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  • Os 8 Vértices da Minha Tristeza - 3. Ansiedade

    Deitado, olhando para o teto escuro desse quarto cavernoso, pereço sobre a minha cama, sobre meu velho colchão que mostra os sinais de sua velhice abrindo uma fenda em seu meio, como uma espécie de revolta, de um pedido de descanso, de aposentadoria, mas o que ela realmente tem são meus ossos doloridos, minha carne podre repousando sobre suas fibras, sobre seus ácaros o dia todo, esperando que ele os livre de suas mazelas, mesmo sabendo que é em vão. A escuridão é uma amiga, o cheiro de mofo é a certeza de que tudo continua igual, as cicatrizes em meu corpo são a certeza de que o passado sempre estará em mim, marcado em mim, para sempre me lembrar do meu passado, de quem eu sou, de tudo que fiz. As lembranças percorrem cada centímetro dos meus pensamentos, cada neurônio, cada sinapse, como uma sanção eterna de constrangimento para que eu nunca esqueça e nunca evolua, que sempre seja refém da minha própria incapacidade, das minhas próprias fraquezas.
    A luz entra pelas frestas e se arrasta pelo chão tentando encontrar minha pele, caminha pelas paredes derretendo tudo que encontra, destruindo sonhos, destruindo ilusões e mentiras, quando o Sol me lembra que eu ainda existo e que a vida lá fora passa sem demora, me lembra de que sou uma partícula perdida, sou um ser fracassado, que perdeu tudo, até a dignidade que perde seus dias afundado na indignidade, nas risadas momentâneas do humor sujo, nos prazeres tolos das necessidades fúteis da minha condição humana, a vida passa sem demora do lado de fora e os monstros do meu mundo o devoram sem piedade, sem qualquer remorso, como traças famintas, lagartas desesperadas para se tornarem borboletas e poderem voar, ansiosas para deixar esse mundo cinza, cromado, salinizado, sem vida, um mundo raso e rarefeito que agoniza e que não suporta o cheiro de sua própria podridão. Elas querem ir, e eu quero que vá, seja feliz onde quer seja, não quero ninguém preso a minha sentença, preso a esse mundo morto, agonizante.
    A agonia se dá nos pequenos momentos, em cada fresta da realidade distorcida desse quarto escuro, a agonia é silenciosa e ao mesmo tempo barulhenta, gritante, é passiva e ao mesmo tempo lancinante, é o pensamento, são as lembranças, a simples noção do que ocorre lá fora, a simples ciência do meu lugar no mundo, de tudo de perdi, de quem eu sou, mesmo me abrigando aqui dentro, suando entre os cobertores pesados, não posso ignorar o que ocorre sob o Sol escaldante, tudo que ele queima, tudo que destrói, da realidade a lembranças e a memória do que um dia fui. A simples noção causa uma sensação estranha, uma necessidade de sair, de tentar mais uma vez, de não me render, mas como vou sair do escuro que já me consumiu e me envolveu, como vou lidar com a luz, com os olhares, os monstros, os toques, as obrigações, mas como posso simplesmente me render, não posso me render, não posso, não posso, não posso, não posso! E com lágrimas nos olhos me envolvo nos cobertores como se eles me dessem alguma força, mas como areia movediça eles me afundam em seu aconchego, em sua ternura, na sua calma e aqui continuo.
    Afogado, com os olhos e pulmões cheios de areia, lembro-me do passado e dessa mesma sensação, dessa sensação de desespero, a necessidade de agir na adversidade, a necessidade de lidar com aquela dor, com aquele aperto, com o medo que o gerava e a incapacidade que ela gerava e quanto mais lutava mais apertava, quanto mais lembrava mais apertava, quanto mais tentava mais apertada. Entre lágrimas e andanças desesperadas e dispneicas contando os azulejos e as janelas eu tentava estudar para a prova na manhã seguinte, o que pensariam de mim se fosse mal, o que seria de mim se falhasse, era só o que passava entre os meus passos apreçados, as letras se embaralhavam e a tristeza, a descrença se impunham como sempre fizeram e tiravam a esperança para me humilhar mais. As paredes pareciam cada vez mais próximas, mais opressoras, o ar faltava e aquele cubículo era impossível, precisava sair dali e o ar da varanda entrava pelas minhas narinas como água do mar, rasgando, queimando, me afogando, profundamente tentava encontrar o oxigênio, mas só agua chegava até mim e como um peixe desesperado, me debatia, implorava por ar, mas quanto mais tentava, mais longe estava e de repente, um lufada de ar chega até mim e sei que a superfície havia chegado e me deixo levar pelo instinto, respiro louca e desesperadamente, enchendo os pulmões de ar, pulmões que queimavam, ardiam e a quando o oxigênio chega ao cérebro, soa como uma droga, que me tonteia, me desestabiliza e só quero mais daquilo.
    Logo ali, recuperado, a vida volta aos meus braços e o corpo agora lotado de oxigênio volta a operar normalmente e uma dor infernal atinge minhas costas. Nunca entendi essa dor, uma dor terrível em ambos os lados do meu dorso, como se alguém apertasse com força e logo ficar em pé não é mais possível e quanto mais dói ficar sentado deixa de ser possível e deitado, respirando fundo e me concentrando em outra coisa a dor passa aos poucos e logo, como se nunca tivesse existido, ela se vai e olhando para o teto ouço quase como uma voz, a pagina dos livros se mexendo ao vento, me lembrando das minhas obrigações, do que devo fazer e o ciclo recomeça mais uma tentativa, mais um fracasso, mais uma crise e assim até o momento em que a obrigação cessa e posso aproveitar me paz os benefícios da mediocridade.
    Aqui, do outro lado da ponte, do outro lado do ato, na consequência, olhando para o passado, tenho dificuldade em aceitar  que esse é o futuro, onde as mesmas coisas ocorrem, em contextos diferentes, o ar falta nessa caverna, o que ainda existe entra em chamas pelas narinas e entendo, olhando pelas frestas, que o primeiro passo para retomar o controle da minha vida é saindo daqui, é enfrentando os monstros e silenciando as vozes doces dos cobertores, o único jeito de retornar a vida, é abrindo essa porta e deixando o ar entrar, mas como? Como posso me levantar, me livrar das amarras, do calor desse lugar, onde nada acontece, onde a vida não precisa ser vivida, onde tudo é simples, como a vida de um bebê, que nada entende, que nada precisa saber, sair desse lugar é como sair do útero, traumático mas preciso é como nascer de novo. A caminho da porta, que não é longe, mas que parece infinitamente distante, as lembranças vem a tona e as memórias, as vergonhas, a tristeza, as cicatrizes gritam em meus ouvidos, todos os constrangimentos, todas as vezes que pedi a morte, tornam a maçaneta distante, pesada, escorregadia e como um sussurro doce, os lençóis me chamam de volta, a vida não precisa ser assim, pode ser um sonho, posso simplesmente esperar a morte, enquanto sonho com a mentira e me deleito dela. Algo, lá no fundo, o que talvez Freud chamaria de pulsão de vida, me impede de me entregar por completo, me impede de simplesmente desistir e o problema se encontra nesse ponto, no choque, no confronto, na indecisão. O que escolher? A doçura fácil dos lençóis ou a rispidez dos monstros da realidade? O que eu quero para mim?
    Como uma lembrança viva, posso sentir o oxigênio fugir, posso sentir meus pulmões gritarem, reclamarem de dor, implorarem por mais, implorarem pela vida, o peito pesa e tudo se distorce, logo sento no chão, deito na cerâmica gelada que esgarça na minha cara, meus privilégios, que faz questão de me empurrar para aquela dor surreal, preciso me concentrar, deixar o ar entrar e parar de pensar na decisão que estou prestes a tomar e por anos fiz isso, por anos procrastinei, esperei a hora certa e ela nunca chegou, por que sempre tenho que escolher e escolhas me levam ao chão, a dor, ao sofrimento, como um peixe fora d’agua me debato esperando o ar voltar ou a morte chegar. Aos poucos o ar chega e não preenche de ar somente meus pulmões, mas também minha cabeça, que se esquece do que estava prestes a fazer no que estava pensando.
    Esse é o cerne da questão, decisões, o que escolho, o sensato ou o que o que quero, o obvio ou o inconsequente, o que é obvio? o que é sensato? o que é inconsequente? Eu não sei nenhuma dessas respostas quando se trata da minha situação, mas no fim, eu quase sempre sigo aquela sensação, que coça lá no fundo, nas frestas mais profundas do meu ser, que se mexe e gera um incomodo que me lembra, quase instintivamente da minha condição e a única vez que não segui essa sensação, esse instinto, as minhas ações me trouxeram a esse estado deplorável, ao escuro, ao mofo e a falsa ternura dos lençóis, mesmo com dor, com dificuldade, eu me levanto e abro a porta e a luz entra pelos meus olhos, preenche os espaço, mata as frestas, os cantos, os monstros, mata as ternuras e as promessas e como um nascido, caminho de volta para vida, esperando de bom grado o que ela me reserva, ansioso pela próxima curva e preparado para a próxima decepção, pelas peças que a carrancuda vida adora pregar, pelas vinganças e as lições que adora dar.
  • Os 8 Vértices da Minha Tristeza - 4. Silêncio

    Após o declive e a curva, há um lugar, onde aprendi que o glucagon é o antagonista da insulina, que a adrenalina é antagonista da acetilcolina e desse lado do rio, nesse nova vida, sob o sol, cercado do abanar de rabos dos cães, olhando para o passado, entendo que o silêncio é o antagonista do carisma, um bloqueia o outro, um neutraliza o outro, até o ponto que um deles deixa de existir na prática. O carisma é como um bloco de pedra, que se prostra no meio da sala, sob o olhar de todos os presentes, curiosos, indiferentes ou ansiosos e aos poucos o silêncio que instala, age como marretas, batendo incessantemente naquele bloco, até que ele comece a se despedaçar, ate que os seus pedaços se espalhem por todos os cantos e aquele belo bloco, agradável bloco, torna-se algo tosco e desagradável, e alguns podem se retirar ou se tornarem indiferentes ou horrorizados com aquele pedaço de pedra deformado diante deles, mas de algo sei, aquela visão, jamais é esquecida, jamais é relativizada ou perdoada, por mais que com o tempo a tosquice dê lugar a arte por requinte do escultor ou pela mudança do público ou de seus pontos de vista, aquela visão e o desprezo por ela gerada nunca serão esquecidos, o que os meus contemporâneos chamam de primeira impressão.
    Tenho inúmeras deficiências e ultrapasso a linha tênue do normal, sou diferente, irremediável e inconvenientemente diferente, passo por situações que sei que outros não passam, por muitas vezes tive que ver esse bloco sendo destruído pelo meu silêncio, por inúmeras vezes vi o olhar de nojo, de desprezo dos outros enquanto admiravam aquilo, o som dos sapatos pisando nas pequenas pedras que se espalharam pelo chão assombram frequentemente meus pensamentos. Entendo o quanto isso me prejudica, mas ao mesmo tempo não sei o que fazer, não há nada que eu queira dizer, argumentar, não quero impressionar ninguém, não quero ninguém perto de mim, da minha realidade, do meu inferno, mas dói, as marretadas na pedra do carisma doem de maneira tão profunda em mim que as vezes penso que não vou suportar e minha cabeça baixa começa a pesar e os olhos começam a molhar, o resto escuro se cora de cores invisíveis e depois do trauma, preciso me refugiar, para digerir e aceitar o meu fracasso.
    O silêncio queima todas as pontes, destrói todas as oportunidades possíveis de sair da solidão que assola cada espaço do meu ser, por que este próprio não consegue suportar a ocupação dos seus espaços dessa maneira tão ameaçadora, em uma conversa com estranhos, aos olhos de todo o público, sem apoio, sem satélites, sem possibilidades e rotas de fuga. O silêncio no fim é uma consequência de distorções mais profundas que gera um ciclo de solidão e desprezo que gera mais traumas e mais silêncio, uma rede de retro alimentação que afunda ainda mais as possibilidades de sair dessa crise eterna, de sanar esse incômodo profundo que assola todos os aspectos da minha vida. Sendo como sou, sabendo das minhas limitações, entendo que não posso sucumbir a todas as minhas vontades, uma vez que, a maioria delas são prejudiciais a mim, então preciso entender que vez ou outra devo fazer coisas que não gosto para simplesmente existir, sobreviver nesse mundo, então vez ou outra, treino falas e conversas que posso ter com pessoas, treino assuntos e outras coisas para ter alguma possibilidade e não ser apenas um corpo presente nitidamente desconfortável esperando o tempo passar. Por mais que eu tente, sei que a coisa é mais profunda que isso, mas devo continuar tentando lidar com esse incômodo que as vezes parece vir do mesmo lugar, da mesma força que me fez sair do quarto, parece ser muita próxima da mesma que cria as condições para voltar para ele, para me afundar dentro dele e me deixar ser devorado.
    Agora do lado de fora, a conjuntura parece começar a pesar, as opiniões parecem incidir cada vez mais profundamente no meu conforto e tudo começa a ficar mais difícil e o mesmo silêncio que incomodava no passado, incomoda aqui, por outros motivos, são faces diferentes da mesma entidade. O silêncio desse lado da história é vazio, sem sentido e sem significado, é apenas silêncio, que incomoda de outra maneira, por outras vias e gera outras consequências, mas ainda sim é o silêncio. Curioso, o passado se torna cada vez mais distante e o futuro nem aparece no horizonte, estou preso no presente, na conjuntura atual, cercado dos valores atuais, sem qualquer noção do fim, se é que ele existe, sem noção do término, da rendição, sem saber o que esperar. Nesse presente, o silêncio serve como uma corda, para amarrar as estruturas quebradas e fazê-las continuar juntas, o silêncio aqui é a única possibilidade de união, da permanência da conjuntura e da paz da qual ela depende, o silêncio é um Deus e precisa ser respeitado, por que se ousar desafiá-lo, tudo rui e tudo se torna ainda mais sem sentido, mais vazio e agora cheio de culpa, o Deus silêncio é o único que consegue manter essa família unida, como deve ser, como sonham alguns e rechaçam outros, como querem os poderosos desse presente.
    Os grilos fazem companhia, o miado atrevido dos gatos, o latido assustado dos cachorros, preenche espaços profundos e irremediáveis por si só, na mesa só o som estridente dos talheres, os bebericar dos copos e o grunhido de prazer pela bela refeição que o Deus dessa terra provê, na madrugada, apenas os sons amedrontadores que no fim são apenas sons normais que são amplificados pelo silêncio, o Deus da Paz. O silêncio nesse Presente contempla tudo, risadas, choros, congratulações e simples cumprimentos, o silêncio é soberano sustentando pela arrogância e pela fraqueza daqueles que não suportam a ideia de que esse Deus deve ser desafiado, deposto e para o bem do que há, para o bem das estruturas, ele deve ser mantido, já que, além do Senhor da Paz ele esconde diferenças tão profundas e irreconciliáveis que sem ele, esse lugar seria um completo caos, ela precisa existir, para o bem de todos.
    Lá o silêncio destrói, aqui mantém, só queria conhecer um lugar em que o vazio do silêncio possa construir algo, que a inexistência pudesse ser um fator para a construção de algo novo e maravilhoso. Pura tolice, sei disso e procuro não nutrir tais ilusões, somente a ação é capaz de fazer, de construir, de mudar, de melhorar algo, sei que a passividade do silencio e a perversidade de sua divindade não trará nada de bom para mim e nem para o meu futuro nesse novo mundo que se revela, que parece quase eterno, mesmo não sendo, que parece um purgatório ateu, que sem qualquer moral ou dogma pune em nome do que não existe e mantem estruturas condenadas ao esquecimento.
  • Os 8 Vértices da Minha Tristeza - 5. Solidão

    Admirando o que me resta de vista, preso no mundo provinciano que me cerca, preso nas mesmas conversas, na mesmice rasa e previsível daqueles que me cercam, sedento por um pouco mais do simulacro de ternura do algodão dos lençóis, coisa que ninguém pode me oferecer e nem o querem tentar fazer. A vida continua sendo um fardo, mesmo que não seja vivida integralmente, os danos de vive-la são completos em mim e nada pode mudar isso, nem a banalidade do por do sol e nem a extraordinária chuva de folhas secas dos milharais que cercam a cidade e são levadas pelo vento para cobrir a rua daquelas folhas barulhentas e amarronzadas que flutuam pelo seus como uma dança exibida e despreocupada. Não há nada para conversar, não há nada que eu queira conversar, não há ninguém interessante, já que não há nada para conversar, logo não há ninguém. A solidão a qual me refiro é uma solidão diferente, não é a de caráter físico e nem emocional, pois estou cercado de gente olhando para mim como uma espécie de coitadinho que sobreviveu a própria fúria ingrata do seu ego ateu ou coisas do tipo, a solidão que enfrento é a solidão intelectual, a falta de ter alguém para conversar sobre algo além de relacionamentos platônicos e planos de enriquecimentos fúteis, sobre algo que realmente me interessem seja o que isso for.

    A tempos não vinha aqui, não ficava sentado na calçada admirando o sol refletido na calçada de concreto, enquanto os cachorros me cercam suplicantes de carinho, não sentava sobre o limoeiro que apenas oferece folhas secas ao chão para alguém limpar e não lidava com tanta ente igual por tanto tempo, não que as pessoas do outro mundo não sejam também bastante iguais e igualmente chatas, mas não precisei lidar com elas por tanto tempo. Passado um tempo da minha internação, as pessoas tem um pouco mais de coragem de me visitar e trazem consigo a sua mesmice, que me gera intensa monotonia, dos seus assuntos e dos seus preconceitos, das suas lições de moral e das suas bravatas que levam a minha paranoia a níveis preocupantemente elevados e sinceramente me dão saudade da ala psiquiátrica, pelo menos lá, tinha um pouco de paz e podia jogar xadrez e andar pela grama, aqui só me resta a banalidade mais fútil e mesquinha, que gera uma imenso rancor e vontade de que o suicídio não tivesse falhado.

