person_outline



search

escrever,

  • [Roteiros] RECEIO

    [Roteiros] RECEIO
     
     — Jamais. Vou me atentar a tudo o que você expôs e o que eu mesmo reconheci e prometi a respeito. E, você sabe o que eu sinto por você. Pode não ver ou sentir, por eu não demonstrar. Estou muito consciente quanto a isso. Mas, não é possível que não tenha se dado conta de que você está sendo a melhor pessoa que eu pude conhecer. Você é a minha dádiva.
    Se leu o meu texto, sabe o que eu penso.
     — Eu li e reli uma centena de vezes. Eu amo você, meu Jacarandá. Talvez, a única mulher que sou capaz de amar. Apesar dos pesares.
     Frase minha…
     — Minha agora.
     Eu sei. Ou acho que sei. A minha única certeza é quanto ao meu imenso sentir. Você é o motim de todo ele. É insano a minha sede do seu eu”. Sinto que absolutamente nada será capaz de me dissociar de você. A comistão ocorreu e, felizmente, não há nada que possamos fazer.
     — Diz que sabe… Diz que sabe que eu amo você.
    Espero que nós dois nunca magoemos ou decepcionemos um ao outro para algo bonito nāo se tornar lindamente horrível.
    Pois, tenho plena convicção que na hipótese, eu, ainda que não mais goste de você, jamais deixarei de te amar. Isso vai me dilacerar de todas as formas, esfarelar o meu sentir e sei que levarei comigo por todo o sempre cada uma das migalhas.
     — Fico boquiaberto com cada palavra sua. Independente do que aconteça entre nós, sei a imensidão de tudo isso… que você realmente gosta de mim e de mais ninguém. Jamais serei hipócrita ao ponto de jogar fora.
    Nós somos pessoas, meu bem. Sobretudo, muito diferentes. Se é preciso ter cautela e cuidado consigo e com o que causamos no outro. Eu mesma tenho medo de fazer mal para você, de qualquer forma, … emocionalmente, psicologicamente. E, se esse desatino um dia acontecer, jamais me perdoarei. 
     — Eu também… apesar dos pesares. Me sinto péssimo quando me diz essas coisas. Fico imerso nesse contexto. Não entendendo como sou capaz de afetar você de diversas formas, com minhas omissões e posições. Aliás, sei que essa sensação é recíproca da sua parte. O nosso amor é lindamente doentio.
    Sim. Espero, com todas as minhas forças, que as coisas que foram ditas após o episódio quente diante do enorme Cinamomo não sejam por ti ignoradas. Sabe, para o meu bem e consequentemente, o nosso. Eu mergulho, chego ao âmago e você parece não ter qualquer noção quanto as profundezas. Para existir um relacionamento amoroso entre nós, eu preciso que você se atente, assim como eu sei que preciso em alguns pontos.
     — Sim. Eu sei disso. Fica tranquila. Inequívoco que nada é proposital. Jamais me perdoaria por machucar você. Sou incapaz desejar, planejar ou cogitar tamanha atrocidade. Sabe, a mudança não será efêmera, mas prometo tentar. Não quero te afastar de mim, aliás, isso sequer é possível… somos uma linda comistão, lembra?
    Não me interprete mal, foi porque noite passada me vi precisando avisar a presença de uma coisa que outrora você havia dito que iria se atentar e tentar evitar.
     — Sabe, me vejo abraçando você, te beijando e presenteando com uma rosa, mas que está dotada de espinhos quais eu sequer os vi ou senti. Até que, de um instante a outro, você se espeta. O seu sorriso se esvai, o seu olhar fica trêmulo e fixos aos meus. Exato momento que te vejo sangrar e me desespero. A culpa permeia o meu corpo sou dilacerado por ver que, ainda sem ter querer culpa, te causei dor…enquanto na realidade o que eu desejava era tão somente proteger, cuidar e amar o meu universo, a minha mulher.
    Não vou negar, vejo isso. Somente frisei aquilo por ter receio de que você entenda todo o epílogo desde o desabafo no Cinamomo como um “Ela nāo se importou. Fez uma cena. Nāo consegue ir”.
     — Não. Não penso isso de você.
    Me vejo voltando atrás numa decisāo e isso é incomum, se tratando de mim. Nāo descarta as coisas que eu te falei. Um pedido de desculpa ou uma promessa sem mudanças é manipulação, leva isso pra vida. Prometo ser cautelosa com você.
     — Adivinha o que estou ouvindo?
    Não faço ideia, meu bem. Vou voltar a dormir… levantei para falar contigo antes de você ir trabalhar e estou acordada desde entāo.
    Vamos ver até quando isso vai durar. Estou ouvindo a música que define você, para mim. Você segue o nosso pacto à risca, se faz “nua e crua” para mim e a canção retrata isso. Retrata a grandeza de uma mulher, de imediato penso no meu universo. Você. Ela é, sobretudo, linda como você. “É Você Que Tem — Mallu Magalhães”. 
    Irei ouvi-la agora. Não pausa, okay? Colocarei os meus fones, ouviremos juntos. Olha, se depender de mim, essa rotina vai perdurar por todo o sempre. Em cada um dos nossos dias.
     — Você é surreal.
    Sabe o que também é surreal? Enquanto qualquer coisa é motivo para você nāo querer falar comigo, eu suprimo minhas horas de sono para ter o prazer em falar com você antes do incio do amanhecer.
     — Não diz isso…
    A verdade é dura de se ouvir…
     —Eu amo você.
    Meu mais insano e desmedido amor, se atenta aos detalhes, vamos fugir da mácula. Eu amo você, meu Tigre Malaio.
  • [Roteiros] RUPTURA

    Eu sempre vou ter o que falar. Não guardo palavras. Mas, é cansativo quando são proferidas em vão. Sobre o meu sentir, você sabe. Aliás, fim de semana passado foi incrível.

    Posso apontar a dedo (os seus e meus) erros e os acertos, ações e omissões, os altos e baixos.

    Obrigada pelos altos.
    Obrigada pelos dias gostosos.
    Obrigada pelos olhares, pelos momentos de verdade.
    Obrigada por me mostrar inúmeras coisas.
    Obrigada pela imensidão do que me permitiu sentir.

    Porém, foi sobretudo, conturbado para apenas uma estação. Não vivemos ou viveremos tudo o que eu gostaria. Não comecei nada pensando no fim.

    O ponto final você põe, agora, sozinho. Não precisa me falar razões. A minha resistência ao CEDER e a sua necessidade em IMPOR sempre foi um problema entre nós. Sobretudo, o jeito como lidamos com as coisas, que é grotescamente diferente. Causou muitos dias baixos (como ontem e hoje).

    Todas as minhas declarações, choros, abraços, beijos, toques e olhares, foram sempre, profundamente, de verdade.

    Sabe, você diz sentir o universo por mim. Não sei como se pode amar alguém e facilmente colocar ponto final em relação a ela, bem como sempre ameaçar partir. Muito menos como tudo pode ser razão para partida. Não sei se é por você ser imediatista. Não sei.

    Acaba por me proporcionar alvoroço emocional. O alvoroço existe justamente pelo que pulsa em mim, por eu gostar de ti de uma forma desmedida.

    Você parece não perceber que, para quem está do outro lado, isso é foda, pra cacete. É uma espécie de controle emocional. Sem contar que mostra fragilidade do nosso elo, em muitos sentidos. Te disse isso das outras vezes.

    Francamente, como amiga, se atenta nisso. Como isso afeta e o que demonstra para o outro. Não sei se nos seus relacionamentos anteriores isso fluía ou como sua parceira reagia. Mas, pode descartar se quiser. Não tenho outra experiência para poder comparar. E, ainda que tivesse, sabe o quanto detesto comparações.

    Por favor, não me venha com “vai deixar a nossa coisa se desmanchar”. Sendo sincera, você quem iniciou a ruptura e, dessa vez, simplesmente acatei sua decisão. Não jogue o peso da sua escolha sobre mim.

    Recordo precisamente do seu efêmero posicionamento. Ouvi com atenção aquela frase, que, aliás, óbvio, atordoa a minha mente. “Não está bom pra mim”. Ainda que antes mesmo de proferi-la, intuitivamente pude pressentir o que diria. A mensagem amarga. Ao soar de cada silaba proferida, cada movimento dos teus lábios, queimava. Lentamente eu provava cada farpa do veneno.

    Não vou enganar a ti, muito menos a mim mesma, estou decepcionada e, mormente, com raiva. Por todo um conjunto.

    Aquela conversa não foi em vão. Aliás, nunca qualquer conversa, fala, minha foi frívola. Detesto a ideia de me doar em conversas baldias.

    Você não pode dar tchau pra mim sempre que tiver vontade. Fazendo-me sentir imenso temor diante de toda e qualquer coisa ínfima, propriamente por saber que você, a qualquer momento, irá se voltar a mim dizendo um adeus ou ameaçando isso.

    Você não pode me dispensar e depois -quando quiser - me chamar, acreditando que vou ignorar isso e simplesmente "gozar".

    Não pode me descartar assim, achando que isso não me abala ou enfraquece um vínculo.

    Sabe o pior? Isso não foi agora. Já havia acontecido mais vezes do que eu gostaria, aliás, vezes demais que chega a ser difícil de acreditar. É tristemente reincidente.
    Não quero uma relação instável. Não quero me sentir insegura, pontualmente nesse sentido: “hoje ele quer estar comigo, amanhã, sem mais nem menos, talvez não”.
    Tenho horror a estar constantemente dependente da sua aprovação e, principalmente, a conviver com a necessidade incessante em me certificar de que “está tudo bem entre nós”.

    Não quero ficar absurdamente pressionada pela ideia de que “se eu não fizer determinada coisa ou se não agir da forma que ele espera/deseja, independente do que penso ou quero a respeito, para mantença do ‘nós” irei ceder, senão ele virá colocar um ponto final ou ameaçar fazer”.

    Não quero estar obrigada a ceder quando não vê necessidade ou sequer sentir vontade para tanto, muito menos quando reconhecer um problema quanto a anuência. Fico apavorada ao me ver sendo qualquer pessoa, que não eu mesma, por temer sua partida.

    Naquela madrugada, custava pensar antes de agir? O que te faz mudar de ideia logo após enfiar na minha garganta um ponto final? Nem sei se mudou, sequer o que te motivou a tomar uma decisão incrivelmente ruim. Juro que isso me intriga. Desde quando o que penso ou sinto sobre a árdua transição do “nós” para o “eu e você” passou a te importar?

    Você fez isso, sozinho, quando eu menos esperava, quando eu sequer podia sentir cheiro de partida, muito menos cogitar qualquer coisa parecida.

    Depois daquela tarde de domingo quente, quando fizemos juras de amor e promessas, exatamente quando, para mim, estava tudo passando a fluir de um modo surreal; mais uma vez, você me fez sangrar, encerrando o nosso ciclo por “bobagem”, quando parecia ser o início do nosso melhor tempo. 

    Acredito que foi a coisa mais idiota que você fez. Justamente por eu gostar pra caralho de você aquela conduta foi uma merda.

    Talvez, seja como canta Adriana Calcanhoto, “Rasgue as minhas cartas e não me procure mais, assim, será melhor.”

    Não importa o que diga. Não me é interessante que as promessas sejam renovadas. Pois, não me valem de nada até que as cumpra. Teve inúmeras chances e elas não foram aproveitadas.

    Não irei permitir ser como das outra vezes. Ainda que eu dê uma nova chance, para o “nós”, é muito provável que semana que vem você faça a mesma coisa. Nessa frequência, irei permanecer me magoando. Detesto com todas as minhas forças o “vai e vem”. Eu não aguento isso.

    Fico pensando naquilo... Se para ti não está bom, imagina para mim com essa instabilidade partindo de você. Não é decidido quanto ao meu “eu”, em muitos sentidos.

    É claro, não imaginava que o nosso relacionamento poderia ser conturbado assim. Instável. Não quero isso para nós. Desejo pisar em terreno seguro. Mergulhar e não cair nas pedras.

    Eu que sempre falei em reciprocidade e priorizei “leveza”, me deparo num naufrágio. Não está sendo saudável e você não vê ou, ridiculamente, fecha os olhos.

    Por constatar o caminhar das coisas e acreditar sinceramente que, nós dois, desejando, seríamos capazes de contornar a situação. Nos proteger da mácula. Te escancarei isso antes. Justamente pela árdua percepção que, naquele domingo, eu te implorei: “vamos tentar”. Mas, infelizmente, nas oportunidades para vermos a tentativa, ela não aparece.

    Desse jeito eu não quero mais. Estive pensando muito de sábado pra cá. A mesma cena se repete. Não quero permanecer num relacionamento desse jeito, a nossa coisa não estava boa para ti e, para mim, estava ainda pior. Sabe por quê?

    Não quero ter que ceder aos seus caprichos (saiba diferenciar ao que me refiro) sob ameaça de te perder! Muita pressão sentimental que estava me sufocando. Sinto que a qualquer momento estarei sozinha, quando eu menos esperar, então é melhor que seja agora, já que você mesmo decidiu isso sob o argumento ridículo de que não supro as suas expectativas.

    No mais, anseio estar com alguém confiante sobre mim. Você sempre com ameaça de fim não demonstra isso.

    Aliás, quanto a sua carta, foi a primeira que recebi dessa forma de amor. Olha, independente de tudo, você sabe o quanto eu sinto por você.

    Desculpa não conseguir responder. Pela primeira vez, não tenho palavras. E isso é raro. Acredito que por estar indignada, com raiva e decepcionada, por aquilo que já falei.

    Eu confiei em você. Confiei em muitos sentidos. Estava mergulhando e me entregando emocionalmente e fisicamente. Para o cara sempre romper comigo por nada. Sem contar nas ameaças de partidas anteriores e nas coisas que já te foram ditas.

    É evidente. Fiquei e estou magoada. Quanto ao nosso vínculo, sou porto seguro enquanto você, para mim, aparenta ser incapaz de ser qualquer coisa próximo a isso. Sempre instabilidade da sua parte.

    Não vou me sabotar tentando repousar a culpa da ruptura nas minhas condutas. Eu sei que tentei agir para você, a todo instante, da forma que eu gostaria que agisse comigo.

    Lembra? Em muitos momentos eu falei “É apenas o começo. Estamos nos conhecendo. Calma, tudo no seu tempo. Podemos lidar da nossa forma. Não esquece o nosso pacto”.

    A estação inteira eu pugnei por um relacionamento saudável. Com sinceridade, reciprocidade e confiança. Sem joguinhos, desconfiança e “paranóias”, pois sequer haviam razões para tanto. Eu via a instabilidade e a repudiava com todas as forças, pois, afinal, eu gosto muito de você e queria o “nós”.

    Acredito mesmo que quando os dois querem, fazem acontecer. Mas, se é preciso maturidade.

    Em muitos momentos não me impus da forma que eu deveria. Ao contrário, conversei cruamente para te explicar o problema de algumas coisas e que poderia se sentir seguro quanto a outras. Não obstante, aceitei coisas que não gostei, de modo desprezível deixando “passar” para ficar tudo bem entre a gente.

    Digo com convicção que em instante algum agi num imediatismo cego contigo, por temer o que isso poderia suscitar em você, a mim e, sobretudo, na nossa coisa. Sei que até mesmo tu reconhece. Pois, diante de toda e qualquer pequena situação de desconforto, eu explicava as minhas razões, problemas e escolhas, me fazendo “nua e crua”.

    Sempre valorizei e recordo de todos esses diálogos. Para mim, representavam um marco para que desde as ínfimas à grotescas situações de incômodo não se repetissem. Deveríamos evoluir para sabermos enfrentar e lidar com coisas novas.

    Reconhecendo que não raramente pareci a sua psicóloga, explicando o problema das coisas, pontos de vistas, aconselhando a ressignificar e mostrando como tudo poderia ser mais suave. Nós dois precisávamos de equilíbrio e aprender a sopesar as coisas.

    Como se não bastasse, para mim mesma, muitas vezes te julguei por “infantil”. Assim como sei que, ainda no momento tendo plena convicção do contrário, também fui.
    Fizemos “pactos” para facilitar o correr dos nossos dias, já que vemos e lidamos com toda e qualquer coisa de modos absurdamente distintos. “Eu e você sempre ‘nus’ e ‘crus’”, lembra? Mas, aparentemente, nos instantes em que mais se era preciso, só eu recordava e estava disposta a segui-los.

