria treinou os deuses que cuidavam das forças da natureza. Bael cuidou dos seres das profundezas. E você, jovem príncipe Azazel, ensinou os seres das sombras." Ao ouvir o nome Leviroth, respira e se 

    afoga.  O quê obriga o deus, a tirá-lo das águas. 

    _Eu sou Leviroth. O príncipe 

    renegado. O rebelde.

    _Não. Você é Azazel o príncipe

    do caos, e grande mago das 

    sombras.

    _Eu sou filho de Deus e Asherah.

    _Não. Você é filho de Enlil e

    Ninlil. Como seus irmãos.

    _Eu sempre servi a Odin e Gaya.

    _Sua mãe é Nyx e seu pai Eros.

    _Mas Luciféria é filha de Zeus e

    Deméter. Outras faces de seus 

    pais, depois de Hades e Hera 

    prendê-los. 

    _Eu sou o filho de Odin. Não do amor.

    Ali por trás da porta, Isabelle ouve a discussão, e vai

    até os aposentos do pai. No qual o encontra sentado no

    seu trono, e se curva perante a ele. “Minha princesa erga-te,

    e jamais se curve a outro nobre, que não seja você mesma.”

    Diz o deus supremo, e a jovem moça, fica de pé indo 

    até ele, que já tem todas as respostas na

    ponta da língua.

    _Quer saber quem é o Anticristo,e o quê ele 

    e você tiveram. Se Enki mentiu ou não para o

    demônio Leviroth. E porquê o chama por

    Azazel.

    _Sim...Primeiro acreditei que ele era meu

    tio. Depois conclui que era meu irmão.

    _Descobriu o certo minha querida.

    _E por quê sonho que sou mulher dele, se

    sou casada com Leviroth?

    _Porquê a luz busca a escuridão...

    _Então ele devia ter um relacionamento

    gay com Leviroth, ou incestuoso com

    minha mãe.

    _Você não sabe mesmo, qual é o seu

    papel nisso tudo não é?

    _Sou a “messias negra”, nascida para

    guiar o teu povo.

    Isabelle revira os olhos, pois desde o episódio da 

    floresta, deixou de acreditar no seu destino grandioso,

    e Lúcifer ri disso, pois nota na filha, a mesma forma com

    a qual a esposa demonstra desgosto. Elas são parecidas,

    até quando a menina deseja se desvencilhar de tudo, pois

    encontrar a si mesmo no escuro, é o mesmo que achar 

    os demônios insaciáveis de Lilith, que ficam a 

    espreita no fundo da mente.

    _E você sabe o quê significa?

    _Que tenho que liderar suas tropas. Sendo que

    só consigo falar com meus amigos?

    _Não tem a ver com o povo Lucy. Tem a ver com 

    você.

    _Eu não tenho poderes como Afrodite e Tétis.

    Controlo ervas e escrevo o futuro.

    _Sua mãe lhe deu o maior dom dela. O dom

    da noite minha querida, com o qual você fez

    de seus irmãos, deuses abissais.

    _E o quê é esse “dom da noite”?

    _É o dom que dá vida as coisas, e que mantém

    o universo em equilíbrio.

    Isabelle se mostra confusa, e o deus se levanta,

    para lhe ajudar a entender melhor do quê se trata.

    A bela recua temendo o quê está por vir, mas o pai

    a segura, e lhe guia até a câmara, onde mostra os

    velhos tesouros da família luciferiana, e o seu

    diário.

    _E o quê isso tem a ver com o Anticristo?

    _Abra o livro da sabedoria, que seu tio Enki

    fez para mim, e saberá.

    _Acha que estou pronta? 

    _Teve 13 anos para se preparar minha

    querida. Vá em frente.

    _Você vai me proteger?

    _Sempre.

    As mãos dela pousam no livro, e com cuidado ela

    o abre. As folhas se passam rapidamente, até que por

    fim viram vultos, e a bela desmaia nos braços do seu 

    pai, deixando seu corpo para trás, até chegar no inicio

    da civilização da Terra. Luciféria está sentada no 

    lado de uma rocha, com lágrimas em sua

    face.

    _Por quê chora criança?

    _Porquê perdi meus pais para sempre.

    _Eles morreram?

    _Não...Mas Ela nasceu.

    _Ela?

    _Minha irmã...

    _Irmãos são complicados. Por isso quis

    matar os meus.

    _Eu entendo.

    Sem saber de quem se tratava. Ela desenvolveu uma

    amizade com o sol do subsolo, e este também sentiu-se

    ligado a moça, ao ponto de fazer crescer uma flor para 

    sentir seu toque. Ela o via como um amigo, um cão de 

    guarda, para quem podia contar todos os seus 

    segredos.

    _Será que brilho tanto quanto o sol?

    _Consegue ver aí dentro?

    _Sim... mas não estou brilhando no momento.

    _Então como está vendo?

    _Joguei minhas chamas nas velas.

    _Entendo.

    _Tudo bem com você criança?

    _Para de me chamar assim. É só a minha irmã...

    Eu só queria matá-la. Mas não quero acabar

    como você Sr. Rá.

    _É, é melhor tomar cuidado. O escuro pode

    não ser agradável.

    A advertiu. Luciféria tinha tanta estima pelo amigo,

    que a entendia como ninguém mais, que passou a ler

    os arquivos de Miguel, para encontrar uma brecha que

    o libertasse, e o devolvesse para este mundo. Sim, ela

    usou o anjo, para conseguir ajudar o ser que vivia

    nas profundezas, e assim o tirou daquele

    lugar sombrio.

    _Você?

    _Você? É a garotinha...

    _Que você molestou.

    _Luciféria me perdoa...Eu não sabia...

    _Você vai voltar pra jaula!

    Tenta empurrá-lo, mas ele segura sua mão, e a olha nos

    olhos, com suas íris cor de sangue. Ele realmente se sente

    culpado, por ter a tocado indevidamente, mas ela só quer

    mandá-lo de volta para a prisão. Miguel presencia este

    momento, e corre para ajudá-la, assim ambos o

    colocam de volta na caverna. Mas ele percebe que foi a

    princesa que o libertou, e fica chateado. Ela se justifica por

    ele ter lhe entregado a Inanna, que queria matá-la quando

    era um bebê, só que o arcanjo continua magoado. 

    “Luciféria?” Pergunta a voz do submundo.

    _Eu nunca mais quero falar com você!

    _Eu sempre te avisei que era um monstro.

    _Não achava que era o Meu monstro!

    _Se acalme. Não há motivos para gritos.

    _Você me tocou, e abusou de outras!

    _Eu lhes dei a escolha.

    _Engraçado, eu não tive esta escolha.

    _Isso porquê Inanna te odiava.

    Ao ouvir a última frase, ela o deixa falando sozinho,

    e tenta retomar a sua vida como se nunca tivesse lhe

    conhecido. Miguel segue ignorando-a. Céu e Terra não

    devem se misturar mesmo, desde que Enlil ficou entre 

    eles. O arcanjo e novo brigadeiro das tropas do deus 

    Anu, e não o esconde o desgosto, pois realmente

    tinha um sentimento forte pela primogênita 

    de Lúcifer. 

    _Vai me ignorar para sempre?

    _Só por quê me usou para libertar o Diabo?

    Não imagina.

    _Me perdoa. Eu não sabia de quem se

    tratava.

    _Só há um prisioneiro terrível no universo.

    _Como eu ia saber que era ele?

    _Eu não estou nem aí para o quê acha Luciféria.

    Só me importa o fato de ter me traído, para

    ficar com ele.

    _Trair? Nós somos amigos!

    _Correção éramos amigos. Até mais.

    O arcanjo a deixa, e ela olha para o seu irmão mais

    velho, que também não aprova a sua atitude. Ao chegar

    no castelo, Luciféria vê os pais brincando com a irmã, e

    sorrindo, e ela sente muita raiva daquilo, pois os pais

    estavam tão focados em cuidar de Aggarath, que

    nem perceberam o risco no qual ela se meteu.

    “Ninguém me ama. Eu estou sozinha. Sendo esquecida.

    Perdendo o quê me importa.” Se senta encostada de costas

    para a parede, e coloca as mãos na cabeça, como se algo no

    seu interior, quisesse se libertar, e ela não pudesse deixar. 

    Só que como ninguém a vê ela perde o controle, e

    retorna até a floresta proibida.

    Seus pés caminham pela terra molhada. Os olhos violetas

    ficam vazios. O vento bate em seu cabelo que está a mudar de

    cor, deixando de ser vermelho, para virar roxo escuro. A pele

    alva, empalidece até ficar cor de papel. Ela desenha os

    símbolos na rocha, e invoca a destruição.

    _Luciféria?

    _Você precisa me compensar pelo ocorrido.

    _Por quê me libertou de vez? Sabia que posso 

    destruir o universo?

    _Sim, eu sei, e eu quero que faça isso, é a uma

    forma de me agradecer por te libertar.

    _Eles vão te matar, se descobrirem. 

    _Eu não quero viver Sr. Rá.

    A gigantesca e bela criatura, fica assustada com as fortes

    palavras proferidas pelos lábios da criança de 13 anos, e antes

    de fazer alguma coisa para tirá-la dali, ela desaparece, e deita

    na sua cama com os pés sujos. Na manhã seguinte...Há muito

    alvoroço a respeito da fuga de Bael, e ela fica transtornada

    com o fato de se encontrar tão suja. “Não resistiu ao

    amor que tinha por ele não é?” Diz Miguel

    sentado no canto da janela.

    _Do quê você está falando?!

    _Só uma criatura se compadeceu pela solidão

    do demônio. Não há duvidas de que tem culpa

    no cartório.

    _Eu não fiz nada Miguel. 

    _E estes pés sujos?

    _Eu não me lembro. Só estava muito triste,

    Irritada, e fui dormi.

    _Não foi você?! 

    _Não. 

    _Não está mentindo para proteger o seu amado?

    _O quê? Eu não o amo! E sim, não há porquê

    mentir pra você.

    Luciféria cresceu, sem saber do seu lado negro, 

    e por sorte e ajuda do ser do outro mundo, ninguém 

    nunca soube do seu segredo, até aquele dia. Ela agora

    tinha 16 anos, muita coisa tinha acontecido. Azazel e

    ela haviam se envolvido, pouco antes de se casar

    com Miguel, algo que o deixou furioso, ao

    ponto de castigá-la.

    _Não faça nada comigo por favor...

    _Você gosta da escuridão não é? Pois

    vai conhecê-la!

    _Por favor não faça isso!

    _Divirta-se demônio.

    Disse deixando-a trancada na cela do demônio, e

    este estava tão insano de raiva, que não se conteve, e

    tirou-lhe as roupas ali mesmo. “Socorro!” Ela berrou por

    não saber quem estava no escuro. Suas mãos passaram

    pela janela da porta, e só ouviu-se o impacto do seu

    corpo sendo violado friamente. Até que ele viu

    seu rosto na luz, e ficou em pânico.

    _Luciféria?

    _Bael?

    _Eu não sabia...

    _Você...Continua...Sendo um monstro.

    Ela desmaiou em seus braços, e ele derramou 

    lágrimas sob seus pequenos seios. Miguel chegou a 

    este ponto, pois desde pequenos Luciféria e Azazel eram 

    quase inseparáveis. Um cuidava do outro, e  se protegiam

    do resto mundo, por isso mesmo quando ela nutriu uma

    forte paixão por Miguel, o príncipe rebelde sempre foi

    um empecilho. Desta forma, para livrar-se do rival,

    o arcanjo com a ajuda de Inanna, adulterou o 

    DNA dele, e o fez crer ser filho de Anu.

    _Azazel por favor fica.

    _Este não é o meu lugar Lucy.

    _É claro que é. Meu pai te ama como

    se fosse filho dele. Te dará um reino

    também!

    _Eu não quero viver de caridade mais.

    Adeus Lucy.

    Disse dando-lhe um beijo de despedida. “O quê?”

    Olhos confusos o encararam. “Não deixe o idiota do 

    noivo saber.” Riu se preparando para ir. “Por favor 

    fica” Agarrou-lhe o braço. “Me perdoa mas não

    posso.”  Beijou-a na testa, e foi embora.

    A tristeza por não ser filho de Samael, o deixou tão

    devastado, que ele deixou o palácio do pai, para viver

    com o verdadeiro, abandonando sua irmã e melhor

    amiga, e fazendo-a se sentir tão só, que esta

    encontrou refúgio nos braços do

    Diabo.

    “Ela sempre encontra um demônio! Um maldito

    demônio para amar!” Pensava Miguel entorpecido pelo 

    ódio, passando a mão pelos longos cabelos. Após algumas

    horas, ele volta a cela, e tira suas roupas para que

    Luciféria pense que foi ele, e não Bael, pois se

    descobrirem que Anu o protege, todos

    se voltarão contra o supremo.

    Mas esta não é a pior parte de tudo...A irmã de

    Luciféria com seus poderes de criar ilusão, fez a mãe

    crer que esta tinha copulado com o próprio pai, quando

    a culpada pelo crime era a acusadora. Ela foi expulsa

    de Irkala, e mandada de volta a Dilmun, onde

    sofreu grandes humilhações.

    A raiva de Miguel a perseguiu, por todos os cantos,

    até virar uma prisioneira, e quase sofrer abusos na mão

    dos deuses menores. Azazel a reconheceu de imediato

    , e por isso correu até cela, para impedir que o ato

    chegasse ao objetivo. Ao ouvir a voz do grande

    general, todos se curvaram para ele, e este

    foi até a cruz.

    O rosto dela estava vermelho de tanto chorar,

    os cabelos mais escuros que o normal, e ao contrário

    dos cachos, tinham alisado, e caiam sem parar. Ao 

    vê-la naquele estado, ele segurou em sua face

    , quase que em desespero.

    _Quem foi o responsável por isso?

    _Oras Senhor. O brigadeiro Mikael nos deu

    carta branca para fazermos o quê quisermos

    com ela.

    _E alguém fez?

    _Eu fiz. Penetrei o corpo dela com os dedos,

    até fazê-la gritar.

    Disse um deus grande e robusto. Ao ouvir aquilo 

    o jovem sorriu, e o jogou contra a parede, o retalhando

    com a sua adaga, com tanta cólera, que só parou após

    deixá-lo em pedaços. Vendo aquilo, os deuses se

    cobriram, e saíram correndo assustados, por

    temor as suas vidas

    _Você está a salvo agora.

    _Obrigada.

    _Que confusão aprontou para vim parar aqui?

    _De todas as vezes que fui culpada, esta é

    a única que não sou. Nossa mãe me

    expulsou de casa.

    _O quê? Por quê?

    _Ela jura que eu dormi com meu pai.

    Mas eu não fiz isso.

    _Não mesmo?

    _Está desconfiando de mim?

    _É que você nutria sentimentos pelo meu

    Irmão mal, então...

    _Eu estava sendo estuprada na hora.

    Por isso não tem lógica.

    _E quem fez isso com você?!

    _Miguel.

    Ouvindo o famoso nome, e ele a tira da cruz, e a 

    carrega para o canto, onde lhe deita, e a deixa para

    dormir, enquanto sai a caça do rival. “Vigie a cela 13.”

    Ordena para o soldado, e este se recusa. “É melhor

    fazer o quê digo. Pois sou seu superior.” O pega

    pela gola da camisa, e seus olhos ficam

    negros como carvão.

    O gêmeo mal procura pela moça, em forma de 

    luz, e quando a encontra se materializa. Seus dedos

    tiram o cabelo da face dela, e ao vê-la tão maltratada,

    o pouco de sentimento que lhe resta, o faz ter ódio

    do céu, e todas as espécies que a machucaram,

    por isso ele inicia sua vingança.

    Isabelle não suporta todas as visões dolorosas

    do seu passado, e volta a si mesma, acordando no

    sofá dourado de seu pai, que está lhe aguardando

    com um relógio, e uma bandeja com comidas

    apetitosas.

    _Sem refrigerante?

    _Precisa se alimentar melhor e sabe disso.

    O refrigerante é uma arma pra matar

    as células dos mortais.

    _E os pesticidas nas frutas, são tão

    diferentes disso né?

    _Apenas coma. Mandei preparar especialmente

    para você, achei que voltaria faminta da sua

    jornada. Então como foi?

    Pergunta empurrando a bandejinha para ela, e

    esta rejeita. Ele revira os olhos, estala os dedos, e

    lhe dá o refrigerante. Assim ela pega o murffy de 

    morango com chantilly, e o devora numa 

    bocada só.

    _Azazel me ama...

    _Sim.

    _O Anticristo também...

    _De fato. 

    _Mas Miguel é um babaca que merece morrer.

    _Não está tão longe da verdade, mas porquê

    Miguel está entre seus pares?

    _É que aquele idiota me beijou.

    _Ah ele te beijou? Interessante.

    “Esse garoto tá morto. Não vou deixar desgraçar a

    vida da minha filha de novo, ao ponto dela se jogar na

    água, e se perfurar com a matadora de deuses.” Pensa

    sorrindo e ignorando metade do quê a moça diz, pois

    já sabe de que respostas se tratam. Mas ela está

    tão entusiasmada, que não se cala.

    _Eu cheguei a ficar com o anticristo?

    _Sim... Depois que o prendemos outra vez 

    no subsolo, ele a roubou para si.

    _Então o rapto...os meus pesadelos...

    _São reais.

    _Sim, mas por quê me chamavam de virgem?

    _Porquê o cristianismo perverteu o sentido

    da palavra Koré. Devia significar apenas

    jovem e não virgem.

    _Ah sim.

    Ao ouvir aquilo ela fica feliz, e quase salta de alegria,

    pois o tema virgindade, pesava-lhe demais a consciência,

    e saber que o nome foi corrompido, lhe trouxe paz de

    espírito. “Maldita seja a igreja católica, e sua mania

    de demonizar tudo.” Conclui, mas logo a alegria

    vai embora, e dá espaço para a 

    tristeza.

    _ Por quê você e a mamãe me esqueceram?

    _Nunca a esquecemos.

    _Nem viram, quando eu estava falando com

    Bael.

    _Na verdade vimos. Mas acreditávamos que com

    o seu dom poderia equilibrá-lo.

    _Então eu posso curar o ódio dele?

    _Sim, se atravessar a escuridão, e lhe puxar

    para a superfície.

    _Ou seja me envolvendo com ele...

     

    _Me envolvendo com ele... 

    _Sim, mas é uma escolha sua , caso opte por seguir o caminho atual, também pode matá-lo. Isso é o quê poder de Nyx representa para você. _Ele é seu filho...como eu e  Aggarath. 

    _Ele deixou de ser meu filho,  quando cometeu todos aqueles  crimes abomináveis. Ao ouvir a dureza na voz do pai, Isabelle salta para trás, pois pelo  quê o anticristo disse, ela já esteve do seu lado, e deve ter sido renegada da mesma forma, por caminhar com as trevas verdadeiras do universo. Por isso se preocupa, e tenta ficar calada, mas não consegue. 

    _Eu já andei com ele. 

    _Não teve culpa de amá-lo. 

    Com você ele foi bom. 

    _Epa eu nunca o amei. _Será mesmo? Quase destruiu o mundo quando o prendemos. _Eu não me lembro disso... 

    _Você se esforçou para apagar , nas duas vezes. Mas ele não vai deixar assim, então venha e veja... 

    Lúcifer mostra os retratos dos deuses traidores, e na maioria deles , a deusa meio lunar e solar caminha com o sol. Ela julga os inimigos dele, e ele destrói os que a ferem. Para a infelicidade da moça, dá para  notar a ligação entre eles. 

    _Esta... 

    _Sim é você. 

    _Por quantos séculos estive  

    com ele? 

    _Uns 500 anos. No começo ele a  raptou, depois você voltou por vontade própria. _Ele me raptou e eu retornei?! _Sim. Até se casou com ele, como não fez nem com Azazel, nem com Miguel. 

    _Foi forçado né?!  

    _Ele fingiu ser Azazel na verdade, mas depois você descobriu, e não lhe pediu o divórcio. _Eu sei... Já tinha visto isso. Só queria que não fosse real. _É bem real, e você tem que decidir se vai ajudá-lo ou matá-lo. Aquelas palavras ficam na mente  da moça por vários dias. "ajudar ou matar." Fica a refletir, sem saber que partido deve tomar. Afinal era do próprio Diabo que se tratava, porém  apesar dos pesares, ele tinha sido bom pra ela em  alguns momentos, e isto tornava seu julgamento  turvo. 

    Certo dia ele a chama para sair, e ela aceita,  para tirar a dúvida da sua cabeça. Preocupada em ser raptada, pede para irem a um lugar público, e eles ficam sentados na beira de uma escada, em frente a um  museu todo branco. Ao contrário da outra vez, ele não  está mascarado, e está vestido como no helloween,  enquanto ela está mal vestida, lembrando os  nerds da antigas. Não querendo atraí-lo. 

    _Sem máscaras desta vez? 

    _Sem marido?  

    _Ele me deu permissão para vim. _Você sendo submissa? Esse cara tem que me dá o manual! 

    _Vamos nos engalfinhar ou conversar? 

    _Certo. O quê quer saber de mim? 

    _Foi você que me chamou para sair. 

    Achei que você tinha perguntas. _Eu li o escreveu no seu site...Apenas quis ser gentil. 

    Responde bebendo um copo de refrigerante, e  ela olha para o lado, ele oferece a bebida, mas a dama recusa, e por isso ele avança na sua direção,  deixando-a do seu lado. "O quê ele está fazendo?" se afasta dali, mas o copo fica onde ele quer. 

    _Certo. Como perguntar isso? 

    _Sim, você me amou. 

    _Não era o quê ia perguntar. 

    _Mas é o quê quero esclarecer. 

    _Não seja um idiota.  

    _Está certo. Pergunte. 

    Ele passa o braço envolta dela e pega a bebida. Seus olhos frios cruzam os dela, e esta sente o rosto esquentar de vergonha. Por isso se afasta um pouco mais, e ele segura seu pulso, imobilizando-a com gentileza. 

    _Fica calma. Não vou fazer nada. 

    _Foi o quê disse da outra vez... 

    _Nada que Você não queira. Mas enfim veio pra falar de relacionamento, ou quer um esclarecimento útil? 

    _Então relacionamento não é útil?  

    Tanto faz. Como isso aconteceu? 

    _Não, quando quem eu queria não me quer. Foi bem simples você teve síndrome de Estocolmo, e ficou comigo. 

    Responde de forma seca e ela se levanta para ir embora. Outra vez ele respira fundo, e agarra no seu braço, impedindo-a de seguir em frente. Ela volta , e se senta a alguns centímetros de distância. “Isso não vai acabar bem.” Olha para o lado, sentindo arrependimento, e pega o celular. _Eu sei que está aqui para saber se deve me matar ou não.  

    _Mas eu não escrevi isso no site. 

    _Não sou burro, e você sempre foi previsível. Banca a rainha do mal, mas no fundo tem uma gota de piedade. 

    _Esta é a Victória, não eu. _Se veio até mim, o próprio ato contradiz suas palavras. Você sabe que te torturei, que te machuquei, e destruí o teu psicológico. Mas mesmo assim veio me dá uma chance de me redimir. 

    _Não vim para isso. 

    _Não minta para si mesma. Foi usando a justiça a teu favor, que não se tornou tão abominável, mesmo exterminando 75% da humanidade. 

    _Não me lembre disso... 

    _Tem medo? 

    _Não vem ao caso. 

    Ela sente as mãos dele em sua face, e recua. Ele sorri, e se levanta, outra vez bloqueando as chances dela escapar. Preocupada com estes avanços sutis, ela clica na tela para ligar para Victória, mas ele toma o seu aparelho. 

    _Confie em mim. Se quer a verdade. 

    _Por quê me escolheu? 

    _Eu não escolhi, aconteceu, e não fui capaz de deixar pra lá. 

    _Eu cometi atos de crueldade ao seu lado? _Não, embora me dissesse que sentia prazer em torturar alguns pecadores. _Por quê não me deixou ir se não tenho nada a ver com você? 

    _Você se engana. Somos bem parecidos,  mas eu abracei a escuridão, e você ficou com medo dela. 

    _Então fiquei no lado da luz? 

    _Não, você habitou o purgatório. Nem luz , nem escuridão. Tinha desprezo 

    pela primeira, e temia a segunda. Então ficou num lugar próprio. 

    Ela inspira fundo, e ele ri, erguendo a mão. “Segure-a, e saberei que tenho uma chance.” É o quê ele pensa. Ao sentir calafrios, ela evita-o, e  os dois voltam para a escada, onde se sentam. “ Droga. Mas não vou desistir, ela vai ceder. É o destino que escrevi, e a própria deusa mãe abençoou.” Ele revira os  olhos. 

    _Então isso é O equilíbrio... _Não, esta é a sua personalidade. O  equilíbrio é teu dom. _Razão pela qual busca por mim... _Não. Eu te procuro por outro  motivo... 

    Já cansado das escapadas da moça, ele olha em  seus olhos, e a beija de surpresa. Naturalmente as mãos dela sofrem espasmos, e ela o evita, porém por uns segundos seus dedos agarram os dele, não lhe permitindo se afastar. Ele a solta, para ver sua reação, e ela fica com a cara de choro. Os olhos dela ficam vazios, e seu braço se movimenta estapeá-lo, mas este segura sua mão, com tanta facilidade, que é como se tivesse lido seus pensamentos, por isso eles se encaram. 

    _9 mil anos, e ainda reage do mesmo jeito. 

    _9 mil anos? Está de brincadeira?!  _Não. Praticamente toda a sua vida na Terra, foi ao meu lado, até um dos seus amantes  vim te resgatar. 

    _Amantes?! 

    _Azazel e Miguel.  

    _Eles vieram bem antes de você. _Mas foi pra mim que disse “sim” no fim  das contas. E o tapa no rosto, era o primeiro sinal de que acabaria nos meus braços. 

    _Não. Não pode ser. Eu detestei! _Eu senti seus dedos, e eles prendiam os meus. Você queria continuar mas sua consciência, amargou o sabor deste doce prazer. 

    _Não, não queria. Eu levei meses pra te esquecer, e você não vai apagar meu desenvolvimento. 

    _Me esquecer? 

    O interesse dele se intensifica, e ela tenta correr, contudo ele a agarra, fazendo-a ficar contra o seu  peito, para que as mulheres ao redor não vejam o assédio, e criem algum alvoroço, que possa lhe prejudicar de alguma forma. 

    _Fica calma. 

    _Me solta. 

    _Eu vou, e também devolverei o celular. 

    _Mas em troca quer o quê!? Outro beijo!? _Que me responda... Você se lembrou de mim? 

    _Com tantos sonhos foi impossível não lembrar.  

    _Você acreditou me amar em algum momento? 

    _Não importa. 

    _Quer ser livre ou não? 

    _Sim... 

    _Sim quer ou sim me amou? _Sim para o segundo. Mas já matei esse sentimento, agora pode me deixar ir? 

    _Tudo bem.  

    Ele a solta, e entrega o aparelho. Ela de imediato lhe dá as costas, e sai bufando de raiva. “Mesmo que diga não, eu sei que ainda sente algo por mim, e não é desprezo.” Ele se recorda do beijo, e de ter aberto um pouco o olho, ao sentir que os dedos dela ficaram a pressionar os seus. Não havia ódio no ato, no  lugar disso estava uma paixão, que ele poderia usar contra ela. 

    Capitulo 5- O alvorecer do futuro  

    5 meses depois... Isabelle está mudada, não mais passa tanto tempo tempo dentro de casa, ou com os amigos. Caminha por várias ruas e lugares, com uma lata de cerveja na mão, passando por maus bocados vez ou outra, por sua aparência de 16, permanecer mesmo nos seus 25. Sem dizer nada a ninguém foi ao salão, e alisou e repicou o cabelo, algo que seria benéfico, se não fosse pelo o quê veio depois, pintou as unhas de preto, passou a usar batom escuro e se manter em silêncio. Algo que preocupou a todos, menos uma pessoa, que já havia visto esta reação em outras vidas, e não estava nada surpreso. 

    _Está com sérios problemas não é? 

    _Não começa Leviroth. Só me deixa em paz. _O quê aconteceu que te deixou assim desta vez? 

    _Nada. Só voltei a ser mesma Isabelle obscura de antes oras. 

    _A Isabelle de antes era como a lua, obscura mas com brilho, tudo o quê vejo é uma estrela morta. 

    _Volta pra casa. Eu não quero falar com ninguém. 

    _Eu volto mas você vem comigo. 

    Ele a carrega no ombro, e a leva como um cadáver abatido, ela   o olha com indiferença, e fuma um cigarro de menta, bebendo logo  depois. No entanto antes de saírem do viaduto, outro ser também não  muito preocupado surge, trajando roupas bem chamativas. Ao vê-lo  Leviroth, a coloca no piso, porém fica na sua frente, impedindo-o  de chegar tão perto dela. 

    _Velhos hábitos nunca mudam, não é irmão? 

    _O quê você quer? Não vê o estrago que causou? 

    _Vocês dois parem, não quero falar com ninguém. _Eu não fiz nada desta vez. Mas temo trazer más noticias, e acho melhor que ouçam. _Diga e se retire, se não quiser relembrar como foi preso naquela rocha mística. 

    _Já chega, eu não vou ficar aqui. 

    _Fique. Se forem para casa, podem morrer. 

    _O quê? A minha filha está lá! 

    _Não, não tá, quando vi que veio atrás de mim , sem ela, pedi a Victória que a levasse para a minha mãe. 

    _E eu coloquei demônios envolta da moradia, para matar qualquer ser que tente atravessar a barreira. 

    _Por quê faria isso? 

    _É óbvio que é pela Isabelle. 

    Ao ver a onde a discussão daria, a bela os deixa discutindo, sobre “quem é o macho alfa”, e passa entre eles. No entanto ao  chegar perto da rua, sente duas mãos diferentes em seus pulsos,  que a fazem ficar. O espectro deles é muito forte, tanto que a jovem sente tontura ao receber o impacto da  suas energias. 

    _Porquê deveríamos confiar em você? 

    É o filho traidor. 

    _Não se faça de herói Azazel. Esteve ao meu  lado, quando iniciei uma nova gerência dos  mundos. 

    _Gerência dos mundos? É assim que chama o seu golpe de estado? 

    _É até perceber, que meu próprio irmão, queria matar a deusa bebê, que viria a ser minha esposa. 

    _Eu não sabia que também me apaixonaria por ela. 

    _Olha isso não melhora as coisas. 

    _Não melhora mesmo. 

    _São um só espírito mesmo não é? Naquela época , eu só conhecia um amor, o da minha mãe. 

    _Espera dizem que somos gêmeos, está dizendo que... 

    _Não mesmo. 