    Sinto-me a Rose do Titanic, trancada em um navio no meio do oceano, cheio das mesmas pessoas cansativas e vazias de sempre, mas pelo menos ela tinha o Jack, eu não tenho ninguém. Sei que parte da minha solidão deriva da minha arrogância em pensar que ninguém é o suficiente para mim, mas a questão não reside apenas nisso, mas no fato de que somos tão diferente que o dialogo sincero entre as duas partes é impossível, não é superioridade, mas sim, um afastamento horizontal, somos diferentes mas não inferiores um ao outro. A solidão gera uma sensação de vazio e de cansaço em ter que lidar com pessoas tão diferentes e por vezes complicadas e é por esse cansaço que muitas vezes cultivo a própria solidão, mesmo sabendo o quanto isso me faz mal, mesmo sabendo que tenho necessidades, sinto falta de companhia, de alguém para conversar, mas é cansativo demais, ao ponto que não vale a pena preencher o meu tempo com esse tipo de companhia, a solidão é mais segura e coesa.
    Estou em uma caixa de concreto, protegida por um portão enferrujado, em uma cidade isolada, sozinho e desiludido, minha cabeça e meu peito doem e o futuro seja lá qual for não parece muito próximo, enquanto o presente se arrasta e o passado paira como uma nuvem cinza e carregada em cima da minha consciência, estou sozinho aqui, sou sozinho lá e em todo lugar, pelos mesmos motivos, por não me sentir a vontade e por não me sentir igual a ninguém, todos são diferentes, ameaçadores e por vezes sem paciência perante as minhas dificuldades. Façopara os outros o favor que espero que façam para mim, que me livrem dos problemas alheios pois eu já tenho muitos e eles se acumulam e se acumulam a ponto de um sobrepor o outro fazendo o tempo passar cada vez mais devagar, se arrastando lentamente e deixando um rastro de destruição por onde passa, a solidão é igual para mim em todos os lugares, por que o problema sou sempre eu, é sempre a minha indissociável personalidade, da qual nunca vou me livrar e o futuro de esperança e equilíbrio que busco e que me faz entupir de remédios fica cada vez mais distante e improvável, pois a minha solidão no fim é um atestado de extrema inabilidade social, em construir laços com outros e de manter esses laços, por falta de vontade ou paciência, não gosto disso, mesmo precisado, mesmo sofrendo com a falta deles.
    Os cachorros ajudam com suas suplicas esporádicas, mas logo, como todos, eles se cansam de mim e vão embora e fico só, as páginas dos meus diários e das minhas cartas endereçadas a ninguém não suprem esse vazio, pois esses ninguéns nuca me respondem, pois são frutos da minha imaginação. Não me sinto digno de pedir conselhos, de dividir tristezas pois não quero fazer parte da vida de ninguém, não quero esse fardo, então eu rumino e rumino os problemas, até que o metano produzido por mim me sufoque dentro do meu quarto vazio e me leve de uma vez dessa vida e dessa contradição insolúvel. Preciso mas não quero, não consigo viabilizar e não quero viabilizar, mas sofro por isso, como entender isso e a dor que causa, como não me odiar por não gostar de viver, por pirar 3 vezes ao dia por não suportar mais o presente e não ter nenhum ombro para chorar, por não ter nada para me agarram além do simulacro dos lençóis. Se quero receber devo dar, mas não tenho nada para dar, não quero dar e não posso dar.
    No fim, volto para o meu quarto branco e solitário e tento mais uma vez ser alguém, aguentar a dor que eu mesmo criei e procurar desesperadamente a minha personalidade que nem formada foi, que está presa, amedrontada, refugiada em uma concha nos fundos do meu ser, com medo do mundo, da vida, que a qualquer momento pode machucar. Ela lá fica e eu sigo vazio e sem rumo, sem vontades e desejos, me espelhando naqueles olhos pretos que nem lembram que eu existo e nem sentiram a minha falta, pois sou um verme escondido no canto que ninguém percebe a presença, isso aqui, isso lá, em qualquer lugar.
  • Os 8 Vértices da Minha Tristeza - 6. Ódio

    As palmeiras da cidade passam pelos meus olhos desatentos, meu corpo amedrontado se esconde atrás do vidro escuro, a vergonha, o desleixo estão protegidos do escárnio da mesquinhez daqueles que sentam nos bancos de pedra da praça, não sinto o vento e nem a sua libertação, estou preso por janelas de vidro escuras, que me salvam e me condenam ao mesmo tempo. Não tenho qualquer noção do tempo, mas essa é a primeira vez que saio de casa desde que cheguei aqui, pode ter sido ontem ou há 1 ano, não tenho ideia mas a percepção relativa do tempo faz com que qualquer duração seja imensa, arrastada, estendida no meu caso, mas tudo permanece igual ao que sempre foi, as mesmas pessoas, as mesmas músicas, as mesmas roupas, a mesma cidades, os mesmos lugares e luzes, tudo igual ao que me lembrava e que não muda em nada a minha vida e nem a minha percepção vazia sobre ela, além de que devo me manter longe das pessoas para me sentir seguro, sempre foi assim e deu tão certo que me trouxe aqui, de volta, derrotado, mas com a mesma vergonha de sempre, escondido atrás do vidro, com medo do mundo, com nojo das risadas e as brincadeiras, com ódio das conjunturas.

    Não me arrumo para sair, simplesmente saio, pois vou apenas ficar no carro, não me atreveria a me mostrar, vou com as velhas roupas sujas e rasgadas de sempre, pouco me importa o que vestir, nada mudará a minha situação e nem a visão das pessoas sobre mim. O mesmo caminho de sempre é percorrido, há anos é assim e pelo visto nada mudou, as mesmas músicas, as mesmas pessoas, as mesmas observações, a mesma mentalidade que me levou para o buraco estão presentes, na velha pressão em ter que sair para não me tornar um ser isolado do mundo, para ver as pessoas as quais não interessam, mas simplesmente sair e que ontem e hoje, aceito com relutância.

    O ódio é simples, fácil, cru, histriônico ou silencioso é sempre um caminho fácil chegar a ele e um ser tão amargurado e catastrofista quanto eu, tem nele um quase uma entidade, quase um amigo. A primeira reação a ver aquelas pessoas se divertindo, sendo felizes, vivendo e perceber que estou ali, envergonhado atrás de um vidro é o ódio, o ódio não deles, pois não tem nada a ver, mas o ódio de mim, por ser como sou e por não conseguir mudar as conjunturas, as circunstancias que me tornam assim, por não conseguir ajuda, por conta de ser como sou, esse ser vacilante, arrogante e vazio que nada tem a oferecer, além do rancor e da tristeza rendida na indignidade da minha situação, o ódio é tão profundo que destrói o que resta de tristeza rendida na indignidade da minha situação, o ódio é tão profundo que destrói o que resta de quem eu sou e torna impossível certas discussões, pois tudo está infectado por essa coisa, por essa besta que toma de assalto todas as partes do meu ser, não sei mais distinguir o que, quem e por que eu odeio, só odeio, não sei se é inveja ou raiva, só sei que reprovo o comportamento daquela gente, tenho asco daquilo, daquela felicidade, daquele cheiro. No fundo eu sei, no resto que ainda existe em mim, que tudo não passa de recalque, só odeio por que não posso ser, posso apenas observar passivamente aquilo e tentar imaginar como é, algo além da escuridão, da névoa cinza da tristeza e da despersonalização, como é viver de verdade?

    Um evento estranho percorre todos os espaços, o ódio é resultado até dos arrependimentos e das tristezas, por ser mais fácil de sintetizar, de entender, de apreciar, o ódio se volta contra mim, para minha inabilidade em interagir com o meu mundo e com as pessoas nada e pela incapacidade de gostar da vida, sinto ódio de todos os atores dessa história, mas que no fim é tudo contra mim, pois tudo se passa no palco do meu teatro interno, dissociado da realidade e que só diz respeito mim e que só destrói a mim. O ódio que sinto deles e de suas atividades divertidas e de suas aptidão não mudarão suas vidas, pois não quero, não devo e não penso ferir ninguém, mas muda a mim e machuca a mim, me tornando ainda mais revoltado e desiludido e como numa Síndrome de Estocolmo me deixo sequestrar todas as vezes que eles vem, com seu cinismo, sua visão simples e fácil dos problemas, me leva para um simulacro de mundo, onde tudo faz sentido mas nada é real e no fim, destrói pouco a pouco, o que resta de esperança, pois nada muda, nada se constrói com o ódio, mas muita energia é gasta na intenção de digerir o mundo e a ideia de que mesmo dentro dele, não faço parte dele. 

    As risadas relaxadas, que rasgam meu peito cheio de inveja como se fossem direcionadas a mim, ficam para trás junto aos seus donos e suas realidades, tão próximas e tão distantes as minhas, não quero ser como eles e nem ficar perto deles, só queria um pouquinho daquela felicidade, para rir despreocupado, mas agora, mais uma vez nesse quarto escuro e quente, a pergunta que se impõe é, rir de que? Seja qual for o motivo deles, não é o meu e não meu quadro, rir por rir, seria quase uma impertinência, uma imoralidade, que não cabe a mim e nem a minha realidade. Desintoxicado do ódio e mais uma vez vazio, espero o tempo passar enquanto conto as pintinhas estranhas no teto, que nada constroem e em nada garante o meu futuro, são inúteis, mas pelo menos não destroem nada e mantem tudo puro e cristalino, preservado pela banalidade do cotidiano.

  • Os 8 Vértices da Minha Tristeza - 7. Culpa

    O frio finalmente chega a esse mundo quente e árido, as nuvens ocupam o céu após semanas de uma ausência sofrida, sem elas o céu exibe seu azul insosso rotineiro e aos pouco vai ficando cada vez mais branco, mais pálido, perdendo a pouca vida que ainda lhe resta, aos poucos ela perde o significado, perde a função poética, é apenas o céu, pálido e sem vida, o céu que reflete nosso mundo e ousa nos mostrar nossa verdadeira face, nossas terríveis mazelas, nossa incompetência e antipatia, nosso egoísmo. Os cães tremem e imploram por calor, a pele dá um sinal de vida e os pelos se arrepiam com o vento cortante do sul, que expõe a solidão e a verdade absoluta que tanto nego a mim mesmo, no ápice da loucura e do desespero, por mais que eu não queira, sou um ser humano, de carne e osso.
    A novidade leva consigo a luz, leva a madeira velha dos postes e revela máscara que só podem ser vistas na escuridão, sem nenhuma tecnologia, sem a luz artificial das lâmpadas e das telas, ela está ali, sempre a nossa frente, mas ao mesmo tempo ofuscada por essa luz inebriante que toma o nosso tempo e a nossa percepção e para o bem da fragilidade psicológica, ela existe tão perto e ao mesmo tempo tão longe de todos nós. Sentado no sofá, no silêncio é possível sentir a tristeza do recinto, sentir o cheiro do ressentimento, do arrependimento, na escuridão e possível ver o quanto todos esses que me cercam são tão infelizes quanto eu, afundados na sua vida de conveniências eles se esconde na embriaguez e na voz revoltada dos vídeos de Facebook, são terrivelmente amargurados, consternados com a distancia que percorram nessa farsa em nome da solidez que nunca encontraram, tudo é fluido e frágil, fluorescente no escuro e nas condições perfeitas posso ver seus rostos tristes e preocupados, sem saber até onde isso vai e pedindo a misericórdia atroz do seu Deus, para que os levem dessa vida de uma vez por toda, antes que os vícios percam o efeito e as luzes sejam incapazes de esconder o óbvio.
    Quando a claridade volta a nossas vidas tudo volta ao normal, tudo parece aceitável mais uma vez e a vida segue seu curso até onde é possível suportar. Nesse período pseudo sabático que passei aqui descobri que a vida é um fardo, a existência como ser humano parte do princípio que nenhum de nós escolher estar aqui, nenhum de nós escolheu vir onde veio, com as pessoas que nos cercam, mas viemos do mesmo jeito, sem pedir, sem saber, sem entender o por que tudo isso, sob a égide de quem estamos e somos obrigados a viver a vida e suas mazelas em toda a intensidade. Essas coisas geram em mim, acima de tudo, revolta, por não ter tido a escolha e por ter falhado em me livrar desse fardo. A vida é um fardo, repito, temos que ter alicerce psicológico para lidar com esse terrível fato.
    É terrível pensar que depois de todo esse processo não evolui uma linha sequer na minha aceitação com essa situação básica que é a vida, viver enclausurado, preso no escuro não ajuda em nada, a solidão e o isolamento distorcem sua visão de mundo e a realidade se apresenta exagerada, drástica, terrível, quanto mais tempo longe dela, mais distante. Olhando para o lado de fora, mesmo com todas as desgraças que perpassam minha vida e daqueles que estão perto de mim, percebo que a vida tem suas benesses, suas boas experiências, conhecendo outras histórias e abandonando a percepção egoísta da vida, percebo que há outras realidades mais difíceis do que a minha, mais difíceis na prática e não apenas em teorias mirabolantes criadas no escuro do medo, não são suposições, são dificuldades reais e que incidem verdadeiramente sobre a vida daqueles que as portam. Por vezes implorei para que minha vida fosse dada a outro que a quisesse viver, mas agora percebo que talvez ninguém queira a minha vida, porque mesmo na merda eles preferem as deles à minha cheia de privilégios injustos. A pergunta que perpassa minha vida nesses dias frios é o que faz com que eu odeie minha vida mesmo tendo tanto e o que faz alguém que não tem nada gostar da sua realidade?
    Acredito que eu nunca vou possuir essas respostas simplesmente especulando, olhando de longe, observando o intocável, preciso mergulhar nesse pântano para descobrir, preciso abandonar a margem dos bravateiros, dos especuladores, dos medrosos, devo seguir em frente, o difícil é saber como, é ter energia para enfrentar esse longo que caminho enlameado que o fim a vista não alcança, preciso começar de algum lugar, preciso entender o por que ainda continuo aqui, com os pés fincados nessa superfície tóxica. Minha mente é complicada, pequenas coisas se tornam enormes imbróglios, pequenos deslizes se tornam enormes remorsos e no fim tudo é alicerçado pela culpa, a culpa de ter feito as coisas que fiz, de ter machucado quem eu machuquei e a culpa de continuar aqui, sentado, esperando o tempo passar, a culpa por sentir culpa que me leva a sentir mais culpa, um eterno ciclo que se retroalimenta e que só cabe a mim quebrar.
    O passado é um fantasma que paira sobre as nossas cabeças, uma ação passada, sem volta, que é impossível de alterar, as coisas que lá aconteceram pesam em minhas costas e ocupa a minha mente de um remorso perturbador e angustiante, tudo milhões de vezes amplificado pela depressão, uma oportunidade perdida, uma palavra não dita já pode ser motivo para se afundar na culpa quase irracional que pauta meu presente. Entendo que o único jeito de seguir em frente é me perdoando, perdoando todas as coisas que fiz com os outros mas principalmente comigo mesmo, todas as vezes em que me machuquei, em que falhei, entendo que sou um ser humano e cometo erros, por mais que eles me atormentem todas as noites solitárias, o primeiro passo para me livrar desse peso é perdoar e entender os motivos das coisas que fiz e de alguma forma não tornar isso ainda mais pesado, não encher mais essa caixinha de remorsos, o que passou já foi e não será repetido, as cicatrizes no meu corpo e na minha alma sempre irão me lembrar o quão nocivas são essas coisas que preciso me livrar.
    No escuro as realidades fluorescentes de tristeza que me cercam, quase radioativas, percebi que talvez tenha sido um pouco drástico com eles, estava tomado eplo ódio e pela descrença e não percebi que a minha família é tão triste quanto eu e passa por problemas parecidos mas com o fardo de ter que gerir toda essa bagunça, a raiva que toda essa dor gera fez com o que eu e os machucasse sem querer, com as minhas ações, principalmente as suicidas. Não sei como recuperar isso, mas não quero mais contribuir para que essa culpa aumente, a minha dor não é apenas minha, ela incide sobre todos ao meu redor e afeta suas vidas como afeta a minha e as vezes a incompreensão disso pode levar a conflitos desnecessários e desgastantes. Preciso seguir em frente e sei que não posso levar ninguém comigo, por uma série de motivos, mas não quero deixar mágoas pendentes e nem as aumentar ainda mais. A culpa é o problema e a solução e aquele sorriso tímido daquela menina me fez pensar que talvez devesse gostar um pouco mais nem que fosse um pouco da minha vida, como em um programa infantil brega, olhar um pouco mais o lado bom do que há nessa experiencia, mesmo que ele não exista, sempre procurar por algo, não me conformar com a morte e com a dor que incapacitam mas que não cegam totalmente. Mesmo que seja apenas ilusão, é preciso ver beleza em alguma coisa, para suportar esse fardo que é viver, suportar os fantasmas do passado, a área movediça do presente e a indefinição do futuro que aparece de relance no fim da estrada e parece tão insosso quanto o céu desse mundo.
    É uma construção, vai custar tempo e energia, mesmo que dê errado é preciso tentar, é preciso deixar a falsa ternura dos lençóis para trás, a falsa cordialidade da terra firme, o falso conforto da prisão atrás dos vidros e janelas, por que se isso não for feito eu sei onde irei terminar, mais uma vez naquela posição infame, aqui novamente, até aprender o que devo aprender, mesmo ainda não sabendo direito, ir em frente para ter um vislumbre maior, para ler as páginas além desse livro. A dor não é uma amiga, não é terna como parece, ninguém gosta da tristeza, o que há é o conforto de permanecer nessa realidade, de permanecer no mundo que você conhecer, da zona de conforto, qualquer coisa além disso é ameaçador pois nunca foi visto antes. Por mais brega e tosca que possa ser a esperança, por mais tola que possa parecer, ela sempre deve ser cultivada, já que, pensando bem, gostar do fardo da vida no fim é brega, tosco e tolo, é isso ou viver na espiral que não suportar esse fardo proporciona. Prefiro seguir em frente, mesmo alicerçado em tudo que nessa esperança frágil é melhor do que permanecer aqui, esperando o tempo passar e morte vir me salvar, o que nunca vai acontecer. Não há bondade nessas figuras.
  • Os 8 Vértices da Minha Tristeza - 8. Resignação

    Insetos voam desesperados em busca da luz, sabe-se lá o por que eles fazem isso, mas travam uma dança incompreensível ao redor de uma lâmpada e como em um ápice final do espetáculo, eles caem mortos nas superfícies, sem distinção, lá ficam até que alguém os tire dali, os descarte, nada além da carcaça que restou, a alma dançarina já está em outro lugar. Roupa a roupa, preencho minha bagagem, muitas nunca usadas, bonitas demais para a escuridão desse quarto, para o vazio dessas palavras, dessas histórias, para esse lugar, um pijama basta e como se fosse um símbolo, representa a minha decadência, a mediocridade, a incompetência em lutar contra esse câncer que se instalou dentro mim. As camadas de tecido se acumulam e a dor se amplifica, por que sentimos falta daquilo que nos faz mal? Por que vou sentir falta desse lugar miserável, onde passei pelas piores experiencias possíveis, onde a morte me rondou? Acho que talvez não seja necessariamente gostar desse lugar, é do conforto que vou sentir falta, o conforto de sentir as mesmas coisas todos os dias, as mesmas dores e tristezas todos os dias, estar no mesmo lugar todos os dias e não ter que se preocupar com o desconhecido, o novo, o perigoso, desafiador, tudo é igual, mesmo sendo uma merda, é mais fácil saber o que vai acontecer.
    A irracionalidade canina faz com que eles não entendam que isso é uma despedida, inocentemente se aproximam, com o mesmo entusiasmo de sempre e me sondam em troca de um carinho e lhes retribuo as muitas horas de conversas, os muitos afagos e companhias que eles me proporcionaram ao longo desse tempo que fiquei aqui e eles logo se distraem por um gato arrogante, por algum transeunte e vivem pelos seus instintos, sem saber que isso é um despedida, seguem suas vidas, curtas e invejáveis vidas, sem saber que amanhã será diferente. As portas se fecham, as bolsas são conferidas e lá vamos nós rumo ao velho destino. Pelas ruas, vislumbro aquele mundo próximo ao meu que nunca explorei, que nunca vi ou conheci e da mesma maneira que me é apresentado ele fica para trás e perde a importância e tudo perde a importância, aqueles desconhecido vivendo suas vidas, os animais passando pela rua em busca de comida, as arvores se mexendo com vento, o cheiro daquele aclive, as frases pichadas nos muros das casas, tudo fica para trás e nada interfere  na minha vida, tudo ganha essa importância repentina, por que nada de bom existe dentro de mim e como um platelminto, sigo de estímulo em estímulo, em busca desse calor, mesmo que momentâneo, de me importar com o mundo ao meu redor.
    Todas as viagens contam com uma parada, quase religiosa, na casa da minha avó. Uma casa antiga, cheia de puxadinho que se uniram para formar uma casa maior, um quintal, com arvores e galinhas, o símbolo de um passado que não existe mais, o símbolo da distanásia que insistem em infringir sobre nós, é como olhar o Taj Mahal, um lindo lugar cheio de história que pertence ao passado, os senhores poderosos e a fonte do seu poder não existem mais, mas ele segue lá, imponente, amedrontador, como um dever, devemos manter essa relação moribunda viva, em nome do passado caquético, devemos continuar remediando essa morte, o passado se impõe sobre o presente e tenta tomar o seu lugar e esse é o símbolo máximo disso. Aqueles que antes reclamavam da lotação agora se defrontam com a solidão mórbida e irreversível, penso se não se arrependem do que um dia disseram, do que um dia pediram, talvez. Tudo agora é protocolar, seco, meramente ilustrativo, sem valor, só restou o seu Deus e a velha senhora cristã se despede de nós com um amargor no rosto, como quem sabe o seu destino, o que lhe ronda, mas não pode mensurar as consequências disso. E como os muros pichados, ela fica para trás, é passado e seguimos em frente.
    Pegamos a estrada que corta a cidade ao meio e sentimos o vento em nossos cabelos imaginários, o cheiro podre da soja no acostamento, as lojas abrindo, as velhas arvores sendo cortadas, os coqueiros ornando aquele lugar e tudo vai ficando para trás e só o que resta é o que vem a frente, para onde estou indo, na verdade voltando, é para lá que estou voltando, para o lugar que me fez desistir da vida, talvez por ter me feito encará-la, enfrenta-la nu, sem a capa da depressão para cobrir minha derrota de significado, lá, ninguém se importa com a minha dor, ela é apenas minha e não interessa, o fracasso será cobrado igualmente a todos. Depois de meses nesse lugar, não evolui, não repensei nada, não descansei, sei que o me espera depois da curva não é novo e nem doce, sei que será difícil, mas não suporto mais esse lugar e seu silencio intimidador, sua solidão, sua falsa ternura, preciso encarar a vida fora desse vale, preciso me reconciliar com a minha dor. Após a curva a cidade está em um vale logo abaixo e tudo é visível, tudo vai ficando para trás, sumindo de vista, perdendo o significado e só o que resta é o que está comigo, as minhas lembranças, a cicatriz que ainda dói e o futuro a minha frente, a estrada que passa pelo meus olhos e me leva de volta ao inferno, a realidade, a vida. Estou sozinho e sempre estarei, por que ninguém sabe o que dói, como dói, onde dói, essa luta é apenas minha e tudo pode acontecer, posso falhar de novo e voltar para aquele lugar triste, mas quero ter a consciência e usufruir do meu escasso orgulho e dizer que eu tentei, dei o máximo que podia, não desisti, não fiquei trancado no meu quarto esperando o mundo se abrir para mim, aprendi que isso nunca acontecerá e só posso viver essas coisas no inferno, por mais duro que seja, por mais triste que seja.
    Resignação é aceitação sem revolta dos sofrimentos da existência, como não posso me livrar dela, como não quero mais fazer isso, me entrego a ele, com toda a alma que me restou e vou até ela, onde as faixas do asfalto me levarem.
  • Palavras...

