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ficção cientifíca

  • ‘EU’, ‘ELES’ e ‘NÓS’

    Sabíamos que estávamos sendo vigiados por ‘ELES’. Muitos relatos de abduções, fotografias e filmagens de suas naves e tecnologias não paravam de ser publicados nas redes sociais. Porém, por esforços dos governos mundiais que negavam e ocultavam os fatos, e também, por uma certa mescla de realidade e fantasia nos filmes e seriados hollywoodianos, e, provedoras globais de fluxos de mídias via streaming, além da ignorância que era pregada nas diversas religiões de sermos o centro do universo, ignoramos os sinais por ‘ELES’ transmitidos.

    ‘ELES’ até que apelaram a partir da década de 1970, quando começaram a desenhar os agroglifos nas culturas de certas gramíneas, por meio do achatamento de culturas como: cereais, colza, cana, milho, trigo, cevada e capim. E era obvio que não tínhamos ainda tecnologias para realizar o feito desses complexos e grandes desenhos em apenas algumas horas. Mas, mesmo assim, ignoramos. E, criamos soluções para explicar o inexplicável, e tudo foi abordado como um feito fictício. Então, pagamos o preço por mesclar a realidade e a fantasia, não sabendo mais diferenciar uma da outra. Assim, preferimos viver o engodo, e fomos enganados por nós mesmos.

    Entretanto, ‘Nós’ criamos a S.U.P.E.R (Superintendência Universal Para Extraterrestres Relações), em que na verdade era uma organização oculta e privada, que se fantasiava de uma Ecovila Sustentável criada por uma rede mundial de cientistas alternativos ufólogos, e pequenos empreendedores startup nos ramos da cyber tecnologia e biogenética (biohacking).

    Éramos perfeitos na arte do engodo, pois utilizamos as técnicas alienantes do sistema contra ele mesmo, ao fundarmos nossa Ecovila na Patagônia, que cobria uma área como mais de 239 km², banhada pelos paramos das geleiras andinas, com terras hiper férteis. Abrigando uma população de mais ou menos cinquenta e cinco mil habitantes de várias nacionalidades do mundo. Em que nosso maior foco agrícola e produção eram cânhamo, cannabis medicinal, morangos, uvas, cerejas, cevada e lúpulo, além de muitas criações de animais. E assim, fabricávamos os melhores vinhos, cervejas de cannabis e espumante de morango do mundo. Tudo de origem orgânica e primeira qualidade, e sem a necessidade de máquinas elétricas, ou movidas a combustíveis fosseis, tudo manufaturado a moda antiga, em que o trabalho humano e animal era o nosso maior forte.

    Vivíamos como antigos povos, antes da revolução industrial, nossas roupas, casas e utensílios eram manufaturados naturalmente, e nossas tecnologias eram 100% artesanais, permanentes e renováveis. Também, focávamos em energias sustentáveis como eólicas e fotovoltaicas, em que criamos a maior usina sustentável do mundo, que fornecia energia para todas as vilas da Patagônia por um custo acessível e barato, além de doar energia de graça para todas as dependências e prédios governamentais dessas vilas. Estratégia nossa, para implementar esse projeto com apoio intergovernamental, tanto da Argentina como do Chile.

    Porém, tudo isso não passava de uma capa que cobria o livro. Pois, subterraneamente éramos outra coisa.

    A S.U.P.E.R era um segredo de um punhado de famílias dentro da Ecovila, punhado esse, que era formado pelas pessoas menos relevantes da nossa comunidade eco agrícola. Na verdade, ‘NÓS’ éramos os fundadores dessa comunidade, mas passamos o nosso poder para os antigos moradores da região, transformando-os de simples camponeses em grandes empreendedores. Alguns ganhadores de prêmios Nobel e outras condecorações internacionais. Porquanto, eles eram nossas máscaras, e nem eles, como também, os outros moradores da Ecovila sabiam disso. ‘NÓS’ éramos um mistério… um segredo bem guardado por pactos de vida e morte, em meio ao paraíso andino.

    No submundo dos nossos quartéis subterrâneos, situava o centro tecnológico e informativo de nossa inteligência. Tínhamos uma empresa operadora de satélites, a StarSky Corporation, que atuava em 52 países com sedes em Israel e na China, além de 32 empresas subsidiarias de telecomunicações espalhadas pelo mundo. O que facilitava nossa rede de comunicações e informação, dessa forma, tínhamos olhos e ouvidos em todo lugar.

    Contudo, estávamos também sendo vigiados, e de início não sabíamos. Aquele fato da coisa observada, observar o observador. Pois nossos servidores se utilizavam da surface web, ou deep web como era mais conhecida. E, ‘ELES’ é que eram os verdadeiros donos do iceberg como todo. E, assim, os nossos olhos e ouvidos eram, também, os olhos e ouvidos deles. Seus motores de busca construíram um banco de dados, pelos seus spiders, e através de hiperligações indexaram nossas informações aos seus servidores na deepnet. Quando descobrimos que estávamos sendo escaneados, toda nossa informação já eram deles.

    Quando nossos hackers investigaram quem são ‘ELES’, se depararam com uma parede de proteção inacessível, em uma (darknet) parte do espaço IP alocado e roteado que não está executando nenhum serviço. Até para as inteligências dos governos mais poderosos o acesso era fechado, pois se utilizavam da Dark Internet, a internet obscura. E de cara percebemos que ‘ELES’, os não-humanos, eram quem estavam nos vigiando.

    Contudo, resolvemos abrir o jogo e mandar mensagens para ‘ELES’, em um projeto apelidado como: חנוך (Chanoch). Durante meses enviamos várias mensagens, então, de repente, nossos servidores detectou uma mensagem oculta que dizia: “E andou Enoque com Deus, depois que gerou a Matusalém, trezentos anos, e gerou filhos e filhas. E foram todos os dias de Enoque trezentos e sessenta e cinco anos. E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou.”.

    Ao receber aquele texto, ficamos perplexos. De início, achamos ser uma brincadeira. Até recebermos outra mensagem, que dizia: “E sucedeu que, indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho”. Então, depois de longas horas de reflexão, intentamos que as mensagens vêm a nós na forma e maneira que podemos perceber. Sendo, que eles queriam escolher alguém entre nós para uma viagem. Não sabíamos como responder a tal pedido, e mandamos uma mensagem correspondente do que temos de fazer para realizar tal acontecimento. E, eles nos responderam com três sequencias binárias: 101.

    No dia seguinte a essa misteriosa resposta, para o nosso espanto, fomos notificados por um de nossos agricultores que se encontrava no campo de cevada, se deparando com um símbolo gigante desenhado ‘IOI’. Então, rapidamente percebemos que aquele campo seria o local de contato. E, ‘EU’ fui escolhido para a tal viagem com ‘ELES’. Então, todas as noites acampei no local marcado.

    Acho que propositalmente, na noite 101 em que me encontrava sozinho em minha barraca, e já desesperançado de algum contato, ‘ELES’ vieram! E de súbito só me lembro de ver uma forte luz branca.

    Quando acordei, me deparei em uma maca feita de uma solução gelosa, de um verde fosforecente, algo como se estivesse deitado sobre água, mas, era firme, e amaciava com o peso do meu corpo. Não tinha temperatura, nem frio e nem quente, e o mais louco é que meu corpo não sentia esse material, era como se eu estivesse deitado sobre o ar. O ambiente era de uma luz violeta neon, muito calmo aos olhos, e não tinha paredes, teto ou solo. O silencio era profundo, irritante e assustador. Para todo o lado que eu me voltava, via apenas um horizonte infinito, tanto para cima como para baixo. E tive medo de sair da maca, pensando cair nesse infinito abismo. E a sensação era por demais desconfortante, achei que estava morto.

    Nisso, me senti sendo vigiado, algo ou alguém me observava, e vi alguma espécie de vulto transparente se locomover ao meu redor. Então, pela primeira vez senti algo que me tocou!

    — Uai!

    — Calma!

    — Quem é você?

    — Então, provou.

    — Provei o quê?

    — A sensação de sentir nada.

    Ao ouvir isso, perplexo me calei. E pasmei! Vendo uma espécie humanoide alta e magra a minha frente. Com olhos extremamente azuis e findados como os asiáticos, cabelos brancos longos, e pele extremante branca, fria como a de um cadáver. E, diante do meu silêncio e espanto, ela continuou a dizer, falando sem mexer a boca, que mais parecia uma fenda em seu rosto magro:

    — Assim, somos ‘NÓS’. Não temos a capacidade de sentir como vocês, e os invejamos por isso. Essa forma que você vê a sua frente, não é nosso corpo. É apenas um traje, pois vocês não têm a capacidade de nos ver sem ele. Somos seres pertencentes a outra dimensão, que vai muito mais além de sua física e compreensão.

    — De onde são vocês?

    — Somos seres da Quarta-Vertical, um mundo mais além do que a matéria física. E, nesse momento você está diante de uma plateia de nós. Não pode vê-los, pois, estão sem seus trajes físicos. Porém, saiba que também você usa um traje, e ele que te faz sentir. Mas, nós, mesmo com nossos trajes, não podemos sentir como você sente, e perceber como você percebe. Apenas percebemos as coisas físicas, através de alguns impulsos elétricos de contato nos transmitidos por nossos trajes, que são mínimos, sem sentimentos e emoções.

    — Onde fica fisicamente a Quarta-Vertical?

    — No plano físico, conhecido por vocês como seu sistema solar. Em que nossa Morada é o Sol.

    — Então, estou no Sol?

    — Claro que não! Seu corpo físico não aguentaria.

    — Onde estou?

    — Em nosso ponto de contato. Na parte oculta da Lua. É daqui que o observamos, desde sua criação como seres existenciais. E, temos alguns de vocês aqui conosco. Na verdade, somos seus guardiões, mensageiros e protetores.

    — Protetores! Contra quem nos protegem?

    — ‘DELES’ e de vocês mesmos. Pois, se assim não fosse, vocês não mais existiriam como espécie.

    — ‘DELES’ quem?

    — Aqueles a quem vocês chamam de seres infernais. No início, ‘ELES’ eram como ‘NÓS’, e vieram de ‘NÓS’. Mas, se corromperam. Pois, desejaram sentir a emoção que vocês sentem. Por isso, eles lhes causam dores e prazeres, para sugar as energias de seus sentimentos. E, fazem isso agora, através da internet. Por isso, lhes deram esses pequenos dispositivos que vocês carregam em suas mãos. O próximo passo deles, é implementar esses dispositivos aos seus corpos físicos. Aí, então, drenarão suas energias vitais, como um canudo drena o líquido numa garrafa de refrigerante.

    — Onde eles vivem?

    — Antes viviam aqui na Lua, depois os expulsamos para Saturno e Plutão. Mas, quando fizeram o pacto com os muitos chefes e governantes de sua sociedade, precipitaram-se na terra. Quando teve uma grande chuva de meteoros. Então, agora vivem entre vocês.

    — E, como podemos reconhecê-los, se vivem entre nós?

    — São os seres lagartos, mas se disfarçam com trajes humanos. Por tanto, seus trajes se alimentam de sangue, e são sensíveis a luz do sol. Por isso, procuram andar mais a noite, e poucas vezes a luz do dia. E, para resistir a luz diurna, precisam beber inúmeros litros de sangue humano fresco e vital. Só assim, os trajes resistem por mais tempo. Porém, alguns deles se tornaram híbridos, cruzando com a sua espécie. E são metades humanos e ‘reptilianos’ como alguns de vocês qualificam. Mas, mesmo assim, precisam de sangue humano para viver. E, como vampiros modernos, eles criaram os bancos de sangue, espalhados por todo mundo. Onde vocês creem estar doando sangue para pacientes hospitalizados, mas apenas 2% desse sangue vai para esses pacientes que necessitam, o resto é comercializado entre eles.

    — E por que vocês não nos alertam sobre isso?

    — Não podemos interferir. Foram vocês que atraíram eles. Suas escolhas. Seus livres-arbítrios.

    — Como assim, nossas escolhas?

    — Por acaso, você não leu a parábola de Adão e Eva?

    — Mas, isso é apenas um mito!

    — Não é apenas um mito. É uma metáfora da realidade, representado em sua espécie dividida entre macho e fêmea. Um código, para os sábios decifrarem.

    — E, por que não nos contam a verdade diretamente, e só nos dão metáforas?

    — Veja o que vocês fizeram com a verdade… ridicularizaram. Enviamos muitos para lhes dizer a verdade. Muitos de nós nascemos como avatares para lhes falarem, e veja o que nos fizeram? Nos mataram, assassinaram, minimizaram. E, mesmo nascendo entre vocês como humanos, ao longo do tempo nos transformaram em engodo e mito.

    — Mas, isso foi em tempos de muita ignorância. Hoje temos tecnologias para registrar e comprovar.

    — Tempos de muita ignorância… saiba que não existe tempo onde a ignorância é mais forte e abrangente do que esse em que vocês vivem. Suas redes de informação, academias e filosofias são lotadas de teorias e não de práticas. Vocês não experimentam mais. Não observam mais… só emulam. E agora que mesclaram a realidade e a fantasia, você acha que nos ouviram? Seremos ridicularizados e banalizados mais uma vez… por isso, agora agimos em oculto sigilo. E falamos na linguagem que vocês não podem deturpar, que são as parábolas e metáforas. Poesias de mistérios místicos e ocultos, que lhes encantam, e fazem pensar. Até serem assimiladas por corações puros, lapidados e lavados que nascem entre vocês.

    Ao ouvir aquelas palavras, o mundo parou em mim. E, lágrimas rolaram do meu rosto.

    — Ernesto! Ernesto! ¡Despierta hombre!

    — Ahh! ¿Qué?

    — ¿Qué haces aquí acampado en el campo de cebada güevón?

    — No lo sé … De repente tuve un sueño confuso. No me acuerdo.

    — ¡Vamos! Es tiempo de cosecha. Creo que perdimos una buena cantidad de grano. Bueno, creo que hubo un torbellino esa noche que aplastó los tallos fértiles.­
  • A batalha pela rota do oeste

    A Guerra Civil chegou até onde não havia civilização. Todos os cantos do vasto mundo viviam a luta armada desde a primeira metade do Séc. XXI. Neste contexto não havia alternativa para um homem que não fosse se juntar a Resistência. Então ele podia ter dois caminhos a seguir: soldado propriamente dito, daqueles que pegam em armas e estão prontos a morrer pela vitória, ou contrabandista. Neb era flácido, lento e não sabia usar a Colt 45 que carregava na cintura. Então para ele restou apenas a opção B. Apesar de todo horror da guerra, Neb operava um esquema de tráfico de frutas. O produto não era abundante, mas depois da grande contaminação nuclear das últimas duas décadas do Séc. XXI, a procura também havia caído. Ele mesmo não confiava nelas, preferia as pilulas de proteínas e as gelatinas de carboidratos. Mas elas também não eram abundantes, e vinham do norte, o que dificultava tudo. As frutas vinham do oeste. Ele buscava elas nas montanhas de soldados inimigos que as roubavam da base. Depois vinha por entre as florestas mortas e minadas até uma entrada pelo antigo sistema de esgoto. Neste trajeto ele empurrava uma carroça, mas quando entrava nos canos tinha que carregar caixas. Ele tinha acabado de receber 69 unidades de mamão. Mais treze melancias, 52 berinjelas e duas caixinhas com, raríssimos, 50 morangos. Foram quase dois dias para chegar com tudo no centro nervoso do caos. Como tinha que subornar os heróis da própria Resistência em um certo do ponto do caminho, ele sempre levava primeiro as mais judiadas. Com elas também abastecia o próprio lar e os mais próximos, que não podiam se dar ao luxo de escolher. As melhores iam para os comandantes, que pagavam com o que tiravam dos corpos espalhados pelas ruas ou nas casas abandonadas da cidade.

    Neb estava esperando um cliente num porão de uma construção destruída na Rua 10. Ele chegava pelo esgoto e saia pela porta da frente. Uns quarteirões a frente conseguia outro acesso subterrâneo num prédio bombardeado. “Estamos vencendo, a guerra vai acabar.” O soldado de compras do Coronel reproduzia o discurso típico do Exército Armado Local. “Ela já acabou, mas ninguém percebeu.” “Você pode ajudar a fazer todos perceberem. O Coronel quer que eu te leve até ele.” “Que? Não posso, tenho outros compromissos. Talvez em outro momento.” “Se você não for ele não te paga, e eu levo tudo e não volto mais.” “Meus compromisso acabam de ser cancelados. Vamos passear.” Os dois atravessaram os escombros de algumas casas até chegar num buraco. Mas quatro jovens aguardavam a chegada das frutas e do fruteiro. Dali para frente Neb foi sendo arrastado com os olhos vendados e as mãos amarradas.

    Quando chegaram a um lugar quente e úmido uma porta se fechou e Neb pensou estar sozinho. Na hora que tirou a venda viu um cara parado na sua frente. “Precisamos das suas rotas no oeste.” Aquele rosto não parecia desconhecido para Neb, mas o tom imperativo de voz era novo. Ele ajudou Neb a libertar as mãos. “Não sei do que você esta falando.” “Vamos receber um grande carregamento de armas e monição e uma rota mais desconhecida garantiria a chegada de tudo ao combate.” Ele se parecia muito com o patriarca de uma família que seu avô ajudava muito tempo atrás. Mas eles tinham morrido ou sido capturados, não necessariamente nessa ordem. “Eu trabalho com frutas, não com armas.” “Você trabalha para quem te paga, e eu vou pagar.” Neb tinha mais de 25 anos, o que já o colocava num seleto grupo de sobreviventes. Uma enorme fatia do bolo não passava dos 23, e quem chegasse aos 40 teria atingido o ápice do improvável. Tanto tempo no mercado tinha lhe dado a reputação de barato e suspeito, além de pacifico e otário. “O carregamento chega daqui três dias. Por razões de segurança você não vai poder sair daqui até que tudo se conclua.” “E para minha segurança vou acompanhar tudo só até o ponto de encontro com o fornecedor, então você me dá meu dinheiro e nos separamos.”

    Três dias depois Neb, o Coronel e mais dois soldados cruzavam as florestas mortas rumo as montanhas. Neb não se sentia bem na posição de guia. “Você sabe por quê esta rota funciona há tanto tempo? Porque só eu a uso.” “Vou tentar ser discreto.” Alguma coisa no tom de voz dele não deixava Neb a vontade. “Você não é o único na Resistência a gostar de maçã. Tenho clientes em todos os níveis”. O Coronel olhou com desdém. “Há muito tempo atrás, quando ainda existiam os Abrigos da Resistência para as mulheres, velhos e crianças, um homem me disse para sempre desconfiar de quem diz lutar pela liberdade.” Neb jogou o anzol na água, mas o Coronel não queria papo. Foi um dos soldados que mordeu a isca. “Nunca ninguém dizia nada que prestava nestes esconderijos para covardes.” A ideia de morrer atravessou seus pensamentos deixando rastros de cautela. “Meu pai dizia que é melhor ser um covarde e sobreviver para contar a história.” “Ninguém vai sobreviver.” As palavras do coronel soaram como um sentença de morte para Neb.

    Enquanto eles cruzavam as montanhas o traficante de frutas formulava um plano para fugir antes de chegar ao ponto final da caminhada. Para ganhar algum tempo, e preservar um possível refúgio, ele evitou o caminho pelo pântano. Quando eles chegaram a planície avistaram um espelho brilhando no horizonte como sinal de contato. Neb sentiu que era o momento de agir. Diminuiu o passo até estar mais ou menos dois metros atrás do pequeno bando. No momento em que o primeiro soldado olhou para trás ele, tentando ser rápido como o bote de um escorpião, sacou a Colt do bolso direito e começou a atirar. Como que por milagre cada um dos três disparos atingiu um alvo, que caíram aos gritos de traidor e atirando suas metralhadoras para o alto. O Coronel ainda conseguiu acertar Neb na perna, mas sua bala foi mais certeira se alojando no pulmão esquerdo dele. Antes de morrer ele revelou que não havia Resistência, e que era ele e sua família que haviam entregado a localização do antigo Abrigo da Resistência para as mulheres, velhos e crianças. Neb fugiu chorando para se esconder no pântano.
  • A gênese do caos

    Um livro de ficção científica me atraí por diversos motivos, dentre eles: os personagens singulares, a trama que me provoca um sentimento de encantamento e a verossimilhança com a nossa realidade. O livro Manjedoura tem tudo isso, sendo uma grata surpresa para um primeiro título publicado pelo autor Sandro J. A. Saint, jovem autor araçaense. Seu romance é um prato cheio para amantes da ficção científica.
                Um tipo de obra que sempre estará em voga é a distopia. Essa narrativa que vislumbra um mundo onde a sociedade está colapsada devido a fatores socioeconômicos, políticos e/ou culturais, lembra o quanto a humanidade é sobrecarregada de contradições. Com certa dose de pessimismo e fatalismo, a modernidade e o progresso se tornam fatores de diluição da sociedade. O livro se torna um alerta, ou seria uma profecia?
                Manjedoura como um primeiro livro de Sandro J. A. Saint apresenta uma narrativa coerente e original, pois consegue sintetizar muito bem os elementos narrativos desse tipo de história. Unindo pós-apocalipse e cyberpunk numa trama distópica, o romance nos traz uma realidade árida, pouco convidativa. Um ambiente carnívoro com relações sociais predatórias. Os protagonistas revelam bem os sentimentos em relação a esse mundo intoxicado de poluição e violência. Como não poderia faltar num livro como este, a temporalidade é desconhecida. Não sabemos se estamos em um futuro ou em uma realidade paralela.
                O livro começa com uma inserção objetiva nesse mundo, um modo de acautelar o leitor e fazê-lo entender que a narrativa terá um cenário diferenciado. É nesse mesmo prólogo que ficamos sabendo que a população mundial cresceu de tal forma que as guerras e o baixo número de recursos naturais diminuíram o número populacional a menos de 30% do total. As elites, sob as suas variadas vertentes, políticos, militares, cientistas e artistas, se unem e formam um único órgão chamado de Cúpula. Seu objetivo é conduzir os resquícios da humanidade.
                Para resolver o problema da superpopulação, eles criam o Projeto Manjedoura, humanos não nascem, são produzidos em escala industrial em laboratórios, chipados e depois dispersados pela cidadela. Mesmo nesse cenário repressor, há revoltas. Grupos rebeldes se organizam e formam os White Mouses, indo viver na clandestinidade fora da Cúpula, ondes serão perseguidos pelas sentinelas.
                Os protagonistas que conduzem a trama são Hanss Nagaf, o emocionante mensageiro-chefe; Jason Cry, o pupilo falastrão de Hanss; e por fim, Handra, a belicosa guerreira do frio. A personalidade desses personagens é única. Com certeza você vai se identificar com todos ou um deles. Mesmo outros personagens que aparecem na trama têm sua personalidade bem definida e atuante na história. Nenhum personagem aqui foi desperdiçado e agrega a narrativa.
                Hanss é um personagem que soa familiar, conduz a trama com bom humor e se mostra um personagem sentimental, a todo momento tenta empreender uma visão mais espiritualizada da vida. Handra é o tipo de protagonista feminista que falta a muitas obras, forte, sem com isso perder a feminilidade. Jason representa o olhar do leitor, sua impulsividade judiciosa e olhar cético vão trazer os conflitos necessários ao trio, bem como divertir o leitor, se tornando um alívio cômico numa sociedade tão agressiva.
                Minha recomendação é: leia esse livro! O livro está com uma edição impecável feita pela Editora Lexia, custa apenas R$ 21,90 mais o frete. Tem orelhas, miolo em papel offset, capa e contracapa feita pelo próprio autor, reforçando o caráter autoral da obra. Se o leitor busca uma ficção científica distópica com pitadas de fim do mundo, Manjedoura é a pedida.
  • A IMOBILIDADE DA LUZ

    Agora do mesmo jeito que os fiz, desfazer-los-ei. Morrem uns para existir outros. Às vezes, o tédio ou falta de perspectiva me faz deletar em massa. Assim eu era. Sei que podia parecer algo cruel deletar a existência de “alguém”, (espero que entenda) não fazia isso por que queria ou por que gostava, simplesmente porque era preciso. 
    A vida foi, a princípio, uma ideia que me surgiu em um momento de tédio; Eu não esperava tanto; simplesmente me surpreendi! Quando tive a primeira ideia da criação, estava passando por um momento conflituoso, tinha me entediado com tantos projetos monótonos e acabei destruindo o meu último projeto que era uma esfera consideravelmente grande de energia branca, e foi aí que tive a ideia de algo mais interessante: resolvi criar uma galáxia invés de constelações e centros sugantes. Mesmo assim, vi que aquilo não passava de uma ampliação dos meus projetos anteriores. Então, fui a pasárgada refletir; estava muito exausto e nenhuma ideia boa ainda me exsurgia. Após algumas consideráveis eternidades, vislumbrei algo que seguia um fluxo próprio e fugia da monotonia; algo que era regido por uma regra geral. Era a gênese da vida. Assim sendo, foi nesse momento que me debrucei em um projeto magnificente: A Criação. Remodelei os destroços da esfera de outrora, criei a natureza e os animais. Com o pulsar das gerações e o dardejar dos milênios, sucumbi ao ver o grande equívoco da criação: foi a pior monotonia que já vivera; antes pelo menos eu podia ter eternidades para outras coisas, entretanto, daí em diante, tive que tutelar esse projeto. Nesse momento, tive muito trabalho, deletando e renovando existências que no fundo seguem uma lógica continua de perpetuação. Isso tudo me dava calafrios em gastar algumas das minhas eternidades nesse fastidioso trabalho. Sei que para infinitas eternidades que tenho, algumas não iriam me fazer diferença. Entretanto, isso me fustigava lentamente e me causava uma monotonia cruel. Foi então que decidi criar uma vida que se destacasse. Por tentativa e erro, comecei por macacos, depois sapos, aliens, e por fim, sapiens. Já estava com as mãos doloridas de tanto misturar. Com o tempo acabei gostando dessa criatura. Pensei, que talvez deveria misturar dois deles. E assim ficou: Sapiens Sapiens. No final do processo, só restou uma criatura, e assim, intitulei-o de Anão. Ah não, não era esse nome; lembrei: Adão. E assim o foi. A criatura a cada “secundos” demonstrava destreza, sabedoria e, assim, me alegrava. Certa vez, resolvi criar o Destino para cuidar da vida e da morte. Com tempo livre, ocupei-me em outros projetos, e acabei deixando a minha criação em segundo plano. E de supetão quando estava no cinturão de Orion, uma ideia catucou a minha mente, sugerindo-me a criação de uma companheira para a criatura. Estava sem tempo para visitar frequentemente a minha criação, e por isso, resolvi dá a luz à ideia. Só que quando fui criá-la, tinha esquecido da fórmula. Misturei sapo, macaco, peixe e acabei criando uma mistura de sapiens com peixes; vi que não estava legal para uma companheira. Chamei-a de sereia para não ser desprezada. E sem obter sucesso, resolvi arrancar uma costela do Adão, e assim, formei uma companheira; intitulei-a de Eva . Vi com o tempo que ambos estavam felizes. Mas isso não me agradava nem um pouco. Felicidade é monótono e monotonia me causava incômodo. Então coloquei uma arvore com frutos afrodisíacos para testar a resiliência de ambos. Eles passaram um tempo se contendo em comer os frutos; foi então que decidi colocar uma serpente para atentá-los. A serpente fez um ótimo trabalho. Ainda me recordo da retórica da serpente que usou para ludibriar Eva: 
    —Estes frutos têm poderes especiais, por que não comes um? 
    —Porque fui proibida; estes frutos não fazem bem. 
    —Não seja tola, se o criador colocou uma árvore desta no paraíso, é claro que foi para vocês. Ele devidamente está testando a inteligência de vocês. E desta forma, ele quer que vocês ultrapassem as restrições e façam a diferença. 
    —hum, talvez tenhas razão 
    —É claro que tenho; sou fruto do criador!. venha aqui; Tome este fruto, este é seu; partilhe-o com Adão. 
    E assim, Eva levou o fruto, e Adão, ingenuamente, comeu o fruto de Eva e não percebeu que caíra na tentação da serpente. Dessa forma, acabei vendo a fragilidade dessas criaturas; vi que estavam muito longe da minha sapiência. E nessa lógica, vi que eles jamais iriam chegar perto dos meus Arcanjos. Com efeito, condenei-os a lei do Destino. E assim ao Destino declarei: 
    —Estarás incumbido de ceifar a vida deles, toda vez que chegar a hora. Eles terão o fado de nascer, crescer, procriar e morrer. Eles não mais viverão uma eternidade. Vão sentir a dor carnal. sofrerão com os temores e seguirão a Lei Natural. 
    Depois me ausentei e deixei-o regendo a criação. 
    Após algumas finitas eternidades, resolvi visitar a criação. Senti um verdadeiro abalo ao ver aonde a minha criação chegara. As criaturas de outrora não mais seguiam a Lei Natural. Criaram a sua própria lei. O Destino estava cada vez mais com problemas. As criaturas estavam dominando cada vez mais a inteligência. Estavam adiando o veredicto do Destino. Guerras, miséria, contrastes, tecnologia, temor, destruição, estavam caracterizando a criação. Aquilo de fato não era monótono, era extremamente inconstante. Talvez a minha ânsia pela fuga da constância tenha a impulsionado à Evolução. Não os via mais como uma criação. Via-os como uma transmutação. E destarte, resolvi me ausentar novamente e esperar mais algumas eternidades para ver até onde eles irão chegar...
  • A luta da batalha perdida

    Aconteceu mais ou menos como na música In the end of the world as we know it, do REM, mas não sobrou só um garoto de 13 anos, e nem a coisa toda tinha virado uma festa. Ainda tem um bando de seres humanos por aí. Bando mesmo. Eles se escondem em construções abandonadas, esgotos e acampamentos subterrâneos nas florestas. Se movimentam só a noite, quando as luzes das naves não conseguem iluminar toda superfície do que sobrou da Terra. Alguns dizem que os seres de outro planeta não enxergam sem a luz. Sei lá, já escutei histórias de pessoas que se salvaram por causa disso e de outras que viram cenas que comprovariam que isso não faz o menor sentido. Outros dizem que eles usam a luz como fonte de energia vital para suprir a horda, mas que a lua é muito fraca. Tudo deve ser parte de uma estratégia deles mesmos para confundir o inimigo. Eles tem uns 2,5m de altura e andam sempre em pelotões de centenas. Não usam armas, usam a força física para destruir o que for preciso. Animais, homens, mulheres e crianças. Nada que se mexe se salva. São superiores em número e força. Arrancam uma perna de um corpo como quem tira uma coxa de um frango assado. O fato é que, por via das dúvidas, se alguém tivesse que ir para algum lugar, ia quando não houvesse mais luz do sol, e se escondendo por onde as naves não conseguem iluminar.
    O melhor mesmo é não precisar ir para lugar nenhum e ficar quietinho no seu canto. Mas a maconha da tribo do sul estava acabando, e se eles quisessem manter o clima de otimismo nas fileiras do bando eles iam precisar de mais. Por isso o Neb estava tentando chegar até alguma tribo na floresta que pudesse fornecer erva. A princípio ele tentou sair da cidade pela rota do oeste, mas alguma coisa havia fechado o caminho pelos esgotos, era o que dizia um batedor da tribo subterrânea que ele encontrou numa das bifurcações do caminho. “O túnel desmoronou há algumas semanas.” Não restou alternativa senão ir pela superfície. “Vou me atrasar um pouco, mas faço uma parada para evitar a luz do sol no ponto da tribo urbana se for preciso.” “Restam cada vez menos bandos nas construções. Procure algum lugar subterrâneo para ficar durante o dia.” “Não vim preparado para isso, talvez precise de alguma munição.” “Tenho algumas balas aqui, e um silenciador. Você vai precisar se encontrar algum ser de outro planeta perdido da horda e não quiser chamar atenção. O que você tem?” “Pilhas AA e algumas frutas.” “Faz tempo que não como alguma coisa que não seja enlatada.” “Que tal um pente de balas por duas mangas e o silenciador por uma pilha?” “O que eu vou fazer com uma pilha?” “Carregar o rádio?” “Não. Estou com fome.” “Ok, um repolho e duas cenouras. Já é uma sopa.” “Isso mesmo, vai ter festa com as crianças hoje.”
    Andar pela superfície mais que dobra o risco de encontrar com a morte em pedaços. Os seres de outro planeta poderiam não ver no escuro, ou enxergar mal, mas eles estavam lá e as naves pairavam literalmente sobre a cabeça dele. A ideia de Neb era conseguir chegar até o limite da cidade com a floresta e arrumar um lugar seguro para passar o dia. Ele usou os túneis do metrô para atravessar o centro da cidade e emergiu na saída da avenida perimetral. Andou cerca de trezentos metros se arrastando por entre os carros batidos e as ruínas até perceber que uma nave de luz vinha escoltando uma horda no sentido contrário da avenida. Carros eram arremessados contra os prédios e grunhidos de horror podiam ser ouvidos cada vez mais perto. O chão tremia. Neb virou em uma rua transversal e começou a procurar um lugar escuro para se esconder. Do outro lado da rua veio um assobio de bem-te-vi. Seguindo o som desesperadamente ele percebeu que os escombros eram um cemitério. A face de uma mulher apareceu de uma das criptas e sinalizou para ele. “Aqui, aqui.” “Preciso de um lugar para ficar até a próxima noite.” “Entre aqui e espere até a horda passar.” Neb viu uma escada e desceu para escuridão. Nunca imaginou que se sentiria tão seguro dentro de uma cripta. O chão tremia com a horda passando. Neb e a sentinela urbana se abraçaram unidos pelo medo. Antes que pudessem perceber o que estava acontecendo os dois estavam transando como se aquele fosse o último ato de suas vidas.
    Quando Neb acordou ainda era dia e a luz iluminava a escada da cripta. Lá fora os barulhos da destruição não cessavam. Eles estavam no subterrâneo, o que sempre era mais seguro. Ele levantou, descascou duas laranjas, dividiu um pão e acordou a sentinela, com um beijo, para o desjejum. “Estou indo para oeste, na fronteira com a floresta. Ia pelos esgotos, mas os túneis ruíram.” “Você não soube que as tribos do oeste foram dizimadas?” “Como assim?” “Foi há dois dias. O seres de outro planeta fizeram o demônio lá depois que uma horda foi destruída por um ataque surpresa da tribo da floresta com os homens das cavernas. Eles eram mais de mil e tinham granadas. As notícias dizem que não restou mais nada.” “Preciso de maconha para suprir as fileiras do sul.” “Acho que você vai perder o seu tempo e arriscar a sua vida indo até lá.” Como agradecimento pelas informações Neb deixou uma bebida para a sentinela urbana e se negou a abandonar seu ‘plano A para’ se juntar a resistência urbana. As tropas do sul precisavam de maconha para elevar a moral, o único lugar que ainda tinha era nas terras das tribos da floresta, e sua missão era voltar carregado. As tribos da florestas eram muitas, se mantém por lá desde o começo da invasão, sobreviveram a outros ataques, alguém teria sobrado.
    Rastejando pelos escombro Neb conseguiu chegar até o limite da floresta. Havia uma cortina de luz suspensa cercando as fronteiras das árvores. Ele nunca tinha visto aquilo. Pensou que poderia ser uma armadilha, então arremessou um pedaço de pau. Nada aconteceu. Então ele correu na direção da floresta. Foi desviando de árvores até perceber que não tinha mais nenhuma delas. A floresta tinha virado um chão de terra batida. De repente um banho de luz cegou seus olhos. Neb olhou para cima e viu uma nave que irradiava mais luz que o sol. O som da horda de seres de outro planeta chegando fez uma poeira subir no horizonte. Ele se virou e começou a correr na direção das árvores. Se escondeu atrás de uma e esperou eles se aproximarem. No fim Neb conseguiu descarregar todo seu pente de balas antes de ser desmembrado.
  • A nova onda cyberpunk

