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  • Geração 20's : Não queremos acabar com tudo.

    Uma geração estranha de desasjustados. Os 20,ou 20 e tantos (que há uma margem entre si e uma diferenciação, mas que posta numa escala menor, estão, tanto os 20, quanto os 20 e tantos iguais a uma barata tonta após jatos fortes de SBP de eucalipto) não sabem como proceder, como agir, não param em um emprego sequer. A cada dia, mais amigos me contam que largaram a faculdade, ou que foram demitidos, ou que pediram demissão depois de tanto tempo na empresa, ''cansei, não dá'' ou ''ah amigo, está muito caro.'' e os que trabalham dizem, ''todo dia eu quero me matar'' ou ''diz que um terremoto desmoronou o shopping'' e aqueles felizes com seus trabalhos são Dj's ou fotógrafos e mesmo assim não ganham bem, ou são ricos, pois os ricos sempre estão felizes, se não passa na faculdade um intercâmbio resolve o problema, ou até mesmo uma analista bem cara e bem paga, por que na verdade a única coisa que queremos é estar bem com nós mesmos. 
    Estamos ferrando com tudo por muito pouco, pouca bebida (até mesmo bebidas bem baratas), pouco sexo, poucas drogas e pouco foco no que de fato importa. Conheço pessoas nos 20's que sabem exatamente o que querem e fazem exatamente o que é preciso para conseguir, sem erros, sem falhas, um dia de cada vez, do jeito que tem que ser. Pensando aqui só duas; o resto mais cedo ou mais tarde faz uma cagada específica que ferra com tudo. 
      Nos 20 já desistiram de nós. Já devíamos ter aprendido, já devíamos ter feito aquilo. Na verdade, estamos cansados demais dormindo até ao 12:00, pois na noite anterior juramos pela nossas vidas que 23:30 era o limite para estar na cama; e as 2:30 se dá conta que iniciou o segundo filme, a segunda pipoca ou brigadeiro, e não tem problema, eu acordo cedo assim mesmo para ir trabalhar, eu aguento, um geração de zumbi. Gosto de pôr a culpa na TV, a nossa geração na infância está acostumada a ficar deitada a manhã inteira vendo todos os desenhos possíveis, e nossa Mães (inclusive a minha) secretamente gostavam daquilo, ''pelo menos não está fazendo besteira'' elas pensavam. Na minha casa era um momento religioso, sou o mais novo de 3 meninas e um Poodle, assistir Tv consistia num intervalo de nossas brigas e latidos constantes. Neste cenário, os 20's jamais vai crescer e ter o interesse de pegar no batente as 6:00, ou sentir-se feliz e realizado num emprego de 9:00 ás 18:00 em um escritório que nem a luz do sol é vista; os 20 enfrentam sua primeira crise e divergência e o mundo não tem espaço para crises de identidade, ou depressão, ou ansiedade, apenas o trabalha que cura qualquer enfermidade.
     Um solução? De fato não tenho nenhuma; talvez a culpa seja toda nossa mesmo, ou talvez não. Talvez seja um processo de adaptação á vida adulta; ou muito provavelmente virá um moço com o mapa com as regras e atalhos. O que piora são as expectativas, esperam que sejamos um tipo muito especifico de ser; pacato, mais ou menos; e isso é exatamente a ultima coisa que os 20 que ser. Não queremos pouco, não queremos até o limite, nós queremos intensidade, verdade, paixão, acordar e pensar que tudo vale a pena, queremos viver numa castelo mesmo que seja num camping em ilha grande ou num kitnete no centro da cidade. Até queremos um bom emprego, mas que tenha horários flexíveis, que forme sua equipe de acordo com o mapa astral dos funcionários, uma empresa que entenda o ciclo menstrual feminino e que dê carona em dias de chuva, que leve em consideração a febre do filho de seu funcionário, e que o chame de sócio e não de empregado. Queremos arriscar tudo por uma chance de ser feliz, botar tudo a perder sem garantia nenhuma; entendemos que nossa passagem aqui é breve e que de fato a maior felicidade é viver.
  • "Senta aqui, vamos tomar um café"

    Senta aqui, vamos tomar um café?! Jogar conversa fora? Rir pra caramba, quem sabe chorar em algum momento. Senta aqui, vamos falar sobre nós! Como você está? Seus planos? Suas conquistas... Conta mais.

    Senta aqui, vamos matar a saudade de nós, vamos aproveitar um tempinho livre pra descansar a cabeça, o corpo! Senta aqui, vamos falar sobre sonhos, até mesmo daqueles mais cabulosos, quase impossíveis! Senta aqui, vamos olhar dentro do olho, ver como estão brilhando. Senta aqui, me deixa ver como você está bem, como você está feliz!

    Quero sentir seu abraço por alguns instantes. Ouvir sua voz, sua risada. Senta aqui, deixa eu te contar como eu estou como me sinto. Senta aqui, quero te contar uma ideia maluca que tive. Senta aqui, lembra aquela viagem que eu queria fazer, deu certo! Senta aqui, me ajuda a fazer uma lista de prioridades! 

    Preciso ir... Obrigada pela companhia, pelo café, pelo abraço, pela voz doce e suave, pelos conselhos impagáveis, pela companhia maravilhosa, pelas gargalhadas que demos, pelas bobagens que falamos e pela saudade que matamos!
  • [Cartas] AGORA

    Jamais seria capaz de imaginar como se daria isso aqui. O agora. Nos seus exatos termos. É surreal demais. Tem instantes que demoro a acreditar… olho para mim mesma e digo, baixinho, num sussurro “eu ansiei tanto”… momento que torno as estações passadas e, quase sem querer, realizo uma comparação drástica, percebo o contraste. E constato que, pela primeira, a realidade conseguiu ser imensuravelmente mais do que a imensidão que outrotra fantasiei.

    Cada dia me vejo ainda mais surpreendida.

    É incrível tudo o que me proporciona sentir.

    Sou, sobretudo, grata.

    Reconheço que gosta do meu eu, nu e cru. Adoro isso, como sou sempre eu mesma, de verdade, sem filtros. Não faz ideia de como gosto do mim quando estou com você. Já que não tenho receio de mostrar quem realmente sou, não vejo barreiras e instante algum cogito não fazer o que tenho vontade por receio de como vai me perceber.
    Não há julgamentos.Também não os temo.

    Me deixa a todo instante incrivelmente confortável, sinto-me divinamente bem em mostrar todas as versões de mim mesma.

    Ah, ainda há tantas que não viu. Aliás, será um imenso prazer te mostrar.

    Sabe o que me impressiona? O que me cativa ainda mais?

    Que não idealiza o meu eu, não me quer como uma versão pirata de mim mesma. Deseja o meu eu, nu. Conhece aos poucos cada uma das minhas versões, enxerga os acertos e os erros e, ainda assim, permanece.

    Não se é preciso dizer nada, sem proferir nenhuma palavra, já me mostra o suficiente, esse detalhe significa o universo e o mundo…

    E isso é somente uma das coisas que me fazem admirar o agora.

    Obrigada.

    Obrigada, por tudo que me proporciona sentir.
    Obriga, pelo nosso “agora”.


    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2020]

    @janacoutoj

  • [Cartas] AUSÊNCIA

    Me surpreende que mesmo há muito tempo sem te ver, falar, fitar, sentir, tocar, encarar ou simplesmente lhe escrever… não houve sequer um dia em que eu não tenha pensado em ti.

    É absurdamente estranho. Você distante, me magoando, não só por isso; mas também, por aparentemente não fazer questão, como quem já não mais se lembra. Me magoando, pois te vejo evitando todo e qualquer contato comigo, por mais ínfimo que seja. Digo isso com certeza, já que você sabe muito bem onde e como me encontrar. As poucas notícias que tive a seu respeito, desde então, foram através dos nossos colegas, afinal, tu continuas mantendo contato e saindo com todos os meus amigos..., aliás, sem sequer pronunciar o meu nome. Me machuca ver que usas de todos os meios e artifícios para inibir, obstruir, desviar todas as minhas tentativas em simplesmente conversar. Deve fazer ideia do quanto acho isso infantil.

    Não sei se fico feliz por você aparentemente ter superado e seguido ou incrivelmente decepcionada por perceber que não marquei o quanto imaginava, na mesma intensidade que as nossas estações marcaram a mim. Adoraria conseguir lidar muito bem com as idas e vindas, chegadas e partidas, mas não é do meu eu. Desmorono.

    E mesmo na ausência, você se faz tão presente… é na rotina do meu dia, na pausa para o café, na caminhada até a faculdade, é durante o meu banho, até na insônia da calma noite chuvosa… não precisa de muito, basta o soar de uma música para eu memorar um instante, ouvir uma frase (sutil) e julgá-la tipicamente sua, o notar de um perfume e percebê-lo familiar, é simplesmente tornar um lugar e ter uma “reprise” dos minutos que estivemos por lá. É, sobretudo, desejar insanamente o teu toque, o teu corpo, a sua fala mansa, ansiar temerosamente estar novamente no envolto do teu abraço e ser preenchida pelo teu cheiro. Sim, a sua presença é leve.

    Confesso, nos primeiros dias estava a ponto de delirar. Ouvia o seu nome, relia nossas mensagens de texto, procurei todas as nossas fotos, ouvi todas as músicas dedicadas a mim e também reli todos os textos que te dediquei. Lógico, escrevi muito na tentativa de exteriorizar e arrancar de mim o peso da sua ausência e até usei todas as suas camisas que ainda estavam no meu armário. Passei em claro todas as madrugadas quentes de agosto pensando em nós, em você, em tudo que aconteceu e que poderia ter acontecido — martirizando-me sobre o eterno “e se”. Em cada instante sozinha, eu pensava na dura transição do “nós” para o “eu e você”.

    PS. Jamais vou te perdoar se nas próximas estações todas às vezes que ouvir “É Você Que Tem — Mallu Magalhães” e “João de Barro — Maria Gadú” o meu pensamento cair em ti.

    Eu ainda penso em nós. É, sobretudo, nas frias madrugadas tempestuosas, ao ser acordada pelos estrondos dos trovões, ao perceber o quarto iluminado não só pelo clarão da lua que atravessa a imensa janela, mas também dos raios luminosos que invadem e espantam a escuridão — você sabe, detesto raios por temê-los -; instante que me sinto pequena, frágil e extremamente vulnerável… lembro o quanto você me julgava boba e infantil por isso, mas ainda assim, me abraçava fortemente e não me soltava… não faz ideia do quanto eu me via protegida, naquele instante, ouvindo sua respiração, o meu mundo estava concentrado em você, mesmo que não estivesse vazia, uma felicidade insana me preenchia ao me dar conta de que você sempre estaria ali, comigo e eu por você.

    No entanto, é especialmente nas noites de sexta que o meu corpo pulsa e anseia pelo seu toque. O desejo de ter você, por inteiro, não somente no meu corpo, mas também na minha alma, assim como desejo de uma vida ao seu lado, de modo que meros instantes não seriam o suficiente. [Me arrepio ao escrever isso]. Sim, eu sei, disse para ti inúmeras vezes “que a nossa coisa perdure, enquanto sentido fizer”, ela ainda fazia sentido para mim, em partes; jamais irei esquecer a imensidão que o tempo contigo me proporcionou, sobretudo, me fez ser alguém melhor, mudou minha visão sobre algumas coisas, me ensinou muito e acabou agregando uma oitava cor ao arco-íris que chamo de vida… até a ruptura.

    Ainda enquanto estávamos juntos, ao deitar na cama cansada à procura do sono, imaginava um futuro incrível, deduzindo infindas possibilidades, criando e reinventando as cenas mais distintas… com apenas uma coisa em comum, você em todas elas. Vez ou outra me pego fazendo a mesma coisa, não largo essa velha mania, madrugada que coloco os meus fones na fútil tentativa de me dissociar do teu eu. Não é incomum, busco me castigar afirmando para mim mesma que você não merece tomar todo esse tempo de mim, então realmente digo isso a mim mesma, alto e em bom-tom, com convicção — pois preciso que me digam com seriedade já que sou teimosa —; corro para o espelho e reproduzo mais duas ou três vezes a mesma oração. Por alguns minutos, funciona. Depois paro e penso no que fiz, mesmo que eu seja “mulher” para algumas coisas, nisso eu me vejo muito infantil, boba, ingênua. Sabe, alguns momentos tenho 30, 20, 12 anos... isso me assusta e te assustava também.

    Mas, no final das contas, esse ritual de nada adianta, não importa o quanto eu queira. Tenho raiva de você por arrancar todo esse tempo de mim, tempo que eu gasto pensando em nós, escorre; e tenho ainda mais raiva de mim por atrelar a culpa a você de uma coisa que está em mim. Quem sabe, talvez com o correr do tempo, eu me acomode a sua ausência até não mais percebê-la; e se isso for verdade, que o tempo sana tudo, Deus, como quero que ele passe.

    Porém, acima de tudo, isso não é a parte difícil, o duro é assumir que, apesar de tudo, sinto falta de alguém que, ao final, me magoou. Jamais irei me perdoar por uma coisa dessas. Como se habitassem duas pessoas em você, o cara pelo qual, talvez, me apaixonei e o cara que me fez ir embora, não faz ideia do quanto sinto a presença da ausência desse primeiro. Não sou tola, recordo com clareza todas as suas condutas que me magoaram, desde ações às omissões, coisas que falou, coisas que você não fez… foram tantas. Sim, penso “ele não me merece, nunca mereceu”. Mas, instantaneamente, recordo das partes gostosas, dos instantes que fui surpreendida, que, aliás, superam de longe as demais coisas — que se fazem diante dessa comparação tão bobas — e me remetem à minha criação do seu “primeiro eu”; portanto, acabo me sentindo uma mentirosa.

    Me sinto mal ao afirmar “você me magoo”, pois me vejo apontando o dedo e gritando isso na sua cara; sendo que tenho total consciência de que a recíproca também é válida. Talvez, eu tenha te decepcionado profundamente e isso justifique a sua partida efêmera. É contraditório, mas nas últimas semanas conturbei muito as coisas entre nós, justamente tentando fazer dar certo. Nós dois somos terrivelmente diferentes.

    Sei que peco em muita coisa. Não consigo ser direta e isso atrapalha tanto, principalmente por prolonga discussões, é o meu defeito, você o conhece bem e sabe o quanto o detesto. No mais, às vezes cobro que você pense como eu, espero que você supra minhas expectativas e entre outras coisas. Tem hora que deixo a razão falar mais alto ou a emoção. Eu não tenho equilíbrio, talvez por isso seja digna de elogios como “desequilibrada, descontrolada, louca”. Eu erro, falho, estou muitas vezes equivocada. Mas, quando acontece reconheço, assumo a bomba, isso nos diferencia. Eu não tenho receio em pedir perdão, quando vejo sentido, me desculpo com o coração, jamais da boca para fora… de mim nunca haverá manipulação... afinal, é como se concretiza um pedido de perdão sem mudanças. Mas, isso não vem ao caso agora, não é o cerne da questão. Sou uma pessoa difícil, você também é. Sabe, eu temia tanto isso… que nós magoássemos um ao outro.

    Nunca falei tanto sozinha como no último mês. Vez ou outra me deparo questionando em pensamento algo sobre ti e outra versão de mim mesma responde alto e em bom-tom. Quando é mais latente, me deparo jogando “n” coisas na sua cara, como se estivesse ali, diante de mim. É insano. E tudo cessa com a frase “Pelo amor, você tá ficando doida”.

    Choveram tantas coisas em mim. Me vejo num eterno não senso. O “sim” e o “não” na mesma pessoa. O desejo e o desprezo em tê-lo comigo, afinal, se é para ficar e eu me sentir daquela forma, você sabe qual, prefiro que vá. Eu queria te proporcionar dias gostosos no último mês e penso que não consegui… não me doei como gostaria. Aceito defeitos de todos os tipos, menos a indiferença. Os momentos de desdém me matam. Me mata principalmente reconhecer que, nos últimos dias, eu nāo fui o melhor de mim, em muitos sentidos. Serei franca, culpo você por isso.

    Não é novidade: o meu eu contra si mesmo.

    É assim, sempre dessa mesma forma, basta em pensar seja lá o que for ao seu respeito que novamente aquele desejo me consome. É uma chama azul. Um fogo me domina de tanto que queimo em intensidade na ânsia de ter-te comigo… me contorço e o meu corpo estremece na abstinência do teu toque, desejando o teu amor, desejando com todas as minhas forças a ponto de te fazer pensar em mim, a ponto de sentir você pensando em mim, até que tudo se desfecha em brasa. Delírio. Chame do que quiser, loucura, insanidade. Procure adjetivos e se encontrar, seja qual for, não conseguirá definir.

    Eu nunca imaginei que chegaria a esse nível. Insanidade. Qual é o sentido disso? Me levará ao que? Será que é tudo isso em vão? Acredito que não, quero acreditar que não, acreditar que não foi e não é tempo perdido, não quero reconhecer que insisto em alimentar algo que cedeu ao fracasso. Então, na tentativa de cessar a tortura emocional e psicológica digo em voz alta para mim mesma: “Que tipo de perguntas idiotas são essas?”.

    Está claro, não é? Estou tão confusa... indo e vindo em centenas de coisas e não chegando a lugar nenhum. Mais uma vez, perdendo o foco... a concentração. É isso o que sua ausência está me causando "desconcentração".

    Não entendo como ousa me ignorar, evitar. Me corta as suas ações, pois elas me dizem que fui para ti apenas um capítulo. Enquanto fiz e faço de você o meu melhor livro, aquele favorito, que jamais canso de ler e reler. Eu gostaria de ter razões suficientes para acreditar que seu intuito é justamente tentar demonstrar isso, mas, que, no fundo diverge da realidade. Realmente me corta, pois, eu ainda te desejo. O meu íntimo, ainda que não insista em acreditar que estávamos “destinados a ficar juntos” (não sei qual termo usar para definir), ele espera, com força, que você enxergue o quanto é gostoso quando estamos juntos, ao menos, para mim, um tempo foi… enquanto o distanciamento ainda não existia.

    Não, eu nunca disse e não estou dizendo que quero ser tudo para você; mas, a pessoa que não trocaria por nada. Nos proporcionamos um amor puro, percebi assim. Serei eternamente agradecida por essa dádiva. Sobretudo, gostei imensuravelmente da nossa coisa. Adoro o vínculo que construímos e é cortante vê-lo se diluindo. Talvez, eu não seja o grande amor da sua vida ou você da minha, o destino é uma álea, aliás, nem sei se existe isso de “o eterno amor” ou sequer “o grande amor da vida de alguém”, mas, saiba, que o nosso foi — ainda é — o amor mais intenso e breve que vivi.

    E, por falar em destino, infelizmente, você será a minha eterna saudade, quem sabe a eterna quedinha, talvez o eterno desejo. Não sei. Mas, tenho certeza de que fez e fará parte das minhas melhores recordações. Jamais esquecerei a grandiosidade do que me permiti sentir, com você. Nem sequer cogitarei intitular como fase, paixão ou ilusão tudo o que pulsa aqui. Agora, já não faço ideia da sua percepção sobre o nosso enredo, espero que seja um tanto parecida com a minha. Me fará sorrir se, eventualmente, de alguma forma, eu souber que pensa em mim com carinho, que te atingi de um jeito bonito. Apesar dos pesares.

    Ainda assim, soa tão simples quando diante do que acreditei causar. E é um imenso contraste se comparado ao que me causou. Seria um prazer se lembrasse de mim como a garota pela qual foi apaixonado, a amiga pela qual teve carinho, a mulher que te causou imenso desejo… que te proporcionou conhecer um sentimento que queima de tão intenso, quem o incendiou, sobretudo, quem realmente lhe despertou o amor.

    Não se é preciso ser perfeito para ser incrível na vida de alguém.

    Vez ou outra me pego pensando se, depois da ruptura, houve uma madrugada sequer em que você tenha me desejado. Me desejado de alma como por um lapso temporal já desejou, já demonstrou, já gostou. Já sentiu. Desejo mesmo, sabe? Que só em me olhar te consumia, te preenchia por uma vontade insana e intensa, como uma fúria interior, um querer que corrói, uma imensidão latente implorando para me ter ao seu lado por toda a vida. Não faz ideia do quanto eu amava imensuravelmente esses instantes, os instantes que sentia e via o seu olhar em mim me dizendo o universo e o mundo.

    Será que, por um momento, uma mísera vez, se questionou se ama ou se já me amou?

    As suas palavras, escritas, cuspiram na minha cara que não. E, ainda assim, demoro a acreditar. Contradizem tudo o que vivi:

    “Olha, desculpa.
    Me desculpa por cada vez que te deixei triste, por cada momento que te decepcionei.
    E, principalmente, por às vezes parecer um idiota com você.
    A real é que essa coisa é grandiosa e eu não sei lidar.
    Eu não levo nada a sério na minha vida, muito menos ela própria.
    E, sobretudo, não sei sequer um dedinho do que é sentir algo por alguém.
    Por isso, mudo repentinamente, sem mais nem menos, fico diferente do nada, meu estado de espírito me controla naturalmente e esqueço que as pessoas têm sentimentos e que preciso respeitá-los.
    Quero me afastar de você. Não por mal, mas porque não te faz bem ficar comigo.
    E eu não sou bosta nenhuma e não tenho nada para te oferecer de bom.
    Por fim, agora, ainda que compartilhemos a mesma lua, estamos muito longe um do outro.
    É isso.
    Ps. Sou grato pelo tempo que esteve comigo. Foi puro."