    São apenas palavras...
    Que penso para rimar
    mas escrevo ansiedade
    E rimo sem nem pensar

    Palavras palavras...
    Que penso antes de falar
    E falo com insegurança
    O que nunca quis causar

    São só palavras
    Que falamos sem nem pensar
    Afinal são só palavras
    Que servem pra se usar

    Amor... Ódio...
    São apenas palavras...

    Um dia eu quis sair
    Lá fora estava trancado
    Minha boca já quis falar
    Falei com peito fechado

    Um dia quis acordar
    E nem estava deitado
    Eu já quis me levantar
    Sem nunca ter me abaixado

    Um dia ouvi bom dia
    De alguém com dia acabado
    Um dia ouvi te amo
    E nunca me senti amado

    palavras tão vazias
    Palavras criam ateus
    Hoje acredito em "eu te amo"
    Como Nietzsche crê em Deus
  • Para onde ir?

                       Ô Deus, és isso mesmo que queres para a minha vida? As vezes em meios aos pensamentos me pergunto o motivo de tanta angustia sendo que estou indo a sua casa, será que a sua presença está em mim?

                       Me julgo por tantos motivos e fico perdida, não sei aonde estou e nem o que devo fazer! A vida tem sido tão cruel e a única coisa que eu penso é em desistir, porquê absolutamente nada acontece na minha vida! Eu sei que temos que agradecer pelas coisas que temos, e profetizar o que queremos...claro temos que fazer pôr onde, mas por favor me diz onde eu estou errando?
  • Paredes de papel

    Como é linda aquela casa do fundo da rua , com janelas grandes cobertas por cortinas coloridas , como é linda a sua cor amarela e a sua porta de madeira , como é lindo o seu portão verde .
     A casa do fundo da rua é linda mas possui paredes de papel . Nela vive uma família , um pai , uma mãe , um menino e uma menina , família perfeita à primeira vista , passeios em família nos fins de semana e almoços alegres durante a semana quando o sol permite a mãe e o pai meterem a mesa no jardim , mas a casa tem paredes de papel.... O papel parece forte e resistente mas não é, a água estraga , o fogo queima e movimentos rápidos e fortes rasgam .  A casa é linda e a família também mas tem paredes de papel .
     Quanto custa áquela mãe sorrir sabendo que a filha tem câncer , sabendo que não ha pode saval e que o seu marido não a apoia e que a trai  , quanto custa àquele pai que sabe que está a cometer erros mas não consegue encarar a perda da sua pequena princesa sem uma gota de álcool , quanto custa ao pobre bebé no berço que não percebe o que o rodeia e acorda do seu sono com gritos dos pais e chora por atenção. A casa é linda e a família também mas tem paredes de papel .
      Como é triste a casa do fundo da rua, com janelas grandes cobertas por cortinas negras , como é triste a sua cor amarela desbotada e a sua porta de madeira velha , como é triste o seu portão ferrogento. Na casa triste vive uma família , um senhor de idade e a senhora esposa , casal triste e solitário que em tempos pareciam felizes .
     
  • Pássaro Negro

    Pássaro negro
    por que feste-me teu escravo?
    Pássaro negro
    por que trouxeste-me ao terror?
    Pássaro negro
    tornaste-me um ser desprezível

    Meus esforços foram falhos
    como pôde me atrair?
    Se na vida não aprendi
    como a morte poderá vir?

    Pássaro negro
    já nasceste comigo?
    Pássaro negro
    me dê seu perdão
    Pássaro negro
    não me deixe cair em um vão

  • Pela garganta

    Ácido sulfúrico
    Me deixa eufórico
    Acaba com a minha dor mais rápido
    Não é lúdico
    Não tem prelúdio

    É fatal e assinado com tinta amarga

    Me desprendo
    Me desprezo
    Me arrependo
    E nunca rezo

    Digo adeus ao fim de mais um ciclo
    Da vida
    Da ira

    E queimo em minh’alma
    Todas as mágoas
    Todas as pessoas que sonho nunca ter conhecido
    Todos os conhecidos a quem chamo de ratos
    Deixo escorrer pelos ralos
    Junto com os meus restos

    E rastros.

  • Poesias de tudo e mais um pouco

    Lindo passarinho,
    Que por aqui passaste
    Deixa-me ver-te voltar ao ninho
    E ouvir-te chorar pelos poucos que amaste.

    Pois tudo o que um dia viveu
    E prosperou alegremente
    Cresceu e morreu
    Como tudo o que tem forma.

    Ah, pequeno passarinho
    Põe em tua delicada face
    Uma expressão sorridente
    E cria nesse ninho
    Novas vidas e memórias.

    Não chores por passado.
    Grita pelo futuro.
    Deixa que eu cesse tuas lágrimas.
    E seja teu porto seguro.
  • Posso Morrer Amanhã

    Você já parou pra pensar  que amanhã você pode ser só uma plaquinha com o dia que você nasceu e o dia que deixou este mundo?
    Nesta plaquinha não estará escrito quem eram seus ídolos políticos, sua religião, seu time do coração, nem suas bondades, ou maldades.
    Sua bondade, ou maldade serão medidas pelo número de pessoas que riram ou choraram ao ver esta placa.
    Você será lembrado por poucos e em poucos anos será apenas um retrato.
    Neste retrato você será apontado como um parente distante do tipo: " Esse na foto é meu avô, mas eu não conheci ele"
    Um dia, você só vai existir na memória de algumas pessoas.
    E se o dia de a gente virar plaquinha for amanhã? Você está preparado?
    Pense, se você morrer agora, quais são as últimas lembranças que as pessoas vão ter de você?
    Alguns vão dizer: "Já foi tarde", outros, "Nossa, tão novo"
    O fato é que em poucos meses os viúvos se apaixonaram por outro alguém, seus filhos terão suas vidas, seu carro terá um novo dono, sua roupas serão doadas, seu emprego vai ser ocupado por outra pessoa e tudo você tanto batalhou para adquirir, vai ser objeto de disputa entre os herdeiros.
    Uma única pessoa passará o resto de sua vida lembrando de você todos os dias, sua mãe, e talvez seu pai.
    Agora me responda: Você tem se preparado para ter valido a pena? Você tem marcado a vida das pessoas? Ou esta perdendo seu tempo em discussões homéricas sobre política, religião e futebol?
    Um dia as pessoas vão olhar para o seu retrato, já amarelado e sem qualidade e vão pensar se vale a pena mandar restaurar para que você continue vivo na memória, ou se jogam de uma vez no lixo dando lugar a uma televisão nova, ou um enfeite qualquer do 1.99.
    A vida é hoje, a hora é agora! Não perca tempo e amizade por discussões bobas, viva!
    Tá com saudade? Liga! Se ama, mostre! Amanhã pode ser tarde, pois cada momento carrega a possibilidade de ser a última vez que nos vejamos.
    Entenda: Um dia você será só uma plaquinha, se tiver sorte, vai virar nome de rua, mas mesmo assim ainda será só uma plaquinha.
  • Prevenção contra a síndrome de Burnout entre profissionais da área da saúde.

    Resumo

    O exercício do profissional da área da saúde abrange uma grande variedade de procedimentos e com diferentes níveis de complexidade, fazendo com que os profissionais fiquem em contato com diversos tipos de estresse, sendo fatores de risco para o surgimento de síndromes, como o burnaut. Trata-se de uma revisão literária, que tem o objetivo levar informações a respeito da prevalência da síndrome em profissionais da área da saúde, assim como os fatores considerados de risco para seu desenvolvimento. Foram utilizadas as bases de dados MedLine, Scielo, American PsychiatryAssociation e Evidence-Based Mental Health. Essa pesquisa propõe a construção de uma fonte de informações sobre a síndrome de burnout, visto que, a maioria dos profissionais não sabem nem o real significado dessa síndrome.

    Palavras chave:Burnout, Prevenção, Doença Ocupacional em  Saúde.

    Abstract

    The exercise of the health professional covers a wide variety of procedures and with different levels of complexity, making professionals stay in contact with different types of stress, being risk factors for the emergence of syndromes, such as burnaut. This is a literary review, which aims to provide information about the prevalence of the syndrome in health professionals, as well as the factors considered to be at risk for its development. The databases MedLine, Scielo, American PsychiatryAssociation and Evidence-Based Mental Health were used. This research proposes the construction of a source of information about the burnout syndrome, since, most professionals do not even know the real meaning of this syndrome.

    Keywords: Burnout, Prevention, Occupational Health Disease.

    Introdução

    A qualidade do atendimento dos profissionais da área de saúde depende de diversos fatores, tais como: estado emocional, físico e social do profissional assistencial. Visto que estes profissionais estão constantemente expostos a atividades que englobam stress físico ou mental, alguns pesquisadores dedicaram-se a estudos relacionados ao estresse ocupacional com intuito de formularem teorias para a melhor qualidade de vida dos profissionais e consequentemente um melhor atendimento.
     Em virtude disso, nota-se que a síndrome do burnout é uma das doenças mais comuns entre os profissionais assistenciais da área da saúde (MALAGRIS, 2004). Mas o que é de fato o burnout? Essa tarefa de demarcação conceitual, tal como ocorre com o termo stress, é muito difícil de ser empreendida, pelo fato de existirem inúmeras definições a respeito. Contudo, a concepção sócio-psicológica proposta por Maslach e Jackson (apud BENEVIDES-PEREIRA, 2002) é a mais utilizada no meio científico para definir o termo, devido à profundidade dos estudos das autoras. Estas concebem burnout como um conjunto de sinais e sintomas composto de aspectos multidimensionais em resposta ao stress laboral crônico, envolvendo três fatores principais, a saber, exaustão emocional, despersonalização e redução da realização pessoal.                           
     Segundo Benevides-Pereira (2002), a diferença fundamental entre o stress ocupacional e o burnout é que neste é dada mais importância à relação interpessoal entre o profissional e o usuário do serviço, levando a um total prejuízo de seu trabalho. Dessa forma, profissionais de quaisquer atividades laborais podem sofrer de stress ocupacional, ao passo que somente os profissionais voltados primariamente ao cuidado do outro estão propensos ao desenvolvimento do burnout. Fatores como desatenção, negligência, cinismo, falta de empatia e hostilidade são característicos deste quadro, evidenciando a dificuldade do trabalhador em desempenhar de forma satisfatória suas responsabilidades. Como citam Borges, Argolo, Pereira, Machado e Silva, 2002.
    Partindo do que foi exposto, este estudo torna-se relevante devido à importância da temática e da possibilidade de proporcionar novos conhecimentos e subsídios aos profissionais de saúde com um olhar mais voltado para a segurança e bom qualidade no atendimento profissional. 

    1°- O que é a Síndrome de Burnout?

    A Síndrome de Burnout é definida por Maslach e Jackson (1981) como uma reação à tensão emocional crônica gerada a partir do contato direto e excessivo com outros seres humanos, particularmente quando estes estão preocupados ou com problemas (CODO; VASQUES-MENEZES, 2006,p. 238).                                                                                                                                                                              Neste sentido,o burnout é um tipo especial de estress ocupacional que se caracteriza por profundo sentimento de frustação e exaustão em relação ao trabalho desempenhado, sentimentos que aos  poucos pode se estender a todas as áreas da vida de uma pesssoa(REINHOLD, 2007, p. 64). Sua principal característica é o estado de tensão emocional e estresse crônicos provocado por condições de trabalho físicos, emocionais e psicológicas desgastantes. A síndrome se manifesta especialmente em pessoas cuja profissão exige envolvimento interpessoal direto e intenso, como relata Varella (2009).                                                                                               Sendo assim, o sintoma típico da síndrome de burnout é a sensação de esgotamento físico e emocional que se reflete em atitudes negativas, como ausências no trabalho, agressividade, isolamento, mudanças bruscas de humor, irritabilidade, dificuldade de concentração, lapsos de memória, ansiedade, depressão, pessimismo, baixa autoestima (VARELLA, 2009).
    De acordo com Barbosa (2006) deve ser feita uma diferenciação entre o burn-out, que seria uma resposta ao estresse laboral crônico, de outras formas de resposta ao estresse. A síndrome de burnout envolve atitudes e condutas negativas com relação aos usuários, aos clientes, à organização e ao trabalho, sendo uma experiência subjetiva que acarreta prejuízos práticos e emocionais para o trabalhador e a organização.

                                                                                       

    2°- Como o Burnout se Instala

    ''O burnout não ocorre de repente; é um processo cumulativo, começando com pequenos sinais de alerta’’ (REINHOLD, 2007, p. 65). Neste sentido, Reinhold (2007) relata que: a jornada de trabalho excessiva, o excesso de burocracia, a indisciplina, a falta de reconhecimento pelo bom trabalho, o tédio decorrente de tarefas repetitivas, a falta de autonomia, a vulnerabilidade biológica e psicológica, as expectativas elevadas; aspirações irrealistas, o senso de responsabilidade exagerado, o negativismo e a auto-estima baixa são fatores de preponderância para a instalação da síndrome.

    3°- Índices de Burnout entre os Profissionais da Área da Saúde

    Os desgastes psicológicos na carreira do profissional de saúde são inúmeros, e com o decorrer do tempo, notou-se a necessidade de avaliar as relações interpessoais devido ao agravo de reclamações de pacientes e doutores. Fatores como a falta de infra estrutura, auxilio, reconhecimento e valorização não são vistos na área de atuação dos profissionais em questão. Além da falta de suporte financeiro e o estresse que surge em resposta a situações ocorridas no trabalho nas profissões em que a atividade é depender cuidados ou ensinar, observa-se a instalação de uma intolerância ao contato com os sujeitos que deveriam ser alvo de dedicação profissional (Alessandra Mazzo 2009).
    O desgaste emocional em relação ao trabalho ficou tão constante que a legislação, no Brasil em 1999, o Ministério da previdência e Assistência Social (DOU 12.05.1999 - n°89)¹³ apresentou a nova lista de Doenças Profissionais e Relacionadas ao trabalho que contém um conjunto de doze categoriais diagnósticas de transtornos mentais. Essas categoriais se incluem no que foi chamado de Transtornos Mentais e do Comportamento Relacionado ao Trabalho, que podem ser determinados pelos lugares, pelo Tempo e pelas ações do trabalho (Grimes&Shulz, 2002).
    Uma dessas doze doenças é a Síndrome de Burnout, essa síndrome atinge diversas áreas profissionais, porém, quando se trata de profissionais da saúde, percebe-se uma complicação devido ao contato direto deste profissional com o paciente, onde, dependendo do estado psicológico do atendente, o paciente pode sentir-se incomodado e muitas vezes ameaçado, podendo gerar uma recusa ao atendimento de uma determinada pessoa, o que agravaria a situação. Deixando o profissional mais frustrado e satisfeito com sua atuação no trabalho. Culminando desta forma uma cascata de eventos que pode levar o profissional a desenvolver a síndrome de Burnout.    
    Uma das características desta síndrome é a perda do sentido da relação com o trabalho de modo que tudo que o individuo realiza parece inútil (Luciana Bernardo Mioto, 2009). Esse sintoma gera ao profissional uma angustia e insatisfação própria, pode torná-lo emocional de mais pra realizar atendimentos, com tantos transtornos o profissional pode colocar a vida do paciente em risco, todas as conseqüências ressaltadas afetariam e agravariam ainda mais o nível da síndrome de Burnout.  Como resultado o atendimento que ele irá realizar não agradará a nenhuma das partes envolvidas.
    Normalmente a síndrome de Burnout não é percebida inicialmente, porém é necessário que assim que se iniciem alguns dos sintomas que possam estabelecer conexões com esta síndrome o profissional procure ajuda, para que a resolução desta questão ocorra rapidamente, e a qualidade de realização e atendimento no trabalho sejam positivos. 

    4° - Influências da Síndrome de Burnout no Que Diz Respeito a Qualidade de Atendimento

    Existe alta incidência de Burnout entre os profissionais da saúde. Assim, observa-se que esses profissionais estão mais propensos a ter maior nível de desgaste emocional e despersonalização. A jornada de trabalho dos profissionais influencia bastante, a idade do profissional influencia bastante também, assim, médicos que apresentam cerca de 20 -30 anos de idade apresentam maiores níveis de burnout . Os 31- 40 anos de idade apresentaram grandes níveis de burnout, quando esses estão insatisfeitos com a sua atividade de trabalho. (GALINDO, 2012)
    Já na enfermagem, encontra-se baixa ocorrência de burnout e alto nível de estresse laboral entre enfermeiros satisfeitos com o seu trabalho           (GALINDO, 2012).   A satisfação profissional estava associada ao suporte informacional, ao suporte social no trabalho, à oportunidade de aprendizagem e progressão e à participação nas decisões ( GALINDO, 2012). Também identifica-se elementos sugestivos de que frequências menores do que as esperadas estão relacionadas com a habilidade para administrar as situações estressoras do cotidiano, que é denominada de coping, tornando mais lento o avanço do processo sequencial que culmina no burnout. As habilidades para lidar com as demandas internas e externas advindas do estresse laboral pode visar o controle (estratégias voltadas ao problema) ou o escape (voltadas à emoção: negação da situação, distanciamento, atenção seletiva). O coping de escape está associado com uma maior frequência de exaustão emocional(GALINDO, 2012).

    5° - Prevenção Contra Síndrome de Burnout

    A exaustão, perda de entusiasmo, ineficácia, dificuldade de relacionamento pessoal e profissional são sentimentos constantes, é importante ficam em alerta, pois estes sintomas citados são sinônimos de Burnout, a síndrome da exaustão e esgotamento profissional. Essa síndrome é caracterizada por três diferentes componentes; exaustão emocional, despersonalização e ausência de realização profissional (Maslach e Golberg, 1998).
    A dimensão da exaustão emocional representa o componente básico individual do estresse no burnout. Ela refere-se ás sensações de estar além dos limites e exaurido de recursos físicos e emocionais. Os trabalhadores sentem-se fatigados, esgotados sem qualquer fonte de reposição. A despersonalização representa o componente do contexto interpessoal no Burnout. Ela refere-se á reação negativa, insensível ou excessivamente desligada dos diversos aspectos do trabalho. Ela geralmente se desenvolve em resposta a sobrecarga de trabalho tende a se retrair cortar ou reduzir o que estão fazendo. A ausência de realização profissional e representa um componente de auto avaliação no burnout. Ela refere-se a sensações de incompetência e uma falta de realização e produtividade no trabalho, bem como uma falta de apoio social e de oportunidade de desenvolvimento profissional (Yong e Yue, 2008).
    Com o decorrer do tempo este tema ganhou espaço devido ao aumento de relatos cada vez mais freqüentes. Pensando na conscientização de profissionais que estão suscetíveis a esta doença durante o ano de 2009 a Ordem dos Médicos promoveu por todos os países simpósios para esclarecer e alertar este problema. A iniciativa terminou em Lisboa. Onde o tema foi bastante discutido entre profissionais de diversas áreas. A Ministra da saúde Ana Jorge aponta que “criar estratégias de prevenção, mas também terapias de grupo e métodos de organização eficazes, pois estes facilitam p trabalho de equipe que é importante no meio hospitalar”. Ana Jorge ressalta ainda que “a partilhar de responsabilidades é importante, tal como fundamental colocar o médico a falar dos seus sentimentos logo após viver situações de estresse, como a morte de um paciente”. E continua afirmando a “necessidade de observar a forma como a pessoa em exausta melhora no seu conjunto e não com uma pessoa em particular, avaliar o excesso de trabalho e controlá-lo, obter reconhecimento pelo trabalho feito, avaliar as relações sociais a confiança e ter em conta quando nós percebemos que o local onde trabalhamos é injusto.” Segundo a ministra estes métodos são importantes tanto na prevenção da síndrome como na realização de um tratamento (Carlotto e Câmara, 2009).
    Já Alberto Campos Fernandes, mediante ao cenário de dificuldades financeiras onde o profissional esta inserido, desenha um possível futuro, onde entender os próximos anos será de “uma redefinição do modelo assistencial e incorporação dos médicos nas decisões”. O responsável considera ainda que “o caminho é o da empresarialização que deve favorecer a coesão interna, a existência eficaz dos profissional e efetivo reconhecimento do trabalho.” Na sua intervençãoficou claro que “o fim ultimo do sistema de saúde é o cidadão”(Carlotto e Câmara, 2009).
    Os métodos descritos são de suma importância para erradicar a síndrome do estresse, ainda mais se tratando de um setor onde existe um contato direto com r pessoas. A qualidade no trabalho e o fator realização profissional deve ser sempre buscada e mantida pela instituição onde se esta atuando.

