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  • Coletânea "Futuro? Qual será?"

    Sinopse
    Apresentamos a Coletânea "Futuro? Qual será?". Esta é uma Coletânea de Contos Futuristas, de Ficção Científica ou não, sejam Utópicos ou Distópicos (na "onda" de "O Conto de Aia"), que apontem para uma visão de futuro para a humanidade. A questão é: No que vai dar tudo isso que está acontecendo? Onde vamos desembarcar?
    Essa é nossa vigésima Coletânea e nela o leitor encontrará os 25 melhores Textos (na percepção dos julgadores) dentre 56 inscritos. O tema desta Coletânea foi sugerido por John Dekowes, Cesar Luis Theis, Grégor Marcondes e Rafael Sousa; e escolhido dentre várias sugestões. Como nas coletâneas anteriores, a Capa desta obra desenhada por Leonardo Matoso é a capa escolhida pela maioria dos Autores que se inscreveram para a coletânea, dentre 4 (quatro) inscritas para participar da seleção. Continuamos com nossa política de termos em nossas Obras a participação democrática não só de Escritores, mas também de Designers e Leitores.
    Desejamos uma agradável leitura a todos e até a próxima!
    Autores selecionados para esta coletânea:
    Adnelson Campos
    Alberto Arecchi
    Caliel Alves
    Camuccelli
    Carlos Lopes
    Cesar Luis Theis
    Davi M Gonzales
    Gabriel Soares
    Gilberto Vaz
    Giovane Santos
    Igor Martins Lima
    José Luiz Teixeira da Silva
    Leonardo Matoso
    A. Thompson "M. A. Thompson
    Madson Milhome
    Mario Cesar Santos
    Mauricio Duarte
    Milton Jorge da Silva
    Ricardo Gnecco Falco
    Roberto de Jesus Moretti
    Rodrigo Barradas
    Sergio de Souza Merlo
    Sérgio Macedo Ferreira
    Tauã Lima Verdan Rangel
    Thiago Viana Leite
  • Como comecei a escrever? - Parte 1

    Eu nasci em Araçás, uma cidade pequena de coração grande. Aos meus 14 anos eu me mudei para Alagoinhas. Araçás é uma cidade satélite de Alagoinhas, essa última concentra diversos serviços que as demais não possuem. Sem contar o comércio e as faculdades!
                Já estabelecido em Alagoinhas, mais especificamente na sua Zona Rural, passei a estudar no CETEP/LNAB e trabalhar na roça. Venho de uma família de lavradores. E dos meus quatro irmãos mais velhos, só eu entrei no Ensino Superior.
                No Ensino Médio Técnico Integrado eu cursei Técnico de Informático. Embora tenha me decepcionado com a área, aprendi muitas coisas a forjei muito boas amizades, entre alunos e professores.
                Dentre esses professores eu destaco Delson Neto, professor de Filosofia, e Sérgio Luiz de Artes, o poeta e artista plástico Serluzpe. No meu período de estágio obrigatório, eu fui para o setor de tecnologia da SEDUC de Alagoinhas. Lá, trabalhei com Lucas, Marcelo e Joedson. Seu Domingos era o meu monitor. Foi na SEDUC que aprendi os meandros do serviço público e como a educação funciona por dentro, num registro institucional da coisa. Foi na SEDUC que conheci dona Dani, dona Celia e dona Vanuza.
                Nesse período eu comecei a escrever. Embora tenha que ser sincero, eu odiava escrever! Acalmem-se, eu vou explicar.
                Eu sempre adorei ler. Na escola eu tive muita dificuldade em aprender a ler a escrever. Fui alfabetizado tardiamente, na terceira série, quando já havia repetido um ano nessa série. É óbvio que os exercícios de caligrafia e interpretação de texto deixaram sequelas graves. Adquire um hábito de leitura compulsivo, porém, a escrita me era algo muito tedioso. A repetição mecânica da escrita me trouxe grande desconforto na minha trajetória escolar.
                Para minha surpresa, certo dia o professor Sérgio Luiz fez um concurso em sala de aula. Os alunos deveriam fazer um poema e apresentar em sala de aula. O melhor ganharia um livro de poesia de autoria do professor, Revelações. O objetivo era franco, não tinha nada a ver com competição. Era apenas um singelo incentivo a criação e fruição literária.
                Quando sai da aula, fui direto para a SEDUC (esse era o meu percurso todos os dias durante sete meses, pela manhã escola, a tarde era estágio).
                Era um dia de pouco trabalho na SEDUC. Então peguei uma folha de caderno e imaginei o que pousaria no papel. Durante várias horas fiquei olhando para aquela folha branca dividida em linhas precisas. Fechei o caderno. O que escreveria? Embora gostasse de ler eu odiava poesia! Sério, eu lia romance, novela, conto, crônica... até bula de remédio, menos poesia. Não entendia qual era o barato daquela coisa. Os versos nada me diziam, independente de qual escola fosse o poema ou o autor. Lia Drummond com a mesma impaciência e desprendimento com que lia Shakespeare.
                Mas nem tudo estava perdido. Eu tinha alguns exemplares de Bleach, um anime e mangá publicado na Weekly Shonen Jump da Editora Shueisha, autoria de Tite Kubo. Esse autor colocava sempre uma poesia na página de abertura do mangá. Pela primeira vez na minha vida eu lia uma poesia que me tocava em algo. Elas eram totalmente diferentes de qualquer poema que já tivesse sido obrigado a ler na escola numa prova de Português.
                O primeiro volume de Bleach que li foi o 37, na capa estava o personagem Yumichika bem despojado e elegante, um dos meus preferidos dentro da obra. Na capa estava a inscrição The Beauty is so Solitary. Não precisa saber inglês para saber o que está escrito aqui. Quando abri o volume, estava lá um poema, ao invés da tradicional ilustração inédita. O poema dizia o seguinte:
    Não acho as pessoas belas
    Como acho que as flores são
    Pessoas só são flores
    Quando caem mutiladas pelo chão.
                Isso transmite uma beleza e uma paixão cega que eu nunca tinha visto. Eu nunca tinha tido contato com a obra de Tite Kubo, conhecia o pouco que lia através de revistas da Editora Escala como a Anime Dô e a Revista Neo Tokyo, títulos que passei a colecionar. Não tinha computador ou internet para assistir na net, a pirataria nunca trouxe, e comprar o mangá como um colecionador nunca foi possível. Eu adorava a estética do mangá, e para ser bem sincero, achava que ele se passava no Japão Feudal!
                Bem, continuando. Quando eu li o dito volume 37 de Bleach, me apaixonei pela obra. E adquirindo outros exemplares, percebi que isso ocorria em todos os volumes. A própria linguagem do mangá remetia a todo tempo a figuras de linguagens poéticas, com inúmeras camadas de significações.
                Quando resolvi abrir o caderno novamente, esqueci tudo que sabia sobre poesia. Se tivesse que escrever alguma coisa, seria do meu jeito, com minha forma e com o que eu gostava. Então resolvi escrever uma poesia homenageando Bleach de Tite Kubo. A base da poesia foi Ichigo Kurosaki, protagonista da obra. Um personagem com o qual me identifico muito, tanto na personalidade quanto nos ideais.
                Então escrevi no papel minha primeira poesia:
    Orange ranger
    Há um certo cavaleiro laranja
    Que nem bainha sua espada tem
    Quebra a máscara a procura de identidade
    E quando se reconhece, ainda não é ninguém.
                Evitarei aqui as explicações pedagógicas, quem é fã do mangá vai entender muito bem as referências. Considero também que o trabalho do escritor é ser narrativo/descritivo, não explicativo. Esse último papel cabe ao crítico literário.
                Passei o texto a limpo numa folha de papel de ofício.
                Na próxima aula com o professor Sérgio Luiz, ele cobrou a entrega do poema. Mas só eu levei, ninguém dos mais de trinta alunos além de mim fez o poema. Se ele ficou decepcionado, não demonstrou. Ele pediu para eu recitar. Fui lá na frente do quadro com certa timidez e recitei, mesmo quando ninguém prestava atenção. No fim ele me deu o livro Revelações, que tem uma capa linda demais.
                Não sei se vocês perceberam, mas eu ganhei o livro por WO!
                Vou ser sincero a vocês, meus colegas é que perderam. Depois desse fato, eu não tenho como explicar e nem me inclino a saber porque, não parei de escrever poemas. Mas essa história eu vou deixar para as próximas postagens. Continuem a acompanhar os trabalhos.
  • Conceitos e discursos sobre a auto inscrição africana

    A construção da identidade dos povos africanos, durante muito tempo, esteve permeada por discursos racialistas e estereotipias. Imagens cambiantes de uma realidade concreta. Com o posicionamento de pensadores e teóricos de África, tais convenções, antes tão válidas, começaram a cair em descrédito. Já não conseguiam mais responder aos questionamentos acerca da identidade dos africanos. Mas, isso correu numa longa duração.
              Até o início do século XX, antes de uma revolução epistemológica promovida por pensadores africanos e estrangeiros que se debruçavam sobre o tema, tudo que se sabia sobre o continente africano estava baseado em mitos e preconceitos. O próprio filósofo alemão, Hegel, afirmava que a África era a-histórica. Um território e população com existência disfuncional no planeta Terra. Deslocada da humanidade como um todo.
              A Europa Ocidental, em seu processo de expansão econômica e geopolítica, se pôs como centro do mundo, assentando África numa zona periférica — e outros lugares como Ásia e América Latina. Uma linearidade histórica se forjou, uma espécie de escala diacrônica da história mundial. Tem como marco inicial a Grécia Antiga e se conclui no projeto da liberal-democracia contemporânea (DUSSEL, 2005).
              Essa perspectiva é teleológica e eurocêntrica. O eurocêntrismo é um etnocentrismo singular. É tanto uma ideologia, pois suas ideias mobilizam as ações dos indivíduos, enquanto os integra ao sistema, um paradigma por servir como um modelo básico, e discurso por estabelecer uma “verdade” (BARBOSA, 2008). O provincialismo europeu-ocidental se tornou uma cosmovisão.
              Era impossível que a História da África, a memória, e identidade do “eu africano” não estivesse condicionada, em um primeiro momento, por preconceitos e estereótipos. África foi criada de fora para dentro, numa relação que pouco levou em conta o Outro. Ela aconteceu numa perspectiva binária, quando não maniqueísta: “Europa civilizada” em contraponto a “África bárbara”.
              Após nos situar, definimos cinco os fatores que constituem ou interferem na auto inscrição dos povos africanos: “raça”, colonização, escravidão, “diáspora” e a Independência dos Estados-Nações africanos. É uma complexa genealogia que deve levar em conta vários aspectos, “(...) através dos processos de escravidão, colonização e apartheid, o eu africano se torna alienado de si mesmo (divisão do self)” (MBEMBE, 2001, p. 174).
              Dentre os fatores supracitados, “raça” é um dos que mais pesa. A confusão entre o ser negro e ser africano ainda causa dificuldades epistemológicas, bem como políticas e sociais. Imensa maioria dos africanos se reconhecem como pertencentes aos seus respectivos povos. Um único país pode estar configurado em diversos povos, e esses povos podem estar agrupados em unidade étnicas maiores.
              Muitos pensadores ocidentais, principalmente os afroamericanos do século XIX, transformaram a África, de modo apriorístico, no lar ancestral dos negros de todo mundo. Embora as “raças humanas” sejam construções sócio-históricas de mesmo período: “A ‘África’ de [Alexander] Crummell é a pátria da raça negra, e seu direito de agir dentro dela, falar por ela e arquitetar seu futuro decorria — na concepção do autor — do fato de ser negro” (APPIAH, 1997, pág. 22).
              A “raça” continua a ser um empecilho para compreender África pelo seu caráter homogeneizador, negando o que esse continente tem de mais particular: sua diversidade. Entretanto, no século XXI, para muitos, o conceito não está descartado como base para interpretação das realidades de africanos e de suas respetivas Nações. Mas, há sim uma busca por criticar e estabelecer novos parâmetros.
              Raça é uma das “barragens de mitos” mais resistentes da História de África, com um grande impacto nas representações e da construção da identidade (KI-ZERBO, 2009). É algo tão forte e arraigado, que durante muitos anos, nos primórdios da Egiptologia do século XX, havia uma distinção entre a África Negra e a África Branca (o Egito). Mitos bíblicos e racismo se somavam à metodologia científica, e assim nascia a Dual-África.
              Um outro pensador africano cunhou o termo “mitos científicos” para designar essa ação: “o trabalho dos homens de ciência produziu também de maneira mais insidiosa, ao lado das reconstruções históricas mais refletidas e mais duradouras, estereótipos tanto mais persistentes pois apareciam aparelhados com todos os emblemas da legitimidade ‘científica’ ou acadêmica, ao mesmo tempo em que confortavam as falsas evidências do senso comum” (M’BOKOLO, 2009, pág. 49).
              A ciência que deveria estar a serviço da busca de uma “verdade” por meios teórico-metodológicos, ou seja, rigor objetivo em detrimento dos pré-conceitos e preconceitos, acabou por legitimar visões de mundos racistas. Destituiu os africanos de suas várias identidades e de sua autonomia social e histórica. Tudo isso serviu a um propósito político e ideológico dos invasores europeus.
              A colonização, embora tenha ocorrido a longo prazo, diferindo de método e tempo pela região de contato, causou um abalo na auto inscrição africana. Muitas vezes, os colonizadores obtiveram contribuições desses povos nativos no processo de dominação. Portanto, a identidade passou por um processo de mediação com o “outro” invasor.
              Um dos fenômenos dessa colonização europeia em África foi o comércio de escravos no sistema-mundo, deslocado do Mar Mediterrâneo para o Oceano Atlântico. A pré-existência da escravidão no continente africano à chegada dos povos ibéricos não pode ser comparada com o período de escravidão entre os séculos XVI e XIX entre África e América. Potências da Europa Ocidental foram os maiores comerciantes de seres humanos do mundo na Era Moderna, seguido pelos traficantes brasileiros.
              Se a chegada dos árabes no norte-africano aumentou a escala de escravização de seus povos, o comércio transatlântico transladou milhões de africanos. América Portuguesa, Hispano-América e até mesmo o Japão Feudal se beneficiaram da mão-de-obra escrava. Logo, se os africanos eram negros, pertencentes a uma mesma “raça”, a escravidão provocou uma “diáspora”.
              O termo tenta fazer uma analogia a condição dos judeus. A diferença é que os judeus, sempre estiveram em condição de imigração constante, uma “terra prometida”, uma origem ancestral comum e um livro sagrado para mobilizar a solidariedade a nível supranacional. O holocausto judeu é outro fator a se considerar no período atual. A Segunda Guerra Mundial criou o Estado de Israel como reparação histórica, bem diferente da situação do Estado da Libéria, reduto de ex-escravos estadunidenses em África.
              Por fim, analisamos o processo de independência dos Estados-Nações africanos. Devemos entender que esse processo ocorreu tanto em conflitos armados, quanto diplomáticos e políticos. A negociação da Independência não elimina as divergências ou exacerbações de facções políticas. Os processos de Gana e de Angola são bem diversos se analisados de perto, mas os conflitos estão em ambos.
              Cientistas, pensadores e literatos africanos se engajaram politicamente nos processos de Independência e de (re)construção de suas Nações. Dentre eles, filósofos, antropólogos e historiadores evocavam a “tradição” africana como base para uma “filosofia africana” (MUDIMBE, 2013). A História tinha um papel importante por legitimar a narrativa histórica construída pelas novas elites nativas.
              Essa primeira geração ficou conhecida entre historiadores contemporâneos como “Geração Militante”, pois defendiam posições nacionalistas e raciais:
    o primeiro grande historiador africano desta geração dos anos 1950 e 1960 foi o senegalês Cheikh Anta Diop, criador do Afro-centrismo. Em livros conhecidos como Nações negras e cultura (1955) e Anterioridade das civilizações africanas (1967); traduzido para o inglês como As origens africanas da civilização, (1973), Diop retomou, de forma transformada, uma tese do século XIX, de que o Egito fôra uma civilização negróide; tida como origem cultural do mundo helenístico (por conseqüência, greco-romano) e das sociedades africanas [sic] (BARBOSA, 2008, pág. 51).
              Os nacionalistas e o marxistas discursaram em defesa da africanidade e de suas respectivas Nações, porém:
    (1) as narrativas marxistas e nacionalistas sobre o eu africano tem sido superficiais; (2) como consequência desta superficialidade, suas noções de autogoverno e de autonomia têm pouca base filosófica; e (3) seu privilegiamento da vitimização, em detrimento do sujeito, em última instância resulta de uma compreensão da história como feitiçaria (MBEMBE, 2001, pág. 177).
              Mesmo sem consenso acerca dos limites da interferência da escravidão, colonização e os regimes de apartheid na auto inscrição africana, seria improfícuo descartar sua influência no processo. Muito dessa construção identitária africana esteve marcada pelas lutas intestinas, discursos racialistas, guerras civis, intervenção político-econômica das grandes potências, e atualmente o terrorismo islâmico etc.
              A auto inscrição em África, tanto sofre interferência das representações construídas sobre o continente, bem como pelas condições socioeconômicas e diversidades culturais imanentes. A formação de identidade não depende de uma coerência histórica, nem unidade étnico-racial, mas todos esses elementos estão em sua constituição. O debate está posto, mas, talvez, sejam os atuais africanistas e historiadores africanos que estejam chegando mais perto de uma resposta.
    Referências bibliográficas
    APPIAH, Kwame Anthony. Na casa de meu pai. A África na filosofia da cultura. In: ________A invenção da África. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
    BARBOSA, Muryatan Santana. Eurocentrismo, História e História da África. In: Sankofa. Revista de História da África e de Estudos da Diáspora Africana, nº 1, jun.2008, p. 46-63.
    Disponível em: <> acesso dia: 30 jan. 2020, às 18:43 horas.
    DUSSEL, Enrique. Europa, Modernidade e Eurocentrismo. Edgardo Lander (org). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Colección Sur Sur, CLACSO, Ciudad Autónoma de Buenos Aires, Argentina, set. 2005.
    KI-ZERBO, Joseph. História da África negra. Vol. I. 4 ed. Lisboa: Edições Europa-América, 1999.
    M´BOKOLO, Elikia. II. Debates e Combates. In: África negra. História e civilizações – Tomo I (até o século XVIII). Salvador/São Paulo: EDUFBA/Casa das Áfricas, 2009.
    MBEMBE, Achille. As formas africanas de auto-inscrição. In: Estudos Afro-Asiáticos, nº 1, 2001, p. 171-209.
    MUDIMBE, V. Y. A invenção de África. Gnose, filosofia e a ordem do conhecimento. Lisboa: Edições Pedago, 2013.
  • Conversando Com O Silêncio