    Não faz ideia do alvoroço sentimental que as suas palavras frias me causaram. Juro, ri ao terminar de ler, um riso sem alegria, aquilo era o cúmulo do absurdo. “Você sabe, não sou a pessoa que insiste na presença de quem já não quer ficar. Perde o sentido”. Depois de tudo o que você vomitou, pensei o infinito e o mundo e não dirigi a ti mais nenhuma palavra.

    Ainda que eu diga para mim mesma, com veracidade, em alto e em bom-tom, que eu simplesmente me acostumei com a sua presença, me sinto uma mentirosa, tentando envenenar o meu pensamento na fútil tentativa de sanar o meu sentir. Nunca imaginei que seria doloroso e difícil assumir, bater no peito e falar, mesmo que somente para mim, que amo você.

    Isso é tão irônico, não é? Eu aqui, em devaneios por sentir o peso da sua ausência, enquanto ti sequer depois daquele dia, da ruptura, me ligou…

    E ainda assim, sou nua e crua ao falar que te desejo as melhores coisas do mundo, ainda que isso signifique se afastar de mim. Você sabe o que é melhor para você. E, no momento, eu não faço ideia do que seja o melhor para mim.


    Janaina Couto ©
    [Publicado - 2019]

    @janacoutoj

  • [Cartas] CRU

    Quando disse, de boca cheia, que estás entregue a mim, que tenho ao meu lado o seu verdadeiro “eu”, confesso, como de costume, fiquei questionado comigo mesma, de mansinho, a sua fala:
    “De nada adianta eu ouvir suas palavras e não ver, tocar ou sentir o que diz. Palavras podem ser vazias.”
    Felizmente, as suas, sinto que não são. Principalmente por, logo em seguida, ter fitado os meus olhos e afirmado, sustentando o olhar, que “escolheu isso”, por toda a nossa troca, acredito indubitavelmente.
    Realmente, vejo que temos um ao outro de uma forma que muito me cativa.
    Adoro a forma que me têm, que me cuida.
    Eu gosto disso.
    Gosto da forma que me trata.
    Faz com que eu me sinta grata.
    Sobretudo, bem comigo mesma por toda a minha doação.
    Não faz ideia da minha sede pelo teu “eu”.
    Confesso, ver a sua entrega me deixa fervendo. Sei que, independente do que aconteça entre nós, jamais irei me arrepender por mergulhar, sequer por queimar em intensidade.
    Seja assim, nu e cru.
    Seja de verdade comigo.
    Seja quem você quer ser.
    Seja e aja da maneira que quiser.
    Seja a melhor versão de si mesmo.
    É óbvio, ninguém é o mesmo para sempre. A mudança é crucial. O cerne da coisa é sempre ser si mesmo. Te peço, jamais se torne uma versão pirata de si mesmo somente para agradar me agradar.
    Já te disse, acredito que podemos ajudar um ao outro a nos tornarmos pessoas cada vez melhores. Evoluir, transcender.
    Mas, ainda assim, desejo que seja sincero consigo mesmo. Seja você. E, se mudar, mude por escolha sua, por ver sentido na mudança e deseja-la. Mude para evoluir, nos seus ideais de evolução.
    Quero isso. Eu quero o seu “eu” nu e cru, anseio conhecer todas as suas versões.
    É gostoso dizer com convicção “tenho um puta orgulho de quem está comigo”.
    Quero ver tudo de você. E, vendo tudo, ainda assim, justamente por ver tudo, continuar sendo muito do que eu quero.
  • [Cartas] DESPEDIDA

    Lembro de você me chamar, segurar a minha mão e me guiar.

    Era pouco antes das dez da noite. A noite bonita. Depois da nossa longa conversa, levantou do banco marfim entre as árvores do condomínio, pegou na minha mão e disse “vem aqui”. Não sabia onde iríamos, mas levantei e deixei-me levar. Eu estava descalço e sentia a grama fria em meu pé, entrelaçando nos meus dedos. Enquanto me conduzia, por entre o emaranhado de folhas, parou um instante. Olhou para trás. O seu rosto de um jeito convidativo, um sorriso de canto, seu olhar castanho fitando os meus lábios, fez-me arrepiar. Voltamos a caminhar, “eu estou descalço”…”não importa, só vem comigo”. E eu nunca vou esquecer a sensação da grama fria nos meus pés.

    Chegamos na parte mais bonita da pequena vegetação tropical que cercava o condomínio. Paramos, você não precisou falar nada, o seu abraço me disse o universo e o mundo. Confirmando tudo.

    Recordo o seu toque leve acariciando os meus braços até suas mãos chegarem e relaxarem em minha cintura. Eu estava nervosa, tensa. Você tentava me deixar confortável. Não era a primeira vez que te via naquele clima e daquele jeito, mas era tudo ainda mais intenso. Havia algo de diferente. Forte. Eu sabia a imensidão que significava aquele momento mas, me recusei a aceitar.

    Numa tentativa falha de cessar, postergar, comecei a falar. Você me encarou fixamente, repousou os dedos nos meu lábios — “shh” — e, num sussurro, me pediu pra parar de falar porque você queria me beijar. Não era o meu primeiro beijo com você. E ainda assim, eu estava com medo, tão aflita que sequer entrava no clima. Podia não ser o primeiro, mas sabia que seria o último.

    Infelizmente algumas situações precisam ser vivenciadas. Não há como fugir. Elas cortam, mas são necessárias. Não podem ser adiadas, elas nos cercam, quando menos esperamos. Reconheci que aquela noite marcava a nossa despedida. E isso me torturava. Antagonicamente marcava o fim e confirmava a intensidade de tudo que vivemos, a grandiosidade do que nos proporcionamos sentir. Árduo, mas belo.

    Resolvi postergar, não o momento, mas a dor. Faria da nossa última noite uma celebração da nossa curta história de “amor”.

    Teu olhar sereno me fitava. Seus olhos trêmulos. Com um sorriso de canto, me disse “é necessário”. Exalando pesar, assenti. Em meio às árvores que abafava o som de “Brooklyn Baby — Lana Del Ray” que ecoava da festa, deixei me guiar. Foi só em meu rosto tocar e, como sempre, me desmanchei. Você não falou, mas não ouse chegar a negar. Nunca te vi tão obcecado por mim como naquela noite. Desejo. Como se o seu eu não só ansiasse, mas dependesse do meu. Queimava em intensidade de um jeito que nunca havia visto e que jamais esquecerei. Almas conectadas. Transcendemos.

    Nunca conversamos a respeito daquele dia depois. Não nos vimos. Não nos veremos. Para mim foi bem mais que intenso. Enquanto decidia simplesmente a ti me entregar, uma reprise dos nossos dias invadia minha mente. Uma reprise do meu melhor verão. A sensação enquanto parávamos para respirar era gostosa, saber que por alguns instantes nos pertencemos, que estávamos em sincronia. A cada exalar, um momento nosso tornava a minha mente, fazendo-me grata por dividir um verão com você. Tão grata que mesmo hoje, distantes, provavelmente um pouco mais diferentes, somos duas pessoas, que não mais se conhecem, mas com uma história gostosa, repleta de lembranças inimagináveis e momentos incríveis — em comum — de uma intensa paixão de verão.

    Lembrei de quando me levou para conhecer a galeria, depois do luau. Era enorme. Fiquei boquiaberta com o quanto se dava bem em tudo atrelado à arte. Não só compunha belas canções, mas também dava vida à telas maravilhosas. Por ser totalmente leiga, impressionada, fiz uma série de perguntas. Tu não se irritava com minhas indagações, ao contrário, me contava graciosamente sobre tuas técnicas. Inspiração. Gostava de te ver daquela maneira, expondo seu íntimo.

    Tornei também à noite do karaokê, cantamos juntos “What’s Up? — 4 Non Blondes”. Lembrei da festa da Mallu, você me irritava me chamado para dançar enquanto eu resistia alegando não saber, mas, na hora que eu sentia você em mim a sua calmaria me inundava e toda fútil irritação se evadia. Independente de experiência, achei teus movimentos tão graciosos. Definitivamente eu não sabia dançar. Porém, contigo eu não tinha receio de arriscar. Não haviam barreiras. Foi a primeira noite que dancei literalmente sem pensar no amanhã.

    Passamos a maioria das tardes do verão em seu ateliê. Adorava te ver trabalhar enquanto jogávamos conversa fora. Aliás, jamais esquecerei o meu pique de euforia ao ver uma pintura minha lá. O meu melhor artista. No entanto, adorava ainda mais quando cantava “Onde anda você — Vinicius de Moraes”. Tudo em ti me derretia, não era só o seu beijo. O teu jeito. Quando nos encontrávamos, instantaneamente algo me preenchia, embora antes não estivesse fazia. Eu não te completava e nem vice e versa, a gente transbordava.

    Em pensar que na primeira vez que te vi, não imaginava tudo que estava por vir. Nunca iria presumir o quão profundo um envolvimento de férias poderia me tocar. Sequer que umas horas de papo furado na praia com um cara bêbado de sorriso malicioso iriam acarretar tudo isso. Felizmente, tive o prazer descobrir que tu era bem mais do que isso, bem mais que um cara bonito cheio de lábia com jeito de inconsequente.

    Você tinha sede de conhecimento, tão sedutor explicando-me os assuntos mais complexos, isso me desmoronava. E ao passar do verão, me cativava cada vez mais. É deslumbrante memorar o quanto me mostrou, não me refiro só os lugares bonito que me levou, mas também, às nossas horas de conversa, sua filosofia que pouco a pouco me fazia ver por outra perspectiva a vida. Era uma troca. Troca de conhecimentos, experiências, questionamentos e, claro, amassos.

    Confesso que a sensação, o clima de incerteza, sobre o que rolava entre a gente era gostosa. Você tinha a sua coisa, eu a minha, e quando a gente se encontrava era muito bom. Havia mistério, nem começo nem fim. E eu não queria perder o controle da situação. Não poderia ser tão fácil assim. Eu definitivamente não era esse tipo de garota, não me apaixonava assim. Mas, aquele verão foi diferente. Você foi o diferente.

    “Foi mais que um prazer conhecer você, foi incrível” as lembranças evadiram-se e rapidamente eu voltei, para a nossa última noite, afinal, eu voltaria para São Paulo na manhã seguinte. A noite ficou encantadora. E foi naquele instante, enquanto pronunciava aquelas palavras e o teu olhar avelã me fitava, que percebi o quão sua frase naquele primeiro dia na praia “a gente não tem nada ver” foi completamente descartada. Seu rosto corou, se entregou, estampou a verdade.

    Não imagina o quanto eu havia esperado, ansiado, desejado aquele momento ao longo de todo o verão, com o meu apressado e quem, sabe, inconsequente efêmera paixão. O instante exato que tive certeza que, pra ti, a nossa coisa também foi surreal. Química demais, conexão demais para ser verdade.

    O melhor de tudo foi que mesmo o Rio de Janeiro transparecendo despedida, ao longo de não um, mas vários beijos, o clima daquela noite não poderia ter sido melhor. Caloroso. Não era uma noite de despedida como as outras, não era capaz de me reconhecer. Não lidava bem com despedidas. Mas, estranhamente, reconhecia que estávamos fadados a ela, apesar de não aceitar.

    O clima, embora de já exalar saudade, não pesava. Conformismo? Tu agia de uma forma que eu jamais imaginara, sempre tão autêntico, agora afável, sereno, mas ainda assim, algo característico seu, mas um lado que eu desconhecia.

    Não sei se eu fui uma pessoa qualquer dentre as demais. Você não foi. Creio que alguma memórias não ousará em deixar para trás. Não tem como. Nos conhecíamos havia pouco tempo e já tínhamos uma conexão esplêndida, te contei tantos segredos, mas nunca abri meu coração. Lembro que você mencionou “a nossa história” comigo algumas vezes e, em pensamento, me questionava o quão apressado, cedo, era pra você falar isso. Presa em minha própria teia. Eu queria mais. Disposta a me deixar levar. Quando eu teria uma aventura como aquela novamente?

    Mais cedo, antes de tudo, sentados juntos naquele banco, olhando o céu escuro, sentindo a brisa da noite calorosa — o som da festa ao fundo “Art Deco — Lana Del Ray” — conversávamos e eu juro que tentei. Tentei de verdade, abrir meu coração. Falar sobre o sentimento avassalador que me dominava, fazendo desejar cada vez mais e mais dias como aqueles contigo. Corroía. Já não me importava se era cedo, se burlava todos os meus conceitos. Tentei e eu estava disposta a colocar tudo pra fora independente do que você fosse falar ou pensar.

    Eu tentei: “não fala nada, você só vai me ouvir”, comecei a falar sobre umas coisas e logo desisti. A insegurança de sempre veio a tona e eu me senti tão boba. Boba por ter atribuído intensidade demais a tudo. Enquanto eu tentava revelar a imensidão do que na época sentia, simplesmente ao desenrolar das palavras, a coisa mais forte que eu consegui dizer foi apenas “saiba que eu gostei de você” e tu instantaneamente virou o rosto em minha direção, me olhou, inclinou a cabeça, mordeu o lábio e confirmou o que lá no fundo eu já sabia “eu também gostei de você, demais, pra caramba”.

    Mas nenhuma de nossas falas remeteu ao amanhã. Independente do que ia acontecer ou não depois daquele instante, eu precisava aceitar, realmente, paixão de verão. Porém, uma coisa eu pude ter certeza, nos dedicamos uma história breve, mas sensacional. Confessa.

    Não esperava vivenciar sequer uma parte de tudo isso. Sequer é possível falar qual a melhor parte da “nossa coisa” sendo que eu gostei de absolutamente tudo. De todo o verão contigo. Talvez você não lembre da mesma forma que eu ou apenas não lembra mais de tudo que sentiu na época. Mas, se tem uma coisa que eu jamais irei esquecer é você. O cara pelo qual fui inconsequentemente apaixonada. Jamais irei esquecer a minha curta paixão de verão.

    Definitivamente uma paixão de verão, não passou disso. Justamente a sensação de incerteza sobre o que seria depois foi a graça de toda a coisa.

    Lembro de sentir a grama fria entrelaçar os meus dedos dos pés, dos seus beijos, do seu ritmo caloroso, do seu gosto, do nosso calor. Foram só alguns dias, mas que marcaram imensuravelmente aquele verão.

    Lembro de cada detalhe da despedida.


    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2017]

    @janacoutoj

  • [Cartas] ESQUECIMENTO

    Noite passada eu não parei de pensar em ti. Hoje, muito menos. Incrível como isso pode ser tão irônico. Justamente ontem fiz uma pausa para refletir a respeito dessa minha nebulosa onda sentimental que insiste em não cessar, na tentativa de encarar com racionalidade e me livrar da tortura. Notei que passar mais estações sofrendo não só por sua; mas, também por minha causa e pela “nossa coisa” já não fazia sentido.

    Afinal, você sabe o meu número, conhece os meus amigos e poderia muito bem falar comigo se sentisse saudade, se fosse da sua vontade. Diferente de mim. Ás vezes me questiono sobre isso, se tu pensas exatamente do mesmo jeito e fica á espera de uma atitude minha. Mas, no mesmo instante, recordo que você não é assim, age por impulso quando quer algo, não exita em fazê-lo. Porém, acaba por descartar tal característica ao dotar-se de orgulho. E pela forma como tudo terminou, não posso de maneira alguma descartar essa hipótese, “cuspiu no prato que comeu” foi uma frase bem forte.

    Detesto fazer presunções, soa tudo tão incerto. Aliás, tu não é desses que se prende a alguém. Sendo franca, algo dentro de mim quer estancar a minha percepção da realidade, qual compreendo até demais, além dela estar distante do que eu gostaria, não é nada agradável e acaba por ser doloroso de aceitar. Mas, não posso seguir tentando enganar a mim mesma, soterrando e afugentando o que está escancarado. Você seguiu em frente e eu ainda não superei a ruptura em todas suas facetas.

    Concluí, com decepção, que no fundo, não consigo te esquecer porque realmente não quero, ainda permaneço a alimentar este sentimento. Não me permito conhecer outras pessoas, pois sei que nenhuma delas será você. Vez ou outra, me pego fazendo comparações até mesmo nas coisas mais ínfimas ou caçando características tuas nelas; pior, inconscientemente te projetei em um outro alguém. Tem noção do quanto isso foi prejudicial?

    Não obstante, reconheço o porquê de tudo. Apesar de toda a parte cortante da história; é evidente, houveram sim momentos dignos do título de “inesquecíveis”. Me apeguei a estas memórias intensamente e não quero que o desejo de vivenciá-las novamente se apague, por temer perdê-las, já que ansiando as lembranças são tão vívidas.

    Logo, me vi decidida a deixar tudo isso para lá e encarar de frente a situação. Não mais passaria minhas tardes com o pensamento em ti e evitaria nas conversas tocar o seu nome. Tentaria não me frustrar todas às vezes que, ao chegar e pendurar o casaco, perceber que a minha sala está do mesmíssimo jeito que deixei pela manhã, um sinal de que naquela noite você não passaria aqui em casa para jantarmos juntos; que eu não teria seus dedos tateando as minhas costas num vai e vem para me fazer dormir, que não ficaríamos envoltos num grande abraço corporal e eu não mais em segredo iria tentar sincronizar minha respiração com a tua; que não seria aquecida pelo teu corpo quente e sequer me sentiria acolhida pelo teu sorriso e o seu olhar terno. Não escreveria mais sobre você, muito menos sobre nós. [É evidente, fracassei]. Ficaria realmente aberta para conhecer outras pessoas, à espera de alguém sobretudo interessante, para me divertir ainda que de maneira efêmera e “queimar em intensidade como um dia incendiei por ti”… mas, rapidamente descarto a ideia, pois tenho a sensação que jamais seria a mesma coisa, nos seus exatos termos.

    Quando essa nevoa passar, quando realmente me der conta, ficarei surpresa comigo mesma. E sei que vou perceber a transição somente quando os meus escritos falarem apenas de mim e não mais de você.

    Naquela noite, reconheci que esse meu desejo constante e a esperança de que nos encontraríamos novamente para viver o “amor mais intenso de nossas vidas”, como se fôssemos amantes predestinados, nos encontrando novamente e trazendo a paixão do passado sempre a tona; era um sonho utópico, mera fantasia. Apesar do nosso caso ser reincidente, qual seria a probabilidade de acontecer novamente?

    Eu definitivamente estava ficando louca e cogitando coisas que eu sempre desacreditei. E, pior, ainda assim tenho a convicção de que nada disso faz sentido.

    Definitivamente os meus delírios de amor já estavam indo longe demais. Eu havia decidido que a partir daquele instante não iria mais pensar em ti, não iria forçar para te esquecer (é até antagônico), não iria imaginar momentos contigo e nem ansiar teu toque.

    Mas, incrivelmente, nessa mesma noite, ouvindo música enquanto tomava um vinho tranquilo, me deparei com o som de “Take My Breath Away” e ele destruiu todos os meus planos e decisões anteriores.

    Pois, por incrível que pareça, essa melodia sedutora retrata uma paixão em chamas e descreve fielmente tudo o que o meu íntimo mais deseja, a razão pela qual ele pulsa. Isso mesmo, desejo que nos encontremos novamente, trazendo para o agora aquela mesma paixão avassaladora e aquele sentimento quente, que me deixava em chamas.

    Desejo que a paixão que brotou na juventude, ou seja lá o que for que ainda permanece vivido aqui, não se desmanche — em ambos os lados. Eu sempre, verdadeiramente, não só esperei, como também acreditei, com lasciva veemência, que estávamos fadados a um intenso romance; assim como retrata a canção.

    Projetei tanto que não me conformo com esse desfecho, não consigo me render a essa ideia. Digerir que nossa envoltura não estava como imaginava, que de um instante ao outro perdi o eclipse, o acontecimento centenário que tanto ansiava, uma oportunidade não aproveitada; pra ser sincera, não quero me render, evitando a frustração de sentir-se vencida pelo que mais temia. Sofro pela perda do que nunca me pertenceu, pelo que não vivenciei, pelo que poderíamos ter sido.

    Não sei se fico feliz por já ter tido você por instantes ou decepcionada pela possibilidade de não tê-lo novamente. Talvez, minhas palavras não passem de devaneios, frutos de uma decepção amorosa. Mil e um pensamentos rodeiam a minha mente enquanto meio torpe escuto essa música e te escrevo.

    Sei, pode parecer brega, mas super a minha cara, escrever cartas para alguém que jamais irá recebê-las. [Você sabe muito bem disso].

    Definitivamente ainda não consigo esquecê-lo e a canção só me faz lembrar e desejar ainda mais estar em você. Não paro de ouvi-la ou de muito menos desejá-lo, de ansiar tudo aquilo novamente. Afinal, pode ser putativamente, mas sinto que vivemos nesse jogo tolo de amantes que a letra tanto fala. Sou eu quem está assombrada pela noção de que em algum lugar existe um amor em chamas, voltando, retornando de algum lugar secreto no interior.

    Ou, talvez, eu somente esteja meio torpe.

    Sabe, o vinho me deixa “alta”.

    Acredito que amanhã darei risada e me sentirei ridícula por tudo isso.

    Bom, espero.