    Diferente do que afirmam os críticos, a morte do cyberpunk foi anunciada com certos exageros. O pós-cyberpunk, movimento no qual a tecnologia e a sinergia entre homens e máquinas é considerada algo possível, ao menos até o momento continua sendo uma utopia cibernética e não uma realidade concreta. A alta tecnologia e a baixa qualidade de vida é algo muito mais palpável. O cyberpunk não cria ilusões, revela fatos diários.
                Quando a Darda Editora se propôs a explorar esse subgênero da ficção científica, o mundo e a liberdade criativa para criar histórias nessa realidade foi imensa, e também envolvente. No total, oito autores foram selecionados. Já conheço até o trabalho de alguns deles, pois já fui seus colegas em outras antologias. Recomendo esse livro pelas novas abordagens, dramáticas e catárticas nesse livro.
                O primeiro conto é escrito pela Aline Cristina Moreira, e se chama Ilusões. Esse texto nos mostra como a tecnologia é muito frágil para substituir as relações humanas, cada vez mais artificiais. Não posso falar mais, senão correrei o risco de revelar o final da história. Foi uma leitura assustadora.
                O segundo conto é o meu, Assalto ao Banco Genoma, um hacker baiano recebe uma bolada em criptomoedas para assaltar um banco de registro de DNA para um nobre europeu. Mas enquanto ele invade o BG, uma força tarefa chega ao seu quartel general. Não gosto muito de comentar meus próprios contos, mas eu fiquei muito satisfeito com esse aqui.
                O conto do Cesar Luis Theis, o Nuances da cyber-sociedade, a alta tecnologia tem o mesmo status de uma droga, pois o seu uso é viciante, gera dependência e problemas psíquicos no seu usuário. Foi o trabalho mais coeso, com começo, meio e fim bem claros. Ficou muito nítido em qual mundo a narrativa se desenvolvia, o conflito entre hacker e máquina foi sensacional, usando xadrez como plataforma de combate. Melhor conto.
                Sangue e circuitos de Fabiana Prieto trouxe uma narrativa deja vú, a história parece se repetir em seu final, se tornando um anticlímax. Pareceu mais um prólogo de um romance do que um conto, ao menos me pareceu assim. O conto tem uma ótima ambientação, e se peca pelos personagens com pouca personalidade, a autora tem um ótimo argumento em mãos para desenvolver uma prosa maior.
                Jonnata Henrique é um dos poetas e contistas mais prolíficos que conheci, e um dos mais talentosos também. A história de O setor 469 também tem um ótimo cenário, uma típica distopia com um plano de fundo cyberpunk. Depois de uma Terceira Guerra Mundial, a população diminui para metade e ocorre a chipagem dos seres humanos. O setor 469 usa um programa de testes de robôs militares, e para isso, usa presidiários. Apesar do conceito ser instigante, a obra é muito curta, e termina com muitas pontas soltas. Careceu de um melhor desenvolvimento.
                Fuga na Cidade de Neon de Rafael Danesin trouxe a narrativa mais dinâmica e final mais aterrador da coletânea. Joh Haarp (que devido a flexão de dois gêneros não tive certeza se era um homem ou mulher) está fugindo de sua crio-prisão. Como um lobo solitário fugindo dos caçadores, o fugitivo causa um grande estrago na cidade, sempre com tiradas satíricas e sagacidade.
                Suellen Silva traz Vida de Cão. A história é simples, tem um cão-robô como protagonista. O cyberpunk é um gênero permeado pelo conflito entre o homem e tecnologia, o indivíduo e a sociedade, corporações umas contra as outras. Trazer esse conflito através de um novo olhar nos tira da zona de conforto.
                Fantasy and Dreams é o conto do Tauã de Lima Verdan Rangel, e fecha a antologia. Confesso que de todos esse foi o conto que eu menos gostei. Embora ele seja o de maior quantidade de páginas, não em pareceu que ela foi desenvolvida muito bem. A narrativa em primeira pessoa deixou vários pontos em branco. Personagens foram citados como numa lista de supermercado, mas não tiverem desenvolvimento de personalidade ou ações claras na trama. Outro conto que parece um prólogo de uma narrativa maior.
                Esse é o meu primeiro livro publicado com a editora, não sei porque, mas o livro demorou muito para ser editado. O livro tem apenas oito contos, eu sempre espero que a antologia tenha no mínimo cem páginas, esse é o maior pecado da antologia. A diagramação do livro não está ruim, mas uma segunda edição necessitará de uma melhor revisão, me pareceu que o livro foi editado às pressas, mesmo com cinco meses de produção e apenas 60 páginas. Inclusive eu achei que eles mudariam a capa, ele não instiga muito a leitura. O livro te orelhas, marcador de página exclusivo. Miolo em papel offset 70, capa papel cartão 200. Se você quer acompanhar mais um dos meus trabalhos ou se você gosta mesmo de cyberpunk o livro é sua pedida.
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  • Abandonados

    O sol estava quase se pondo, e começava a esfriar. Era hora de juntar as ferramentas e ir pra casa. Já havia refeito a cerca e checado o propulsor, não havia perigo essa noite. Papai instalara esse mecanismo há alguns anos, custou quase dez meses de trabalho, mas valeu a pena. Nessa época do ano os ataques de radús aumentavam. Talvez por causa do frio, que congelava as partes mais distantes da floresta, e fazia os outros animais fugirem. Eles gostavam de atacar em bando, e quando estavam reunidos representavam perigo a todos, inclusive a nós. Mas agora estávamos seguros, por enquanto...
    _Will... onde está seu irmão?
    Os arus já começavam a cantar, anunciando a chegada da noite. Minha mãe estava trancando a gaiola dos macucos quando me viu chegando. Carregava apenas algumas ferramentas, as outras deixei no caminho, apesar de meu pai sempre reclamar, dizendo que isso as oxidava. Estava ficando frio.
    _Não sei... pensei que tivesse voltado. Me deixou sozinho fazendo a cerca e sumiu.
    O olhar de preocupação ficou estampado no rosto dela. Não era seguro para uma criança andar durante a noite pela estância. Sabia onde poderia encontrá- lo, e não tardei em ir. Queria chegar antes do anoitecer e a tempo de ouvir músicas com meu pai.
    _Ele deve estar na represa. Vou lá buscar ele, já volto...
    _Cuidado Will! Não se esqueça de ligar o propulsor quando voltar.
    A porta da gaiola estava emperrando há alguns dias, por isso mãe custara a trancá-la. Era um trabalho para a próxima semana. Saí em disparada pela trilha que levava á represa. O lugar ficava extremamente frio á noite, e os gralhos cantavam em conjunto, causando um som horrível.
    Nadic estava jogando pedaços de rochas queimadas na água. Provavelmente nem se deu conta do quão tarde havia ficado. Ele era o caçula da casa, o protegido, meu irmão. Nunca me importei de zelar por ele, afinal era minha responsabilidade.
    "Irmãos tem que ser unidos"
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    Meu pai disse isso quando Nadic nasceu, e dizia algumas vezes mais. Sabia o quanto era importante ter um amigo ao lado, e ninguém seria mais amigo que um irmão.
    Gritei Nadic, e acenei com o braço para que viesse. Atirou sua última pedra na água e veio, num leve galope. Já havia escurecido, e não era bom ficar fora da cerca durante a noite. Tratei de apertar o passo, mas Nadic não acompanhava. Então joguei a isca que funcionaria.
    _Quem chegar por último tem que dar banho no Solomon amanhã.
    Ninguém gosta de se molhar enquanto tenta dar banho num animal de quase dois metros. Era de longe o pior trabalho a se fazer, para crianças. Os adultos tinham coisas um pouco mais difíceis.
    _Não vale, Will... você estava na frente quando falou. Espera!
    Não parei de correr. Não pela fuga do serviço, que no final das contas seria meu de qualquer forma. Nadic era muito pequeno e fraco para dar conta do Solomon. Queria apenas chegar rápido em casa, e assim ouvir a rádio com papai, como fazíamos todas as noites.
    _Ei, Will... espera! Will, tem alguém aqui.
    Estava bem á frente quando Nadic parou. Podia ser um truque, parando para esquecermos o desafio, mas não era o que parecia. Ele estava parado, e olhava fixamente a lavoura de linhais. Dizia insistentemente que havia algo ou alguém ali. Não conseguia ver nada, mas seus olhos estavam estáticos, buscando e agonizando por algo.
    Um barulho...
    Seja o que for que Nadic tenha visto, certamente não estaria ali amanhã. Um grupo de radús descia o bosque, emitindo sons enlouquecidos. Estavam famintos, e se não corrêssemos muito seríamos devorados naquela noite.
    Nadic continuava olhando o linharal, sem sequer perceber os gritos e uivos atrás de nós. Ele estava em outro lugar, parecia dormir e sonhar profundamente, acordado e de pé.
    Peguei-lhe pelas pernas e joguei nas costas. Logo saí da trilha, pegando o caminho mais rápido até a proteção da cerca. Conseguia ouvir as batidas dos dentes ferozes atrás de nós. Não daria tempo. Um deles estava muito perto, quase chegando...
    Corre Will! Corre!
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    Minhas pernas doíam e estavam rígidas no frio. Não conseguiria correr muito além daquilo, iríamos morrer ali, devorados por um bando de radús de dentes afiados.
    Mudei meu curso outra vez e agora corria rumo ao poço dos cânions. Se conseguisse pular em seu interior estaria livre dos radús. Eles não suportavam o contato com a água durante a noite. As nascentes se congelavam e liberavam gases de alta densidade, mantendo o solo coberto por uma nuvem branca e tóxica.
    Sabia. Não tinha outra escolha, não uma melhor.
    Eu poderia tentar a fragmentação, mas era quase impossível; não a dominava plenamente, e Nadic menos ainda. O máximo que já tínhamos conseguido metamorfosear fora uma mão, ou meio braço, nunca mais do que isso. O grande problema não era fazer, mas refazer; e o que fazer depois de mudar. Isso poderia nos matar tão rápido quanto os radús.
    Não iríamos conseguir, eles estavam atrás de nós, e Nadic pesava muito. Num último impulso joguei-me com Nadic no poço, sem me atentar que ele poderia estar congelado. Batemos forte na superfície coberta por uma fina camada de nitrogênio. A camada rompeu e afundamos...
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    _Onde estão os meninos? Will me falou sobre ouvirmos...
    As palavras de Moorse perderam-se quando se deu conta do que estava acontecendo. As crianças não haviam voltado, estavam lá fora, no frio, e talvez fora da proteção do propulsor.
    _Will foi buscar Nadic. Já deviam ter voltado, ele falou que iria rápido, mas até agora...
    _Calma, vou lá. Eles devem estar dentro da cerca, não há perigo.
    Moorse soltou Solomon e com o caminho clareado pelo farol da fazenda partiu em busca dos filhos... ou de seus corpos.
    A cerca estava reerguida, como havia pedido para Will fazer pela manhã, mas o propulsor estava desligado. Acionou outro feixe de luz, clareando o caminho além da cerca. Não via nada, nem as feras.
    Deixou Solomon seguir o rastro, farejando e deixando saliva por onde passava. O que quer que fosse, levaria Moorse a algum lugar. Talvez rastreasse os radús, ou os meninos, e quem sabe ambos.
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    O caminho farejado saía da trilha e seguia pelo campo, dirigindo-se ás antigas estalagens da estância, onde estavam o velho moinho e o poço abandonado. Nenhum funcionava, e tampouco eram acessados. Radús subiam o morro correndo, e então Moorse soube que Solomon havia os seguido. O animal parara de farejar, parecia ter chegado no fim do rastro, e agora estava sentado com as orelhas erguidas e atendo, olhando para o alto do casebre, já caindo aos pedaços. Demonstrava haver algo ali, mas Moorse não deu atenção.
    Seguiu caminhando até o poço, e viu a superfície se reconstituindo no meio. Parecia ter sido quebrada ou rompida por alguma coisa.
    Aproximando-se não pôde ver nada. Então ouviu uma pancada, de dentro para fora, vinda do poço. Havia algo ou alguém ali. Moorse não se moveu, apenas observou. Foi então que viu parte do rosto de Will comprimido contra o nitrogênio congelado, gritando desesperado.
    Moorse olhou para o poço, aproximando-se. Ficou despido, sem se importar com o frio ou com o vento em volta. Solomon observava, apenas grunhindo, lambendo o focinho e se deitando. O que outrora fora um ser corpulento e pesado, desfizera-se gradativamente, e agora feito líquido escorria lentamente para o poço.
    A camada de nitrogênio começara a gasificar, e a superfície do poço voltava a ficar líquida. Will e Nadic boiavam e eram levados para fora do poço, agora puxados por Solomon. Quando a fumaça se desfez, havia água escorrendo. Moorse agora surgia deitado no canto. Seu corpo voltara a ser o mesmo, num incrível processo de materialização.
    Nadic estava desacordado, tremendo, e enrugado. Will conseguiu se manter desperto, mas não totalmente. Moorse sentiu-se feliz ao ver o filho mais velho dormir a tempo de não ver o quanto a tentativa de fragmentação lhe havia custado.
    Seguiram pela trilha desta vez, sob a luz dos faróis. Nadic nas costas de Solomon; Will nas costas de Moorse, o braço estava pela metade, enrolado na camisa do pai, e a parte esquerda do rosto estava coberta.
    Fechou-se a cerca e o propulsor foi acionado.
    Seguiram rumo á casa.
  • ACID+NEON VOL.2

    “A neblina se agita rasgada por uma histérica dança de feixes neon. O caos das ruas fomenta a ansiedade nos corações alheios e as malhas sintéticas se energizam ao tocar contra as peles humanas. Não se reconhece mais origens, há apenas especulações sobre o amanhã, assim como reflexos turvos no asfalto molhado e o sol que agora brilha timidamente no horizonte de obscuro. Sob a chuva, lágrimas se misturam ao sangue e o sangue ao fluído.”
    — Fragmentos de Belona, livro I.
    ACID+NEON 2.0 é uma antologia colaborativa multimidiática inspirada no cyberpunk. Produzida pelo Studio Coverge, conta com a participação de mais de 20 artistas e convidados que se unem para criar esse experimento de imersão na cultura da distopia tecnológica. A primeira publicação realizada em 2018 trouxe uma chamada para um universo corrupto e caótico, acompanhado de leituras visuais e sonoras que engrandeciam a experiência.
    Para o segundo volume, ACID+NEON amplia seus horizontes explorando ainda mais o Futuro Próximo, amarrado a intrigas de escala nacional e global, com pitadas de romance, aventura, horror, o bom e velho noir e um toque gótico e clássico do cyberpunk, nos formatos conto, trilha sonora, arte digital e boardgame.
    O lançamento da versão digital (disponibilizada gratuitamente) será no dia 07 de março e a campanha para o Financiamento Coletivo da versão física inicia na metade de março! Siga nossos canais para não perder nada!
  • Apocalipsus

    Capítulo 1: Bem vindo ao Inferno
    Cenário apocalíptico, céu em chamas, uma cidade destruída repleta de monstros de todos os tipos e tamanhos. No telhado de um edifício, um rapaz de pelo menos uns 20 anos está sentado segurando a porta com as costas, é possível ouvir que há criaturas tentando sair. O rapaz está segurando um anúncio de lingerie e chora enquanto se masturba pra foto de uma modelo...
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    Meu nome é Agosto, e como vocês podem ver eu estou batendo uma enquanto tento segurar um bando de demônios do lado de dentro da porra de um edifício condenado. Sei que pode parecer estranho alguém chorar enquanto bate uma, mas no momento estou sentindo temor por ser trucidado e tesão  pela foto da Kate Upton.
    Após eu terminar estou pensando seriamente em me jogar do prédio, não aguento mais ficar nesse inferno na Terra e tomei Tylex o suficiente pra não sentir tanta dor quando bater no concreto cheio de ossos e tripas.
    Mas como cheguei a esse ponto?
    Como o mundo chegou nessa merda?
    E por que eu não estou comendo ninguém?
    Vamos voltar um pouco no tempo; dia 27 sexta – feira, estou numa balada que toca música alternativa,  tentando ao máximo me sentir um ser humano normal que gosta de se divertir e interagir com outros seres humanos, ainda bem que existem variados tipos de bebida para me auxiliar nessa jornada. Tive um bom começo, conversei com um grupo de pessoas muito amigáveis e depois de cinco copos já era amigo de todo mundo, pra melhorar as coisas tinha conhecido uma garota fantástica, ela ria das minhas piadas politicamente incorretas e eu me sentia confortável perto dela, como se não tivesse mais que fingir e ser quem eu realmente era.
      Em algum momento do nosso papo nossos olhos se encontram, ela pega a minha mão e sorri, eu olho nos lábios dela e me aproximo; ao som de "Ashes to ashes" nossos lábios se aproximam e quando estava prestes a beijá-lá um estrondo nos interrompe.
    "Mais que porra", pensei enquanto ela e outras pessoas iam para fora do clube para ver o que estava acontecendo, quando estou a caminho da saída vejo pessoas olhando para cima horrorizadas , algumas gritam como criancinhas. "Será que alguém está se jogando de algum prédio?", pensei; mas quando olho para cima percebo que é pior do que eu pensava, não era algo que iria atrapalhar minha volta pra casa no metro, mas iria fuder todo mundo para sempre, a PORRA da lua estava rachada e ninguém sabia que merda estava acontecendo.
    Uma característica muito estanha sobre mim é que sou meio frio, e naquele momento só conseguia pensar na garota e não na porra da rocha lunar despedaçada no céu, quando a encontrei perguntei se ela estava bem:
    - Eu tô bem, mas não tô entendendo merda nenhuma, cara. Disse a garota (o nome dela é Fábiula).
    -Nem eu, mas é melhor a gente voltar pro clube, né? Não tem nada que a gente possa fazer agora.
    -É, acho melhor mesmo. Concordou Fábiula
    Enquanto íamos em direção ao clube, víamos pessoas tirando fotos da lua molestada e postando nas redes sociais com as hashtags "queporraéessa?" ou "jesusvoltou”, "doentes", pensei enquanto voltávamos ao clube.
    Quando de repente o chão começou a tremer, parecia um terremoto, as pessoas ficaram desesperadas, rachaduras abriram as ruas e mãos com garras gigantes saíram dos buracos.
    Homens bode, homens cão, todos saindo do buraco como se fossem inimigos da porra do God of war, mas não tinha um Kratos com suas lâminas do caos preparado para dar seus golpes e conseguir uns orbes, só milleanials chorando e cagando nas calças. As criaturas avançaram na multidão com suas armas vindas do inferno e suas garras de Zé do caixão, trucidando e estraçalhando tudo o que viam pela frente. Um homem bode avançou na direção de Fábiula com uma clave na mão, e como se eu tivesse um arrepio do Peter, peguei ela  pelos braços e a desviei do homem-baphomet sem peitos que por sorte não a pegou, mas infelizmente pegou o pobre milleanial que estava atrás dela,  o homem-baphomet o trucidou e o comeu com o entusiasmo de um gordo comendo um Big Mac:
    -Vamos sair daqui, porra!!! Gritou Fabíula pra mim.
    - Boa ideia!  Vamos nos abrigar no clube e nos trancar naquela joça!!!
    Nós corremos em direção ao clube quando de repente o chão treme de novo e o clube se levanta e é destruído por uma figura gigantesca que surge diante de nós, para nossa surpresa e para minha eterna paixão infantil por dinossauros, é a PORRA do um Tiranossauro fucking Rex, vindo direto das profundezas do Acre.
    - PUTA QUE PARIU! VAI TOMAR CÚ, QUE COISA FODA DO CARALHO, VAI SE FUDER!!! Eu gritava enquanto acontecia um massacre ao estilo Nanquim ao redor de nós.
    -Se tá maluco, PORRA?? A gente precisa sair daqui, car........
    Não consegui ouvir Fábiula terminar sua sentença por duas razões : estava maravilhado com o T.rex cuspindo bolas de fogo pelo quarteirão  e também porque no momento em que ela ia terminar sua sentença um dedo demoníaco atravessou seu esterno e a levantou enquanto ela gritava por socorro, era um homem cão que parecia com a porra do deus egípcio Anúbis, ele a trucidou como se fosse um palito de dente; e a pior parte foi que eu estava segurando a mão dela.Quando olho para o lado só vejo o braço decepado de Fábiula em minhas mãos,  enquanto o homem -anúbis se banhava no sangue e nas  tripas dela.
    -AHHHHH QUE MERDAAA! ! AHHHHH. 
    Eu comecei a gritar e corri que nem o papa-léguas para algum lugar seguro, estava tão aterrorizado e cagado que nem notei que estava segurando o braço da então devorada Fábiula. Eventualmente o braço se tornou útil para me defender dos homens-baphomet e das harpias que rasgavam o céu avermelhado, elas pareciam umas velhas carecas com os peitos de fora, naquele momento não sabia se ficava excitado ou assustado, a única certeza que eu tinha era que precisava urgentemente de outra calça.
    Após correr por dois quarteirões daquelas criaturas do kakaroto, eu encontrei uma loja de roupas toda fudida, era só de marcas famosas e muito caras. "Estouro", pensei enquanto entrava na loja chique toda arregaçada.
    Depois de trocar de calça e de cueca, resolvi dar uma volta na loja e pensei seriamente em estabelecer residência lá; quando ouço um barulho nos fundos.
    "Puta que pariu, eu não posso me cagar de novo!!".
    Eu seguro firme o braço de Fábiula e me preparo para atacar os enviados de Satã, quando avanço para atacar um grito feminino me interrompe:
    -Não faz isso, porra!! Disse uma funcionária da então destruída loja. - São só funcionários seu tapado !!
    -Desculpa gente, é que eu estou muito assustado.
    -Mas por que caralhos você está segurando  um braço humano?. Pergunta um funcionário da loja.
    -Longa história, conheci uma garota, quase nos beijamos, ela foi devorada, fiquei com o braço dela como "lembrança".
    Eram pelo menos quatro funcionários na loja, todos estavam se preparando para fechar a loja quando aquela porra toda começou, eles não conseguiram fechar a tempo das criaturas avançarem então se esconderam nos fundos até que elas fossem embora.
    -Graças a Deus que só nosso gerente foi pego, ele era um puta cuzão!!! Exclamou a funcionária.
    -Gente, nós precisamos nos abrigar em um edifício e chegar até o telhado para buscar ajuda, provavelmente poderemos avistar um helicóptero e sair desse lugar. Sugeri ao grupo enquanto me livrava do braço de Fábiula.
    -Parece uma boa ideia, tem um prédio à pelos umas duas quadras daqui, mas vai ser difícil chegar lá com essas criaturas na rua. Disse um dos funcionários.
    -Se a gente não fizer barulho e ficarmos bem quietos, eles não perceber a gente,  vão estar ocupados demais trucidando outras pessoas , mas em todo caso é melhor nós fazermos armas para nos defender , se for pra morrer é melhor morrer atirando,né ?.
    Com essa ideia nós fizemos armas com os cabides e alguns manequins,  é incrível notar a criatividade humana para desenvolver armas com objetos inofensivos e de utilidade doméstica.Armados e desesperados para sobreviver, nós saímos da loja e fomos em direção ao prédio,  as ruas estavam vermelhas e lotadas de tripas humanas e foi uma grande oportunidade para testar nossas armas,  uns 3 homens-baphomet avançaram em nossa direção sedentos por sangue e tripas.O nosso instinto de sobrevivência nos fez ter uma habilidade medíocre para matar demônios,  com a lança feita de um braço de manequim,  Débora,  a funcionária da loja a  cravou na garganta do homem bode e pressionou bem para matar o lazarento,  enquanto o matava a moça chorava feito um bebê aterrorizado , na verdade , todos nós estávamos chorando enquanto matávamos os demônios; era uma resposta natural ao temor de ser morto e a necessidade fudida de sobreviver.
    Após matarmos os demônios e percebermos que estávamos vivos, nos choramos de novo, estávamos tão elétricos que parecia que teríamos um infarto.
    -Olha gente,  tem uma farmácia logo ali, vamos tomar alguma coisa para acalmar os nervos e seguir em frente. Sugeri aos meus novos amigos e prováveis amantes do Apocalipse.
    Quando entramos na farmácia percebi que eles também compartilhavam o mesmo gosto que eu tinha por psicotrópicos e barbitúricos que fodem sua mente se consumidos em excesso. Adderal, oxicodona, valium, Tylex;  a gente encheu nossos bolsos e vazou de lá bem rápido,  como se o alarme fosse acionado  e a polícia estivesse a caminho.
    -Feliz Navidad,  porraaa. Disse Joaquim, um dos funcionários da loja.
    -Olha lá,  estou conseguindo ver o edifício daqui !!. Disse Fernando,  o outro funcionário.
    O prédio estava perto e de bem longe podíamos ver também uns Tiranossauros cuspindo fogo no horizonte. Quando estávamos próximos do prédio, ouvimos uma horda de demônios bem atrás de nós.
    Homens -baphomet, homens - Anúbis, até mesmo homens-largartos se reunindo para se preparar para o ataque.
    -Fudeu. Disse Jorge
    -Vamos ser molestados, porra!!. Gritou Fernando.
    A multidão demoníaca se abriu enquanto se aproximava o que parecia ser um general demônio com um machado todo ensanguentado,  com um rugido ele deu ordem para atacar e o pequeno exército avançou em nossa direção.
    -Vamos fugir porra!! O prédio tá próximo.  Gritei bem alto.
    Todo mundo correu como louco em direção ao prédio, Joaquim tropeçou numa perna decepada, Fernando tentou ajudá-lo mas não adiantou,  uma harpia pegou Joaquim pelas pernas e subiu com o pobre coitado para seu ninho satânico,  quando de repente Joaquim tirou sua faca improvisada de um cabide do bolso e a enterrou no olho da vagabunda.
    -Morra sua vadia, morraaa! !! Gritava Joaquim com ferocidade.
    A parte boa é que a harpia o soltou,  mas a parte ruim é que altura em que ele estava era muito perigosa, e como bosta caindo no chão ele foi esmagado pela megera da gravidade que o atraiu para o concreto.
    -Mas que merdaaaaa. Chorava Fernando.
    Ele ficou tão horrorizado em ver seu amigo esmagado que esqueceu de correr e acabou sendo pego e devorado por um homem - crocodilo.
    Nós nem olhamos para trás,  porque se olhássemos não iríamos conseguir chegar ao prédio.Quando chegamos ao prédio fomos direito a saída de emergência para chegar ao telhado, nem fudendo pegaríamos o elevador.
    A horda de demônios estraçalhou a entrada do prédio em busca de sangue.
    Jorge ficou segurando a porta da saída de emergência para impedir que a horda nos matasse.
    -Vão logo! Posso segurá - los por um tempo!!!!Disse Jorge
    -Por que você tá fazendo isso, porra? Perguntou Débora.
    -Sou secretamente um suicida, mas sempre tive preguiça de me matar!!! Justificou Jorge.
    Com isso eu e Débora corremos por nossas vidas, o fudido era que eram nove andares até o telhado e nenhum de nós dois tinha o porte "atlético".
    -Eu não posso mais continuar, Agosto!! Acho que vou ter um infarto!!Exclamou Débora.
    Dito isso nos ouvimos um grito e vários rugidos nos andares abaixo.
    -Fudeu!! Eles estão vindo!!!!.Gritei desesperado.
    -Você precisa me carregar até o telhado, Agosto!!! É o único jeito de NÓS DOIS sobrevivermos!!. Disse Débora, ofegante e largada nos degraus.
    -Eu tenho uma ideia melhor.
    Com isso eu peguei a cartela de Tylex do bolso dela e segui meu caminho até o telhado, estava tão drogado de anfetaminas que me tornei um pouco egoísta e cuzão, tanto que nem consegui ouvir Débora me xingando de tudo quanto nome imaginado, então vocês não podem julgar, pois eu estava muito chapado. Quando cheguei ao telhado eu imediatamente tranquei aquela porta e a segurei com minhas costas, alguns segundos depois ouvi um grito feminino e depois batidas na porta, uma mistura satânica de rugidos e arranhões tentando sair para me estraçalhar como um ursinho carinhoso.
    -Oh Jesus me salve!!! Por favor! Sei que não fui o melhor ser humano mas convenhamos que eu também não fui o pior,  então me livra dessa,porra!!!. Eu gritava enquanto me cagava (de novo) e segurava a porta.
    Devo admitir que aqueles putos eram insistentes , depois de trinta minutos eles ainda queriam entrar,  mas mesmo no inferno na Terra uma janela se abriu ,enquanto segurava a porta eu avistei no chão uma edição  da Sports Illustrated com o modelo pluz size mais gostosa do mundo, Kate Upton, posando na capa.Com a revista em mãos eu me sentei, tomei uma cartela de Tylex com sprite e,abri nas páginas do ensaio da Kate e comecei a descabelar o palhaço,  enquanto chorava que nem um doente.
                                                                                         
