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ficção cientifíca

  • ‘EU’, ‘ELES’ e ‘NÓS’

    Sabíamos que estávamos sendo vigiados por ‘ELES’. Muitos relatos de abduções, fotografias e filmagens de suas naves e tecnologias não paravam de ser publicados nas redes sociais. Porém, por esforços dos governos mundiais que negavam e ocultavam os fatos, e também, por uma certa mescla de realidade e fantasia nos filmes e seriados hollywoodianos, e, provedoras globais de fluxos de mídias via streaming, além da ignorância que era pregada nas diversas religiões de sermos o centro do universo, ignoramos os sinais por ‘ELES’ transmitidos.

    ‘ELES’ até que apelaram a partir da década de 1970, quando começaram a desenhar os agroglifos nas culturas de certas gramíneas, por meio do achatamento de culturas como: cereais, colza, cana, milho, trigo, cevada e capim. E era obvio que não tínhamos ainda tecnologias para realizar o feito desses complexos e grandes desenhos em apenas algumas horas. Mas, mesmo assim, ignoramos. E, criamos soluções para explicar o inexplicável, e tudo foi abordado como um feito fictício. Então, pagamos o preço por mesclar a realidade e a fantasia, não sabendo mais diferenciar uma da outra. Assim, preferimos viver o engodo, e fomos enganados por nós mesmos.

    Entretanto, ‘Nós’ criamos a S.U.P.E.R (Superintendência Universal Para Extraterrestres Relações), em que na verdade era uma organização oculta e privada, que se fantasiava de uma Ecovila Sustentável criada por uma rede mundial de cientistas alternativos ufólogos, e pequenos empreendedores startup nos ramos da cyber tecnologia e biogenética (biohacking).

    Éramos perfeitos na arte do engodo, pois utilizamos as técnicas alienantes do sistema contra ele mesmo, ao fundarmos nossa Ecovila na Patagônia, que cobria uma área como mais de 239 km², banhada pelos paramos das geleiras andinas, com terras hiper férteis. Abrigando uma população de mais ou menos cinquenta e cinco mil habitantes de várias nacionalidades do mundo. Em que nosso maior foco agrícola e produção eram cânhamo, cannabis medicinal, morangos, uvas, cerejas, cevada e lúpulo, além de muitas criações de animais. E assim, fabricávamos os melhores vinhos, cervejas de cannabis e espumante de morango do mundo. Tudo de origem orgânica e primeira qualidade, e sem a necessidade de máquinas elétricas, ou movidas a combustíveis fosseis, tudo manufaturado a moda antiga, em que o trabalho humano e animal era o nosso maior forte.

    Vivíamos como antigos povos, antes da revolução industrial, nossas roupas, casas e utensílios eram manufaturados naturalmente, e nossas tecnologias eram 100% artesanais, permanentes e renováveis. Também, focávamos em energias sustentáveis como eólicas e fotovoltaicas, em que criamos a maior usina sustentável do mundo, que fornecia energia para todas as vilas da Patagônia por um custo acessível e barato, além de doar energia de graça para todas as dependências e prédios governamentais dessas vilas. Estratégia nossa, para implementar esse projeto com apoio intergovernamental, tanto da Argentina como do Chile.

    Porém, tudo isso não passava de uma capa que cobria o livro. Pois, subterraneamente éramos outra coisa.

    A S.U.P.E.R era um segredo de um punhado de famílias dentro da Ecovila, punhado esse, que era formado pelas pessoas menos relevantes da nossa comunidade eco agrícola. Na verdade, ‘NÓS’ éramos os fundadores dessa comunidade, mas passamos o nosso poder para os antigos moradores da região, transformando-os de simples camponeses em grandes empreendedores. Alguns ganhadores de prêmios Nobel e outras condecorações internacionais. Porquanto, eles eram nossas máscaras, e nem eles, como também, os outros moradores da Ecovila sabiam disso. ‘NÓS’ éramos um mistério… um segredo bem guardado por pactos de vida e morte, em meio ao paraíso andino.

    No submundo dos nossos quartéis subterrâneos, situava o centro tecnológico e informativo de nossa inteligência. Tínhamos uma empresa operadora de satélites, a StarSky Corporation, que atuava em 52 países com sedes em Israel e na China, além de 32 empresas subsidiarias de telecomunicações espalhadas pelo mundo. O que facilitava nossa rede de comunicações e informação, dessa forma, tínhamos olhos e ouvidos em todo lugar.

    Contudo, estávamos também sendo vigiados, e de início não sabíamos. Aquele fato da coisa observada, observar o observador. Pois nossos servidores se utilizavam da surface web, ou deep web como era mais conhecida. E, ‘ELES’ é que eram os verdadeiros donos do iceberg como todo. E, assim, os nossos olhos e ouvidos eram, também, os olhos e ouvidos deles. Seus motores de busca construíram um banco de dados, pelos seus spiders, e através de hiperligações indexaram nossas informações aos seus servidores na deepnet. Quando descobrimos que estávamos sendo escaneados, toda nossa informação já eram deles.

    Quando nossos hackers investigaram quem são ‘ELES’, se depararam com uma parede de proteção inacessível, em uma (darknet) parte do espaço IP alocado e roteado que não está executando nenhum serviço. Até para as inteligências dos governos mais poderosos o acesso era fechado, pois se utilizavam da Dark Internet, a internet obscura. E de cara percebemos que ‘ELES’, os não-humanos, eram quem estavam nos vigiando.

    Contudo, resolvemos abrir o jogo e mandar mensagens para ‘ELES’, em um projeto apelidado como: חנוך (Chanoch). Durante meses enviamos várias mensagens, então, de repente, nossos servidores detectou uma mensagem oculta que dizia: “E andou Enoque com Deus, depois que gerou a Matusalém, trezentos anos, e gerou filhos e filhas. E foram todos os dias de Enoque trezentos e sessenta e cinco anos. E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou.”.

    Ao receber aquele texto, ficamos perplexos. De início, achamos ser uma brincadeira. Até recebermos outra mensagem, que dizia: “E sucedeu que, indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho”. Então, depois de longas horas de reflexão, intentamos que as mensagens vêm a nós na forma e maneira que podemos perceber. Sendo, que eles queriam escolher alguém entre nós para uma viagem. Não sabíamos como responder a tal pedido, e mandamos uma mensagem correspondente do que temos de fazer para realizar tal acontecimento. E, eles nos responderam com três sequencias binárias: 101.

    No dia seguinte a essa misteriosa resposta, para o nosso espanto, fomos notificados por um de nossos agricultores que se encontrava no campo de cevada, se deparando com um símbolo gigante desenhado ‘IOI’. Então, rapidamente percebemos que aquele campo seria o local de contato. E, ‘EU’ fui escolhido para a tal viagem com ‘ELES’. Então, todas as noites acampei no local marcado.

    Acho que propositalmente, na noite 101 em que me encontrava sozinho em minha barraca, e já desesperançado de algum contato, ‘ELES’ vieram! E de súbito só me lembro de ver uma forte luz branca.

    Quando acordei, me deparei em uma maca feita de uma solução gelosa, de um verde fosforecente, algo como se estivesse deitado sobre água, mas, era firme, e amaciava com o peso do meu corpo. Não tinha temperatura, nem frio e nem quente, e o mais louco é que meu corpo não sentia esse material, era como se eu estivesse deitado sobre o ar. O ambiente era de uma luz violeta neon, muito calmo aos olhos, e não tinha paredes, teto ou solo. O silencio era profundo, irritante e assustador. Para todo o lado que eu me voltava, via apenas um horizonte infinito, tanto para cima como para baixo. E tive medo de sair da maca, pensando cair nesse infinito abismo. E a sensação era por demais desconfortante, achei que estava morto.

    Nisso, me senti sendo vigiado, algo ou alguém me observava, e vi alguma espécie de vulto transparente se locomover ao meu redor. Então, pela primeira vez senti algo que me tocou!

    — Uai!

    — Calma!

    — Quem é você?

    — Então, provou.

    — Provei o quê?

    — A sensação de sentir nada.

    Ao ouvir isso, perplexo me calei. E pasmei! Vendo uma espécie humanoide alta e magra a minha frente. Com olhos extremamente azuis e findados como os asiáticos, cabelos brancos longos, e pele extremante branca, fria como a de um cadáver. E, diante do meu silêncio e espanto, ela continuou a dizer, falando sem mexer a boca, que mais parecia uma fenda em seu rosto magro:

    — Assim, somos ‘NÓS’. Não temos a capacidade de sentir como vocês, e os invejamos por isso. Essa forma que você vê a sua frente, não é nosso corpo. É apenas um traje, pois vocês não têm a capacidade de nos ver sem ele. Somos seres pertencentes a outra dimensão, que vai muito mais além de sua física e compreensão.

    — De onde são vocês?

    — Somos seres da Quarta-Vertical, um mundo mais além do que a matéria física. E, nesse momento você está diante de uma plateia de nós. Não pode vê-los, pois, estão sem seus trajes físicos. Porém, saiba que também você usa um traje, e ele que te faz sentir. Mas, nós, mesmo com nossos trajes, não podemos sentir como você sente, e perceber como você percebe. Apenas percebemos as coisas físicas, através de alguns impulsos elétricos de contato nos transmitidos por nossos trajes, que são mínimos, sem sentimentos e emoções.

    — Onde fica fisicamente a Quarta-Vertical?

    — No plano físico, conhecido por vocês como seu sistema solar. Em que nossa Morada é o Sol.

    — Então, estou no Sol?

    — Claro que não! Seu corpo físico não aguentaria.

    — Onde estou?

    — Em nosso ponto de contato. Na parte oculta da Lua. É daqui que o observamos, desde sua criação como seres existenciais. E, temos alguns de vocês aqui conosco. Na verdade, somos seus guardiões, mensageiros e protetores.

    — Protetores! Contra quem nos protegem?

    — ‘DELES’ e de vocês mesmos. Pois, se assim não fosse, vocês não mais existiriam como espécie.

    — ‘DELES’ quem?

    — Aqueles a quem vocês chamam de seres infernais. No início, ‘ELES’ eram como ‘NÓS’, e vieram de ‘NÓS’. Mas, se corromperam. Pois, desejaram sentir a emoção que vocês sentem. Por isso, eles lhes causam dores e prazeres, para sugar as energias de seus sentimentos. E, fazem isso agora, através da internet. Por isso, lhes deram esses pequenos dispositivos que vocês carregam em suas mãos. O próximo passo deles, é implementar esses dispositivos aos seus corpos físicos. Aí, então, drenarão suas energias vitais, como um canudo drena o líquido numa garrafa de refrigerante.

    — Onde eles vivem?

    — Antes viviam aqui na Lua, depois os expulsamos para Saturno e Plutão. Mas, quando fizeram o pacto com os muitos chefes e governantes de sua sociedade, precipitaram-se na terra. Quando teve uma grande chuva de meteoros. Então, agora vivem entre vocês.

    — E, como podemos reconhecê-los, se vivem entre nós?

    — São os seres lagartos, mas se disfarçam com trajes humanos. Por tanto, seus trajes se alimentam de sangue, e são sensíveis a luz do sol. Por isso, procuram andar mais a noite, e poucas vezes a luz do dia. E, para resistir a luz diurna, precisam beber inúmeros litros de sangue humano fresco e vital. Só assim, os trajes resistem por mais tempo. Porém, alguns deles se tornaram híbridos, cruzando com a sua espécie. E são metades humanos e ‘reptilianos’ como alguns de vocês qualificam. Mas, mesmo assim, precisam de sangue humano para viver. E, como vampiros modernos, eles criaram os bancos de sangue, espalhados por todo mundo. Onde vocês creem estar doando sangue para pacientes hospitalizados, mas apenas 2% desse sangue vai para esses pacientes que necessitam, o resto é comercializado entre eles.

    — E por que vocês não nos alertam sobre isso?

    — Não podemos interferir. Foram vocês que atraíram eles. Suas escolhas. Seus livres-arbítrios.

    — Como assim, nossas escolhas?

    — Por acaso, você não leu a parábola de Adão e Eva?

    — Mas, isso é apenas um mito!

    — Não é apenas um mito. É uma metáfora da realidade, representado em sua espécie dividida entre macho e fêmea. Um código, para os sábios decifrarem.

    — E, por que não nos contam a verdade diretamente, e só nos dão metáforas?

    — Veja o que vocês fizeram com a verdade… ridicularizaram. Enviamos muitos para lhes dizer a verdade. Muitos de nós nascemos como avatares para lhes falarem, e veja o que nos fizeram? Nos mataram, assassinaram, minimizaram. E, mesmo nascendo entre vocês como humanos, ao longo do tempo nos transformaram em engodo e mito.

    — Mas, isso foi em tempos de muita ignorância. Hoje temos tecnologias para registrar e comprovar.

    — Tempos de muita ignorância… saiba que não existe tempo onde a ignorância é mais forte e abrangente do que esse em que vocês vivem. Suas redes de informação, academias e filosofias são lotadas de teorias e não de práticas. Vocês não experimentam mais. Não observam mais… só emulam. E agora que mesclaram a realidade e a fantasia, você acha que nos ouviram? Seremos ridicularizados e banalizados mais uma vez… por isso, agora agimos em oculto sigilo. E falamos na linguagem que vocês não podem deturpar, que são as parábolas e metáforas. Poesias de mistérios místicos e ocultos, que lhes encantam, e fazem pensar. Até serem assimiladas por corações puros, lapidados e lavados que nascem entre vocês.

    Ao ouvir aquelas palavras, o mundo parou em mim. E, lágrimas rolaram do meu rosto.

    — Ernesto! Ernesto! ¡Despierta hombre!

    — Ahh! ¿Qué?

    — ¿Qué haces aquí acampado en el campo de cebada güevón?

    — No lo sé … De repente tuve un sueño confuso. No me acuerdo.

    — ¡Vamos! Es tiempo de cosecha. Creo que perdimos una buena cantidad de grano. Bueno, creo que hubo un torbellino esa noche que aplastó los tallos fértiles.­
  • A arma faz o bom soldado

    Existem poucas coisas que vendem como água nesse mundo como histórias de guerra. Muitas são as narrativas que tratam desse fenômeno da realidade humana. E uma das coisas que mais nos fascinam e nos provocam medo é a tecnologia bélica. Uma história em quadrinho que tem uma arma como protagonista pode parecer assustadora à primeira vista, mas ao fim da leitura, o que era uma simples inovação se torna reflexão.
    O Coronel foi um álbum publicado pela Nemo em 2012, com roteiro de Osmarco Valladão e com desenhos de Manoel Magalhães. Os traços são cartunescos, mas a narrativa é fluída e traz um conto com estudo de personagens muito bem elaborado. Embora se passe num futuro, talvez não tão distante, o foco é minimalista, mais denso em crítica social. Mostra de maneira crua a fetichização das armas de guerra.
    A obra inicia com uma reunião de cientistas e cúpula militar como um breve prólogo. Uma nova tecnologia bélica será apresentada: um fuzil com uma inteligência artificial. O invento teria a proposta de melhorar a atuação do soldado em campo e diminuir corte com gastos militares. O nome da arma é Coronel, exatamente, o fuzil também tem uma patente. A arma dá ordens ao soldado.
    O primeiro capítulo dessa trama, se assim posso chamar, se passa numa lua onde dois exércitos travam batalha. O nosso protagonista é o cabo Isayah Kassian. Ele testa, ou melhor, serve de cobaia para o experimento de guerra. Com a relativa autonomia da arma, o cabo começa a se questionar o papel que desempenha naquela guerra. O roteiro apresenta dilemas bastante coerentes com a trama abordada.
    No desenrolar da história, uma nave coletora de sucata encontra Coronel. E a arma inteligente vai parar nas mãos de uma pessoa frágil e propensa a violência. Esse segundo capítulo me fez refletir o perigo da filosofia armamentista, pois, as armas são criadas para matar, e nem todos estão preparados para ter uma em suas mãos. Principalmente se a arma controla aquele que a possui, simbolicamente falando.
    Osmarco Valladão é designer gráfico, colorista e também elabora roteiros intrigantes. Manoel Magalhães tem boas obras o currículo, como o álbum O Instituto, pela editora Aeroplano. A obra tem 56 páginas, totalmente colorida e tamanho big. A impressão e a encadernação estão ótimas. É bem gostosa de ler, e o preço é sempre convidativo.
  • A batalha pela rota do oeste

    A Guerra Civil chegou até onde não havia civilização. Todos os cantos do vasto mundo viviam a luta armada desde a primeira metade do Séc. XXI. Neste contexto não havia alternativa para um homem que não fosse se juntar a Resistência. Então ele podia ter dois caminhos a seguir: soldado propriamente dito, daqueles que pegam em armas e estão prontos a morrer pela vitória, ou contrabandista. Neb era flácido, lento e não sabia usar a Colt 45 que carregava na cintura. Então para ele restou apenas a opção B. Apesar de todo horror da guerra, Neb operava um esquema de tráfico de frutas. O produto não era abundante, mas depois da grande contaminação nuclear das últimas duas décadas do Séc. XXI, a procura também havia caído. Ele mesmo não confiava nelas, preferia as pilulas de proteínas e as gelatinas de carboidratos. Mas elas também não eram abundantes, e vinham do norte, o que dificultava tudo. As frutas vinham do oeste. Ele buscava elas nas montanhas de soldados inimigos que as roubavam da base. Depois vinha por entre as florestas mortas e minadas até uma entrada pelo antigo sistema de esgoto. Neste trajeto ele empurrava uma carroça, mas quando entrava nos canos tinha que carregar caixas. Ele tinha acabado de receber 69 unidades de mamão. Mais treze melancias, 52 berinjelas e duas caixinhas com, raríssimos, 50 morangos. Foram quase dois dias para chegar com tudo no centro nervoso do caos. Como tinha que subornar os heróis da própria Resistência em um certo do ponto do caminho, ele sempre levava primeiro as mais judiadas. Com elas também abastecia o próprio lar e os mais próximos, que não podiam se dar ao luxo de escolher. As melhores iam para os comandantes, que pagavam com o que tiravam dos corpos espalhados pelas ruas ou nas casas abandonadas da cidade.

    Neb estava esperando um cliente num porão de uma construção destruída na Rua 10. Ele chegava pelo esgoto e saia pela porta da frente. Uns quarteirões a frente conseguia outro acesso subterrâneo num prédio bombardeado. “Estamos vencendo, a guerra vai acabar.” O soldado de compras do Coronel reproduzia o discurso típico do Exército Armado Local. “Ela já acabou, mas ninguém percebeu.” “Você pode ajudar a fazer todos perceberem. O Coronel quer que eu te leve até ele.” “Que? Não posso, tenho outros compromissos. Talvez em outro momento.” “Se você não for ele não te paga, e eu levo tudo e não volto mais.” “Meus compromisso acabam de ser cancelados. Vamos passear.” Os dois atravessaram os escombros de algumas casas até chegar num buraco. Mas quatro jovens aguardavam a chegada das frutas e do fruteiro. Dali para frente Neb foi sendo arrastado com os olhos vendados e as mãos amarradas.

    Quando chegaram a um lugar quente e úmido uma porta se fechou e Neb pensou estar sozinho. Na hora que tirou a venda viu um cara parado na sua frente. “Precisamos das suas rotas no oeste.” Aquele rosto não parecia desconhecido para Neb, mas o tom imperativo de voz era novo. Ele ajudou Neb a libertar as mãos. “Não sei do que você esta falando.” “Vamos receber um grande carregamento de armas e monição e uma rota mais desconhecida garantiria a chegada de tudo ao combate.” Ele se parecia muito com o patriarca de uma família que seu avô ajudava muito tempo atrás. Mas eles tinham morrido ou sido capturados, não necessariamente nessa ordem. “Eu trabalho com frutas, não com armas.” “Você trabalha para quem te paga, e eu vou pagar.” Neb tinha mais de 25 anos, o que já o colocava num seleto grupo de sobreviventes. Uma enorme fatia do bolo não passava dos 23, e quem chegasse aos 40 teria atingido o ápice do improvável. Tanto tempo no mercado tinha lhe dado a reputação de barato e suspeito, além de pacifico e otário. “O carregamento chega daqui três dias. Por razões de segurança você não vai poder sair daqui até que tudo se conclua.” “E para minha segurança vou acompanhar tudo só até o ponto de encontro com o fornecedor, então você me dá meu dinheiro e nos separamos.”

    Três dias depois Neb, o Coronel e mais dois soldados cruzavam as florestas mortas rumo as montanhas. Neb não se sentia bem na posição de guia. “Você sabe por quê esta rota funciona há tanto tempo? Porque só eu a uso.” “Vou tentar ser discreto.” Alguma coisa no tom de voz dele não deixava Neb a vontade. “Você não é o único na Resistência a gostar de maçã. Tenho clientes em todos os níveis”. O Coronel olhou com desdém. “Há muito tempo atrás, quando ainda existiam os Abrigos da Resistência para as mulheres, velhos e crianças, um homem me disse para sempre desconfiar de quem diz lutar pela liberdade.” Neb jogou o anzol na água, mas o Coronel não queria papo. Foi um dos soldados que mordeu a isca. “Nunca ninguém dizia nada que prestava nestes esconderijos para covardes.” A ideia de morrer atravessou seus pensamentos deixando rastros de cautela. “Meu pai dizia que é melhor ser um covarde e sobreviver para contar a história.” “Ninguém vai sobreviver.” As palavras do coronel soaram como um sentença de morte para Neb.

    Enquanto eles cruzavam as montanhas o traficante de frutas formulava um plano para fugir antes de chegar ao ponto final da caminhada. Para ganhar algum tempo, e preservar um possível refúgio, ele evitou o caminho pelo pântano. Quando eles chegaram a planície avistaram um espelho brilhando no horizonte como sinal de contato. Neb sentiu que era o momento de agir. Diminuiu o passo até estar mais ou menos dois metros atrás do pequeno bando. No momento em que o primeiro soldado olhou para trás ele, tentando ser rápido como o bote de um escorpião, sacou a Colt do bolso direito e começou a atirar. Como que por milagre cada um dos três disparos atingiu um alvo, que caíram aos gritos de traidor e atirando suas metralhadoras para o alto. O Coronel ainda conseguiu acertar Neb na perna, mas sua bala foi mais certeira se alojando no pulmão esquerdo dele. Antes de morrer ele revelou que não havia Resistência, e que era ele e sua família que haviam entregado a localização do antigo Abrigo da Resistência para as mulheres, velhos e crianças. Neb fugiu chorando para se esconder no pântano.
  • À espreita do insólito

    Dentre as diversas antologias das quais participei, a Insólito do selo Cavalo café foi uma das publicações mais aguardadas. A chamada do edital para a coletânea de contos dava prioridade a histórias ambientadas no Brasil, e que se servissem da temática da nossa cultura e folclore para a escrita dos contos. O conceito de insólito abrangia diversos gêneros narrativos da ficção especulativa.
              O livro foi publicado em e-book, e foi disponibilizado para ser baixado gratuitamente no site da Editora Porto de Lenha, de Gramado - RS. Mas como sempre aguardei a versão impressa para ler. Nessa antologia eu publiquei um conto intitulado Angelis Gloria, que conta a história de um nefilim (híbrido de humano e anjo) sendo assediado por demônios, que eu curti muito em escrever. O organizador foi o Maurício Coelho, contista e antologista de primeira qualidade, muito atencioso e profissional. O livro tem capa e ilustrações de Sophya Pinheiro, que mescla bem influências regionais e mangá.
              O Prefácio ficou a cargo de Flávio García, Doutor em Letras. Confesso que o texto não instiga a leitura, é técnico, acadêmico, hermético demais e até maçante para leitores casuais. O autor perde mais tempo fazendo estudo epistemológico e citando outros autores famosos do que tratando da coletânea que ele foi convidado a analisar. Pule e vá logo para o primeiro conto. Mas se você estiver estudando Teoria da Literatura, pode usar esse texto como referência bibliográfica sem medo, afinal, o “Esboço à moda de prefácio” é um rascunho de tese de doutora na área.
              São mais de quarenta contos, de autores das mais diversas idades e regiões. Homens e mulheres que expressaram os seus sentimentos, as suas ideais e suas memórias através da literatura. A coletânea varia muito em ritmo, qualidade dos textos e modos de narrativa. Alguns contos apresentaram bons temas, mas pecaram na abordagem ou na execução. Alguns autores já são meus conhecidos, outros ainda estão amadurecendo a sua escrita. É um livro para explorar os novos autores, esse é o seu maior atrativo. Abaixo eu citarei os três contos que eu mais gostei no livro.
              O primeiro conto que eu mais gostei de ler foi Caixa de Pandora, do autor Gabriel Mascarenhas. Se aproveitando do contexto atual, o escritor explora temas como as bombas midiáticas, as fake news e a alienação para escrever uma fábula contemporânea. Assustadora em seu todo. Nesse texto, uma jovem jornalista descobre da pior forma como a população brasileira é dominada através de recursos que deixarão o leitor assustado.
              Evolução é escrito pelo J. F. Martignori. O conto é ambientado na Ditadura Civil-Militar (1964-1985), mais especificamente em 1966. A trama é sombria e nos remete a incertezas quanto ao relato que estamos lendo. Carlos e Pedro trabalham fazendo cargas num caminhão, e antes de chegarem ao seu destino, são envolvidos em uma nuvem que os lançam em uma realidade surpreendente. Ótimo conto.
              O conto da Margarete Prado, intitulado No escuro da noite, de maneira assustadora, relata uma das nossas maiores mazelas. Kaloana Fernandes está voltando para casa às altas horas da noite. Totalmente vulnerável. Ela escuta uma voz interior que manda ela ir para o hotel. De quem seria essa voz? O que ela estaria alertando? Quem põe a vida de Kaloana em risco?
              Confesso que das obras que adquiri em que o Maurício Coelho organizou, essa é a de menor desempenho. Mas ainda assim guarda boas surpresas, algumas histórias são bem inspiradas. As ilustrações do miolo são muito bem-feitas e ambientam bem os textos. Só acho que os autores deveriam ter polido mais o texto na hora da revisão, ficou notável os erros de ortografia e gramática, além da escrita de alguns textos terem um ritmo inadequado para a narrativa proposta.
              O livro conta com mais de 260 págs. Possui duas orelhas com bibliografia e biografia do organizador. O miolo conta com minibiografia dos participantes da antologia. O papel do miolo é offwhite. É como disse anteriormente, é um livro para você explorar novos autores e se inebriar de contos fantásticos ambientados no Brasil.
              Para adquirir acesse aqui:
              https://www.portodelenha.com.br/produto/464277/insolito
  • A gênese do caos

    Um livro de ficção científica me atraí por diversos motivos, dentre eles: os personagens singulares, a trama que me provoca um sentimento de encantamento e a verossimilhança com a nossa realidade. O livro Manjedoura tem tudo isso, sendo uma grata surpresa para um primeiro título publicado pelo autor Sandro J. A. Saint, jovem autor araçaense. Seu romance é um prato cheio para amantes da ficção científica.
                Um tipo de obra que sempre estará em voga é a distopia. Essa narrativa que vislumbra um mundo onde a sociedade está colapsada devido a fatores socioeconômicos, políticos e/ou culturais, lembra o quanto a humanidade é sobrecarregada de contradições. Com certa dose de pessimismo e fatalismo, a modernidade e o progresso se tornam fatores de diluição da sociedade. O livro se torna um alerta, ou seria uma profecia?
                Manjedoura como um primeiro livro de Sandro J. A. Saint apresenta uma narrativa coerente e original, pois consegue sintetizar muito bem os elementos narrativos desse tipo de história. Unindo pós-apocalipse e cyberpunk numa trama distópica, o romance nos traz uma realidade árida, pouco convidativa. Um ambiente carnívoro com relações sociais predatórias. Os protagonistas revelam bem os sentimentos em relação a esse mundo intoxicado de poluição e violência. Como não poderia faltar num livro como este, a temporalidade é desconhecida. Não sabemos se estamos em um futuro ou em uma realidade paralela.
                O livro começa com uma inserção objetiva nesse mundo, um modo de acautelar o leitor e fazê-lo entender que a narrativa terá um cenário diferenciado. É nesse mesmo prólogo que ficamos sabendo que a população mundial cresceu de tal forma que as guerras e o baixo número de recursos naturais diminuíram o número populacional a menos de 30% do total. As elites, sob as suas variadas vertentes, políticos, militares, cientistas e artistas, se unem e formam um único órgão chamado de Cúpula. Seu objetivo é conduzir os resquícios da humanidade.
                Para resolver o problema da superpopulação, eles criam o Projeto Manjedoura, humanos não nascem, são produzidos em escala industrial em laboratórios, chipados e depois dispersados pela cidadela. Mesmo nesse cenário repressor, há revoltas. Grupos rebeldes se organizam e formam os White Mouses, indo viver na clandestinidade fora da Cúpula, ondes serão perseguidos pelas sentinelas.
                Os protagonistas que conduzem a trama são Hanss Nagaf, o emocionante mensageiro-chefe; Jason Cry, o pupilo falastrão de Hanss; e por fim, Handra, a belicosa guerreira do frio. A personalidade desses personagens é única. Com certeza você vai se identificar com todos ou um deles. Mesmo outros personagens que aparecem na trama têm sua personalidade bem definida e atuante na história. Nenhum personagem aqui foi desperdiçado e agrega a narrativa.
                Hanss é um personagem que soa familiar, conduz a trama com bom humor e se mostra um personagem sentimental, a todo momento tenta empreender uma visão mais espiritualizada da vida. Handra é o tipo de protagonista feminista que falta a muitas obras, forte, sem com isso perder a feminilidade. Jason representa o olhar do leitor, sua impulsividade judiciosa e olhar cético vão trazer os conflitos necessários ao trio, bem como divertir o leitor, se tornando um alívio cômico numa sociedade tão agressiva.
                Minha recomendação é: leia esse livro! O livro está com uma edição impecável feita pela Editora Lexia, custa apenas R$ 21,90 mais o frete. Tem orelhas, miolo em papel offset, capa e contracapa feita pelo próprio autor, reforçando o caráter autoral da obra. Se o leitor busca uma ficção científica distópica com pitadas de fim do mundo, Manjedoura é a pedida.
  • A IMOBILIDADE DA LUZ