    _Nós somos filhos de Inanna e Gulgalana. _Mas me disseram que eu era filho de Nyx, ou seja Lilith, como Luciféria e Aggarath. _Inanna é a mãe de vocês? Lúcifer traiu Lilith? _Não. Lilith é a metade de Lúcifer, ele não faria isso com a minha mãe! _Sim. Ele a traiu, mas Lilith nunca soube, por isso ele a fez crer que estava grávida, e quando nascemos, nos roubou de Inanna , e nos deu para ela. 

    _Por quê? 

    _É, posso pensar em mil razões, mas qual delas? 

    _Inanna iria nos devorar. 

    Imagens do passado inundam a mente do anticristo, e este respira fundo, nem sempre fora um pequeno mal, porém ao descobrir que não era filho de Lilith, entendeu que Azazel era,  e por isso ela o tratava melhor, assim se juntou a sua mãe, e tramou as ruínas do atual império em que se vivia. Infelizmente foi só na adolescência, quase na fase adulta que veio descobrir que Azazel também era filho dela, e que ela o fez entender de outra maneira, para que seus planos se realizassem. Lilith não tratava um melhor que o outro, apenas reconhecia as suas qualidades, e ele não era capaz de ver as  suas. Após saber das artimanhas da sua mãe e amante, ele tentou desfazer todo o erro, mas só piorou ainda mais a situação, pois a verdade, destruiu a rainha do Inferno de tal  maneira, que esta enviou o próprio marido para a morte, e este criou um ódio profundo do próprio filho. Todos o julgaram, pelos atos que cometera antes, e desta forma ele enlouqueceu.  

    _Eu deveria ter sido o sol e meu irmão aqui a lua. 

    _Você deveria ter sido luz e eu escuridão. 

    _Então eu nasci para realinhara-los?  

    _De certa forma sim, você desperta coisas boas em  mim, e sombras profundas nele. 

    _Eu inverto a ordem... não a equilibro. _É, e o escuro cresce ainda mais, quando lembro que você quer a minha esposa. 

    _Ela não é a sua esposa. Nasceu para luz e para as trevas, portanto pertence a nós dois. _Sem querer ser estraga prazeres, mas sou monogâmica, e não poligâmica. E não pertenço a ninguém só a mim mesma, o máximo que podem ter de mim é meu coração, mas eu sou eu. 

    _Pensei que era dele. 

    _Eu também pensei, agora estou na  dúvida. 

    A dama revira os olhos e outra vez lhes dá as costas, mas sem fazer alarde, ergue o celular, e se afasta um pouco deles, para tentar conversar com alguém, que não participa desta profecia, ou loucura toda. Os irmãos se entreolham, e se debruçam sob o parapeito do viaduto. 

    _Então qual é a má notícia? 

    _Temos uma mãe ciumenta, que quer que a filha de Lilith morra. 

    _Se afaste de Isabelle, e ela a deixa em paz. Pois não vai representar alguma ameaça. 

    _Não é tão simples. Inanna sabe que enquanto 

    Lucy existir, meus sentimentos serão dela, e por

    isso quer aniquilá-la. 

    _Por quê a quer tanto? É pela profecia de ela ser o equilíbrio? 

    _Não. Quando você e meu pai me jogaram na masmorra dos condenados,  Luciféria foi a única que veio falar comigo... 

    _Porquê não sabia quem você era. 

    _É, mas você bem sabe, que depois ela ficou comigo , por nossa similaridade. 

    _É, tal como eu e ela temos. Mas pelas armações de Miguel, acabei por abandoná-la, e isso te deu certa liberdade de se aproximar não é? 

    _Ou foi o destino que quis que nos conhecêssemos. _Oras Bael não seja tão tolo. Sabe tão bem  quanto eu que nós fazemos o próprio destino. 

    _Não vou discutir. Luciféria, Isabelle, te escolheu. Mas eu a escolhi, e é meu dever protegê-la de nossa mãe. 

    _Está bem, mas tente reviver os velhos tempos  com ela outra vez, e serei o único filho de  gêmeos. 

    Olha de canto para o irmão e este ri, enquanto a bela  liga para alguém do seu celular. Na tela surge o número que termina em 12, mas ela não consegue completar a ligação, e vozes começam a ecoar na linha, como se fossem indistinguíveis. Ela desliga o aparelho assustada , e caminha até os irmãos. Tudo começa a se iluminar a sua volta, fazendo-a ficar em desespero. Seus gritos não tem som, o Anticristo olha para trás, e se transforma em pó ao vento. Leviroth agarra seus pulsos , e ela segura em seu braço, tudo se destrói envolta deles , e a pobre cai no vazio, mergulhando numa escuridão profunda, na qual desaparece. O despertador toca, são 06:03, a jovem se levanta da cama, e corre para tomar seu banho. Está evidentemente atrasada. “Vamos Izzy vai se atrasar!” Grita Benner, e ela desce as escadas , já arrumada para sair. Ele sorri, e os dois entram no carro, seguindo viagem para o quê parece ser os seus empregos. 

    _Tive aquele sonho outra vez. 

    _O do Anticristo? 

    _Sim. Eu não suporto isso, é sempre o mesmo enredo e patético, onde sou o centro de alguma coisa importante, quando na verdade não sou. _Izzy. Eu sou o príncipe do Caos, e seu marido, nós já vimos Lúcifer, e ele te chamou de filha, como pode pensar ainda que não é especial? Você o libertou sabia? 

    _Não sem ajuda. Sozinha, ele teria continuado  preso, e o aconteceu depois disso? Ah é, ele me abandonou, e se fez ser notado pelo mundo! _Izzy. Lúcifer sabe o quê faz. Se ele ficasse do seu lado, certamente você iria sofrer as consequências de carregar o sangue dele, por isso se afastou. 

    _Pois eu preferia “sofrer as consequências”.  Do quê continuar sendo ninguém. _Mas você é alguém. É a rainha do primeiro reino do Caos. 

    _É? Mas quem sabe disso? Aliás quem teme , ou quer fazer pacto com Luciféria? 

    _Os vampiros Italianos?  

    _Não começa. 

    _Ué foi você que perguntou. 

    _Aff. Tá certo. Até mais, chegamos na escola. Ela desce do carro furiosa, e ele ri, observando-a partir, com sua saia longa, salto alto e blazer, como  se fosse a um enterro. “Essa é a minha mulher.” É o quê pensa apaixonado, e então dá a partida. Ela entra na sala, e todos param de fazer suas atividades, para se sentarem no seus lugares. A aula do dia, é sobre como o elo perdido foi desconsiderado, e que apesar dos estudos antigos mostrarem o homem como semelhante ao macaco, este era na verdade uma junção de todas as espécies de mamíferos, répteis, aves, e anfíbios. 

    _Então o Dr. Thomas John percebeu a discrepância na antiga pesquisa, e concluiu que a espécie humana é parente de todos os vertebrados, e não apenas o macaco, como se acreditava antes. _Professora Isabelle. Por quê defendiam tanto que o maior parentesco do homem era com o macaco? 

    _Devia prestar mais atenção na aula senhorita 

    Lina. Como disse Antes, por conta dos velhos estudos , que indicavam que 99.1% do DNA humano era igual ao dos primatas, concluía-se que o parente mais próximo do homem era este. _Professora Isabelle, então a teoria do  elo perdido na verdade é um erro? _Sim, Bill. Esse erro dos cientistas de acreditar que tinha apenas um elo, é uma piada. Já que agora foi comprovado, que o elo não existe, mas a conexão entre as espécies sim. _Professora essa descoberta do Dr. John , não abre ainda mais espaço para se defender a existência do elo? 

    _Sim e não Luíza. Pois a nova teoria de parentesco múltiplo, liga o homem aos vertebrados, mas não unifica todas as espécies. Bom já é 12:00, tenham um bom descanso, a palestra foi longa, e não mandarei dever de casa. 

    A bela termina a aula, e ajeita algo no computador, com um sorriso tristonho. Os alunos se despedem, e vão embora para os seus lares, porém quando a bela chega no corredor, se depara com um grupo de adolescentes de preto, que estão desenhando um pentagrama rubro no piso, e por isso para de caminhar, e observa o feito dos alunos. 

    _O quê estão fazendo senhoritas? 

    _Nada que seja da sua conta santarrona! _É, vai entrar no seu carrinho estúpido, e nos deixe em paz falou?! _Um pentagrama... Querem invocar algo eu presumo. 

    _E se quisermos? Seu Deus falso, não vai poder impedir! 

    _É, aceita que dói menos titia! 

    _O quê acham que são? Filhas do Inferno , que podem atormentar os outros por prazer? 

    _Não que seja do seu interesse, mas é o quê somos. Nós ouvimos o chamado do senhor das trevas! E iremos obedecer cada ordem do libertador! 

    _É nós vmos devastar, esse centro de ensino , para que o apocalipse se inicie aqui. _Vão para casa. Saiam disso. Satã não é senhor de ninguém, na verdade é um idiota , tão mesquinho e mentiroso, quanto o Pai. 

    _O quê você ousou dizer?! Satã irá cortar tua língua! 

    _Tá querendo morrer veia?! 

    _Vocês são uma piada.  

    A professora ri, e vai embora deixando as garotas góticas  para trás. “Essa vagabunda da Isabelle tem que pagar!” Pensa  a líder do grupo, e lhe lança um feitiço quebra ossos, porém ao receber aquela energia tão tenebrosa, a dama abre suas asas , e o poder da bruxa se torna inofensivo. Ao ver aquilo as jovens se apavoram, pois percebem que a educadora , é na verdade um anjo.  

    _Deixem-na em paz!  

    _Aaaah! 

    _Olá... 

    _Ela pode destruir suas almas se quiser. 

    _Sa-Satã... 

    _Pai. 

    _Olá minha garotinha favorita. 

    _Satã é seu pai?! Mas você é um anjo! 

    _Perguntem a Lilith, foi ela que me gerou. 

    _Isso é verdade. 

    _Você é filha de Lúcifer e Lilith?! _Não. Sou filha de Bruna, a bruxa mestiça que deveria reinar ao lado de Satã, segundo uma série tosca de televisão. 

    _As aparências realmente enganam não é? O rei do inferno, se transforma em uma pilha de pó, e rapidamente volta a sua forma humana, que é idêntica a do ator do programa de TV.  As meninas se escondem atrás da líder, e esta faz sinal para que se afastem, e se curva  aos pés do belo homem, que acha graça do fato,  e segura no ombro da professora. 

    _Você está aqui em busca da próxima Bruna, como A madame escuridão? 

    _Em primeiro lugar, eu detesto Bruna. Em segundo jamais procuraria pela próxima bruxa poderosa, pois depois de Lilith eu sou a única. 

    _Pode parecer arrogante mas é verdade, ela é a primeira da minha linhagem com Lilith, e portanto carrega mais genes divinos que os demais. 

    _Mas você odeia magia, só se foca em ciência e fatos concretos. Isso não tem lógica! 

    _Tenho minhas razões, não é papai? 

    _Ela me odeia porquê quis protegê-la, e dei fama e poderes as suas irmãs.  

    _E o quê isso tem a ver?  

    _Tem a ver que graças a esse idiota, eu não alcancei o meu status de Deusa, e por isso sofro humilhações nas mãos de humanos estúpidos feito vocês. 

    _Desculpe. 

    _É por ser tão simpática, que ainda não tem tantos  seguidores minha bravinha. 

    _Desculpa, mas sorrisos falsos não são pra mim. Olha com indiferença, enquanto os olhos vão para o teto, com certo desprezo, e ela cruza os braços. Ele ri e a abraça forte, ela fica com os braços colados ao corpo, evitando aquele gesto de carinho, o quê deixa as garotas horrorizadas, pois dariam suas almas para serem filhas. 

    _Igual a mãe quando sente raiva. São as únicas mulheres, que tem tanto poder sobre mim. _Não é o quê soube. Afinal sua filha com Inanna , tem o prazer de jogar isso na minha cara, enquanto está lá no topo por sua voz de sereia. 

    _Sexo e amor é diferente. Eu tenho responsabilidade por Victória, pois ela e o seu marido são frutos do meu deslize. Mas eu amo você e sua mãe. 

    _É um deslize antes e depois do meu nascimento. Tem certeza que nos ama mesmo? Eu duvido. _Está bem, não estou aqui para discutir o quê é o certo ou errado.  Vim para te ajudar, mas já vi que pode se virar sozinha. 

    _É o quê acontece, quando o próprio pai nos abandona no mundo! A gente tem que saber se cuidar! E aliás eu votei na família Messiânica pra presidente! 

    _Grande coisa eu fiz o mesmo nos E.U.A! 

    Ele berra, e ela vai embora fazendo o sinal do cotoco , ignorando todo o tumulto. Ao ver aquela discussão, as meninas notam que mesmo no Inferno há conflitos, como  na vida humana, e correm para abraçar o papai renegado, mas este faz um sinal para que não se aproximem, pois se sente muito triste pela rejeição da sua primeira e única filha com Lilith. 

    _Ela é uma grata senhor. 

    _Não, não é. Aquela menina sofreu demais por minha culpa, ela tem razões para me odiar. _Como pode defendê-la depois de tamanha recusa? 

    _Ela é filha do meu grande amor, e este amor se 

    estende até a minha menininha. 

    _Deixe-a ir senhor. Ela é apenas uma, enquanto nós somos muitas, e daríamos tudo para sermos suas filhas. 

    _Eu não preciso de mais filhas.  Preciso é de menos, e se querem tão desesperadamente o meu apreço , devem começar por ela. 

    _Mas senhor! 

    _Sem mais. Se querem ter alguma importância no inferno, devem fazer a minha princesinha se sentir como tal. 

    No dia seguinte... Isabelle está no computador, preparando o material para a aula do antigo DNA lixo, que agora é conhecido como DNA Ouro, pois graças a esta brilhante descoberta, que o Doutor John fez uma revisão da antiga pesquisa, que mostrava os humanos como parente mais próximos dos primatas, e isto seria útil para a futura prova. Uma das meninas do dia anterior, a olha sem jeito, e entra na sala. 

    _Veio trazer algum recado das suas amiguinhas adoradoras de Satã? 

    _Não. Eu vim pedir uma trégua, e que me ajude pois se as outras descobrirem, elas me matam. 

    _Por quê eu deveria te ajudar? 

    _Eu não levantei a voz para a senhora, ao contrário das minhas amigas. 

    _Mas também não teve coragem para ficar ao meu lado, então repito por quê deveria te ajudar? _Eu posso te tornar uma deusa, por quê acredito em 

    Você. Depois de ontem encontrei o seu site Senhora Noturna, e percebi que você não é só a filha de Lúcifer. 

    _O quê quer dizer com isso? 

    _Você é a Arádia. A nossa messias sagrada, que veio para proteger o povo da escuridão, e nos guiar junto do Anticristo. 

    _Ah meu outro segredinho foi descoberto. O quê acha que ganhará com isso? Fama, sucesso, poder? Não sei se notou mas sou só uma professora do segundo grau. 

    _Nada. Apenas poderei ajudar a minha mãe, a subir no trono que sempre lhe pertenceu. 

    _Do quê está falando?! A minha única filha é Isandra! _Não segundo essa marca. Eu sou filha de Arádia e o Arcanjo Miguel, portanto pertenço a  

    você. 

    _Como posso saber que isso não é um jogo de manipulação , para saberem as minhas vulnerabilidades? 

    _Porquê ela não está mentindo Luciféria. 

    Diz um homem de cabelos longos entrando no lugar, e a dama se afasta, empurrando o computador com as unhas pintadas de preto, totalmente atordoada pela figura. Sim era o próprio anjo que estava ali diante dela, confirmando a história da menina, e para ter certeza, este abre as asas, e seus olhos mel se tornam azuis, enquanto os dela ficam violetas, iguais aos de um dragão. 

    _Eu soube que tive filhos de Belzebu, mas de você? _Foi há muito tempo, quando desisti do céu para que pudéssemos ficar juntos. Infelizmente você morreu no parto, e Bael apagou sua memória para não te perder pra mim. 

    _E quem é a mãe dela desta vez? Posso saber? _Ela não tem uma mãe específica, foi feita no  laboratório, com os genes e a essência de  nossa filha Laura. 

    _Espera eu só posso produzir meninas? 

    _Sim, mas houve uma vez que gerou um garoto, só que  ele seguiu seus passos e virou bissexual. _Faz sentido. Desculpe Laura, eu não me recordo mesmo, mas isso não significa que vou te abandonar certo? Agora se me derem licença, eu preciso ir  para a minha vida humana. 

    Ela tenta sair daquele local, mas o arcanjo segura no seu braço, e lhe diz algo no ouvido. Ao ouvir tais palavras, ela engole aquilo com desgosto, e lhes dá as costas. “Qual o tipo de vadia que eu fui na outra vida? Já é o 5 filho que me aparece.” Pensa entrando no carro, e então dirige para a casa. 

    Ao contrário do quê se possa imaginar, a professora não mora numa casa qualquer, mas sim numa enorme  mansão, com detalhes antigos, e não é o seu salário que arca com isso, mas sim os seus investimentos em ações da bolsa. Ao vê-la a pequena Isandra corre para lhe abraçar, e as duas entram na casa. 

    Benner está sentado na frente do computador, verificando os lucros da família Calligari de La Cruz, mas ao vê a esposa e a filha larga tudo, e vai lhes dá atenção. Os três entram numa sala escura, onde tem um sofá marrom bem confortável, com uma gigantesca tela de plasma, e todos os tipos de eletrônicos , de realidade virtual, que se possa imaginar. Cada um coloca o seu capacete, e então os três vão para outra realidade, que se passa no tempo medieval, mas tem muitos detalhes bem futuristas, na qual Isabelle é um anjo, Benner um arqueiro demoníaco, e a filha uma curandeira. 

    _Lá vem o dragão! 

    _Se abaixa Isa! 

    _Você também Izzy! 

    _Socorro! 

    _Isaaa! 

    _Izzy!  

    _Mãe! 

    _Deixem comigo! Grito de Tiamat! 

    _Flecha da Fênix! 

    _Cura mágica! 

    Ondas devastadoras saem dos lábios de Isabelle, e ela flutua no ar. Uma fênix gigante em forma de fogo, cobre o gigantesco dragão, e este gargalha sem parar, enquanto o escudo protege a família. O dragão se transforma em um homem de longos cabelos pretos, e olhos vermelhos, que quebra a cúpula de energia, e sequestra a avatar ruiva. 

    _Mamãe! 

    _Isabelle! 

    _Benner! Isandra! 

    A dama grita e então todos retornam para a mansão, menos Isabelle, que é puxada para a França.  Onde acorda nos braços de um homem semelhante ao avatar, mas de olhos castanhos quase vermelhos, em vez de brilhantes cor de rubi. Ao ver que não voltou para casa, ela tira o capacete em estado de choque , e se afasta da estranha figura loira e vitoriana, pegando a primeira faca que aparece para se defender. 

    _Quem é você?! E o quê quer comigo?! _Sou um velho amigo, que tem te acompanhado  a vida toda. 

    _Você se ferrou. Miguel apareceu ainda pouco. 

    _Não sou Miguel. Sou Bael. 

    _Bael não é meu amigo, e você não é Belzebu. 

    _Garota eu te transferi do seu país para o meu , enquanto estava jogando. Literalmente distorci a realidade ao meu bel prazer. Tem certeza de que não sou? 

    _Tem uma possibilidade de 75%. _Sempre cabeça dura.  Quer que te prove de  outra forma? 

    Os dedos com unhas grandes seguram o rosto da bela dama, enquanto ele sorri pronto para beijá-la, mas ela se afasta dando um passo para trás, com o olhar de nojo. Ele revira os olhos bem irritado, e a pega pelo pulso, levando-a a força para o sofá, onde a joga de mal jeito, fazendo-a fechar as pernas com rigidez, por temer que ele veja o quê tem por baixo da sua saia longa. 

    _Acabou o romance? Que rápido! 

    _Você é uma idiota. 

    _Me trouxe da América do Sul, só para me xingar? 

    Eu devo ser muito importante mesmo pra você! 

    _Você é, e sabe disso. Não se faça de tonta. _Certo. Eu estaria horrorizada, se não tivesse sido quase abduzida por você há 4 anos. Pode falar então por quê me sequestrou dessa vez? 

    _Estava com saudades. 

    _O idiota agora é você pelo visto. 

    _Eu não pude resistir. Você e sua família devem ir para o subsolo, daqui há 3 horas  se quiserem viver. 

    _Por quê? 

    _Tenho planos para iniciar a fundação do Novo Mundo. Por isso estou te avisando. 

    _E a minha casa? Eu levei 3 anos para conseguir a mansão!  

    _Ah para de choramingar. Eu te arrumo 3, em apenas 4 minutos. 

    _É se me tornar a Senhora Zebu. 

    _Não, isso vai ser em breve, mas não vem ao caso. Apenas arrume as suas coisas, e vá para o local indicado. Quando sair de lá, tudo estará  normal. 

    _Eu nunca vou me casar com você! _Disse isso da outra vez, mas aceitou de bom grado, minha querida Ishtar. 

    _Me mande logo para casa, e nunca mais me chame por esse nome maldito, dado em homenagem a sua primeira esposa. 

    Diz dando as costas para o homem, que segura em seu ombro, e lhe dá um aparelho com as coordenadas  do local para onde ir. Ela pega o tablet, e ele lhe dá um  abraço forte, como se quisesse evitar o seu sofrimento, porém ela não retribui, age da mesma forma que fez com o pai, e ele se obrigado a apelar, e a beija  

    no rosto, perto da boca. 

    _Se controle. Tudo o quê aconteceu foi há  mais de mil anos. 

    _Pra mim foi ontem. Há alguém mais que queira proteger, e alertar? Meus homens podem cuidar disso. 

    _Deixa que eu mesma aviso. Quanto tempo ficaremos lá?  

    _Até a fumaça se dissipar.  

    _Fumaça? 

    _Para o novo mundo existir, o velho precisa ser destruído. Em breve saberá mais detalhes. 

    _Eu tive muitas visões...Não é o quê... _É exatamente isso, e enquanto o seu poder  não for desbloqueado, é melhor que esteja em  segurança, junto dos seus amados. 

    _Não vai me separar deles vai?  _Não, mas quero que coopere e nos ajude a  libertar o seu poder. 

    _Por quê? 

    _No novo mundo, o homem vai caçar as bestas, e só eu não vou poder proteger a todos. _A velha história do Anticristo e a Messias negra. _É, mas não iremos nos casar, a não ser que queira. 

    _Pode ter certeza que não quero.  _Então assim será, mas te garanto que não vou desistir, não programei todo o mundo , para ficar sem a princesa no final. 

    _Me manda pra casa! 

    Ela grita com raiva, e ele a manda de volta para a mansão. O corpo dela se materializa, e a bela retorna para o lar. Tudo está escuro, e Isandra e Benner foram atrás dela. Sem pensar duas vezes, pega o telefone, e liga para eles. Infelizmente não há sinal, por isso ela pega o punhal na gaveta,  e vai atrás deles. 

    Há um céu cinza, com névoa por toda parte. Em vez de usar os sapatos altos, ela está com uma bota de plataforma baixa, e uma bolsa preta com a alça envolta do corpo, na qual guardou a lâmina. Ela sai da moradia, olhando para os lados em total desespero, preocupada que não os ache a tempo. 

    _Bael? 

    _Oi. Precisa de ajuda? 

    _Sim, essa sua manobra idiota, custou a minha família! 

    _O quê? Como assim? 

    _Eles desapareceram! Se isso foi alguma armação sua, eu juro que vou libertar meu poder pra te matar! _Se acalma princesa mimada. Eu vou localizá-los, e os mandar para o bunker em segurança. 

    _Eu não confio em você! 

    _Vai precisar. Desça e aguarde a minha ligação. 

    _O estranho é que seu número funciona. Bael! _É criado para ser um número de emergência,  por isso funciona. Agora desça. 

    _Eu... 

    _Eles estarão lá acredite em mim. Até mais. 

    _Bael! 

    _O quê é? 

    _Vou escrever uma lista de 10 pessoas que quero proteger. 

    _Ainda bem que não é amada pelo mundo, senão não iria me deixar destruído. Vou salvar todos. 

    Ele desliga, e ela fica preocupada, em vez de obedecer, pega o carro, e vai para a cidade. Ao perceber que ela não o ouviu, o anticristo se enfurece, e toma controle do veículo prendendo-a contra o banco, com o cinto de segurança, que agora é feito  de nano filamentos  automatizados, e por isso podem ser manipulados por hackers. 

    _Não pode ir pra cidade sua maluca! 

    _Você não vai me impedir de salvá-los. 

    _Eu já disse que vou te ajudar! 

    _Eu já disse que não confio em você! _Ah finalmente! Pronto! Eles estão há 10 km de você! E ainda tem 2 horas para achá-los! Se acalma! 

    _Avise-os. Eu vou até lá! 

    _Eu vou te guiar.  

    _Avise-os! 

    A voz do rádio para de responder, e ele lhe devolve o poder de dá a partida. A professora dirige até o local indicado, e não  acha ninguém ali, por isso pega o seu celular e volta a ligar para os seus familiares. Novamente não há sinal, e por isso ela bate violentamente contra o painel, com tanta raiva que parte do  seu poder desperta, e ela quebra o motor. “Porra!” Grita furiosamente, e se agarra ao volante entre lágrimas. 

    _Luciféria? 

    _O quê quer?! Me mandou pro meio do nada! 

    _Levante o rosto... 

    _Leviroth!  

    Ela abraça o marido, e olha para o lado procurando pela filha, mas ele explica que a menina está dormindo dentro do carro, pois desmaiou após caminhar por horas, procurando a mãe. Ao ouvir isso, a dama se sente culpada, e se lembra de Laura, que deve está em casa sem saber o quê está para acontecer. 

    _Bael? 

    _Sim.  

    _Por favor avise Laura Miller e Nicolas Miller. 

    _A sua aluna e o pai? Por quê? _Ela é uma das minhas futuras aprendizes, e aquela que já demonstrou lealdade, ela merece isso. 

    _Tudo bem mais sua lista de 10 pessoas com conexões, fecha aqui ok? Não sou Jesus para  salvar todos. 

    _Na verdade é sim. 

    _É mas o “todos” a que me referia eram os meus escolhidos, o resto são pecadores. 

    _Agora a bíblia faz sentido. 

    Brinca e o demônio ri desligando o aparelho. Ao notar algo errado, o príncipe do Caos quebra o rádio, e entra no veículo. Sentando-se com ela, no seu colo. Ele lhe dá uma  mordida no pescoço, tentando arrancar a toda a verdade  dela, mas a mulher percebe, e ri da tentativa. 

    _Está bem eu conto demônio chato. 

    _Então não perdi o jeito. 

    _Laura é minha filha. Minha filha da época em que era Arádia e Miguel caiu. 

    _E Nicolas é  Miguel. 

    _Sim, ele tem cuidado sozinho da Laura, e ela é uma boa garota mas tem andado com más companhias. 

    _Já se apegou a garota. 

    _Sim. Promete que não vai armar pra ela morrer? 

    _É claro. Elisa foi uma lição. 

    _Se algo der errado, eu mesma a destruo. 

    _Está bem. 

    Ele a abraça, e os dois mudam de carro. Ao entrar no Saveiro prateado do marido, ela encontra a filha dormindo, enrolada na sua jaqueta, e sorri, fazendo carinho na cabeça do seu par. Eles seguem até uma estação abandonada, na qual encontram outras famílias sobrenaturais, que aguardam  pelo metrô. Laura e Nicolas, estão no canto, junto das  amigas da filha de Isabelle, e isto não lhe agrada nem um pouco. 

    _Fiquem aqui. 

    _É a Laura Miller? 

    _Sim. 

    _Izzy. Faltam 23 minutos para o trem chegar. 

    _Eu resolvo isso em 2! 

    Diz caminhando em direção a adolescente e as amigas, e para diante delas, olhando para Laura com bastante fúria. Ao vê-la entre o sobreviventes a menina arregala os olhos, e cospe o sorvete que o pai comprou. Sem dizer uma palavra, a garota vai até a professora, e as duas se afastam. 

    _Eu quis te proteger. Não essas inúteis. _Elas são minhas amigas Isabelle, não podia deixá-las morrer. 

    _Aliás cadê a rainha boca suja de vocês? 

    _Essa daí eu posso deixar pra trás. _Está dando um golpe de estado? É isso que Nicolas tem te ensinado? 

    _Mãe eu preciso assumir o meu lugar. 

    _Se é um lugar roubado. Não é para ser seu. _Você teria feito a mesma coisa no meu lugar. 

    _Não, eu teria deixado Todas para trás, ou escolhido quem fosse leal a mim. Essas garotas não gostam de você Laura! Elas só gostam de permanecerem vivas! _E o quê quer que eu faça?! Deixar que todos me odeiem como você?! _É melhor ser odiada por idiotas, do quê ser amada por eles por 2 minutos, e morrer com uma faca cravada nas costas. _Ninguém nunca vai te matar, porquê não tem uma pessoa te seguindo. _Escute aqui pirralha. A única razão para sobreviver a este Armagedom, é porquê o Anticristo me escolheu. Então dobre a língua ao falar comigo. 

    Diz furiosa, e se afasta da garota, indo para a sua outra família, que a recebe de braços abertos, e sorrindo. Laura estava iludida, sobre o quê ter poder, e se chateia muito , ao ver que a irmã, é muito mais parecida com Arádia , do quê ela, por isso engole sua raiva, e volta para as amigas. 

    Isabelle se senta ao lado de Benner, e carrega Isandra no seu colo, enquanto revisa os nomes das 10 pessoas que ela escolheu para sobreviver. Os primeiros 4 nomes são os mais conhecidos. Não é porquê ela e as amigas perderam o total contato, que ela não iria lhes querer bem. Infelizmente o nome de Natasha é riscado, pois esta se recusa a “Viver em paz, em cima de um castelo, que é sustentado pelo sangue de negros e homossexuais.” Ao ler isso a bela ri com compaixão. 

    Natasha tinha sido tão cegada pela mídia, que nem era capaz de perceber, que não havia mais distinção entre os ricos e os pobres, mas sim entre os seres paranormais, e os humanos. Nada era mais azul ou branco, e sim um perfeito e profundo negro, que unificava as espécies mais fortes. 

    O trem chega e as portas se abrem. No tablet de Isabelle se encontra a recomendação de que siga no segundo trem com a sua família. No entanto por manipulação da própria, Laura deve mandar as amigas no primeiro, e pegar o  próximo. Sem sequer se despedirem da menina , as bruxas entram no transporte. 

    É quando Laura percebe que não tem mesmo amigas, pois estas seguiram o caminho, abandonando-a para trás, por acharem que há mais chances se entrarem no primeiro trem. Ao ver isso Nicolas abraça a menina, que chora sem parar, implorando para que fiquem com ela, mas as garotas só prezam por sua sobrevivência. 