    Conversamos por horas, sem dizer apenas uma palavra.
    As pessoas estão muito ocupadas em suas vidas barulhentas para escutar o que o silêncio tem a dizer.
    Se tornaram adversários de um aliado valioso, o tempo.
    Em uma competição que não parece ter vencedores.
    Elas estão perdidas…
    Estão apenas tentando fazer algum sentido...
    Os fracos estão aí para justificar os fortes.
    Mas ainda há esperança, talvez, apenas talvez você possa ser um dos escolhidos.
    Um dos abençoados por Deus.
    O resto de nós apenas rezamos para que o amanhã seja melhor do que o ontem costumava ser.
    Enquanto isso o silêncio se mantém mudo.
    Apenas aguardando o seu momento, o momento de finalmente ser escutado.
  • Crítica ao conceito de Feminismo no Brasil

    O Feminismo é um verdadeiro saco de gatos conceitual. Dentro dele foram jogados todos os movimentos sócio-políticos das mulheres no Brasil. Um enquadramento generalizante e empobrecido da atuação do ser feminino dentro da nossa sociedade. Toda vez que mulheres ousaram desafiar o status quo e lutaram pela sua emancipação, logo lhes foi atribuído os espaços da “esquerda” e do “comunismo”. Um bloco monolítico sem diversidade ou contradições internas, algo que não se sustenta num estudo mais aprofundado.
              O movimento feminista remete a Inglaterra do século XIX. É partir daí que as mulheres da pequena-burguesia se unem pela sua inserção em novos espaços sociais e políticos. Nem todas as mulheres estavam inclusas, foram ejetadas do Feminismo as mulheres de outros grupos étnico-raciais e de outras classes sociais. Podemos estabelecer que esse movimento político e articulado das mulheres em relação a sua emancipação é de gênese liberal. A ideologia teve rápida proliferação e aglutinação em países do Ocidente capitalista.
              Essa praxe não se confunde com o comunismo. Para as feministas, a luta se restringe a emancipação do feminino, ou seja, dos espaços sociais convencionais que aprisionaram as mulheres — a mãe, a esposa, a devota religiosa etc. —; já para os comunistas, a luta se dá no nível socioeconômico, não está focado nas questões identitárias. Sendo o primeiro movimento nascido das correntes políticas do liberalismo econômico das potências europeias, e o outro da classe operária, teremos muito mais relações históricas de conflitos que de diálogos.
              Isso não significa dizer que mulheres comunistas não estivessem atentas e atuantes às questões femininas, de sua luta política e liberdade sexual (LIMA, 2008). Mesmo sem estarem vinculadas ao Feminismo ou se auto declararem, suas ações podem ser consideradas em alguns casos como feministas. O real problema é quando esses fatos são usados para homogeneizar, estereotipar e estabelecer uma unidade até então inexistente dentro do próprio movimento feminista, “o feminismo tem sido, nas últimas décadas [a partir da década de 1960], um movimento internacional, mas possui características particulares, regionais e nacionais” (SCOTT, 2011, p. 69).
              Embora não seja o nosso objetivo fazer periodizações, podemos estabelecer os anos de 20 e 30 como o primeiro momento de atuação mais objetiva do Feminismo no Brasil,
    “[...] [mulheres] especialmente de camadas socialmente privilegiadas, organizadas em diferentes grupos na luta pela libertação do gênero feminino. Parte delas se reconhecia feminista, a exemplo da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF) [...]. Outra parte, apesar de se posicionarem de forma contundente contra a inferiorização das mulheres, não se assumia feminista, como a maioria — senão todas — das mulheres do PCB” (ALVES, 2019, p. 182).
              Houve períodos de maior ou menor atuação das feministas, sendo condicionado pelas rupturas democráticos que o Brasil passou. A exemplo do anarcofeminismo, só podemos lhe fazer menção a partir de maio de 68, sendo ampliado através do movimento punk; isso no que diz respeito strictu sensu ao nosso país. Em si tratando do comunofeminismo, independente das representações que o passado nos legou, só será visto em maior atuação na década de 90, quando o processo de reestruturação dos partidos de esquerda no Brasil se abriram aos movimentos sociais.
              O Feminismo é uma força política real e atuante, no Brasil e no mundo. Mas de modo algum livre de contradições e reveses. Nem de longe unitário. Não devemos elencá-lo ao espaço da massa amorfa e indivisível; nem tão pouco repetir estereotipias ipsi litteris sobre a condição social e histórica das mulheres e sua luta política. O correto seria dizer “feminismos”, muitas vezes em conflito. São vários direcionamentos que, quando interseccionalizados, mostram um movimento heterodoxo e em constante renovação. Ser feminista no Brasil pode significar muitas coisas para as mulheres, mas com certeza não é uma unidade determinada.



    REFERÊNCIAS
    ALVES, Iracélli da Cruz. A política em prosa: representações comunofeministas em A sombra do patriarca. In: BATISTA, Eliana Evangelista; SILVA, Paulo Santos. (Org.). Dos fios as tramas: tecendo histórias, memórias, biografia e ficção.  Salvador: Quarteto, 2019. p. 171-188.
    LIMA, Luciano Rodrigues. Parque Industrial, de Maria Lobo (PAGU): resistência e utopia nos subterrâneos da Era Vargas. In: SENA JUNIOR, Zacarias F. de; SILVA, Paulo Santos. (Org.). Salvador: EDUNEB, 2008. p. 273-290.
    SCOTT, Jean. História das mulheres. In: BURKE, Peter. (Org.). A escrita da história: novas expectativas. São Paulo: Ed. Unesp, 2011. p. 65-98.
  • D. Gray Man e o ofício do historiador

              Katsura Hoshino é uma das mangakás mais geniais. Ela é a criadora do mangá shonen D. Gray Man. A obra foi publicada na Weekly Shonen Jump em 2004, ainda em andamento. Os quadrinhos se tornaram sucesso por trazer uma trama rica em reviravoltas e ação, estética gótica e mitologia cristã para as suas páginas. Um dos elementos dessa trama, o Clã Bookman, nos ajuda a discutir algumas questões do ofício do historiador.
              Mas antes de aprofundar a discussão, é necessário responder a seguinte pergunta: que seria a História? Para mim, é uma ciência que busca compreender as relações humanas no tempo e no espaço, em sentido retrospectivo, ou seja, do presente para o passado. Perguntamo-nos no presente e voltamos ao passado através das fontes que os nossos ancestrais nos legaram.
              Se o ser humano estuda e analisa a história do ser humano, como manter a objetividade e não ser condicionado pela sua própria condição humana? É daí que o mangá de Hoshino irá nos ajudar a questionar a busca de objetividade do historiador em seu ofício.Em D. Gray Man, a trama aborda uma guerra santa entre dois grupos, a Ordem Negra, uma organização monástico-guerreira sob a tutela do Vaticano, e a Família Noah, um grupo de seres imortais descendentes de Noah, uma referência ao Noé bíblico. A história do mangá é permeada de fantasia e simbologias, mas não iremos tratar desses assuntos aqui. O que nos interessa é o papel que o Clã Bookman possui nessa guerra e como realizam o seu oficio de historiadores.
              O termo bookman é de origem inglesa, e a grosso modo significa “o homem do livro”. Na Europa Medieval, era uma espécie de historiador particular vinculado à nobreza. Quando Suas Altezas Reais iam a guerra, costumavam contratar os serviços de homens letrados para registrar suas proezas em batalha. Muitas vezes esses relatos eram feitos sobre encomendas, se é que o leitor me entende.
              O ofício do bookman não é exclusivo da Era Medieval, existem registros de tal função em outras civilizações e regiões do planeta, como a China Imperial onde tal historiador recolhia os mínimos detalhes da vida do imperador, inclusive suas relações sexuais. Mas como grande parte de nossa história é de cunho eurocêntrico, acabamos não sabendo mais detalhes desses outros historiadores.
              No mangá, eles são um clã. Apesar do termo, não parecem ter um antepassado em comum ou ter relações consanguíneas. Sua estrutura se assemelha mais a uma organização secreta do que há um clã. Eles estão espalhados pelo mundo todo, e são financiados em suas pesquisas e outras questões por membros do Clã Bookman, algo semelhante aos historiadores da vida real que realizam pesquisas custeadas por terceiros, seja o Estado ou instituições privadas.
              Os membros do clã possuem acesso a acervos privados e particulares, possuem um idioma próprio e possuem memória eidética, ou seja, memória fotográfica. Esses elementos são importantes para a minha análise. Cada bookman faz um registro na Tora, um tomo usado para escrever os capítulos da guerra. Cada registro da guerra santa recebe o nome do bookman responsável pelo registro.
              O atual responsável pela escrita é o bookman junior e exorcista da Ordem Negra, o Lavi. Aprendiz de Bookman, seu mentor, ou se você preferir, orientador. Lavi é nosso representante no mangá. O jovem ruivo é o que nós podemos chamar de graduando em História. Foi recrutado aos 6 anos de idade, sendo órfão de pai e mãe, foi praticamente adotado pelo Bookman, e desde então estuda para assumir o lugar do velho Bookman.
              Esse personagem nos chama atenção devido ao seu visual. Usa tapa-olho, e um longo cachecol no pescoço. Uma bandana cinge a sua testa. Sua arma é um martelo chamado Tettsui, do japonês “Martelo de Ferro”, capaz de aumentar o seu tamanho. Além disso, sua arma possuí o poder de controle elemental através de selos místicos. O personagem tem uma personalidade carismática e profunda. Ele já protagonizou uma light novel da história e foi cogitado para protagonizar o mangá, segundo a própria Hoshino.
              Lavi não é o nome de batismo do personagem, ele abdicou desse nome logo ao se aliar ao Bookman em suas pesquisas. Lavi é o 49º nome que ele assume, logo, percebemos que o nosso protagonista tem um problema com a constituição de sua identidade. É como se ele estivesse em busca de uma identidade que revelasse algo mais que uma função. Abdicar do nome original é uma forma de romper laços com sua antiga vida e condição existencial. Essa busca pela identidade se manifesta em sua personalidade flutuante entre momentos de grande carinho e de extrema frieza.
              Embora não seja cego de um olho, ele usa uma venda no olho direito. Isso implica uma visão unilateral do mundo, visto que, apenas um dos olhos é capaz de enxergar a realidade. O martelo é outra forte simbologia em relação ao personagem. Esse instrumento representa: demolição, iconoclastia, ruptura com os dogmas e modelos anteriores. O próprio filósofo Friedrich Nietzsche dizia que “filosofava com o martelo”.
              Entre os bookman, existe um ideal de neutralidade e de objetividade no ofício. Os bookmans, mesmo quando se aliam há um lado ou outro do conflito, não fazem por ideologia ou sentimento de pertencimento, mas sim porque conseguem acesso a informações e documentos dentro da Ordem Negra e da Família Noah. Numa primeira análise, não parece que os historiadores em D. Gray Man possuem um senso de moral. Mas essas filiações temporárias parecem ser uma contramedida para garantir a neutralidade do historiador.
              Essa ideia se aproxima do pensamento do historiador alemão Leopold von Ranke, importante teórico da História no século XIX. Segundo ele, o historiador de ofício deveria ser rigoroso em seu método, e se anular perante as fontes. De acordo Ranke, através do método, seria possível fazer “falar os documentos”. Nesse sentido, o historiador seria menos intérprete e analista dos fatos históricos e mais um mediador dos discursos e representações que as sociedades nos deixaram registradas.
              Esse pensamento dominou o ofício até o início do século XX, quando foi questionada pela Escola dos Annales. Encabeçados pelos historiadores franceses Lucien Febvre e Marc Bloch, eles propunham uma história-problema, e não uma história narrativa. Foram descartados os elementos políticos, individualistas e cronológicos da História, o que acabou criando novas abordagens e inclusão de novos temas e objetos de pesquisa. Isso renovou a História e possibilitou uma crítica teórico-historiográfica.
              No mangá, a associação entre bookman e organização se dá há nível de interesse mútuo. Através de alianças temporárias, eles obtêm acesso a arquivos e podem registrar a história através de seu testemunho, já as organizações que associam os bookmans, acabam se servindo de seu vasto campo de conhecimento e experiência. Isso provoca uma série de conflitos entre Lavi e Bookman.
              De acordo o orientador do bookman junior, ele não deveria interferir no ciclo da história, cabendo como o seu único papel registrá-la. Ou seja, alguém que contemple e não aja para modificar a ordem das coisas, o que contrária qualquer perspectiva marxista. Mas Lavi não consegue ser omisso e acaba interferindo de maneira contundente na guerra que ele deveria ser expectador. Estaria a neutralidade abalada pela atuação de Lavi? Um historiador engajado ou militante é capaz de encontrar a verdade na história?
              O conceito de verdade pode se alterar em diferentes épocas e regiões. Para o povo Asteca, era verdade absoluta — e necessário — sacrificar pessoas diariamente ao sol para que ele se movesse no céu e não punisse a humanidade com a escuridão. No período medievo, a Igreja Católica estabeleceu que vivíamos num sistema geocêntrico e que a Terra era plana, os que contestassem essa verdade eram queimados em fogueiras. Logo, a verdade ou a noção da realidade é uma construção histórica e social.
              Não há nenhum demérito a História ser reescrita, revista e ampliada, visto que, ela não deixa de ser um produto sócio-histórica produzido pelos seres humanos. Nenhuma ciência, seja ela da área de humanas ou naturais, pode se dar ao luxo de ser dogmática. A ciência é essencialmente pragmática, caso contrário, estaria fadada a ser fixa e nunca evoluir em sua produção de conhecimento.
              A ideia de que existe uma neutralidade absoluta nas Ciências Naturais, porque seus cientistas estudam e pesquisam algo externo ao ser humano, não passa de pura ideologia. O que eles buscam tanto refutar acaba se tornando o que mais defendem. Onde está a neutralidade do físico quando ele ajuda o exército a construir bombas atômicas para matar pessoas? Onde está a neutralidade do virologista que elabora armas virais? Onde está a neutralidade do cientista da computação ao criar sistema de precisão balísticos em armas autônomas e drones?
              O historiador pode ser engajado em alguma causa, sem com isso perder a objetividade em seu ofício, pois, História não se faz com ideologias, e sim com metodologia. A única coisa que pode nortear essa questão é a problematização da historicidade, entendida aqui como a contextualização do tempo e do espaço histórico, e do rigor metodológico. Rigor no sentido da crítica externa e interna das fontes, diálogo interdisciplinar e revisão pelos seus pares.
              O historiador de ofício não deixa de ser um detetive temporal. Um detetive não cria pistas, ele as coleta, as analisa com cuidado, visto que, um erro na sua investigação pode condenar ou safar alguém de um caso. Se a produção historiográfica destoa muito dos fatos históricos, o que o profissional produziu não foi historiografia, e sim propaganda ou ficção histórica. Deixemos a ficção histórica para os escritores e literatos e a propaganda para os publicitários. Nosso objetivo é produzir ciência, conhecimento do processo histórico. Lavi não deixa de ser um historiador por ser atuante dentro da história.
              Nem é menos objetivo por causa disso. D. Gray Man e o Clã Bookman nos ajuda a discutir essa contradição pela busca da absoluta neutralidade, algo que deve ser refutado. Os seres humanos são seres lógicos, mas também são seres desejantes ou instintivos. A produção de conhecimento e os critérios de verdade mudam dependendo de seu contexto histórico. Se os homens não são fixos e determinados, a História também não pode ser.
    REFERÊNCIAS
    D. GRAY MAN ENCYCLOPEDIA. Bookman Clan. Disponível em: < https://dgrayman.fandom.com/wiki/Bookman_Clan > Acesso 26 fev. 2021, às 16:39 horas.
    D. GRAY MAN ENCYCLOPEDIA. Bookman. Disponível em: < https://dgrayman.fandom.com/wiki/Bookman > Acesso 26 fev. 2021, às 16:42 horas.
    D. GRAY MAN ENCYCLOPEDIA. Lavi. Disponível em: < https://dgrayman.fandom.com/wiki/Lavi > Acesso 26 fev. 2021, às 16:55 horas.
    D. GRAY MAN ENCYCLOPEDIA. Lavi/History. Disponível em: < https://dgrayman.fandom.com/wiki/Lavi/History > Acesso 26 fev. 2021, às 17:01 horas.
  • Desabafo