    Agora do mesmo jeito que os fiz, desfazer-los-ei. Morrem uns para existir outros. Às vezes, o tédio ou falta de perspectiva me faz deletar em massa. Assim eu era. Sei que podia parecer algo cruel deletar a existência de “alguém”, (espero que entenda) não fazia isso por que queria ou por que gostava, simplesmente porque era preciso. 
    A vida foi, a princípio, uma ideia que me surgiu em um momento de tédio; Eu não esperava tanto; simplesmente me surpreendi! Quando tive a primeira ideia da criação, estava passando por um momento conflituoso, tinha me entediado com tantos projetos monótonos e acabei destruindo o meu último projeto que era uma esfera consideravelmente grande de energia branca, e foi aí que tive a ideia de algo mais interessante: resolvi criar uma galáxia invés de constelações e centros sugantes. Mesmo assim, vi que aquilo não passava de uma ampliação dos meus projetos anteriores. Então, fui a pasárgada refletir; estava muito exausto e nenhuma ideia boa ainda me exsurgia. Após algumas consideráveis eternidades, vislumbrei algo que seguia um fluxo próprio e fugia da monotonia; algo que era regido por uma regra geral. Era a gênese da vida. Assim sendo, foi nesse momento que me debrucei em um projeto magnificente: A Criação. Remodelei os destroços da esfera de outrora, criei a natureza e os animais. Com o pulsar das gerações e o dardejar dos milênios, sucumbi ao ver o grande equívoco da criação: foi a pior monotonia que já vivera; antes pelo menos eu podia ter eternidades para outras coisas, entretanto, daí em diante, tive que tutelar esse projeto. Nesse momento, tive muito trabalho, deletando e renovando existências que no fundo seguem uma lógica continua de perpetuação. Isso tudo me dava calafrios em gastar algumas das minhas eternidades nesse fastidioso trabalho. Sei que para infinitas eternidades que tenho, algumas não iriam me fazer diferença. Entretanto, isso me fustigava lentamente e me causava uma monotonia cruel. Foi então que decidi criar uma vida que se destacasse. Por tentativa e erro, comecei por macacos, depois sapos, aliens, e por fim, sapiens. Já estava com as mãos doloridas de tanto misturar. Com o tempo acabei gostando dessa criatura. Pensei, que talvez deveria misturar dois deles. E assim ficou: Sapiens Sapiens. No final do processo, só restou uma criatura, e assim, intitulei-o de Anão. Ah não, não era esse nome; lembrei: Adão. E assim o foi. A criatura a cada “secundos” demonstrava destreza, sabedoria e, assim, me alegrava. Certa vez, resolvi criar o Destino para cuidar da vida e da morte. Com tempo livre, ocupei-me em outros projetos, e acabei deixando a minha criação em segundo plano. E de supetão quando estava no cinturão de Orion, uma ideia catucou a minha mente, sugerindo-me a criação de uma companheira para a criatura. Estava sem tempo para visitar frequentemente a minha criação, e por isso, resolvi dá a luz à ideia. Só que quando fui criá-la, tinha esquecido da fórmula. Misturei sapo, macaco, peixe e acabei criando uma mistura de sapiens com peixes; vi que não estava legal para uma companheira. Chamei-a de sereia para não ser desprezada. E sem obter sucesso, resolvi arrancar uma costela do Adão, e assim, formei uma companheira; intitulei-a de Eva . Vi com o tempo que ambos estavam felizes. Mas isso não me agradava nem um pouco. Felicidade é monótono e monotonia me causava incômodo. Então coloquei uma arvore com frutos afrodisíacos para testar a resiliência de ambos. Eles passaram um tempo se contendo em comer os frutos; foi então que decidi colocar uma serpente para atentá-los. A serpente fez um ótimo trabalho. Ainda me recordo da retórica da serpente que usou para ludibriar Eva: 
    —Estes frutos têm poderes especiais, por que não comes um? 
    —Porque fui proibida; estes frutos não fazem bem. 
    —Não seja tola, se o criador colocou uma árvore desta no paraíso, é claro que foi para vocês. Ele devidamente está testando a inteligência de vocês. E desta forma, ele quer que vocês ultrapassem as restrições e façam a diferença. 
    —hum, talvez tenhas razão 
    —É claro que tenho; sou fruto do criador!. venha aqui; Tome este fruto, este é seu; partilhe-o com Adão. 
    E assim, Eva levou o fruto, e Adão, ingenuamente, comeu o fruto de Eva e não percebeu que caíra na tentação da serpente. Dessa forma, acabei vendo a fragilidade dessas criaturas; vi que estavam muito longe da minha sapiência. E nessa lógica, vi que eles jamais iriam chegar perto dos meus Arcanjos. Com efeito, condenei-os a lei do Destino. E assim ao Destino declarei: 
    —Estarás incumbido de ceifar a vida deles, toda vez que chegar a hora. Eles terão o fado de nascer, crescer, procriar e morrer. Eles não mais viverão uma eternidade. Vão sentir a dor carnal. sofrerão com os temores e seguirão a Lei Natural. 
    Depois me ausentei e deixei-o regendo a criação. 
    Após algumas finitas eternidades, resolvi visitar a criação. Senti um verdadeiro abalo ao ver aonde a minha criação chegara. As criaturas de outrora não mais seguiam a Lei Natural. Criaram a sua própria lei. O Destino estava cada vez mais com problemas. As criaturas estavam dominando cada vez mais a inteligência. Estavam adiando o veredicto do Destino. Guerras, miséria, contrastes, tecnologia, temor, destruição, estavam caracterizando a criação. Aquilo de fato não era monótono, era extremamente inconstante. Talvez a minha ânsia pela fuga da constância tenha a impulsionado à Evolução. Não os via mais como uma criação. Via-os como uma transmutação. E destarte, resolvi me ausentar novamente e esperar mais algumas eternidades para ver até onde eles irão chegar...
  • A luta da batalha perdida

    Aconteceu mais ou menos como na música In the end of the world as we know it, do REM, mas não sobrou só um garoto de 13 anos, e nem a coisa toda tinha virado uma festa. Ainda tem um bando de seres humanos por aí. Bando mesmo. Eles se escondem em construções abandonadas, esgotos e acampamentos subterrâneos nas florestas. Se movimentam só a noite, quando as luzes das naves não conseguem iluminar toda superfície do que sobrou da Terra. Alguns dizem que os seres de outro planeta não enxergam sem a luz. Sei lá, já escutei histórias de pessoas que se salvaram por causa disso e de outras que viram cenas que comprovariam que isso não faz o menor sentido. Outros dizem que eles usam a luz como fonte de energia vital para suprir a horda, mas que a lua é muito fraca. Tudo deve ser parte de uma estratégia deles mesmos para confundir o inimigo. Eles tem uns 2,5m de altura e andam sempre em pelotões de centenas. Não usam armas, usam a força física para destruir o que for preciso. Animais, homens, mulheres e crianças. Nada que se mexe se salva. São superiores em número e força. Arrancam uma perna de um corpo como quem tira uma coxa de um frango assado. O fato é que, por via das dúvidas, se alguém tivesse que ir para algum lugar, ia quando não houvesse mais luz do sol, e se escondendo por onde as naves não conseguem iluminar.
    O melhor mesmo é não precisar ir para lugar nenhum e ficar quietinho no seu canto. Mas a maconha da tribo do sul estava acabando, e se eles quisessem manter o clima de otimismo nas fileiras do bando eles iam precisar de mais. Por isso o Neb estava tentando chegar até alguma tribo na floresta que pudesse fornecer erva. A princípio ele tentou sair da cidade pela rota do oeste, mas alguma coisa havia fechado o caminho pelos esgotos, era o que dizia um batedor da tribo subterrânea que ele encontrou numa das bifurcações do caminho. “O túnel desmoronou há algumas semanas.” Não restou alternativa senão ir pela superfície. “Vou me atrasar um pouco, mas faço uma parada para evitar a luz do sol no ponto da tribo urbana se for preciso.” “Restam cada vez menos bandos nas construções. Procure algum lugar subterrâneo para ficar durante o dia.” “Não vim preparado para isso, talvez precise de alguma munição.” “Tenho algumas balas aqui, e um silenciador. Você vai precisar se encontrar algum ser de outro planeta perdido da horda e não quiser chamar atenção. O que você tem?” “Pilhas AA e algumas frutas.” “Faz tempo que não como alguma coisa que não seja enlatada.” “Que tal um pente de balas por duas mangas e o silenciador por uma pilha?” “O que eu vou fazer com uma pilha?” “Carregar o rádio?” “Não. Estou com fome.” “Ok, um repolho e duas cenouras. Já é uma sopa.” “Isso mesmo, vai ter festa com as crianças hoje.”
    Andar pela superfície mais que dobra o risco de encontrar com a morte em pedaços. Os seres de outro planeta poderiam não ver no escuro, ou enxergar mal, mas eles estavam lá e as naves pairavam literalmente sobre a cabeça dele. A ideia de Neb era conseguir chegar até o limite da cidade com a floresta e arrumar um lugar seguro para passar o dia. Ele usou os túneis do metrô para atravessar o centro da cidade e emergiu na saída da avenida perimetral. Andou cerca de trezentos metros se arrastando por entre os carros batidos e as ruínas até perceber que uma nave de luz vinha escoltando uma horda no sentido contrário da avenida. Carros eram arremessados contra os prédios e grunhidos de horror podiam ser ouvidos cada vez mais perto. O chão tremia. Neb virou em uma rua transversal e começou a procurar um lugar escuro para se esconder. Do outro lado da rua veio um assobio de bem-te-vi. Seguindo o som desesperadamente ele percebeu que os escombros eram um cemitério. A face de uma mulher apareceu de uma das criptas e sinalizou para ele. “Aqui, aqui.” “Preciso de um lugar para ficar até a próxima noite.” “Entre aqui e espere até a horda passar.” Neb viu uma escada e desceu para escuridão. Nunca imaginou que se sentiria tão seguro dentro de uma cripta. O chão tremia com a horda passando. Neb e a sentinela urbana se abraçaram unidos pelo medo. Antes que pudessem perceber o que estava acontecendo os dois estavam transando como se aquele fosse o último ato de suas vidas.
    Quando Neb acordou ainda era dia e a luz iluminava a escada da cripta. Lá fora os barulhos da destruição não cessavam. Eles estavam no subterrâneo, o que sempre era mais seguro. Ele levantou, descascou duas laranjas, dividiu um pão e acordou a sentinela, com um beijo, para o desjejum. “Estou indo para oeste, na fronteira com a floresta. Ia pelos esgotos, mas os túneis ruíram.” “Você não soube que as tribos do oeste foram dizimadas?” “Como assim?” “Foi há dois dias. O seres de outro planeta fizeram o demônio lá depois que uma horda foi destruída por um ataque surpresa da tribo da floresta com os homens das cavernas. Eles eram mais de mil e tinham granadas. As notícias dizem que não restou mais nada.” “Preciso de maconha para suprir as fileiras do sul.” “Acho que você vai perder o seu tempo e arriscar a sua vida indo até lá.” Como agradecimento pelas informações Neb deixou uma bebida para a sentinela urbana e se negou a abandonar seu ‘plano A para’ se juntar a resistência urbana. As tropas do sul precisavam de maconha para elevar a moral, o único lugar que ainda tinha era nas terras das tribos da floresta, e sua missão era voltar carregado. As tribos da florestas eram muitas, se mantém por lá desde o começo da invasão, sobreviveram a outros ataques, alguém teria sobrado.
    Rastejando pelos escombro Neb conseguiu chegar até o limite da floresta. Havia uma cortina de luz suspensa cercando as fronteiras das árvores. Ele nunca tinha visto aquilo. Pensou que poderia ser uma armadilha, então arremessou um pedaço de pau. Nada aconteceu. Então ele correu na direção da floresta. Foi desviando de árvores até perceber que não tinha mais nenhuma delas. A floresta tinha virado um chão de terra batida. De repente um banho de luz cegou seus olhos. Neb olhou para cima e viu uma nave que irradiava mais luz que o sol. O som da horda de seres de outro planeta chegando fez uma poeira subir no horizonte. Ele se virou e começou a correr na direção das árvores. Se escondeu atrás de uma e esperou eles se aproximarem. No fim Neb conseguiu descarregar todo seu pente de balas antes de ser desmembrado.
  • A nova onda cyberpunk

    Diferente do que afirmam os críticos, a morte do cyberpunk foi anunciada com certos exageros. O pós-cyberpunk, movimento no qual a tecnologia e a sinergia entre homens e máquinas é considerada algo possível, ao menos até o momento continua sendo uma utopia cibernética e não uma realidade concreta. A alta tecnologia e a baixa qualidade de vida é algo muito mais palpável. O cyberpunk não cria ilusões, revela fatos diários.
                Quando a Darda Editora se propôs a explorar esse subgênero da ficção científica, o mundo e a liberdade criativa para criar histórias nessa realidade foi imensa, e também envolvente. No total, oito autores foram selecionados. Já conheço até o trabalho de alguns deles, pois já fui seus colegas em outras antologias. Recomendo esse livro pelas novas abordagens, dramáticas e catárticas nesse livro.
                O primeiro conto é escrito pela Aline Cristina Moreira, e se chama Ilusões. Esse texto nos mostra como a tecnologia é muito frágil para substituir as relações humanas, cada vez mais artificiais. Não posso falar mais, senão correrei o risco de revelar o final da história. Foi uma leitura assustadora.
                O segundo conto é o meu, Assalto ao Banco Genoma, um hacker baiano recebe uma bolada em criptomoedas para assaltar um banco de registro de DNA para um nobre europeu. Mas enquanto ele invade o BG, uma força tarefa chega ao seu quartel general. Não gosto muito de comentar meus próprios contos, mas eu fiquei muito satisfeito com esse aqui.
                O conto do Cesar Luis Theis, o Nuances da cyber-sociedade, a alta tecnologia tem o mesmo status de uma droga, pois o seu uso é viciante, gera dependência e problemas psíquicos no seu usuário. Foi o trabalho mais coeso, com começo, meio e fim bem claros. Ficou muito nítido em qual mundo a narrativa se desenvolvia, o conflito entre hacker e máquina foi sensacional, usando xadrez como plataforma de combate. Melhor conto.
                Sangue e circuitos de Fabiana Prieto trouxe uma narrativa deja vú, a história parece se repetir em seu final, se tornando um anticlímax. Pareceu mais um prólogo de um romance do que um conto, ao menos me pareceu assim. O conto tem uma ótima ambientação, e se peca pelos personagens com pouca personalidade, a autora tem um ótimo argumento em mãos para desenvolver uma prosa maior.
                Jonnata Henrique é um dos poetas e contistas mais prolíficos que conheci, e um dos mais talentosos também. A história de O setor 469 também tem um ótimo cenário, uma típica distopia com um plano de fundo cyberpunk. Depois de uma Terceira Guerra Mundial, a população diminui para metade e ocorre a chipagem dos seres humanos. O setor 469 usa um programa de testes de robôs militares, e para isso, usa presidiários. Apesar do conceito ser instigante, a obra é muito curta, e termina com muitas pontas soltas. Careceu de um melhor desenvolvimento.
                Fuga na Cidade de Neon de Rafael Danesin trouxe a narrativa mais dinâmica e final mais aterrador da coletânea. Joh Haarp (que devido a flexão de dois gêneros não tive certeza se era um homem ou mulher) está fugindo de sua crio-prisão. Como um lobo solitário fugindo dos caçadores, o fugitivo causa um grande estrago na cidade, sempre com tiradas satíricas e sagacidade.
                Suellen Silva traz Vida de Cão. A história é simples, tem um cão-robô como protagonista. O cyberpunk é um gênero permeado pelo conflito entre o homem e tecnologia, o indivíduo e a sociedade, corporações umas contra as outras. Trazer esse conflito através de um novo olhar nos tira da zona de conforto.
                Fantasy and Dreams é o conto do Tauã de Lima Verdan Rangel, e fecha a antologia. Confesso que de todos esse foi o conto que eu menos gostei. Embora ele seja o de maior quantidade de páginas, não em pareceu que ela foi desenvolvida muito bem. A narrativa em primeira pessoa deixou vários pontos em branco. Personagens foram citados como numa lista de supermercado, mas não tiverem desenvolvimento de personalidade ou ações claras na trama. Outro conto que parece um prólogo de uma narrativa maior.
                Esse é o meu primeiro livro publicado com a editora, não sei porque, mas o livro demorou muito para ser editado. O livro tem apenas oito contos, eu sempre espero que a antologia tenha no mínimo cem páginas, esse é o maior pecado da antologia. A diagramação do livro não está ruim, mas uma segunda edição necessitará de uma melhor revisão, me pareceu que o livro foi editado às pressas, mesmo com cinco meses de produção e apenas 60 páginas. Inclusive eu achei que eles mudariam a capa, ele não instiga muito a leitura. O livro te orelhas, marcador de página exclusivo. Miolo em papel offset 70, capa papel cartão 200. Se você quer acompanhar mais um dos meus trabalhos ou se você gosta mesmo de cyberpunk o livro é sua pedida.
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  • A Riqueza Salva