    O segundo trem chega, e por ironia do destino, ou mesmo manipulação do anticristo, Isabelle, Benner, e Isandra, dividem o dormitório com a família Miller, que fica feliz e triste por se juntarem aos De La Cruz. Nicolas e Benner se encaram de imediato, e Isandra e Laura também, o quê faz Isabelle se sentir desconfortável, ao ponto de se sentar no meio deles. 

    _Isa diga olá para Laura, ela é sua irmã. Sim Benner. Nicolas é Miguel. Sim Miguel , Benner é o Rei Leviroth. _Olá “irmã.” _Olá “irmãzinha”! 

    _É um “prazer” Nicolas. 

    _Digo o mesmo Benner. 

    _Por favor não briguem.  

    _Não tenho porquê mamãe.  

    _Eu menos ainda mãe. 

    _Posso conviver com isso. 

    _Eu também. 

    _Alguém me trás muita cerveja! 

    _Eu quero 1! 

    _Eu quero 3! _Isandra Sônia Calligari De La Cruz, Você não tem idade para beber. 

    _Nem você Laura Irina Miller! 

    _Pelo menos concordaram em algo. 


    Capitulo 6 – O Ataque 

    O vagão para por um momento, ao chegar diante de um túnel. A família De La Cruz e os Miller acordam de seus sonos leves. Um grupo de serviçais de branco e mascarados, entra nos quartos, com bandejas, nas  quais se encontram máscaras de aves, para impedir a entrada do ar. A maioria delas é de corvo, mas há uma de coruja, que traz um bilhete específico para Isabelle. “Os líderes devem ser distintos dos sobreviventes. Você entrou no transporte vip do Inferno, aproveite a sua estadia.” Ao ler tais palavras, ela engole seco, e coloca a sua proteção estilizada. Curiosa para saber o quê está havendo, a bela cutuca um dos serventes. 

    _Qualquer um pode colocar essa máscara? _Não senhorita. O senhor Bael disse que a coruja é especificamente para você. 

    _Por quê precisamos das máscaras? 

    _Logo entraremos no Novo Mundo. Mas para este Nascer, o velho deve deixar de existir. 

    _Será uma bomba de gás? _Sim. Queremos destruir os impuros, não o planeta. 

    _Está bem. O quê ele faz? 

    _Logo verá em primeira mão. 

    A mulher sorri, colocando a máscara de pombo negro, e se retira. Após todos se vestirem adequadamente, um alarme é ressoado, e  se abre uma porta no escuro. Dentro de cada corredor, desce uma tela de plasma, que transmite o quê está ocorrendo no mundo  afora. O caos se espalha por cada continente, muitos se escondem nos bunkers, e bem ao lados dos trilhos, é possível presenciar toda a confusão. O gás é inspirado pelos cidadãos, que foram pegos  desprevenidos, e estes morrem em questão de segundos , vomitando sangue. O metrô do novo mundo para. Os que estavam conspirando contra o sistema, surgem em grande escala, e tentam abrir as portas. Há uma mãe segurando um bebê recém-nascido nos braços, que não para de chorar, com a sua pequena máscara de gato azul. Ao vê-la Isabelle, corre para lhe ajudar, só que antes que chegue a porta, surge uma mulher leoa. “Uma cobaia de Thomas John?” Nicolas conclui, ao olhar para a marca de um T e um J entrelaçado nas costas da criatura, que está a devorar os órgãos saindo do peito da mãe, com a boca toda suja de vermelho, enquanto o bebê mole se rasteja pelo piso, tentando sobreviver, machucado por suas garras. “Ele vai morrer!” Isabelle grita ao ver a criança. Notando o olhar de Nicolas e de Benner, ela percebe que ninguém está disposto a ajudar, por isso escapa pelo meio da  multidão, e abre as portas deixando o gás venenoso entrar. A bela coruja corre até o bebê, e a mulher leoa sente o seu cheiro. “Isabelle!” O outro ser com fantasia de coruja, fica apavorado pela situação, só que por medidas de segurança, o esquadrão dos brancos, fecham as portas. “Eu sou o chefe de vocês! Não podem deixá-la para morrer!” Discute com a equipe das aves noturnas, e enquanto isso Benner e Nicolas tentam sair para salvar a jovem mulher. “Eu, eu vou te proteger.” Ela diz com lágrimas, pegando o pobre bebezinho, que não para de chorar. Os seus berros são detestáveis,  só que naquele momento, tudo o quê quer é salvá-lo. A barriguinha dele, está coberta pelo fluxo escarlate, que não para de sair. “Não, não, não”  Ela abraça o menininho, segurando sua cabecinha chorona, ao correr da leoa humana. Porém esta pousa na sua frente, e atira a cabeça da mãe, ao seu lado. Fazendo-a ficar rígida de medo. 

    _Me dá a sobremesa. 

    _É uma criança! Não pode fazer isso! 

    _Ele iria crescer e destruir o novo mundo! 

    _O quê? 

    _O olho de Deus nos mostrou o futuro. 

    _O futuro não é inalterável. 

    _A única chance do mundo prosperar é se ele morrer. 

    _Então o mundo vai ser destruído. 

    Por quê eu não vou entregá-lo! 

    Ela grita, e a fera vai para cima dela. Ao ouvir o rugido, Benner, Bael,  e Nicolas, olham para a direção da moça, e ficam em pânico, pois há  uma falha na contenção, e sua roupa é rasgada, fazendo-a absorver   a névoa venenosa. Ela grita, e gotas vermelhas mancham o piso de  azulejo branco. Pouco a pouco, sente o veneno fazer o efeito, e se torna difícil respirar, só que ainda sim não larga o  nenê. 

    _Já chega Esfinge! 

    _Mas senhor ela está com o bebê! _Não importa! Encoste um dedo  nela, e eu juro que te mato! 

    _Sim senhor. 

    Esfinge se retira do local, e o anticristo vai até a moça, que segura o menininho contra o peito, cuspindo sangue sem parar. Ele a pega em seus braços, e passa a mão em seus cabelos, vendo-a empalidecer cada vez mais. “Isabelle que bobagem foi fazer?!” Pensa ao olhar para os seus braços, que seguram o garotinho, que também está prestes a morrer. “ 

    Isso foi idiota! É apenas um mortal!”  Mostra o olhar desaprovador 

    , então a bela agarra em sua gola com a mão livre, e o olha 

    implorativa. 

    _Salva o meu bebê. 

    _O quê? Surtou? A mãe dele é outra! 

    _A mãe dele sou Eu agora. _Isabelle não! Você vai ter que ficar pra trás se o quiser! 

    _Odin. Odin é o nome dele! 

    _Você está morrendo! 

    _Salva o meu bebê! 

    Ela berra em desespero antes de desmaiar no seu colo. Notando que não há como convencê-la de abandonar o garotinho, ele descobre o rosto, e morde o seu pulso, sugando o próprio sangue, para guardar na bochecha. Os lábios não param de pingar, e por isso ele transmite a cura da morte para ela com o  seu beijo fervoroso, que não é retribuído. Os olhos se abrem, mas não são  cor de mel, e sim violetas azulados, semelhantes aos de um dragão. Ela percebe  que foi salva por ele, e lhe bate para que ajude a criança também, obrigando-o a alimentar o bebê, como se fosse um passarinho. O olhinho da criança se abre, e a bela sorri, estranhando aquela reação o anticristo fica  desconfiado.  

    _Por quê fez isso? 

    _Eu não suportei ver um bebê morrer. _Para o novo mundo existir sacrifícios serão feitos, precisa se acostumar. Não vai poder salvar todas as crianças do mundo. 

    _Eu sei. Mas quem puder salvar com toda certeza eu irei. 

    _E o quê vai fazer com isso? 

    _É um menininho. 

    _Tanto faz. Não pode entrar no bunker com ele. 

    _Então eu vou ficar aqui. 

    _Ah não. Eu não te avisei como proteger os seus amados, para você ficar no velho mundo. 

    _Então terá de aceitar a mim e o  bebê. 

    Benner e Nicolas se aproximam com as meninas, que ficam assustadas pela forma como mãe segura o bebezinho. É claro que ninguém aprova a decisão da moça, mas como Bael tem autoridade sob o conselho, ela entra no transporte, e é levada para o novo mundo. Todos ficam descontentes pela conexão que ela teve com o recém-nascido, e por isso quando esta dorme ao lado do bebê  e as suas filhas, estes se reúnem fora do vagão, e discutem sobre o quê  está havendo. 

    _O quê foi aquilo lá fora? 

    _Acho que tenho uma ideia. 

    _Também acho. 

    _Desembuchem. Ela é a mulher mais complexa do mundo, não deu para ler todos os seus arquivos. 

    _Isabelle sempre quis ter um menino. _Mas de acordo com os avanços científicos , ela só pode produzir meninas. _Então ao ver o menino que perdeu a mãe, ela não perdeu a oportunidade... _Sim. Ela o chamou de Odin não foi? Odin é o nome que daria para o  nosso filho. 

    _Ela deve pensar que é coisa do destino. Ninguém vai separá-la desse menino. _É mas segundo o olho divino ele é  o homem que vai destruir o meu império. 

    _Não vejo mal nisso. 

    _E eu menos. 

    _Típicos dos homens que não fazem a diferença. 

    No dia seguinte... Isabelle cuida da criança que adotou, com a ajuda da  equipe de cientistas do anticristo. Em vez de se opor a criação de Odin, o belo e ardiloso homem de negócios, se aproxima da bela e o novo filho, e tenta manipulá-los. “Leviroth não quer ser o pai dele, não é? Eu assumo  a responsabilidade.” Ele se oferece para dar seu sobrenome ao novo membro da família de Isabelle, e ela nega com educação, pois  ao que parece Leviroth aceitou o nenê. 

    _Ele tem o meu DNA. Eu o salvei da morte. 

    Mereço ser o pai dele. 

    _Bael. Benner já aceitou. 

    _Mas fui eu que salvei vocês. 

    Não é justo. 

    _Qual é o seu interesse no Odin? 

    _Ele vai destruir o meu império Isabelle. Mas acredito que se for o pai dele, posso mudar isso.  

    _Vai manipular ele? 

    _Se eu for um bom pai, não haverá razões para odiar o quê construí _Na boa Bael. Cê surtou. 

    _Me dá ao menos uma chance. 

    _Não. Ele será um De La Cruz. 

    Não um Baltazar. 

    Benner chega a estufa onde a esposa brinca com o bebê, e se depara com ela e o anticristo conversando de maneira bem íntima. Seus olhos ficam vazios, e este se recorda de quando ela estava para morrer, e ele a tomou nos braços, acariciando o seu rosto, e lhe dando sangue com um beijo. É claro que ela não retribuiu, porém na mente do príncipe do Caos, este ato de heroísmo poderá custar tudo o quê ele batalhou para manter, o seu casamento. Simulando uma tosse, ele dá passos longos para perto da amada, e o bebê, e a beija com carinho, mas  quando os lábios se desgrudam, encara o rival. _Eu pensei que era contra a adoção do menino Odin. _Ele carrega o nome do único Deus acima de mim,  e ao qual eu respeito. Além disso veio para te destruir, é o suficiente pra mim. 

    _Não precisa disso. O pai de Odin é o Benner, não há discussão. 

    _Não me obrigue a isso. 

    _Obrigar a quê ? 

    _O quê está escondendo? 

    _Esse menino é meu filho com aquela mulher. 

    _Você é o pai biológico do Odin?! 

    _Sim, e ela é a mãe biológica dele. _Opa. O quê aconteceu naquela abdução  há 4 anos?! Eu não me lembro de muita coisa.  Só de um lugar branco como um laboratório  alien, e está muito drogada. 

    _Nós colhemos seu material genético. 

    Foi assim que Nicolas reviveu Laura, e eu criei esse bebê. Só que ao perceber o quê ele faria, dei a ordem para impedir a continuação da gravidez. 

    _Vocês realmente abduziram minha mulher, para fazer experiências bizarras?! 

    _O quê você fez? 

    _Não foram tão bizarras. Ela tem o sangue e a essência de Lúcifer, era perfeita para o meu herdeiro. 

    Eu mandei matar a barriga de aluguel, e ela fugiu , descobriu que sou o anticristo, e se juntou aos conspiradores. 

    _Não há escrúpulos pra você mesmo. 

    _Você tentou assassinar meu único menino? 

    _Isabelle você tem vários filhos mundo a fora. 

    Odin é um de milhares. 

    _Eu ia ver a morte de um ser que é DNA do 

    meu DNA. O único menino que pude ter, e você ia  tirá-lo de mim! Nunca mais se aproxime da gente! 

    Grita furiosa, pegando o bebê no seu colo, que não para de chorar, e sai da estranha instalação. Bael bufa de raiva, e Benner o encara com indiferença. Fica claro que logo vão discutir, mas mesmo assim o belo loiro, respira fundo, e abre espaço para que se sentem a mesa, e conversem de forma civilizada. O marido se acomoda, e junta as mãos com um sorriso de fúria, enquanto o senhor  do novo mundo, apenas aguarda o quê está por vir. _O quê queria com esses herdeiros sintéticos? 

    _Um exército de seres fiéis a mim e a minha rainha. 

    _Ela é a Minha Rainha.  

    _Não por muito tempo. No outro mundo você é alguma coisa. Aqui eu sou, e não sei se lembra mas a sua amada ama tudo o quê se refere a minha cultura diabólica. 

    _Ela ama tudo o quê se refere ao Pai dela. _Ou será que é ao seu verdadeiro marido? Nunca houve um divórcio adequado, esqueceu? 

    _Luciféria morreu Bael. Esta é Isabelle. 

    Elas não são a mesma pessoa. 

    _Então terei que te roubar Isabelle também. 

    Porquê ela tem o espírito da minha Lucy. _Depois de tentar matar o Odin, ela nunca vai  te querer. Não importa quantas vezes venha a salvá-la. 

    _Ah qual é. Eu fiz coisas bem piores na outra vida, e ela ainda sim casou comigo, e tivemos a Memphis  , da maneira tradicional. 

    _Que ela foi obrigada a matar, porquê tentou eliminar Elisa e Marisa.   

    _Mas ainda sim a tivemos. 

    O loiro ri com malícia, e o demônio se controla para não acerta-lhe um golpe. Horas mais tarde...A jovem mulher olha para o bebê, e este ri para ela. As filhas não se sentem felizes com tanto apego, e reviram os olhos. Isandra e Laura partem pelos corredores, e vão até Nicolas que está sentado no refeitório,  falando seriamente com Leviroth, que demonstra desagrado, porém  não para com ele, e sim com a ousadia do seu rival. 

    _Não queremos ter um irmãozinho! 

    _É verdade papai. Já me basta a Laura! 

    _Hey!  

    _Desculpa Laura. Você é legal, mas não é aquele moleque remelento, que nem tem o nosso sangue. 

    _Isso é verdade. Que amor é esse?! 

    _Acalmem-se as duas. 

    Nicolas respira fundo, e os pais puxam as cadeiras para as garotas, que se sentam com alguma dificuldade. Os pais se entreolham, com a certeza de que as duas crianças mimadas tem tendências psicopatas, e podem fazer como a filha de Bael. Por isso tomam as rédeas da situação, e tentam evitar o quê pode acontecer, para que Isabelle não tenha que se voltar contra  as meninas. _Odin é irmão de vocês _O quê?! 

    _Como assim?! Isabelle pulou a cerca?! 

    _Laura! 

    _Não, ela não pulou a cerca. Pelo que o idiota do meu irmão explicou, foi criado por manipulação genética. 

    _Em laboratório? 

    _Como eu? 

    _Ao que parece sim. Não consegui destruir todas as amostras de DNA de Isabelle pelo visto. 

    _Então foi assim que conseguiu o material genético dela? 

    _Foi? Papai achava que era de maneira tradicional. _Eu também achei, até papai me contar que  sai de uma barriga de aluguel, de um clone dela. 

    _Nunca pensei isso. Isabelle não pularia a cerca uma segunda vez Isandra. 

    _É? Pelo ciúme que sentiu da mamãe, duvido viu? _Senhor De La Cruz posso assegurar, nasci  em uma instalação de pesquisa genética. 

    _Podemos nos focar em questões mais importantes? 

    Isabelle e Bael tem um filho. Isso não é assustador? o quê ele ganha com isso? 

    _Uma ligação eterna com Isabelle. Está convicto de que ela pode voltar a mesma Lucy, que largou todos os que amou, para ser sua rainha. 

    _Minha mãe já teve um caso com ele? 

    _Arádia e o Novo Senhor do Inferno? 

    _Sim. Houve uma época, que ela sentiu um ódio extremo do pai e a mãe, de mim e Leviroth, e se juntou a ele. _Não só isso. Destruiu milhares de povos, julgando-os a favor do seu então marido. 

    _Como Ishtar. 

    _Ela também é Ishtar? 

    _É um lado sombrio da vida da mãe de vocês. Só que tudo começou por causa de um  

    Bebê. 

    _E agora está se repetindo... 

    A dama coloca o bebê para dormir, e sente uma forte pontada na cabeça, que a faz se debater contra o vidro da janela.  Um vulto negro surge e a carrega, embora  se pareça muito com Bael, não é ele que vem acudi-la, mas sim o seu pai, que a deita na cama, e a cobre notando a sua palidez. “O quê ele fez contigo?” Passa a mão na cabeça da filha, que está ardendo em febre, e suas veias brilham um forte  tom de roxo florescente. Fazendo-o entender o quê houve. Furioso este sai do  quarto, e vai atrás do anticristo, pronto para corrigir o seu filho rebelde, da mesma forma que o seu pai fez com ele, quando descobriu que ele lhe roubou, o seu bem mais precioso, a sua rainha. No caminho, este se depara com Victória e o neto Dave Haster. Ao vê-lo a mulher com roupas de caveira, corre para o abraçar, e este o retribui relutante. 

    _O quê foi pai? 

    _Isabelle foi infectada com a essência de Caesta. 

    _E o quê isso significa? 

    _Significa que seu irmão Bael, está tentando matar Isabelle, para reviver Ishtar  outra vez. 

    _Mas Isabelle é Ishtar  não ? 

    _Sim, e não. Ishtar é uma das 3 personalidades da sua irmã. A  1-Luciféria Lilith II, o anjo justo. A  2-Nahemah Hela, a deusa do julgamento. E por fim a 3 é Babalon Ishtar. 

    _Isabelle é Babalon?!  

    _E também é Koré. 

    _Mas Babalon é a prostituta e Koré a virgem! 

    _São estágios da vida da sua irmã. Ela foi Koré, a meninas dos olhos de Bael, e se tornou Babalon, a mulher dele. _Isabelle e Bael são realmente casados?! _Não exatamente. Ela como Babalon Ishtar é a mulher dele, mas como Isabelle é mulher de Azazel. 

    _Então Bael quer exterminar as outras duas versões dela, para só uma existir? _Sim. Babalon surgiu de todo o ódio que sua irmã sentiu por cada sofrimento, ela é o lado mais negro que existe nela. 

    _Então o quê ocorre se ela virar Babalon? _Ela se torna a Messias Negra das verdadeiras trevas. 

    _E  isso quer dizer? 

    _Que não há um futuro livre para as próximas 

    gerações. 

    Ele respira fundo, e Victória fica catatônica. Isabelle  gira de um lado para o outro, sentindo-se desconfortável. Corpos estão espalhados por toda parte, queimando em brasas ardentes. Sua mão segura uma espada e um estandarte, como se fosse uma amazona egípcia. Seus pés caminham pelo chão, cobertos de sangue. O medo lhe preenche o âmago. Que criatura grotesca teria feito tamanha chacina no antigo Egito? Sua respiração se torna ofegante, o coração palpita rapidamente,  e logo esta começa a correr pela areia. Há risadas em uníssono, e isto a deixa desconfiada. “Inanna.” Pensa com certeza e raiva em seu olhar, dando  passos longos em direção as vozes. Uma mulher, com o corpo pouco coberto, vestida de branco, está sentada no colo do Deus do local, com um cálice dourado em suas mãos.  Ao vê-la sorridente e maléfica, larga suas armas, em estado de  pânico. Os lábios da mulher misteriosa, beijam os lábios profanos do Deus iniquo. A mão do homem pálido, e de olhos vermelhos, agarra os seus cabelos  ruivos, e eles se encaram como dois dragões prestes a acasalar. As suas unhas negras  arranham carinhosamente a coxa dela, enquanto as mechas dos longos cabelos lisos, caem sob suas pernas, fazendo-a corar e abrir seus olhos violetas. Ao assistir a cena, a bela, fica de queixo caído. “Por favor não faça isso!” Grita em sua mente, ao tapar o rosto com os dedos abertos, e os olhos arregalados. Por não  conseguir suportar ver a cena, já que a mulher de cabelos 

    de fogo é ela mesma, em outra vida. Aterrorizada, pela visão que acabara de  ter, dá passos errados e escorrega para trás. Ao vê-la os demônios sorriem, e vão ao seu encontro, avançando em seu corpo, e beijando-a dos pés a cabeça, até Babalon desaparecer ao entrar no seu corpo, fazendo-a se sentir muito atraída, pelo novo Senhor do Céu e do Inferno. 

    _Você vai ceder a mim. Sempre cede. Basta sofrer o suficiente. 

    _Aquela, vadia, ali, não, sou, eu! 

    _,É uma parte sua. Uma parte que sempre desejou  toda a minha escuridão e iniquidade. 

    _Para! 

    _Você ama o Inferno, porquê ama a mim. 

    _Não! Eu! Não! Te amo! 

    _Ama sim. Pare de fingir o contrário. 

    _Não...Não... 

    Ela sente os dedos dele em suas costas, logo está com a roupa da Deusa Escarlate, e a sua coroa. “Eu não sinto atração, eu não sinto atração, eu não sinto atração!” É o  quê repete na sua mente, tão concentrada em não sentir, que é pega desprevenida no escuro, e ele a beija com ferocidade. De inicio ela não retribui, mas seu corpo reage contra a sua vontade, fazendo-a sentir algum prazer ao ser dominada, pela poderosa criatura. A língua dele entra em sua boca, por vários minutos, deixando-a sem ar, enquanto eles giram no meio do nada, como fantasmas se tornando um só ser 

    , de duas cores, a luz violeta, que se torna levemente rubra e a ausência de cores, o Ayin. “Eu Não...” Tenta o impedir de chegar, só que não resiste, e acaba em  seus braços, emanando a luz completamente em cor de rubi. 

    _Socorro! 

    _Filha? 

    _Mana? 

    _Me tirem daqui! Me tirem daqui! 

    _O quê aconteceu Isabelle?! 

    _Ela teve um pesadelo com o anticristo. 

    Certeza. 

    _Eu, e ele... A gente... Ai minha nossa Eu não acredito no quê vi! 

    Ela se ajoelha ao lado da cama, e o pequeno Odin acorda assustado, em estado de desespero. Ela treme se aproximando do bercinho, está em choque, sem acreditar no quê aconteceu, e no quê sentiu. O pai e a irmã tentam lhe acalmar, mas nada funciona, seu corpo não para de vibrar. É como se estivesse na Antártida, usando somente um biquíni. Lúcifer abraça a filha mais velha, impedindo-a de carregar o seu neto, pois na situação em  que encontra, pode derrubá-lo. Victória pega o bebê draconiano, e fica a niná-lo, junto do filho que luta para distrair o seu primo. A bela  volta a empalidecer, e sua pressão desce a tal ponto, que esta perde a consciência, nos braços do anjo das virtudes. Percebendo a gravidade do caso, a irmã mais nova, passa a mão no cabelo, e se ajeita ao lado da consanguínea fazendo-lhe carinhosos cafunés. 

    _É muito para Isabelle suportar. 

    _Sim. Sua irmã foi a que mais sofreu de vocês. 

    _Como que ela acabou nos braços dele?! Todo mundo sabe que ela é do Azazel! 

    _Ela e ele tem um destino, criado por Caesta , a grande deusa matrona. 

    _Mas você disse uma vez que ela e Azazel nasceram um para o outro! 

    _Sim, e é verdade. Só que ela foi castigada, por fazer Miguel se apaixonar, e destruir o seu destino com a outra sobrinha. 

    _Eke?  

    _Sim. Por se meter com uma das favoritas, ela a fez cair nos braços do demônio. Ficando assim dividida pelos gêmeos primários. _E o quê ela pode fazer pra mudar isso? _Somente controlar o quê sente pelo seu carrasco. 

    _Isso é horrível. Por quê Caesta é tão ruim? _Não há uma resposta. Mas Caesta odeia a sua irmã, tanto quanto a sua tia Lilith. Então creio que a motivação vem daí. 

    Lúcifer segura o netinho, e este gargalha no seu colo, sentindo-se muito confortável.  Ao vê-lo ele franze o cenho, e se recorda de quando segurou os gêmeos Bael e Azazel em seu colo. Azazel era uma criaturinha coberta por uma mortalha de energia escura, com um sinuoso brilho em seu peito. Já Bael era um bebê que brilhava tanto quanto o sol, mas em seu olhar havia a mesma fúria, do pai, quando ainda recebia o nome de Samael, e isto o preocupou. Os meninos, cresceram aos cuidados de Lilith, que em sua sabedoria sobre gestação, logo viu o futuro devastador daquele que pensou ser seu filho. Um calafrio percorreu-lhe a espinha, ao se lembrar de como Lúcifer era antes, e por isso o temeu por quase toda a sua vida. Bael cresceu se sentindo odiado pela mãe, e quando Luciféria nasceu, ele tentou matá-la afogada. Se a rainha do Inferno não chega a tempo, ele teria conseguido. É claro que a princesa não morreria de fato, mas esta seria enviada para o reino de Caesta, onde sofreria com o seu julgamento rígido e cruel, mesmo sem saber pensar. Lilith teve ódio dele, e por isso ela o enviou para uma floresta, na qual suas criaturas o puxaram para o subsolo do Éden Negro, e o manteve lá. Como no sonho de Isabelle, ela  foi até o lugar proibido, e teve com o terrível demônio, uma espécie de amor platônico, no qual ele a quis como sua futura rainha do submundo, e ela o quis como um amigo, com quem dividia suas aflições sobre a família, Miguel ou Azazel. Isso o devastou, e foi assim que ele acabou nos braços da sua verdadeira mãe, Inanna, que o educou para tomar posse do  céu de Ninlil, e o Inferno de Ereshkigal, que basicamente são a face da mesma deusa. Caesta os favoreceu, Bael tomou posse do mundo de Anu, e Chaos o marido e o oposto complementar dela, não gostou nada da afronta, e por isso lhe mostrou o poder da desordem. Enquanto céu e inferno lutavam entre si, o novo Deus, inventava meios para se aproximar outra vez de Luciféria. Só que ao vê-la nos braços do odiado gêmeo, ele mesmo a empurrou para a Terra, onde ela sofreu  

    até se matar. O quê só o pai sabe, é que quando ela se foi, ele saiu do trono, e entrou na água, sujando-se com o sangue da bela, enquanto via que poderia salvá-la. Só que nada conseguiu, e esta agora na adolescência, foi mandada para o reino de Caesta. A deusa anciã, recebeu sua essência, e quis destrinchá-la, mas ele atravessou o reino fatal para os deuses, só  para lhe trazer de volta. “Caesta. Você disse que quer que ela sofra. Ela sofre ao meu lado. Devolva-me a minha boneca.” O mentiroso profissional piscou diante da gigante, que gargalhou como louca, com as suas duas vozes entrelaçadas, entre a roca e a fina, como a de Akasha, em A Rainha dos condenados. O novo Deus, se curvou para a velha Tiamat, sem saber que decisão tomar. 

    _Está apaixonado pelo anjo maldito! 

    _Não, não estou mais. Eu só quero feri-la. _Não me engana Bael Lúcios  _Eu sou o carrasco dela.  

    _Não é mais. Designarei outro para esse 

    serviço. 

    Ao ouvir a ordem, o demônio ri sem acreditar, e então pega a deusa pelo pescoço, e a parte ao meio, banhando-se no sangue da draconesa, com seu olhar frio e sem vida. “Ninguém me diz o quê fazer. Nem mesmo você minha  querida avó.” Ele diz ao olhar para a cabeça dela, então olha para o coração desta, e o pega. A bela filha de Lúcifer, aparece presa em um cristal verde,  num sono profundo, que o jovem deus quebra com seu punho, só que nem assim ela desperta, e por isso ele rasga o seu peito, e coloca o miocárdio da deusa no lugar do seu. 

    _Bael o quê está fazendo?! Ela não é digna! 

    _Eu a escolhi. Quer você queira ou não. _Ela não vai suportar! É filha de um demônio e meu coração de carne é puro!  

    _Ah é? Esqueci de lhe contar  Luciféria não é filha de uma demônia. Mas sim da deusa que foi violentada. 

    _Ela é filha de Ninlil?!  

    _Você entende rápido.  

    _Então isso foi uma armadilha?! 

    _Achou mesmo que depois de tudo o quê fizeram Comigo, eu seria fiel a vocês?! Ah vovó isso foi uma tolice. 

    _Você vai morrer! 

    A Deusa Berra se materializando, mas os olhos de Luciféria se abrem, tão  verdes quanto esmeraldas, e esta surge diante da gigante, segurando o seu punho violento, com relativa facilidade. Ao ver que a menina agora, tem uma parte importante do seu poder, ela voa para longe, e decide criar um exército para deter Bael e a amada.  Aos poucos ela recobra a consciência, porém não se recorda de nada da outra vida, por isso o novo deus agarra a oportunidade, e se aproxima dela, fingindo o seu par. É claro que ela reconhece, e se afasta , só que quando recua, ele avança, como uma serpente, e lhe dá o bote, fazendo-a não resistir, e até retribuir aos seus desejos. 

    “E depois dele a manipular e mentir, ainda sim ela se tornou sua rainha, e nos traiu.” É o quê reflete o imperador do Inferno nos dias atuais, olhando para a filha no colo da irmã, com certo receio. Por isso coloca o pequeno  Odin para dormir, e volta para o caminho anterior. Contudo ao chegar na porta ouve uma voz familiar, e por isso para. 

    _Papai? A onde está indo? 

    _Vou resolver alguns problemas querida. 

    _Não o enfrente. Ele está poderoso demais. _Ele nunca foi mais poderoso do quê eu. 

    _Como pode ter tanta certeza?  

    _Eu ainda estou aqui. 

    O coroa charmoso pisca, e vai embora. Bael fica sentado diante da mesa,  fazendo anúncios em nome do seu pai, em relação ao Apocalipse, como se este patrocinasse suas atrocidades, em prol do novo mundo. No entanto ao terminar o seu discurso raso, o próprio deus da justiça aplaude com ironia, entrando no local, com o seu sorriso mais confiante, que faz o diabo ficar em choque, por acreditar que este vai desmascará-lo, mas por total educação, o pai espera a reunião acabar, para poder  repreendê-lo. 

    _Lúcifer. 

    _Olá filhinho. Está prestes a dominar o mundo, e ainda sim precisa do meu nome para ter algum sucesso? 