    No último mês, houveram partidas em todas as semanas. Todas! As mesmas promessas já foram feitas outras vezes, sobretudo, nas últimas semanas. Por favor, não vamos normalizar isso. Mostra bem mais que fragilidade.

    Relacionamento é balança e não depende só de um. A conduta do outro gera sempre reação. Se isso prosseguir, da maneira como estava, é inequívoco que iremos adentrar novamente no mesmo ciclo vicioso. Assim, acabando somente por prolongar isso, a ruptura.

    Não adianta forçar nada! A entrega, o cuidado, o zelo e a valorização da nossa coisa deveria ser, de ambas as partes, natural. Independente do quanto eu deseje, independente da nossa conexão foda, não temos que forçar dar certo.

    É insano. Foi o meu primeiro relacionamento e sei que minha inexperiência pode ter atrapalhado. Não que sirva de justificativa para erros e afins. Quero dizer que, apesar de tudo, eu tentei agir com maturidade e responsabilidade afetiva. Convivi com uma sede insaciável de afastar as coisas que abalavam o “eu e você”.

    Acredito que irei me magoar ainda mais persistindo nessa ganância de cuidar de algo que independe somente de mim. Não sei como de um instante a outro as coisas podem ser diferentes.

    Você sabe muito bem. Dei um passo muito grande, seria uma surpresa e acabei te contando quando do seu adeus.

    Percebe? É difícil digerir que até mesmo quando tudo está bem, sem mais nem menos, do nada, chove. É triste remoer que na maior parte do tempo estamos no “baixo”, enquanto me apego aos poucos momentos de “alto”.

    Foi a estação em que senti o mundo. Mas, foram dias, sobretudo, conturbados. As minhas emoções ficaram à flor da pele.

    Não acato sua decisão sob o argumento de “é melhor agora enquanto é cedo, antes de entrelaçamos nossas vidas ainda mais, antes se apegar”. Não, não tomo, porque eu já estava apegada o suficiente, desde o meio-termo. No mais, pouco a pouco, te inseri em todos os âmbitos da minha vida.

    Tratava-se do nosso começo e ele deveria ser, em tese, muito bom. Deveríamos, os dois, estarmos eufóricos pela entrega um do outro. A reciprocidade, a sinceridade, o cuidado emocional com o outro tinha de ser trivial. Sem a necessidade de precisar provar que se importa ou, muito menos, se sentir obrigado a tanto.
    Sabe o que demonstra que não estava sendo saudável? Palavras suas: “ambos estão exaustos”. São coisas que não coincidem para mim. Exaustão em um curto lapso temporal. Uma estação! Parece muitos mais tempo, não é? Mas, não, foi só um verão. Com o outono, chegou a ruptura.

    Dessa forma, eu não consigo seguir. Passo o meu dia ponderando em como podemos elevar o suporte do nosso afeto. Fico tentando compreender o que acontece. Como se não bastasse, sinto constantemente o peso de precisar provar para você que pode confiar em mim, que gosto de você, que me importo, que me preocupo.
    Sendo que eu acredito que nunca fiz nada para você pensar o contrário e agir de acordo com tal. Não faz ideia do quanto me sinto imunda por isso. Insuficiente. Ainda que seja convicta de quem sou, muitas vezes, me senti assim diante de ti.

    A única vez que a partida partiu de mim, foi por isso. Por perceber tudo! Conversamos sobre reciprocidade, leveza, sentir e tudo mais. Houveram promessas de ambas as partes. Você se atentou a algumas coisas, mas ao que magoava, não. Com a primeira chuva de outono, nos encontramos nisso, partida.

    Possamos gostar muito um do outro. Mas, não foi a primeira que me disse “não está bom para mim”. Não sei como isso vai mudar de uma hora a outra. Levando em consideração o quanto já tentei, me sinto esgotada, sem cartas na manga. Como de um segundo a outro te farei sentir-se realizado? Não quero ser hipócrita.

    É duro. Posso gritar para o mundo o quanto é duro para mim enfrentar isso aqui, a ruptura.

    Sofro pelo que poderia ter sido e não foi. Não esquece.

    Acredito que estou frustrada, não pela minha entrega, mas justamente por acreditar com lasciva veemência que, depois do pôr do sol daquele domingo, nós dois iríamos tentar, mesmo! Por acreditar que as promessas, conversas e pactos não tinham sido em vão. Pelo meu crer de que nunca mais haveriam idas e vindas. Sempre estive disposta a enrrigecer a nossa coisa.

    E, exatamente uma semana depois, tudo volta ao antes. Ao morno.

    Meu mais insano e desmedido amor, o “eu e você” não vai prosseguir. É árduo dizer que na maior parte do tempo estávamos frustrados um com o outro, ainda que em vertentes distintas.

    Não quero viver na esperança de tentar. Não quero permanecer num relacionamento que conforme palavras suas, “só tenho preocupações”. Não quero seguir assim.
    Nossa afinidade deveria ser o refúgio. Algo digno de agradecimento. Sabe, muitas noites eu agradeci ao universo por estar ao seu lado, por dividir essa fase com você. Ansiei muito para que passasses a me ter como confidente, assim como te fiz o meu. Te falei isso, mas sempre respeitei o seu jeito peculiar, astuto e ocluso, nesse sentido; acredito que tratava-se de uma questão de tempo para você se sentir confortável para tanto.

    Talvez eu tenha posto muito expectativa e essa seja a raiz da frustração. Mesmo que eu tenha tentado manter os meus pés no chão. Desejei ter o seu verdadeiro “eu” comigo.

    Nesse quesito, sobre a sua carta, nas folhas “amarelas”, eu gostaria, mas não consigo ler aquilo e dizer “você não foi assim para mim”. No entanto, afirmo com convicção que você não foi somente aquilo.

    Existem dois caras em você. Aquele por quem me apaixonei e o que me faz ir embora.

    Sei que eu não sou ótima. Que não sou a dona da razão, aliás, não raramente estou completamente equivocada. Mas, realmente tentei agir para contigo da forma que eu gostaria que agisse comigo.

    Eu não menti uma vez sequer. Não tratei com desdém. Não joguei na cara o tempo que despendi para estarmos juntos. Não enganei, nem com ações, nem com palavras e em nenhum instante isso passou pela minha cabeça. Eu fui nua e crua para você, te mostrei cada fresta. Mas, nada disso foi o suficiente.

    Como se não bastasse, o meu sentir, nas suas palavras, “não o satisfaz”. E, quanto a isso, me recuso alegar qualquer coisa. E sei que essa frase jamais será esquecida por mim. Já disse o quanto detesto seu imediatismo?

    Estou assoberbada de pensamentos confusos e conflitantes. Por hora, não sei o que tenho mais a falar. E o que sei que tenho, prefiro acalentar.

    Já falei tanto. Fiz cartas de amor (puras). Me declarei. Me entreguei. Sobretudo, me joguei da cascata, a queda foi gostosa, mas acabei presa nas pedras.

    Não quero mais. Desculpa, sei que devo, pois também errei contigo, apesar da minha “ingenuidade”, como mesmo dissestes. Aquela história. E, sinceramente, pensando em tudo que vivenciamos, analisando os motins das nossas discussões, aquela consistiu na única coisa com titulo de “problema” e digna de uma ameaça de partida. Quanto às demais, trataram-se de coisas que poderiam facilmente ser resolvidas e acabaram, por nós, prolongadas.

    Independente da minha raiva e decepção, juro que digo isso com um imenso pesar, meu bem: Nada do que te digo agora é inconsciente. Essas não serão mais palavras em vão.

    Eu não havia planejado falar nada disso aqui. Depois de agradecer pelos nossos “autos”, pensei: “ao decorrer dos nossos dias, já falei o bastante”. Nada do que expus te é novidade. Não abandono o espetáculo sem mais nem menos.

    Sabe o que me corrói? Não fui para ti quem eu gostaria. Ser refúgio e confidente, por exemplo. Você não me permitiu ser. Acabava comigo te ver “morno”, com a mente e o olhar distante e, especialmente, por notar que os problemas te consumiam a ponto de te fazer agir mal com os que te querem bem.

    Foram muitas as vezes que te implorei para saber o que estava rolando e querer ajudar, mas parei quando me disse em voz alta e em bom tom que não queria a minha ajuda. Não dividiu. Não mostrou confiar em mim. Não me inseriu nos outros âmbitos da sua vida.

    Ainda assim, por ter ciência da sua dificuldade em compartilhar, te perdoo pelos momentos de desdém, pelos instantes que estava atordoado com os problemas a ponto de parecer que eu nem estava ali, que a minha presença tanto fazia.

    Porém, muitas vezes, agiu como um idiota comigo, como você mesmo pormenorizou na segunda folha amarela daquela carta. Como se não bastasse, quando diante dessas ações te disse “eu não não mereço ser tratada assim”, não ouvi sequer um pedido de desculpas, mas sim um “então arranja um cara que te trate melhor que eu”.

    São tantas coisas. São praticamente infindas para apenas uma estação. Fiz uma escolha, acatei sua decisão e, por hoje, não quero falar sobre isso. A minha cabeça está cheia e o meu coração inquieto. Não existe mais o “nós”.

    Eu disse sério ao falar que estou com raiva e decepcionada. Essa ruptura será ainda mais complicada se mantermos contato contínuo. Pelo menos agora.

    Mais uma vez, te peço, não coloque a ruptura nas minhas mãos. Você já tomou uma decisão e eu simplesmente concordei com ela. Faço isso pelo meu bem estar emocional e psicólogo.

    Não quero perder minha essência ou personalidade, como é o caso de ceder a meros caprichos, para manter relações, ainda por cima instáveis. Não quero me desgastar na tentativa de salvar algo sozinha, que não está somente sob o meu controle.

    Me apavora te ouvir dizer que existe algo mais, que estou dissimulando as razões da minha anuência. Parece absurdamente que não prestou atenção ou que ridiculamente descartou tudo o que já desabafei. Não é “do nada” e não tem que se achar estranho. Uma vez, naquele domingo, a partida surgiu de mim e pelos mesmos motivos de agora.

    Sabe o quanto desprezo idas e vindas. No pôr do sol daquele mesmo domingo te disse: “Me vejo voltando atrás numa decisão e isso não é comum para mim. Por respeito a nós, não vamos jogar fora”.

    Você voltou atrás também, em todas as suas despedidas…

    Suas ameaças de partidas e as despedidas foram motivadas com base em que eu fui para você, dentro dos seus limites, ideais de certo e errado e sentimentos.

    Sua percepção sobre o meu desejo de estar com você, príncipalmente sobre o meu sentir, depende de que eu seja quem você quer, ceder, suprir as suas expectativas até mesmo nas coisas mais mínimas.

    Sabe, eu tenho fervor por quem me deseja por inteira. A mim mesma. Não irei mudar a ponto de se tornar uma versão pirata de mim mesma.

    Eu queria poder agradar você, óbvio. Mas, sendo eu mesma e não precisando provar o meu desejo e tudo o que sinto da maneira que você achava que deveria ser. “Não está bom para mim”. Não consigo ceder a ponto de me tornar o amor que te satisfaz, que você deseja.

    Houveram pedidos de desculpas e promessas mútuos, mas nem todas elas foram cumpridas. No principal imbróglio, sequer houve tentativa. Nunca acreditei numa mudança repentina. Mas, o mínimo que eu esperava era uma mísera tentativa.

    Com instabilidade e insegurança sobre mim, tive dias de inquietação emocional e psicológica. Não consigo lidar, me martiriza. Acaba, assim, me atrapalhando nas coisas mais simples (concentração, estudo, trabalho).

    Confesso que nos “altos” me proporcionou coisas incríveis, êxtase. Mas, a maior parte do tempo estávamos no “baixo”. Pelo morno, me sentindo insuficiente, idiota e até mesmo alguém ruim. Sobretudo, “o não satisfaz”.

    Percebeu como sou repetitiva? Isso torna essa conversa densa e incrivelmente cansativa.

    Ainda que me questione, não vou mais te expor motivos. Foram coisas sempre ditas.

    Não vamos ser hipócritas. Isso não precisa acabar mal. Não vamos denegrir a imagem um do outro, não há razão. Aliás, algo assim é ridículo.

    Se é preciso aceitar os erros. Ficar triste pelo que não foi. Reconhecer o que se perdeu. E seguir com maturidade. No mais, agradecer os momentos de “altos”. Não é tratando como se nunca tivéssemos nos conhecidos que a ruptura se tornará fácil.

    Você não foi e não é qualquer pessoa. Isso não vai mudar, para mim. Marcou.

    Eu comecei com sinceridade. Vou terminar assim também.

    A minha decisão está tomada. Espero que aprendamos a não cometer os mesmos erros.

    Sobre a nossa coisa, o nosso meio-termo, me mostrou como sou intensa. Obrigada, mesmo, pelos instantes de intensidade. Adorava quando a nossa coisa pegava fogo.

    Você foi contemplado em ter o meu sentir, o meu querer, o meu corpo. Eu jamais havia me entregado tanto.

    Peço para que a nossa coisa fique entre nós. Principalmente os nossos detalhes, as coisas importantes que aconteceram. Desejos, intenções e afins. Assim como as coisas agradáveis e desagradáveis. Lembre, são memórias suas e minhas também.

    Me agrada a ideia de estagnar no tempo o “eu e você”.

    Não sei como vai me perceber depois da ruptura. Acredito e espero que não seja motivo para “descaracterizar” o meu eu. Jamais irei desonrar o seu nome. Por favor, não o faça com o meu. Não há razões. Não me interprete mal, peço isso por desencargo de consciência. Acredito no que sente por mim e sei que não faria tal coisa.
    Desculpa se te proporcionei momentos ruins.

    Foram meses repletos de primeiras vezes, para mim. Você sabe. Aliás, a primeira vez que proferi “eu amo você”, dessa forma de amor. E dane-se se foi cedo.
    Reconheço que sobre algumas coisas dei passos largos e tropecei nos meus próprios pés. Fui inconsequente. Me arrependo. Mas, jamais irei me arrepender pelo que fui e sou capaz de sentir. Muito menos, pelas palavras de amor ditas.

    Uma pena eu não tê-las visto valorizadas…

    Não quero ser vista como hipócrita.

    Sei que não compreende o meu pedido em mantermos a amizade. Não consegue entender como posso não mais te querer como seu parceiro (mesmo amando-o) e, ainda assim, implorar para que me tenha como amiga. “Não entendo como eu não te querer como amiga é algo que se deva discutir e fazer sentido”.

    Coloquei tudo às claras. Detesto quando questiona o que eu sinto. Eu não queria que fosse assim. Ansiei a transformação do meio-termo muito tempo. Você sabe. O meu sentir nasceu muito antes do verão. Não fale insinuando como se eu tivesse em algum momento mentido sobre o meu sentir, muito menos diminuindo o que me rasga o peito.

    A perda não é apenas de uma parceira ou um parceiro. É de um amigo(a) também. Não apague o meio-termo. Tudo começou numa amizade sem mais pretensões.

    - “Se você realmente sentisse intensamente, iria querer permanecer e continuar, tentar mudar. Nunca se afastar do problema, igual você fez. Me esquece. Você de repente decidiu que os nossos confrontos te fizeram sentir uma fracassada. Além de tudo, foi capaz de esquecer todos os momentos bons, sem mais nem menos, descartar-los e valorizar só os pontos ‘baixos’ para justificar a sua hipócrita vontade de partir. Forte seu amor.  Não vou negar. As vezes me pego preso nisso… questionando se tudo o que me disse, se cada palavra de afeto foi realmente cheia de sinceridade. Você é boa com as palavras e tenho medo de tê-las usado para comigo de uma forma deplorável. Não sei se seria capaz de dissimular dessa forma. É louco dizer, mas, sim, eu acredito no que diz sentir por mim. Ainda que muitas vezes não tenha agido de forma condizente, ainda que eu mesmo fique matutando a respeito. Tudo isso é insano (como você mesmo costumava dizer).”

    Quanto à mantença do “nós”, me recuso a permanecer no que me fazia sentir um fracasso. Essa sensação existia por você ter me dito bem mais de uma vez que a minha linguagem do amor não te satisfazia.