    Materiais e métodos

    Realizou-se revisão bibliográfica utilizando-se as bases de dados MedLine, Scielo, American PsychiatryAssociation e Evidence-Based Mental Health. .A busca foi feita para o período compreendido entre abril e maio de 2020, cruzando-se o unitermoburnout com os outros citados e selecionando-se artigos publicados nas línguas portuguesa e espanhola.Após a seleção dos artigos, fez-se busca ativa entre as citações bibliográficas para identificar artigos de relevância que não tivessem aparecido no primeiro levantamento. Selecionaram-se artigos empíricos, epidemiológicos, conceituais e de revisão que relacionassem o burnout, seus aspectos conceituais e comorbidades aos trabalhadores da área da saúde. Alguns estudos em educadores foram considerados quando relacionados ao burnout e a qualidade de atendidmento, assim como burnout e prevalência no Brasil em razão do menor número de publicações sobre tais temas.

    Conclusão

    Em virtude da temática abordada, nota-se que a prevenção é o melhor remédio contra a síndrome de burnout. Ao decorrer desse estudo, percebeu-se que a síndrome de burnout é um problema oriundo do estresse ocupacional, mas que problemas pessoas influenciam constantemente. Nesse sentido pode-se concluir que, com a adoção de medidas e hábitos corretos para a qualidade de vida , podem reverter esse quadro e consequentemente o profissional da área da saúde desenvolverá um melhor desempenho na sua jornada de trabalho.    Conclui-se também, que a disseminação das informações também pode atuar como um ‘’método anti-burnout’’, pois uma parcela considerável da população alvo não sabe distinguir a diferença entre burnout e estresse do dia a dia.

    Referências

    LIPP, M. E. N.; MALAGRIS, L. E. N. O manejo do stress. In: RANGÉ, B. (Ed.). Psicoterapia Comportamental e Cognitiva: pesquisa, prática, aplicações e problemas II. Campinas: Fundo Editorial Psy, 1995. p. 279-292.
    MALAGRIS, L. E. N. Burnout: o profissional em chamas. Rio de Janeiro: ZIT Editores, 2004. p. 196-213
    BENEVIDES-PEREIRA, A. M. T. (Ed.). Burnout:quando o trabalho ameaça o bem-estar do trabalhador. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.
    BORGES, L. O.; ARGOLO, J. C. T.; PEREIRA, A. L. S.; MACHADO E. A. P.; SILVA, W. S. A síndrome de burnout e os valores organizacionais: um estudo comparativo em hospitais universitários. Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 15, n. 1, 2002. Disponível em: SciELO (ScientificElectronic Library Online) <http://www.scielo.br>. Acesso em: 19 Mai. 2014.
    SILVA, F. P.Burnout: Um Desafio à Saúde do Trabalhador. 2°ed. Rio de Janeiro: Rev. Psicologia Institucional, 2000.
    BARBOSA, DANILLO. et. al.Síndrome de Burnout: Correlação com a Enfermagem. Rio de Janeiro: biblioteca anais, 2006.
    VARELLA, DRAUZIO. Síndrome de Burnout. São Paulo, 2009.
    VASQUES-MENEZES, I.; CODO, W. O que é burnout?. Petrópolis: Vozes, 2006. p. 237-254.
    REINHOLD, H. H. O Burnout. In: LIPP, M. (Org.). O stress do professor. 5º ed. Campinas: Papirus, 2007. Cap. 5, p.63-80.
    GALINDO. R H, VIRGINIA. K.et al.Síndrome de Burnout Entre Enfermeiros de um Hospital Geral da Cidade do Recife. Rev. Esc. Enfermagem Usp vol. 46. São Paulo, 2012.
    Carlotto MS, Câmara SG. Preditores da Síndrome de Burnout em professores.PsicolEsc Educ. 2007;11(1):101-10
    Carlotto MS, Câmara SG. Análise fatorial do MaslachBurnoutInventory (MBI) em uma amostra de professores de instituições particulares. Psicol Estud. 2004;9(3):499-505. DOI:10.1590/S1413-73722004000300018.
    Ministério da Saúde. DOU nº 89. Decreto 3048 de 6 de maio de 1999.
    Carvalho FA. O mal-estar docente: das chamas devastadoras (Burnout) às flamas da esperança-ação (resiliência) [dissertação de mestrado]. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2003.
  • Procurando liberdade, encontrando a morte.

    Procurando liberdade m, encontrando a morte.
  • Psicose Psicodélica

    ai você está tranquilo, no seu silencioso quarto, solitariamente suportando sua solidão, e nota o quão entediante é ter sua companhia em si. Você sente apertos violentos em seu pescoço, cortes aleatórios em seus pulsos, e fluídos ácidos agitando-se em sua garganta. Às vezes o tempo todo suicídio é a única coisa que preenche sua mente. Você está no meio de uma floresta incendiada no meio da noite, onde mesmo com tudo queimando, mesmo entre gritos e gemidos, sua expressão facial tediosa permanece inabalável. Não adora, não repudia, mas ignora. Que fardo tamanho é você ter que se suportar o dia inteiro, durante épocas e estações. Durante vidas e despedidas. Qualquer probleminha, texto borrado, pano mal dobrado ou leite derramado lhe parece motivo para pensar em vida após a morte, em se iludir com reencarnação, ou simplesmente antecipar seu merecido descanso. Você se sente na necessidade de inovar, de conhecer novas pessoas, se tornar outras coisas, ser muitos, e se enfadar disso. Ah, mas ai você sente algo incomodar sua visão. De tanto preto e branco, um vulto colorido veio e foi com a mesma rapidez. O que seria? Conexão entre mundos, união de universos? A interseção entre a natureza e a sobrenatureza? Outra complicação, também ponto de ignição... mas ai você lembra que o que incomodava sua visão era a venda que você mesmo pôs em seus olhos, para tornar sua companhia menos cansativa. Mas ao tirar a venda, você nota que aquela cortina está agora mais perto. Cada ato seu pode retardar ou acelerar sua aproximação, mas nunca para-la. O que há além dela? Nada? Ah, o desfecho mais esperado, não posso partir sem antes vê-lo. Ansiedade sempre tive, me sinto obrigado a rodar o potenciômetro e acelerar, antecipar, me mutilar, em muitos me tornar. Que egoísmo ser um, eu quero ser muitos, e com essa gilete, esse veneno e essa corda, certamente terei material suficiente para me entreter e, quem sabe, esquecer que estou aqui.
  • Psychotic

    Capítulo 01
    Bam!
    Levantou os olhos cansados, já não aguentando mais ficar naquele lugar. Seus braços estavam cruzados em cima da mesa, e sua expressão já deduzia tudo que queria dizer. Apesar de o homem ter lhe dado as costas, sabia qual seria seu destino dali pra frente...
    – "Plantão". – leu a palavras em vermelho apenas para confirmar. – Ah, não... – choramingou após rolar os olhos.
    Voltou pousar a cabeça em seus braços, começando produzir o som idêntico de um choro, porém não estava chorando. Só queria tirar três horas para descansar, ela também precisava dormir ninguém era de ferro!
    Mas mais um turno noturno, sendo este o seu terceiro. Até quando teria que aguentar? Melhor nem pensar, pois seu corpo não iria aguentar por muito tempo, suas energias estavam esgotadas, e sem querer ser indelicada, mas Amber não aguentaria mais uma noite acordada, nem mesmo se tomasse anfetaminas para manter os olhos abertos!
    – Amber? Tudo bem? – a médica mais velha, adentrou a sala privada dos médicos com uma caixa de objetos em mãos. – Amber...? – chamou novamente, colocando a caixa em cima da mesa, e se aproximando da mulher, que até então não fazia um movimento. – Amber? – a cutucou devagar, e então percebeu que ela tinha os olhos fechados e uma expressão maltratada. – Pobre bichinho, está exausto! – afastou os cabelos de Amber, passando acariciar sua face adormecida.
    O nome dela era Wendy Smith, ou, mais conhecida como a Vovó Wendy do hospital Joseph Louise Morgan. Ela tinha lá seus setenta e oito anos bem vividos, e sua própria aparência denunciava sua idade. Tinha olhos verdes, sobrancelhas finas, cabelos curtos e brancos com alguns – despercebidos – fios pretos. E o sorriso que estampava, quase sempre, em seus lábios tinha o dom de cativar qualquer iniciante na área hospitalar.
    Todos a consideravam a "vovó", por ser a única médica mais velha que aguentou segurar todas as pontas. Sua vida se baseou em controlar os enfermeiros, porém sua responsabilidade dobrou, assim que ganhou os médicos em sua lista.
    Sempre tinha o dever de estudar o paciente, antes de entregá-lo nas mãos de um dos médicos. Essa era sua função. Não acreditava que, estudar a pessoa antes de deixá-la nas mãos de um profissional capacitado, fosse necessário, pois dentro daquele hospital era onde se localizava os melhores médicos do país. Nenhum possuía ficha marcada, todos – sem exceção – executavam muito bem seus trabalhos.
    Wendy tinha um enorme significado, ela era a mãe de todos ali dentro. Sua doçura conseguia cativar a todos, até mesmo um médico orgulhoso e mal-educado, do qual ela conseguia transformar em um profissional respeitoso.
    – Vovó Wendy? – a porta da sala se abriu devagar. – Preciso tirar uma dúvida com a senhora. – ele começou, segurando a nova ficha que recebera do chefe.
    – Alex, Amber trabalhou a noite toda, ontem? – Wendy quis saber, fazendo carinho nas costas da jovem.
    – Ela substituiu o turno da Katy, não se lembra? – respondeu como se fosse óbvio.
    – Katy Hill não voltou pelo visto. – concluiu vendo Alex assentir. – Pobrezinha, ela tem que descansar um pouco. – pronunciou afastando uma mecha de cabelo do rosto de Amber. – Dr. King, não pode levá-la até a ala privada? – questionou encarando o homem docemente.
    – Vovó... – levantou os ombros. – Já estamos na ala privada. – disse como se ela não soubesse.
    – Não digo aqui Alex, me refiro às camas que o hospital disponibiliza para vocês, médicos. – explicou.
    – O chefe não irá... "Encrespar"? – fez aspas com os dedos, deixando sua pasta de documentos em cima da mesa.
    – Irei explicar a situação para ele. – respondeu, visualizando Alex se dirigir para o lado direito de Amber. – Agora, por favor, querido, leve a Dr. Anderson para um descanso, sim? – pediu.
    – Não saia daqui vovó, eu preciso falar com a senhora depois. – avisou antes de pegar o corpo adormecido de Amber, cuidadosamente.
    – Cuidado. – pediu observando Alex caminhar com o corpo da garota nos braços.
    Seus olhos o acompanharam até este empurrar a porta, que daria acesso ao cômodo das camas, com o pé. Assim que a figura de Alex desapareceu, passou prender seus glóbulos fuscos, em tom esverdeado, no documento que antes estavam nas mãos do rapaz.
    Seus dedos enrugados, que tinham envolvimento com a fina camada de pele com manchinhas, abriram o documento, encontrando com algumas fotografias presas por um clips de papel. Com sutileza, as separou, observando os rostos inocentes das crianças. Os lenços amarrados em suas cabeças, já deduziam que todas lutavam contra o câncer.
    O hospital tinha uma área reservada, especialmente para se dedicar as crianças com câncer. E dentro dela, se poderiam encontrar de todos os tipos de sorrisos, ninguém ali demonstrava tristeza!
    O câncer era um assunto bastante delicado para se tratar, e o melhor jeito de lidar com isso era através das visitas públicas, onde pessoas dedicavam um tempo precioso de suas vidas, para fazer almas inocentes rirem.
    – Pelo visto, já descobriu meu assunto com a senhora, vovó Wendy?! – Alex voltou, fechando a porta por onde acabara de sair, com sutileza.
    – Amber acordou? – não, ela não ignorou as palavras de King.
    – Apenas tomou um leve susto quando as costas tocaram o colchão. – respondeu já observando Wendy passar as fotografias. – Ele vai vir hoje! – disse de repente, recebendo os olhos surpresos da vovó.
    – Como sabe? – perguntou abaixando as mãos com as fotos.
    – Ele sempre visita o hospital, nas segundas. – deu de ombros puxando uma cadeira. – Acho gentil da parte dele, tirar algumas horas da rotina, para passar com as crianças. – revelou começando brincar com o elástico da pasta.
    – Ele é um padre, Alex, o que você esperava? – o rapaz rolou os olhos.
    – Nem todo padre, é verdadeiramente um padre! – deixou fluir, cruzando os braços em cima da mesa, deixando um sorriso brincalhão estampar em seus lábios.
    Wendy encarou aquele sorriso com receio. Não gostava quando Alex King, ria após exclamar uma possível suspeita. Odiava ficar em cima da corda. Tudo que Alex mais sabia fazer era imaginar hipóteses e expô-las para o público, como se elas realmente fossem reais, ou fossem se tornar realidade. E isso deixava a vovó cada vez mais incomodada, ele como médico, não deveria viver no mundo da lua!
    – O que quer dizer com isso Alex? – disparou.
    – Eu? Nada, é claro! – foi cínico.
    Alex riu, deixando seu corpo cair para trás. Com os pés apoiados no chão, deixou a cadeira ficar sobre duas das pernas. Levou as mãos para trás da cabeça, e continuou encarando Wendy, concluindo que ela estava louca para mandá-lo para fora dali!
    – Alex, ele é um padre! – exclamou com o tom de voz um pouco alterado, tentando colocar alguma coisa verdadeira naquela mente fértil.
    – E daí que ele é um padre? – o tom de voz desinteressado, estava deixando Wendy irritada. – Ser padre, não significa servir apenas ao Senhor; assim como todo ser humano, um padre está sujeito aos pecados, sendo eles dos mais fáceis de controlar, até os mais difíceis... Ah, quer que eu cite algum pecado tentador? – expôs sua magnífica carreira de dentes brancos.
    – Guarde seus pecados "tentadores", somente para si! – rebateu. – O monsenhor, Bruce Rodriguez, se entregou completamente à igreja. É um dos melhores padres da região, como ousa falar essas coisas dele? – Alex negou com a cabeça, parecendo arrasado.
    – Nunca devemos confiar nas pessoas. O monsenhor pode ser considerado uma pessoa religiosa, respeitosa, pura, porém nós, nunca saberemos o que ele faz quando está fora da área sagrada! – respondeu apertando os olhos conforme pronunciava. – Mas... – se levantou arrumando as fotografias dentro de sua pasta com o documento. – Meu tempo que é sagrado, e têm várias crianças me esperando! – declarou seguindo caminho a porta.
    Wendy rolou os olhos, no fundo, ter demitido Alex King quando o chefe lhe deu a chance, teria sido uma ótima escolha. Mas sentiu pena dele na época, afinal, em sua cabeça, uma pessoa não merecia perder o emprego por deixar um bisturi cair em uma hora de desespero.
    Mas Alex passou dos limites. Falar do Pe. Bruce Rodriguez daquela maneira e com aquele tom de voz cínico, foi demais! A vovó era capaz de esperar tudo vindo dele, menos aquilo... Onde estava o consentimento por ter ganhado uma segunda chance dentro do Joseph Louise Morgan? Que tipo de monstro King se tornou?
    Vovó Wendy não tinha as respostas, porém não tinha tempo para elaborá-las, havia uma paciente preste passar por uma cirurgia no fígado, do qual ela precisava estar presente. Mas se Alex achou que tinha escapado dos questionamentos, estava muito enganado, pois eles sequer começaram!
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    A dobradiça rangeu por um fio de ruído, mas as crianças não mostraram importância com a falta de óleo. Assim que a porta foi empurrada, Amber adentrou a enorme sala, recebendo os olhinhos brilhantes em cima de si. Sorriu, podendo ver duas das meninas correrem em sua direção.
    – Amber! – uma delas emitiu, abraçando a mulher pela cintura.
    – Amber, estava com tanta saudade! – a outra que tinha um lenço branco na cabeça, também a abraçou.
    – Também estava Carly! – sorriu, se abaixando para ficar da altura das meninas. – O que vocês, estão fazendo hoje? – perguntou mantendo seu sorriso.
    – Estamos brincando de casinha. – Carly respondeu.
    – Está na hora do banho, quer brincar junto com a gente, Amber? – a outra ofereceu.
    – Talvez mais tarde Lola. – respondeu, deixando seus olhos caírem sobre as figuras de Alex e Wendy. – Agora vão meninas! – incentivou, e as duas logo correram em direção do tapete, onde estava a casinha de bonecas.
    Sem mais delongas, caminhou em direção da vovó Wendy, que parecia estar dando uma belíssima bronca em Alex. Ótimo, o que ele tinha aprontado daquela vez? Mente fechada e complicada, só poderia resultar em confusão!
    Rolou os olhos assim que viu Alex com os olhos de um predador. O rapaz tinha as mãos na cintura e sua língua umedecida seus lábios, enquanto a vovó lhe ditava palavras que pareciam não agradar muito sua autoestima.
    – O que aconteceu? – foi direto ao ponto.
    – Alex está acusando o Pe. Bruce, de não ser realmente um padre! – Wendy respondeu e Alex riu.
    – Eu não acusei ninguém! – repreendeu tentando segurar o riso. – Eu só falei como uma hipótese. A vovó que está o considerando um infiel à igreja! – Amber mostrou-se confusa.
    – Eu nunca disse que ele era um infiel à igreja, você que citou os pecados "tentadores"! – vovó se defendeu, apontando o dedo no peito de Alex enquanto falava.
    – Alex! – Amber emitiu ficando surpresa com as palavras da vovó.
    – O que? – o ouviu pronunciar. – Sexo não é pecado! Todo e qualquer ser humano necessita. Sentir um pouquinho que seja de prazer, não mata ninguém! – Anderson rolou os olhos, enquanto Wendy cobriu o rosto com as mãos, sentindo vergonha.
    – Você ouviu o que acabou de dizer? – levantou uma sobrancelha. – Está falando de sexo. Um padre, a partir do momento que decide ser padre, nunca se entrega aos pecados tentadores do mundo! – pronunciou firme de si. – Somos todos seres humanos, capazes de cometer erros, e o Pe. Bruce não é diferente de nós. Mas ele possui um ofício, o dever de servir a Deus... Então pare de tentar ver coisas, onde não há! – seu tom de voz firme, talvez intimidasse Alex.
    Mas ele riu, estava debochando de todas as palavras de Amber.
    – Amber, por favor, até parece que nunca transou na vida. – continuou rindo, fazendo a mulher engolir em seco.
    Sexo era um assunto bastante delicado...
    – Isso não vem ao caso, Alex! – rebateu com a voz um pouco alterada.
    – Vem sim! – provocou seguindo com passos lentos, até estar cara a cara com ela. – Diga, não é gostoso sentir o prazer vivo em suas entranhas? Ouvir sua própria melodia; sentir suas pernas bambas com cada round; o suor desenhando por sua pele... É capaz de negar que não gosta? – direcionou o olhar convencido para o olhar, já irritado, de Amber.
    – Eu disse... Que isso, não vem ao caso Alex King! – rosnou entre os dentes.
    – Parem já, vocês dois! – vovó interviu, os separando a partir do momento que ficou no meio deles.
    Alex tentou avançar com seus passos, mas a vovó o impediu, fazendo-o recuar com o olhar raivoso. Amber o encarava profundamente, com série de dúvidas... Bruce não merecia ser visto daquela maneira, de modo algum ele faltou com respeito à igreja, então não havia motivos para Alex julgá-lo.
    Sinceramente, Alex King tinha uma mente que precisava passar por um tratamento!
    – Eu só estava tentando ser amigável em conversar sobre sexo com você, Amber Anderson. – sorriu sarcasticamente.
    – Eu não preciso que ninguém... – Amber ia se defender, mas a porta escolheu justo aquele momento para se abrir. – Acho que seu amigo chegou Alex! – provocou fazendo o rapaz rolar os olhos.
    Wendy abriu um sorriso largo, e se dirigiu em direção do novo indivíduo, deixando Alex e Amber livres para se atacarem.
    A mulher, por outro lado, ignorou a presença de King, não queria ter que trocar palavras com ele, homem desprezível que só pensava em sexo!
    Amber Anderson não gostava de conversar sobre sexo. Sentia-se envergonhada. Era virgem aos vinte e três anos, não que nunca ter transado fosse uma vergonha, mas se sentia desconfortável por conversar sobre tesão sexual com alguém experiente, como Alex.
    – Bruce te adora Amber, não quer ir lá conversar com ele? – ouviu a voz de Alex, e tudo que fez foi ignorá-lo. – Não quer trocar umas palavrinhas? – provocou novamente, e ela apenas rolou os olhos. – Vai me ignorar mesmo Amber?! – entrou na frente dela com as sobrancelhas arcadas.
    – Nunca mais fale sobre sexo comigo! – deixou claro.
    – E, por acaso, isso é algum crime? Você já transou Amber, então não é constrangimento algum falar sobre isso! – se explicou, e visualizou a mulher abaixar a cabeça.
    – Alex entenda... – envergonhada olhou para os lados para se certificar de que ninguém mais, além dele, ouviria. – Eu sou virgem. – falou baixo apenas para ele ouvir.
    – Wow... Amber eu... – ficou sem jeito. – Eu não sabia, pensei que você e Jackson já...
    – Não, eu não deixei. Nunca me senti segura, por isso ele terminou. – explicou.
    – Entendo... Mas se quiser, a gente pode resolver isso! – indicou o banheiro com o queixo.
    – Estúpido! – riu acertando um tapa contra o ombro dele.
    Alex não escondia, e era preciso apenas estudar o seu sorriso para ver que ele sentia uma atração por Amber. Eram amigos desde que ela entrara para o hospital, e sempre, desde o primeiro dia, sentiu uma atração muito forte por ela.
    Ele queria fazer parte de um pedaço da vida da mulher, porém isso tinha se tornado algo difícil. Toda vez que tentava conversar sobre relacionamento, tentava ser o mais delicado possível, mas Amber sempre mudava de assunto quando ele questionava sobre intimidade.
    Agora entedia. Ela era virgem!
    – Você já se masturbou, alguma vez, Anderson? – questionou de repente.
    – Eu, hã... – travou, mas foi salva.
    – Amber! Amber! – duas meninas começaram a gritar correndo na direção da garota.
    – Fale meninas. – foi simpática e Alex observou seu sorriso tão lindo...
    – O Pe. Bruce quer falar com você. – Zoe respondeu segurando a mão da mulher.
    – Ele disse que vai nos ensinar como fazer uma torta de maçã, mas você tem que ir junto! – já lhe puxava a outra mão.
    – Parece interessante a ideia, Carly! – sorriu, deixando-se guiar pelas duas meninas.
    Alex mordera os lábios, onde estava com a cabeça? No mundo da lua só podia ser!
    Era bem óbvio, pela cara de vergonha de Amber em revelar que era virgem que ela nunca tinha se masturbado. Mas homens, oh, criaturas burras, sempre estragam tudo!
    Alex King buscava ter uma chance com Amber, certo? Pois bem, acabou com todas as suas chances possíveis!
    Passou acompanhar os movimentos de Anderson, vendo-a abraçar o Pe. Bruce com um sorriso largo nos lábios. Aquilo o fez revirar os olhos. Será que ele era o único com pensamentos diferentes sobre aquele padre? Não era possível que ninguém acreditava nele, não necessariamente precisavam concordar, então pelo menos respeitar suas teorias já era o suficiente, mas ninguém, certamente NINGUÉM tinha capacidade para fazer isso!
    Até mesmo a vovó Wendy, que julgava sendo como uma mãe ficou contra si, isso sem comentar de Amber...
    – Eu vou vomitar! – exclamou rolando os olhos, saindo em direção da saída da sala, com certeza, papéis ou arquivos eram muito mais interessantes que ficar ali observando Amber sorrindo abertamente para o padre.
    Sabe o quanto ele daria para receber um sorriso daqueles? Melhor nem dizer...
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    A mão arrumou uma mecha de cabelo atrás da orelha, era ela simplesmente linda demais! A mulher mais bonita de todo o hospital Joseph Louise Morgan!
    Afastou o cigarro dos lábios, soltando a fumaça para o alto, a cor branca começou desenhar um lado obscuro do puro desejo e atração. Os traços da fumaça desapareceram com a força do vento, porém esse era o menor dos problemas.
    Amber Anderson, era a sua garota, a escolhida para viver anos ao seu lado. Afastando novamente o cigarro dos lábios, jogou-o no chão, fazendo questão de pisar em cima, ninguém poderia saber que ele fumava.
    Precisava manter sua imagem no hospital.
    Pela última vez, espiou a imagem de Amber agora conversando com Wendy, e um sorriso acabou dominando seus lábios, ela era realmente a melhor mulher que já encontrara!
    E antes que dois médicos pudessem sair do estabelecimento, se dirigiu rapidamente em direção de seu automóvel. Adentrara o lado do motorista começando checar seus pertences, que estavam dentro da caixa em cima do banco do passageiro, e assim que conferiu cada detalhe, fechou a caixa com a tampa. Ele não iria precisar mais daquilo, somente no dia seguinte, agora seu rumo seria outra residência...
    Girando a chave da ignição, pisou fundo no acelerador, cantando os pneus. A imagem de Amber estava gravada em sua mente, mas agora não poderia contar mais com ela, sua próxima parada exigia um talento que ele escondia nas próprias mãos!
    Dentro do hospital, Amber caminhava pelo corredor, segurando sua prancheta de pacientes em mãos. A noite finalmente caiu e cobriu todo o céu de San Rosie, e o hospital nunca ficou tão escuro e frio igual naquela noite.
    A mulher esfregava as mãos nos braços na tentativa de espantar o frio, mas era tudo inevitável. Seus pelos continuavam se arrepiando lhe alertando que aquele seria um dos seus piores plantões!
    – Amber! – parou imediatamente os passos, virando na direção da voz.
    – Como está sendo sua noite, Jacob, belíssima? – tentou colocar sarcasmo na voz, o que foi um fracasso.
    – Deve está sendo o mesmo que a sua. – respondeu dando de ombros, acompanhando Amber que seguia para o balcão na recepção.
    – Que coincidência, não? O chefe do hospital pegando plantão, como qualquer outro médico, chega até soar engraçado! – caçoou rindo.
    – Amber pare de agir como uma criança no jardim de infância! – exigiu, e ela fingiu não ouvir, estava ocupada demais assinando alguns documentos. – Nem parece que é médica e sim, uma faxineira que só resmunga! – comparou e logo Anderson se virou, ficando cara a cara com Jacob.
    – Se eu pareço uma faxineira, por que me contratou para servir o seu hospital? – disparou firme.
    – Amber... Eu ter deixado dois plantão na sua mão, já são provas o suficiente do que você significa para mim. – respondeu, e a mulher negou com a cabeça e um sorriso cínico.
    – Foram duas noites, Jacob! – rebateu seguindo novamente para o corredor.
    – Me deixa falar Amber! – emitiu, começando segui-la.
    – Eu não tenho nada do que falar com você! – emitiu continuando com seus passos.
    Jacob percebendo que nada iria adiantar para parar Amber resolveu aumentar a velocidade de suas pernas. Conseguiu, com muito esforço, entrar na frente dela, e a mulher em contradição somente parou e rolou os olhos impaciente.
    – O que você quer Jacob? – deu-se por vencida.
    – Você está livre do plantão de hoje. – resolveu despejar tudo na primeira oportunidade que tivesse.
    – Por q... Não, cadê o documento onde consta minha demissão? – esperou que ele retirasse alguma folha do jaleco e lhe entregasse, o que não aconteceu, ao contrário ele riu.
    – Acha mesmo que vou demiti-la só porque a dispensei do plantão? – riu mais uma vez, e Amber suspirou em raiva. – Não se preocupe Amber, enquanto eu estiver no cargo de chefe, você nunca será demitida. – deixou claro antes de seguir para a recepção, de onde antes estavam.
    Rolou os olhos mais uma vez. Jacob Write com trinta e dois anos conseguia mesmo ser surpreendente. De repente joga um plantão nas mãos de Amber e logo depois decidi retirá-la do plantão?! Que tipo de chefe era aquele?
    Enquanto tentava refletir sobre a mudança de plantão observava, na mesma posição, à figura morena de Jacob conferindo algumas pastas. A secretária ria de alguma idiotice que com certeza saiu pelos lábios de Write.
    Era incrível como todas as mulheres tinham uma queda pelo chefe!
    Claro, com seus cabelos castanhos, corpo esculpido – nada muito exagerado – sorriso colgate e olhos azuis, malditos olhos azuis, ele só poderia ter sido um erro genético!
    Jacob Write tinha apenas trinta e dois anos, como era possível ter aquela aparência? Tudo bem que os olhos azuis lhe dava o charme natural, mas com sua idade, o certo seria estar casado, com filhos e aparência velha, mas Jacob era totalmente o oposto de tudo, começando por estar solteiro.
    Homens do século XXI.
    Amber balançou a cabeça de um lado para o outro, retornando para sua caminhada pelo corredor. Já que não teria mais que ficar responsável pelo plantão, o que mais poderia fazer? Só lhe restava ir dormir, pois se voltasse para casa teria que encarar a figura de Alex e vovó. O que de fato não estava com determinação para encarar...
  • Psychotic