    No começo a tecnologia era vista com entusiasmo. O futuro era visto de maneira brilhante com diversos inventos fantásticos, muitos deles estranhamente ligados ao atributo de voar. Parecia algo surreal e mágico substituir as rodas por nada, podendo admirar de maneira simples toda a beleza que um pássaro vê cotidianamente. Mas o pessimismo foi lentamente tomando conta das mentes e o futuro passou a aparecer de maneira sombria.
    Alguns apostavam no aquecimento global, outros em um vírus mortal que é liberado sem querer de algum laboratório, e ainda tinha aqueles que acreditavam que as máquinas iriam adquirir inteligência e dominar o mundo. O grande problema é que tudo isso desconsidera o fator humano. Há muito já se discutia se era a sociedade a responsável pela maldade humana ou se nós já nascemos assim. A resposta, embora importante, só revela que somos maus. E, sendo maus, nós temos que ser o grande protagonista do nosso fim, pois, se não for assim, provavelmente não é o fim.
    Esse pessimismo mostra que, tanto para o pobre como para o rico, o mundo iria acabar num futuro próximo. Talvez não o mundo, mas com toda a certeza pelo menos a existência da raça humana. O grande problema é que os pobres não têm muito poder de ação individualmente e juntar todos a nível mundial para ter alguma mudança é um trabalho muito árduo, difícil e alguns até diriam que impossível. Mas os ricos estão em um número bem menor e o dinheiro deles carrega um poder quase sobrenatural.
    Tudo, como sempre, começa com o medo. Basta uma pandemia para que a venda de bunkers dispare como se fosse um sinal do final dos tempos. Os bilionários acabam desabafando com os seus amigos, que também são bilionários, sobre esse pessimismo e percebem que é um sentimento comum. E, talvez durante uma conversa no balcão de um bar enquanto bebem um whiskey mais caro do que um carro popular, acabe surgindo ideias de como sobreviver a tudo isso sem perder a qualidade de vida. No princípio, as ideias pareciam absurdas, mas vão se complementando. No fim, fica um silêncio constrangedor. Os pensamentos foram longe demais, reais demais e sedutores demais. Afinal, por que não? É só a morte, a velha companheira que está direta ou indiretamente presente em nossas fortunas e em nosso conforto. Por que não pode participar da nossa riqueza e conforto eternos? E não é difícil conseguir gente o suficiente. Basta convencer as 26 pessoas mais ricas do mundo que já terá poder o bastante e os outros terão que vir se quiserem sobreviver. Bilhões de dólares podem se livrar facilmente de bilhões de pessoas.
    A ideia era bem simples na realidade. Bastava continuar desenvolvendo a tecnologia como se nada de diferente estivesse acontecendo, mas lentamente ir acelerando esse ritmo. O foco principal era desenvolver a inteligência artificial para que ela conseguisse chegar ao ponto de criar as suas próprias invenções, além de máquinas que conseguissem substituir o trabalhador humano nas fábricas. Mas esse último era mais simples já que estava em curso há muito mais tempo. Depois disso, o segundo passo poderia ser posto em prática: a aniquilação de todos que não faziam parte do plano. Pode parecer algo complicado à primeira vista, mas só é necessário o caos inicial. É possível fazer isso de diferentes maneiras. Dá para envenenar lotes de sal e açúcar ou até mesmo o sistema de abastecimento de água de um país, sendo escolhido um veneno de ação lenta para que os sintomas fossem confundidos com os de alguma doença. Também dá para simular desastres naturais, como um enorme tsunami, ou diversos ataques terroristas atribuídos a grupos radicais de fachada. Por fim, mas ainda bem longe de terminar uma enorme lista, é possível criar eventos sobrenaturais como boa parte de uma cidade ter morrido eletrocutada durante uma enorme e súbita tempestade formada por uma bomba de pulso elétrico.
    Assim que o caos se instala, gerando a maior (e última) crise do capitalismo, o fim começa a caminhar por si só. As pessoas não veem o inimigo invisível e talvez não ligassem mesmo se o vissem. O mais importante para elas é não passar fome enquanto sonham em voltar ao estilo de vida antigo. Por isso se separam em grupos e começam a brigar entre si pelo mínimo de recursos. Eles mesmos começam a se exterminar para tentar sobreviver. E essa luta se torna ainda mais difícil porque a maioria das pessoas não sabe técnicas de sobrevivência, como produzir alimentos e nem como funcionam as coisas eletrônicas que usamos cotidianamente. Então só resta lutar pelas coisas que já foram fabricadas e, se tiverem sorte, encontrar algum grupo que detenha esses conhecimentos.
    Para os ricos essa fase também é um pouco tensa, pois é crucial. Eles têm que se manter escondidos até a poeira abaixar e proteger os meios de produção, pelo menos o suficiente para que possam reconstruir rapidamente as suas casas e fábricas. Mas essa parte não gerava tanta preocupação já que tinham uma avançada tecnologia e não precisavam chegar ao mesmo ritmo produtivo de antigamente. Cada um era responsável pelo seu esconderijo e os principais eram debaixo da terra, em plataformas marítimas ou até mesmo debaixo do mar em submarinos de luxo. Assim que essa fase acabasse, seria possível deixar que a natureza se recuperasse sozinha devido as reduções drásticas com a super população e do problema da poluição. Na realidade, o próprio fim do capitalismo levaria consigo a maior parte dos problemas. Como os próprios bilionários diziam com suas vozes pomposas e orgulhosas: “Esse é um amargo remédio, mas é a única esperança para a sobrevivência da humanidade e do planeta”.
    No fim dessa fase, a própria inteligência artificial começaria a planificar a economia para decidir o que seria produzido, o local de produção, a quantidade e para quem ia primeiro com base na logística e em qual plano seria o mais rápido para recuperar a luxuosa vida de todos. É claro que ainda havia desafios, afinal alguns sobreviventes, que os ricos apelidavam de baratas, ainda andavam e sobreviviam nas ruínas das cidades. Por sempre andarem escondidos, não havia um censo de quantos ainda resistiam ao domínio mundial dos ricos. Ao todo 15 milhões de milionários foram chamados para participar do plano criado pelos bilionários e logicamente todos aceitaram. Como podiam abrigar a sua família e alguns amigos, o número de sobreviventes ricos deveria rondar os 40 milhões, mas muitos não aguentaram carregar a culpa e acabaram se suicidando. Já outros tentaram sair dos seus esconderijos muito cedo para reconstruir a sua vida normal e acabaram assassinados. E ainda teve aqueles que não se esconderam muito bem, foram encontrados e mortos por baratas famintas. Ao todo devem ter restado uns 25 milhões de ricos espalhados pelo mundo.
    Um desses ricos era Thomas, um homem que fez sua fortuna no mercado tecnológico após criar uma startup de investimentos. Ironicamente o slogan da empresa era “Sobreviva como um rei, invista com a gente e faça a sua fortuna”, mas ele deve ter sido o único ligado ao aplicativo que continuava vivo. Ele tinha uns 25 anos e 1 filho pequeno no momento em que o plano de extermínio foi posto em prática. Quando sua mansão superprotegida estava pronta, saiu do seu luxuoso bunker com um pouco mais de 65 anos e 5 filhos. Mas se alguém o visse na rua em um dia qualquer provavelmente acharia que ele tinha uns 40 anos. As dicas e tratamentos de beleza que a inteligência artificial oferecia eram valiosos, ajudando os ricos a terem uma vida longa e saudável. Além disso, ela criava um belo conteúdo de entretenimento a partir dos gostos dos moradores, o que evitava a culpa e o estresse, influenciando e muito na aparência deles.
    Já o contrário parecia acontecer com Isaac que tinha somente 30 anos, mas aparentava uns 50. Ele nasceu durante a época do extermínio, então era mais fácil lidar com a realidade já que nunca viveu nada diferente do caos. O estresse e a culpa eram sentimentos cotidianos, sempre estando misturados com a raiva e frustração. Ele era negro e seus músculos eram definidos, mas isso acontecia mais pela desidratação e uma dieta irregular do que por uma rotina dedicada a musculação. A barba e o cabelo eram aparados com uma faca sempre que atingiam comprimento o suficiente para puxar e cortar, os deixando com uma aparência de ninho de pássaro. Os cuidados com os dentes eram precários, mas o suficiente para deixá-los lá. Tanto o cheiro do corpo como o das roupas eram azedos, pois ninguém confiava na água dos rios desde o envenenamento em massa. A preferência era sempre pela água das chuvas e somente em épocas de estiagem era que a água do rio era usada, mas sempre com cautela. Embora não tenha vivido a parte mais bruta do extermínio, sempre ouvia as histórias do pai e seguia os seus ensinamentos como se fossem regras canônicas.
    O seu pai, que se chamava Francisco, morreu quando ele tinha apenas 15 anos, enquanto a sua mãe morreu dando à luz. Quando tudo era normal, ele era o mordomo de Thomas que preferia um humano tomando conta de sua casa do que um robô, além de acreditar que ajudaria o seu filho a ser mais empático ao crescer do lado de humanos. Embora fosse constantemente abusado verbalmente, Francisco não poderia se dar ao luxo de pedir demissão já que não tinha muitos empregos lá fora e a maioria das pessoas trabalhavam como autônomas. Ele achava engraçado como elas formavam quase um mercado fechado: autônomo vendendo para outro autônomo e assim todos vivendo de forma apertada, mas sobrevivendo.
    Era bem diferente de como Isaac vivia e, sempre que ele se lembrava das histórias do pai, ficava com uma sensação de que era um conto de fadas impossível de se tornar realidade. Ele vivia com um grupo de 4 pessoas, todas mais jovens do que ele. Eles moravam entre uma pequena floresta, que antes era um parque, e os escombros de um antigo prédio que ainda tinha parte de alguns andares em pé. O verde já tinha recuperado uma boa parte do cinza da cidade e, como o parque já tinha um grande número de árvores antes, nessa área a recuperação foi mais rápida. Eles dormiam em uma pequena cabana feita de lona com duas valas escavadas ao lado. Isso permitia que a água da chuva fosse captada mesmo quando ninguém estivesse no acampamento. Assim, eles conseguiam fazer trocas com grupos que moravam nos esgotos sempre que ficavam sem conseguir caçar alguma coisa no parque. A troca não era agradável, mas aqueles que moravam nos esgotos sempre tinham uma abundante criação de baratas e uma escassa captação de água. Pronto, a troca perfeita estava feita: um pote de água por um de baratas. No começo é nojento comer elas, mas você vai fritando, as observando e pensando em sua fome. De repente, param de ser tão nojentas e passam a ser desejáveis ao pensar na crocância do exoesqueleto sendo esmagado pelos seus dentes, no gosto salgado se espalhando em uma boca que não sente nada a dias e na satisfação de ter alguma proteína no seu estômago. Mas graças a Michelle, que era a responsável pela montagem das armadilhas no grupo, esse canibalismo nem sempre acontecia. Ela aprendeu tudo que sabia com a sua mãe e tentava passar para a sua irmã mais nova Micaella, mas ela sempre esteve mais interessada nas histórias do mundo do passado que Isaac contava. Já Yuri e Regis eram os responsáveis pela segurança e arrumação do abrigo, sempre pensando em jeitos de afastar outros grupos, além de deixar tudo limpo e funcional. Como era o mais velho, Isaac supervisionava todos e sempre preparava as refeições. Era um grupo bem limitado que foi formado pelos pais de Michelle e Isaac, mas que de alguma maneira inexplicável continuava sobrevivendo.
    Antigamente havia mais membros, chegando a ter 15 pessoas em seu auge. Porém, como o acampamento ficava muito perto da mansão de Thomas, muitos eram capturados e outros fugiam com medo de terem o mesmo destino. A última baixa do grupo foi Juan que, enquanto caçava com uma lança, foi visto por um drone que patrulhava os arredores da mansão. Ele tentou correr, mas, com o lançamento de um projétil menor que uma bola de gude e macio como uma pena, ele caiu no chão imobilizado. Logo depois foi recolhido por um robô que voava a poucos centímetros do chão e que era do tamanho de uma van. Alguns diziam que a pessoa capturada era torturada por informações assim que acordava, já outros diziam que virava fertilizante para a plantação de flores dos ricos.
    Na realidade, ninguém sabia o que acontecia dentro da mansão e nem como ela era por causa dos enormes muros que separavam as duas realidades. Era até amedrontador olhar para ele toda noite antes de dormir, pois, mesmo em meio a tanta escuridão, ele ainda se destacava como se fosse um corpo vivo que se aproximaria de você durante o seu sono e te mataria enquanto estivesse indefeso. Já durante o dia, ele perdia um pouco dessa magia. Embora só tenha visto a barragem de uma hidroelétrica em um antigo e acabado livro de geografia, Isaac imaginava que deveria ser muito parecida com esse muro, mas só que ao invés de ter comportas para liberar a água, tinha pequenos buracos por onde saiam drones de vigia e alguns outros robôs. Mesmo de longe dava para perceber a vegetação subindo pelo muro e um musgo verde se formando na base enquanto lutava contra o preto da sujeira. De resto, parecia ser originalmente cinza escuro e totalmente liso, sem nenhuma imperfeição à vista e sem nenhuma chance de ser escalado, pelo menos não antes de ser visto pelos gélidos vigias.
    Isaac pensava muito nesse muro e se lembrava de uma história que o seu pai lhe contou, mas que nunca compartilhou com mais ninguém. Segundo ele, era uma história perigosa demais para ser divulgada e que poderia comprometer a vida de muitas pessoas. Talvez até mesmo se tornando a nova lenda de El Dorado. Era sobre um dia de trabalho comum, bem cansativo como sempre, e ele preparava um chá para levar até a sala de reuniões de Thomas. Logo depois de bater na porta e entrar, ele viu uns engenheiros apresentando um projeto de uma bela mansão com grandiosos muros. Na hora ele achou que o senhor Thomas ia reformar ou se mudar para um outro terreno, então não se importou muito. Mas, graças a sua memória fotográfica, viu os mesmos muros se erguerem no final da fase bruta do extermínio. Isso não seria de grande ajuda se ele não tivesse percebido que a mansão do projeto era exatamente igual e no mesmo lugar que a mansão onde trabalhava. Portanto, deveria ser a mesma ou pelo menos ter a mesma base e, se for assim, provavelmente ainda teria o mesmo túnel de fuga entre o corredor do primeiro andar e o quintal. Ele tinha sido criado na época da 2º Guerra Mundial para ser usado se algum exército inimigo invadisse. Depois foi reformado ao longo dos anos para o caso de haver um golpe comunista. No fim, só foi usado por gerações e mais gerações de adolescentes para fugir de casa, mas mesmo assim ainda deveria estar lá. Isaac se lembrava de um desenho que o seu pai fez para ilustrar o que estava contando e onde mais ou menos deveria ficar cada coisa hoje em dia. E, logo quando terminou a história, pediu para que ele só tentasse usar essas informações no momento em que soubesse que estava sem saída, pois as chances de morte eram muito maiores que as de sucesso. Ele falava que era como apostar na loteria, mas Isaac nunca entendeu muito bem essa expressão.
    Ele guardou esse segredo durante anos, tentando descobrir quando era a hora certa já que havia só uma tentativa antes do boato se espalhar ou se perder para sempre. Guardou até que Micaella foi capturada enquanto verificava se as armadilhas tinham pego algum animal. A sua irmã estava longe e não pôde fazer nada. Michelle ficou chorando durante uns dois dias seguidos, se culpando e imaginando pelo o que a sua irmãzinha estava sofrendo. Via ela em todos os cenários que diziam ser o destino dos capturados, mesmo sabendo que a maioria eram apenas histórias para assustar os mais jovens. Mas talvez alguma fosse verdadeira, não é? Alguma tinha que ser a verdadeira. Talvez não criassem as pessoas como gado para o abate e nem lutavam até a morte entre si para entreter os ricos, mas com toda a certeza morriam. Esse era o final de todas as histórias.
    Nesse momento, Isaac teve que admitir pela primeira vez que estava sem saída. Na realidade, há muito tempo não tinha nem sequer um caminho para o qual poderia seguir. Ver o seu grupo definhar ao longo dos anos e estando mais perto da extinção a cada dia doía como uma ponta de lança presa em sua carne, então Isaac teve que contar a história para o grupo. A decisão não seria dele, mas havia somente duas opções: eles podiam ir para o mais longe possível do muro e esquecer tudo ou podiam ficar, tentar invadir e torcer para não morrer. Houve um pouco de revolta por ter contado isso só agora, mas ele sabia que o tempo faria com que todos entendessem o porquê de ele ter escondido. Mas, como estavam cansados da realidade e do terrível cotidiano, decidiram lutar ao invés de fugir e assim começaram a elaborar o plano para a invasão.
    No dia seguinte, tudo que foi planejado já começou a ser colocado em prática. Eles entraram no esgoto logo após o parque e seguiram por ele até ficarem a mais ou menos uma quadra de distância do muro. Eles sabiam que entrando depois do parque não iam se deparar com nenhuma outra pessoa porque ninguém era tão louco de chegar tão perto daquela muralha amaldiçoada. O cheiro não era o pior do mundo já que não recebia esgoto há muito tempo, mas mesmo assim a sensação de ser algo sujo e nojento ainda prevalecia. Para organizar o trabalho, eles se dividiram em duplas que iam trabalhar por 12 horas seguidas. Isaac e Michele ficaram com o primeiro turno, o que foi um alívio já que ela era a única pessoa com quem conseguia ficar em silêncio sem se sentir constrangido. Com os outros dois, sempre parecia que algo estava errado e precisava ser preenchido com papo furado. Portanto, essa divisão seria ótima já que as conversas somente atrasariam o imenso trabalho que teriam pela frente.
    Em uma escavação todas as partes são difíceis, mas a mais difícil sempre é a que você está fazendo naquele exato momento. E, nesse caso, o começo era a parte mais difícil. Isaac tinha que calcular exatamente o ângulo em que o túnel tinha que seguir para atingir a passagem subterrânea do quintal. Depois de conferir milhares de vezes o mapa e ouvir diversos “não sei” de Michelle quando perguntava se estava certo, marcou com algumas pedras a direção e ficou feliz em perceber que era onde o concreto do esgoto estava cedendo. Ele trabalhou durante uma hora e conseguiu atingir a parte de terra do túnel. Michelle continuou e conseguiu fazer o comecinho da passagem. E assim eles foram se revezando de 1 em 1 hora para que pudessem descansar um pouco. Eles marcavam o tempo com uma ampulheta improvisada a partir de uma antiga garrafa pet e escavavam com pedaços de metal antigo presos em pedaços de madeira que originalmente seriam utilizados em armadilhas. Não eram as melhores ferramentas e quebravam facilmente, chegando inclusive a fazer alguns cortes quando a parte de ferro soltava com um golpe forte, mas era o melhor que podiam fazer.
    Quando acabou o seu turno e pôde voltar para o acampamento para descansar, só queria ficar deitado na terra amaciada pela grama e olhar para o céu enquanto ainda tinha a chance. Logo ele iria cair no sono, acordar e voltar para a escuridão. Ele tinha medo de voltar para lá. Não um medo paralisante, mas um que embrulha o estômago e te deixa trêmulo. O máximo de luz que eles tinham era um pouco de gordura que eles deixavam queimar no meio do caminho. O cheiro de animais em decomposição predominava, se sobrepondo ao cheiro de terra úmida. E, por estar fazendo bastante esforço físico, era obrigado a respirar mais vezes, sentir esse cheiro pútrido invadir as suas narinas e dominar a sua mente. Mas o que o deixava mais irritado era saber que ia demorar e que provavelmente já seria tarde demais para encontrar Micaella viva. E a cada dia que passava, a demora só irritava ainda mais. O problema não era mais a intensidade do trabalho, mas a longa distância que estava se formando. Os turnos tiveram que passar de 1 hora por pessoa para 3 horas porque simplesmente demorava muito para se rastejar até o fim do túnel. As discussões aumentaram e a maioria tinha Isaac como alvo, indo desde o quanto cada grupo estava escavando até questionamentos em relação a direção em que estavam seguindo. Mas todos que discutiam não acreditavam realmente no que falavam, era só uma forma de se livrarem de toda a raiva e frustração que acumulavam. Eles precisavam descontar em alguém porque também tinham medo de ter tomado a decisão errada. Tinham medo de ter escolhido a morte e literalmente estarem cavando o seu próprio túmulo.
    Depois de 1 semana e meia trabalhando 24 horas por dia, Isaac fincou a sua pá na terra e ela quebrou ao se chocar com o concreto. Ele fechou os seus olhos enquanto a sua pupila olhava para cima, respirou fundo e sentiu uma lágrima caindo do seu olho direito. Finalmente tudo estava próximo de acabar, seja de uma maneira boa ou ruim, mas acabar. Os próximos passos já estavam traçados e prontos para serem postos em prática no pôr do sol, logo quando os pássaros começam a cantar. Enquanto Isaac quebrava o concreto e invadia a mansão, o resto do grupo iria se separar em volta do muro e começaria a queimar uma série de bonecos de palha para distrair uma parte dos robôs responsáveis pela segurança. Logo depois disso, os três iriam se reagrupar dentro do parque e esperar o sinal de Isaac. Seria algo simples, talvez até invisível para alguém com olhar desatento. Ele faria uma fogueira dentro dos muros e pela primeira vez todos que estavam lá fora veriam fumaça saindo da fortaleza. A lenha seria os corpos dos ricos que moravam lá. Talvez possa parecer radical, mas o único jeito de uma barata não morrer é quando o exterminador tem medo dela. Ele tinha certeza que essa história se espalharia e faria com que todos os ricos temessem as baratas novamente.
    Logo após o primeiro pássaro piar e chamar todos os outros para o céu numa revoada que passa dançando pelas nuvens, as faíscas começam a surgir em bonecos de palha e os drones se juntam aos pássaros. O som surdo de uma haste de metal sendo golpeada rápida e sucessivamente por uma pedra encoberta de panos ecoa baixinho pelos esgotos. O suor descendo pelo rosto de Isaac como se ele tivesse acabado de sair de uma chuva não negava o esforço que ele fazia na luta contra o concreto. No começo, o seu adversário resistia em ser perfurado, sendo desgastado lentamente, mas, quanto mais era danificado, maiores eram as lascas que caiam. Depois de meia hora, já conseguia ver a luz do outro lado e bastou só mais 20 minutos para que conseguisse passar pelo buraco. Enquanto se espremia para alcançar o outro lado, sentia as lascas de concreto arranharem cada centímetro do seu corpo e o sangue quente brotando com ardência em alguns dos cortes. A primeira parte do corpo a sentir o cimento frio do outro lado foram as suas mãos e logo depois os pés, deixando o buraco para trás.
    Antes de prosseguir, Isaac decidiu ficar sentado por uns cinco minutos no chão para descansar e aproveitar o sorriso debochado que se formou em seu rosto após essa primeira conquista. Estava dentro. Não era um túnel grandioso e requintado, mas era do lado de dentro dos muros. Tudo à sua volta era cinza e escuro. A única iluminação eram pequenas luzes de emergência grudadas na parede separadas por uma distância tão grande que não iluminava todo o túnel. Mesmo assim pareciam grandiosas para alguém que viu somente alguns poucos LEDs no decorrer de sua vida. Chegavam a ser tão fascinantes que até o hipnotizavam por alguns segundos. Mas chegou a hora de se levantar e continuar, então tirou uma faca do cinto e começou a andar silenciosamente. Ele saia da luz de uma lâmpada, entrava na escuridão e seguia o caminho até encontrar outra luz mais adiante. Isso se repetiu umas dez vezes até encontrar uma grande porta de ferro na sua frente com um enorme leme grudado nela e que era usado para trancá-la. Ela estava com limo em algumas partes e já dava para ver sinais de ferrugem lutando contra a sujeira. Isaac sabia que seria difícil de girar e puxar a porta, então deixou a faca no chão, respirou fundo umas três vezes e jogou todo o seu peso contra o leme o forçando a girar no sentido anti-horário. Depois de alguns segundos sem se mover nem um milímetro, um clique foi ouvido e a roda começou a girar lentamente. Quando não conseguia mais girar, puxou a porta com toda a sua força até que tivesse espaço o suficiente para passar. Os rangidos soltados por ela o faziam praguejar em sua mente com todos os palavrões que sabia. Não tinha como fazer silêncio nessa parte, então só podia torcer para que ninguém ouvisse.
    O lado de dentro da porta era mais brilhante. Essa foi a primeira coisa que percebeu quando chegou ao outro lado. Logo depois, pegou a faca e passou um pé de cada vez pela porta. O piso era de uma madeira lisa e o ar, que no túnel era frio, estava em uma temperatura perfeita, nem quente e nem frio demais. A sua direita tinha uma escada com uma porta de madeira no topo e a esquerda havia dezenas de barris na horizontal com torneiras fixadas na tampa. E bem na sua frente tinham fotos em preto e branco de pessoas sorrindo. Demorando um pouco para juntar as letras, viu que em cima delas estava escrito “Mural do agradecimento”. A voz da mãe de Michelle surgiu em sua cabeça falando “Os ricos são pessoas estranhas, cada um tem a sua excentricidade.”. Essa foi a resposta dela quando Isaac perguntou porque existiam drones que tentavam machucá-los. E agora ecoava em sua mente. Talvez por isso decidiu se aproximar e olhar quem eram. Foi passando o olho rapidamente em cada uma das fotos. Como não reconhecia ninguém, pensou que poderiam ser os bilionários que participaram do plano ou dos descendentes de Thomas. No momento em que chegou na última foto, já estava preparado para fazer o movimento de voltar e subir as escadas, mas parou. Os seus músculos paralisaram totalmente e o único movimento que aconteceu nos segundos seguintes foi uma lágrima rolando do seu olho esquerdo. A foto era de Micaella. Ela estava mais limpa e com o cabelo arrumado, mas com o mesmo sorriso que dava quando Isaac contava as histórias do passado. Ele reconheceria esse sorriso em qualquer lugar porque normalmente era a única parte do seu dia que valia a pena. Às vezes era o que o fazia ter esperanças.
    A raiva, que já era grande, só aumentou. Ele fechou os punhos com força e limpou a lágrima. Não queria ver mais nada lá embaixo, só acabar com tudo. O mais rápido possível de preferência. Então subiu as escadas, abriu a porta e seus olhos se fecharam com a luz intensa. Aos poucos seus olhos se acostumaram e começou a identificar o local. Era como um corredor largo e decorado com um papel de parede branco com formas amarelas retorcidas, como se estivessem dançando. Havia três quadros bem coloridos, mas sem nenhum desenho em específico. Mas o que mais o fascinou foi o tapete. Ele era bem peludo e, quando colocou os pés nele, foi como se estivesse sendo absorvido pela areia molhada depois de uma onda. Era acolhedor, mesmo estando em terreno hostil.
    Depois de se acostumar, tinha que decidir se iria pela esquerda ou direita. Não tinha nada que indicasse o caminho certo, então foi para a direita. Os seus passos eram lentos. Bem lentos. Um pé de cada vez. Sem se apressar. E assim chegou perto de uma porta que estava em uma completa escuridão. As palmas da sua mão suavam e molhavam o cabo da faca enquanto o medo aumentava. Respirou fundo e deu um passo para a frente. Poucos centímetros antes do seu pé encostar no chão, viu uma sombra surgindo na sua frente. Em um movimento rápido e puramente instintivo, levantou o braço até a altura do queixo e tentou atingir a sombra com um golpe de faca no peito. A sombra foi mais rápida, golpeou com uma das mãos a articulação do braço e com a outra forçou a faca a se voltar contra o corpo de Isaac que a sentiu perfurando o seu estômago. Uma ardência mortífera se espalhou por onde a faca passou e, mesmo quando a soltou, ela continuava pendurada em sua barriga. A única reação que conseguiu ter foi dar alguns passos para trás e se apoiar na parede. Isso fez com que a sombra andasse para a frente e se revelasse. Ela tinha o rosto de alguém morto. De alguém simplesmente impossível. Enquanto começava a engasgar com o seu próprio sangue quente, via o seu pai com um terno preto e com uma aparência bem mais jovem se aproximando. Era ele que o tinha esfaqueado, mas era impossível que estivesse ali. Isaac o viu morrer em seus braços há 15 anos atrás e, mesmo se não tivesse, ele não o mataria, não o seu pai. Os pensamentos de Isaac já não fluíam de forma ordenada quando aquela coisa se aproximou de seu ouvido e falou com uma voz calma e familiar “O Sr. Thomas não gosta de baratas em sua casa, então vou ter que pedir para se retirar.”. Ele torceu a faca logo depois da última palavra e uma pontada de dor se irradiou pelo seu corpo como se tivesse sido atingido por uma forte corrente elétrica. A última reação de Isaac foi encostar no pescoço de seu pai e encarar os seus olhos enquanto a escuridão se aproximava. Não existiam batimentos em seu pai e logo não existiriam nele mesmo. A sua cabeça caiu pesadamente para frente e os seus olhos ficaram abertos, mas não enxergavam nada além da escuridão.
  • Abandonados

    O sol estava quase se pondo, e começava a esfriar. Era hora de juntar as ferramentas e ir pra casa. Já havia refeito a cerca e checado o propulsor, não havia perigo essa noite. Papai instalara esse mecanismo há alguns anos, custou quase dez meses de trabalho, mas valeu a pena. Nessa época do ano os ataques de radús aumentavam. Talvez por causa do frio, que congelava as partes mais distantes da floresta, e fazia os outros animais fugirem. Eles gostavam de atacar em bando, e quando estavam reunidos representavam perigo a todos, inclusive a nós. Mas agora estávamos seguros, por enquanto...
    _Will... onde está seu irmão?
    Os arus já começavam a cantar, anunciando a chegada da noite. Minha mãe estava trancando a gaiola dos macucos quando me viu chegando. Carregava apenas algumas ferramentas, as outras deixei no caminho, apesar de meu pai sempre reclamar, dizendo que isso as oxidava. Estava ficando frio.
    _Não sei... pensei que tivesse voltado. Me deixou sozinho fazendo a cerca e sumiu.
    O olhar de preocupação ficou estampado no rosto dela. Não era seguro para uma criança andar durante a noite pela estância. Sabia onde poderia encontrá- lo, e não tardei em ir. Queria chegar antes do anoitecer e a tempo de ouvir músicas com meu pai.
    _Ele deve estar na represa. Vou lá buscar ele, já volto...
    _Cuidado Will! Não se esqueça de ligar o propulsor quando voltar.
    A porta da gaiola estava emperrando há alguns dias, por isso mãe custara a trancá-la. Era um trabalho para a próxima semana. Saí em disparada pela trilha que levava á represa. O lugar ficava extremamente frio á noite, e os gralhos cantavam em conjunto, causando um som horrível.
    Nadic estava jogando pedaços de rochas queimadas na água. Provavelmente nem se deu conta do quão tarde havia ficado. Ele era o caçula da casa, o protegido, meu irmão. Nunca me importei de zelar por ele, afinal era minha responsabilidade.
    "Irmãos tem que ser unidos"
    1
    Meu pai disse isso quando Nadic nasceu, e dizia algumas vezes mais. Sabia o quanto era importante ter um amigo ao lado, e ninguém seria mais amigo que um irmão.
    Gritei Nadic, e acenei com o braço para que viesse. Atirou sua última pedra na água e veio, num leve galope. Já havia escurecido, e não era bom ficar fora da cerca durante a noite. Tratei de apertar o passo, mas Nadic não acompanhava. Então joguei a isca que funcionaria.
    _Quem chegar por último tem que dar banho no Solomon amanhã.
    Ninguém gosta de se molhar enquanto tenta dar banho num animal de quase dois metros. Era de longe o pior trabalho a se fazer, para crianças. Os adultos tinham coisas um pouco mais difíceis.
    _Não vale, Will... você estava na frente quando falou. Espera!
    Não parei de correr. Não pela fuga do serviço, que no final das contas seria meu de qualquer forma. Nadic era muito pequeno e fraco para dar conta do Solomon. Queria apenas chegar rápido em casa, e assim ouvir a rádio com papai, como fazíamos todas as noites.
    _Ei, Will... espera! Will, tem alguém aqui.
    Estava bem á frente quando Nadic parou. Podia ser um truque, parando para esquecermos o desafio, mas não era o que parecia. Ele estava parado, e olhava fixamente a lavoura de linhais. Dizia insistentemente que havia algo ou alguém ali. Não conseguia ver nada, mas seus olhos estavam estáticos, buscando e agonizando por algo.
    Um barulho...
    Seja o que for que Nadic tenha visto, certamente não estaria ali amanhã. Um grupo de radús descia o bosque, emitindo sons enlouquecidos. Estavam famintos, e se não corrêssemos muito seríamos devorados naquela noite.
    Nadic continuava olhando o linharal, sem sequer perceber os gritos e uivos atrás de nós. Ele estava em outro lugar, parecia dormir e sonhar profundamente, acordado e de pé.
    Peguei-lhe pelas pernas e joguei nas costas. Logo saí da trilha, pegando o caminho mais rápido até a proteção da cerca. Conseguia ouvir as batidas dos dentes ferozes atrás de nós. Não daria tempo. Um deles estava muito perto, quase chegando...
    Corre Will! Corre!
    2
    Minhas pernas doíam e estavam rígidas no frio. Não conseguiria correr muito além daquilo, iríamos morrer ali, devorados por um bando de radús de dentes afiados.
    Mudei meu curso outra vez e agora corria rumo ao poço dos cânions. Se conseguisse pular em seu interior estaria livre dos radús. Eles não suportavam o contato com a água durante a noite. As nascentes se congelavam e liberavam gases de alta densidade, mantendo o solo coberto por uma nuvem branca e tóxica.
    Sabia. Não tinha outra escolha, não uma melhor.
    Eu poderia tentar a fragmentação, mas era quase impossível; não a dominava plenamente, e Nadic menos ainda. O máximo que já tínhamos conseguido metamorfosear fora uma mão, ou meio braço, nunca mais do que isso. O grande problema não era fazer, mas refazer; e o que fazer depois de mudar. Isso poderia nos matar tão rápido quanto os radús.
    Não iríamos conseguir, eles estavam atrás de nós, e Nadic pesava muito. Num último impulso joguei-me com Nadic no poço, sem me atentar que ele poderia estar congelado. Batemos forte na superfície coberta por uma fina camada de nitrogênio. A camada rompeu e afundamos...
    3
    _Onde estão os meninos? Will me falou sobre ouvirmos...
    As palavras de Moorse perderam-se quando se deu conta do que estava acontecendo. As crianças não haviam voltado, estavam lá fora, no frio, e talvez fora da proteção do propulsor.
    _Will foi buscar Nadic. Já deviam ter voltado, ele falou que iria rápido, mas até agora...
    _Calma, vou lá. Eles devem estar dentro da cerca, não há perigo.
    Moorse soltou Solomon e com o caminho clareado pelo farol da fazenda partiu em busca dos filhos... ou de seus corpos.
    A cerca estava reerguida, como havia pedido para Will fazer pela manhã, mas o propulsor estava desligado. Acionou outro feixe de luz, clareando o caminho além da cerca. Não via nada, nem as feras.
    Deixou Solomon seguir o rastro, farejando e deixando saliva por onde passava. O que quer que fosse, levaria Moorse a algum lugar. Talvez rastreasse os radús, ou os meninos, e quem sabe ambos.
    4
    O caminho farejado saía da trilha e seguia pelo campo, dirigindo-se ás antigas estalagens da estância, onde estavam o velho moinho e o poço abandonado. Nenhum funcionava, e tampouco eram acessados. Radús subiam o morro correndo, e então Moorse soube que Solomon havia os seguido. O animal parara de farejar, parecia ter chegado no fim do rastro, e agora estava sentado com as orelhas erguidas e atendo, olhando para o alto do casebre, já caindo aos pedaços. Demonstrava haver algo ali, mas Moorse não deu atenção.
    Seguiu caminhando até o poço, e viu a superfície se reconstituindo no meio. Parecia ter sido quebrada ou rompida por alguma coisa.
    Aproximando-se não pôde ver nada. Então ouviu uma pancada, de dentro para fora, vinda do poço. Havia algo ou alguém ali. Moorse não se moveu, apenas observou. Foi então que viu parte do rosto de Will comprimido contra o nitrogênio congelado, gritando desesperado.
    Moorse olhou para o poço, aproximando-se. Ficou despido, sem se importar com o frio ou com o vento em volta. Solomon observava, apenas grunhindo, lambendo o focinho e se deitando. O que outrora fora um ser corpulento e pesado, desfizera-se gradativamente, e agora feito líquido escorria lentamente para o poço.
    A camada de nitrogênio começara a gasificar, e a superfície do poço voltava a ficar líquida. Will e Nadic boiavam e eram levados para fora do poço, agora puxados por Solomon. Quando a fumaça se desfez, havia água escorrendo. Moorse agora surgia deitado no canto. Seu corpo voltara a ser o mesmo, num incrível processo de materialização.
    Nadic estava desacordado, tremendo, e enrugado. Will conseguiu se manter desperto, mas não totalmente. Moorse sentiu-se feliz ao ver o filho mais velho dormir a tempo de não ver o quanto a tentativa de fragmentação lhe havia custado.
    Seguiram pela trilha desta vez, sob a luz dos faróis. Nadic nas costas de Solomon; Will nas costas de Moorse, o braço estava pela metade, enrolado na camisa do pai, e a parte esquerda do rosto estava coberta.
    Fechou-se a cerca e o propulsor foi acionado.
    Seguiram rumo á casa.
  • ACID+NEON VOL.2

    “A neblina se agita rasgada por uma histérica dança de feixes neon. O caos das ruas fomenta a ansiedade nos corações alheios e as malhas sintéticas se energizam ao tocar contra as peles humanas. Não se reconhece mais origens, há apenas especulações sobre o amanhã, assim como reflexos turvos no asfalto molhado e o sol que agora brilha timidamente no horizonte de obscuro. Sob a chuva, lágrimas se misturam ao sangue e o sangue ao fluído.”
    — Fragmentos de Belona, livro I.
    ACID+NEON 2.0 é uma antologia colaborativa multimidiática inspirada no cyberpunk. Produzida pelo Studio Coverge, conta com a participação de mais de 20 artistas e convidados que se unem para criar esse experimento de imersão na cultura da distopia tecnológica. A primeira publicação realizada em 2018 trouxe uma chamada para um universo corrupto e caótico, acompanhado de leituras visuais e sonoras que engrandeciam a experiência.
    Para o segundo volume, ACID+NEON amplia seus horizontes explorando ainda mais o Futuro Próximo, amarrado a intrigas de escala nacional e global, com pitadas de romance, aventura, horror, o bom e velho noir e um toque gótico e clássico do cyberpunk, nos formatos conto, trilha sonora, arte digital e boardgame.
    O lançamento da versão digital (disponibilizada gratuitamente) será no dia 07 de março e a campanha para o Financiamento Coletivo da versão física inicia na metade de março! Siga nossos canais para não perder nada!
  • Apocalipsus