    Oi
    sou eu de novo
     
    venho dizer que não aceito
    não quero ser um ser humano 
    quero ser gato ou planta
    dog ou árvore
    poderia também ser um godê
    ou uma vela
     
    uma toalha de mesa
    ou um isqueiro
     
    mas não
    eu tinha que vir como humana
     
    pra perecer como um homem
    ainda em corpo feminino
    sangrando todo mês
    e com sonhos de uma sociedade mais justa  
     
    romântica ainda
    ansiosa ainda
    depressiva ainda
     
    e quase-suicida
     
    vamos pular essa parte
     
    que diabo é pra eu fazer nesse planeta?
    nessa era, nessa época?
    por que não faço logo e me zarpo noutro segundo?
     
    tenho que ficar aqui existindo e sustentando esse corpo humano cheio de demandas
     
    arre!
    vou fazer o quê, se não, existir?
     
    fico me metamorfoseando todos os dias
    rabiscando poesias e alquimizando lágrimas
     
    confecciono meus dias na base da porrada
     
    me arrasto pra vida
     
    toda hora apaixonada
     
    sem concluir as paixões
     
    que acabam antes mesmo de começar
     
    sou só mais uma frustrada
     
    querendo mais um pouco num mundo onde tem gente que não tem nada e tá bem mais satisfeito e agradecido que eu
     
    queria morrer logo
    parar de sentir dor de dente
    de sofrer com medo de não prosperar
    de ficar com vontade de fazer sexo e não poder fazer sexo com a pessoa que se quer
    de parar de sofrer pelo... @
    de parar de esperar a próxima semana pra ver....#
    de se masturbar sozinha
     
    de montar atividades trabalhosas em um sistema falido de ensino, ainda mais híbrido 
    onde não se consegue dar atenção para os alunos online e presencial ao mesmo tempo x.x
    de ver gente passando fome e sede e não tendo água e banheiro
    de guerras esdrúxulas
    de mortes ridículas
     
    estou eu aqui bem alimentada aquecida desabafando no meu notebook gostoso
    e o mundo lá fora perecendo e ruindo
    e a maior parte das pessoas humanas morrendo de fome sede e crueldade e violência
     
    sou um bibelô numa bolha
    estou resguardada por uma família magnífica
    mas estou triste
    sou uma pessoa triste
    infeliz de estar nessa roupagem humana
    de dor e convalescência 
    e algumas parcelinhas de prazer
    mas muito mais dor e sofrimento, muito mais
    muito mais desilusão e amargor
    muito mais sapos bois na garganta
     
    sei lá
     
    só queria morrer logo...
  • Desçamos todos a cova

    O cemitério é a linha de chegada de todos nós. Somos os únicos seres que temos a certeza da morte, e lembramos durante toda a vida de nossa melancólica sina. Foi com sentimentos fúnebres que participei da Antologia Campos Santos da editora Sem Tinta. A editoração e publicação aconteceu no ano de 2020, recebendo financiamento coletivo através do Catarse.
              O tema da obra foi o cemitério no século XIX. O livro foi organizado por Guilherme Milner e Erick Alves, contando com 14 contos de autores nacionais das mais diversas regiões do Brasil. Esse cenário nos possibilitou escrever variados contos, sejam eles apelando para o terror, a ficção história e o romance. O projeto gráfico ficou excelente, Erick Alves mais uma vez mostrou sua competência no projeto gráfico.
              A obra acabou sendo publicada em um momento de pandemia, provocada pelo COVID-19. O clima sombrio desses tempos de morticínio e necropolítica parecia ser um momento pouco adequado para esse tipo de literatura, mas, contrariando nossas expectativas, o livro conseguiu ser financiado com sucesso. Nós escritores nos esforçamos muito para que esse trabalho fosse publicado.
              O resultado ficou muito bom, começando pela capa, tem o tom sinistro para ambientar a obra. O prefácio ficou a cargo de Guilherme Milner. São mais de 200 págs., com orelhas. Cada capítulo é ilustrado com uma imagem padrão e biografia dos autores e autoras. Muitos desses escritores e escritoras já são meus conhecidos, e os contos me agradaram muito.
              Nessa coletânea eu publiquei o conto O misterioso caso da cidade de Benza’ Deus, conto ambientado no interior da Bahia, tratando de sanitarismo, epidemias e eventos estranhos na construção de um cemitério municipal. Agora farei um comentário sobre os três contos que eu mais gostei. Lembrando que esse tipo de análise é particular, e se refere mais a minha experiência de leitura.
              A epidemia de morte foi escrita por Danilo Mattos Ferreira. O protagonismo é o viúvo Artur Gonzaga, que perdera sua esposa Carolina e filho após a gravidez que terminara em uma eclampsia. O conto foca em crenças das caças as bruxas — ainda corrente no século XIX —, e misoginia. Tem um final surpreendente! Realmente eu não esperava aquela resolução.
              Alexandre Torres escreveu o ótimo conto As melhores linguiças desse mundo. O caso narra uma série de crimes ocorridos em 1863-64, envolvendo canibalismo. Inclusive, o caso foi abafado pelas autoridades policiais e acabou sendo registrado até por Charles Darwin em seus escritos. O autor reconstruiu os atos hediondos de José Ramos com tonalidades fantásticas, deixando a coisa ainda mais aterradoras.
              O terceiro que mais gostei foi O pesadelo das duas covas do Pedro Martinez. Esse conto oferece uma trama curta, mas muito instigante e bem construído. A história trata sobre Abraham, um homem que acaba passando por uma terrível experiência: seriam seus pesadelos uma terrível premonição? Na busca dessa resposta, ele consulta um espiritualista, e decide refazer os eventos do seu pesadelo.
              De modo geral, o livro está excelente. Com boa impressão e encadernação, orelhas e papel offwhite com páginas escurecidas na apresentação de cada conto. O prefácio instiga a leitura e ajuda muito a entender o contexto histórico. Muitos dos contos tratam de terror, e serão em apreciados pelos fãs do gênero. Recomendo muito a leitura para aqueles que não tem medo de lápides e portões rangentes.
  • Desídia

    A “preguiça de pensar”
    é a pandemia do momento,
    ela apresenta um sintoma severo:
    a convivência com “teorias da conspiração”!
    Obrigando, os distraídos, à aceitação
    de qualquer “terraplanismo”,
    sem analisar ou questionar,
    baseados, apenas, em “achismos”!
    Desta forma, “caindo” em qualquer clickbait,
    e, “comprando” qualquer fake news,
    para deleite de todos os haters,
    que as “viralizando” sem compaixão,
    distorcem estatísticas da verdadeira pandemia:
    Um governo sem solução...
    e mínima empatia!
    (*) Desculpem os Estrangeirismos, foram necessários.
  • Deus me deu ?

    Deus me deu minha casa
    Enquanto varias pessoas perderam suas  em enchentes 
    Deus me fez passar no vestibular 
    Enquanto varias pessoas não ter conseguido estudar por falta de oportunidade 
    Deus me curou de uma doença 
    Enquanto varias pessoas morrem na fila de espera de um hospital 
    Deus me deu um carro 
    Enquanto varias pessoas vivem trabalhando 10 horas por dia para um dia tentar comprar um carro em 60 vezes 
    Deus me deu ?
    O que fez você ser tão especial ?
    Rezou ?
    Antes de falar que “Deus me deu “ “foi Deus “
    Pensa no próximo, olhe para o lado e veja um pai dando só um presente para um filho e o outro só ficar olhando . Seria correto?
     Reflita!
    Ninguém deu nada , você conquistou pelo seu esforço , méritos seus .
  • Dia da árvore

    Hoje é dia da árvore.
    Como comemorar esse dia?
    É nós que precisamos dela.
    O ar que respiramos vem dela.
    A limpeza do ar também.
    Já plantou a sua árvore hoje?
    Nunca é tarde para plantá-la.
    Há inúmeras mudas para plantarmos.
    Pode ser de frutas.
    Pode ser somente para sombras.
    Pode ser para o ambiente embelezarmos.
    O importante é um só;
    cuidar da natureza!
    Larga a mão de malvadeza!
    Em tudo dependemos da natureza.
    Plante uma árvore!
    Adote uma árvore!
    É o mínimo que podemos fazer.
  • Dissimulado

    O mal não grita, apenas sussurra,
    Influência, distorce...
    Cria “certezas”,
    conspira pós-verdades,
    inspira através de falácias.
    Se traveste de bom moço.
    Dissimulado, roga por clemencia!
    Mas, não ouço!
    Pois, relembro a demência,
    de sua índole incontrolável,
    que o induz ao final,
    mais que provável.
    Mesmo contrário aos fatos,
    conduz, sem resistência,
    por seus próprios atos,
    ao fim da consciência!
  • Distopia

    Que mundo distópico é esse,
    onde “tubaína” vira remédio
    e, fantoche com viés despótico
    prescreve, receita e festeja
    sem que médico,
    ao menos seja?
    Em meio à pandemia
    assistimos incrédulos
    a diversas pantominas,
    em um teatro de absurdos
    onde, morte e doença
    são tratadas como crença ou banalidade,
    estimuladas por um louco menestrel,
    a reger sua orquestra insana
    para deleite de uma plateia sem humanidade!
  • Duas asas pra te proteger

    A internet deu vez e voz a diversos artistas independentes. Possibilitou a todos eles divulgarem suas obras e distribui-las a um público que só tende a crescer. Dentre essa vertente de cultura de massa nos meios digitais estão os webtoons. Além de estarem disponíveis em plataformas digitais, esses quadrinhos acabaram por desenvolver um estilo narrativo próprio, mais objetivo e com diagramação diferenciada.
              Quando o mangaká alagoinhense Antonio Alan me indicou a obra Guardiões possuem asas, webtoon roteirizado e ilustrado por ele, tive oportunidade de acompanhar uma história divertida e cheia de potencial. O autor utilizou a temática da angeologia, algo que ele já tinha usado em seu primeiro título, o mangá Knights of God: Sacred Armors, um B-shonen inspirado em Cavaleiros do Zodíaco. Foi usado como TCC!
              A história foca em Darlan, um homem de 30 anos que sente um amor platônico pela sua amiga Sueli. Depois comemorarem seu aniversário, ela o convida a sua residência para maratonar séries. Infelizmente, depois de voltar para casa, o protagonista acaba sendo assassinado pela coisa mais assustadora atualmente em nossa sociedade: dois malucos de moto num beco tarde da noite.
              Resultado: Darlan toma um tirambaço nas caixas dos peitos e vai pro beleléu. Depois de acordar, ele descobre estar numa dimensão espiritual. Não mais como um humano, ou alma penada. Darlan é o mais novo anjo aprendiz, de nível 500. Mas não pense que isso é algo positivo, pois a hierarquia de poder é decrescente. Depois de uma leve introdução, o novo anjo irá descobrir seus poderes e limitações.
              Como eu já conheço o autor, considero esse trabalho cheio de potencial. Humor na medida certa. Personagens cativantes e com personalidade. Provavelmente o autor irá optar por seguir uma linha mais b-shonen com anjos e demônios, mas talvez esses embates não sejam tão diretos. Pode haver uma batalha de influência também. É difícil dizer muito, o autor ainda só publicou dois capítulos e um prólogo.
              A colorização, personagens com outras etnias e identidades sexuais são um ponto importante. O que me incomodou, não a ponto de me fazer largar a leitura, foram alguns erros de revisão. Do ponto de vista do roteiro, acho que o excesso de explicação e as reações do protagonista. Não achei a reação do Darlan crível. A arte precisa melhorar na proporção e torção, além de perspectivas. Se isso impede a leitura e a diversão: não! Se você não ler essa obra, só você tem a perder.
  • Empatia

    É sentir a dor do outro
    sem dramatização,
    apenas com verdade e emoção.
    Buscando, profundamente, o alter ego da razão.
    Porém, na atual realidade,
    no “novo normal”,
    viver é desconstruir o mundo real,
    vivendo a dor do outro
    como ficção.
    Como em uma telenovela
    sem dor ou compaixão.
    Por que ter empatia,
    se o público pede, fagueiro,
    a minha doce representação?
    Que entrego de forma pueril,
    como um palhaço em um picadeiro!
  • Enfermagem do futuro- Análise de um graduando.