    Capítulo 01
    Bam!
    Levantou os olhos cansados, já não aguentando mais ficar naquele lugar. Seus braços estavam cruzados em cima da mesa, e sua expressão já deduzia tudo que queria dizer. Apesar de o homem ter lhe dado as costas, sabia qual seria seu destino dali pra frente...
    – "Plantão". – leu a palavras em vermelho apenas para confirmar. – Ah, não... – choramingou após rolar os olhos.
    Voltou pousar a cabeça em seus braços, começando produzir o som idêntico de um choro, porém não estava chorando. Só queria tirar três horas para descansar, ela também precisava dormir ninguém era de ferro!
    Mas mais um turno noturno, sendo este o seu terceiro. Até quando teria que aguentar? Melhor nem pensar, pois seu corpo não iria aguentar por muito tempo, suas energias estavam esgotadas, e sem querer ser indelicada, mas Amber não aguentaria mais uma noite acordada, nem mesmo se tomasse anfetaminas para manter os olhos abertos!
    – Amber? Tudo bem? – a médica mais velha, adentrou a sala privada dos médicos com uma caixa de objetos em mãos. – Amber...? – chamou novamente, colocando a caixa em cima da mesa, e se aproximando da mulher, que até então não fazia um movimento. – Amber? – a cutucou devagar, e então percebeu que ela tinha os olhos fechados e uma expressão maltratada. – Pobre bichinho, está exausto! – afastou os cabelos de Amber, passando acariciar sua face adormecida.
    O nome dela era Wendy Smith, ou, mais conhecida como a Vovó Wendy do hospital Joseph Louise Morgan. Ela tinha lá seus setenta e oito anos bem vividos, e sua própria aparência denunciava sua idade. Tinha olhos verdes, sobrancelhas finas, cabelos curtos e brancos com alguns – despercebidos – fios pretos. E o sorriso que estampava, quase sempre, em seus lábios tinha o dom de cativar qualquer iniciante na área hospitalar.
    Todos a consideravam a "vovó", por ser a única médica mais velha que aguentou segurar todas as pontas. Sua vida se baseou em controlar os enfermeiros, porém sua responsabilidade dobrou, assim que ganhou os médicos em sua lista.
    Sempre tinha o dever de estudar o paciente, antes de entregá-lo nas mãos de um dos médicos. Essa era sua função. Não acreditava que, estudar a pessoa antes de deixá-la nas mãos de um profissional capacitado, fosse necessário, pois dentro daquele hospital era onde se localizava os melhores médicos do país. Nenhum possuía ficha marcada, todos – sem exceção – executavam muito bem seus trabalhos.
    Wendy tinha um enorme significado, ela era a mãe de todos ali dentro. Sua doçura conseguia cativar a todos, até mesmo um médico orgulhoso e mal-educado, do qual ela conseguia transformar em um profissional respeitoso.
    – Vovó Wendy? – a porta da sala se abriu devagar. – Preciso tirar uma dúvida com a senhora. – ele começou, segurando a nova ficha que recebera do chefe.
    – Alex, Amber trabalhou a noite toda, ontem? – Wendy quis saber, fazendo carinho nas costas da jovem.
    – Ela substituiu o turno da Katy, não se lembra? – respondeu como se fosse óbvio.
    – Katy Hill não voltou pelo visto. – concluiu vendo Alex assentir. – Pobrezinha, ela tem que descansar um pouco. – pronunciou afastando uma mecha de cabelo do rosto de Amber. – Dr. King, não pode levá-la até a ala privada? – questionou encarando o homem docemente.
    – Vovó... – levantou os ombros. – Já estamos na ala privada. – disse como se ela não soubesse.
    – Não digo aqui Alex, me refiro às camas que o hospital disponibiliza para vocês, médicos. – explicou.
    – O chefe não irá... "Encrespar"? – fez aspas com os dedos, deixando sua pasta de documentos em cima da mesa.
    – Irei explicar a situação para ele. – respondeu, visualizando Alex se dirigir para o lado direito de Amber. – Agora, por favor, querido, leve a Dr. Anderson para um descanso, sim? – pediu.
    – Não saia daqui vovó, eu preciso falar com a senhora depois. – avisou antes de pegar o corpo adormecido de Amber, cuidadosamente.
    – Cuidado. – pediu observando Alex caminhar com o corpo da garota nos braços.
    Seus olhos o acompanharam até este empurrar a porta, que daria acesso ao cômodo das camas, com o pé. Assim que a figura de Alex desapareceu, passou prender seus glóbulos fuscos, em tom esverdeado, no documento que antes estavam nas mãos do rapaz.
    Seus dedos enrugados, que tinham envolvimento com a fina camada de pele com manchinhas, abriram o documento, encontrando com algumas fotografias presas por um clips de papel. Com sutileza, as separou, observando os rostos inocentes das crianças. Os lenços amarrados em suas cabeças, já deduziam que todas lutavam contra o câncer.
    O hospital tinha uma área reservada, especialmente para se dedicar as crianças com câncer. E dentro dela, se poderiam encontrar de todos os tipos de sorrisos, ninguém ali demonstrava tristeza!
    O câncer era um assunto bastante delicado para se tratar, e o melhor jeito de lidar com isso era através das visitas públicas, onde pessoas dedicavam um tempo precioso de suas vidas, para fazer almas inocentes rirem.
    – Pelo visto, já descobriu meu assunto com a senhora, vovó Wendy?! – Alex voltou, fechando a porta por onde acabara de sair, com sutileza.
    – Amber acordou? – não, ela não ignorou as palavras de King.
    – Apenas tomou um leve susto quando as costas tocaram o colchão. – respondeu já observando Wendy passar as fotografias. – Ele vai vir hoje! – disse de repente, recebendo os olhos surpresos da vovó.
    – Como sabe? – perguntou abaixando as mãos com as fotos.
    – Ele sempre visita o hospital, nas segundas. – deu de ombros puxando uma cadeira. – Acho gentil da parte dele, tirar algumas horas da rotina, para passar com as crianças. – revelou começando brincar com o elástico da pasta.
    – Ele é um padre, Alex, o que você esperava? – o rapaz rolou os olhos.
    – Nem todo padre, é verdadeiramente um padre! – deixou fluir, cruzando os braços em cima da mesa, deixando um sorriso brincalhão estampar em seus lábios.
    Wendy encarou aquele sorriso com receio. Não gostava quando Alex King, ria após exclamar uma possível suspeita. Odiava ficar em cima da corda. Tudo que Alex mais sabia fazer era imaginar hipóteses e expô-las para o público, como se elas realmente fossem reais, ou fossem se tornar realidade. E isso deixava a vovó cada vez mais incomodada, ele como médico, não deveria viver no mundo da lua!
    – O que quer dizer com isso Alex? – disparou.
    – Eu? Nada, é claro! – foi cínico.
    Alex riu, deixando seu corpo cair para trás. Com os pés apoiados no chão, deixou a cadeira ficar sobre duas das pernas. Levou as mãos para trás da cabeça, e continuou encarando Wendy, concluindo que ela estava louca para mandá-lo para fora dali!
    – Alex, ele é um padre! – exclamou com o tom de voz um pouco alterado, tentando colocar alguma coisa verdadeira naquela mente fértil.
    – E daí que ele é um padre? – o tom de voz desinteressado, estava deixando Wendy irritada. – Ser padre, não significa servir apenas ao Senhor; assim como todo ser humano, um padre está sujeito aos pecados, sendo eles dos mais fáceis de controlar, até os mais difíceis... Ah, quer que eu cite algum pecado tentador? – expôs sua magnífica carreira de dentes brancos.
    – Guarde seus pecados "tentadores", somente para si! – rebateu. – O monsenhor, Bruce Rodriguez, se entregou completamente à igreja. É um dos melhores padres da região, como ousa falar essas coisas dele? – Alex negou com a cabeça, parecendo arrasado.
    – Nunca devemos confiar nas pessoas. O monsenhor pode ser considerado uma pessoa religiosa, respeitosa, pura, porém nós, nunca saberemos o que ele faz quando está fora da área sagrada! – respondeu apertando os olhos conforme pronunciava. – Mas... – se levantou arrumando as fotografias dentro de sua pasta com o documento. – Meu tempo que é sagrado, e têm várias crianças me esperando! – declarou seguindo caminho a porta.
    Wendy rolou os olhos, no fundo, ter demitido Alex King quando o chefe lhe deu a chance, teria sido uma ótima escolha. Mas sentiu pena dele na época, afinal, em sua cabeça, uma pessoa não merecia perder o emprego por deixar um bisturi cair em uma hora de desespero.
    Mas Alex passou dos limites. Falar do Pe. Bruce Rodriguez daquela maneira e com aquele tom de voz cínico, foi demais! A vovó era capaz de esperar tudo vindo dele, menos aquilo... Onde estava o consentimento por ter ganhado uma segunda chance dentro do Joseph Louise Morgan? Que tipo de monstro King se tornou?
    Vovó Wendy não tinha as respostas, porém não tinha tempo para elaborá-las, havia uma paciente preste passar por uma cirurgia no fígado, do qual ela precisava estar presente. Mas se Alex achou que tinha escapado dos questionamentos, estava muito enganado, pois eles sequer começaram!
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    A dobradiça rangeu por um fio de ruído, mas as crianças não mostraram importância com a falta de óleo. Assim que a porta foi empurrada, Amber adentrou a enorme sala, recebendo os olhinhos brilhantes em cima de si. Sorriu, podendo ver duas das meninas correrem em sua direção.
    – Amber! – uma delas emitiu, abraçando a mulher pela cintura.
    – Amber, estava com tanta saudade! – a outra que tinha um lenço branco na cabeça, também a abraçou.
    – Também estava Carly! – sorriu, se abaixando para ficar da altura das meninas. – O que vocês, estão fazendo hoje? – perguntou mantendo seu sorriso.
    – Estamos brincando de casinha. – Carly respondeu.
    – Está na hora do banho, quer brincar junto com a gente, Amber? – a outra ofereceu.
    – Talvez mais tarde Lola. – respondeu, deixando seus olhos caírem sobre as figuras de Alex e Wendy. – Agora vão meninas! – incentivou, e as duas logo correram em direção do tapete, onde estava a casinha de bonecas.
    Sem mais delongas, caminhou em direção da vovó Wendy, que parecia estar dando uma belíssima bronca em Alex. Ótimo, o que ele tinha aprontado daquela vez? Mente fechada e complicada, só poderia resultar em confusão!
    Rolou os olhos assim que viu Alex com os olhos de um predador. O rapaz tinha as mãos na cintura e sua língua umedecida seus lábios, enquanto a vovó lhe ditava palavras que pareciam não agradar muito sua autoestima.
    – O que aconteceu? – foi direto ao ponto.
    – Alex está acusando o Pe. Bruce, de não ser realmente um padre! – Wendy respondeu e Alex riu.
    – Eu não acusei ninguém! – repreendeu tentando segurar o riso. – Eu só falei como uma hipótese. A vovó que está o considerando um infiel à igreja! – Amber mostrou-se confusa.
    – Eu nunca disse que ele era um infiel à igreja, você que citou os pecados "tentadores"! – vovó se defendeu, apontando o dedo no peito de Alex enquanto falava.
    – Alex! – Amber emitiu ficando surpresa com as palavras da vovó.
    – O que? – o ouviu pronunciar. – Sexo não é pecado! Todo e qualquer ser humano necessita. Sentir um pouquinho que seja de prazer, não mata ninguém! – Anderson rolou os olhos, enquanto Wendy cobriu o rosto com as mãos, sentindo vergonha.
    – Você ouviu o que acabou de dizer? – levantou uma sobrancelha. – Está falando de sexo. Um padre, a partir do momento que decide ser padre, nunca se entrega aos pecados tentadores do mundo! – pronunciou firme de si. – Somos todos seres humanos, capazes de cometer erros, e o Pe. Bruce não é diferente de nós. Mas ele possui um ofício, o dever de servir a Deus... Então pare de tentar ver coisas, onde não há! – seu tom de voz firme, talvez intimidasse Alex.
    Mas ele riu, estava debochando de todas as palavras de Amber.
    – Amber, por favor, até parece que nunca transou na vida. – continuou rindo, fazendo a mulher engolir em seco.
    Sexo era um assunto bastante delicado...
    – Isso não vem ao caso, Alex! – rebateu com a voz um pouco alterada.
    – Vem sim! – provocou seguindo com passos lentos, até estar cara a cara com ela. – Diga, não é gostoso sentir o prazer vivo em suas entranhas? Ouvir sua própria melodia; sentir suas pernas bambas com cada round; o suor desenhando por sua pele... É capaz de negar que não gosta? – direcionou o olhar convencido para o olhar, já irritado, de Amber.
    – Eu disse... Que isso, não vem ao caso Alex King! – rosnou entre os dentes.
    – Parem já, vocês dois! – vovó interviu, os separando a partir do momento que ficou no meio deles.
    Alex tentou avançar com seus passos, mas a vovó o impediu, fazendo-o recuar com o olhar raivoso. Amber o encarava profundamente, com série de dúvidas... Bruce não merecia ser visto daquela maneira, de modo algum ele faltou com respeito à igreja, então não havia motivos para Alex julgá-lo.
    Sinceramente, Alex King tinha uma mente que precisava passar por um tratamento!
    – Eu só estava tentando ser amigável em conversar sobre sexo com você, Amber Anderson. – sorriu sarcasticamente.
    – Eu não preciso que ninguém... – Amber ia se defender, mas a porta escolheu justo aquele momento para se abrir. – Acho que seu amigo chegou Alex! – provocou fazendo o rapaz rolar os olhos.
    Wendy abriu um sorriso largo, e se dirigiu em direção do novo indivíduo, deixando Alex e Amber livres para se atacarem.
    A mulher, por outro lado, ignorou a presença de King, não queria ter que trocar palavras com ele, homem desprezível que só pensava em sexo!
    Amber Anderson não gostava de conversar sobre sexo. Sentia-se envergonhada. Era virgem aos vinte e três anos, não que nunca ter transado fosse uma vergonha, mas se sentia desconfortável por conversar sobre tesão sexual com alguém experiente, como Alex.
    – Bruce te adora Amber, não quer ir lá conversar com ele? – ouviu a voz de Alex, e tudo que fez foi ignorá-lo. – Não quer trocar umas palavrinhas? – provocou novamente, e ela apenas rolou os olhos. – Vai me ignorar mesmo Amber?! – entrou na frente dela com as sobrancelhas arcadas.
    – Nunca mais fale sobre sexo comigo! – deixou claro.
    – E, por acaso, isso é algum crime? Você já transou Amber, então não é constrangimento algum falar sobre isso! – se explicou, e visualizou a mulher abaixar a cabeça.
    – Alex entenda... – envergonhada olhou para os lados para se certificar de que ninguém mais, além dele, ouviria. – Eu sou virgem. – falou baixo apenas para ele ouvir.
    – Wow... Amber eu... – ficou sem jeito. – Eu não sabia, pensei que você e Jackson já...
    – Não, eu não deixei. Nunca me senti segura, por isso ele terminou. – explicou.
    – Entendo... Mas se quiser, a gente pode resolver isso! – indicou o banheiro com o queixo.
    – Estúpido! – riu acertando um tapa contra o ombro dele.
    Alex não escondia, e era preciso apenas estudar o seu sorriso para ver que ele sentia uma atração por Amber. Eram amigos desde que ela entrara para o hospital, e sempre, desde o primeiro dia, sentiu uma atração muito forte por ela.
    Ele queria fazer parte de um pedaço da vida da mulher, porém isso tinha se tornado algo difícil. Toda vez que tentava conversar sobre relacionamento, tentava ser o mais delicado possível, mas Amber sempre mudava de assunto quando ele questionava sobre intimidade.
    Agora entedia. Ela era virgem!
    – Você já se masturbou, alguma vez, Anderson? – questionou de repente.
    – Eu, hã... – travou, mas foi salva.
    – Amber! Amber! – duas meninas começaram a gritar correndo na direção da garota.
    – Fale meninas. – foi simpática e Alex observou seu sorriso tão lindo...
    – O Pe. Bruce quer falar com você. – Zoe respondeu segurando a mão da mulher.
    – Ele disse que vai nos ensinar como fazer uma torta de maçã, mas você tem que ir junto! – já lhe puxava a outra mão.
    – Parece interessante a ideia, Carly! – sorriu, deixando-se guiar pelas duas meninas.
    Alex mordera os lábios, onde estava com a cabeça? No mundo da lua só podia ser!
    Era bem óbvio, pela cara de vergonha de Amber em revelar que era virgem que ela nunca tinha se masturbado. Mas homens, oh, criaturas burras, sempre estragam tudo!
    Alex King buscava ter uma chance com Amber, certo? Pois bem, acabou com todas as suas chances possíveis!
    Passou acompanhar os movimentos de Anderson, vendo-a abraçar o Pe. Bruce com um sorriso largo nos lábios. Aquilo o fez revirar os olhos. Será que ele era o único com pensamentos diferentes sobre aquele padre? Não era possível que ninguém acreditava nele, não necessariamente precisavam concordar, então pelo menos respeitar suas teorias já era o suficiente, mas ninguém, certamente NINGUÉM tinha capacidade para fazer isso!
    Até mesmo a vovó Wendy, que julgava sendo como uma mãe ficou contra si, isso sem comentar de Amber...
    – Eu vou vomitar! – exclamou rolando os olhos, saindo em direção da saída da sala, com certeza, papéis ou arquivos eram muito mais interessantes que ficar ali observando Amber sorrindo abertamente para o padre.
    Sabe o quanto ele daria para receber um sorriso daqueles? Melhor nem dizer...
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    A mão arrumou uma mecha de cabelo atrás da orelha, era ela simplesmente linda demais! A mulher mais bonita de todo o hospital Joseph Louise Morgan!
    Afastou o cigarro dos lábios, soltando a fumaça para o alto, a cor branca começou desenhar um lado obscuro do puro desejo e atração. Os traços da fumaça desapareceram com a força do vento, porém esse era o menor dos problemas.
    Amber Anderson, era a sua garota, a escolhida para viver anos ao seu lado. Afastando novamente o cigarro dos lábios, jogou-o no chão, fazendo questão de pisar em cima, ninguém poderia saber que ele fumava.
    Precisava manter sua imagem no hospital.
    Pela última vez, espiou a imagem de Amber agora conversando com Wendy, e um sorriso acabou dominando seus lábios, ela era realmente a melhor mulher que já encontrara!
    E antes que dois médicos pudessem sair do estabelecimento, se dirigiu rapidamente em direção de seu automóvel. Adentrara o lado do motorista começando checar seus pertences, que estavam dentro da caixa em cima do banco do passageiro, e assim que conferiu cada detalhe, fechou a caixa com a tampa. Ele não iria precisar mais daquilo, somente no dia seguinte, agora seu rumo seria outra residência...
    Girando a chave da ignição, pisou fundo no acelerador, cantando os pneus. A imagem de Amber estava gravada em sua mente, mas agora não poderia contar mais com ela, sua próxima parada exigia um talento que ele escondia nas próprias mãos!
    Dentro do hospital, Amber caminhava pelo corredor, segurando sua prancheta de pacientes em mãos. A noite finalmente caiu e cobriu todo o céu de San Rosie, e o hospital nunca ficou tão escuro e frio igual naquela noite.
    A mulher esfregava as mãos nos braços na tentativa de espantar o frio, mas era tudo inevitável. Seus pelos continuavam se arrepiando lhe alertando que aquele seria um dos seus piores plantões!
    – Amber! – parou imediatamente os passos, virando na direção da voz.
    – Como está sendo sua noite, Jacob, belíssima? – tentou colocar sarcasmo na voz, o que foi um fracasso.
    – Deve está sendo o mesmo que a sua. – respondeu dando de ombros, acompanhando Amber que seguia para o balcão na recepção.
    – Que coincidência, não? O chefe do hospital pegando plantão, como qualquer outro médico, chega até soar engraçado! – caçoou rindo.
    – Amber pare de agir como uma criança no jardim de infância! – exigiu, e ela fingiu não ouvir, estava ocupada demais assinando alguns documentos. – Nem parece que é médica e sim, uma faxineira que só resmunga! – comparou e logo Anderson se virou, ficando cara a cara com Jacob.
    – Se eu pareço uma faxineira, por que me contratou para servir o seu hospital? – disparou firme.
    – Amber... Eu ter deixado dois plantão na sua mão, já são provas o suficiente do que você significa para mim. – respondeu, e a mulher negou com a cabeça e um sorriso cínico.
    – Foram duas noites, Jacob! – rebateu seguindo novamente para o corredor.
    – Me deixa falar Amber! – emitiu, começando segui-la.
    – Eu não tenho nada do que falar com você! – emitiu continuando com seus passos.
    Jacob percebendo que nada iria adiantar para parar Amber resolveu aumentar a velocidade de suas pernas. Conseguiu, com muito esforço, entrar na frente dela, e a mulher em contradição somente parou e rolou os olhos impaciente.
    – O que você quer Jacob? – deu-se por vencida.
    – Você está livre do plantão de hoje. – resolveu despejar tudo na primeira oportunidade que tivesse.
    – Por q... Não, cadê o documento onde consta minha demissão? – esperou que ele retirasse alguma folha do jaleco e lhe entregasse, o que não aconteceu, ao contrário ele riu.
    – Acha mesmo que vou demiti-la só porque a dispensei do plantão? – riu mais uma vez, e Amber suspirou em raiva. – Não se preocupe Amber, enquanto eu estiver no cargo de chefe, você nunca será demitida. – deixou claro antes de seguir para a recepção, de onde antes estavam.
    Rolou os olhos mais uma vez. Jacob Write com trinta e dois anos conseguia mesmo ser surpreendente. De repente joga um plantão nas mãos de Amber e logo depois decidi retirá-la do plantão?! Que tipo de chefe era aquele?
    Enquanto tentava refletir sobre a mudança de plantão observava, na mesma posição, à figura morena de Jacob conferindo algumas pastas. A secretária ria de alguma idiotice que com certeza saiu pelos lábios de Write.
    Era incrível como todas as mulheres tinham uma queda pelo chefe!
    Claro, com seus cabelos castanhos, corpo esculpido – nada muito exagerado – sorriso colgate e olhos azuis, malditos olhos azuis, ele só poderia ter sido um erro genético!
    Jacob Write tinha apenas trinta e dois anos, como era possível ter aquela aparência? Tudo bem que os olhos azuis lhe dava o charme natural, mas com sua idade, o certo seria estar casado, com filhos e aparência velha, mas Jacob era totalmente o oposto de tudo, começando por estar solteiro.
    Homens do século XXI.
    Amber balançou a cabeça de um lado para o outro, retornando para sua caminhada pelo corredor. Já que não teria mais que ficar responsável pelo plantão, o que mais poderia fazer? Só lhe restava ir dormir, pois se voltasse para casa teria que encarar a figura de Alex e vovó. O que de fato não estava com determinação para encarar...
  • Rejeição