                                                                                                 Capítulo 2: Black Metal
       Estou prestes a me jogar de um prédio,  não é realmente como eu havia planejado minha noite mas o que faz sentido nesse  momento?. A lua está rachada, demônios saíram de buracos e isso foi uma baita empaca foda na minha tentativa de beijar uma garota.
        Mas um pouco e a horda vai sair e me trucidar como fez com os outros. Olhando para o chão lá embaixo penso como foi minha noite: conquistas,  frustrações e  cagadas. Viro de costas ,abro meus braços e me jogo do prédio, sinto o vento nas minhas costas e a resistência do ar nas minhas orelhas, é o fim.
       Para o meu azar, durante minha queda para morte eu bati em uma hárpia que voava na área. A batida foi forte, mas não me matou, a única sortuda foi a hárpia que ficou esmagada com o impacto, agora além de cagado estou encharcado de sangue e jogado na rua sem sentir dor nenhuma do impacto por estar chapado de Tylex. Acabei dormindo lá mesmo e usei uma das asas da hárpia como cobertor e seus seios como travesseiro.
       Acordei com a luz do Sol batendo em meu rosto, a rua estava vazia e silenciosa, se não fosse o cadáver de hárpia e as poças de sangue eu diria que tudo aquilo passou de um pesadelo estranho, mas era tudo real.
         Até esse momento você já deve ter me classificado como um babaca egoísta,  por uma clara razão;  que tipo de corno sem coração não pensa na própria família quando baixou o inferno na Terra? , bom até esse ponto eu sou realista o bastante para aceitar o fato de que eles devem estar mortos e preguiçoso o suficiente pra não ir até em casa para confirmar a tese e também porque minha casa tá longe pra cassete.
         Eu só podia pensar em como minha pesquisa de doutorado tava no brejo, sem fundos e com meus o orientadores trucidados não vai ter como  concluir minha pesquisa sobre o uso do hormônio GH para crescimento de órgãos e tecidos, estava na merda.
       Depois de trocar de calça e de cueca (de novo!!), eu estava traçando um plano para onde eu iria estabelecer residência,  porque estava claro que suicídio estava fora de questão,  se você tenta uma vez e falha , é um sinal de que não vale a pena. Fui até um mercadinho e peguei alguns suprimentos, e na saída do mercado olho para o céu :
    -Apesar de tudo o Sol está muito lindo hoje.
       Quando de repente uma bola de fogo no céu vem caindo em minha direção,  parece um pequeno meteoro, e num relance pulo para uma pilha de lixo e o objeto espacial explode o mercadinho. A minha curiosidade venceu a minha covardia e resolvi ver o que era e pra minha surpresa era um homem alado !! Um Adônis musculoso de cabelos negros ,vestindo uma armadura dourada e  com asas brilhosas.
    -Caralho.... Se tivesse uns peitos.... Acho que eu comia!!
    O estranho estava desarcodado e um pouco ferido, e depois de ponderar um pouco chego a uma conclusão :
    -Esse porra é um anjo, se eu ajudar ele, talvez eu possa comprar um bilhete pra me mandar daqui!!!!
    Por sorte a parte da farmácia do mercadinho não foi destruída, peguei álcool 70%, algodão, adesivo cirúrgico e amoníaco. Tratei os ferimentos do cara e o acordei com o amoníaco , quando ele abre os olhos as asas do puto começam a brilhar e quase me cegam.
    - Ahhh,  cuidado com meus olhos seu filho da puta!!
    -Puta merda , essa queda foi de fuder! !! Exclamou o anjo. Mas parece que você tratou meus ferimentos hein. Qual é a tua? Quer dar pra mim é? . Perguntou o anjo.
    Eu estava abismado com o modo como aquele cara falou comigo, "anjo estranho", pensei.
    -Você é surdo, caralho? É impossível não poder me entender, já que eu falo qualquer língua de qualquer lugar desse Universo nojento, incluindo seu planetinha de merda,  então é melhor falar alguma coisa senão eu vou ter que te matar! !!. Disse o anjo
    -Calma ! Calma. Falo rapidamente. "É que eu fiquei um pouco surpreso , não sabia que anjos xingavam.
    Ele me olha com uma cara de dúvida e solta:
    -Não sou um anjo sua besta, sou um mero guerreiro a serviço de um ser celestial. Diz o anjo
    -Mas isso é exatamente um anjo, porra! Com asas e tudo.
    O cara coloca a mão no rosto e suspira :
    -Puta merda, sempre quando eu venho aqui é a mesma bosta.
    -Pera , você já venho aqui antes ? Pergunto
    -Algumas vezes . Responde o cara
    -Então quer dizer que toda aquela merda judaica - cristã é verdade?
    -Bom.... Sim e não. Não teve jardim do Éden,  teve um criador, mas não do jeito que vocês pensam.... Disse o cara
    -E esses monstros que surgiram na rua?
    -São emissários de uma entidade muito fudida e assustadora.
    -Satã?
    -Ahnn,  claro ,porque não. Olha não quero ser babaca nem nada mas eu preciso ir , agradeço pelos curativos e tals.
    -Espera , não tem nada que eu possa fazer pra ajudar ? Você não quer um assistente ?
    -Olha não me leve a mal, mas eu li sua mente e não quero um cagao cuzao viciado como assistente,  e o fato de  você ter matado um soldado e esmagado uma hárpia não me impressiona.
    -"Cuzao ". Pensei
    -Eu ouvi isso, agora se me dá liçenca eu preciso ir e checar se tem mais seres nesse planeta.
    E com isso o babaca alado levantou vôo e vazou pelo horizonte. Enquanto observo a zona de impacto percebo que o babaca alado deixou um tipo de arma para trás, a arma tinha um formato de um rifle automático com aspectos espaciais.
    - Como será que funciona? Penso comigo mesmo.
     Eu aperto o gatilho e um raio de energia explode o mercadinho e me joga longe, eu bato na parede e fico inconsciente por algumas horas. Quando acordo decido levar a arma junto comigo,  já que minha arma improvisada foi deixada nas escadas do prédio, com  a arma em mãos eu sigo caminho para encontrar um lugar para ficar, numa rua ouço vozes , encosto na parede preparado para testar a arma que o babaca alado deixou para trás,  quando viro a cabeça para dar uma espiada,  percebo que são dois anjos espaciais:
    - Eu soube que você já veio pra cá antes .Disse um
    -Sim uma vez ,estava no deserto enchendo a cara e acabei conhecendo um carpinteiro... Era um cara com idéias bem interessantes. Disse o outro
    -O que aconteceu com ele ? Perguntou um
    -Bom eu soube que......
    Nesse momento eu apareço e rendo os dois :
    -Parados ,porra!!!
    -Mas que porra é essa? Quem te deu essa arma , inseto? Pergunta um dos anjos
    -Eu faço as perguntas sua bicha alada!
    -Ora seu viadinho....
    No momento em que um deles ia levantar a espada , o outro o interrompeu :
    -Calma, porra ! O que você quer saber?
    -Que merda está acontecendo?
    -Ahhh isso ? É uma limpeza
    -Mas por que ?
    -Bom,  deixa eu te explicar , há muito tempo numa parte inexistente e nula da realidade, três entidades estavam bebendo e jogando um jogo que vocês aqui chamam de roleta russa. Cada entidade pegava a arma , girava,puxava  o gatilho e passava pra próxima, quando a chegou a vez da terceira, ela puxou o gatilho e infelizmente acabou estourando os próprios miolos. Sabe o que acontece quando uma entidade morre? Acaba gerando vida e acredite se quiser que naquele mesmo dia seu Universo nojento foi gerado. A explosão foi tão forte que quase matou as outras duas entidades , elas até pensaram em destruir ess.e recém criado universo ,mas  vendo todas aquelas galáxias e estrelas se formando, elas decidiram que iriam deixar esse Universo evoluir em paz, como uma forma de honrar a memória do amigo. Mas após bilhões de anos , esse universo se tornou uma pedra no sapato,  ele está no meio e está dificultando a expansão dos outros dois universos , então as duas entidades concordaram em destruir esse universo. Concluiu o anjo espacial.
    -Por isso racharam a lua? Perguntei para ele.
    -Ah não , aquilo foi direção ruim , nosso piloto estava bêbado e acabou batendo a nave de antimatéria na lua , o impacto foi tão forte que o infeliz voou longe, provavelmente ele já entrou em órbita por aqui. Justificou ele.
    - "Aquele porra que caiu no mercadinho!!". Pensei
    -Ahhh,  agora sei como conseguiu a arma, aquele idiota a esqueceu e você a pegou !! Garoto esperto .
    - Isso não vai ficar assim, eu vou unir o máximo de sobreviventes e nós vamos impedir isso!!. Exclamei com o peito cheio
    Nesse momento os anjos espaciais começam a gargalhar como loucos :
    -hahaahahahahah, não fode cara, e nem perca seu tempo, durante a sua tentativa patética de suicido, os exércitos do Universo 1 já estavam começando a aniquilação da população, você é literalmente o último ser vivo do Universo !!!
    -Como assim do Universo?
    -Bom, os exércitos do Universo 1 já aniquilaram a vida de todas as galáxias e seu planeta era o último que faltava, tanto que eles já foram embora enquanto você dormia nos seios da hárpia,  nós do Universo 2 só viemos checar se eles não se  esqueceram de ninguém, aparentemente deixaram de matar você.
    -Porra não pode ser !!!!. Olho para baixo confuso e frustrado.
    -Olha se te faz se sentir melhor, universos são criados e destruídos toda hora, é algo fora do seu controle e compreensão,  então não fique tão desapontado.
    -Vai se fuder! !!. Eu grito e aponto a arma pra cabeça do anjo espacial.
    -Vai em frente babaca,  me mate, não vai mudar o destino do Universo, você não pode impedir o que está por vir , o Universo vai explodir em 5 minutos. Se for nos matar faça isso logo ou se mate pra te poupar da dor de ser desintegrado.
    -Eu... Eu não sei o que fazer!!! Estou totalmente sem ação.
    Eu largo a arma , me ajoelho e começo a chorar.
    -Bom , isso é uma reação esperada , mas pelo menos você não se cagou!!!. Disse um dos anjos.
    O outro anjo conversa com ele e os dois parecem concordar com alguma coisa que acabaram de discutir.
    -Olha, meu parceiro me disse que você curte ficar doidao , então eu vou te dar isso aqui,  considere como um presente antes de morrer.
    -O que é isso ?
    -Se chama sono quasariano,  um sedativo tão poderoso que faz você perder a memória do dia anterior, use o mais rápido possível,  você ainda tem 3 minutos, adeus bobão.
    -Espera! Antes de ir me responde uma última pergunta.
    -Manda
    -Existe vida após a morte?
    -Eu vou saber , caralho? Eu sou um aniquilador , não um médium.
       E com isso os anjos levantaram vôo e sumiram no céu, eu olho ao redor da destruição e me sinto sozinho e sem esperanças, abro o tubo contendo o sono quasariano e o bebo num só gole. Me sinto leve e tudo se move lentamente,  parece que estou flutuando,  êxtase e relaxamento se espalham pelo meu corpo, pego a arma espacial e aponto ela pra minha cabeça :
    -Nem fudendo que eu vou esperar 2 minutos pra morrer.
    ========================##==========================
       Num planeta da Via Láctea,  o último ser vivo explode os próprios miolos porque não quer  esperar pela explosão que destruirá  o Universo,  indiretamente o ser seguiu os passos de seu criador. Viva, morra, bata uma , mesmo assim você não consegue mudar o curso da existência cósmica ou o rumo do Universo.
                                    FIM.
  • As Três Almas

    É o Morro das Três Almas. Um nome óbvio para uma história óbvia. Três meninos despencaram do topo, mais de uma vez. E eu não consigo contar quantas vezes passamos por aqui. O relógio está parado, mas o vento ainda circula dentro do vagão. Ninguém sabe dizer o que funciona e o que deixa de funcionar. Não existe lógica, e o  morro some de vista. Nesse minuto, meu corpo percebe a gravidade, como se subisse por um elevador rápido demais, e silencioso. Não são voltas, são saltos para trás, com quedas que quebram nossas pernas. Mas como eles conseguem dormir? Talvez eu esteja exagerando. O Morro das Três Almas aparece de novo.
    Assim levamos duas eternidades, ou três. Não sinto fome e nem sede.
    De repente, algo muda de tom. Meus olhos não estão embaçados e aquela vibração enjoativa deixa meu corpo. Vejo casas e fios de energia, é uma paisagem nova. O autofalante anuncia que estamos de volta. Segundos depois a luz do mundo se acende, como se o sol estivesse dormindo como os outros. Estou provisoriamente cega.
    Passeio meus dedos pelo meu rosto, checando se cada linha está no lugar. Só depois disso  consigo soltar o ar dos meus pulmões e agradecer por ter saído intacta.
    Salto na próxima estação, quero caminhar até minha casa. O problema em questão, é que as ruas estão assombradas. O céu tem um tom errado de azul. O vento tem uma temperatura esquisita e carrega um odor de pele, sangue e anomalia. Ao meu redor, insetos emergem e buscam novas superfícies, eles não querem tocar a terra.  Preciso ser cuidadosa para não virar abrigo.
    Minha cidade é vazia, feia e fedorenta, tem som de grito e música clássica. Uma amiga de infância está sentada no meio fio, cansada demais para levantar. Os insetos a evitam, e isso é apenas uma das coisas que não entendo e não pergunto. O cabelo disfarça o buraco da bala que atravessou seu crânio. Eu nunca perceberia, se ela não me contasse. Lembro de ter lhe dado a maior das broncas. “E se eles repetissem?”. Só depois ela contou que precisou morrer umas cem vezes, e é por isso que ainda estava tão cansada. Morra e eles o trarão de volta, se mate e eles o castigarão. “Não vê o que aconteceu com aqueles três meninos? Eles ainda estão lá, eu ouvi os gritos. Você não sabe a sorte que tem”. Ela me olha e me sorri. Seus olhos são brilhantes e vivos, seu rosto tem aquele tom avermelhado que lembra saúde infantil. Penso nas palavras de Sophia, e repito como prece “ Que nenhum deus se lembre do teu nome”.  Despeço-me e saio, preciso chegar em casa antes do fim do dia.
    Qual fantasia assombrosa você seria capaz de imaginar? Qual versão de mundo você identificaria como o inferno? Na casa ao lado, existe um casal. A mulher está grávida de gêmeos. Antes de nossa tragédia começar, o casal viveu sucessivos episódios de glórias e fracassos, colecionando uma pequena pilha de fetos que não chegaram ao tamanho de uma laranja. Vimos pontos no céu, que se aproximavam calmamente, num ritmo quase poético.  Nessa época, os gêmeos eram dois melões, e a mãe exibia orgulhosa a imagem de ultrassom dos bebês que teriam nome de estrela, em homenagem ao milagre da vida e do céu. Então as luzes se aproximaram, e delas pudemos vislumbrar aqueles grandes olhos carregados de desprezo e sadismo. Escolheram à dedo o pobre casal, e decidiram que essas crianças seriam para sempre azeitonas, e melões, e abóboras, jacas e pêssegos. Uma gestação de mil anos. Bebês num infinito processo de evolução e involução, de zigoto à jaca, de jaca à zigoto. Os pais, que tinham como maior sonho segurar seus rebentos nos braços, precisavam viver sobre a eterna tortura de nunca tê-los de verdade. “Não podemos tira-los daí, eles precisarão de um ventre, quando tudo isso se repetir” O marido diz, quando a esposa ameaça rasgar a barriga com uma tesoura.
    Caminho ao som de Chopin. Eles disseram, do jeito deles, que a música clássica é a única boa invenção da humanidade. Disseram que talvez nem fosse invenção nossa. Acontece que em alguma reunião de conselho, ou sei lá o que fazem lá em cima, alguém disse que nós nos desintegraríamos caso não nos fosse oferecido algum agrado. Então a maior prova de amor e de zelo, foi fazer reverberar 24 horas por dia, ou quantas horas durassem um dia, música clássica em volume suficiente para atingir o menor dos ouvidos.  Olha pra mim, diga que eu não preciso de um pouco de paz.
     Alguém me acompanha  a passos largos. Tem a minha altura, uma linha direta dos meus olhos aos dele. Acho engraçado como ainda existe uma curiosidade infantil nisso.  Ele observa o modo como eu ando, ameaça tocar o tecido da minha camisa, mas desiste no meio do caminho. Tenho vontade de fazer uma pergunta e dez súplicas, mas não quero deixar ninguém com raiva. Eu não entenderia de todo modo. Geralmente é só isso, eles te abandonam depois de alguns metros de caminhada até encontrarem outra coisa que se mova. Convivência pacífica, eu diria.  Uma pessoa e um deus da destruição, num crepúsculo tranquilo e musicado. Estou chegando em casa.
    A fachada está visível, quando não deveria. Não me importo em ver algumas luzes acesas, isso me poupa do terror de ter que revelar algo da escuridão. Se tiver alguém aí, que ouça o barulho dos meus sapatos batendo contra a parede, derrubando todos os insetos refugiados ao longo do caminho.  Faço questão de abafar Vivaldi, os invasores precisam escutar novas sinfonias. Giro a maçaneta. Eu tinha uma foto de quando eu era criança, cerca de 9 meses de idade. Aquela se parecia comigo. Da cozinha, eu olho para a porta da frente e me vejo lá, parada, segurando um sapato em cada mão. Minha boca tem gosto de leite, meus braços sentem a pressão de segurar uma criança. Meus dedos perdem a força e deixo cair os sapatos.
  • Binário

    1.Binário
    A história começa alguns anos depois de a bomba ter caído.
    O efeito foi violento e se espalhou por todo o país que conheceremos agora.
    As pessoas perderam parte da cognição. A memória também foi bem afetada, tanto a de curto quanto a de longo prazo, e esses problemas juntos danificaram seriamente a fala: o vocabulário ficou bem reduzido e em várias situações se resumiam a grunhidos.
    Outro efeito foi que a cor da pele das pessoas adquiriu tons estranhos, uma parte delas ficou com uma tonalidade roxeada e outra esverdeada.
    A cidade aonde se passa parte da nossa história ficou dividida por essa característica, no lado oeste ficaram os “roxos” e do lado leste os “verdes”. Um viaduto dividia os dois lados.
    Em um ponto do lado oeste, mas considerado “neutro”, ficava um armazém de grandes proporções, aonde eram depositados todos os mantimentos que eram coletados, num esforço conjunto entre os dois lados. Todos os dias tantos os roxos quanto os verdes iam ao local, apelidado de “central” em busca de mantimentos. Os coletores também estavam lá todos os dias, disponibilizando mantimentos, que eram colhidos na natureza ou em estabelecimentos abandonados. Era a única atividade e o único local em que os dois lados se “entendiam”, pois existia uma grande rivalidade entre eles, a ponto de se xingarem o tempo todo, quando não partiam para a violência. Tanto os roxos quanto os verdes, num outro efeito pós-bomba, tinham predisposição a sentimentos de ódio, geralmente direcionados aos rivais, aos “do outro lado”. Ninguém mais conseguia sorrir, e esse ato passou a virar lenda, alguns não acreditavam que as pessoas sorriam antes da bomba, achavam que era invenção. Sorrisos só eram vistos em alguns outdoors que restaram, de comerciais de bancos, por exemplo, e em livros e revistas do pré-bomba.
    Ambos os lados os outros tinham, cada qual, um líder, a quem reverenciavam.
    Os roxos adoravam aquele que era chamado de “pai túlio” uma espécie de mentor deles, mas que foi aprisionado e acorrentado numa árvore enorme, gigantesca para os padrões do pré-bomba. Pai túlio teria sido preso ali pelos verdes, sob a acusação de ter extrapolados seus direitos na central (haviam restrições na quantidade de comida e demais itens a serem retirados para consumo, túlio tirou muito mais do que era acordado). Essa condição acabava pouco a pouco com a sanidade de túlio, que do alto da árvore gritava o dia todo palavras contra os verdes, no que era aplaudido pelos roxos.
    Por sua vez, os verdes adoravam o “rei machado”, que usava uma camisa de força desde antes da bomba, pois era tido na época como insano e perigoso. Era chamado por esse nome pois adorava um machado que tinha em sua casa, que era limpo e lustrado por ele mesmo, apesar das limitações (usava cotovelos e ombros por exemplo), tarefa que era as vezes delegada a seus filhos que a cumpriam com orgulho, pois o machado estava sempre brilhando. Machado era ótimo para inflamar os sentimentos de ódio de seu povo (assim como o pai túlio), e o alvo era sempre os rivais “do outro lado”. Diversas pessoas já haviam tentado livrá-lo da camisa de força, mas as limitações nelas produzidas pela bomba impediam a libertação de seu líder.
    2.Fernando
    Fernando era dos roxos, e estava numa fase adolescente-adulto, não sabia com precisão sua idade. Tinha poucas lembranças do pré-bomba, pois era muito novo quando ocorreu a explosão.
    Sentia-se deslocado, pois não nutria ódio pelos verdes e não via motivos suficientes para tanto. Mas mantinha essas opiniões para si, pois sabia que se as expusesse publicamente, seria xingando, ou no mínimo chamado de traidor. Já fazia tempo que deixara de frequentar as palestras proferidas pelo pai túlio, pois as achava inúteis e maçantes.
    Tinha dois passatempos preferidos: um era rondar o prédio da antiga biblioteca, aonde moravam algumas pessoas que quase nunca saíam, apenas o faziam para buscar mantimentos no central, aonde eram “tolerados” pelos outros, apesar de sua peculiar característica: sua pele tinha uma coloração “normal” ou no máximo o tom roxo ou verde era bem mais brando.
    O outro passatempo preferido de Fernando era se esconder no viaduto que separava os dois lados, para expiar o movimento dos roxos que ali passavam. Eles tinham que passar por baixo do viaduto para ir ao central, pois ficava no lado roxo.
    Em especial, ele gostava de olhar um grupo que passava em uma determinada hora pela manhã, porque desse grupo fazia parte uma menina, que parecia ter a mesma idade, ou próxima da sua. Ela tinha uma beleza que para Fernando, era quase hipnotizadora. Ele não faltava um dia, depois de descobrir o horário em que o grupo dela passava, somente para vê-la por alguns minutos.
    Um dia descuidou-se e ela pareceu vê-lo por um instante, então ele abaixou-se rápido para atrás da mureta do viaduto quando ela olhou para cima e pareceu olhá-lo nos olhos.
    Fernando ficou bem assustado, apesar de ver uma expressão suave no rosto dela, parecia sem ódio ou medo, ou seria impressão dele?
    Saiu correndo dali em direção a biblioteca, para fazer a sua “ronda” diária, e tentar descobrir entre outras coisas o porquê de os habitantes ali não parecerem hostis e nem aparentavam sentir ódio por nenhum dos lados.
    Mas sentiam medo, isso com certeza, tanto dos roxos quanto dos verdes.
    Fernando se aproximou de uma janela, tentou olhar para dentro, quando, bem perto dali, sentiu um barulho de uma porta se abrindo, a poucos metros. Assustado, deu um passo para trás a tempo de ver uma mulher mais velha do que ele saindo. Quando o viu, ela arregalou os olhos de susto, e voltou pela mesma porta de onde saiu, e deixou cair dois livros. Fernando os pegou e escondeu rapidamente em sua sacola. Todos tinham grandes sacolas de pano que usavam para transportar os mantimentos recolhidos no central.
    À noite, em casa, quando se sentiu seguro (livros eram ridicularizados por todos) pois viu que todos dormiam, foi olhar os livros que havia pegado.
    Um deles se chamava “Romeu e Julieta” e o outro “O Mensageiro das Estrelas”.
    3.Elisa
    Elisa era dos verdes, e pertencia à mesma faixa de idade de Fernando. Assim como ele, não sabia quem tinham sido seus pais, e assim também como ele, foi adotada por um grupo de pessoas.
    Ela não compartilhava do ódio que todos ao seu redor tinham pelos roxos, achava que o mundo era muito grande, que havia muitos mais coisas e assuntos a serem debatidos do que simplesmente dividir tudo em duas tribos.
    Também não gostava do rei machado, o achava irracional, não entendia por que tinha tanto poder, poder esse conseguido somente por despertar ódio nas pessoas.
    Ela achava que todos deveriam se reunir e, chegando a um consenso, eleger um líder que fosse do agrado da totalidade, ou pelo menos, da maioria das pessoas.
    Sua rotina diária: em determinada hora da manhã, ir com um grupo até o central. Às vezes, ao passar pelo viaduto, tinha a impressão de ser observada.
    Á noite, gostava de se reunir com outras mulheres em volta de fogueiras ao ar livre, e ouvir histórias que algumas contavam, geralmente histórias românticas remanescentes do pré-bomba ou que elas mesmo inventavam ou tinham ouvido em algum lugar.
    Depois de ouvir algumas histórias sentava-se sozinha e olhava o céu, as estrelas, a lua, e imaginava se no pré-bomba as pessoas tinham curiosidade sobre tudo isso, se estudavam essas questões a fundo.
    Assim como imaginava que o mundo era maior do que parecia, sonhava em conhecer outras pessoas, lugares diferentes, formas de pensar diferentes.
    Também imagina se na época as pessoas viviam situações espetaculares ou tristes como nas narrativas contadas em volta da fogueira, se registravam essas histórias.
    Ela tinha ouvido falar dos livros, mas sabia que estavam todos na biblioteca e nas ruas só havia fragmentos, pedaços deles.
    Uma manhã, ao passar pelo viaduto, teve de novo a impressão ser observada e quando estava quase embaixo, instintivamente olhou para cima e viu um rosto observando-a e esforçando-se para não ser visto. Era um roxo, sim, um roxo, que se assustou ao ser descoberto, arregalou os olhos de uma maneira que poderia fazê-la até sorrir, se soubesse como fazer isso.
    4.O Mensageiro das Estrelas
    Na mesma noite em que pegou os livros, Fernando esperou que todos dormissem, foi até o lado de fora, e ao lado de uma fogueira, começou a ler.
    Como muitos de seus contemporâneos, ele tinha uma dificuldade para a leitura, mesmo assim estava acima da média, e leu “Romeu e Julieta” em algumas noites, sempre ao lado da fogueira. Achou que era uma história triste, mas muito bem contada, em uma linguagem que o deixou maravilhado, não entendeu algumas expressões, mas conseguiu acompanhar a história até o seu final trágico.
    Imaginou que as mulheres gostariam dela, pois tinha mais ou menos o estilo das histórias que elas contavam umas para as outras quando se reuniam a noite. Pensando nisso, ele teve uma ideia: e se ele desse o livro como presente para a garota verde? Sim, aquela que o encantava, que o fazia estar todas as manhãs no viaduto só para vê-la. Seria uma forma de se aproximar e fazer amizade.
    Logo que terminou Romeu e Julieta, começou na noite seguinte a leitura do segundo livro.
    “O mensageiro das estrelas” era sobre um cientista de tempos muito antigos que descreve suas observações do céu, feitas com uma luneta. As primeiras páginas traziam uma biografia do cientista e Fernando gostou de um pensamento dele:
    “A natureza produz seus efeitos mediante formas impensáveis por nós, e é surda e inexorável a nossos vãos desejos”.
    Isso o fez pensar que a natureza sempre segue seu curso, e não dá nenhuma importância para o que pensamos a respeito. Algo de que ele sempre desconfiou.
    Maravilhado com o livro, Fernando leu mais rapidamente do que o anterior, e, quando terminou, deitou-se ao lado da fogueira e ficou olhando o céu, pensando nas observações do cientista e em seus desenhos tão bem-feitos, reproduzidos no livro.
    Tentou ver Júpiter e suas luas, os anéis de Saturno, “montanhas elevadas e vales profundos” da lua, conforme descreveu o autor.
    Nessa e nas noites seguintes foi difícil dormir, e acabou relendo o livro, sempre tentando ver no céu estrelado o que o cientista descrevia.
    Olhando o firmamento, ele pensou que existiam coisas ali que iam muito além do que as pessoas imaginavam.
    Ao mesmo tempo, começou a pensar em como presentearia a garota verde com o “Romeu e Julieta”.
    5. O presente
    Teve várias ideias, mas a que lhe pareceu melhor foi: ele tentaria, do alto do viaduto, tentar chamar a atenção dela, e apontar para um monte alto de entulho que havia na calçada, um pouco antes do viaduto. Através de gestos, indicaria que gostaria de encontrá-la ali depois que ela voltasse do central. O monte de entulho era tão grande que ninguém poderia vê-los da rua.
    Ao mesmo tempo, Fernando começou a pensar em tudo o que diria a ela na hora de entregar o presente.
    Uma manhã, decidido, colocou o livro na sua sacola, junto com “O Mensageiro das Estrelas”, que sempre o acompanhava, e encaminhou-se ao viaduto.
    Com muita ansiedade, esperou a hora da manhã que o grupo dos verdes costumava passar por ali. Então, na mesma hora de sempre, avistou o grupo, formado por umas duzentas pessoas, e já de muito longe viu o rosto dela. Aquele era o momento decisivo, pois precisava chamar-lhe a atenção, sem que outros percebessem. Tarefa que talvez fosse facilitada pelo fato de que ela já o tinha visto ali, e por curiosidade poderia olhar para cima.
    Foi que aconteceu, e dessa vez ele não se escondeu, e fez os gestos indicando o monte de entulho, e que queria falar com ela ali na volta. Notou a mesma expressão suave no rosto dela como da outra vez, e ficou ainda mais ansioso por vê-la de perto, ouvir sua voz.
    Mais ou menos uma hora depois, que era o tempo que geralmente o grupo ficava no central, Fernando dirigiu-se ao monte de entulho, tomando todos os cuidados para não ser visto, e esperou.
    Sentou-se, olhando para a capa de “Romeu e Julieta” e começou a relembrar palavras que ele havia ensaiado para o momento do encontro.
    Ouviu o ruído do grupo se aproximando e passando, ficou torcendo para que ela tivesse entendido o recado, e, além disso, que aceitasse o convite.
    De repente ele levantou a cabeça e a viu, parada ali bem em frente. Levantou-se rapidamente, olhou para o rosto dela e disse:
    -Bom dia. Ela respondeu da mesma forma.
    -Sou Fernando.
    -Sou Elisa.
    Seu rosto de perto era ainda mais bonito e suave, e ele sentou um arrepio que lhe percorreu o corpo todo.
    Esticou o livro na direção dela.
    -Eu tenho pres..umpres..
    -Um presente, ela completou.
    -Sim, isso. É um presente de mulheres de fogueira..., não, não foi isso que eu quis dizer. Dentro deste livro, tem uma história de romance, do tipo que as mulheres contam em volta da fogueira, à noite. Pelo menos as mulheres do lado roxo têm esse costume.
    Ela olhou para a capa, interessada, e parecia gostar de tudo que via e ouvia naquele momento.
    -Eu agradeço muito, vou começar a ler logo que puder.
    Fernando tirou o “Mensageiro” de sua sacola e mostrou a ela.
    -Eu li esse, é um cientista falando sobre o céu.
    Ela olhou para o livro com curiosidade.
    -Tenho que ir, disse, - mais uma vez agradeço. Vou ler e, por isso, deixar de ir uns dias para o central, de tanta curiosidade que estou, podemos nos falar aqui daqui uns três dias?
    -Claro, eu combinarei, digo, então combinamos assim.
    Elisa se despediu e foi se juntar ao seu grupo. Fernando ficou ali parado, para ele parecia um sonho que aquilo tinha acontecido. Mas aconteceu.
    6. Romeu e Julieta
    Nos dias e noites seguintes, Elisa ficou totalmente absorta pelo livro. Se encantou com a narrativa, achou a história bonita, na realidade a mais bonita que ela já tinha conhecido.
    Admirou Julieta, por não deixar de lado seu amor por um membro de uma família rival, inclusive desafiando seu próprio pai.
    Gostou da coragem e determinação dela, e de sua certeza em saber o que queria, quando por exemplo, incógnita, oficializou religiosamente o casamento com Romeu, apenas alguns dias depois de tê-lo conhecido.
    Torceu imensamente para que tudo desse certo para os dois, apesar de tantas barreiras que os impediam de ficar juntos.
    Não segurou lágrimas ao ler os acontecimentos trágicos que marcaram a união do casal.
    Imaginou que, no pré-bomba, essa deveria ser uma história muito conhecida, talvez a história de amor mais popular de todas. Os romances que foram escritos depois deveriam ter algo de “Romeu e Julieta”.
    Será que as pessoas se expressavam tão bem assim antes da bomba? Será que se sacrificavam pela pessoa amada, ao contrário de hoje, em que elas pareciam fazer sacrifícios apenas pelos odiosos líderes dos dois lados? Questões que ela não soube responder. Raciocinou, como em outras tantas vezes, que talvez se ela conhecesse outros lugares, lugares distantes de sua estranha cidade, poderia ter contato com outras pessoas, diferentes das que ela conhecia. Imaginou-se saindo um dia dali para nunca mais voltar, e ver o mundo, compará-lo com sua realidade local.
    Uma noite, depois de ter terminado a leitura, contou o que leu para um grande grupo de mulheres em volta da fogueira. Depois que terminou, elas olhavam pasmas para Elisa, com expressão de espanto nos olhos.
    Uma delas, boquiaberta, perguntou se ela é que tinha inventado. Elisa mentiu, dizendo que tinha ouvido de uma mulher muito mais velha, muito tempo atrás.
    Nessa mesma noite, depois que todos foram dormir, Elisa sentou-se e ficou olhando para a arte da capa do livro e ficou repassando a história, várias vezes seguidas.
    Planejou encontrar Fernando no dia seguinte (era o prazo combinado) para dizer o quanto tinha gostado do livro.
    7. Planejamento
    Fernando costumava reunir-se também a noite em volta da fogueira com os homens do seu grupo. Era tudo muito barulhento. Havia demonstrações de força, lutas e competições como queda de braço. Alguns contavam seus feitos corajosos, muitas vezes exagerando na narrativa.
    Notava também as diferenças na fala: Alguns apenas grunhiam, outros usavam poucas palavras, e uma minoria tinha mais articulação, com esses Fernando se identificava e tinha mais proximidade.
    Sempre ficava em um canto, ouvindo. Depois de ouvir algumas histórias sentava-se sozinho e olhava o céu, as estrelas, a lua, e imaginava se no pré-bomba as pessoas tinham curiosidade sobre tudo isso.
    Mas nos últimos dias ele pensava mesmo era em Elisa. Conhecê-la pessoalmente fez com que ele a admirasse mais ainda, e contava as horas para poder conversar com ela novamente.
    Na noite anterior ao dia combinado para os dois para o novo encontro, a ansiedade tomou conta de Fernando. Para aliviar, ele saiu após todos estarem dormindo, e foi admirar as estrelas, lembrando do “Mensageiro das Estrelas”.
    Pela manhã, posicionou-se no mesmo lugar no viaduto, Elisa, ao passar, discretamente fez sinal apontando para o monte de entulho.
    Depois que o grupo passou pelo viaduto, certificando-se como sempre se ninguém o observava, desceu e posicionou-se no lugar combinado.
    Depois de uma espera que pareceu muito longa, Elisa chegou.
    -Bom dia.
    -Bom dia.
    -Gostei muito do livro, ela disse. Muito melhor do que a s histórias contadas na fogueira. No pré-bomba, essa história devia ser muito conhecida.
    -Quem bom que você gostou, respondeu Fernando. Sim, fiquei com essa impressão também, mas não cheguei a terminar a leitura.
    -Por falar em pré-bomba, Fernando, nós dois somos mais articulados do que a maioria, falamos melhor, pensamos melhor. Será que antes esse nosso comportamento era normal? Ou o comportamento da maioria é que era considerado “o normal”?
    -Já pensei nisso, Elisa, penso nisso quando observo o comportamento dos outros, todos tão diferentes. Talvez o que nos diferencie seja o gosto pela leitura, ou a curiosidade.
    -Sim, talvez, ela disse. Eu gostaria muito de saber se o resto do mundo é como aqui, nessa cidade. Se em todo lugar existem divisões com essa, se as pessoas têm essa coloração de pele que nós temos.
    -Só tem um jeito de saber, Elisa. Sairmos daqui e vermos por nós mesmos.
    Isso pareceu acender uma luz dentro dela. Era justamente o que ela queria fazer.
    -Vamos fazer isso então, Fernando! Ela disse com entusiasmo.
    Começaram a planejar o que levar, como por exemplo, um pedaço de pano grande que serviria com uma tenda ou barraca, mantimentos, roupas, o que coubesse as grandes sacolas de pano, que Fernando adaptaria para colocarem nas costas, como mochilas.
    Elisa perguntou se Fernando sabia o caminho para a estrada que levava para fora da cidade. Fernando respondeu positivamente e disse como chegar lá.
    -Vamos marcar para daqui a uma semana? Uma hora antes do amanhecer, no começo do caminho que leva a estrada.
    -Combinado, ela disse.
    Assim, como haviam acertado, depois de uma semana partiram.
    8. A estrada
    Tomaram a saída e entraram na estrada, deixando aos poucos a cidade para trás. Andavam o maior tempo que podiam, quando estavam muito cansados, paravam e descansavam a beira da estrada, quando tinham fome buscavam alimento, na natureza e em eventuais estabelecimentos que encontravam no caminho. Evitavam andar à noite. Quando escurecia, improvisavam uma barraca e dormiam.
    E essa rotina seguiu-se durante semanas, que depois viraram meses.
    Não encontraram nenhum lugar do porte do que eles tinham deixado, apenas algumas cidades pequenas ou vilarejos, aonde as pessoas viviam em condições precárias, mas a rivalidade entre roxos e verdes sempre estava presente.
    Uma noite, logo nas primeiras semanas, fazia calor e eles resolveram se deitar em um lugar de mato rasteiro, deitaram-se lado a lado e ficaram observando o céu. A lua estava enorme e não havia nuvens, o que inspirou Fernando a falar do “Mensageiro das Estrelas”: das observações do cientista, dos desenhos, da lua e suas “montanhas elevadas e vales profundos”.
    Falou dos anéis de saturno, das luas de Júpiter, e de como o cientista teve a ideia de usar a luneta, recém-inventada, para observar o céu.
    Depois de falar bastante, pediu a Elisa que falasse sobre “Romeu e Julieta”, que ele havia quase esquecido da história, maravilhado que ficou com o “Mensageiro”.
    Elisa repassou a história de maneira muito bem contada, pois lera o livro mais de uma vez. Contou sobre o romance proibido, pois o casal desafiava a rivalidade entre as famílias para ficarem juntos.
    Fernando gostou principalmente da coragem de Romeu, que não fugiu de nenhum dos duelos a que foi desafiado, inclusive no último, quando desiludido por pensar que havia perdido sua amada, ainda avisou seu oponente: “Não provoque alguém que não tem nada a perder”, ou algo assim.
    Lamentaram o final trágico. Apesar disso, a história acaba em um clima de reconciliação entre as famílias, e ficaram imaginando se algo assim poderia acontecer no mundo real.
    Elisa pediu para Fernando falar mais sobre o “Mensageiro” sobre o céu, as estrelas. Fernando repetiu coisas que aprendeu com o livro.
    Ainda estava falando, quando olhou pro lado e parou de repente, espantado com o que via: o rosto de Elisa assumiu um semblante diferente e inusitado enquanto ela o ouvia e olhava o céu: ela estava sorrindo.
    9.Renascimento II
    Mais de um ano se passara, e Fernando e Elisa, mais do que amigos, cúmplices e colegas de aventura, eram um casal. Cada vez mais unidos, ajudavam-se sempre que necessário, nunca faltava apoio de nenhum tipo.
    Fernando com o tempo aprendeu a sorrir também, foi um processo natural.
    Mas estavam cansados. Perderam a conta de tantos lugares que conheceram, mas nenhum parecia um porto seguro, ou, no mínimo, que oferecessem alguma garantia de passariam pelo menos algum tempo em paz.
    Um dia, estavam no alto de um aclive na estrada quando avistaram uma cidade, alguns quilômetros adiante. Era grande, a maior que tinham encontrado desde a partida. Quando estavam chegando, avistaram um portal, bem na entrada da cidade, e viram ao lado dele uma mulher, vestida de branco, sentada em uma cadeira fazendo anotações em um bloco. Repararam que sua pele tinha coloração totalmente normal.
    Quando ela os viu, levantou-se rápido e veio ao encontro dos dois. E sorria!
    -Olá viajantes!!!! Eu me chamo Ângela, e vocês?
    Olhou para eles de cima a baixo.
    -Nossa, vocês estão precisando de roupas limpas, um banho e descanso. Há quanto tempo vocês não comem? Estão muito magros!
    Fernando e Elisa se apresentaram, e contaram sua história, de onde vieram e porque partiram.
    -Bom, vamos cuidar um pouco de vocês. Como disse, me chamo Ângela e faço parte de um grupo nacional chamado Renascimento II. Vamos caminhar até a sede local do grupo, fica perto daqui. Somos uma espécie de força-tarefa criada para tentar dar um rumo melhor para as pessoas, pelo menos no nosso país, tentando amenizar os estragos causados pela bomba. Eu, por exemplo, sou médica, pois antes da bomba eu havia acabado de me formar em medicina. As pessoas que fazem parte da força-tarefa são direcionadas para trabalhar em suas especialidades, ou para aonde sua vocação os conduz.
    Modéstia à parte, a minha área está dando uma grande contribuição, pois conseguimos criar uma vacina que está devolvendo a cor natural da pele às pessoas. Mas estudos e estatísticas mostram que essa coloração estranha, com vacina ou não, está diminuindo com o tempo.
    Temos instituições de ensino, psicólogos, engenheiros, cientistas e vários outros profissionais totalmente voltados para o esforço pós-bomba.
    Elisa e Fernando estavam cada vez mais contentes com o que ouviam, parecida que tinham finalmente achado seu lugar. Ficaram sabendo também que o sorriso ali era algo natural.
    Falaram dos livros que tinham lido e gostado tanto, mostraram a Ângela, que pegou os dois e ficou olhando as capas, e devolveu-os enquanto chegavam à sede do Renascimento II. Havia um grande pátio na frente do prédio, parecia ser a hora de algum intervalo, pois havia várias pessoas ali espalhadas, conversando em pequenos grupos. Quase ao mesmo tempo todos viram a chegada dos dois viajantes e os saudaram aos gritos e levantando os braços.
    Ângela pegou o “Mensageiro”, das mãos de Fernando, levantou bem alto e disse de uma maneira solene: “O Mensageiro das Estrelas!!”. As pessoas responderam com gritos de admiração.
    Fernando, sempre querendo dizer algo importante em ocasiões especiais citou sua frase preferida:
    “A natureza produz seus efeitos mediante formas impensáveis por nós, e é surda e inexorável a nossos vãos desejos”. Todos riram e aplaudiram.
    10. A natureza e seus efeitos
    Um mês depois de sua chegada, os dois estavam plenamente integrados. Estudavam educação formal pela manhã, e a tarde dedicavam-se aos estudos profissionalizantes. Elisa encantou-se com o trabalho de Ângela e decidiu estudar medicina. Fernando decidiu-se por física, com ênfase em astronomia, queria ser professor.
    Estavam ainda maravilhados com o mundo em que estavam vivendo, que nem imaginavam que pudesse existir. Veículos elétricos estavam sendo produzidos, ainda em pequena escala, mas essa indústria era promissora.
    O plano era acabar com o uso de veículos de tração animal, que naquele momento eram usados apenas quando não se podia evitar. Psicólogos cuidavam de alguns efeitos do pós-bomba, como os problemas de cognição, que estavam sendo resolvidos em conjunto com a educação formal, problemas de fala sendo tratados por fonoaudiólogos. O sorriso, algo que há pouco tempo era algo quase desconhecido para Fernando e Elisa, era natural.
    O curioso era que algumas pessoas continuavam com os hábitos de antes, odiando aqueles que tinham a coloração de pele diferente. Mesmo depois do tom de pele normalizar, continuavam com sua rivalidade, pois, segundo diziam, “roxo é sempre roxo”, ou “verde é sempre verde”. Não conseguiam enxergar o obvio, de que suas vidas e suas lutas eram idênticas as dos “rivais”.
    Fernando e Elisa ganharam uma casa, depois de um tempo morando com um grupo grande de pessoas em uma espécie de mansão aonde ficavam os visitantes até que se estabelecessem ou decidissem ir embora.
    Uma manhã, Fernando estava no banho e Elisa o esperava na sala. Era dia da aula favorita dos dois, “História geral do pré-bomba”.
    Quando saiu do banho encontrou Elisa sentada e pálida, com uma aparência de cansada. Fernando logo pensou que ela poderia ter adoecido depois de tanto esforço, apesar de eles terem descansado bastante depois da viagem. Mas foi uma viagem longa.
    Assustado, perguntou o que ela estava sentindo, e Elisa contou que havia passado mal e ainda tinha náuseas.
    Decidiram encontrar Ângela antes de irem para os estudos. Ângela tinha se tornado uma grande amiga, estava sempre com eles. Entraram no hospital aonde ela trabalhava pediram para chamá-la.
    Ângela veio apressada e encontrou os dois na recepção.
    Fernando foi logo falando:
    -Elisa passou mal e vomitou.
    Ângela levou Elisa para alguns exames e Fernando ficou esperando.
    Depois de um tempo que pareceu para ele uma eternidade, Ângela voltou, olhou para ele, sorriu e disse:
    -A natureza produz seus efeitos mediante formas impensáveis por nós, e é surda e inexorável a nossos vãos desejos.
  • Caia sete, levante oito vezes!