    Janaina Couto ©
    Publicado em 2018

    @janacoutoj

  • [Cartas] MORNO

    Se quiser falar a respeito, estou aqui.
    Me desculpa por te deixar assim.
    Queria que se sentisse confortável comigo. Principalmente para dividir tudo o que sente. Para me contar o que se passa com você. Gostaria de ter a chance de compreender e poder te ajudar com essa infinidade de "problemas". Me mata te ver assim.
    Me fere mais ainda perceber que, de algum modo, algo em mim te deixa com o pé atrás nesse sentido. E eu não sei a razão. Não sei o que te inibe em me colocar e inserir de uma vez por todas em todos os âmbitos da sua vida. Não sei o que te impede de me mostrar cada fresta tua.
    Quanto a traumas, se eles existem, é importante compartilhar comigo, para lidarmos juntos. Não quero minhas ações afetando você e sendo motivo para que fiquei assim, morno.
    Me deixa arrasada constatar que, enquanto eu queimo em intensidade, a "nossa coisa" já não pega mais fogo. Detesto esse morno.
    Eu gosto de você de uma forma insana. E, infelizmente, sinto que vê isso distante. Mas, nāo adianta eu só falar. Quero muito que "veja" tudo o que causa em mim. Anseio que perceba a grandiosidade do que me faz sentir.
    Gosto muito de mim quando estou com você, acho incrível como faz eu me sentir. Um estado constante de euforia, desejo.
    Semana passada, madrugada, quando nos encontramos, enquanto eu repousava em teu peito, você estava distraído até que nossos olhos se esbarram. Te olhei profundamente.
    Me perdi no teu olhar e, juro, me arrepiei com ele, de uma forma que nunca havia acontecido antes. Naquele instante, acreditei fortemente que eu estava alinhada ao meu destino… que ele está "escrito". Te olhava profundamente tentando me fazer acreditar que, felizmente, o tenho ao meu lado.
    Recordo que sorri desejando eternizar aquele momento. Reconhecendo tudo o que pulsa em mim, aquele trecho de Relicário não saia da minha mente "Eu trocaria a eternidade por essa noite". Naquela madrugada fria, você, em seguida, beijou a minha testa. Eu senti carinho, proteção… foi a primeira vez que alguém me beijava daquela forma. Serei eternamente agradecida por ter sido você.
    No dia a dia, com a rotina corrida, não faz ideia do quanto sinto saudade, muito menos de como anseio às 19h para te ligar e ouvir sua voz ou ao menos ler uma mensagem sua.
    Sinto muito por nāo te proporcionar o mesmo…
    Eu quero, quero de verdade. Sinto que sou capaz de te deixar bem ao meu lado. E, talvez, seja por isso que te ver 'blé', com tudo e, sobretudo, com a "nossa coisa", me deixa mal. Principalmente por cogitar que isso pode ter tudo haver comigo.
    Sinceramente, não recordo o que posso ter feito para te causar essa névoa sentimental.
    No mais, independente do que for, sei que minhas desculpas sempre te soam em vão.
    Aliás, naquele dia, eu nāo agi como quem não se importa. Muito pelo contrário, me importei muito e fiquei com medo, justamente por isso te falei “escolhe e só me diz uma coisa dessas quando tiver certeza, convicção”. Jamais imaginaria que você seria capaz de fazer o meu tipo certo de escolha errada.
    De repente, sinto que estou perdendo algo. A nossa coisa… você. Ainda tento digerir o que me disse 'só nāo sei se estamos mais juntos'. Desde então, o meu bem está agindo diferente e percebo a existência de um "vazio".
    Deus, eu faria o impossível para preenchê-lo. Eu sinto o universo… transborda. Acredito que seria mais que o suficiente.
    Me desculpa te encher, estou exausta e isso tudo me sufoca. Não fico em paz.
    Prometo que farei o máximo para te deixar tranquilo quanto a mim, sobre nós (para mim ele existe). Procurarei demonstrar, não que eu não fizesse isso antes, não quero dizer isso, a questão é fazer com que você sinta que estou, de verdade, com você. Nāo sei se me destituiu do posto.
    No mais, sei o quanto os detalhes te são importantes, juro que irei prestar atenção nos meus, pois, reconheço os seus e sou grata por eles.
    No entanto, as minhas promessas a ti nada significam. Já não sei o que fazer. Me sinto e estou perdida.
    Sabe, demorei tanto para te conquistar… Não vou te deixar ir embora da minha vida sem mais nem menos. Não me permito desistir e não dar o meu máximo pelo "nós". Valorizo muito o que sinto e quero comigo, por todo o sempre, o alvo de todo esse meu amor.
    Por favor, não desiste de mim. Não desiste do "nós".
  • [Conto] ESCOLHA

    Então eu contei 1,2,3… suspirei. E sai dali. Passei por aquela porta. Definitivamente eu nunca mais voltaria àquele lugar. Nunca. Difícil descrever o que senti, uma espécie de raiva com uma mistura de desabafo e alívio. Por incrível que seja, eu chorei. Sim, chorei! Mas, dessa vez foi de alegria, êxtase, prazer. Liberdade. Realmente me vi liberta. Aquilo tudo me sufocava, aos poucos, lentamente, cada vez mais. Eu o amava, porém já não gostava mais dele. Não dava mais.

    Eu iria seguir a minha vida, os meus sonhos. Não mais o teria me impedindo de ir em busca das minhas conquistas. Sempre de um modo sutil, ele enfiava na minha boca um “você não pode me deixar. precisa de mim. não suporta nada sem mim. eu estou aqui por você, para te proteger e nada mais importa desde que fiquemos juntos”, literalmente enfiava garganta abaixo, já que eu o ouvia tanto dizer aquilo que acabava por internalizar e reproduzir a mim mesma a velha frase. Como se fosse um mantra. A mesma cena se repetia todas as vezes que lhe contava os meus planos. Não mais ouviria um “não vai. fica comigo, você pode deixar isso para depois. não vai conseguir sozinha” me fazendo sentir-se tão tola só de pensar em deixá-lo, afinal, ele me amava. Realmente uma tola. Fui tola em colocá-lo acima das minhas vontades.

    É sobretudo cortante, sei que ele gosta de mim absurdamente. Sinto isso. Acredito que justamente por saber disso que sempre acatei cada frase. Pela mesma razão eu sentia culpa, afinal, como eu poderia planejar algo que ele não estivesse incluso, fazendo uma escolha só minha sobre mim? Eu me sentia má, pois ele fazia parecer que o meu gostar era ínfimo perto do dele, sempre dizendo que largaria qualquer coisa por mim e para estar comigo, pois a minha companhia já o bastava e não teria nada mais a conquistar ou desejar. Confesso, me assustava, como poderia fazer de mim um mundo?

    No entanto, ele não percebia que aos poucos ele não desejava estar comigo, mas me ter; e isso são coisas bem distintas. Com o decorrer do tempo, ele se importava até mesmo quando as músicas que eu ouvia, os meus posts e até mesmo com os meus textos não falavam dele, mas apenas de mim; segundo ele, eu não “demonstrava” estar com ele. Outro dia, eu apaguei uma foto minha que havia postado logo após ter enviado para ele, pois, segundo ele, eu com isso eu jogava fora o fato da “foto ter sido tirada especialmente para ele e mais ninguém”.

    Sim, ele queria estar comigo. Mas, ele possuía medo de me perder. Acredito que por tal razão insistia para que eu demonstrasse de forma visual estar com ele; isso significava incluí-lo em tudo. Pela mesma razão, me afastava dos meus sonhos… tinha pavor quando eu dizia que gostaria de morar em Arraial do Cabo, pois ele disse que jamais abandonaria São Paulo; ficava triste quando contava com vontade sobre a graduação, segundo ele, eu encontraria pessoas mais interessantes, a minha cabeça ficaria cheia e eu o abandonaria. Nunca era o momento para eu desejar ou pensar em fazer algo, a menos que ele estivesse incluído e fosse da vontade dele.

    Como um cara pode tentar te afastar dos seus sonhos, das suas conquistas, da sua independência, só para estar ao seu lado?! E ainda tentar justificar esse absurdo com o esdrúxulo argumento de que é por “amor”? Via meus sonhos sempre adiados, afinal, eu ainda queria estar com ele, queria tanto ter os dois. Tudo o que mais desejava era poder pensar num futuro em que eu conquistasse o mundo e ele estivesse ali, comigo, me apoiando.

    Ele me pedia tanto, chegava a chorar implorando, se declarava e depois surgia outro velho argumento “vamos aproveitar o agora, você pode fazer isso depois”, eu questionava, discutiamos. Mas, ao final, a culpa sempre era do “amor”. Estava insustentável, não suportava mais o duelo entre o amor e os meu desejos.

    Se enquanto eu apenas cogitava as coisas, sendo os meus desejos ainda abstratos e, por isso, distantes, ele agia dessa forma…. Sempre tive receio em pensar no depois… Sempre me questionei como ele iria reagir quando eu fizesse definitivamente algo, quando abandonasse a inércia e corresse atrás de seja lá o que fosse que me desse vontade.

    Poxa, em nenhum momento ele disse “eu vou com você!”. Não! Não, não. Ele não disse! Nunca! Apenas me impedia, me desviava. Pois é, eu era fraca. Era.

    Apesar dessa situação horrível, ainda assim, tivemos momentos incríveis, com o seu lado que amava. Foi duro. Eu o deixei e talvez tenha “perdido” um cara que realmente me “amou”. No entanto, foi para o meu próprio bem e até mesmo para o dele. Poxa, eu não sou o céu de ninguém. Acredito que foi melhor assim. Quando olhar para trás, quero lembrar dele como uma bela melodia que acaba sem mais nem menos, enquanto ainda ouvimos os primórdios da melancolia ela chega ao seu fim e ficamos com a sensação de que haveria um depois. Prefiro uma melodia “interrompida” do que a ouvi-la por inteiro e ser destruída pela melancolia.

    Liberdade. Agora terei liberdade para viajar, estudar… planejar como tocar a minha vida. Farei tudo sem ressentimentos.

    Foi incrível a variedade de pensamentos - altos e baixos -, bem como o turbilhão de emoções que permeavam o meu corpo naquele momento, naqueles microsegundos em que peguei a maçaneta e simplesmente sai por aquela porta. Jamais esquecerei os meus 20 segundos de euforia ao fechá-la.

    Eu morava há cerca de 4 quarteirões dali, enquanto caminhava, chorei e saltitei agradecida a mim mesma. Confesso que Isso durou pouco. Até a hora que entrei casa. Meu irmão mais velho estava na sala com a namorada, enquanto o caçula montava um quebra cabeça. Meus pais não estavam. Aquela calmaria me mostrou que poderia subir as escadas, ir direto para o meu quarto e permanecer o resto do dia ali, sozinha. Não haveriam perguntas ou sequer indagações em relação ao que houve. Ao menos, não agora. Tudo que eu precisava era ouvir um indie e pensar no que havia acabado de fazer. Isso, “acabado”, essa é a palavra.

    Aos meus 17 anos eu o amava demais, além da conta. Jovem e uma vida inteira para fazer tudo o que me desse vontade, acertar e errar, desfazer e me refazer; mas nada atrapalhava tanto quanto esse “amor”. No momento, concluindo o colegial, os meus estudos eram prioridade, sempre foram, porém, infelizmente, o meu relacionamento estava atrapalhando, não somente, mas também, até mesmo os meus pequenos objetivos. Me vi obrigada a escolher entre ficar ao lado dele e jamais sentir-se realizada ou seguir o meu caminho e deixar para trás um cara incrível. Neste instante, a primeira coisa que me vem à mente é “Brooklyn Baby” da Lana Del Ray.

    Eu o deixei. Afinal, diferente dele, eu o amava o suficiente a ponto de deixá-lo, ao invés de enganar não só a ele, mas a mim, estando infeliz ao seu lado.

    Naquela noite eu desmoronei ouvindo todo o álbum de “Cigarettes After Sex”, não era tão fácil dizer adeus como pareceu naquela tarde. Tudo estava acabado. Mas, eu ainda tinha esperança, afinal, eu não iria embora para sempre. Voltaria depois da faculdade… se fosse amor, iria prevalecer, independente de tempo. E foi ao som de “Flower Face - Angela” que tive certeza de como o amava intensamente e ainda mais certeza da minha decisão. Não havia o que temer. A “saudade” iria passar, “solidão” sequer entrava no contexto - jamais estivera só - e “arrependimento” não condizia em nada.

    Não. Realmente não o teria deixado se não tivesse tido um empurrão. Jamais havia pensado em fazer algo assim, boba, incapaz de escolher. Ganhar a bolsa de estudos foi o estopim. A minha família ainda nem sabia. Óbvio, em hipótese alguma cogitaria não ir. Eu precisava resolver uma coisa. Foi naquele mesmo dia, mais cedo, assim que acordei, chequei meus emails e recebi a notícia que mudaria a minha vida, a porta para os meus sonhos.

    Fala sério, eu estava surtando. Após tanto esforço, eu havia conseguido! Eu sabia a grandiosidade do que significava essa aprovação. Eu estava em êxtase. Era a minha oportunidade e jamais abriria mão. Mal esperava a hora do jantar, estava ansiosa para ver a reação dos meus pais, ainda que já sabia o que esperar.

    Mas, e o Jhon? O primeiro a receber a notícia seria ele.

    Não pensei duas vezes. Escovei os dentes, lavei o rosto, fiz um coque, vesti o “uniforme de sempre” jeans, all-star e a velha camisa de algodão, desci as escadas cambaleando enquanto comia uma pêra e corri para a casa dele.

    Apesar de reconhecer que estava indo terminar a nossa história, não imaginava que ele não ficaria feliz com a minha conquista, que a desprezaria. Tudo bem que ele sabia o significado daquilo, porém, era o meu sonho e ele não foi capaz de ficar feliz por mim. Isso me magoou e me motivou a seguir com aquilo, me dando ainda mais convicção no discurso de adeus. Não entendia a sua forma de amar. Foi isso que me motivou a não olhar para trás ao fechar a porta.

    O dia havia começado com surpresas e emoções demais. Naquela noite, ouvindo “The Saxophones - If You're On The Water”, tudo o que mais desejava era que ele passasse, depressa.


    Janaina Couto ©
    Publicado — 2015

    @janacoutoj


    [PS. Não se trata de um relato pessoal. Mas, confesso que é um imenso pesar reconhecer que o meu texto foi lapidado sob um apanhado de relatos de pessoas queridas que estão ao meu entorno.
    Ainda que mesmo nas coisas mais sutis possamos constatar algo a se repudiar e imediatamente afastar-se, não raramente, horrivelmente, isso acontece apenas quando se tornam salientes.]

  • [Desabafo] AURORA

    Aquela tarde quente me mostrou que nos últimos dias nós estávamos em intensidade diferente.

    Eu desejava muito a mudança pra melhor do nossa contato. Sabe, via que haviam coisas a se melhorar, que o nosso vinculo estava passando a ser algo para encher a nossa mente e nāo deveria ser assim.

    Via tudo isso, via os problemas que partiam de mim e estava disposta a mudar, mesmo. Por coisas óbvias, por gostar de verdade de você e te querer comigo.

    No entanto, foi um soco no estômago ter a sensação de que, para ti, a doação pela mantença da nossa coisa passou a ser indiferente. Entende? Tanto fazer.

    Quando me questionava a razão de tanto choro, sem mais nem menos, quando estava ao seu lado. Era justamente isso. A sua indiferença.

    Sabe, ao decorrer dos últimos dias, pequenas coisas me mostravam isso.

    Dentre as coisas mais claras, posso imediatamente apontar o simples fato de eu ser facilmente descartada, de você me anular do seu dia e me contar somente em “cima da hora”; enquanto eu havia planejado o meu dia inteiro e ansiado por passar aquele momento com você. Sem contar quando me “inclui” nos seus planos com outros amigos, de última hora cancelou tudo e em um outro momento, sem se dar conta, comentava algo que aconteceu, entregando que na realidade você havia cancelado a mim.

    Como se não bastasse, aprendi a lidar com o fato de passar o dia com o pensamento em você para no final do dia a gente mal conversar (conversar mesmo, como fazíamos antes). Ou, facilmente, por qualquer coisa ínfima, eu “te encher a sua paciência” a ponto de evitar todo e qualquer contato comigo pelo restante da noite.

    Não raramente, a semana toda a saudade me corroía para quando a gente se vê, você mal me olhar, muito menos me tocar. O silêncio que em algum lugar no tempo nunca havia existido, passava a ser cada vez mais presente e entre nós. Sobretudo, cada vez mais sufocante.

    Sempre estivesse consciente de que isso pouco a pouco iria nos tornar distantes. E eu tinha medo disso.

    Talvez, por isso, eu tenha chorado tanto e te implorado, nas últimas semanas, muitas coisas. É triste ver o “eu e você” se diluindo.

    Sei que minha rotina cheia estava atrapalhando, justamente por toda insanidade dos meus dias, nós mal nos víamos. Mas, poxa, esse pico de obrigações nāo ia durar pra sempre.

    Não faz ideia do quanto me deixava mal, nos últimos dias, você me chamar para qualquer coisa e eu nāo poder ir. Aliás, me matava te ver cogitando que eu simplesmente nāo queria ou não fazia questão de você. Por isso, semanas antes havia te ligado, chorando, e explicado como tudo estava corrido, sobretudo, te pedindo desculpas e agradecendo pela compreensão.

    Pelo nosso tempo corrido, por isso, quando tínhamos um tempinho juntos (fisicamente ou virtualmente), eu queria entrega (minha e sua). A impossibilidade de estarmos fisicamente juntos todos os dias, nāo poderia ter condão para nos distanciar.

    É triste constatar que, apesar de estarmos “perto”, não possuímos o tempo que gostaríamos para estarmos juntos. Por passarmos dias sem nos vermos que nos momentos presenciais eu queria ao menos um olhar apaixonado.

    Na sexta-feira retrasada, me desmanchei. Havia passado o dia esperando para te ver, estava eclodindo em saudade, depois de dias insanos e atarefados, finalmente, ao passar de uma semana longa, eu teria uma noite de refúgio com o meu bem.

    Porém, mais uma vez você “não veio” e ouvi desculpas esfarrapadas (quais fingi engolir). Sobretudo, ainda assim, pensei que no mínimo iríamos conversar, que iria me ligar . Mas, nāo. Ainda que eu tenha pedido, nāo aconteceu. Afinal, me descartou por estar “exausto” e depois saiu com os seu amigos.

    Na madrugada de sábado, quando me ligou, foi esse o motivo de todo o meu choro implorando “atenção”. Pedi ainda para que, no minimo, nossas conversas passassem a ser como antes. Imersas.

    Eu sabia que pra você a coisa estava “blé” e eu nāo queria isso. Mas, eu desejando melhorar uma coisa sozinha estava me deixando triste. Principalmente, por ver a sua nítida indiferença.

    Durante aquela tarde, eu vi isso. Foi muito evidente… a indiferença. A mesma cena se repetia, parecia que eu nāo estava ali, parecia que estar ou nāo tanto fazia para você. Eu me senti como qualquer pessoa. E quando se gosta de alguém pra caralho, se sentir ninguém corta demais.

    Mais uma vez, segurei o seu rosto, tirei o instrumento de cordas sobre você e lhe disse “Estás com ele todos os dias, mas comigo não. Eu estou aqui agora. Esteja para mim”. E sabe o que você fez? Deu uma risada sarcástica na minha cara e voltou a tocar. Pelo teu jeito, levei como um insulto. Por isso, disse que iria embora e, mais uma vez, me surpreendeu de uma forma ainda mais incrivelmente ruim. Tu ergueu as sobrancelhas, deu um sorriso de canto, assentiu com a cabeça na direção da porta e falou “tá bem”, aliás, sequer olhou para mim.

    Eu fui embora. Saí por aquela porta. Mas, sob o sol, enquanto eu descia a sua rua, sentido a minha pele quente, conversando comigo mesma concluí “se persistir, irei me magoar”.

    Bastaram instantes de puro delírio e eu voltei à sua casa. Entrei sem mais nem menos. Não fiquei incrédula com a sua surpresa diante do meu retorno e fingi não me importar com o seu riso que exalou a comicidade por constatar a cena irônica.

    Percebendo que definitivamente estava delirando, novamente saí. Te deixei ali sozinho enquanto sussurrava para mim mesma “vai embora, o que você está fazendo é ridículo”. 

    Daquela vez, você não me deixou partir. Aquele saída efêmera te incomodou. Enquanto eu passava em frente do enorme Cinamomo, após passos longos e acelerados, você me alcançou e parou diante de mim, impedindo o meu caminhar, disse querer me ouvir.

    Parei. Respirei fundo e disse, novamente, a mim mesma “essa é a hora, desaba”.

    Naquele momento, foi a primeira vez que, desde a nossa coisa, me vi naquela situação. Sendo serena e falando com sinceridade as claras sobre algo nada fácil de se digerir, sem ter planejado ou pesado no que diria. Pela primeira vez, me vi no seu lugar. Fui imediatista.

    Direta e reta, te questionei o que estava acontecendo. Você sabia muito bem ao que me referi, sequer precisei pormenorizar os fatos. Assim como eu, estava muito consciente de tudo.

