person_outline



search

curto

  • Geração 20's : Não queremos acabar com tudo.

    Uma geração estranha de desasjustados. Os 20,ou 20 e tantos (que há uma margem entre si e uma diferenciação, mas que posta numa escala menor, estão, tanto os 20, quanto os 20 e tantos iguais a uma barata tonta após jatos fortes de SBP de eucalipto) não sabem como proceder, como agir, não param em um emprego sequer. A cada dia, mais amigos me contam que largaram a faculdade, ou que foram demitidos, ou que pediram demissão depois de tanto tempo na empresa, ''cansei, não dá'' ou ''ah amigo, está muito caro.'' e os que trabalham dizem, ''todo dia eu quero me matar'' ou ''diz que um terremoto desmoronou o shopping'' e aqueles felizes com seus trabalhos são Dj's ou fotógrafos e mesmo assim não ganham bem, ou são ricos, pois os ricos sempre estão felizes, se não passa na faculdade um intercâmbio resolve o problema, ou até mesmo uma analista bem cara e bem paga, por que na verdade a única coisa que queremos é estar bem com nós mesmos. 
    Estamos ferrando com tudo por muito pouco, pouca bebida (até mesmo bebidas bem baratas), pouco sexo, poucas drogas e pouco foco no que de fato importa. Conheço pessoas nos 20's que sabem exatamente o que querem e fazem exatamente o que é preciso para conseguir, sem erros, sem falhas, um dia de cada vez, do jeito que tem que ser. Pensando aqui só duas; o resto mais cedo ou mais tarde faz uma cagada específica que ferra com tudo. 
      Nos 20 já desistiram de nós. Já devíamos ter aprendido, já devíamos ter feito aquilo. Na verdade, estamos cansados demais dormindo até ao 12:00, pois na noite anterior juramos pela nossas vidas que 23:30 era o limite para estar na cama; e as 2:30 se dá conta que iniciou o segundo filme, a segunda pipoca ou brigadeiro, e não tem problema, eu acordo cedo assim mesmo para ir trabalhar, eu aguento, um geração de zumbi. Gosto de pôr a culpa na TV, a nossa geração na infância está acostumada a ficar deitada a manhã inteira vendo todos os desenhos possíveis, e nossa Mães (inclusive a minha) secretamente gostavam daquilo, ''pelo menos não está fazendo besteira'' elas pensavam. Na minha casa era um momento religioso, sou o mais novo de 3 meninas e um Poodle, assistir Tv consistia num intervalo de nossas brigas e latidos constantes. Neste cenário, os 20's jamais vai crescer e ter o interesse de pegar no batente as 6:00, ou sentir-se feliz e realizado num emprego de 9:00 ás 18:00 em um escritório que nem a luz do sol é vista; os 20 enfrentam sua primeira crise e divergência e o mundo não tem espaço para crises de identidade, ou depressão, ou ansiedade, apenas o trabalha que cura qualquer enfermidade.
     Um solução? De fato não tenho nenhuma; talvez a culpa seja toda nossa mesmo, ou talvez não. Talvez seja um processo de adaptação á vida adulta; ou muito provavelmente virá um moço com o mapa com as regras e atalhos. O que piora são as expectativas, esperam que sejamos um tipo muito especifico de ser; pacato, mais ou menos; e isso é exatamente a ultima coisa que os 20 que ser. Não queremos pouco, não queremos até o limite, nós queremos intensidade, verdade, paixão, acordar e pensar que tudo vale a pena, queremos viver numa castelo mesmo que seja num camping em ilha grande ou num kitnete no centro da cidade. Até queremos um bom emprego, mas que tenha horários flexíveis, que forme sua equipe de acordo com o mapa astral dos funcionários, uma empresa que entenda o ciclo menstrual feminino e que dê carona em dias de chuva, que leve em consideração a febre do filho de seu funcionário, e que o chame de sócio e não de empregado. Queremos arriscar tudo por uma chance de ser feliz, botar tudo a perder sem garantia nenhuma; entendemos que nossa passagem aqui é breve e que de fato a maior felicidade é viver.
  • "Senta aqui, vamos tomar um café"

    Senta aqui, vamos tomar um café?! Jogar conversa fora? Rir pra caramba, quem sabe chorar em algum momento. Senta aqui, vamos falar sobre nós! Como você está? Seus planos? Suas conquistas... Conta mais.

    Senta aqui, vamos matar a saudade de nós, vamos aproveitar um tempinho livre pra descansar a cabeça, o corpo! Senta aqui, vamos falar sobre sonhos, até mesmo daqueles mais cabulosos, quase impossíveis! Senta aqui, vamos olhar dentro do olho, ver como estão brilhando. Senta aqui, me deixa ver como você está bem, como você está feliz!

    Quero sentir seu abraço por alguns instantes. Ouvir sua voz, sua risada. Senta aqui, deixa eu te contar como eu estou como me sinto. Senta aqui, quero te contar uma ideia maluca que tive. Senta aqui, lembra aquela viagem que eu queria fazer, deu certo! Senta aqui, me ajuda a fazer uma lista de prioridades! 

    Preciso ir... Obrigada pela companhia, pelo café, pelo abraço, pela voz doce e suave, pelos conselhos impagáveis, pela companhia maravilhosa, pelas gargalhadas que demos, pelas bobagens que falamos e pela saudade que matamos!
  • [Conto] - Escolha

    Então eu contei 1,2,3… suspirei. E sai dali. Passei por aquela porta. Definitivamente eu nunca mais voltaria àquele lugar. Nunca. Difícil descrever o que senti, uma espécie de raiva com uma mistura de desabafo e alívio. Por incrível que seja, eu chorei. Sim, chorei! Mas, dessa vez foi de alegria, êxtase, prazer. Liberdade. Realmente me vi liberta. Aquilo tudo me sufocava, aos poucos, lentamente, cada vez mais. Eu o amava, porém já não gostava mais dele.  Não dava mais.  

    Eu iria seguir a minha vida, os meus sonhos. Não mais o teria me impedindo de ir em busca das minhas conquistas. Sempre de um modo sutil, ele enfiava na minha boca um “você não pode me deixar. precisa de mim. não suporta nada sem mim. eu estou aqui por você, para te proteger e nada mais importa desde que fiquemos juntos”, literalmente enfiava garganta abaixo, já que eu o ouvia tanto dizer aquilo que acabava por internalizar e reproduzir a mim mesma a velha frase. Como se fosse um mantra. A mesma cena se repetia todas as vezes que lhe contava os meus planos. Não mais ouviria um “não vai. fica comigo, você pode deixar isso para depois. não vai conseguir sozinha” me fazendo sentir-se tão tola só de pensar em deixá-lo, afinal, ele me amava. Realmente uma tola. Fui tola em colocá-lo acima das minhas vontades. 

    É sobretudo cortante, sei que ele gosta de mim absurdamente. Sinto isso. Acredito que justamente por saber disso que sempre acatei cada frase. Pela mesma razão eu sentia culpa, afinal, como eu poderia planejar algo que ele não estivesse incluso, fazendo uma escolha só minha sobre mim? Eu me sentia má, pois ele fazia parecer que o meu gostar era ínfimo perto do dele,  sempre dizendo que largaria qualquer coisa por mim e para estar comigo, pois a minha companhia já o bastava e não teria nada mais a conquistar ou desejar. Confesso, me assustava, como poderia fazer de mim um mundo?

    No entanto, ele não percebia que aos poucos ele não desejava estar comigo, mas me ter; e isso são coisas bem distintas. Com o decorrer do tempo, ele se importava até mesmo quando as músicas que eu ouvia, os meus posts e até mesmo com os meus textos não falavam dele, mas apenas de mim; segundo ele, eu não “demonstrava” estar com ele. Outro dia, eu apaguei uma foto minha que havia postado logo após ter enviado para ele, pois, segundo ele, eu com isso eu jogava fora o fato da “foto ter sido tirada especialmente para ele e mais ninguém”.  

    Sim, ele queria estar comigo. Mas, ele possuía medo de me perder. Acredito que por tal razão insistia para que eu demonstrasse de forma visual estar com ele; isso significava incluí-lo em tudo. Pela mesma razão, me afastava dos meus sonhos… tinha pavor quando eu dizia que gostaria de morar em Arraial do Cabo, pois ele disse que jamais abandonaria São Paulo; ficava triste quando contava com vontade sobre a graduação, segundo ele, eu encontraria pessoas mais interessantes, a minha cabeça ficaria cheia e eu o abandonaria. Nunca era o momento para eu desejar ou pensar em fazer algo, a menos que ele estivesse incluído e fosse da vontade dele. 