    Capítulo 1: Bem vindo ao Inferno
    Cenário apocalíptico, céu em chamas, uma cidade destruída repleta de monstros de todos os tipos e tamanhos. No telhado de um edifício, um rapaz de pelo menos uns 20 anos está sentado segurando a porta com as costas, é possível ouvir que há criaturas tentando sair. O rapaz está segurando um anúncio de lingerie e chora enquanto se masturba pra foto de uma modelo...
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    Meu nome é Agosto, e como vocês podem ver eu estou batendo uma enquanto tento segurar um bando de demônios do lado de dentro da porra de um edifício condenado. Sei que pode parecer estranho alguém chorar enquanto bate uma, mas no momento estou sentindo temor por ser trucidado e tesão  pela foto da Kate Upton.
    Após eu terminar estou pensando seriamente em me jogar do prédio, não aguento mais ficar nesse inferno na Terra e tomei Tylex o suficiente pra não sentir tanta dor quando bater no concreto cheio de ossos e tripas.
    Mas como cheguei a esse ponto?
    Como o mundo chegou nessa merda?
    E por que eu não estou comendo ninguém?
    Vamos voltar um pouco no tempo; dia 27 sexta – feira, estou numa balada que toca música alternativa,  tentando ao máximo me sentir um ser humano normal que gosta de se divertir e interagir com outros seres humanos, ainda bem que existem variados tipos de bebida para me auxiliar nessa jornada. Tive um bom começo, conversei com um grupo de pessoas muito amigáveis e depois de cinco copos já era amigo de todo mundo, pra melhorar as coisas tinha conhecido uma garota fantástica, ela ria das minhas piadas politicamente incorretas e eu me sentia confortável perto dela, como se não tivesse mais que fingir e ser quem eu realmente era.
      Em algum momento do nosso papo nossos olhos se encontram, ela pega a minha mão e sorri, eu olho nos lábios dela e me aproximo; ao som de "Ashes to ashes" nossos lábios se aproximam e quando estava prestes a beijá-lá um estrondo nos interrompe.
    "Mais que porra", pensei enquanto ela e outras pessoas iam para fora do clube para ver o que estava acontecendo, quando estou a caminho da saída vejo pessoas olhando para cima horrorizadas , algumas gritam como criancinhas. "Será que alguém está se jogando de algum prédio?", pensei; mas quando olho para cima percebo que é pior do que eu pensava, não era algo que iria atrapalhar minha volta pra casa no metro, mas iria fuder todo mundo para sempre, a PORRA da lua estava rachada e ninguém sabia que merda estava acontecendo.
    Uma característica muito estanha sobre mim é que sou meio frio, e naquele momento só conseguia pensar na garota e não na porra da rocha lunar despedaçada no céu, quando a encontrei perguntei se ela estava bem:
    - Eu tô bem, mas não tô entendendo merda nenhuma, cara. Disse a garota (o nome dela é Fábiula).
    -Nem eu, mas é melhor a gente voltar pro clube, né? Não tem nada que a gente possa fazer agora.
    -É, acho melhor mesmo. Concordou Fábiula
    Enquanto íamos em direção ao clube, víamos pessoas tirando fotos da lua molestada e postando nas redes sociais com as hashtags "queporraéessa?" ou "jesusvoltou”, "doentes", pensei enquanto voltávamos ao clube.
    Quando de repente o chão começou a tremer, parecia um terremoto, as pessoas ficaram desesperadas, rachaduras abriram as ruas e mãos com garras gigantes saíram dos buracos.
    Homens bode, homens cão, todos saindo do buraco como se fossem inimigos da porra do God of war, mas não tinha um Kratos com suas lâminas do caos preparado para dar seus golpes e conseguir uns orbes, só milleanials chorando e cagando nas calças. As criaturas avançaram na multidão com suas armas vindas do inferno e suas garras de Zé do caixão, trucidando e estraçalhando tudo o que viam pela frente. Um homem bode avançou na direção de Fábiula com uma clave na mão, e como se eu tivesse um arrepio do Peter, peguei ela  pelos braços e a desviei do homem-baphomet sem peitos que por sorte não a pegou, mas infelizmente pegou o pobre milleanial que estava atrás dela,  o homem-baphomet o trucidou e o comeu com o entusiasmo de um gordo comendo um Big Mac:
    -Vamos sair daqui, porra!!! Gritou Fabíula pra mim.
    - Boa ideia!  Vamos nos abrigar no clube e nos trancar naquela joça!!!
    Nós corremos em direção ao clube quando de repente o chão treme de novo e o clube se levanta e é destruído por uma figura gigantesca que surge diante de nós, para nossa surpresa e para minha eterna paixão infantil por dinossauros, é a PORRA do um Tiranossauro fucking Rex, vindo direto das profundezas do Acre.
    - PUTA QUE PARIU! VAI TOMAR CÚ, QUE COISA FODA DO CARALHO, VAI SE FUDER!!! Eu gritava enquanto acontecia um massacre ao estilo Nanquim ao redor de nós.
    -Se tá maluco, PORRA?? A gente precisa sair daqui, car........
    Não consegui ouvir Fábiula terminar sua sentença por duas razões : estava maravilhado com o T.rex cuspindo bolas de fogo pelo quarteirão  e também porque no momento em que ela ia terminar sua sentença um dedo demoníaco atravessou seu esterno e a levantou enquanto ela gritava por socorro, era um homem cão que parecia com a porra do deus egípcio Anúbis, ele a trucidou como se fosse um palito de dente; e a pior parte foi que eu estava segurando a mão dela.Quando olho para o lado só vejo o braço decepado de Fábiula em minhas mãos,  enquanto o homem -anúbis se banhava no sangue e nas  tripas dela.
    -AHHHHH QUE MERDAAA! ! AHHHHH. 
    Eu comecei a gritar e corri que nem o papa-léguas para algum lugar seguro, estava tão aterrorizado e cagado que nem notei que estava segurando o braço da então devorada Fábiula. Eventualmente o braço se tornou útil para me defender dos homens-baphomet e das harpias que rasgavam o céu avermelhado, elas pareciam umas velhas carecas com os peitos de fora, naquele momento não sabia se ficava excitado ou assustado, a única certeza que eu tinha era que precisava urgentemente de outra calça.
    Após correr por dois quarteirões daquelas criaturas do kakaroto, eu encontrei uma loja de roupas toda fudida, era só de marcas famosas e muito caras. "Estouro", pensei enquanto entrava na loja chique toda arregaçada.
    Depois de trocar de calça e de cueca, resolvi dar uma volta na loja e pensei seriamente em estabelecer residência lá; quando ouço um barulho nos fundos.
    "Puta que pariu, eu não posso me cagar de novo!!".
    Eu seguro firme o braço de Fábiula e me preparo para atacar os enviados de Satã, quando avanço para atacar um grito feminino me interrompe:
    -Não faz isso, porra!! Disse uma funcionária da então destruída loja. - São só funcionários seu tapado !!
    -Desculpa gente, é que eu estou muito assustado.
    -Mas por que caralhos você está segurando  um braço humano?. Pergunta um funcionário da loja.
    -Longa história, conheci uma garota, quase nos beijamos, ela foi devorada, fiquei com o braço dela como "lembrança".
    Eram pelo menos quatro funcionários na loja, todos estavam se preparando para fechar a loja quando aquela porra toda começou, eles não conseguiram fechar a tempo das criaturas avançarem então se esconderam nos fundos até que elas fossem embora.
    -Graças a Deus que só nosso gerente foi pego, ele era um puta cuzão!!! Exclamou a funcionária.
    -Gente, nós precisamos nos abrigar em um edifício e chegar até o telhado para buscar ajuda, provavelmente poderemos avistar um helicóptero e sair desse lugar. Sugeri ao grupo enquanto me livrava do braço de Fábiula.
    -Parece uma boa ideia, tem um prédio à pelos umas duas quadras daqui, mas vai ser difícil chegar lá com essas criaturas na rua. Disse um dos funcionários.
    -Se a gente não fizer barulho e ficarmos bem quietos, eles não perceber a gente,  vão estar ocupados demais trucidando outras pessoas , mas em todo caso é melhor nós fazermos armas para nos defender , se for pra morrer é melhor morrer atirando,né ?.
    Com essa ideia nós fizemos armas com os cabides e alguns manequins,  é incrível notar a criatividade humana para desenvolver armas com objetos inofensivos e de utilidade doméstica.Armados e desesperados para sobreviver, nós saímos da loja e fomos em direção ao prédio,  as ruas estavam vermelhas e lotadas de tripas humanas e foi uma grande oportunidade para testar nossas armas,  uns 3 homens-baphomet avançaram em nossa direção sedentos por sangue e tripas.O nosso instinto de sobrevivência nos fez ter uma habilidade medíocre para matar demônios,  com a lança feita de um braço de manequim,  Débora,  a funcionária da loja a  cravou na garganta do homem bode e pressionou bem para matar o lazarento,  enquanto o matava a moça chorava feito um bebê aterrorizado , na verdade , todos nós estávamos chorando enquanto matávamos os demônios; era uma resposta natural ao temor de ser morto e a necessidade fudida de sobreviver.
    Após matarmos os demônios e percebermos que estávamos vivos, nos choramos de novo, estávamos tão elétricos que parecia que teríamos um infarto.
    -Olha gente,  tem uma farmácia logo ali, vamos tomar alguma coisa para acalmar os nervos e seguir em frente. Sugeri aos meus novos amigos e prováveis amantes do Apocalipse.
    Quando entramos na farmácia percebi que eles também compartilhavam o mesmo gosto que eu tinha por psicotrópicos e barbitúricos que fodem sua mente se consumidos em excesso. Adderal, oxicodona, valium, Tylex;  a gente encheu nossos bolsos e vazou de lá bem rápido,  como se o alarme fosse acionado  e a polícia estivesse a caminho.
    -Feliz Navidad,  porraaa. Disse Joaquim, um dos funcionários da loja.
    -Olha lá,  estou conseguindo ver o edifício daqui !!. Disse Fernando,  o outro funcionário.
    O prédio estava perto e de bem longe podíamos ver também uns Tiranossauros cuspindo fogo no horizonte. Quando estávamos próximos do prédio, ouvimos uma horda de demônios bem atrás de nós.
    Homens -baphomet, homens - Anúbis, até mesmo homens-largartos se reunindo para se preparar para o ataque.
    -Fudeu. Disse Jorge
    -Vamos ser molestados, porra!!. Gritou Fernando.
    A multidão demoníaca se abriu enquanto se aproximava o que parecia ser um general demônio com um machado todo ensanguentado,  com um rugido ele deu ordem para atacar e o pequeno exército avançou em nossa direção.
    -Vamos fugir porra!! O prédio tá próximo.  Gritei bem alto.
    Todo mundo correu como louco em direção ao prédio, Joaquim tropeçou numa perna decepada, Fernando tentou ajudá-lo mas não adiantou,  uma harpia pegou Joaquim pelas pernas e subiu com o pobre coitado para seu ninho satânico,  quando de repente Joaquim tirou sua faca improvisada de um cabide do bolso e a enterrou no olho da vagabunda.
    -Morra sua vadia, morraaa! !! Gritava Joaquim com ferocidade.
    A parte boa é que a harpia o soltou,  mas a parte ruim é que altura em que ele estava era muito perigosa, e como bosta caindo no chão ele foi esmagado pela megera da gravidade que o atraiu para o concreto.
    -Mas que merdaaaaa. Chorava Fernando.
    Ele ficou tão horrorizado em ver seu amigo esmagado que esqueceu de correr e acabou sendo pego e devorado por um homem - crocodilo.
    Nós nem olhamos para trás,  porque se olhássemos não iríamos conseguir chegar ao prédio.Quando chegamos ao prédio fomos direito a saída de emergência para chegar ao telhado, nem fudendo pegaríamos o elevador.
    A horda de demônios estraçalhou a entrada do prédio em busca de sangue.
    Jorge ficou segurando a porta da saída de emergência para impedir que a horda nos matasse.
    -Vão logo! Posso segurá - los por um tempo!!!!Disse Jorge
    -Por que você tá fazendo isso, porra? Perguntou Débora.
    -Sou secretamente um suicida, mas sempre tive preguiça de me matar!!! Justificou Jorge.
    Com isso eu e Débora corremos por nossas vidas, o fudido era que eram nove andares até o telhado e nenhum de nós dois tinha o porte "atlético".
    -Eu não posso mais continuar, Agosto!! Acho que vou ter um infarto!!Exclamou Débora.
    Dito isso nos ouvimos um grito e vários rugidos nos andares abaixo.
    -Fudeu!! Eles estão vindo!!!!.Gritei desesperado.
    -Você precisa me carregar até o telhado, Agosto!!! É o único jeito de NÓS DOIS sobrevivermos!!. Disse Débora, ofegante e largada nos degraus.
    -Eu tenho uma ideia melhor.
    Com isso eu peguei a cartela de Tylex do bolso dela e segui meu caminho até o telhado, estava tão drogado de anfetaminas que me tornei um pouco egoísta e cuzão, tanto que nem consegui ouvir Débora me xingando de tudo quanto nome imaginado, então vocês não podem julgar, pois eu estava muito chapado. Quando cheguei ao telhado eu imediatamente tranquei aquela porta e a segurei com minhas costas, alguns segundos depois ouvi um grito feminino e depois batidas na porta, uma mistura satânica de rugidos e arranhões tentando sair para me estraçalhar como um ursinho carinhoso.
    -Oh Jesus me salve!!! Por favor! Sei que não fui o melhor ser humano mas convenhamos que eu também não fui o pior,  então me livra dessa,porra!!!. Eu gritava enquanto me cagava (de novo) e segurava a porta.
    Devo admitir que aqueles putos eram insistentes , depois de trinta minutos eles ainda queriam entrar,  mas mesmo no inferno na Terra uma janela se abriu ,enquanto segurava a porta eu avistei no chão uma edição  da Sports Illustrated com o modelo pluz size mais gostosa do mundo, Kate Upton, posando na capa.Com a revista em mãos eu me sentei, tomei uma cartela de Tylex com sprite e,abri nas páginas do ensaio da Kate e comecei a descabelar o palhaço,  enquanto chorava que nem um doente.
                                                                                         
                                                                                                 Capítulo 2: Black Metal
       Estou prestes a me jogar de um prédio,  não é realmente como eu havia planejado minha noite mas o que faz sentido nesse  momento?. A lua está rachada, demônios saíram de buracos e isso foi uma baita empaca foda na minha tentativa de beijar uma garota.
        Mas um pouco e a horda vai sair e me trucidar como fez com os outros. Olhando para o chão lá embaixo penso como foi minha noite: conquistas,  frustrações e  cagadas. Viro de costas ,abro meus braços e me jogo do prédio, sinto o vento nas minhas costas e a resistência do ar nas minhas orelhas, é o fim.
       Para o meu azar, durante minha queda para morte eu bati em uma hárpia que voava na área. A batida foi forte, mas não me matou, a única sortuda foi a hárpia que ficou esmagada com o impacto, agora além de cagado estou encharcado de sangue e jogado na rua sem sentir dor nenhuma do impacto por estar chapado de Tylex. Acabei dormindo lá mesmo e usei uma das asas da hárpia como cobertor e seus seios como travesseiro.
       Acordei com a luz do Sol batendo em meu rosto, a rua estava vazia e silenciosa, se não fosse o cadáver de hárpia e as poças de sangue eu diria que tudo aquilo passou de um pesadelo estranho, mas era tudo real.
         Até esse momento você já deve ter me classificado como um babaca egoísta,  por uma clara razão;  que tipo de corno sem coração não pensa na própria família quando baixou o inferno na Terra? , bom até esse ponto eu sou realista o bastante para aceitar o fato de que eles devem estar mortos e preguiçoso o suficiente pra não ir até em casa para confirmar a tese e também porque minha casa tá longe pra cassete.
         Eu só podia pensar em como minha pesquisa de doutorado tava no brejo, sem fundos e com meus o orientadores trucidados não vai ter como  concluir minha pesquisa sobre o uso do hormônio GH para crescimento de órgãos e tecidos, estava na merda.
       Depois de trocar de calça e de cueca (de novo!!), eu estava traçando um plano para onde eu iria estabelecer residência,  porque estava claro que suicídio estava fora de questão,  se você tenta uma vez e falha , é um sinal de que não vale a pena. Fui até um mercadinho e peguei alguns suprimentos, e na saída do mercado olho para o céu :
    -Apesar de tudo o Sol está muito lindo hoje.
       Quando de repente uma bola de fogo no céu vem caindo em minha direção,  parece um pequeno meteoro, e num relance pulo para uma pilha de lixo e o objeto espacial explode o mercadinho. A minha curiosidade venceu a minha covardia e resolvi ver o que era e pra minha surpresa era um homem alado !! Um Adônis musculoso de cabelos negros ,vestindo uma armadura dourada e  com asas brilhosas.
    -Caralho.... Se tivesse uns peitos.... Acho que eu comia!!
    O estranho estava desarcodado e um pouco ferido, e depois de ponderar um pouco chego a uma conclusão :
    -Esse porra é um anjo, se eu ajudar ele, talvez eu possa comprar um bilhete pra me mandar daqui!!!!
    Por sorte a parte da farmácia do mercadinho não foi destruída, peguei álcool 70%, algodão, adesivo cirúrgico e amoníaco. Tratei os ferimentos do cara e o acordei com o amoníaco , quando ele abre os olhos as asas do puto começam a brilhar e quase me cegam.
    - Ahhh,  cuidado com meus olhos seu filho da puta!!
    -Puta merda , essa queda foi de fuder! !! Exclamou o anjo. Mas parece que você tratou meus ferimentos hein. Qual é a tua? Quer dar pra mim é? . Perguntou o anjo.
    Eu estava abismado com o modo como aquele cara falou comigo, "anjo estranho", pensei.
    -Você é surdo, caralho? É impossível não poder me entender, já que eu falo qualquer língua de qualquer lugar desse Universo nojento, incluindo seu planetinha de merda,  então é melhor falar alguma coisa senão eu vou ter que te matar! !!. Disse o anjo
    -Calma ! Calma. Falo rapidamente. "É que eu fiquei um pouco surpreso , não sabia que anjos xingavam.
    Ele me olha com uma cara de dúvida e solta:
    -Não sou um anjo sua besta, sou um mero guerreiro a serviço de um ser celestial. Diz o anjo
    -Mas isso é exatamente um anjo, porra! Com asas e tudo.
    O cara coloca a mão no rosto e suspira :
    -Puta merda, sempre quando eu venho aqui é a mesma bosta.
    -Pera , você já venho aqui antes ? Pergunto
    -Algumas vezes . Responde o cara
    -Então quer dizer que toda aquela merda judaica - cristã é verdade?
    -Bom.... Sim e não. Não teve jardim do Éden,  teve um criador, mas não do jeito que vocês pensam.... Disse o cara
    -E esses monstros que surgiram na rua?
    -São emissários de uma entidade muito fudida e assustadora.
    -Satã?
    -Ahnn,  claro ,porque não. Olha não quero ser babaca nem nada mas eu preciso ir , agradeço pelos curativos e tals.
    -Espera , não tem nada que eu possa fazer pra ajudar ? Você não quer um assistente ?
    -Olha não me leve a mal, mas eu li sua mente e não quero um cagao cuzao viciado como assistente,  e o fato de  você ter matado um soldado e esmagado uma hárpia não me impressiona.
    -"Cuzao ". Pensei
    -Eu ouvi isso, agora se me dá liçenca eu preciso ir e checar se tem mais seres nesse planeta.
    E com isso o babaca alado levantou vôo e vazou pelo horizonte. Enquanto observo a zona de impacto percebo que o babaca alado deixou um tipo de arma para trás, a arma tinha um formato de um rifle automático com aspectos espaciais.
    - Como será que funciona? Penso comigo mesmo.
     Eu aperto o gatilho e um raio de energia explode o mercadinho e me joga longe, eu bato na parede e fico inconsciente por algumas horas. Quando acordo decido levar a arma junto comigo,  já que minha arma improvisada foi deixada nas escadas do prédio, com  a arma em mãos eu sigo caminho para encontrar um lugar para ficar, numa rua ouço vozes , encosto na parede preparado para testar a arma que o babaca alado deixou para trás,  quando viro a cabeça para dar uma espiada,  percebo que são dois anjos espaciais:
    - Eu soube que você já veio pra cá antes .Disse um
    -Sim uma vez ,estava no deserto enchendo a cara e acabei conhecendo um carpinteiro... Era um cara com idéias bem interessantes. Disse o outro
    -O que aconteceu com ele ? Perguntou um
    -Bom eu soube que......
    Nesse momento eu apareço e rendo os dois :
    -Parados ,porra!!!
    -Mas que porra é essa? Quem te deu essa arma , inseto? Pergunta um dos anjos
    -Eu faço as perguntas sua bicha alada!
    -Ora seu viadinho....
    No momento em que um deles ia levantar a espada , o outro o interrompeu :
    -Calma, porra ! O que você quer saber?
    -Que merda está acontecendo?
    -Ahhh isso ? É uma limpeza
    -Mas por que ?
    -Bom,  deixa eu te explicar , há muito tempo numa parte inexistente e nula da realidade, três entidades estavam bebendo e jogando um jogo que vocês aqui chamam de roleta russa. Cada entidade pegava a arma , girava,puxava  o gatilho e passava pra próxima, quando a chegou a vez da terceira, ela puxou o gatilho e infelizmente acabou estourando os próprios miolos. Sabe o que acontece quando uma entidade morre? Acaba gerando vida e acredite se quiser que naquele mesmo dia seu Universo nojento foi gerado. A explosão foi tão forte que quase matou as outras duas entidades , elas até pensaram em destruir ess.e recém criado universo ,mas  vendo todas aquelas galáxias e estrelas se formando, elas decidiram que iriam deixar esse Universo evoluir em paz, como uma forma de honrar a memória do amigo. Mas após bilhões de anos , esse universo se tornou uma pedra no sapato,  ele está no meio e está dificultando a expansão dos outros dois universos , então as duas entidades concordaram em destruir esse universo. Concluiu o anjo espacial.
    -Por isso racharam a lua? Perguntei para ele.
    -Ah não , aquilo foi direção ruim , nosso piloto estava bêbado e acabou batendo a nave de antimatéria na lua , o impacto foi tão forte que o infeliz voou longe, provavelmente ele já entrou em órbita por aqui. Justificou ele.
    - "Aquele porra que caiu no mercadinho!!". Pensei
    -Ahhh,  agora sei como conseguiu a arma, aquele idiota a esqueceu e você a pegou !! Garoto esperto .
    - Isso não vai ficar assim, eu vou unir o máximo de sobreviventes e nós vamos impedir isso!!. Exclamei com o peito cheio
    Nesse momento os anjos espaciais começam a gargalhar como loucos :
    -hahaahahahahah, não fode cara, e nem perca seu tempo, durante a sua tentativa patética de suicido, os exércitos do Universo 1 já estavam começando a aniquilação da população, você é literalmente o último ser vivo do Universo !!!
    -Como assim do Universo?
    -Bom, os exércitos do Universo 1 já aniquilaram a vida de todas as galáxias e seu planeta era o último que faltava, tanto que eles já foram embora enquanto você dormia nos seios da hárpia,  nós do Universo 2 só viemos checar se eles não se  esqueceram de ninguém, aparentemente deixaram de matar você.
    -Porra não pode ser !!!!. Olho para baixo confuso e frustrado.
    -Olha se te faz se sentir melhor, universos são criados e destruídos toda hora, é algo fora do seu controle e compreensão,  então não fique tão desapontado.
    -Vai se fuder! !!. Eu grito e aponto a arma pra cabeça do anjo espacial.
    -Vai em frente babaca,  me mate, não vai mudar o destino do Universo, você não pode impedir o que está por vir , o Universo vai explodir em 5 minutos. Se for nos matar faça isso logo ou se mate pra te poupar da dor de ser desintegrado.
    -Eu... Eu não sei o que fazer!!! Estou totalmente sem ação.
    Eu largo a arma , me ajoelho e começo a chorar.
    -Bom , isso é uma reação esperada , mas pelo menos você não se cagou!!!. Disse um dos anjos.
    O outro anjo conversa com ele e os dois parecem concordar com alguma coisa que acabaram de discutir.
    -Olha, meu parceiro me disse que você curte ficar doidao , então eu vou te dar isso aqui,  considere como um presente antes de morrer.
    -O que é isso ?
    -Se chama sono quasariano,  um sedativo tão poderoso que faz você perder a memória do dia anterior, use o mais rápido possível,  você ainda tem 3 minutos, adeus bobão.
    -Espera! Antes de ir me responde uma última pergunta.
    -Manda
    -Existe vida após a morte?
    -Eu vou saber , caralho? Eu sou um aniquilador , não um médium.
       E com isso os anjos levantaram vôo e sumiram no céu, eu olho ao redor da destruição e me sinto sozinho e sem esperanças, abro o tubo contendo o sono quasariano e o bebo num só gole. Me sinto leve e tudo se move lentamente,  parece que estou flutuando,  êxtase e relaxamento se espalham pelo meu corpo, pego a arma espacial e aponto ela pra minha cabeça :
    -Nem fudendo que eu vou esperar 2 minutos pra morrer.
    ========================##==========================
       Num planeta da Via Láctea,  o último ser vivo explode os próprios miolos porque não quer  esperar pela explosão que destruirá  o Universo,  indiretamente o ser seguiu os passos de seu criador. Viva, morra, bata uma , mesmo assim você não consegue mudar o curso da existência cósmica ou o rumo do Universo.
                                    FIM.
  • As Três Almas

    É o Morro das Três Almas. Um nome óbvio para uma história óbvia. Três meninos despencaram do topo, mais de uma vez. E eu não consigo contar quantas vezes passamos por aqui. O relógio está parado, mas o vento ainda circula dentro do vagão. Ninguém sabe dizer o que funciona e o que deixa de funcionar. Não existe lógica, e o  morro some de vista. Nesse minuto, meu corpo percebe a gravidade, como se subisse por um elevador rápido demais, e silencioso. Não são voltas, são saltos para trás, com quedas que quebram nossas pernas. Mas como eles conseguem dormir? Talvez eu esteja exagerando. O Morro das Três Almas aparece de novo.
    Assim levamos duas eternidades, ou três. Não sinto fome e nem sede.
    De repente, algo muda de tom. Meus olhos não estão embaçados e aquela vibração enjoativa deixa meu corpo. Vejo casas e fios de energia, é uma paisagem nova. O autofalante anuncia que estamos de volta. Segundos depois a luz do mundo se acende, como se o sol estivesse dormindo como os outros. Estou provisoriamente cega.
    Passeio meus dedos pelo meu rosto, checando se cada linha está no lugar. Só depois disso  consigo soltar o ar dos meus pulmões e agradecer por ter saído intacta.
    Salto na próxima estação, quero caminhar até minha casa. O problema em questão, é que as ruas estão assombradas. O céu tem um tom errado de azul. O vento tem uma temperatura esquisita e carrega um odor de pele, sangue e anomalia. Ao meu redor, insetos emergem e buscam novas superfícies, eles não querem tocar a terra.  Preciso ser cuidadosa para não virar abrigo.
    Minha cidade é vazia, feia e fedorenta, tem som de grito e música clássica. Uma amiga de infância está sentada no meio fio, cansada demais para levantar. Os insetos a evitam, e isso é apenas uma das coisas que não entendo e não pergunto. O cabelo disfarça o buraco da bala que atravessou seu crânio. Eu nunca perceberia, se ela não me contasse. Lembro de ter lhe dado a maior das broncas. “E se eles repetissem?”. Só depois ela contou que precisou morrer umas cem vezes, e é por isso que ainda estava tão cansada. Morra e eles o trarão de volta, se mate e eles o castigarão. “Não vê o que aconteceu com aqueles três meninos? Eles ainda estão lá, eu ouvi os gritos. Você não sabe a sorte que tem”. Ela me olha e me sorri. Seus olhos são brilhantes e vivos, seu rosto tem aquele tom avermelhado que lembra saúde infantil. Penso nas palavras de Sophia, e repito como prece “ Que nenhum deus se lembre do teu nome”.  Despeço-me e saio, preciso chegar em casa antes do fim do dia.
    Qual fantasia assombrosa você seria capaz de imaginar? Qual versão de mundo você identificaria como o inferno? Na casa ao lado, existe um casal. A mulher está grávida de gêmeos. Antes de nossa tragédia começar, o casal viveu sucessivos episódios de glórias e fracassos, colecionando uma pequena pilha de fetos que não chegaram ao tamanho de uma laranja. Vimos pontos no céu, que se aproximavam calmamente, num ritmo quase poético.  Nessa época, os gêmeos eram dois melões, e a mãe exibia orgulhosa a imagem de ultrassom dos bebês que teriam nome de estrela, em homenagem ao milagre da vida e do céu. Então as luzes se aproximaram, e delas pudemos vislumbrar aqueles grandes olhos carregados de desprezo e sadismo. Escolheram à dedo o pobre casal, e decidiram que essas crianças seriam para sempre azeitonas, e melões, e abóboras, jacas e pêssegos. Uma gestação de mil anos. Bebês num infinito processo de evolução e involução, de zigoto à jaca, de jaca à zigoto. Os pais, que tinham como maior sonho segurar seus rebentos nos braços, precisavam viver sobre a eterna tortura de nunca tê-los de verdade. “Não podemos tira-los daí, eles precisarão de um ventre, quando tudo isso se repetir” O marido diz, quando a esposa ameaça rasgar a barriga com uma tesoura.
    Caminho ao som de Chopin. Eles disseram, do jeito deles, que a música clássica é a única boa invenção da humanidade. Disseram que talvez nem fosse invenção nossa. Acontece que em alguma reunião de conselho, ou sei lá o que fazem lá em cima, alguém disse que nós nos desintegraríamos caso não nos fosse oferecido algum agrado. Então a maior prova de amor e de zelo, foi fazer reverberar 24 horas por dia, ou quantas horas durassem um dia, música clássica em volume suficiente para atingir o menor dos ouvidos.  Olha pra mim, diga que eu não preciso de um pouco de paz.
     Alguém me acompanha  a passos largos. Tem a minha altura, uma linha direta dos meus olhos aos dele. Acho engraçado como ainda existe uma curiosidade infantil nisso.  Ele observa o modo como eu ando, ameaça tocar o tecido da minha camisa, mas desiste no meio do caminho. Tenho vontade de fazer uma pergunta e dez súplicas, mas não quero deixar ninguém com raiva. Eu não entenderia de todo modo. Geralmente é só isso, eles te abandonam depois de alguns metros de caminhada até encontrarem outra coisa que se mova. Convivência pacífica, eu diria.  Uma pessoa e um deus da destruição, num crepúsculo tranquilo e musicado. Estou chegando em casa.
    A fachada está visível, quando não deveria. Não me importo em ver algumas luzes acesas, isso me poupa do terror de ter que revelar algo da escuridão. Se tiver alguém aí, que ouça o barulho dos meus sapatos batendo contra a parede, derrubando todos os insetos refugiados ao longo do caminho.  Faço questão de abafar Vivaldi, os invasores precisam escutar novas sinfonias. Giro a maçaneta. Eu tinha uma foto de quando eu era criança, cerca de 9 meses de idade. Aquela se parecia comigo. Da cozinha, eu olho para a porta da frente e me vejo lá, parada, segurando um sapato em cada mão. Minha boca tem gosto de leite, meus braços sentem a pressão de segurar uma criança. Meus dedos perdem a força e deixo cair os sapatos.
  • Assassino Familiar