    A enfermagem atua na sociedade desde outrora. A história da enfermagem é exacerbada e rica em aspectos genuínos, contudo, os avanços no cenário e amparo dos direitos desses profissionais, no Brasil, ocorrem de forma vagarosa. Vale ressaltar que, os cuidados ofertados pela equipe de enfermagem são de extrema relevância para o processo de prevenção, promoção e reabilitação de saúde.
    O cenário atual da enfermagem vem sendo considerado saturado, com um grau elevado de profissionais formados, entretanto, desempregados. Segundo uma pesquisa Perfil da Enfermagem, realizada pelo Cofen em parceria com a Fiocruz, foi observado com base nos dados obtidos, indícios de saturação no mercado, com desemprego aberto e achatamento salarial. Logo, nos questionamos a respeito dos fatores que contribuem para esse processo e muito facilmente percebemos que há relação com o fato de haver uma demanda na busca pelos cursos, em todos os níveis e também em decorrência da oferta desses cursos por instituições sem uma estrutura necessária para a formação de profissionais qualificados.
    Em reflexo da má formação acadêmica desses profissionais, temos uma desvalorização da enfermagem em sua complexidade. É importante dizer que, além de uma formação com base cientifica e técnica, se promova atividades com o objetivo de ativar o altruísmo e empatia dos discentes em enfermagem, além de incentivar a participação e relação entre os estudantes, para que assim consigam se relacionar de forma mais dinâmica, sendo preparados para o mercado da enfermagem, onde se faz necessário a atuação de profissionais com uma bagagem de conhecimento técnico- cientifico e humanizado.  
    Uma medida visa reverter todo o processo que foi citado anteriormente. É o projeto de lei 4930/2016, apresentado pelo deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB- BA) em apoio do Cofen. A PL propõe a criação de um exame obrigatório de suficiência em enfermagem. Logo, os futuros profissionais de enfermagem deverão passar por uma avaliação e será necessário obter um escore mínimo para atuar na área. Sendo assim, haveria uma filtração de profissionais qualificados e uma melhora significativa na assistência prestada pela equipe de enfermagem.
    Mesmo diante do cenário complexo, mantenho a esperança de que no futuro viveremos numa realidade divergente e que ela se apresente de forma positiva. A realidade da área que escolhemos para seguir ,o que lemos e ouvimos, faz com que façamos uma reflexão e infelizmente, alguns optam por não seguir, eu espero que essa não seja a sua realidade. Eu irei seguir firme e com foco, pois, o caminho não me assusta, tenho medo de não caminhar.
    Enquanto medidas não são adotadas, recomendo que façamos nossa parte. Que a sala de aula não seja o único lugar para filtrar informações, navegue pelo mar do conhecimento e humanização, não se permita ser um individuo autômato, mas, autônomo. Seja a enfermagem que desejas para o mundo.
  • Enfim entendemos o significado de união

    A humanidade se regozija
    Estamos vivendo a era da prosperidade
    Tecnologias por todo lado
    Tudo estava bem...
    Cada vez mais e mais descobertas
    Cada vez mais e mais máquinas
    Meio ambiente?!
    Passado
    Em breve não precisaríamos mais disso 
    Seríamos capazes de produzir nossos próprios recursos naturais
    Áreas verdes de nada mais serviriam
    Estariam apenas ocupando espaço
    Barrando o progresso
    Logo seriam substituídas por empresas
    Afinal, elas geram lucro

    No entanto, tantas descobertas e inovações
    Nos deixaram ignorantes
    Egoístas
    Detemos tanto poder, tanta inteligência
    Passamos a nos achar invencíveis 
    Seres racionais usando sua racionalidade
    Nada de mais...
    Nos tornamos dependentes da tecnologia
    E como tolos permitimos que o mecanismo que quebrava fronteiras e unia a humanidade,
    Servisse como ferramenta principal para separa-la 
    Guerras 
    Disputas 
    Tecnologia sendo usada em armamentos nucleares
    Bombas capazes de destruir uma cidade inteira
    Humanos se achando deuses
    Para que retórica se existia violência?!
    Impor ideias é bem menos cansativo

    O mundo estava todo conectado
    Mas a humanidade nunca esteve tão desunida 
    Por isso, que quando uma pandemia assolou o mundo
    Tudo parou
    Desespero
    Mortes em massa
    Recursos chegando ao fim
    Tão pertos mas ao mesmo tempo tão distantes de uma cura
    A humanidade foi lembrada de sua fragilidade
    Haviam coisas que, não importa o quanto o quanto evoluíssemos,
    Nunca seríamos capazes de controlar

    E somente assim foi que nos lembramos do significado de união
    De empatia
    De amor ao próximo
    Finalmente percebemos que somos mortais
    Que a tecnologia não é capaz de resolver tudo
    E principalmente, fomos capazes de recpnhecer a importância do outro

    Mas, apesar de tudo
    Ainda existem aqueles que insistem em
    Tornar político um problema relacionado à saúde
    Querem alguém a quem culpar 
    Querem ver o circo pegar fogo
    Tais pessoas
    Culpam o presidente
    Culpam a China
    Culpam os ricos
    Culpam as pessoas por saírem para trabalhar
    Mandam ficar em casa
    Mas criticam o fechamento do comércio
    E o isolamento social
    Há mesmo aqueles que desdenham da pandemia
    Chamam de gripe
    Um golpe para desestabilizar as grandes potências
    Porém, como culpar os outros
    Como criticar
    Poderia milagrosamente mudar nossa situação?!
    A preocupação maior não deveria ser
    Como venceremos isso?!
    Devemos todos focar em acabar com tudo isso
    Agora mais do nunca devemos estar unidos
    Todos se ajudando 
    Sem discriminação
    Sem desigualdade
    Nesse momento é crucial que seja a humanidade 
    Contra o Covid-19

    Aos governantes, sabedoria
    Ao povo, paciência e compreensão
    Vamos vencer
    Mas para isso cada um deve fazer a sua parte
    E ajudar da melhor forma possível
    Afinal,
    Juntos somos mais fortes!
  • Enlouqueço na cidade

    Silêncio. Tudo o que eu gostaria neste exato momento se resume a isso: ausência absoluta de sons. Tento utilizar meu quarto como espaço de isolamento, mas os barulhos nos cômodos ao lado e nas casas vizinhas tornam meu desejo algo impossível. Percebo, assim, que não encontrarei o estado almejado se ficar em casa, e, com isso, vagueio pelos arredores de minha imaginação buscando lugares onde meu sonho possa se tornar realidade. O que encontro, na verdade, são lugares utópicos, acessíveis tão somente às minhas especulações, a exemplo de paisagens bucólicas nas quais não se vê um mísero ser humano; em outras palavras, imagens da natureza em sua plenitude, despida de quaisquer intervenções artificiais.

    E quanto aos lugares físicos, obras dos sentidos? Nada, a não ser frustração. Isso porque chego à conclusão segundo a qual, vivendo em meio urbano, estou o tempo todo convivendo com a agitação, multidão e hiperestimulação das grandes cidades; é tudo muito rápido, movimentando-se num ritmo frenético e desenfreado. Disso, o silêncio se torna uma miragem, já que aquilo que nós, cidadãos civilizados, consideramos por ausência de sons, não passa de um barulho ensurdecedor aos menos habituados.

    Aliás, refletindo sobre a situação, acho irônico abrir o dicionário e ver como sinônimos do adjetivo urbanidade, isto é, qualidade daquilo que é urbano, palavras como cortesia, gentileza e afabilidade; acho que todas elas se encaixariam melhor enquanto antônimos do respectivo adjetivo àqueles que, como eu, buscam por um mínimo de silêncio em suas rotinas.
  • Entre Lobos (conto-romance) 4/9

    principal
    Não se sinta perdido. LEIA os capítulos anteriores! Tenha uma ÓTIMA leitura!

    Naquela manhã de sábado Mark ligara para Derek pedindo para que o amigo viesse dar uma olhada na sua Formosa, apelido carinhoso que dera a sua motocicleta. Ainda perto do meio dia, ele apareceu por lá. Mark já o esperava disposto a dar cabo de tudo sozinho.

    — Ela não liga, Dek. – adiantou o problema. — Não está dando partida. – explicou ainda.
    — Vamos ver. – o outro disse depois de aproximar-se e cumprimentar o amigo que se mostrava preocupado com a situação.

    Já haviam se passado alguns minutos desde que Derek procurara desvendar o problema quando um automóvel escuro estacionou sobre o gramado em frente a casa. Sem dar atenção, ele continuou fixo no que estava fazendo, diferente de Mark que ao perceber quem chegara lgo  foi recepciona-los.

    — Mãe! – disse indo em direção ao carro. — Eles chegaram. – avisou.
    — Mark! – um senhor falou depois de desembarcar Do vveículo. 
    — Tio. – cumprimentou o homem com aperto de mão e um abraço.
     
    Em seguida uma mulher desembarcou acompanhada de suas duas filhas.

    — Ajude sua tia, sim. – sugeriu ao sobrinho. — Trouxemos algo para o almoço.
    Mark contornou o veículo e deu auxílio a Dna. May.

    — Deixe que eu levou tia. – adiantou-se pegando uma bandeja larga. — Olá Mary... Katy. – cumprimentou suas primas também.

    Então, Derek, voltou-se para trás e viu Katherine deixar o veículo. Mark, acompanhado pelos demais veio em direção a residência.

    — O que houve? – o homem parou por um segundo ao ver o que estava acontecendo.
    — Minha princesa não está bem. – Mark respondeu pelo amigo. — E esse é meu anjo da guarda – referiu-se ao amigo agachado — Dek esse é meu tio Alan e tio Alan esse é Dek. – os apresentou.
    — Me desculpe, senhor. – Derek pôs-se em pé. — Eu o cumprimentaria, mas... – estendeu as mãos mostrando o quanto estavam sujas.

    O rapaz não soube se seria muito educado cumprimentar o senhor daquela forma. Deixou de ter dúvidas quando percebeu que o homem lhe estendera a mão. “É o melhor.” Ouviu Mark falar logo ao lado do senhor.

    — Deixe disso, rapaz. – o homem disse. — Mãos como essas representam o progresso.

    A poucos passos as costas dos dois cruzou Katherine que o fitou discretamente. Mary o ignorou completamente assim como Dna. May. Na entrada da casa surgiu Sofya, mãe de Mark, uma mulher simpática e sorridente que agora as esperava calorosamente. Mark, juntamente com seu tio, seguiu para dentro de casa.

    — Já volto, Dek. – avisou e a verdade é que realmente não levou muito tempo até que estivesse de volta. — E então... como está indo? – pediu com certa preocupação.

     Sem responder, Derek prendeu novamente a mangueira a uma pequena saída do motor e pediu para que o outro tentasse dar partida novamente. Como por um milagre, a motocicleta respondeu imediatamente.

    — Eu sabia! – Mark contente. — Você daria um jeito, Dek!
    — Coisa simples...
    — Bem... Como minhas economias andam...escassas. – agora o outro explicava-se. — Não tenho como te pagar, mas – desligou a moto. — O que acha de almoçar com nós.
    — Não acho que seja uma boa ideia. – respondeu. — Me parece uma reunião íntima. – referiu-se ao encontro dele com os familiares.
    — Não, não! Deixa disso! – o convidou com um movimento de mão. — Meu tio provavelmente te interrogue, mas é uma boa pessoa. Pelo visto ele gostou de você.
    — E isso é bom?
    – Depende do quanto você corresponda as expectativas dele. – riu-se.

    Percebendo que não existiria uma maneira de impedir que aquele convite se desfizesse seguiu o amigo para dentro da residência.

    Derek sentiu-se um pouco acuado sentado à mesa. Diferente dos demais, ele usava uma vestimenta mais informal. Até mesmo Mark que entre todos era o que mais se assemelhava a ele, estava ou lhe pareceu aquele momento, especialmente bem alinhado.

    — E então... Derek. – o senhor dirigiu-se a ele. — Tem dom para concerto?

    Mark, então, o fitou como se lhe dissesse “Falei que isso podia acontecer”.

    — Bem... Trabalho na oficina de meu pai. – explicou objetivamente. — Ajudo a...resolver algumas coisas.
    — E vejo que se sai muito bem, não. – referiu-se a moto do sobrinho.
    — Obrig...
    — Ainda que se evolva em problemas nas horas vagas. – Mary soltou num sussurro, mas que claramente pode ser ouvido por todos.
    Mark posicionou-se.
    — Aquele dia foi apenas um... Equívoco.
    — Chame como quiser, Mark. – Mary. — A meus olhos vocês não passavam de dois baderneiros.

    Então, estalou-se um certo desconforto a mesa. Derek arrependeu-se no mesmo instante em ter aceitado aquele convite. Não tinha sido o suficiente ter passado a impressão errada na primeira vez, ainda teria que ser exposto ante a família inteira de Katherine, que tanto quanto a última vez, mantinha-se calada. Tanto ele quanto Mark foram envolvidos pelas desaprovações de todos.

    — Mas Dek não teve culpa. – Mark esclareceu. — Tudo o que fez foi ajudar.
    — Uma confusão sempre será uma confusão! – o homem colocou fitando os dois. — E não tolero baderneiros, Mark! São um atraso. E em respeito a memória do grande homem que foi teu pai, não vou tolerar ou permitir que você se torne um. – completou apoiado por sua irmã Sofya.
    — Obrigado, Mary. – então Mark dirigiu a prima. — Finalmente estou conseguindo ser visto como um delinquente. – debochou ao mesmo tempo em que abocanhava um pedaço de carne.