    Como um cara pode tentar te afastar dos seus sonhos, das suas conquistas, da sua independência, só para estar ao seu lado?! E ainda tentar justificar esse absurdo com o esdrúxulo argumento de que é por “amor”? Via meus sonhos sempre adiados, afinal, eu ainda queria estar com ele, queria tanto ter os dois. Tudo o que mais desejava era poder pensar num futuro em que eu conquistasse o mundo e ele estivesse ali, comigo, me apoiando. 

    Ele me pedia tanto, chegava  a chorar implorando, se declarava e depois surgia outro velho argumento “vamos aproveitar o agora, você pode fazer isso depois”, eu questionava, discutiamos. Mas, ao final, a culpa sempre era do “amor”. Estava insustentável, não suportava mais o duelo entre o amor e os meu desejos. 
    Se enquanto eu apenas cogitava as coisas, sendo os meus desejos ainda abstratos e, por isso, distantes, ele agia dessa forma…. Sempre tive receio em pensar no depois… Sempre me questionei como ele iria reagir quando eu fizesse definitivamente algo, quando abandonasse a inércia e corresse atrás de seja lá o que fosse que me desse vontade. 

    Poxa, em nenhum momento ele disse “eu vou com você!”. Não! Não, não. Ele não disse! Nunca! Apenas me impedia, me desviava. Pois é, eu era fraca. Era.

    Apesar dessa situação horrível, ainda assim, tivemos momentos incríveis, com o seu lado que amava. Foi duro. Eu o deixei e talvez tenha “perdido” um cara que realmente me “amou”. No entanto, foi para o meu próprio bem e até mesmo para o dele. Poxa, eu não sou o céu de ninguém. Acredito que foi melhor assim. Quando olhar para trás, quero lembrar dele como uma bela melodia que acaba sem mais nem menos, enquanto ainda ouvimos os primórdios da melancolia ela chega ao seu fim e ficamos com a sensação de que haveria um depois. Prefiro uma melodia “interrompida” do que a ouvi-la por inteiro e ser destruída pela melancolia. 

    Liberdade. Agora terei liberdade para viajar, estudar… planejar como tocar a minha vida.  Farei tudo sem ressentimentos.

    Foi incrível a variedade de pensamentos - altos e baixos -, bem como o turbilhão de emoções que permeavam o meu corpo naquele momento, naqueles microsegundos em que peguei a maçaneta e simplesmente sai por aquela porta. Jamais esquecerei os meus 20 segundos de euforia ao fechá-la.

    Eu morava há cerca de 4 quarteirões dali, enquanto caminhava, chorei e saltitei agradecida a mim mesma. Confesso que Isso durou pouco. Até a hora que entrei casa. Meu irmão mais velho estava na sala com a  namorada, enquanto o caçula montava um quebra cabeça. Meus pais não estavam. Aquela calmaria me mostrou que poderia subir as escadas, ir direto para o meu quarto e permanecer o resto do dia ali, sozinha. Não haveriam perguntas ou sequer indagações em relação ao que houve. Ao menos, não agora. Tudo que eu precisava era ouvir um indie e pensar no que havia acabado de fazer. Isso, “acabado”, essa é a palavra. 

    Aos meus 17 anos eu o amava demais, além da conta. Jovem e uma vida inteira para fazer tudo o que me desse vontade, acertar e errar, desfazer e me refazer; mas nada atrapalhava tanto quanto esse “amor”. No momento, concluindo o colegial, os meus estudos eram prioridade, sempre foram, porém, infelizmente, o meu relacionamento estava atrapalhando, não somente, mas também, até mesmo os meus pequenos objetivos. Me vi obrigada a escolher entre ficar ao lado dele e jamais sentir-se realizada ou seguir o meu caminho e deixar para trás um cara incrível. Neste instante, a primeira coisa que me vem à mente é “Brooklyn Baby” da Lana Del Ray. 

    Eu o deixei. Afinal, diferente dele, eu o amava o suficiente a ponto de deixá-lo, ao invés de enganar não só a ele, mas a mim, estando infeliz ao seu lado. 

    Naquela noite eu desmoronei ouvindo todo o álbum de “Cigarettes After Sex”, não era tão fácil dizer adeus como pareceu naquela tarde. Tudo estava acabado. Mas, eu ainda tinha esperança, afinal, eu não iria embora para sempre. Voltaria depois da faculdade… se fosse amor, iria prevalecer, independente de tempo. E foi ao som de “Flower Face - Angela” que tive certeza de como o amava intensamente e ainda mais certeza da minha decisão. Não havia o que temer. A “saudade” iria passar, “solidão” sequer entrava no contexto - jamais estivera só - e “arrependimento” não condizia em nada.  

    Não. Realmente não o teria deixado se não tivesse tido um empurrão. Jamais havia pensado em fazer algo assim, boba, incapaz de escolher. Ganhar a bolsa de estudos foi o estopim. A minha família ainda nem sabia. Óbvio, em hipótese alguma cogitaria não ir. Eu precisava resolver uma coisa. Foi naquele mesmo dia, mais cedo, assim que acordei, chequei meus emails e recebi a notícia que mudaria a minha vida, a porta para os meus sonhos. 

    Fala sério, eu estava surtando. Após tanto esforço, eu havia conseguido! Eu sabia a grandiosidade do que significava essa aprovação. Eu estava em êxtase. Era a minha oportunidade e jamais abriria mão. Mal esperava a hora do jantar, estava ansiosa para ver a reação dos meus pais, ainda que já sabia o que esperar. 

    Mas, e o Jhon? O primeiro a receber a notícia seria ele.

    Não pensei duas vezes. Escovei os dentes, lavei o rosto, fiz um coque, vesti o “uniforme de sempre” jeans, all-star e a velha camisa de algodão, desci as escadas cambaleando enquanto comia uma pêra e corri para a casa dele. 

     Apesar de reconhecer que estava indo terminar a nossa história, não imaginava que ele não ficaria feliz com a minha conquista, que a desprezaria. Tudo bem que ele sabia o significado daquilo, porém, era o meu sonho e ele não foi capaz de ficar feliz por mim. Isso me magoou e me motivou  a seguir com aquilo, me dando ainda mais convicção no discurso de adeus. Não entendia a sua forma de amar. Foi isso que me motivou a não olhar para trás ao fechar a porta. 

    O dia havia começado com surpresas e emoções demais. Naquela noite, ouvindo “The Saxophones - If You're On The Water”, tudo o que mais desejava era que ele passasse, depressa.  

    Janaina Couto ©
    Publicado em 2020
  • [PESQUISAR}

    Como-escrever-coisas-felizes-depois-de-muito-tempo-escrevendo-coisas-tristes-?
    O segredo era deixar as palvras virem e vômitar tudo em uma folha em braco. Dar cor. Mas e se eu precisar da cor azul e amarela, se eu só consigo fazer preto e roxo? E se eu engoli tanta cor fria que eu nao consigo mais sentir cores vivas e quentes? Se nas minhas mãos tem tantos calos pós trabalho árduo, como faço para voltar a ser delicado?
    Como é se sentir leve e delicado? Lembra de quando eu era porcelana limpa? Eu era leve? era suave? Me conta mais. Me traz de volta naquela época, por favor. Me deixa fingir, me deixa rodopiar leve, solto, descoordenado. Me deixa cair e rachar, me deixa poder quebrar de novo. Me deixa voltar...
    Tentativa 1:
    É domingo. Estou em um parque com cachorros correndo de um lado para o outro. Meus olhos estão fechado pois o maior prazer é sentir o sol e o cheiro de grama cortada. Quando reabro os olhos, vejo à minha volta algumas pessoas. Não são estranhos, mas tem rostos estranhos. Eu sindo em cada um uma grande preocupação e carinho. Seus olhos estão voltados para mim e os meus para eles. Eu sinto o calor e sinto o cheiro do chá que bebemos. Eu ouço o violão tocando musicas de alguma banda de MPB enquanto todos cantam juntos. Eu vejo comida sob uma toalha de pic nic. Eu vejo sorrisos e risadas. Nesse mesmo dia, mas deitado na cama mais tarde. Eu fecho novamente meus olhos e me sinto ainda no sol, ainda sentido cheiro de grama cortada, ainda sentindo aquele calor. Eu sei que essa memória, que agora ja faz parte da coleção de lembranças boas, vai me ajudar sempre que preciso.
    AAH EU NÃO CONSIGO.
    Tentativa 2:
    É quinta e eu já cheguei do trabalho. Vou correndo para o quarto e organizo pensando em cada detalhe. Troco a roupa de cama e acendo um insenso. Fico sentado no chão, com as costas escoradas na cama e o silencio se fixa até que o cheiro de insenso passe. Me levanto e vou tomar banho, eu relaxo. Agora de pijama, com as meias por cima da calça e uma pantufa de pata monstrusa, eu vou até a cozinha e faço minha janta. Coloco uma musica animada e preparo panquecas. Infelizmente, quando terminei a ultima panceca, já tinha comido todas as outras sem recheio mesmo. Olho para o recheio e para o prato de panquecas vazio. Coloco tudo no pão e como com satisfação.
    Deito na cama e ela está gelada. Com cheiro de amaciante. Olho as horas no celular e conecto ao carregador. Retiro da cabeceira o meu livro favorito, (insira aqui o nome do seu livro favorito) e leio até cair no sono, acordando com o livro caindo na minha cara. Logo após, cambaleando, eu guardo o livro e apago a luz. Descanso.
    É, acho que essa ficou melhor.
    Tentativa 3:
    Talvez seja melhor viver e depois escrever. Será que minha lembranças boas que posto no papel soam falsas porque são falsas?
  • [Poema] - Odiar