    Da forma que você coloca, faz-me sentir ingrata. Também estou despedaçada. Nos nossos dias, pouco a pouco eu estava me desfazendo em alguns sentidos e precisava do seu agir para me refazer. Por isso tanto diálogo, da minha parte. Por isso a ideia do “pacto”.

    Falei isso naquele domingo. Lembra? Com seriedade. Mas, quando tudo soava calmaria. Você choveu em mim. Foi isso que você fez naquela madrugada de sábado. Naquela noite quente, prometi a mim mesma que era a última vez que iria me fazer chorar. Última vez que iria me frustrar por você descartar suas promessas e não pensar em mim antes de fazer algo que tanto me afetava.

    Me desculpa por ser tão repetitiva. Te remeto inúmeras palavras, te falo coisas infindas, e sei que você acha um porre, acaba descartando quase tudo.

    Ao pôr do sol daquele domingo, me disse as mesmas coisas que agora. E eu voltei atrás na minha decisão, lembra? No mais, deixei claro que a hipótese de partida, da minha parte, se tratava de algo que não desejava, mas que a cogitei para evitar me machucar.

    Ainda que em outro contexto, estamos novamente na mesma coisa. Mas, dessa vez, eu já estou machucada.

    Espero que você fique bem, mesmo. Mas, sendo sincera, não vou mentir. Espero, no mínimo, um pingo de saudade, arrependimento ou pesar pela perca.

    - “Espero o mesmo de ti. Sinto uma saudade incessante. Sonho com você. Tenho arrependimento também. Quanto a estar despedaçada, não acredito. Se você sentisse saudade, vontade, amor… resgataria o ‘nós”. É simples. Eu te falei estar disposto a mudar, mas você não se importa.Eu faria o impossível por você e é deprimente te ver me colocar como imundo. Não jogue entrega na minha cara, suportei muita coisa por você e tu simplesmente joga fora. Sabe, me abri emocionalmente como jamais havia feito com qualquer pessoa. Você tem o meu amor nas mãos e está esfarelando ele. Nunca imaginei que seria capaz de uma coisa dessas. Te vejo traindo quem eu vi em você, principalmente, tudo o que me dizia ser. Você diz estar machucada enquanto me machuca também e não se dar conta.”

    Não me surpreende você não acreditar em mim. Simples para você falar pensando em quem fui contigo. Se coloca no meu lugar. Você mesmo reconheceu coisas nada bacanas que partiam de você. Não quero discutir.

    Foram poucos dias para tudo voltar ao antes. E as três coisas que eu mais te pedi para evitar, porque me afetava muito, vinheram num pacote no mesmo final de semana. Me decepcionei muito naquele sábado. Eu chorei a madrugada inteira.

    Não entendo como pode me amar e não tentar evitar fazer algo que eu tanto te pedia para ser cauteloso. Não entendo como não conseguia evitar fazer o que me desabava.

    Sabe, eu reconhecia quando agiria daquela maneira. Pressentia. Sabia quando seria tomado pelo seu imediatismo cego. Nesses momentos, eu falava coisas como: “Presta atenção. Lembra do que combinamos sobre lidar com os problemas. Não precisa ser assim”. Justamente para ver se você pensava em mim e no valor do nosso vínculo.  Antes de fazer qualquer coisa ou dizer, eu sempre pensava em como você ia se sentir. Por isso tenho certeza de que nunca te ofendi ou derrespeitei, ou magoei com o que falei.

    Não estava sendo saudável, meu bem. Não quero nós dois num relacionamento que ainda no início não estava sendo leve. Não vamos mais reviver essas discussões… Okay?

    - “Não adianta eu dizer mais nada. Vejo que persistirá nessa decisão. Eu preciso digerir a ideia e aprender a lidar. Sabe, foi você mesma quem terminou com a gente. Não te entendo. Eu corri atrás e você não quis mais, praticamente me esnobou. Permanece com a vontade de se afastar e de que, se ficar, será somente para ter minha amizade. Eu não quero ser somente o seu amigo, quero dividir uma vida contigo, desejo ser o seu parceiro. Sabe, nós discutimos algumas vezes e eu te disse coisas impulsivas, sobretudo, nunca dotadas de veracidade, foram coisas que eu não deveria (e não queria) ter lhe dito. Porém, apesar de tudo, isso jamais significou que não quero a sua presença e muito menos que ela tanto fazia para mim. Não precisa ter medo, pode confiar nessas minhas promessas, nas falas que te remeto agora.No entanto, acima de qualquer coisa, sabe o que é foda? No momento que acreditei que ficaria comigo, você foi embora. Isso foi péssimo. Tenho medo de dizer a mim mesmo o que isso significa. Você não está disposta a erguer um castelo comigo.”

    É complicado erguer castelo com alguém que diante de qualquer lajota colocada torta ameaça abandonar a execução ou a faz. Dá a sensação de que a qualquer momento a obra vai ficar inacabada e desmoronar. Do jeito que você coloca, tudo se torna pequeno. Me colocando como venenosa faz eu me sentir muito bem.

    Não foi minha intenção “esnobar”. Foi o que te disse: Eu, ferida, iria passar a ferir você também. Não quero isso. Olha, eu não queria somente a sua parte fácil de amar. Não. Eu mesma falei: “eu e você nus e crus”. Eu disse desejar o seu verdadeiro “eu” comigo.

    Moram dois caras em você. O que fez eu meu me apaixonar e aquele que tem atitudes comigo nada bacanas, me tratando de uma forma que não gosto, e assim me cortando. E, se tratando de um amor que ainda estava no começo, esse primeiro cara deveria ser o mais presente e não o segundo. Diante do segundo cara, eu não conseguia ser o meu melhor com você.

    Aliás, tem algo que está engasgado e preciso te questionar. Sabe o que eu não entendo? Você me disse assim, duas semanas atrás: “Eu posso ser só esse primeiro cara”. “Posso mostrar só o meu melhor”. Me passou a impressão de que, de algum modo, você tinha plena consciência de tudo o que apontei… Não sei.

    - “Me desculpa. Sim, eu sempre tive. Por isso quero você de volta. Para agir como você merece. Aliás, como deveria ter agido desde o incio. Com o inicio da ruptura, passei a ver e valorizar tudo de uma outra forma. Me sinto mal com tudo isso. Porém, ainda que você exponha infindas coisas, só consigo pensar que: ‘É por isso quer partir pra sempre?’. Tenho a horrível sensação de essa conversa não vai dar em nada. Sinto que estou de mãos atadas. Estou implorando para ficar enquanto você constantemente arranja um argumento para reforçar sua partida. Me faz um monstro.”

    Já que percebia, por qual razão não agia assim antes? Já pensou nisso? Sabe, são um conjunto de pequenas coisas e estou decepcionada pela existência delas.
    Argumento porque você merece justificativas. Sobretudo, porque gostaria que se colocasse no meu lugar. Principalmente, que tentasse entender. Você sabe muito bem que não ser tratado da forma esperada por quem a gente ama, corta. Mas, tenho a sensação de que para ti, estou “fazendo tempestade em copo d’água”. “Sou exagerada”.

    A minha decisão não é fácil. Eu sinto o universo por você. Ainda que tenha me decepcionado com atitudes. E é duro assumir isso. Sinto saudade do primeiro cara, muita. Sinto saudade de olhares, toques, do seu abraço, de me sentir protegida ao caminhar contigo, do seu timbre… É por sentir muito, intensamente, que as coisas que apontei me machucaram e você não está percebendo isso.
     
    Isso é difícil, mesmo. Eu vejo que reconhece o que eu expus para aceitar a sua decisão de partida. Não questionou nada e disse reconhecer. Mas, vejo que não vê como motivo para ruptura.

    Eu adoraria — com todas as minhas forças — acreditar quando você disse “eu estou prometendo que vou mudar, porque a minha visão é outra agora”. Eu não sei qual é a sua visão, mas, ainda assim, tenho medo. Poxa, você confirmou que tinha percepção de tudo aquilo antes.

    Os dias correm e em todos eles eu revivo “a nossa coisa”. Tudo poderia ter sido diferente, assim como você mesmo expôs naquela sua última música.

    Não é por meras brigas. Isso vai existir, justamente porque nos importamos e queremos fazer dar certo estarmos juntos.

    O problema é por se tratar das mesmas coisas. Como vamos crescer persistindo nos mesmos “erros”, persistindo no que destabiliza a nós dois?

    Você é astuto, tem controle sobre o que quer. Sei que não me quer como amiga. Porém, preciso saber que você está bem. Se precisar de mim, independente do que for, me diz.  Você sempre disse ter problemas, mas tinha um bloqueio em dividir comigo. Se precisar desabafar, eu estou aqui. Pode confiar em mim. Não irá ouvir julgamentos. Eu sempre questionei sobre eles por me preocupar. Não faço ideia do que sejam. Eu ainda me importo. Isso não vai mudar. Sabe o quanto sinto, sabe onde e como me encontrar, se quiser, se precisar.

    Pensa numa coisa, por favor, é a última coisa que te peço. Questiona se, pelo caminhar das coisas, eu te fazia sentido.

    O sentido a gente percebe com o tempo. Sobre “tempo”, você disse não acreditar. Eu também. Mas, sobre relacionamento, é tudo novo para mim. Ao longo da estação, mudei pensamentos, me vi em coisas que antes dizia “jamais” e fui eufórica com coisas que antes me assombravam.

    Por favor, pensa realmente nisso. Pois, uma coisa é querer a presença de alguém e outra coisa é querer a presença daquela pessoa. E, se tratando daquela pessoa, se é preciso agir com maturidade e responsabilidade afetiva. 

    Se tratando de você, para mim, há sentido. Mas, não naquele caminhar.

    Me chame de venenosa, hipócrita o que for. Só não me puna por estar desacreditada quanto a promessas. Acredito que a mudança que tanto ansiei só existiria na certeza quanto aquilo. Eu sendo “aquela pessoa”. Acredito que assim você agiria como tal.

    Essa infinidade de palavras não existiriam se você não fizesse sentido para mim.

    Juro que tentei, mas não consigo entender como por qualquer “problema” você mudava comigo e dizia coisas como “presta atenção, eu só vou caindo fora” ou que o caminhar não te agradava. Como se não bastasse, algumas vezes, de última hora, tirou o nosso encontro dos seus planos porque, para ti, me ver “não valeria a pena”. E, não obstante, claro, sempre cogitava dar um basta comigo e chegou a fazer isso algumas vezes.

    É difícil ouvir essas coisas de alguém que você ama. Eu me senti insuficiente mesmo. Insuficiente para ti. É isso que eu quis dizer com um fracasso.

    - “Você nunca foi insuficiente, muito menos qualquer coisa perto disso. Aliás, eu pensei. Não quero ser seu amigo. Sei que não irei suportar te ver com outra pessoa, um dia vai acontecer e eu não quero estar lá pra ver isso, muito menos te ouvir falando desse alguém para mim. Não quero ter contato. Mas, ainda assim, pode contar comigo, sempre que quiser, para qualquer coisa. Sabe, eu amo você de todas formas e uma delas é como amigo.”

    Eu gostaria de ser sua amiga.

    Se isso acontecer, vai demorar muito. Pra caralho. Eu não sou do tipo que se apaixona em cada esquina.

    A recíproca é a mesma. Olha, você é um cara super atraente. Devem ter dezenas de garotas lindas interessadas em você e que despertam seu interesse também. Isso nós dois sabemos. Eu sou facilmente substituível. Se ocupo um posto, logo mais ele não será meu. Você já se envolveu com outras mulheres. Já teve outros relacionamentos. Sabe que o que digo é verdade. E se por acaso um dia se lembrar de mim, vai ser em algo singelo, por exemplo, ouvindo “É Você Que Tem”.

    E independente de qualquer coisa, da minha decepção amorosa (já falamos a respeito, sabe o que quero dizer), jamais desejarei o seu mal ou direi coisas ruins a seu respeito para qualquer pessoa. As coisas que aconteceram entre a gente e também o que não aconteceu, só cabe a nós. Aliás, ainda que eu possa em muitos momentos sentir raiva, desprezo e afins, sou incapaz de sentir ódio a ponto de profanar de modo detestável o outro. Não sou alguém que se domina por sentimentos ruins.

    No mais, também reconheço as minhas falhas. Espero, mesmo, que você não tenha somente memórias ruins. Tentei e acredito não ter magoado com palavras, te respeitei (em todos os sentidos). Se em algum instante eu não fiz isso, peço perdão. Pois, tenho muito medo de apontar e de cobrar do outro algo que não está em mim.

    Hoje, eu amo você. Mesmo. Apesar dos pesares. Ainda que, olhando com distancia, eu não goste de quem foi comigo.

    Não sei se você sabe, mas há 5 linguagens do amor. As nossas são diferentes, acredito que por isso você “não vê o meu sentir”.

    Talvez, agora, a minha decisão para você (mesmo depois de tudo que eu expus e esclareci) não faça sentido. Mas, daqui alguns dias, meses ou sei lá, acredito que fará.

    Nem sempre o sentir é o suficiente para duas pessoas ficarem juntas. E juro que acredito naquela ideia de que “há formas de se amar alguém para sempre”. No entanto, às vezes justamente a nossa forma de amar, lidar com as coisas, vê-las ou sei lá, atinge o outro de uma forma que não imaginamos. É preciso ouvir o outro e ter cuidado com o que se está construindo.

    A minha decisão é para não mais me magoar. Eu sou muito intensa. Tudo me afeta muito. É frustante ser o bilhete dourado enquanto o outro só enxerga preto e branco.

    Os nosso pacto estava sendo quebrado e os diálogos e promessas sendo vãos. Eu valorizo tanto essas coisas. Reforço, eu, ferida, ia passar a ferir você também.

    Quero muito o seu bem. Sei que um dia outro alguém vai ter o seu sentir e não quero que esteja despedaçado. Não quero que lembre de mim de uma forma ruim.

    Queria ter te proporcionado somente coisas boas, talvez eu não tenha feito, assim como você não fez.

    Apesar do quanto eu sinta, jamais irei me perdoar se, por acaso, persistir nisso aqui e perder a minha essência.

    Eu apago a luz e fecho a porta com cuidado.

    “Não suporto meios termos. Por isso, não me doo pela metade. Não sou sua meio amiga nem seu quase amor. Ou sou tudo ou sou nada.” — Clarice Lispector. Faz sentido sua escolha. Eu penso a mesma coisa. Queria parecer mais forte. Vou respeitar sua decisão.

    Ps. Se um dia eu escrever um livro, leia. Provavelmente, terá textos meus sobre sentimentos e coisas atreladas a você. Será capaz de reconhecer, eu acho. (Se quiser, claro).

    - “Ninguém será capaz de substituir você pra mim. Só você teve esse posto, da forma que sempre desejei, e só você terá, por todo o sempre. Não vou estragar isso. Talvez eu faça aquilo que você sempre me falou “ressignificar”. E sim, eu já estou despedaçado. Nunca me senti dessa forma. Me magoa ver que está decidida. Só me resta tentar superar e, além de tudo, respeitar. Me desculpa por todos os ‘baixos’. Eu amo você.”

    Nunca mais ouse duvidar do que sinto.

    Sabe, eu realmente acreditei que não mais estava fadada ao Naufrágio.

    Por fim, não joga fora as minhas palavras, nenhuma delas.


    Janaina Couto ©
    Publicado — 2020
    @janacoutoj


    [PS. Não se trata de um relato pessoal. Mas, confesso que é um imenso pesar reconhecer que o meu texto foi lapidado sob um apanhado de relatos de pessoas queridas que estão ao meu entorno.
    Ainda que mesmo nas coisas mais sutis possamos constatar algo a se repudiar e imediatamente afastar-se, não raramente, horrivelmente, isso acontece apenas quando se tornam salientes.]
  • 31

    Uma certeza eu tenho, existe um tipo de pensamento que está comigo o tempo todo. Esse pensamento eu apelidei de “31”. Eis que você deve estar se perguntando: “Por que e o que é 31?” Pois bem, irei explicar.

    31 é aquele pensamento que está comigo o tempo todo e a todo momento. Este é você e provavelmente você ainda não entendeu o porquê desse apelido incomum.