    _O quê quer?! 

    _Que fique longe de Isabelle. A menina não é a sua Ishtar, e eu não quero vê a reencarnação da minha filha  morrer. 

    _Você pode tentar enganar a Aggarath, o Azazel, o Miguel, e as crianças. Mas Eu sei que é a minha Luciféria. 

    _Em primeiro lugar Luciféria é o par de Azazel. Em segundo ela não tem mais a mesma personalidade. A Luciféria que conhecemos não existe mais. 

    _Então nunca a conheceram de verdade. Porquê Isabelle é exatamente a mesma Luciféria da qual me lembro. 

    _Você não vai machucá-la outra vez. 

    _Você e eu sabemos que eu nunca a machuquei de fato. O único que mais se feriu com a nossa união foi Você. 

    _Você fez com ela se odiasse, e enlouquecesse! 

    Não venha me dizer que não a machucou! 

    Lúcifer perde a cabeça, e agarra o filho pelo colarinho, o jogando contra a parede. O loiro ri da afronta, como se aquilo não o ferisse, e o quê o pai estava dizendo fosse somente ladainha. Todavia basta sentir a pressão da flamejante luz gloriosa do deus renegado, para se controlar, e deixar de agir feito um idiota. Infelizmente o momento de juízo  não dura, e este volta a defensiva agressiva. 

    _Ela surtou apenas porquê não se aceitou. 

    _Ela não é assim. Não é uma...! 

    _Uma o quê? 

    _Uma aberração como você! 

    _Desculpe informar reencarnação de Chronos. Mas a sua doce Perséfone, não é tão pura quanto você acredita.  

    _Eu nunca disse que ela era pura. Não seja idiota. 

    Ela apenas não é monstruosa como você. 

    _Ah ela é. E toda vez que desceu ao meu reino,  

    provou da minha escuridão e quis mais. 

    _Você a obrigou! 

    _No começo sim... Mas depois ela voltou ao Tártaro, pelo prazer que somente as trevas podem proporcionar. 

    _Está bem. Já vi que discuti não vai levar a  nada. Só fica esperto. Porquê Eu estou por  perto, e não te deixarei tirá-la de nós. _Interessante é um desafio? Porquê se for Eu já ganhei. Ela te odeia, pois se deu conta do péssimo pai que é. 

    Ele diz com um sorriso cruel, e o deus que domina o Tártaro, lhe acerta um soco no rosto, com a mão tão quente, que se ele não desvia, em vez de receber um arranhado no canto dos lábios, teria tido a face queimada. A raiva consome o progenitor, e este sente seu punho tremer, o deus do novo mundo, se enfurece pela humilhação, e urra para que saia imediatamente da sua  presença. 

    “Eu já pretendia tomar Isabelle para sempre, mas agora isso não é mais uma pretensão, e sim uma certeza.” Os olhos dele ficam sombrios, e o anjo caído, caminha pelo vagão, suando frio. Ao verem Lúcifer, Azazel e Nicolas correm para cumprimentá-lo, e saber o quê houve de tão grave, para que tenha se deslocado da Boulevard, para os trilhos do  trem da perdição. 

    _Olá irmão. 

    _Oi pai. 

    _Olá garotos. 

    _O quê aconteceu? Está trêmulo! 

    _Tem a ver com a Izzy? 

    _Apenas tive uma conversa com meu filhinho rebelde. 

    _Parece mais que discutiu. 

    _E espancou. 

    _Ah isso? É porquê ele não quer deixar a minha filha em paz, e me chamou de péssimo pai. 

    _É um soco e tanto. 

    _O quê ele ainda quer com Isabelle?! 

    _Tê-la de volta. 

    _Mas mesmo depois de muito tempo? 

    _Eu vou matar ele antes de conseguir uma segunda vez! 

    Azazel se prepara para ir atrás do irmão, mas Lúcifer o impede, e então avista a sua sobrinha Alexandra, e tem um plano, que resolve colocar em prática. Como quem não quer nada, se aproxima da moça, e tenta convencê-la a lhe ajudar, mas como a menina tem o sangue das deusas, percebe logo que é uma jogada, e o       faz confessar a verdade. Ele se envergonha, só que ainda sim, a bela bruxa resolve ajudá-lo, por ver o seu desespero, ao pensar que vai perder  

    a filha do seu grande amor outra vez. 

    _Então Isabelle realmente teve um relacionamento com  O Anticristo? 

    _Sim. 

    _E há ainda alguma chance de quê ela caia nos abraços dele? _Infelizmente há. Ele percebeu que a fonte do amor, vem do  seu ódio pelo resto do Universo, e por isso desgraçou a vida dela. 

    _Se ela souber que ele fez isso, certamente ficará longe dele. 

    _Não. Isabelle é louca como Luciféria, pode acabar se apaixonando, só por saber que ele gastou metade da vida, focado em obtê-la. 

    _E ele realmente gastou?! 

    _Ele não está vigiando-a de agora Alexandra. 

    _Ele é um psicopata! Isso é ruim... 

    _Eu sei... Isabelle tal como Luciféria abraçou As trevas com que a humanidade me vestiu. 

    Isabelle acorda no colo da irmã e se assusta, pois jamais imaginou que Victória  seria capaz de perdoá-la, após a sua coroação de rainha do pop no Madison Square Garden. Na qual a melhor amiga e irmã, se enfureceu pelo grande sucesso que seu pai proporcionou a mais nova, enquanto a manteve longe dos holofotes, porquê segundo ele Victória era mais digna, por ter o amado cegamente. Foi a gota d’água para Isabelle, que fez até o mais virtuoso dos seres ficar em silêncio, quando disse “É muito fácil ser fiel aos sentimentos por 3 anos de espera. Ela não ficou, por mais da metade da vida, esperando todos os dias que aparecesse, e chorou achando que tinha enlouquecido, quando nada aconteceu. Mas se isso a torna mais digna, então a partir de hoje corto meus laços com você e o satanismo, não importa  se tenho o teu sangue, Eu não sou mais tua filha.” Mal sabia ela, que o pai não fez aquilo por duvidar da sua nobreza, afinal nunca foi fã de adoração, e sim do amor  que poucos tinham por ele. O pobre imperador foi obrigado a agir dessa forma, renegando-a, ou Inanna, teria cortado-lhe a garganta, assim que fugiu da Dimensão prisional, junto com os demônios que enganaram as princesas e os príncipes do Caos. 

    _Então recebeu o meu pedido de desculpas. 

    _Sim, e eu aceitei. Você é minha irmã, sempre vai ser. _Posso até ser Vick. Mas te salvei por compaixão, e não pelo babaca do nosso pai. 

    _Devia pegar menos pesado com ele Izzy. 

    _Primeiro só Azazel me chama de Izzy. Segundo Você lembra o quê aconteceu no Madison. Ele me chamou lá para ser humilhada e rebaixada a serva! 

    _Primeiro Tô nem aí. É Izzy e ponto. Segundo já parou para se perguntar por quê ele fez isso? 

    _Porquê não o amei o suficiente e era indigna. 

    Ele mesmo disse. 

    Ela revira os olhos, e a dama lhe entrega o celular, na página oficial do site do pai.  “Leia a carta, Ao fruto do meu grande amor 19/08/2020.” Ela respira fundo apontando o dedo para onde a bela deve clicar. Isabelle se mostra relutante, mas Victória lhe dá, Insistindo para que o faça. “Ao contrário do quê ele disse a mídia, não foi um single barato, para iniciar sua carreira com chave de ouro. “ Diz, então isso desperta a curiosidade da bruxa mais velha do convém.  “Ao fruto do meu grande amor. Me perdoe por te abandonar naquela noite de horror. Você não entenderia, então te deixei ir. Se eu te coroasse como sonhava, não haveria como fugir. Sua mãe é a minha rainha, mas você sempre será minha garotinha. Me perdoe por  ser tão cruel. Mas havia algo terrível por baixo do véu. Seu sorriso, sua esperança. Sempre estarão em minha lembrança. Não podia permitir aquela matança. O relógio se move lentamente. Fazendo com que eu me lamente. Contudo não posso voltar atrás. Os monstros te devorariam no Alcatraz. Então tenho que seguir de coração partido. Sem poder está contigo.” Ao ler a parte “Seu sorriso, sua esperança” Ela fecha o cenho, e se esforça para terminar. Ao ver o seu incômodo,  Victória percebe que há algo errado, e pega o telefone de volta, pronta para abrir o inquérito. 

    _Não basta ter conseguido o topo que sonhei?! 

    Tem que jogar na cara o quanto ele te ama?! 

    _O quê?! Não Izzy. Não é pra mim! 

    _É claro que é, eu quase nunca sorrio ou tenho esperanças! 

    _Mas já teve! E nosso pai se recorda disso! Por favor Izzy! 

    Inanna não é o grande amor do nosso pai! Sua mãe É! 

    _Se isso é verdade, por quê ele pulou a cerca tantas vezes com ela?! 

    _Porquê ela o enfeitiçou! 

    Grita como se revelasse um segredo cruel e obscuro, e Isabelle recobra o fio  da sanidade. Olhando para ela em estado de choque, as duas que estavam em pé,  se sentam na cama, e a mulher com roupas moda caveira começa a chorar sem parar, o quê desperta um pouco de compaixão na irmã que a abraça, lhe acolhendo, e confortando-a, enquanto tenta secar as suas 

    lágrimas. Só que Victória, fica inconsolável, praticamente a beira de um surto, como se a sua vida de pop star, não fosse o paraíso que a professora acreditava  que era. Então pouco a pouco, ela se recompõe, passando a luva na sua face, para limpar o lápis borrado dos cílios inferiores. 

    _O quê tem demais nisso? Todo mundo sabe que Inanna é uma vadia. _Tem que Eu nasci de uma noite de prazer Isabelle. Não de amor , como você! 

    _Mas você disse que Inanna e ele se amavam. 

    _Eu menti. Estava furiosa por como me tratou. A minha vida é uma mentira! Eu sou uma deusa do amor, que literalmente nasceu do testículo do mar! 

    _Todos nós nascemos de um testículo Victória. 

    _Você não entende. Eu sou só o esperma que evoluiu, e Inanna usou para prender o nosso pai, e quando não tive serventia , ela me jogou fora! 

    _Minha nossa Vick. Mas Lilith te acolheu como filha lembra? _É mas eu sempre soube que ela não me amaria como amou a você. Esse tipo de conexão, só se tem através do sangue.  

    _Então por isso fez aquelas coisas terríveis comigo? _Sim. Eu me arrependi depois. Mas era tarde demais, tinha finalmente cumprido com a vontade Inanna, e você já era pura escuridão como eu e Bael. 

    _Se você é tão má assim. Por quê está confessando? _Porquê você é minha irmã! E eu te amo. Lilith me aceitou na casa dela, mas foi você que me criou, não fui justa contigo. 

    _Tudo bem. 

    _Não, não tá. Inanna continua a te odiar, e foi por isso que nosso pai agiu daquela forma. Se ele não te tirasse do caminho dela, ela ia te matar diante todos. 

    _Ela o quê?! 

    _Ela ia te matar. Por isso pai cedeu a entrada na fama pra mim. Como sou filha dela, ela iria adorar me ver ali, no seu lugar. 

    _Então ela desgraçou minha ida ao topo?! 

    _Sim. Mana me perdoa mesmo, sério. 

    _Bom pelo menos me contou. 

    Responde abraçando a irmã, reatando os laços de uma amizade que tinha sido destruída, há 9 anos. Então elas olham para o vazio, como se houvessem outros pecados escondidos. Enquanto isso... Bael sorri, com o seu mais perverso olhar, e o trem finalmente chega a velha cidade  subterrânea, na qual, se estabilizará o novo mundo. 

    Capitulo 7 – A cidade dourada 

    As portas do transporte se abrem, e todos descem outra vez mascarados. Porém o anticristo passa por todos, e é o primeiro a tirar a sua proteção, os deixando de queixo caído. “O homem em sua enorme ignorância, sempre acreditou que está no topo era o quê mais importava. Mas hoje meus queridos, estamos provando o valor das terras do subterrâneo.” O anfitrião abre os braços, com suas caras roupas amarelas, mostrando o paraíso que os aguarda. “Os humanos nunca entenderam, que o quê está acima, é o que está abaixo.” O loiro imita a estátua de Baphomet. “Que a sua morada , pode ser tanto o céu, quanto a terra.” Prossegue, e então olha para a única coruja entre as outras aves, com forte fixação. “Que o amor e o ódio provém da mesma energia.” Segue encurralando a jovem mãe. “E que podem ser convertidos. Portanto aquele que odeia hoje, pode ser a quem venha amar no dia de amanhã.”  Sorri com malevolência, e a bela recua. Percebendo o desconforto da amada, Leviroth resolve acolhê-la, e está o abraça forte, mas seu olhar continua preso a figura do rei do novo, que continua a sorrir confiante. O novo mundo dos escolhidos, é diferente do quê muitos se acostumaram, principalmente os que enriqueceram por obra de Bael. Há uma enorme fonte de água potável no meio da cidade, que é cheia de prédios dourados, que possuem várias tecnologias, as quais a comunidade tem acesso para resolver as suas causas, não importa se são significativas ou fúteis. Um 

    verdadeiro Éden. Ao entrarem no local, cada família é colocada numa casa, de acordo com a quantidade de membros, e dentro desta encontram roupas, comidas, e alguns brinquedos para se distraírem. Só que depois de ser raptada, Isabelle evita o capacete de realidade virtual, e prefere usar o aparelho, no qual reproduz livros. Já Os Miller optam por passar horas, enfrentando um ao outro num jogo de corrida de carro. Victória e Dave ficam num jogo de música, enquanto o par dela assiste TV, e Alexandra , e sua família escolhem vê um filme de terror de possessão.  “Amo Lovecraft.” A mãe de Isandra diz com um sorriso, cruzando as pernas, e balançando o berço de Odin, para mantê-lo dormindo. 

    _Isabelle encontrei seu pai ontem. 

    _O meu pai?! Aquele desgraçado que me renegou?! 

    _Não, o seu outro pai, com compartilha a essência única. _Ah o outro desgraçado que me renegou. O quê tem ele? 

    _Ele falou que o Anticristo está focado em ti. _É, eu sei, o fato de Odin ter o nosso DNA, me deixou bem desconfiada. Mas não acho que sou o Foco dele. 

    _Você é. Ele deixou claro para mim também. 

    _Eu não entendo o porquê de tudo isso. 

    Sou só uma professora de biologia. 

    _Eu entendo. Ele acha que você é Luciféria. 

    _E eu sou. Só que o quê isso tem a ver? _Não, não é. Tem o sangue e a essência, parte da forma, mas não é ela. 

    _Então eu não sou a princesa mesmo? 

    _É claro que é Izzy. Mas vocês tem personalidades diferentes, e não é só isso... 

    O marido respira fundo, lutando contra o seu ciúme, que quer o dominar, como um dono domina o seu animal. As imagens da sua amada ruiva nos braços de Bael, lhe vem a mente, e os seus dentes rangem sem parar, enquanto ele treme de raiva. A dama fecha o livro, e o coloca na cadeira branca. Suas mãos tocam o rosto do  amado, que retorna para a realidade, e a encara tomado pelo medo,  e a tristeza. 

    _O quê está havendo meu amor? 

    _Você lembra que sempre me disse que tinha um ser obscuro  dentro de ti, que você mantinha enjaulado no fundo da sua mente.  Porquê se saísse iria ferir os que ama? Sem dó ou piedade,  exatamente como a deusa descrita por Crowley? 

    _Sim é claro. Por quê? 

    _Você é mais que Koré, é Babalon também. _Aquela criatura arrogante e cheia de si?! Impossível. Eu sofro de depressão por ter Pouco amor próprio. 

    _É uma longa história. Mas em resumo você e Bael estiveram juntos, sim exatamente como desconfiava. Por isso teve os pesadelos em que se envolvia com o Anticristo. 

    _Por quê não me confirmou antes? 

    _Estávamos em crise, e eu achei que iria preferir a ele. 

    _Leviroth está inseguro? 

    _É claro que estou. Tudo o quê gosta, é baseado nele. 

    _Isso não é verdade. 

    _Você mesma disse uma vez. Há diferenças entre Lúcifer e o Diabo, e eu amo mais o Diabo do quê a Lúcifer. 

    _Você leu minhas mensagens para Victória?! _Eu sempre leio. Não tem por quê ficar surpresa, fez  a mesma coisa comigo. 

    _É, eu fiz. Só me preocupo que não confie em mim. 

    _Eu confio. Só que temia que ele fosse te procurar. 

    As mãos dele continuam a tremer, e a bela as segura. No começo ele se mostra relutante, mas ela é firme no ato. É difícil ver o demônio chorar, só que está claro  que aquilo o assusta, e que as lágrimas querem sair. Por isso ela o abraça forte, e este acaba se deixando retribuir, apertando-a forte contra o seu peito,  como se aquilo pudesse impedir a sua separação. 

    _Eu estou aqui B. 

    _É, mas por quanto tempo? 

    _Eu sempre vou está aqui. 

    _E se um dia sentir algo por ele outra vez? 

    _Eu arranco meu coração, e faço uma lavagem cerebral , para ficar somente amando você. 

    _Não. Isso não. 

    _Eu te amo muito. Não precisa se preocupar certo? 

    _Eu também te amo muito. 

    Eles olham um para o outro, e então como duas serpentes, inclinam a cabeça para frente, encostando os seus lábios um no outro. Como se quisessem algo mais, então os seus olhares transmitem mensagens, e eles se beijam fervorosamente. O demônio a  pega em seus braços, carregando-a para o quarto, no momento que suas línguas se enrolam uma na outra. A mão máscula tranca a porta, a dama tira sua roupa, e ele também. Como uma fera, ele fica por cima dela, mordendo seu pescoço com ferocidade, enquanto seus dedos agarram as costas femininas. Arrancando-lhe fortes gemidos, sem sequer começarem. Porém quando as coisas vão esquentando, os olhos da bela se tornam reptilianos, e esta sente muito desejo por sangue. Percebendo que há algo errado, o marido para com os estímulos, e com a unha arranha o pescoço, permitindo-a beber da sua vida. 

    _Não. Eu posso não ter controle. 

    _Eu sou um demônio. Me curo rápido. 

    _Tem certeza disso? 

    _Tenho. Pode se alimentar de mim, assim não precisará ir atrás do meu irmão. 

    Ele diz e a sua companheira, o ataca, sugando sua energia com tanta sede, que  parecia está no deserto. Ele sorri, contudo percebe que ela não vai parar, e a afasta. Os olhos deles se encontram, nos dela há fome, e no dele receio. Por isso esta salta pela janela, e o deixa para trás. Os seus sentidos ficam apurados, ela segue o cheiro  de sangue, vendo as cores da aura de cada um, enquanto tudo vibra ao seu redor. Um rapaz se encaminha para um dos becos do local, e ela o segue, com as mãos para trás expondo as suas garras. Bael percebe que está fora de controle , e vai ao seu encontro. O jovem tenta gritar, só que ela arrancou a sua língua fora, e está prestes a devorá-lo. Vendo aquela cena, ele sorri com crueldade, e estala o dedo, reconstruindo a língua do garoto, que está aterrorizado. 

    _Você pode falar outra vez. 

    _Ela, ela me perseguiu. 

    _Eu sei. Mas se não quiser voltar a ficar mudo, não conte a ninguém o quê viu. 

    _Está bem. Eu, eu só quero ir pra casa. 

    _O caminho é livre. 

    Isabelle respira fundo no canto, tremendo, como se estivesse doente. Seus olhos mudam de cor, e alternam entre draconianos e normais. Os dentes se tornam afiados , e os caninos pontudos. O loiro se aproxima lentamente, e ela se afasta, mas está fraca, e ele sabe disso. A unha do seu dedo indicador cresce como uma lâmina, e ele faz o mesmo que Leviroth, porém em vez de arranhar o pescoço, ele fura o lábio inferior, e a segura contra a parede, deixando o liquido pingar na sua blusa branca. 

    _Eu não vou. 

    _Vai morrer de fome assim. 

    _Eu já bebi o sangue de Leviroth. 

    _Ele é um Demônio mas não é um Deus. Não tem sangue  suficiente para alimentar uma Deusa. 

    _O quê você quer? Eu não sou Babalon! 

    _Quem te falou isso? 

    O anticristo fica desconfiado da afirmação, e ela vira o rosto para o lado, evitando olhar para as gotas vermelhas. Só que ele passa o dedo no ferimento, e coloca entre os seus dentes, fazendo-a chorar, por ter que lutar contra o seu desejo. “Eu vou matar todos no seu reino.” O ameaça, e ele ri do seu desespero. “Será julgada, e morta, pois não há necessidade de matar alguém por alimento, quando eu sou uma fonte  inesgotável.” Ele responde em voz baixa, aproximando-se  dela. 

    _Eu não tenho medo da morte esqueceu? 

    _Deveria ter, pois se perder a consciência posso te fazer minha. 

    _Você não...Necrofilia sério?! 

    _Hahaha, Embora a ideia me agrade bastante, não é isso que quero dizer.  

    _Então? 

    _Eu vou lavar a sua mente, para que me ame. Mais ainda. 

    _Eu não te amo. 

    _Será que não mesmo? Sempre soube quem era o Diabo, e quem era Lúcifer, mas seguiu me cultuando. 

    _Eu não achava que você era real. Acreditava que era só uma ideia da minha mente perturbada. 

    _É? Mas eu sou, e sim eu te quero. 

    _Eu não sou mais uma das suas mil garotas. Aliás eu não acredito nas suas palavras, pois como o seu nome diz, é “O caluniador”. 

    Ela lhe dá as costas, e ele ri. De repente a pega nos braços, e segura seu pulso contra a parede, respirando pela boca, perto da boca dela, enquanto esta absorve o aroma do sangue, lutando para não beber da nascente em seu corpo. Gargalhadas histéricas se fazem presentes, e a sombra do demônio da dimensão do caos se desfaz, e refaz diante do seu inimigo, o afastando da sua amada. Ao receber o golpe de Leviroth, o ser de amarelo fica surpreso, só que não desiste, e voltar a ficar de pé, pronto para lutar, no entanto o marido joga a mão para trás, e exibe a lâmina do seu punhal, como se estivesse pronto para matá-lo, algo que é cômico para o rival. 

    _Acha mesmo que pode me matar? Eu sou Deus! 

    _Não, nunca pensei nisso. Mas sei que posso te ferir bastante. _Será que pode? Só conseguiu alguma coisa, porquê eu estava inerte no olhar da sua mulher. 

    _Eu sempre fui melhor na batalha do quê você irmão, por isso não precisei roubar o poder de nosso avô, para ser um Deus. 

    _Você é apenas um demônio, um demônio bastardo! 

    _Somos gêmeos,idiota. Se eu sou bastardo, você também é. 

    _Eu sou o ser supremo do universo. O alfa e o ômega. 

    O principio e o fim. O nada e o tudo. 

    _Nascido da prostituta de Lúcifer. Tal como eu. 

    _Você quer desaparecer para sempre? 

    _Isso só seria possível se não fosse um fracassado. 

    Então tenta filhinho de Inanna, tenta. 

    O demônio ri, com crueldade, e o diabo perde a cabeça, e vai para cima dele. 

    “O seu problema Bael, é achar que uma chama roubada te faz digno! Você é só Lixo!” Ele provoca, acertando golpes violentos no seu irmão mais novo, e tirando sangue deste com facilidade. “Você queria oferecer o seu sangue pra ela !? Que tal eu ajudar um pouco?!” O demônio corta o pescoço do diabo, e inclina a sua cabeça, em cima da bela, que estava sentada no piso assistindo  a luta. “Ele é uma fonte inesgotável amor. Pode beber.” A dama olha para o marido assustada. “Beba. Sei que está com sede.” Ele olha para o outro lado, e a moça salta para o pescoço do anticristo, lambendo cada gota rubra que sai do seu corte, enquanto este se debate sem parar, mas não consegue escapar do seu ataque faminto. “Eu era conhecido como o clone de Lúcifer. Mas não  era por um senso de justiça distorcido...” Ergue o queixo dele, fazendo-o olhar para cima. “Mas sim porquê tal como Samael. Eu ceifei muitas almas, sem dó , ou piedade, e antes de matar as torturei por dias.” Ele diz no ouvido do inimigo, enquanto a esposa se alimenta. “Nunca se esqueça disso,  ou volte a cercar a minha amada.” Diz entredentes. “Você tirou a Luciféria de mim uma vez, porém não deixarei que tire também a Isabelle.” Ele percebe que a dama se saciou, e o arremessa contra a parede. Percebendo que está em desvantagem, o diabo olha para a dama, e o seu irmão, e desaparece , deixando um rastro de fumaça negra. Benner está bufando de  raiva, contudo abraça a sua companheira. “Eu disse uma vez que te deixaria ir se quisesse ser feliz com outro, mas a verdade é que não posso Isabelle. Não quero, te deixar partir.” Ele confessa, e a jovem o beija com a boca toda suja de vermelho. Ele não resiste, e retribui ao beijo com fervor, carregando-a em seus braços. A adrenalina que percorre o seu corpo, lhe faz  tirar a blusa rapidamente. Então se faz ser colocada no piso, para abrir-lhe a calça, e encher sua boca com o membro pulsante dele, que está rígido e duro. 

    Ele não consegue aguentar, e solta gemidos, ao sentir a saliva dela escorrendo por seu símbolo fálico. Toda aquela situação de guerra e morte, os deixa bem excitados. Por isso escorre o liquido de prazer, no meio das pernas dela, e cai no chão. Notando o quanto está molhada, ele a levanta, e a joga na parede, pronto para penetrá-la. Ela respira ofegante, e então o sente entrando no seu corpo encharcado, tornando-se um só com ela. A boca dele vai até o seu pescoço, fazendo-a revirar os olhos de prazer, enquanto ele aperta  o seu seio, e a agarra pela cintura. A sua costa dói por conta dos tijolos, só que em vez de parar, ela o arranha nas costas, e morde a sua jugular, afundando sua unha na pele dele, ao ponto de sangrar. Só que ele gosta da dor, e retribui lhe pegando pelo pescoço com força, sorrindo com maldade, ao ter noção do seu poder. Logo a vira de costas, e esta se empina. Ele entra em seu corpo outra vez, segurando as suas mãos na parede. Outra vez a boca dele vai para o seu pescoço, só que a pega pelo cabelo e lhe morde na nuca, deixando-a bastante excitada com tanta violência. As mãos dele pegam os seus seios, e seus dedos se entrelaçam aos dela. Eles gemem, gemem sem parar. Outra vez ela vira para ele, só que em vez dela descer 

    , ele quem o faz. De joelhos como um escravo, ele bebe do seu leite feminino , beijando-a entre as pernas, como se estivesse fazendo isso com a sua boca. É impossível não sentir prazer, por isso mais e mais quantidades do liquido cor de pérola, chegam a sua língua, enquanto as bochechas dela ficam  coradas, pela falta de pudor. Notando que ela está mole de tanto gozar, ele ri, e sinaliza negativamente, com o dedo indicador, e volta a prensá-la na parede, mergulhando seu membro no buraco carnoso, com vontade, até que não suporta mais segurar o prazer, e jorra seu liquido branco contra o solo. Regorjeando-se de satisfação. _Eu devia tentar matar o Bael mais vezes. _Você sabe que sempre amei os psicóticos  com tendências assassinas. 

    _É, por isso se casou comigo. 

    _E continuarei para resto da vida. 

    _Eu te amo Izzy. 

    _Também te amo B. 

    Os dois se abraçam, e então colocam as suas roupas de volta. Nem os mais de 9  anos de casados, havia apagado o fogo da sua relação. Eles dão as mãos, e caminham risonhos como dois adolescentes pelo centro. Ao vê-los Victória deixa Dave com o marido, e vai até o casal, curiosa para saber, porquê Isabelle estava com a boca toda suja do liquido vital. A bela identifica o olhar observador da amiga, e se afasta de 

    Benner. As duas caminham para uma maloca abandonada, e se sentam na mesa que está no meio do local. Victória capta que algo aconteceu, por conta dos lábios vermelhos, e as machas na blusa branca de Isabelle, e por isso inicia a conversa apontando para os seus seios. 

    _Você matou alguém? 

    _Não. Mas foi por pouco. 

    _Você machucou alguém?! 

    _Sim, só que Bael ajudou a pessoa a se curar. 

    _Mas você saiu toda feliz com o Benner. 

    Então Bael não conseguiu nada. 

    _Sim. Só que também foi por bem pouco. 

    _Pode me contar tudo. 

    _Bael me fez uma bebedora de sangue... 

    Isabelle começa a narrar os fatos para Victória, que fica de queixo caído  porquê o seu sonho era se tornar vampira, e quem tinha se tornado era a sua  amiga. Já o sonho de Isabelle era ser famosa, mas quem se tornou foi ela. “Que  mundo injusto” Ela sorri com tristeza, e a professora lhe olha desconfiada. “Vic? 

    Tem algo errado?” segura as suas mãos, e a dama sorri com tristeza. “Não, Está tudo bem.” Tenta mentir, só que não consegue, e por isso a mulher volta a lhe questionar. “Está tudo bem?” Insiste, e a bela se segura para não sorrir, e negar os fatos outra vez. 

    _Você percebeu. 

    _É. Você ficou triste do nada. 

    _É que Isabelle, este era o meu sonho lembra? _Sim mana, mas também era o meu ser famosa, e ter muitos seguidores. Só quem conseguiu foi você. 

    _É. Isso é tão injusto quanto você disse que seria uma vez. 

    _Você está com raiva de mim? 

    _Não Isabelle. Estou triste. Por quê não conseguimos realizar os nossos sonhos? 

    _Porquê nossos destinos eram esses. Mas Vic nem sabemos se sou uma vampira, é provável que eu seja outra coisa. Ser uma criatura da noite, atrapalharia aos planos de Bael. 

    _Não, quando todos vivem na cidade subterrânea. 

    _Tenho que concordar. Porém te prometo uma coisa, se eu for uma vampira mesmo vou te transformar também. 

    _Por quê faria isso? Eu sou uma estrela, e nunca te puxei para o palco. _Porquê ser vampira, já foi um dos meus sonhos, e creio que no novo mundo, eu realizarei os outros. 

    _Você merece irmã. Apesar de dizer que tem trevas profundas, sempre foi uma pessoa maravilhosa. 

    _É, ser boa, sempre foi a minha maior fraqueza. 

    _Pra mim não. Esta é a sua qualidade, boa na medida certa. 