    Não tenho mais vontade de nada, estou emocionalmente destruída, juro, nunca imaginei que fosse passar por isso na minha vida, ainda mais por alguém, por alguém que ficou tão pouco, que fez tão pouco de mim... Não tenho mais rumo, mais perspectivas, estou só sofrendo calada, suportando a dor de ter sido rejeitada.

  • Renúncia

    O telefone havia tocado no meio da tarde. Um problema em uma nota fiscal me deixou presa por duas horas no computador e acabei almoçando uma hora depois do costume. Era uma sexta feira e nada estava sendo fácil. Tenho que me lembrar de nunca mais autorizar a emissão de uma nota sem descriminação exata dos descontos da editora com a livraria.
    Estava pagando a conta do almoço. A comida foi realmente boa e eu já me preparava para voltar e descobrir se a correção da nota havia funcionado, ou se teria de refazer as mais de nove páginas. Senti uma vibração na bolsa bem no momento em que digitava a senha do cartão. Tirei o celular, distraída e torcendo para ter digitado a senha correta, quando a vibração parou. Olhei no histórico e vi que a chamada perdida era da minha irmã. Saí do restaurante, uma referência gastronômica na Rua Fradique Coutinho, na Vila Madalena, e andei de volta para o escritório, poucas quadras a frente. Incomodada com o forte calor e com dificuldade de enxergar a tela do celular naquele sol forte, pressionei para retornar a chamada. Refletia sobre o que Aline poderia querer falar comigo já que raramente me ligava, principalmente nos dias úteis da semana. Alguém atende e na voz de minha irmã sinto um incômodo e um tom ansioso.
    – Me ligou Aline? – perguntei.
    – Sim, Denise. – Ela hesitou por alguns segundos, seja disfarçando a voz, limpando a garganta ou procurando palavras. – Queria saber se você pode passar aqui depois do trabalho. Preciso falar uma coisa com você.
    – É importante? – perguntei num tom seco. Percebi a grosseria da minha voz e fiz questão de adicionar alguma pergunta conciliatória. – Bem, você sabe, tenho que atravessar a cidade pra chegar aí. Não quer conversar no domingo? Posso levar alguma coisa pra gente almoçar.
    – Não, tem que ser hoje. Denise, é bem importante – disse lentamente e com a voz baixa. – É sobre o Gustavo.
    Refleti por alguns segundos. Sobre o Gustavo? Que tipo de problema com ele poderia necessitar da minha presença? Pelo tom de voz dela percebi que, fosse o que fosse, ela não falaria pelo telefone. Segurei o celular firme, enquanto atravessava o uma rua. Olho pra cima e vejo fortes nuvens se formando acima dos prédios. Uma ambulância soa na rua paralela. Suspiro ao imaginar o humor do trânsito no próximo horário de pico.
    – Está bem, eu passo. Mas vou chegar ai depois das sete, tudo bem?
    – Sim, claro. Obrigada.
    – Combinado, até.
    Desliguei com uma estranha sensação no peito. As vezes eu costumava almoçar, seja num domingo ou feriado, na casa da minha irmã. Mas ela nunca me chamou assim, para visitá-la no final de uma tarde de sexta feira.
    Minha irmã mora com meu sobrinho, agora. O marido dela morreu dois anos atrás, quando voltava de um jogo de futebol com Gustavo. Já era tarde da noite, e meu cunhado acostumara-se a não parar em faróis vazios em ruas desertas. Havia sido assaltado três vezes e não queria que o filho presenciasse a quarta. Por azar, enquanto corria e ignorava o farol vermelho num cruzamento na Zona Sul, um esportivo o atingiu numa velocidade alta. Meu cunhado morreu na hora, prensado contra o capô do carro que o encontrou. Meu sobrinho, que estava no banco de trás, conseguiu sobreviver. Não perdeu nenhum membro nem teve nenhum ferimento externo grave. Mas a pressão em seu cérebro, quando sua cabeça bateu contra o banco da frente, fez com que uma quantidade incomum de sangue se acumulasse numa determinada parte do seu córtex. Como resultado, ele teve um AVC enquanto as equipes de bombeiros e paramédicos o levavam para o hospital. Os médicos foram rápidos, e trataram do acidente no cérebro de forma rápida e eficiente, porém não conseguiram evitar que algumas sequelas perdurassem.
    Por mais de seis meses nossa família acompanhou, com apreensão e tristeza, enquanto Gustavo permanecia internado e em fase de recuperação. Quando saiu do hospital, sua mente e seu raciocínio pareciam os mesmos, mas seus movimentos e sua fala estavam muito limitados. O AVC afetou seu corpo de forma que ele teve que voltar para casa numa ambulância e permanecer deitado num leito de hospital no meio da sala durante semanas. Minha irmã sofreu bastante. Durante dias ela permaneceu ao lado dele enquanto os médicos aguardavam para poder lhe dar alta, e tomou conta dele fervorosamente quando voltaram para casa. De início, ele não conseguia andar, falar, e nem se alimentar sem ajuda. Sozinha, ela cuidou, lavou, limpou e fez de tudo para que Gustavo tivesse sua vida normal de volta.
    Os médicos diziam, entretanto, que a situação dele não era definitiva. Que com fisioterapia e fonoaudiologia ele poderia melhorar, e muito, e que a plasticidade do cérebro de um jovem de dezesseis anos era uma vantagem que nem todas as vítimas de AVC poderia se vangloriar. E assim foi. Duas vezes por semana ele ia para um instituto que ajuda crianças e adolescentes que sofreram danos cerebrais. Durante o primeiro ano os avanços foram esplêndidos. A cada semana ele aprendia um exercício novo e praticava novos movimentos. Aos poucos, ele saiu da cama e conseguiu se sentar numa cadeira. Depois de alguns meses, chegou até o ponto em que já conseguia se controlar e comer sozinho. Desde que o vi pela última vez, ele ainda não estava andando com equilíbrio, e precisava da ajuda de andadores e próteses nos pés para manter o passo, mas chorei de alegria ao vê-lo caminhando novamente. Sua melhora fez a alegria de toda a família e amigos. No ano passado, no dia do seu aniversário, todos se reuniram para parabenizá-lo pela recuperação, e foi mostrada uma sequência de fotos que narravam os estágios do seu progresso. Neste semestre, inclusive, ele voltou à escola, e imagino que vá terminar o ensino médio em dois anos.
    Quando passei o crachá pela catraca da recepção, enquanto me dirigia para o elevador, retornei do meu devaneio. Chegando no terceiro andar, me dirigi à minha sala. Todo o financeiro estava agitado. Era semana de fechamento e só restava ao setor de vendar comemorar o resultado. Deveria ser o mês em que vendemos mais livros em quatro anos. Uma grande virada depois de ficarmos tanto tempo acuados pela crise. Ao chegar na minha sala, ouço de uma auxiliar que a nota fiscal – àquela que atrasou meu almoço – fora recusada. Alguns descontos estavam errados e a editora simplesmente não aceitaria o valor final. Respirei fundo e me sentei. Eu teria que refazê-la. A diretora queria que aquela nota entrasse neste mês, e se não fosse aceita hoje, talvez o acerto ficasse para o mês que vem. Sendo eu a responsável pelo setor não podia deixar a tarefa com algum auxiliar, pois eu teria que responder caso qualquer um falhasse. Era o tipo de trabalho que eu mesma deveria que concluir para garantir que nada desse errado.
    Passei as últimas duas horas do meu horário refazendo a nota. Busquei livro por livro, tirei o extrato e examinei o desconto de cada um na época em que chegaram, coloquei os valores manualmente e calculei o valor final. Não era nada complicado, mas extremamente tedioso. Ao terminar, olhei para o relógio. Marcava seis e dezoito. Já devia ir embora. Emiti a nota e mandei por e-mail para a editora. Agora eles aceitariam.
    Peguei minha bolsa e fui rapidamente até o estacionamento, deixando algumas pessoas no setor. Ao sair, como eu imaginei, uma forte chuva começou a cair. Uma chuva de verão típica. Do tipo que dura pouco mas causa muitos estragos e congestionamentos. Dirigi até o final da Fradique Coutinho e entrei sem grandes problemas na Faria Lima. Um acidente parecia ter acontecido na altura da estação de metro. O trânsito parou e fui obrigada a esperar.
    Observei o céu, ainda claro devido ao horário de verão, com acúmulos escuros de nuvens aqui e ali. A chuva começava a parar, e era possível ver os sinais de um arco-íris numa faixa entre duas massas de nuvens. Olhei por alguns segundos, tentando identificar as cores naquela tênue faixa colorida no céu. A imagem era bonita, pois os prédios comerciais, parecendo colunas de espelhos gigantes, refletiam as centenas de tons cinzentos do céu enquanto algumas cores fracas flutuavam no meio de tudo. Uma forte buzina, de um caminhão bem atrás de mim, me trouxe de volta à avenida, e avancei dois metros.
    Lembrei de um livro que havia comprado na quarta feira, com a intenção de dá-lo de presente ao meu sobrinho. Olhei para o banco de trás e vi o pacote vermelho. Uma edição de colecionador do livro Cosmos, de Carl Sagan. Bem rara, pois poucos exemplares foram enviados à livraria. Lembrei, inevitavelmente, de meu sobrinho antes do acidente. Era um jovem inteligente e muito curioso. Quando criança, costumava perguntar sobre tudo, e chegava a se intrometer em assuntos que não devia ouvir, só para garantir que estava bem informado. Conforme foi crescendo, no final da adolescência, foi adquirindo um grande senso de independência. Minha irmã se preocupava, se recusava a soltar a coleira, achando que ele poderia se meter em confusões. Mas todos nós, incluindo o pai dele e eu, aconselhamos que ela devia soltá-lo. Tornara-se um rapaz esperto e muito ativo. Assim que entrou no ensino médio, declarou sua paixão pela física e matemática. Sonhava em ser astronauta e levava esse sonho a sério. Inclusive já pesquisava sobre os cursos que existiam aqui e as chances de ele viajar para fora para estudar. Agora, com dezoito, ainda estava terminando o mesmo primeiro ano que havia deixado de lado para se tratar. Pelas poucas vezes que conversamos nos últimos meses, me pareceu manter o entusiasmo de melhorar e estudar para ser um astronauta.
    De repente, enquanto o trânsito mantinha seu avanço homeopático, comecei a me questionar o que poderia ter acontecido. O que Aline estava precisando, para me ligar na tarde de uma sexta feita para que eu a visitasse no mesmo dia?
    Já eram sete e meia, o céu já estava escurecendo e eu saia do carro. A rua onde minha irmã morava era pacifica. O bairro era plano e bem planejado, perfeito para que ela pudesse sair com Gustavo na cadeira de rodas de vez em quando. Toquei a companhia e vi-a saindo da porta e vindo abrir o portão para me deixar entrar. Sorri para ela e recebi um comprimento pesaroso em troca. Com uma voz tensa, ela me cumprimentou com as sobrancelhas erguidas e os lábios contraídos. Depois de uma conversa boba sobre o tempo, ela me leva até a sala, bem depois da porta de entrada.
    Sua casa não era muito grande, mas certamente era demais para duas pessoas. Nos sentamos no sofá e vi que ela já havia deixado um café separado para tomarmos. Deixei minha bolsa ao meu lado, com o pacote embrulhado numa sacola.
    – Então, Aline. O que você precisa? – disse num tom amistoso que me surpreendeu, considerando o cansaço que o dia de trabalho havia me trazido.
    Aline bebeu o café. Seus olhos estavam levemente vermelhos e as olheiras em volta denunciavam a falta de sono. Senti no momento uma extrema simpatia por ela e prometi a mim mesma que, qualquer fosse seu problema, eu a ajudaria na hora. Fosse dinheiro, ajuda para locomover o Gustavo para alguma consulta, qualquer coisa. Aline era uma mulher firme, séria, racional, e de todas as pessoas da família, ela era a que eu simpatizava. Não era comum dela se abalar, e se algo tirou seu sono, devia ser importante.
    – Bem, Denise, acho que a melhor forma de falar isso é sendo direta. – Ela bebeu mais um gole. Sua mão tremia levemente, e isso me deixou apreensiva. Ela pousou a xícara e abriu a boca para falar. – Sei que não parece, mas as coisas aqui não tem sido fáceis. – Ela parou novamente. Pelo jeito que pronunciava algumas palavras, parecia ter treinado um discurso para o momento. Claramente, o nervosismo a fez esquecer de suas falas e ela parecia improvisar como se não tivesse preparado nada. – A vida do Gustavo está bem diferente do que eu achei que estaria nesse momento. Ele está triste e não consegue ver alguma coisa boa no próprio futuro.
    – Mas, como assim? – Interrompi inconscientemente. – É por causa da escola? Nós podemos mudar ele pra outra. Pode ser que ele se sinta deslocado ou alguma coisa assim.
    – Não, não. Não tem a ver com isso – disse ela levantando a mão e buscando a xícara novamente. – Quer dizer, talvez tenha mas não é só isso.
    Um silêncio se pôs na conversa. Eu me mantive inclinada, em postura de questionamento, ponderando se ela queria que eu indagasse de outra forma. Seus olhos iam de cima para a direita, e a cada piscada pareciam mais lacrimejados. Seu olhar evitava o meu, como se não tivesse coragem de falar de tal assunto na minha frente.
    – Você é a primeira, e possivelmente a única pessoa, com quem eu vou falar sobre isso. – Mais um gole. Seus dedos estavam brancos, sua mão pálida como a xícara que segurava. – Ele não está mais melhorando, entende? Como você sabe, a voz dele está praticamente perfeita, mas ele ainda não anda. Ainda precisa de ajuda para tomar banho, para se trocar e para se locomover em algumas partes da casa. Meu deus, eu ainda tenho que ajudá-lo a se limpar no banheiro! – Nesse momento ela olhou para baixo, tentando esconder os olhos cheios de lágrimas. Senti um aperto no coração e reprimi um impulso instantâneo de abraçá-la, pois minha curiosidade me manteve parada, estática enquanto minha irmã chorava no sofá oposto.
    Encontrei coragem para falar. – Mas, a fisioterapia…
    – Não vai – disse ela recuperando a voz. Ela ergueu a cabeça, resoluta. Usou as mangas longas para enxugar os olhos e se ergueu imponente com um cisne machucado e orgulhoso. – Os médicos dizem que ele chegou no limite. Os danos do AVC foram fundo e existem algumas partes, alguns tecidos, que não são passíveis de recuperação. Ele vai continuar do jeito que está para o resto da vida, e se não fizer fisioterapia ele pode ficar pior de novo.
    – Nossa. Isso é triste de saber. – Por um momento eu fiquei quita, imaginando a dor que Aline sentia ao pronunciar essas palavras. Tentei imaginar o quanto deve ter sido difícil ouvir essa notícia do médico.
    – Mas o problema não sou eu. Eu não me incomodo em cuidar dele. Mas e quando eu morrer? Quem tomará conta dele? E pior, para ele é um incômodo. Sinto a vergonha dele em receber cuidados que as "pessoas normais" não precisam. Mas, isso não é exatamente o porquê eu te chamei. – Mais um gole. A xícara já estava na metade. – A questão é: ele não aguenta mais. Nas últimas semanas ele tem ficado cabisbaixo, melancólico. A volta às aulas, por melhor que seja, mostrou para ele o quanto ele é diferente dos outros e o quanto ele está atrasado. Nesses últimos dias ele não tem feito nada. Chega da escola em silêncio. Desce do transporte e, enquanto eu o ajudo a chegar até a porta da sala e pergunto como foi a aula, responde como se não quisesse falar comigo. Passa a tarde e a noite inteira em silêncio no quarto. Não usa o computador e não está lendo nada. Não está mais assistindo nenhum filme ou série. Está dormindo demais e nos finais de semana não faz praticamente nada. E o pior, ele não tem nem vontade de comer mais. As vezes ele janta metade de um prato. Em outros dias ele não come nada, e só tem vontade de beber água. Não tem vontade de sair da cama e nem as respostas às minhas perguntas ele coloca um pouco de ânimo. – Ela parou. As últimas frases foram rápidas, sem muitas pausas. Estava sem fôlego e era claro que era a primeira vez que falava com alguém sobre isso. Um desabafo desolado e desesperado, e eu era a pioneira que o ouvia. Não sabia o que eu podia dizer como consolo. Imaginei que ela queria um conselho ou orientação, mas ela não parecia ter acabado. Senti que o ponto ainda não havia chegado. – Ele já sofre disso há mais de dois meses. Já levei ele ao psicólogo e ele já tomou alguns remédios. Mas depois de um tempo ele não quis mais tomá-los e eu não me sinto no direito de obrigá-lo.
    Por um momento eu fiquei em silêncio, absorvendo todos esses detalhes que eu jamais tive noção. Meu sobrinho, além de ter chego no limite de sua recuperação, não aceitava o próprio estado. Havia sucumbido à depressão e à tortura interna e psicológica do silêncio e da estagnação, e parecia estar inconscientemente levando minha irmã junto. Meu coração se apertou, lembrando dos inúmeros dias nos últimos meses em que saí com amigos, todos inteiros e saudáveis, e bebemos e aproveitamos a vida o tanto quanto nossos trinta e poucos anos nos permitiam. Enquanto eu me divertia, aproveitava as festas pós-expediente, acordava com ressaca perguntando o quanto minha mente poderia aguentar mais, não fazia ideia do quanto outras pessoas, tão próximas quanto minha irmã e meu sobrinho, estavam sofrendo em silêncio, sem ninguém para consolá-los. Meu estômago se fechou, enquanto uma onda de vergonha e repulsa por mim mesma varriam meu corpo e conduziam meu olhar para o chão.
    – Aline, me desculpe. Eu não sabia… – Por pior que a situação tivesse ficado, senti nos olhos dela que ainda não havia acabado.
    – Não se preocupe. A culpa foi minha. – Sua voz se amenizara. A longa pausa e meu olhar aflito trouxeram-lhe calma. – Eu nunca contei a ninguém. Como você ficaria sabendo?
    – Mas por quê? Talvez eu pudesse ter ajudado.
    – Não adianta. Além do mais, todos ficaram tão contentes quando ele começou a melhorar. Ainda me lembro do dia em que ele voltou a dar curtos passos apoiado no andador. – Seus olhos se umedeceram-se novamente. A lembrança feliz, trazida num momento de tamanha tristeza, foram suficientes para carregarem-na para a angústia novamente. – Depois de tanto tempo torcendo, incentivando e chorando de alegria. Tudo se foi. Ele não vai melhorar mais e não quer aceitar isso. Não quer olhar nos olhos de quem torceu por ele e dizer que não dá mais. E o pior é que ele é o único condenado a sofrer isso. Não posso dividir esse peso, nem que eu pudesse viver para sempre e garantir que ele sempre tenha alguém que o ama cuidando dele.
    Nesse momento ela parou. Ergueu a xícara e bebeu mais café, já frio. Estava relutante sobre o que devia falar. Se devia falar. Alguma coisa obscura e horrível orbitava seus pensamentos, e ela lutava contra o impulso de não revelar.
    – Sabe, Denise? Não é fácil conviver com alguém nesse estado. Principalmente quando esse alguém é seu filho e você não pode fazer nada para ajudá-lo. – Ela pousou a xícara. O olhar, travado num ponto da janela atrás de mim, se demorou no infinito de sua mente abstrata por longos segundos. – Mas, o que me fez te chamar foi o que aconteceu na última segunda feira. Ele já havia chego da escola e foi se deitar. Notei que ele ficava parado olhando para o teto, sem dormir ou se levantar. Fui ao mercado no meio da tarde, e quando volto quase surto do coração ao ver o que ele estava fazendo.
    – O quê? – Quis respeitar sua pausa, mas não conseguia controlar minha curiosidade. Já não suportava ouvir mais e queria que ela e jogasse tudo de uma vez.
    – Ele estava na cozinha, com uma faca na mão e encarando a janela. Corri e perguntei o que estava acontecendo. Olhei no seu pescoço e vi uma marca, um risco. Ele tinha passado a faca ali. Se não terminou porque não conseguira ou porque eu havia chegado a tempo, eu não sei. Perguntei a ele o que estava fazendo, por que estava fazendo, mas ele não me respondia diretamente. Só me dava respostas vagas e sem explicação do que estava acontecera. – Ela parou novamente. Estava tentando não trazer as lágrimas junto com a lembrança. Falhava, claro, mas ainda era uma mulher forte e dura, e alternava entre um choro sem esperanças e suspiros fortes e curtos para recuperar o fôlego.
    – E no final ele não te disse nada?
    – Disse. Sim. Ontem, quando voltei para casa de uma consulta – estava com o coração na garganta de preocupação – o encontrei na cama e com mais marcas e cortes, dessa vez no ombro e na clavícula. Vi que ele estava mais receptivo e perguntei o motivo daquilo. – Seus olhos se fecharam de angústia. Aparentemente, aquele diálogo fora o mais triste e desalentador de sua vida. – Ele disse que não queria mais viver. Disse que não valia a pena continuar da forma que vivia e que sabia que o seu estado trazia tanta tristeza a apreensão a mim quanto a ele. Ele foi honesto e direto. Não parecia iludido e foi muito racional em tudo que falou. Isso… Isso que foi o pior. Eu não vi nenhuma falha no pensamento dele. Não consegui dizer nada em retorno. Tentei falar que ele podia se adaptar, encontrar uma nova forma de ver a vida, mas ele disse que não adiantava. Disse que a única coisa que o motivava durante a recuperação eram seus sonhos de voltar a ser o que era antes do acidente e seguir o sonho de estudar fora e batalhar pra ser um astronauta. Parece ridículo, eu sei. Mas aquele sonho movia ele, entende? Agora eu não tenho o que dizer. Eu percebi que estava condenada a passar o resto da vida a vigiá-lo constantemente, garantindo que sua tristeza nunca o forçasse a cometer um ato contra si mesmo.