    Com palavras rasas, me disse que esse seu “novo agir” passou a ser com todos e nāo só comigo. Me contou que estava lidando com alguns “problemas”, sem adentrar ao mérito de qualquer deles. Aliás, problemas esses que nunca havia me contado nada a respeito, até então, ainda que eu tenha te falado vezes consideráveis frases como “desabafa, divide comigo”.

    Mesmo que jamais tivesse me dito a respeito, eu mesma questionava a possibilidade de algo estar acontecendo e, por conhecer o seu jeito ocluso, não iria dividir. Ao menos, não tão cedo.

    É evidente, eu gostaria de ser alguém que te fizesse se sentir diferente, que quando estivesse comigo, nāo houvesse o vazio. Acredito que se trata disso. Nós dois sabemos o que isso significa. Um conjunto de falas, posicionamentos, jeitos e risos me disseram isso.

    Ainda que não tenha esmiuçado o que se passava contigo, duas coisas, para mim, não coincidiam. Não conseguia entender. Se os problemas mudam você a ponto de transformar o seu agir e, esse seu novo agir magoa a ti e a mim na na nossa coisa, para “ficarmos bem”, eu preciso ajudar você. Lembra? Devemos estar com as pessoas nos momentos bons e nos ruins. Mas, naquela tarde, você rudemente cuspiu na minha cara nāo querer a minha ajuda e ainda enfiou sultimentente na minha garganta um “não se envolve nas minhas coisas”.

    Eu nunca desejei somente a sua parte fácil de amar. Eu quero você por inteiro.

    Sim, me senti de mãos atadas, literalmente sem saber o que fazer. Eu ficaria inerte assistindo o meu entorno desabar?

    Mesmo você adocicando depois, ao dizer que, quando está comigo é o único instante em que não pensa nos “problemas”. Que eu tenho o poder de inibi-los. Que é somente diante de mim que o seu “eu” fica quieto, calmo. Manso. Sobretudo, em silêncio. E justamente essa surpresa consigo mesmo que te faz ficar imerso em si e, desprezivelmente, silente frente a mim.

    Juro que tentei. Mas, levando em consideração o caminhar das coisas, constatei que sua fala ainda que sincera, escondia algo maior. Talvez, o grande imbróglio entre nós. Talvez, a razão do seu silêncio que você sequer “repudiava’.

    Nessa hora, lembrei de todas as vezes que falou coisas como “eu nāo vou falar, só irei saindo”, “acho melhor sermos somente amigos”, vou ver se eu ainda quero isso aqui”.

    E por lembrar de tudo, te perguntei: “mente para mim com medo de me magoar?”. Tu me olhou, sorriu de canto sem denotar qualquer alegria, mas sim certo pesar, assentiu confirmando enquanto abaixava o olhar.

    Obrigada por nesse instante, pela primeira vez, lembrar do que tanto te implorei “prefiro que me machuque com a verdade, do que me conforte com enganação”.

    Sabe, nāo quero magoar você dessa forma, te fazendo estar comigo, dessa forma, sem ser do seu desejo.

    Aí está sua resposta.

    Se pra você eu estar ou não comigo é indiferente, se não te causa emoção alguma… se não está mais disposto a fazer ficar melhor a nossa coisa… Isso partindo somente de mim, ia me fazer ficar mais mal, sem ver “reciprocidade”.

    Eu aí entendi que sentimos diferente.

    Que talvez, você goste das qualidades em mim, enquanto eu sinto o mundo por você.

    Por isso te falei “acho que nāo me ama, ainda”.

    Eu amo você. Acho que por isso, ainda não sei apontar com propriedade as coisas que gosto apenas em ti. Jamais terei como te buscar em um outro alguém.

    Você vê coisas em mim e gosta delas. É fácil gostar das coisas que vê em mim. É fácil apontar. Você gosta de mim por essas razões. Gosta das minhas qualidades, do meu jeito ou sei lá o que um dia te cativou. Mas, ainda não me ama (amar requer tempo).

    Você pode olhar para mim e pensar “ela seria uma boa pessoa para se amar”. E quando me diz isso, nada mais é do que você tentando trazer essa realidade para si. Você gostaria de me amar, mas ainda não é o que acontece. Desculpa.

    Aliás, você nāo precisava me amar em pouco tempo. Me amar agora nāo é um requisito (estamos nos conhecendo). O amor é manso.

    Acho que você estava apaixonado por mim. Eu gostaria que ainda estivesse. Sinto falta dos olhares apaixonados.

    Acredito que por saber o que eu sinto, você tem receio de me magoar ao falar que, agora, prefere minha amizade.

    Eu desejo com todas as minhas forças estar completamente equivocada em tudo isso aqui. Mesmo!

    Enquanto eu era preenchida pelas cores daquela aurora, eu percebi (com tristeza) que você só não ia embora para não me ferir. Eu te falei isso e ainda perguntei “me diz se estou errada”.

    Eu não ouvi o que queria. Eu não ouvi “você está completamente equivocada nisso aqui”.

    Então, fiz o que achei ser melhor para você, mesmo sendo a coisa que eu não queria.

    “Vamos ser apenas amigos”.

    Pois, se pra você eu estar ou não comigo, dessa forma, se tornou indiferente. Se dividir uma coisa comigo não te causa emoção alguma. Se não está mais disposto a se doar para melhorar tudo o que já havíamos apontado um ao outro antes. Essa vontade em endurecer um vínculo e o prazer por pela existência dele partindo somente de mim, certamente irá me ferir pela ausência de muitas coisas, como a “reciprocidade”, assim como pela ausência de outras.

    A única coisa que, felizmente, me prende… que me faz está aqui, que me fez permanecer ainda quando diante da indiferença, é a imensidão do que eu sinto por você. Você. Nada mais.

    Eu chorei ao dizer isso, “amizade”, pois, havíamos voltado ao princípio.

    Nāo haveria meio-termo. Eu não seria sua grande amiga, nem o seu meio amor. Seria tudo ou nada. Eu ser nada para quem sente o mundo é decepcionante.

    Naquela tarde, diante do imenso cinamomo, enquanto via o sol queimar sua pele e, de um instante a outro, o cair de uma flor ao chão, joguei tudo o que aferi de você e percebia que tinha receio em me dizer. Fiz isso a ponto de propor algo que eu nāo queria.

    Acho que, deixei tudo claro. No final das contas, espero não ser paranoica. Espero, principalmente, nāo estar sendo sacana.

    Sei que nāo sou perfeita, que nāo sou a mulher mais incrível do mundo. Eu falho, falho muito. Sei que foi também o meu agir e o meu nāo agir que fez o nosso vínculo se tornar mais uma coisa para você se preocupar. Eu estou consciente disso e por isso havia prometido mudar.

    Sempre desejei o ‘nós’. Mas, nāo há nada que eu possa fazer sozinha para a mantença dele.

    Ainda que eu aspirasse pela sua continuidade, depois das minhas palavras cruas pairaram no ar frente ao seu silêncio, diante, especialmente, daquela sua frase “Horrivelmente, eu estou sem fala. Quero, mas não sei o que dizer. Estou espantando e preciso de tempo para pensar. Você escancarou tudo é o que é”, que aceito a sua vontade / minha escolha, ainda que outra parte de mim a deteste do princípio ao fim.

    É melhor você ser o meu amigo do que a minha mais bonita mágoa, já que o “amor mais intenso” que eu achei que seria, nāo vai mais ser.

    Sim, eu realmente estava disposta à mergulhar e sentia o suficiente para isso.

    Eu amo você e acredito que é precioso ter um amigo que ama a gente.

    Sou grata a mim mesma por reconhecer que sou capaz de sentir algo puro e profundo (independente de qualquer coisa). E você quem me “mostrou” isso, mas, “queimar em intensidade” quando se trata de sentir, faz com que outras coisas me afetem.

    Nāo foi sempre assim (nāo mesmo), mas, nos últimos dias, o seu novo agir me afetou de um jeito nada bacana. Confesso, digo ainda com certo receio. Pois, pelas minhas recentes crises de ansiedade, tenho medo de estar usando você para “descarregar”. Juro que tentei e tento ser cautelosa.

    Sabe, estou tão confusa. Queria que você me dissesse a realidade.

    Me conta o que realmente se passa com você… quem sabe, assim, eu posso parar de tentar adivinhar as coisas, parar de tentar decifrar você.

    (…)

    Eu temia tanto isso. Sabia?

    Jamais irei esquecer de cada lágrima minha derramada, aliás, dotadas de sentimento e veracidade; enquanto um proferia cada palavra penetrando o seu olhar, que não ousou desviar dos meus por sequer um mísero instante, tive a leve sensação de que, desde o início, estávamos fadados aquilo. Ruptura.

    E justamente por nos ver diante do que eu mais temia, que jamais irei esquecer cada tonalidade das cores daquela Aurora.


    Janaina Couto ©
    Publicado — 2020

    @janacoutoj

  • [PESQUISAR}

    Como-escrever-coisas-felizes-depois-de-muito-tempo-escrevendo-coisas-tristes-?
    O segredo era deixar as palvras virem e vômitar tudo em uma folha em braco. Dar cor. Mas e se eu precisar da cor azul e amarela, se eu só consigo fazer preto e roxo? E se eu engoli tanta cor fria que eu nao consigo mais sentir cores vivas e quentes? Se nas minhas mãos tem tantos calos pós trabalho árduo, como faço para voltar a ser delicado?
    Como é se sentir leve e delicado? Lembra de quando eu era porcelana limpa? Eu era leve? era suave? Me conta mais. Me traz de volta naquela época, por favor. Me deixa fingir, me deixa rodopiar leve, solto, descoordenado. Me deixa cair e rachar, me deixa poder quebrar de novo. Me deixa voltar...
    Tentativa 1:
    É domingo. Estou em um parque com cachorros correndo de um lado para o outro. Meus olhos estão fechado pois o maior prazer é sentir o sol e o cheiro de grama cortada. Quando reabro os olhos, vejo à minha volta algumas pessoas. Não são estranhos, mas tem rostos estranhos. Eu sindo em cada um uma grande preocupação e carinho. Seus olhos estão voltados para mim e os meus para eles. Eu sinto o calor e sinto o cheiro do chá que bebemos. Eu ouço o violão tocando musicas de alguma banda de MPB enquanto todos cantam juntos. Eu vejo comida sob uma toalha de pic nic. Eu vejo sorrisos e risadas. Nesse mesmo dia, mas deitado na cama mais tarde. Eu fecho novamente meus olhos e me sinto ainda no sol, ainda sentido cheiro de grama cortada, ainda sentindo aquele calor. Eu sei que essa memória, que agora ja faz parte da coleção de lembranças boas, vai me ajudar sempre que preciso.
    AAH EU NÃO CONSIGO.
    Tentativa 2:
    É quinta e eu já cheguei do trabalho. Vou correndo para o quarto e organizo pensando em cada detalhe. Troco a roupa de cama e acendo um insenso. Fico sentado no chão, com as costas escoradas na cama e o silencio se fixa até que o cheiro de insenso passe. Me levanto e vou tomar banho, eu relaxo. Agora de pijama, com as meias por cima da calça e uma pantufa de pata monstrusa, eu vou até a cozinha e faço minha janta. Coloco uma musica animada e preparo panquecas. Infelizmente, quando terminei a ultima panceca, já tinha comido todas as outras sem recheio mesmo. Olho para o recheio e para o prato de panquecas vazio. Coloco tudo no pão e como com satisfação.
    Deito na cama e ela está gelada. Com cheiro de amaciante. Olho as horas no celular e conecto ao carregador. Retiro da cabeceira o meu livro favorito, (insira aqui o nome do seu livro favorito) e leio até cair no sono, acordando com o livro caindo na minha cara. Logo após, cambaleando, eu guardo o livro e apago a luz. Descanso.
    É, acho que essa ficou melhor.
    Tentativa 3:
    Talvez seja melhor viver e depois escrever. Será que minha lembranças boas que posto no papel soam falsas porque são falsas?
  • [Poema] ODIAR

    Odeio o jeito como me olha quando diz que estou errada
    Odeio quando se faz de sonso
    Odeio o fato de sempre tentar me agradar
    Odeio o seu sorriso bobo quando diz que te desconcentro
    Odeio o teu timbre ao dizer que ainda não amo você
    Odeio quando finge que não existo
    Odeio os dias que não está comigo
    Odeio as manhãs sem ouvir o teu riso
    Odeio as madrugadas sem sincronizar com o teu o meu respiro
    Odeio, sobretudo, a fulminante distância


    Janaina Couto ©
    [Publicado - 2016]

    @janacoutoj

  • [Poema] REINAR

    Mostrei meu mundo a você
    havia um reino a ser ocupado
    apesar de ser encantador
    você fugiu.
    Teve medo?

    Quis conhecer mundos lá fora,
    eu soube.
    Agora
    sem mais nem menos
    ressurge querendo asilo.
    Sei que não se trata apenas disso

    Quer ocupar o trono
    “jamais deveria ter deixado”

    No entanto, 
    o reino está preenchido. 
    Eu sou a rainha.
    Álias
    não preciso,
    nunca precisei
    de alguém para completar o meu mundo.

    Eu posso ser
    eu sou
    inteira sozinha.

    A felicidade no meu reino
    no meu mundo
    nunca esteve
    nas mão de alguém
    que não eu mesma.

    O sustento 
    pertence e depende
    apenas de mim.

    Olha, velho amigo
    eu posso até lhe fornecer abrigo
    mas, você jamais será rei.


    Janaina Couto ©
    [Publicado - 2019]

    @janacoutoj

  • [Roteiros] CIGARROS

    — Quanto tempo. Está me procurando... O que houve? O que quer?

    — Com tédio. Estou querendo ir na praça. Aquele lugar sempre remete você, sei lá. Vou ir.

    — Deve estar um deserto.

    — Não me importo. Eu gosto da calmaria.

    — Vai, chama alguém… Ou vai sozinho mesmo, pensar na vida. É gostoso.

    — Está ocupada?

    — São 23h40 e eu estou no busão… vou descer a serra… encontrar um pessoal e passar o feriado na praia.

    — Espero que seja quente.

    — Eu também, mas como essa madrugada pelo jeito vai ser gélida, já não tenho tanta esperança.

    — Eu queria era um maço de cigarro. Mas não posso gastar.

    — Vícios. Não há o que se fazer, a vontade vai te corroer até tragar.

    — Fuma há quanto tempo? 2 anos?

    — Menos.

    — Hum. Quantos maços por dia?

    — Não fumo todos os dias. Mas quando fumo mesmo, uns 4. Às vezes mais.

    — 4 maços? Cacete.

    — Não, 4 cigarros.

    — Ah, menos mal. Eu acho. Meu pai fuma 3 maços por dia.

    — Já não há uma parte do pulmão que salve.

    — Acho um absurdo.

    — Eu fumo com meu pai. Sempre quando vamos trocar um papo de vida, estamos fumando juntos.

    — Eu sou asmática. O cheiro do cigarro me enoja e dá pigarro.

    — Fresquinha.

    — Não, sensata. Jamais gastaria grana com o que me destrói.

    — Pode ser.

    — Conselho: Nunca pare de fumar por alguém. As pessoas te abandonam, o câncer não.

    — Essa frase não fez sentido

    — Era para ser um humor pesado. Não é pra ter sentido.

    — Ah tá, entendi.

    — Fuma qual cigarro?

    — Lucky Strike. Mas, com o tempo, me acostumei e passei a achar fraco. Passei a fumar Marlboro e não me satisfazia. Agora, Hollywood está suprindo as necessidades.

    — Marlboro fraco??

    — Sim, acredite.

    — E o Ministér? Já fumou?

    — Não.

    — Sempre achei o Marlboro forte. Insuportável.

    — O cheiro?

    — A gente precisa conhecer o inimigo

    — Você sempre odiou o cheiro, não vai dizer que começou a fumar…

    — O cheiro, sim, é insuportável. E nāo, eu nāo fumo.

    — Então não entendi.

    — Eu nāo consumo o que me destrói. Okay? Apenas.

    — Ingere açúcar?

    — Infelizmente, sim. Mas, quando possível, evito. Nesse sentido, me destruo. Pouco a pouco. Lentamente. Mas, eu dou a ele esse poder. Ainda assim, estou no controle.

    — Ninguém está. Então, é a mesma coisa.

    — Não. Pois, os cigarros que fumam perto de mim, me degradam sem o meu querer. Inalo. Me faz mal e eu não posso evitar. É exterior ao meu querer. É bem diferente. Agora, se eu quiser fumar, okay… a escolha foi minha. Eu dando o poder a coisa que me faz mal. Eu e minha vontade. Eu decidindo por mim. Ainda assim, no controle, alteridade…. até se tornar um vício. Aí fode. Mas, coisa que de uma forma ou outra, foi fruto das minhas ações.

    — Às vezes a gente faz coisas para suprir necessidades que nós mesmos fazemos ser necessárias, mesmo sabendo que tal coisa nos faz mal. Bebida, cigarro, entre outras coisas. É o que eu acho.

    — Sim. Vício. Você descreveu o que acarreta. É muito metafísico isso. Concorda?

    — Com o que disse? Sim.

    — Vício. Dá para fazer uma puta comparação ou intersecção com as pessoas.

    — E ao que disse lá em cima sobre câncer. Cigarro causa sim câncer, mas não como dizem.

    — Muita coisa causa câncer.

    — Sim, mas demora muito, em alguns pode ser em algumas dezenas de tragas, mas em outros pode nunca nem acontecer.

    — Sim. Como quem nunca tragou pode desenvolver.

    — Sim.

    — Porém, é evidente que quem é fumante está mais propenso. Seja ele passivo ou ativo.

    — Uma série de coisas que ingerimos, assim como vários temperos, causa câncer. E ninguém liga pra isso.

    — Cara, agrotóxico. Uma centena de coisas.

    — Eu não ligo pra nada disso, tô foda-se. E não quero me importar ou me preocupar.

    — Você diz estar “foda-se” para uma série de coisas. A questão é: Até onde isso é verdade? Já se questionou se diz isso a si mesmo apenas na tentativa de se auto convencer? Dizendo alto e em bom tom?

    — Nunca me perguntei. Mas não acho que seja.

    — Hum. É, pode ser. Ou simplesmente nunca se questionou.

    — A questão é que mesmo sabendo que é errado. A gente costuma, eu costumo, me apegar aos vícios e eles me controlam. Passo a agir por eles a ponto de fazer qualquer coisa para suprir meu desejo.

    — As vezes a gente deseja o que destrói e isso é duro de aceitar e lidar.

    — Concordo.

    — Isso explica muito sobre nós.

    — Eu sei… Eu sou a merda do cigarro não é?

    — Sim. E eu tô tentando parar de fumar.

    — E hoje um alguém te encarou e acendeu a porra de um cigarro na sua frente.

    — Exatamente. Justamente enquanto estou lidando com a abstinência.

    — A merda da abstinência.

    — Ela é sufocante porque os segundos correm e só o desejo com mais veracidade.

    — Ainda que cada trago seja intenso, pouco a pouco tudo se desfecha em cinzas.

    — Você sabe, você vê.

    — Não importa o quanto eu queira…

    — Eu sou nocivo.

    — Não pode continuar a me dar o poder de destruir você.

    — Eu dei o poder e luto para tomar ele. Já havia se tornado um vício.

    — Tenho sede do seu trago.

    — Dizer isso não me ajuda.

    — Desejo você para cacete a ponto de ser egoísta, te querer só para mim. É forte a ponto de te fazer mal. Eu sou a merda de um nocivo. E você tem a porra de um vício. Me desculpa.

    — Eu queimo em intensidade e incendeio ao queimar o cigarro.

    — E é nesse momento em que me tem nas mãos. E eu me desfaço. Momento que sou teu. Momento que você, pelo prazer, me dá o poder.

    — Eu detesto você por tudo isso. E detesto ainda mais a mim.

    — Tudo poderia ser suave. Mas, como você falou, o controle só existe enquanto não há o vício.

    — Sim.

    — São pequenos esforços diários...

    — Eu sei. E hoje, eu não vou tomar minha dose de você.

    — (…).


    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2019]

    @janacoutoj

  • [Roteiros] ESPETÁCULO

    (…) — Gosta dessa quebra?


    Penso diferente, vejo diferente a situação. É como se eu assistisse você dançar, ir e voltar, se fazer e se desfazer. Se refazer. Oscilar quando lhe é conveniente. Entende?

    Eu sou a plateia. Aquela que assiste com certa indiferença. Já que a plateia segue inerte e se adapta ao que assiste, ainda que com uma visão crítica, seja ela negativa ou positiva. Mas, ainda assim, aquela plateia que não abandona o espetáculo. E, talvez eu seja esse tipo de espectador. Não sei, complicado.

    A questão é que, pensando do ponto de vista do espetáculo, há instantes em que a gente, expectador, se ver extremamente cativado, porque tudo ainda é desconhecido e ainda estamos esperando, com ansiedade, já que não sabemos o que vai surgir dali. É fresco. Desperta uma enorme curiosidade para desvendar o desconhecido. É excitante. Principalmente a ideia de ter algo tão próximo e quase ao alcance das nossas mãos. O segredo está aí, no quase, principalmente na incerteza se as nossas expectativas quanto ao que está diante de nós serão supridas ou frustradas.

    Só que quando nos deparamos com o primeiro embate, a primeira crítica negativa, a primeira cena do espetáculo que a gente não gosta… acho que a oração é essa “não gosta” ou que fere aquilo em que acreditamos, bem como os nossos valores ou princípios; a gente fica com um pé atrás, surge então o receio do que há de vir, a plateia fica com um olhar mais cauteloso.