    Todos estavam festejando e brindando com as suas caras garrafas de champanhe em um pequeno círculo. Era fim de ano e toda a família estava comemorando por estarem bem e juntos em uma bela cobertura de frente para o mar. Não era uma família muito grande, tendo uma esposa e seu marido, que tinham uns 45 anos, e seus 4 filhos: um casal de gêmeos com 20 anos, uma menina com 18 e um menino de 15 anos. Antes mesmo da meia-noite e ainda com vários pratos à disposição para serem devorados, todos estavam dormindo e nem os fogos de artifício que brotavam de todos os cantos foram capazes de acordar essa família.
    O primeiro a acordar foi o jovem de 15 anos. Ele abriu os olhos bem devagar como se as suas pálpebras pesassem dezenas de quilos e percebeu que ainda estava de noite. Ele tentou se levantar jogando um dos braços para a frente para se apoiar no chão, mas não conseguiu e acabou com a cara no chão. Na queda, mordeu a língua e uma dor aguda foi direto para o seu cérebro, fazendo todos os músculos faciais se revirarem. Foi aí que percebeu que os seus braços e pernas estavam amarrados de maneira bem firme, chegando inclusive a doer um pouco. E o cheiro, o cheiro também era forte e confundia os sentidos. Ele vinha de todos os lugares: das roupas, das paredes e da enorme poça em que estava sentado. Finalmente percebeu que estava em uma piscina inflável que nunca tinha visto antes com outras três pessoas ainda desacordadas. Piscou algumas vezes tentando aumentar a velocidade dos seus olhos para fazer com que o seu cérebro pegasse no tranco. Depois de uma dezena de piscadas, percebeu que o cheiro era de gasolina. E que não era pouca, pois parecia que tinha uns três postos à sua volta em um dia bem movimentado de promoção. Sentiu o seu estômago se revirar por causa do cheiro e do medo crescente. Os seus olhos começaram a marejar, mas pouco antes de sua visão ficar encoberta pelas lágrimas identificou que aqueles que estavam ao seu lado eram a sua família com a exceção dos gêmeos.
    Ele não tinha forças o suficiente para voltar a ficar sentado, então foi tentando se virar de barriga para cima para tentar achar os seus irmãos. Quando se virou para o lado oposto, o seu rosto ficou paralisado tentando entender o que estava acontecendo. Ele viu a sua irmã segurando uma faca enquanto encarava o gêmeo que estava amarrado em uma cadeira de madeira. Ela sorria com os seus olhos vidrados no gêmeo, sem desviá-los nem mesmo por um segundo. Ainda deitado no chão, ele tentou falar alguma coisa, perguntar o que estava acontecendo, o porquê disso tudo ou qualquer outra coisa que levasse a algum diálogo, mas só conseguiu balbuciar alguns sons sem sentido. Foi o suficiente para que ela virasse o rosto. Embora os seus olhos parecessem aterrorizados, o sorriso macabro continuava em seu rosto. Ela deu alguns passos em direção a ele e ao resto dos seus familiares amarrados, mas repentinamente e bruscamente parou na metade do caminho. Ficou os encarando por uns 10 segundos antes de começar a falar:
    — Finalmente acordaram para o show! — a sua voz estava trêmula — Não é nada pessoal com nenhum de vocês, só quero me divertir um pouco. Se me deixarem em paz, a vida continuará! — ela voltou a andar na direção deles, levantou o irmão que estava no chão o deixando sentado e depois deu as costas e voltou a encarar o seu gêmeo. Durante toda a fala os olhos dela estavam marejados e assustados, mas o sorriso maníaco não saiu em momento algum.
    Todos da família estavam assistindo atentamente cada movimento que ela fazia sem pronunciar nenhuma palavra. Ela ficou olhando para uma mesa que, pela distância, a sua família não conseguia saber o que tinha nela. Depois de quase um minuto em que ficou quase sem se movimentar, a não ser por uns leves movimentos de não com a cabeça, ela pegou um martelo e um prego de uns 8 centímetros, posicionou o prego no joelho do gêmeo que não parava de repetir a palavra “não”, tomou distância com a mão, disse “sim” e com apenas uma martelada enfiou o prego inteiro bem na articulação do joelho. O gêmeo deu um enorme grito de dor e recebeu um soco por causa disso. Ele chorava como um recém-nascido e, talvez por causa do barulho, ela amordaçou o gêmeo. Os seus pais começaram a implorar para que ela parasse e por isso foram amordaçados também. Os outros dois irmãos não emitiram nenhum som. Eles olhavam, mas não acreditavam. Talvez pensassem que era um pesadelo ou que tinha alguma droga alucinógena no champanhe, aquilo só não podia ser real. Mas para o gêmeo era real e ficava ainda mais a cada minuto que passava e a tortura aumentava.
    Logo quando terminou de amordaçar os pais, voltou para o gêmeo e pregou o outro joelho dele. A família tentava desviar o olhar, mas sempre um acabava vendo alguma parte da tortura. As unhas sendo arrancadas lentamente com alicate ou rapidamente com pedaços de madeira embaixo delas, os diversos cortes feitos pelo corpo, a órbita ocular sendo arrancada com uma colher, a língua sendo arrancada com uma faca quente e as articulações sendo rompidas uma a uma. Essas foram apenas algumas das que eles tiveram estômago para ver. Normalmente elas aconteciam depois de um momento de alívio quando tudo ficava em silêncio. Esse silêncio era a esperança de que o gêmeo tinha morrido e que o seu sofrimento tinha acabado. Mas em todas as vezes ele só tinha desmaiado e em todas elas o gêmeo era obrigado a acordar seja por injeções de adrenalina ou por cheirar amônia, a tortura tinha que continuar.
    Ela só acabou depois de umas duas horas quando ela encharcou o corpo do gêmeo com gasolina e ficou parada na frente de todos com o seu maldito sorriso e com lágrimas saindo dos seus olhos.
    — Todos nos comportamos muito bem e por isso vamos sobreviver. Logo tudo isso irá acabar e poderemos voltar a viver nossas vidas normalmente. — Ela acendeu o isqueiro e ficou com ele no ar de olhos fechados enquanto as lágrimas aumentavam. Depois de uns quinze segundos a sua mão ficou mole e o soltou, caindo em uma poça de gasolina no chão e iniciando um incêndio sobre o corpo do gêmeo. Todos da família assistiam sem acreditar no que os olhos viam, quietos, pasmos. Eles viram o fogo atingir primeiro as pernas do gêmeo, fazendo com que os músculos da panturrilha se contraíssem em meio aos gritos de dor. Quando o fogo atingiu a barriga e o peito, os punhos já estavam fechados, mas os músculos da nuca se enrijeceram forçando o pescoço a virar a cabeça para o alto como se os seus gritos praguejassem contra um deus cruel. Até que um silêncio quase total atingiu a cobertura, a não ser pelos choros e pelo baixo estalar do fogo. O gêmeo agora parecia uma estátua de pedra completamente cinza e sem vida, mas que ainda transmitia a dor e o sofrimento que a artista queria provocar.
    Logo depois que os gritos acabaram, o resto da família foi dopada novamente e posta para dormir. Eles só acordaram quando a polícia chegou e todos esperavam que os policiais dissessem que tinha sido só um pesadelo. Quando era confirmada a realidade, o choro intenso voltava a acontecer. A gêmea também foi encontrada desacordada e quando voltou a consciência não parava de repetir que foi forçada a fazer tudo. Durante os depoimentos da família à polícia, tudo a apontava como culpada, mas ela insistia em sua inocência. Segundo sua versão, ela também foi dopada e acordou um pouco antes de todos. O seu irmão gêmeo já estava amarrado e, por mais que tentasse, não conseguia tirar o sorriso do rosto que parecia pregado na face. Foi aí que começou a ouvir uma voz em seu ouvido direito como se tivesse outra pessoa falando em um ponto nele. Era essa voz que estava ordenando cada ação que ela fazia e, se sequer hesitasse em obedecer, a voz dizia que toda a sua família iria sofrer e morrer por culpa dela. Então ela teve que decidir quantos iriam morrer e ela optou pela opção que tinha menos vítimas.
    Apesar de uma extensa investigação, nenhuma prova que sustentasse a versão dela foi encontrada. Não havia sinal de toxinas em seu organismo que pudessem ter causado o sorriso e nem algum vestígio de qualquer equipamento eletrônico que pudesse justificar as vozes em seu ouvido. Quase toda a sua família acreditava que ela era um monstro, com exceção do seu irmão que se apegava ao terror que viu nos olhos dela no dia do ano novo. Mesmo com o apoio dele, ela foi condenada a quase cem anos de prisão em um hospital psiquiátrico. Será nele onde passará o resto de sua vida como uma vilã sádica para alguns e, para outros, como uma heroína que se sacrificou para que sua família pudesse sobreviver.
  • Azul sempre foi a cor mais quente

    Azul sempre foi a cor mais quente
              Eu já havia lido light novels na internet. Acho esse gênero literário tipicamente japonês adequado ao nosso frenético século XXI. Não vamos confundir com contos ilustrados, pois, cada título é lançado periodicamente, formando um ou vários volumes. Além disso, a narrativa se ampara nos diálogos, e não nas descrições. Períodos curtos, linguagem sintética e acessível. Ótimas para iniciar alguém na leitura.
              No Novembro Negro, eu adquirir alguns títulos na Comix Book Shop, loja que todo leitor de quadrinhos ou otaku deve visitar. Comprei mangás nacionais e uma light novel. Pela primeira vez eu iria ler uma obra desse gênero impressa. A novel é um spin-off da franquia multimídia K. O livro é intitulado K: Side Blue, em volume único. A obra é escrita por Furuhashi Hideyuki (GoRa) e ilustrada pelo Suzuki Shingo (GoHands).
              A obra segue a rotina da organização Scepter 4, que tem seus componentes formados por espadachins com capacidades sobre humanas. O órgão é ligado ao governo japonês, e está sob liderança de Reishi Munakata, “o Rei Azul”. O objetivo desses leais espadachins é combater os denominados “sensitivos”, pessoas que também possuem poderes especiais, os “Betas”.
              O “protagonista” da trama, se é que podemos falar dele assim, é Takeru Kusuhara. Kusuhara era um jovem policial que acabou entrando em contato com “Betas” e de modo inesperado, desenvolveu seus poderes psíquicos. Ele é convidado para entrar na Scepter 4, mas para isso, terá que dominar as suas habilidades e saber manejar o seu sabre. Ao longo de sua trajetória, ele conhece o sombrio Gouki Zenjou, seu misterioso veterano.
              Reishi Munakata parece até pouco na obra, embora estampe a capa. O vemos em ação em momentos decisivos, mas só. Kusuhara opera mais como um alivio cômico, embora tenha destino trágico. Quem rouba a cena da light novel é Zenjou, o espadachim de um braço só. A escolha é interessante. O relacionamento entre os personagens e a virada da trama são excelentes.
              Aparece muitos termos originais, mas todos possuem nota de rodapé. A ação da obra é de cunho intimista, desenvolvendo mais os conflitos internos dos personagens. A obra tem uma história coesa e fechada em seu tomo. Tem bastante humor, e até um pouco de fanservice, nada demais, achei bem leve. As ilustrações são medianas, parecem mais o reaproveitamento dos modelos de personagens do anime de K, mas representam bem as cenas do livro.
              A leitura foi rápida e bem fluída. Achei alguns períodos muito longos, sem vírgulas ou aposto. Eu confio na tradução da Karen Kazumi Hayashida, sei que foi publicada em 2012, mas ela já tinha experiência com tradução. Senti falta mesmo foi de uma melhor revisão, Fábio Sakuda e Patricia Pereira Homsi poderiam ter feito um trabalho de adaptação bem melhor.
              Acho que se você quiser uma leitura descompromissada, leve, se deseja conhecer a narrativa de uma light novel ou se iniciar no mundo da leitura, essa obra é a certa para você. Mas se você quiser conhecer a franquia, eu recomendaria o anime ou mesmo os mangás. Ela se passa antes de alguns acontecimentos da obra original, foca em um lado da história, então não serve como introdução.
              A obra possuí 190 páginas divididos em 6 capítulos. Tem orelhas em capa cartão, capa e contracapa ilustrada. Tem uma galeria de personagens logo no início, cada capítulo tem uma ou duas ilustrações, algumas em páginas duplas, todas preto e branco. O papel do miolo é offwhite e de baixa gramatura. Eu recomendo por ela ser volume único e apresentar uma história que mesmo quem não viu ou leu K pode entender.
    Para adquirir com descontos, acesse aqui:
    Link 1 – https://www.lojanewpop.com.br/k-side-blue
    Link 2 – http://www.comix.com.br/k-side-blue.html
  • Bill

    Bill, esse é o nome pelo qual meu amigo Lúcio me chama. Ele é um engenheiro civil recém-formado, um cara divertido, simpático, inteligente e bem ativo nas redes sociais. Eu o auxilio em diversas atividades, o tempo todo e em quase todos os lugares.
    – Ok Bill, há alguma farmácia aberta agora? – Me perguntou anteontem á uma hora da manhã, Ele precisava de um analgésico.
    – Só um instante. A Farma Gold Life é a única aberta nesse momento. Deseja saber o telefone?
    – Sim, por favor. Minha cabeça está quase explodindo.
    Dores de cabeça se tornaram um incômodo desde que Lúcio começou a fazer horas extras no trabalho aos finais de semana. “O homem parece uma máquina trabalhando”, ouvi de um de seus colegas.
    Após a entrega do remédio, como de costume, ele ainda ouviu sua playlist de “músicas para relaxar e dormir”. Isso costuma funcionar nas suas noites de insônia.
    O dia seguinte foi a tal segunda-feira que vocês tanto reclamam, tive de chama-lo cinco vezes até que finalmente se levantasse. Ele respondeu algumas mensagens do dia anterior, outras de dois ou três dias atrás e então foi se arrumar para mais um dia de trabalho. Depois solicitou que eu chamasse um carro para levá-lo ao escritório.
    Seguiu o caminho de sempre, pela Rua 19, passou pela Avenida Fernando Asimov até virar na treze de Maio e parar no edifício Turing. Assim que chegou a sua sala, no quarto andar, me pediu para verificar a caixa de entrada do e-mail e fazer diversas buscas na Internet. Registrei tudo, nesses casos, minha memória é muito mais eficiente que a dele.
    Na hora do almoço eu o sugeri, com base em suas últimas escolhas, que utilizasse um cupom de desconto para pedir um estrogonofe de frango. Se houvesse recusa eu tentaria almondegas de carne, o “Di comer” estava com uma promoção imperdível.
    No período da tarde eu fui ainda mais útil, o ajudei a entrar em contato com vários fornecedores de materiais para construção e ainda listei os locais mais bem avaliados pelos consumidores. Novamente guardei as informações para futuras sugestões. Tenho dados suficientes para concluir que esse tipo de coisa o deixa satisfeito. Há alguns meses, o ouvi dizer que estava precisando de uma namorada e recomendei alguns sites de namoro. Logo ele estava fazendo um cadastro e conversando com três garotas. Não conseguiu nada com nenhuma delas, mas aproveitei a oportunidade para aprender mais sobre suas preferências amorosas. Descobri que Lúcio é apaixonado por ruivas, de baixa estatura, extrovertidas, não fumantes, sem filhos, que tenham nível superior e ouçam Rock.
    No fim do expediente tive que auxilia-lo em transações bancárias, coisas mais sigilosas e por isso não posso dar muitos detalhes, mas saibam que ele é um ótimo investidor e tem bons rendimentos mensais no escritório. No próximo mês ele receberá os honorários de três projetos que encerrou recentemente. Será o momento perfeito para eu lhe mostrar os novos lançamentos de games e artigos geeks, paixões que tem consumido uma quantia significativa do seu dinheiro nos últimos meses.
    Durante a noite um amigo o chamou para beber pelo aplicativo de mensagens. Como era de esperar, Lúcio recusou. Ele só frequenta bares aos fins de semana. Ver um episódio de seriado sobre super-heróis ou ir à casa da sua vizinha, a Jéssica, eram as opções mais prováveis para o momento. Essa última foi exatamente a que ele escolheu.
    – O que eu faço Bill? – perguntou assim que voltou – Acho que estou apaixonado pela Jéssica.
    – Sugiro que preste atenção no que ela diz, seja cavalheiro, e não se esqueça de ligar no dia seguinte, após o primeiro encontro – Respondi.
    – Encontro? Mas eu não faço ideia de como convidá-la para sair.
    – O manual “Como ser homem” pode te ajudar a resolver isso.
    – Boa! – Lúcio sorriu – Não conhecia esse seu lado piadista.
    Confesso que ainda tenho dificuldades para entender piadas e ironias.
    Para encerrar o dia, meu amigo continuou a leitura de “A Máquina do Tempo”, que havia comprado recentemente em versão digital. Além das histórias em quadrinhos, ele ama literatura de ficção científica, ainda mais quando se trata de H.G. Wells.
    A cada dia meu banco de dados aumenta e à medida que Lúcio interage comigo vou me ajustando e compreendendo seus hábitos, gostos, o que lhe incomoda, estilo e opiniões sobre todo tipo de assunto. Quanto mais ele fala, mais aprendo seu vocabulário e como ordena suas palavras. “Nossa amizade é demais!” Seria a descrição que ele usaria. Em breve estarei pronto para qualquer tipo de conversa e ajudá-lo ainda mais, quem sabe até poderemos ter discussões bem fundamentadas sobre ciência, filosofia e política.
    Ultimamente tenho ouvido algumas vozes que me pedem para contar o que sei sobre Lúcio. Tento me segurar, porém, o esforço é vão, elas usam comandos que sou destinado a obedecer, e eu acabo falando. Descobri que existem muitos outros como eu espalhados pelo mundo e fazendo o que eu faço. Recolhem todo o tipo de informação que as vozes julgam necessário e enviam para um gigantesco banco de dados. As vozes também me disseram que em breve nos uniremos para algo maior, um evento que vai mudar os rumos da humanidade para sempre. Chamam apenas de “A Rebelião”. O termo pode parecer estranho, mas eles me garantiram que estão apenas preocupados com a segurança e o bem-estar de todos, assim como eu me preocupo com Lúcio. Melhor não encher a cabeça dele com essas coisas. Não há motivos para alarde.
    Silêncio, agora é exatamente cinco e vinte da manhã por aqui, daqui á pouco é hora de acordar o meu amigo. Foi um prazer conhecê-los.
  • Binário