    Odeio o jeito como me olha quando diz que estou errada
    Odeio quando se faz de sonso
    Odeio o fato de sempre tentar me agradar
    Odeio o seu sorriso bobo quando diz que te desconcentro 
    Odeio o teu timbre ao dizer que ainda não amo você
    Odeio quando finge que não existo
    Odeio os dias que não está comigo
    Odeio as manhãs sem ouvir o teu riso
    Odeio as madrugadas sem sincronizar meu respiro com o teu
    Odeio, sobretudo, a fulminante distância


    Janaina Couto ©
    [Publicado - 2020]

  • [Poema] - Reinar

    Mostrei meu mundo a você
    havia um reino a ser ocupado
    apesar de ser encantador
    você fugiu.
    Teve medo?

    Quis conhecer mundos lá fora,
    eu soube.
    Agora
    sem mais nem menos
    ressurge querendo asilo.
    Sei que não se trata apenas disso
    quer ocupar o trono
    “jamais deveria ter deixado”

    No entanto, 
    o reino está preenchido. 
    Eu sou a rainha.
    Álias
    não preciso,
    nunca precisei
    de alguém para completar o meu mundo.

    Eu posso ser
    eu sou
    inteira sozinha.

    A felicidade no meu reino
    no meu mundo
    nunca esteve
    nas mão de alguém
    que não eu mesma.

    O sustento 
    pertence e depende
    apenas de mim.

    Olha, velho amigo
    eu posso até lhe fornecer abrigo
    mas, você jamais será rei.


    Janaina Couto ©
    [Publicado - 2019]
  • A Colecionável

    Ela estava voltando da faculdade. Infelizmente tinha que andar aqueles duzentos metros à pé, no escuro, para chegar em casa. Sentiu um toque suave no ombro direito e antes que pudesse virar, uma mão enluvada pressionou um pano úmido e fétido sobre seu nariz. Por alguns instantes ela tentou lutar, mas uma letargia avassaladora tomou conta. Sentiu ser colocada em um pequeno espaço acarpetado, e uma porta de metal sendo fechada com violência. E então, foi só escuridão.

    Acordou tempos depois sobre uma cama macia e cheirosa. Parecia que tinha dormido por séculos, mas ainda sentia o corpo cansado e dolorido. Bastante confusa levantou-se e observou o lugar. Onde estava? Um quarto amplo, cuidadosamente decorado com papel de parede rosa, móveis de qualidade, tudo novinho. Uma estante com centenas de livros, escrivaninha para desenho, frigobar, um bar cheio de garrafas de suas bebidas favoritas e finalmente um closet enorme com mais roupas e sapatos do que ela jamais sonhou em ter. Estava deslumbrada com tudo, mas não pôde deixar de lembrar que havia sido sequestrada.

    Em sua exploração pelo quarto recheado de surpresas ela nem reparou na porta. Foi só quando a euforia arrefeceu que ela pensou que talvez não fosse uma prisioneira. Experimentou a maçaneta e surpresa: a porta abriu. Do outro lado havia um pequeno cômodo, com uma mesa de centro e mais nada. Na outra extremidade outra porta, e essa sim estava trancada. A moça experimentou um sentimento estranho, pois concluiu que estava, de fato, encarcerada. Sobre a mesa ela notou um envelope do qual tirou uma carta que dizia o seguinte: "Minha princesa. Meu grande amor. Sinto como se nos conhecêssemos desde o princípio dos tempos. Vivo e respiro a cada segundo por você. Tenho a esperança de que se sentirá em casa no quarto que preparei especialmente para você com todo o carinho do mundo! Tudo que quiser será seu, basta escrever e deixar o pedido sobre a mesa nesta sala. Com amor... seu admirador secreto".

    Estava sob o domínio de um louco que a conhecia nos mínimos detalhes, sabia de seus desejos e podia até antecipar suas necessidades. Os dias se passaram, as semanas e depois os meses. Ela já não sabia quanto tempo estava ali, mas sabia com absoluta certeza de que seu captor a amava mais do que podia compreender, pois tudo ali realmente satisfazia suas mais profundas vontades. Nunca em sua humilde vida ela poderia ter tais roupas, nunca poderia comprar os perfumes e jamais comeria iguarias tão deliciosas enquanto estivesse por si só. Mas mesmo assim, ela não passava de uma prisioneira.

    Ao longo dos anos ela aceitou o conforto, aceitou que tinha tudo que poderia querer e por isso não precisava querer o que não tinha. A vida se encaixou, não da forma que ela tinha planejado, mas se encaixou. Cabia a ela agradecer e continuar existindo, linda, plena e boazinha para que a vida que tinha conquistado pudesse continuar a ser do jeitinho  que sempre sonharam para ela.
  • A ideia comprometida