                Qual o limite entre autor e obra? Muitas vezes, não vemos determinismo entre “criador” e “criatura”, mas um estranha e até mesmo simpática inter-relação. Masashi Kishimoto com Naruto, representa sua fase inicial de carreira, alguém rejeitado, mas com um grande potencial que só queria se divertir com o que mais gostava. Samurai 8 – Hachimaruden mostra um autor consciente, porém debilitado pelas barreiras autoimpostas, mas que ainda assim se direciona a um sonho.
                As diferenças não param por aí. Naruto é uma fantasia urbana com doses de guerras épicas, que ao longo do tempo desbanca para a alta fantasia. Samurai 8 – Hachimaruden é uma mistura de histórias de samurai, cyberpunk e space opera numa deliciosa excêntrica mistura que só os mangakás sabem fazer. Mas porque comparar? Para que julgar o novo usando as medidas do velho? Vejamos o que esse samurai pode fazer!
                Aconselho a todos a lerem o capítulo zero. Nele teremos a dose de mistério e empatia pelo protagonista. O jovem Hachimaru é uma criança ciborgue que vive conectado a uma unidade de suporte vital, uma grande máquina que impede sua morte. O garoto tem condição debilitada devido as alergias e uso de próteses no lugar do braço e da perna esquerda. Sem contar a sua aicmofobia, medo de objetos perfurantes.
                Suas únicas companhias são um cachorro robótico chamado Hyatarou e seu pai, um inventor e seu “enfermeiro particular”. Logo no capítulo zero, nós temos vários elementos que poderão ajudar o leitor a se decidir se lerá ou não o novo mangá. Mas recomendo que o leitor não seja precipitado, e avance para o capítulo 1. É nessas 72 páginas, algumas delas coloridas, que veremos todo o potencial a série.
                Não espere aqui encontrar protagonistas cheios de energia ou poderosos logo de cara, o desenvolvimento do personagem se dá de modo lento e gradual. Com nuances, camadas de shonen intercaladas com drama e ficção científica. Para Hachimaru, se livrar de suas fraquezas é tão relevante quanto poder ter uma vida normal, mas o seu maior sonho é se tornar um samurai, aqueles que estão acima dos guerreiros.
                No capítulo um, o protagonista aprofunda sua condição degradante ao leitor. Quase pessimista. Chegamos a sentir as limitações de Hachimaru na pele, e como se refugia na tecnologia. É um dos poucos mangás com inserção de pessoas com necessidade especiais que já vi na vida. Sua relação com seu pai é conflituosa, e ele será o estopim da evolução de Hachimaru, claro que de modo inconsciente.
                Um encontro inesperado com um gato robótico chamado Daruma, que já foi humano, revelará os potenciais latentes do pequeno Hachimaru. O antagonista da obra, não direi “vilão” ainda, não tem nome, embora tenha marcado grande presença num primeiro capítulo tanto com sua personalidade e poder de luta. Sua inserção na trama foi eficaz e preparou terreno para muita coisa.
                Samurai 8 – Hachimaruden tem roteiros de Masashi Kishimoto e desenhos de Akira Ohkubo. O traço de Akira difere do traço mais realista e sóbrio de Naruto Shippuden e do traço mais arredondado de Mikio Ikemoto de Boruto – Naruto Next Generation. Seu desenho é limpo e plástico. Confesso que o designer das tecnologias pode causar estranheza, tem algo biotecnológico envolvido, é simples, mas funcional.
                O autor prometeu uns dez volumes da obra. Bem sabemos que promessa de mangaká não se deve levar em conta, principalmente os famosos e os que trabalham na Shonen Jump. Esses dez volumes podem virar mais de 50 exemplares fácil. Vocês acham que para salvar a galáxia atrás de sete chaves é vai levar quanto tempo? Espero que tempo suficiente para Masashi Kishimoto desenvolver uma história sem os vícios de seu mangá antecessor e possamos ver a evolução da bela arte de Akira Ohkubo.
  • CAPÍTULO 1 - Finn

    Uma coluna vertical de fumaça cobria o pôr-do-sol e eu tentava não prestar atenção nela. Não dava atenção aos murmúrios a minha volta apesar de estar ciente de que a qualquer momento meu corpo também poderia responder ao que estava ocorrendo. Respirei fundo e continuei contemplando o brilho alaranjado do sol que se deitava atrás das montanhas. Aquela era a hora perfeita para o que estava acontecendo.
                Olhei de relance para baixo e vi a palha se contorcer e mergulhar nas chamas. Sobre ela, entre vários pedaços de madeira, havia cinco corpos que pouco a pouco se tornavam cinzas e memórias. Eu devia estar de joelhos, meus olhos deviam estar queimando como os olhos de todas as vinte pessoas que estavam a minha volta, mas aquela não era a primeira vez, e com certeza não seria a última, em que eu cremava corpos de pessoas tão jovens.
                O mundo era assim. Todos os dias ouvíamos notícias de mais e mais mortes espalhadas pelo país e pelo mundo. Costumávamos ser uma grande família, eu e todos aqueles que se refugiavam nos campos de Brighton. Hoje não chegávamos sequer a trinta.
                Eu cresci em um mundo diferente. O mundo após o mundo. Pessoas diziam. Nada mais era como costumava ser na época de nossas tataravós. As pessoas na minha época matavam sem motivo, destruíam umas às outras, arruinavam vidas. Tudo havia mudado. O clima não era mais o mesmo, era extremamente quente e sufocante ou cruelmente frio. Em alguns lugares o ar era corrosivo de uma forma que quem o respirasse começava a vomitar sangue em segundos. A terra era traiçoeira, alguma coisa embaixo dela havia crescido, havia relatos de pessoas sendo engolidas sem deixar rastros. Os oceanos agora eram uma zona morta. Nada, nenhuma sonda ou qualquer outra coisa podia mapear os mares e descobrir o que vivia nas profundezas, era como se um tipo de sistema de segurança protegesse a vida marinha da interação humana. Os animais eram ferozes, muitos foram extintos, mas os que surgiram depois fizeram das regiões remotas um lugar inabitável.
                Tudo isso graças ao metal.
                Meu pai um dia me contou sobre a mudança pela qual o mundo passou. Tudo isso ocorreu quando Mercúrio, o Planeta mais próximo do sol, entrou em colapso e milhares de meteoros caíram sobre a Terra.
                Naquele dia o mundo conheceu o apocalipse. Segundo ele, que ainda era criança na época, as maiores potencias do planeta desmoronaram como um castelo de cartas. Os Estados Unidos foram afetados por grande parte dos meteoros, o Canadá foi varrido do globo em minutos, assim como a America do Sul, parte do continente Africano e da Ásia. Cinquenta por cento da Rússia virou uma pilha de destroços e a humanidade por pouco não foi dizimada.
                Dias depois do apocalipse, com o caos que tomava conta do planeta, algumas das potencias que ainda permaneciam intactas: Estados Unidos, Rússia, África, França, Inglaterra e China perceberam que precisavam unir todo seu poder se quisessem salvar o mundo da ruína. Foi com essa união que nasceu o Ristrad. Uma organização que tratou de resgatar todos os que ainda estavam vivos e cuidar para que pudessem recomeçar suas vidas.
                Mas como recomeçariam suas vidas se tudo o que conheciam havia sido destruído? Em que lugar viveriam?
                Foi com essa necessidade que o Ristrad descobriu que aquela chuva de meteoros havia trazido para a Terra um tipo de metal altamente maleável. E havia uma fonte ilimitada dele em cada fragmento de Mercúrio caído na Terra. Foi com esse metal que o Ristrad reconstruiu o mundo. Eles o chamavam de Ciner, um metal indestrutível jamais visto em qualquer lugar do mundo.
                Segundo meu pai, em poucos anos o mundo havia renascido e a humanidade caminhava para um futuro.
                Só que não foi o futuro que imaginavam.
                Havia algo no metal que começou a afetar toda forma de vida no planeta, principalmente os humanos. Pouco a pouco as pessoas começaram a ser tomadas pela ganância, logo em seguida pela ira até chegar a um desejo incontrolável de matar. Nem todos eram afetados, era como se o metal soubesse quais pessoas tinham tendências homicidas e conseguia extrair o pior de todas elas.
                Com o planeta mudando, muitas partes do mundo se tornaram inabitáveis. E com as pessoas matando umas às outras nas ruas o Ristrad precisava tomar providencias.
                Foi neste momento, quando eu tinha seis anos de idade, que o segundo apocalipse ocorreu. Foi quando o Japão surgiu com a promessa de que poderia acabar com o caos. Foi apresentada ao Ristrad uma empresa armamentista conhecida como Amisix, liderada por um americano, Magno Carnalis, ele prometeu acabar com o caos apresentando ao mundo o que o metal Ciner podia desenvolver de melhor: armas.
                Magno apresentou armas e dispositivos criados pela Amisix que podiam conter aqueles que estavam tomados pela demência. Era uma atitude radical, mas para o Ristrad passou a ser a única saída. O Ristrad aprovou o uso das armas da Amisix por aqueles que não haviam enlouquecido, era uma forma de manter as famílias seguras.
                O mundo virou um completo caos. Agora havia pessoas dementes matando umas às outras, máquinas e dispositivos vagando pelo mundo para neutralizar ameaças e as próprias comunidades agora se defendiam com as armas da Amisix e o próprio planeta foi contaminado pelo Ciner.
                Perdi meu pai naquela época. Quando os “dementes”, era assim que chamavam aqueles que se corrompiam, invadiram Brighton, e as máquinas da Amisix, juntamente com aqueles que haviam aderido o uso de armas, combateram os invasores.
                Eu o vi morrer.
               
                Eu podia ver seu rosto se olhasse para as chamas que agora cremavam os corpos daqueles cinco garotos que haviam saído pela manhã para conseguir remédios para os refugiados que haviam chegado de Lewes e foram atacados por dementes.
                Eles estavam ficando piores, os dementes, já haviam atravessado nossos muros duas vezes no último mês e não podíamos fazer nada. A maioria de nós não conseguia matá-los, muitos dos que estavam em Brighton haviam perdido entes queridos para a demência. Alguns chegaram a ser feridos e até mortos por filhos ou irmãos. Era o que o Ciner fazia, ele consumia a alma daqueles que possuíam sombras dentro de si e os tornava maus de uma forma irreversível. E ele estava por toda parte. As ruas eram de Ciner, as casas, os móveis, eletrodomésticos... O mundo havia sido reerguido a partir de uma coisa maldita.
                — Finn! — Eric me chamou ao colocar a mão em meu ombro. — Já vai escurecer — Avisou ele. — Acho melhor voltarmos para a prefeitura.
                Observei o pôr-do-sol mais uma vez. O brilho alaranjado já se tornava apenas uma linha morna no horizonte. Eu olhei para seus olhos castanhos e em seguida para todos aqueles que ainda choravam pela perda. O fogo já estava praticamente extinto e não havia sobrado nada além de uma pilha de cinzas.
                Balancei a cabeça, assentindo. Eric colocou a mão sobre o ombro da mãe de um dos garotos que haviam acabado de ser cremados.
                — Precisamos ir — Disse ele gentilmente.
                A mulher assentiu e se levantou com sua ajuda. Eu segui para o outro lado. Abracei a outra mãe de um dos garotos e os convoquei para voltar. Estava ficando escuro e sabíamos que os dementes costumavam sair à noite. Era o único período em que eles sentiam fome. Se um demente pegasse alguém durante o dia ele apenas mataria e abandonaria o corpo, mas se isso ocorresse após o pôr-do-sol ele também comeria sua carne. Era estranho, mas eu nunca havia parado para pensar no porquê de isso ocorrer.
                Aos poucos todos os refugiados estavam de pé naquela ravina e se dirigiam de volta para a cidade. Alguns levaram consigo um pouco das cinzas, outros, porém, decidiram apenas deixar tudo aquilo para trás.
                As ruas de Brighton costumavam ser iluminadas à noite. Agora tínhamos que manter todas as luzes apagadas do lado de fora. Havia casas abandonadas por toda parte, vestígios de acidentes e tragédias que ocorreram quando as pessoas começaram a matar e tudo virou um caos mais uma vez.  Poucos sobreviveram, e eu não fazia idéia de como o mundo lá fora estava.
                A prefeitura era o lugar onde eu mantinha todos os refugiados à noite. Era um prédio imenso, com paredes bem reforçadas e vários cômodos onde todos ficavam confortáveis. Tínhamos plantações em todos os jardins da cidade, com isso podíamos manter todos alimentados, inclusive aqueles que acabavam vindo parar em Brighton enquanto fugiam de dementes ou de algum animal selvagem.
                Tínhamos todo tipo de pessoa em Brighton. Havia uma mulher, Walery, uma mulher de trinta e oito anos que havia sido médica em Londres alguns anos antes do surto de dementes começar. Era a única pessoa que tínhamos para cuidar dos doentes, eu não sei o que faríamos sem ela. Havia um homem chamado Daniel, que havia trabalhado no Ristrad. Eu não sabia o porquê de ele ter decidido sair, mas ele nunca falava a respeito.
                Tínhamos também algumas crianças, todas órfãs. Minha única amiga de infância que ainda estava viva era responsável por cuidar delas. Ela sempre quisera ser mãe, mas num mundo como o nosso aquilo era impossível.
                — Já pensou no que vamos fazer? — Eric disse baixo. Já estávamos dentro do hall da prefeitura. Ele e eu havíamos acendido uma fogueira no centro, onde sempre acomodávamos os idosos e as crianças. Walery e Max, uma garota órfã que havia chegado há pouco tempo, distribuíam a comida. Eu fitava as chamas estalarem, pensativo.
                — Eu ainda não sei — Sibilei olhando seu rosto parcialmente iluminado pelo calor das chamas. Eric era jovem, tinha vinte e cinco anos, a mesma idade que eu. Ele havia crescido em Londres, e, quando o surto começou havia se separado dos pais durante uma evacuação promovida pelo Ristrad. Ele não sabia onde os pais estavam, nem sequer se estavam vivos. Passamos muitos anos juntos, ajudando um ao outro, acolhendo todos os refugiados que encontrávamos nas proximidades de Brighton.
                — Precisamos de medicamentos — Sussurrei. — Mas não estou disposto a perder mais ninguém para o que têm lá fora.
                — Eu poderia tentar ir — Sugeriu ele.
                — Não — Minha respiração ficou alterada. — Eu disse que não perderia mais ninguém.
                — Não temos outra escolha — Disse ele.
                — Está errado — Me movimentei para longe. Passei pelas pessoas que estavam deitadas em colchões espalhados pelo hall e me direcionei para a porta de entrada. Além de mim e de Eric havia apenas mais três pessoas em Brighton que sabia usar armas de fogo. Essas pessoas nos auxiliavam todas as noites mantendo a prefeitura segura.
                Me aproximei de Grant, era um homem de meia idade. De cabelos grisalhos, bigode branco e olhar cansado. Ele havia perdido todos os filhos dez anos atrás durante um surto. Desde então havia dedicado a vida a caçar e matar dementes.
                — Olá Finn — Ele disse quando me aproximei.
                — Como estamos? — Perguntei olhando as ruas escuras da cidade em ruínas.
                — Até agora estamos seguros — Ele disse com os olhos fixos nos muros que circundavam as ruas logo à frente. — Posso ouvi-los lá fora, na floresta. Malditos!
                — Tenho ouvido sobre mais e mais ocorrências nos últimos dias — Eu disse. — Soube de uma pequena cidade, não muito longe daqui, que foi dizimada algumas noites atrás.
                Grant olhou a escuridão, pensativo, em seguida seus olhos se voltaram para mim e depois para todas as pessoas no Hall.
                — Sabe que não pode manter essas pessoas aqui para sempre, não sabe? Eles estão mudando, Finn, os dementes. Esses que vejo hoje não são os mesmos que mataram meus filhos anos atrás. Eles costumavam ser descontrolados e irracionais. Atacavam qualquer pessoa como se fossem movidos pelo ódio. Mas, hoje, eles mudaram. Tornaram-se frios e articulados. Eles sabem que não vamos conseguir ficar aqui muito mais tempo, e eles estão esperando.
                — Eu sei disso — Respondi. — Mas não sei o que fazer. Eu não posso simplesmente tirar essas pessoas daqui sem ter para onde levá-las. A não ser que viajemos para Londres.
                — Não! — Disparou Grant. — Você não pode fazer isso. Sabe o que dizem sobre a Amisix e sobre o que ela faz com as pessoas.
                — Eu sei o que a Amisix faz — Retruquei. — Foi por causa da Amisix e das armas dela que eu perdi meu pai. Todo o caos apenas piorou depois que Magno Carnalis surgiu com seus armamentos e suas máquinas estúpidas prometendo salvar a humanidade de uma coisa da qual não temos salvação, mas pode não haver saída melhor. Talvez o Ristrad...
                — O Ristrad e a Amisix estão juntos, sempre estiveram — Garantiu Grant. — Não sei como o Ciner não os corrompeu até hoje.
                — Talvez já estejam — Sussurrei com amargor. — Talvez tenham se transformado em um tipo diferente de demente.
                — Um tipo bem psicótico — Riu Grant.
                — Vou fazer uma ronda — Disse ele descendo as escadas de mármore rumo à escuridão.
                — Não quer que eu vá com você?
                — Eu agradeço, Finn. Mas, preciso pensar um pouco e você me conhece, só consigo pensar direito quando fico cara a cara com a morte — Grant riu antes de caminhar pelas ruas.
                Logo depois que Grant desapareceu desci as escadas e caminhei pelas calçadas. Eu fazia aquilo todas as noites depois que todos estavam acomodados e seguros na prefeitura. Fazia meu caminho através das ruas frias. Aquilo me fazia bem, me lembrava de quando saia com meu pai nas manhãs de inverno.
                Fiz meu caminho para longe do centro. Dez minutos de caminhada e eu estava em uma rua com pequenas casas de madeira, uma coisa que era rara diante de um mundo onde tudo era feito de Ciner. Três casas para frente, à esquerda, havia uma pequena casa abandonada, cujas paredes e parte do telhado já haviam cedido. Era um risco entrar ali, mas eu não me importava. Aquela era a casa onde eu crescera e vivera por seis anos antes de pessoas começarem a matar umas as outras e empresas ambiciosas tirarem proveito da dor e do sofrimento daqueles que não tinham como se defender. Foi ali que meu pai morreu. O pedaço mais feliz da minha infância, e o mais triste.
                Passei pela abertura que havia no lugar da porta de entrada e caminhei sobre a madeira podre. Havia chovido nos últimos dias, a água da chuva havia deixado um cheiro de mofo que se misturava com o cheiro das rosas que meu pai cultivava. Eu havia cultivado dezenas delas nos últimos anos fazendo do interior da casa um jardim secreto.
                Caminhei me desviando das flores, me direcionei para a lareira que ficava no canto de uma sala que agora estava aberta permitindo que a luz da lua entrasse e iluminasse todo o recinto. Me sentei sobre uma cadeira e observei as flores em contraste com a lua. Eram tão delicadas e frágeis quanto as pessoas que eu tentava manter vivas todos os dias. Não estava sendo fácil, desde que comecei a trazer refugiados para Brighton, ao lado de Eric. Eu não imaginava que tantas pessoas procurariam ajuda. Havia muitas pessoas, assim como eu, que não confiavam na segurança prometida pela Amisix e pelo Ristrad e preferiam sobreviver por conta própria a ficar nas metrópoles sob o governo das duas empresas.
                As metrópoles eram grandes cidades. Como Londres, Nova York, Moscou, Paris... Cidades que haviam sobrevivido a tudo graças às armas da Amisix e a corrupção do Ristrad. Estas cidades permaneciam imaculadas sem a interferência dos dementes ou de todas as outras mudanças mortais pelo qual o planeta passou nos últimos anos. Elas estavam lotadas de máquinas inteligentes criadas pela Amisix, dispositivos e programas que previam a aproximação de ameaças além do fato dos próprios moradores poderem usar armas para se defender.
                Ali dentro era como se nada nunca tivesse ocorrido. As pessoas viviam seguras; trabalhavam, estudavam, constituíam família e viviam em paz.
                Uma verdadeira utopia.
                Mas, nem tudo podia ser um mar de rosas. Grant havia me contado sobre pessoas em Londres que estavam sendo corrompidas pelo metal e matando as próprias famílias. Era o que acontecia quando o uso de armas era legalizado. Com a morte vinha a corrupção e era onde o metal agia transformando a pessoa em Demente.
                Para esconder da população, a Amisix recolhia os Dementes e suas famílias mortas e as levava para um de seus laboratórios onde os transformava em experimentos.
                “A Amisix é má”. Dizia Grant, havia morte e corrupção em suas instalações. O presidente da Empresa, Magno Carnalis, queria algo com o metal e não era descobrir a cura.
                Eu não podia levar aquelas pessoas para Londres. Acabariam mortas e virariam experimentos. Precisava encontrar um lugar para levá-las. Um lugar onde ficariam mais seguras.
                Enquanto pensava olhei para a lareira. Me levantei e fiquei de joelhos diante dela. Passei a mão sobre a base de tijolos. Havia um compartimento abaixo do assoalho onde eu guardava minha única herança. Ao abrir o compartimento havia uma caixa de madeira comprida onde meu pai havia guardado uma de suas criações. Ele havia sido engenheiro em vida e havia trabalhado com Ciner.
                O conteúdo daquela caixa me deixava aterrorizado. Eu não conseguia olhar para dentro dela por muito tempo.
                Coloquei a caixa novamente em seu esconderijo e fechei o compartimento. Me pus de pé e caminhei para fora. Minha cabeça agora focava na breve conversa que eu havia tido com Eric naquela tarde. Havia pessoas doentes em Brighton. Elas precisavam de remédios, mas eu havia perdido cinco pessoas na tentativa de trazê-los para a cidade. Não podia perder mais ninguém.
                Eu sabia o que precisava ser feito.
                Parei diante de uma caixa de correio ao lado da calçada. Tirei a tampa para encontrar uma bolsa com alguns mantimentos e armas. Depois disso caminhei pela noite na direção dos muros.
               