    Alguns, talvez, quem sabe, até mesmo fascinado pela quebra de expectativa. Ruptura.

    Aí sim, ocorre aquela velha coisa de “se adaptar a situação” e nosso encanto passa a se pautar em momentos. “Ah, gostei dessa cena” outrora “nossa, não gostei nem um pouco disso”… entende? Deixando-se levar pela maré.

    Sempre vai ser assim, passa a ser assim, a depender do espetáculo como um todo e do desenrolar do enredo, o espectador vai se adaptando as cenas e se impondo a respeito delas ou, simplesmente, sem mais nem menos, em algum instante sai da sala e abandona o espetáculo.

    Isso, abandona. Porque já não faz sentido ver aquilo, assisti-lo já não o cativa. Talvez justamente em razão das coisas que confrontam os seus anseios, valores princípios ou, até mesmo, as expectativas frustradas do espectador; se sobressaem quando diante das coisas que o cativaram naquele espetáculo. Então, o espectador decide ir embora, com plena convicção e ciência do que faz. Ele sai daquela sala, literalmente abandona, porque já não há mais sentido permanecer, ficar, e observar uma coisa que em cima ele vai desmoronar.


    […]

    (…) — Por que permanece?


    Sinceramente, não sei.

    Acho que… ansiei por tempo demais a transformação do vínculo, o ápice, ou melhor, a saída do meio termo. Eu percebi a entrada e não a interrompi, pois acreditei que logo haveria uma definição e a linha já não seria mais tênue. Seria uma coisa ou outra.

    Mas, eu esperei por tempo demais. Identifiquei idas e vindas e senti coisas diversas. Também reconheci muita coisa que me desagradaram e que pulsam para que eu abandone o espetáculo e pequenas coisas que me cativaram, sendo assim, me fazendo questionar o que mais teria a conhecer.

    Me importei com algumas coisas e muitas outras me atingiram, justamente por ferirem meus valores e princípios. Sobretudo, ainda assim, houveram aquelas que eu gostei intensamente.

    E permaneço, creio, que por elas.

    Quer saber? Acontece que eu já nem sei. Simplesmente permaneço. É isso, fico a observar. Porém, sem expectativas, nem mesmo a menor delas. Nenhuma.


    […]

    (..) — Está presa nisso aqui e não quer assumir.


    É realmente tudo muito ridículo.

    Respirei profundamente.

    Naqueles segundos, não me olhei para mim, me desfiz e me refiz.

    E é quando, finalmente, me levanto.

    Após nenhuma cena específica, mas, simplesmente porque aquilo já havia me cansado. Passou a ser tedioso e nenhuma cena mais me causava euforia e as que deveriam me causar pavor, nāo me surpreendiam. Eu seguia inerte, sequer ansiava o final do enredo ou fazia presunções.

    Me levanto. Sem mais, nem menos. De uma hora para outra. Sozinha. Sem nenhuma transformação. Cambaleio no escuro, esbarro em uma pessoa ou outra, ouço alguns murmúrios e sussurros, sobretudo questionamentos sobre a minha saída.

    Em segundos, passo pela grande porta. E, por incrível que pareça, indago a minha partida. Sigo o longo carpete vermelho e entro desesperadamente no banheiro.

    Fito o meu rosto sereno e sólido no espelho. “O que estou fazendo? Vai continuar se submetendo a isso aqui? Você merece mais”.

    Suo frio e cogito voltar. Não sei exatamente o que me levou a isso.

    Lavo as minhas mãos e, numa tentativa fútil de amenizar a tensão, — que não sei donde vinha — as deslizo molhadas sobre meu rosto.

    Encaro-me. E falo, alto e em bom tom, para mim mesma, com convicção: “eu abandono o espetáculo, agora”.

    Então caminho suavemente até a loja de conveniências, compro um chocolate qualquer, o saboreio, reclamo do gosto enjooso.

    Como se não bastasse, resmungo do tempo perdido e do valor do ingresso da porra daquele espetáculo.


    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2019]

    @janacoutoj

  • [Roteiros] RUPTURA

    Eu sempre vou ter o que falar. Não guardo palavras. Mas, é cansativo quando são proferidas em vão. Sobre o meu sentir, você sabe. Aliás, fim de semana passado foi incrível.

    Posso apontar a dedo (os seus e meus) erros e os acertos, ações e omissões, os altos e baixos.

    Obrigada pelos altos.
    Obrigada pelos dias gostosos.
    Obrigada pelos olhares, pelos momentos de verdade.
    Obrigada por me mostrar inúmeras coisas.
    Obrigada pela imensidão do que me permitiu sentir.

    Porém, foi sobretudo, conturbado para apenas uma estação. Não vivemos ou viveremos tudo o que eu gostaria. Não comecei nada pensando no fim.

    O ponto final você põe, agora, sozinho. Não precisa me falar razões. A minha resistência ao CEDER e a sua necessidade em IMPOR sempre foi um problema entre nós. Sobretudo, o jeito como lidamos com as coisas, que é grotescamente diferente. Causou muitos dias baixos (como ontem e hoje).

    Todas as minhas declarações, choros, abraços, beijos, toques e olhares, foram sempre, profundamente, de verdade.

    Sabe, você diz sentir o universo por mim. Não sei como se pode amar alguém e facilmente colocar ponto final em relação a ela, bem como sempre ameaçar partir. Muito menos como tudo pode ser razão para partida. Não sei se é por você ser imediatista. Não sei.

    Acaba por me proporcionar alvoroço emocional. O alvoroço existe justamente pelo que pulsa em mim, por eu gostar de ti de uma forma desmedida.

    Você parece não perceber que, para quem está do outro lado, isso é foda, pra cacete. É uma espécie de controle emocional. Sem contar que mostra fragilidade do nosso elo, em muitos sentidos. Te disse isso das outras vezes.

    Francamente, como amiga, se atenta nisso. Como isso afeta e o que demonstra para o outro. Não sei se nos seus relacionamentos anteriores isso fluía ou como sua parceira reagia. Mas, pode descartar se quiser. Não tenho outra experiência para poder comparar. E, ainda que tivesse, sabe o quanto detesto comparações.

    Por favor, não me venha com “vai deixar a nossa coisa se desmanchar”. Sendo sincera, você quem iniciou a ruptura e, dessa vez, simplesmente acatei sua decisão. Não jogue o peso da sua escolha sobre mim.

    Recordo precisamente do seu efêmero posicionamento. Ouvi com atenção aquela frase, que, aliás, óbvio, atordoa a minha mente. “Não está bom pra mim”. Ainda que antes mesmo de proferi-la, intuitivamente pude pressentir o que diria. A mensagem amarga. Ao soar de cada silaba proferida, cada movimento dos teus lábios, queimava. Lentamente eu provava cada farpa do veneno.

    Não vou enganar a ti, muito menos a mim mesma, estou decepcionada e, mormente, com raiva. Por todo um conjunto.

    Aquela conversa não foi em vão. Aliás, nunca qualquer conversa, fala, minha foi frívola. Detesto a ideia de me doar em conversas baldias.

    Você não pode dar tchau pra mim sempre que tiver vontade. Fazendo-me sentir imenso temor diante de toda e qualquer coisa ínfima, propriamente por saber que você, a qualquer momento, irá se voltar a mim dizendo um adeus ou ameaçando isso.

    Você não pode me dispensar e depois -quando quiser - me chamar, acreditando que vou ignorar isso e simplesmente "gozar".

    Não pode me descartar assim, achando que isso não me abala ou enfraquece um vínculo.

    Sabe o pior? Isso não foi agora. Já havia acontecido mais vezes do que eu gostaria, aliás, vezes demais que chega a ser difícil de acreditar. É tristemente reincidente.
    Não quero uma relação instável. Não quero me sentir insegura, pontualmente nesse sentido: “hoje ele quer estar comigo, amanhã, sem mais nem menos, talvez não”.
    Tenho horror a estar constantemente dependente da sua aprovação e, principalmente, a conviver com a necessidade incessante em me certificar de que “está tudo bem entre nós”.

    Não quero ficar absurdamente pressionada pela ideia de que “se eu não fizer determinada coisa ou se não agir da forma que ele espera/deseja, independente do que penso ou quero a respeito, para mantença do ‘nós” irei ceder, senão ele virá colocar um ponto final ou ameaçar fazer”.

    Não quero estar obrigada a ceder quando não vê necessidade ou sequer sentir vontade para tanto, muito menos quando reconhecer um problema quanto a anuência. Fico apavorada ao me ver sendo qualquer pessoa, que não eu mesma, por temer sua partida.

    Naquela madrugada, custava pensar antes de agir? O que te faz mudar de ideia logo após enfiar na minha garganta um ponto final? Nem sei se mudou, sequer o que te motivou a tomar uma decisão incrivelmente ruim. Juro que isso me intriga. Desde quando o que penso ou sinto sobre a árdua transição do “nós” para o “eu e você” passou a te importar?

    Você fez isso, sozinho, quando eu menos esperava, quando eu sequer podia sentir cheiro de partida, muito menos cogitar qualquer coisa parecida.

    Depois daquela tarde de domingo quente, quando fizemos juras de amor e promessas, exatamente quando, para mim, estava tudo passando a fluir de um modo surreal; mais uma vez, você me fez sangrar, encerrando o nosso ciclo por “bobagem”, quando parecia ser o início do nosso melhor tempo. 

    Acredito que foi a coisa mais idiota que você fez. Justamente por eu gostar pra caralho de você aquela conduta foi uma merda.

    Talvez, seja como canta Adriana Calcanhoto, “Rasgue as minhas cartas e não me procure mais, assim, será melhor.”

    Não importa o que diga. Não me é interessante que as promessas sejam renovadas. Pois, não me valem de nada até que as cumpra. Teve inúmeras chances e elas não foram aproveitadas.

    Não irei permitir ser como das outra vezes. Ainda que eu dê uma nova chance, para o “nós”, é muito provável que semana que vem você faça a mesma coisa. Nessa frequência, irei permanecer me magoando. Detesto com todas as minhas forças o “vai e vem”. Eu não aguento isso.

    Fico pensando naquilo... Se para ti não está bom, imagina para mim com essa instabilidade partindo de você. Não é decidido quanto ao meu “eu”, em muitos sentidos.

    É claro, não imaginava que o nosso relacionamento poderia ser conturbado assim. Instável. Não quero isso para nós. Desejo pisar em terreno seguro. Mergulhar e não cair nas pedras.

    Eu que sempre falei em reciprocidade e priorizei “leveza”, me deparo num naufrágio. Não está sendo saudável e você não vê ou, ridiculamente, fecha os olhos.

    Por constatar o caminhar das coisas e acreditar sinceramente que, nós dois, desejando, seríamos capazes de contornar a situação. Nos proteger da mácula. Te escancarei isso antes. Justamente pela árdua percepção que, naquele domingo, eu te implorei: “vamos tentar”. Mas, infelizmente, nas oportunidades para vermos a tentativa, ela não aparece.

    Desse jeito eu não quero mais. Estive pensando muito de sábado pra cá. A mesma cena se repete. Não quero permanecer num relacionamento desse jeito, a nossa coisa não estava boa para ti e, para mim, estava ainda pior. Sabe por quê?

    Não quero ter que ceder aos seus caprichos (saiba diferenciar ao que me refiro) sob ameaça de te perder! Muita pressão sentimental que estava me sufocando. Sinto que a qualquer momento estarei sozinha, quando eu menos esperar, então é melhor que seja agora, já que você mesmo decidiu isso sob o argumento ridículo de que não supro as suas expectativas.

    No mais, anseio estar com alguém confiante sobre mim. Você sempre com ameaça de fim não demonstra isso.

    Aliás, quanto a sua carta, foi a primeira que recebi dessa forma de amor. Olha, independente de tudo, você sabe o quanto eu sinto por você.

    Desculpa não conseguir responder. Pela primeira vez, não tenho palavras. E isso é raro. Acredito que por estar indignada, com raiva e decepcionada, por aquilo que já falei.

    Eu confiei em você. Confiei em muitos sentidos. Estava mergulhando e me entregando emocionalmente e fisicamente. Para o cara sempre romper comigo por nada. Sem contar nas ameaças de partidas anteriores e nas coisas que já te foram ditas.

    É evidente. Fiquei e estou magoada. Quanto ao nosso vínculo, sou porto seguro enquanto você, para mim, aparenta ser incapaz de ser qualquer coisa próximo a isso. Sempre instabilidade da sua parte.

    Não vou me sabotar tentando repousar a culpa da ruptura nas minhas condutas. Eu sei que tentei agir para você, a todo instante, da forma que eu gostaria que agisse comigo.

    Lembra? Em muitos momentos eu falei “É apenas o começo. Estamos nos conhecendo. Calma, tudo no seu tempo. Podemos lidar da nossa forma. Não esquece o nosso pacto”.

    A estação inteira eu pugnei por um relacionamento saudável. Com sinceridade, reciprocidade e confiança. Sem joguinhos, desconfiança e “paranóias”, pois sequer haviam razões para tanto. Eu via a instabilidade e a repudiava com todas as forças, pois, afinal, eu gosto muito de você e queria o “nós”.

    Acredito mesmo que quando os dois querem, fazem acontecer. Mas, se é preciso maturidade.

    Em muitos momentos não me impus da forma que eu deveria. Ao contrário, conversei cruamente para te explicar o problema de algumas coisas e que poderia se sentir seguro quanto a outras. Não obstante, aceitei coisas que não gostei, de modo desprezível deixando “passar” para ficar tudo bem entre a gente.

    Digo com convicção que em instante algum agi num imediatismo cego contigo, por temer o que isso poderia suscitar em você, a mim e, sobretudo, na nossa coisa. Sei que até mesmo tu reconhece. Pois, diante de toda e qualquer pequena situação de desconforto, eu explicava as minhas razões, problemas e escolhas, me fazendo “nua e crua”.

    Sempre valorizei e recordo de todos esses diálogos. Para mim, representavam um marco para que desde as ínfimas à grotescas situações de incômodo não se repetissem. Deveríamos evoluir para sabermos enfrentar e lidar com coisas novas.

    Reconhecendo que não raramente pareci a sua psicóloga, explicando o problema das coisas, pontos de vistas, aconselhando a ressignificar e mostrando como tudo poderia ser mais suave. Nós dois precisávamos de equilíbrio e aprender a sopesar as coisas.

    Como se não bastasse, para mim mesma, muitas vezes te julguei por “infantil”. Assim como sei que, ainda no momento tendo plena convicção do contrário, também fui.
    Fizemos “pactos” para facilitar o correr dos nossos dias, já que vemos e lidamos com toda e qualquer coisa de modos absurdamente distintos. “Eu e você sempre ‘nus’ e ‘crus’”, lembra? Mas, aparentemente, nos instantes em que mais se era preciso, só eu recordava e estava disposta a segui-los.

    No último mês, houveram partidas em todas as semanas. Todas! As mesmas promessas já foram feitas outras vezes, sobretudo, nas últimas semanas. Por favor, não vamos normalizar isso. Mostra bem mais que fragilidade.

    Relacionamento é balança e não depende só de um. A conduta do outro gera sempre reação. Se isso prosseguir, da maneira como estava, é inequívoco que iremos adentrar novamente no mesmo ciclo vicioso. Assim, acabando somente por prolongar isso, a ruptura.

    Não adianta forçar nada! A entrega, o cuidado, o zelo e a valorização da nossa coisa deveria ser, de ambas as partes, natural. Independente do quanto eu deseje, independente da nossa conexão foda, não temos que forçar dar certo.

    É insano. Foi o meu primeiro relacionamento e sei que minha inexperiência pode ter atrapalhado. Não que sirva de justificativa para erros e afins. Quero dizer que, apesar de tudo, eu tentei agir com maturidade e responsabilidade afetiva. Convivi com uma sede insaciável de afastar as coisas que abalavam o “eu e você”.

    Acredito que irei me magoar ainda mais persistindo nessa ganância de cuidar de algo que independe somente de mim. Não sei como de um instante a outro as coisas podem ser diferentes.

    Você sabe muito bem. Dei um passo muito grande, seria uma surpresa e acabei te contando quando do seu adeus.

    Percebe? É difícil digerir que até mesmo quando tudo está bem, sem mais nem menos, do nada, chove. É triste remoer que na maior parte do tempo estamos no “baixo”, enquanto me apego aos poucos momentos de “alto”.

    Foi a estação em que senti o mundo. Mas, foram dias, sobretudo, conturbados. As minhas emoções ficaram à flor da pele.

    Não acato sua decisão sob o argumento de “é melhor agora enquanto é cedo, antes de entrelaçamos nossas vidas ainda mais, antes se apegar”. Não, não tomo, porque eu já estava apegada o suficiente, desde o meio-termo. No mais, pouco a pouco, te inseri em todos os âmbitos da minha vida.

    Tratava-se do nosso começo e ele deveria ser, em tese, muito bom. Deveríamos, os dois, estarmos eufóricos pela entrega um do outro. A reciprocidade, a sinceridade, o cuidado emocional com o outro tinha de ser trivial. Sem a necessidade de precisar provar que se importa ou, muito menos, se sentir obrigado a tanto.
    Sabe o que demonstra que não estava sendo saudável? Palavras suas: “ambos estão exaustos”. São coisas que não coincidem para mim. Exaustão em um curto lapso temporal. Uma estação! Parece muitos mais tempo, não é? Mas, não, foi só um verão. Com o outono, chegou a ruptura.

    Dessa forma, eu não consigo seguir. Passo o meu dia ponderando em como podemos elevar o suporte do nosso afeto. Fico tentando compreender o que acontece. Como se não bastasse, sinto constantemente o peso de precisar provar para você que pode confiar em mim, que gosto de você, que me importo, que me preocupo.
    Sendo que eu acredito que nunca fiz nada para você pensar o contrário e agir de acordo com tal. Não faz ideia do quanto me sinto imunda por isso. Insuficiente. Ainda que seja convicta de quem sou, muitas vezes, me senti assim diante de ti.

    A única vez que a partida partiu de mim, foi por isso. Por perceber tudo! Conversamos sobre reciprocidade, leveza, sentir e tudo mais. Houveram promessas de ambas as partes. Você se atentou a algumas coisas, mas ao que magoava, não. Com a primeira chuva de outono, nos encontramos nisso, partida.

    Possamos gostar muito um do outro. Mas, não foi a primeira que me disse “não está bom para mim”. Não sei como isso vai mudar de uma hora a outra. Levando em consideração o quanto já tentei, me sinto esgotada, sem cartas na manga. Como de um segundo a outro te farei sentir-se realizado? Não quero ser hipócrita.

    É duro. Posso gritar para o mundo o quanto é duro para mim enfrentar isso aqui, a ruptura.

    Sofro pelo que poderia ter sido e não foi. Não esquece.

    Acredito que estou frustrada, não pela minha entrega, mas justamente por acreditar com lasciva veemência que, depois do pôr do sol daquele domingo, nós dois iríamos tentar, mesmo! Por acreditar que as promessas, conversas e pactos não tinham sido em vão. Pelo meu crer de que nunca mais haveriam idas e vindas. Sempre estive disposta a enrrigecer a nossa coisa.

    E, exatamente uma semana depois, tudo volta ao antes. Ao morno.

    Meu mais insano e desmedido amor, o “eu e você” não vai prosseguir. É árduo dizer que na maior parte do tempo estávamos frustrados um com o outro, ainda que em vertentes distintas.

    Não quero viver na esperança de tentar. Não quero permanecer num relacionamento que conforme palavras suas, “só tenho preocupações”. Não quero seguir assim.
    Nossa afinidade deveria ser o refúgio. Algo digno de agradecimento. Sabe, muitas noites eu agradeci ao universo por estar ao seu lado, por dividir essa fase com você. Ansiei muito para que passasses a me ter como confidente, assim como te fiz o meu. Te falei isso, mas sempre respeitei o seu jeito peculiar, astuto e ocluso, nesse sentido; acredito que tratava-se de uma questão de tempo para você se sentir confortável para tanto.

    Talvez eu tenha posto muito expectativa e essa seja a raiz da frustração. Mesmo que eu tenha tentado manter os meus pés no chão. Desejei ter o seu verdadeiro “eu” comigo.

    Nesse quesito, sobre a sua carta, nas folhas “amarelas”, eu gostaria, mas não consigo ler aquilo e dizer “você não foi assim para mim”. No entanto, afirmo com convicção que você não foi somente aquilo.

    Existem dois caras em você. Aquele por quem me apaixonei e o que me faz ir embora.

    Sei que eu não sou ótima. Que não sou a dona da razão, aliás, não raramente estou completamente equivocada. Mas, realmente tentei agir para contigo da forma que eu gostaria que agisse comigo.

    Eu não menti uma vez sequer. Não tratei com desdém. Não joguei na cara o tempo que despendi para estarmos juntos. Não enganei, nem com ações, nem com palavras e em nenhum instante isso passou pela minha cabeça. Eu fui nua e crua para você, te mostrei cada fresta. Mas, nada disso foi o suficiente.

    Como se não bastasse, o meu sentir, nas suas palavras, “não o satisfaz”. E, quanto a isso, me recuso alegar qualquer coisa. E sei que essa frase jamais será esquecida por mim. Já disse o quanto detesto seu imediatismo?