    Moscas tem a percepção de tempo diferente da dos humanos. Essa frase é algo que eu escutei muito quando era criança e sempre duvidei. Pra mim isso não fazia o menor sentido, o tempo é algo absoluto que todos estão vivenciando simultaneamente. Eventualmente, quando eu estava um pouco mais velho e tinha mais acesso à informações, eu acabei encontrando a explicação para isso, aparentemente tinha algo a ver com os olhos das moscas processarem as imagens mais rapidamente, especificamente 250 flashes por segundo, enquanto nós, humanos , processamos a apenas 60 flashes por segundo. Isso me deixou fascinado, e talvez até mesmo obcecado, fazendo com que eu começasse a ter diversas ideias de como isso teria impacto se fosse controlado pelas pessoas, que tipo de benefício seria capaz de ser obtido através dessa tecnologia, se algum dia ela fosse possível. Com isso eu comecei minha carreira de estudos para chegar onde estou hoje, eu me esforcei muito, sempre mantendo minhas ideias e teorias em dia, até conseguir me tornar o que você pode chamar casualmente de cientista, para não ter que entrar em detalhes.
    Hoje em dia eu faço de tudo para conseguir tornar essa tecnologia viável, mas obviamente também trabalhando normalmente, pois ninguém vive apenas de ideias.
    Atualmente com 32 anos, eu sou casado e sem filhos. Durante toda minha carreira poucos amigos continuaram ao meu lado.
    Hoje, 26 de março de 2027, é apenas mais um dia comum de trabalho. Eu acordo ao lado de minha esposa, Emma, e vou tomar banho. Saindo do banheiro ela já está acordada fazendo o café da manhã, que a gente come assistindo TV.
    No jornal da manhã está passando uma notícia sobre a primeira inteligência artificial a conseguir manter conversas fluídas e originais, sem influências externas, apenas uma semente que germinou e vem se alimentando sozinha de informações pela internet. Vendo isso, Emma comenta:
    -Daqui a pouco não vai mais existir diferença entre humanos e robôs.
    -Realmente, esse tipo de tecnologia deveria ser desenvolvida periculosamente, e não simplesmente jogando toda informação do mundo em cima dela. Isso realmente é perigoso
    Com isso, eu acabo de comer, me arrumo, e saio para trabalhar.
    Meu dia passa rapidamente, nada de interessante acontece na minha rotina de trabalho, apenas o de sempre.
    Novamente em casa, eu janto com Emma e vou para cama ler antes de dormir. O livro se trata de um suspense sci-fi, como qualquer outro clássico jogo de gato e rato, é apenas uma história de perseguição. Durante a leitura algo me chama a atenção, o protagonista, para ajudar em sua busca, recorre ao uso de diversas câmeras que, segundo ele, tem a mesma a capacidade de um olho humano e uma perspectiva de um olho de mosca. Isso me dá algumas ideias, que eu apenas anoto pois está tarde e eu não conseguiria as desenvolver com sono.
    Hoje eu acordei ansioso para rever as ideias e tentar tirar algo delas, mas como meu trabalho existe, isso acaba ficando pra mais tarde.
    Durante o café da manha eu conto para Emma sobre essas ideias e ela diz:
    -Quem sabe você consegue finalmente criar essa tal tecnologia que você fala tanto sobre.
    -Ah eu espero que sim, estou com isso na cabeça desde criança.
    E então eu saio novamente para trabalhar.
    Finalmente em casa, eu vou direto pegar meu caderno de anotações onde eu escrevi minhas ideias.
    A principal, a qual eu considero mais plausível, era a de que, já que a causa dessa diferença era a visão, eu vou simplesmente recriar os olhos de uma mosca. Por mais caro que isso pareça, se eu conseguir discorrer essa ideia publicamente de uma boa forma, eu vou conseguir os certos investidores. Pensando mais a fundo eu chego a conclusão de quem seria o investidor. Por mais que eu recriasse os olhos, pela perspectiva humana, tudo continuaria na mesma velocidade, então o objeto teria que ter inteligência própria, obviamente controlada por nós, para poder usufruir de sua “habilidade temporal”.
    Depois de dias criando um texto para ir a público, eu finalmente o divulgo. E a empresa perfeita vem fazer contato. A mesma empresa que havia criado a inteligência artificial que eu tinha visto outra manhã.
    A ideia do objeto precisar de uma inteligência própria foi o que, obviamente, iscou a empresa. Eu sabia que tudo aquilo era simplesmente por dinheiro, mas não tinha problema, eu só quero ter meu sonho realizado.
    Depois de ser contatado, eu fui chamado para a sede oficial deles, para poder se aprofundar mais sobre o assunto e, quem sabe, chegar em algum contrato. E é exatamente isso que acontece, eles disseram que iam fundar meu projeto, elogiando a ideia, que, por mais obvia que fosse, ninguém nunca tinha pensado dela.
    Nesse dia eu chego em casa e comemoro com minha esposa.
    Passam-se anos, eu largo meu emprego pra poder me esforçar ao máximo no projeto, e finalmente, nós chegamos ao primeiro protótipo. Por mais que eu tivesse tido ajuda da empresa, a maioria da parte técnica foi desenvolvida por mim. E quando eu vi aquela pequena criaturinha de metal levantando voo, com sua própria inteligência, e conseguindo desviar de tudo que se aproximava dela, como uma mosca real, eu chorei. Finalmente meu sonho estava realizado, pode parecer bobo, um sonho que aparece aleatoriamente e se prende a minha cabeça, e agora eu estou chorando por causa dele, mas finalmente aconteceu.
    -Isso é um passo enorme para a humanidade - disse o CEO da empresa
    -Realmente, mas qual será o uso dela - eu respondi, mesmo depois de todo esse tempo trabalhando nisso, eu nunca pensei sobre seu uso, eu só queria a tornar possível, e eu sabia que existia uma ideia de aplicação, já que ninguém investiria em algo tão pesadamente sem ter planos na cabeça.
    -Primeiramente segurança, obviamente, já que com isso nós temos uma pequena câmera indestrutível e, logo menos, camuflada. Ela pode ser usada para infiltrações ou coisas do gênero.
    -Não é uma má ideia - eu digo
    -Mas isso não é tudo, depois que essa fase de segurança passar, nós avançaremos para a próxima.
    -E qual seria essa fase, senhor.
    -Militar, oras, não está obvio? Com ela nós podemos criar uma grande vantagem de combate em relação a outros países. Imagine ter um espião praticamente invisível nas forças inimigas. É algo que seria impensável se não fosse por você. Bom trabalho.
    -Mas eu não criei essa tecnologia para machucar os outros, era apenas para realizar um sonho.
    -E agora ele já está realizado. O resto está em nossas mãos, e quando o governo ficar sabendo disso, ele vai pagar uma grana preta para nossa empresa, e então estará tudo nas mãos deles. No fim todos nós lucramos e nosso país se tornar uma potência ainda maior, não tem perda nesse plano.
    -Eu não acredito nisso.
    -Não precisa acreditar, o pagamento pela sua parte já foi depositado em sua conta, agora saia daqui antes que eu me arrependa de te pagar, pessoas que me contrariam me estressam.
    E então, com meu sonho realizado e sem nenhuma opção de poder continuar lá, eu saio daquela empresa e nunca mais volto. Eu fico sabendo sobre seus futuros projetos, de como eles conseguiram chegar a um produto final, sem ter de continuar usando protótipos, mesmo sem minha ajuda.
    Depois de muitos anos finalmente acontece o prometido, é anunciado na TV a compra dessa tecnologia pelo governo, que sem mais nem menos anunciou que o uso seria militar.
    Tudo que eu tenho pra fazer agora é ficar em casa vendo minha tecnologia sendo usada da maneira errada, sem poder reclamar, e pensando em como nem todo sonho tem seu final feliz quando é cumprido.
  • Acessando o vídeo: I like the stars

    Estava eu navegando a internet quando decidi acessar o youtube. Eu sou brasileiro, mas adoro o conteúdo americano. De repente, na pagina inicial do youtube, estava vídeo especial dizendo: i LIKE THE STAR. Eu cliquei no link, curioso e eufórico. O video carregou e o que tinha nele era: (musiquinha infantil e um homem cantando) I like the stars,i like the stars i`am happy, yes, verry happy. In the sky, in the sky there are sixty tree stars isso durou 6 minutos até que acabou com uma estrela cadente
  • Afrodite

    Sensualíssima

    Tecido e corpo

    Quero sentir o sabor

    Que o seu tecido esconde.


    Poema do meu primeiro livro de poesias, Átomo, lançado em dezembro de 2018, com prefácio de Rafael Cortez e apresentação de Thomas Pescarini e disponível em formato físico e ebook na Amazon.
  • AGORA

    Jamais seria capaz de imaginar como se daria isso aqui. O agora. Nos seus exatos termos. É surreal demais. Tem instantes que demoro a acreditar… olho para mim mesma e digo, baixinho, num sussurro “eu ansiei tanto"... momento que torno as estações passadas e, quase sem querer, realizo uma comparação drástica, percebo o contraste. E constato que, pela primeira, a realidade conseguiu ser imensuravelmente mais do que a imensidão que outrotra fantasiei. 
    Cada dia me vejo ainda mais surpreendida. 

    É incrível tudo o que me proporciona sentir. 

    Sou, sobretudo, grata. 
    Reconheço que gosta do meu eu, nu e cru. Adoro isso, como sou sempre eu mesma, de verdade, sem filtros. Não faz ideia de como gosto do mim quando estou com você. Já que não tenho receio de mostrar quem realmente sou, não vejo barreiras e instante algum cogito não fazer o que tenho vontade por receio de como vai me perceber. 
    Não há julgamentos.Também não os temo.
    Me deixa a todo instante incrivelmente confortável, sinto-me divinamente bem em mostrar todas as versões de mim mesma. 
    Ah, ainda há tantas que não viu. Aliás, será um imenso prazer te mostrar.  

    Sabe o que me impressiona? O que me cativa ainda mais? 
    Que não idealiza o meu eu, não me quer como uma versão pirata de mim mesma. Deseja o meu eu, nu. Conhece aos poucos cada uma das minhas versões, enxerga os acertos e os erros e, ainda assim, permanece.

    Não se é preciso dizer nada, sem proferir nenhuma palavra, já me mostra o suficiente, esse detalhe significa o universo e o mundo…
    E isso é somente uma das coisas que me fazem admirar o agora. 

    Obrigada. 
    Obrigada, por tudo que me proporciona sentir. 
    Obriga, pelo nosso "agora". 


    Janaina Couto ©
    [Publicado - 2020]
  • Alvorecer

     Naquela noite em meio ao meu ser desprovido de qualquer sono, retirei-me de meus aposentos e fui em direção ao verde gramado em meu quintal. O céu estrelado parecia não se importar com a presença de alguém indesejado lhe observando daquela maneira tola e desprovida de qualquer motivação além do puro tédio de um mero cotidiano mórbido.
     A Lua devorava a imensidão em plena noite, e a aurora formada diante de meus olhos era capaz de cativar qualquer outro observador que ali estivesse. Mas algo não parecia certo; um estrondo longínquo chegou em meus ouvidos e despertou a atenção de meus olhos que já estavam direcionados para o que viria a seguir. Três estrelas se alinharam de forma vertical logo após o estrondo ter cessado. As estrelas das extremidades se apagaram em conjunto e a intermediária começou a crescer em tamanho e luminosidade.
    Minhas pálpebras não conseguiam se fechar diante daquela cena única. A estrela estava vindo em direção ao planeta Terra... não, não... em direção a mim...
     Um fogo azulado cercou totalmente a luz outrora branca; estava entrando em órbita. Meus olhos se fecharam involuntariamente por um milésimo de segundo, tempo este, suficiente para que a luz duplicasse de tamanho. Com o dilatar de minhas pupilas que estavam diante de tal cena incompreensível, a grande luz se apagou e junto dela meus olhos se fecharam. Meu pavor teve início quando meus olhos se abriram e perceberam... aquilo não era uma estrela...
  • Amarelo

    A maré
    Amarelo
    Do Sol.