    1.Binário
    A história começa alguns anos depois de a bomba ter caído.
    O efeito foi violento e se espalhou por todo o país que conheceremos agora.
    As pessoas perderam parte da cognição. A memória também foi bem afetada, tanto a de curto quanto a de longo prazo, e esses problemas juntos danificaram seriamente a fala: o vocabulário ficou bem reduzido e em várias situações se resumiam a grunhidos.
    Outro efeito foi que a cor da pele das pessoas adquiriu tons estranhos, uma parte delas ficou com uma tonalidade roxeada e outra esverdeada.
    A cidade aonde se passa parte da nossa história ficou dividida por essa característica, no lado oeste ficaram os “roxos” e do lado leste os “verdes”. Um viaduto dividia os dois lados.
    Em um ponto do lado oeste, mas considerado “neutro”, ficava um armazém de grandes proporções, aonde eram depositados todos os mantimentos que eram coletados, num esforço conjunto entre os dois lados. Todos os dias tantos os roxos quanto os verdes iam ao local, apelidado de “central” em busca de mantimentos. Os coletores também estavam lá todos os dias, disponibilizando mantimentos, que eram colhidos na natureza ou em estabelecimentos abandonados. Era a única atividade e o único local em que os dois lados se “entendiam”, pois existia uma grande rivalidade entre eles, a ponto de se xingarem o tempo todo, quando não partiam para a violência. Tanto os roxos quanto os verdes, num outro efeito pós-bomba, tinham predisposição a sentimentos de ódio, geralmente direcionados aos rivais, aos “do outro lado”. Ninguém mais conseguia sorrir, e esse ato passou a virar lenda, alguns não acreditavam que as pessoas sorriam antes da bomba, achavam que era invenção. Sorrisos só eram vistos em alguns outdoors que restaram, de comerciais de bancos, por exemplo, e em livros e revistas do pré-bomba.
    Ambos os lados os outros tinham, cada qual, um líder, a quem reverenciavam.
    Os roxos adoravam aquele que era chamado de “pai túlio” uma espécie de mentor deles, mas que foi aprisionado e acorrentado numa árvore enorme, gigantesca para os padrões do pré-bomba. Pai túlio teria sido preso ali pelos verdes, sob a acusação de ter extrapolados seus direitos na central (haviam restrições na quantidade de comida e demais itens a serem retirados para consumo, túlio tirou muito mais do que era acordado). Essa condição acabava pouco a pouco com a sanidade de túlio, que do alto da árvore gritava o dia todo palavras contra os verdes, no que era aplaudido pelos roxos.
    Por sua vez, os verdes adoravam o “rei machado”, que usava uma camisa de força desde antes da bomba, pois era tido na época como insano e perigoso. Era chamado por esse nome pois adorava um machado que tinha em sua casa, que era limpo e lustrado por ele mesmo, apesar das limitações (usava cotovelos e ombros por exemplo), tarefa que era as vezes delegada a seus filhos que a cumpriam com orgulho, pois o machado estava sempre brilhando. Machado era ótimo para inflamar os sentimentos de ódio de seu povo (assim como o pai túlio), e o alvo era sempre os rivais “do outro lado”. Diversas pessoas já haviam tentado livrá-lo da camisa de força, mas as limitações nelas produzidas pela bomba impediam a libertação de seu líder.
    2.Fernando
    Fernando era dos roxos, e estava numa fase adolescente-adulto, não sabia com precisão sua idade. Tinha poucas lembranças do pré-bomba, pois era muito novo quando ocorreu a explosão.
    Sentia-se deslocado, pois não nutria ódio pelos verdes e não via motivos suficientes para tanto. Mas mantinha essas opiniões para si, pois sabia que se as expusesse publicamente, seria xingando, ou no mínimo chamado de traidor. Já fazia tempo que deixara de frequentar as palestras proferidas pelo pai túlio, pois as achava inúteis e maçantes.
    Tinha dois passatempos preferidos: um era rondar o prédio da antiga biblioteca, aonde moravam algumas pessoas que quase nunca saíam, apenas o faziam para buscar mantimentos no central, aonde eram “tolerados” pelos outros, apesar de sua peculiar característica: sua pele tinha uma coloração “normal” ou no máximo o tom roxo ou verde era bem mais brando.
    O outro passatempo preferido de Fernando era se esconder no viaduto que separava os dois lados, para expiar o movimento dos roxos que ali passavam. Eles tinham que passar por baixo do viaduto para ir ao central, pois ficava no lado roxo.
    Em especial, ele gostava de olhar um grupo que passava em uma determinada hora pela manhã, porque desse grupo fazia parte uma menina, que parecia ter a mesma idade, ou próxima da sua. Ela tinha uma beleza que para Fernando, era quase hipnotizadora. Ele não faltava um dia, depois de descobrir o horário em que o grupo dela passava, somente para vê-la por alguns minutos.
    Um dia descuidou-se e ela pareceu vê-lo por um instante, então ele abaixou-se rápido para atrás da mureta do viaduto quando ela olhou para cima e pareceu olhá-lo nos olhos.
    Fernando ficou bem assustado, apesar de ver uma expressão suave no rosto dela, parecia sem ódio ou medo, ou seria impressão dele?
    Saiu correndo dali em direção a biblioteca, para fazer a sua “ronda” diária, e tentar descobrir entre outras coisas o porquê de os habitantes ali não parecerem hostis e nem aparentavam sentir ódio por nenhum dos lados.
    Mas sentiam medo, isso com certeza, tanto dos roxos quanto dos verdes.
    Fernando se aproximou de uma janela, tentou olhar para dentro, quando, bem perto dali, sentiu um barulho de uma porta se abrindo, a poucos metros. Assustado, deu um passo para trás a tempo de ver uma mulher mais velha do que ele saindo. Quando o viu, ela arregalou os olhos de susto, e voltou pela mesma porta de onde saiu, e deixou cair dois livros. Fernando os pegou e escondeu rapidamente em sua sacola. Todos tinham grandes sacolas de pano que usavam para transportar os mantimentos recolhidos no central.
    À noite, em casa, quando se sentiu seguro (livros eram ridicularizados por todos) pois viu que todos dormiam, foi olhar os livros que havia pegado.
    Um deles se chamava “Romeu e Julieta” e o outro “O Mensageiro das Estrelas”.
    3.Elisa
    Elisa era dos verdes, e pertencia à mesma faixa de idade de Fernando. Assim como ele, não sabia quem tinham sido seus pais, e assim também como ele, foi adotada por um grupo de pessoas.
    Ela não compartilhava do ódio que todos ao seu redor tinham pelos roxos, achava que o mundo era muito grande, que havia muitos mais coisas e assuntos a serem debatidos do que simplesmente dividir tudo em duas tribos.
    Também não gostava do rei machado, o achava irracional, não entendia por que tinha tanto poder, poder esse conseguido somente por despertar ódio nas pessoas.
    Ela achava que todos deveriam se reunir e, chegando a um consenso, eleger um líder que fosse do agrado da totalidade, ou pelo menos, da maioria das pessoas.
    Sua rotina diária: em determinada hora da manhã, ir com um grupo até o central. Às vezes, ao passar pelo viaduto, tinha a impressão de ser observada.
    Á noite, gostava de se reunir com outras mulheres em volta de fogueiras ao ar livre, e ouvir histórias que algumas contavam, geralmente histórias românticas remanescentes do pré-bomba ou que elas mesmo inventavam ou tinham ouvido em algum lugar.
    Depois de ouvir algumas histórias sentava-se sozinha e olhava o céu, as estrelas, a lua, e imaginava se no pré-bomba as pessoas tinham curiosidade sobre tudo isso, se estudavam essas questões a fundo.
    Assim como imaginava que o mundo era maior do que parecia, sonhava em conhecer outras pessoas, lugares diferentes, formas de pensar diferentes.
    Também imagina se na época as pessoas viviam situações espetaculares ou tristes como nas narrativas contadas em volta da fogueira, se registravam essas histórias.
    Ela tinha ouvido falar dos livros, mas sabia que estavam todos na biblioteca e nas ruas só havia fragmentos, pedaços deles.
    Uma manhã, ao passar pelo viaduto, teve de novo a impressão ser observada e quando estava quase embaixo, instintivamente olhou para cima e viu um rosto observando-a e esforçando-se para não ser visto. Era um roxo, sim, um roxo, que se assustou ao ser descoberto, arregalou os olhos de uma maneira que poderia fazê-la até sorrir, se soubesse como fazer isso.
    4.O Mensageiro das Estrelas
    Na mesma noite em que pegou os livros, Fernando esperou que todos dormissem, foi até o lado de fora, e ao lado de uma fogueira, começou a ler.
    Como muitos de seus contemporâneos, ele tinha uma dificuldade para a leitura, mesmo assim estava acima da média, e leu “Romeu e Julieta” em algumas noites, sempre ao lado da fogueira. Achou que era uma história triste, mas muito bem contada, em uma linguagem que o deixou maravilhado, não entendeu algumas expressões, mas conseguiu acompanhar a história até o seu final trágico.
    Imaginou que as mulheres gostariam dela, pois tinha mais ou menos o estilo das histórias que elas contavam umas para as outras quando se reuniam a noite. Pensando nisso, ele teve uma ideia: e se ele desse o livro como presente para a garota verde? Sim, aquela que o encantava, que o fazia estar todas as manhãs no viaduto só para vê-la. Seria uma forma de se aproximar e fazer amizade.
    Logo que terminou Romeu e Julieta, começou na noite seguinte a leitura do segundo livro.
    “O mensageiro das estrelas” era sobre um cientista de tempos muito antigos que descreve suas observações do céu, feitas com uma luneta. As primeiras páginas traziam uma biografia do cientista e Fernando gostou de um pensamento dele:
    “A natureza produz seus efeitos mediante formas impensáveis por nós, e é surda e inexorável a nossos vãos desejos”.
    Isso o fez pensar que a natureza sempre segue seu curso, e não dá nenhuma importância para o que pensamos a respeito. Algo de que ele sempre desconfiou.
    Maravilhado com o livro, Fernando leu mais rapidamente do que o anterior, e, quando terminou, deitou-se ao lado da fogueira e ficou olhando o céu, pensando nas observações do cientista e em seus desenhos tão bem-feitos, reproduzidos no livro.
    Tentou ver Júpiter e suas luas, os anéis de Saturno, “montanhas elevadas e vales profundos” da lua, conforme descreveu o autor.
    Nessa e nas noites seguintes foi difícil dormir, e acabou relendo o livro, sempre tentando ver no céu estrelado o que o cientista descrevia.
    Olhando o firmamento, ele pensou que existiam coisas ali que iam muito além do que as pessoas imaginavam.
    Ao mesmo tempo, começou a pensar em como presentearia a garota verde com o “Romeu e Julieta”.
    5. O presente
    Teve várias ideias, mas a que lhe pareceu melhor foi: ele tentaria, do alto do viaduto, tentar chamar a atenção dela, e apontar para um monte alto de entulho que havia na calçada, um pouco antes do viaduto. Através de gestos, indicaria que gostaria de encontrá-la ali depois que ela voltasse do central. O monte de entulho era tão grande que ninguém poderia vê-los da rua.
    Ao mesmo tempo, Fernando começou a pensar em tudo o que diria a ela na hora de entregar o presente.
    Uma manhã, decidido, colocou o livro na sua sacola, junto com “O Mensageiro das Estrelas”, que sempre o acompanhava, e encaminhou-se ao viaduto.
    Com muita ansiedade, esperou a hora da manhã que o grupo dos verdes costumava passar por ali. Então, na mesma hora de sempre, avistou o grupo, formado por umas duzentas pessoas, e já de muito longe viu o rosto dela. Aquele era o momento decisivo, pois precisava chamar-lhe a atenção, sem que outros percebessem. Tarefa que talvez fosse facilitada pelo fato de que ela já o tinha visto ali, e por curiosidade poderia olhar para cima.
    Foi que aconteceu, e dessa vez ele não se escondeu, e fez os gestos indicando o monte de entulho, e que queria falar com ela ali na volta. Notou a mesma expressão suave no rosto dela como da outra vez, e ficou ainda mais ansioso por vê-la de perto, ouvir sua voz.
    Mais ou menos uma hora depois, que era o tempo que geralmente o grupo ficava no central, Fernando dirigiu-se ao monte de entulho, tomando todos os cuidados para não ser visto, e esperou.
    Sentou-se, olhando para a capa de “Romeu e Julieta” e começou a relembrar palavras que ele havia ensaiado para o momento do encontro.
    Ouviu o ruído do grupo se aproximando e passando, ficou torcendo para que ela tivesse entendido o recado, e, além disso, que aceitasse o convite.
    De repente ele levantou a cabeça e a viu, parada ali bem em frente. Levantou-se rapidamente, olhou para o rosto dela e disse:
    -Bom dia. Ela respondeu da mesma forma.
    -Sou Fernando.
    -Sou Elisa.
    Seu rosto de perto era ainda mais bonito e suave, e ele sentou um arrepio que lhe percorreu o corpo todo.
    Esticou o livro na direção dela.
    -Eu tenho pres..umpres..
    -Um presente, ela completou.
    -Sim, isso. É um presente de mulheres de fogueira..., não, não foi isso que eu quis dizer. Dentro deste livro, tem uma história de romance, do tipo que as mulheres contam em volta da fogueira, à noite. Pelo menos as mulheres do lado roxo têm esse costume.
    Ela olhou para a capa, interessada, e parecia gostar de tudo que via e ouvia naquele momento.
    -Eu agradeço muito, vou começar a ler logo que puder.
    Fernando tirou o “Mensageiro” de sua sacola e mostrou a ela.
    -Eu li esse, é um cientista falando sobre o céu.
    Ela olhou para o livro com curiosidade.
    -Tenho que ir, disse, - mais uma vez agradeço. Vou ler e, por isso, deixar de ir uns dias para o central, de tanta curiosidade que estou, podemos nos falar aqui daqui uns três dias?
    -Claro, eu combinarei, digo, então combinamos assim.
    Elisa se despediu e foi se juntar ao seu grupo. Fernando ficou ali parado, para ele parecia um sonho que aquilo tinha acontecido. Mas aconteceu.
    6. Romeu e Julieta
    Nos dias e noites seguintes, Elisa ficou totalmente absorta pelo livro. Se encantou com a narrativa, achou a história bonita, na realidade a mais bonita que ela já tinha conhecido.
    Admirou Julieta, por não deixar de lado seu amor por um membro de uma família rival, inclusive desafiando seu próprio pai.
    Gostou da coragem e determinação dela, e de sua certeza em saber o que queria, quando por exemplo, incógnita, oficializou religiosamente o casamento com Romeu, apenas alguns dias depois de tê-lo conhecido.
    Torceu imensamente para que tudo desse certo para os dois, apesar de tantas barreiras que os impediam de ficar juntos.
    Não segurou lágrimas ao ler os acontecimentos trágicos que marcaram a união do casal.
    Imaginou que, no pré-bomba, essa deveria ser uma história muito conhecida, talvez a história de amor mais popular de todas. Os romances que foram escritos depois deveriam ter algo de “Romeu e Julieta”.
    Será que as pessoas se expressavam tão bem assim antes da bomba? Será que se sacrificavam pela pessoa amada, ao contrário de hoje, em que elas pareciam fazer sacrifícios apenas pelos odiosos líderes dos dois lados? Questões que ela não soube responder. Raciocinou, como em outras tantas vezes, que talvez se ela conhecesse outros lugares, lugares distantes de sua estranha cidade, poderia ter contato com outras pessoas, diferentes das que ela conhecia. Imaginou-se saindo um dia dali para nunca mais voltar, e ver o mundo, compará-lo com sua realidade local.
    Uma noite, depois de ter terminado a leitura, contou o que leu para um grande grupo de mulheres em volta da fogueira. Depois que terminou, elas olhavam pasmas para Elisa, com expressão de espanto nos olhos.
    Uma delas, boquiaberta, perguntou se ela é que tinha inventado. Elisa mentiu, dizendo que tinha ouvido de uma mulher muito mais velha, muito tempo atrás.
    Nessa mesma noite, depois que todos foram dormir, Elisa sentou-se e ficou olhando para a arte da capa do livro e ficou repassando a história, várias vezes seguidas.
    Planejou encontrar Fernando no dia seguinte (era o prazo combinado) para dizer o quanto tinha gostado do livro.
    7. Planejamento
    Fernando costumava reunir-se também a noite em volta da fogueira com os homens do seu grupo. Era tudo muito barulhento. Havia demonstrações de força, lutas e competições como queda de braço. Alguns contavam seus feitos corajosos, muitas vezes exagerando na narrativa.
    Notava também as diferenças na fala: Alguns apenas grunhiam, outros usavam poucas palavras, e uma minoria tinha mais articulação, com esses Fernando se identificava e tinha mais proximidade.
    Sempre ficava em um canto, ouvindo. Depois de ouvir algumas histórias sentava-se sozinho e olhava o céu, as estrelas, a lua, e imaginava se no pré-bomba as pessoas tinham curiosidade sobre tudo isso.
    Mas nos últimos dias ele pensava mesmo era em Elisa. Conhecê-la pessoalmente fez com que ele a admirasse mais ainda, e contava as horas para poder conversar com ela novamente.
    Na noite anterior ao dia combinado para os dois para o novo encontro, a ansiedade tomou conta de Fernando. Para aliviar, ele saiu após todos estarem dormindo, e foi admirar as estrelas, lembrando do “Mensageiro das Estrelas”.
    Pela manhã, posicionou-se no mesmo lugar no viaduto, Elisa, ao passar, discretamente fez sinal apontando para o monte de entulho.
    Depois que o grupo passou pelo viaduto, certificando-se como sempre se ninguém o observava, desceu e posicionou-se no lugar combinado.
    Depois de uma espera que pareceu muito longa, Elisa chegou.
    -Bom dia.
    -Bom dia.
    -Gostei muito do livro, ela disse. Muito melhor do que a s histórias contadas na fogueira. No pré-bomba, essa história devia ser muito conhecida.
    -Quem bom que você gostou, respondeu Fernando. Sim, fiquei com essa impressão também, mas não cheguei a terminar a leitura.
    -Por falar em pré-bomba, Fernando, nós dois somos mais articulados do que a maioria, falamos melhor, pensamos melhor. Será que antes esse nosso comportamento era normal? Ou o comportamento da maioria é que era considerado “o normal”?
    -Já pensei nisso, Elisa, penso nisso quando observo o comportamento dos outros, todos tão diferentes. Talvez o que nos diferencie seja o gosto pela leitura, ou a curiosidade.
    -Sim, talvez, ela disse. Eu gostaria muito de saber se o resto do mundo é como aqui, nessa cidade. Se em todo lugar existem divisões com essa, se as pessoas têm essa coloração de pele que nós temos.
    -Só tem um jeito de saber, Elisa. Sairmos daqui e vermos por nós mesmos.
    Isso pareceu acender uma luz dentro dela. Era justamente o que ela queria fazer.
    -Vamos fazer isso então, Fernando! Ela disse com entusiasmo.
    Começaram a planejar o que levar, como por exemplo, um pedaço de pano grande que serviria com uma tenda ou barraca, mantimentos, roupas, o que coubesse as grandes sacolas de pano, que Fernando adaptaria para colocarem nas costas, como mochilas.
    Elisa perguntou se Fernando sabia o caminho para a estrada que levava para fora da cidade. Fernando respondeu positivamente e disse como chegar lá.
    -Vamos marcar para daqui a uma semana? Uma hora antes do amanhecer, no começo do caminho que leva a estrada.
    -Combinado, ela disse.
    Assim, como haviam acertado, depois de uma semana partiram.
    8. A estrada
    Tomaram a saída e entraram na estrada, deixando aos poucos a cidade para trás. Andavam o maior tempo que podiam, quando estavam muito cansados, paravam e descansavam a beira da estrada, quando tinham fome buscavam alimento, na natureza e em eventuais estabelecimentos que encontravam no caminho. Evitavam andar à noite. Quando escurecia, improvisavam uma barraca e dormiam.
    E essa rotina seguiu-se durante semanas, que depois viraram meses.
    Não encontraram nenhum lugar do porte do que eles tinham deixado, apenas algumas cidades pequenas ou vilarejos, aonde as pessoas viviam em condições precárias, mas a rivalidade entre roxos e verdes sempre estava presente.
    Uma noite, logo nas primeiras semanas, fazia calor e eles resolveram se deitar em um lugar de mato rasteiro, deitaram-se lado a lado e ficaram observando o céu. A lua estava enorme e não havia nuvens, o que inspirou Fernando a falar do “Mensageiro das Estrelas”: das observações do cientista, dos desenhos, da lua e suas “montanhas elevadas e vales profundos”.
    Falou dos anéis de saturno, das luas de Júpiter, e de como o cientista teve a ideia de usar a luneta, recém-inventada, para observar o céu.
    Depois de falar bastante, pediu a Elisa que falasse sobre “Romeu e Julieta”, que ele havia quase esquecido da história, maravilhado que ficou com o “Mensageiro”.
    Elisa repassou a história de maneira muito bem contada, pois lera o livro mais de uma vez. Contou sobre o romance proibido, pois o casal desafiava a rivalidade entre as famílias para ficarem juntos.
    Fernando gostou principalmente da coragem de Romeu, que não fugiu de nenhum dos duelos a que foi desafiado, inclusive no último, quando desiludido por pensar que havia perdido sua amada, ainda avisou seu oponente: “Não provoque alguém que não tem nada a perder”, ou algo assim.
    Lamentaram o final trágico. Apesar disso, a história acaba em um clima de reconciliação entre as famílias, e ficaram imaginando se algo assim poderia acontecer no mundo real.
    Elisa pediu para Fernando falar mais sobre o “Mensageiro” sobre o céu, as estrelas. Fernando repetiu coisas que aprendeu com o livro.
    Ainda estava falando, quando olhou pro lado e parou de repente, espantado com o que via: o rosto de Elisa assumiu um semblante diferente e inusitado enquanto ela o ouvia e olhava o céu: ela estava sorrindo.
    9.Renascimento II
    Mais de um ano se passara, e Fernando e Elisa, mais do que amigos, cúmplices e colegas de aventura, eram um casal. Cada vez mais unidos, ajudavam-se sempre que necessário, nunca faltava apoio de nenhum tipo.
    Fernando com o tempo aprendeu a sorrir também, foi um processo natural.
    Mas estavam cansados. Perderam a conta de tantos lugares que conheceram, mas nenhum parecia um porto seguro, ou, no mínimo, que oferecessem alguma garantia de passariam pelo menos algum tempo em paz.
    Um dia, estavam no alto de um aclive na estrada quando avistaram uma cidade, alguns quilômetros adiante. Era grande, a maior que tinham encontrado desde a partida. Quando estavam chegando, avistaram um portal, bem na entrada da cidade, e viram ao lado dele uma mulher, vestida de branco, sentada em uma cadeira fazendo anotações em um bloco. Repararam que sua pele tinha coloração totalmente normal.
    Quando ela os viu, levantou-se rápido e veio ao encontro dos dois. E sorria!
    -Olá viajantes!!!! Eu me chamo Ângela, e vocês?
    Olhou para eles de cima a baixo.
    -Nossa, vocês estão precisando de roupas limpas, um banho e descanso. Há quanto tempo vocês não comem? Estão muito magros!
    Fernando e Elisa se apresentaram, e contaram sua história, de onde vieram e porque partiram.
    -Bom, vamos cuidar um pouco de vocês. Como disse, me chamo Ângela e faço parte de um grupo nacional chamado Renascimento II. Vamos caminhar até a sede local do grupo, fica perto daqui. Somos uma espécie de força-tarefa criada para tentar dar um rumo melhor para as pessoas, pelo menos no nosso país, tentando amenizar os estragos causados pela bomba. Eu, por exemplo, sou médica, pois antes da bomba eu havia acabado de me formar em medicina. As pessoas que fazem parte da força-tarefa são direcionadas para trabalhar em suas especialidades, ou para aonde sua vocação os conduz.
    Modéstia à parte, a minha área está dando uma grande contribuição, pois conseguimos criar uma vacina que está devolvendo a cor natural da pele às pessoas. Mas estudos e estatísticas mostram que essa coloração estranha, com vacina ou não, está diminuindo com o tempo.
    Temos instituições de ensino, psicólogos, engenheiros, cientistas e vários outros profissionais totalmente voltados para o esforço pós-bomba.
    Elisa e Fernando estavam cada vez mais contentes com o que ouviam, parecida que tinham finalmente achado seu lugar. Ficaram sabendo também que o sorriso ali era algo natural.
    Falaram dos livros que tinham lido e gostado tanto, mostraram a Ângela, que pegou os dois e ficou olhando as capas, e devolveu-os enquanto chegavam à sede do Renascimento II. Havia um grande pátio na frente do prédio, parecia ser a hora de algum intervalo, pois havia várias pessoas ali espalhadas, conversando em pequenos grupos. Quase ao mesmo tempo todos viram a chegada dos dois viajantes e os saudaram aos gritos e levantando os braços.
    Ângela pegou o “Mensageiro”, das mãos de Fernando, levantou bem alto e disse de uma maneira solene: “O Mensageiro das Estrelas!!”. As pessoas responderam com gritos de admiração.
    Fernando, sempre querendo dizer algo importante em ocasiões especiais citou sua frase preferida:
    “A natureza produz seus efeitos mediante formas impensáveis por nós, e é surda e inexorável a nossos vãos desejos”. Todos riram e aplaudiram.
    10. A natureza e seus efeitos
    Um mês depois de sua chegada, os dois estavam plenamente integrados. Estudavam educação formal pela manhã, e a tarde dedicavam-se aos estudos profissionalizantes. Elisa encantou-se com o trabalho de Ângela e decidiu estudar medicina. Fernando decidiu-se por física, com ênfase em astronomia, queria ser professor.
    Estavam ainda maravilhados com o mundo em que estavam vivendo, que nem imaginavam que pudesse existir. Veículos elétricos estavam sendo produzidos, ainda em pequena escala, mas essa indústria era promissora.
    O plano era acabar com o uso de veículos de tração animal, que naquele momento eram usados apenas quando não se podia evitar. Psicólogos cuidavam de alguns efeitos do pós-bomba, como os problemas de cognição, que estavam sendo resolvidos em conjunto com a educação formal, problemas de fala sendo tratados por fonoaudiólogos. O sorriso, algo que há pouco tempo era algo quase desconhecido para Fernando e Elisa, era natural.
    O curioso era que algumas pessoas continuavam com os hábitos de antes, odiando aqueles que tinham a coloração de pele diferente. Mesmo depois do tom de pele normalizar, continuavam com sua rivalidade, pois, segundo diziam, “roxo é sempre roxo”, ou “verde é sempre verde”. Não conseguiam enxergar o obvio, de que suas vidas e suas lutas eram idênticas as dos “rivais”.
    Fernando e Elisa ganharam uma casa, depois de um tempo morando com um grupo grande de pessoas em uma espécie de mansão aonde ficavam os visitantes até que se estabelecessem ou decidissem ir embora.
    Uma manhã, Fernando estava no banho e Elisa o esperava na sala. Era dia da aula favorita dos dois, “História geral do pré-bomba”.
    Quando saiu do banho encontrou Elisa sentada e pálida, com uma aparência de cansada. Fernando logo pensou que ela poderia ter adoecido depois de tanto esforço, apesar de eles terem descansado bastante depois da viagem. Mas foi uma viagem longa.
    Assustado, perguntou o que ela estava sentindo, e Elisa contou que havia passado mal e ainda tinha náuseas.
    Decidiram encontrar Ângela antes de irem para os estudos. Ângela tinha se tornado uma grande amiga, estava sempre com eles. Entraram no hospital aonde ela trabalhava pediram para chamá-la.
    Ângela veio apressada e encontrou os dois na recepção.
    Fernando foi logo falando:
    -Elisa passou mal e vomitou.
    Ângela levou Elisa para alguns exames e Fernando ficou esperando.
    Depois de um tempo que pareceu para ele uma eternidade, Ângela voltou, olhou para ele, sorriu e disse:
    -A natureza produz seus efeitos mediante formas impensáveis por nós, e é surda e inexorável a nossos vãos desejos.
  • Caia sete, levante oito vezes!

                Qual o limite entre autor e obra? Muitas vezes, não vemos determinismo entre “criador” e “criatura”, mas um estranha e até mesmo simpática inter-relação. Masashi Kishimoto com Naruto, representa sua fase inicial de carreira, alguém rejeitado, mas com um grande potencial que só queria se divertir com o que mais gostava. Samurai 8 – Hachimaruden mostra um autor consciente, porém debilitado pelas barreiras autoimpostas, mas que ainda assim se direciona a um sonho.
                As diferenças não param por aí. Naruto é uma fantasia urbana com doses de guerras épicas, que ao longo do tempo desbanca para a alta fantasia. Samurai 8 – Hachimaruden é uma mistura de histórias de samurai, cyberpunk e space opera numa deliciosa excêntrica mistura que só os mangakás sabem fazer. Mas porque comparar? Para que julgar o novo usando as medidas do velho? Vejamos o que esse samurai pode fazer!
                Aconselho a todos a lerem o capítulo zero. Nele teremos a dose de mistério e empatia pelo protagonista. O jovem Hachimaru é uma criança ciborgue que vive conectado a uma unidade de suporte vital, uma grande máquina que impede sua morte. O garoto tem condição debilitada devido as alergias e uso de próteses no lugar do braço e da perna esquerda. Sem contar a sua aicmofobia, medo de objetos perfurantes.
                Suas únicas companhias são um cachorro robótico chamado Hyatarou e seu pai, um inventor e seu “enfermeiro particular”. Logo no capítulo zero, nós temos vários elementos que poderão ajudar o leitor a se decidir se lerá ou não o novo mangá. Mas recomendo que o leitor não seja precipitado, e avance para o capítulo 1. É nessas 72 páginas, algumas delas coloridas, que veremos todo o potencial a série.
                Não espere aqui encontrar protagonistas cheios de energia ou poderosos logo de cara, o desenvolvimento do personagem se dá de modo lento e gradual. Com nuances, camadas de shonen intercaladas com drama e ficção científica. Para Hachimaru, se livrar de suas fraquezas é tão relevante quanto poder ter uma vida normal, mas o seu maior sonho é se tornar um samurai, aqueles que estão acima dos guerreiros.
                No capítulo um, o protagonista aprofunda sua condição degradante ao leitor. Quase pessimista. Chegamos a sentir as limitações de Hachimaru na pele, e como se refugia na tecnologia. É um dos poucos mangás com inserção de pessoas com necessidade especiais que já vi na vida. Sua relação com seu pai é conflituosa, e ele será o estopim da evolução de Hachimaru, claro que de modo inconsciente.
                Um encontro inesperado com um gato robótico chamado Daruma, que já foi humano, revelará os potenciais latentes do pequeno Hachimaru. O antagonista da obra, não direi “vilão” ainda, não tem nome, embora tenha marcado grande presença num primeiro capítulo tanto com sua personalidade e poder de luta. Sua inserção na trama foi eficaz e preparou terreno para muita coisa.
                Samurai 8 – Hachimaruden tem roteiros de Masashi Kishimoto e desenhos de Akira Ohkubo. O traço de Akira difere do traço mais realista e sóbrio de Naruto Shippuden e do traço mais arredondado de Mikio Ikemoto de Boruto – Naruto Next Generation. Seu desenho é limpo e plástico. Confesso que o designer das tecnologias pode causar estranheza, tem algo biotecnológico envolvido, é simples, mas funcional.
                O autor prometeu uns dez volumes da obra. Bem sabemos que promessa de mangaká não se deve levar em conta, principalmente os famosos e os que trabalham na Shonen Jump. Esses dez volumes podem virar mais de 50 exemplares fácil. Vocês acham que para salvar a galáxia atrás de sete chaves é vai levar quanto tempo? Espero que tempo suficiente para Masashi Kishimoto desenvolver uma história sem os vícios de seu mangá antecessor e possamos ver a evolução da bela arte de Akira Ohkubo.
  • CAPÍTULO 1 - Finn

    Uma coluna vertical de fumaça cobria o pôr-do-sol e eu tentava não prestar atenção nela. Não dava atenção aos murmúrios a minha volta apesar de estar ciente de que a qualquer momento meu corpo também poderia responder ao que estava ocorrendo. Respirei fundo e continuei contemplando o brilho alaranjado do sol que se deitava atrás das montanhas. Aquela era a hora perfeita para o que estava acontecendo.
                Olhei de relance para baixo e vi a palha se contorcer e mergulhar nas chamas. Sobre ela, entre vários pedaços de madeira, havia cinco corpos que pouco a pouco se tornavam cinzas e memórias. Eu devia estar de joelhos, meus olhos deviam estar queimando como os olhos de todas as vinte pessoas que estavam a minha volta, mas aquela não era a primeira vez, e com certeza não seria a última, em que eu cremava corpos de pessoas tão jovens.
                O mundo era assim. Todos os dias ouvíamos notícias de mais e mais mortes espalhadas pelo país e pelo mundo. Costumávamos ser uma grande família, eu e todos aqueles que se refugiavam nos campos de Brighton. Hoje não chegávamos sequer a trinta.
                Eu cresci em um mundo diferente. O mundo após o mundo. Pessoas diziam. Nada mais era como costumava ser na época de nossas tataravós. As pessoas na minha época matavam sem motivo, destruíam umas às outras, arruinavam vidas. Tudo havia mudado. O clima não era mais o mesmo, era extremamente quente e sufocante ou cruelmente frio. Em alguns lugares o ar era corrosivo de uma forma que quem o respirasse começava a vomitar sangue em segundos. A terra era traiçoeira, alguma coisa embaixo dela havia crescido, havia relatos de pessoas sendo engolidas sem deixar rastros. Os oceanos agora eram uma zona morta. Nada, nenhuma sonda ou qualquer outra coisa podia mapear os mares e descobrir o que vivia nas profundezas, era como se um tipo de sistema de segurança protegesse a vida marinha da interação humana. Os animais eram ferozes, muitos foram extintos, mas os que surgiram depois fizeram das regiões remotas um lugar inabitável.
                Tudo isso graças ao metal.
                Meu pai um dia me contou sobre a mudança pela qual o mundo passou. Tudo isso ocorreu quando Mercúrio, o Planeta mais próximo do sol, entrou em colapso e milhares de meteoros caíram sobre a Terra.
                Naquele dia o mundo conheceu o apocalipse. Segundo ele, que ainda era criança na época, as maiores potencias do planeta desmoronaram como um castelo de cartas. Os Estados Unidos foram afetados por grande parte dos meteoros, o Canadá foi varrido do globo em minutos, assim como a America do Sul, parte do continente Africano e da Ásia. Cinquenta por cento da Rússia virou uma pilha de destroços e a humanidade por pouco não foi dizimada.
                Dias depois do apocalipse, com o caos que tomava conta do planeta, algumas das potencias que ainda permaneciam intactas: Estados Unidos, Rússia, África, França, Inglaterra e China perceberam que precisavam unir todo seu poder se quisessem salvar o mundo da ruína. Foi com essa união que nasceu o Ristrad. Uma organização que tratou de resgatar todos os que ainda estavam vivos e cuidar para que pudessem recomeçar suas vidas.
                Mas como recomeçariam suas vidas se tudo o que conheciam havia sido destruído? Em que lugar viveriam?
                Foi com essa necessidade que o Ristrad descobriu que aquela chuva de meteoros havia trazido para a Terra um tipo de metal altamente maleável. E havia uma fonte ilimitada dele em cada fragmento de Mercúrio caído na Terra. Foi com esse metal que o Ristrad reconstruiu o mundo. Eles o chamavam de Ciner, um metal indestrutível jamais visto em qualquer lugar do mundo.
                Segundo meu pai, em poucos anos o mundo havia renascido e a humanidade caminhava para um futuro.
                Só que não foi o futuro que imaginavam.
                Havia algo no metal que começou a afetar toda forma de vida no planeta, principalmente os humanos. Pouco a pouco as pessoas começaram a ser tomadas pela ganância, logo em seguida pela ira até chegar a um desejo incontrolável de matar. Nem todos eram afetados, era como se o metal soubesse quais pessoas tinham tendências homicidas e conseguia extrair o pior de todas elas.
                Com o planeta mudando, muitas partes do mundo se tornaram inabitáveis. E com as pessoas matando umas às outras nas ruas o Ristrad precisava tomar providencias.
                Foi neste momento, quando eu tinha seis anos de idade, que o segundo apocalipse ocorreu. Foi quando o Japão surgiu com a promessa de que poderia acabar com o caos. Foi apresentada ao Ristrad uma empresa armamentista conhecida como Amisix, liderada por um americano, Magno Carnalis, ele prometeu acabar com o caos apresentando ao mundo o que o metal Ciner podia desenvolver de melhor: armas.
                Magno apresentou armas e dispositivos criados pela Amisix que podiam conter aqueles que estavam tomados pela demência. Era uma atitude radical, mas para o Ristrad passou a ser a única saída. O Ristrad aprovou o uso das armas da Amisix por aqueles que não haviam enlouquecido, era uma forma de manter as famílias seguras.
                O mundo virou um completo caos. Agora havia pessoas dementes matando umas às outras, máquinas e dispositivos vagando pelo mundo para neutralizar ameaças e as próprias comunidades agora se defendiam com as armas da Amisix e o próprio planeta foi contaminado pelo Ciner.
                Perdi meu pai naquela época. Quando os “dementes”, era assim que chamavam aqueles que se corrompiam, invadiram Brighton, e as máquinas da Amisix, juntamente com aqueles que haviam aderido o uso de armas, combateram os invasores.
                Eu o vi morrer.
               