    Ela apenas ergueu as sobrancelhas lembrando algo do tipo “Não há de que”.
  • Entrevista com Alexandre Soares Ribeiro, autor do mangá 10º Símbolo

    1) A internet ofereceu ferramentas para que quadrinistas independentes pudessem mostrar o seu trabalho. Para além de uma vitrine, se tornou também um espaço de venda e distribuição das obras. Como você encara a relação entre o espaço virtual e os quadrinhos autorais?
    AR – Em primeiro lugar, muito grato pela oportunidade de falar sobre o tema de quadrinhos independentes. Quanto à pergunta, acredito que se por um lado é um excelente momento para inúmeros artistas procurarem o seu público, e é bastante interessante a exposição de obras criativas bem diferentes, por outro lado, o mundo das HQs independentes é bastante complicado, pois a maioria dos artistas não consegue viver apenas de sua arte, mas isso é apenas mais um desafio a ser transposto e considero que isso serve de estimulo para filtrar obras e autores que realmente desejam ter a determinação de persistir. Com isso em mente, mais cedo ou mais tarde, aqueles que forem disciplinados e tiverem um bom conteúdo penso que irão se destacar de forma digna e justa, apesar de todos os obstáculos.
    Assim, o espaço virtual torna-se uma grande ferramenta, porém, exige uma certa dedicação e estudo para que autores possam tirar todo o proveito de forma útil para conseguirem o engajamento do público que buscam. É uma tarefa contínua e sempre em evolução, pois o autor tem que pensar em muitas formas de tornar o seu trabalho interessante, devido à grande variedade de outros materiais e possibilidades, mas creio que pode haver espaço para todos aqueles que trabalharem com afinco.
    2) O desenho é uma das primeiras formas de comunicação de um ser humano. Você começou a produzir na adolescência. Qual o papel que o hábito do desenho desempenha na sua vida cotidiana?
    AR – Na verdade, desde mais tenra idade, o desenho para mim era algo mais do que uma brincadeira. Sempre dedicava mais tempo para o desenho do que uma criança comumente faria. O desenho era mais do que um espaço dedicado a exercício da imaginação como brincadeira, sempre senti que era um momento de criação e reflexão para elaborar mundos e ideias que só existiam e tinham muita importância em minha mente. Na adolescência, isso se ampliou e foi se tornando cada vez mais meu foco. Não só criava personagens, pensava na história de cada um, em seus detalhes, era como dar vida sem limites a algo desconhecido, mas que também deveria soar familiar como meio de comunicação e expressão diante das outras pessoas. O desenho no meu dia a dia é um modo de deixar a minha consciência sempre ativa e lúcida, trabalhando continuamente como um meio de me reconhecer, compreender meu valor como pessoa e procurar meu próprio jeito de me expressar perante o mundo a minha volta.
    3) Além de quadrinista, você trabalha no mercado publicitário desenvolvendo vários trabalhos. Nos conte um pouco como é o cenário para os ilustradores nessa área de atuação?
    AR – É bastante interessante sua pergunta, pois ela pode ter as mais variadas respostas devido as nuances do próprio mercado e dos clientes que possuem variadas formas de ver o profissional de desenho. Dentro da minha experiência pessoal, já passei por todos os tipos de situações, desde trabalhos onde a minha aptidão com desenho era extremamente valiosa para o cliente, bem como para outros, era um mero meio para atingir um fim específico, um pouco mais que um chamariz interessante, mas que o próprio cliente acabava vendo com um certo descaso. Então, o mercado é bastante complexo, pois até conseguir compreender onde estão e quem são os bons clientes e oportunidades, é necessária uma certa “intuição”, por assim dizer, para compreender tanto as necessidades do mercado, como o tipo de cliente com o qual se está lidando, bem como o tipo de projeto que será proposto. Apesar de na maioria do tempo, o desenho em nosso país não ser algo valorizado como deveria, há sim profissionais e clientes engajados que compreendem o valor tanto artístico, quanto comercial que a arte da ilustração possui, pois existe um o toque singular e imensamente ilimitado que o desenho pode dar a qualquer projeto devido a como cada profissional tem um jeito único de se expressar. Assim, aliado a uma boa técnica, projetos, produtos ou ideias que acabariam passando despercebidos podem realmente se destacar de forma relevante através da ilustração, ajudando não somente a somar valor para o cliente, como também reforçar a importância dos profissionais dessa área como um todo.
    4) Nas décadas de 1960-1970, o Brasil possuía um mercado de publicação de obras em estilo mangá. Eram publicados pela Editora Edrel. Ao longo dos anos, perseguição política e crises econômicas acabaram minando a construção de um mercado de quadrinhos nacionais, no sentido amplo. Como você analisa a interferência dos aspectos econômicos e políticos na produção de quadrinhos?
    AR – Dentro dessa questão, o que vejo como ponto mais importante é que em toda a crise, seja ela de cunho social, político ou econômico toda a forma de expressão cultural é a primeira a sofrer, mas também a primeira a se fortalecer na tentativa de sobreviver àquilo que tenta minar o avanço de ideias e a evolução da consciência sobre como a sociedade está lidando com aquele momento específico. Apesar de não termos um mercado realmente próspero completamente estabelecido, fico surpreso com a capacidade e a determinação de artistas e simpatizantes da nona arte em sempre buscarem novos meios de continuar dando um passo adiante. O povo brasileiro é um povo extremamente criativo, devido a sua grande diversidade cultural, e por este mesmo motivo, creio que acabamos nos reinventando a cada dificuldade que encontramos. No mercado americano, por exemplo, ao mesmo tempo em que um artista de HQ pode se tornar altamente reconhecido, o mesmo não tem às vezes tanta liberdade para fazer completamente tudo o que quiser, pois muitas vezes está preso a uma cartilha comercial e a contratos que não permitem certas experimentações. No mercado japonês de mangá, ao mesmo tempo em que um artista pode atingir um grau elevado de reconhecimento, o mesmo também pode ficar extremamente preso a sua obra ou ao seu trabalho, e isso pode gerar um alto nível de tensão, tanto de cunho comercial como pessoal, pois conheço casos em que o mercado editorial japonês é tão pesado, que um artista praticamente não possui dias de folga, apenas algumas horas em determinados dias. Isso torna aquele mercado extremamente denso, culturalmente falando, com uma grande pressão produtiva. Então, no Brasil, apesar de todas as dificuldades, a nossa diversidade e informalidade nos propícia inventar meios diferentes de trabalhar com quadrinhos como em nenhum outro lugar. Podemos abordar quase qualquer tema da forma que quisermos, dentro de um bom senso é claro. Sinceramente falando, não sou lá muito fã de um mercado altamente formalizado, pois se pelo aspecto mais profissional é interessante uma base de sustento fechada, para outros acaba se perdendo a oportunidade para o espaço de novas ideias e formatos de trabalho. Não há grandes investimentos formais em todo o tipo de ideias e fica-se preso à coisas, como a Turma da Mônica (que é um excelente trabalho, mas que praticamente não tem nenhum concorrente a sua altura. Por este motivo é que gosto tanto do trabalho independente, pois cada artista dependerá do seu nível de competência, empenho e engajamento com seu próprio projeto para se destacar de alguma forma. Então, vejo que mesmo não tendo um mercado mais formal que poderia dar mais estabilidade a inúmeros profissionais de ilustração, talvez ficássemos presos a situações em que a diversidade seria mais restrita. É na dificuldade que vejo como podemos ser criativos e diferentes, possuindo uma pluralidade que não existe tanto em outros lugares do mundo. Então, mesmo quando passamos por crises que interferem na produção de quadrinhos, sinto que temos capacidade de sobra para inventar outros meios de sobrevivência da cultura das HQs em nosso país. O ponto-chave é o engajamento, e toda a forma de arte sempre lutou contra tudo que a pudesse barrar de qualquer forma. Então, mesmo que existam interferências e problemas pelo caminho, a nossa diversidade é a nossa maior força, fazendo com que muitos artistas continuem empenhados em criar novas formas de estabelecer meios de produção e comunicação realmente singulares. Isso ajuda a dar força a nossa diversidade cultural e a busca da resolução dos problemas que os artistas e profissionais envolvidos com HQ no Brasil enfrentam. Nosso mercado sobrevive com muita dificuldade, mas sobrevive como nenhum outro poderia, pois quanto mais diversidade de meios de perseverança, mais chances teremos de que uma semente vingue e menos limitações para sua evolução na busca de formas para continuarmos seguindo em frente.
    5) Em 2020, as sucessivas crises políticas e econômicas já deixavam o mercado editorial em alerta. Somado isso a uma pandemia e greve dos Correios, nos parece que as pessoas voltaram a redescobrir o prazer de ler em seu isolamento social. Um quadrinista independente pode se aproveitar desse momento para viabilizar suas publicações e quais ferramentas ele pode usar para difundir a sua obra?
    AR – Realmente, apesar das complicações sociais geradas pelo isolamento social, existe uma janela de possibilidades diferenciada. Dependendo de como era o posicionamento editorial de uma determinada empresa ou de um autor independente, o momento pode ser propício para alguns e danoso para outros. Explico: aquele mercado editorial que já era mais virtual, e que se voltava para um foco em vendas on-line, ou que tinha ao menos uma boa parcela de sua produção destinada a esse mercado, acabou por ter uma grande vantagem. Atualmente, tenho feito alguns trabalhos free-lancer sobre demanda para uma editora focada em livros infantis e de saúde mental para adultos do Sul do país, que já tinha um bom foco em vendas on-line e com a situação a qual estamos vivenciando, suas vendas dispararam, como nunca antes, trazendo um excelente momento para a ampliação e ainda mais foco na produção para as vendas virtuais. Isso mostra que é necessário compreender as ferramentas disponíveis, estudando e compreendo-as para que possam ser usadas da melhor forma possível, dentro dos objetivos que se busca, seja na abordagem de uma empresa ou um autor independente. Creio que neste sentido, autores independentes já tem uma pequena vantagem, pois muitos já utilizavam as redes sociais para estabelecer o seu espaço. E com essa parada brusca de uma grande parte da população, onde a rotina foi desacelerada ou alterada por completo, o meio virtual que já é tão presente em nossas vidas se tornou a nossa forma mais intensa de interação com as pessoas e com o mundo, abrindo também espaço de tempo para novas buscas virtuais, às quais não se teriam tanta disponibilidade anteriormente. Creio que para os quadrinistas é um momento no mínimo diferente de tudo, pois se houver um trabalho sério e continuo para a divulgação de seu trabalho ou projeto, como as pessoas tiveram mais tempo para ficarem navegando nas redes, as probabilidades de se conseguir engajamento e visibilidade estão bem maiores. Mesmo que diante de tamanha crise social e sanitária tenhamos imensas dificuldades, aqueles que conseguirem se adaptar e aceitar melhor todas as exigências que essa dificuldade restritiva impõe com criatividade e trabalho árduo, conseguirão passar por este momento de uma forma, digamos assim, com uma resiliência mais natural que os demais, pois já estão acostumados com limitações, dificuldades ou seu foco já era diferenciado no que se refere à sua exposição, pois sempre buscavam ativamente novas oportunidades. Apesar de todas as suas complicações e efeitos que provavelmente durarão anos, aqueles que se atualizarem a este momento, conseguirão também um espaço. Aqueles que conseguirem ver as brechas e chances que os demais mais habituados a uma maneira mais pragmática não conseguem, irão se destacar e saberão melhor como agir. As pessoas estão utilizando mais as redes sociais, com mais tempo, então a probabilidade de alcance se ampliou a quem conseguir criar ou já tiver um trabalho sério. Acredito que quem realmente souber inovar terá sua chance para poder se destacar de alguma maneira.
    6) Seu traço tem um quê de singular. Tem uma identidade muito bem definida, ao mesmo tempo em que nos remete aos anos 80. Quais influências o ajudaram a elaborar o seu estilo de desenho?
    AR – Muito interessante como você notou essa nuance, realmente, sou uma cria dessa década, apesar de durante todos os anos 80 ter sido criança e só ter entrado na adolescência nos anos 90, sempre prestei muita atenção na cultura dos desenhos da época, seja através de desenhos animados ou animes, quanto de modo impresso. Sempre fui muito eclético quanto a desenhos, então consumia de tudo um pouco. Creio que as mais variadas formas de desenho possuem o seu valor único e que não podem ser comparados sem profundidade. Não consigo ver um desenho realista sendo altamente superior a um desenho cartoon, apenas com base em um exame sobre qual técnica exige mais tempo, ou horas dedicadas, ou ainda mais perfeccionismo de detalhes. Por exemplo, um ilustrador realista pode perder horas e até dias, semanas ou meses fazendo um único desenho, isso apura sua técnica e ele fica cada vez melhor em reproduzir fielmente aquilo que usa como referência para a sua arte para fazer o mais idêntico possível ao que ele vê. Porém, observemos um ilustrador de cartoon, que cria um jeito único de se expressar, algo nunca visto antes, algo que só aquele artista vê daquela forma. Ele também dedicará horas, dias, semanas, meses e até anos pare refinar cada vez mais o seu traço, a sua técnica e o seu universo de ideias para os personagens e histórias que está criando. Gosto muito de dar o exemplo, para este caso, do cartunista Jim Davis, criador do personagem Garfield. Pegue suas primeiras tiras, sua linguagem tanto em sua abordagem de comunicação, quanto sua técnica de traço foram refinadas e cada vez mais aprimoradas com o tempo. Isso levou décadas para ser ajustado. Houve a dedicação de toda uma vida para que o personagem fosse único em todos os sentidos. Então, o esmero de Jim, vai além de aprimorar a sua técnica de desenho, mas em evoluir todo o universo e a linguagem expressiva desse personagem. É por isso, que minhas influências são tão expandidas, estou sempre observando valores diferentes para as mais diversas técnicas de desenhos ou expressão de ideias através da ilustração. Tenho uma lista bem grande dos principais artistas que gosto. Hoje em dia, vejo muitos desenhos singulares, mas com um jeito de se expressar que foram indo em contraponto a um modo mais polido de desenho, que era característico dos anos 80.  Pegue desenhos animados do Tom e Jerry antigos, os cenários eram bem mais trabalhados, cores ricas em detalhamento e uma abordagem mais bela tecnicamente falando. Em comparação, os desenhos atuais destes mesmos personagens têm uma melhora em certas técnicas, porém, a polidez se foi, o esmero com detalhes foi deixado um pouco de lado mediante a facilitação para a sua produção e a busca por baratear custos. Os tempos são outros, claro, mas se por um lado há inúmeros desenhos que só são possíveis de serem produzidos nos dias de hoje, por outro lado muitas técnicas acabaram sofrendo uma baixa em certos aspectos que faziam com que os desenhos mais antigos fossem belíssimos. E isso também serve para animes, veja como eram feitos alguns, como por exemplo o aclamado filme - Akira - de Katsuhiro Otomo, apesar de termos técnicas superiores para a produção de um anime, ele se destaca até os dias de hoje devido ao grande esmero e aguçado requinte de detalhes em sua criação. Então, em resumo, possuo inúmeras influências tanto ocidentais, quanto orientais, desde o cartoon mais louco e despojado, até a arte mais rica em detalhes e mais acadêmica. Por isso, o meu estilo mangá, mesmo podendo ser visível certas referências, há uma gama de nuances, pois primeiramente gostava de desenhar no estilo comics americano. Então, adaptei o estilo ocidental somando detalhes únicos do estilo oriental. É fácil ver que eu desenho mangá, porém, por buscar um detalhamento singular para o meu traço, o meu jeito de criar nesse estilo é bem diferenciado e até incomum. Tento fazer algo que misture coisas clássicas e modernas, mas o meu maior foco, são os detalhes, mas claro, dentro de um contexto com verdadeiros motivos para que aquele mínimo detalhe esteja ali quando o ilustro. Por isso estou sempre em busca do equilibro entre a polidez, a simplicidade com detalhes que façam a diferença de forma profunda. Um exemplo disto, é que todos os meus personagens, apesar da minha identidade bem definida de criação, nenhum é realmente parecido com o outro. Sempre há detalhes que busco dar e que sejam realmente importantes para a caracterização de um personagem em sua distinção mais plena em vista de outro. No estilo mangá é bem comum que personagens variem muito pouco em alguns detalhes, e geralmente, o cabelo é que dá a maior diferença de um para o outro. Há o exemplo disto em alguns ilustradores americanos também variando muito pouco o rosto dos personagens e até seus corpos, porém, eles tentam diferenciar muito mais os personagens. Assim, eu busco dar a cada personagem diferenças realmente únicas. Tenho dezenas de personagens que desejo mostrar em minha série de mangá o 10º Símbolo, e cada um tem detalhes muito singulares, que dão extremas distinções entre eles. É muito corriqueiro que as pessoas vejam similaridade entre o meu traço e o de Dragon Ball Z, porém, os personagens de Akira Toryama variam pouco anatomicamente falando, salvo um ou outro que possuem maior destaque de diferenças. Entretanto, vejo que a esmagadora maioria dos personagens deste grande autor, que é sim uma grande referência para mim, variam muito pouco no formato de rosto, olhos, nariz, boca, orelhas, sobrancelhas, formato da cabeça, mas estas são as bases do desenho de Akira, e não há nada de errado nisso, são seus fundamentos chave. Já nos meus, estou sempre buscando trazer diferenças ao máximo possível, esta é a base para reconhecer o meu traço, bem como o meu modo de expressão. Eu procuro ir numa vertente onde quase nenhum personagem meu terá coisas muito parecidas com os outros. Procuro no mínimo misturar bastante as minhas bases. Posso ter umas sete formas de fazer uma orelha, 10 de fazer os olhos, 5 de fazer a boca, 20 para os formatos de cabeça e rosto, 8 para sobrancelhas, 9 para nariz, 10 estilos de corpos... e por aí vai; tento misturar isso tudo, pegando cada elemento e ir fazendo combinações diferentes para cada personagem com bastante atenção. Não é só o formato do cabelo ou roupas que fará aquele personagem diferente, são todos os seus detalhes mais básicos, como sua própria anatomia em todos os seus pormenores que passam despercebidos em primeiro momento. Claro, isso as vezes não é tão prático na produção de mangás, porém, creio que ajuda no destaque. É como se cada personagem meu fosse uma senha, composta por, digamos, 4 dígitos. Então, se calcularmos esses dígitos, na criação de meus personagens, eu teria um nível de distinção de 10 mil combinações ou distinções possíveis. Assim sendo, isso salienta um volume de acabamentos únicos ao meu universo de ideias, e devo dizer, amo criar sem parar. É isso que busco, sempre aquele detalhe único que fará toda a diferença no meu estilo de traço e de criação.