    Poema do meu primeiro livro de poesias, Átomo, lançado em dezembro de 2018, com prefácio de Rafael Cortez e apresentação de Thomas Pescarini e disponível em formato físico e ebook na Amazon.
  • Ame-se

    Quer um conselho?
    Ame-se! Perdoe-se! Permita-se!
    Evite comparações, você não precisa ser melhor que ninguém para ser bom.
    Seja a melhor versão de você. Seja hoje melhor do que foi ontem, não precisa ser nada grandioso. Pode ser um pequeno gesto ou um grande ato, o importante é que você procure evoluir sempre.
    Faça por você o que os outros não fazem. Não abandone a você mesmo. Não negue-se respeito, amor ou cuidado.
    Ninguém melhor do que você mesmo sabe o que passou.
    Ninguém melhor que você sabe o quanto doeu.
    Ninguém sentiu o que você sentiu.
    Ninguém sabe o peso que você carrega/carregou nos ombros.
    Ninguém sabe a força que você fez pra levantar ou o tamanho da angustia que te impedia de pegar no sono.
    Ninguém pode saber ao certo. Ninguém está/estava na sua pele.
    Então ninguém melhor do que você sabe da sua força pra suportar, pra levantar e pra seguir.
    Ninguém melhor do que você pra se admirar, pra saber do que é capaz. Ninguém pode conhecer você melhor que você mesmo.
    Ninguém melhor do que você conhece seus limites.
    Ninguém vai fazer tão bem se te amar quanto você pode fazer se amar a se mesmo.
    É importante ser amado? Sim, claro.
    Mas mais importante é amar-se.
    Confie e ama-se porque ninguém te conhece como você mesmo.

    Você é uma pessoa incrível!
  • Amor Bipolar

    De todos os sentimentos do mundo, o amor é o mais traiçoeiro.
    Ele te pega quando menos se espera e suga o melhor que você tem e entrega a alguém .
    Ele acaba, e quando isso acontece você vira um ponto insignificante na Terra.
    É como um papel amassado jogado no chão, como um copo de vidro que caiu, você fica quebrado e você é inutil.
    E então quando você se recupera, ele faz o ciclo tudo de novo.
    De todos os sentimentos do mundo, o amor é mais lindo.
    Ele te resgata do nada, e faz você virar uma pessoa diferente, ele te transforma .
    Sabe o universo? ele é pouco para 2 corações apaixonados, seus pensamentos giram em torno daquela pessoa.
    E então quando da certo o sonho se transforma em realidade.
    O amor sabe tudo: seus atos, pensamentos, sonhos, desejos.
    Um coração apaixonado faz loucuras e você apenas não consegue guarda isso dentro de você.
    Você quer expressar de alguma forma, com um sorriso, abraço, um beijo, um poema, uma musica, uma declaração, tudo isso é amor .
    Acho que o amor é meio bipolar, ele quer ser os dois lados.
    Qual lado do amor esta reservado pra nós?
  • Antecedente da cicatrização

    Como quando a orelha inflama porque o brinco estava um pouco sujo; ou quando colamos o curativo adesivo que fixa na pele de modo a puxar todos os pelos na hora de sair.
    Mesmo sabendo que no fim iria doer, provoquei. Botei o brinco pra inflamar, colei o curativo pra fazer doer. Queria viver aquilo, nem se fosse por míseros segundos, minutos, horas, dias. Nem sei mais quanto tempo passei imersa naquela banheira de espumas.
    Corria cada vez mais só pra vê-la. Queria era socorro, socorro da própria situação. Socorro de mim mesma. Mas por mais rápido que eu o fizesse, não a alcançava. Dormia sem conseguir descansar. Não sabia como evitar, como não sentir. Era, humanamente, impossível fechar o peito para aquela que, outrora, me visitava com flores e com pele macia a me acariciar.
    Deitada sobre seu peito sentia que a perdia. Procurava sua mão. Meus dedos se entrelaçavam nos dela, mas os dela no meu. Ficava ali parada até o momento em que escorria pelo meu corpo. Indo embora sem dizer adeus.
    Enquanto eu souber que a ferida não será fechada por completo, vou levando. Empurrando com o resto de forças que sobrara do restante da minha alma, que jorrava água escura, afim de fugir do precipício que eu mesma criara.
  • Aquilo Que Somos

    Como um anjo a cair
    Como um monstro a destruir
    Você me abraça
    Um abraço falso
    Falso como as palavras que falamos antes de dormir
    Você conseguiu dormir?

    Como um corvo a se alimentar
    Como um rato a nos enojar
    Você me abraça
    Um abraço fraco
    Fraco como o café desta manhã
    Você o tomou?

    Enquanto fingimos esta relação
    O mundo continuará a dar voltas
    E nós ficamos,
    Por longos anos ficamos,
    Sorrindo de cada desastre
    Chorando sempre que a sós
    Por que isso somos nós.
  • As Férias Da Sua Vida

    A duas semanas das férias, depois de um ano duro, Rob deveria estar animado. A verdade é que não sabia o que fazer nem das férias, nem da vida. Passava pela fase mais difícil: perdeu a noiva, estava cheio de dívidas e odiava seu trabalho. Naquela noite viu um anúncio na internet prometendo as "férias da sua vida". Orçamento sem compromisso, não custaria verificar.
    Srta. Sylvia o recebeu explicando que sua empresa oferecia um novo tipo de férias. Nada de aeroporto, malas e tempo perdido planejando transporte ou passeios. Se ele quisesse, no dia marcado suas férias começariam na cidade onde morava. Rob gostou, achou o preço salgado, mas perto da dívida que já tinha que mal faria?
    Escolheu a promoção "pague dez dias e ganhe quinze", era o pacote com retorno. Assim que passou o cartão, Srta. Sylvia o desafiou a colocar para fora seus maiores sonhos. O céu era o limite.
    Um carro foi buscá-lo em casa e no caminho foram passando os detalhes da nova vida. Conforme seus desejos seria um desenhista de sucesso, teria uma esposa loura e atlética e saldo em conta com sete dígitos.
    A primeira semana foi maravilhosa. Sua rotina era acordar para um café majestoso, saía de sua cobertura para o escritório luxuoso e lá desenhava. Na parede haviam ilustrações suas em molduras valiosíssimas e isso enchia-o de orgulho. À noite voltava para casa, jantava com sua linda esposa e fazia amor até a exaustão. Antes de dormir chorava baixinho lembrando que essa vida não passaria de quinze dias.
    Uma rotina se estabeleceu e pelo sexto dia, apesar de exultante, Rob começou a sentir que trabalhava demais. Passava dezoito horas no escritório. Sua assessora, uma morena estonteante, surgia frequentemente com papéis para assinar e decisões para serem tomadas. Tantas horas juntos e acabaram tendo um caso. Rob aproveitava cada oportunidade.
    No décimo dia o estresse era grande, pois tudo era tomar decisões, tanto no escritório quanto em casa. Chegou na cobertura exausto, precisando descansar, mas foi recebido com um copo que quase o atingiu na cabeça. Sua esposa descobriu a traição e enlouqueceu. Passaram a noite discutindo e Rob saiu cedo, sem dormir, para o escritório. Não conseguiu acertar a senha da porta e ligou para sua assessora. Ela friamente deu a notícia de que estava acabado. Assinou papéis demais e toda a empresa havia sido transferida à morena. Preocupado olhou o saldo da conta e seu coração quase explodiu: negativo. Precisou dormir em um beco, aquecido nos fundos de uma pizzaria. Dia seguinte enfrentou os advogados da ex. Depois teve que depor à polícia sobre sonegação de impostos. Acabou preso por fraude.
    Na décima quinta noite foi dormir pensando na vida de antes. Sentia saudades do apartamento fedido e até das dívidas que certamente pagaria. Dia seguinte acordou com Srta. Sylvia pronta para soltá-lo. Ao perguntar o que ele achou de tudo, Rob respondeu com um sorriso: "foram as melhores férias da minha vida". E mal via a hora das próximas.
  • AUSÊNCIA

    Me surpreende que mesmo há muito tempo sem te ver, falar, fitar sentir, tocar, encara ou simplesmente lhe escrever… não houve sequer um dia em que eu não tenha pensado em ti. É absurdamente estranho. Você distante, me magoando, não só por isso; mas também, por não fazer questão, como quem já não mais se lembra, sem me chamar - sabendo onde e como me encontrar -, saindo com nossos colegas, mantendo contato e saindo com todos os meus amigos sem sequer pronunciar o meu nome. Não sei se fico feliz por você aparentemente ter superado e seguido em frente ou incrivelmente decepcionada por perceber que não marquei o quanto imaginava, na mesma intensidade que as estações contigo marcou a mim. Adoraria conseguir lidar muito bem com as idas e vindas, chegadas e partidas, mas não é do meu eu. Desmorono. 