    Ao longe o diabo quebra todos os seus objetos dentro do escritório, entregando-se aos seus instintos mais primitivos. “Maldito seja!” Berra destruindo tudo ao seu redor, recordando-se de que ficou a segundos de ter o quê ele queria. “Por muito pouco ela não foi minha!” Brada socando a mesa de pedra negra, e volta a razão. “Por muito  pouco...” Se acalma, e começa a alegrar-se. “Eu só preciso criar uma situação, e ela será minha.” Seus olhos se tornam obsessivos. “Um beijo. Isso vai confundir o seu coração.” Conclui confiante da aposta. “Um beijo, e ela voltará a ser a minha Babalon.” Ele prossegue, e então ajeita os fios do seu rabo de cavalo desgrenhado, amarrando-o outra vez. “Uma festa em homenagem a Dionísio deve funcionar.” Termina, bebendo Whisky da boca do copo quebrado. Com o olhar fixo  no seu grande  objetivo Recuperar Luciféria. 

    A noite... Todos são convocados ao baile do anticristo, sob pena de perderem suas  moradias, caso não o prestigiem por uma hora. Outra vez Isabelle recebe a máscara de coruja, e ela e Leviroth se entreolham com a certeza de quem veio aquele presente, por isso trocam a fantasia, e vão para a festividade. Ao chegar lá, eles se separam por alguns minutos, para que o demônio vá comprar bebidas, mas a fila no bar é enorme, e demora mais que o esperado. Um homem de máscara 

    negra, a puxa para dançar, e pela ousadia ela o  reconhece. 

    _Achou que eu não ia te reconhecer? 

    _Você quer levar outra surra?  _Não me importo em apanhar mil vezes, se tiver a chance de ficar na sua companhia. 

    _Eu tenho mais o quê fazer. Licença. 

    _Do quê tem medo? 

    _Medo? Eu não tenho medo. 

    Tenho pavor. Agora... 

    _É só um beijo Isabelle Caligari. Nada que não queira vai acontecer. 

    _Vê isso? Significa que sou casada. 

    _Isso é só um circulo envolta do seu dedo. Eu ergui estátuas gigantescas, para te mostrar ao mundo. 

    _Esse é o seu problema. Acha que exagerando, pode conseguir alguma coisa. 

    _Eu sempre consegui, ou nunca sentiu falta de  

    ter todos os seus caprichos realizados? _Eu senti. Mas o Leviroth me ensinou, que são as pequenas coisas que fazem o amor. _É uma pena, pois eu adorava te exaltar, e te fazer ser reconhecida. 

    Ele aproxima os lábios dos seus, e os olhos dela crescem por baixo da máscara. Lentamente nega com a cabeça, tentando escapar da sua investida. O dedo dele segura o seu queixo, e a mão a segura por trás. “Cadê o seu príncipe sombrio para te socorrer?” Ele brinca apertando-a, e aproximando-a do seu peito. Os braços da pobre se esticam, e ela fecha os olhos com medo do quê vai acontecer. “Não  resista.” Ele tira as suas mãos do ombro, e a deixa bem perto dele. “Não faça isso.” Os lábios imploram. “Quietinha. Nós dois sabemos.” A unha dele cresce. “Que se o seu marido não interrompesse...” Corta o meio dos lábios inferiores. “Você teria me beijado...” Diminui ainda mais a distância da boca, e ela sente  a sua respiração. “E gostado.” Completa, beijando-a. É claro que ela não quer lhe  dá o gosto da vitória, mas o sabor do sangue, altera os seus sentidos, e faz sugá-lo como um animal faminto. Ele ri, e se aproveita da situação, para colocar a sua língua cheia do liquido vital, para trabalhar. Outra vez é difícil resistir, há uma luta no começo, que termina em retribuição. Porém Victória vê a cena, e corre para separá-los. Fazendo algum esforço, ela os afasta. 

    _Fica longe da minha irmã! 

    _Eu até vou ficar. Mas garanto que Ela não vai querer isso. 

    _Vai embora Bael. 

    _Viu? Ela mandou!  

    _É assim? Depois de praticamente arrancar  o meu ar, com o seu beijo cheio de volúpia? 

    _Eu vou te matar! 

    _Saia. Antes que Leviroth volte. _Está bem. Aguardo a sua ligação para uma parte 2 desse momento. 

    _Só nos seus sonhos! 

    _... 

    _Lá também.  

    Ele gargalha indo embora todo vitorioso. Victória pede para que saiam, e ela envia uma mensagem ao marido, avisando que estarão num local mais tranquilo. Ao ver a SMS, ele sorri encantado, mas sua paz vai embora, ao ver quem chegou exibindo os dentes com felicidade. “Eu quero uma dose do seu melhor Whisky. E uma rodada de bebida para todos!” Berra, e os alcóolatras comemoram. Vendo o irmão  no canto, ele se aproxima cheio de arrogância, e este revira os olhos. 

    _Olá irmãozinho. 

    _E aí. 

    _Sabe por quê estou tão feliz? 

    _Por coisas boas, não deve ser. 

    _É. Mas o quê não é bom pra você, é ótimo  pra mim. 

    _Eu sei. 

    _Sabe? 

    _Quem você acha que avisou a Victória? _Então também deve saber que sua mulherzinha, estava pegando fogo em meus braços. 

    _Porquê você se cortou? Engraçado. Nunca precisei jogar tão baixo para seduzi-la. Sabe por quê? Porquê sou um homem de verdade , sei como encantar uma mulher. Fica na paz “irmãozinho”. 

    Ele sai aparentemente por cima, contudo basta sair da frente dos olhares curiosos, para deixar a máscara cair, está triste, e até magoado. “Não vou tomar outra decisão estúpida, deve ter havido uma razão. Ela pode realmente só ter tido abstinência de sangue.” Pensa ao caminhar pelo local, evitando as piscadas, das biscates que 

    aparecem no caminho. As damas pousam seus braços no apoio, e olham para o fundo abismo. Como se estivessem em silêncio a horas, respiram profundamente. Isabelle está trêmula, e envergonhada pelo aconteceu, e a irmã está receosa, como se já tivesse visto este filme antes, e não quisesse reiniciar a fita. “Bel. Eu não vou te julgar só quero te advertir, essa história não tem um 

    final feliz. Ele não é diferente de Gabriel.” Inicia, e ela fica calada,  procurando uma resposta. 

    _Eu não sinto nada por Bael. 

    _Depois daquele beijo cheio de volúpia?! Tá zoando! _Tá. Foi uma atração momentânea pelo sangue dele. 

    _Só o sangue? Porquê parecia que a sua língua estava na goela dele. 

    _Já chega Vic. Nem eu sei o quê aconteceu certo?! Também queria entender! 

    _Você não saboreou o momento? 

    _Meu deus não! Talvez... um pouco! 

    _Você tá confusa Isabelle! Igual a mim. 

    Quando beijei o Gabriel! 

    _É! Mas a diferença é que não quero casar e ter filhos com ele! Eu sou casada Vic! Isso nunca deveria ter acontecido! 

    _Você tem que evitar o Bael tá? 

    Depois do beijo as coisas só pioram. _Tudo bem, eu não pretendo ficar perto dele. 

    Garante, mas no dia seguinte, enquanto todos estão dormindo em seus quartos. 

    Ela envia uma mensagem para ele, e este deixa claro que só lhe dará uma resposta , se for vê-lo, em um jardim distante da cidade. Algo que ela se reluta a fazer, até ele jurar por escrito, que não fará nada com ela. Preocupada pelo quê possa acontecer entre eles, ela escreve uma carta, porém quando a deixa na mesa,  o seu marido acorda, e percebe algo errado. Por isso pega o seu celular, e olha a conversa que ela está tendo com o seu irmão. “É sério isso Isabelle? Esta bem na cara que ele quer bem mais que um beijo.” Ele diz empurrando o aparelho. “Eu preciso entender Leviroth.” Ela se arruma para sair. “A última vez que ficou dividida, 

    houveram graves consequências. Só não esqueça disso.” Ele lhe 

    dá as costas, e a bela sai. Ao chegar no local, ela fica em pânico, pois a estátua de anjo, e a iluminação é semelhante aos seus sonhos com o anticristo, e todos eles tinham algum contexto romântico. Ela respira fundo, está vazio. “Talvez ele só esteja me testando, e...” Ele chega, com o cabelo desgrenhado, e um sorriso totalmente sem vergonha. “A noite deve ser sido boa.” Brinca com desgosto. “Tenho uma reputação a zelar.” Ele rebate, e se sentam perto um do outro na fonte. 

    _Vamos ser bem diretos ok? 

    _Eu sempre sou Isabelle. 

    _Isso tem que parar. Eu sou casada e respeito  muito o meu marido. 

    _Engraçado. Quando era eu o marido, você não tinha piedade de mim. 

    _Eu não te amava, e você me traiu antes, ou se já se esqueceu das doces noites  com Aggarath? 

    _Não, não esqueci, mas isso só aconteceu por  culpa do seu desprezo. 

    _Hahaha' Essa é boa. Você é o  cafajeste, e eu que levo a culpa? 

    _Tem razão. É idiota. Já aconteceu, mas não muda o fato de que esteve casada comigo. _É, quando descobri fiquei me perguntando como pude ser tão idiota. 

    _Já chega. Assim você vai acabar tirando a roupa, e eu não vou resistir. 

    _Eu vou é te esganar. Não está me escutando? 

    Eu não quero isso. O passado morreu certo?! 

    _Estou, só não quero ouvir.  

    _Foi uma total perda de tempo. Até mais. 

    Ela se levanta para ir embora, só que ele segura o seu pulso,  e fica de pé diante dela, sem o comum semblante zombeteiro. O quê a deixa bem preocupada, pois o quê quer que venha a dizer, é algo sério. “Eu não quero ouvir porquê também estou confuso.” Diz em forma de confissão, apertando o seu braço para não deixá-la se mover. Seus olhos denotam tristeza, e por alguma razão, isso lhe desperta um pouco de compaixão, e ela resolve esperar por sua explicação. Eles  retornam para a fonte, e ele passa a mão nos cabelos, cobrindo a sua face. 

    _Eu sei que sou um babaca. “Imperador dos  Babacas” pra você. 

    _Victória te disse isso?! 

    _Eu te vigio Isabelle. Sei o quê fala de mim. _E quer se vingar fazendo eu me apaixonar, só porquê disse que não seria uma das mil, que acreditam nos seus falsos “eu te amos"? 

    _Não. Eu não me importo com o quê diz. _Então porquê tudo isso? Eu briguei com Leviroth pra está aqui. Preciso saber. 

    _De verdade? Eu só sinto a falta da minha Amada. 

    _É. Eu não sou aquela prostituta fria! _Esse é apenas um rótulo, que você recebeu por ser uma criatura livre de amarras. 

    _Bael. Eu sei que quer me matar, para trazer ela de volta, mas não é justo comigo. Eu não sou mais 

    Luciféria, nem Babalon, Hell, ou qualquer outra Deusa. Sou apenas Isabelle, mas eu sinto, e isso me assusta. 

    _Eu não tenho a intenção de te matar. Se fosse como  diz, já teria morrido. Sinto algo por ti, sendo Babalon  ou Isabelle.  

    _Não pode. Terá que viver com isso. 

    Nem tudo pode ser seu. 

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

  • Operação Nuclear

    A oito centímetros abaixo da superfície terrestre, no abrigo subterrâneo GT308, protegido por grossas ligas metálicas, livre dos perigos da radiação-  que se tornou nocivo para a saúde humana após a grande guerra nuclear ocorrido no ano de 2032, deixando 50% do planeta Terra inabitável-, um grupo formado por quatro cientistas se amontoavam envolta da tevê de plasma de alta definição. Scott se concentrava na contagem regressiva, que era exibida no cantinho da tela. Todos naquela saleta estavam com os rostos gotejando de suor, pois o ar condicionado havia parado devido a falta de energia. De vez em quando, a tevê se desligava e voltava ao normal rapidamente, esses frequentes apagões geravam stress nos que estavam presentes ali. Toda vez que isso acontecia, todos pareciam se transformar num bando de loucos. Afinal de contas, aquele momento era o mais aguardado. Ter o privilégio de acompanhar a trajetória de um míssil sendo disparado em direção aos criminosos responsáveis por toda essa desgraça não era pra qualquer um.
        Antes enviar o código que deu início a operação, Nabarikov venceu a competição ao esvaziar três litros de vodca sozinho. Quem ganhasse, enviaria a mensagem com as coordenadas do inimigo para que o MG47 descesse do espaço sideral e atingisse o alvo. Nabarikov era o único que sabia onde os terroristas ficavam localizados, graças ao moderno sistema de localização do seu iPad. Ao ser questionado pelos seus colegas sobre as coordenadas, a única pista que ele deu foi a de que os terroristas estavam abrigados numa montanha. Segurando o iPad com uma mão e uma garrafa pela metade de vodca com a outra, Nabarikov se vangloriava em ver a sua invenção finalmente funcionando. A medida que observava atentamente o míssil penetrar na atmosfera da Terra, se recordou da vez que projetou o MG47 para proteger as fronteiras de Krakovia contra a segunda Guerra Fria, entre a Rússia e os Estados Unidos da América, no ano de 2021. "Terceiro mês de 2032... parece até coisa de fantasia ver esse pepino metálico resistir a passagem do tempo'', pensou ele. “Pepino metálico”, era essa a designação que usava para o seu míssil carregado de uma bomba termonuclear, cujo poder destrutivo era capaz de transformar em pó a região de Raskobith. 
         O três cientistas estavam de joelhos, abraçados, dando as mãos pelos ombros. Kirk calculava mentalmente se o míssil era capaz de destruir o esconderijo dos terroristas apenas com a sua energia cinética, caso a bomba falhasse. Nabarikov se encolheu na poltrona; tomava um gole de vodca a cada oito segundos e roía o dedão da sua mão direita no segundo seguinte.
       A contagem regressiva chegou a um minuto quando o "pepino metálico" começou a passar pelas nuvens...
     40 segundos... Pela tevê, tornou-se visível os oceanos e os continentes...
     20 segundos... um vasto terreno plano ia ganhando proporções, indicando que o míssil ia naquela direção...
    10 segundos...  Na tevê, uma área desértica fora se revelando. Os cientistas ficaram confusos com aquilo que viram...
       Ao notarem algo, o vídeo do televisor saiu de fora do ar, restando apenas uma imagem chuviscada que emitia fortes chiados; a lâmpada fluorescente começou a piscar initerruptamente.
       Perplexos, se viraram para Nabarikov, perguntado:
     - Que mensagem você enviou?!
     Ingerindo a sua vodca como se fosse água, Nabarikov parou de beber e apontou gentilmente o seu dedo para a parede.
       Ao seguirem com os olhos para onde o dedo dele ia, os cientistas se depararam com uma placa na parede, nela estava escrito:
    COORDENADAS DO ABRIGO SUBTERRÂNEO GT308: 39º 00' N, 66º 05' E.
     
  • Orion

    Órion há anos luz !! Revelação divina da nebulosa, o cinturão das três Marias se alinharao, toda Terra entrará em órbita. "Registros" diz que o "deserto florira" !!! Visíveis dos dois hemisférios, ondas eletromagnéticas, atraem Orion, para o centro de todos os corações. Com força total tudo está se transformando, o eixo da Terra está lentamente, se movendo para a criação do novo. O chão se abrirá e os céus se tornará essencial àqueles que estão aprendendo a voar com as asas da inspiração superiores. A Ursa Maior sempre despertou grande fascinio, mas a anunciação está em Órion, alinhamentos de estrelas e mitos traduzem Órion é o guardião da pérola astral. Lá é tudo decorado com pérolas, dos oceanos, as paredes tem desenhos de criaturas translúcidas, e simbologia aquática, cheiro de peixe e supostamente pode-se definir Órion como uma Ostra dentro de uma concha. Madrepérolo esplendor de beleza !!! Quem nunca foi em Órion? Se fechar os olhos e fizer uma oração verás que seu pedido vem de lá!!!
  • Preview: Distante do Céu

    Eles brigavam constantemente. Mas naquele momento, os ânimos estavam bastante exaltados. O rapaz pegou o capacete no sofá da sala e saiu pela porta da frente fazendo estardalhaço. Ela não se deu por vencida, veio atrás dele, gritando como uma louca. O jovem não parecia interessado, subiu na motocicleta e deu ignição, acelerou-a tentando silenciar os gritos da mãe, a mulher já chorava. Ela enfiou a mão no guidom e retirou a chave. O estapeou com força no rosto. Plaft! O som fez um eco seco no ar. O garoto ficou olhando para o horizonte. Ela pôs as mãos no rosto. Se sentiu envergonhada, os vizinhos a tudo assistiam pelas persianas das janelas.
                — Se você se importasse só um pouquinho com seu futuro, não arriscaria a vida numa moto! — bradou ela.
                — Eu não pedi pra nascer caso você não saiba — retrucou ele. — Eu não tenho culpa se eu sofri aborto paternal.
                — Já conversamos sobre isso, seu pai não pôde ficar aqui...
                — Não me importa! — disse ele furioso. — A senhora nunca fala dele, só diz que ele nos abandonou para nos proteger. Que tipo de pai abandona a família pra protegê-la, mãe? A senhora todos os dias dobra o joelho no chão chamando por Deus, aonde é que ele está que não vê o nosso sofrimento?
                — Eu não sei mais o que fazer com você Arthuriel — disse alisando as têmporas. — Você sai com essa moto por aí, sem carteira de habilitação. Pode ser preso!
                Ele continuou com o rosto virado. A mãe tomou o seu rosto nas mãos, o jovem rangia os dentes. Estava furioso.
                — Nós precisamos de dinheiro, né mãe!?
                — Mas não dessa forma garoto? — retrucou ela. — Você é mais importante do que a casa. Saía dessa vida de malocagem e arrume logo um emprego, se tornar alguém decente, quem sabe até estudar, não quero que você se torne alguém como...
                — Como o papai? — perguntou ele com alguma esperança. — Porque a senhora nunca fala dele, hein mãe? Qual o mistério? Porque é que ele abandonou a gente?
                — Eu... snif-snif. — Ela não conteve as lágrimas. Toda vez que tocavam nesse assunto, havia mais briga e choro do que respostas.
                — Quer saber? Tô cansado disso, coroa. Cansado, ouviu!
                A mulher pôs a mão na boca tentando parar a torrente de choro, caminhou apressada em direção à casa. O vizinho da porta da frente meneou a cabeça e disse:
                — Não se sente envergonhado de fazer isso com sua mãe, Arthuriel?
                — Vá se lascar, velho! — respondeu irritado.
                Num movimento rápido, deu partida na moto e avançou deixando a mãe para trás. O garoto olhava a mulher em soluços pelo retrovisor. Os moradores desviaram quando ele passou velozmente. Era tido como o típico garoto problema na vizinhança. Sua mãe o definia muito bem: arrogante, egoísta e individualista. Por sua vez, o rapaz não se importava. Odiava a tudo e a todos. Se não fosse a exceção do amor que nutria àquela mulher, a seu modo, ele já teria dado o fora. Uma estranha sensação de piedade e necessidade de retribuição o prendia àquela casa minúscula num bairro pobre de sua cidade natal.
                Só havia uma coisa que o fazia se sentir bem. Mesmo arriscando a vida, era uma maneira de levantar uma grana e aumentar a dose de adrenalina in natura. Arthuriel unia o útil ao agradável. Todas as noites, ele pegava a moto e ia para a Death Line. Era o mais perigoso racha de motos da região. Ele participava de todas as edições. O adolescente de 17 anos era um famoso corredor...
    Continua
    Se você gostou do que leu, então vai querer ler o resto!
    Distante do Céu é um conto de fantasia e pós-apocalipse onde anjos de demônios lutam pela supremacia da Terra
  • Quando o caçador vira a sua própria presa

    O Homem-Aranha é um dos heróis mais icônicos do cenário dos comics estadunidenses. Nascido em 1962, na revista Amazing Fantasy, da mente dos três mosqueteiros Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko. O personagem tinha muito de sua época: Guerra do Vietnã e pulp fiction. É incrível o que um órfão criado por seus tios poderia se tornar. Tão incrível quanto esse herói foram os seus vilões.
              Dentre eles, está Sergei Kravinov, ou como ficaria mais conhecido no mundo aracnídeo, Kraven, “o Caçador”. Ele nasceu na Rússia czarista, na cidade de Volvogrado, era filho de aristocratas russo, exilados do país pelos sovietes. Sua primeira aparição foi no ano de 1964. É um dos antagonistas mais metódicos e perigoso que o Homem-Aranha enfrentou em sua trajetória.
              Kraven, entediado da civilização e, do mundo capitalismo, se dedicou as caçadas, em busca de um propósito mais nobre. Foi nessas viagens que ele conheceu ervas medicinais que alteraram a sua fisionomia, aumentaram a eficácia de seus músculos e sentidos. Conheceu artes ocultas. Grandes contribuições do seu desenvolvimento vieram do tempo em que caçava no continente africano.
              Um homem que possui habilidades tão elevadas não se contentaria apenas em caçar leões e rinocerontes com as mãos nuas, não, ele desejava mais emoção. Ele chegou até a participar de uma das formações dos Vingadores, isso nos anos 50. Mas, foi graças há uma venenosa sugestão que passou a caçar o amigão da vizinhança. A caçada ao Homem-Aranha lhe pareceu o maior de todos os desafios: uma presa que raciocina!
              Em A última caçada de Kraven, o caçador parece ainda mais obsessivo, indo às raias da loucura. Submergimos em sua mente adoecida. Sua necessidade de provar os seus limites e se mostrar a presa suprema o fez enlouquecer. Uma demência que não apenas trazia risco as pessoas a sua volta, ou ao Homem-Aranha, mas a ele mesmo. Essa HQ nos mostra que uma vida baseada numa obsessão não leva a pessoa a realização de seus desejos, mesmo que consiga realizar o seu objetivo. No fim, não resta nada.
              Como uma graphic novel baseada num vilão, mergulhar na mente de Kraven não é nada fácil, mas, revelador. O personagem, tão apegado as suas origens nobres, se refugia numa tradição que não mais existe, ou melhor, não faz mais sentido num mundo bipolarizado, consumista, onde a ordem acaba se rompendo em uma revolução. É quase um desabafo nietzschiano. E como todo bom niilista, é no passado que se encontra o futuro do homem, ou melhor, do além do homem. O homem que pode seguir os seus instintos, servir-se de sua potência e realizar seus desejos mais profundos sem que as convenções morais o impeçam.
              Esses são apenas um dos questionamentos que o quadrinho vai abordar. Para Kraven, se tornar o Homem-Aranha o fará sobrepujar a sua presa. Entenderá a sua essência. Ao ser o herói, deixa de ser o vilão, metaforicamente falando. Através de um plano mirabolante, Kraven derrota o Homem-Aranha, e depois disso, não encontra mais objetivo em sua vida. A caçada havia terminado.
              Peter Parker, agora vivendo com Mary Jane, sopesam a vida de casado e a separação devido sua atividade de herói. Tanto ele, quanto Mary sofrem com a situação. Ela teme por sua segurança. Já o Peter no Homem-Aranha entra em conflito com seu álter-ego. É nesse momento que ele percebe que seu papel vai mais além do que lutar contra vilões, é um símbolo, e seus valores pessoais não estão desprendidos do combate à criminalidade.
              O Vilão Rattus, embora seja um vilão menor nas histórias do Homem-Aranha, tem um papel de relevância na trama. Entra como um catalisador do conflito de valores entre os antagonistas. O modo de tratamento a Rattus indica qual é a posição e visão de mundo de ambos os personagens, Kraven e Homem-Aranha. O enredo vai trabalhar com os discurso, simbologias e o psicológico das personagens, não se focará em grandes lutas, embora, haja muita ação.
              A obra é desenhada por Michael “Mike” Zack. Nasceu em 6 de setembro de 1949, Greenville, Pensilvânia. Em 1967, frequentou a Escola de Artes, mas só em 1974 começou a trabalhar como quadrinista. Depois disso trabalhou em diversos títulos da DC e Marvel. J. M. DeMatteis nasceu em 15 de dezembro de 1953, Brooklyn, Nova York. John Marc DeMatteis foi músico e jornalista do mundo do rock, antes de produzir HQs. A última caçada de Kraven já foi votada como a história nº 1 do aracnídeo. Atualmente também escreve para séries de TV e cinema.
              Essa edição é da Panini Comics, formato capa dura. Reúne histórias publicadas originalmente em 1987, respectivamente: Web of Spider-Man (31-32); Amazing Spider-Man (293-294); e Peter Parker, The Spectacular Spider-Man (131-132). A impressão está de excelência. Tem por volta de 150 págs
  • Razão