    7) Os quadrinistas possuem, basicamente, ao menos três formas para publicar. O modo tradicional, através de submissão por uma editora; a publicação através de concursos; e por fim, a autopublicação, seja impressa ou digital. Comente como você percebe cada uma dessas formas.
    AR – Cresci lendo em primeiro momento alguns cartoons, mas principalmente quadrinhos de super-heróis americanos e só posteriormente com 12-13 anos, me aprofundei mais na leitura de mangás. Já lá pelos meus 20 anos, busquei algumas coisas mais alternativas com um destaque diferente. Por isso, consigo perceber bem, e acho que todo mundo consegue perceber, no primeiro caso do mercado através das editoras há uma certa frequência de fórmulas repetidas. Principalmente nos quadrinhos americanos, que poucas vezes buscam criar algo novo de fato (isso nas grandes séries de histórias em quadrinhos), focando uma vez ou outra mais numa renovação ou atualização do que já existe. No oriente, isso não é um grande problema, pois culturalmente, mesmo com toda uma questão de produção comercial, muitos personagens tem uma história mais próxima da nossa realidade, no que diz respeito a sua evolução. Muitos personagens nascem, crescem e morrem de forma definitiva. Ou seja, há um grande espaço para renovação real e para surgimento de algo completamente diferente. Entretanto, ambos os mercados têm suas práticas mais rígidas comerciais, que não permitem tanta experimentação mais abrangente de fato em alguns casos, mas é bem claro que os mangás tem maior vantagem neste sentido, mesmo com toda a pressão que alguns artistas recebem devido à como se dá a cadeia produtiva. Já nos quadrinhos americanos, para surgir coisas realmente diferentes no mercado mais massivo, há de se contar com uma grande criatividade e uma capacidade expressiva bem diferente, que poucos artistas conseguem ter, e como o foco muitas vezes pode ser apenas a venda de fato, o conteúdo pode ser bem mediano, na grande maioria do tempo com quase nada muito diferente, pois muitas das histórias e personagens estão praticamente em um tempo infinito, com uma progressão ilusória sobre a passagem de tempo, mas sempre retornando a um certo estado idêntico das coisas como eram antes, podendo haver uma diferença aqui e outra ali, mas o status quo geralmente volta ao que era para um novo começo não muito longe de sua base.
    Quanto a publicação através de concursos, realmente sei muito pouco, pois não sou tão engajado nessa estrutura. Mais creio que tudo pode ser válido no sentido de ter sua obra publicada, toda a oportunidade deve ser utilizada, desde que bem compreendida para isso. Eu gosto sempre de me preparar para as coisas, planejar, ter ideias realmente práticas e de qualidade, para alcançar o objetivo de forma satisfatória, mas claro, quando possível, ultrapassando expectativas, só que com um pé na realidade, por mais idealista que eu seja. Até mesmo porque isso ajuda na disciplina de criação para que não haja desapontamentos ou a criação de expectativas desmedidas. Então, se eu fosse por este caminho dos concursos, eu realmente estudaria bastante sobre isso para poder aproveitar as vantagens e me desviar ao máximo das desvantagens que essa possibilidade pode apresentar.
    Já a autopublicação é onde eu realmente me encontrei, apesar de procurar seguir uma determinada disciplina de criação, tenho um jeito muito peculiar de fazer as coisas. Então, me cobro demais para fazer certas coisas, mas essa cobrança é com base na minha realidade e de como enxergo aquilo que vou produzir, e não através de um grupo de pessoas ou uma organização. Não que seja ruim, ter uma troca de ideias para se aprimorar ou até mesmo uma imposição de alguns limites editoriais, mas é que prezo muito por uma liberdade no meu modo de produzir e criar que não encontrei em nenhum outro caminho. Quando considero um detalhe importante, mesmo que de fato não o use de todo naquele instante, posso achar interessante usar meu tempo para aquilo, pois isso, esse trabalho mental, de criar intensamente, faz parte de mim, pois prefiro criar muito e depois ir apenas lapidando o que considerar essencial, do que já me determinar muito por uma orientação muito presa, onde não posso extrapolar certos conceitos porque certas regras impõem outro caminho de produção. Procuro sempre cumprir prazos, principalmente aqueles que imponho a mim mesmo, porém, não deixo que isso estrague a qualidade do que quero expressar. Por isso, cada vez mais me vejo como um quadrinista independente em todos os sentidos, para poder me expressar de forma integral sobre aquilo que desejo, seja com as minhas qualidades ou defeitos. Evoluindo assim de forma mais natural e menos impositiva, mas claro, me cobro muito mais do que qualquer um me cobraria, quando me determino a produzir algo, só que essa auto cobrança tende a ser muito mais satisfatória no sentido que alcanço meus objetivos com mais autenticidade. Conseguindo revelar essencialmente muito mais sobre mim, meu método de trabalho e forma de criação.
    8) Eu considero 10º Símbolo um achado do mangá nacional. Ele está em financiamento coletivo pelo Catarse. Já vimos muitos casos de sucesso no Catarse de obras nacionais, em mercados considerados de nicho, como o RPG. Bem, agora chegou o momento. Nos conte sobre o seu projeto, quais as recompensas e o diferencial da sua obra.
    AR – Realmente, foram anos me preparando para este momento, e fico muito feliz com isso, pois também fiquei muito grato de encontrar uma ferramenta como o catarse que auxilia muitos artistas e autores, que assim como eu, sonham em ter sua obra produzida, encontrando um público que sinceramente tiver afinidade pelo projeto. Isso não tem preço. Também é excelente ver o quão criativo, diversificado e único é essa cultura de orçamento coletivo. Antes de criar o meu projeto, passei mais ou menos 2 meses estudando a plataforma, vendo inúmeros projetos bem-sucedidos, mas principalmente, com um nível de qualidade superior até mesmo ao de grandes editoras. Isso não só me surpreendeu, como me motivou a entender que esse também era o meu caminho. E ver uma comunidade como é a plataforma Catarse, um verdadeiro celeiro de criatividade e de infinitas possibilidades, me ajudou a ter um senso de autoconfiança e de empatia maior com autores independentes, pois encontrei muitos projetos e autores extremamente apaixonados por aquilo que fazem. Isso é ótimo, pois é sempre bacana ver pessoas que estão em um caminho parecido com o seu, mas com sua própria história para contar e seu espaço por conquistar.
    Quanto ao meu projeto, creio que o meu principal diferencial é que quero abordar ideias bastante originais, mesmo que hajam coisas que possuam similaridade com algo já existente, garanto que a abordagem será realmente única em todos os sentidos. Em meu universo, ou melhor, no mundo pós-apocalíptico que criei, existem 5 espécies de seres humanos diferentes coexistindo. Não sendo isso o bastante, uma força externa sobrepujou todo o planeta, ou seja, são espécies em conflito, tendo que lidar com algo que as dominou, mas veja bem, nesse mundo, nada é o que parece, e o que os leitores acharem muito óbvio, com certeza não será, conforme as edições forem sendo produzidas por mim. O que desejo entregar com essa primeira publicação e começo de universo é algo genuíno, que possa de fato de alguma forma ser familiar, mas que forme conexão com tantas coisas que poderiam não ter nada em comum, mas que darão corpo e um requinte de detalhes originais. Desejo também passar uma mensagem interessante e relevante, de esperança, de união, da forma mais original possível, mesmo que haja entretenimento envolvido, e isso se dará conforme as próximas edições forem se seguindo. Nada, do que irei trazer para essa história, será colocado ao acaso, algumas coisas terão linearidade e outras nem tanto, mas tudo faz sentido no todo e tem sua importância no final. Foram anos dedicados a criar uma coesão para estes personagens e sua história. Então, acho que é chegado o momento de ver até onde até tudo isso pode ir, com o apoio de todos os colaboradores que tiverem interesse no projeto.
    Na questão das recompensas em busca de apoio, basicamente preparei 8 materiais, distribuídos em 12 combinações, pensadas com muito carinho visando agregar muito valor e gratidão à todo o suporte dado pelos apoiadores. Os materiais são os seguintes:
    - Prévia- digital do prólogo de introdução da história 10º Símbolo (algo para que realmente as pessoas já possam se envolver, enquanto esperam a produção impressa do mangá e as demais recompensas);
    - Revista Impressa em formato A5 (14,5 x 21cm);
    - Artbook Galeria de Criação de Personagens (20 x 20cm);
    - Mochila Saco Sport personalizada 10º Símbolo;
    - Camiseta Quality 100% Algodão Personalizada com Estampa Digital;
    - Quadro Tamanho A4 (21 x 29,7cm), com vidro acrílico e moldura preta;
    - Quadro Tamanho A3 (29,7 x 42cm), com vidro acrílico e moldura preta;
    - Quadro Especial em Tamanho A3 (29,7 x 42cm), com vidro acrílico e moldura preta e arte original exclusiva com dedicatória;
    9) Quais obras você indicaria o prazer de uma leitura ou para inspirar os nossos quadrinistas?
    AR – Bem, acho que posso citar 9 obras do universo de quadrinhos e mangás que realmente valem muito a pena conhecer.
    DC Comics - Reino do Amanhã (1996) - Mark Waid  e Alex Ross: para mim, essa é uma leitura obrigatória para todo o fã dos tão famosos super-heróis, já tão introduzidos em nossa cultura. É uma história bastante aclamada e famosa, mas o que mais amo nela, é toda a sua riqueza de detalhes, em como os seus autores trabalharam heróis clássicos como Mulher-Maravilha, Superman, Batman, Flash e tantos outros com um tremendo respeito a tudo que veio antes sobre eles, mas sem deixar de trazer algo novo. É uma homenagem extraordinária, fora que acho impressionante o estilo de narrativa e arte do ilustrador Alex Ross.
    DC Comics - Superman: Paz na Terra (1998) - Paul Dini e Alex Ross: além de ser o meu personagem favorito de toda a cultura dos quadrinhos, o Superman nessa história em particular mostra seus maiores valores como ser humano, pois foi criado assim, apesar de todos os seus grandes poderes. Na obra é mostrado o que realmente motiva o Superman a ajudar as pessoas, bem como são reveladas limitações muito palpáveis do alcance de sua ajuda, mostrando que até mesmo este grande personagem tem limitações bem parecidas com as nossas. Para mim, é uma das melhores histórias do Superman. Tenho um carinho muito especial por essa edição, pois comprei ela assim que chegou ao Brasil e ainda a tenho ela até hoje, muito bem conservada.
    Marvel Comics - Marvels  (1994) - Kurt Busiek  e Alex Ross: esta história é um deleite incrível, não só pela sua arte, mas também em como o roteiro conseguiu conectar tantos detalhes do universo Marvel, com tantos acontecimentos importantes envolvendo seus principais personagens. É quase que uma história documental, ainda mais por ser colocada através da perspectiva de um personagem que é um fotografo.  
    Marvel Comics - Hulk e Coisa (1990) - Jim Starlin e Berni Wrightson: o personagem Hulk é meu personagem preferido da Marvel, por toda a carga dramática que o personagem carrega, bem como pelos seus poderes que se conectam na conturbada relação entre Banner e seu alter ego extremamente poderoso. Porém, quanto a essa história, acho ela sensacional, por que tanto Hulk, quanto o personagem Coisa são levados a uma aventura única em suas vidas, bem como completamente hilária. O Hulk é suavizado em seus poderes, mas de uma forma altamente contextualizada, e o personagem faz um contraponto tendo que ser o cérebro da dupla, sendo que o mesmo tem características bem parecidas com a do gigante verde-esmeralda. A arte em particular desta revista é excelente em todos os sentidos, passando com grande expressividade todas as ações e reações dos personagens. Vale muito a pena essa leitura.
    Marvel Comics - Hulk: O Último Titã (2002) – Peter David e Dale Keown: nesta história, finalmente Hulk prova o que sempre afirmou “ele é o mais forte que há”... porém, isso tem um custo elevado. Para mim, essa história revela uma das faces mais profundas e dramáticas do Hulk e sua força, com todos os seus pensamentos distorcidos sobre ela, bem como a grande separação que Bruce Banner fez dentro de si mesmo que parece ser irreversível.
    Mangá - Battle Angel Alita: Gunnn Hyper Future Vision (1990) - Yukito Kishiro: essa é a clássica obra cyberpunk consagrada do autor/ilustrador Yukito. Uma história rica em detalhes e com personagens realmente incríveis, a começar pela própria protagonista Alita e seu passado obscuro por sua falta de memória. É uma obra incrível tanto no seu enredo futurista para dar fundo às motivações de personagens bons e maus, quanto no seu traço com sua arte altamente detalhada e impecável.
    Mangá – Blade - A Lâmina do Imortal (1993-2012) - Hiroaki Samura: no Japão feudal, onde um Samurai renegado chamado Manji resolve seguir seu próprio código de honra, devido a importantes acontecimentos em sua vida, que não só o tornaram imortal, mas que também o fazem parecer como se fossem uma espécie de “Samurai-Punk” com atitudes de uma certa sabedoria bem despojada, que fazem com que você se interesse cada vez mais pela história, como por exemplo, o fato dele se tornar guarda-costas de uma garota, de nome Rin, que busca vingança por seus pais, mas que acaba descobrindo que o caminho para isso é muito mais difícil e complexo do que ela pensa. É um dos meus mangás preferidos disparado.
    Mangá – Slam Dunk (1990-1996) – Takehiko Inoue: quando recebi uma propaganda que tinha apenas 6 páginas dessa série de mangá, sinceramente foi o que bastou. Personagens cativantes, uma história muito envolvente e o mais importante, hilária demais. É diversão pura do início ao fim com um enredo de muita qualidade, fazendo você se importar com cada personagem com todas as suas qualidades e defeitos.  
    Livro – Desvendando os Quadrinhos (2004) - Scott McCloud: esta é uma leitura altamente interessante. O autor dela conseguiu a façanha de explicar toda a cultura que envolve os quadrinhos, tanto ocidentais quanto orientais de forma soberba, através de um livro que também é uma história em quadrinhos em si. Depois que li este livro, evoluí em muitos conceitos como ilustrador e autor de HQs. Creio ser uma obra obrigatória a todos que desejem realmente entender, apreciar melhor e produzir quadrinhos. É um livro eloquente, muito bem trabalhado e altamente criativo em sua abordagem. Recomendo em todos os sentidos.
    10) Essa pergunta aqui já é ordem da casa: quais os planos para o futuro?
    AR –
    Para falar do futuro, preciso falar um pouquinho sobre o passado. Por volta dos meus 16 anos, foi quando criei a primeira versão dessa história, que com o passar do tempo evoluiu comigo. Assim que tive maturidade para criar um enredo e uma série de histórias e personagens para preencher este universo que está apenas começando.
    Minha pretensão é criar este primeiro volume, mas posteriormente continuar e estabelecer ao todo uma série com 10 volumes para estabelecer o arco completo da história do Mangá - 10º Símbolo. Ao todo já tenho o enredo de todos os 10 volumes, mas de roteiro, tenho de fato pronto os 6 primeiros volumes e estou trabalhando aos poucos nos demais.
    Sendo bem-sucedido nestes 10 volumes, desejo também criar mais 8 histórias, que se intercalam com a história principal, mas não necessariamente seguem completamente sua linearidade, pois seriam histórias para dar mais profundidade a certos personagens, a determinados detalhes e acontecimentos serão citados durante o mesmo período da história principal. Serão histórias paralelas, que ajudariam contextualizar alguns conceitos, que também me dariam mais oportunidade e liberdade para explorar algumas ideias que tenho para dar mais densidade a este universo.
    Também desejo produzir uma história, talvez em um volume apenas, contando coisas que se passarão mil anos depois da história principal de o 10º Símbolo.
    Outro desejo meu é fazer uma série de 3 a 6 volumes, contando uma história que se passa nesse universo, mas que terá poucas conexões diretas, pois se passaria muitos séculos antes, algo mais contemporâneo a nossa realidade, em um futuro mais próximo à nós, para estes eu já tenho um enredo bem estabelecido.
    Bem, o futuro a si mesmo pertence, então, creio que o objetivo principal seja focar no caminho dessa primeira publicação e ver até onde essa jornada pode chegar.
    Mais uma vez, muito grato pela oportunidade e pela conversa, bem como a todos os leitores desta matéria!
  • Entrevista com Fábio Gesse – editor da Revista Action Hiken