    Estou assoberbada de pensamentos confusos e conflitantes. Por hora, não sei o que tenho mais a falar. E o que sei que tenho, prefiro acalentar.

    Já falei tanto. Fiz cartas de amor (puras). Me declarei. Me entreguei. Sobretudo, me joguei da cascata, a queda foi gostosa, mas acabei presa nas pedras.

    Não quero mais. Desculpa, sei que devo, pois também errei contigo, apesar da minha “ingenuidade”, como mesmo dissestes. Aquela história. E, sinceramente, pensando em tudo que vivenciamos, analisando os motins das nossas discussões, aquela consistiu na única coisa com titulo de “problema” e digna de uma ameaça de partida. Quanto às demais, trataram-se de coisas que poderiam facilmente ser resolvidas e acabaram, por nós, prolongadas.

    Independente da minha raiva e decepção, juro que digo isso com um imenso pesar, meu bem: Nada do que te digo agora é inconsciente. Essas não serão mais palavras em vão.

    Eu não havia planejado falar nada disso aqui. Depois de agradecer pelos nossos “autos”, pensei: “ao decorrer dos nossos dias, já falei o bastante”. Nada do que expus te é novidade. Não abandono o espetáculo sem mais nem menos.

    Sabe o que me corrói? Não fui para ti quem eu gostaria. Ser refúgio e confidente, por exemplo. Você não me permitiu ser. Acabava comigo te ver “morno”, com a mente e o olhar distante e, especialmente, por notar que os problemas te consumiam a ponto de te fazer agir mal com os que te querem bem.

    Foram muitas as vezes que te implorei para saber o que estava rolando e querer ajudar, mas parei quando me disse em voz alta e em bom tom que não queria a minha ajuda. Não dividiu. Não mostrou confiar em mim. Não me inseriu nos outros âmbitos da sua vida.

    Ainda assim, por ter ciência da sua dificuldade em compartilhar, te perdoo pelos momentos de desdém, pelos instantes que estava atordoado com os problemas a ponto de parecer que eu nem estava ali, que a minha presença tanto fazia.

    Porém, muitas vezes, agiu como um idiota comigo, como você mesmo pormenorizou na segunda folha amarela daquela carta. Como se não bastasse, quando diante dessas ações te disse “eu não não mereço ser tratada assim”, não ouvi sequer um pedido de desculpas, mas sim um “então arranja um cara que te trate melhor que eu”.

    São tantas coisas. São praticamente infindas para apenas uma estação. Fiz uma escolha, acatei sua decisão e, por hoje, não quero falar sobre isso. A minha cabeça está cheia e o meu coração inquieto. Não existe mais o “nós”.

    Eu disse sério ao falar que estou com raiva e decepcionada. Essa ruptura será ainda mais complicada se mantermos contato contínuo. Pelo menos agora.

    Mais uma vez, te peço, não coloque a ruptura nas minhas mãos. Você já tomou uma decisão e eu simplesmente concordei com ela. Faço isso pelo meu bem estar emocional e psicólogo.

    Não quero perder minha essência ou personalidade, como é o caso de ceder a meros caprichos, para manter relações, ainda por cima instáveis. Não quero me desgastar na tentativa de salvar algo sozinha, que não está somente sob o meu controle.

    Me apavora te ouvir dizer que existe algo mais, que estou dissimulando as razões da minha anuência. Parece absurdamente que não prestou atenção ou que ridiculamente descartou tudo o que já desabafei. Não é “do nada” e não tem que se achar estranho. Uma vez, naquele domingo, a partida surgiu de mim e pelos mesmos motivos de agora.

    Sabe o quanto desprezo idas e vindas. No pôr do sol daquele mesmo domingo te disse: “Me vejo voltando atrás numa decisão e isso não é comum para mim. Por respeito a nós, não vamos jogar fora”.

    Você voltou atrás também, em todas as suas despedidas…

    Suas ameaças de partidas e as despedidas foram motivadas com base em que eu fui para você, dentro dos seus limites, ideais de certo e errado e sentimentos.

    Sua percepção sobre o meu desejo de estar com você, príncipalmente sobre o meu sentir, depende de que eu seja quem você quer, ceder, suprir as suas expectativas até mesmo nas coisas mais mínimas.

    Sabe, eu tenho fervor por quem me deseja por inteira. A mim mesma. Não irei mudar a ponto de se tornar uma versão pirata de mim mesma.

    Eu queria poder agradar você, óbvio. Mas, sendo eu mesma e não precisando provar o meu desejo e tudo o que sinto da maneira que você achava que deveria ser. “Não está bom para mim”. Não consigo ceder a ponto de me tornar o amor que te satisfaz, que você deseja.

    Houveram pedidos de desculpas e promessas mútuos, mas nem todas elas foram cumpridas. No principal imbróglio, sequer houve tentativa. Nunca acreditei numa mudança repentina. Mas, o mínimo que eu esperava era uma mísera tentativa.

    Com instabilidade e insegurança sobre mim, tive dias de inquietação emocional e psicológica. Não consigo lidar, me martiriza. Acaba, assim, me atrapalhando nas coisas mais simples (concentração, estudo, trabalho).

    Confesso que nos “altos” me proporcionou coisas incríveis, êxtase. Mas, a maior parte do tempo estávamos no “baixo”. Pelo morno, me sentindo insuficiente, idiota e até mesmo alguém ruim. Sobretudo, “o não satisfaz”.

    Percebeu como sou repetitiva? Isso torna essa conversa densa e incrivelmente cansativa.

    Ainda que me questione, não vou mais te expor motivos. Foram coisas sempre ditas.

    Não vamos ser hipócritas. Isso não precisa acabar mal. Não vamos denegrir a imagem um do outro, não há razão. Aliás, algo assim é ridículo.

    Se é preciso aceitar os erros. Ficar triste pelo que não foi. Reconhecer o que se perdeu. E seguir com maturidade. No mais, agradecer os momentos de “altos”. Não é tratando como se nunca tivéssemos nos conhecidos que a ruptura se tornará fácil.

    Você não foi e não é qualquer pessoa. Isso não vai mudar, para mim. Marcou.

    Eu comecei com sinceridade. Vou terminar assim também.

    A minha decisão está tomada. Espero que aprendamos a não cometer os mesmos erros.

    Sobre a nossa coisa, o nosso meio-termo, me mostrou como sou intensa. Obrigada, mesmo, pelos instantes de intensidade. Adorava quando a nossa coisa pegava fogo.

    Você foi contemplado em ter o meu sentir, o meu querer, o meu corpo. Eu jamais havia me entregado tanto.

    Peço para que a nossa coisa fique entre nós. Principalmente os nossos detalhes, as coisas importantes que aconteceram. Desejos, intenções e afins. Assim como as coisas agradáveis e desagradáveis. Lembre, são memórias suas e minhas também.

    Me agrada a ideia de estagnar no tempo o “eu e você”.

    Não sei como vai me perceber depois da ruptura. Acredito e espero que não seja motivo para “descaracterizar” o meu eu. Jamais irei desonrar o seu nome. Por favor, não o faça com o meu. Não há razões. Não me interprete mal, peço isso por desencargo de consciência. Acredito no que sente por mim e sei que não faria tal coisa.
    Desculpa se te proporcionei momentos ruins.

    Foram meses repletos de primeiras vezes, para mim. Você sabe. Aliás, a primeira vez que proferi “eu amo você”, dessa forma de amor. E dane-se se foi cedo.
    Reconheço que sobre algumas coisas dei passos largos e tropecei nos meus próprios pés. Fui inconsequente. Me arrependo. Mas, jamais irei me arrepender pelo que fui e sou capaz de sentir. Muito menos, pelas palavras de amor ditas.

    Uma pena eu não tê-las visto valorizadas…

    Não quero ser vista como hipócrita.

    Sei que não compreende o meu pedido em mantermos a amizade. Não consegue entender como posso não mais te querer como seu parceiro (mesmo amando-o) e, ainda assim, implorar para que me tenha como amiga. “Não entendo como eu não te querer como amiga é algo que se deva discutir e fazer sentido”.

    Coloquei tudo às claras. Detesto quando questiona o que eu sinto. Eu não queria que fosse assim. Ansiei a transformação do meio-termo muito tempo. Você sabe. O meu sentir nasceu muito antes do verão. Não fale insinuando como se eu tivesse em algum momento mentido sobre o meu sentir, muito menos diminuindo o que me rasga o peito.

    A perda não é apenas de uma parceira ou um parceiro. É de um amigo(a) também. Não apague o meio-termo. Tudo começou numa amizade sem mais pretensões.

    - “Se você realmente sentisse intensamente, iria querer permanecer e continuar, tentar mudar. Nunca se afastar do problema, igual você fez. Me esquece. Você de repente decidiu que os nossos confrontos te fizeram sentir uma fracassada. Além de tudo, foi capaz de esquecer todos os momentos bons, sem mais nem menos, descartar-los e valorizar só os pontos ‘baixos’ para justificar a sua hipócrita vontade de partir. Forte seu amor.  Não vou negar. As vezes me pego preso nisso… questionando se tudo o que me disse, se cada palavra de afeto foi realmente cheia de sinceridade. Você é boa com as palavras e tenho medo de tê-las usado para comigo de uma forma deplorável. Não sei se seria capaz de dissimular dessa forma. É louco dizer, mas, sim, eu acredito no que diz sentir por mim. Ainda que muitas vezes não tenha agido de forma condizente, ainda que eu mesmo fique matutando a respeito. Tudo isso é insano (como você mesmo costumava dizer).”

    Quanto à mantença do “nós”, me recuso a permanecer no que me fazia sentir um fracasso. Essa sensação existia por você ter me dito bem mais de uma vez que a minha linguagem do amor não te satisfazia.

    Da forma que você coloca, faz-me sentir ingrata. Também estou despedaçada. Nos nossos dias, pouco a pouco eu estava me desfazendo em alguns sentidos e precisava do seu agir para me refazer. Por isso tanto diálogo, da minha parte. Por isso a ideia do “pacto”.

    Falei isso naquele domingo. Lembra? Com seriedade. Mas, quando tudo soava calmaria. Você choveu em mim. Foi isso que você fez naquela madrugada de sábado. Naquela noite quente, prometi a mim mesma que era a última vez que iria me fazer chorar. Última vez que iria me frustrar por você descartar suas promessas e não pensar em mim antes de fazer algo que tanto me afetava.

    Me desculpa por ser tão repetitiva. Te remeto inúmeras palavras, te falo coisas infindas, e sei que você acha um porre, acaba descartando quase tudo.

    Ao pôr do sol daquele domingo, me disse as mesmas coisas que agora. E eu voltei atrás na minha decisão, lembra? No mais, deixei claro que a hipótese de partida, da minha parte, se tratava de algo que não desejava, mas que a cogitei para evitar me machucar.

    Ainda que em outro contexto, estamos novamente na mesma coisa. Mas, dessa vez, eu já estou machucada.

    Espero que você fique bem, mesmo. Mas, sendo sincera, não vou mentir. Espero, no mínimo, um pingo de saudade, arrependimento ou pesar pela perca.

    - “Espero o mesmo de ti. Sinto uma saudade incessante. Sonho com você. Tenho arrependimento também. Quanto a estar despedaçada, não acredito. Se você sentisse saudade, vontade, amor… resgataria o ‘nós”. É simples. Eu te falei estar disposto a mudar, mas você não se importa.Eu faria o impossível por você e é deprimente te ver me colocar como imundo. Não jogue entrega na minha cara, suportei muita coisa por você e tu simplesmente joga fora. Sabe, me abri emocionalmente como jamais havia feito com qualquer pessoa. Você tem o meu amor nas mãos e está esfarelando ele. Nunca imaginei que seria capaz de uma coisa dessas. Te vejo traindo quem eu vi em você, principalmente, tudo o que me dizia ser. Você diz estar machucada enquanto me machuca também e não se dar conta.”

    Não me surpreende você não acreditar em mim. Simples para você falar pensando em quem fui contigo. Se coloca no meu lugar. Você mesmo reconheceu coisas nada bacanas que partiam de você. Não quero discutir.

    Foram poucos dias para tudo voltar ao antes. E as três coisas que eu mais te pedi para evitar, porque me afetava muito, vinheram num pacote no mesmo final de semana. Me decepcionei muito naquele sábado. Eu chorei a madrugada inteira.

    Não entendo como pode me amar e não tentar evitar fazer algo que eu tanto te pedia para ser cauteloso. Não entendo como não conseguia evitar fazer o que me desabava.

    Sabe, eu reconhecia quando agiria daquela maneira. Pressentia. Sabia quando seria tomado pelo seu imediatismo cego. Nesses momentos, eu falava coisas como: “Presta atenção. Lembra do que combinamos sobre lidar com os problemas. Não precisa ser assim”. Justamente para ver se você pensava em mim e no valor do nosso vínculo.  Antes de fazer qualquer coisa ou dizer, eu sempre pensava em como você ia se sentir. Por isso tenho certeza de que nunca te ofendi ou derrespeitei, ou magoei com o que falei.

    Não estava sendo saudável, meu bem. Não quero nós dois num relacionamento que ainda no início não estava sendo leve. Não vamos mais reviver essas discussões… Okay?

    - “Não adianta eu dizer mais nada. Vejo que persistirá nessa decisão. Eu preciso digerir a ideia e aprender a lidar. Sabe, foi você mesma quem terminou com a gente. Não te entendo. Eu corri atrás e você não quis mais, praticamente me esnobou. Permanece com a vontade de se afastar e de que, se ficar, será somente para ter minha amizade. Eu não quero ser somente o seu amigo, quero dividir uma vida contigo, desejo ser o seu parceiro. Sabe, nós discutimos algumas vezes e eu te disse coisas impulsivas, sobretudo, nunca dotadas de veracidade, foram coisas que eu não deveria (e não queria) ter lhe dito. Porém, apesar de tudo, isso jamais significou que não quero a sua presença e muito menos que ela tanto fazia para mim. Não precisa ter medo, pode confiar nessas minhas promessas, nas falas que te remeto agora.No entanto, acima de qualquer coisa, sabe o que é foda? No momento que acreditei que ficaria comigo, você foi embora. Isso foi péssimo. Tenho medo de dizer a mim mesmo o que isso significa. Você não está disposta a erguer um castelo comigo.”

    É complicado erguer castelo com alguém que diante de qualquer lajota colocada torta ameaça abandonar a execução ou a faz. Dá a sensação de que a qualquer momento a obra vai ficar inacabada e desmoronar. Do jeito que você coloca, tudo se torna pequeno. Me colocando como venenosa faz eu me sentir muito bem.

    Não foi minha intenção “esnobar”. Foi o que te disse: Eu, ferida, iria passar a ferir você também. Não quero isso. Olha, eu não queria somente a sua parte fácil de amar. Não. Eu mesma falei: “eu e você nus e crus”. Eu disse desejar o seu verdadeiro “eu” comigo.

    Moram dois caras em você. O que fez eu meu me apaixonar e aquele que tem atitudes comigo nada bacanas, me tratando de uma forma que não gosto, e assim me cortando. E, se tratando de um amor que ainda estava no começo, esse primeiro cara deveria ser o mais presente e não o segundo. Diante do segundo cara, eu não conseguia ser o meu melhor com você.

    Aliás, tem algo que está engasgado e preciso te questionar. Sabe o que eu não entendo? Você me disse assim, duas semanas atrás: “Eu posso ser só esse primeiro cara”. “Posso mostrar só o meu melhor”. Me passou a impressão de que, de algum modo, você tinha plena consciência de tudo o que apontei… Não sei.

    - “Me desculpa. Sim, eu sempre tive. Por isso quero você de volta. Para agir como você merece. Aliás, como deveria ter agido desde o incio. Com o inicio da ruptura, passei a ver e valorizar tudo de uma outra forma. Me sinto mal com tudo isso. Porém, ainda que você exponha infindas coisas, só consigo pensar que: ‘É por isso quer partir pra sempre?’. Tenho a horrível sensação de essa conversa não vai dar em nada. Sinto que estou de mãos atadas. Estou implorando para ficar enquanto você constantemente arranja um argumento para reforçar sua partida. Me faz um monstro.”

    Já que percebia, por qual razão não agia assim antes? Já pensou nisso? Sabe, são um conjunto de pequenas coisas e estou decepcionada pela existência delas.
    Argumento porque você merece justificativas. Sobretudo, porque gostaria que se colocasse no meu lugar. Principalmente, que tentasse entender. Você sabe muito bem que não ser tratado da forma esperada por quem a gente ama, corta. Mas, tenho a sensação de que para ti, estou “fazendo tempestade em copo d’água”. “Sou exagerada”.

    A minha decisão não é fácil. Eu sinto o universo por você. Ainda que tenha me decepcionado com atitudes. E é duro assumir isso. Sinto saudade do primeiro cara, muita. Sinto saudade de olhares, toques, do seu abraço, de me sentir protegida ao caminhar contigo, do seu timbre… É por sentir muito, intensamente, que as coisas que apontei me machucaram e você não está percebendo isso.
     
    Isso é difícil, mesmo. Eu vejo que reconhece o que eu expus para aceitar a sua decisão de partida. Não questionou nada e disse reconhecer. Mas, vejo que não vê como motivo para ruptura.

    Eu adoraria — com todas as minhas forças — acreditar quando você disse “eu estou prometendo que vou mudar, porque a minha visão é outra agora”. Eu não sei qual é a sua visão, mas, ainda assim, tenho medo. Poxa, você confirmou que tinha percepção de tudo aquilo antes.

    Os dias correm e em todos eles eu revivo “a nossa coisa”. Tudo poderia ter sido diferente, assim como você mesmo expôs naquela sua última música.

    Não é por meras brigas. Isso vai existir, justamente porque nos importamos e queremos fazer dar certo estarmos juntos.

    O problema é por se tratar das mesmas coisas. Como vamos crescer persistindo nos mesmos “erros”, persistindo no que destabiliza a nós dois?

    Você é astuto, tem controle sobre o que quer. Sei que não me quer como amiga. Porém, preciso saber que você está bem. Se precisar de mim, independente do que for, me diz.  Você sempre disse ter problemas, mas tinha um bloqueio em dividir comigo. Se precisar desabafar, eu estou aqui. Pode confiar em mim. Não irá ouvir julgamentos. Eu sempre questionei sobre eles por me preocupar. Não faço ideia do que sejam. Eu ainda me importo. Isso não vai mudar. Sabe o quanto sinto, sabe onde e como me encontrar, se quiser, se precisar.

    Pensa numa coisa, por favor, é a última coisa que te peço. Questiona se, pelo caminhar das coisas, eu te fazia sentido.

    O sentido a gente percebe com o tempo. Sobre “tempo”, você disse não acreditar. Eu também. Mas, sobre relacionamento, é tudo novo para mim. Ao longo da estação, mudei pensamentos, me vi em coisas que antes dizia “jamais” e fui eufórica com coisas que antes me assombravam.

    Por favor, pensa realmente nisso. Pois, uma coisa é querer a presença de alguém e outra coisa é querer a presença daquela pessoa. E, se tratando daquela pessoa, se é preciso agir com maturidade e responsabilidade afetiva. 

    Se tratando de você, para mim, há sentido. Mas, não naquele caminhar.

    Me chame de venenosa, hipócrita o que for. Só não me puna por estar desacreditada quanto a promessas. Acredito que a mudança que tanto ansiei só existiria na certeza quanto aquilo. Eu sendo “aquela pessoa”. Acredito que assim você agiria como tal.

    Essa infinidade de palavras não existiriam se você não fizesse sentido para mim.

    Juro que tentei, mas não consigo entender como por qualquer “problema” você mudava comigo e dizia coisas como “presta atenção, eu só vou caindo fora” ou que o caminhar não te agradava. Como se não bastasse, algumas vezes, de última hora, tirou o nosso encontro dos seus planos porque, para ti, me ver “não valeria a pena”. E, não obstante, claro, sempre cogitava dar um basta comigo e chegou a fazer isso algumas vezes.

    É difícil ouvir essas coisas de alguém que você ama. Eu me senti insuficiente mesmo. Insuficiente para ti. É isso que eu quis dizer com um fracasso.

    - “Você nunca foi insuficiente, muito menos qualquer coisa perto disso. Aliás, eu pensei. Não quero ser seu amigo. Sei que não irei suportar te ver com outra pessoa, um dia vai acontecer e eu não quero estar lá pra ver isso, muito menos te ouvir falando desse alguém para mim. Não quero ter contato. Mas, ainda assim, pode contar comigo, sempre que quiser, para qualquer coisa. Sabe, eu amo você de todas formas e uma delas é como amigo.”

    Eu gostaria de ser sua amiga.

    Se isso acontecer, vai demorar muito. Pra caralho. Eu não sou do tipo que se apaixona em cada esquina.

    A recíproca é a mesma. Olha, você é um cara super atraente. Devem ter dezenas de garotas lindas interessadas em você e que despertam seu interesse também. Isso nós dois sabemos. Eu sou facilmente substituível. Se ocupo um posto, logo mais ele não será meu. Você já se envolveu com outras mulheres. Já teve outros relacionamentos. Sabe que o que digo é verdade. E se por acaso um dia se lembrar de mim, vai ser em algo singelo, por exemplo, ouvindo “É Você Que Tem”.