                Caminhei para fora dos muros e avancei pelas ruas da cidade. Havia um ambulatório há alguns quilômetros onde alguns garotos haviam visto medicamentos semanas atrás. Eles não puderam pegá-los, entretanto, pois o local estava tomado por Dementes. Apressei o passo quando comecei a ouvir grunhidos vindos das casas abandonadas ao redor e da floresta que circundava o local. Em geral, Dementes comuns atacavam qualquer pessoa que vissem em sua frente, apenas para matá-la, mas eles estavam diferentes, assim como Grant havia falado. Estavam me observando e aguardando o melhor momento para me atacar.
                Segurei uma das armas que havia na bolsa e caminhei pelo centro das ruas. Alguns metros depois, o primeiro Demente saltou para fora de uma casa vazia. Era uma mulher de meia idade. Estava com as roupas rasgadas, a pele estava enrugada e com um tom escuro e sujo. Os olhos dela estavam tingidos com um tom vermelho escarlate de ódio.
                Com as unhas longas e afiadas ela tentou acertar meu pescoço. Me desvie com facilidade e segurei seus pulsos. A empurrei para longe e atirei com o silenciador em sua barriga. Ela cambaleou para trás e caiu com as mãos no estomago.
                Olhei ao redor com o corpo ainda paralisado de tensão. Sabia que ela não estava sozinha.
                Voltei a caminhar. Não estava longe, podia ver a entrada do ambulatório a poucos metros. Uma brisa fria atravessou meu corpo quando me aproximei. Naquele instante percebi o risco que teria ao entrar. Não haveria outra saída senão a porta da frente. Eles estavam esperando que eu fizesse isso. Quando entrasse estaria cercado. Ainda assim, eu não havia escolha. Precisava voltar com medicamentos.
                Avancei. A porta dupla da entrada era de vidro e estava quebrada. Passei sobre os cacos e em seguida atravessei o balcão que ficava na entrada. Estava tudo destruído. Havia corpos completamente decompostos pelos corredores, catres impediam a passagem em alguns pontos. Havia sangue seco.
                Procurei pela enfermaria, ouvi grunhidos nas salas por onde passei e do lado de fora também. Eu precisava ser rápido. Encontrei a enfermaria depois de alguns corredores. A maioria das prateleiras estava vazia, mas havia alguns frascos de antiinflamatórios em uma gaveta, analgésicos em outra e alguns curativos também.
                Peguei uma sacola. Coloquei tudo que poderia ser útil e me preparei. Peguei duas armas com silenciador e me virei para a porta. Havia um Demente parado no corredor aguardando a minha saída. Ele estava em um estado parecido com o da mulher, porém havia sangue escorrendo de sua boca.
                Apontei a arma e atirei quando ele veio na minha direção. Usei seu corpo como escudo e saí pelo corredor. Não havia outros a vista, mas eu podia senti-los se aproximando.
                Corri para a entrada a tempo de sair antes que três dementes surgissem na recepção e tentassem me pegar. Havia mais quatro me esperando na entrada como eu havia previsto. Continuei correndo na direção deles. O segredo para sobreviver era não pensar muito. Dementes geralmente eram movidos por impulso, sendo assim eram sujeitos a falhas. Se eu fosse mais rápido do que eles eu podia matá-los sem dificuldade.
                Acertei os dois que estavam mais próximos no peito. Eles caíram para trás deixando os outros dois incertos por um instante; Tempo suficiente para eu acertá-los. Corri um pouco mais. Os três que saíram do ambulatório ainda me perseguiam. Puxei um cartucho da bolsa e recarreguei o silenciador. Me virei, os três estavam a menos de quatro metros de mim. Tive tempo de acertar o que estava mais próximo. Ao cair ele atrapalhou os outros dois e eu pude economizar munição acertando a cabeça de um com um chute e quebrando o pescoço do outro.
                Não olhei para a pilha de corpos no caminho. Continuei seguindo de volta para a prefeitura. Eu tinha conseguido os remédios e ainda estava vivo. Não era muito, mas ajudaria a tratar alguns dos doentes e feridos de Brighton.
                Me esgueirei pelos arbustos para cortar caminho até o muro. Queria voltar o quando antes e entregar o que havia conseguido para Walery. Quando estava chegando perto percebi que alguma coisa estava errada. Foi quando vi que o muro havia sido atacado e parte dele havia cedido permitindo a entrada de Dementes.
                Meu corpo ficou paralisado, de repente meus pulmões ficaram sem ar e meu coração ficou histérico. Escalei o muro para não chamar atenção, quando cheguei ao topo meus joelhos quiseram ceder e me jogar para baixo quando eu vi.
                A cidade havia sido atacada. Havia dementes correndo pelas ruas, furiosos. Pude ver a prefeitura algumas quadras a frente, estava escancarada com um aglomerado de criaturas correndo, desesperadas por carne. Meus olhos arderam e eu não sabia o que fazer. Obriguei meu corpo a se mover e desci do muro, entrando na cidade. Me esgueirei silenciosamente pelos arbustos para não ser visto. Precisava voltar para a prefeitura e encontrar os refugiados. Talvez estivessem escondidos em algum lugar. Eu precisava checar.
                Mas de repente eu ouvi um assobio. Eu estava próximo de uma casa abandonada e alguma coisa dentro dela me chamava. Tentando não ser visto me aproximei devagar até ouvir uma voz conhecida que acalmou meus nervos.
                — Finn! — A voz de Grant me chamou.
                Olhei ao redor para checar se era seguro correr. A rua estava silenciosa então corri para dentro da casa em ruínas. Grant estava encostado em uma parede no canto da sala. Ele estava ofegante, suava e estava com as mãos nas costelas, de onde escorria sangue.
                — Grant — Eu disse em desespero. — O que aconteceu?
                Me coloquei de joelhos diante dele. Seu rosto molhado brilhava em contraste com a luz da lua. Ele soluçava.
                — A... — Ele gaguejou — Amisix.
                Minha testa franziu.
                — O quê? Amisix, aqui?
                Grant balançou a cabeça positivamente.
                — Vieram atrás de seu pai.
                Sacudi a cabeça confuso.
                — Como...
                — Vieram atrás do que seu pai criou — Continuou Grant. — Escute, ouvi boatos há um tempo, de coisas que o Ciner poderia fazer se fosse manipulado da maneira correta. Obviamente nós não o fizemos e por isso tudo virou um caos, mas ouvi sobre pessoas que conseguiram estudar o Ciner a um nível elevado. Capaz de revelar as verdadeiras propriedades dele. Ouvi até sobre pessoas que conseguiram combinar o Ciner a coisas comuns e transformá-las em algo extremamente superior, acima da compreensão humana. A Amisix nunca conseguiu isso. Manipular o metal a ponto de ser capaz de obter um poder imensurável, mas essa é a maior ambição do presidente da Amisix.
                Respirei fundo e pestanejei, confuso.
                — Eu ainda não estou entendendo — Sussurrei, frustrado. — O que meu pai tem a ver com isso?
                — Seu pai foi uma dessas pessoas. Ele conseguiu usar o melhor do Ciner para criar uma coisa nova. Uma coisa que ele deixou para você dentro daquela caixa que você guarda embaixo da lareira. Eles querem aquilo, rastrearam até aqui e mataram todos na prefeitura para achar.
                Meus olhos arderam. As lágrimas escorreram sobre meu corpo trêmulo.
                — Escute Finn. Eu tenho um irmão, ele se chama Backin. Ele vive em Lewes, em uma fazenda. Eu quero que procure ele. Ele entende disso melhor do que eu e vai saber te ajudar. Eles voltarão atrás de você e vão te encontrar se ficar por aí sozinho.
                Grant tossiu e se contorceu. Retirei depressa os curativos da bolsa. Preparei uma seringa com remédio. Quando fui expor o ferimento para tratá-lo a mão ensanguentada de Grant me deteve.
                — Não, guarde para você — Ordenou ele. — Eu não vou aguentar muito mais tempo e se for com você vou te atrasar.
                — Eu não posso te deixar aqui — Retruquei.
                — Não se preocupe — Grant riu. — Eu vou encontrar meus filhos. Eu não poderia estar mais feliz.
                Algumas lágrimas escorreram de seus olhos. O mesmo aconteceu comigo.
                — Você precisa ir antes que te encontrem — Disse ele. — Escute, você não pode deixar que a Amisix ou o Ristrad coloquem as mãos no que seu pai criou. Eu não sei o que eles pretendem com isso, ma sei que vindo de Magno Carnalis não pode ser bom. Não confie em ninguém daquela empresa.
                Eu assenti. Levei uns minutos para me levantar. Grant começou a respirar mais devagar. Ele fechou os olhos sorrindo.
                — Adeus, Finn — Ele sussurrou entre lágrimas. — Foi um prazer lutar ao seu lado por todos esses anos.
                E então Grant deixou de respirar.
                Saí da casa quando percebi que as ruas estavam vazias. Os Dementes estavam rondando a prefeitura em busca de carne. As lágrimas escorriam pelo meu rosto quente. Enquanto eu caminhava para minha casa os rostos de todos aqueles que estavam sob minha responsabilidade pairavam sobre mim. Me lembrei de todos eles. O último foi o rosto de Eric, a primeira pessoa que eu encontrei quando comecei a ajudar pessoas em perigo. Ele estava comigo há tanto tempo. Eu nem sequer pude me despedir.
                Quando entrei na casa em ruínas, atravessei as rosas e me ajoelhei sobre a lareira. Retirei a tampa do compartimento e puxei a longa caixa de madeira. Eu havia aberto apenas uma vez. Não conseguia colocar minhas mãos no que havia ali. Era um sentimento indescritível. Eu tinha medo. Muito medo. Do que poderia acontecer comigo. Nunca havia entendido no que meu pai estava pensando quando deixou aquilo para mim, mas algo me dizia que eu iria entender.
                Abri a caixa sobre uma pequena e velha mesa que ficava no centro da sala. O conteúdo ainda estava ali, imaculado. Duas katanas (espadas japonesas) repousavam sobre almofadas vermelhas. O cabo era dourado e vermelho e as lâminas eram brilhantes, feitas de Ciner.
                Respirei fundo e coloquei minha mão direita sobre o cabo de uma delas. Levantei a espada lentamente e analisei a lâmina, eu podia ver meus cabelos curtos e prateados sendo refletidos ali. Em seguida peguei a outra katana e as segurei pelo cabo com firmeza. Eu não sabia o que faria com aquilo, nunca havia tido nenhum treinamento. Não sabia como usá-las.
                De repente alguma coisa se desprendeu do cabo das duas espadas. Duas argolas prateadas desceram pelos meus punhos e se fixaram em torno dos meus pulsos.
                Dois braceletes prateados que emitiam uma luz vermelha que piscava. Era estranho, mas eles pareciam estar estabelecendo algum tipo de conexão entre mim, eles e as duas lâminas, pois eu me senti diferente e de repente eu sabia exatamente como usá-las.
                De repente a luz vermelha ficou verde e uma gravação começou a falar:
                “Transmitindo última mensagem”
                “Finn” Era a voz do meu pai.
                “Eu sei que deve estar confuso e que a essa altura o mundo que eu conhecia se tornou um verdadeiro caos. Sei que você deve estar lutando contra pessoas corrompidas e tentando manter o maior número de pessoas vivas possível. Eu sei disso porque conheço meu filho. Finn me perdoe por tê-lo deixado fazer isso sozinho, eu sabia com o que estava lidando. Sabia que um dia eles viriam atrás de nós por conta do que eu estava fazendo. Estas duas espadas que você está segurando agora são a prova de que o Ciner não é o culpado por tudo o que ocorreu com o mundo. Você deve ter ficado com medo ao segurá-las, mas não fique. Esse metal está puro e não fará mal a você ou a qualquer pessoa que as segurar. Existe algo que está mudando as pessoas e o planeta, mas não é o Ciner. Suspeito de que a Amisix saiba o que é e esteja escondendo da humanidade para benefício próprio. Eles têm caçado todas as pessoas que conseguem fazer o que eu fiz. Estas pessoas estão desaparecendo, você precisa encontrá-las e lutar contra a Amisix junto com elas. Você precisa abrir os olhos da humanidade para o que está havendo. Por favor, Finn. Sei que não tenho o direito de te pedir nada disso, mas neste momento você é a única pessoa capaz de descobrir o que está havendo com o planeta e expor isso para todos.”
    “Eu não sei como, mas eu encontrei uma forma de estudar esse metal e descobri uma das muitas qualidades que ele possui. Elas são únicas e possuem habilidades que vão te ajudar daqui em diante.”
    “Eu as chamo de Harin e Horan, espadas da vida e da morte, dei esse nome devido às habilidades que elas possuem, você vai descobrir quando chegar a hora.
     “Eu quero que saia de Brighton e descubra o que há com o planeta. Preserve o que restou da humanidade. Ela ainda pode ser salva. Acredite nisso.”
    “Queria poder ver seu rosto agora.”
               
                Aquelas foram as últimas palavras que eu ouvira de meu pai. Com emoção e com certo receio eu segurei as duas lâminas. Elas costumavam ser um pesadelo para mim, mas naquele momento elas eram parte de mim. O último fragmento da memória de meu pai.
                Sai da casa ainda confuso. Se não era o Ciner, o que estava arruinando o planeta?
                Onde e como eu encontraria outras pessoas que fizeram o que meu pai fez com o Ciner?
                Eu não ia desistir, é claro. Eu encontraria um jeito. Eu ia expor a Amisix.
                Quando comecei a caminhar para o muro me lembrei de Grant. Ele estava em uma casa não muito longe. Não era certo deixar o corpo dele lá.
                Retornei para a casa onde ele estava. Por sorte havia uma pá nos fundos da casa com a qual eu pude cavar uma cova. Peguei o corpo de Grant ainda quente e o arrastei para a cova. Depois que o havia enterrado retornei para minha casa e colhi algumas rosas e as coloquei sobre seu tumulo.
                “Eu devia fazer isso pelos outros também” Pensei.
                Deixei o tumulo e voltei para as ruas. Caminhei na direção da prefeitura. Estava cheia de Dementes por toda parte. Devia ser mais de meia noite e estava muito escuro. Eu seria morto se me aproximasse, mas eu não podia deixar o corpo de Eric e de todos os outros lá para serem devorados.
                Quando em aproximei um grupo de Dementes me viu e começou a correr na minha direção. Quando coloquei a mão na cintura para pegar uma arma de repente as duas espadas, que estavam nas minhas costas se deslocaram tão rapidamente que eu só pude ver os corpos caírem em pedaços. As duas permaneceram fincadas sobre a cabeça de dois Dementes.
                Fiquei espantado com o que havia acabado de ocorrer, mas não tive tempo para absorver a informação. Outros Dementes ouviram o barulho e saíram da prefeitura. Uma horda se posicionou diante de mim. Estavam sedentos por carne e seus olhos ferviam com um ódio fora do comum.
                Pensei em como recuperaria as duas katanas antes que me atacassem. Quando pensei nisso os dois braceletes em meus pulsos piscaram e as duas lâminas retornaram paras as minhas mãos. Percebi que havia uma conexão entre nós, como eu havia pensado. Rapidamente movimentei as duas mãos para frente e lancei as duas espadas mentalizando o que elas teriam que fazer. As duas cortaram os dementes de todas as formas possíveis. Em instantes todos haviam caído. Ordenei então que as duas circulassem a área e eliminassem qualquer Demente que se aproximasse. As lâminas obedeceram e desaparecem na escuridão.
                Subi as escadas da prefeitura depressa. Embora eu tivesse uma esperança de que alguém ainda estivesse vivo eu sabia exatamente o que encontraria. Pilhas de pessoas mortas e esquartejadas. Vi o corpo de Walery bem no centro, ela fora morta com tiros. Devia estar tentando proteger as crianças quando foi atingida.
                As lágrimas corriam pelo meu rosto enquanto eu agrupava os corpos. Reuni todos eles no centro da prefeitura enquanto ouvia as duas lâminas deceparem cabeças do lado de fora. Peguei um pouco de álcool e fósforos embaixo do balcão e ateei fogo. Precisava queimar os corpos. Havia pessoas extremamente desesperadas no mundo em que eu vivia. Pessoas capazes de fazer qualquer coisa para sobreviver, isso incluía canibalismo e se um humano comia carne contaminada por Dementes isso resultaria em sua própria corrupção.
                Era de manha quando eu havia queimado o último corpo. Espalhei rosas pela prefeitura e então chamei Harin e Horan. As duas retornaram para mim banhadas em sague. Fui para as ruas e ateei fogo em todos os corpos que encontrei. Em seguida retornei para a prefeitura. Fui para um dos cômodos onde havia roupas e suprimentos. Arrumei uma mochila com tudo o que precisaria para chegar a Lewes. Precisava encontrar o irmão de Grant e pedir ajuda a ele.
                Fui para um dos banheiros. Estava coberto de sangue e precisava de um banho. Quando enfim estava pronto sai da prefeitura. O sol marcava oito da manhã. Olhei para a prefeitura uma última vez antes de deixar a cidade.
    Não importava onde eu fosse sempre haveria um pedaço de Brighton comigo.
  • Capítulos vagos de vidas miméticas e contemporâneas

                    Certamente é um assunto bastante recorrente nos dias de hoje as questões sobre a tecnologia e a vida, as divergências e compatibilidades sobre conceitos que se criam e as maneiras de se adaptar a um mundo que ao mesmo tempo se torna maleável e em outros aspectos tão caótico, e não apenas no sentido de uma presente apostasia, mas sobre infelizmente um sentido auto reflexivo, que nos conduz a natureza humana, que por mais fascinante que possa parecer também apresenta uma realidade decepcionante
                   Certa vez me deparei com um sujeito no começo de minha graduação em psicologia e que viria a ser um grande amigo, e me surpreendi com o fato de que ele não tinha facebook e nem whatsapp, me recorreu que se tratava de alguém que não tinha o menor interesse em certos assuntos que a um ano atrás por incrível eu pareça não me interessavam também, já que eu também não tinha whatsapp e o meu fecebook estava parado a muito tempo. Tratei de me dar o luxo de refletir sobre a conversa que tivemos neste mesmo dia e me surpreendi como fazia tempo em que não conversava de forma tão franca com alguém, e para minha maior felicidade ele declarou a mesma coisa no dia seguinte ao falarmos sobre a conversa que tivemos no dia anterior, pois não a nada mas felicito para um mero estudante que procura o conhecimento saber que ele não é o único a estar num caminho que poucos procuram trilhar nos dias de hoje. Indo mais fundo eu quis refletir mais um pouco e voltei cerca de 2 anos atrás quando estava no ensino médio e relembrei alguns momentos em que observava as pessoas ao meu redor fazerem planos para um futuro pouco distante já que tinham a ideia de terminar o ensino médio, fazer uma faculdade e arrumar um bom emprego. Era totalmente incongruente com a realidade do que a vida pode significar
                    As pessoas após um tempo de reflexão percebi eu, estavam vivendo uma realidade que não era a delas, mas sim uma realidade que foi projetada. A medida em que eu pensava sobre os aspectos que a levaram a tal decisão percebi que elas simplesmente reproduziam o que viam em filmes, livros de uma péssima literatura e logicamente como qualquer brasileiro comum o que os famosos passavam como uma vida justa, tranquila e repleta de felicidades. Sinto muito em dizer que isso não se trata da vida, nem mesmo se trata de um rastro do que seja ela em sua essência. A vida é nossa única viajem, a viajem que devemos entender nossos propósitos e nossas necessidades como pessoas que podem ter tudo e se sentirem legitimamente pessoas com vidas vagas e sem um sentido, ou podemos ter poucas coisas numa visão geral do mundo mas com a satisfação de sentir que não lhes falta algo, pois o vazio cósmico do qual muitos declaram ter não faz parte de sua vida, mas sua própria história faz parte de uma história de vida digna da qual viveu, ou ainda termos ter em um sentido material, financeiro e mesmo assim ainda entender que isso pode fazer parte de você, mas não de uma vida cuja essência tem muito mais a oferecer do que propriamente o dinheiro e bens materiais. Acreditem quando digo que mesmo com todas nossas falhas e sendo naturalmente corrompidos tão facilmente, existe um sentido para sermos dignos de uma vida da qual nos abstemos de todas as coisas tão facilmente conquistadas num sentido contemporâneo, do que muitas vezes pode ser uma mera ilusão da qual passamos tanto tempo de nossa vidas tentando conquistar, porém não se trata daquilo que é inerente a cada ser humano em sua singularidade, a sua vocação, aquilo que nascemos para cumprir, nosso propósito. Se em algum momento de sua vida passou por sua cabeça que as coisas da qual tem lutado tanto para conquistar não estão fazendo o mínimo sentido, suspeite que isso se trata de uma pequena centelha daquilo que seu espírito tem clamado por toda uma história deturpada pela contemporaneidade.
                   Em um momento decisivo de minha vida, encontrei um grande amigo me aconselhou em muito aspectos, se tratava de alguém com grande fé e me lembro claramente de um momento em que ele me aconselhou sobre questões de relacionamentos que podem ser para um vida toda, se tratando especificamente de casamento. E ele me contou sobre experiências de vida com outras pessoas a qual aconselhou e relatou também sobre como as coisas desde quando ele era jovem tinham mudado, principalmente em relação a sociedade em um processo de decadência contínua. As palavras naquele momento me invadiram de tal forma que me lembro quando disse: “Se quer uma vida abençoada, viva sem reservas!”, pode parecer um tanto leviano, mas repare bem quando ele disse que seria uma vida abençoada, e não apenas uma vida da qual vivemos sem o mínimo de abstinência sobre aspectos que não acrescentam nada ou mesmo ações que levam a uma satisfação momentânea, se trata de uma vida inteira a ser refeita todos os dias, dando o nosso melhor por um presente que constituirá e dará em certo a certeza de um futuro melhor. A contemporaneidade com seus conteúdos manipuladores e maléficos tem matado essa essência de esperança na vida das pessoas. Não estou dizendo que as pessoas tem que parar de fazerem o que gostam, somos humanos e temos nossas satisfações em coisas que são de nossas preferências, porém temos que nos libertar de coisas que não fazem parte de nossa singularidade como pessoas únicas se tratando de um sentido maior que a leviandade, e de renunciar aspectos que não nos levam a lugar algum, apenas nos fazem desejar aquilo que não é feito para nós e que se trata de uma publicidade qualquer ou de um filme romantizado que nos expõe como humanos fracos que somos e seguimos tão fielmente aquilo que nos é posto com um prato atrativo todos os dias. Sinto dizer que se em algum momento achamos que o que vivemos durante todo o decurso de uma vida é decisão apenas nossa, que em algum momento acreditamos estar certos sobre como a nossa vida termina, estamos absurdamente errados sobre o que se trata a vida em seu maior sentido. A vida como anteriormente deixei claro se trata de uma viajem, uma única viagem da qual estamos fadados a trilhar com a certeza de um momento em que teremos de deixar as coisas aqui conquistadas e trilharemos outro caminho. Nossos corações devem estar no sentido maior da vida, tem que estar em algo que não nos decepcione ou mesmo nos faça acreditar em algum momento nos abandonará. Deus se trata do maior sentido da vida, ele é a Fé, o Amor e a Esperança que a humanidade necessita.
  • Coletânea "Futuro? Qual será?"

    Sinopse
    Apresentamos a Coletânea "Futuro? Qual será?". Esta é uma Coletânea de Contos Futuristas, de Ficção Científica ou não, sejam Utópicos ou Distópicos (na "onda" de "O Conto de Aia"), que apontem para uma visão de futuro para a humanidade. A questão é: No que vai dar tudo isso que está acontecendo? Onde vamos desembarcar?
    Essa é nossa vigésima Coletânea e nela o leitor encontrará os 25 melhores Textos (na percepção dos julgadores) dentre 56 inscritos. O tema desta Coletânea foi sugerido por John Dekowes, Cesar Luis Theis, Grégor Marcondes e Rafael Sousa; e escolhido dentre várias sugestões. Como nas coletâneas anteriores, a Capa desta obra desenhada por Leonardo Matoso é a capa escolhida pela maioria dos Autores que se inscreveram para a coletânea, dentre 4 (quatro) inscritas para participar da seleção. Continuamos com nossa política de termos em nossas Obras a participação democrática não só de Escritores, mas também de Designers e Leitores.
    Desejamos uma agradável leitura a todos e até a próxima!
    Autores selecionados para esta coletânea:
    Adnelson Campos
    Alberto Arecchi
    Caliel Alves
    Camuccelli
    Carlos Lopes
    Cesar Luis Theis
    Davi M Gonzales
    Gabriel Soares
    Gilberto Vaz
    Giovane Santos
    Igor Martins Lima
    José Luiz Teixeira da Silva
    Leonardo Matoso
    A. Thompson "M. A. Thompson
    Madson Milhome
    Mario Cesar Santos
    Mauricio Duarte
    Milton Jorge da Silva
    Ricardo Gnecco Falco
    Roberto de Jesus Moretti
    Rodrigo Barradas
    Sergio de Souza Merlo
    Sérgio Macedo Ferreira
    Tauã Lima Verdan Rangel
    Thiago Viana Leite
  • Crack in the Sky

    “Eu me lembro da primeira vez que olhei dentro de um anel. Na mensagem do Whatsapp estava escrito bem assim: ‘O Junior disse que dá pra ver lá da casa dele. Ele tem um telescópio de 60 mm.’ Escrito como se alguém soubesse a importância de ser de 60 milímetros ou não.
    Ok.
    Vamos à casa do Junior.
    Sabe... Quando passou no plantão da globo a primeira vez já deu medo. Todo mundo sabe que se passou lá só pode ser sério. Ninguém falava de outra coisa. Os anéis que surgiram no céu eram o assunto do momento. Mais que Stranger Things, mais que a última temporada de Game of Thrones, mais que vídeos de gatos tocando teclado (isso é famoso ainda?) e mais que The Walking Dead (acho que esse último nem é tão falado mais, não sei. Não sou tão ligado nisso.)
    Cada um tinha sua própria interpretação do que eram os anéis. De verdade? Acho um nome bem idiota! Mas todo mundo chama assim. O Rafael chama de cus do céu. Eu finjo que é babaca, mas por dentro dou risada. Cus do céu é ótimo. Bom nome.
    Então... Quando surgiu o assunto dos anéis a primeira vez todo mundo ficou especulando. Mas não parecia nada de extraordinário. Talvez algum fenômeno meteorológico ou algo parecido. Parecia um anel feito de nuvens. Uma circunferência perfeita, inabalável e impassível. Talvez fosse uma forma embrionária. Eram vários e de vários tamanhos e só. Sem novidade alguma por exatos 7 dias.
    Daí veio o primeiro plantão da globo. Talvez esse tenha sido o evento de comoção global mais abrangente que já existiu. Estava pensando nisso outro dia. O Léo disse que era a copa do mundo e eu até concordei por um segundo. Depois voltei atrás. Eu mesmo não gostava de futebol. Copas não me comoviam. Mas com os anéis não tinha essa de gostar ou não. Eles estavam ali pra quem tivesse olhos que enxergassem e pescoços que inclinassem para trás possibilitando uma visão clara do céu. Acho que a parcela da população mundial que se enquadra nesses requisitos é maior que a parcela que gosta de futebol.
    Enfim... Na TV estavam dizendo que era possível ver o outro lado dos anéis. Alguns eram bem grandes e eu realmente não sei se conseguia enxergar algo. Parecia tudo muito borrado. Mas com toda a certeza não eram halos gasosos ou círculos de nuvem como outrora pensei. Havia algo no meio dos anéis no céu. Lembro que religiosos ficaram em polvorosa e dizeres apocalípticos viraram trending topics no twitter num misto macabro de memes e pessoas verdadeiramente assustadas. Tudo isso durou mais 7 dias.
    Quando veio o segundo plantão houve uma dicotomia emocional. Uma mistura de excitação científica por parte de uma galera mais racional (que andava sumida diante da irracionalidade dos acontecimentos) junto com os mesmos arautos do capeta que bradavam o fim do mundo em coro uníssono. Nos anéis maiores eu realmente consegui ver algumas coisas. Uma graminha, um oceano talvez, umas casinhas.
    Na TV disseram que cada anel mostrava exatamente o que estava acontecendo em outra parte do mundo. Exatamente! Alguns amigos da Universidade não conseguiam conter a adrenalina em posts de facebook e afins. Pipocavam teorias acerca de buracos de minhoca e similares. Foi bem legal! Confesso. Eu tenho agonia de voos longos. Quando apresentaram a possibilidade de uma viagem de 20 horas passar a ter menos da metade porque iriam cortar caminho por um anel assim que mapeassem todos eu realmente fiquei feliz!
    Se eu que sou totalmente ignorante na arte das manjadas saquei que o ciclo de ação desses anéis é de 7 em 7 dias, com certeza isso já havia sido percebido pelo alto escalão que estava pesquisando os anéis.
    Pois bem. De 7 em 7 dias parecia que a nitidez dentro dos anéis aumentava. Começou como um borrão e em 49 dias veio o terceiro plantão na TV. Basicamente alertando para o fato de que os anéis pareciam telas 4k de setenta bilhões de polegadas suspensas por mágica. No meio desse tempo fomos à casa do Júnior pra olhar para os anéis por um telescópio. Era sinistro! Você olhava pra cima, mas parecia que estava olhando pra baixo. Vimos pessoas, casas, florestas, oceanos, montanhas. Tudo! Perfeitamente! Era incrível à noite também, porque os anéis dos locais no mundo onde era dia iluminavam completamente a noite desse lado do mundo! Mas não chegava a parecer dia. Só iluminava muito bem. Um espetáculo visual! Fiquei viajando pensando que se todo mundo tivesse telescópios seria fácil se comunicar em tempo real, daí lembrei que tem a internet.
    De qualquer maneira... Acho que era para ter acontecido um quarto plantão na TV. No sexagésimo quarto dia. Mas nem rolou. Aqui desse lado do mundo estava de noite e, parafraseando o meu amigo Márcio, parece que a terra rachou no meio. Eu nunca ouvi um barulho tão alto. Já faz 6 dias e eu ainda não escuto nada do lado esquerdo. Acredito ter perdido a audição de maneira permanente. Doeu muito e sangrou. Todos os vidros de casa quebraram. A tela das TV’s também. Os vidros dos carros também. Celular, notebook, tudo. Fiquei sabendo que uns 8 cachorros na rua morreram depois. Ta todo mundo bem assustado. Ainda tem luz, mas está bem fraca. Internet não tem mais, nem telefone. A gente tentou ir ao shopping lá na capital, mas a BR tava bloqueada hoje. A mãe do Júnior trabalha na esplanada e disse que liberaram todo mundo no dia depois do barulhão. Ninguém tem contato com ninguém. Nem telefone, nem internet em lugar nenhum lá.
    Depois do barulho vários anéis ficaram negros. Não negros como a noite. Sei lá... Nem como a noite mais escura que já vi. Não sei explicar. Tentei tirar uma foto, mas não funciona. O Rafael disse que jura que viu um pássaro voando perto de um anel que ficou negro e foi chupado pra dentro. Achei que ele tava viajando, mas faz sentido. Porque desde ontem todas as nuvens tão meio que em espiral. Como se os anéis fossem ralos de uma pia e as nuvens a água caindo pra dentro do ralo. Nos anéis que não estão negros tem um monte de coisa. Em muitos tem uma galera junta como se fosse uma manifestação. O Junior disse que olhou pelo telescópio um anel e tinha muita gente com placas com KONIEC SWIATA bem grande nelas. Ele anotou pra procurar quando a internet voltar.
    Faltam uns 2 minutos pra chegar o próximo sétimo dia.
    Vou só comer e volto a escrever aqui. Eu não como já faz uns...”
    Fim.
  • Cyber Athena I

    Em um futuro totalmente distópico, uma expedição à lua trouxe consigo uma vírus tecnorgânico, esse vírus ficou conhecida como cybe. O governo dos Estados Unidos começou a estudar o vírus e fazer testes em humanos.

    Quando o vírus entrava em contato com o corpo humano, ele se fundia com as células, dando uma propriedade bastante interessante. As células danificadas do corpo, eram regeneradas fazendo nascer novos membros altamente tecnológico, o governo americano viu aí uma grande oportunidade, criando assim um nova leva de super-soldados. Então eles deram início ao projeto Cybers.

    Os Cybers de primeira geração, eram pessoas sem braços, paraplégico, sem pernas, pessoas que tiveram morte cerebral... Isso porque o vírus entra em contato  com todo o sistema nervoso do seu hospedeiro, trabalhando em conjunto com o cérebro, os membros regenerados altamente tecnológico, se transforma em qualquer coisa que o hospedeiro pensasse, em armas, escudos espadas, qualquer coisa.

    Os Cybers de segunda geração, já tinha o vírus mais evoluído, a onde a reação do vírus era mais rápida do que o próprio sistema nervoso do seu hospedeiro. Antes mesmos de pensar o vírus ja se adaptava no que era preciso. Durante o período de pesquisa da terceira geração de Cybers, uma guerra estourou, entre os Estados Unidos é a Coreia do norte. Os Estados Unidos tinha a oportunidade de usar pela primeira vez seus Cybers.

    Durante a guerra, a terceira geração de Cybers foi desenvolvida, mas desta vez o vírus não afetava só o sistema nervoso mas todo o cérebro. Agora os Cybers tenham força, velocidade, um fator de cura ligeiramente rápida. O hospedeiro mal sentia dor ,porque as células se regeneram rápido de mais. Toda essa tecnologia e poder dos Cybers  deu aos Estudantes Unidos a vitória. Mas, metade do globo foi destruído, devastado com essa guerra.

    De um lado tinha os Cybers criados para serem armas de guerra e do outro bombas não núcleo com um poder imenso de destruição, o mundo que conhecíamosnao não era mais o mesmo. Depois da guerra os pais que sobraram foi, Inglaterra, Japão e Estados Unidos; após vários anos esses países se juntaram e criaram os 3 clãs. O clã ZEUS ( Estados Unidos), o clã HADES (Japão) e o clã POSEIDON (Inglaterra). Dois desses clãs fizeram  um acordo, o acordo de anti-cybers.

    Esse acordo foi feito para caçar todos os Cybers criados na era da guerra, todos os Cybers de primeira, segunda e terceira geração seriam caçados. Então surgiu a união, que tinha como líder um Cyber de primeira geração chamado Hermes.

    ( Continua... )
  • Cyber Athena II

    Hermes ganhou esse nome por causa da sua velocidade no campo de batalha, ele tinha o braço direito todo feito de titânio graças a o vírus, Hermes era musculoso, alto, negro tinha pouco cabelo, seu braço tinha a habilidade de virar uma arma de 120 tiros e uma espada de plasma que cortava tudo, Hermes liderou um grupo de refugiados que fugiam dos ant-cybers ( pessoa que caçavam os Cybers) eles fugiram para o início liga que os aceitavam o clã HADES.
    Anos se passaram e Hermes conheceu uma humana chamada Sayoku. Sayoku uma mulher linda, cabelos longos e negro, tinha a pele clara como neve, olhos verdes e brilhantes, seios fartos e o corpo bem definido.
    Sayoku era super inteligente era formada em biotecnologia e técnica em nano robótica, ela e Hermes se conheceram na capital de Hades, a cidade 236. Sayoku e Hermes logo se apaixonaram e foram morar juntos.
    Durante 10 anos os Cybers viveram no clã HADES em paz, até que em 02 de julho de 2119 em um noite chuvosa, com nuvem escura, um barulho fez com que Hermes se levantasse e desse até  a parte de baixo de seu apartamento, estava escuro - Hermes andava em silêncio, passos leves, Hermes vai até a cozinha e ver no canto da geladeira, uma sombra na forma de um adolescente. Hermes pergunta.
    - Quem está aí ?
    E a forma responde.
    -  Sou eu pai ! Vim pegar um copo de água, vc se assustou pai?
    Hermes meu nervoso e trêmulo por causa do susto, respondeu meu rocu - não filha. termine aí e vá pra cama tá ?
    - Ta bom papai !
    Logo após 5 anos de casado com Sayoku, Hermes teve uma filha chamada Athena. Athena era uma menina linda muito inteligente, tinha a inteligência da mãe, ela tinha o cabelo escuro, uma voz doce e delicada, mas não se engane, Athena tinha a bravura do pai.
    Graças ao vírus que hospedava o seu pia Athena teve a pele mesclada, partes clara como a da mãe e partes negras como a do pai. Sayoku passou os outros 5 anos trabalhando em uma nova tecnologia chamada  Cerberus .
    Essa Tecnologia inventada pelos centro tecnológico do clã HADES, que tinha os melhores cientistas dos 3 clãs e os melhores equipamentos e muito recursos, trabalhavam nessa nova tecnologia que tinha como base o mesmo princípio do cybe. De restaurar células danificadas. Sayoku a cientista chefe, é sabia muito bem como usar essas tecnologias.
    A cidade onde Hermes e Sayoku moravam com sua filha Athena era a cidade 236. a cidade era linda belas luzes de néon, grades outdoor eletrônicos, motéis de inteligência artificial  bares como realidade aumentada, carros voadores e é claro tinha vários Cybers por toda parte.
    Hermes trabalhava como segurança de um bar só dentro de 236, em um bar de realidade aumentada. Nesse bar pessoas vem para curtir e ter um bela noite de amor com belos hologramas. O bar funcionava assim, pessoas escolhiam o seu holograma iam para um cabine, colocam um óculos de realidade virtual e o resto a máquina fazia, tinha uma grande variedade de opções, podia escolher o que quisesse branco, negro, asiático, magro, alto, gordo, homem, mulher...
    Mas a vida de Hermes ia muito bem, ganhava seu dinheiro tinha seu trabalho tudo estava bem.
    Um homem gordo e baixinho foi até Hermes e disse - Ei cara o movimento foi baixado hoje, não foi ?
    - foi mano !
    Hermes meio ansioso, queria ir para casa logo, disse .
    - Senhor Buky, posso sair mais cedo hoje? Porque minha Athena faz 10 anos!
    O homem gordo e baixinho ficou calado, respirou fundo e falou meio bravo - Pode Hermes, mas vai ser descontado do seu salário.
    - Está bom senhor buk !
    Hermes saiu apressado do trabalho, queria chegar logo em casa, ao chegar deu um grande abraço em sua menininha.
    - Minha garota está com 10 anos tá Ficando velha em ?
    - Oi amor, você trouxe o bolo ?
    - Sim Say, o preferido dela, de chocolate branco né ? Eu nunca iria esquecer !
    A família Hermes fizeram uma festa linda, mas a vida continua. No dia seguinte Hermes foi para o bar logo cedo, ele tinha que recuperar as horas que perdeu na noite passada. Logo ao chegar ele viu uma dupla de caras, um musculoso e o outro magrelo e alto... Hermes já ficou preocupado, foi direto para seu posto e ficou observando a dupla
    Outro homem chegou no bar, dessa vez o homem tinha uma marca no pescoço ele tinha um C é um  número, os Cybers de primeira geração tinha sua numeração de 0 a 5000, mas o número do homem que entrou no bar era 5008 era um ant-cybers.
    Os ant-cybers tinha uma letra é um número perto da orelha, quando Hermes viu aquele número ficou muito aflito e nervoso, mas a numeração que estava no pescoço de Hermes era bem visível assim como em todos os Cybers .
    Os Cybers quando eram feitos tinha seu pescoço marcado e seu cabelo cortado, não importava se eram mulheres ou homem, mas todos tinham essa número, a de Hermes era Z-2870.
    Hermes saiu rápido do bar pela porta dos fundos e se escondeu no bar do lado, Hermes sabia que não podia da pista que ele era um Cyber, porque isso colocaria sua caminhada em perigo, então pedia ao dono do bar ao lado para ficar lá escondido.