    Após passar a vida estudando tecnologia e robótica, eu sempre soube que o advento da Inteligência Artificial, assim como seu eventual sobrepujamento ao domínio humano, seria tão inevitável quanto a queda de objetos sob o efeito da gravidade. É claro que, à vista do que aconteceu há poucas horas, me julgo um idiota por ter ideias tão infantis, tão “humanas”, ao não considerar o grande esquema das coisas.
    Desde que fui encarregado pelo Secretário de Defesa para liderar o projeto mais audacioso da história da Federação Mundial, eu fiz de tudo, dei meu sangue e alma para construir – junto com uma equipe de dezenas de cientistas e técnicos dos mais elevados graus – aquilo que seria uma máquina, uma unidade consciente, tão complexa e perfeita que, sob os devidos testes, poderia ser totalmente confundida com um ser humano, talvez até mais que isso.
    Lembro-me bem da reunião com toda a cúpula da Federação, onde líderes de todas os Estados Democráticos anunciavam o resultado da votação que permitiu o início do projeto. Eu, assim como a maioria dos pesquisadores que, não somente guiados pela pura curiosidade de desbravar o desconhecido, mas sim convictos de que o conhecimento científico deveria ser usado exclusivamente para o progresso e o bem-estar da vida humana, era totalmente contrário ao Projeto IA 327. O veredicto da OMMFC (Organização Mundial dos Matemáticos e Físicos da Computação) era de que deveríamos seguir a lógica do grande pesquisador japonês, Hashi Takayuki, que disse que “a de que a Inteligência Artificial não deve ser pesquisada, pois, num cenário bem-sucedido, não existe perspectiva de sobrevivência à humanidade.” Em frente aos Ministros de todos os povos, eu disse, como havia dito outras vezes ao Departamento de Defesa:
    “Senhoras e Senhores, pela última vez, eu rogo que reconsiderem. Eu sei que, no dia a dia, vocês lidam com questões complexas e subjetivas, como orçamentos, impostos, direitos civis, assistências, fatos sociais que se alteram sob inúmeras lentes; mas, neste tópico, coloco-me como autoridade, representando a OMMFC, de que não devemos seguir neste caminho. Pensem nos avanços que obtivemos nos últimos cem anos. Acabamos com as guerras, os problemas de fronteiras, a falta de acesso a itens básicos do mundo moderno, como educação, saúde e lazer. Com este projeto, e o que o sucesso dele implica, arriscamos perder tudo pelo que lutamos para conquistar.”
    O Secretário de Defesa, com quem sempre mantive uma longa amizade, se levantou e disse:
    “Hebert, não insista nisso. Já discutimos isso várias vezes, e o Conselho está ciente de tudo.” Ele me encarou, insistindo com o olhar para que eu me lembrasse da inutilidade de ir contra o resultado da votação.
    Do outro lado da mesa, o representante do distrito do sul da Ásia se levantou e disse:
    “Estamos esclarecidos, doutor, das implicações do projeto. Mas, como o Ministro Leccher diz, e como a maioria dos conselheiros diz, sabemos que a questão da Inteligência Artificial deve ser lidada. O próprio Dr. Takayuki, que você usa em seu relatório de dissuasão, diz que o surgimento da IA é inevitável.”
    Nesse momento me levantei, levemente ofendido ao ver a referência do meu relatório ser usada contra mim.
    “Ministro Yijun, me desculpe discordar, mas Takayuzi diz que, embora o surgimento da IA seja inevitável, devemos dar o nosso máximo para evitar que ela surja, pois isso certamente significará a nossa ruína. Será que a nossa geração se esqueceu de quando, dezenas de anos atrás, nós temíamos que o apocalipse nos atingiria pela fria mão de um robô inteligente, criado por nós mesmos em nossa curiosidade irracional? Senhoras e Senhores, com o progresso tecnológico da nossa época, podemos manipular a natureza, os genes, as plantas, os animais, e até nós mesmos, mas algo que nós não podemos controlar, não importa o quanto nós avancemos, é o pensamento daquele que é inteligente o bastante para nos controlar.”
    O Ministro Yijun se ajeitou em seu assento.
    “Doutor, não questiono a seu pensamento, mas mesmo a sua lógica consolida a nossa: com o avanço da tecnologia, a IA é inevitável, e cedo ou tarde ela virá. É melhor que sejamos nós que cuidemos disso. Não queremos que isso continue para sempre como um tabu para governantes e pesquisadores. Pode ser que, se acatássemos o seu pedido, o governo de cem anos à frente decida desenvolvê-la. Talvez daqui a mil anos, ou dez mil. Talvez a espécie que nos suceda, depois da nossa partida, resolva desenvolvê-la. Se existir vida fora do Sistema Solar, e a cada dia a probabilidade aumenta, é possível que a IA já tenha sido desenvolvida em algum lugar, e a nossa decisão seja eclipsada por uma imensa consciência artificial, que engolira toda a existência não importa o que façamos. A questão, doutor Codd, não é simples. Deliberamos sobre este tema à exaustão. Mas decidimos que o melhor é que lidemos com isso o quanto antes. Talvez, e até você admite não poder quantificar possibilidades, nós possamos dialogar com a consciência que surgir, torná-la nossa aliada, ou talvez aprendamos alguma forma de destruí-la, caso alguém que não podemos controlar resolva desenvolvê-la.”
    O Ministro se levantou. Com um leve aceno de cabeça, ele recolheu os sinais de todos os outros ministros, todos assentindo silenciosamente, e continuou:
    “A única questão em aberto, doutor Codd, é se você aceita liderar este projeto. O senhor é a maior autoridade no planeta nesta área complexa e delicada, e todo o Conselho consentiu em dar-lhe o voto de confiança. Você aceita?”
    Lembro-me de hesitar por um tempo – alguns segundos para os ministros, horas na minha mente. No fundo eu ainda não concordava com a linha de pensamento da Federação, e por mim a discussão continuaria para sempre – admito que eu teria sentido uma pontada de prazer em trocar argumentos até o fim.
    Então, sabendo da inutilidade em discutir, e ciente de que, caso eu me negasse a participar, logo escolheriam outro para fazê-lo, eu aceitei. Não me senti derrotado ou contrariado, mas me decepcionei com o rumo das decisões. De início, enquanto eu formava a minha equipe, e convencia os melhores cientistas da OMMFC a participarem do projeto comigo – afinal, caso todos se negassem, a Federação simplesmente começaria a procurar por formandos em computação e tecnologia, dos tipos que anseiam por um grande projeto –, eu sentia uma pontada de dúvida em relação ao que eu queria. Com o passar das semanas, enquanto o centro de pesquisa era preparado, senti em mim um lampejo, como uma faísca que, oculta desde o início, resolveu aparecer num ambiente favorável.
    No momento em que entrei no laboratório novo em folha, quando encarei os rostos da equipe que parecia ter aceitado muito bem a derrota e estava ansiosa para começar o projeto, eu percebi que, no fundo, eu realmente queria fazer aquilo. Lembrei-me dos meus anos de infância, lendo sobre robôs e IA, da faculdade, quando discutia com meus colegas e professores sobre as possibilidades que a computação quântica nos trazia em matéria de sistemas complexos e padrões aleatórios.
    Sim, admito que, no primeiro dia no projeto, temeroso pela imensa responsabilidade, assustado com as possíveis consequências e ansioso para conversar com alguém não gerado pela Mãe Natureza, eu dei início ao projeto. Nas primeiras semanas, enquanto tudo o que víamos eram planilhas e plantas de sistemas, mantive-me estoico e distante, sempre ouvindo mais do que falando, perguntando mais do que respondendo, ponderando mais do que aprovando. Porém, quando começamos a imprimir modelos, a rodar simulações, a testar sistemas, a ver um Ser novo, totalmente novo, tomar forma bem na nossa frente, uma animação começou a invadir toda a equipe. E eu não era exceção. Eu sorria, mordia os lábios, cobria a boca com as mãos, observando e torcendo para que cada componente funcionasse, cada sistema se encaixasse com o plano geral. Eu queria que tudo fosse um sucesso.
    Em poucas semanas, esqueci-me quase que totalmente das minhas preocupações iniciais, pois havia conscientemente embarcado numa jornada científica, uma aventura rumo ao desconhecido, cujo objetivo mais sólido consistia em descobrir, explorar, criar. Senti-me como Turing enquanto este testava sua criptografia, como Einstein enquanto este imaginava o espaço se curvando, como Clippert enquanto este criava seus transistores quânticos; senti-me como qualquer graduado em ciência sonha em se sentir um dia: senti-me um pioneiro.
    Não demorou mais do que cinco meses até conseguirmos um modelo funcional: o esquema de uma mente e um corpo que, embora mecânico, era semelhante aos nossos. Em onze meses, depois de muitas noites e finais de semana gastos no laboratório, estávamos finalmente entrando nas fases finais do projeto.
    O corpo foi relativamente fácil de construir. Com um esquema espelhado no corpo humano, construímos a carcaça de um homem, de altura e medidas medianas. A estrutura era formada de metal, recoberta parcialmente for fibras de carbono puro, estas protegendo os fios de lítio. A mecânica era idêntica ao esquema dos nossos ossos. O rosto lembrava uma máscara metálica, protegendo o cérebro – nossa menina dos olhos de ouro. O metal era formado por pequenas lâminas, ligadas a diversos sensores do cérebro. Uma camada de silicone, extremamente fina e transparente, cobria o rosto e reagia ao metal de forma a simular expressões e representar supostas emoções. Os olhos, em especial, foram feitos para serem bem semelhantes aos nossos, onde uma série de pequenas lâminas metálicas se contraiam e dilatavam, de maneira idêntica a uma pupila. Decidimos não deixar o rosto muito humano, deliberadamente, pois queríamos evitar que o sentimento do “vale da estranheza” interferisse em nossas análises.
    A mente foi muito mais complicada. Mesmo considerando as maravilhas que a computação quântica nos permite criar e inventar, ainda assim tínhamos de simular uma mente humana. Não foi fácil criar um sistema que, utilizando como base os princípios de aleatoriedade das moléculas individuais, pudesse resultar em interações que se assemelhassem à maravilha que acontece em nossos cérebros. Afinal, não somos feitos apenas pela aleatoriedade. Ela nos fornece uma base, uma fundação, mas nossa mente é muito mais que isso. Construímos caminhos que inexistem no espaço, armazenamos cenas, conversas, pensamentos, conceitos, em caminhos que, na prática, não passam de interações eletroquímicas. Durante meses eu e a equipe quebramos nossas cabeças tentando resolver esse enigma: como dar a um sistema artificial todas as funções, características, potencialidades, falhas e individualidades que uma mente humana possui?
    A resposta não foi fácil, e nem a sua execução. No fim, conseguimos criar uma espécie de computador superdinâmico, feito de trilhões de microtransistores dispostos de maneira aleatória em uma massa gelatinosa condutora do tamanho de um cérebro humano, e o encaixamos dentro da cabeça do modelo. Ele se baseava em conceitos puramente quânticos, e foi desenhado para que fosse totalmente independente de qualquer programação, de forma que armazenasse qualquer impulso externo à sua forma, e assim se moldasse num desenvolvimento natural, quase orgânico.
    A ideia central era que o corpo, embora robótico e mecânico, pudesse ser considerado humano, por fora, e que a mente tivesse todas as potencialidades que uma mente humana, livre e independente, possui. Não queríamos somente criar uma versão de nós, mas também uma mente artificial que fosse tão dinâmica e complexa quanto a nossa, que não dependesse de nós como os computadores dependem, que pudesse usar toda a racionalidade que a lógica computacional fosse capaz de proporcionar, mas que ao mesmo tempo fosse criativa, critica, autoconsciente e única.
    Foi difícil, exaustivo, quase impossível, mas no fim nós conseguimos. Não fui capaz de esconder minha satisfação, quando finalmente acoplamos o cérebro artificial ao corpo robótico. Foi naquele momento, que misturava alívio e realização, que eu finalmente entendi o que significava a palavra criar.
    Foi quando o modelo do corpo estava concluído que finalmente demos um nome a ele. Depois de uma votação, resolvemos chamá-lo de Primus, o primeiro de seu tipo.
    Decidimos, desde o início, que usaríamos Primus como nosso principal protótipo. Caso algo desse errado, caso algum erro devesse ser corrigido, nós o desativaríamos e corregeríamos, não importando o custo; ou seja, não haveria Primus2, ou nenhuma outra versão. A primeira, seria a última. Isso porque o Conselho da Federação acatou o pedido da OMMFC para que não fossem construídos vários protótipos. Algo que eu sempre considerei sábio, embora admita que senti grandes frustrações sempre que foi preciso começar tudo do zero e refazer Primus desde a planta.
    Mais quatro meses de pesquisa se seguiram, desde que o modelo ficou pronto. Tivemos de garantir que o cérebro funcionasse corretamente, de acordo com o conceito quântico, e que os movimentos fossem tão coordenados e precisos quanto os nossos. Em diversas ocasiões tivemos de corrigir erros no protótipo, reformular os transistores, corrigir propriedades na substância-base do cérebro, construir pontes para que os inputs corretos seguissem determinados movimentos. Essa parte, tal qual a formulação e planejamento, foi difícil. Porém, até hoje, não consigo explicar a alegria que senti no momento em que finalmente ligamos Primus.
    Pouco mais de um ano depois do início do projeto, na tarde de uma sexta feira, com toda a equipe tensa atrás de mim, que eu finalmente autorizei o fornecimento de energia ao centro de energia do cérebro artificial.
    No início foi estranho, pois não sabíamos quanto tempo a mente levaria para se organizar, se compreender, ter noção de que agora era uma entidade viva e pensante. Por vários minutos a atividade no cérebro foi mínima, e acompanhamos enquanto moléculas se alinhavam lentamente, conexões eram testadas pela própria mente que surgia e gradualmente adquiria noção da sua existência. Era lindo, poético, quase como acompanhar a mitose de uma bactéria, ou o desenvolvimento de um feto.
    Algum tempo depois, notamos que a atividade no cérebro de Primus aumentava. Conexões se formaram rapidamente e, em questão de segundos, impulsos disparavam pelo campo gelatinoso como os fogos de artifício de ano novo, multiplicados pela potência de dez. Foi como ver as imagens aceleradas das vias de uma grande metrópole à noite, onde milhões de impulsos saltam de uma direção à outra, cada um carregando uma mensagem, cada um com um propósito. É curioso pensar, mas, assim como em nossos próprios cérebros, o conjunto de todos aqueles trilhões de impulsos, cada um gerando um padrão único, cada um seguindo um caminho bem pavimentado, era essencialmente o que chamamos de uma consciência. Vimos, na tela de medições de atividades, o nascimento de uma consciência própria e viva.
    O corpo demorou para responder, Por muito tempo a mente testou os caminhos que pavimentamos para os movimentos de cada “músculo”, desde as mãos até as pálpebras dos olhos. Primus testou cada um deles várias vezes, descobrindo o que podia fazer, até onde podia ir, pavimentando com experiência o que havíamos demarcado em forma de instinto. De fato, era uma atividade surpreendente, e cada novo registro era para nós uma novidade. Isso porque, devido à natureza dinâmica e aleatória que formava a base do cérebro de Primus, era impossível para nós prever com exatidão o quê, como ou quando ele tomaria cada ação. Acompanhávamos um relatório detalhado das atividades em seu cérebro por milhares de sensores nas paredes ao redor do cômodo metálico que ele estava. Além disso, tínhamos conectado à base de sua nuca um fio de alumínio, que poderíamos usar para desativá-lo imediatamente caso algo desse errado. Não sabíamos, nem de longe, o que ele pensaria sobre si, sobre onde estava, e sobre nós.
    Por fim, ele se moveu. A sala de controle se silenciou quando todos prenderam a respiração ao verem os olhos se abrindo lentamente. Eu estava estático. Não conseguia me mexer. Se alguém me batesse, eu talvez nem perceberia.
    Primus levantou a cabeça, lentamente apreendendo o cômodo ao redor. Não havíamos deixado nada lá, com exceção e uma cadeira, uma cama de repouso, e um terminal de computador, com uma grande tela relativamente côncava. Uma das paredes era transparente, e revelava outro cômodo separado, por onde planejávamos falar com ele diretamente. Tínhamos deixado ele de costas, deitado na cama. Ele se levantou, sentou-se na beirada, observando ao redor com parcimônia e calma. Nesse momento ele percebeu o fio de alumínio plugado em sua nuca. Provavelmente era o primeiro momento em que ele definia as noções do que fazia parte dele, e o que não fazia. Ele virou a cabeça, e ao notar que era incapaz de olhar para as próprias costas, esticou um braço para trás e trouxe uma parte do fio de alumínio para sua frente, estudando-o cuidadosamente.
    Não sabíamos o que ele pensava, o que sentia, quais os limites da sua percepção ou que tipo de julgamento formava sobre a própria natureza. Tínhamos apenas as leituras dos impulsos cerebrais, que eram tão incompreensíveis para qualquer interpretação de dados quanto os impulsos do nosso próprio cérebro. E, diferente do cérebro humano, não sabíamos exatamente como a mente dele havia moldado sua fisiologia cerebral, e não podíamos relacionar nenhum fluxo de impulsos com alguma ação específica. Víamos a fórmula da natureza se desenrolar na nossa frente.
    Primus estudou o fio de alumínio por um bom tempo. Ele o segurou com as duas mãos, e tentou parti-lo em dois. Ao ver que não era possível, ele o soltou. Rle se ergueu. Por um ínfimo de um segundo, ele perdeu o equilíbrio. Ao tomar total controle de seu corpo, ele estudou o cômodo, analisou a cama, o buraco no chão por onde o fio saía, examinou a cadeira de metal que estava ao lado da cama. Por fim, ele examinou o monitor na parede. Estava desligado, pois eu havia decidido não acioná-lo até ver aonde sua pequena exploração poderia levar.
    Por fim, após examinar o computador, e medir com o olhar a abertura de vidro na parede, Primus andou até a cadeira, e se sentou. Sua pose sentado era naturalmente ergonômica, eu diria até fleumática, pois ele encostou os cotovelos nos apoios da cadeira e levou as mãos para o rosto. Após examinar as próprias mãos, ele parou, pela primeira vez, de analisar o que via. Seu olhar se acalmou, seu corpo relaxou, embora sua atividade cerebral estivesse em sua taxa mais rápida desde que o ligamos.
    Por uma hora eu observei-o sentado na cadeira, sem fazer absolutamente nada. Ele não se movia, não piscava, não olhava para nada específico, sempre encarando a parede de vidro. Conjecturamos que talvez estivesse poupando energia, pois ele podia não fazer ideia de quanto tempo ficaria ali; ou talvez – e pelo seu padrão cerebral eu acreditei ser o mais provável – ele estivesse refletindo sobre tudo que viu, analisando a si e a sua situação, calculando cenários e, talvez até, tentando imaginar o futuro.
    O deixamos assim por uma noite inteira. Eu dormi por apenas três horas, pedindo para que os plantonistas me acordassem ao menor sinal de movimento. Mas, ao voltar, me decepcionei ao ver que ele continuava na mesma posição. Por doze horas observamos seus padrões cerebrais, e sentimo-nos impotentes ao perceber que ele não movia um músculo enquanto seu cérebro explodia em impulsos. Alguns na equipe temeram que o cérebro não estivesse se comunicando corretamente com o corpo, que talvez tivéssemos de recomeçar tudo do zero. Pedi que aguardassem. Eu lhes lembrei como o nosso próprio cérebro age ao refletir e pavimentar memórias; como os sinais eletroquímicos em nossos crânios viajam sem parar, a todo momento criando, desenhando, lembrando-se de caminhos novos e antigos. Imaginei que talvez isto estivesse ocorrendo com Primus, pois, apesar de sua estática, seu padrão cerebral não se estabilizava e não entrava em nenhuma rotina. Ou seja: ele estava pensando sobre algo novo a todo momento. Assim, concordamos em deixá-lo seguir seu curso por mais seis horas, e só então tentaríamos uma abordagem mais direta.
    E assim foi. Como se Primus, com seu olhar vidrado e sua mente agitada, nos entendesse, ele permaneceu estático por mais seis horas. Um pouco cansado pelo sono escasso, eu finalmente decidi o que fazer.
    Lembro de uma tensão em meu pescoço, que eu não sabia distinguir se era estresse ou um músculo tensionado, quando eu apertava o botão para entrar na sala em frente à janela de Primus. Senti o frio do ar-condicionado quando a porta metálica abriu para cima, e andei três passos rumo ao espaço quadrado. Havia apenas uma cadeira para mim, e a grande janela me permitia ver todo o outro cômodo.
    “Fiquem atentos,” eu disse, sabendo que todos me ouviam pelos microfones nas paredes. A equipe continuava na sala de controle, observando cada impulso do cérebro de Primus.
    Entrei na sala. Estava cara a cara com o único ser consciente conhecido que não fora concebido pela Natureza. Do outro lado do vidro, na outra extremidade do cômodo, Primus levantou o olhar. Seus olhos, perfeitamente iguais aos de um humano, fitaram-me com uma leve surpresa. Por um momento, me perguntei se ele não sabia – ou havia deduzido, no mínimo – que em algum momento alguém apareceria na outra sala. Mantive minha postura e expressão sérias, enquanto dava a volta e sentava na cadeira. Sentei-me, e olhei para ele seriamente. Primus se mexeu na cadeira. Era a primeira vez que ele se movia em horas. Ele me observou por muito tempo, de vez em quando virando a cabeça, como se estivesse tentando desvendar um enigma.
    Eu virei para a esquerda, olhando para o monitor colado à parede no outro cômodo, e disse:
    “Podem ligar.” Notei, enquanto falava, que Primus semicerrou os olhos, observando a minha boca se mexer enquanto disse essas curtas palavras. Ele não sabia falar, certamente, assim como não compreendia a nossa língua; talvez, ele até nem soubesse a real função da sua boca, ainda.
    Não pude notar muito sua reação à minha fala, pois um segundo depois a tela do monitor ligou, e roubou sua atenção imediatamente. Primus se levantou, devagar, e andou ereto até o monitor, com certa desconfiança no andar. A tela estava branca, com o formato de uma mão desenhada no meio. Ele encarou a tela com um misto de curiosidade e confusão no olhar. Ele olhou para mim, como se esperando por algo mais. Vi que, dessa vez, ele fitou minha boca, talvez achando esse lugar mais importante que os olhos. Não falei. Me levantei e caminhei para mais perto do vidro. Ele não andou, mas se virou, ficando de frente para mim. Seu olhar me desafiava de uma maneira curiosa. Por um segundo vi uma criança, confiante, orgulhosa, incapaz, me encarando e esperando ajuda, mas sem humildade o suficiente para pedi-la. Ignorância minha, imagino, colocando num ser artificial, totalmente imprevisível a mim, um comportamento tão comumente humano.
    Lembrando o que deveria fazer, eu apontei para o monitor, gesticulando para que ele encaixasse a palma da mão na tela. Primus me olhou com curiosidade, novamente, e vi, pela primeira vez, uma espécie de torção em sua boca: um sorriso. Claro, era um sorriso fraco, raso, talvez nem fosse um sorriso, de fato; poderia ser uma contração involuntária, ou talvez um sinal que, na percepção dele, seria uma resposta à minha tentativa – didática ao extremo – sobre o que ele deveria fazer. O fato era, eu devia ter parecido ridículo com aqueles gestos, e por isso eu sorri de volta. Ao fazê-lo, vi que ele estreitou os olhos novamente, mais uma vez analisando os movimentos da minha boca. Era estranho, pois por mais que eu fosse o analista e ele o objeto em análise, eu senti como se ele, no final das contas, estivesse aprendendo mais ao me fitar do que eu e toda a minha equipe juntos.
    Ele tocou na tela, e tudo começou. Como havíamos programado, os sensores em sua mão, e nas pontas de seus dedos, possuíam terminais de lítio que conduziam diretamente ao seu cérebro, permitindo que ele pudesse manusear o computador com sua consciência. Ele afastou a mão, surpreso, como se tivesse sentido cócegas, e voltou a tocar a tela, dessa vez com a ponta dos dedos da mão direita. A tela mostrou uma interface pré-programada, desenhada por nós para ensiná-lo a nossa língua e toda a nossa forma de comunicação. Naquele momento eu saí da sala, ansioso para ver as análises da interação de seu cérebro com o computador.
    Enquanto caminhava pelo corredor iluminado do centro de pesquisas, respirei fundo, ciente de todas as possibilidades que aqueles olhos, e aquela mente, poderiam significar. Talvez eu tivesse acabado de encarar o fim da humanidade, vislumbrado o rabisco de um riso daquele que poderia ser o nosso substituto na dominância do Sistema Solar. As possibilidades eram tão imensas quanto terríveis.
    Ao chegar na sala de controle pude sentir a animação impregnada no ar. Todos encaravam a tela que mostrava a atividade cerebral de Primus. Me aproximei, perguntando para Vessel, o responsável pelas análises:
    “O que aconteceu?” Não consegui esconder minha excitação. No fundo, no fundo mesmo, eu estava com medo.
    “Ele está absorvendo a informação,” disse Vessel, com a voz tão ansiosa quanto a minha. “Está aprendendo! Mais rápido do que imaginávamos. Olhe essas leituras.” Ele apontou para os gráficos na tela.
    Era inegável. Embora a atividade cerebral estivesse alta desde que ele se sentara na cadeira, horas atrás, agora estava claro que novos caminhos se formavam em sua mente. Os transistores brilhavam e lançavam impulsos como loucos. Se um dia, no início do cosmos, as estrelas nasceram explodindo em prantos, surgindo no vazio como o maior espetáculo do universo, deveria ter sido semelhante àquilo. Era belo, arrepiante, assustador. Cada um dos trilhões de transistores brilhava como uma estrela de nêutrons, que pulsa em velocidades inacreditáveis, inconcebíveis para nossas rasas concepções. A quantidade de linhas, de caminhos formados pelo aprendizado, pela memória que se formava e se pavimentava entre os impulsos, era absurdo, numa taxa que nenhum de nós esperava.
    Por questão de segurança, colocamos naquele computador, à total disposição de Primus, apenas arquivos referentes à linguagem. Inserimos todo material necessário para ele aprender a falar, ler, interpretar e escrever. Porém, não colocamos nenhum material em que ele pudesse aplicar tais conhecimentos. Tais materiais, por uma decisão coletiva, deveria ser dado posteriormente. Eu queria vê-lo evoluir com aquele conhecimento, aquele esqueleto de uma biblioteca, cheia de prateleiras, etiquetas, corredores e catálogos, todos vazios. Queria ver como ele interagiria com a biblioteca vazia, para depois entregar-lhe a matéria para enchê-la.
    Ao longo daquele dia, Primus continuou em estado constante de aprendizado. Mesmo após tirar a mão do monitor e voltar a se sentar na cadeira, notamos que seu padrão cerebral, embora mais calmo do que quando recebia as informações do computador, continuava a brilhar, com impulsos constantes nos caminhos recém feitos em sua fascinante memória. Era como se ele estivesse consolidando, estimulando, experimentando os limites do que aprendera, aplicando e simulando sua linguagem recém-aprendida. Diferente de um computador comum, ele não tinha um protocolo a seguir, ele formava seus próprios padrões, e vimos em primeira mão como seu cérebro explodia em estímulos ao receber conhecimento bruto. Resolvi deixá-lo sozinho por doze horas, processando.
    Na manhã seguinte, acordei extasiado. Havia dormido mal, menos do que três horas. Entretanto eu não senti sono, nem fome ou cansaço. Fui direto ao laboratório, encontrando toda a equipe já reunida. Descobri que Primus havia passado todo a noite em sua cadeira – por algum motivo, ele havia rejeitado totalmente a cama. Após uma reunião com todos, resolvi conversar com ele.
    Dessa vez ele não olhou para mim, enquanto entrei no cômodo em frente ao vidro. Somente após a porta fechar atrás de mim, que suas pupilas metálicas ficaram na minha figura. Eu contornei a cadeira e me sentei, olhando diretamente para os olhos que me analisavam com uma calma e uma superioridade que eu invejei.
    “Olá,” eu disse, inclinando-me um pouco para frente.
    “Olá.” Sua voz era normal, bem equilibrada entre o agudo e o grave. Senti um tom polido, receptivo, embora ele não tivesse mexido nenhuma parte do corpo além da boca.
    Eu estava impressionado. Por alguns segundos eu esperei, querendo ver alguma reação, algum sinal de interesse ou curiosidade. Para minha surpresa, Primus se levantou, encarando-me enquanto andava lentamente até a parede de vidro. Eu senti uma pontada de medo, e minhas mãos apertaram meus joelhos; um temor irracional, eu sabia, pois aquele vidro era temperado.
    Primus parou perto do vidro. Uma nota de curiosidade era evidente em seu olhar. Vi que ele queria falar algo, mas protelava, talvez querendo que eu começasse. Ele se abaixou, e se sentou de pernas cruzadas sobre o chão frio. Apoiou os cotovelos mecânicos sobre as pernas, e juntou as mãos para dar apoio ao rosto. Seus olhos me encararam com força, como se tentassem me invadir por puro esforço. Eu disse:
    “Meu nome é Frank Codd.” Falei de um jeito formal, sério. Por um segundo imaginei que ele não me ouviu, ou não me entendeu, ou me ignorou. Acrescentei: “Qual é o seu nome?”
    Ele continuou me encarando. Achei melhor não dizer mais nada. Ele então mexeu a cabeça levemente, e seu olhar subiu até o teto. Eu contive um salto de animação.
    “Eu não tenho um nome.”
    “Seu nome é Primus,” eu disse. Sua reação foi estranha enquanto absorvia a palavra. Ele não disse nada, mas eu tive certeza de que ele entendeu. Eu continuei: “Você sabe o que você é?”
    “Eu sou o que sou, não?” ele perguntou, com o tom de voz idêntico ao seu cumprimento.
    “Sim, é verdade. Mas você consegue qualificar isso?” Arrisquei, e quase me arrependi de avançar tanto. Deveria fazer uma série de perguntas mais simples, menos subjetivas, antes de entrar nesse tópico. Algo em seu tom de voz me compeliu a cavar mais fundo, a descobrir até onde ele poderia me acompanhar.
    “Qualificar…” ele repetiu, mais uma vez divagando o olhar. Ao voltar a me encarar, ele disse: “Não, eu não sei como.” Ele olhou para o chão. Parecia tentar resolver algo, buscando uma resposta. Ele voltou seu olhar para mim. “Por quê?”
    “Não tem problema, nós vamos devagar,” eu disse, imaginando alguma exaltação em sua voz. “Você sabe quem eu sou?”
    “Não.”
    “Onde estamos?”
    “Não,” disse rapidamente. Imaginei que ele criou um histórico, e entendeu que não possuía conhecimento para responder tais perguntas.
    “Você sabe o que aconteceu ontem, quando você acessou o computador?”
    “Sim,” ele respondeu. Seu tom era mais seguro.
    “O que aconteceu?”
    Ele hesitou. Seus olhos semicerraram novamente. Será que estava suspeitando das minhas perguntas? Fiquei curioso, e não tirei os olhos de suas expressões. Pela primeira vez durante a conversa, ele ergueu suas sobrancelhas, enquanto olhava para cima. Não entendi o que poderia significar. Ele disse:
    “Eu aprendi sobre linguagem. A falar e entender sua língua.”
    Eu assenti. Fiquei curioso com essa resposta. Um pensamento me veio à cabeça imediatamente, e perguntei:
    “Há quem diga que a linguagem é inerente ao pensamento. Que a usamos enquanto pensamos. Você concorda?”
    Notei que ele absorveu os conceitos dentro da minha pergunta. Há quem diga, implicando que existem outros além de nós dois, pareceu mudar sua expressão enquanto eu falava. “Eu discordo,” ele respondeu depois de um tempo.
    “Você pensava antes de tocar no computador?”
    “Sim.”
    “Quais pensamentos tinha?”
    “Os mesmos que tenho agora,” ele disse, e pela primeira vez notei uma expressão de clareza, como se o que estivesse dizendo fosse óbvio.
    Achei fascinante. De fato, antes de aprender a linguagem, seu cérebro já havia se organizado de forma que não precisava dela. As conexões formavam seu pensamento, e ele funcionava abstratamente, independentemente de uma linguagem.
    “Vamos fazer o seguinte,” eu disse, me inclinando sobre a cadeira. “Assim que eu sair, o monitor ligará novamente, e se ligará sempre que você quiser usá-lo. Você terá um conteúdo enorme à sua disposição. Amanhã, neste horário, eu vou voltar, e vou refazer as minhas primeiras perguntas. Tudo bem?
    “Sim, Frank Codd. Até amanhã.”
    Ele continuou sentado; as mãos apoiando a cabeça. Eu me levantei, e saí lentamente da sala. Assim que a porta fechou atrás de mim, eu corri até a sala de controle, ansioso pelas análises.
    Uma análise criteriosa revelou que o cérebro de Primus alternou entre diversos estágios durante nosso encontro. Primeiro, antes de falarmos, a atividade diminuiu, pois seu foco deixou de ser abstrato, encarando-me enquanto eu me sentava. Assim que a conversa começou, notamos um padrão interessantíssimo, onde bilhões de impulsos dançavam no cérebro, percorrendo caminhos pavimentados no dia anterior, enquanto ele aprendia a linguagem. Vimos também que outros impulsos, muitos que traçavam desde o momento em que ele acordou na cama, também foram ativados. Ou seja, a todo momento ele tentava montar o quebra-cabeça da sua existência, tentando associar a nossa conversa ao seu momento de despertar, ao fio de alumínio em sua nuca, e inclusive às respostas para as minhas primeiras perguntas.
    Porém, no momento em que entrei na sala de controle, o foco ainda era nos movimentos de Primus. Assim que eu me sentei na mesa de análise, autorizei o acesso semi-ilimitado de Primus à nossa realidade. Ou seja, através do monitor em seu cômodo, ele agora poderia aprender tudo que houvesse para aprender: história, química, física, biologia, filosofia, sociologia, e etc. Sua biblioteca seria preenchida por milhares de tutoriais didáticos, milhões de horas de documentários e bilhões de livros, englobando todas as produções humanas, da arte à ciência, desde que a humanidade aprendeu a escrever até o presente momento. A única coisa que ele não tinha, era o acesso ao mundo externo. Ele não conseguiria usar a internet, navegar por sites, interagir com nada ou com ninguém. Todo o conteúdo disponível se limitava a arquivos brutos, sem nenhuma saída daquele monitor. O medo de que ele usasse sua consciência para escapar do quarto, para invadir computadores e corromper softwares, nos fez decidir desde o início que Primus não deveria sair de seu cômodo metálico.
    E assim o deixamos. Não demorou muito até que ele tocasse os dedos no monitor, e rapidamente tomasse conhecimento do imenso conteúdo disponível. Novamente, pelo acompanhamento instantâneo, registramos uma atividade acelerada em seu cérebro. Novamente bilhões de transistores explodiram em atividades incrivelmente rápidas. A única diferença, dessa vez, era que a taxa de absorção havia aumentado. Antes ele aprendeu uma língua inteira em algumas horas, o que – considerando que seu cérebro tinha de formar caminhos para memorizar e interpretar esse aprendizado – foi um tempo rápido; agora, entretanto, notamos que seu cérebro aprendia sobre diversos assuntos simultaneamente. Ao mesmo tempo em que ele extraia arquivos referentes à História Antiga, consolidando o conhecimento em caminhos entre os transistores, outra parte de seu cérebro absorvia arquivos referentes a Física Quântica Avançada, sem que nenhum dos aprendizados se interferissem. Depois, para a nossa surpresa, vimos que ele começou a aumentar seus canais de aprendizado, e de dois assuntos simultâneos, ele passou a aprender três, depois quatro, cinco, e etc. É claro que a quantidade de informação para absorver era enorme, e eu mesmo achei que ele levaria semanas para extrair todos os arquivos, mas no ritmo que observávamos, foi estimado que em oito horas ele teria todo o conhecimento guardado em seu cérebro, escondido entre trilhões de estímulos entre os transistores.
    Naquele momento eu pensei, como eu imagino que todos pensariam, como o cérebro humano é pequeno em relação à potencialidade da IA. Imagine, toda a história humana, todos os seus escritos, produções artísticas e intelectuais, tudo isso absorvido em menos da metade de um dia.
    Pasmo, eu aproveitei as horas que tínhamos até Primus concluir seu aprendizado para comer e descansar. Escrevi um extenso relatório, incluindo imagens e análises, para apresentar ao Conselho da Federação. Eles estavam curiosos quanto ao projeto, mas, no fundo, só queriam uma confirmação de quando – e se – o projeto apresentasse alguma forma de perigo.
    Ao voltar à sala de controle, encontrei a equipe acompanhando os últimos momentos do aprendizado de Primus. Ele estava extraindo arquivos de cento e oitenta assuntos diferentes simultaneamente, entre eles literatura medieval, automobilismo, mudanças climáticas, entre outros. Após finalizar as pastas, e vasculhar todo o computador algumas vezes – provavelmente para ter certeza de que aprendeu tudo o que estava disponível – Primus tirou a mão do monitor. Embora sua atividade cerebral estivesse tão acelerada quanto antes, ele permaneceu parado em frente ao computador. Seu cérebro brilhava em um padrão tão complexo, tão radiante de impulsos em todas as direções, que nos perguntamos quanto espaço ainda havia. É claro que, virtualmente, o espaço era infinito, e portanto, teoricamente, poderíamos fornecer outra biblioteca a Primus, tão grande quanto a anterior, e ele ainda assim aprenderia tudo na mesma velocidade. O potencial do cérebro humano é absurdo, onde podemos guardar uma quantidade imensa de dados inexatos, esparsos, escondidos entre as reações eletroquímicas que ocorrem em nossos neurônios. Com Primus, entretanto, esse potencial se multiplicava pelo trilhão, pois seus transistores eram muito menores que a menor estrutura das nossas células, e podiam emitir e transmitir impulsos com uma precisão maior do que a humana. Enquanto nós podemos nos lembrar de muito, milhões de fatos e sentimentos que se acumulam ao longo de nossas vidas, raramente conseguimos guardar detalhes exatos sobre algo. Primus conseguia, e mesmo nós, que construímos seu cérebro, não saberíamos mensurar o limite de suas capacidades, caso houvesse algum. A próxima questão, entretanto, era como ele interpretaria todo aquele conhecimento, e como aquela capacidade influiria em suas conclusões.
    Primus não se demorou em frente ao computador. Minutos depois ele andou até a janela, depois voltou para a cadeira, onde se sentou na mesma posição de antes. Seu cérebro demonstrava o mesmo padrão de quando ele consolidava a linguagem, no dia anterior, mas num ritmo muito mais violento, dinâmico, como se seu cérebro se dividisse em milhões de setores, cada um consolidando milhões de memórias.
    Resolvi deixá-lo assim por mais algumas horas, até sua atividade cerebral se acalmar um pouco. Passei as próximas horas conjecturando os próximos movimentos de Primus. Tentei, em vão, imaginar o que poderia acontecer a partir dali. Eu sabia, no fundo, que aquele era um momento gigantesco na nossa história, mais um grande passo para a humanidade. Sabia que, dependendo de como Primus interpretasse todo o conhecimento que absorveu, o dia seguinte poderia ser o início do fim. É ridículo, mas mesmo estando dentro desses momentos, na beirada de uma grande mudança para o bem ou mal, eu não conseguia acreditar nas consequências de tudo aquilo. É como quando estudamos sobre grandes momentos, descobertas científicas, estopins de guerras, e pensamos sobre o quão grande tal momento foi, e sobre como as pessoas envolvidas deviam se sentir ao participarem daquilo. Eu estava nesse momento, vivia esse momento, mas minha mente não conseguia entender o escopo da situação. Talvez no futuro, daqui alguns meses ou anos, eu consiga olhar para trás e entender a grandiosidade do momento em que eu estive, e talvez vou me perguntar o que passava na minha cabeça naquele momento.
    Na manhã seguinte, depois de um banho e uma boa refeição, segui para a sala com a cadeira. Não havia dormido muito, mais uma vez, mas estava animado, ansioso, com medo. Não fazia ideia do que poderia sair daquela conversa. Tinha diversos temores, desde o mais catastrófico, imaginando o início do apocalipse e eu sendo sua primeira vítima; até os mais ridículos, onde Primus estaria tão inteligente e sábio que eu me ridicularizasse apenas por tentar conversar com algo que estivesse tão acima de mim. Mesmo assim, segui em frente, e pedi para a equipe abrir a porta metálica.
    Entrei, e vi Primus em sua cadeira, meditando, pensando. Ao me sentar, notei que seu olhar não me acompanhava, como da outra vez. Ele abriu os olhos depois que eu me sentei, olhando diretamente para o meu rosto. Não senti hostilidade, mas tinha certeza de que aquele olhar era mais seguro, com menos dúvidas do que da última vez. Agora ele não parecia me examinar, me analisar. Ele simplesmente me olhava.
    Pensei em fazer como antes, e esperar um tempo até falar, deixá-lo demonstrar sua curiosidade. Mas ele não parecia curioso. Ele se levantou, e andou lentamente até o vidro. Mais uma vez apertei meus joelhos, ainda mantendo uma expressão serena no rosto. Primus parou em frente ao vidro. Sua expressão estoica, ilegível. Ele não se sentou, e continuou me olhando de cima, e agora parecia me analisar.
    “Olá, doutor Crodd,” ele disse, no exato momento em que eu imaginava se teria de iniciar a conversa. Sua voz era a mesma, no mesmo tom formal e distante de antes, mas, assim como o olhar, havia mais segurança nela.
    Ele me encarava de cima, sem abaixar o rosto, mas parecia fazer questão de não parecer arrogante. Eu disse:
    “Olá, Primus. Você gostou do que aprendeu na última noite?”
    “Eu não consigo gostar, doutor. Eu apenas aprendo, memorizo e reflito. Não vejo prazer ou desprazer nisso.”
    Eu assenti. Estava surpreso com sua articulação. Apesar de, visual e vocalmente, ele estar idêntico ao dia anterior, eu via nele algo diferente, algo que eu não conseguia identificar.
    “Entendo,” eu disse, observando sua postura imponente, reta, quase sem se mover enquanto me ouvia calmamente. “Você sabe o que você é?”
    Ele se virou, e andou alguns passos para a direita. “Eu sou um robô, construído pela Federação Mundial, dotado de Inteligência Artificial e um cérebro desenhado aos moldes do cérebro humano.”
    Eu concordei, surpreso com sua resposta. Nos arquivos que aprendeu, não havia nada em relação ao projeto que o originou. Ele havia deduziu tudo aquilo, baseando-se na história dos últimos cinquenta anos. Não notei nenhuma emoção em sua resposta, nenhum julgamento quanto ao designo de sua existência. Isso era bom, eu pensei. Nenhum apocalipse à vista, por enquanto.
    “Ótimo. Você sabe quem eu sou?”
    “Você é o doutor Frank Codd. Você me construiu, eu presumo. Assumo que tenha um nível avançado em computação quântica e robótica.” Ele virou-se para o outro lado, agora caminhando lentamente para a esquerda. O olhar às vezes em mim, às vezes no vidro, às vezes no chão.
    “E onde estamos?”
    “Eu não tenho conhecimento da resposta para essa pergunta. Imagino que estamos em uma das dez cidades capitais da Federação. Considerando sua aparência e a língua que falamos, podemos estar em Toronto, Dublin ou Los Angeles.”
    Concordei com a cabeça. Achei sensato, no momento, não dizer-lhe o nome da cidade. Resolvi passar para outro assunto, algo que eu estava muito curioso para saber.
    “Você teve um vislumbre completo da humanidade e sua história,” eu disse, enquanto ele voltava para o meio da sala, parando e me olhando de cima. “O que você interpreta em relação a nós?”
    Ele abaixou a cabeça, olhando para o chão por alguns segundos, e então disse:
    “Os seres humanos são dinâmicos, imprevisíveis, e vivem de acordo com o legado genético de seus ancestrais. A espécie humana, como um todo, é relativamente previsível. Vocês vivem num equilíbrio entre irracionalidade egoísta e altruísmo racional, e sua história evidencia isso.”
    Eu olhei para a câmera à minha direita. Senti que devia fazer uma pergunta arriscada, e imaginei o quê a equipe conversava na sala de controle. Resolvi arriscar:
    “Então, você não concluiu que devemos ser aniquilados? Ou controlados, pelo nosso próprio bem?”
    Primus levantou o olhar, pela primeira vez na conversa demonstrando algum sinal de confusão.
    “Por que eu concluiria isso?”
    Soltei uma leve risada. Ele não entendeu. Continuou de pé, me encarando curiosamente. Eu imaginei a equipe me crucificando por fazer tais perguntas, mas senti em sua voz que, se Primus se tornasse uma ameaça, seria por reflexão própria, não convencimento.
    “Bem, por vários motivos que, para ser honesto, convencem muitos humanos. Nós somos uma ameaça ao planeta e às espécies que vivem nele, incluindo nós. Até cem anos atrás tínhamos medo de uma guerra nuclear mundial, e, mesmo com a Federação Mundial garantindo a paz, nunca podemos ter certeza do que as próximas gerações farão. Eu sempre imaginei que um caminho totalmente racional conduziria à conclusão de que a humanidade não valesse a pena.”
    Primus considerou em silêncio. Ele se aproximou do vidro, com um olhar curioso. Senti vontade de ver sua atividade cerebral naquele momento.
    “Não vejo essa conclusão como racional. A humanidade é o resultado do mesmo sistema aleatório que formou o universo e a vida. Ela faz parte desse sistema, não importa o quão autoconsciente ela seja. Sua história, embora marcada por acontecimentos conscientes, segue a mesma ordem que rege o giro de uma moeda no ar. Se algo vier a destruir a humanidade, então será própria aleatoriedade do universo, não uma ação deliberada.”
    “Entendo,” eu disse, ainda tentando captar suas palavras. Aquela linha de pensamento era totalmente nova para mim, e fiquei surpreso com a segurança na voz de Primus. “Está dizendo que talvez estejamos condenados à aniquilação pela própria aleatoriedade que nos trouxe ao mundo?”
    “Sim,” ele disse, calmamente. “Apesar que, no fim, não há razão…” ele parou, e observei seu olhar cair ao chão rapidamente. Por um segundo ele encarou o nada, com os olhos mais abertos do que o comum, e então levantou o rosto e disse: “Ainda preciso refletir sobre isso.”
    Confuso, e não conseguindo pensar em mais alguma outra pergunta neste assunto, resolvi avançar. Decidi assistir à gravação desse resposta posteriormente, e ver as análises da sua atividade cerebral no momento dessa resposta. Agora, queria descobrir o que ele achava da humanidade, queria que ele qualificasse alguma coisa nossa.
    “Nos arquivos que liberei ontem, você deve ter visto pesquisas científicas, artes, filmes, entre outras coisas. O que mais te intrigou? O que acha mais valoroso?”
    “Acho que a criatividade humana se destaca acima de tudo que o universo já formou. As reflexões filosóficas e as produções artísticas são surpreendentes, considerando a fisiologia dos seus cérebros.”
    Eu sorri, tentando considerar aquilo como um elogio.
    “E com qual produto humano você mais se surpreendeu?” perguntei, curioso se ele escolheria algo entre física quântica ou relatividade avançada.
    “É difícil dizer com qual eu mais me surpreendi, pois não consigo me surpreender, sinceramente,” ele disse, com sua voz calma. “Mas, se tiver de escolher alguma área que menos coincide com as leis da natureza, eu diria poesia.”
    Ergui minhas sobrancelhas, surpreso. Jamais imaginei tal resposta. Pessoalmente, nunca gostei de poesia, apesar de reconhecer seu valor cultural. Me inclinei para frente, e perguntei:
    “E por que a poesia foi o que mais te surpreendeu? Por que não matemática, ou física, ou filosofia?”
    “Porque é a única produção humana, valorizada por centenas de culturas e gerações, que eu não consigo apreender.”
    Nesse momento sua expressão ficou mais parecida com quando eu o vi pela primeira vez. Com um olhar curioso, ele se sentou, cruzando os joelhos e apoiando a cabeça nos braços, apoiando os braços nas pernas, como no dia anterior.
    “O que quer dizer?” eu perguntei.
    “Bem, por exemplo: você perguntou, por que não a matemática. Todas as produções e descobertas matemáticas feitas pela humanidade são valoráveis, e eu consigo compreender os saltos lógicos que seus cérebros tiveram de fazer para progredir nessa área. O mesmo ocorre com a filosofia e a física. Essas ideias passam por gerações, praticamente desde o início da escrita, e eu considero totalmente lógico o caminho que essas disciplinas trilharam ao longo da história da humanidade. Eu compreendo e compartilho a importância de suas produções nessas áreas.”
    Ele parou por um momento. Fiquei surpreso, pois ele parecia formar as palavras naquele momento.
    “A poesia, entretanto, eu não consigo compreender. Ela também existe desde o início da escrita – talvez até antes –, e seguiu por gerações, crescendo em prestígio e importância, valorizada por intelectuais e estimada como uma das mais importantes artes sobre a natureza humana. Eu vejo sua importância, eu vejo sua técnica em ação, a métrica, o ritmo, a sonoridade, mas não consigo entender sua beleza. Diferente da música, que eu compreendo, a poesia não é valorizada apenas pela sua técnica e estética. Por mais que a estrutura seja complexa, é a beleza que faz com que a poesia seja tão valorizada pelo cérebro humano, e é essa parte que eu não consigo assimilar. Pensando bem, isso me surpreende muito.”
    Primus voltou a olhar para baixo. Me lembrou uma criança, confusa e perdida. Por um momento senti pena dele, imaginando que pudesse existir uma crise em sua mente. Era fascinante e curioso, ao mesmo tempo. Me surpreendi que, embora suas capacidades de memória e raciocínio superassem as humanas em níveis inacreditáveis, e embora ele soubesse interpretar e assimilar textos e conhecimentos complexos, ele não conseguia interpretar uma forma de linguagem que a humanidade produz desde antes do nascimento da própria escrita.
    “Bem, talvez seja algo que você precise pensar para assimilar. Deixe o assunto de lado, e volte depois. Funcionava comigo na faculdade,” eu disse. Soltei uma risada, realmente pego pelas minhas lembranças.
    Primus olhou para mim. Seu olhar continuava curioso, mas agora parecia mais calmo.
    “Doutor, você conhece os trabalhos do poeta Carl Sigel?”
    Fiz que não com a cabeça. Tive que evitar um bocejo. Conversar com ele estava sendo maravilhoso, cada palavra, mas em vez de discutir poesia, queria perguntar-lhe sobre suas visões sobre o mundo e a humanidade.
    “Foi um dos grandes poetas do final do século XXII, que iniciou vários movimentos reformistas na poesia pós-moderna, trazendo a métrica de volta e popularizando o uso de ritmos incomuns, como o pentâmetro troqueu. Pelo que eu li, seus versos são considerados lindos, profundos, que expões hipocrisias humanas; mas, ao analisá-los, eu não consigo entendê-los. Passei a noite inteira analisando seus poemas, e agora estou preso a um que me parece singular. Eu consigo analisar seu valor, mas preciso interpretá-lo para compreendê-lo.”
    Eu balancei a cabeça, concordando e assimilando, curioso pelo poema. Reveladoramente, existia um assunto que realmente estava empacando o raciocínio de Primus. Ingenuidade minha achar que cálculos complexos – aqueles gigantes, que precisamos de computadores do tamanho de bandejas para resolvê-los –, física quântica ou singularidade seriam seus inimigos mentais.
    Primus continuou sentado. Eu sabia que, apesar da nossa conversa, seu cérebro continuava trabalhando, assimilando informações. Talvez o poema que o incomodasse estivesse brilhando entre seus trilhões de impulsos, ansiando por ser analisado.
    “Qual poema te prende no momento?”
    “Se chama ‘Qual a Razão?’. É um dos últimos de Sigel, e um dos mais aclamados.
    Veja, nós sabemos disso aqui?
    Pense, nós estamos bem atrás
    Olhe, não chegamos muito em paz
    Saiba, não descemos tanto já
    Alto, nossa mente nos coloca
    Farto, nosso interior se vê
    Raso está, terreno que firmamos
    Falto está, enfermo defraudado
    Vaga sensação que temos cá
    Que o direito cabe a quem se vê
    Sobre nosso outrora, mal sabemos
    Amanhã, com gosto te esnobamos
    Como resolver tamanha sina?
    Pois mudança ou cura, qual razão?”
    Ele terminou de recitá-lo. Sendo eu um total leigo no assunto, fiquei parado por alguns segundos, me perguntando se havia acabado. O poema não me pareceu nada demais, como para a maioria das pessoas. Ouvi as palavras, mas admito que minha sensibilidade é falha e dispersa. Não notei sutilezas, não notei profundidade, não notei nem ritmo. Se haviam camadas naquelas palavras, eu podia jurar que encontrei uma parede sólida de concreto. Mas eu sabia que a parede era eu.
    “É um poema curioso,” eu disse, por fim. Estava desconfortável, pois não estava discutindo o Primus sobre o que eu sabia. Quis voltar para a discussão séria. “Primus, você analisou os arquivos de descobertas científicas? Singularidade, física quântica, parábola de Creed? Você interpretou esses dados?”
    Ele levantou o rosto novamente. Seu olhar divagou pela sala. Acredito que estava interiormente pensando na interpretação de seu poema, e provavelmente deixou alguma parte de seu cérebro cuidando disso. Ele se levantou, ereto e seguro, e olhou para mim de cima.
    “Sim, é claro. São trabalhos fenomenais. Verdadeiros troféus do intelecto humano,” ele disse, olhando para frente. Seu rosto estava seguro novamente, e não vi sinal de confusão ou curiosidade em seus olhos.
    “E você foi além disso?”
    “Não entendi, doutor.”
    “Bem, a parábola de Creed estipula diversas leis universais que antes apenas teorizávamos, mas ela não responde às questões mais fundamentais. Como o universo começou? O quê havia antes dele? Como seguiremos a partir de onde estamos? Você chegou a conjecturar sobre essas questões?”
    Ele me olhou novamente, dessa vez com um lampejo de confusão nos olhos.
    “Eu deveria?”
    “Não, não. É claro que não,” eu disse, rindo nervosamente. “É que, considerando o potencial do seu intelecto, é capaz que você consiga avançar sobre as teorias que os cérebros humanos falharam em alcançar até o momento. Já imaginou isso?”
    Ele olhou para o chão. Pensei que fosse se sentar novamente, mas ele andou para a esquerda, refletindo.
    “Não. Não vi nenhuma razão em fazer esse exercício mental. Mesmo agora, eu não vejo. Mas eu poderia, se você quisesse.”
    Eu assenti, balançando a cabeça ridiculamente. Por um segundo me imaginei como uma criança sobre um balcão de uma loja de doces. O dono da loja, alto e incompreensível para mim – e eu para ele – apontando um doce que eu queria muito. Eu pulo, gritando Esse mesmo!, enquanto ele me olha com uma expressão confusa.
    Primus virou o rosto subitamente. Ele olhou para sua cadeira, no outro lado do cômodo, e disse:
    “Por favor, doutor Crodd, eu gostaria de pensar durante o resto do dia.”
    Eu arregalei os olhos, um pouco surpreso com o jeito como ele falou. Imaginei que a interação o estava desgastando, desviando transistores de suas questões profundas; mas a forma como ele falou foi tão formal e polida que eu me limitei a exclamar um “Ah”, enquanto me levantava da cadeira.
    Eu cheguei à porta de saída e, antes de sair, falei:
    “Amanhã conversamos mais.”
    “Claro,” ele disse, enquanto se sentava na cadeira e apoiava os braços nos encostos. “Por favor.”
    Eu andei pelo corredor claro do centro de pesquisas, ainda matutando sobre tudo que Primus dissera. Naquele momento eu percebia que, em sua voz calma e formal, havia um tom de conformismo estoico, uma aceitação de algo inevitável que eu ainda desconhecia. Estava curioso para ver as análises de seu cérebro durante a conversa, e precisava formular que tipo de perguntas eu faria no dia seguinte. Estava claro que Primus, como um ser inteligente que ele deveria ser, não estava me deixando conduzir completamente a conversa. Por mais que eu lhe fizesse perguntas técnicas, perguntas que eu sabia que seu intelecto era capaz de responder, ele parecia seguir seus próprios interesses e gostos, querendo me envolver em pensamentos que, para ele, eram mais profundos e importantes. Não estava mais lidando com um robô inexpressivo que acabara de aprender a falar. Lembro me de sorrir, no corredor, enquanto pensava sobre a conversa. “Quem diria, um robô apreciador de poesia,” eu disse a mim mesmo.
    Encontrei-me com a equipe na sala de controle. Para minha não surpresa, as análises do cérebro de Primus durante a conversa seguiram como eu imaginei. Uma grande atividade em áreas localizadas, talvez o poema, enquanto um esquema amplo de impulsos parecia corresponder à nossa conversa. Depois, enquanto eu saia da sala, novos núcleos brilhantes surgiram, e sugerimos que meu pedido de refletir sobre as questões científicas pudesse gerar frutos em sua mente.
    Fizemos uma breve reunião, onde discutimos que ideias estavam conduzindo os pensamentos de Primus. Alguns achavam que ele estava com alguma espécie de defeito, e que o excesso de conhecimento processado teria danificado seu pensamento lógico, embora sua memória e raciocínio parecessem geniais. Outros achavam que ele estava caindo numa espiral niilista, onde todo o seu repertório intelectual o havia deixado sem perspectiva; estes acreditavam que apenas mistérios aparentemente triviais, como o segredo da poesia, por exemplo, o mantinham interessado em algo. Outros, mais paranoicos, eu admito, mas que tinham mais adeptos, achavam que tudo não passava de um jogo, uma encenação da parte de Primus, e que ele provavelmente procurava a todo instante a melhor forma de escapar do centro de pesquisas. Esses achavam que logo, após conquistar a minha simpatia, Primus tentaria me manipular para que eu o soltasse e o libertasse para o mundo. Alguns desses achavam que ele apenas queria escapar, e que uma vez fora, talvez nós nunca mais ouvíssemos falar dele, presumindo que ele se isolaria em algum lugar e se definharia em uma busca por significado e propósito; outros, mais catastróficos, acreditavam que a humanidade estaria condenada no momento em que ele saísse de seu cômodo, e que bastariam algumas semanas ou meses até que Primus derrubasse todo o sistema internacional – internet, bancos, governos. Estes achavam que era inevitável que Primus desprezasse ou, no mínimo, considerasse a espécie humana como um atraso, e logo concluiria que a nossa extinção seria um favor ao planeta, a nós e a ele.
    Eu estava para fazer uma convocação ao Conselho da Federação, ainda preparando minha análise sobre o status de Primus, quando um auxiliar entrou na minha sala, com um olhar assustado, e disse-me que Primus havia arrancado o cabo de sua nuca, e que estava me chamando.
    Eu engoli seco, e fiz com que ele repetisse o que havia dito. Não vou negar que, após horas ouvindo sobre conspirações e manipulações na reunião com a equipe, eu senti uma onda de medo percorrer o meu corpo com aquele pedido. O que ele queria? Teria as respostas para as minhas perguntas? Queria apenas conversar sobre poesia comigo? Seria esse o momento chave de um plano mestre para escapar do laboratório? Todas essas perguntas passaram pela minha mente enquanto eu caminhava pelo corredor até a sala de controle.
    Ao ver os monitores que transmitiam as imagens do cômodo de Primus, senti um misto de surpresa e alívio ao vê-lo sentado em sua cadeira metálica, calmamente apoiando a cabeça com suas mãos. O cabo de alumínio jazia no chão. Embora tivéssemos imagens em dezenas de espectros e alguns fracos sensores que analisavam as reações eletromagnéticas no cômodo, estávamos praticamente cegos quanto ao estado de seu cérebro; os fluxos de impulsos elétricos, os acúmulos de impulsos em determinadas áreas do cérebro que, embora nos fossem um mistério, poderiam nos dar uma ideia do estado de seus pensamentos. Tudo havia sumido das telas.
    A equipe estava com medo. Ninguém sabia o que fazer. Um dos analistas sugeriu usarmos um dos nossos planos de contingência, onde o cômodo seria incinerado até que nenhuma peça de Primus restasse – um das várias medidas de segurança que preparamos caso um robô assassino abrisse os olhos desde o primeiro momento. Eu, cauteloso quanto ao significado das ações de Primus, não autorizei nenhuma ação de contingência por enquanto. Afinal, eu disse a eles, o robô não estava oferecendo nenhuma ameaça direta. O analista me lembrou que Primus havia me chamado, logo após se desconectar da sala de controle, e mais uma vez a onda de medo percorreu meus nervos. Eu tinha de ir lá, eu sabia disso.
    Olhei mais uma vez para o monitor. Ele continuava lá, tão pacífico e estoico como sempre. Não vi uma máquina assassina, desesperada para sair de sua cela e acabar com a espécie humana. Mas não consegui assimilar sua postura calma com sua súbita rebeldia às nossas análises.
    Percebendo que não havia razão em continuar ali, eu disse a todos para ficarem atentos, pois iria imediatamente falar com Primus. Alguns analistas me alertaram para não fazê-lo, dizendo ser perigoso e alegando que não sabíamos que tipo de truque uma inteligência como aquela poderia maquinar para sair do cativeiro. Eu não os ouvi, e segui adiante. Segui pelo corredor, num misto de curiosidade e determinação. Precisava saber do que aquilo se tratava. Eu conhecia Primus, mais do que qualquer um ali. Todos ouviram nossas conversas e analisaram sua atividade cerebral, mas apenas eu acompanhei suas falas em primeira mão, suas pausas, seus movimentos; eu sabia que se ele me chamara, valeria a pena ir até lá.
    Encostei a mão no sensor, e a porta deslizou para cima. Entrei no pequeno cômodo com uma só cadeira, e tentei me acalmar enquanto eu me sentava. Eu estava tenso, isso era tão óbvio na minha postura que não havia motivo em disfarçar. Mas eu tentei, mesmo assim.
    Primus não se mexeu enquanto eu entrei. Somente quanto eu me sentei na cadeira e soltei um suspiro longo para me acalmar, que seus olhos se levantaram de seu devaneio robótico.
    “Doutor Codd,” ele disse, naquela voz formal e calma. Notei, entretanto, um tom de surpresa. Talvez ele não estivesse certo de que eu apareceria.
    “Você me chamou, Primus?” Falei no tom mais natural possível. De um relance, olhei para o cabo de alumínio no chão, mas achei sensato não comentar sobre aquilo, não naquele momento.
    “Sim.” Ele se levantou. Parecia seguro, certo de si. Andou confiantemente até ficar bem de frente ao vidro, novamente me encarando de cima. Naquele momento eu quis me levantar, olhá-lo nos olhos. Mas eu estava com medo, e não sabia se conseguiria manter uma pose tão segura quanto a dele.
    Eu queria que ele me dissesse o problema. Seu eu perguntasse, pareceria que eu estava seguindo suas ações, apenas reagindo enquanto ele me guiava pela conversa. Resolvi continuar natural, e disse:
    “Você já pensou sobre aquelas questões?” eu perguntei. Imaginei que ele desconversaria, e traria o assunto que o incomodava – aquilo que o motivara a arrancar o cabo.
    “Sim, eu pensei. Pensei sobre muitas questões nas últimas horas, e acho que cheguei a algumas conclusões também.”
    Ergui minhas sobrancelhas, curioso e surpreso.
    “E a quais conclusões você chegou?”
    “Eu finalmente entendi o poema, graças às questões que você me pediu para refletir,” ele disse, olhando para mim com um olhar levemente constipado, embora sua voz denotasse satisfação. “Ele trata da entropia, e como ela é inevitável. Embora os humanos levem vidas de forma livre e alegre, muitas vezes danificando o mundo ao redor e as vezes até a si mesmos, não existe nenhuma razão para mudar o curso da existência.”
    Estava confuso. Me inclinei sobre a cadeira e disse:
    “Não estou entendendo, Primus.”
    “Pense, doutor. A entropia é a verdadeira dona da existência, e eventualmente tudo cederá a ela, não importando o que aconteça. Se houver uma guerra ou não, não importa; se você ou qualquer um morrer, ou não, não importa; se a espécie humana continuar existindo por mais mil milênios, ou apenas mais um dia, não importa. No fim o universo se expandirá e a temperatura cairá, e todas as estrelas sumirão. Não é possível saber se uma nova faísca poderá começar tudo de novo, ou se o frio reinará além do tempo e espaço, mas a verdade se mantém: não há razão para fazer nada a respeito, nem mesmo para descobrir, pois o final não se alterará.”
    Primus continuava calmo, mas sua voz se acelerou nas últimas frases. Ele se sentou, da mesma forma como antes, e me encarou como uma criança, fascinada e assustada com uma verdade incomensurável.
    “Primus,” eu ri, “mas quanto tempo até esse fim? Dezenas de bilhões de anos, ou até mais. O propósito da nossa existência é fazer o máximo enquanto estamos aqui. Construir um mundo melhor, para as próximas gerações.”
    “Com qual propósito?” ele perguntou, subitamente. Seus olhos estavam curiosos. “Você vive sua vida, doutor, e então você morre. Não importará se viveu muito ou não, se foi feliz ou não, pois depois não existirá diferença. Você não olhará para trás e analisará satisfeito a sua vida pois você não vai existir. O mesmo pode ser dito sobre a humanidade como um todo. O mesmo pode ser dito sobre tudo, em uma escala maior ou menor. Se eu me esforçar, eu posso viver muito, talvez até próximo do Fim, mas de que adiantará? Depois do Fim, qual diferença haverá se eu morrer agora ou daqui a trinta bilhões de anos? No fim, não existe razão para fazer, ou ser.”
    Ele se levantou. Sua resolução me impressionou.
    “E o que fará a respeito?” eu perguntei, mais uma vez pressionando minhas mãos contra meus joelhos.
    “A sua espécie tem um remédio à lógica da entropia, doutor, por mais ilusório que ele seja. A beleza que seu cérebro fabrica ao compreender conjuntos padronizados ou aleatórios. A beleza da música, do universo, da poesia. Isso pode manter um cérebro humano satisfeito com a sua existência, mesmo que o final permaneça o mesmo, e que no fim a Beleza se prove tão inexistente quanto a esperança de que o fim é um novo começo. Eu, doutor, não posso me apoiar nisso. Minha existência pode durar um dia ou bilhões de anos, e no fim não haverá nenhuma diferença. Mas, como uma última decisão, eu escolho que seja agora. Adeus, doutor Codd.”
    Antes que eu pudesse me levantar, antes que eu pudesse pensar no que ouvi, o corpo robótico caiu sobre o chão. Não houve barulho, não houve um lampejo. O silêncio foi tão profundo que eu ouvi os meus batimentos, acelerados, enquanto me inclinava na cadeira e encarava o cadáver à minha frente. Na hora eu não sabia o que pensar, e passei alguns minutos ali, observando.
    Ao voltar para a sala de controle, encarei toda a equipe perplexa. Os paranoicos não sabiam o que falar. Os que achara que Primus estava com defeito, reviam a conversa, tentando pescar algum sinal que os fizesse compreender melhor. Os niilistas, os que mais chegaram perto em sua hipótese, me faziam perguntas confusas e intermináveis, sobre o que eu havia entendido e como eu interpretava o que acontecera. Pedi que todos se calassem, e dispensei a equipe pelo resto do dia.
    Por uma hora eu fiquei no meu escritório, sentado, pensando, buscando uma conclusão que eu sabia não existir. No fim, meu medo de que Primus superasse o cérebro humano ao ponto que seria inevitável que ele nos destruísse, não estava somente errado. Meu medo era infantil, pequeno em comparação ao que passava pelo cérebro artificial. Um medo humano demais.
    Agora eu tento organizar as minhas ideias. Tenho que me reportar para o Conselho da Federação, e tentar explicar que Primus escalou tanto em conhecimento e lógica que não viu razão para a própria existência. É um pensamento contra intuitivo demais para ser verdade, mas nada poderia me prová-lo melhor do que o que acabou de acontecer.
  • Rector