    E independente de qualquer coisa, da minha decepção amorosa (já falamos a respeito, sabe o que quero dizer), jamais desejarei o seu mal ou direi coisas ruins a seu respeito para qualquer pessoa. As coisas que aconteceram entre a gente e também o que não aconteceu, só cabe a nós. Aliás, ainda que eu possa em muitos momentos sentir raiva, desprezo e afins, sou incapaz de sentir ódio a ponto de profanar de modo detestável o outro. Não sou alguém que se domina por sentimentos ruins.

    No mais, também reconheço as minhas falhas. Espero, mesmo, que você não tenha somente memórias ruins. Tentei e acredito não ter magoado com palavras, te respeitei (em todos os sentidos). Se em algum instante eu não fiz isso, peço perdão. Pois, tenho muito medo de apontar e de cobrar do outro algo que não está em mim.

    Hoje, eu amo você. Mesmo. Apesar dos pesares. Ainda que, olhando com distancia, eu não goste de quem foi comigo.

    Não sei se você sabe, mas há 5 linguagens do amor. As nossas são diferentes, acredito que por isso você “não vê o meu sentir”.

    Talvez, agora, a minha decisão para você (mesmo depois de tudo que eu expus e esclareci) não faça sentido. Mas, daqui alguns dias, meses ou sei lá, acredito que fará.

    Nem sempre o sentir é o suficiente para duas pessoas ficarem juntas. E juro que acredito naquela ideia de que “há formas de se amar alguém para sempre”. No entanto, às vezes justamente a nossa forma de amar, lidar com as coisas, vê-las ou sei lá, atinge o outro de uma forma que não imaginamos. É preciso ouvir o outro e ter cuidado com o que se está construindo.

    A minha decisão é para não mais me magoar. Eu sou muito intensa. Tudo me afeta muito. É frustante ser o bilhete dourado enquanto o outro só enxerga preto e branco.

    Os nosso pacto estava sendo quebrado e os diálogos e promessas sendo vãos. Eu valorizo tanto essas coisas. Reforço, eu, ferida, ia passar a ferir você também.

    Quero muito o seu bem. Sei que um dia outro alguém vai ter o seu sentir e não quero que esteja despedaçado. Não quero que lembre de mim de uma forma ruim.

    Queria ter te proporcionado somente coisas boas, talvez eu não tenha feito, assim como você não fez.

    Apesar do quanto eu sinta, jamais irei me perdoar se, por acaso, persistir nisso aqui e perder a minha essência.

    Eu apago a luz e fecho a porta com cuidado.

    “Não suporto meios termos. Por isso, não me doo pela metade. Não sou sua meio amiga nem seu quase amor. Ou sou tudo ou sou nada.” — Clarice Lispector. Faz sentido sua escolha. Eu penso a mesma coisa. Queria parecer mais forte. Vou respeitar sua decisão.

    Ps. Se um dia eu escrever um livro, leia. Provavelmente, terá textos meus sobre sentimentos e coisas atreladas a você. Será capaz de reconhecer, eu acho. (Se quiser, claro).

    - “Ninguém será capaz de substituir você pra mim. Só você teve esse posto, da forma que sempre desejei, e só você terá, por todo o sempre. Não vou estragar isso. Talvez eu faça aquilo que você sempre me falou “ressignificar”. E sim, eu já estou despedaçado. Nunca me senti dessa forma. Me magoa ver que está decidida. Só me resta tentar superar e, além de tudo, respeitar. Me desculpa por todos os ‘baixos’. Eu amo você.”

    Nunca mais ouse duvidar do que sinto.

    Sabe, eu realmente acreditei que não mais estava fadada ao Naufrágio.

    Por fim, não joga fora as minhas palavras, nenhuma delas.


    Janaina Couto ©
    Publicado — 2020
    @janacoutoj


    [PS. Não se trata de um relato pessoal. Mas, confesso que é um imenso pesar reconhecer que o meu texto foi lapidado sob um apanhado de relatos de pessoas queridas que estão ao meu entorno.
    Ainda que mesmo nas coisas mais sutis possamos constatar algo a se repudiar e imediatamente afastar-se, não raramente, horrivelmente, isso acontece apenas quando se tornam salientes.]
  • A Catedral

    As pessoas paradas em frente à Catedral estavam movimentando calorosamente as opiniões que não acabam.

    Elas ficam paradas perante à Catedral e a noite vem, os pássaros vão, elas permanecem.

    A Catedral é cheia e eu observo de longe a bagunça quieta,
    bagunça sem agitação, contando com a aglomeração.

    O chão é brilhante e a lua o ilumina.
    A água do poço não cheira tão bem quanto deveria.

    À deriva de decisão passa na cabeça.
    Os olhos se espelham fronte outros, até então.

    As pessoas da Catedral saem e observações ficam.
    A Catedral fica.
    As águas ficam.
    Os pássaros vão.
  • A Colecionável

    Ela estava voltando da faculdade. Infelizmente tinha que andar aqueles duzentos metros à pé, no escuro, para chegar em casa. Sentiu um toque suave no ombro direito e antes que pudesse virar, uma mão enluvada pressionou um pano úmido e fétido sobre seu nariz. Por alguns instantes ela tentou lutar, mas uma letargia avassaladora tomou conta. Sentiu ser colocada em um pequeno espaço acarpetado, e uma porta de metal sendo fechada com violência. E então, foi só escuridão.

    Acordou tempos depois sobre uma cama macia e cheirosa. Parecia que tinha dormido por séculos, mas ainda sentia o corpo cansado e dolorido. Bastante confusa levantou-se e observou o lugar. Onde estava? Um quarto amplo, cuidadosamente decorado com papel de parede rosa, móveis de qualidade, tudo novinho. Uma estante com centenas de livros, escrivaninha para desenho, frigobar, um bar cheio de garrafas de suas bebidas favoritas e finalmente um closet enorme com mais roupas e sapatos do que ela jamais sonhou em ter. Estava deslumbrada com tudo, mas não pôde deixar de lembrar que havia sido sequestrada.

    Em sua exploração pelo quarto recheado de surpresas ela nem reparou na porta. Foi só quando a euforia arrefeceu que ela pensou que talvez não fosse uma prisioneira. Experimentou a maçaneta e surpresa: a porta abriu. Do outro lado havia um pequeno cômodo, com uma mesa de centro e mais nada. Na outra extremidade outra porta, e essa sim estava trancada. A moça experimentou um sentimento estranho, pois concluiu que estava, de fato, encarcerada. Sobre a mesa ela notou um envelope do qual tirou uma carta que dizia o seguinte: "Minha princesa. Meu grande amor. Sinto como se nos conhecêssemos desde o princípio dos tempos. Vivo e respiro a cada segundo por você. Tenho a esperança de que se sentirá em casa no quarto que preparei especialmente para você com todo o carinho do mundo! Tudo que quiser será seu, basta escrever e deixar o pedido sobre a mesa nesta sala. Com amor... seu admirador secreto".

    Estava sob o domínio de um louco que a conhecia nos mínimos detalhes, sabia de seus desejos e podia até antecipar suas necessidades. Os dias se passaram, as semanas e depois os meses. Ela já não sabia quanto tempo estava ali, mas sabia com absoluta certeza de que seu captor a amava mais do que podia compreender, pois tudo ali realmente satisfazia suas mais profundas vontades. Nunca em sua humilde vida ela poderia ter tais roupas, nunca poderia comprar os perfumes e jamais comeria iguarias tão deliciosas enquanto estivesse por si só. Mas mesmo assim, ela não passava de uma prisioneira.

    Ao longo dos anos ela aceitou o conforto, aceitou que tinha tudo que poderia querer e por isso não precisava querer o que não tinha. A vida se encaixou, não da forma que ela tinha planejado, mas se encaixou. Cabia a ela agradecer e continuar existindo, linda, plena e boazinha para que a vida que tinha conquistado pudesse continuar a ser do jeitinho  que sempre sonharam para ela.
  • A ideia comprometida

    Moscas tem a percepção de tempo diferente da dos humanos. Essa frase é algo que eu escutei muito quando era criança e sempre duvidei. Pra mim isso não fazia o menor sentido, o tempo é algo absoluto que todos estão vivenciando simultaneamente. Eventualmente, quando eu estava um pouco mais velho e tinha mais acesso à informações, eu acabei encontrando a explicação para isso, aparentemente tinha algo a ver com os olhos das moscas processarem as imagens mais rapidamente, especificamente 250 flashes por segundo, enquanto nós, humanos , processamos a apenas 60 flashes por segundo. Isso me deixou fascinado, e talvez até mesmo obcecado, fazendo com que eu começasse a ter diversas ideias de como isso teria impacto se fosse controlado pelas pessoas, que tipo de benefício seria capaz de ser obtido através dessa tecnologia, se algum dia ela fosse possível. Com isso eu comecei minha carreira de estudos para chegar onde estou hoje, eu me esforcei muito, sempre mantendo minhas ideias e teorias em dia, até conseguir me tornar o que você pode chamar casualmente de cientista, para não ter que entrar em detalhes.
    Hoje em dia eu faço de tudo para conseguir tornar essa tecnologia viável, mas obviamente também trabalhando normalmente, pois ninguém vive apenas de ideias.
    Atualmente com 32 anos, eu sou casado e sem filhos. Durante toda minha carreira poucos amigos continuaram ao meu lado.
    Hoje, 26 de março de 2027, é apenas mais um dia comum de trabalho. Eu acordo ao lado de minha esposa, Emma, e vou tomar banho. Saindo do banheiro ela já está acordada fazendo o café da manhã, que a gente come assistindo TV.
    No jornal da manhã está passando uma notícia sobre a primeira inteligência artificial a conseguir manter conversas fluídas e originais, sem influências externas, apenas uma semente que germinou e vem se alimentando sozinha de informações pela internet. Vendo isso, Emma comenta:
    -Daqui a pouco não vai mais existir diferença entre humanos e robôs.
    -Realmente, esse tipo de tecnologia deveria ser desenvolvida periculosamente, e não simplesmente jogando toda informação do mundo em cima dela. Isso realmente é perigoso
    Com isso, eu acabo de comer, me arrumo, e saio para trabalhar.
    Meu dia passa rapidamente, nada de interessante acontece na minha rotina de trabalho, apenas o de sempre.
    Novamente em casa, eu janto com Emma e vou para cama ler antes de dormir. O livro se trata de um suspense sci-fi, como qualquer outro clássico jogo de gato e rato, é apenas uma história de perseguição. Durante a leitura algo me chama a atenção, o protagonista, para ajudar em sua busca, recorre ao uso de diversas câmeras que, segundo ele, tem a mesma a capacidade de um olho humano e uma perspectiva de um olho de mosca. Isso me dá algumas ideias, que eu apenas anoto pois está tarde e eu não conseguiria as desenvolver com sono.
    Hoje eu acordei ansioso para rever as ideias e tentar tirar algo delas, mas como meu trabalho existe, isso acaba ficando pra mais tarde.
    Durante o café da manha eu conto para Emma sobre essas ideias e ela diz:
    -Quem sabe você consegue finalmente criar essa tal tecnologia que você fala tanto sobre.
    -Ah eu espero que sim, estou com isso na cabeça desde criança.
    E então eu saio novamente para trabalhar.
    Finalmente em casa, eu vou direto pegar meu caderno de anotações onde eu escrevi minhas ideias.
    A principal, a qual eu considero mais plausível, era a de que, já que a causa dessa diferença era a visão, eu vou simplesmente recriar os olhos de uma mosca. Por mais caro que isso pareça, se eu conseguir discorrer essa ideia publicamente de uma boa forma, eu vou conseguir os certos investidores. Pensando mais a fundo eu chego a conclusão de quem seria o investidor. Por mais que eu recriasse os olhos, pela perspectiva humana, tudo continuaria na mesma velocidade, então o objeto teria que ter inteligência própria, obviamente controlada por nós, para poder usufruir de sua “habilidade temporal”.
    Depois de dias criando um texto para ir a público, eu finalmente o divulgo. E a empresa perfeita vem fazer contato. A mesma empresa que havia criado a inteligência artificial que eu tinha visto outra manhã.
    A ideia do objeto precisar de uma inteligência própria foi o que, obviamente, iscou a empresa. Eu sabia que tudo aquilo era simplesmente por dinheiro, mas não tinha problema, eu só quero ter meu sonho realizado.
    Depois de ser contatado, eu fui chamado para a sede oficial deles, para poder se aprofundar mais sobre o assunto e, quem sabe, chegar em algum contrato. E é exatamente isso que acontece, eles disseram que iam fundar meu projeto, elogiando a ideia, que, por mais obvia que fosse, ninguém nunca tinha pensado dela.
    Nesse dia eu chego em casa e comemoro com minha esposa.
    Passam-se anos, eu largo meu emprego pra poder me esforçar ao máximo no projeto, e finalmente, nós chegamos ao primeiro protótipo. Por mais que eu tivesse tido ajuda da empresa, a maioria da parte técnica foi desenvolvida por mim. E quando eu vi aquela pequena criaturinha de metal levantando voo, com sua própria inteligência, e conseguindo desviar de tudo que se aproximava dela, como uma mosca real, eu chorei. Finalmente meu sonho estava realizado, pode parecer bobo, um sonho que aparece aleatoriamente e se prende a minha cabeça, e agora eu estou chorando por causa dele, mas finalmente aconteceu.
    -Isso é um passo enorme para a humanidade - disse o CEO da empresa
    -Realmente, mas qual será o uso dela - eu respondi, mesmo depois de todo esse tempo trabalhando nisso, eu nunca pensei sobre seu uso, eu só queria a tornar possível, e eu sabia que existia uma ideia de aplicação, já que ninguém investiria em algo tão pesadamente sem ter planos na cabeça.
    -Primeiramente segurança, obviamente, já que com isso nós temos uma pequena câmera indestrutível e, logo menos, camuflada. Ela pode ser usada para infiltrações ou coisas do gênero.
    -Não é uma má ideia - eu digo
    -Mas isso não é tudo, depois que essa fase de segurança passar, nós avançaremos para a próxima.
    -E qual seria essa fase, senhor.
    -Militar, oras, não está obvio? Com ela nós podemos criar uma grande vantagem de combate em relação a outros países. Imagine ter um espião praticamente invisível nas forças inimigas. É algo que seria impensável se não fosse por você. Bom trabalho.
    -Mas eu não criei essa tecnologia para machucar os outros, era apenas para realizar um sonho.
    -E agora ele já está realizado. O resto está em nossas mãos, e quando o governo ficar sabendo disso, ele vai pagar uma grana preta para nossa empresa, e então estará tudo nas mãos deles. No fim todos nós lucramos e nosso país se tornar uma potência ainda maior, não tem perda nesse plano.
    -Eu não acredito nisso.
    -Não precisa acreditar, o pagamento pela sua parte já foi depositado em sua conta, agora saia daqui antes que eu me arrependa de te pagar, pessoas que me contrariam me estressam.
    E então, com meu sonho realizado e sem nenhuma opção de poder continuar lá, eu saio daquela empresa e nunca mais volto. Eu fico sabendo sobre seus futuros projetos, de como eles conseguiram chegar a um produto final, sem ter de continuar usando protótipos, mesmo sem minha ajuda.
    Depois de muitos anos finalmente acontece o prometido, é anunciado na TV a compra dessa tecnologia pelo governo, que sem mais nem menos anunciou que o uso seria militar.
    Tudo que eu tenho pra fazer agora é ficar em casa vendo minha tecnologia sendo usada da maneira errada, sem poder reclamar, e pensando em como nem todo sonho tem seu final feliz quando é cumprido.
  • A mulher dos sonhos

    Vejo uma mulher de costas, cabelos longos, até a altura de sua cintura, e negros, como a própria escuridão que lhe cerca neste sótão úmido e fétido, cheio de teias de aranha, que preserva apenas lembranças há muito esquecidas por todos. Sua pele branca se confundia com seu vestido, a tonalidade era quase a mesma, mas o mórbido tom de seus braços expostos tinha algum realce em detrimento do vestido limpo e brilhante.  

    Todos os homens que ali entram, a veem e se apaixonam. Vejo suas expressões de contentamento ao decorrer dos dias, semanas, meses, todos são felizes por alguns instantes e, eventualmente, vão embora. Contei quatro até então. Seria esta mulher um anjo que conforta os mal afortunados?

    Gostaria de vê-la melhor, enxergar sua face, contudo, não consigo mudar de posição para enxergá-la de frente e ela não se vira para mim. Não consigo observar o motivo de tal fascínio, apenas vejo aquelas costas delicadas tão expostas por seu longo vestido e escondidas por seus cabelos que as vezes se mexem com uma pequena brisa gélida

    (de onde vem essa brisa?),

    tenho uma ligeira ideia do tempo que se passou, pois aquele vestido branco e limpo já está um pouco desbotado, com algumas manchas e marcas de poeira.

    (aquilo parece uma gota vermelha...)

    Aguardo ansiosamente pelo próximo visitante, talvez traga algo que reflita a parte oculta desta figura à minha frente, não entendo porque não consigo vê-la

    (por que não se vira? Porque não consigo ir até ela?),

    e agora fazem anos que ninguém a visita, durante todo esse tempo ela se manteve inerte. Seu vestido está imundo. Vejo algumas traças passeando, alegremente, pelo pano que cobre suas pernas

    (tenho quase certeza de que são gotas vermelhas).

    Agora que me recordo bem, não lembro de algum dia tê-la visto se mexer, não lembro de ver os homens indo embora, eles apenas sumiram. Suas expressões eram mesmo de felicidade? Não tenho mais certeza.

    Meus olhos estão cansados, não lembro da última vez que pisquei. Afinal, sou prisioneiro aqui? Não me recordo. Quando este pensamento atinge minha mente, vejo seu rosto virando vagarosamente em minha direção.

    Não sei se durante todos esses anos ela esteve ciente de minha presença, se eu estava esquecido no fundo de um sótão imundo, ou se fora tudo um espetáculo mórbido para mim. Por que não me recordava? Por que era tão difícil me concentrar? Aos poucos, todo aquele mistério acabaria, poderia ver o rosto que tantos homens se apaixonaram ou se perderam, eu não sei mais.

    Gradualmente e morosamente sua face volta-se para mim, observo a carne do fronte de sua cabeça comida e esburacada, a maçã de seu rosto esquerda fora arrancada, parece que a mordidas. Sua testa tem cortes profundos o suficiente para se ver o branco do crânio, sua orelha direita era inexistente, com pequenos vermes entrando e saindo de seus orifícios. Seus olhos brancos como a neve não têm palpebras, mas eram enfeitado por pequenos riscos vermelhos, que se destacavam daquela pele morta. Seus dentes são todos pontiagudos e longos, seu pescoço tem marcas de violência, traumas, cortes superficiais e um profundo, acho que na iluminação certa seria possível ver sua coluna por aquele buraco. Seus braços finos e mal tratados, parecem tão frágeis, terminam em mãos delicadas, incrivelmente singelas. Apenas dois detalhes diferentes, suas unhas enormes e o dedo anelar faltando em sua mão esquerda, imagino se fora arrancado a mordidas,

    (sim mordidas, pois pela deformidade daquele ferimento, me parece algo feito por uma mente doentia)

     diria ainda que por ela mesma. Seu corpo é magro, o vestido é justo e revela apenas um seio, onde o outro deveria estar há apenas uma marca vermelha. Seu vestido não pode mais ser identificado como branco, é uma mistura de cores miseráveis contando a história de dor daquele ser.

    Ela se vira completamente e me encara, naquele cômodo sombrio, esquecido por Deus, onde as trevas reinam, como se dissesse “sim, eu lembro de você” e dá seu primeiro passo rumo a mim.

    Ela caminha lentamente até me alcançar, naqueles instantes que pareceram uma eternidade. Ao se aproximar, sua mão direita, com aquelas garras enormes, se estica em minha direção, minha noção de tempo se perde, não sei se tudo aquilo ocorreu em segundos ou horas, mas ela me alcança e aperta minha cintura perto da virilha.

    Não abro os olhos, mas acordo...

    Sinto o suor frio escorrendo de minha testa...

    Minhas costas estão encharcadas...

    Tenho a sensação de dormência em minha perna esquerda. Sinto o toque daquela mulher perfurando minha carne, não sei se foi o poder de minha mente transtornada que deu realidade àquele sonho ou se escapei da morte por pouco. Então passo a mão em minha cintura e virilha para ter certeza de que não há sangue. Não há. Lógico que não há, nada daquilo fora real, apenas fruto de uma imaginação perturbada.

    Viro na cama, puxo o cobertor até cobrir a cabeça, descubro meus pés. Estou vestindo meias grossas que sobem até metade de minha panturrilha, mesmo assim sinto frio. Não me atrevo a abrir os olhos, tenho medo do que possa ver, apenas tento dormir de novo. Sem sucesso.

    Rolo na cama por horas até criar um pouco de coragem e espio, com os olhos semi-cerrados, o que está ao meu lado. Suspiro aliviado ao ver que não há nada ali, apenas um armário e escuridão, além de uns poucos ruidos dos desbravadores da madrugada. Aqueles seres que passeam embreagados com seus carros ou taxis ou ubers ou qualquer outra forma que consigam usar para chegarem a seus destinos. Ouço um grupo de amigos conversando alto, bebendo, dando risada, até que um deles joga uma garrafa de vidro contra a parede e ri sozinho. O barulho incomoda os outros que o repreendem, ele pede desculpas e todos seguem seu caminho.

     Sinto um conforto instantâneo...