    O que você tem a ver com 31? É simples, você está nos meus pensamentos 24horas por dia e 7 dias por semana, logo, 24+7=31. Todos os momentos com você são como feriados, calmos, tranquilos e alegres.

    Às vezes me pego pensando em ti do nada, às vezes quando acordo e por fim, quando irei dormir. Nós somos jovens cheios de energia d aprendemos a nos curtir cada vez mais. Deve ser a convivência, eu não conseguia ser assim tão ativo antes.

    Mesmo que não estejamos próximos fisicamente nossos espíritos estão conectados, tenho certeza. Pode não ser literalmente em tempo integral mas deu pra entender o recado rsrs.

  • A aleatoriedade da Inspiração

    E percorre em mim uma temperada dor.
    Me sinto doente; uma dor temperada na inspiração e no torpor.
    Uma inspiração que me ocorre, e não sei de onde vêm.
    Ela me encontra e meu corpo reage.
    Me sinto doente.
    Ela estremece meu corpo, me dando vontade de chorar.
    Melancolia; felicidade.
    Uma calma agonia, que se esconde atrás da insensibilidade.
    Uma aparente apatia que apenas é transfigurada, em meu ser, como uma dor excruciante e libertadora de inspiração.
    Apenas quero isso.
    Apenas quero isso.
    Apenas quero isso.
    Apenas.
    Isso.
    Mas isso me adoece.
    Por diversas, e quase infinitas, vezes, procurei por ela.
     
    Já não sei mais o que fazer; o que me move não mais são minhas paixões.
    Então por quê continuo, ainda, aqui?
    Não há mais o que fazer; já a abandonei.
     
    Não consigo.
    A inspiração me faz adoecer.
    Ela precisa ser dita; expressa de alguma forma.
    Se eu não o fizer, perecerei.
    Mas quem disse que perecer seria algo ruim?
    Perecer e abandonar a todos, inclusive a mim.
    Não. Não hei de fazer tal coisa.
     
    Altos barulhos, na longínqua noite.
    Tiram-me de meu torpor.
    Mas, mesmo assim, o calafrio ainda percorre meu ser.
    Em meu corpo; em minh’alma.
     
    Não vá embora.
     
    No fundo, meu coração sussurrava.
    A doença não me acomete, enquanto eu não a tiver perto de mim…
    Minha fraqueza se tornará mais forte…
    E eu não serei capaz de mantê-la quando retornares.
    Não me importo de adoecer, enquanto, a ti, permanecer.
     
    Mas eu sei.
    Tudo o que eu disse até agora é apenas supérfluo.
    Não te importas com quem a agracie, apenas querendo ser transbordada em alguém.
    E logo em mim, neste exato momento, tu se infiltras.
     
    Apenas se vá.
    Sua existência é a contemplação de meu ser.
    Sendo em mim, tu, apenas uma parte,
    Que vaga em meandros desconhecidos,
    Mas que sempre, em momentos inoportunos, volta para seu lar.
     
    Não se preocupe.
    Da próxima vez te acariciarei em sua volta.
    Dizendo, somente:
    Okaeri.

     

  • A Aquariana Sonhadora

    Bela sempre foi a garota que fez mais planos surreais e utópicos do que planos de carreira, casamento ou coisas da vida cotidiana. Sempre que começava a pensar, pegava-se perdida nos devaneios e pensamentos do seu próprio universo.
    O mais interessante disso é que Bela nunca deixou de ser responsável por cada ação e responsabilidade com seus deveres, dividindo sempre um tempo para a rotina e para as memórias fantásticas que vez por outra, conseguia manifestar no seu dia comum.
    Bela era a garota que todos queriam como amiga, mas que ninguém queria como inimiga. Certa do que queria para si, nunca deixou se levar por pessoas menos profundas que a sua essência, ou que a privassem da liberdade de pensar e agir conforme o que acreditava. Liberdade fosse talvez a sua palavra favorita.
    Os seus planos e sonhos sempre foram difíceis de alcançar, é como se pra ela a vida não tivesse sentido se não existisse junto a magia e o mistério de desvendar coisas que ninguém sonharia em descobrir ou ter em mãos. Dinheiro nunca importou mais do que o prazer de ter alcançado um objetivo ou ter para si coisas com pouco valor mas com bastante significado.
    Bela era a aquariana sonhadora que fez do mundo um lugar melhor e marcou o coração de todos ao seu redor com suas ideias malucas, histórias indecifráveis, piadas com humor negro e uma habilidade incomparável com as emoções de quem ela amava, antes de partir dessa para um lugar melhor.
  • A arte de se ter um dom

    Eu queria ter um dom. Não sei, sempre fui apaixonada por desenhos. Já tentei diversas vezes desenhar, nunca deu certo. Já tentei tocar violão, mas sou canhota e meu professor é destro, nossa relação nunca teria dado certo.
    Quando eu era pequena, fazia aulas de teclado na igreja, eu adorava. Não me lembro porque parei, mas depois nunca mais e hoje já nem chego perto de um teclado.
    Recentemente, me veio a vontade de escrever, mas acredito que isso também não seja meu forte. Comecei até a escrever um livro, alguns anos atrás, mas perdi o gosto pela história e ela se perdeu entre tantos documentos do meu computador.
    Hoje, eu acredito que só me resta o dom de sonhar. Sonhar com dias melhores, com pessoas sorrindo, dons concebidos... É, acho que a arte do sonhar, essa eu domino. É a minha gasolina, é o meu oxigênio; não era bem o que eu queria, mas querer não é poder e eu sei que, pelo menos, quem tem o dom de sonhar, tem o dom de realizar.
  • A arte diante de ti!

    Eu vi você sair daquela porta

    Com aquele jeito "encantador"

    E ao mesmo tempo despojado

    Ao ponto de ser engraçado!





    Só queria expressar

    Ou melhor tentar

    Expressar que você

    Me conquistou

    Com seu "jeitão" de ser!





    Toda vez que você sair

    Por aquela porta

    Irei te expressar de uma

    Forma diferente

    Daquilo que já foi visto!





    Por quê amor é algo inexplicável

    Não estou aqui para explicar

    Ou expressar amor algum

    Por alguém!

    Apenas estou expressando

    A minha arte ao meu ver!
  • A Bela Estranheza da Arte

    Esperando
    O trem chegar
    À beira da ferrovia
    Ansiosamente
    Nos trilhos
    Esperando
    A morte chegar

    Voltei ao meu livro imaginando qualquer outra coisa
    Não pude imaginar que aquele velho realmente havia morrido bem ali
    Simplesmente infartou, ao atravessar os trilhos, caiu sobre eles

    Assustador, bizarro
    o barulho
    da queda
    um corpo
    subitamente
    sem vida..

    Muitos foram os curiosos que cercaram o recém falecido, estudando a situação
    Logo retiraram-no dos trilhos, o deitaram no chão
    Tentaram ouvir o coração e a respiração
    O pulso
    Não pulsava

    Ao chegar o trem
    Ouvi alguém gritar
     -Foi infarto!
    Sobrecarregou o coração
    Pereceu de tanta emoção
    Ao atravessar a linha
    Esperaria a chegada do trem
    Pois neste dia havia
    Prometido reencontrar alguém
    Que lhe fazia sentir tão bem

    Quem diria

    O mundo passa diante da janela, tudo parece ficar para trás
    Entorpeço-me observando sem parar
    Trago à tona o livro novamente
    Pra tentar continuar
    Escrever meu ver
    Meu imaginar
    Minimizar
    A vida
    Breve
    Em
    Si

    Torna-se então desconsertante a ansiedade saltante de que logo chegará o fim da linha, a hora de saltar e seguir adiante
    em passos precisos acompanhados de preciosos pensamentos passados à pegadas no papel amassado impregnado de palavras
    borradas escritas tão apressadamente que não serão lidas e sim esquecidas num lamento impresso às pressas num grito de solidão.

    Sei que a intensidade da arte pode levar ao infarte
    Um velho romântico e eterno apaixonado
    Fez de tamanha devoção seu sentimento
    Que não pôde conter as lágrimas ao cair
    Desfalecidos, os olhos do desvivido
    Desejava ter trazido
    As flores que imaginara
    Que a pressa
    Impediu-o
    de comprá-las

    Foi tamanha beleza sua partida
    Tão terrível e marcante
    Pincelada precisa
    Profunda
    Na tela
    Tenaz
  • A Bruxa da Arruda e o Sagrado de Tudo

    A manhã estava carinhosamente refrescante em um dia de verão calmo, que precedia o calor do seco e ensolarado tempo impermanente. Acordou às cinco horas da manhã como de costume, e já não tinha mais a necessidade do despertador do seu smartphone para tal feito. Simplesmente os olhos automaticamente em uma só expressão se abriram, o corpo em um só impulso na cama se sentou, e mergulhado nos seus pensamentos do que fazer com o novo dia de quarentena que auto se apresentava, meditava… claro! Aqueles dias eram por demais incomuns, de um lado tinha o dia todo pela frente sem a rotina acinzentada do levantar, correr e trabalhar, e, por outro lado, teria que ser criativo ao esforço máximo, em táticas incomuns e altruístas para não deixar que o tédio com toda sua improdutividade o arrebatasse, sequestrando a sua proposital impulsionada momentânea e intencionada alegria.
    Essa intencional alegria era a Poderosa Presença do Sagrado em sua vida. E apenas se baseava, por incrível que pareça, as coisas e recordações mais simples e singelas da sua tenra infância. Principalmente as lembranças delicadas e afetuosas de sua bisa, a Bruxa da Arruda, D. Darluz. Pelo qual, todas as manhãs, dedicava em um cantinho do seu oratório (em culto aos antepassados) uma vela sentada em um pires repleto de azeite de oliva misturado a sal grosso e mel, um pote de água que diariamente derramava seu líquido em uma específica planta de Arruda (Ruta graveolens), trocando a água do recipiente todas as manhãs, além de oferendas de flores silvestres, como: Cenoura-brava (Daucus carota subsp. Maximus); Centaurea Nigra (Centaurea nigra subsp. rivularis); flor Leopardo (Belamcanda chinensis); flor de Laranjeira (Citrus × sinensis); flores de Onze-horas (Portulaca grandiflora) e Calêndulas (Calendula officinalis). Tudo isso para se manter em conexão permanente com o espírito de sua querida bisavó. Sendo esta, em vida, sua sacerdotisa. E em morte carnal sua guia espiritual. Pelo que lhe prometera em vida terrena, que ao desencarnar nunca o abandonaria e o vigiaria de cima. Dando-lhe inúmeros conselhos e severas instruções ritualísticas de como manter o contato espiritual com sua alma e coração depois de sua partida.
    Para a Bruxa da Arruda, sua bisa, tudo era Sagrado…
    E do Sagrado… e unicamente, pertencendo ao Sagrado!
    Tudo era vivo! E tinha em si um grande e puro significado.
    Tudo era mágico!
    Tudo era místico!
    Tudo era encantado!
    Tudo era rico!
    Sua constante alegria não se baseava em emotivos momentos.
    Era como o constante balançar das árvores que bailavam se animando, apenas, com o tocar dos ventos.
    O seu grande sorriso em sua face iluminada, transmitia a qualquer um que olhava um manancial inesgotável de pleno contentamento.
    As pessoas que iam ao seu encontro de amor se preenchiam, automaticamente renovando esse sublime sentimento.
    Sua bisa lhe dizia que o Sagrado é um estado a ser sustentado constantemente. Um estado de bons hábitos e boas disciplinas que você mesmo se coloca a praticar. Um estado de Amor, de estar amando e de se sentir amado a toda hora e em todo momento, independente das circunstâncias, posses, pessoas, relacionamentos e virtudes materiais ou espirituais. Um estado de simplicidade e humildade, e cumplicidade no serviço devocional, na prática da caridade e solidariedade. Vivendo em perfeita gratidão e sendo gentil não só com as pessoas, mas a tudo em que os nossos sentidos intentar, aplicar e perceber. Lhe dizia que o segredo para vivenciar o Sagrado na prática, estava na gratidão e valorização da vida em todas as suas formas, não diferenciando uma pepita de ouro de uma simples pedra do rio, um ser-humano de uma formiga, a mais iluminada estrela do céu noturno de um singelo grão de areia das praias do mar. E essa valorização é ver a beleza oculta no amago de todas as coisas, sua Energia Divina e Intenção Criativa. Dizia-lhe que para realização de tal feito era preciso se livrar das amarras da má educação de si mesmo, que degenerou os nossos sentidos na elaboração de conceitos e preconceitos, a partir das inúmeras errôneas percepções externas a nossa Linhagem Sagrada, deteriorando e adulterando o nosso pensar, o nosso sentir, o nosso olhar, o nosso ouvir e o nosso falar. E explicou-lhe, que devido a tudo isso, o porquê das manifestações artísticas, arquitetônicas, filosóficas e religiosas de hoje estarem tão feias, rudes, cinzentas, frias, quadradas, embaraçadas e amontoadas, repetitivas e sem coração.
    D. Darluz dizia que por nos desconectarmos das sabedorias dos nossos ancestrais, o nosso sentido do novo e a capacidade do espanto e da novidade assombrosa de olhar tudo de maneira nova, no sublime estado de encantamento e percepção de alerta alegria, se perdeu no mundo. Dizia que o mal das futuras gerações estava na comparação e associação de capturar as impressões, sem a capacidade madura de traduzi-las, sendo essa maneira uma errônea tentativa de interpretar o novo sem a compreensão do velho, desassociando as consequências presentes e futuras das ações passadas. Daí, como ensinava a Bruxa da Arruda, eis a importância de se cultuar os antepassados, pois, uma árvore não pode florir e gerar bons frutos sem o bom cuidado para com suas raízes.
    Voltando ao momento presente, e na cama em que se encontrava sentado, vira como era difícil traduzir a vivência de infância que tivera com sua bisa para o moderno, virtual, tecnológico e competitivo dias de hoje. Sabia que as redes sociais virtuais, ao contrário do que se pensava, alimentava mais as más ações do ego do que o conhecimento (pelo qual era a sua proposta inicial). E que esse contato virtual se tornou uma máquina alimentadora dos nossos mais animalescos instintos, provocando mediante as imagens, sons, cores e palavras as mais variadas sensações emocionais para a satisfação dos nossos mais carnais e individuais desejos de ter ou ser. Não medindo as consequências de um super ego (‘eu’ pluralizado), que busca sempre aquelas ilusórias sensações que lhe possam dar a tão almejada satisfação momentânea, em uma falsa privacidade de no ato de estar solitário cometermos as maiores torpezas, em que julgamos erroneamente não impactar o nosso mundo externo. Vira que a internet, ao contrário do que fora a sua proposta de unir as pessoas, se tornou um luxurioso baile de máscaras, em que as redes sociais eram essas enfeitadas e coloridas máscaras.
    Assim, contudo, preferia estar no seu jardim. Na companhia das lembranças de sua bisa, a Bruxa da Arruda, D. Darluz. Que o lembrava que o mundo ainda era envolvido por uma aura de Novidade Mística, Alegria Mágica e Amor Divino. E que só poderia vivenciar o Sagrado da Vida observando, compactuando, comungando e se relacionando com o Mundo Natural em toda sua essência ecológica. O seu pequeno jardim era totalmente dedicado ao Sagrado e a memória de sua bisavó. Ali… dedicando-se a colocar as mãos e os joelhos na terra, se sentia uma Pessoa Superior em toda sua humildade, dividindo-se entre o observador e o observado, conhecendo a si mesmo na observação dos pequenos seres vegetais, minerais e animais. Se perdendo em um mundo desconhecido de encanto e nostalgia, que o elevava e fazia distante das miseráveis catastróficas vivências de traumas e barbaridades da bestialidade e ignorância humana.
    Ao regar suas plantas em pleno final de tarde, se via quando pequeno sentado no colo de sua bisa em uma balança pendurada a um tronco da árvore de Tipuana (Tipuana tipu (Benth.) Kuntze), em que juntos no crepúsculo vespertino se divertiam olhando as inúmeras nuvens no céu a tomar formas inusitadas de rostos, silhuetas, animais e objetos. E sua bisa, também, instigava a sua imaginação a ver essas formas nas plantas, flores, objetos e coisas. Dizendo que as mensagens dos seres naturais (Elementais) vêm a nós nas formas que a nossa consciência pode reconhecer, por eles falarem uma linguagem desconhecida aos nossos sentidos e dimensão.
    E, lembrou-se das manhãs ensolaradas ao correr pelo terreno da Chácara Celeste (que na verdade era um pedaço do céu na terra) logo ao acordar, indo de encontro a sua querida bisa nos campos abertos, vendo-a colher flores para o seu ritualístico culto matinal. E chegando ofegante até ela, gritava: “Bisaaaaa!”. E D. Darluz respondia com a mesma intensidade: “Meu Miúdo!”. E ela o carregando, abraçava forte e o cobria de beijos, até ele dizer basta. E, D. Darluz lhe dizia: “Olha meu Miúdo, não existe nada neste mundo que é mais adorável que uma flor, nem nada mais essencial que uma árvore e planta, sem elas não conheceríamos o belo, não poderíamos respirar e nem comer, nem nos curar. E, ocultamente a esses benefícios que elas nos trazem ao nosso corpo de carne e seus sentidos, tem ainda a sua função mística, que é a mais relevante, algo divino em que as pessoas comuns e materialistas não têm a capacidade de ver. Uma força mágica e espiritual, eterna e imutável.”
    A Bruxa da Arruda sempre o alertara a valorizar todas as coisas… de uma simples pedra a um pequeno objeto. Como um brinquedo, um utensílio ou algo do tipo. Dizia que tudo tem um propósito e que nada é obra do acaso. Alertara que todas as coisas por serem criações foram pensadas e intencionadas a se manifestarem. Tudo tinha um espírito, mesmo as coisas inanimadas. Pois, sempre afirmará: “O que tem corpo, tem espírito. Tudo é vivo! Toda criação é fragmento do seu Criador, contendo em si uma determinada energia que por mais pequena e singular que seja, é viva em si mesma, presa e magneticamente sustentada nesse corpo, é consciente especificamente para executar tal função, e depois de executada por si só se decompõe e desaparece”. E afirmava que a evolução desses corpos inanimados tinha a ver com a evolução humana, de acordo com seu grau evolutivo. Assim, o inorgânico Elemental podia se manifestar numa pedra, numa mesa, em um relógio de pulso, nos objetos que mais amamos e desejamos, e ainda mais nos brinquedos das crianças, por serem carregados de sentimentos. E que por isso, para seus Rituais da Magia Elemental necessitava dos objetos e minerais… das pedras… das cascas de árvores… dos restos de corpos dos seres vivos e seus derivados, onde se continha ainda preservada a energia Elemental necessária para tal e específica magia.
    Assim, Maria da Piedade…, moradora e proprietária da Chácara Celeste, que se localizava em algum lugar escondido na região nordeste do Brasil…, a Bruxa da Arruda: agricultora, queijeira, azeiteira, parteira, rezadeira, curandeira, e feiticeira portuguesa…, de origem dos antigos povos celtas das terras europeias mediterrâneas da Península Ibérica…, apelidada como D. Darluz…, afirmava que quando nos damos conta da existência do Poder Criativo em tudo que existe ao nosso redor e no nosso viver, quando descobrimos que tudo tem coração e inteligência, que tudo é intenção, e que a toda intenção foi aplicada uma específica atenção, e que a tudo que damos atenção doamos uma determinada fração de nossa energia vital, que se torna um fragmento de vida em si, independente por si próprio e evolutiva em si mesma… Tudo se torna Divino! Tudo se torna Sagrado! A ordem da Grande Espiral do Eterno e Permanente Contínuo.
  • A Colecionadora De Medos