                Eu podia ver seu rosto se olhasse para as chamas que agora cremavam os corpos daqueles cinco garotos que haviam saído pela manhã para conseguir remédios para os refugiados que haviam chegado de Lewes e foram atacados por dementes.
                Eles estavam ficando piores, os dementes, já haviam atravessado nossos muros duas vezes no último mês e não podíamos fazer nada. A maioria de nós não conseguia matá-los, muitos dos que estavam em Brighton haviam perdido entes queridos para a demência. Alguns chegaram a ser feridos e até mortos por filhos ou irmãos. Era o que o Ciner fazia, ele consumia a alma daqueles que possuíam sombras dentro de si e os tornava maus de uma forma irreversível. E ele estava por toda parte. As ruas eram de Ciner, as casas, os móveis, eletrodomésticos... O mundo havia sido reerguido a partir de uma coisa maldita.
                — Finn! — Eric me chamou ao colocar a mão em meu ombro. — Já vai escurecer — Avisou ele. — Acho melhor voltarmos para a prefeitura.
                Observei o pôr-do-sol mais uma vez. O brilho alaranjado já se tornava apenas uma linha morna no horizonte. Eu olhei para seus olhos castanhos e em seguida para todos aqueles que ainda choravam pela perda. O fogo já estava praticamente extinto e não havia sobrado nada além de uma pilha de cinzas.
                Balancei a cabeça, assentindo. Eric colocou a mão sobre o ombro da mãe de um dos garotos que haviam acabado de ser cremados.
                — Precisamos ir — Disse ele gentilmente.
                A mulher assentiu e se levantou com sua ajuda. Eu segui para o outro lado. Abracei a outra mãe de um dos garotos e os convoquei para voltar. Estava ficando escuro e sabíamos que os dementes costumavam sair à noite. Era o único período em que eles sentiam fome. Se um demente pegasse alguém durante o dia ele apenas mataria e abandonaria o corpo, mas se isso ocorresse após o pôr-do-sol ele também comeria sua carne. Era estranho, mas eu nunca havia parado para pensar no porquê de isso ocorrer.
                Aos poucos todos os refugiados estavam de pé naquela ravina e se dirigiam de volta para a cidade. Alguns levaram consigo um pouco das cinzas, outros, porém, decidiram apenas deixar tudo aquilo para trás.
                As ruas de Brighton costumavam ser iluminadas à noite. Agora tínhamos que manter todas as luzes apagadas do lado de fora. Havia casas abandonadas por toda parte, vestígios de acidentes e tragédias que ocorreram quando as pessoas começaram a matar e tudo virou um caos mais uma vez.  Poucos sobreviveram, e eu não fazia idéia de como o mundo lá fora estava.
                A prefeitura era o lugar onde eu mantinha todos os refugiados à noite. Era um prédio imenso, com paredes bem reforçadas e vários cômodos onde todos ficavam confortáveis. Tínhamos plantações em todos os jardins da cidade, com isso podíamos manter todos alimentados, inclusive aqueles que acabavam vindo parar em Brighton enquanto fugiam de dementes ou de algum animal selvagem.
                Tínhamos todo tipo de pessoa em Brighton. Havia uma mulher, Walery, uma mulher de trinta e oito anos que havia sido médica em Londres alguns anos antes do surto de dementes começar. Era a única pessoa que tínhamos para cuidar dos doentes, eu não sei o que faríamos sem ela. Havia um homem chamado Daniel, que havia trabalhado no Ristrad. Eu não sabia o porquê de ele ter decidido sair, mas ele nunca falava a respeito.
                Tínhamos também algumas crianças, todas órfãs. Minha única amiga de infância que ainda estava viva era responsável por cuidar delas. Ela sempre quisera ser mãe, mas num mundo como o nosso aquilo era impossível.
                — Já pensou no que vamos fazer? — Eric disse baixo. Já estávamos dentro do hall da prefeitura. Ele e eu havíamos acendido uma fogueira no centro, onde sempre acomodávamos os idosos e as crianças. Walery e Max, uma garota órfã que havia chegado há pouco tempo, distribuíam a comida. Eu fitava as chamas estalarem, pensativo.
                — Eu ainda não sei — Sibilei olhando seu rosto parcialmente iluminado pelo calor das chamas. Eric era jovem, tinha vinte e cinco anos, a mesma idade que eu. Ele havia crescido em Londres, e, quando o surto começou havia se separado dos pais durante uma evacuação promovida pelo Ristrad. Ele não sabia onde os pais estavam, nem sequer se estavam vivos. Passamos muitos anos juntos, ajudando um ao outro, acolhendo todos os refugiados que encontrávamos nas proximidades de Brighton.
                — Precisamos de medicamentos — Sussurrei. — Mas não estou disposto a perder mais ninguém para o que têm lá fora.
                — Eu poderia tentar ir — Sugeriu ele.
                — Não — Minha respiração ficou alterada. — Eu disse que não perderia mais ninguém.
                — Não temos outra escolha — Disse ele.
                — Está errado — Me movimentei para longe. Passei pelas pessoas que estavam deitadas em colchões espalhados pelo hall e me direcionei para a porta de entrada. Além de mim e de Eric havia apenas mais três pessoas em Brighton que sabia usar armas de fogo. Essas pessoas nos auxiliavam todas as noites mantendo a prefeitura segura.
                Me aproximei de Grant, era um homem de meia idade. De cabelos grisalhos, bigode branco e olhar cansado. Ele havia perdido todos os filhos dez anos atrás durante um surto. Desde então havia dedicado a vida a caçar e matar dementes.
                — Olá Finn — Ele disse quando me aproximei.
                — Como estamos? — Perguntei olhando as ruas escuras da cidade em ruínas.
                — Até agora estamos seguros — Ele disse com os olhos fixos nos muros que circundavam as ruas logo à frente. — Posso ouvi-los lá fora, na floresta. Malditos!
                — Tenho ouvido sobre mais e mais ocorrências nos últimos dias — Eu disse. — Soube de uma pequena cidade, não muito longe daqui, que foi dizimada algumas noites atrás.
                Grant olhou a escuridão, pensativo, em seguida seus olhos se voltaram para mim e depois para todas as pessoas no Hall.
                — Sabe que não pode manter essas pessoas aqui para sempre, não sabe? Eles estão mudando, Finn, os dementes. Esses que vejo hoje não são os mesmos que mataram meus filhos anos atrás. Eles costumavam ser descontrolados e irracionais. Atacavam qualquer pessoa como se fossem movidos pelo ódio. Mas, hoje, eles mudaram. Tornaram-se frios e articulados. Eles sabem que não vamos conseguir ficar aqui muito mais tempo, e eles estão esperando.
                — Eu sei disso — Respondi. — Mas não sei o que fazer. Eu não posso simplesmente tirar essas pessoas daqui sem ter para onde levá-las. A não ser que viajemos para Londres.
                — Não! — Disparou Grant. — Você não pode fazer isso. Sabe o que dizem sobre a Amisix e sobre o que ela faz com as pessoas.
                — Eu sei o que a Amisix faz — Retruquei. — Foi por causa da Amisix e das armas dela que eu perdi meu pai. Todo o caos apenas piorou depois que Magno Carnalis surgiu com seus armamentos e suas máquinas estúpidas prometendo salvar a humanidade de uma coisa da qual não temos salvação, mas pode não haver saída melhor. Talvez o Ristrad...
                — O Ristrad e a Amisix estão juntos, sempre estiveram — Garantiu Grant. — Não sei como o Ciner não os corrompeu até hoje.
                — Talvez já estejam — Sussurrei com amargor. — Talvez tenham se transformado em um tipo diferente de demente.
                — Um tipo bem psicótico — Riu Grant.
                — Vou fazer uma ronda — Disse ele descendo as escadas de mármore rumo à escuridão.
                — Não quer que eu vá com você?
                — Eu agradeço, Finn. Mas, preciso pensar um pouco e você me conhece, só consigo pensar direito quando fico cara a cara com a morte — Grant riu antes de caminhar pelas ruas.
                Logo depois que Grant desapareceu desci as escadas e caminhei pelas calçadas. Eu fazia aquilo todas as noites depois que todos estavam acomodados e seguros na prefeitura. Fazia meu caminho através das ruas frias. Aquilo me fazia bem, me lembrava de quando saia com meu pai nas manhãs de inverno.
                Fiz meu caminho para longe do centro. Dez minutos de caminhada e eu estava em uma rua com pequenas casas de madeira, uma coisa que era rara diante de um mundo onde tudo era feito de Ciner. Três casas para frente, à esquerda, havia uma pequena casa abandonada, cujas paredes e parte do telhado já haviam cedido. Era um risco entrar ali, mas eu não me importava. Aquela era a casa onde eu crescera e vivera por seis anos antes de pessoas começarem a matar umas as outras e empresas ambiciosas tirarem proveito da dor e do sofrimento daqueles que não tinham como se defender. Foi ali que meu pai morreu. O pedaço mais feliz da minha infância, e o mais triste.
                Passei pela abertura que havia no lugar da porta de entrada e caminhei sobre a madeira podre. Havia chovido nos últimos dias, a água da chuva havia deixado um cheiro de mofo que se misturava com o cheiro das rosas que meu pai cultivava. Eu havia cultivado dezenas delas nos últimos anos fazendo do interior da casa um jardim secreto.
                Caminhei me desviando das flores, me direcionei para a lareira que ficava no canto de uma sala que agora estava aberta permitindo que a luz da lua entrasse e iluminasse todo o recinto. Me sentei sobre uma cadeira e observei as flores em contraste com a lua. Eram tão delicadas e frágeis quanto as pessoas que eu tentava manter vivas todos os dias. Não estava sendo fácil, desde que comecei a trazer refugiados para Brighton, ao lado de Eric. Eu não imaginava que tantas pessoas procurariam ajuda. Havia muitas pessoas, assim como eu, que não confiavam na segurança prometida pela Amisix e pelo Ristrad e preferiam sobreviver por conta própria a ficar nas metrópoles sob o governo das duas empresas.
                As metrópoles eram grandes cidades. Como Londres, Nova York, Moscou, Paris... Cidades que haviam sobrevivido a tudo graças às armas da Amisix e a corrupção do Ristrad. Estas cidades permaneciam imaculadas sem a interferência dos dementes ou de todas as outras mudanças mortais pelo qual o planeta passou nos últimos anos. Elas estavam lotadas de máquinas inteligentes criadas pela Amisix, dispositivos e programas que previam a aproximação de ameaças além do fato dos próprios moradores poderem usar armas para se defender.
                Ali dentro era como se nada nunca tivesse ocorrido. As pessoas viviam seguras; trabalhavam, estudavam, constituíam família e viviam em paz.
                Uma verdadeira utopia.
                Mas, nem tudo podia ser um mar de rosas. Grant havia me contado sobre pessoas em Londres que estavam sendo corrompidas pelo metal e matando as próprias famílias. Era o que acontecia quando o uso de armas era legalizado. Com a morte vinha a corrupção e era onde o metal agia transformando a pessoa em Demente.
                Para esconder da população, a Amisix recolhia os Dementes e suas famílias mortas e as levava para um de seus laboratórios onde os transformava em experimentos.
                “A Amisix é má”. Dizia Grant, havia morte e corrupção em suas instalações. O presidente da Empresa, Magno Carnalis, queria algo com o metal e não era descobrir a cura.
                Eu não podia levar aquelas pessoas para Londres. Acabariam mortas e virariam experimentos. Precisava encontrar um lugar para levá-las. Um lugar onde ficariam mais seguras.
                Enquanto pensava olhei para a lareira. Me levantei e fiquei de joelhos diante dela. Passei a mão sobre a base de tijolos. Havia um compartimento abaixo do assoalho onde eu guardava minha única herança. Ao abrir o compartimento havia uma caixa de madeira comprida onde meu pai havia guardado uma de suas criações. Ele havia sido engenheiro em vida e havia trabalhado com Ciner.
                O conteúdo daquela caixa me deixava aterrorizado. Eu não conseguia olhar para dentro dela por muito tempo.
                Coloquei a caixa novamente em seu esconderijo e fechei o compartimento. Me pus de pé e caminhei para fora. Minha cabeça agora focava na breve conversa que eu havia tido com Eric naquela tarde. Havia pessoas doentes em Brighton. Elas precisavam de remédios, mas eu havia perdido cinco pessoas na tentativa de trazê-los para a cidade. Não podia perder mais ninguém.
                Eu sabia o que precisava ser feito.
                Parei diante de uma caixa de correio ao lado da calçada. Tirei a tampa para encontrar uma bolsa com alguns mantimentos e armas. Depois disso caminhei pela noite na direção dos muros.
               
                Caminhei para fora dos muros e avancei pelas ruas da cidade. Havia um ambulatório há alguns quilômetros onde alguns garotos haviam visto medicamentos semanas atrás. Eles não puderam pegá-los, entretanto, pois o local estava tomado por Dementes. Apressei o passo quando comecei a ouvir grunhidos vindos das casas abandonadas ao redor e da floresta que circundava o local. Em geral, Dementes comuns atacavam qualquer pessoa que vissem em sua frente, apenas para matá-la, mas eles estavam diferentes, assim como Grant havia falado. Estavam me observando e aguardando o melhor momento para me atacar.
                Segurei uma das armas que havia na bolsa e caminhei pelo centro das ruas. Alguns metros depois, o primeiro Demente saltou para fora de uma casa vazia. Era uma mulher de meia idade. Estava com as roupas rasgadas, a pele estava enrugada e com um tom escuro e sujo. Os olhos dela estavam tingidos com um tom vermelho escarlate de ódio.
                Com as unhas longas e afiadas ela tentou acertar meu pescoço. Me desvie com facilidade e segurei seus pulsos. A empurrei para longe e atirei com o silenciador em sua barriga. Ela cambaleou para trás e caiu com as mãos no estomago.
                Olhei ao redor com o corpo ainda paralisado de tensão. Sabia que ela não estava sozinha.
                Voltei a caminhar. Não estava longe, podia ver a entrada do ambulatório a poucos metros. Uma brisa fria atravessou meu corpo quando me aproximei. Naquele instante percebi o risco que teria ao entrar. Não haveria outra saída senão a porta da frente. Eles estavam esperando que eu fizesse isso. Quando entrasse estaria cercado. Ainda assim, eu não havia escolha. Precisava voltar com medicamentos.
                Avancei. A porta dupla da entrada era de vidro e estava quebrada. Passei sobre os cacos e em seguida atravessei o balcão que ficava na entrada. Estava tudo destruído. Havia corpos completamente decompostos pelos corredores, catres impediam a passagem em alguns pontos. Havia sangue seco.
                Procurei pela enfermaria, ouvi grunhidos nas salas por onde passei e do lado de fora também. Eu precisava ser rápido. Encontrei a enfermaria depois de alguns corredores. A maioria das prateleiras estava vazia, mas havia alguns frascos de antiinflamatórios em uma gaveta, analgésicos em outra e alguns curativos também.
                Peguei uma sacola. Coloquei tudo que poderia ser útil e me preparei. Peguei duas armas com silenciador e me virei para a porta. Havia um Demente parado no corredor aguardando a minha saída. Ele estava em um estado parecido com o da mulher, porém havia sangue escorrendo de sua boca.
                Apontei a arma e atirei quando ele veio na minha direção. Usei seu corpo como escudo e saí pelo corredor. Não havia outros a vista, mas eu podia senti-los se aproximando.
                Corri para a entrada a tempo de sair antes que três dementes surgissem na recepção e tentassem me pegar. Havia mais quatro me esperando na entrada como eu havia previsto. Continuei correndo na direção deles. O segredo para sobreviver era não pensar muito. Dementes geralmente eram movidos por impulso, sendo assim eram sujeitos a falhas. Se eu fosse mais rápido do que eles eu podia matá-los sem dificuldade.
                Acertei os dois que estavam mais próximos no peito. Eles caíram para trás deixando os outros dois incertos por um instante; Tempo suficiente para eu acertá-los. Corri um pouco mais. Os três que saíram do ambulatório ainda me perseguiam. Puxei um cartucho da bolsa e recarreguei o silenciador. Me virei, os três estavam a menos de quatro metros de mim. Tive tempo de acertar o que estava mais próximo. Ao cair ele atrapalhou os outros dois e eu pude economizar munição acertando a cabeça de um com um chute e quebrando o pescoço do outro.
                Não olhei para a pilha de corpos no caminho. Continuei seguindo de volta para a prefeitura. Eu tinha conseguido os remédios e ainda estava vivo. Não era muito, mas ajudaria a tratar alguns dos doentes e feridos de Brighton.
                Me esgueirei pelos arbustos para cortar caminho até o muro. Queria voltar o quando antes e entregar o que havia conseguido para Walery. Quando estava chegando perto percebi que alguma coisa estava errada. Foi quando vi que o muro havia sido atacado e parte dele havia cedido permitindo a entrada de Dementes.
                Meu corpo ficou paralisado, de repente meus pulmões ficaram sem ar e meu coração ficou histérico. Escalei o muro para não chamar atenção, quando cheguei ao topo meus joelhos quiseram ceder e me jogar para baixo quando eu vi.
                A cidade havia sido atacada. Havia dementes correndo pelas ruas, furiosos. Pude ver a prefeitura algumas quadras a frente, estava escancarada com um aglomerado de criaturas correndo, desesperadas por carne. Meus olhos arderam e eu não sabia o que fazer. Obriguei meu corpo a se mover e desci do muro, entrando na cidade. Me esgueirei silenciosamente pelos arbustos para não ser visto. Precisava voltar para a prefeitura e encontrar os refugiados. Talvez estivessem escondidos em algum lugar. Eu precisava checar.
                Mas de repente eu ouvi um assobio. Eu estava próximo de uma casa abandonada e alguma coisa dentro dela me chamava. Tentando não ser visto me aproximei devagar até ouvir uma voz conhecida que acalmou meus nervos.
                — Finn! — A voz de Grant me chamou.
                Olhei ao redor para checar se era seguro correr. A rua estava silenciosa então corri para dentro da casa em ruínas. Grant estava encostado em uma parede no canto da sala. Ele estava ofegante, suava e estava com as mãos nas costelas, de onde escorria sangue.
                — Grant — Eu disse em desespero. — O que aconteceu?
                Me coloquei de joelhos diante dele. Seu rosto molhado brilhava em contraste com a luz da lua. Ele soluçava.
                — A... — Ele gaguejou — Amisix.
                Minha testa franziu.
                — O quê? Amisix, aqui?
                Grant balançou a cabeça positivamente.
                — Vieram atrás de seu pai.
                Sacudi a cabeça confuso.
                — Como...
                — Vieram atrás do que seu pai criou — Continuou Grant. — Escute, ouvi boatos há um tempo, de coisas que o Ciner poderia fazer se fosse manipulado da maneira correta. Obviamente nós não o fizemos e por isso tudo virou um caos, mas ouvi sobre pessoas que conseguiram estudar o Ciner a um nível elevado. Capaz de revelar as verdadeiras propriedades dele. Ouvi até sobre pessoas que conseguiram combinar o Ciner a coisas comuns e transformá-las em algo extremamente superior, acima da compreensão humana. A Amisix nunca conseguiu isso. Manipular o metal a ponto de ser capaz de obter um poder imensurável, mas essa é a maior ambição do presidente da Amisix.
                Respirei fundo e pestanejei, confuso.
                — Eu ainda não estou entendendo — Sussurrei, frustrado. — O que meu pai tem a ver com isso?
                — Seu pai foi uma dessas pessoas. Ele conseguiu usar o melhor do Ciner para criar uma coisa nova. Uma coisa que ele deixou para você dentro daquela caixa que você guarda embaixo da lareira. Eles querem aquilo, rastrearam até aqui e mataram todos na prefeitura para achar.
                Meus olhos arderam. As lágrimas escorreram sobre meu corpo trêmulo.
                — Escute Finn. Eu tenho um irmão, ele se chama Backin. Ele vive em Lewes, em uma fazenda. Eu quero que procure ele. Ele entende disso melhor do que eu e vai saber te ajudar. Eles voltarão atrás de você e vão te encontrar se ficar por aí sozinho.
                Grant tossiu e se contorceu. Retirei depressa os curativos da bolsa. Preparei uma seringa com remédio. Quando fui expor o ferimento para tratá-lo a mão ensanguentada de Grant me deteve.
                — Não, guarde para você — Ordenou ele. — Eu não vou aguentar muito mais tempo e se for com você vou te atrasar.
                — Eu não posso te deixar aqui — Retruquei.
                — Não se preocupe — Grant riu. — Eu vou encontrar meus filhos. Eu não poderia estar mais feliz.
                Algumas lágrimas escorreram de seus olhos. O mesmo aconteceu comigo.
                — Você precisa ir antes que te encontrem — Disse ele. — Escute, você não pode deixar que a Amisix ou o Ristrad coloquem as mãos no que seu pai criou. Eu não sei o que eles pretendem com isso, ma sei que vindo de Magno Carnalis não pode ser bom. Não confie em ninguém daquela empresa.
                Eu assenti. Levei uns minutos para me levantar. Grant começou a respirar mais devagar. Ele fechou os olhos sorrindo.
                — Adeus, Finn — Ele sussurrou entre lágrimas. — Foi um prazer lutar ao seu lado por todos esses anos.
                E então Grant deixou de respirar.
                Saí da casa quando percebi que as ruas estavam vazias. Os Dementes estavam rondando a prefeitura em busca de carne. As lágrimas escorriam pelo meu rosto quente. Enquanto eu caminhava para minha casa os rostos de todos aqueles que estavam sob minha responsabilidade pairavam sobre mim. Me lembrei de todos eles. O último foi o rosto de Eric, a primeira pessoa que eu encontrei quando comecei a ajudar pessoas em perigo. Ele estava comigo há tanto tempo. Eu nem sequer pude me despedir.
                Quando entrei na casa em ruínas, atravessei as rosas e me ajoelhei sobre a lareira. Retirei a tampa do compartimento e puxei a longa caixa de madeira. Eu havia aberto apenas uma vez. Não conseguia colocar minhas mãos no que havia ali. Era um sentimento indescritível. Eu tinha medo. Muito medo. Do que poderia acontecer comigo. Nunca havia entendido no que meu pai estava pensando quando deixou aquilo para mim, mas algo me dizia que eu iria entender.
                Abri a caixa sobre uma pequena e velha mesa que ficava no centro da sala. O conteúdo ainda estava ali, imaculado. Duas katanas (espadas japonesas) repousavam sobre almofadas vermelhas. O cabo era dourado e vermelho e as lâminas eram brilhantes, feitas de Ciner.
                Respirei fundo e coloquei minha mão direita sobre o cabo de uma delas. Levantei a espada lentamente e analisei a lâmina, eu podia ver meus cabelos curtos e prateados sendo refletidos ali. Em seguida peguei a outra katana e as segurei pelo cabo com firmeza. Eu não sabia o que faria com aquilo, nunca havia tido nenhum treinamento. Não sabia como usá-las.
                De repente alguma coisa se desprendeu do cabo das duas espadas. Duas argolas prateadas desceram pelos meus punhos e se fixaram em torno dos meus pulsos.
                Dois braceletes prateados que emitiam uma luz vermelha que piscava. Era estranho, mas eles pareciam estar estabelecendo algum tipo de conexão entre mim, eles e as duas lâminas, pois eu me senti diferente e de repente eu sabia exatamente como usá-las.
                De repente a luz vermelha ficou verde e uma gravação começou a falar:
                “Transmitindo última mensagem”
                “Finn” Era a voz do meu pai.
                “Eu sei que deve estar confuso e que a essa altura o mundo que eu conhecia se tornou um verdadeiro caos. Sei que você deve estar lutando contra pessoas corrompidas e tentando manter o maior número de pessoas vivas possível. Eu sei disso porque conheço meu filho. Finn me perdoe por tê-lo deixado fazer isso sozinho, eu sabia com o que estava lidando. Sabia que um dia eles viriam atrás de nós por conta do que eu estava fazendo. Estas duas espadas que você está segurando agora são a prova de que o Ciner não é o culpado por tudo o que ocorreu com o mundo. Você deve ter ficado com medo ao segurá-las, mas não fique. Esse metal está puro e não fará mal a você ou a qualquer pessoa que as segurar. Existe algo que está mudando as pessoas e o planeta, mas não é o Ciner. Suspeito de que a Amisix saiba o que é e esteja escondendo da humanidade para benefício próprio. Eles têm caçado todas as pessoas que conseguem fazer o que eu fiz. Estas pessoas estão desaparecendo, você precisa encontrá-las e lutar contra a Amisix junto com elas. Você precisa abrir os olhos da humanidade para o que está havendo. Por favor, Finn. Sei que não tenho o direito de te pedir nada disso, mas neste momento você é a única pessoa capaz de descobrir o que está havendo com o planeta e expor isso para todos.”
    “Eu não sei como, mas eu encontrei uma forma de estudar esse metal e descobri uma das muitas qualidades que ele possui. Elas são únicas e possuem habilidades que vão te ajudar daqui em diante.”
    “Eu as chamo de Harin e Horan, espadas da vida e da morte, dei esse nome devido às habilidades que elas possuem, você vai descobrir quando chegar a hora.
     “Eu quero que saia de Brighton e descubra o que há com o planeta. Preserve o que restou da humanidade. Ela ainda pode ser salva. Acredite nisso.”
    “Queria poder ver seu rosto agora.”
               
                Aquelas foram as últimas palavras que eu ouvira de meu pai. Com emoção e com certo receio eu segurei as duas lâminas. Elas costumavam ser um pesadelo para mim, mas naquele momento elas eram parte de mim. O último fragmento da memória de meu pai.
                Sai da casa ainda confuso. Se não era o Ciner, o que estava arruinando o planeta?
                Onde e como eu encontraria outras pessoas que fizeram o que meu pai fez com o Ciner?
                Eu não ia desistir, é claro. Eu encontraria um jeito. Eu ia expor a Amisix.
                Quando comecei a caminhar para o muro me lembrei de Grant. Ele estava em uma casa não muito longe. Não era certo deixar o corpo dele lá.
                Retornei para a casa onde ele estava. Por sorte havia uma pá nos fundos da casa com a qual eu pude cavar uma cova. Peguei o corpo de Grant ainda quente e o arrastei para a cova. Depois que o havia enterrado retornei para minha casa e colhi algumas rosas e as coloquei sobre seu tumulo.
                “Eu devia fazer isso pelos outros também” Pensei.
                Deixei o tumulo e voltei para as ruas. Caminhei na direção da prefeitura. Estava cheia de Dementes por toda parte. Devia ser mais de meia noite e estava muito escuro. Eu seria morto se me aproximasse, mas eu não podia deixar o corpo de Eric e de todos os outros lá para serem devorados.
                Quando em aproximei um grupo de Dementes me viu e começou a correr na minha direção. Quando coloquei a mão na cintura para pegar uma arma de repente as duas espadas, que estavam nas minhas costas se deslocaram tão rapidamente que eu só pude ver os corpos caírem em pedaços. As duas permaneceram fincadas sobre a cabeça de dois Dementes.
                Fiquei espantado com o que havia acabado de ocorrer, mas não tive tempo para absorver a informação. Outros Dementes ouviram o barulho e saíram da prefeitura. Uma horda se posicionou diante de mim. Estavam sedentos por carne e seus olhos ferviam com um ódio fora do comum.
                Pensei em como recuperaria as duas katanas antes que me atacassem. Quando pensei nisso os dois braceletes em meus pulsos piscaram e as duas lâminas retornaram paras as minhas mãos. Percebi que havia uma conexão entre nós, como eu havia pensado. Rapidamente movimentei as duas mãos para frente e lancei as duas espadas mentalizando o que elas teriam que fazer. As duas cortaram os dementes de todas as formas possíveis. Em instantes todos haviam caído. Ordenei então que as duas circulassem a área e eliminassem qualquer Demente que se aproximasse. As lâminas obedeceram e desaparecem na escuridão.
                Subi as escadas da prefeitura depressa. Embora eu tivesse uma esperança de que alguém ainda estivesse vivo eu sabia exatamente o que encontraria. Pilhas de pessoas mortas e esquartejadas. Vi o corpo de Walery bem no centro, ela fora morta com tiros. Devia estar tentando proteger as crianças quando foi atingida.
                As lágrimas corriam pelo meu rosto enquanto eu agrupava os corpos. Reuni todos eles no centro da prefeitura enquanto ouvia as duas lâminas deceparem cabeças do lado de fora. Peguei um pouco de álcool e fósforos embaixo do balcão e ateei fogo. Precisava queimar os corpos. Havia pessoas extremamente desesperadas no mundo em que eu vivia. Pessoas capazes de fazer qualquer coisa para sobreviver, isso incluía canibalismo e se um humano comia carne contaminada por Dementes isso resultaria em sua própria corrupção.
                Era de manha quando eu havia queimado o último corpo. Espalhei rosas pela prefeitura e então chamei Harin e Horan. As duas retornaram para mim banhadas em sague. Fui para as ruas e ateei fogo em todos os corpos que encontrei. Em seguida retornei para a prefeitura. Fui para um dos cômodos onde havia roupas e suprimentos. Arrumei uma mochila com tudo o que precisaria para chegar a Lewes. Precisava encontrar o irmão de Grant e pedir ajuda a ele.
                Fui para um dos banheiros. Estava coberto de sangue e precisava de um banho. Quando enfim estava pronto sai da prefeitura. O sol marcava oito da manhã. Olhei para a prefeitura uma última vez antes de deixar a cidade.
    Não importava onde eu fosse sempre haveria um pedaço de Brighton comigo.
  • Capítulos vagos de vidas miméticas e contemporâneas

                    Certamente é um assunto bastante recorrente nos dias de hoje as questões sobre a tecnologia e a vida, as divergências e compatibilidades sobre conceitos que se criam e as maneiras de se adaptar a um mundo que ao mesmo tempo se torna maleável e em outros aspectos tão caótico, e não apenas no sentido de uma presente apostasia, mas sobre infelizmente um sentido auto reflexivo, que nos conduz a natureza humana, que por mais fascinante que possa parecer também apresenta uma realidade decepcionante
                   Certa vez me deparei com um sujeito no começo de minha graduação em psicologia e que viria a ser um grande amigo, e me surpreendi com o fato de que ele não tinha facebook e nem whatsapp, me recorreu que se tratava de alguém que não tinha o menor interesse em certos assuntos que a um ano atrás por incrível eu pareça não me interessavam também, já que eu também não tinha whatsapp e o meu fecebook estava parado a muito tempo. Tratei de me dar o luxo de refletir sobre a conversa que tivemos neste mesmo dia e me surpreendi como fazia tempo em que não conversava de forma tão franca com alguém, e para minha maior felicidade ele declarou a mesma coisa no dia seguinte ao falarmos sobre a conversa que tivemos no dia anterior, pois não a nada mas felicito para um mero estudante que procura o conhecimento saber que ele não é o único a estar num caminho que poucos procuram trilhar nos dias de hoje. Indo mais fundo eu quis refletir mais um pouco e voltei cerca de 2 anos atrás quando estava no ensino médio e relembrei alguns momentos em que observava as pessoas ao meu redor fazerem planos para um futuro pouco distante já que tinham a ideia de terminar o ensino médio, fazer uma faculdade e arrumar um bom emprego. Era totalmente incongruente com a realidade do que a vida pode significar
                    As pessoas após um tempo de reflexão percebi eu, estavam vivendo uma realidade que não era a delas, mas sim uma realidade que foi projetada. A medida em que eu pensava sobre os aspectos que a levaram a tal decisão percebi que elas simplesmente reproduziam o que viam em filmes, livros de uma péssima literatura e logicamente como qualquer brasileiro comum o que os famosos passavam como uma vida justa, tranquila e repleta de felicidades. Sinto muito em dizer que isso não se trata da vida, nem mesmo se trata de um rastro do que seja ela em sua essência. A vida é nossa única viajem, a viajem que devemos entender nossos propósitos e nossas necessidades como pessoas que podem ter tudo e se sentirem legitimamente pessoas com vidas vagas e sem um sentido, ou podemos ter poucas coisas numa visão geral do mundo mas com a satisfação de sentir que não lhes falta algo, pois o vazio cósmico do qual muitos declaram ter não faz parte de sua vida, mas sua própria história faz parte de uma história de vida digna da qual viveu, ou ainda termos ter em um sentido material, financeiro e mesmo assim ainda entender que isso pode fazer parte de você, mas não de uma vida cuja essência tem muito mais a oferecer do que propriamente o dinheiro e bens materiais. Acreditem quando digo que mesmo com todas nossas falhas e sendo naturalmente corrompidos tão facilmente, existe um sentido para sermos dignos de uma vida da qual nos abstemos de todas as coisas tão facilmente conquistadas num sentido contemporâneo, do que muitas vezes pode ser uma mera ilusão da qual passamos tanto tempo de nossa vidas tentando conquistar, porém não se trata daquilo que é inerente a cada ser humano em sua singularidade, a sua vocação, aquilo que nascemos para cumprir, nosso propósito. Se em algum momento de sua vida passou por sua cabeça que as coisas da qual tem lutado tanto para conquistar não estão fazendo o mínimo sentido, suspeite que isso se trata de uma pequena centelha daquilo que seu espírito tem clamado por toda uma história deturpada pela contemporaneidade.
                   Em um momento decisivo de minha vida, encontrei um grande amigo me aconselhou em muito aspectos, se tratava de alguém com grande fé e me lembro claramente de um momento em que ele me aconselhou sobre questões de relacionamentos que podem ser para um vida toda, se tratando especificamente de casamento. E ele me contou sobre experiências de vida com outras pessoas a qual aconselhou e relatou também sobre como as coisas desde quando ele era jovem tinham mudado, principalmente em relação a sociedade em um processo de decadência contínua. As palavras naquele momento me invadiram de tal forma que me lembro quando disse: “Se quer uma vida abençoada, viva sem reservas!”, pode parecer um tanto leviano, mas repare bem quando ele disse que seria uma vida abençoada, e não apenas uma vida da qual vivemos sem o mínimo de abstinência sobre aspectos que não acrescentam nada ou mesmo ações que levam a uma satisfação momentânea, se trata de uma vida inteira a ser refeita todos os dias, dando o nosso melhor por um presente que constituirá e dará em certo a certeza de um futuro melhor. A contemporaneidade com seus conteúdos manipuladores e maléficos tem matado essa essência de esperança na vida das pessoas. Não estou dizendo que as pessoas tem que parar de fazerem o que gostam, somos humanos e temos nossas satisfações em coisas que são de nossas preferências, porém temos que nos libertar de coisas que não fazem parte de nossa singularidade como pessoas únicas se tratando de um sentido maior que a leviandade, e de renunciar aspectos que não nos levam a lugar algum, apenas nos fazem desejar aquilo que não é feito para nós e que se trata de uma publicidade qualquer ou de um filme romantizado que nos expõe como humanos fracos que somos e seguimos tão fielmente aquilo que nos é posto com um prato atrativo todos os dias. Sinto dizer que se em algum momento achamos que o que vivemos durante todo o decurso de uma vida é decisão apenas nossa, que em algum momento acreditamos estar certos sobre como a nossa vida termina, estamos absurdamente errados sobre o que se trata a vida em seu maior sentido. A vida como anteriormente deixei claro se trata de uma viajem, uma única viagem da qual estamos fadados a trilhar com a certeza de um momento em que teremos de deixar as coisas aqui conquistadas e trilharemos outro caminho. Nossos corações devem estar no sentido maior da vida, tem que estar em algo que não nos decepcione ou mesmo nos faça acreditar em algum momento nos abandonará. Deus se trata do maior sentido da vida, ele é a Fé, o Amor e a Esperança que a humanidade necessita.
  • Coletânea "Futuro? Qual será?"