    (Continua...)
  • Em volta da Terra

    Já estamos há um mês na Estação Internacional. Flutuamos há mais de 350 quilômetros de altitude e todo dia damos quinze voltas em torno da Terra. Os primeiros dias foram de uma empolgação muito grande com a missão, mas hoje sinto que já estou cansada de estar aqui e ainda restam dois meses inteiros pela frente. Eu quero voltar para casa. Meu marido e meu filho devem estar cansados de só falarem e verem-me por monitores de vídeo. Sinto saudade deles, do meu cachorro Spock, das minhas samambaias. Como eles estão se atando sem mim?
    Somos cinco astronautas vivendo apertados aqui e submetidos a uma rotina entediante. Duas horas de exercícios diários para evitar atrofia muscular e problemas de calcificação, checar uma infinidade de instrumentos, coletar e organizar dados e mais dados. Mas tudo isso dá para encarar. O pior mesmo é na hora de dormir, já que dormimos em sacos apertados ou quando usamos o vaso sanitário e temos que nos amarrar a ele senão saímos flutuando... ah que saudade da minha cama espaçosa e do meu banheiro!
    A Terra vista do espaço é bela. Sempre é um espetáculo maravilhoso para os sentidos. Estamos na sétima volta sobre a Terra. Sobrevoávamos a costa da África quando o inusitado aconteceu: as luzes sumiram. O continente africano estava às escuras. Enquanto nossa órbita progredia observamos que não há um único ponto de luz sobre a face da terra.
     - Ei, gente!! Vocês estão vendo isso? – Falo isso aproximando bem meu rosto da janela da estação.
    - Que merda está ocorrendo? As luzes das cidades sumiram! – Um surpreso astronauta alemão, responsável pelas pesquisas de fisiologia em microgravidade, falava com sua voz grave.
    Todos nós corremos, ou melhor, flutuamos para a mesa de comunicações. Tentamos estabelecer contato com o comando da missão. Tentamos contato com diversas estações rastreadoras e nenhum sinal de resposta.  Acessamos as estações de televisão e de rádio. Abrimos a rede mundial de computadores e nada. Tudo em silêncio. O que será que houve? Todos querem falar ao mesmo tempo e ninguém se entende. Um clima de medo temperado com surpresa e desespero instala-se em nós.
    Já estamos na décima quinta volta sobre a Terra e em todos os continentes percebemos que as luzes dos grandes aglomerados urbanos sumiram. A Europa é sempre muito iluminada, a costa leste americana se destaca em contraste com outras regiões do globo. Mas tudo sumiu. Tudo o que nós vimos é um planeta sem luzes. Será que houve um misterioso blecaute mundial? Uma espécie de pulso eletromagnético que desligou tudo lá embaixo?
    Um dia passou-se após aquilo que, agora, chamamos de Evento. Estamos em mais uma volta sobre o planeta e até agora tudo permanece na mesma. Estamos em silêncio. Não sabemos o que aconteceu. Passado o primeiro momento de alarme, percebemos que o contorno dos continentes está alterado, a América do Sul está mais próxima da costa da África e o continente norte-americano está ligado a Europa e a Ásia, vemos também que não existe mais América Central. Tudo mudou lá embaixo. Percebemos que o contorno dos continentes está muito diferente daquele que nos acostumamos a ver desde crianças nos primeiros mapas escolares
    Nosso especialista em astronomia teve a ideia de checar a posição das estrelas em relação a Terra e descobriu que elas não estão batendo com os dados que tínhamos até então. Algumas estrelas estão mais próximas e outras mais longes. Pedimos ao computador que fizesse uma projeção de tempo tomando por base a posição da Terra e do Sistema solar atualmente e a que tínhamos antes do Evento acontecer. A resposta é assustadora: a posição da Terra agora está 135 milhões de anos no passado em relação a sua posição antes do Evento.
    Todos os dias voltamos nossos olhos para a Terra. Ficamos olhando em nossos computadores filmes e imagens da vida na Terra antes do Evento. Perdemos o interesse pelas pesquisas que conduzíamos. Lá embaixo não há ninguém para falar conosco. Ninguém virá resgatar-nos. Quem cuidará da minha família, de Spock e das samambaias agora?
  • Entrevista com Erick Alves e Nayara Nunes – editores do Grupo Sem Tinta

    1- Como e onde surgiu a ideia do grupo Sem Tinta?
    R - A ideia para o grupo foi algo que cresceu de acordo com nossa experiência no mundo editorial. A vontade maior era colocar em prática todas as ideias que tínhamos enquanto prestávamos serviço para outras editoras e autores independentes. Às vezes, passávamos horas conversando sobre como seria legal ter um ou outro livro sobre um tema que gostávamos, que sentíamos falta. Foi só uma questão de tempo para que todos esses projetos ganhassem força para saírem do papel.
    2- Como vocês definem o atual mercado editorial do Brasil?
    R - A instabilidade atual do país, seja pela política ou pela crise editorial, torna a questão bem delicada. Entretanto, uma coisa parece ser certa: é um tempo de mudança e renovação do modelo de trabalho que era/é usado. As formas de publicação e lançamento de um livro se tornam cada vez mais variadas, isso abre um grande número de possibilidades. A questão é saber experimentar, trabalhar e aprender com a resposta dos leitores. Confiamos que, mesmo abalado, o mercado vai se estabelecer e continuar crescendo de livro em livro.
    3- Como a crise editorial afeta as pequenas editoras e plataformas de publicação alternativas?
    R - Das mais diversas formas. Porém, gostamos de pensar que, no geral, a crise trará um processo de renovação no mercado. Há uma oportunidade para as pequenas e médias editoras ganharem uma visibilidade maior em toda essa jornada de estabelecimento de um novo modelo de mercado.
    4- Quais as possibilidades que a internet pode oferecer a vocês?
    R - Basicamente, sem a internet seria quase impossível de sobrevivermos como editora. Uma vez que não estamos no eixo Rio de Janeiro/São Paulo, todo nosso trabalho é realizado de modo online. O mar de possibilidades para se trabalhar na internet é imenso. Assim, conseguimos ficar mais próximos dos autores e leitores, recebendo as sugestões, trabalhando as ideias e propostas e tentando chegar em um resultado esperado por eles.
    5- O que a grupo Sem Tinta trará de novo aos leitores brasileiros?
    R - Tentamos abordar temas únicos, assuntos novos ou que possam se desdobrar do que os leitores querem. Coletâneas de textos que desafiem quem vá escrevê-los e que surpreenda os que irão lê-los. Tudo isso, é claro, em uma edição que possa deixar sua estante ainda mais charmosa.
    6- Muitas editoras no Brasil apostam na publicação de coletâneas em cooperação com os autores, esse seria um modelo proposto pelo Sem Tinta?
    R - Com certeza! As antologias e coletâneas de contos abrem portas para novos escritores e novas ideias. As antologias são um ótimo lugar para se ter uma visão diferenciada da literatura, saindo dos padrões do gênero e conhecendo novas formas de contar histórias.
    7- Como se originou a antologia Cyberlife e quais os objetivos com esta publicação?
    R - A antologia surgiu da ideia de pensar no futuro. Deixar um pouco as grades naves espaciais e raios lasers de lado e pensar nas possibilidades de vida. Mas, principalmente, na individualidade que pode haver nessas vidas.
    8- Como é a relação de vocês com os escritores?
    R - Bem próxima. Por trabalharmos bastante com antologias, sempre estamos próximos dos nossos autores com grupos de Facebook, Whatsapp e pelo Instagram.
    9 – Quais os projetos para o futuro que o Grupo Sem Tinta tem em vista?
    R  - No momento, estamos trabalhando na antologia Nas Mãos da Morte, que traz um conjunto de textos que narra os momentos finais de diversos protagonistas e a visão única de cada um deles diante da morte. Também estamos lançando Rathla, uma novela de dark fantasy que tenta sair um pouco do clichê dos grandes épicos fantásticos e que tem um foco mais investigativo. Mas nosso trabalho mais atual é a antologia Taverna Bode Mágico, que está recebendo textos de High Fantasy para os amantes do bom e velho RPG medieval.
    10 – Qual recado você gostaria de deixar para os leitores?
    R – Algo bem básico, mas que gostamos de dizer por aqui: leia sempre! Siga no seu ritmo de leitura e leia o quanto puder, só não pare de conhecer novas histórias.
  • Explorar é preciso! Viver? Nem tanto...

    Admito, tenho uma compulsão por livros. Mas ler é o único vício que nunca vai te dar prejuízo nenhum. A perda monetária será acrescida em ganhos culturais e conhecimento, seja ele científico ou não. Às vezes, saciar uma curiosidade é mais do que suficiente para se ter minutos de prazer. O desconhecido é a coisa mais sedutora do mundo. Descobrir é um ato de coragem, mas também de busca pelo prazer.
                Quando passei na livraria buscando uma light novel de volume único, e não a encontrei, senti um comichão nas mãos. Me recusei a voltar para casa de mãos vazias. Tinha colocado em mente que deveria me dar um presente na semana do meu aniversário. Quando já estava quase desistindo (devido aos preços e os mangás estarem em números muito adiantados para começar a colecionar), me deparei com Ultramarine Magmell.
                Já tinha ouvido e lido sobre esse título em alguns blogs e sites como o Biblioteca Brasileira de Mangás e o Intoxianime, que são blogs que acompanho e recomendo para quem quer se manter informado sobre cultura otaku no país. Eu até tinha feito uma promessa de não comprar mangás estrangeiros e só ler material nacional, que diga-se de passagem, está num nível de qualidade excepcional ultimamente.
                Se você nunca leu a Revista Action Hiken do Estúdio Armon, ou os seus compilados como Oxente, Hooligan, Sing, Tengu e Demons Hunter, você está perdendo muito. Assim como perde aqueles que não leem os mangás nacionais da Editora JBC, Editora Draco e Editora Jambô. Se fosse para citar todos os títulos que estão sendo publicados pelo Catarse, eu teria que fazer um artigo só sobre isso. É muita opção!
                Mas o hype de Ultramarine Magmell tava tão alto que não resiste e comprei. Isso não é um pecado. O mangá é de origem chinesa, e se você acha que mangá e anime só existe no Japão e na Coreia do Sul, você está desatualizado. O mangá do sino Din Nianmiao foi publicado pela Fanfan Comic, é muito recente, conta só com 8 volumes, mas já possui um anime com 13 episódios, que já está disponível na Netflix.
                Minhas impressões sobre o mangá são as melhores possíveis. Ele tem como inspiração mangás de exploração como HunterxHunter. Nesse tipo de obra, personagens saem pelo mundo explorando lugares, territórios perigosos e desconhecidos. Só que aqui a fórmula ganha um novo conceito: o de resgate. O protagonista, Inyo, não é um explorador, mas sim um angler, o responsável pelo resgate de exploradores.
                Talvez tenha adiantado um pouco as coisas, mas não é tão difícil de entender. Há 35 anos atrás, um continente novo surgiu no oceano, seu nome, Magmell, a Terra Sagrada. O lugar é imenso, e tem toda uma riqueza de flora, fauna e minérios totalmente novos e com potenciais quase ilimitados. Além disso, eles têm habitantes nativos, que só dão as caras lá no fim do volume 1.
                O Inyo trabalha numa empresa chamada Drift, e tem como assistente a Zero, uma menina supersimpática e inteligente. O volume tem como meta apresentar os protagonistas e um pouco do funcionamento desse novo mundo, inexplorado e perigoso ao extremo. Relação entre os protagonistas é muito boa. Eu achei acertada a decisão do autor de trabalhar com um núcleo pequeno e desenvolvê-los.
                É um shonen, sim, mas com suas peculiaridades. Há temas adultos sendo tratados aqui. Há história do cliente que desejava resgatar o irmão em Magmell é mais do que emocionante, nos provoca muitas reflexões. O que acontece em Magmell é mais do que uma exploração, é uma colonização global onde empresas e Estados diversos estão lá por interesses próprios, mexendo em todo um ecossistema de forma predatória.
                Como num mangá desse tipo, que privilegia a aventura e o mistério, a ação não ocorre desenfreada, ela tem um papel maior aqui. O título tem muita informação, mas devido ao contexto, elas acabam fazendo sentido e parte da trama, nada é jogado do nada, nem torna a leitura cansativa. O caracter design é muito legal, o cenário, o uso de texturas, e os monstros são bem desenhados. Se você gostar de easter eggs, se ligue nos quadros.
                No começo, achei que a história seguiria uma fórmula padrão num cenário limitado, mas quando avançamos uns três capítulos, entendi que não havia limite de enredos possíveis aqui. Magmell é muito grande, e a quantidade de conflitos que podem surgir sobre e por ela é muito extenso. Os yerin foram uma ótima surpresa. As cenas de ação são frenéticas e surpreendem pela dinâmica.
                Os protagonistas parecem possuir algum tipo de habilidade especial chamado Lacto, uma energia escura que se molda de diversas formas. Inyo e Zero são usuários dessa habilidade, os chamados Racters. O autor não explicou muito bem como ela surge, não tem nem sequer uma nota de rodapé traduzindo os termos que originalmente estão em inglês. O bom do mangá é que não temos os desnecessários pronomes japoneses!
                Eu recomendo o mangá por ser curto, de qualidade e está sendo publicado pela Panini Editora. Só espero que a publicação seja regular e siga até o final com preço justo. O mangá custa R$ 22,90, não tem páginas coloridas, orelhas ou quaisquer páginas extras. O freetalk do autor está no verso da capa. O verso da contracapa tem uma ilustração exclusiva. De bom veio um marcador de página exclusivo. Leitura recomendada.
  • Financiamento coletivo – 10º símbolo

    A internet democratizou a publicação e o acesso à cultura de modo geral. Esse é o seu lado mais positivo. Artistas independentes puderam se expressar. O Catarse, com a proposta de financiamento coletivo veio só a contribuir com isso. Possibilitou a capitação de recursos e a distribuição de muitas obras. Dentre as que estão em financiamento coletivo atualmente, apresento a vocês o mangá nacional 10º símbolo.
              No futuro, na segunda metade do século XXI, conflitos levaram a humanidade a viver em cenários pós-apocalípticos. Novas espécies surgiram. Genocídios varreram 3/4 da população mundial. Aumentando ainda mais as mazelas dos seres humanos, uma força externa subjugou o planeta. As sombras rastejam nas esquinas do caos. Ruínas de cidades inóspitas, é impossível distinguir amigo de inimigo.
              As lendas, antes esquecidas nas areias do tempo acabaram por reviver um sentimento que ninguém mais conhecia: a esperança. Os Clãs dos 10 Símbolos, guardiões-guerreiros que apreenderam a usar os poderes que emana da criação, ainda estão na Terra. Nessa jornada, vamos acompanhar o jovem guardião-guerreiro Jono-zo-el Rai-Ohei, Joe para os íntimos. Ele ainda desconhece seu potencial. Mas os seus inimigos sim.
              É um mangá de distopia, com fantasia e aventura na medida certa. O traço apresenta muita qualidade, bom trabalho de retículas e hachuras, sem contar o sombreamento impecável. O mangá lembra muito as obras oitentistas, uma bela homenagem a obras dos anos 80 como Hokuto no ken e Jojo Bizarre Adventure. O autor já declarou que a obra terá 60 páginas e será lançada como trilogia. Futuramente serão lançados spin-offs acrescentando mais elementos e desenvolvendo personagens da série.
              O financiamento coletivo vai durar até 17 de março de 2021. São dez recompensas diferentes, com preços muito acessíveis. Todas elas já com correio incluso. A campanha está na modalidade Flex, ou seja, independentemente do valor arrecadado, você receberá sua recompensa. São várias formas de pagamento, como boleto e cartão, e ainda você pode parcelar.
              O autor dessa magnífica obra é o Alexandre Soares Ribeiro, morador de Urubici -SC. O cara tem muito amor pelo que faz, já fazia seus primeiros rabiscos com três anos de idade. Graduado em comunicação, tem 10 anos de experiência voltada para propaganda e comunicação visual. Desde os vinte anos ilustra profissionalmente. Publicou seu primeiro fanzines com 16 anos de idade. Esse é o tipo de artista que me esforço em ajudar. Ajude como puder, inclusive, divulgando.
    Para mais informações, acesse:
  • Fractal

    images
    Uma nova explosão de energia surge na borda exterior do universo, iluminando-o com cores brilhantes de vermelho, azul e amarelo. Eu observo a criação de uma nova galáxia da escotilha recém-consertada da minha nave enquanto começo mais um turno de reparos no tecido do espaço-tempo. “Uma xícara de café quentinho é a melhor maneira de começar mais um dia solitário nas fronteiras do espaço conhecido”, é o que dizia meu pai.
    Meu trabalho não é dos melhores, costurar tecido de realidade é um serviço tão aquém do que eu realmente gostaria de fazer, que era explorar as zonas externas, mas é o que sobrou para um dos cinco últimos fractais do universo desde que a praga alcançou minha civilização. Penso que não deveria estar aqui porque não sou o mais inteligente dos fractais... minhas notas na academia eram péssimas e de longe eu teria que me ocupar de uma função importante para os milhares de seres que ocupam o espaço.
    Pi! Pi! Pi!
    O bip do alerta de segurança apita, imagino que ainda preciso verificar as condições do tecido residual que se soltou quando um ser interdimensional tentou rasgá-lo ontem. Que droga! Essas criaturas tiram minha paz. Digito o velho código e...! O computador de bordo liga fazendo uma varredura completa do espaço criando um mapa holográfico que indica pontos probabilísticos de um incidente ou outro. Um deles faz a cor do mapa ficar vermelha, é a localização da zona morta da borda interna, um espaço de confinamento para o planeta Fractal, meu lar.
    Imagino que Solafta deveria estar responsável por esse setor. Será que somos apenas quatro agora? Não é possível, ela é uma das veteranas que restaram da colônia de Júpiter no quadrante da Via Láctea. Bem, de qualquer forma só poderei ficar em paz com o alerta se verificar a causa dele.
    – Computador, ligar propulsores para hipersalto, seguir coordenadas da nave de Solafta. Destino: planeta Fractal!
    Minha nave range com a propulsão dos motores de matéria escura. Parece que a carcaça da velha Gideon não vai aguentar muitos saltos pelas realidades. Por isso é melhor reduzir os ciclos para 109. Dessa forma não correrei o risco da minha nave se desintegrar na reentrada da realidade. O computador de abordo anuncia com sua voz mecânica que o salto está pronto e aguardando pelo meu comando.
    – Hipersalto liberado!
    A nave se desloca a 300 mil quilômetros por segundo antes de perfurar o tecido da realidade. Na dimensão de passagem, há apenas um borrão de cores, estou viajando entre as eras espaciais. O rangido da estrutura aumenta consideravelmente. O salto durará 45 segundos, tempo suficiente para que alguns parasitas de matéria corram atrás da nave. Computador, ligue o campo de energia. Eu não quero que nosso combustível acabe no meio da viagem. Os parasitas são um perigo para qualquer viajante do espaço. As esguias criaturas deslizam pelos propulsores, e com aquelas ventosas eles consomem toda matéria que serve de combustível. Quando pequeno, meu pai ficou preso na dimensão de passagem porque sua nave foi infestada de parasitas.
    Perigo! Perigo!
    – O que houve computador?
    Choque iminente! Perigo! Perigo!
    Como esqueci disso, eu não liguei o simulador de colisões hoje. Que droga! Qual a chance de impacto, computador?
    85% - 90% - 95% - 100%!
    Boom!
    O borrão da dimensão de passagem dá lugar a uma infinidade de pedaços de metal retorcido e fios.
    – Computador, qual a situação?
    Realizando varredura... pós-choque!
    Computador inútil, isso eu sei. Abro a escotilha da janela da sala de navegação. Lá fora há uma nave partida ao meio. Centenas de seus pedaços flutuam pelo espaço. Não há planeta próximo, sequer há sinal de galáxia. Como é possível que haja outra raça que viagem entre as bordas? Seria Solafta? Computador, faça uma varredura.
    Procurando forma de vida... confirmado!
    O alerta da Gideon soa outra vez. O velho pi, pi irritante. Qual o diagnóstico, computador?
    Forma de vida baseada em caborno...
    Respiração celular...
    Risco iminente de vida.
    Não acredito que pus a vida de alguém em risco. Computador, envie a direção para meu traje de costura.
    A interface holográfica mostra uma ampulheta girando com a seguinte mensagem abaixo:
    Enviando dados...
    10% - 20 % - 30% - 40% - 50% - 60% - 70% - 80% - 90% - 100%
    Upload completo.
    Saio da sala de navegação e corro para o compartimento de exploração. Passo por um corredor interminável de tubos de resfriamento. A Gideon é uma nave industrial, não é nada confortável morar nela. Entro no vestiário com os trajes pendurados. Coloco primeiro o capacete inteligente, verifico se todas as conexões com a Gideon estão funcionando. Tudo certo. Coloco o resto do traje, um tipo de tecido sintético escuro. Minha roupa foi desenhada para suportar o frio das bordas do espaço. Estou pronto. Sigo para a saída. Abrir escotilha, computador.
    A nave range e algumas luzes piscam, será que houve baixa de combustível? Dou um salto e... pronto. Estou flutuando no espaço. Olho no visor do capacete a trajetória até achar a forma de vida. A coisa está atrás de uma pilha flutuante de destroços. Vou me aproximando e desvencilhando de obstáculos. Sinto que estou suando por causa disso, o que irei encontrar, afinal? Quando me desconcentro um pouco, um pedaço de carcaça vem em minha direção. Sinto o metal bater nas minhas costas. Sou empurrado com o impacto.
    Meu traje avisa que estou fora da rota. Uso minhas mãos para girar em torno do objeto que me acertou e volto a flutuar tranquilamente. O visor do capacete mostra que estou a 50 m – 45 m – 30 m – 25 m – 20 m – 15 m – 10 m – 5 m – 1 m – cheguei.
    Um corpo humanoide flutua preso a uma poltrona ejetada da nave destruída. Aproximo-me e solto seu cinto. A cadeira daquele astronauta segue flutuando pelo espaço. Amarro seu corpo em volta do meu e retorno para minha nave pedindo para que o computador prepare a sala médica. O retorno é relativamente tranquilo, consigo reduzir minha atenção dos destroços. A escotilha da Gideon se abre lentamente, posso vê-la.
    O capacete redondo e o traje branco não são conhecidos do meu catálogo de raças exploradoras. Sem perda de tempo eu sigo para a sala médica. Os equipamentos de suporte à vida estão ligados conforme minha ordem ao computador. Ponho o corpo sobre a mesa, preciso remover seu traje. Retiro o capacete do visitante. Não é possível! Fico assustado com o que vejo: uma humana de cabelos castanhos desmaiada. Pego minha lanterna médica e abro um dos seus olhos. Sua posição revirada indica inconsciência por trauma físico.
    Pi! Pi! Pi!
    – Droga! O que foi, computador? Essa joça não responde nada direito.
    Pi! Pi! Pi! Alerta, alerta.
    Informe o ocorrido, computador. Sem resposta, preciso voltar à sala de navegação. Deixo a humana na sala médica e volto correndo para a sala de navegação. As luzes da nave passam de brancas para vermelhas. A voz mecânica do computador avisa que a Gideon entrará em modo de segurança. O que poderia estar acontecendo?
    Chego na sala de navegação e começo a digitar comandos no painel de controle. O computador abre sua interface holográfica, o pi, pi do alerta de segurança é ensurdecedor àquela altura. A escotilha da janela vai abrindo lentamente. Dou de cara com algo estarrecedor, lá fora, o tecido do espaço-tempo está se desfazendo como papel em chamas. É possível ver galáxias sendo puxadas pelo vácuo do exterior. Computador, qual o diagnóstico?
    Rasgo do tecido do espaço-tempo irreversível.
    Impossível! Eu saí apenas por alguns instantes. Sento em minha cadeira que por anos testemunhou meu trabalho ininterrupto e curvado apoio minha cabeça sobre minhas mãos para pensar.
    O computador de bordo avisa com sua chata voz mecânica: alerta de intruso! Alerta de intruso!
    Dou um salto da cadeira e observo a humana passando pela porta, ela chega perto de mim e em sua língua primitiva, diz:
    – Desculpe-me pelo o que aconteceu.
    Relaxo os ombros e a convido para perto de mim. Ela caminha lentamente enquanto a Gideon dá solavancos. Nos viramos para a janela e, amedrontados pelo o que estamos vendo, choramos silenciosamente juntos pela morte do espaço.
  • Hinderman - Capítulo 1

    Capítulo 1

    “Zumbis”.

    A maioria das pessoas a ouvir esta palavra imagina seres humanoides semi-esverdeados, andando de forma bizarra e vagarosa, com a língua de fora, à procura de carne ou cérebro humano para satisfazer a sua fome.

    Antes de começar eu quero apagar um pouco esta imagem da sua cabeça. Os “zumbis”, ou também chamados “ghouls” em sua forma antiga de nomenclatura, não diferem muito de um humano normal. É claro, o nome que lhes foi dado é baseado na imagem caricata atribuída ao significado original da palavra. E isto se deve ao fato de haver uma semelhança vital entre o real e o imaginário: o fato de que eles realmente se alimentam de carne humana. Entretanto não da forma desenfreada com que a maioria das pessoas acreditam. Eles comem muito menos que um ser humano por dia. Na realidade não é incomum um zumbi chegar a ingerir pedaços de comida de verdade (verduras, cafezinho, etc.) de modo a tentar esconder sua identidade e fazer apenas uma boquinha de carniça de noite, quando todos dormem. Contudo quando um zumbi come comida no lugar de carne humana ele não está se alimentando; é como se fosse um ser humano comendo madeira ou pedaços de papel. Se ele continuar assim irá ficar cada vez com mais fome e terá que se alimentar de verdade eventualmente para saciar-se.

    Se a alimentação é a semelhança vital entre a lenda e a realidade, a diferença vital seria a forma de propagação. Na lenda urbana quem for mordido por um zumbi será transformado em outro zumbi e assim sucessivamente até a chegar a um estágio incontrolável da epidemia. Normalmente atribui-se o primeiro nascimento a um vírus ou algo do tipo, em algumas crenças há uma cura para o vírus, em outras não.

    Contudo, na realidade a razão pela qual um zumbi nasce é atualmente desconhecida. Tudo o que se sabe é que acontece em algum ponto entre a morte do corpo humano e sua decomposição. Às vezes leva algumas horas, às vezes leva alguns dias, mas antes que a carne esteja totalmente decomposta, um ser humano pode simplesmente ressurgir como zumbi. Cientistas têm tentado traçar perfis e fazer relações familiares, tabelas de raças, elevar características de propensão, porém tudo sem sucesso. Tudo leva a crer que acontece simplesmente de forma aleatória. Uma solução definitiva seria manter todo corpo morto em estado de vigilância até o final da sua decomposição, para ver se ele se tornaria zumbi ou não. No entanto, devido à baixíssima taxa de acontecimento, somado ao fato de que o governo não quer reconhecer publicamente a existência do ser sobrenatural, prefere-se evitar o gasto desnecessário e manter tal existência em segredo.

    Após o nascimento, ou melhor; o renascimento, apesar de ter o mesmo corpo do humano morto, o zumbi agora é um ser totalmente diferente. Existem raros casos de vaga lembrança da vida humana, mas acontece pouquíssimas vezes e em escala muito pequena. Porém devo admitir que o ser renascido se desenvolve mentalmente muito mais rápido que o ser humano. Ele consegue facilmente identificar que os humanos que o cercam são diferentes e detectam o desprezo pela diferença quase que de imediato, o que os leva a rapidamente tentar esconder-se entre os humanos para evitar a perseguição. Seria isto o que eles dizem que é o instinto? Talvez uma característica que foi passada com o tempo, como uma forma de evolução, uma tentativa de se adaptar ao ambiente? Misturar-se à sociedade sem ser detectado? Nada se sabe. Sobre a natureza e a biologia do zumbi, nada se sabe. E para dizer bem a verdade, não é o foco desta história.

    Embora estes seres se assemelhem muito com o ser humano, há algumas formas clássicas de detectá-los entre nós. A primeira seria pelo hábito alimentar, obviamente. Não se pode negar que algo há de muito estranho entre comer um ser humano, de modo que avistando algo que aparenta ser uma pessoa comendo outra, o melhor a se fazer é clamar pelas autoridades, independente de se o predador é de fato um zumbi ou não.

    A segunda forma seria pelo olfato. Por surgirem da decomposição humana eles têm um cheiro intrínseco de corpo decomposto, alguns mais, outros menos, aparentemente variando de acordo com o tempo necessário para sua ressurreição. Um zumbi pode tentar disfarçar seu cheiro usando colônias e perfumes, mas se você estiver morando com um, dificilmente não perceberá a diferença quando este tiver acabado de sair do banho, por exemplo.

    A Terceira forma seria aproveitar o fato de que eles não se lembram da sua vida humana. Se alguém que o viu durante a vida tentar instigar memórias de quando aquele corpo era o de um ser humano não obterá resposta satisfatória. Ainda mais fácil será a identificação se a pessoa sabe que o dono daquele corpo já deveria estar morto para começo de conversa, já que humanos não simplesmente voltam à vida e saem andando por aí após sua morte.

    A vantagem de um zumbi sobre um ser humano é que eles são naturalmente mais fortes. Aliás, são mais fisicamente fortes do que todos os outros animais conhecidos.

    Para matar um zumbi tudo o que você precisa fazer é matá-lo uma segunda vez. Apenas uma ferida letal, como se estivesse matando um ser humano. É muito difícil a doença, vírus, ou seja lá qual for a razão de sua nascença se manifestar de novo no mesmo corpo. Para dizer a verdade, creio que até hoje houve apenas dois casos registrados de que um deles voltou à vida uma segunda vez, e nenhum caso de que voltou a terceira. Então basicamente uma vez morto, o zumbi está morto para valer. No final das contas a condição de zumbi é como se fosse uma reencarnação, uma segunda vida, e nada muito mais do que isto. A única diferença é a fome, o físico e o fedor de podre.

    Apenas algumas pessoas sabem disso então, por favor, não saia contando: mas o fato é que existe uma divisão de polícia especializada em casos de assassinatos relacionados a estes seres fantásticos. O propósito da existência desta divisão deve ser prezado em segredo, visto que se viesse à tona revelaria a própria existência destas criaturas, assustando a população. Eu comento sobre os zumbis porque os casos destes são uma das coisas com as quais devemos lidar nesta divisão. O nosso trabalho não apenas é o de capturar zumbis (visto que eles são criminosos aos olhos da sociedade, por causa de seu hábito alimentar), mas também prezar por deixar sua existência desconhecida, afinal não queremos preocupar os civis com monstros querendo devorá-los perambulando por aí. Por isso quando há casos em que há alguma ação por parte da nossa divisão, estes geralmente seguem com um longo dia mentindo/negociando com jornais locais para tentar explicar os acontecimentos ocorridos no dia anterior de forma publicável. Este é o trabalho da divisão de casos especiais, ou DCAE.

    Falando em jornais locais, em Sproustown existe uma espécie de acordo entre o jornal diário e o DCAE onde eles atrasam o lançamento das notícias que podem ter alguma relação com estes casos especiais para que possamos investigar livremente e verificar se realmente há alguma conexão ou não com algo de natureza paranormal antes de tornar os acontecimentos públicos. É o que estava acontecendo ali naquela tarde, no meu escritório do DCAE.

    “O dono da loja reportou às 12:11. A câmera captou o que parecia ser um roubo impossível, enquanto o dono da loja estava cuidando do estoque. Características do suspeito: trinta e muitos anos, caucasiano, cerca de dois e dez de altura, tatuagem reconhecível em seu ombro esquerdo. O suspeito chegou e quebrou o vidro ao lado da porta, apanhou grande parte do conteúdo com suas mãos nuas, sem se dar o trabalho de acobertar as digitais e escapou com o conteúdo no meio tempo entre o dono ouvir o estilhaço e o tempo de ele se locomover entre a sala do estoque e a loja. As razões de suspeita de ser um caso especial destinado ao DCAE são: o fato de que o vidro era temperado, aguentando até quatro marteladas, e mesmo assim foi quebrado a mãos nuas e também o fato de que o tempo entre o golpe no vidro e a escapada, totalizaram vinte e dois segundos. O dono da loja, Steven Wolf, reportou ter apenas visto as costas do suspeito correndo rua afora após sua chegada na parte frontal da loja. Os guardas locais foram avisados porém não conseguiram pegar o suspeito a tempo.” - É o relato.

    A pessoa que estava de pé do outro lado de minha mesa, lendo o relato de forma impassível, vestindo um casaquinho preto impecável enquanto cutucava seus óculos de lente grossa se chamava Emma Crane. Era a minha secretária, ou melhor, a secretária do DCAE, e quem havia recebido o relato do assalto naquela tarde de terça-feira.

     - Vinte e dois segundos… - Balbuciei. - E sem a ajuda de nenhum instrumento, hm? Agora sim este parece um caso.

    Eu estava sentado na minha cadeira giratória grande de rodinhas, levantando a parte da frente da mesma do chão enquanto fumava um cigarro, como que de costume.

     - Ele devia estar com pressa.

     - A delegacia de roubos recebeu o relatório quando? Há umas Três horas atrás?

     - Parece que sim.

     - E o sujeito não foi identificado até então?

     - Não.

     - Eles tiraram as digitais?

     - Tiraram. E disseram que iam enviar ao DCAE quando estivessem terminadas.

     - Está bem, obrigado. – Obrigado era o código para Crane se retirar da sala e me deixar em paz. Não me leve a mal, eu gosto do meu pessoal, mas minha cabeça trabalha melhor quando eles não estão parados na minha frente, ou o que é pior: perambulando.

     Creio que esqueci de me apresentar. Eu sou o tenente Henry Dotson, ou só Dotson (ou às vezes só tenente) do departamento de casos especiais, e dos que vêm regularmente (isto é, presencialmente) ao trabalho eu sou o segundo cargo mais alto. Como eu já disse, lidar com zumbis é uma das especialidades do DCAE e parte de meu trabalho, e como você já deve ter adivinhado, o incidente daquela tarde estava relacionado a um desses seres horrorosos. Até porque eu tive todo o trabalho de começar com uma introdução à natureza da sua espécie.

     O DCAE de Sproustown consistia basicamente da capitã, de mim, da secretária, Joey (o detetive) e também do detetive Cole Chapman que é mais uma espécie de agente secreto pelo qual eu não ponho minha mão no fogo de forma alguma. É claro, há muito mais suporte de pessoal, mas os que investigam e têm capacidade para lidar com os casos mais difíceis são basicamente esses. E sim, a secretária Emma Crane, dos óculos e do casaquinho está inclusa.

     Eu levei mais uns minutos para terminar meu cigarro e depois chamei o Joey e contei a ele a situação.

    Contrastando com meu físico preparado e arduamente merecido, aquele que parecia ser um garoto de dezessete anos, magro e para as mulheres, provavelmente bonito, era o meu parceiro em trabalho: Joey Meyers. Como tenente eu posso chamar qualquer um para me ajudar quando vou à cena, mas em geral eu chamo o Joey e deixo para Crane lidar com o Chapman.