    Quando eu era pequena eu tinha medo de zumbis, e tinha mais medo ainda de eles estarem atrás da minha cortina. Então eu ficava acordada a noite inteira olhando para a cortina, tentando me convencer de que não tinha nada para me assustar ali. Mas uma hora eu dormia,e quando eu acordava eu acordava olhando para a cortina.
    Quando eu era pequena eu tinha medo de palhaços assassinos, e tinha medo de eles entrarem na minha janela, então eu ficava olhando para a janela e para a cortina. Tentava me convencer de que nada me atacaria. Mas uma hora eu dormia, e quando acordava eu acordava olhando para a janela e para a cortina.
    Depois que eu cresci um pouco, fiquei com medo de dormir. Então, me deram um urso que me ajudaria a dormir. Eu abraçava aquele ursinho, e um dos meus medos foi perder ele. Então sempre que eu acordava, eu acordava olhando para ele.
    Eu fui crescendo, fui perdendo medo de palhaços assassinos e medo de zumbis atrás da minha cortina... Então eu comecei a ler, e fiquei com medo de algo me tirar dos meus livros. Então comecei a escrever, e fiquei com pavor de algo me tirar o poder de escrever, de me libertar. 
    Então eu tive outro medo, um medo grande...e estranho. O medo de ficar cega. Eu não conseguiria viver como vivo hoje, como amo viver hoje. Talvez, desde sempre, eu estivesse tão ocupada olhando atrás das cortinas e por cima das janelas e que fiquei com medo de não conseguir ver os meus medos. Só assim eles me venceriam.
  • A copa

    Porque depositar tanta esperança em pessoas simples?São milhares de pessoas simples torcendo por poucas pessoas tão simples quanto elas.Quero dizer,biologicamente somos todos iguais.Então porque tratá-los de maneira diferente?.São milhares de pessoas confiando seu dinheiro em apostas,são milhares de pessoas perdendo apostas.São milhares de pessoas felizes,são milhares de pessoas deprimidas.Seria a copa uma contradição?
  • A fé 2 O fim para história de um vampiro capítulo 1 de 12

    Capítulo 1
         Cachie ficou nas sombras, escuridão por um tempo. Até que em uma de suas visitas escondidas ao que era sua família ouviu boatos, as conversas seguiam. Desesperado com a notícia ele se revelou perguntando em meio a um grupo:
         -O que ouve?
         A neta de Carlais foi sequestrada!
         -Ela foi levada.
         -Ninguém sabe pra onde nem por quem.
         -Ou por que.
         -Minha neta, o que está acontecendo, não pode ser verdade. Deixou escapar o minha neta e assim um dos homens falou assustado:
         -Você é o vô dela? O vampiro que a muito apavorou cidades? Cachie saiu preocupado tinha que encontrar uma maneira de salvar sua neta. Ele não percebeu, mas ficaram novos boatos, que diziam:
         -O vampiro está de volta!
         -Ele retornou a escuridão nos cercará!
         Em casa Carlais não podia ou não queria acreditar.
         -São falsos boatos, agora temos uma busca a fazer por uma garotinha. Amigos dela diziam.
         A filha preocupada não sabia o que fazer e Carlais sabia que com Cachie presente tudo daria certo, ele voltou na hora certa em que precisam do seu apoio e amor à filha que tanto o desejava.
         Carlais entrou no quarto da criança e cheirou as roupas dela. Saiu em busca de encontrá-la, ligaria para a filha dizendo onde estava.
         É noite, chegou à igreja da praça, que lhe trazia más lembranças, foi na praça desta igreja onde contou a seu amado que tinham o matado sem dizer adeus em palavras. Enviou uma mensagem para filha. Entrou, a porta por trás dela se fechou. Três homens que estavam cientes de que ela era uma mulher loba a cercaram.
         -Caindo em nossa armadilha assim tão fácil!?
         -Entregue minha neta, o que querem de nós? Ela daria o que fosse para ter a neta de volta.
         -Estamos com nosso objetivo e você com o seu, porem agora, aqui, morrerás pelo que amou!
         -Seus bandidos, onde ela está? Carlais chutou um dos acentos do lugar. É então que um dos homens mostra uma arma e diz:
         -Está carregada com balas de prata!
         -Como sabem sobre minha vida? Não responderam, um dos homens deu um golpe que a fez cair.
         -Sem lua cheia você não é de nada. Nosso recado é que sua família de antigos caçadores está chegando ao fim.
         -Só uma correção, nós ainda caçamos, mas tentamos ajudar aqueles que querem... E gritando disse: -Vocês não passam de humanos. Eles disseram que eram caçadores também e pediram meio que ordenando:
         -Deixe um recado para sua querida filha humana, diga que sobre um cadáver daqui desta igreja, que de fato será o seu, estará uma pista para que ela possa tentar encontrar a filha! Carlais pensou:
         -Então eles estão com algo que pode ajudar a encontrar minha querida neta, tenho que matá-los, mas como, minha filha já deve estar chegando, porque vim armada apenas com uma faca e sozinha? Eu e meus hábitos de ser imprudente. Ela mostrou a faca: -Vou matar você primeiro.
         Em gargalhadas um disse:
         -Solte esta arma delicadamente! E sorriu. Ela jogou no ombro do que estava armado e o chutou a retirando, os demais a rodearam. Um chutou a mão dela que soltou a faca. Foi então que o que caiu se ergueu dizendo:
         -Hora, hora... Disse um palavrão e apontou para Carlais:
         -É seu fim, morra! Carlais fecha os olhos.
         É então que um vulto avança erguendo a mão do homem armado o golpeia na barriga com algo, nisto toma a arma. Ele diz:
         -Estas balas também servem contra humanos, oh que coisa heim!? Carlais abre os olhos ao reconhecê-la. Ouve dois tiros e o homem que tinha caído vai atacá-lo por trás, porem recebe um novo golpe e cai morto.
         O vulto é de um homem, ele fica de costas para Carlais e é então que se vira após ouvir da agora velha senhora Carlais:
         -Você continua IDEM! Cachie olha nos olhos da senhora, sem saber que reação devia ter ou ela demostrar. Demoraram um instante como a pausar o tempo e relembrar das boas e más lembranças.
         A sena é de três humanos mortos, uma mulher loba e um vampiro. Ela se aproxima e dá uma tapa na cara dele.
    Fim do capítulo 1, a seguir o segundo capítulo.
  • A garota da fila do bar

    Eu não sou a menina que te seduz na pista de dança. Aquela que você se aproxima tentando adaptar o ritmo do seu corpo com o dela enquanto dançam e então você a faz sorrir, pergunta seu nome e troca meia dúzia de palavras antes do beijo.

    Não, eu sou aquela que observa com o copo na mão. Sou aquela que você tromba na fila do bar, pede desculpas por educação e apenas pela fila ser tão grande começa a conversar. Comenta sobre a festa, de a bebida estar quente ou qual drink é mais gostoso. Ela te faz dar risada fazendo as piadas mais idiotas possíveis, e só quando o bartender atende vocês é que você pergunta o nome dela. 
    Você adiciona no facebook... Ela era legal, porque não? Alguns dias conversando são o suficiente para chama-la pra sair. Ela fala coisas malucas, te conta suas bebidas preferidas, seus encontros mais embaraçosos, e te faz contar coisas que nunca contou a ninguém.

    É a garota mais legal que você já conheceu. Seus abraços são os melhores, o jeito como a bochecha levanta apertando os olhos quando ela sorri te faz sorrir involuntariamente... Mas ela não é a garota da pista de dança. Não é ela quem você vai apresentar aos amigos, porque eu sou só a garota da fila do bar.

  • A gênese do caos

    Um livro de ficção científica me atraí por diversos motivos, dentre eles: os personagens singulares, a trama que me provoca um sentimento de encantamento e a verossimilhança com a nossa realidade. O livro Manjedoura tem tudo isso, sendo uma grata surpresa para um primeiro título publicado pelo autor Sandro J. A. Saint, jovem autor araçaense. Seu romance é um prato cheio para amantes da ficção científica.
                Um tipo de obra que sempre estará em voga é a distopia. Essa narrativa que vislumbra um mundo onde a sociedade está colapsada devido a fatores socioeconômicos, políticos e/ou culturais, lembra o quanto a humanidade é sobrecarregada de contradições. Com certa dose de pessimismo e fatalismo, a modernidade e o progresso se tornam fatores de diluição da sociedade. O livro se torna um alerta, ou seria uma profecia?
                Manjedoura como um primeiro livro de Sandro J. A. Saint apresenta uma narrativa coerente e original, pois consegue sintetizar muito bem os elementos narrativos desse tipo de história. Unindo pós-apocalipse e cyberpunk numa trama distópica, o romance nos traz uma realidade árida, pouco convidativa. Um ambiente carnívoro com relações sociais predatórias. Os protagonistas revelam bem os sentimentos em relação a esse mundo intoxicado de poluição e violência. Como não poderia faltar num livro como este, a temporalidade é desconhecida. Não sabemos se estamos em um futuro ou em uma realidade paralela.
                O livro começa com uma inserção objetiva nesse mundo, um modo de acautelar o leitor e fazê-lo entender que a narrativa terá um cenário diferenciado. É nesse mesmo prólogo que ficamos sabendo que a população mundial cresceu de tal forma que as guerras e o baixo número de recursos naturais diminuíram o número populacional a menos de 30% do total. As elites, sob as suas variadas vertentes, políticos, militares, cientistas e artistas, se unem e formam um único órgão chamado de Cúpula. Seu objetivo é conduzir os resquícios da humanidade.
                Para resolver o problema da superpopulação, eles criam o Projeto Manjedoura, humanos não nascem, são produzidos em escala industrial em laboratórios, chipados e depois dispersados pela cidadela. Mesmo nesse cenário repressor, há revoltas. Grupos rebeldes se organizam e formam os White Mouses, indo viver na clandestinidade fora da Cúpula, ondes serão perseguidos pelas sentinelas.
                Os protagonistas que conduzem a trama são Hanss Nagaf, o emocionante mensageiro-chefe; Jason Cry, o pupilo falastrão de Hanss; e por fim, Handra, a belicosa guerreira do frio. A personalidade desses personagens é única. Com certeza você vai se identificar com todos ou um deles. Mesmo outros personagens que aparecem na trama têm sua personalidade bem definida e atuante na história. Nenhum personagem aqui foi desperdiçado e agrega a narrativa.
                Hanss é um personagem que soa familiar, conduz a trama com bom humor e se mostra um personagem sentimental, a todo momento tenta empreender uma visão mais espiritualizada da vida. Handra é o tipo de protagonista feminista que falta a muitas obras, forte, sem com isso perder a feminilidade. Jason representa o olhar do leitor, sua impulsividade judiciosa e olhar cético vão trazer os conflitos necessários ao trio, bem como divertir o leitor, se tornando um alívio cômico numa sociedade tão agressiva.
                Minha recomendação é: leia esse livro! O livro está com uma edição impecável feita pela Editora Lexia, custa apenas R$ 21,90 mais o frete. Tem orelhas, miolo em papel offset, capa e contracapa feita pelo próprio autor, reforçando o caráter autoral da obra. Se o leitor busca uma ficção científica distópica com pitadas de fim do mundo, Manjedoura é a pedida.
  • A miséria sustenta seu ego !