    Sinopse
    Apresentamos a Coletânea "Futuro? Qual será?". Esta é uma Coletânea de Contos Futuristas, de Ficção Científica ou não, sejam Utópicos ou Distópicos (na "onda" de "O Conto de Aia"), que apontem para uma visão de futuro para a humanidade. A questão é: No que vai dar tudo isso que está acontecendo? Onde vamos desembarcar?
    Essa é nossa vigésima Coletânea e nela o leitor encontrará os 25 melhores Textos (na percepção dos julgadores) dentre 56 inscritos. O tema desta Coletânea foi sugerido por John Dekowes, Cesar Luis Theis, Grégor Marcondes e Rafael Sousa; e escolhido dentre várias sugestões. Como nas coletâneas anteriores, a Capa desta obra desenhada por Leonardo Matoso é a capa escolhida pela maioria dos Autores que se inscreveram para a coletânea, dentre 4 (quatro) inscritas para participar da seleção. Continuamos com nossa política de termos em nossas Obras a participação democrática não só de Escritores, mas também de Designers e Leitores.
    Desejamos uma agradável leitura a todos e até a próxima!
    Autores selecionados para esta coletânea:
    Adnelson Campos
    Alberto Arecchi
    Caliel Alves
    Camuccelli
    Carlos Lopes
    Cesar Luis Theis
    Davi M Gonzales
    Gabriel Soares
    Gilberto Vaz
    Giovane Santos
    Igor Martins Lima
    José Luiz Teixeira da Silva
    Leonardo Matoso
    A. Thompson "M. A. Thompson
    Madson Milhome
    Mario Cesar Santos
    Mauricio Duarte
    Milton Jorge da Silva
    Ricardo Gnecco Falco
    Roberto de Jesus Moretti
    Rodrigo Barradas
    Sergio de Souza Merlo
    Sérgio Macedo Ferreira
    Tauã Lima Verdan Rangel
    Thiago Viana Leite
  • Crack in the Sky

    “Eu me lembro da primeira vez que olhei dentro de um anel. Na mensagem do Whatsapp estava escrito bem assim: ‘O Junior disse que dá pra ver lá da casa dele. Ele tem um telescópio de 60 mm.’ Escrito como se alguém soubesse a importância de ser de 60 milímetros ou não.
    Ok.
    Vamos à casa do Junior.
    Sabe... Quando passou no plantão da globo a primeira vez já deu medo. Todo mundo sabe que se passou lá só pode ser sério. Ninguém falava de outra coisa. Os anéis que surgiram no céu eram o assunto do momento. Mais que Stranger Things, mais que a última temporada de Game of Thrones, mais que vídeos de gatos tocando teclado (isso é famoso ainda?) e mais que The Walking Dead (acho que esse último nem é tão falado mais, não sei. Não sou tão ligado nisso.)
    Cada um tinha sua própria interpretação do que eram os anéis. De verdade? Acho um nome bem idiota! Mas todo mundo chama assim. O Rafael chama de cus do céu. Eu finjo que é babaca, mas por dentro dou risada. Cus do céu é ótimo. Bom nome.
    Então... Quando surgiu o assunto dos anéis a primeira vez todo mundo ficou especulando. Mas não parecia nada de extraordinário. Talvez algum fenômeno meteorológico ou algo parecido. Parecia um anel feito de nuvens. Uma circunferência perfeita, inabalável e impassível. Talvez fosse uma forma embrionária. Eram vários e de vários tamanhos e só. Sem novidade alguma por exatos 7 dias.
    Daí veio o primeiro plantão da globo. Talvez esse tenha sido o evento de comoção global mais abrangente que já existiu. Estava pensando nisso outro dia. O Léo disse que era a copa do mundo e eu até concordei por um segundo. Depois voltei atrás. Eu mesmo não gostava de futebol. Copas não me comoviam. Mas com os anéis não tinha essa de gostar ou não. Eles estavam ali pra quem tivesse olhos que enxergassem e pescoços que inclinassem para trás possibilitando uma visão clara do céu. Acho que a parcela da população mundial que se enquadra nesses requisitos é maior que a parcela que gosta de futebol.
    Enfim... Na TV estavam dizendo que era possível ver o outro lado dos anéis. Alguns eram bem grandes e eu realmente não sei se conseguia enxergar algo. Parecia tudo muito borrado. Mas com toda a certeza não eram halos gasosos ou círculos de nuvem como outrora pensei. Havia algo no meio dos anéis no céu. Lembro que religiosos ficaram em polvorosa e dizeres apocalípticos viraram trending topics no twitter num misto macabro de memes e pessoas verdadeiramente assustadas. Tudo isso durou mais 7 dias.
    Quando veio o segundo plantão houve uma dicotomia emocional. Uma mistura de excitação científica por parte de uma galera mais racional (que andava sumida diante da irracionalidade dos acontecimentos) junto com os mesmos arautos do capeta que bradavam o fim do mundo em coro uníssono. Nos anéis maiores eu realmente consegui ver algumas coisas. Uma graminha, um oceano talvez, umas casinhas.
    Na TV disseram que cada anel mostrava exatamente o que estava acontecendo em outra parte do mundo. Exatamente! Alguns amigos da Universidade não conseguiam conter a adrenalina em posts de facebook e afins. Pipocavam teorias acerca de buracos de minhoca e similares. Foi bem legal! Confesso. Eu tenho agonia de voos longos. Quando apresentaram a possibilidade de uma viagem de 20 horas passar a ter menos da metade porque iriam cortar caminho por um anel assim que mapeassem todos eu realmente fiquei feliz!
    Se eu que sou totalmente ignorante na arte das manjadas saquei que o ciclo de ação desses anéis é de 7 em 7 dias, com certeza isso já havia sido percebido pelo alto escalão que estava pesquisando os anéis.
    Pois bem. De 7 em 7 dias parecia que a nitidez dentro dos anéis aumentava. Começou como um borrão e em 49 dias veio o terceiro plantão na TV. Basicamente alertando para o fato de que os anéis pareciam telas 4k de setenta bilhões de polegadas suspensas por mágica. No meio desse tempo fomos à casa do Júnior pra olhar para os anéis por um telescópio. Era sinistro! Você olhava pra cima, mas parecia que estava olhando pra baixo. Vimos pessoas, casas, florestas, oceanos, montanhas. Tudo! Perfeitamente! Era incrível à noite também, porque os anéis dos locais no mundo onde era dia iluminavam completamente a noite desse lado do mundo! Mas não chegava a parecer dia. Só iluminava muito bem. Um espetáculo visual! Fiquei viajando pensando que se todo mundo tivesse telescópios seria fácil se comunicar em tempo real, daí lembrei que tem a internet.
    De qualquer maneira... Acho que era para ter acontecido um quarto plantão na TV. No sexagésimo quarto dia. Mas nem rolou. Aqui desse lado do mundo estava de noite e, parafraseando o meu amigo Márcio, parece que a terra rachou no meio. Eu nunca ouvi um barulho tão alto. Já faz 6 dias e eu ainda não escuto nada do lado esquerdo. Acredito ter perdido a audição de maneira permanente. Doeu muito e sangrou. Todos os vidros de casa quebraram. A tela das TV’s também. Os vidros dos carros também. Celular, notebook, tudo. Fiquei sabendo que uns 8 cachorros na rua morreram depois. Ta todo mundo bem assustado. Ainda tem luz, mas está bem fraca. Internet não tem mais, nem telefone. A gente tentou ir ao shopping lá na capital, mas a BR tava bloqueada hoje. A mãe do Júnior trabalha na esplanada e disse que liberaram todo mundo no dia depois do barulhão. Ninguém tem contato com ninguém. Nem telefone, nem internet em lugar nenhum lá.
    Depois do barulho vários anéis ficaram negros. Não negros como a noite. Sei lá... Nem como a noite mais escura que já vi. Não sei explicar. Tentei tirar uma foto, mas não funciona. O Rafael disse que jura que viu um pássaro voando perto de um anel que ficou negro e foi chupado pra dentro. Achei que ele tava viajando, mas faz sentido. Porque desde ontem todas as nuvens tão meio que em espiral. Como se os anéis fossem ralos de uma pia e as nuvens a água caindo pra dentro do ralo. Nos anéis que não estão negros tem um monte de coisa. Em muitos tem uma galera junta como se fosse uma manifestação. O Junior disse que olhou pelo telescópio um anel e tinha muita gente com placas com KONIEC SWIATA bem grande nelas. Ele anotou pra procurar quando a internet voltar.
    Faltam uns 2 minutos pra chegar o próximo sétimo dia.
    Vou só comer e volto a escrever aqui. Eu não como já faz uns...”
    Fim.
  • Cyber Athena I

    Em um futuro totalmente distópico, uma expedição à lua trouxe consigo uma vírus tecnorgânico, esse vírus ficou conhecida como cybe. O governo dos Estados Unidos começou a estudar o vírus e fazer testes em humanos.

    Quando o vírus entrava em contato com o corpo humano, ele se fundia com as células, dando uma propriedade bastante interessante. As células danificadas do corpo, eram regeneradas fazendo nascer novos membros altamente tecnológico, o governo americano viu aí uma grande oportunidade, criando assim um nova leva de super-soldados. Então eles deram início ao projeto Cybers.

    Os Cybers de primeira geração, eram pessoas sem braços, paraplégico, sem pernas, pessoas que tiveram morte cerebral... Isso porque o vírus entra em contato  com todo o sistema nervoso do seu hospedeiro, trabalhando em conjunto com o cérebro, os membros regenerados altamente tecnológico, se transforma em qualquer coisa que o hospedeiro pensasse, em armas, escudos espadas, qualquer coisa.

    Os Cybers de segunda geração, já tinha o vírus mais evoluído, a onde a reação do vírus era mais rápida do que o próprio sistema nervoso do seu hospedeiro. Antes mesmos de pensar o vírus ja se adaptava no que era preciso. Durante o período de pesquisa da terceira geração de Cybers, uma guerra estourou, entre os Estados Unidos é a Coreia do norte. Os Estados Unidos tinha a oportunidade de usar pela primeira vez seus Cybers.

    Durante a guerra, a terceira geração de Cybers foi desenvolvida, mas desta vez o vírus não afetava só o sistema nervoso mas todo o cérebro. Agora os Cybers tenham força, velocidade, um fator de cura ligeiramente rápida. O hospedeiro mal sentia dor ,porque as células se regeneram rápido de mais. Toda essa tecnologia e poder dos Cybers  deu aos Estudantes Unidos a vitória. Mas, metade do globo foi destruído, devastado com essa guerra.

    De um lado tinha os Cybers criados para serem armas de guerra e do outro bombas não núcleo com um poder imenso de destruição, o mundo que conhecíamosnao não era mais o mesmo. Depois da guerra os pais que sobraram foi, Inglaterra, Japão e Estados Unidos; após vários anos esses países se juntaram e criaram os 3 clãs. O clã ZEUS ( Estados Unidos), o clã HADES (Japão) e o clã POSEIDON (Inglaterra). Dois desses clãs fizeram  um acordo, o acordo de anti-cybers.

    Esse acordo foi feito para caçar todos os Cybers criados na era da guerra, todos os Cybers de primeira, segunda e terceira geração seriam caçados. Então surgiu a união, que tinha como líder um Cyber de primeira geração chamado Hermes.

    ( Continua... )
  • Cyber Athena II

    Hermes ganhou esse nome por causa da sua velocidade no campo de batalha, ele tinha o braço direito todo feito de titânio graças a o vírus, Hermes era musculoso, alto, negro tinha pouco cabelo, seu braço tinha a habilidade de virar uma arma de 120 tiros e uma espada de plasma que cortava tudo, Hermes liderou um grupo de refugiados que fugiam dos ant-cybers ( pessoa que caçavam os Cybers) eles fugiram para o início liga que os aceitavam o clã HADES.
    Anos se passaram e Hermes conheceu uma humana chamada Sayoku. Sayoku uma mulher linda, cabelos longos e negro, tinha a pele clara como neve, olhos verdes e brilhantes, seios fartos e o corpo bem definido.
    Sayoku era super inteligente era formada em biotecnologia e técnica em nano robótica, ela e Hermes se conheceram na capital de Hades, a cidade 236. Sayoku e Hermes logo se apaixonaram e foram morar juntos.
    Durante 10 anos os Cybers viveram no clã HADES em paz, até que em 02 de julho de 2119 em um noite chuvosa, com nuvem escura, um barulho fez com que Hermes se levantasse e desse até  a parte de baixo de seu apartamento, estava escuro - Hermes andava em silêncio, passos leves, Hermes vai até a cozinha e ver no canto da geladeira, uma sombra na forma de um adolescente. Hermes pergunta.
    - Quem está aí ?
    E a forma responde.
    -  Sou eu pai ! Vim pegar um copo de água, vc se assustou pai?
    Hermes meu nervoso e trêmulo por causa do susto, respondeu meu rocu - não filha. termine aí e vá pra cama tá ?
    - Ta bom papai !
    Logo após 5 anos de casado com Sayoku, Hermes teve uma filha chamada Athena. Athena era uma menina linda muito inteligente, tinha a inteligência da mãe, ela tinha o cabelo escuro, uma voz doce e delicada, mas não se engane, Athena tinha a bravura do pai.
    Graças ao vírus que hospedava o seu pia Athena teve a pele mesclada, partes clara como a da mãe e partes negras como a do pai. Sayoku passou os outros 5 anos trabalhando em uma nova tecnologia chamada  Cerberus .
    Essa Tecnologia inventada pelos centro tecnológico do clã HADES, que tinha os melhores cientistas dos 3 clãs e os melhores equipamentos e muito recursos, trabalhavam nessa nova tecnologia que tinha como base o mesmo princípio do cybe. De restaurar células danificadas. Sayoku a cientista chefe, é sabia muito bem como usar essas tecnologias.
    A cidade onde Hermes e Sayoku moravam com sua filha Athena era a cidade 236. a cidade era linda belas luzes de néon, grades outdoor eletrônicos, motéis de inteligência artificial  bares como realidade aumentada, carros voadores e é claro tinha vários Cybers por toda parte.
    Hermes trabalhava como segurança de um bar só dentro de 236, em um bar de realidade aumentada. Nesse bar pessoas vem para curtir e ter um bela noite de amor com belos hologramas. O bar funcionava assim, pessoas escolhiam o seu holograma iam para um cabine, colocam um óculos de realidade virtual e o resto a máquina fazia, tinha uma grande variedade de opções, podia escolher o que quisesse branco, negro, asiático, magro, alto, gordo, homem, mulher...
    Mas a vida de Hermes ia muito bem, ganhava seu dinheiro tinha seu trabalho tudo estava bem.
    Um homem gordo e baixinho foi até Hermes e disse - Ei cara o movimento foi baixado hoje, não foi ?
    - foi mano !
    Hermes meio ansioso, queria ir para casa logo, disse .
    - Senhor Buky, posso sair mais cedo hoje? Porque minha Athena faz 10 anos!
    O homem gordo e baixinho ficou calado, respirou fundo e falou meio bravo - Pode Hermes, mas vai ser descontado do seu salário.
    - Está bom senhor buk !
    Hermes saiu apressado do trabalho, queria chegar logo em casa, ao chegar deu um grande abraço em sua menininha.
    - Minha garota está com 10 anos tá Ficando velha em ?
    - Oi amor, você trouxe o bolo ?
    - Sim Say, o preferido dela, de chocolate branco né ? Eu nunca iria esquecer !
    A família Hermes fizeram uma festa linda, mas a vida continua. No dia seguinte Hermes foi para o bar logo cedo, ele tinha que recuperar as horas que perdeu na noite passada. Logo ao chegar ele viu uma dupla de caras, um musculoso e o outro magrelo e alto... Hermes já ficou preocupado, foi direto para seu posto e ficou observando a dupla
    Outro homem chegou no bar, dessa vez o homem tinha uma marca no pescoço ele tinha um C é um  número, os Cybers de primeira geração tinha sua numeração de 0 a 5000, mas o número do homem que entrou no bar era 5008 era um ant-cybers.
    Os ant-cybers tinha uma letra é um número perto da orelha, quando Hermes viu aquele número ficou muito aflito e nervoso, mas a numeração que estava no pescoço de Hermes era bem visível assim como em todos os Cybers .
    Os Cybers quando eram feitos tinha seu pescoço marcado e seu cabelo cortado, não importava se eram mulheres ou homem, mas todos tinham essa número, a de Hermes era Z-2870.
    Hermes saiu rápido do bar pela porta dos fundos e se escondeu no bar do lado, Hermes sabia que não podia da pista que ele era um Cyber, porque isso colocaria sua caminhada em perigo, então pedia ao dono do bar ao lado para ficar lá escondido.

    (Continua...)
  • D. Gray Man e o ofício do historiador

              Katsura Hoshino é uma das mangakás mais geniais. Ela é a criadora do mangá shonen D. Gray Man. A obra foi publicada na Weekly Shonen Jump em 2004, ainda em andamento. Os quadrinhos se tornaram sucesso por trazer uma trama rica em reviravoltas e ação, estética gótica e mitologia cristã para as suas páginas. Um dos elementos dessa trama, o Clã Bookman, nos ajuda a discutir algumas questões do ofício do historiador.
              Mas antes de aprofundar a discussão, é necessário responder a seguinte pergunta: que seria a História? Para mim, é uma ciência que busca compreender as relações humanas no tempo e no espaço, em sentido retrospectivo, ou seja, do presente para o passado. Perguntamo-nos no presente e voltamos ao passado através das fontes que os nossos ancestrais nos legaram.
              Se o ser humano estuda e analisa a história do ser humano, como manter a objetividade e não ser condicionado pela sua própria condição humana? É daí que o mangá de Hoshino irá nos ajudar a questionar a busca de objetividade do historiador em seu ofício.Em D. Gray Man, a trama aborda uma guerra santa entre dois grupos, a Ordem Negra, uma organização monástico-guerreira sob a tutela do Vaticano, e a Família Noah, um grupo de seres imortais descendentes de Noah, uma referência ao Noé bíblico. A história do mangá é permeada de fantasia e simbologias, mas não iremos tratar desses assuntos aqui. O que nos interessa é o papel que o Clã Bookman possui nessa guerra e como realizam o seu oficio de historiadores.
              O termo bookman é de origem inglesa, e a grosso modo significa “o homem do livro”. Na Europa Medieval, era uma espécie de historiador particular vinculado à nobreza. Quando Suas Altezas Reais iam a guerra, costumavam contratar os serviços de homens letrados para registrar suas proezas em batalha. Muitas vezes esses relatos eram feitos sobre encomendas, se é que o leitor me entende.
              O ofício do bookman não é exclusivo da Era Medieval, existem registros de tal função em outras civilizações e regiões do planeta, como a China Imperial onde tal historiador recolhia os mínimos detalhes da vida do imperador, inclusive suas relações sexuais. Mas como grande parte de nossa história é de cunho eurocêntrico, acabamos não sabendo mais detalhes desses outros historiadores.
              No mangá, eles são um clã. Apesar do termo, não parecem ter um antepassado em comum ou ter relações consanguíneas. Sua estrutura se assemelha mais a uma organização secreta do que há um clã. Eles estão espalhados pelo mundo todo, e são financiados em suas pesquisas e outras questões por membros do Clã Bookman, algo semelhante aos historiadores da vida real que realizam pesquisas custeadas por terceiros, seja o Estado ou instituições privadas.
              Os membros do clã possuem acesso a acervos privados e particulares, possuem um idioma próprio e possuem memória eidética, ou seja, memória fotográfica. Esses elementos são importantes para a minha análise. Cada bookman faz um registro na Tora, um tomo usado para escrever os capítulos da guerra. Cada registro da guerra santa recebe o nome do bookman responsável pelo registro.
              O atual responsável pela escrita é o bookman junior e exorcista da Ordem Negra, o Lavi. Aprendiz de Bookman, seu mentor, ou se você preferir, orientador. Lavi é nosso representante no mangá. O jovem ruivo é o que nós podemos chamar de graduando em História. Foi recrutado aos 6 anos de idade, sendo órfão de pai e mãe, foi praticamente adotado pelo Bookman, e desde então estuda para assumir o lugar do velho Bookman.
              Esse personagem nos chama atenção devido ao seu visual. Usa tapa-olho, e um longo cachecol no pescoço. Uma bandana cinge a sua testa. Sua arma é um martelo chamado Tettsui, do japonês “Martelo de Ferro”, capaz de aumentar o seu tamanho. Além disso, sua arma possuí o poder de controle elemental através de selos místicos. O personagem tem uma personalidade carismática e profunda. Ele já protagonizou uma light novel da história e foi cogitado para protagonizar o mangá, segundo a própria Hoshino.
              Lavi não é o nome de batismo do personagem, ele abdicou desse nome logo ao se aliar ao Bookman em suas pesquisas. Lavi é o 49º nome que ele assume, logo, percebemos que o nosso protagonista tem um problema com a constituição de sua identidade. É como se ele estivesse em busca de uma identidade que revelasse algo mais que uma função. Abdicar do nome original é uma forma de romper laços com sua antiga vida e condição existencial. Essa busca pela identidade se manifesta em sua personalidade flutuante entre momentos de grande carinho e de extrema frieza.
              Embora não seja cego de um olho, ele usa uma venda no olho direito. Isso implica uma visão unilateral do mundo, visto que, apenas um dos olhos é capaz de enxergar a realidade. O martelo é outra forte simbologia em relação ao personagem. Esse instrumento representa: demolição, iconoclastia, ruptura com os dogmas e modelos anteriores. O próprio filósofo Friedrich Nietzsche dizia que “filosofava com o martelo”.
              Entre os bookman, existe um ideal de neutralidade e de objetividade no ofício. Os bookmans, mesmo quando se aliam há um lado ou outro do conflito, não fazem por ideologia ou sentimento de pertencimento, mas sim porque conseguem acesso a informações e documentos dentro da Ordem Negra e da Família Noah. Numa primeira análise, não parece que os historiadores em D. Gray Man possuem um senso de moral. Mas essas filiações temporárias parecem ser uma contramedida para garantir a neutralidade do historiador.
              Essa ideia se aproxima do pensamento do historiador alemão Leopold von Ranke, importante teórico da História no século XIX. Segundo ele, o historiador de ofício deveria ser rigoroso em seu método, e se anular perante as fontes. De acordo Ranke, através do método, seria possível fazer “falar os documentos”. Nesse sentido, o historiador seria menos intérprete e analista dos fatos históricos e mais um mediador dos discursos e representações que as sociedades nos deixaram registradas.
              Esse pensamento dominou o ofício até o início do século XX, quando foi questionada pela Escola dos Annales. Encabeçados pelos historiadores franceses Lucien Febvre e Marc Bloch, eles propunham uma história-problema, e não uma história narrativa. Foram descartados os elementos políticos, individualistas e cronológicos da História, o que acabou criando novas abordagens e inclusão de novos temas e objetos de pesquisa. Isso renovou a História e possibilitou uma crítica teórico-historiográfica.
              No mangá, a associação entre bookman e organização se dá há nível de interesse mútuo. Através de alianças temporárias, eles obtêm acesso a arquivos e podem registrar a história através de seu testemunho, já as organizações que associam os bookmans, acabam se servindo de seu vasto campo de conhecimento e experiência. Isso provoca uma série de conflitos entre Lavi e Bookman.
              De acordo o orientador do bookman junior, ele não deveria interferir no ciclo da história, cabendo como o seu único papel registrá-la. Ou seja, alguém que contemple e não aja para modificar a ordem das coisas, o que contrária qualquer perspectiva marxista. Mas Lavi não consegue ser omisso e acaba interferindo de maneira contundente na guerra que ele deveria ser expectador. Estaria a neutralidade abalada pela atuação de Lavi? Um historiador engajado ou militante é capaz de encontrar a verdade na história?
              O conceito de verdade pode se alterar em diferentes épocas e regiões. Para o povo Asteca, era verdade absoluta — e necessário — sacrificar pessoas diariamente ao sol para que ele se movesse no céu e não punisse a humanidade com a escuridão. No período medievo, a Igreja Católica estabeleceu que vivíamos num sistema geocêntrico e que a Terra era plana, os que contestassem essa verdade eram queimados em fogueiras. Logo, a verdade ou a noção da realidade é uma construção histórica e social.
              Não há nenhum demérito a História ser reescrita, revista e ampliada, visto que, ela não deixa de ser um produto sócio-histórica produzido pelos seres humanos. Nenhuma ciência, seja ela da área de humanas ou naturais, pode se dar ao luxo de ser dogmática. A ciência é essencialmente pragmática, caso contrário, estaria fadada a ser fixa e nunca evoluir em sua produção de conhecimento.
              A ideia de que existe uma neutralidade absoluta nas Ciências Naturais, porque seus cientistas estudam e pesquisam algo externo ao ser humano, não passa de pura ideologia. O que eles buscam tanto refutar acaba se tornando o que mais defendem. Onde está a neutralidade do físico quando ele ajuda o exército a construir bombas atômicas para matar pessoas? Onde está a neutralidade do virologista que elabora armas virais? Onde está a neutralidade do cientista da computação ao criar sistema de precisão balísticos em armas autônomas e drones?
              O historiador pode ser engajado em alguma causa, sem com isso perder a objetividade em seu ofício, pois, História não se faz com ideologias, e sim com metodologia. A única coisa que pode nortear essa questão é a problematização da historicidade, entendida aqui como a contextualização do tempo e do espaço histórico, e do rigor metodológico. Rigor no sentido da crítica externa e interna das fontes, diálogo interdisciplinar e revisão pelos seus pares.
              O historiador de ofício não deixa de ser um detetive temporal. Um detetive não cria pistas, ele as coleta, as analisa com cuidado, visto que, um erro na sua investigação pode condenar ou safar alguém de um caso. Se a produção historiográfica destoa muito dos fatos históricos, o que o profissional produziu não foi historiografia, e sim propaganda ou ficção histórica. Deixemos a ficção histórica para os escritores e literatos e a propaganda para os publicitários. Nosso objetivo é produzir ciência, conhecimento do processo histórico. Lavi não deixa de ser um historiador por ser atuante dentro da história.
              Nem é menos objetivo por causa disso. D. Gray Man e o Clã Bookman nos ajuda a discutir essa contradição pela busca da absoluta neutralidade, algo que deve ser refutado. Os seres humanos são seres lógicos, mas também são seres desejantes ou instintivos. A produção de conhecimento e os critérios de verdade mudam dependendo de seu contexto histórico. Se os homens não são fixos e determinados, a História também não pode ser.
    REFERÊNCIAS
    D. GRAY MAN ENCYCLOPEDIA. Bookman Clan. Disponível em: < https://dgrayman.fandom.com/wiki/Bookman_Clan > Acesso 26 fev. 2021, às 16:39 horas.
    D. GRAY MAN ENCYCLOPEDIA. Bookman. Disponível em: < https://dgrayman.fandom.com/wiki/Bookman > Acesso 26 fev. 2021, às 16:42 horas.
    D. GRAY MAN ENCYCLOPEDIA. Lavi. Disponível em: < https://dgrayman.fandom.com/wiki/Lavi > Acesso 26 fev. 2021, às 16:55 horas.
    D. GRAY MAN ENCYCLOPEDIA. Lavi/History. Disponível em: < https://dgrayman.fandom.com/wiki/Lavi/History > Acesso 26 fev. 2021, às 17:01 horas.

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