    E mesmo na ausência, você se faz tão presente… é na rotina do meu dia, na pausa para o café, na caminhada até a faculdade, é durante o meu banho, até na insônia da calma noite chuvosa… não precisa de muito, basta o soar de uma música para eu memorar um instante, ouvir uma frase sutil e julgá-la tipicamente sua, o notar de um perfume e percebê-lo familiar, é simplesmente tornar um lugar e desejar insanamente o teu toque, o teu corpo, a sua fala mansa, ansiar temerosamente estar novamente no envolto do teu abraço e ser preenchida pelo teu cheiro. Sim, a sua presença é leve. 

    Confesso, nos primeiros dias estava a ponto de delirar. Ouvia o seu nome, relia nossas mensagens de texto, procurei todas as nossas fotos; lógico, escrevi muito na tentativa de exteriorizar e arrancar de mim o peso da sua ausência e até usei todas as suas camisas que ainda estavam no meu armário. Passei em claro todas as madrugadas quentes de agosto pensando em nós, em você, em tudo que aconteceu e que poderia ter acontecido - martirizando-me sobre o eterno “e se”. Em cada instante sozinha, eu pensava na dura transição do “nós” para o “ eu e você”. 

    Eu ainda penso em nós. É, sobretudo, nas frias madrugadas tempestuosas, ao ser acordada pelos estrondos dos trovões, ao perceber o quarto iluminado não só pelo clarão da lua que atravessa a imensa janela, mas também dos raios luminosos que invadem e espantam a escuridão - você sabe, eu detesto raios por temê-los -; instante que me sinto pequena, frágil e extremamente vulnerável… lembro o quanto você me julgava boba e infantil por isso, mas ainda assim, me abraçava fortemente e não me soltava… não faz ideia do quanto eu me via protegida, naquele instante, ouvindo sua respiração, o meu mundo estava concentrado em você, mesmo que não estivesse vazia, uma felicidade insana me preenchia ao me dar conta de que você sempre estaria ali, comigo e eu por você. 

    No entanto, é especialmente nas noites de sexta que o meu corpo pulsa e anseia pelo seu toque. O desejo de ter você, por inteiro, não somente no meu corpo, bem como na minha alma, como também o desejo de uma vida ao seu lado, de modo que meros instantes não são o suficiente. Me arrepio ao escrever isso. Sim eu sei, disse para ti inúmeras vezes “que a nossa coisa perdure, enquanto sentido fizer”, ela ainda fazia sentido para mim, em partes; jamais irei esquecer a imensidão que o tempo contigo me proporcionou, sobretudo, me fez ser alguém melhor, mudou minha visão sobre algumas coisas, me ensinou muito e  acabou agregando uma oitava cor ao arco-íris que chamo de vida… até a ruptura. 

    Ainda enquanto estávamos juntos, ao deitar na cama cansada à procura do sono, imaginava um futuro incrível, deduzindo infindas possibilidades, criando e reinventando as cenas mais distintas… com apenas uma coisa em comum, você em todas elas. Vez ou outra me pego fazendo a mesma coisa, não largo essa velha mania, madrugada que coloco os meus fones na fútil tentativa de me dissociar do teu eu. Não é incomum, busco me castigar afirmando para mim mesma que você não merece tomar todo esse tempo de mim, digo realmente, alto e em bom tom, com convicção - pois preciso que digam com seriedade já que sou teimosa -, corro para o espelho e reproduzo mais duas ou três vezes a mesma oração. 

    Mas, não adianta, não importa o quanto eu queira, tenho raiva de você por arrancar todo esse tempo de mim, tempo que eu gasto pensando em nós, escorre; e tenho ainda mais raiva de mim por atrelar a culpa a você de uma coisa que está em mim. Quem sabe, talvez com o correr do tempo, eu me acomode a sua ausência até não mais percebê-la; e se isso for verdade, que o tempo sana tudo, Deus, como eu quero que ele passe.  

    Porém, acima de tudo, isso não é a parte difícil, o duro é assumir que, apesar de tudo, eu sinto falta de alguém que, ao final, me magoou. Jamais irei me perdoar por uma coisa dessas. Como se habitassem duas pessoas em você, o cara pelo qual, talvez, me apaixonei e o cara que me fez ir embora, não faz ideia do quanto sinto a presença da ausência desse primeiro. Não sou tola, recordo com clareza todas as suas condutas que me magoaram, desde ações à omissões, coisas que falou, coisas que você não fez… foram tantas. Sim, penso “ele não me merece, nunca mereceu”. Mas, instantaneamente, recordo das partes gostosas, dos instantes que fui surpreendida, que, aliás,  superam de longe as demais coisas - que se fazem diante dessa comparação tão bobas - e me remetem à minha criação do seu “primeiro eu”; portanto, acabo me sentindo uma mentirosa. 

    É assim, sempre dessa mesma forma, que novamente aquele desejo me consome, uma chama azul, um fogo me domina de tanto que queimo em intensidade na ânsia de ter-te comigo… me contorço e o meu corpo estremece na abstinência do teu toque, desejando o teu amor, desejando com todas as minhas forças a ponto de te fazer pensar em mim, a ponto de sentir você pensando em mim, até que tudo se desfecha em brasa. Delírio.Chame do que quiser, loucura, insanidade, seja qual for o adjetivo, não conseguirá definir. Eu nunca imaginei que chegaria a esse nível. Qual o sentido disso? Me levará a o que? Será que é tudo isso em vão? Acredito que não, quero acreditar que não, acreditar que não foi e não é tempo perdido, não quero reconhecer que estou alimentando o que já morreu. Isso não é simplesmente paixão… 

    Me corta as suas ações, pois elas me dizem que fui para ti apenas um capítulo. Enquanto eu fiz e faço de você o meu melhor livro, aquele favorito, que jamais canso de ler e reler. Eu gostaria de ter razões suficientes para acreditar que seu intuito é justamente tentar demonstrar isso, mas, que no fundo diverge da realidade. Realmente me corta, pois eu ainda te desejo. O meu íntimo, ainda que não insista em acreditar que estávamos “destinados a ficar juntos” (não sei qual  termo usar para definir), ele espera, com força, que você enxergue o quanto é gostoso quando estamos juntos, ao menos, para mim foi. Não, eu não estou dizendo que quero ser tudo para você; mas, a pessoa a quem não trocaria por nada. Nos proporcionamos um amor puro, percebi assim. Serei eternamente agradecida por essa dádiva. Sobretudo, eu gostei imensuravelmente da nossa coisa. Adoro o vínculo que construímos e é cortante vê-lo se diluindo. Talvez, eu não seja o grande amor da sua vida ou você da minha, o destino é uma álea, aliás, nem sei se existe isso de “o eterno amor” ou sequer “o grande amor da vida de alguém”, mas, saiba, que o nosso foi - ainda é - o amor mais intenso que vivi. 

    E, por falar em destino, infelizmente, você será a minha eterna saudade, quem sabe a eterna quedinha, talvez o eterno desejo. Não sei. Mas, tenho certeza de que faz e fará parte das minhas melhores recordações.  Jamais esquecerei a grandiosidade do que me permiti sentir, com você. Sequer cogitarei intitular como fase, paixão ou ilusão tudo o que pulsa aqui. Agora, já não faço ideia da sua percepção sobre o nosso enredo, espero que seja um tanto parecida com a minha. 
    Me fará sorrir se, eventualmente, de alguma forma, eu souber que pensa em mim com carinho, que te atingi de um jeito bonito. Soa tão simples quando diante do que eu acreditei causar.  E é um imenso contraste se comparado ao que me causou. Seria um prazer se lembrasse de mim como a garota pelo qual foi apaixonado, a amiga pela qual teve carinho, a mulher que te causou imenso desejo, a menina… que te proporcionou conhecer um sentimento que queima de tão intenso, quem incendiou a sua vida amorosa, sobretudo, quem realmente lhe despertou o amor. 

    Não se é preciso ser perfeito para ser alguém incrível. 

    Vez ou outra me pego pensando se, depois da ruptura, houve uma madrugada sequer em que você tenha me desejado. Me desejado de alma; como por um lapso temporal já desejou, já demonstrou, já gostou. Sentiu.  Desejo mesmo, sabe? Que só em me olhar te consumia, sendo preenchido por uma vontade insana e intensa, como uma fúria interior, um querer que corrói, uma imensidão latente implorando para me ter ao seu lado por toda a vida… Não faz ideia do quanto eu amava imensuravelmente esses instantes. 