    Mais tarde naquela manhã nós dois descemos até o local do crime, a joalheria “Club Jewel”, no centro de Sproustown. Havíamos saído da central para conversar com o tal Steven Wolf, o dono da loja e também cidadão que fez o relato.

    Uma vez no local do crime ouvimos basicamente a mesma história de novo, exceto que da boca de Wolf. Apesar de ele tê-la contado para a divisão de furtos não parecia particularmente exausto por sua repetição.

    A cena toda estava interditada. Eu me aproximei do vidro quebrado para checar o dano causado ao vidro com o golpe. Foi um direto de direita, limpando uns cinco centímetros de grossura de vidro temperado de alta qualidade. E pensar que uma joalheriazinha daquelas protege os produtos com vidro desse tipo...

     - Isso foi feito com socos, você disse. Com socos no plural ou com apenas um soco?

     - Foi um só soco, senhor. Ele pegou e bum! – Wolf imitou o gesto com a mão. – E pá! Estava quebrado.

     - A câmera captou tudo, acredito?

     - Sim senhor, eu enviei o filme para a polícia mais cedo, o senhor deve ter visto...

     Ausentei-me de explicar que a divisão de furtos e o DCAE não são a mesma coisa. Ao invés disto apenas confirmei com um aceno de cabeça. Depois fizemos mais algumas perguntas de rotina, mas quanto mais eu via aquela cena mais a ideia que eu tive inicialmente fazia sentido na minha cabeça: tinha que ser um trabalho de zumbi.

    Quero deixar isto claro desde o princípio, lidar com seres canibais ressurretos não é nem de longe a única função do DCAE. A bem da verdade zumbis são apenas uma dentre dez categorias distintas conhecidas de seres ameaçadores da humanidade e que são mantidos desconhecidos pelo trabalho de nosso departamento. Então embora eu tenha começado com aquela longa introdução sobre o renascimento após a decomposição da carne, não havia nada em particular que ditasse que era realmente com um zumbi que estávamos lidando naquela tarde. Entretanto existe algo que se chama experiência que se pode utilizar nessas horas. O Joey vai insistir que o que eu direi pode ser considerado preconceito de espécie, mas sim: eu associo a burrice com o zumbi. E não há nada aparentemente mais retardado do que no meio da tarde aparecer numa joalheriazinha meia boca, quebrar o vidro com a força bruta e roubar o conteúdo. O que é isso? Um ser paranormal quer chamar a atenção da polícia para ser caçado? “Olhe para mim, eu existo.” “Eu sou um zumbi.” Foi a impressão que eu tive desde que Crane leu o relato na minha frente. E eu não disse nada em voz alta para o Joey porque ele ia inventar uma discussão sobre como eu estava sendo tendencioso quanto ao comentário sobre a espécie dos zumbis, mas foi porque eu adiantava que seria um ser deste tipo que eu já havia colocado os cachorros no carro quando viemos até o Club Jewel.

    Os cachorros são realmente úteis. O perfume e o desodorante podem enganar o olfato humano, mas o cheiro de decomposição será perseguido pelos cães até os confins da terra. Com o auxílio deles os zumbis não podem escapar da polícia.

    Minha última pergunta para Wolf foi de natureza retórica:

     -Você não chegou a sentir nenhum odor quando ele saiu, sr. Wolf?

     - Odor? Hmm agora que você diz… - Wolf ia dizer alguma coisa, mas Joey tinha chegado do carro com um dos cachorros. Wolf ficou meio sem jeito ao ver os cães adentrando a loja, mas acabou cedendo. O farejador conseguiu captar alguma coisa no vidro.

    - Haha! Bingo, tenente! – Disse Joey e começou a segui-lo.

    Não tem por que duas pessoas seguirem os cachorros, então eu acendi um cigarro e fiquei esperando encostado ao carro, até Joey me contatar por meio de uma ligação. Não importa para onde o suspeito tenha corrido ou o quão longe ele esteja, como seu fedor vem do estado de decomposição de um corpo e não de algo temporário como suor ou qualquer outra coisa do tipo, ele nunca some. Se meu palpite estivesse certo Joey alcançaria o alvo mais cedo ou mais tarde.

    Cachorros são maravilhosos.

    Contudo parece que o suspeito havia corrido um bocado após ter conseguido as joias porque o cachorro só parou muito depois e em um lugar muito distante. Não é que fosse um local isolado ou abandonado, pelo contrário, era no meio de Marshmoore, que era uma área movimentada. Mas digo longe no sentido de que Marshmoore ficava muito longe do Club Jewel, o que faz o assalto ainda mais esquisito. O que um zumbi ganharia roubando aquela loja em particular? Por que não escolheu uma mais perto de onde se escondia? E se planejava ir tão longe por que foi a pé? Se tivesse ido de carro era capaz de o cachorro não ter conseguido farejá-lo... Como eu disse: burrice igual a zumbi.

    Joey me ligou passando o endereço e eu alcancei-o de carro. Descemos em um lugar menos movimentado, um beco, e como era quase perto da hora do fim de serviço da maioria dos estabelecimentos locais já não havia quase ninguém na rua. Havia só uma pessoa. Ou melhor, um resto de pessoa. Era um homem de cerca de quarenta anos, ou pelo menos a metade da frente dele: as costas haviam sido arrancadas por alguma coisa, como se um animal gigantesco tivesse mordido e arrancado um pedaço. Havia também sangue espalhado por toda a parte. Respingos de jatos jorrados na parede, uma poça concentrada na calçada, um rastro vermelho mais vivo escorrendo pelo meio fio até ser drenada pelo ralo... Ele estava deitado com o resto das costas para cima, deixando exposto que sua coluna tinha um pedaço do meio faltando, como se tivesse sido arrancada junto com a mordida. Parte de sua carne vazava para fora do lugar, esparramando-se sobre sua lateral.

    Com tanta carne faltando e tanto vermelho sangue compondo aquela imagem grotesca, não preciso dizer que aquele homem estava morto.

    E esta era a prova definitiva de que estávamos lidando com um zumbi. Já não se tratava mais de especulação.

     - O que foi isso...?

     - Um zumbi... Você estava certo... Eles se alimentam de... – Joey não terminou a frase.

     - É... Eu sei...

    Mesmo assim... Esses ataques nunca deixam de surpreender.

     - Uau. Tem sangue escorrendo até o bueiro... Parece que pintaram o chão de vermelho. E olhe esses bichos pousando nele... Que nojento. – Joey tocou em um deles levemente.

     -...

     Até nós precisamos de um momento para digerir a situação. Basicamente Joey tinha razão: parecia que tinham pintado o chão de vermelho. A imagem sugeria que alguém atacou o sujeito pelas costas, ele se debateu enquanto era devorado na área da calçada coberta de sangue, e após certo tempo caiu e se arrastou até o meio fio, vindo a perecer provavelmente por falta de sangue.

    A parte ruim de nosso trabalho era ter que presenciar esse tipo de coisa.

     - Os cães acharam mais alguma coisa? – Perguntei após colocar a cabeça no lugar.

     - O cheiro pára aqui, mas parecia que eles queriam entrar – Joey apontou com a cabeça para um estabelecimento fechado com uma porta de ferro, a qual provavelmente ligava ao segundo andar do pequeno prédio de dois andares. Um dos cachorros estava parado olhando para nós e o outro ainda farejava uns respingos de sangue perto da porta. Joey comentou:

     - É incrível que ninguém tenha passado por aqui, quer dizer... Normalmente já deveria ter uma multidão aqui em volta.

     - Você chamou ajuda?

     - Chamei o pessoal da perícia e uma viatura do hospital para eles levarem o corpo embora. Eles devem chegar daqui a pouco. O que vamos fazer? Vamos entrar?

     Entrar era a ideia correta, mas deveria ser pensada com cuidado. Se o suspeito estivesse lá seria perigoso. Mais correto seria entrar após o reforço chegar, mas algo dentro de mim me dizia que o suspeito não teria ficado parado esperando dentro do prédio após cometer o assassinato, então havia noventa e nove por cento de chance de ele já não estar lá dentro, o que reduzia o perigo a zero. Decidi que entraríamos para averiguar o local.

    Uma escadaria subia até o segundo andar do estabelecimento fechado, que dava para um corredor com duas portas: Cada uma delas parecia ser a porta de uma residência, de forma que havia duas moradias: provavelmente uma delas era alugada e outra era do dono do estabelecimento. Pela precariedade da condição era o tipo de dono que deixava qualquer um ser o locatário, então provavelmente se o dono fosse interrogado ele diria que não sabia de nada e nem ouviu nada. Empurramos a porta da moradia alugada à força – e tínhamos força – de modo que ela cedeu.

    O interior estava uma bagunça: diversas coisas atiradas no chão, desde utensílios de cozinha até meias, roupas de baixo e diversos objetos de porte pequeno que poderiam ser guardados em gavetas ou separadas em caixas de forma organizada.

     - Parece meu quarto – Disse calmamente Joey em tom normal, mas eu já o conhecia o suficiente para separar a ironia da realidade.

     O lugar todo consistia de um cômodo grande logo na frente e havia uma separação apenas para um corredor que tinha duas portas: uma para um quarto e uma para um banheiro, o restante era aglomerado no grande cômodo principal: havia um espaço para o sofá, o televisor e as demais coisas da sala, e depois tanto a cozinha como a mesa de jantar ficavam à direita, pouco mais adiante, mas sem separação. A mesa da cozinha estava tombada, o que explicava porque havia tantos objetos de cozinha no meio da bagunça. Todos aqueles objetos deviam estar primariamente sobre a mesa. Outros objetos haviam sido revirados: O armário debaixo do televisor tinha todas as gavetas escancaradas e vazias e havia um buraco na tv.

    Fui até o quarto. Como eu imaginava tudo havia sido revirado lá também. As roupas de cama no chão. As gavetas do armário abertas. As peças de roupa de dentro do armário jogadas por toda a parte. A janela estava aberta. Passando os olhos pelo local dava a impressão que alguém tinha entrado, procurado alguma coisa de modo frenético e logo depois que encontrado tinha pulado a janela. Olhei pela janela afora e vi que ela dava para um pátio onde os moradores estacionavam os carros, e atrás do mesmo podia-se enxergar a rua de trás.

     - Aqui também está tudo bagunçado... – Joey entrara no recinto observando o óbvio. – O que acha? Ele pulou a janela?

     - É o que dá a entender. Quer trazer o cachorro para ele dar uma cheirada aqui nesse quarto?

     - Ok.

     Mas seja lá como for, o suspeito havia se livrado do cheiro. Os cães paravam de sentir o odor naquele quarto e depois não encontravam mais nada. Farejavam o parapeito da janela e depois ficavam me olhando como que se procurando uma explicação.

     - Ele deve ter pegado um veículo. – Eu disse – Assim o cheiro ficaria dentro do veículo e não poderia ser detectado.

     - Ele tinha um veículo na rua de trás, então? Ou será que ele roubou um?

     - De qualquer forma o locador deve saber reconhecer algum veículo que sumiu. Vamos ter uma conversa com ele.

     Ouvimos um barulho do lado de fora.

     - O pessoal deve ter chegado. – Comentou Joey.

    Após a chegada do carro da ambulância e dos peritos, o trabalho naquele local ficou mais com eles do que com nós investigadores do DCAE. Até porque não havia mais muito que pudéssemos fazer. Eu e Joey saímos dali e fomos ter uma conversa pessoal com o dono daquele estabelecimento, que morava na casa ao lado da que arrombamos. O dono era baixo, careca (quase) e gordo. Tinha um bigode preto e não aparentava muita confiança. Ele ficou parado em frente à porta durante todo o pequeno interrogatório.

     - Sim? – Iniciou ele após abrir a porta em resposta a nossas batidas. Mostrei meu distintivo.

     - Tenente Dotson e Detetive Meyers, o senhor poderia nos dar um tempo para algumas perguntas?

     - Sim...? – Ele tornou a fazer em tom pouca coisa mais hesitante.

     - É sobre seu locatário... Ele é atualmente suspeito de um roubo e um assassinato...

     - Oh. – Ele não parecia necessariamente muito surpreso.

     - Pode nos contar alguma coisa sobre ele?

     - Eu... Não sei muito sobre ele... Ele alugou o local há apenas dois dias, sabe... Ele não tinha um histórico muito favorável se me entende... Disse que havia acabado de ser liberado da prisão ou algo assim, mas para falar a verdade não me importei muito então deixei ele ficar... Eu não pensei que ele estivesse... Em alguma atividade desse tipo.

     - Entendo...  O senhor deu falta de um Prestige 2010 de cor cinza? – Inventei uma marca de carro qualquer. Joey estava apenas olhando os arredores enquanto eu fazia as perguntas.

     - Prestige? Eu...? Não... Não senhor...

    Ele estava excessivamente cauteloso então meu instinto me dizia que ele e o suspeito poderiam ou estar trabalhando juntos ou ele poderia estar o acobertando. É claro, era apenas uma possibilidade. Eu tinha mencionado um carro aleatório para ver se ele comentava vagamente a marca de seu carro quando a resposta fosse negativa, como por exemplo “Prestigie? Ah não, meu carro é da marca x...”. Sem saber do que se tratava poderia deixar escapar tal informação, porém se eu tivesse perguntado diretamente a marca de seu carro e se ele realmente trabalhasse junto com o suspeito então ele mentiria. Mas aparentemente minha tática não tinha dado certo.

     - Um Prestige sumiu após bater no carro que estava lá na frente – Minha última deixa para ele achar que estava envolvido com o caso de alguma maneira e esboçar alguma reação.

     - Eu não possuo carro, senhor... Estou pensando em pegar um, mas...

     Então não houve reação...

     - Entendo... E o locatário possuía algum? – No fim, a contragosto, tive que formular a pergunta de maneira direta. Se eles realmente estivessem juntos a resposta seria negativa de qualquer modo.

     - Não, senhor. Ele não tinha veículo algum também.

     Dito...

    Tivemos apenas mais um pouco de conversa que não trouxe resultado algum. Perguntei se ele ouvira algum barulho, se escutara o suspeito chegar e depois pedimos para ele o fichário de locação do suspeito e fomos embora.

    No caminho, Joey estava olhando para o papel confiscado com as informações sobre o sujeito.

     - Acha que ele estava escondendo alguma coisa? – Perguntei a Joey enquanto ele examinava a ficha.

     - Não... Parecia naturalmente abalado com a notícia repentina, então é natural que não fale muito.

     - Ele parecia estar me evitando...

     - Devia ser o fedor do seu cigarro, tenente. Até eu tive que desviar a cabeça. – Joey sempre desferia aquele tipo de comentário impertinente de forma casual e inexpressiva. Ele começou a murmurar enquanto examinava a ficha do locatário:

     - Jeffrey Sprohic. Quarenta e dois, dois metros e sete de altura. Aparentemente ele é ex-detento de Silverbay. Estava procurando emprego após sua pena. Ou pelo menos é o que disse no documento. Tem o número da identidade dele aqui. Vou mandar para o DCAE.

     - Faça isso. E depois vamos ter que esperar. Não tem mais nada que possamos fazer – Disse enquanto jogava meu cigarro no chão e amassava-o com o sapato. Estávamos agora na rua da frente onde os peritos estavam analisando a cena sanguinária. A multidão de curiosos que antecipamos outrora agora estava presente em dobro, todos aglomerados separados pela faixa amarela dando um trabalho insuportável para o pessoal do suporte. Estralei meu pescoço e prossegui:

     - A perícia vai ver se acha alguma pista, os legistas vão chamar a família do corpo para fazer o reconhecimento e nós não conseguimos nenhum carro para seguir e o cheiro do cachorro sumiu... O melhor a fazer é ir para a casa.

     - Já está anoitecendo mesmo. – Joey respondeu enquanto olhava o céu. Já estávamos há muito fazendo hora extra. Aquele incidente tomara muito de nosso tempo devido à distância que Joey teve de percorrer a pé.

     Os curiosos quase que forçavam a faixa para ver o que havia acontecido. Quanto mais sangue, mais curiosos atraía. Eu odiaria ter que ser o pessoal do suporte.

    Depois daquilo fomos para a casa. Isto é, Joey foi para a dele e eu para a minha.

    A pessoa pequena que estava parada em minha frente usava ainda uma camisola não porque fosse dormir cedo, mas porque provavelmente não a tirava desde de manhã. Era ainda jovem, embora rugas e olheiras houvessem se apossado de seu rosto. Era ruiva e tinha longos cabelos encaracolados contrastando com a brancura de sua pele. Era anemicamente magra. A típica mulher que se vê que um dia já fora bastante atraente, mas que agora era um mero fantasma do que costumava ser.

    - Henry? Onde você estava? Sabe que horas são? Te esperei o ano inteiro e você não chegava nunca.

     Tirei meu casaco e joguei-o no sofá ao lado da porta.

     - Eu tive trabalho extra...

    - Você faz hora extra todo dia. Todo o santo dia! Eu ia preparar alguma coisa, mas você provavelmente já comeu fora.

     - Já... – Menti.

    - Está vendo? Você sempre come fora. Sempre chega tarde. Você nunca mais está aqui! Aposto que está saindo com mais uma amiga sua. Que nem da outra vez.

    A nova moda de Jane era arranjar uma amiga imaginária para mim e inventar que eu a visitava, sempre que eu estava em serviço ou em outro lugar.

    - Jane... Teve um caso de emergência... – Disse com uma virada de olhos enquanto ia em direção à geladeira, para ver se tinha alguma coisa que pudesse beber.

     - E custava ligar!? Eu por outro lado liguei que nem uma louca e você não atendeu. Por que você deixa o celular desligado? Se fosse apenas trabalho você atendia!

     Deixei escapar um suspiro enquanto fui até a geladeira e alcancei a última garrafa de cerveja que estava quase vazia.

    - Não sei por que você nunca fala comigo! Você me deixa no escuro. Você me deixa no escuro para que você possa...

    Jane parou seu argumento quando me viu bebendo direto da garrafa. Ela detestava que ele bebesse em casa, sem nenhum motivo específico.

     - O que você está fazendo? Isso é hora de comemorar alguma coisa?

    Dei de ombros, e prossegui. Ela ficou sem reação por um instante.

     - Você... Tudo bem. Me ignore. Beba sozinho! – Disse ela com uma desafinada amarga na voz. Ela apagou a luz da copa e voltou para o quarto.

    Eu nem gosto de cerveja.

    Mas é uma ótima maneira de fazê-la terminar sua recepção amorosa e ir para o quarto.

     Após sua saída olhei fixamente para o sofá. O sofá era o lugar onde eu estava dormindo ultimamente. Todos meus pertences ficavam jogados em volta do sofá para ficar mais prático de pegá-los porque ela não gosta que eu entre no quarto de manhã. Somado à bagunça da cozinha e ao fato de que a luz frontal estava queimada passando uma impressão de precariedade, me veio à tona uma cena familiar que eu havia presenciado àquela tarde. Me lembrei da piada que Joey havia feito mais cedo.

     “Parece o meu quarto.”

     Ele havia dito isso quando entrou na casa que havia sido revirada antes de o suspeito fugir. Mas ele provavelmente não imaginaria que aquela frase se encaixaria perfeitamente na descrição do meu quarto, ou melhor, ao sofá da sala onde eu passava minhas noites.

    Não pude deixar de esboçar um sorriso.

    Esta garota adorável é minha esposa: Jane Dotson. Lógico, ela nem sempre foi assim. Ninguém a aguentaria se ela fosse sempre assim. Mudanças de comportamento são feitas com o tempo, e são criadas a partir de interações com as outras pessoas. O que me diz que eu devo ter errado em algum lugar. É verdade que eu não falava muito com Jane há muito tempo. Eu nunca cheguei a dizer para ela sobre o DCAE ou até mesmo sobre os zumbis. Ela acha que eu sou um policial convencional. Para dizer a verdade não consigo conversar com ela coisa alguma, pois como você vê, não há espaço para conversa.

    O correto seria arrumar a cozinha pelo menos e também organizar minhas coisas para que eu pudesse ao menos ter uma noite decente. Mas eu estava cansado... Quem se importa com a bagunça?

    Tirei minha roupa ali mesmo e sem ao menos tomar um banho me deitei.

    Às vezes me deparo pensando em meu estado. Se há dez anos atrás você me dissesse que eu estaria detestando a hora de voltar para casa e mais empolgado com a hora de voltar ao trabalho eu diria que você enlouqueceu. Mas se minhas noites significavam aquilo agora eu não tinha por que ansiá-las mais. Talvez eu realmente devesse realmente começar a frequentar os bares e chegar mais tarde como Jane diz...

    “Jeffrey Sprohic” ex-detento da vizinha Silverbay. Sua casa estava bagunçada do mesmo jeito, mas ele provavelmente não morava lá. Ele devia tê-la apenas alugado para se esconder de alguma coisa... Talvez para esconder alguma coisa. Ele deve estar dormindo em algum hotel com suíte agora... Nem mesmo o pior dos criminosos deve dormir em local parecido com esse ninho abominável de objetos aleatórios esparramados...

    Naquele escuro minha mente começou a transitar de mim para Jeffrey Sprohic. Desesperado para fugir da polícia. Imaginei um ser de dois metros fedendo a carniça bagunçando as coisas e procurando não sei o quê e depois fugindo pela janela. Pudera, a polícia convencional estava atrás dele e depois também o DCAE...

    “Mas antes de procurar e fugir pela janela com a pressa que estou, vou parar para fazer uma boquinha. Rapidinho vou comer um sujeito na frente da minha própria porta e só depois vou continuar a fuga. Não demoro nem dez minutos...”

    Um pensamento irônico, mas algo que eu só havia me ocorrido agora. Aquela ação não fazia sentido algum. Mesmo para um zumbi.

    O suspeito saiu correndo desde a Club Jewel até aquele beco remoto onde tinha alugado, com as joias na mão e a polícia correndo atrás. A polícia afirma tê-lo perdido de vista, mas ele continuou correndo até Marshmoore. Um ser mais esperto faria de tudo para se esconder em algum lugar, no entanto ele decidiu ir diretamente para o local onde morava. O que indica que ele optou por correr ao invés de se esconder.

    Se queria correr, teve antes que passar em seu recinto original e pegar alguma coisa que fosse de valor para ele para só então sair dali. A desvantagem de deixar seu odor em Marshmoore é que agora o DCAE conhece sua identidade por causa do contrato com o locatário, no entanto ganha da desvantagem que teria se tivesse se escondido ao invés de fugido: a polícia provavelmente já o teria encontrado por causa dos cachorros.

    Existe um ponto que pode ser atribuído à burrice ou à inexperiência aqui: o fato de ele ter fugido a pé ao invés de assaltado um veículo. Se ele é um zumbi que nasceu recentemente e não está ciente que pode ser detectado através do cheiro, isso pareceria uma escolha natural, pois ele pensaria que chamaria menos atenção do que com um carro roubado. Ele pensou que despistaria todos policiais convencionais (e aliás conseguiu) e viria para seu esconderijo sem esperar ser encontrado. Se esperasse ser encontrado através do cheiro teria usado um carro ao invés de ido a pé. Então ele não esperava, e era realmente um zumbi recém-nascido. Adicionalmente o fato de que o apartamento estava revirado e a janela aberta indicam que ele estava com pressa por algum motivo.

    E se ele estava com pressa ele não teria parado para se alimentar.

    Zumbis podem ficar até três dias sem se alimentar e sem passar fome, não são como os humanos que não aguentam segurar nem oito horas. Se estivesse realmente com pressa teria deixado a vítima para depois. Ele estava morrendo de fome? Não comia há semanas? Impossível... Se fosse o caso teria atacado o próprio dono da joalheria que estava sozinho no estoque. Se o x da questão fosse sua fome ele teria tomado o cuidado de não atacar ninguém em frente à sua moradia.

    O fato de ter preferido fugir a pé para tentar despistar a polícia pode ser atribuído à burrice intrínseca do zumbi, mas a vítima não pode ser atribuída a nenhum nível de burrice. O fato de ele ter feito uma vítima na frente do apartamento alugado tem que significar alguma coisa. Se ele estava com pressa porque fez uma refeição ali na frente com o pouco tempo que tinha?

    Parei para pensar quando um zumbi faria deliberadamente uma vítima em frente ao lugar onde se mora? Quando planeja-se sair de tal lugar e nunca voltar? Até por isso ele pegou os pertences que lhe importavam, pois já estava planejando deixar aquele local de qualquer maneira.

    É claro... Sprohic nunca pensou em ficar em Sproustown! Ele alugou o local apenas até conseguir as joias e pensava em sair logo em seguida. Já que ele planejava sair da cidade após roubar as joias não tem por que não se alimentar aqui. Pelo contrário, fazendo assim ele ficaria livre para ficar mais três dias sem fazer um ataque, dando a ele o tempo de se estabelecer em seja lá qual cidade for para a qual planeja se mudar sem chamar atenção para si.

    Pensando com esse enfoque, talvez Sprohic não seja tão desprovido de inteligência quanto o zumbi mediano. Ele devia estar ciente que posteriormente seria identificado pelo cheiro e também que sua identidade seria revelada cedo ou tarde. Por isso não se preocupou em esconder seus dados do locatário quando efetuou a locação. Até mesmo porque um ser humano de mais de dois metros não deixa muito espaço para alternativas, existe uma lista muito pequena de possibilidades, dados falsos teriam sido detectados antes ou depois. Mas ele antecipou que até conseguirmos reunir toda a informação para iniciar a busca ele já estaria muito longe de Sproustown. Isso explica também porque preferiu fugir a pé do que de carro: para despistar a polícia convencional. Sabia que não fugiria do DCAE, no entanto nós só começaríamos a perseguí-lo após algumas horas, e até então ele tinha tempo o suficiente para pegar suas coisas, fazer sua refeição e preparar sua saída.

    Se minha teoria estivesse correta ele deveria roubar algum veículo e partir ainda hoje.

    Levantei de supetão e liguei o mais rápido que pude para a divisão de roubos. Perguntei se havia sido registrado algum roubo de veículo entre as duas últimas horas. Após uma espera eles me disseram:

     - Não houve nenhum roubo de carro registrado hoje, tenente Dotson.

     “Nenhum?” Quer dizer que ninguém deu queixa? Será que houve outra vítima e ele roubou o carro após assassinar mais alguém para que não se prestasse queixa? Mas alguém teria avisado a divisão de homicídios... Poderia ter roubado um carro com o dono dentro? Alguém teria informado um sequestro...

    Fiz algumas ligações pensando em tais possibilidades e após o assassinato no beco parecia que nada mais de anormal tinha acontecido em Sproustown naquele dia. Tive que recompor meu pensamento.

    A esta altura eu já estava sem sono e sem cansaço. Estava sentado na cadeira à mesa de jantar perdido em meus pensamentos. Decidi ligar mais uma vez ao DCAE antes que fosse tarde demais.

     - Divisão de casos especiais, boa noite?

     - Alô? Crane? Ah, que bom. Você ainda está aí. Escute... Preciso que você me faça um favor... Eu preciso conseguir todas as informações sobre carros roubados a partir de agora até amanhã de manhã, então, por favor, avise a divisão de roubos, ok? Diga que tem relação com o caso da joalheria e avise-os para manter o jornal longe disso.

     - Alguma coisa aconteceu?

     - Sprohic vai tentar sair da cidade a qualquer momento...

    Não consegui dormir direito aquela noite. Quando eram cinco e meia da manhã, acordei com um telefonema de Crane. Ela me passou a informação de que dois carros haviam sido roubados.

    Me vesti e corri para a central.

    Quando cheguei, apenas Crane estava lá. Naturalmente parecia cansada. Presumi que ela também deveria ter ficado acordada o tempo todo por causa dos telefonemas.

     - Bom dia, Crane. Sinto muito pelo plantão, mas é que não podemos perder o sujeito. Onde está Joey?

     - Ele ainda não veio, vai esperar? Quer que eu vá junto?

     - Tem alguém mais aí?

     - Um pessoal do suporte já está aí. George, Carl, Jackson... Mas não tem nenhum investigador...

     - Pode ir para casa – disse enquanto acendia meu primeiro cigarro do dia – Você já fez o bastante. Eu vou pedir para o Carl e o George me levarem lá. E o Jackson vai seguir o outro carro. Me diga uma coisa... Os avisos dos roubos... Os relatos... Foram feitos quando?

     - Agora de manhã...

     - Que horas? Precisamente? Foram ambos feitos quase que ao mesmo tempo?

     Crane teve uma hesitação de desconforto. Eu estava excessivamente agitado e naturalmente passava minha agitação àqueles com quem me comunicava. Mas é que eu não queria perder o zumbi de modo algum. Ela pensou um pouco e enfim respondeu:

     - S... Sim. Agora que o mencionou... Aconteceram quase que ao mesmo tempo.

     Apenas franzi o cenho enquanto tragava meu cigarro. Era meu costume franzir quando estava com alguma coisa na cabeça. Às vezes eu falava minha mente para quem quer que seja que estivesse me ouvindo, às vezes eu apenas a guardava para mim mesmo.

    Aquele desgraçado... Era mais esperto do que eu julgava. Tudo desde a fuga a pé e o assassinato deve ter sido premeditado. Para o local do roubo foi escolhido Club Jewel e não uma joalheria perto de sua casa para que pudesse ter tempo de despistar os policiais convencionais. Se eles estivessem perto de sua residência ele corria o risco de ser visto quando estivesse saindo do recinto. Escolheu correr a pé porque seria mais fácil despistá-los sem um veículo de grande porte. Ele sabia que o DCAE o encontraria pelo odor, mas devido ao tempo que levaria entre o relato e nossa ação ele teria tempo o suficiente para matar o homem e então sair da cidade. Escolheu matar aquele homem aqui em Sproustown para que ele pudesse ficar sem causar nenhum rebuliço em seu próximo destino; para que pudesse ter mais três dias sem fome e assim sem chamar atenção.

    A única coisa que me intrigava até então era que ele não escapou da cidade imediatamente e eu não sabia por quê. Mas naquele momento vi que isso devia ter relação com a pressa com a qual ele revistou sua casa antes de pular pela janela. O dinheiro conseguido na joalheria deve ter sido somado com uma quantia que ele já possuía. Deve ter sido um dinheiro que foi juntado para pagar uma dívida aqui. É sabido que em Sproustown existem algumas gangues que trabalham com o tráfico de drogas. Devia ter alguma relação com elas... E isso explicaria por que ele não fugiu ontem ao invés de hoje. Ou ele tinha um compromisso com alguém ontem... Ou ele precisava pagar alguém para quem devia no dia de ontem e por isso teve que conseguir o dinheiro de forma ilegal e precipitada, tendo que também elaborar uma fuga para o dia seguinte... Outra possibilidade seria ele estar trabalhando junto com outra pessoa envolvida com o tráfico e por algum motivo iria esperar esta pessoa para sair de Sproustown junto com ela hoje de manhã. Todas essas razões explicavam a espera até a manhã para a fuga da cidade.

    Levando tudo em consideração é difícil acreditar que o desgraçado tenha decidido roubar um carro qualquer para ser o veículo de sua fuga. Ele devia estar ciente que o DCAE já sabia da situação. Ele devia ter elaborado um plano de escape, e por isso provavelmente organizou dois roubos simultâneos para nos despistar. Com este pensamento em mente que perguntei à Crane se os roubos tinham sido feitos mais ou menos ao mesmo tempo, como que para confundir a polícia sobre sob qual carro deveriam manter a atenção. E parecia ser o caso.

    Difícil pensar que um zumbi como Jeffrey Sprohic teria premeditado todos os detalhes de sua fuga sozinho, e somando o fato de que foi capaz de elaborar dois roubos simultâneos para distração me levou a concluir que ele devia estar trabalhando com ou para mais alguém. E isso me levou a crer ainda mais em sua relação com os distribuidores de drogas ilícitas da cidade.

    Mas aumentar o número de roubos não despistaria a polícia, pois basta dividir o pessoal, cada equipe atrás de um carro roubado. Então já que está sendo tão esperto ele deveria estar mais um passo a frente, o que me levou a conclusão mais provável: Sprohic não planejava sair da cidade de carro, mas de barco. E não apenas um, mas ambos os roubos de carro deviam ser apenas mera distração.

    A partir dali trabalhei com esta hipótese em mente.

    Desci até a garagem e organizei o pessoal. Havia seis soldados madrugueiros disponíveis: Jackson, Carl, Rubens, George, Hick e Mike. Organizei a patrulha em três times: Hick e Mike averiguariam o primeiro roubo relatado, Rubens e Jackson perseguiriam o segundo carro e eu junto com Carl e George iríamos até o porto. Eu não passava muito tempo com o pessoal do suporte, até mesmo porque eles ficam no prédio da frente e raramente temos a oportunidade de trabalharmos juntos em uma excursão. Como não sei muito sobre eles posso descrevê-los por sua característica física: Carl era o negrinho de cabelo curto e George era o mais velho, com cara de caminhoneiro.

     - Até o porto tenente? O senhor acha que...? – Indagou George.

     - É. Até o porto. Relaxe. Eu sei o que estou fazendo.

     E esperava que estivesse mesmo. Mas levando em conta o modo como foram feitos os planejamentos de Sprohic até então, tudo indicava que eu deveria estar certo. A hipótese de relação com os traficantes indicava ainda mais a fuga a barco, visto que traficantes são aqueles que têm dinheiro para manter um barco em Sproustown. Em parte tive esta ideia também porque traficantes têm interesse em seres paranormais como zumbis, mas irei deixar para mais tarde os detalhes da interação entre traficantes e seres sobrenaturais.

     Droga. Se eu tivesse o associado ao tráfico ontem antes de ir embora talvez eu já devesse ter chegado a essas conclusões.

    Estava tão certo de que ele estaria pegando um barco que nem parei para pensar que poderia estar expondo as outras duas duplas ao perigo. Afinal depois que enviei Crane de volta para casa apenas eu era um oficial qualificado para lidar com o zumbi naquele início de manhã.

    Após um longo percurso finalmente chegamos ao porto. Desci do carro pensando em informar-me sobre se algum barco já havia partido temendo profundamente uma resposta afirmativa. Porém, assim que desci do carro ouvi um rebuliço vindo do lado esquerdo do estacionamento. Avistei um aglomerado de gente. Deduzi que eles deveriam ter visto alguma coisa. Entrei em contato com Jackson e Mark. Eles ainda estavam se dirigindo para as rodovias. O plano deles era verificar se os carros roubados atravessavam as rodovias em algum momento e para isso contariam com a ajuda da polícia rodoviária uma vez que chegassem a seu posto.