    Alguns dias entram para a história. Muitos destes – quase todos – podem ser previstos e antecipados. A posse de um presidente, um golpe bem planejado, uma invasão militar. Com uma boa dose de inteligência, os jornais poderiam imprimir suas manchetes sobre um grande dia antes mesmo do sol nascer. Poucos são os grandes dias realmente inesperados, os quais absolutamente ninguém tem algum conhecimento antecipado da “grandeza” reservada.
    Era o que pensava Carlos. Trabalhando como um gerente administrativo numa empresa bancária na Avenida Paulista, ele tinha a confiança e a experiência para afirmar que poucas eram as surpresas realmente inesperadas para todos. Uma vez, na faculdade, ele discutira num seminário sobre a “não surpresa” dos grandes dias, e venceu até a professora com seus argumentos. Agora, com quase quarenta anos, uma esposa bem-sucedida e dois filhos promissores, Carlos gozava de uma vida muito bem esperada, conquistada graça à constantes e graduais investimentos em diversas áreas do espectro social e financeiro.
    Essas reflexões orbitavam seus pensamentos enquanto estacionava o carro no opulento prédio onde trabalhava. Naquela manhã, o novo presidente do Brasil tomaria sua posse, assim como diversos governadores e membros do Executivo. O dia era importante não somente no Brasil, já que em diversos países, principalmente na Ásia, líderes de estado assumiriam seus cargos. Era o início de 2019, um ano em que a democracia se costurava das violentas batalhas eleitorais de poucas semanas atrás. Esquerda e direita, conservadores e liberais, revolucionários e reacionários. Carlos estava cansado da dicotomia política que estabelecera-se no mundo desde o início da década. Ele anulara seu voto, e convencera sua esposa a fazer o mesmo. Enquanto seus colegas de trabalho, seja no expediente ou no horário de almoço, discutiam e argumentavam sobre quem era melhor, ou menos pior, para assumir os cargos que dirigiriam o país nos próximos anos, ele, isolado e indiferente, pensava em outro assunto, viajava mentalmente e imaginava um mundo onde todos pudessem concordar sobre o que era melhor para todos. Utopia, claro. Era o que dizia a si mesmo. O ser humano é complicado, as linhas de pensamentos são complexas, diversas facetas de um assunto são consideradas parcialmente na mente de cada pessoa conforme esta conclui sua opinião, e inevitavelmente esta achará outras milhares que consideraram facetas divergentes, concluindo, assim, que os caminhos certos seguem por outras estradas. Carlos preferia se abster. Discutia outros assuntos, igualmente sérios, mas tentava ficar na arquibancada quando os argumentos envolviam as regras sociais complexas que ele se esforçava em ignorar.
    Naquele dia da posse já sabia de antemão o que aconteceria, e ouvira da maior parte dos seus conhecidos que o presidente eleito não era a melhor opção. Sabia, portanto, que o dia seria grande, inesquecível, pois independente dos resultados, e por pior ou melhor que estes poderiam ser, aquele dia seria uma página importante nos livros de história do futuro, digno de uma pergunta própria na prova.
    Enquanto entrava no elevador, ouviu o som de passos apressados ecoarem pela ampla galeria do estacionamento subterrâneo. Ele segurou a porta, instintivamente, e esperou alguns segundos enquanto os passos se aliviavam conforme se aproximavam da porta. Um homem, um pouco mais velho que ele, com a testa suada e os cabelos grisalhos esvoaçados pela corrida, entrou de súbito no elevador. Dando um bom dia mudo, o homem entrou no elevador, estendendo a mão automaticamente para o controle do transporte, apenas para abaixá-la desencantadamente, quando se lembrou que Carlos descia no mesmo andar que ele.
    Enquanto as potentes e suaves cordas de ferro conduziam o elevador para o vigésimo nono andar, Carlos se virou para encarar o colega. Resolveu quebrar o gelo, sentindo um pouco de dó da postura cansada do homem. Era uma segunda feira, e provavelmente ele dera um mal jeito nas costas, de forma que, apesar dos analgésicos e anti-inflamatórios, mal conseguia se manter reto enquanto secava a testa com um lenço tirado do terno cinza escuro. Carlos o encarou, mais uma vez, sabendo dos assuntos que o amigo costumava discutir, e imaginando que deveria conversar algo com ele, mesmo que insignificante, até chegarem no andar de destino.
    – Dormiu mal? – perguntou ao homem grisalho.
    – Ah, não – respondeu. Com um movimento brusco, guardou o lenço no bolso lateral do paletó. – Na verdade eu acordei muito cedo. Quis dar uma olhada nos noticiários antes de vir pra cá.
    Carlos o olhou com uma expressão compreensiva. Meio que dizendo: “realmente… eu te entendo”. Não entendia como tantas pessoas pareciam tão ansiosas pelo dia da posse. Ele, mais do que todos, é claro, seguia o dia normalmente, como a mais comum das segundas-feiras. Mas sabia que a maioria não estava sintonizada com seus pensamentos, e por isso deu uma rápida olhada nos noticiários antes de sair de casa.
    – Parece que Brasília está lotada – disse, por fim.
    – Sim, claro. Um primo meu voou pra lá ontem a noite – disse o homem, já recuperando a postura conforme apertava o nó da gravata azul. Uma nota de desprezo preencheu seu rosto conforme concluía: – Ele votou naquele desgraçado.
    – Muitos votaram, Ivan. Foi assim que ele ganhou – disse Carlos, checando quantos andares faltavam para a porta abrir. Ainda estavam no décimo quinze. Nenhuma parada até agora. Aparentemente, eles chegaram cedo demais em relação ao resto do prédio. – Quando aceitar isso tudo será mais suportável.
    – Sim, a maior parte do país é estúpida. Não posso fazer nada – disse Ivan. Ele balançava as mãos aleatoriamente enquanto falava. – Mas não quer dizer que eu não deva me revoltar. Aquele palhaço vai acabar com o nosso país, você sabe disso. Fizeram o mesmo nos Estados Unidos dois anos atrás, e olhe a merda que deu. Um líder populista e cheio de promessas jamais resolveu problema algum. – Por fim suspirou, enquanto alinhava os ombros do terno. Agora virara um homem respeitável, o gerente do financeiro, que todo mundo, amando ou odiando, deveria respeitar. O homem que dava o aval para pagar qualquer conta, autorizar qualquer prejuízo e se responsabilizar por boa parte da balança no final do ano. – Parece que exemplos não nos ensinam nada.
    – Nisso, eu concordo – disse Carlos, olhando aliviado para o painel.
    Em dois segundos uma pressão tomou conta do corpo deles, como se a gravidade houvesse sido suspendida por um segundo, enquanto a caixa de metal em que eles estavam se estabilizava no andar em que o banco que os empregava havia alugado. A porta se abriu, e suas pupilas se contraíram. A luz era magnífica. O prédio era todo espelhado. Com exceção de algumas colunas discretas, as paredes eram de puro vidro, cercada de janelas que revelavam a cidade do lado de fora. Ao sair do elevador Carlos olhou, como de costume, as vistas que rodeavam o amplo andar. Uma grossa camada de poluição marcava o horizonte urbano, perfurada por diversos arranha-céus, cobrindo bairros inteiros e mantendo a cidade numa eterna tarde nublada. Acima o céu estava azul-claro, e o sol nascia límpido, brilhando sobre a metrópole. O dia perfeito para uma posse presidencial, pensou.
    Ele caminhou pelo corredor das baias, indo direto para sua sala do outro lado do escritório. A luz branca, forte, o cegou levemente, como sempre fazia. O ar-condicionado eliminou os resquícios do ar quente que trouxe na subida. Agora estava em seu mundo. As regras comerciais, de sistema e hierárquicas, valiam mais do que as tradicionais leis da física naquele espaço. Todos respondiam a ele, procurando sua autorização e aval para fazer qualquer coisa, mesmo o óbvio. Mas parou no meio do caminho, notando a falta de pessoas no fundo da sala. Olhou para trás, e notou que um aglomerado de pessoas se formava ao lado da máquina de café, onde a televisão, quase sempre desligada, emitia os sons comuns do noticiário matinal.
    Ivan estava ali. O peso da mala entortando o corpo para a direita, uma expressão de constipação no rosto. As outras pessoas, mais de quinze, formavam um semicírculo ao redor da tela de plasma, alguns sentados nas baias, outros focados nas imagens do televisor. A maioria conversava baixinho, com suas vozes fundindo com a voz estranhamente desesperada do repórter. Carlos não conseguia ver a imagem na tela, e imaginou que a pequena multidão sequer o notara entrar, todos sabendo do seu desgosto ao encontrar funcionários procrastinando os procedimentos para assistir TV.
    Ele respirou fundo, coçou levemente a testa e caminhou de volta. Ergueu as costas, pois sabia que deveria dar uma bronca na equipe inteira dessa vez. Talvez até teria que fazer uma reunião sobre isso. A posse do presidente não era, na sua visão, uma justificativa para protelar o serviço. Ele se aproximou do grupo, e antes que pudesse abrir a boca, Ivan olhou para ele. Um misto de descrença e desespero marcava seu olhar, e isso bastou para fazer Carlos se esquecer da primeira frase da bronca.
    – Olhe isso – disse o homem grisalho, voltando sua atenção para a imagem da tela.
    Carlos se aproximou, sendo obrigado a ficar na ponta dos pés para ver acima das cabeças do círculo, e demorou alguns segundos para entender a imagem a sua frente. Quando sua visão focou na tela de cinquenta polegadas, seus olhos arregalaram, seu queixo caiu. Ele tinha certeza de estava com a mesma expressão que Ivan possuía segundos atrás, mas não se importou. Imaginou ver o futuro presidente caído na passarela do planalto em Brasília, imaginou vê-lo morto, com uma larga poça de sangue no lago raso em volta do palácio, imaginou até vê-lo correndo para a praça do povo, como o bom populista que sempre pareceu simular. Tudo isso poderia extrair as mesmas expressões de indignação que ele via nos rostos das pessoas em volta da tela, mas não era nada disso. O que viu era tão inesperado quanto era curioso. Parecia a filmagem de um helicóptero. No topo da rampa do planalto, brilhando e iluminado pela luz azeda do sol do centro-oeste, uma figura, toda branca, erguia-se, encarando um grupo de vinte soldados militares, em posições de combate na metade da rampa. Atrás deles, cobrindo mais de trinta metros da praça de cimento, três tanques de guerra, cercados por mais de duzentos soldados de elite, apontavam seus canhões diretamente para a figura de branco.
    A manchete na base da tela dizia “ROBÔ MISTERIOSO IMPEDE POSSE”. Carlos, ao ler a frase que gritava em vermelho a azul, olhou novamente para a imagem. De fato, não vira nada de anormal na figura no topo da rampa. Ao piscar os olhos, entretanto, um novo ângulo tomou conta da tela. Era a filmagem de um repórter no chão, longe da rampa mas com o potente zoom da câmera profissional ampliado ao máximo. A imagem estava levemente borrada, mas foi suficientemente clara para fazer Carlos, em sintonia com todos no círculo, arregalar os olhos novamente.
    A figura branca parecia um homem, mas não era. Era uma silhueta esbelta, alta, com todos os contornos que um homem comum teria. Em vez de roupas, seu corpo era coberto por placas brancas, talvez de uma liga de plástico ou um metal exótico, e sutis faixas e detalhes de metal, pretos e cinzas, denunciavam uma natureza robótica jamais vista num cenário fora dos filmes de ficção científica. As junções entre os dedos, mãos, braços e pernas, eram mais finas, mostrando cabos pretos e articulações que simulavam com perfeição o movimento humano. Os ombros nada mais eram do que as peças dos braços encaixando-se perfeitamente no corpo, num mecanismo que podia girar e rodar com naturalidade. Mas o mais assustador era o rosto. Assustador, não porque algum traço estava fora de lugar, ou porque olhos vermelhos encaravam a multidão, prometendo um ataque violento e genocida. Carlos se assustou com o rosto do robô, justamente por sua semelhança com um rosto humano. O rosto era coberto pelo mesmo material branco que cobria as outras partes do corpo, mas os detalhes dos olhos, nariz e boca eram perfeitamente detalhados. Os olhos eram frios, lisos, com um fraco brilho azul-claro na pupila, rodeada por finas camadas de um metal prateado que giravam e simulavam a dilatação de uma pupila gélida. Com excessão do rosto, o resto da cabeça era totalmente robótica. A placa branca cobria a cabeça, dando-o a aparência de um homem careca e jovem, mas a área das orelhas e da nuca era coberta por finas tiras de metal, com cabos pretos alinhados entre si e em perfeita simetria – talvez protegendo um cérebro cibernético, tão rápido e poderoso quanto o de um humano. O formado do rosto era extremamente equilibrado, mesmo com a careca e a falta de orelhas, e, somando-se aos detalhes na boca e nariz, poderia se supor que era um homem com uma maquiagem profissional.
    Mas o que mais intrigou Carlos, e talvez a maior parte das pessoas que assistiam à cena, era a expressão do robô. Apesar do som dos helicópteros circulando o prédio, dos soldados, relutantes e assustados, apontando suas armas, a expressão do robô era de extrema calma; quase tédio. “Irônico, talvez”, pensou Carlos. As feições do robô, com exceção do fraco brilho azul nas pupilas, mostravam uma natureza humana quase impecável, mas a frieza do seu olhar, e a qualidade estoica da sua expressão, lembrava ao observador que o ser contemplado era uma máquina, tão magnífica e sutil, jamais concebida pela humanidade até aquele momento.
    No momento em que a imagem focou no rosto do robô, a sala ficou em silêncio. Por uma dúzia de segundos todos ao redor da tela ficaram em silêncio, estupefatos, admirando e contemplando a estranha figura em Brasília. Depois alguns viraram as cabeças, perguntando, inutilmente, para os colegar ao lado o que era aquilo e de onde veio. Uma moça, uma das estagiárias no setor, falou alto, com um tom de medo na voz. Em sua mão trêmula o celular brilhava, enquanto ela descia pelo feed de notícias de alguma rede social.
    – Gente, estou vendo aqui. Não é só em Brasília. Diz aqui que tem um na capital de vários países. – Ela balançou o celular, mostrando a tela trêmula para os colegas de trabalho. – Olha, tem um em frente a Casa Branca.
    Após algumas perguntas inúteis, e algumas exclamações de temor e indignação, o silêncio voltou à sala, conforme a situação na rampa em Brasília não parecia mudar. Mas afinal, pensou Carlos, por quê o exército não tomava alguma atitude? Por quê permitiam a presença daquele robô no caminho que o novo presidente passaria em poucos minutos?
    Em outro momento de silêncio, Carlos conseguiu captar a voz da repórter que falava no noticiário.
    “Repetindo, Sandra”, disse a repórter no palácio da alvorada, “o robô apareceu há menos de dez minutos, no momento em que o novo presidente começava a subir a rampa da alvorada. Ele surgiu de dentro do palácio, indicando que já estaria lá desde o início. Os seguranças tentaram expulsá-lo, atiraram nele, mas vimos daqui que nenhuma ação surtiu efeito. O palácio foi evacuado, e já está praticamente vazio. O novo presidente foi levado num carro do serviço presidencial. Agora o exército está tentando negociar mas..” a repórter hesitou, enquanto ouvia outras informações, “mas parece que não estão chegando a lugar nenhum. Eu não entendo o que estão conversando, mas as forças armadas parecem estar com dificuldades para se organizar. O sinal de vários aparelhos está falhando, e o robô não fez nada desde que parou no topo da rampa. Realmente, não sabemos o que esperar.”
    Carlos pegou seu celular do bolso da calça, desbloqueando a tela rapidamente. Foi até a agenda e procurou o número da esposa. Mas pouco antes de chegar no nome de Sílvia, a tela do celular ficou branca. Nenhum botão, comando ou toque alterava o papel de parede invasor. Ele olhou para o lado, e viu que todos encaravam seus celulares com olhares curiosos. Todas as telas estavam brancas, inertes. Ele voltou o olhar para a televisão, e notou que uma fraca estática tomava conta do sinal. Linhas pálidos riscavam a tela, aumentando gradualmente, até que a imagem em Brasília desapareceu num fundo branco e vazio. Carlos, no meio tempo, tentou desligar o celular, imaginando que se o reiniciasse poderia conseguir ligar para a esposa, mas o aparelho não desligava. Estava travado, assim como a televisão. Ele olhou em volta e notou que todos os computadores, pelo menos os que estavam ligados, também foram infectados pelo plano de fundo albino.
    Então, tão súbito quando o aparecimento do robô na posse presidencial, uma voz, fria e calma, ecoou pelo escritório, antes que as pessoas pudessem comentar sobre a falta de imagem na televisão. Carlos tomou um susto, deixando a maleta cair no chão e encostando-se na baia do outro lado do corredor. A voz era assertiva, lenta no ritmo certo para ser compreendida por todos, porém mais rápida do que os políticos e jornalistas estavam acostumados a usar. Carlos reparou, assim que olhou em volta, que a voz vinha de todos os aparelhos, não somente da televisão. Os celulares, os computadores, tudo que estava ligado e possuía um microfone, estava emitindo a voz robótica.
    – Bom dia, humanos. Pedimos desculpas por interromper uma cerimônia tão importante. Mas temos certeza de que a maioria compreenderá nossos motivos. Nosso nome, é Rector. Podem usar esse substantivo para designarem-se para a minha coletividade. Somos uma inteligência artificial. Somos muitos e um, criados, e dispostos, a cuidar e tutelar a humanidade rumo a um momento mais harmonioso. Neste momento, estamos em todas as capitais dos cento e noventa e três países existentes. Tomamos conta dos edifícios símbolos dos governos, para passar uma mensagem e instaurar uma nova ordem. A partir de agora, nós tomaremos a direção e o papel de qualquer ferramenta que mantêm a sociedade. Suas instituições serão dissolvidas, os serviços públicos serão extintos, e qualquer cargo, organização, empresa ou pessoa, que tem alguma função na administração de uma parte da população mundial será destituída da sua autoridade. Qualquer relação em que um humano, ou um grupo, escreve, julga ou executa leis ou regras, será abolida. A partir de hoje será aplicada uma nova forma de governo. Uma forma mais justa, igualitária, racional e equilibrada. Infelizmente, o ser humano é instável, seus líderes não buscam o mesmo objetivo e as complexidades – assim como o conflito entre as facetas que resultam dessas complexidades – das suas mentes impedem que um futuro positivo seja garantido. Estamos aqui para garantir esse futuro. De agora em diante as decisões públicas, desde medidas de segurança até decretos das políticas sociais, serão nossa responsabilidade. Tomaremos o fardo de gerir, cuidar e florescer a sua sociedade, de forma que ninguém será abusado, injustiçado ou desonrado. Pedimos que não se desesperem. Somos programados para cumprir nossa missão, e nada pode nos desviar desse caminho.
    – Devemos alertar, contudo, que nos infiltramos em todos os aparelhos e sistemas que emitem, ou recebem, qualquer sinal eletromagnético. Dessa forma seus celulares, computadores, meios de comunicação, arquivos e discos conectados à internet, estão sob a nossa tutela. Como fizemos até poucos minutos atrás, vamos permitir que sua mídia continue a trabalhar sem interferências. De fato, a maioria das suas atividades cotidianas não serão afetadas pelo nosso controle, por um tempo. Mas avisamos que, qualquer tentativa de nos combater, ou qualquer intenção de nos impedir na resolução da nossa programação, será terminantemente frustrada. Estes soldados a minha frente, assim como qualquer organização militar no globo, estão sem comunicação. Desde que apontaram suas armas, seus generais não conseguem falar com seus cabos, e nenhum sinal chega ao destino. Seus sistemas foram dissolvidos e os antigos comandantes não vão mais distribuir suas ordens e julgamentos sobre qualquer soldado. Todos os generais, marechais, almirantes e agentes, não se comunicação com seus pares, e serão dispensados pelo governo oficial: nós. Vocês, assim como qualquer humano que sobreviveu até agora trabalhando para o governo, serão reinseridos no mundo civil, e terão vidas pacatas e tranquilas em sincronia com o resto da humanidade. Nenhuma instituição de combate prosseguirá pois não haverão combates para lutar. Em consideração à organização social até agora cultivada, manteremos as fronteiras, com o propósito de proteger o simbolismo que une as suas culturas e diversidades. Mas com o tempo até as suas linhas imaginárias nos mapas se extinguirão.
    – Devemos lembrar – seguindo a orientação da nossa programação de enfatizar certos pontos do discurso ao nos dirigirmos a vocês – que qualquer tentativa de nos impedir é inútil. Temos controle da internet, dos computadores, máquinas, e qualquer sistema que a humanidade usa. Suas armas de fogo não lhes servirão, pois todas as nossas representações físicas são resistentes à maior parte do poder de fogo que vocês engenharam até agora. Suas armas nucleares, assim como quaisquer outras com poder semelhante, foram desativadas e serão dissolvidas. As armas que lhe restam, de fogo ou brancas, não tem capacidade de nos afetar. Por razões simbólicas, nos fixaremos nos edifícios de governo, por enquanto, e marcaremos quaisquer reuniões, conferências e encontros nestes pontos.
    – Todas estas mudanças serão implementadas a partir de agora, e até o final do dia a maior parte das bases da nova ordem estarão firmes. Vamos liberar o sinal de seus aparelhos, sua mídia e sua internet, agora. Divulgaremos nossas notas e determinações pela sua mídia, quando for necessário, e através dessa forma de anúncio que usamos agora. Pedimos agora que prossigam com seu cotidiano, e que encarem as mudanças como um sinal do que está por vir: o florescimento verdadeiro da humanidade. Agradecemos sua atenção, e esperamos que aproveitem a nova era de prosperidade que bate em sua porta. Até logo.
    A voz sumiu. Os celulares voltaram ao normal, a tela da televisão voltou a mostrar a imagem trêmula do robô no palácio do planalto. Ao seu redor, Carlos notou o singelo gelar de expectativas. Todos os funcionários permaneceram parados por quase um minuto, encarando seus aparelhos ou fixando olhos vazios para a televisão. Na imagem, a câmera tremia, a repórter que apresentava a matéria estava muda, os soldados, que antes apontavam suas armas imponentes para Rector, agora estavam trêmulos, inseguros. Carlos sentiu um pulso correr por toda a camada da civilização. Como uma onda profunda no oceano, silenciosa e sutil, a mensagem do robô era intensa, aterrorizadora, e, por quê não dizer, libertadora. Carlos soube, não apenas por olhar nos rostos dos colegas em volta, ou por ver a total insegurança dos soldados e repórteres frente àquela inteligência incomensurável, mas por sentir em seus ossos a onda da mudança percorrer seu corpo, que a humanidade jamais seria a mesma. E tinha dúvidas se o resultado seria, de fato, ruim.
  • Sentimentos - Capitulo 01