    Será que, por um momento, uma mísera vez, se questionou se ama ou amou?

    As suas palavras, escritas, cuspiram na minha cara que não. E, ainda assim, demoro a acreditar. Contradizem tudo o que vivi. 


    “Olha, desculpa. 
    Me desculpa por cada vez que te deixei triste, por cada momento que te decepcionei. 
    E, principalmente, por às vezes parecer um idiota com você.
    A real é que essa coisa é grandiosa e eu não sei lidar. 
    Eu não levo nada a sério na minha vida, muito menos ela própria.
    E, sobretudo, não sei sequer um dedinho do que é sentir algo por alguém. 
    Por isso, mudo repentinamente, sem mais nem menos, fico diferente do nada, meu estado de espírito me controla naturalmente e eu esqueço que as pessoas tem sentimentos e que preciso respeitá - los
    Eu quero me afastar de você. Não por mal, mas por que não te faz bem ficar comigo. 
    E eu não sou bosta nenhuma e não tenho nada pra te oferecer de bom. 
    Por fim, agora, ainda que compartilhamos a mesma lua, estamos muito longe um do outro.
    É isso.
    Ps. Sou grato pelo tempo que esteve comigo. Foi puro. “


    Não faz ideia do alvoroço sentimental que as suas palavras frias me causaram. Juro, ri ao terminar de ler, um riso sem alegria, aquilo era o cúmulo do absurdo. “Você sabe, não sou a pessoa que insiste na presença de quem já não quer ficar. Perde o sentido”. Depois de tudo o que você vomitou, pensei o infinito e o mundo e não dirigi a ti mais nenhuma palavra. 

    Ainda que eu diga para mim mesma, com veracidade, em alto e em bom tom, que eu simplesmente me acostumei com a sua presença, me sinto uma mentirosa, tentando envenenar o meu pensamento na fútil tentativa de sanar o meu sentir. Nunca imaginei que seria doloroso e difícil assumir, bater no peito e falar, mesmo que somente para mim, que eu amo você. 

    Isso é tão irônico, não é? Eu aqui, em devaneios por sentir o peso da sua ausência, enquanto ti sequer depois daquele dia, da ruptura, me ligou...


    Janaina Couto ©
    [Publicado - 2020]
  • Broto de Bambu

    velha na janela 1



    R. B. Santos / Dezembro,2016.

    Revisão: Luísa Aranha
    Agradecimentos Especiais: “SSEV” – Sociedade Secreta dos Escritores Vivos (Obrigado Camila Deus Dará).



     
    Para ela: “Que dividiu um pão em cinco, fazendo parecer, que eram dez. Por mais de uma vez. Obrigado Mãe”!




    BROTO DE BAMBU

     
     
    O bairro era bem simples, desses de periferia em cidade grande. Onde gente conversa tão alto, que até parece briga. Cachorro late de noite e de dia. Neste, até galo tinha. A rua onde se passa a história não era nada comum, em formação de “S”, com calçadas estreitas, um lugar pobre. No final, logo depois da segunda curva, não bastasse o que faltava de bom, havia ainda uma “boca de fumo”. O vai e vem era constante.

    Num sobrado, mais ou menos no meio da rua, morava Dona Raimunda. Havia duas janelas que davam para a parte da frente. Com isso conseguia uma visão privilegiada de boa parte do local, e também, dos vizinhos e transeuntes.  Era uma senhora já de idade, devia ter mais ou menos uns sessenta para setenta anos, ninguém sabia ao certo. Adorava ficar espiando e conferindo a rotina das pessoas. Gostava tanto, que ás vezes passava da hora de almoçar. Sua filha reclamava, mas ela não ligava. Acordava bem cedo, passava o café, em coador de pano para dar mais sabor, comia dois pedaços graúdos de mandioca cozida, que a manteiga derretia, e se debruçava no seu local predileto. Sua boa e velha janela, “melhor que televisão”, pensava ela.

    “Lá vem ele! É o Sr. José! E pelo jeito, bêbado de novo, logo cedo. Trançando as pernas, mas não cai o desgraçado. Podia cair! Dizem que sorrir faz bem para as rugas, e eu bem que estou precisando. Velho sem vergonha. Nessa idade. Também, a de se entender, não é. Com tanta galha que a mulher colocou na cabeça do homem, não se admira que ele beba. Talvez para esquecer, ou para enlouquecer mesmo”.  Não poupava críticas, ela era assim sem piedade. E continuava enquanto um rapaz caminhava descendo a rua.
    “Agora é o outro. O maloqueiro do Luis Castân. Nem morar aqui mora. Pensa que eu não sei. Vai buscar maconha o safado. E deve até cobrar por isso. Não é possível alguém fumar tanto assim e não morrer. Pela quantidade de vezes que ele sobe e desce, quem sabe não abriu uma concorrência e cobra mais caro. Só pode ser isso. Não vejo outra explicação! É traficante, é sim”.

     O jovem passou em frente da casa, fez menção com a cabeça em cumprimento e seguiu rua abaixo. Dona Raimunda limpou os óculos no vestido, para melhorar a visão, e olhava agora para a parte de cima da rua.

    “A Sofia nunca mais vai arrumar marido. Depois que inventou de trabalhar fora e fazer faculdade, as brigas com o cônjuge só aumentaram. Brigaram, brigaram tanto, que ele não aguentou e foi embora. Não demorou um mês e a franga já está com outro. Veja que falta de vergonha, os dois num agarro só em frente ao portão. Aposto que já eram amantes”.
    Do outro lado da rua, numa casa térrea e com uma grande área murada na frente, Ivete abria o portão para o amigo Carlos que acabara de chegar. Como o muro era baixo, ficaram ali, apoiados. Papeando e vendo o movimento. Podiam ver a Dona Raimunda dali, mas com certeza, ela não conseguiria ouvi-los. Havia certa distância entre as casas, e a anciã já não escutava muito bem. Ivete, em voz baixa, foi a primeira falar.

    - Veja só, Carlos. Mal amanhece o dia, e lá está ela. A velha coroca. Cuidando da vida de todos. É assim durante o dia todo, não sai da janela por nada.

    - É mesmo Ivete, eu já tinha prestado atenção. Tem gente que não tem o que fazer. Acho que deve ter a vida vazia. – Fez uma breve pausa. - Sabe se a filha ainda mora com ela?

    - Sei lá! Acho que sim. Eu não gosto de ficar reparando na vida de ninguém, tenho mais o que fazer, sabe. A minha já é bastante interessante para mim.  – E com o olhar cerrado na direção da janela, disparou. -Velha rabugenta!

    - Quando essa daí morrer a alma dela vai voltar e ficar nesta janela. Deus me livre! – Observou Carlos.

    Duas semanas depois, coincidência ou não, Dona Raimunda faleceu. Os dois amigos se reencontraram e conversavam no local de sempre, sobre o ocorrido.

    - Ivete! Sabe dizer o que aconteceu com a velha? Do que foi mesmo que ela morreu? – Perguntou enquanto olhava para a janela, agora vazia.

    - Bem, ouvi dizer que foi derrame. Eu não fui ao velório e nem ao enterro. Nunca tive intimidade com a família. E também, não gostava nem um pouco da bruxa. Mas pelos comentários, acho que foi isso sim.

    - Bom... que Deus a tenha. Pelo menos agora a rua ficará mais tranquila. Que coisa! Fazer o que, não é? É o destino de todos nós. – Colocou uma das mãos na cabeça e arrematou. - Ah!... E antes que eu morra também, vou indo... lembrei que tenho que resolver uma coisa.

    Quando Carlos saiu e já ia longe, Ivete ficou por ali, observava do muro.

    “Esse Carlos... sei não, hein. Não trabalha, não estuda e nem namora o infeliz! Resolver uma coisa uma ova! Pensa que eu não sei, vai é dar o rabo para o Ricardo. Tenho quase certeza de que esses dois são dois maricas. ” – Esticou o pescoço para ver melhor.
    “Ei! Espera um pouco aí! Quem é aquele?!... É o Senhor José?!... Nossa! E bêbado...  De novo...”