    1- Nos conte um pouco sobre a trajetória da Revista Action Hiken?
    R- Na metade de 2015, existia uma revista chamada Monthly Shonen Action, que por acaso, possui um nome bem parecido com uma revista japonesa. Era feita totalmente artesanal e semanalmente, com 3 ou 4 séries de capítulos de 10 páginas. Quando eu conheci o projeto, ele tava na sua edição 6 ou 7, mas estava em frangalhos. É extremamente difícil cuidar de um projeto assim, semanal então... Quando o projeto foi descontinuado pelo responsável da época, os próprios autores gostariam de continuar, então um deles, chamado Kleverson Lacerda (Autor de Varinha das Almas), que fazia parte do Estúdio Armon em outros projetos, trouxe o projeto e perguntou se eu gostaria de reestruturar e levar pra frente. Acabei aceitando, então pegamos os autores que já estavam lá (Kleverson, Ingrid Oliveira, Gabriel Silva) e para compor o resto da revista, fizemos um concurso. Daí veio o primeiro grande sucesso da revista, O Som da Coragem, de Eddy e Doryack. O primeiro ano foi difícil de manter, era tudo novo e dava muito trabalho. Logo estrearam mais séries que seriam sucesso, Age of Guardian e Two-Sided. Por volta da edição 7 ou 8, a revista quase deixou de existir, porque alguns artistas desistiram de suas séries. Precisei correr e organizar um novo concurso, porque como era algo novo, quase ninguém botava fé e não arranjava novas séries de jeito nenhum. Com esse segundo concurso vieram Berta The Witch e Whisper World, que não duraram muito também, com seus autores desistindo em poucos meses. A crise novamente chegou e me obrigou a buscar refúgio dentro de minha própria equipe e com isso, duas séries de integrantes do Estúdio Armon começaram, Sing e Talento FC. Logo, numa parceria com o Jayson Santos, outro sucesso se iniciava: Hooligan. Daí em diante, as coisas foram crescendo, novos autores querendo entrar, as edições foram ficando mais recheadas, e por mais que os autores falhassem nas entregas por várias vezes, sempre tínhamos one-shots para suprir, porque recebíamos muitos. Na edição 20 saiu o primeiro crossover entre equipes, onde a série Two-Sided teve um capitulo especial de 50 páginas com Nightfall, que era da revista Yuuji Magazine. Foi divertido fazer e chamou muita atenção. Logo em seguida, outro grande sucesso chamado Demon Hunters se inicia, abrindo fronteiras para autores lusófonos estrangeiros com Diogo Cidades. Tentando inovar, lançamos outro concurso (Como a galera pede concurso, meu Deus... rsrs), só que com a temática shoujo. Por mais que tenhamos recebido uma ou outra obra bem legal, foi um fracasso. Quase não tivemos inscritos o suficiente pra premiar. Enfm... Logo veio a épica edição 24, com os one-shots de Oxente e Valón, obras que mais tarde se tornariam as séries mais populares atualmente. Mas essa edição foi épica por diversos motivos. Um, porque marcou o início da parceria com a Craft Comic Books, que estava nascendo. Conheci o CEO de lá num evento em São Paulo e ele fez versões impressas daquela revista que, por 2 anos, tinha sido só digital. Passamos a oferecer todas as edições em formato impresso e sob demanda, algo que todo mundo sempre pedia (Acho que se teve uma pergunta que ouvi mais do que “como faz pra entrar na Action” foi “tem impressa pra comprar?”). Outro motivo da edição épica, é porque no ano seguinte, ela foi indicada ao Troféu HQ Mix, na categoria Publicação Mix. Não vencemos, mas a indicação valeu o ano. Como nem tudo são flores, nessa mesma edição, marcou o maior stress que já tive com o projeto. A briga com o autor da série Parrotman, que era um sucesso desde a edição 6. O autor iria enviar a obra pra um concurso, e ele exigia que ela não tivesse publicada em lugar algum. E o autor também não concordou em ceder a obra para as versões impressas, ou seja, no final de 2017, tive que reeditar 10 edições da Action para retirar todo e qualquer resquício de Parrotman do projeto. Deu mó trabalho e pensei em desistir ali também... Só que era uma época tão boa, então fui firme e continuei. E ainda bem, porque logo vieram as estreias de Anjo da Guarda e Oxente, que foram muito populares! Começamos a aparecer em vários canais de mídia, e logo as estreias de Valón, Cherry Lips e Fada Mortífera deram um gás pra fazermos esse concurso do final de 2018, que foi um sucesso. Através dele, colocamos os vencedores numa edição extra chamada Action Plus, com obras ótimas! E 2019 começou, com promessa de ser melhor ainda. Isso tudo sem falar dos encadernados das séries que o Estúdio Armon já lançou até agora, como Talento FC, O Som da Coragem, Sing, e os próximos, Demon Hunters, Age of Guardian e Oxente, que devem sair esse ano. Nossa, falei demais, desculpe. rsrs
    2- Como funciona o modelo de publicação no periódico?
    R- O modelo é bem parecido com a Shonen Jump, mas é diferente. O primeiro passo para um autor entrar, é enviar um one-shot. Seja resumo da série que quer trabalhar ou não. Se esse one-shot for aprovado pelos editores, o autor será agendado para um mês de publicação. A votação nos dirá se a obra for popular e promissora e caso seja, o autor terá permissão para apresentar um projeto de série. Caso seja aprovado, nós o orientaremos a produzir pelo menos 3 capítulos antes de agendar a estreia, para não acontecer hiatos tão facilmente. A partir da estreia, decidiremos se a série será mensal ou bimestral. A entrega de material acontece todo dia 25 (Capitulo e uma arte colorida para a capa) e a diagramação da revista, entre o dia 25 e o dia 30/31, com lançamento, atualmente, todo dia 1 de cada mês, digital, e a impressa, na semana seguinte lá no site da Craft Comic Books.
    3- Quais as maiores dificuldades para se manter uma revista dessa no Brasil?
    R- Bom, são vários... rsrs. Citando alguns aqui... A necessidade dos autores precisarem trabalhar em outras coisas para viver. Nisso, eles não conseguem ganhar a vida com os quadrinhos e acabam fazendo nas horas que podem, o que pode acarretar em atrasos, falhas na entrega ou mesmo cancelamentos. Outro é a falta de uma forma eficiente de distribuição. Só conseguimos vender impressos pela internet. E a edição digital, necessita de outras plataformas para chegar até o leitor e nem sempre elas agradam a todos. O preconceito cultural dos leitores que ficam comparando nossos materiais independentes, com mangás feitos profissionalmente no Japão há mais de 60 anos. É uma comparação bem babaca, mas existe muito. Não me lembro de mais nenhuma, acho que o maior desses obstáculos é o primeiro que falei mesmo.
    4- Como o público reage a produção da revista de modo geral?
    R- Há uns dois anos, posso dizer que 80% falava mal e difamava. Hoje, acho que se recebemos críticas negativas e maldosas de 20% de todo o feedback, é muito. Não querendo ser arrogante, nem nada, mas acho que evoluímos muito nesses 3 anos e consigo ver nesses autores atualmente, algo que pode ser maior ainda. Muitas vezes não depende do leitor gostar ou não... Mas de nós fazermos o leitor se interessar por aquilo e superar seu preconceito cultural. Estamos no caminho certo, acredito.
    5- Qual a possibilidade do Estúdio Armon se tornar uma editora no futuro?
    R- A possibilidade existe. Nesses 6 anos de existência, nos dedicamos a nossas próprias publicações, no estilo da Editora Crás. Produzindo e lançando o que nós mesmos produzimos. Esse é o foco que eu gosto de manter. A Action é uma publicação do Estúdio Armon, então é como se fossemos uma editora, por isso muita gente já nos chama de editora. Nesse final de 2018 também realizamos um trabalho típico de editora com o T-Hunters. Fechamos uma parceria com o autor Israel Guedes para editarmos a obra e lançarmos impresso. Foi uma espécie de trabalho de editora. Pode vir a acontecer mais vezes, mas não temos estrutura para fazer isso profissionalmente e acho que prefiro continuar por um bom tempo me dedicando aos nossos próprios conteúdos e só às vezes, lançar alguma coisa de alguém de fora da equipe. Nada impede que eu mude de ideia nos próximos anos e passe a seguir os passos da Editora Draco, por exemplo.
    6- Houve muitas tentativas de se publicar uma antologia de mangá no Brasil, embora os projetos fossem promissores, muitos fracassaram, porque a Action Hiken se tornou um modelo de sucesso?
    R- Não posso dizer com certeza porque não estive por dentro de tudo que aconteceu nos outros projetos. Não sei o que fizeram de errado internamente ou quais foram os estopins para fracassarem. Só tenho o olhar de fora da coisa. Uma coisa que eu faço com a Action (E com o Estúdio Armon como um todo) e que é muito criticado por todo mundo, acredito que seja o principal diferencial que está nos levando adiante. Essa coisa é ter um ritmo lento. Começamos do nada, sem pretensões grandes, só fazendo mesmo. Ouvimos criticas do tipo “seu trabalho é um lixo”, mas continuamos. Enquanto outras revistas se colocaram como projetos épicos e tiveram a primeira edição lançada em distribuição nacional, outras faziam concurso com premiação em dinheiro e nunca pagaram seus vencedores, ou prometiam revolucionar o mercado editorial, nós só continuamos fazendo quadrinhos. Muitos diziam “tal revista saiu impresso, vocês não tem a mesma visibilidade porque não tem impresso” e doía em mim ter que responder “não temos planos pra isso por enquanto”. Hoje, aquela que tinha impresso logo no primeiro mês de existência não existe mais, e nós estamos aqui, demorou, mas o impresso chegou. Temos pouquíssimas curtidas nas redes sociais, o engajamento vai crescendo aos poucos. Num país sem uma cultura de consumo de quadrinhos estruturada, chegar com alarde dizendo que vai revolucionar é um verdadeiro tiro no pé. Nossas conquistas vêm devagar, mas quando vem, são muito valorizadas. Sou do ditado que “devagar se vai ao longe” e nem preciso dizer que não importa quantas vezes se conta aquela velha história, a tartaruga sempre vence a lebre. Em 2015 éramos um lixo que deveria parar, 3 anos depois, fomos indicados ao Troféu HQ Mix. Enfim... Seguir devagar, sem atropelar meu planejamento para o projeto, e insistindo mesmo contra as críticas para evoluir a cada mês, talvez esses sejam os diferenciais.
    7- Quais seriam os carros-chefes da revista atualmente?
    R- Sendo bastante direto, acredito que Oxente, Demon Hunters e Valón são os pilares da revista hoje. São os que mais recebem fanarts, sempre vencem as votações e tem mais destaque da mídia, mas no meu coração, todos são carros-chefes. Somos uma frota. rsrs
    8- Qual o balanço geral que o editor pode fazer sem seis anos de publicação?
    R- São 6 anos de Estúdio Armon e tive altos e baixos o tempo inteiro. Mas aprendi MUITA coisa nesse tempo, não só sobre o mercado editorial ou sobre produção de quadrinhos, mas sobre a vida. Há 6 anos, eu não conversava bem com as pessoas, não sabia lidar com elas. Hoje, gerenciando uma equipe com pessoas variadas, aprendi a lidar com cada tipo de gente. Aos poucos vou aprendendo a gerir uma empresa, lidar com tramites que eu não fazia ideia que existiam. Não sei bem fazer um balanço geral, mas não sei qual atividade eu faria se não tivesse montado o Estúdio Armon a principio. Acho que eu seria metade do empreendedor que eu seria hoje... Ou ¼ dele. rsrs
    9 – Além da Revista Action Hiken, o Estúdio Armon oferece outros produtos, quais seriam?
    R- Opa, estava esperando alguém perguntar isso. Rsrs. Como a Action Hiken é a publicação que mais tem destaque (Acredito que seja pela frequência e pelo glamour de ser parecido com a ideia da Shounen Jump), muita gente até acha que o nome do nosso grupo é Action Hiken. É preciso deixar bem claro que a Action é só UM dos projetos de um grupo maior chamado Estúdio Armon. O Estúdio Armon tem vários outros projetos, temos duas séries de tirinhas sendo publicadas no nosso site (Maria Ana e Escovando os Dentes com João), lançamos encadernados das séries da Action ou de outros mangás da equipe, como eu disse na outra pergunta. Já tivemos uma campanha no Catarse para lançar a coletânea de contos de fada em quadrinhos Era Uma Vez, em 2016. Em 2017 lançamos a coletânea de one-shots Aventuras Cotidianas pela Editora Criativo, assim como os SketchBooks Custom de Cristiane Armezina e Eddy Fernanddes. Esse ano lançamos nosso primeiro livro, Penumbra – Contos Sombrios, com a temática de terror. Temos vários quadrinhos sendo lançados para leitura online, no site, no Agakê e outras plataformas (E são quadrinhos que não estão na Action) como Saga Sem Fim, De Repente, Shoujo!!, Utopian, A Lenda Esquecida (Que é exclusiva dos apoiadores do Apoia.se... APOIEM!) e várias outras. Em 2018 também vencemos o BMA da Editora JBC com duas obras (Planaltin Power, do Waldenis Lopes, ficou em 6º e vai estar na Henshin RED, e Estupefato Maldini, de Lucas Gesse, que ficou em 13º e vai estar na Henshin BLUE), que terão suas edições digitais lançadas agora em 2019. Organizamos concursos e collabs quase sempre. E tem o próprio T-Hunters que editamos no final de 2018 e fizemos financiamento pelo Catarse e será enviado aos apoiadores no fim de janeiro. Participamos de eventos, vendendo mangás, prints, adesivos e por aí vai. Ah, e todos os nossos encadernados estão a venda em nossa loja. Para quem acha que somos só a Action, temos bastante coisa fora dela, não? rsrs
    10 – Essa pergunta eu sempre faço, quais os planos para o futuro.
    R – Essa resposta eu sempre dou, mas não posso dizer muito... rsrs. Tá, vai... Se tudo der certo, esse ano teremos 2 lançamentos coletivos, com vários artistas do Estúdio Armon, outro concurso no fim do ano, talvez participação em um evento grande, novas estreias na Action, talvez no meio do ano. Encadernados de algumas séries bem populares. Mais ou menos isso... Sem dar muitos detalhes e sem projetar muito adiante. Rsrs.
  • Entrevista com Fábio Gesse Dalphorno e Lucas Gesse Dalphorno, cocriadores da Editora Estúdio Armon