    Fecho os olhos, tento dormir de novo, sem sucesso,

    (maldita insônia)

    rolo na cama por mais alguns minutos

    (ou serão horas?).

    Bom, melhor desistir, não conseguirei pegar no sono. Esse frio nos meus pés incomoda mais do que posso suportar. O cobertor é pequeno e entre cobrir os pés e a cabeça, ainda prefiro cobrir a cabeça. Tenho certeza de que essa coberta tem super poderes e irá me proteger de qualquer mal. Desde que esteja cobrindo essa parte de meu corpo.

    Abandono a ideia de pregar os olhos, mas não tem problema, quanto tempo deve faltar até a hora de acordar? Com certeza, logo os outros quartos da casa se abrirão, o trânsito da rua voltará, o comércio abrirá as portas, levantarei para meu trabalho e tudo estará bem, tudo tem que ficar bem. Não consigo impedir um risinho nervoso ao pensar isso.

    Descubro meu rosto...

    Melhor cobrir os pés antes que eu pegue um resfriado.

    Abro os olhos...

    Aos pés de minha cama vejo aquela criatura de vestido branco, rosto destroçado, com seus vermes passeando por ali, e sorriso diabólico. Não consigo mais me mexer, sinto uma onde de choque que começa em meu peito e se espalha por todo meu corpo, deixando-me gelado e sem forças para qualquer movimento. Acho que é o pavor tomando conta de meu corpo. A respiração fica rápida e superficial, um ataque de pânico? Não sei, eu só quero acordar.

    (ou não estarei mais sonhando?)

    Aquele vulto se aproxima, um pequeno passo de cada vez, sinto seus pés encostando no meu leito, parece um movimento simples e frágil, mas sinto a cama tremer, talvez esteja tão assustada quanto eu.

    O ser estica seu braço e sinto sua mão gélida em meu tornozelo direito, a sensação de seu toque aumenta o horror em mim. Sinto sua força esmagando meus ligamentos. Ela aperta bem devagar, sorrindo e olhando para mim, parece ser divertido.

    A dor é insuportável, mas não consigo gritar nem me mexer, consigo apenas sentir. Ela me puxa alguns centímetros em sua direção, o suficiente para metade de minha canela ficar para fora da cama.

    Desvio meu olhar daquele rosto maligno e observo meu pé que agora está solto, não existem mais ossos ligando-o até o resto de minha perna,  virou uma massa molenga presa a mim por alguns pedaços de pele.

    Sua outra mão sobe por minha perna deixando listras de sangue em minha pele, até encontra minha coxa, próximo a virilha. Ouço passos fora do quarto, uma tosse seca que me dá um pouco de esperança. Ela não se importa, suas unhas encravam em meu corpo. Em sua eximia habilidade de tortura, tomou cuidado para não encontrar nenhuma artéria, sim, ela quer que eu sofra, contudo, devo durar bastante. Ela deve se alimentar disso, ou do medo ou do sofrimento. Por fim encontra meu fêmur e o perfura com a facilidade de alguém que atravessa manteiga com uma faca quente.

    (por que não posso desmaiar de dor e apenas acabar com isso tudo?)

    Lágrimas escorrem pelo meu rosto, lágrimas de dor e desespero. Aquele sorriso infernal não desaparece, o que é mais perturbador, ela também não emite nenhum som, penso em tentar agredi-la para me defender, só que meus braços estão imóveis, recusam-se a me obedecer, não os sinto e não os movimento. Já ouvi falar dessa sensação de paralisia de sono, algumas pessoas podem até alucinar e não conseguem se mexer ou falar, talvez esteja apenas passando por isso

    (certo? Por favor!),

    olho para meus membros superiores, para ter certeza de que estão lá, estão.

    Ainda...

    A mulher observa a direção de meu olhar, agarra meu pulso esquerdo, sempre com aquele sorriso,

    (oh... aquele sorriso, existe algo mais apavorante?),

    sinto a pressão que ela faz, suas unhas encravam em meu pulso e o sangue morno escorre, consigo senti-lo bem, isso e o cheiro de ferro. A roupa de cama, azul claro, fica com uma mancha escura avermelhada

    (isso é real? É apenas outro sonho? Por que não consigo gritar? Por que não consigo mexer meu corpo?).

    Uma nova tosse, próxima à minha porta

    (Por favor, abra a porta! Estou implorando!)

    mas está trancada, mesmo que tentassem, deveriam derrubá-la. E por que o fariam? Todos pensam que estou dormindo e não ouviram nada de errado. Provavelmente é só alguém para uma mijada noturna

    (Eu não ligo! Arromba essa maldita porta!)

    minhas preces não são atendidas, a próxima tossida já está distante, seguida de uma porta se fechando e uma chave para trancá-la.

    O demônio aproveita seu tempo, sabe que ninguém vira, sabe que não posso fazer nada, meu corpo está em frangalhos e estou entregue, então seu rosto de aproxima do meu...

    Seu sorriso finalmente cessa, olha fixamente em meus olhos, aquilo é mais aterrorizante

    (por favor, traga de volta aquele sorriso),

    se ela se alimenta de medo, sou o banquete perfeito. Se ela se alimenta de sofrimento, não há muito mais o que sofrer. E, então, aquele sorriso retorna, seus lábios encontram meu pescoço e sinto as perfurações excruciantes. Meu sangue escorre em grande quantidade, desta vez ela não teve cuidado para me preservar.

    Agora estou em paz, fecho os olhos e o mundo se apaga.

    Sempre me disseram que ao morrer em um sonhos você acorda. Por que não acordei?

  • A mulher dos sonhos - parte 2

    1

    Era uma bela quinta feira, embora a chuva e o frio tenham castigado a maior parte da manhã. Gosto desse clima, ainda mais porque posso pagar um uber para casa e não preciso me molhar demais. Afinal, passei o dia inteiro, em minha sala, rodeado de incompetentes. Enfim, parece que tudo vai melhorar daqui para frente, sem preocupações na empresa. Amanhã é feriado, acho que vou passar o dia na piscina. Talvez ligue para Derek me buscar para bebermos algo antes de ir.

    Chego em casa depois das nove da noite, foi um dia pesado de trabalho, relatórios atrasados, prazos perdidos, auditoria no meu pé, prefiro não lembrar disso agora. Jantei uma lasanha congelada, sem paciência para cozinhar nada. Apenas fiz questão de me servir uma taça de vinho tinto e liguei a televisão. Passava “Os Simpsons”, aquele pessoal amarelo sempre me faz rir. Uma das melhores formas de se encerrar uma noite depois de um dia estressante.

    Depois disso, vou para meu banheiro, é pequeno mas agradável, o piso de azulejo preto dá um belo realce com as paredes brancas. A privada é preta, também, acho que dá um visual moderno, e fica ao lado do boxe com o chuveiro. Em frente a tudo isso está a pia que é de vidro transparente. As gavetas e armários são brancos e pretos, mas isso não importa, foi um arquiteto que projetou tudo, não perdi meu tempo com aquilo, apenas exigi a pia transparente com a mesa e tudo. Queria uma daquelas torneiras que acendem luz, só que meu orçamento da época era apertado e, com o passar do tempo, essa vontade diminuiu, embora não tenha sumido.

    Finalmente tiro o terno, jogo-o no chão do banheiro mesmo (semana que vem levo ao tintureiro, não me importo) e tomo uma ducha quente. Deve ter durado uns 40 minutos, precisava muito relaxar. Escovo os dentes, pego o terno do chão e o levo até a área de serviço para deixar em cima da máquina de lavar.

    Estou exausto, então é melhor dormir logo, checo se as portas estão trancadas, afinal, um apartamento pode ser seguro, mas “é melhor prevenir do que remediar”, já dizia meu avô. Entro em meu quarto, aquela cama é meu orgulho, uma king size com um cobertor preto de um lado e branco do outro, com pêlo de ovelha na lado branco e aveludado do outro. Tenho quatro travesseiros ali, mas três sempre acabam no chão. Penduro minha toalha e pego um moletom velho que sempre uso para dormir, é hora de fechar os olhos e encerrar o dia, finalmente. Boa noite a todos e não me esperem cedo amanhã.

    2

    Acordo e olho para o relógio e vejo que já são três da manhã. É uma madrugada fria e silenciosa, sem nenhuma alma na rua, tenho certeza de que é possível ouvir grilos. Essa é a vantagem de um bairro afastado e sem muitos vizinhos, o silêncio cai muito bem. Uma ou outra moto passam na rua, sempre tem um imbecil que estoura o escapamento, apenas para fazer barulho, de resto provavelmente são esses entregadores atendendo aos pedidos dos bêbados e drogados da madrugada, voltando de suas baladas ou o inferno que seja, bancados por papai e mamãe, provavelmente nem trabalham os filhos da puta.

    Maldita insônia!

    Tudo bem, não tem problema, amanhã é feriado e posso dormir até mais tarde, na pior das hipóteses, cancelo a piscina e apenas bebo algumas cervejas com Derek.

    Levanto de minha cama, o lado direito se mantém vazio há muito tempo, desde que Stephanie pegou suas coisas e foi embora, deve ter me achado insuportável, mas não sinto falta dela, do sexo todo dia sim (então por que ainda tenho a foto dela no nosso quarto? Digo, no MEU quarto).

    O laptop está desligado, não estou com paciência de ligar e a escrivaninha é longe da cama (dois passos é muito longe no meu estado), a sonolência me domina por completo (mesmo sem conseguir dormir), deixa a sensação de que o mundo ao meu redor se move mais devagar. Melhor ir para sala assistir alguma besteira até pegar no sono. O caminho é curto, apenas um pequeno corredor, de alguma maneira parece menor do que o trajeto até a escrivaninha (assuma que se ligar o laptop irá atrás de Stephanie).

    Sento na minha poltrona, estico meus pés e puxo uma pequena manta, que sempre mantenho no sofá (mesmo no verão podemos ter noites frias, certo?). A tv de 58 polegadas acoplada à parede é outro orgulho que comprei com meu dinheiro. Sem Stephanie aqui, agora é tudo meu nessa casa, apenas a tv a cabo que não é.

    Neste horário passam apenas reprises, nem o canal pornô está interessante. Porra, quero apenas pegar no sono. Mudando de canais acho a gravação de algum talk show. É a entrevista de um jogador de futebol qualquer que me arranca algumas risadas com algumas histórias bestas. Que vida fácil esses caras têm, ganham em dez anos mais do que ganharei em 5 vidas e mesmo assim sempre querem mais em seus contratos.

    Dou duas piscadas, bem demoradas. Passei o dia todo trabalhando naquela merda de empresa, só queria que meu chefe morresse, aquele gordo, careca, filho de uma puta, ou eu poderia comer a mulher dele, tenho certeza que metade da empresa já passou por ali. É...uma... bela... esposa... trofé....

    Na terceira piscada meus olhos não abrem.

    Fui dominado pelo cansaço, senti o relaxamento por todo o corpo, a sensação era boa demais, aquela manta que peguei no voo de volta de Paris era muito confortável e aconchegante. Esses pequenos cobertores de avião são sempre muito bons. Mas se vou dormir é melhor voltar para cama.

    Abro os olhos e vejo que as paredes sangram ao meu redor, o chão está coberto de carne decomposta, com vermes se mexendo e moscas voando, além de ossos quebrados espalhados por toda a parte. A cena me causa um frio no estômago, meus olhos estão arregalados, o coração pulsando acelerado e o frio domina meus músculos.

    Um pequeno vulto branco escorregou da janela para o além, mas era possível ver algo escrito no orvalho, “estou chegando...”. O horror daquela imagem me fez cair da cadeira, fecho os olhos com a dor do impacto. Quando os abro, o cômodo está intocado, não havia nem orvalho na janela. Devo ter sonhado e não me dei conta.

    (Deus, que sonho horrível.)

    Essa fresta na janela tira todo o ar quente da sala. Porcaria de brisa fria vai acabar com a minha saúde. Aos poucos vou me aproximando da janela, para fechá-la, ainda enrolado em minha manta. Quando o faço, reparo em um pequeno rastro, quase imperceptível, de suor formando a frase “estou chegando...”.

    Que porra é essa? Quem escreveu isso aí? Devo ter visto acordado e acabei sonhando, sim, faz sentido. Mas quem conseguiria escrever isso na janela do nono andar? Estico meu braço, com a manta, e esfrego ali até a frase sumir. Bosta, perdi o sono agora. Vou dar uma mijada.

    O alívio no banheiro é muito bom, deve ter saído uns dois litros de mim, como pode ser? Acho que não bebi dois litros de água o dia todo. É um bom ponto, preciso me hidratar mais, só que no frio é difícil. Não sinto tanta sede. Acho que é mais uma daquelas promessas, que farei no amanhã que nunca chega.

    Lavo as mãos com água quente, chega a sair fumaça da torneira, cara como eu amo essa pia transparente, olha ela toda embaçada. Foi muito cara, mas valeu cada centavo e ela ainda acende umas luzes psicodélicas.

    Fecho a torneira e enxugo a mão, é quando sinto uma sensação estranha no fundo da garganta, começou como uma tosse leve e, logo, parecia que um pequeno grão de arroz entrou no buraco errado. Continuo tossindo e a sensação não passa, tusso mais alto e mais forte. Tento escarrar o que está em minha garganta e vou perdendo o fôlego aos poucos, arranho minha garganta forte ao ponto de minhas unhas ficarem vermelhas.

    Caio no chão e bato minha cabeça na parede de azulejo, o barulho é oco, não me importo, forço todo o meu pulmão naquela maldita tosse e é quando finalmente sai, aquela coisinha branca...

    Isso é um dente?

    Passo a língua dentro de minha boca para ver se não tenho nenhum faltando. Não tenho. Como isso foi parar dentro de mim?

    Olho para a pia e na condensação no vidro está escrito “estou chegando...”.

    A crise de tosse me ataca de novo, e mais forte, sinto vontade de vomitar, foi quando as primeiras gotas de sangue saíram de minha boca. O pânico me domina

    (o que diabos está acontecendo comigo?),

    a tosse segue incessante e não consigo me levantar. Com esforço fico de joelhos sinto como se todo o meu estômago estivesse prestes a vir para fora. Faço uma concha com as duas mãos. Então, de minha boca saem inúmeros dentes, sangue e pedras de gelo.

    (Incrivelmente, o que mais me chocou foram as pedras de gelo.)

    Contudo, sinto-me melhor e consigo me levantar, aquilo que não escorreu por entre meus dedos, joguei na privada e dei descarga. Fui até a pia novamente, apaguei aquela mensagem, lavei as mãos e molhei o rosto.

    O que está acontecendo comigo? Será que ainda estou sonhando? Vou acordar na sala de novo?

    Foi então que olhei no espelho e, atrás de mim, através da porta, consegui um vislumbre do corredor e aquele mesmo vulto branco apareceu. Virei-me no susto.

    BLAM!

    A porta bateu.

    (Mas que porra foi essa?)

    Meu coração parou por um segundo, senti o forro da minha calça esquentar e umedecer. Em meu desespero agarrei a maçaneta, estava gelada, como nada que já havia sentido antes. Minha mão queimou e a retirei rapidamente, apenas para ver que um pedaço de pele que ficou para trás, naquele metal.

    Senti um ardor onde a pele se desprendeu, olhei para minha mão e vi a ponta do anelar escurecer, até a primeira dobra.

    Então começou a sensação de dor...

    A pior dor que já senti na vida...

    Aquela dor acompanhava o rastro negro e era excruciante. Se alastrava rapidamente e, em instantes, chegou na segunda dobra. Procurei alguma tesoura ou algo do tipo. Não achei nada que pudesse me ajudar.

    (Meu Deus não acredito que vou fazer isso.)

    Coloquei o anelar inteiro na boca, fechei os dentes em volta dele e apertei com força. Soltei um grito abafado, a dor aumentava. Em meu desespero comecei a abrir e fechar a boca mais rápido e mais forte, os gritos de horror consumiam minha alma e usavam todo o meu pulmão. A dor intensificava cada vez mais, foi quando senti um pequeno peso em minha língua e reparei no sangue morno escorrendo pelo meu queijo.

    As lágrimas escorriam e encontravam o catarro que saia de seu nariz. Cuspi aquele dedo preto no chão e vi o líquido nefasto sair dele. Não tive tempo de ir até a privada, não consegui nem me levantar, apenas vomitei no chão a minha frente. Foi quando apaguei.

    Ao recobrar a consciência, por um breve momento,  imaginei ter sonhado tudo aquilo. Foquei meus olhos e reconheci aquele maldito dedo preto no chão. O odor parecia pior do que todo o sofrimento que senti até então. Com cuidado peguei aquela membro macabro, joguei na privada e dei descarga. Foi quando fechei os olhos e não contive as lágrimas incessantes.

    O vidro do boxe estourou e me arremessou contra a parede. Bati meu rosto e vi o sangue escorrendo por meu olho direito. Senti diversos cortes e tive medo de olhar, para saber minha condição de fato. Tudo que queria era sair dali, nada mais. Nunca fiz coisa nenhuma para merecer isso. Retirei minha pantufa e bati com ela na maçaneta até a porta abrir. Fiquei com medo de mais dor.

    Cada passo era difícil, o rastro de sangue escorrendo de meus cortes e, principalmente, de meu dedo decepado, diziam para eu desistir. O esforço que fiz era tremendo, contudo, consegui chegar à porta do quarto, onde poderia pegar meu celular para ligar para alguém. Sei que ninguém usa o anelar como impressão digital para desbloqueio, mas o pensamento me fez cair sentado gargalhando. Acho que minha sanidade se esvaia.

    Fiquei de pé novamente e entrei no quarto, quando olhei para minha cama, vi diversas marcas de mãos em sangue ali, estavam espalhadas no cobertor, nas paredes, na escrivaninha, nas cortinas, no armário e todas tinham o anelar faltando.

    (Eu fiz isso? É impossível, acabei de sair da merda do banheiro.)

    Não precisei me preocupar em procurar o celular, ele estava no chão, todo despedaçado.

    Foi então que olhei para o teto e vi aquela mensagem escrita em sangue “ESTOU CHEGANDO...”

    Foda-se essa merda, eu vou embora daqui...

    A dor me consumia e mal conseguia andar. Consegui passar pelo corredor, a custo de muito empenho, e fui até a porta de saída de meu apartamento. Estiquei minha mão, com todas as minhas forças, e abaixei a maçaneta. Já conseguia sentir o ar frio da rua e um breve sorriso invadiu meu rosto.

    Quando puxei a porta, ela não veio.

    Claro, está trancada, eu chequei isso antes de dormir. Peguei a chave que deixo pendurada por ali. Minha mão tremia de desespero e pavor. Tive que usar as duas para enfiar aquela porcaria no buraco, mas consegui.

    Giro a chave e ouço o click da liberdade.

    Puxei a porta.

    É então que vejo...

    Ali parada...

    Aquela mulher de branco com seus dentes pontiagudos em um sorriso maléfico.

  • Acessando o vídeo: I like the stars

    Estava eu navegando a internet quando decidi acessar o youtube. Eu sou brasileiro, mas adoro o conteúdo americano. De repente, na pagina inicial do youtube, estava vídeo especial dizendo: i LIKE THE STAR. Eu cliquei no link, curioso e eufórico. O video carregou e o que tinha nele era: (musiquinha infantil e um homem cantando) I like the stars,i like the stars i`am happy, yes, verry happy. In the sky, in the sky there are sixty tree stars isso durou 6 minutos até que acabou com uma estrela cadente
  • Adeus, amigo!

    Quando um amigo de infância se vai, fica um vazio, mas também um sorriso: feliz por ter te conhecido!
  • Afrodite

    Sensualíssima

    Tecido e corpo

    Quero sentir o sabor

    Que o seu tecido esconde.


    Poema do meu primeiro livro de poesias, Átomo, lançado em dezembro de 2018, com prefácio de Rafael Cortez e apresentação de Thomas Pescarini e disponível em formato físico e ebook na Amazon.
  • Alvorecer

     Naquela noite em meio ao meu ser desprovido de qualquer sono, retirei-me de meus aposentos e fui em direção ao verde gramado em meu quintal. O céu estrelado parecia não se importar com a presença de alguém indesejado lhe observando daquela maneira tola e desprovida de qualquer motivação além do puro tédio de um mero cotidiano mórbido.
     A Lua devorava a imensidão em plena noite, e a aurora formada diante de meus olhos era capaz de cativar qualquer outro observador que ali estivesse. Mas algo não parecia certo; um estrondo longínquo chegou em meus ouvidos e despertou a atenção de meus olhos que já estavam direcionados para o que viria a seguir. Três estrelas se alinharam de forma vertical logo após o estrondo ter cessado. As estrelas das extremidades se apagaram em conjunto e a intermediária começou a crescer em tamanho e luminosidade.
    Minhas pálpebras não conseguiam se fechar diante daquela cena única. A estrela estava vindo em direção ao planeta Terra... não, não... em direção a mim...
     Um fogo azulado cercou totalmente a luz outrora branca; estava entrando em órbita. Meus olhos se fecharam involuntariamente por um milésimo de segundo, tempo este, suficiente para que a luz duplicasse de tamanho. Com o dilatar de minhas pupilas que estavam diante de tal cena incompreensível, a grande luz se apagou e junto dela meus olhos se fecharam. Meu pavor teve início quando meus olhos se abriram e perceberam... aquilo não era uma estrela...

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