    --xx--

    Mais sobre o autor:
    http://caminhantesdasletras.blogspot.com.br/





  • Buquê de cadáveres

    Pra não dizer que não falei das flores
    Cortei todas hoje do meu jardim

    Rosas, tulipas, orquídeas
    Gérberas, cravos e jasmins

    Cortei o mal pela raiz
    E com os dentes, ainda
    Quão orgulhoso estou de mim
    Jardineiro masoquista

    Pois quem sofre sou eu
    Com as pétalas perdidas
    As quais recolho uma a uma
    Pra tornar as lápides floridas

    Auspiciosa homenagem no jardim
    Pra não dizer que não me despedi das flores.
  • Café, Rotina e um Pouco de Horror

    Essa sempre foi minha rotina no final da tarde: chegava do trabalho muito cansada, sem coragem até mesmo para usar as chaves e abrir a porta, deixar o café esquentar na cafeteira, enquanto jogava minhas roupas por todo lado da casa e procurava por algum filme na Netflix.
    Filmes de terror nunca me assustaram, mas ver pessoas tomando sustos e entrar em desespero me garantia boas gargalhadas antes de cair no sono. Hoje algo diferente e assustador aconteceu.
    Assim que cheguei e seguia rigidamente minha rotina, na cozinha aconteceu algo que para mim não passava de um acidente doméstico causado por algum descuido. Afinal, é comum que uma pessoa cansada coloque sua cafeteira na beirada da mesa de cozinha e ele caia com o chacoalhar da água fervendo. Pois bem, a cafeteira caiu, tomei um susto, mas ignorei e nem mesmo levantei para limpar o chão, apenas voltei para a TV, mas quando olhei, ela estava na página do YouTube e na caixa de pesquisa, tinha palavras como: demônio, rituais e suicídios. O que me deixou confusa foi o fato de que eu não lembro de abrir o YouTube. Enquanto tentava lembrar em que momento eu havia entrado naquela aba, algo ainda mais estranho aconteceu. Senti um frio na minha nuca, na verdade era como se alguém estivesse soprando em linha reta nas minhas costas, assustada, imediatamente virei sem saber o que procurar, pois estava sozinha e neste mesmo instante sentir um dedo subir por minhas pernas, a parti dos joelhos, em direção a minha virilha.
    Aquilo já era demais, eu tentei não acreditar, queria não acreditar. Corri em direção as minhas roupas espalhadas pela casa e tentei vesti-las o mais rápido possível. Ainda sem terminar de me vestir, com a intenção de sair, dei alguns passos até a poltrona onde deixei o controle da TV e o peguei, mas quando pressionei o botão de desligar, a TV nem mesmo piscava. Aproximei-me para desliga-la manualmente e ainda assim ela permanecia ligada, mas a angustia tomou total controle quando puxei o cabo de energia e ela não desligou, aquilo fez meu mundo desmoronar, não era possível.
    O frio aumentou e eu já podia sentir meus dentes tremer, e não sabia se era de frio ou medo. Olhei ao meu redor e tudo que passava por minha cabeça eram as palavras; suicídio e demônio. Corri até a porta, não queria passar nem mesmo mais um segundo ali dentro, mas antes de sair fui desligar a luz, a luz também não desligava, mesmo clicando várias vezes com muita raiva e isso pareceu dar mais força para tudo aquilo, pois o controle foi arremessado na parede, espalhando-se em alguns pedaços no chão. Senti minha pele umedecer em lágrimas, estava entrando em pânico. Pânico ainda não é suficiente para descrever o meu estado emocional naquele momento e foi por consequência que decidi fazer a única coisa que podia me tirar daquele pesadelo. Peguei garfo todo metálico e fui até a primeira tomada de energia e empurrei-o, eu esperava que fosse instantâneo, nada aconteceu, achei que estivesse fazendo errado e continuei tentando, mas quando percebi que nada aconteceria, eu dei um grito estridente e chorei ainda mais. Ajoelhada e sem esperanças coloquei as mãos nos ouvidos para não ouvir as batidas das gavetas de talheres que havia acabado de começar junto com uma almofada que foi arremessada em direção a janela, não pensei duas vezes quando a segui e pulei para fora da janela.
    Tudo ficou escuro por alguns segundos, seguido por um clarão. Eu estava acordada. Estava confusa. Peguei o controle da TV onde passava o vídeo de um homem com máscara de coelho e parecia contar uma história sobre demônios, quase me distraí, mas quando finalmente pressionei o botão, rapidamente ela desligou. Fui até a cozinha e a cafeteira estava inteira em cima da mesa e o café nem estava fervendo ainda. Mas eu continuava com muito frio!
  • Cão Morto

    Muito morto, tanto quanto pode ser. Sim. E mais: Contente.
    Senti uma bofetada no rosto. Ele não, estava morto. Um morto não se assusta com um vivo, muito menos aquele desvivido, bravo. Negaram, abandonaram, maltrataram e por fim, mataram-no. E mesmo assim, permanecia como um monumento anônimo numa rua perdida de uma Curitiba estranha. Olhos escancarados em desafio inconveniente à vida que lhe foi tão custosa, a língua para fora estancando um sorriso macabro.
    Voltando ao golpe. Fui pego de surpresa, mas é redundante, golpes são assim. Eu que, arrogantemente, andava em plena vida nesse mundo de imortais, me virei, dei de cara com a morte. E ela me esbofeteou. Justo. Sem aviso ou mensagem, interrompi sua peça póstuma em ousadia digna de gente. Como quem não quer nada adentrei em sua morada e chutei o trabalho de sua, ironicamente, vida.
    Mas foi ela (a vida) quem primeiro me bateu, a fragrância de milhões e milhões de seres vivos lutando uma batalha infinda pelos restos do cão, excretando compostos dos mais variados e malcheirosos. Desculpa, menti, afinal a vida e a morte são a mesma donzela, e seu tapa era igual. E ele ria, em deboche. Ele? Sim, o cão.
    Porque, fruto do desprezo de milhares de pessoas estava ali, morto mas nunca tão cheio de vida, contra a vontade de todos que empinaram o nariz a ele. Havia vencido. Pela ação de milhões de decompositores cada pedaço de matéria em sua carcaça renasceria, era imortal e isso lhe dava certo contentamento a morte e a vida que teve.
    Um dia, pensei eu afagando o rosto moralmente doído, ele será gente, e empinará o nariz para aqueles que um dia lhe foram irmãos no abandono. Ai eu entendi. Tempos atrás, havia sido cão e, algum dia, amaldiçoei essa raça esnobe e estranha que me negava. Ironicamente, em uso do ciclo interminável da matéria, eu renasci gente e tive a chance também de negar meu passado oculto. Devo tê-la tomado, não lembro, o que torna o pecado ainda pior.
    Ele ria entre moscas e tive pena, por fim. Meu rosto já esfriava, o dele era o próximo. As mil próximas vidas lhe custariam muito mais que essa, ele ria, morto, contente, inocente.
  • Carmas

    As faces do homem moderno
    Estão desintegrando
    Há um além indizível
    A terra nos segura
    É importante tê-la, pra depois, merecidamente, não mais
    Mais uma lição.
    Poema do meu primeiro livro de poesias, Átomo, lançado em dezembro de 2018, com prefácio de Rafael Cortez e apresentação de Thomas Pescarini e disponível em formato físico e ebook na Amazon.
  • Carta de volta ao remetente

    Seus beijos me fazem querer ficar, eles são quentes e me perco nos seus lábios enquanto percorre minhas costas com suas mãos. Então abro os olhos com nossos rostos ainda ligados e vejo sua expressão sorridente enquanto beija. Sinto também o seu cheiro, ele me satisfaz da maneira mais refinada possível. Você se afasta e eu observo cada um de seus perfeitos detalhes. Não sei se já disse, mas amo a maneira como seus olhos têm o formato desenhado pelas maçãs do seu rosto. Vejo que elas estão rosadas e quero voltar a esse momento outra vez. "Por favor, não vá", eu digo querendo fique mais, pelo menos abraçada a mim.
    Chego em casa, ainda sinto seu cheiro, quero guardá-lo até nos vermos novamente. Estou totalmente submergido no que sinto por você, um sentimento para o qual não tenho nome.
    Ouço você dizer sobre suas noites, como se diverte. Conheço, através de você, as pessoas com quem anda ficando. Presto atenção em cada palavra que diz sobre o seu ex. Quando vai dormir, ainda fico acordado comparando os lugares onde poderíamos ir nesse fim de semana. Penso, por horas, no quanto desejo ser seu próximo beijo. Reflito sobre como, se eu tivesse a oportunidade que ele teve, nunca me tornaria seu ex.
    Na próxima vez que conversarmos, como sempre, eu vou perguntar sobre o seu dia tentando não demonstrar que te quero mais que tudo ao meu lado, pegar meu bloco e escrever todas as coisas que meu coração está dizendo sobre você, colocar numa caixinha com o seu nome e deixar guardado, esperando o dia em que serei bom o suficiente pra te dizer tudo o que está ali e ouvir que sente o mesmo por mim.

Autores.com.br
Curitiba - PR
Fone: (41) 3342-5554
WhatsApp whatsapp (41) 99115-5222