    Por que se noz não tivéssemos pra onde olhar.
    Como nos conformaríamos com nosso “patamar”, tudo isso gira em torno da hipocrisia. Muitos cobram mudança, Igualdade social, direitos iguais etc... Porém quando saímos dessa “bolha”. Nos deparamos com a hipocrisia da conformidade / sustentação da conformidade.“Eu me conformo em ser assim, porque ele tem menos que eu” . Sempre nos apoiando no pilar de baixo novamente se sustentando no declive alheio.
    Base pra sustentar a ideia !
       Relato pessoal : Quando mais jovem sempre reclamei da minha classe social, até hoje não me conformo muito. Porém sustento meu ego e desejo de ser  rico ou seja ter poder aquisitivo em questão de evolução e realização pessoal. Não apoiando em pessoas específicas como comumente é a base da inveja ou a utopia do ser rico. Enfim sempre comentei com os meus pais, e sempre com desdém fui tratado em relação ao assunto. Porém oque sempre me incomodou eram as justificativas dos mesmos.                          - Olhe as pessoas que têm menos que você. ! 
    - Olhe quantas pessoas passando fome. !
    - Olhe quantas pessoas queriam estar no seu lugar. !
       Contudo, tudo isso era dito não para que me sentisse encomendado com a situação das mesmas, mas sim para que eu fizesse então o uso do termo. sustentação da conformidade, ou seja, aderir à ideia que tenho onde me apoiar e me conformar com o que tenho, pois ainda a onde me comparar, e com isso aceitar a monotonia de ser e estar onde me encontro e sou !.
       Mas ao começo de tudo a ideia não era de se colocar no lugar do outro ?. 
       Ao deixar de olhar pra ''cima'' posso sim parar de praticar inveja, vontade de ser mais, superioridade etc... Porém olhando pra baixo, encontro um ser fazendo então o  uso do ego para se conformar com oque tem, por que querendo ou não há a comparação mas não a equiparação com o mesmo que se encontra “abaixo” de nos. 
     HIPOCRISIA
    substantivo feminino
    1. 1. 
característica do que é hipócrita; falsidade, dissimulação.
    2. 2. 
ato ou efeito de fingir, de dissimular os verdadeiros sentimentos, intenções; fingimento, falsidade.
    CONFORMIDADE
    substantivo feminino
    1. 1. 
correspondência, analogia ou identidade de forma, modo, tipo ou caráter."c. de angulação"
    2. 2. 
ato ou efeito de se conformar, de aceitar, de se pôr de acordo; conformação, concordância.
    DECLIVE
    adjetivo de dois gêneros e substantivo masculino
    1. 1. 
diz-se de ou superfície cuja altura diminui gradualmente à medida que é percorrida."trecho d." 2. 
POR METÁFORA
que ou o que está em decadência.                                            
    UTOPIA
    substantivo feminino
    1. 1. 
lugar ou estado ideal, de completa felicidade e harmonia entre os indivíduos.
    2. 2. 
qualquer descrição imaginativa de uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade.
    DESDÉM
    substantivo masculino
    1. 1. 
desprezo arrogante; altivez, soberbia, sobranceria."a dona da loja tratou-o com d."
    2. 2. 
POR EXTENSÃO
comportamento distanciado; indiferença.
  • A morte tem o formato de um O

    É o fim. Minha vida começou agora e já chegou ao seu final. Fui morta pela tristeza e sua corda enrolada em meu pescoço, o céu me segura e o amor empurra a cadeira. Pendurada somente por esses emaranhados de fibras, a vida me esvai, e morro em sofrimento. Em nenhum momento fui sustentada pela felicidade, a cadeira sobre meus pés sempre esteve bamba, esse cabo nunca afrouxou ao redor de meu pescoço, e o céu nunca quebrou essa madeira que segura o destino de minha morte. 
    1.60cm e 55kg, passei essas informações para que a homicídio fosse indolor, lembrara de minha idade e nome, mas não dos pontos que me ajudariam a não sofrer. Nos 10 minutos de minha agonia, lembrei do amor que nem mesmo senti chutando meu banco, dos céus brilhantes e impetuosos, e da melancolia finalmente quebrando meu pescoço.
  • A partida

    Não muito distante dos meus pensamentos, lá está você sorrindo voluptuosamente, brincando com os meus sentidos e abrindo, mais uma vez, a ferida insanável. Me sinto fadada ao fracasso todas as vezes que deixo, por um segundo, suas lembranças tomarem conta e se tornarem esses fantasmas ingentes que bruscamente me tiram da realidade. Vendida, tenho certeza de que mais um dia o trabalho será insuficiente, a atenção será flutuante e a maior de toda as certezas: não vai haver ninguém lá, no mundo real, no meu apartamento não terá ruídos, você não pertence à essa realidade. A minha realidade. Só esse profundo silêncio que sufoca de forma tão densa e real que poderia sentir as mãos do meu algoz segurando firmemente meu pescoço até o ar esvair-se de meus pulmões.
    Sinceramente, não sei onde estava com a cabeça quando pensei que poderia descrever esse imenso vazio que, ora toma tuas formas e ora se transforma em lembranças quiméricas que posso jurar unindo as palmas das mãos que fazem genuinamente parte da nossa história, serveria como uma explicação absoluta sobre como é viver acompanhada da sua sombra, mas nunca do seu corpo. Tudo se encontra terrivelmente lento, de repente a imagem de um rio e o oceano se unindo não me parece mais tão bonito, o inverno parece ser apenas uma estação que carrega seu cheiro, as músicas não serve mais para nada a não ser trazer a tona lembranças que se projetam diante dos meus olhos fazendo-me sentir como uma espectadora de minha própria história. Em todas palavras pertencentes à língua portuguesa, não há uma que seja capaz de definir de forma perfeita como me sinto.
  • A Pianista

    Não sei por que. Mas estava lá. 
    Parado.
    Em minhas mãos um folheto com os hinos do dia.
    Não sabia nenhuma música e não estava afim de cantar. Muito menos ler.
    O grupo era pequeno. Tinha no máximo dez pessoas. Sendo a maioria jovens como eu, e os velhos eram bem velhos. 
    A pessoa que mais me chamava atenção era a pianista. Caroline, esse era seu nome. Se não me engano.
    Caroline 
    Caroline
    Sempre tocou piano. Ganhou prêmios por isso. Tocava com sua alma, sentia cada tecla bater em seu coração. Suas belas mãos pálidas tocavam gentilmente cada nota.
    Todos ali ajoelhados. Ouvindo e admirando, louvando e glorificando ao som daquela maravilhosa pianista.
    Lá estava ela. Com seu cabelo preto amarrado num coque bagunçado pela ventania que estava aquele dia. Provavelmente iria chover.
    Sua camisa azul de bolinhas vermelhas estava com as mangas dobradas até a altura do cotovelo, usa uma saia rodada preta, que ia até o joelho. Calça uma sapatilha bege, mas insistia dizer que aquilo era nude. 
    Ela vinha para a igreja caminhando, fazia isso todo domingo, eu sempre a via passar em frente de casa. Nunca atrasava- se.
    Sempre adiantada.
    Chegava na igreja antes de todos. Apenas para limpar o piano. Instrumento antigo. Amigo antigo. Lugar onde ela sempre tocara sua divina melodia.
    Todos a cumprimentam. Vão chegando aos poucos.
    Ela sorri. Sorriso atraente.
    Seus olhos escuros se encaixavam perfeitamente com seu belo rosto pálido e fino. Olhar sereno. 
    Caminha com serenidade, transborda calmaria e paz. Continua sorrindo.
    Passa a missa toda assim, com aquele semblante de boa moça. Garota adorável. Sorriso doce.
    A missa é curta.
    Após tocar oito hinos, tudo acaba.
    O padre termina a missa como todas as outras.
    Palavra da salvação. Todos respondem e levantam-se como se não vissem a hora de ir embora.
    Caroline faz reverência ao seu público, concluía com um sinal da cruz e um aceno para alguém da multidão 
    Fecha o piano. Com extremo cuidado, cuida como se fosse um filho. Após isso se reúne ao resto do grupo de canto. Beijos na bochecha e abraços. Sorrisos e risadas.
    Todos a cumprimentam.
    - Foi uma ótima missa, não achou Otávio? – ela diz. Sua voz era macia, como a de um anjo, suave e calma, como o piano que acabara de tocar.
    - Não sei, na verdade, parecem todas iguais para mim – respondo.
    Ela sorri. 
    Aquele sorriso inesquecível. 
    Fiz amizade com ela havia algumas semanas. Ela notou meu interesse em tocar algum instrumento. Me ofereceu algumas aulas, recusei algumas vezes, sem motivo algum. E sem motivo algum aceitei naquele dia.
    Sua volta para casa era, como a ida à igreja. Todos a cumprimentam. Sorrisos. Acenos. Ela sorri. E acena. Uma, duas, três vezes. E repete. 
    Sorriso lindo.
    Sua casa é verde, com enormes portões cinzas. Ainda morava com seus pais. Mesmo tendo seus vinte e poucos anos, continuava indecisa sobre o que faria da vida. Sem sonhos. Sem futuro planejado. Sem namorado. Acreditava não ter sorte para arrumar um. Não imagina a beleza que tem.
    Venta muito. Segura sua saia para que não levante. Dizia para eu não olhar caso isso acontecesse.
    Caminhamos rápido para que não fossemos pegos de surpresa pela chuva que não veio.
    Uma casa bem grande. Daria duas da minha facilmente. Tinha sala de jantar. Sala de estar. Sala de recreação. Sala de lazer. Suíte. Cozinha. E outros tipos de salas. 
    Ela pede para que eu espere na sala. Sento numa poltrona de couro. Desconfortável no início. Mas com o tempo ficou aconchegante. Não há televisão naquela sala. E nem nas outras. 
    Apenas retratos. E mais retratos. Alguns quadros também. 
    Em um dos retratos vejo sua mãe. É bonita como ela. Ouvi histórias que diziam que a mãe dela havia fugido com um vizinho, e deixara Caroline com o pai, que por sinal não estava em nenhuma foto ali. E também, não estava na casa.
    Ela demora.
    Decido então fazer passeio pela casa. 
    São dois andares. 
    No de baixo, temos as salas a cozinha que é bem espaçosa, não tem mesa, pois a mesma fica na sala de jantar ao lado. Na cozinha, tem apenas os armários que cobrem todas as paredes do lado direito, tem também a geladeira e o fogão.
    Uma escada em espiral fica no meio da sala de recreação. Subo-a.
    A escada dá de encontro com um corredor. Extenso corredor. 
    A primeira porta é branca, giro a maçaneta e a abro. Dentro encontro uma cama de casal com vários travesseiros. Doze no mínimo. Um enorme guarda roupa, vai do chão ao teto, engolindo a parede. Um cheiro forte de colônia toma conta do ar. Deve ser o quarto do pai dela.
    A segunda porta, é marrom, lisa. Abro-a. É apenas o quarto de tralhas, coisas que não usam mais. Haviam diversos instrumentos quebrado.
    Nesse corredor havia mais cinco portas. Mas logo na terceira, era o quarto dela.
    Um enjoativo odor adocicado toma conta do meu nariz instantaneamente. A porta está meio aberta. Ouço o som do rádio.
    Entro.
    Ela estava lá. 
    Caroline
    Caroline
    Usando apenas a camisa e uma calcinha azul com rendas. Suas pernas brancas chamavam minha atenção, ela as balança conforme o ritmo da música. 
    O ranger da porta a pega de surpresa, dá um pulo de leve e se vira, colocando a mão sobre o peito. Posso ver o volume de seus mamilos sob a camisa. Ela solta a escova de cabelo.
    O quarto é delicado como ela. Haviam inúmeros instrumentos por ali. Violões. Guitarras. Flautas. Trompete. E muitos outros.
    No canto, por ironia, está um teclado todo empoeirado. Abandonado.
    Ela sorri.
    No centro do quarto está sua cama. Grande. Muito grande.
    Ela sorri.
    Passeio pelo quarto, encaro o espelho do guarda roupa, estou arrumado, bonito.
    Sorrio.
    Um raio de sol que entra de penetra desviando da cortina lilás, paira sobre o teclado empoeirado. Um punhado de poeira dança na faixa de luz solar. Passo meu dedo, bem devagar sobre as teclas, daria para ouvir um som decrescente, se o teclado estivesse ligado. Ou com bateria. 
    Não entendo de teclado.
    Olho para Caroline. Parece não se importar. Aquele devia ter sido seu primeiro instrumento. Abandonou-o. Pergunto o porquê disso. 
    O motivo de tê-lo deixado de lado.
    - Cansei dele. – Ela diz, Sorriso.
    Cansou dele. 
    Todo o tempo que haviam passado juntos não contava mais.
    Sorrio para ela.
    Pressiono uma tecla. Não faz som. 
    Está sem bateria ou desligado. Não entendo de teclado.
    Abaixo na altura dele. Assopro. Uma nuvem de poeira se espalha pelo quarto.
    Ela desabotoa um botão.
    Coloca as duas mãos sobre o instrumento.
    Você não se importa mais com ele, pergunto esperando que ela me dê uma resposta positiva.
    - Sim, mas ele está velho, não serve mais para mim. – Ela diz. Mordiscando o lábio inferior e sorri.
    Não era a resposta que eu queria ouvir. 
    Desabotoa outro botão. 
    A porta range com o vento leve que entra pela janela. A cortina balança. Com um pouco de esforço levanto o teclado de sua base.
    - O que está fazendo. – Ela pergunta. 
    Sorrio.
    Sua camisa está quase toda aberta. Com o passo que ela dá, posso ver seu seio balançar. Vem em minha direção. 
    Sorrio. Ela não. 
    Levanto aqueles aproximadamente dez quilos acima do ombro, e então a golpeio no rosto.
    O golpe não é forte o suficiente para desmaia-la.
    Ela apenas cai e põe a mão sobre a boca. 
    Posso ver seu seio. Sangue pinga no chão de piso branco. 
    Meus braços pesam. Já estão cansados. Caminho por alguns centímetros arrastando o teclado. 
    Ela chora. 
    O sangue escorre de sua boca e pinga sobre seu mamilo marrom. Escorre por ele e pinga em sua barriga, e logo é absorvido pelo tecido da camisa de bolinhas.
    Não sei por que fiz. Apenas senti vontade.
    E então a saciei.
    Com muito esforço, ergo o teclado novamente. E a golpeio de novo. Um golpe contra sua cabeça.
    Ao tentar se proteger ela acaba quebrando o pulso. Som que posso ouvir com clareza. 
    Ela chora. Urra de dor.
    Ergo o teclado novamente.
    Então solto contra ela. 
    Ergo o teclado. Mais um golpe.
    Peças se soltam.
    Sangue espirra.
    Ergo o teclado. Mais um golpe.
    Ela não se move.
    Meus braços doem. Estou ofegante e soado.
    Suas pernas brancas estão sujas com seu sangue. Ela agora tem um motivo para não tocar o teclado. Seu pulso está roxo e inchado.
    Silêncio.
    Paro em frente ao espelho. Arrumo minha gravata. Bonito.
    Por sorte as gostas de sangue não são aparentes em meu terno.
    Olho para ela. Não está mais tão bonita. 
    Tristeza.
    Seu rosto, com o nariz quebrado e faltando alguns dentes, está coberto de sangue. Seu cabelo está molhado por uma poça enorme de seu sangue. 
    Deve ter encontrado a paz.
    Desço a escada. A cafeteira apita. Sirvo um pouco de café. Caminho pela sala. Observo novamente as fotos e quadros. 
    Seu pai não está ali. Sua mãe continua sorrindo. 
    Muito linda. Se Caroline tivesse ido embora com ela. Nada disso teria acontecido
  • A Ponte Sobre o Rio