    – Mas, existem remédios para isso, não? Em casos extremos algumas pessoas são até internadas pela própria segurança. – Tentei soar racional e calma, enquanto por dentro eu estava destruída. Fluxos de pena, tristeza e arrependimento trombavam contra meu coração, em marés contínuas e impiedosas.
    – Qual é Denise? Essa não é a vida que ele merece. Não é a vida que eu queria pra ele e não sei se aguentaria vê-lo preso numa cela, dopado e controlado. Enquanto os anos se passariam e ele trocaria a vida depressiva e angustiante por uma sedada e enclausurada. – Ela baixou o tom. Voltou a si mesma enquanto tomava mais um gole do café gelado. – Ele me falou sobre isso. Nesse dia, ele disse que essa vida seria pior ainda. Que ele queria ter a liberdade de decidir o próprio destino. Que ele, e só ele, podia decidir se continuaria nesse sofrimento ou não.
    – E o que você disse? – perguntei, vendo onde sua fala podia chegar.
    – Eu não disse nada! Não tinha o que dizer. Eu convivo com ele diariamente, o ajudo a comer, tomar banho, andar até o portão e até o limpo quando ele se caga! Não faço ideia do quanto isso deve ser horrível para ele. E agora dizem que ele está condenado a passar por isso para sempre. O que ele deveria pensar? O que eu deveria dizer?
    Estava chocada com o que acabara de ouvir. Por um lado não havia como discordar, mas cada parte do meu coração dizia que ela estava errada, que não era assim que se devia pensar nesse problema. Gustavo era um jovem que sofria muito, sim, mas nada justificaria tal ato. E sim, Aline sempre fora uma mulher lógica e pragmática, mas nunca imaginei que ela pudesse enxergas todas os assuntos desse jeito. Minutos atrás ela estava chorando sobre como ele estava triste, agora falava, quase sem corar, praticamente endossando o pensamento suicida do filho. Me endireitei no sofá, pronta para tentar pôr um pouco de razão na cabeça dela.
    – Acho você está louca! Não é assim que você deve encarar isso. Você tem que protegê-lo, dar esperanças a ele. Diga qualquer coisa mas não deixe que ele pense assim.
    – Denise, você se lembra quando, anos atrás, nós conversávamos sobre o direito a eutanásia? Lembra do que discutíamos?
    – Sim lembro, mas não isso não vem ao caso. É uma situação totalmente diferente.
    – Não, não é. Aí que você se engana e é onde eu estava me enganando também. Sabe, essa conversa com ele, por mais dolorosa e cruel, foi franca e reveladora. Por meses ele nunca se abriu comigo e de repente ele fala o que eu nunca imaginei que ouviria. Eu compreendi Denise. Ele está num estado que, para ele, não é nada diferente do que ficar numa cama de um hospital esperando a morte. Qual o direito que eu tenho de interferir? Você acha que eu não gostaria que ele estivesse feliz, saltando e indo de lá para cá, fazendo planos? Claro que sim, mas a realidade é bem diferente. Eu sei, porque eu a vivo todo dia.
    Eu não sabia o que dizer, e nem o que pensar. Quis ver Gustavo na hora. Abraçá-lo e beijá-lo. Implorar para que achasse um objetivo, um sonho. Mas sabia que eu não poderia obrigá-lo. Como dar um sentido para a vida aos olhos de quem não vê motivo para vivê-la? Ainda mais quando a vida joga sobre este uma forte amostra do quão injusto o mundo poderia ser. Eu sabia, por já ter trazido certos livros a seus pedidos, que ele era ateu, e não acreditava na vida após a morte. Isso me mostrava que, se tudo o que minha irmã disse realmente representasse seu pensamento, ele já pensara que não teria volta. Não haveria outra chance. Ele já aceitou a derrota e pediu para sair do jogo. Nesse momento, ao entender o que Aline havia entendido poucos dias antes, caí em lágrimas. Chorei, como não chorava há meses. Minha irmã veio ao meu lado, me abraçou e apoiou minha cabeça em seu ombro. Agora eu entendia o porquê dela não chorar enquanto me proferia sua “sentença” sobre o filho. Seus olhos inchados, as olheiras sob as pálpebras, as mãos trêmulas e os lábios vermelhos. Ela não parara de chorar nos últimos dois dias desde que entendeu o que o filho realmente queria. Por fim, quando consegui reunir forças para falar alguma coisa, disse:
    – Posso vê-lo? Falar com ele?
    Seu olhar sem esperanças me acompanhou por alguns segundos. Por um tempo ela ponderou, imaginando que eu poderia agitá-lo ou tentar brigar com ele. Mas ao perceber que a minha dor se igualava à dela, se levantou e pediu que eu esperasse. Aline atravessou a sala e caminhou pelo longo corredor no final do cômodo. Ouvi uma porta sendo batida e um leve sussurro ecoar pelas paredes beges. Meu coração tremeu, ao olhar para o armário ao lado e ver fotos do meu sobrinho novo. Tão jovem, inocente e cheio de esperanças e sonhos. Por que merecia esse destino? Por que algo tão horrível foi acontecer com ele, deixá-lo incapaz de perseguir seus objetivos de forma tão cruel e abrupta? Conheço tantas pessoas – e as vezes me incluiria nesse grupo – que tem tudo, saúde, juventude e objetivos realizados, e nada fazem para aproveitar a dádiva disso. Apenas reclamam, querem mais, nunca imaginam a sorte que tem em comparação aos não privilegiados.
    Meu devaneio foi interrompido quando Aline voltou do corredor. Seu semblante era calmo e triste, e imaginei que não era muito díspar do meu próprio. Ela fez um leve gesto com a cabeça, sinalizando para que eu fosse até o quarto de Gustavo. Me levantei. Senti as pernas fracas e bambas. Muita força esvaíra-se desde que eu me sentei no sofá, pensando que poderia ser uma conversa descomplicada. Por um momento eu hesitei. Não queria encarar meu sobrinho. Não queria olhar nos seus olhos ao saber o que ele decidira fazer, e que eu não possuía nada a oferecer de alívio ou conforto. Por fim, ergui minha cabeça e olhei no rosto de Aline. Se ela conseguiu, eu consigo. Ela era a mãe dele. Não sou capaz de imaginar a dor e o sofrimento que ela passou ao ouvir do filho posições tão flagelantes. Ela não possuía o direito de fugir e eu deveria me espelhar nela nesse sentido. Coloquei na minha mente o que minha Aline me ensinou na adolescência: Nada na vida pode ser resolvido, ou definido, sem uma abordagem objetiva e direta. Caminhei pela sala, com passos cautelosos e lentos. Cheguei ao corredor e vi, de longe, a terceira porta semiaberta. Andei com rapidez e empurrei de leve a grossa porta de madeira.
    Gustavo estava em sua cama, deitado e numa posição sonolenta – ou talvez deprimida. Parecia que acabara de acordar, ao mesmo tempo em que estava pronto para dormir. O quarto estava abafado, porém uma nota gélida no ar parado congelou meu pulmão, conforme eu respirava fundo e tentava evitar que meus olhos se enchessem de lágrimas. O quarto era espaçoso. Em um lado um grande guarda roupa cobria toda a face de uma parede. No outro a cama alta sustentava o frágil corpo do meu sobrinho. Um andador repousava no lado direito da cama, enquanto um pequeno banco com rodas estava a disposição no lado esquerdo. A luz estava apagada, e apenas a janela aberta, porém fechada com a cortina fechada, iluminava o quarto num tom melancolicamente branco. Tremi ao olhar em seus olhos. Seu rosto, magro, mostrava com clareza seu estado de espírito, revelava, com uma proporção terrível, sua disposição de viver. Manchas escuras e profundas marcavam a região em volta dos olhos, fazendo-os parecer maiores do que realmente eram. Seus lábios estavam finos e secos. O cabelo, ensebado e desgrenhado. O que mais me surpreendeu, entretanto, não foi o abatimento em seu semblante, ou o ar pesado e soturno do quarto, e sim que, apesar de todos esses fatores, sua expressão calma e a firmeza em seu olhar derrubariam qualquer diagnóstico de delírio ou de uma depressão paranoica. Aparentemente, julgando o rápido desvio do se olhar ao encontrar meu rosto, ele não queria me ver, mas parecia minimamente disposto a tentar escondê-lo.
    Me aproximei da cama e examinei seu corpo que, mesmo escondido em cobertores e lençóis, demonstrava uma magreza excessiva, parecia uma sombra distante do menino altivo e animado que já foi. Chamei-o pelo nome, atraindo seu olhar para o meu, e percebi, logo de vista, que uma parte dele já morrera, de fato. Faltava uma luz, um brilho, aquele lampejo de alegria e excitação que ele sempre demonstrava quando eu chegava. Respirei fundo, novamente, tentando disfarçar meu impulso de chorar.
    – Como você está?
    – Mais ou menos – disse ele, virando a cabeça para a janela. Depois de me encarar por alguns segundos, notei o quê inquisidor e preocupado em meus olhos. Ao se virar para a luz, vi um rosto completamente pálido, como uma rígida e triste estátua de mármore que reflete, profunda e exasperadamente, sobre os fúteis motivos da existência. Seus olhos, abertos e firmes, encaravam a janela e seus cabelos ondulavam com a fraca brisa que o clima pós-tempestade trazia. Sem dizer nada, tiro da minha bolsa o presente que havia comprado para ele. Ele pega com suas mãos finas e frágeis, olha para o livro, impassível, e suspira ao colocá-lo no lado da cama. Ainda lutava contra minha angústia, e não sabia como reagir à falta de ânimo em seus gestos.
    – Escute – disse enquanto imaginava minhas opções para iniciar um assunto. Querendo evitar um surto de choro descontrolado, resolvi tentar ser objetiva. – Sua mãe me contou algumas coisas. Coisas que você tem feito. Coisas que você pensa em fazer. Olhe, não quero te obrigar a nada mas… Eu estou aqui por você, assim como a sua mãe.
    Ele se virou para mim. Uma fraca onda, uma marola sutil de emoção, percorreu seu rosto, enquanto sua boca abria na tentativa de expressar um sentimento complicado demais para uma simples frase. Eu olhei para o lado, não suportando encarar tal sentimento. Vejo na cabeceira seu videogame e sua TV. Ambos sujos e cobertos de poeira. Ouço um suspiro e viro-me para ele.
    – Eu sei que as coisas não estão boas agora – disse, insistindo em ganhar a atenção daqueles frágeis olhos castanhos. – Mas às vezes temos que esperar para que algo dê certo. As vezes as coisas não são do jeito que imaginamos mas temos que continuar tentando.
    – Minha mãe contou o que os médicos falaram? – disse ele. Sua voz era ríspida e arranhada pela fraca força dos pulmões.
    – Sim. E eu ainda não…
    – Então – disse ele olhando para baixo. Por um momento percebi que ele inspirava com a intenção de explicar algo, mas desistiu antes que seu peito se enchesse. Virou a cabeça para a janela, novamente.
    Nesse momento senti uma pontada no coração. Algo em seu gesto seco e voz fria me trouxeram à realidade que minha irmã tentara me alertar. Não havia esperança para ele. Claro, não estava condenado a um estado vegetativo. Ainda podia se movimentar e, se ele se conformasse, poderia tentar viver uma vida normal. Quantos exemplos, de celebridades a cientistas, não vemos superando tremendas dificuldades físicas e, apesar de tudo, conseguindo vencer os desafios impostos por suas limitações. O problema era, justamente, que ele não conseguiria se conformar. Como convencer uma pessoa independente, jovem, idealista e sonhadora, a aceitar uma vida de ajudas, favores, necessitando de sua mãe ou de uma futura cuidadora. Eu não sabia, e muito menos minha irmã ou qualquer psicóloga, qual o preço que meu sobrinho pagava por ter os sonhos destruídos.
    Então eu pensei no que havia dito a Aline pouco antes. E se ele fosse levado a um psiquiatra e fossem administrados alguns medicamentos a força? Com certeza seu estado de espírito mudaria, certamente seu humor melhoraria e as ideias de suicídio e um niilismo arrebatador o abandonariam para sempre – pelo menos enquanto a droga fizer efeito. Nesse momento, ao pensar sobre o nível de consciência e autonomia que seu olhar me passava, eu percebi que essa não era a saída certa. Qual o propósito em obrigá-lo a viver uma vida medicada, sedada, dopada, controlado por químicos artificiais enquanto seu verdadeiro eu grita de sofrimento e desesperança? Não, aquela vida não era certa, não para ele. Eu sofreria mais em ver uma felicidade fabricada, um comodismo controlado, uma conformidade milimetricamente induzida, do que seu atual estado. Nesse momento, e acredito que tenha sido minha última revelação do dia, percebi que não havia o que fazer. A sentença já foi dada, todos os sonhos dele foram destruídos, e ele não se sente capaz de construir novos. Qual a diferença disso do que ficar numa fila de uma UTI, simplesmente esperando que o sinal do coração pare? Quando tais condições foram impostas tão injustamente, não havia o que argumentar ou reclamar. Ou se aceita ou não. E tendo o acaso, esse maléfico jogo de dados do universo, decidido que Gustavo deveria passar o resto da vida de uma forma que ele jamais se alegraria, ele, e mais ninguém, detinha o total direito de recusar tais termos, de cessar sua existência e apelar para seu único recurso, a única coisa que poderia decidir sobre si mesmo.
    Então, num gesto não planejado e totalmente impulsionada pela força brutal de minha realização, eu me inclinei e beijei-o na testa. Olhei-o nos olhos e disse:
    – Eu te entendo. – Peguei em sua mão. Sua pele fria tocou na minha e senti um arrepio ao contato com sua palma ressecada. – Seja o que for, eu estarei do seu lado. Não importa o que você decida, saiba que eu te amo.
    Seus olhos brilharam, e os músculos em volta das pálpebras se contraíram naquilo que parecia ser uma fraca, e franca, expressão de alívio. Sorrio de volta, entendendo que finalmente consegui tocar com seu coração. Faço que vou me levantar, quando sinto sua mão em meu braço. Ele me segurava firmemente.
    – Sabe, tia. Dois dias atrás eu tive um sonho. Vi uma criança saltando e brincando num jardim. Por algum motivo ela entrou na casa e foi ver um programa de TV. Minha memória esta embaçada mas me lembro que ela tropeçou em algum lugar e acabou deitada em uma cama num quarto grande e branco, gemendo de dor. A porta do quarto se abre, e ela sorri achando que é o pai. Mas um ser estranho, um homem mascarado, com manchas de sangue e tesouras de jardineiro no lugar das mãos, entra correndo e começa a espetá-la. Ele ri enquanto ela chora, sem poder fazer nada enquanto as pontadas a não paravam. Isso continuou por um tempo e acho que eu até gritei durante o sonho. No final, antes de acordar, eu só me lembrava que a criança estava parada, estática, enquanto a figura mascarada espetava com mais força o corpinho dela. Nessa hora eu acordei, e senti um frio horrível. Desde então eu não consigo parar de pensar na criança, parada e impotente, enquanto era espetada pelas tesouras cheias de sangue.
    Nesse momento eu olhei fundo em seus olhos. Escutei com assombro a descrição de seu sonho e me perturbei com as imagens que ele invocou em minha mente. O que aquilo queria dizer? Seria esse o momento em que ele, assim como eu poucos minutos antes, entendera a inevitabilidade da sua situação? Por fim, com os olhos lacrimejados ele disse:
    – Eu não quero sofrer assim.
    Nesse momento, fazendo força para me conter e não demostrar minha fraqueza emocional, me abaixei e beijei seu rosto novamente. A mesma expressão calorosa, confiante e suave, preencheu seu rosto. Nesse momento eu me levantei, virei-me e caminhei para a porta. Ao alcançar o arco da entrada, uma dúvida atinge meu coração, tal qual uma flecha disparada a distância que, desviada pelo vento, acerta um alvo aleatório. Viro-me para ele e inclino minha cabeça, tentando suavizar o tom da minha pergunta. Eu sempre soube, desde que ele começou a se interessar por livros científicos e me indicar alguns documentários, mas agora eu precisava ter certeza. Se não, talvez jamais me sentiria aliviada.
    – Me diga Gustavo, você acredita em Deus ou em alguma coisa depois dessa vida?
    Por um momento ele parou. Deve ter duvidado que eu estava falando sério. Assisti, com um misto de pesar e alegria, enquanto seus olhos se semicerravam e sua boca torcia levemente, transformando-se num sorriso inesperado e genuíno. Vejo um fraco brilho em seus olhos, enquanto responde num tom de indignação e ironia:
    – Eu leio Sagan, tia. E se eu acreditasse nada disso seria difícil.
    Eu sorri. Meu olhos se encheram de lágrimas e meu coração foi tomado de alívio e uma sensação reconfortante. No momento não entendi exatamente, mas enquanto saia do quarto e caminhava pelo corredor escuro, percebi o quanto essa resposta me deixou tranquila. Por pior que tudo estivesse, por mais lamentável que fosse seu estado e por mais baixas que fossem suas expectativas, Gustavo não se agarrou ao sobrenatural. Permanecera racional e lógico. Entendia a própria situação e sabia, mais do que ninguém quais as consequências do que pensava e queria fazer. Ele entendia que essa vida era a única que teria, que não havia coisa alguma como uma compensação posterior pelos nossos sofrimentos. Ele sabia que não teria outra chance, e mesmo assim escolheu não continuar. A partir desse momento, enquanto chegava na sala e olhava minha irmã nos olhos, entendi o que parecia ser justo para mim.
    Gustavo era um jovem decidido e inteligente, independente e muito racional. Cabia a mim apenas respeitar sua decisão, considerando que ele a tomava de mente sã. Não merecia ser dopado e forçado a aceitar uma existência infeliz, nem ser trancafiado numa sala de hospital, sofrendo ainda mais com sua condição. Apenas ele tinha o direito de decidir o que lhe era melhor, e eu senti que deveria apoiá-lo mesmo não concordando.
    Troquei algumas palavras com Aline pouco antes de ir embora. Disse-lhe rapidamente que eu respeitava a sua opinião, que compreendia e apoiava a decisão de Gustavo, por pior que isso me fizesse sentir. Ela chorou, ao se aliviar com minha aprovação. Entendi, através de algumas frases confusas e desconexas, que ela planejava sair para comprar algo na padaria a noite e avisaria o filho. Nesse momento ela deixaria o sinal, mesmo que indireto, para que ele fizesse o que quisesse fazer. Uma caixa de remédios fortes seriam deixados na mesa da cozinha acidentalmente. Não me demorei muito. Havia chorado bastante e não me restavam forças. Fui até o carro e dirigi, quase num modo automático, para minha casa na outra zona da cidade. Enquanto parava nos faróis e cruzamentos, questionei se um dia me arrependeria do que fiz, se não deveria ter insistido, se mais algumas palavras o tivessem feito mudar de ideia; ou, talvez, se eu deveria convencer Aline a interná-lo, drogá-lo, e evitar que faça qualquer mal contra si mesmo. No fim, ao perceber o quão inútil essa linha de pensamento era, resolvi ignorar essas reflexões. Não havia porquê adiantar o futuro, e nem ficar imaginando como seria mudar de opinião.
    Enquanto dirigia, já perto da minha casa, meu celular toca e ouço a voz de uma menina do financeiro. Uma jovem esforçada que entrava a tarde devido à faculdade e era a última a sair do escritório. Ela me disse que aquela nota – aquela nota infame – havia sido recusada novamente. Pouco antes das sete da noite, a editora mandou um e-mail apontando valores errados e dando um prazo até segunda ao meio dia para a correção. Suspirei, entendendo que a jovem não era culpada de nada, e disse polidamente para que deixasse os documentos na minha mesa e eu trataria assim que chegasse na segunda de manhã. Eu estava tão cansada, tão exausta emocionalmente, que não consegui nem me irritar com essa notícia. Entender a mente de meu sobrinho, suas nuances e perspectivas, me deixaram mais aberta à situações mundanamente desagradáveis, como se nada pudesse ser tão ruim, tão angustiante e triste quanto o que acabara de presenciar. No fim, não vi motivo para me preocupar com aquela nota. Era um problema para o futuro, assim como a minha consciência quanto ao que concordei com meu sobrinho.
    Minutos depois eu cheguei em casa. Depois de comer algo leve e tomar um rápido banho, me deito no sofá e dou uma conferida nas notícias dos jornais online. Fico assustada com o resultado de algumas eleições, os rumos de certos conflitos, as dificuldades que tantos inocentes estão passando em contraste com a vida média de um morador de um país de primeiro mundo. Pensando bem, talvez não dê para esperar muito desse mundo. Talvez deixar a sociedade não seja lá uma ideia tão péssima assim.
    Enquanto lia artigos e tomava nota de alguns eventos, coloquei em meu aplicativo no notebook para tocar uma música aleatória. Selecionei a categoria de “Música Clássica”, e a lista randômica me trouxe o Prelude Op.3 No.2, de Rachmaninoff. As notas pesadas e profundas de um poderoso piano de cauda invadem meus tímpanos, enquanto provocam no meu cérebro reações químicas que instigam sentimentos de tristeza e luto. Pouco antes de chegar ao ápice da peça, onde o pianista se exalta e suas emoções invadem a apresentação, de forma tão inevitável quanto um dançarino faz ao saltar e girar, o celular toca abruptamente. Pego o aparelho, olho para o nome na chamada, e vejo que minha irmã está me ligando. Atendo, tensa, com uma voz forçadamente calma e sílabas carregadas de uma relutância exasperadora. Ouço, do outro lado da linha, uma série de suspiros, uma sequência tristonha de leves expirações e gemidos de sofrimento. Era minha irmã, e estava chorando.
  • Saudade