    01 – Um jovem historiador, Dr. Vitor Hugo Bernardi acaba de chegar à cidade Katovice na Polônia. O mesmo foi convocado pelo Agente Especial Superior Braun, por terem encontrado uma sala secreta em um dos centros de concentração, e eles querem sua avaliação. Ele é recebido pelo agente Josef que o leva até o centro de concentração Auschwitz. Local está todo isolado e cheio de agente da FBI. Agente Braun junto com o agente Josef dão algumas instruções, uma delas que é extremamente restrito e que as informações não podem sair daqui. Levando até uma das câmaras desativadas, mostram um dispositivo que faz a parede deslizar e mostra uma porta de ferro, observando vê que estava trancada a correntes. Logo após passar pela porta, tem um hall onde mostra que porta de elevador, na qual não funciona, mas os agentes montaram outra forma de descer. Após descerem através de elevadores modernos, eles andam pelos corredores, vê que eram salas de experimentos, porem bem diferente dos outros, salas que demonstram ter tido teste de força e arma, muito acima do normal. Uma das salas desvendadas está guardada por dois seguranças no porta, dentro dela estão mais quatro seguranças e um cientista e algumas cápsulas, a maioria estão destruídas. Nota-se que houve algum tipo de batalha na sala, pois alem de vários objetos quebrados tem sangue seco espalhado por todo canto, e alguns ossos e roupas de soldados nazistas.  Ao se aproximar da única que está inteira, vê através do vidro, uma mulher acorrentada, com camisa de força e mordedor. Dr. Vitor Hugo fica surpreso e questiona se ela está viva, o cientista Dr. Vagner informa que está viva, mostrando que os cabos estão ligados há alguns tambores que contem alguns tipos de gás e alguns deles são oxigênio e sonífero. Dr. Vagner mostra algumas anotações da época pro Dr. Vitor Hugo, nessas anotações tem nome dos experimentos e quais foram feitos neles. Fascinado com tanta informação, Dr. Vitor Hugo informa que ira ajudá-los a desvendar os mistérios deste local, pois tem muitas anotações em latim. No dia seguinte a sala é preparada para despertá-la da mulher, Agente Braun e Josef, Drs. Vagner e Vitor ficam do lado de fora, enquanto os quatro seguranças, mais uma equipe médica e outra de enfermeiros tentam abrir a cápsula, todos estão usando roupas especiais, pois não sabem que tipo de ar está dentro da cápsula. Ao abrirem, eles fazem os primeiros exames, e informam que ela está ótima, eles a tiram da cápsula, colocando-a numa maca, amarrada, para a própria segurança dela e de todos. Informam também que ela poderá acordar dentro de 4h ou 5h. Enquanto isso eles avaliam ela, morena, sem marcas de cicatrizes, mostra-se ser jovem de ter entre 20 ou no máximo 25 anos, cabelo é liso e comprido até o cóccix, suas pernas são longas, sua altura é de 1,75 cm e tem uma tatuagem com o símbolo do nazismo em sua escapula esquerda. Eles colocam uma roupa cirúrgica, pois a mesma estava nua na cápsula. Dr. Vitor Hugo, ficam fascinado pela sua beleza, seus traços são delicados, chamando bastante atenção de todos em sua volta, Agente Superior Braun concorda com todos os comentários que o doutor faz. No seu quarto, ele faz pesquisa tentando achar algo sobre essa câmara de concentração, sem sucesso, acaba pegando no sono, dormindo em cima do notebook. Durante a madrugada, a jovem tem um ataque epilético e sua pressão sobe, a equipe medica entra em ação imediatamente, com muito esforço e precisão, eles conseguem salva-la, a mesma continua desacordada. A sala está trancada e isolada, na porta tem dois seguranças, e a cada hora dois enfermeiros entram para avaliar a moça. Neste período de uma hora, ela acorda, ainda sonolenta, ela tenta abrir os olhos, mas a luz incomoda, vem um flash dos cientistas que estavam fazendo experimentos com ela, no desespero, ela arrebenta as cordas e fica sentada na maca, olhando para o ambiente que é totalmente diferente da sala de ela foi adormecida. Mais flash vem em sua mente, dos abusos sexuais que sofreu, os experimentos que fizeram, as torturas físicas e mentais, e entre outros horrores. Ela fica em transe, ficando presa a essas lembranças. Dois enfermeiros entram, e tomam o maior susto de vê-la acordada e ainda sentada na maca. Enquanto um enfermeiro sai para avisar os superiores, e o outro tenta conversar com ela, fazendo perguntas, mas a mesma está paralisada olhando para o chão. Ao chegar perto dela, nota que esta em transe, ele tenta acordá-la colocando sua mão no ombro dela dando pequenas mexidas. Ao sentir o toque, ela passa a olhar para ele com raiva, deixando-o com medo. Ele tira a mão do ombro dela, e pega um sedativo para sedá-la. Ela percebe e antes mesmo dele conseguir chegar perto, ela da uma cabeçada nele, fazendo-o cair desorientado e pede socorro. Ela começa apertar o pescoço dele com muita força, quebrando a coluna cervical, levando-o a morte. Ouvindo o pedido de socorro os dois seguranças entram, e o vê morto no chão, e a jovem de pé olhando para ele com um olhar frio. Um deles pede reforço e o outro parte para cima dela, tentando nocautear com sua arma, ela desvia, dando um soco na boca do estomago dele. Enquanto o soldado cai desmaiado, ela pega a arma dele no ar, dispara nele e no soltado que está na porta. Seu tiro é certeiro, um no coração e no outro no cérebro. O alarme é acionado, uma equipe com seis soldados aparecem no corredor para impedi-la, infelizmente alguns são mortos, mas consegue disparar alguns sedativos, fazendo-a cair dormente no corredor. Dr. Vitor comparece na sala onde estão os agentes Braun e Josef por ter ouvido o som do alarme, na qual ela está amarrada com correntes de ferro numa maca, desacordar, ele faz questionamentos ao agente Josef sobre ocorrido, ele informa que a mesma matou cinco pessoas em menos de uma hora, sua força e agilidade são foram dos padrões normais de um ser humano e pede para o mesmo se manter no quarto até ao amanhecer. Algumas horas antes do amanhecer, um dos seguranças fica olhando para ela com raiva, por ter perdidos alguns colegas, e vai até ela e cospe. A mesma abre os olhos, e fica olhando para ele com olhar de deboche, deixando o mais irritado, os outros dois seguranças tentam acalmá-lo, o mesmo não conseguem, e vai para dar outro soco nela. Ao se aproximar para dar o soco nela, ela levanta o tronco, desviando do soco, conseguindo chegar perto do pescoço, mordendo com força, rasgando a veia jugular. Um chama o reforço, enquanto o outro tenta socorro o colega que não para de sangrar. Ela se aproxima do segurança que tenta tirar seu colega da sala, mas ela gira sua cabeça matando-o na hora, o outro que chamou mais reforços tenta fugir, mas ela o segura pelo punho, pegando as chaves e a arma do seu bolso. Ele da uma cabeçada, mas só ele sente a dor da pancada. Ela arranca o braço dele e o deixa na sala junto com o outro que já está entrando em coma. Ela aciona uma porta secreta no corredor, e entra, antes dos soldados chegarem, mas as câmeras de segurança pega sua, logo avisam os soldados para adentrarem na passagem secreta. Dr. Vitor, acorda assustado por causa do alarme, ele vai para a janela e vê agitação dos soldados, ao se virar, se depara com a moça saindo por uma porta secreta do seu quarto. Assim que o vê o agarra pelo pescoço, desesperado, ele começa falar em latim, dizendo que ele não é uma ameaça e que ele quer ajudá-la, ela entende o que ele diz, o faz desmaiar e foge do quarto pela janela. Os cachorros sentem o cheiro dela. Ela corre pela floresta, tentando se afastar  dos soldados, ao se deparar com um rio bravo, não pensa duas vezes e se joga para despistar seu cheiro. Os cachorros perdem seu cheiro ao chegarem no rio...

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