     - Fiquem aí no carro. Eu vou descer lá e ver o que está acontecendo – Disse eu a George e Carl.

    Caído em meio ao tumulto estava um funcionário do porto. Estava desacordado e sangrando demasiadamente. Havia provavelmente tomado um golpe certeiro na cabeça, que o deixara naquele estado.

    Existem quatro características que eu observo em zumbis. Esta é uma das que mais detesto. Assim que se deparam com alguém que se opõe a eles, usam da violência, pois  acreditam que com sua força exagerada conseguirão o que quer que seja.

     - O que houve? – Perguntei a um senhor que estava do meu lado.

     - Parece que ele estava brigando com um grandalhão. Eles estavam gritando alto aí de repente o grandalhão deu um murro nele e ele caiu.

    As pessoas estavam transtornadas devido a seu estado preocupante. Se perguntavam a toda hora quando que chegaria a ambulância e onde se encontrava o brutamontes que havia feito aquilo.

    Uma segunda característica do zumbi é a mente simples. Se o plano do Sprohic é vir aqui, tomar um barco à força e sair, ele simplesmente virá aqui, tomará um barco e sairá, sem pensar muito sobre o assunto. Afinal de contas ele pensa que qualquer contratempo pode ser resolvido com violência. O fato de que ele realmente recorreu à violência indicava que não havia barco nenhum esperando por ele para começo de conversa, mas indicava que ele planejava roubar um aqui mesmo.

    Que sorte. Se o funcionário havia acabado de ser atacado e se ele não tinha barco disponível quer dizer que ele provavelmente ainda estava por ali em algum lugar. As pessoas devem tê-lo perdido de vista não porque ele correu dali muito rápido, mas provavelmente porque se intimidaram com seus mais de dois metros de altura e não foram atrás.

    E com razão. Aquele ferimento causado com um só golpe não deve ser levado em brincadeira.

    Assim que eu ia começar a procurar o alvo entre os barcos eu ouvi um estardalhaço vindo da viatura. “Não pode ser” pensei. Corri em direção ao carro. Chegando lá ele estava com a frente amassada e Carl perecia ao lado da porta. Ele tinha uma pistola na mão. Havia bastante sangue perto dele, o que me preocupou. Agachei-me e balancei-o pelos ombros. Carl acordou.

     - Carl. Carl. Você está bem?

     Ele estava ferido, porém ainda consciente. Conseguiu me responder em voz baixa:

     - Ele apareceu. É um gigante. Estava correndo em direção àquele barco azul de dois andares. Aí eu peguei a pistola e atirei. – Ele tossiu e sua cabeça caiu devido à tontura.

     - Carl. Se acalme. Onde está o George? Não me diga que ele..?

     - Ele foi atrás... – Huh... Sua voz falhava.

    “Aquele desgraçado... E deve ter feito isso num só golpe também...”

    Como George não estava ali eu tinha que escolher entre chamar reforço ou persegui-lo eu mesmo. Mas eu estava querendo capturar o bandido já fazia algum tempo e ele estava quase fugindo de barco, então protelei o socorro. Fui em direção ao barco recomendado, e percebi uma trilha de sangue deixada pelo caminho. Provavelmente era do próprio Sprohic porque George não o perseguiria sem experiência se estivesse machucado. O que queria dizer que eles deveriam tê-lo acertado com algum dos tiros e ele ainda assim resistia.

    Resistência. É a terceira característica do zumbi. Sua resistência física os permite ficar indiferentes ao que parecem ser os mais graves dos ferimentos, o que evidencia ainda mais sua falta de humanidade.

    Avistei George apontando uma pistola para Sprohic que estava com um ferimento que tinha perfurado sua camiseta, parecendo ter sido feito por uma bala. George usava um calibre 22, e por causa da resistência inerente de sua espécie, Sprohic podia tomar aquelas balas e ainda permanecer de pé. George sem desistir ainda apontava sua arma para o fugitivo, exibindo uma expressão mista entre estarrecida e intimidadora.

     - George...

     - Senhor! As armas não estão fazendo efeito!

     - Largue a arma. Deixe que eu cuido disso.

    George abaixou sua arma e eu apenas me dirigi em direção ao barco me aproximando em passo normal mesmo. Já que o criminoso nem havia iniciado o barco não teria como fugir do local em que estava. Ele estava encurralado.

    Chegando mais perto dava para ver o quanto ele era mais alto que eu. Como trinta centímetros fazem diferença. Eu parecia um filho de dez anos olhando para o pai. Desde tamanho a massa muscular, contraste provocado pela carranca na sua cara careca e posição faustosa, sua figura, devo admitir, era deveras minaz e imponente. Faria qualquer policial convencional mijar nas calças.

    Sprohic deu um risinho de desdém e disse:

     - Vocês policiais continuam aparecendo. Não percebem que suas pistolas não adiantam? – Ele deu uma gargalhada e mostrou as feridas feitas em seu peito: uma bala estava atravessada até menos da metade em um buraco que até fez um sangramento, mas muito menor do que o tamanho que deveria ter sido – Chequem estre corpo! Ele é indestrutível!

    Ele esperou reação temerosa da minha parte. Prossegui andando calmamente até ele. Fez uma careta enfezada.

     - Ok. Parece que vou ter que fazer mais dois cadáveres antes de ir...

     Ele pegou uma caixa pesada de pesca que estava no chão do barco, perto da porta, e começou a correr em minha direção. Fiz sinal para George se afastar.

    A quarta característica típica do zumbi é a confiança total em sua força bruta. Como eu havia dito: se algo não fosse conforme seu plano, Sprohic usaria da violência para fazer a situação voltar ao cenário inicial que estivesse planejado. Foi assim quando atacou o funcionário e provavelmente o que ocorreu quando Carl tinha tentado capturá-lo enquanto eu estava no meio da multidão.

    Caráter violento, raciocínio simples, resistência, força bruta e excesso de confiança. Parece o que faz um vilão típico formidável de uma história em quadrinhos, por exemplo. Ironicamente na vida real dentre a lista de seres potencialmente perigosos do DCAE são as características dos seres candidatos aos mais fáceis de lidar.

    Resistência e força bruta à parte, tudo são desvantagens. O caráter violento faz com que ele deixe pistas o suficiente para ser descoberto durante seus ataques, a mente simples faz com que suas atitudes sejam previsíveis e a confiança o faz preferir uma luta direta ao invés da fuga, todas facilitando o trabalho da polícia.

    Sprohic se aproximou determinadamente e quando suficientemente perto, rodou o braço e me acertou com a caixa de pesca direto na minha cabeça, imaginando que a estilhaçaria em pedaços. Deve ter empregando a mesma força de golpe que deu naquele vidro quebrado da Club Jewel. Seu riso perverso cobriu seu rosto durante todo o impulso até a hora do contato.

    Bam!

    Houve um barulho oco e a caixa se desmontou em mil pedaços, os quais caíram para todos os lados. O próprio Sprohic teve seu corpo jogado para trás com a força do golpe.

    Vou dar um e meio de dez para ele: não foi de todo ruim. Minha cabeça deve ter se inclinado para a direita mais que uns dois centímetros com o impacto. Um pequeno sangramento começou a escorrer por uma de minhas marinas. Com uma mera fungada fiz o sangue parar.

     - Então esse é o golpe que quebrou o vidro de cinco centímetros da joalheria? Nada mal... Parece forte, mesmo.

     - Mas que diabo?

    Sprohic agora tinha uma expressão completamente estarrecida. Não o culpo. É típico de um zumbi recém-nascido imaginar que é o único com propriedades físicas exageradas em comparação com os demais humanos. Não pensaria que existe outro com as mesmas propriedades. Já não podia mais usar a caixa que fora despedaçada quando me acertou.

     - O que...? O que é você? – Ele brandiu e investiu num ataque surpresa, almejando desferir uma sequência de golpes de curto alcance.

    Seus movimentos a meu ver pareciam lentos demais. Desviei sua investida virando meu corpo lateralmente e então quando ele estava perto o suficiente acertei com o joelho em sua barriga, no que ele forçadamente inclinou seu gigantesco corpo de mais de dois metros para a frente. Inclinou-se rápido e exagerado, igual a um verme quando se contorce. Cuspiu sangue com a batida. Quando ele estava na altura certa desferi-lhe uma direita no rosto com que ele veio abruptamente ao chão. Tudo aconteceu em um instante apenas.

    Acendi um cigarro e olhei para seu desgosto. Enquanto podia aguentar os ferimentos superficiais das balas parecia que aqueles golpes compactos tinham feito considerável efeito em seu corpo. Ele franziu o cenho e esforçou-se para levantar. Seu orgulho não o permitiria desistir tão fácil.

    Eu usava meus coturnos de ponta de ferro, parte do uniforme do DCAE, na ocasião. Antes que ele tentasse qualquer coisa chutei-o diretamente em sua face duas vezes. Com aquilo Sprohic finalmente parou de se mexer. Ainda tragando meu cigarro disse a George:

     - Pronto. Traga as algemas do carro. Cuidado, ele é forte. Vai precisar de várias.

     - S... Sim, senhor. – Ele guardou sua arma de fogo e acatou minha ordem. Não proferiu mais uma palavra no caminho de volta.

     Após aquele incidente levamos o suspeito até a central, onde ele ficou preso pelos próximos dias, até a capitã decidir para qual unidade penitenciária seria levado. Os ferimentos de Carl foram tratados imediatamente e felizmente nada de grave havia acontecido. Apesar de o bandido quase ter escapado foi considerado um caso de sucesso de nossa divisão.

     Essa é a história da vida cotidiana de um tenente do DCAE. Dentre as coisas com as quais temos que lidar em nosso trabalho, Jeffrey Sprohic era apenas um peixe pequeno.

  • Hinderman - Capítulo 2

    Capítulo 2

    (    Continuação do capítulo 1. Para ler o capítulo anterior acesse:  )

     - Ah. Como esperado, esse café é o melhor de todos. – Disse o Gary enquanto ele dava o último gole em seu macchiato.
     - É mesmo. - O Boe concordou.
     Nós estávamos no Ivory Beans, na rua principal do Glen Meadow.
    - Quer dizer então que não deu certo, Spike? – O Gary dirigiu-se a mim – O Jeffrey acabou sendo pego?
     - Parece que sim. – Eu respondi. - E ele vai ficar preso um bocado, porque aconteceu um assassinato...
     - Eu ouvi falar do assassinato. Foi em Marshmoore. – O Boe disse enquanto tomava um gole da água com gás que vinha junto do expresso – Fiquei surpreso quando ouvi dizer que ele tinha comido um ser humano justo no dia do trabalho.
     - Muito burro, mesmo. – Observou o Gary.
    Eu me inclinei na cadeira e pus os braços atrás da minha cabeça. Me lembrei do que o chefe tinha me dito sobre o tal do Jeffrey:
     - O chefe disse que queria ele no time. Se ele tivesse conseguido juntar o dinheiro no tempo estabelecido, era capaz que ele se juntasse ao grupo.
     - Está brincando? Se juntar a nós? Ao Spikey-Gary-Boe? Um zumbi desengonçado?
     - É o que ele disse.
     O Gary deu de ombros.
     - Bem... Não sei exatamente o quanto o chefe compreende sobre as habilidades dos mercenários. Devia saber que não é qualquer um com uns Newtons a mais de força no braço que vai conseguir fazer os trabalhos que a gente faz.
     Eu adicionei:
     - E o pior de tudo é que um zumbi recém-nascido como ele não só não sabe o que está fazendo como não sabe nem esconder o poder que tem, também. Roubou o dinheiro de uma joalheria, acredita?
     - Pbbbbt! – Boe cuspiu um gole de seu café e desatou a rir.
     - Parece cômico, mas estou falando sério.
     O Gary fez uma expressão interrogativa, com a mão sobre o queixo e o corpo inclinado para frente. Perguntou:
     - Mas por que será que o Verde pediu para ele devolver o dinheiro? Se ele queria o dinheiro devia ter pedido para a gente...
     - Acho que... Porque foi o irmão dele, sabe, o Alex... Foi o próprio Alex quem perdeu o dinheiro?
     - Mesmo assim. Ninguém nunca tinha recebido uma chance antes. O Verde é bem metódico nessas coisas. Se alguém perde o dinheiro depois do prazo... -Gary passou o dedo sobre a garganta e fez um barulho.
    Éramos o grupo de mercenários: Spikey-Gary-Boe. Nenhum usando seus verdadeiros nomes, óbvio. Meu nome por exemplo não tem nada a ver com Spikey, eu me chamo Ethan Doyle.
    Dos três, o Gary era o mais magro de barba ligeiramente por fazer. Era alegre e presunçoso. Era parecido comigo, com o mesmo corte de cabelo, isto é, curvo em cima e reto nas costeletas, e tinha também cerca de minha idade.
    Já o Boe era o mais encorpado e de cabeça redonda. Também o mais velho e realizado. Tinha uma mulher e um filho quase crescido. Eu não sei por que ele insistia em trabalhar ali.
    E aquele que chamávamos de Verde era o nosso chefe. Não éramos contratados exclusivos de um só empregador, mas apenas acontecia que naquela ocasião estávamos trabalhando sob as ordens dele.
    Acho que eu devo a vocês um panorama da situação que era a atual naquele ano. Serei breve, eu prometo:
    Sproustown sempre foi conhecida por ter diversas gangues, envolvidas com tráfico de drogas. Antigamente era um problema que a polícia civil conseguia dar conta. Isto é, mais ou menos... O tráfico era considerado trabalho deles porque eram apenas gangues relativamente pequenas e inexperientes. Começaram vendendo drogas ilícitas na beira da praça de skate e coisas assim.
    À medida que os empreendedores foram vendo que o negócio funcionava, começaram a se estruturar melhor, e eventualmente os mesmos cabeças, aqueles que tinham ou mais conhecimento ou mais recursos para se esconder devidamente da polícia acabaram ficando com monopólios.
    Como estes monopolizadores eram espertos, qualquer concorrência nova que aparecia era rapidamente dedurada, capturada pela polícia, ou encontrada misteriosamente morta no dia seguinte. No entanto por mais que a polícia trabalhasse para capturar estas mentes por trás destes feitos, sempre acabavam capturando os capangas e meros mercenários, mas nunca chegando na raiz do problema.
    Querem saber a razão principal pela qual eles nunca eram pegos pela polícia? Porque em tudo o que faziam, fosse para organizar seu trabalho: datas de entrega, transporte de mercadoria, acertos de contas, etc... Em tudo o que faziam eles empregavam seres “paranormais”. Como seres paranormais fazem as coisas de maneira diferente com a que os seres humanos estão acostumados, quando as coisas aconteciam, os policiais – que eram também seres humanos – não entendiam como o negócio foi feito, entende?
    Para dar um exemplo: após aquele ataque na Club Jewel que o Jeffrey fez, o jornal não conseguia explicar como o vidro tinha sido quebrado com um murro só. Na manhã seguinte estavam querendo entrevistar o dono da loja, e não acreditavam nele de forma alguma. Não queriam publicar a matéria do jeito que ela realmente aconteceu. Os jornais não acreditam em seres paranormais.
    E estes seres “paranormais” somos nós. Nada temos de tão diferente, somos normais, mas os humanos classificam-nos como paranormais porque não querem aceitar a nossa existência. Eu poderia expor a opinião que tenho sobre isso, mas vou deixar para outra hora. Enfim, um fato que eu não posso negar é que essa falta de consideração facilita o nosso trabalho.
    Desta forma, o panorama atual do esquema de gangues era o seguinte: havia três gangues principais que disputavam o negócio das drogas ilegais em Sproustown: os dragões, que são uma gangue de verdade, mesmo. Do tipo do Yakuza... Inclusive fazem tatuagem e tal, o que eu acho ridículo. Havia também os que trabalhavam para o Wilkinson. E por fim o pessoal do Verde. E era para o Verde que o Spikey-Gary-Boe estava trabalhando já fazia algum tempo.
    A região do chefe era a do sul. Se alguém começasse a vender mercadoria no sul de Sproustown nós rapidamente descobríamos a fonte e dávamos um jeito. Nem mesmo os dragões ou os Wilkinsons ousavam pisar em nosso território. Não porque fôssemos os maiorais. Se fôssemos os maiorais nós simplesmente eliminávamos os Wilkinsons e os dragões e ficávamos com o monopólio sobre a cidade toda. Mas é que esses três grupos tinham uma influência similar. Era preciso gente defendendo o território e era preciso mais gente para fazer o trabalho. Se um grupo quisesse arriscar enviar ainda mais gente para invadir o território de outro acabaria enfraquecendo o seu pessoal e sendo assim, a terceira parte se aproveitaria da situação e provavelmente acabaria ganhando vantagem sobre as duas equipes que tinham engajado em luta a princípio.
    Era uma situação difícil. Estávamos os três grupos de mãos atadas. Desta forma, cada um ficava em seu pedaço e cada um não deixava ninguém mais pisar em seu próprio pedaço.
    De qualquer forma, após esta paráfrase carregada de informações provavelmente desinteressantes, chego ao ponto principal: o caráter do Verde. O chefe não era do tipo que perdoava facilmente. Tudo o que ele conquistou é baseado na confiança entre comprador e vendedor. Ele trabalha duro para sempre encontrar a mercadoria, garantir o transporte adequado, a qualidade do produto e fazer a transação na hora marcada pelo procedimento correto, tomando todas as medidas para que não haja interrupção de parte da polícia ou qualquer outro imprevisto que prejudique o consumidor. Em troca, tudo o que ele pede são duas coisas: um, que o pagamento seja feito da forma adequada; dois, que o consumidor evite referenciar qualquer coisa relacionada a ele para quem não esteja envolvido.
    Outro dia nós tivemos que lidar com um cara que tinha dado o calote, por assim dizer, no chefe. Era um empregado de alto posto de uma rede de móveis, acho que subgerente geral ou algum nome parecido... Fez a transação e entregou só um terço do combinado. E depois sumiu do mapa. De Sproustown. O chefe ligou para ele uma vez.
    Uma vez.
    Ele não atendeu.
    Depois ele chamou o Spikey-Gary-Boe e demos um jeito na situação. Não recuperamos o dinheiro, mas a dignidade do chefe está a salvo. Que sirva de exemplo para os próximos: saberão que ninguém passa a perna nos verdes.
     E na noite passada era a vez de um tal de Alexander Sprohic. Um cara só. Ele não é filiado a nenhum distribuidor nem empresário rico nem nada do tipo. É apenas um consumidor solitário. E devedor. Não pagou o combinado.
    O que chefe faz? Nos chama novamente? Seria o esperado, mas não foi o que ele fez. Ao invés disso chamou o irmão de Alexander, o Jeffrey, que era literalmente um cadáver ambulante e pediu para ele recuperar o dinheiro de forma que conseguisse. Só posso dizer que eu achei esquisito. Numa transação de grande porte, o chefe não se importou em tirar a vida do cliente devedor, e agora que é um só...
    Enfim, retomando aos acontecimentos daquele dia, Gary disse:
    - Mas mesmo assim. Ninguém nunca tinha recebido uma chance antes. O Verde é bem metódico nessas coisas. Se alguém perde o dinheiro depois do prazo... - Gary passou o dedo sobre a garganta e fez um barulho.
    E o Gary tinha razão, aquela atitude era realmente esquisita.
     - Talvez então por causa do que eu disse antes? Lembra que ele disse que talvez quisesse recrutar o Jeffrey?
     - É mais fácil fazer ele trabalhar em troca de dinheiro ao invés de pedir para ele roubar de qualquer lugar – contra-argumentou o Boe com um gesto condescendente com sua mão livre – O garoto não tinha experiência.
    Apoiei minha mão sobre o queixo, cujo braço estava com o cotovelo apoiado na mesa.
     - Pois é, esse teste é um tanto profissional demais para se dar a alguém que acabou de nascer. O Jeffrey, como zumbi, tinha acabado de nascer, não?
     - Não é bem assim, ele devia ter já uns dois, três anos... Mas é que ele passou todos eles na prisão, pois encontraram ele já quando ele nasceu na forma zumbi. Apenas como solto é que era o seu primeiro mês. Tinha acabado de sair da penitenciária e o Alex já me perde o dinheiro... Aí o chefe já entra em contato com ele e acontece tudo aquilo.
     - O que já é estranho – interrompi – Reparem que ele é um zumbi. Desta forma tem que se alimentar de carne. Eles não podem simplesmente soltá-lo como se ele tivesse pagado a pena dessa maneira. Normalmente a polícia o teria aniquilado já após o nascimento, inclusive.
    O Gary fez um “hum” e então contribuiu:
     - Não sei... Parece que deve ter muita política envolvida por aí. Quem sabe o que se passa na cabeça desses humanos policiais? O que eu acho esquisito mesmo é a mudança repentina de comportamento do Verde, sabe? Qual é? Somos o grupo do Verde! Ninguém fica devendo para nós... Amigos... Acho que eu vou pedir outro café. – Gary preparou para se levantar.
     - Então vá lá... – Encorajou o Boe.
     O Gary se dirigiu até o balcão.
    Olhei para o Boe durante uns instantes no que veio um pensamento me veio à mente:
     - Já sei! E se não é só que o chefe queria recrutar o Jeffrey, mas ele queria substituir um de nós? Ou todos nós? Por isso queria ver se ele já aguentava com os desafios maiores logo de início?
     - Ei... Está falando sério? Substituir nós três? Por um zumbi burro daqueles?
    Verdade... Não fazia sentido.
     O Boe terminou sua água com gás e empurrou o pires com a xícara e o copo para o centro da mesa.
     - Ele pode até ser um ser paranormal, mas tudo o que ele tem é força. Não teria método para fazer nada. Mesmo se não fosse a polícia civil, mais cedo ou mais tarde os caras do DCAE pegariam ele.
     - Os policiais do DCAE são durões, não? Se não tiver cuidado com eles...
     - Ouviu falar que um deles venceu o irmão do Alex em um soco só?
     - O Jeffrey?
    Gary já estava voltando do balcão.
     - Bam! Um soco só. O cara caiu no chão.
     Olhei firmemente para o Boe. Uma coisa era vencer o zumbi. Relativamente fácil. Qualquer um de nós conseguiria. Outra coisa era fazer com um golpe só...
     - Tá... E quem te disse isso? Eles não teriam colocado isso no jornal ou nem nada do tipo.
     - Ouvi direto do Verde. Ele tem os contatos... Ele sabe tudo o que acontece no DCAE.
    Era verdade que o chefe conseguia informações de diversos locais em Sproustown aparentemente do nada. E o DCAE era um desses locais. Mas dizer que ele sabia “tudo” o que acontecia lá dentro era um pedaço de exagero. Às vezes o Boe podia se passar por exagerado. Resolvi não comentar nada. Olhei para o Gary puxando a cadeira para se assentar novamente.
    - Agora eu também quero mais um expresso. – Disse e fui até o balcão.
    “Substituir nós três? Por um zumbi burro daqueles?”
    O Spikey-Gary-Boe tinha realizado grandes feitos não só apenas em Sproustown sob as ordens do chefe, mas desde antigamente quando fazíamos parte de um grupo mercenário no norte do Canadá. Comparar nossos feitos com um roubo malsucedido de um recém-nascido era um insulto. Mas faria sentido se o chefe estivesse almejando cortar gastos. Apesar de estar trabalhando para ele naquele momento não fazíamos parte do grupo oficialmente. Poderia ser que ele estivesse à procura de verdadeiros seguidores paranormais? Que ele desejasse pessoal de confiança ao invés de ter que pagar estranhos por cada trabalho? Poderia ser até que ele já tivesse contratado um ou dois? Nós não passávamos muito tempo com o nosso empregador e não sabíamos muito dele a não ser quando ele nos chamava para conversar sobre um ou outro caso em específico. Sabe lá o que ele escondia para si mesmo.
    Eu não sou apegado a ninguém, mas não podia negar que se este fosse o caso eu estaria sim em um pouco de apuros até que pudesse encontrar outro empregador na mesma área. Isto é, um outro empregador de mercenários paranormais que inspirasse confiança... Por isso não podia evitar em ficar preocupado com aquele pensamento.
    Com meu expresso em mãos voltei à mesa e ouvi o Boe contando algo que eu não sabia entusiasticamente para Gary:
     - Sério, Gary! Ele que me falou! Tudo foi arrumado para que o Alex perdesse o dinheiro no dia.
     - Não entendi... Mas o que o Verde ganha perdendo o dinheiro?
     - Então... Ele ganha que recruta o Jeffrey, isto é, se ele não tivesse sido pego pela polícia no primeiro roubo que tenta.
     - O que vocês dois estão dizendo de perder dinheiro? – Perguntei enquanto dava um gole no melhor expresso quente da cidade.
     Eles se entreolharam.
     - Diga para ele, Boe.
     - Então... Eu estava dizendo... O irmão do Jeffrey, o Alex, não perdeu o dinheiro aquele dia... Ele foi roubado.
     - Ah sim, isso eu já sabia. Foram dois caras com uma van. Um cabeludo e um parrudo. Bateram nele, levaram a mala e deixaram ele jogado no meio fio – Me sentei a bebericar meu cremoso café quente.
     - Sim. E foi o próprio Verde que contratou os ladrões.
    Quase cuspi meu expresso.
     - Que?
     - Estou dizendo. Ele contratou os dois justamente para fazer o Alex ficar devendo... E daí ele foi direto conversar com o Jeffrey dizendo que o irmão dele estava devendo dinheiro. Dizem que foi por isso que ele fugiu da prisão.
     “O Jeffrey... Fugiu da prisão?”
    Esse era um bom compilado de informações que eu não sabia, esse que o Boe estava revelando. Primeiro que eu achei que o Jeffrey tinha saído da prisão “antes” de Alex ter perdido o dinheiro, e só havia coincidido do chefe ter dado a chance para ele conseguir o dinheiro de volta. Segundo havia aquela parte de o próprio chefe ter armado tudo desde o contrato dos ladrões. Terceiro, eu nunca havia parado para pensar no porquê, mas eu apenas supus que ele tinha sido solto e não fugido. Mas agora o Boe me diz que ele não foi liberado da prisão mas fugiu; e o fez justamente porque seu irmão perdeu o dinheiro e ele precisava conseguir de volta.
     - E Boe, me diz uma coisa... De onde você ouviu isso?
     - Estou falando... Ouvi tudo do próprio Verde.
     - Ele falou isso... Para você?
     - Não, não... Eu estava lá após aquele dia do cara dos móveis, lembra? Eu esqueci os Tar Lights lá e voltei buscar. Depois do trabalho ele estava falando com um velho gordo com pinta de rico. Aquele lá é um patrocinador do negócio dele. E daí por acaso eles estavam discutindo...
     Sempre que o Gary dava um gole me parecia que o macchiato era mais gostoso que o expresso. Quase quis pedir mais um naquele momento.
     - Tá... Você estava bisbilhotando a conversa do chefe quando voltou para buscar os cigarros.
     - Por acaso, Spikey... Por acaso...
    Desta forma se o que o Boe dizia não era mais um de seus exageros isso devia confirmar minha teoria de que o chefe estava procurando mais poder paranormal para seu grupo, o que não necessariamente significava que ele queria se livrar de ter que pagar pelos nossos serviços, mas poderia significar. Devido à qualidade de nossos serviços não éramos exatamente o grupo profissional do ramo mais barato que se tem... Com esta preocupação, resolvi partilhar minha opinião com os dois:
     - Se o que ele conversou com o gordo aquele dia é verdade... O chefe pode estar querendo se ver livre do Spikey-Gary-Boe, não? Quer dizer... Pode estar querendo salvar dinheiro... Tempos difíceis. O que vocês acham? Isso seria ruim porque dificilmente vamos achar outro empregador aqui em Sproustown que não o Dragão ou o Wilkinson... E eles provavelmente já devem saber que temos algum envolvimento com o Verde...
     O Boe não respondeu imediatamente e nem me olhou diretamente quando o fez. Pensou um momento e só então decidiu:
     - Acho que não... Para o chefe trocar três seres “paranormais” assim de uma hora para outra... A simples comparação entre a gente e o irmão do Alex é ridícula. Ele sabe que somos profissionais. E não bastasse isso somos três. Se ele quiser se livrar de três do grupo ao mesmo tempo... Digo... Ele tem que ficar muito enfraquecido se comparado ao poderio dos grupos do Wilkinson ou do Dragão.
     - É... Você deve estar fazendo tempestade em copo de água – complementou Gary –
     - Além do mais, se ele realmente quisesse cortar relação... Como nosso chefe ele teria avisado previamente, não teria porque manter segredo.
    Aqueles argumentos também faziam sentido.
    Eu provavelmente estava imaginando coisas e o chefe estava pensando em alguma outra coisa que não isso. Não podia deixar de achar o comportamento dele estranho, entretanto... Contratando ladrões e incitando zumbis a escapar da prisão daquele jeito...
    O Gary já tinha quase acabado o café dele e eu nem tinha começado o meu expresso.
     - Amigos... Acho que vou pedir mais um.
    - Vá lá. – Encorajou o Boe.
     Fiquei na dúvida entre se eu deveria pedir o macchiato típico da Ivory Beans ou me dar por satisfeito. O Boe só bocejou e começou:
     - É... Está acabando o horário de almoço... Vamos ter que voltar...
     - Tive uma ideia! E se telefonássemos para o chefe e perguntássemos? – Bati com a xícara na mesa.
     - Perguntássemos o que?
     - O que ele queria quando contratou os ladrões para roubar o próprio Alex. Temos o direito de saber, não? Afinal poderia dar a entender que ele estava querendo substituir a gente... Mesmo que tenhamos acabado de concluir que não. Mas se poderíamos concluir que estávamos perdendo nosso cargo temos o direito de exigir a verdade!
     Por algum motivo eu precisava ter certeza.
     - Você está louco, rapaz? Eu apenas ouvi a conversa do Verde e do gordo aquele dia por acaso. Ele não disse isso diretamente para mim.
     - Hum, tem razão... Mas então nesse caso, para ter certeza... Poderíamos inventar que ficamos intrigados que ele deu uma chance a mais para o irmão do Alex e daí tivemos essa ideia que ele não queria mais os nossos serviços. Que tal? Poderíamos formular a pergunta com esse pretexto!
    O Boe me fitou um momento e por fim concordou:
    - Acho que sim... A melhor ideia deve ser perguntar direto para ele ao invés de ficar especulando... Mas por que tanto interesse, Spikey? Com medo de perder o trabalho?
     Nisso meu celular tocou. Para a minha surpresa era o chefe.
     - Falando no diabo...
     - É o Verde?
     - Oi... – Atendi.
     - Oi Spikey. Onde vocês estão?
     - Chefe... Estávamos indo. Só acabando aqui e já vamos para aí.
     - Tudo bem, à vontade. Só que eu tenho que falar uma coisa para vocês... Pessoalmente.
     - É sobre o Jeffrey?
     Um silêncio.
     - Não... É outra coisa. O do Sprohic já foi decidido.
     - O senhor não vai ficar com ele então?
     - Ficar...? Com ele? Como assim?
     - É que estávamos especulando, sabe... O senhor estava dando uma chance para ele conseguir o... A mercadoria de volta. Ele tinha pisado na bola e tudo... E como ele é, sabe...
     Verde interrompeu com uma piadinha de mau gosto
     - Ei, ei, Spike... Não coloque frases como “vai ficar com ele” quando se trata a meu respeito... Pega mal haha.
     - Haha. Ha!
     Um silêncio.
    O Verde retomou o tom de seriedade:
     - Sim... Eu queria ele, mas não deu certo... Você deve ter visto o jornal...
     - Pois é, é que na realidade estávamos pensando... Eu, o Gary – O Gary, aliás, estava chegando novamente à mesa com seu novo macchiato – O Boe... Estávamos pensando... Se o senhor está disposto a recrutar novos... Sabe... Novos trabalhadores... Então será que está... Pensando em se desfazer de nossos serviços?
     Acho que eu falei diretamente demais. Ele não respondeu. Tentei amenizar um pouco:
     - Digo... Não que tenhamos algo a ver... Digo, não queremos dizer ao senhor como trabalhar, mas... Gostaríamos de ser avisados se... Enfim estávamos pensando se fosse o caso, se o senhor poderia avisar-nos com uma antecedência. E se possível... Se...
     - Vocês pensam demais não? Vocês três? Você, o Gary... – Verde bocejou – O Boe...
    Ele fez uma pausa e emendou:
    - É o seguinte: eu só queria ver a qualidade de um... De alguém como o Sprohic. Nada mais.
     - Ah sim...
     - Pode deixar, eu aviso vocês se estiver pensando em qualquer coisa. Questão de boa política eu sei. Não perco nada avisando vocês previamente quando eu não quiser mais os serviços, então se um dia eu quiser cancelar o serviço eu vou avisar, ok? Podem ficar sossegados... Eu ainda “vou ficar com vocês”, haha.
     - Ha...
     Mais um momento de silêncio.
     - Mas então... Só liguei para avisar... Temos que conversar sobre uma coisa... Não posso falar no telefone, você entende...
     - Sim, sim...
     - Então até mais.
     Eu ia responder, mas ele mesmo respondeu a si mesmo em outra entonação, como que se me imitando:
     - Até mais, tchau.
     E desligou.
     Olhei para eles dois.
     - E aí? – Perguntou Boe.
     - O chefe disse que está tudo bem entre a gente... Ele quer que façamos um novo serviço.
     O Boe palitava os dentes e Gary por incrível que pareça estava nos últimos goles de sua terceira xícara.
     - Bom... – Começou Gary- Se o chefe disse que está tudo bem... Então não deve ter por que se preocupar.
     - Eu falei para você – emendou Boe – Está pensando demais. O Verde não faria isso com a gente. A essa altura o Spikey-Gary-Boe é essencial no trabalho dele.
     - É... Tem razão.
     Por algum motivo tinha alguma coisa me incomodando que eu não conseguia dizer exatamente o que, e por mais que o chefe e os dois me dissessem que estava tudo normal... Algo naquela história toda dos irmãos Sprohic não fazia sentido.
    Finalmente o Boe levantou-se, espreguiçou-se e convidou-nos:
     - Vamos então? Se o Verde quer que façamos um novo serviço é melhor se apressar para se preparar. Sabe lá se ele vai querer que isso seja resolvido até quando.
     - Verdade – concordei – Melhor irmos o quanto antes.
     - Esperem, amigos...
     - Hã?
     - Acho que vou pegar mais um último cafezinho...

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