    Tem algumas coisas na vida que doem, bater o dedinho na quina de um móvel dói, torcer o pé dói, cólica dói, mas nenhuma dessas dores se comparam a saudade. SAUDADE, uma palavra tão pequena mas com um peso tão grande. Sentimos saudade de muita coisa. De uma brincadeira da infância, de um parente que se foi, dos seus amigos da escola, de algum cheiro que nunca mais irá sentir, do gosto de uma fruta que não se dá mais. Mas a saudade de um amor, aah, essa saudade dói demais, saudade dos abraços, saudade dos beijos, saudade do "boa noite" fofo que melhorava o seu dia, saudade do "bom dia" que fazia com que nada de ruim te abalasse naquele dia, saudade dos olhares, saudade das mensagens, saudade de simplesmente estar ali com aquela pessoa.

    E com a saudade você começa a se perguntar:

    "Será que ele ainda ama mc Donald's?"

    "Será que a prima dele já melhorou?"

    "Será que ele está bem sem mim?"

    Você se faz inúmeras perguntas, mas sabe que nenhuma delas irão ser respondidas.

    Saudade é isso que senti enquanto estava escrevendo e o que você provavelmente está sentindo agora que acabou de ler.

    Quem inventou a distância nunca sofreu com a dor de uma saudade!
  • Sedativos

    Liquido que deveria ser da paz em casa, sem mentiras. Ninguém quer usar mascara, mas coloca no rosto limpo uma cheia de sangue. Os cortes são internos, o organismo pede socorro enchengo bola para dentro. Por que coloca coleira? Por que coloca em gaiolas onde o alpiste vem com sedativos?  Por que os pés estão com correntes com bolas de ferros? Por que engolir a chave da compaixão?
  • Sem titulo... Maldita depressão

    É longe, é triste, é escuro, é amargo, é difícil
    Nada nunca e nunca nada…
    É impossível por em palavras, mas posso descrever com situações…
    Você tem tudo mas sente o mesmo de quem não tem nada. Tem pessoas, amigos, amores mas sempre vai se sentir só, ate você ficar realmente só. Você continua humano mas não dorme, não come, não vive. Como pode um ser humano ir contra o próprio extinto de sobrevivência… Você deixa de se considerar humano… Você se sente isolado em meio as pessoas e uma hora você vai mesmo se isolar porque ninguém tem a obrigação de insistir em alguém que desistiu de si mesmo…
    É perto, é feliz, é claro, é doce, é fácil… A ultima coisa que te liga as pessoas normais é realmente a ultima coisa que você vai sentir… O sabor de não existir mais, morrer deixa de ser uma situação, um problema sem solução e vira a resposta mais eficaz contra tudo isso. Perdão aos meus amigos, familiares e ao meu amor, eu me sinto fraco demais mesmo com todo esforço de vocês… Não sei se quem ta lendo acredita nisso ou não, mas se você pode ajudar alguém ajude, não da pra saber quando é o ultimo passo que você da no lado de lá, mas da pra perceber o primeiro passo aqui… 

     

  • Sera mesmo?

    E mais uma vez aqui, quando tudo estava indo bem, um novo tombo, todas essas vontades e pensamentos presentes. Eu queria sumir e voltar só quando tudo isso desaparecesse.
    Eu tento! As coisas estão indo bem, pelo menos eu conseguia sentir e transparecer isso, mesmo estando desmoronando por dentro, eu vi a luz no final do túnel daquela vez.
    Por agora me sinto preso, rastejando de novo ao fundo, tentando achar algo pra conseguir me equilibrar de novo, nunca achei que voltaria pra cá, pro marco zero e só de pensar em começar tudo de novo já me sinto de novo no chão.
    Se nem tudo na vida tem um porque, nem todo problema tem solução. Ficam me dizendo que tudo vai ficar bem e as coisas vão melhorar, mas será que vão mesmo? Não seria esse mais um caso sem solução que a vida trouxe?
    As vezes sinto que vou desistir, mas mesmo assim me desculpa, eu não quero ajuda. Ando cansado de ajuda, de remédios, de palavras e indicações “subliminares” de caminhos a seguir, afinal, existe algum remédio forte o suficiente para ser eficiente?
    Dessa vez é diferente, não vem palavras pra explicar ou me expressar, são sentimentos confusos. Vazio seria uma palavra muito vaga que não se encaixa no que sinto, por outro lado é a única maneira que eu consigo explicar em vocábulos.
    A todos que nunca saíram do meu lado, eu agradeço, não queria decepcioná-los mais uma vez, mas esse caminho é meu, vocês não fazem parte, apenas acompanham meus passos, nessa eu estou sozinho.
    Ainda não me dei por vencido, ainda resta dentro de mim um pouco de força que me faz lutar.
    Me desculpem, mas esse caminho é meu, tropecei e eu caí de novo.
    E por mais que pareça, não vou me entregar.
  • SETEMBRO AMARELO: COMBATE AO SUICÍDIO

    Você já ouviu falar sobre suicídio? Já presenciou algum ato familiar ou de algum amigo(a)?  As pessoas que sentem desejo, durante toda a sua trajetória de vida sofreram por algum tipo de transtornos seja ele psicológicos, emotivos, ou pessoais. Para identificar uma pessoa que está agindo com comportamentos diferentes, basta analisar se o relacionamento com a família, com amigos, como ela(e) está expressado suas ideias ou intenções, se fica muito isolada de tudo e todos, dentre muitos outros fatores. O suicídio pode afetar qualquer faixa etária, no qual é absolutamente devastador para quem convive com esse problema.
       Nesse sentido, o suicídio é visto como um tabu na sociedade onde muitas pessoas criticam sem saber o que aquela criança, aquele jovem ou até mesmo idoso(a) passou ou que ainda passa em sua vida cotidiana. Refletir sobre esse tema é extremamente fundamental, é falar sobre o sentido da vida, expor seus sentimentos que te afetam ou não, libertar todas as tuas angústias e também como saber lidar com o próprio EU MESMO.
      Por isso, sempre ajude quem estiver passando por essa situação, seja com palavras de conforto, com ações positivas de maneira com que a pessoa se sinta segura, e disposta a mudar de comportamento para assim, ter uma vida saudável e tranquila. 


       ESPALHE AMOR POR ONDE FOR!

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