    Antonio estava de pé no parapeito da longa ponte estaiada. Os pés descalços tocavam no concreto frio, vacilando entre uma rajada de vento e outra. Não tenho nada a perder, ele sussurrou. Tinha sim, muito a perder, uma força interna lhe dizia.
    Puxou o capuz para baixo, estava frio. Seu rosto era triste. Muito abaixo de si, centenas de metros abaixo, corria um rio negro e gelado, águas traiçoeiras que seriam capazes de levar toda a cidade em seu curso. Ah, a cidade, pensou melancólico. E se nunca mais visse sua família, seus amigos, ele...? Ele, o homem que eu amo, o homem que disse que...
    -Eles não precisam de mim. - Parecia mais real quando dizia aquilo em voz alta. Ouvir a própria voz era estranho agora. Parecia que não a ouvia há tantos anos... Sabia que seria um estorvo a menos na vida dos seus pais, mas seu irmão e o seu amor... Não há amor nenhum. Não existe mais amor.
    Olhou pro alto, além dos cabos de sustentação que seguravam a longa Ponte Topázio, para o céu da madrugada. Não havia estrelas ou lua. Era apenas um vazio frio e silencioso, e de alguma forma parecia que o seu vazio era ainda maior.
    O que sentia dentro de si era uma monstruosidade negra e maligna sempre lhe dizendo o quão era burro, fraco e covarde, infectando seus pensamentos, seus sonhos, oh Thomas, você vai chorar por mim? Você vai lamentar quando olhar pro meu nome numa lápide? Eu sequer terei uma lápide?
    O estômago embrulhou quando voltou a olhar pra baixo e o mundo girou a sua volta. Olhar para cima lhe desequilibrou por dois segundos e seria o suficiente para lhe ceifar a vida. Mas não foi isso que vim fazer aqui? Pra que iria querer essa vida afinal? Já estou vivo por tanto tempo, e de que me serviu até hoje?
    Não sabia mais. Olhou para a sua esquerda, para as margens da cidade adormecida. Eram luzes distantes agora. Tinha saído de casa no meio da noite, lembrava bem... Ou não... Ainda estaria em casa naquele momento? Onde realmente estava agora? Na cela de um manicômio qualquer? Esforçar a memória fazia sua cabeça latejar e a dor também quase o derrubou. Estava tão silencioso. O tempo andava lhe fazendo truques na cabeça. Ou seria todo o uísque, ou os comprimidos, ou...
    Não havia tráfego na ponte há dois dias... Como saberia daquilo? Era impossível saber, seu pai passou pela ponte horas antes, como não haveria tráfego? Desceu do parapeito para averiguar e realmente havia lá, onde a cidade começava, abaixo da placa de boas-vindas, grandes barricadas de contenção. Há quanto tempo seu pai tinha saído para aquela viagem? Houve um tremor, a ponte não era forte o bastante, lembrava das notícias, precisava se esforçar mais. A cabeça parecia que ia explodir. Mais, mais.
    A lembrança veio, um pequeno lapso de luz numa treva sem fim. Uma luz bastava para iluminar seus motivos. ‘’Você precisa de conserto! Nunca vai dar certo desse jeito Toni!’’, recordou. Era a voz do seu amor que falava, mas também a da sua mãe, dos seus colegas. A cidade inteira parecia gritar que ele não estava bem, que ele não era... Suficiente. Eu não tenho que agradar a ninguém. Mas se pelo menos eu me agradasse, já seria o bastante. Já seria o suficiente pra eu viver feliz.
    Por que as coisas precisavam ser assim? Tudo poderia ter sido perfeito em sua vida, mas as vozes nunca o deixariam ter uma refeição se quer em paz, sempre jogando coisas em seu ouvido, em sua cabeça. Você é ridículo Antonio, vê? Olhe como eles te olham, ouça seus pensamentos. Você é lixo, você é merda e ainda é mais inútil que lixo e merda juntos.
    Afastou as vozes esmurrando o pequeno muro de concreto que separava a via do abismo logo abaixo. Só precisaria de um passo, de um salto. De um único segundo de coragem. Era o que necessitava. Socou o concreto como se visse nele a face de Jorge, de Miguel, de Vinicius, todos eles ali, caçoando dele... Viu também Benjamim, seu falecido padrinho... É o nosso segredo, ninguém vai saber, a voz era seca e maliciosa e as mãos eram puro osso, mas vieram em sua direção. Antonio gritou.
    As mãos latejavam de dor quando parou subitamente de gritar. Não percebeu quando parou de golpear o muro. Estava ofegante e havia sangue. Também havia lágrimas, sentia-as escorrendo pelo seu rosto ridículo, transbordando dos seus olhos ridículos. Tirou os óculos e jogou no chão. Deu um soco no próprio rosto, infelizmente não tão forte quanto gostaria.
    Ele diz que eu sou lindo, a voz amigável recordou dentro de si. Ele também era lindo, Toni pensou. O amava muito, e era amado de volta, sabia. Mas sabia também que a voz da razão tinha muito mais a dizer. Sim, diz que você é lindo. E também que você é louco, que deveria ser internado, que não passa de um doente, paranoico e que nunca dará certo com ele. As palavras afogavam em lama todo o sentimento bom que estava lá há tão poucos momentos.
    Naquela hora já teriam percebido que ele não estaria na cama? Não, claro. Era madrugada e mesmo que alguém acordasse, quem sequer iria se importar de checar se estaria bem? Era muito mais provável que seus próprios pais o empurrassem daquela ponte. Não, eles te amam e querem sempre o seu bem, NÃO! Eles não te amam, não vê como eles debocham? Não ouve o que eles dizem quando acham que está dormindo? Eles sabem que você vai morrer. Eles querem que aconteça.
    Antonio se divertiu por um momento imaginando qual a reação quando, pela manhã, encontrassem a cama vazia e um bilhete de despedida sobre o travesseiro. Logo o sorriso desapareceu do seu rosto quando percebeu o que fizera. Me tomarão como um covarde, como um bobo e idiota! As lágrimas já tinham partido, mas as sentiu voltar. Já tinha ido tão longe agora...
    Poderia voltar a andar para casa, esconderia as mãos feridas nos bolsos pela manhã ou inventaria alguma mentira convincente. Rasgaria o bilhete em mil pedaços e ninguém jamais saberia até onde ousou tentar.
    Mas e aí? Sentaria na mesa com as pessoas que o repudiavam, iria para o trabalho onde todos o achavam um incompetente... Trabalho... Que trabalho? Uma outra voz sussurrou. Estaria ficando louco? Estaria finalmente inventando coisas como todos falavam que fazia?
    Não, não estava louco. Faria todos se arrependerem. Naquela manhã, quando encontrassem seu corpo na margem do rio, todos finalmente sentiriam algum remorso... Mas que corpo?
    O rio era rápido e violento, se chegassem a encontrar algum corpo levaria dias e ele estaria irreconhecível, e ainda que encontrassem seu corpo... Todos me chamariam de coitado por dois minutos e seguiriam suas vidas miseráveis.
    Mas sua vida também era miserável, sua família o odiava, não tinha amigos e seu namorado... Não há nenhum namorado, pensou, e por um breve instante sentiu-se... Destruído. Não tinha mais ninguém. Qual era o propósito de se viver assim? Nunca teria filhos, por que diabos tinha de ter nascido daquela forma? Quebrado, defeituoso, estúpido... Que tragédia era a sua vida afinal?
    A única cura para a vida é a morte, a voz lhe disse.
    Calçou os sapatos e subiu novamente no parapeito. Não deixaria seus sapatos para trás, não deixaria nada. Só uma vida inteira, sonhos, planos... Que planos? Ser um incomodo até finalmente morrer de velhice? Estava frio, escuro, e sua mente parecia um nós de gritos, choros e sussurros. As vozes tinham intensificado ultimamente, e nada mais era capaz de silencia-las.
    Tinha de ser agora. Em pouco tempo o sol retornaria, e com ele toda a sua desgraçada rotina. Sabia que enfrentaria todos novamente e sabia que seria derrotado como era todos os dias, como sempre foi. Estranho! Incompetente! Inútil! Não vê mulher? Ele tem um rosto triste. Ele é um adulto e vive chorando pelos cantos, ele vai acabar cortando os pulsos uma tarde dessas. Era agora. Sentia muito decepcionar seu pai, mas não era muito um fã de lâminas. Nem de pontes.
    Respirou fundo. Era capaz de ouvir o próprio coração agora. Tentou mais uma vez imaginar um futuro em que viveria e seria feliz. Teria uma casa em outra cidade. Talvez até outro estado. Uma grande casa, na beira do mar. Ou um apartamento, bem alto, bem longe de tudo.
    Viveria com ele, com o amor da sua vida. Teria filhos, cachorros, antidepressivos no armário e facas guardadas a sete chaves... O que? Não há felicidade para você seu idiota! Sua própria voz suplicava num apelo justo. Não entende? Nunca vai ter felicidade pra você. Faz um favor pra você. Pra ele. MORRE!
    O parapeito parecia querer expulsar seus pés. Ou suas pernas é que tremiam, não sabia dizer agora. Mordeu o lábio inferior até sentir o gosto de sangue. A dor física afastava a psicológica por alguns momentos. Seria o bastante. Thomas ainda me quer, eu sei disso. Ele me ama... Mas não amava. Não depois de tudo, não depois de tanto. Ele nunca terminaria, mas por pena de mim, o Toni maluco, e por medo que eu morra. Eu tenho que me deixar ir. Por ele, por todo mundo. Que falta eu farei no mundo?
    Haveria o outro lado? Encontraria todos os que já se foram com um olhar julgador lhe esperando? Eles não têm direito de me julgar. Eu sei o que eu passei. Eu senti o inferno da vida. Eu nasci no inferno da vida. Mas isso nunca impediu ninguém de lhe julgar. Não deixaria o receio lhe impedir agora. Essa era a mudança que precisava fazer. Era o rumo que precisava tomar.
    Na última decisão da sua vida, Antonio Prata deu um passo a frente. A ponte subiu atrás de si, indo encontrar o céu, enquanto seu corpo ia na direção contrária. Teria sido seis segundos ou seis séculos?
    O coração saltou em urgência. Sentiu em uma fração de segundo todos os beijos de seu amado, os sorrisos de seus colegas, e os ‘’bom dia’’ que recebia todas as manhãs, tão confortantes quanto um abraço... Ouviu suas brigas, suas brigas, SUAS! Era ele o tempo todo, era eu o causador... Discussões vindas do nada e por nada!
    Lembrou de como todos o olharam quando jogou aquela cadeira pela janela do escritório bem na frente do seu chefe... Eles estavam rindo de mim, estavam zombando, NÃO, NÃO ESTAVAM! E tantas discussões, e tantas lágrimas e tanta paranoia...
    Todos estavam contra mim, imaginou, não, não estavam. Todos queriam ajudar. Nem recordava o motivo pelo qual estava ali, naquela ponte fria, sobre aquele rio frio. Seria possível que fosse mesmo um quebrado? Estaria bem mais quebrado em breve, quando sua eterna queda chegasse ao fim.
    Viu sua mãe chorar sobre o seu caixão e se perguntar o que havia feito de errado... Por que mesmo na morte precisava estragar tudo? Quis voltar quando sentiu em si a dor da mulher que há vinte anos tinha lhe dado à luz. Mas não havia volta. Nem mesmo mandou uma mensagem a seu namorado... Eu te amo Thomas, as lágrimas nem teriam tempo de sair desta vez.
    As águas negras subiram tão depressa... E o engoliu de uma única vez quando as sentiu envolver a pele, tão geladas... Tentou gritar, mas o ar escapou todo de uma vez e se debateu, chutando, esperneando, esmurrando... em vão.
    Não enxergava nem ouvia nada. Jamais receberia ajuda agora. Foi arrastado rio abaixo, tentando se agarrar em qualquer coisa, mas as mãos só encontravam água. Por um instante conseguiu ver o que pareciam ser as luzes da cidade, algo turvo a distância. Os malditos óculos, deixei na maldita ponte. O alívio nem teve tempo de surgir em si, pois logo depois tornou a submergir.
    Não queria morrer, só queria ajuda, só queria... conserto, a voz completou, tarde demais. Pensou na casa e nos filhotes que nunca teria, nos beijos do seu homem que agora seriam de outro. Meu Thom, meu amor, te amo, te amo, vamos casar e adotar filhos e... E eles irão visitar meu túmulo um dia, ao lado do novo pai? Vai contar a eles que eu pulei da ponte Thomas? Os filhos que deveriam ter sido meus! E os beijos, e a casa, e o futuro! O meu futuro!
    Seria assim que partiria, desesperado, lutando pela vida? Será que saberiam o quão assustado ele estava? Achariam que ele esteve determinado e corajoso até o fim? Isso não é nenhuma coragem, eu deveria... Deveria... Viver.
    Viver. A palavra ecoou dentro e fora do seu corpo. O próprio rio a gritava, viver! Viver! Eu quero viver!
    Os pensamentos se tornaram borrões e os borrões viraram nada, quando a vida lhe deixou o corpo. Um pescador lhe encontrou pálido e inchado três dias depois, a quinze quilômetros da cidade, na margem do Rio Topázio.
    Os olhos ainda estavam abertos, olhando para o nada, e parte dos lábios e uma orelha haviam sido devorados por algum bicho, mas o rosto ainda era... triste.
  • A Ressurreição

    Uma Luz se acendeu
    Quando o menino Jesus nasceu, transformou água em vinho, multiplicou sete pães, Andou sobre as águas Curou enfermos, surdos, Cegos e paralíticos, purificou os leprosos,ressuscitou Lázaro,realizou vários outros milagres.
    Mesmo assim,
    Muitos em ti não acreditavam...
    Por Judas foi traído,e por Pedro três vezes negado.No deserto pelo o inimigo foi tentado Jesus foi crucificado,Seu sangue foi derramado,
    Para salvar os pecadores
    Que de seus milagres muitos duvidaram,
    Deus deu seu único filho
    Para salvar toda humanidade
    Viu na cruz sendo pregado
    Com o coração triste,
    A cada segundo nosso senhor sofria calado.
    mas, para a alegria dos fieis
    Ao terceiro dia, Jesus ressuscitou.
    Com amor e nenhuma magoa a todos Jesus perdoou
    Com sua bondade de braços abertos
    A todo Jesus ampara,
    Mas fecha os olhos para não vê os nossos pecados,
    Sem nenhum arrependimento Jesus esquece todo o nosso passado. Que nesta Páscoa nos lembremos dos ensinamentos de Jesus: PAZ, AMOR, HUMILDADE e RESPEITO AO PRÓXIMO.
    Que o amor de Deus possa chegar a todos os corações, amando uns aos outros como Jesus nos ensinou.
  • A sua paz é a maior vingança. Acima de tudo não viver sem esperança

    A maquiagem, as margens de favelas apodrecidas, pelas mentes capitalistas pra gringo não enxergar, o que não querem mostrar, a realidade estampada. Que nos faz envergonhar, pensar até a cabeça girar enxergar a verdade, e não se revoltar é como ver a luz e não seguir. Não me de ouvidos aconselho não me seguir ouço e vejo coisas que não posso dissernir é tudo questão de tempo, a vida tem suas mudanças agrego o que me convem em todas minhas andanças tem vez que o barco balança mas coloco na balança tenho mais que agradecer e nao viver sem esperança
  • A tríade do mau em si

    Decidiu ir muito mais além do que se possa imaginar em sua estadia no plano físico-orgânico e tridimensional. Resolveu descortinar-se, despindo do manto de ignorância da sua própria persona programada, alienada e fragmentada. Parou de culpar o mundo… as pessoas… as coisas… tudo! Vira a culpa em si mesmo, e se vendo em sua dramática lastima percebeu-se sabotador de si mesmo, porquanto, ainda não se conhecia.

    A medida em que se observava, vira a tríade mental do seu ser mundano e civilizado psicológico: o EU INTELECTUAL; o EU EMOCIONAL; o EU SEXUAL. E se viu em uma sala completamente espelhada, em que cada ‘EU’ do triângulo de si, se multiplicava infinitamente no amago de sua personalidade inconstante e provisória.

    Ao se perceber equacionado em si mesmo… expressadamente contido entre parênteses, colchetes e chaves. Multiplicado e dividido meditou em manter a ordem dos fragmentos opostos, para por último se resolver em fatores de subtrações e adições, em toda complexidade de somatórias minimalísticas, entre efêmeras igualdades e variadas situações dos seus multifacetados ‘eus’ aplicativos do mau em si.

    Muito além de sua complexidade mental psicológica… degenerativas de todos os orgânicos e inorgânicos sentidos do corpo-mente… em que o ‘EU INTELECTUAL’ se aplica, elaborando seus conceitos e preconceitos a partir das múltiplas percepções externas e internas que adultera a Arte Sagrada, a Filosofia Primordial e a Santa Religião… o que já era pesado demais para resolver… tinha ainda que lidar com o automatismo instintivo do seu corpo físico-orgânico, pelo qual confeccionara o ‘EU SEXUAL’. Porém, mais ainda perigoso e desastroso, entre outros e esses fatores… era lidar com o insaciável e temido ‘EU EMOCIONAL’, a cabeça do meio do Dragão-de-Três-Cabeças, em que os outros dois ‘eus’ eram-lhes subservientes.

    Fora impactado pela tríade do ‘EU’ desde o nascimento, o que adoecia o corpo-mente, levando a uma total inconsciência ignorante de si, do outro e ao redor na cadeia ponto-espaço-tempo. Passara por longos e agoniantes momentos de transformações decadentes, ao receber do mundo exterior falsas imagens e impressões da realidade descendente em infra-normalidades, se afeiçoando as falsas qualidades antagônicas terrivelmente negativas do materialismo, baixo espiritualismo e vaidosas “verdades” sociais, econômicas e étnicas de si. E assim, decidira com afinco trabalhar na educação de sua forma infra-humana enfrentando o Dragão-de-Três-Cabeças, o Macho Alfa de suas bestialidades, brutalidades, temores, vaidades, traumas, vícios, costumes, psicoses e luxurias… a parte do partido egocêntrico, humanoide-animalesco em que adormece e entorpece a Sagrada Consciência Divina em sua gnose.

    Assim, almejava o retorno a sua Pureza Original, ao se render as espadas flamejantes das sentinelas-querubins que guardavam o caminho de acesso à Árvore da Vida.

    Aprofundando-se mais e mais em si mesmo, silenciou-se em sua retorta, destilou-se no Alkahest (solvente universal) de sua vontade, para ser posto em uma das câmeras do At-tannur (forno alquímico) de sua consciência, almejando ser purificado dos constituintes de seus ‘eus’ em sua solitária espargia espiritual.

    Os muitos questionamentos… as muitas perguntas… o excesso de gesticulações… as queixas e tagarelices de si, e as reclamações do mundo externo… o que não era ou estava bom em sua vivência… a falta de atenção e elogios alheios não mais o perturbavam em sua busca meditativa, em íntima contemplação.

    Apenas deixou-se ser arrastado pelo Rio (o Criativo), guiado em inércia e não-ação para o Mar (o Receptivo).

    Assim!

    O Amante, em Amor, uniu-se ao Amado…

    O Masculino penetrou o Feminino…

    O Homem conheceu a Mulher…

    O Pai gerou o Filho na Mãe…

    O Céu cobriu a Terra…

    O Sol em sua potência iluminou a Lua…

    O Criador, na Criação, manifestou-se em Criatura…

    E o Fogo Sagrado derreteu o tenebroso gelo nos empedrados corações.
  • A união do complexo medo atraente

    Penetrara no karma atual da moderna sociedade virtual em que nasceu, cresceu e ainda vive, mergulhado numa atmosfera de medos e complexos que lhe foi imposto por uma sociedade de valores hipócritas e sentimentos ilusórios. Essa triste “realidade” que até então vivenciava, teve sua extrema abrangência com o poder que lhe foi outorgado através da internet e seus recursos digitais. Passara em muito pouco tempo de um simples telespectador para um aspirante astro internauta autodidata.

    Através da internet e suas redes sociais, como um cyberpunk moderno, percebeu que a espada encantada cravada na grande pedra, não pertencia somente ao lendário e valente Rei Arthur e seus cavaleiros da távola-redonda, como era antes o caso monopolista da grande mídia. Agora sabia que também ele obtivera o direito de possuir sua própria espada mágica, e, foi encantado e possuído por ela.

    No início não podia prever as consequências de tal poder. Tudo era maravilhosamente maravilhoso. Estava perplexo diante dos inúmeros portais mágicos que lhe fora aberto por esses dispositivos radiativamente encantados, onde tudo começou com o poder telepático de enviar e receber nossos pensamentos, desejos e sentimentos nos virtualizando em palavras, falas e imagens. Abrangendo nossas perspectivas limitadas, além dos nossos vínculos sociais mais próximos, alcançando o desconhecido em milésimos de segundos, entre os milhares quilômetros de distâncias. Até o Mago Merlim se aqui entre nós, nesse momento, estivesse, ficaria impressionado com tamanho poder e proeza outorgado a todos.

    Porém, a espada de Arthur continha dois gumes e cortava dos dois lados.

    Percebeu-se ainda, que, não tarde, o poder que lhe foi ofertado pelos deuses tecnológicos exigia de nós sabedoria para possuí-lo. Essa poderosa espada mágica Kaledvouc’h como se outrora pensava, estava inacessível ao grande público há tanto tempo, encrustada na grande pedra, pelo nobre motivo daquele a quem seria o seu possuidor, ter que passar por ensinamentos de vida rigorosos, pelo qual o seu espírito e o seu coração fossem meticulosamente testados. Só assim, teriam a primazia de obter a força dos deuses para puxar a espada da grande pedra. Essa sagrada espada é raramente denominada “Excalibur”, e é retirada por Arthur como símbolo milagroso de sua Nobreza e direito ao trono da Bretanha.

    Entretanto, agora se questionara: Será que todos possui esse direito e nobreza do Rei Arthur?

    Fomos preparados e disciplinados para empunhar tamanho poder?

    Virtualmente, se deparou com os muitos casos de jovens que por uma simples brincadeira nas redes sociais, acabaram causando dor e destruição a si mesmos e aos outros. Como foi o caso da menina russa de 17 anos que morava nos Estados Unidos, que filmou um ato de estrupo em um aplicativo de postagens de vídeos, com duração de nove minutos, só para obter likes. Intentara que naquele momento durante a filmagem, a jovem poderia usar o seu dispositivo para pedir ajuda ligando para polícia, ou um adulto responsável, também notara, que as pessoas que estavam assistindo o vídeo online, em vez de dar likes, poderiam aconselhá-la para impedir aquele ato brutal. Que alcançou milhares de visualizações.

    Daí, meditara, que o poder sem a responsabilidade é cegamente egoísta e brutal.

    Entretanto, dualisticamente, não esquecia ele, que Excalibur é uma espada pontuda afiada de dois gumes que corta, penetra e dilacera. Podendo afastar as pessoas, ou uni-las. Mas, nesse bidimensional mundo de algoritmos binários computacional e ilusório, afirmava ele somente conhecer causas e efeitos mecânicos, e nunca as Sagradas Leis Naturais em si mesmas. Por isso, que ao unir as pessoas, afastava a solidariedade entre elas, em que camuflado e protegido em sua privacidade, por detrás das telas negras caleidoscópicas brilhantes, o indivíduo se julgava ir além do respeito e dos sentimentos fraternos, soltando sua naja língua pensante, em seus rápidos dígitos dedos, envenenada nos seus mais mesquinhos sentimentos obscuros de inveja, cacoetes, ego e porcas maldades. Que no mundo fenomenal das aparências, só percebia bidimensionalmente ângulos e superfícies, e nunca o integral das coisas.

    Obviamente, ele sabia que a dialética da consciência da proximidade física dos corpos pensantes, que tudo entende por intuição, através das palavras audíveis, figuras simbólicas, gestos, movimentos, olhares e expressões voluntárias e involuntárias fora cruelmente ofuscada pela dialética racional do intelecto presente nas redes sócias, fóruns e plataformas proprietárias de mensagens instantâneas baseadas em nuvem, que nada tem de essência natural humana, e sim, apenas o ilusórico poder formulativo de ideias e conceitos lógicos preconcebidos, que por mais brilhante que seja, e por mais que se julgue de qualidade e de utilidade nos inúmeros aspectos da vida prática e cotidiana, nada tem de valor para existência e ecologia humana, resultando apenas em obstáculos subjetivos, incoerentes, torpes e pesados para nossa simbiose como seres fraternais coletivos, e que nada tem de verdade.

    No fim, diante da verdade, percebeu-se sendo o pobre poderoso, precisando de alento (likes, em legais polegares opositores), precisando de algo que o anime (coraçãozinhos vermelhos, e rostos redondos sorridentes amarelados), sentiu-se com o ego demasiadamente forte e personalidade terrivelmente débil, por sua própria mesquinha natureza apodrecida em si mesmo, encontrando-se numa situação completamente desastrosa, e sem vantagens, em que o sono lhe foi roubado, a ansiedade descontrolava as batidas do seu coração, e a vaidade tomara o controle de sua alma, tendo a depressão como amante e companheira.

    E no seu estado deprimente, porém, contemplativo, sabia ele que nos primórdios da nossa existência como uma das muitas espécies que habita esse ecossistema terráqueo, éramos simplesmente um ser coabitando e interagindo com os outros inúmeros seres aqui existentes. Não víamos a natureza como esse belo quadro pintado a óleo ou aquarela, ou como as ‘pixeladas’ imagens digitais no fundo dos nossos desktops eletrônicos e dispositivos móveis. Não ansiávamos pela chegada do tempo limitado do fim de semana para passear com a família nos bosques e pradarias, e nem tão pouco esperávamos a chegada das férias para curtir os muitos lugares paradisíacos, ou nos aventurar em trilhas, escaladas e caminhadas nos ditos ambientes naturais e ecológicos. Essa coisa alheia que hoje denominamos “NATUREZA” era intimamente o único e o primeiro mundo vital e cultural que existíamos. Nossos antepassados não só viviam em contato íntimo com as outras criaturas vegetais, animais e inanimadas, como se comunicavam diretamente com os seus espíritos e coração. Daí que surgem as fabulosas histórias e contos de fadas, gnomos, duendes, devas, ninfas, curupiras, orixás, anjos, caboclos, entre outras inúmeras manifestações do que hoje classificamos como “espíritos inorgânicos da natureza” em diversas culturas humanas espalhadas pelo mundo.

    Por isso, ficou muito difícil para o seu entendimento humano separar a sua espiritualidade, cura e boa qualidade de vida da Mãe Natureza. E, entendeu o porquê dos diversos movimentos esotéricos, xamanísticos, taoístas, hinduístas, budistas, cabalistas, sufistas, gnósticos, wicca, candomblé, entre outros da busca da espiritualidade, como também os movimentos de cura, saúde mental, e medicina ancestral e alternativa se situarem em ambientes naturais abertos e ecológicos.

    Nisso, percebeu que ao longo do nosso rigoroso processo civilizatório, em que gradualmente nos separamos do nosso natural habitar, que o SAGRADO em nós foi naturalmente esquecido. Deixamos de ouvir as MENSAGENS DOS VENTOS, paramos de falar a LÍNGUA DAS ÁRVORES E MONTANHAS, abandonamos o afeto de SENTIR COM O CORAÇÃO, e os nossos olhos se cegaram para o MUNDO INVISÍVEL. E, para piorar mais ainda a sua situação, vira que como espécie se transformara no pior predador que já existiu em todos os tempos, ‘Satânico Aniquilador’ das muitas culturas existenciais em todos os aspectos da natureza, e, dele mesmo.

    Meditara ainda mais profundamente de que como espécie, nos tornamos existências humanas desencantadas, prisioneiras de nós mesmos em frente a uma tela Touch Screen de valores, e, de falsas concepções virtuais, mendigando uma irreal atenção em salva de palmas, likes e emotions de coraçãozinhos vermelhos, rostos redondos amarelados (caras de bolachas) e legais polegares opositores. Vira que as proximidades humanas se basearam em distantes conexões WI-FI, em que ignoramos cruelmente os nossos presentes íntimos entes queridos a nossa volta, em ser um direto participante na criação do Aqui e Agora, para nos tornar um observador e um observado distante do passado alienado dos desejos, anseios, críticas e felicidades do desconhecido “amigo” internauta. Preferimos viver solitários com políticas de privacidade essa virtual ruptura do contato natural, nos separando plenamente do sentido existencial da vivência humana, e minimizando a nossa consciência social, afetiva e emocional ao estado simplista do observador e do observado, e de que a tecnologia não promove e nunca promoverá, assim, como, as propostas da comunidade científica, uma fusão harmoniosa com a existência humana e a natureza. Sua meta desde a revolução industrial é unicamente modificar. Acreditando melhorar, otimizar, maximizar, implantar, oportunizar e assegurar um conceito evolucionário de humanidade ciberneticamente supranatural, onde poderíamos viver sem depender dos recursos naturais e afetos sociais para nossa existência. Para assim, em vez de (como eles acreditam) subsistirmos, ‘sobre-existirmos’ na lua, em Marte, ou em uma cosmológica galáxia distante como prega e aliena a NASA e Hollywood.

    Sentira que perdera a simplicidade da vida e o seu primeiro amor, e se tornara um ser imediatista, arrogante, conformista, impaciente, tempestuoso, depressivo e penoso. Ignorava suas crianças, e assim, fazia com que elas o ignorassem, transformando-as no subproduto mesquinho dele mesmo. Nisso, vira que ignoramos os nossos semelhantes como nunca antes já vivenciado no mundo, em todos os tempos de nossa comunal existência, ofertando para os nossos irmãos e irmãs o que tem de pior em nós mesmos. E, dessa forma e maneira, acumulamos dores e sofrimentos para o nosso último sopro de vida, e assim, morremos existencialmente porque matamos nossa essência dentro dos nossos filhos e filhas, chegando a tal ponto de não mais nos perpetuarmos nos novos corpos.

    Percebera que a verdadeira expressão para o mundo tecnológico de hoje é ABSOLUTA TRISTEZA. E isso dói na alma… adoecemos! E o pior é de que não sabemos que estamos existindo enfermos. Acumulamos muitos bens do Aqui e pouca coisa do Agora, e a Magia da Alegria abandonou a Morada do Coração, e o Sagrado Entendimento que em tudo dança se ocultou. Então, eis a questão e desafio existencial da nossa cultura humana: ATÉ QUANDO FICAREMOS CALADOS E INERTES, TRANSMITINDO PARA AS GERAÇÕES FUTURAS ESSA GRANDE DEPRESSÃO EXISTENCIAL, PELO QUAL NOS CONVERTEMOS NO TIRANO PROBLEMÁTICO DESTRUIDOR DA BELEZA DE TODAS AS COISAS? Entretanto, quem se movimentará e falará com loucura e paixão para o despertar da grande massa? Quem será esse novo Meshiach e Avatar? Mas, enquanto ELE ou ELA não chegar ficaremos inertes, atrofiando nossa mente e coração nas telas e internet? Imbuído nessas íntimas e totalitárias questões, analisara que os desafios para o retorno do SAGRADO em nossas vidas são tremendamente numerosos.

    E, contemplando todo aquele panorama, se viu com sua poderosa espada na palma de sua mão, a mágica Kaledvouc’h, o espelho negro. E como um pedaço de madeira arrastado pelo rio, tentando resolver as coisas por sua própria conta, reagindo ante qualquer dura palavra, qualquer problema e qualquer dificuldade, lamentavelmente, o medo empoderou o seu ser, fabricando nos cinco cilindros da máquina orgânica, em que lhe compunha e que o seu SER habitara, os inumeráveis multifacetados eus-demônios, aplicativos escravos de si mesmo.

  • A velha senhora

    Com ternura e beleza,
    A velha senhora aguarda seus netos,
    Enquanto coloca o jantar sobre a mesa
    Não, não é uma senhora qualquer
    Pois um dia, já foi uma grande mulher

    Aliás, essa grandeza ainda perdura na atualidade
    Que grande mal julgá-la apenas pela idade
    Ser humano que sofreu com a vida na cidade
    Aquele mundo novo, cheio de novidade

    Oriunda do Nordeste,
    Desceu a Bahia
    Para chegar ao Sudeste

    Dentro de um ônibus, mais de três dias de viagem
    Observando a transformação da paisagem,
    Paisagem que aos poucos virava miragem:
    Nesta, enxergava uma vida bem sucedida,
    Estava em São Paulo, terra da garoa prometida
    Havia fartura e muito dinheiro
    O clima era totalmente hospedeiro

    Quando na terra da garoa chegou,
    Não foi exatamente isso que encontrou
    Uma lágrima cai ao lembrar o tanto que lutou
    Com uma profissão teria que de se ocupar
    E investiu o pouco que tinha num pequeno tear

    Começou uma pequena produção de tapete
    Costurava dia e noite, filete a filete
    O suor do trabalho lhe dava asa,
    Assim pôde comprar sua humilde casa

    Foi lá que criou os seus seis filhos,
    Venceu a vida, apesar dos empecilhos
    Agora alegra-se em saber
    Que querer é sempre poder!
  • A vida de uma Pimenta

    Comer a mais no café se tornou rotina. É uma maneira de evitar o contato prolongado com quem eu mais amava: meu pai.
      Depois do meu pedido de ajuda, a vida se virou de ponta cabeça. Depois do meu suicídio mal sucedido, minha cabeça começou a trabalhar num escritório e ter que ler vários artigos por dia.
      Bom, vamos ao ponto. A verdade é que sou depressiva bipolar e fóbica social. Mas a vida não tão difícil quanto pode ter passado em sua mente. Sou bem aberta à recepcionar pessoas e ouví-las. Só entro em pânico quando tenho que ir ao shopping. A vida só ficou complicada mesmo quando meus pais decidiram que eu não podia mais ficar sozinha. Isso mesmo. 24 horas por dia, vigiada. Além disso, comecei a ter o senso de que meu pai estava se aproveitando de nós, minhas irmãs e eu, para fazer tudo na casa, enquanto ele se sentava ao sofá. Sabe aquela VELHA história de que o homem trabalha fora de casa e a mulher dentro? Pois é, acontece aqui. E foi assim que as brigas começaram; que a distância se tornou refúgio e que eu comecei a perder o senso.
      Quero contar essa história do início. Mas é uma LON______GA história. Então, se você quiser/puder ficar, conto tudo direitinho....

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222