    1- 2020 foi o ano sabotador de sonhos. Tivemos uma pandemia de COVID-19, uma doença viral e sem tratamento precoce. Um presidente que incentivou automedicação e o desrespeito as medidas de contenção da doença. Um Ministério da Saúde descoordenado, para não dizer o mínimo. E quem mais sofreu com isso foi o setor cultural. O impacto da pandemia para artistas e redes colaborativas de cultura não está no gibi. Qual o real impacto dessa conjuntura no Estúdio Armon?
    FG – Primeiramente, obrigado pela oportunidade de mais uma entrevista, é sempre um prazer. Bom, pra falar bem a real, não tivemos um impacto tão grande ao longo do ano de 2020, por piores que as coisas tenham parecido. No ano passado, talvez por conta das pessoas ficarem mais em casa e precisarem distrair a cabeça de tantos problemas que a humanidade passou, a venda de livros e gibis aumentou um pouco no geral. Graças a Deus posso dizer que no Estúdio Armon também seguiu esse rumo. Acredito que 2020 foi o ano que mais vendemos quadrinhos em toda nossa história. Fico feliz em saber que algumas pessoas confiaram em nossas obras para aliviar a dureza dos dias durante a pandemia. Acho que o único impacto foi um auto imposto por nós mesmos no primeiro semestre. Tínhamos um cronograma de lançamentos mais recheado para o ano todo, mas como tinha muita gente passando necessidade e cortando gastos supérfluos de seus orçamentos, decidimos esperar que a situação melhorasse um pouco pra começar a lançar quadrinhos, achamos que seria meio “contra a maré” se começássemos a oferecer produtos para pessoas que talvez quisessem comprar mas não pudessem. Quanto ao lançamento online de quadrinhos também não foi afetado. Aliás, o impacto verdadeiro virá agora em 2021, porque graças à crise, tudo aumentou, inclusive o papel usado para fazer nossos gibis e provavelmente vai dar dor de cabeça manter preços tão convidativos.
    LG – Obrigado também pela possibilidade da entrevista, estamos sempre aí! Então, nesse aspecto o Fábio meio que já falou tudo, mas faço questão de destacar o problema do papel que tem subido demais, espero que as coisas se estabilizem logo.
    2- Num momento como esse, estratégias contingenciais, se não são necessárias, se fazem urgentes. Quais foram as táticas desenvolvidas pelo Estúdio Armon para contornar as consequências da pandemia?
    FG – Como disse na pergunta anterior, vamos entrar nas consequências agora em 2021 com o aumento dos preços de tudo. Ainda estamos pensando em que estratégia tomar para que os preços não subam muito. Ficar sem lançar nada está fora de cogitação, mas talvez adiar alguns títulos ou tentar parceria com as gráficas buscando um preço menor. Ainda estamos estudando.
    3- A Editora Estúdio Armon se expandiu para diversas plataformas e mídias ao longo dos anos. Citem quais são e qual a recepção do público?
    FG – Na verdade estamos sempre tentando coisas novas, entrando e saindo de plataformas de acordo com o feedback. Dentro de plataformas, atualmente estamos trabalhando com nosso site, que acredito que seja o ponto central pra conhecer tudo que publicamos, Union Mangás, ISSUU, Calaméo, Agakê e Super Comics, ainda com planos de entrar na Fliptru e algumas outras. Quanto a recepção, nosso site recebe muitos acessos e comentários nas obras, é bastante ativo. A Union Mangás, por ser um lugar mais pra scans, a galera não recebe muito bem. Por vezes temos críticas bem naquele estilo infantil, provavelmente de crianças que nem leram pra falar mal, mas continuamos por lá porque a qualidade da plataforma compensa. ISSUU não abre espaço pra feedback e o número de views nem sempre é realista. O Calaméo entramos agora, então não tenho como comentar a respeito. Quanto aos apps para celular, o Agakê está em manutenção há meses, mas lá andava bem parado antes disso também. O Super Comics tem sido nossa boia salva vidas nesse mercado, porque ele abre espaço para editoras publicarem e fornece ganhos pelos downloads das obras. A recepção lá tem sido o suficiente pra conseguirmos pagar alguns trocados aos artistas pelos downloads das obras e ainda manter as contas do estúdio.
    4- O Estúdio Armon acabou se tornando a representação nacional de como o mercado editorial deveria funcionar. Sabemos que avanços precisam ser feitos, e que esse esforço é coletivo, e não individualizante. Qual a percepção de vocês em relação a esse aspecto? Consideram positivo serem elencados ao espaço do modelo?
    FG – Não é questão de considerar positivo ou não, mas sendo bastante sincero, eu não vejo dessa forma (risos). Não vejo o mercado vendo no Estúdio Armon uma representação de como o mercado editorial deveria funcionar. Ainda somos muito pequenos e, de longe, não temos a visibilidade suficiente pra poder chegar a pensar que talvez um dia possamos ser modelo pra algo. Temos muitos problemas, muitas falhas e muito a melhorar ainda. Constantemente me deparo com coisas que preciso melhorar mas ainda não tenho capacidade ou tempo o suficiente e isso me frustra um pouco. Mas essa estrutura que sigo, sendo modelo pra alguém ou não, é uma que acho que pode dar cada vez mais certo, conforme formos crescendo.
    5- Mesmo para um grupo que realiza trabalhos autorais, a Editora Estúdio Armon já galgou alguns espaços. Qual o balanço de conquistas até aqui?
    FG – Tenho orgulho de dizer que ao longo dessa jornada, conquistamos algumas coisas que nem sequer sonhei que poderia quando abri o estúdio. Tipo, para algumas pessoas, essas conquistas podem não ser tão expressivas, mas são coisas que eu nem consigo acreditar às vezes. Como por exemplo, manter uma revista mensal por mais de 5 anos sem falhas (mesmo aos trancos e barrancos e com muitos defeitos pra serem corrigidos) e ainda ter uma dessas 64 edições (até o momento), indicada ao Troféu HQ Mix na categoria Publicação Mix. Outra conquista dentro do HQ Mix foi a coletânea HarmoniHQ também sendo indicada na categoria Publicação Independente de Grupo. Não ganhamos os prêmios, mas fomos indicados a nível nacional. Aparecemos dentre outros tantos que admiramos e isso já não tem preço. Outras conquistas são financiar obras com sucesso no Catarse, ter o trabalho reconhecido por alguns canais de mídia, ver que tantas pessoas jovens e aspirantes a quadrinistas sonham em publicar conosco... Algumas conquistas particulares, como quando encontro algum quadrinista ou editor que admiro em algum evento, comento sobre o estúdio e me respondem “ah, conheço o trabalho, é bem maneiro”... É bobo? É, mas pra mim é muito prazeroso e conto como conquista. Enfim... Já fui muito além do que eu esperava no mercado de quadrinhos quando eu abri o Estúdio Armon em 2012... Tudo que vier a partir daí é lucro.
    6- Apesar de todo o vento contra, o mercado da cultura pop japonesa está a todo vapor no Brasil. De todas as editoras de quadrinhos brasileiras, ou das editoras que publicam livros de ficção especulativa, ao menos a maioria delas já publicou ao menos um mangá. O Loading parece ter se firmado como um canal de TV, atraindo um público otaku e órfão da TV brasileira. O Anistage, plataforma de streaming de animação nacional, aposta em animes. Como vocês percebem essas novidades?
    FG – É muito legal ver essas iniciativas surgindo no mercado! Acho que são muito bem-vindas e faltam pessoas pra arriscar em diversas áreas com um bom planejamento. Estou de olho em tudo que anda surgindo porque me divirto sabendo das novidades que podem beneficiar esse mercado dentro do país.
    LG – A possibilidade de expansão das mídias que envolvem quadrinhos é algo incrível de se pensar, sigo na torcida de que todas essas iniciativas possam ter um grande sucesso para que surjam ainda mais novidades que surpreendam tanto na área dos mangás quanto das obras nacionais!
    7- A Editora Estúdio Armon fez diversas parcerias em 2020. Comentem sobre elas e quais as futuras parcerias?
    FG – Dentre as parcerias de 2020, firmamos com a Kanikoss Moda Nerd, para finalmente criar algumas camisetas com estampas nossas. A Kaktus Entretenimento, que é uma empresa que acaba de surgir, visando atingir o mercado de brinquedos, esculturas e jogos. A parceria com a Super Comics se solidificou mais ainda em 2020 também. Agora para 2021 queremos solidificar ainda mais com a Kanikoss e a Kaktus. A Kanikoss pretende começar a vender quadrinhos também e provavelmente mandaremos os nossos para a loja física deles no Rio de Janeiro. A Kaktus tem projetos ambiciosos de fazer uma linha de action figures nossas, que se iniciou no Catarse de Utopian Vol. 1, além também de projetos pra jogos de tabuleiro e card games... Mas claro, tudo isso vai depender se o público vai receber bem e apoiar esses projetos. Também queremos entrar em mais plataformas e a próxima delas é a Fliptru. Enfim, tem algumas outras parcerias que estão sendo conversadas, mas ainda não posso comentar a respeito.
    LG – Em primeiro lugar, gostaria de agradecer demais a Kanikoss, a Kaktus Entretenimento e ao Super Comics por possibilitarem que essas parcerias se tornem realidade, sendo bem sincero, acho que todo desenhista sonha em ver suas obras e personagens em camisetas, action figures e em multiplataformas de leitura online! Sou super fã do trabalho deles e é recompensador saber que temos parcerias tão legais nessa caminhada para todos crescerem juntos, muito obrigado!
    8- Citem quais títulos já publicaram e quais títulos estão trabalhando ultimamente?
    FG – Eu acho que se eu responder todos os títulos que já publicamos de forma independente, essa resposta passaria de 100 linhas fácil (risos). Vou me limitar a sugerir que visitem o nosso site para ver tudo que já publicamos digitalmente e acessar nossa loja para ver tudo que ainda temos disponível de forma física. Quanto aos títulos que estamos trabalhando atualmente, digitalmente são dezenas dentro da Action Hiken. Fisicamente, estamos com Utopian Vol. 1 rodando na gráfica neste momento. Outros que estão sendo trabalhados pro lançamento físico são Oxente Vol. 2, que deve ser o próximo, também Sideral Vol. 1, O Som da Coragem Vol. 2 (e a reimpressão do Vol. 1) e uma coletânea de one-shots do artista Paulo Alberto, que será chamada Histórias Daquele Cara Estranho. Tem mais alguns pro segundo semestre que ainda não posso falar... Tudo depende se conseguiremos lançar todos esses no primeiro semestre mesmo com os aumentos abusivos do preço do papel.
    LG – Bom, meu irmão já pontuou mais ou menos a prévia dos próximos lançamentos, então vou focar nos títulos que eu pessoalmente estou trabalhando. Atualmente tenho em andamento o De Repente, Shoujo!! Que, por enquanto, pela quantidade de capítulos, ainda não encaixaria num volume impresso, e existe também uma coletânea de one-shots minha com o Fábio que está em planejamento, talvez logo-logo eu consiga passar mais notícias sobre isso (hahahaha).
    9- Qual o cronograma de lançamentos da Editora Estúdio Armon no ano de 2021?
    FG – Eita, já disse tudo na pergunta anterior (risos). Mas vamos lá, nesta ordem e com previsão de mês (que podem ser alteradas ainda):
    Março: Catarse de Oxente Vol. 2 com lançamento previsto para Junho
    Abril: Pré-venda de Histórias Daquele Cara Estranho na loja, com previsão de lançamento para Maio.
    Maio: Pré-venda de O Som da Coragem Vols. 01 e 02 com lançamento previsto para Julho.
    Junho: Catarse de Sideral Vol. 1 com lançamento previsto para Setembro.
    Agosto: Catarse de Fada Mortífera Formatinhos 4, 5 e 6 com lançamento previsto para Novembro.
    Se vamos conseguir cumprir esse cronograma, só Deus sabe. Algumas coisas podem sofrer alteração de data, de acordo com o andamento do ano e os imprevistos. E podem surgir coisas diferentes na segunda metade do ano, mas por enquanto o planejamento é esse aí.
    10- Deixem alguma mensagem para os nossos leitores e leitoras.
    FG – Às vezes é difícil quantificar o crescimento do trabalho que realizamos, pra mim ainda fazemos quadrinhos amadores pra nós mesmos, mas quando vejo comentários, vídeos a respeito, entrevistas como essa e a galera pedindo mais ou recomendando nosso trabalho por aí, fico realmente satisfeito de todo o esforço realizado. Obrigado por tudo e pelos feedbacks que nos tem dado!
    LG – Muito obrigado por acompanharem nosso trabalho e o trabalho do nosso digníssimo entrevistador, contamos com a força e o apoio de vocês!
  • Entrevista com Larissa Gomes – autora de Cidadolls

    1- Com certeza você é uma das autoras mais promissoras que nosso atual mercado editorial nos apresentou. Como você definiria a escritora: Larissa Gomes?
    LG - Bem, definiria como uma fuga do óbvio e ir além do realismo. Puxando a imaginação, em imagens que surgem por músicas e sonhos.
    2- As editoras independentes tem mostrado como se publica livro em tempos de crise econômica. Essa crise é sentida nos autores independentes de que forma?
    LG - A crise é sentida de uma forma forte e triste, principalmente na área literária. Não é grande a população brasileira que é ligada à leitura e ultimamente a venda de livros tanto físicos quanto virtuais teve queda.
    3- Como a crise das grandes livrarias afeta as pequenas editoras e plataformas de publicação alternativas no seu ponto de vista?
    LG - As livrarias muitas vezes costumam adquirir livros de inúmeras editoras para o catálogo, porém com a crise elas costumam priorizar editoras de nome maior no mercado.
    4- Qual a maior dificuldade de se trabalhar em um romance do gênero terror?
    LG - O terror, por ser um gênero que instiga o imaginário em várias formas e aumenta a visão dos horrores do consciente, pode ser um desafio para escrever. O cuidado é para não ultrapassar o desconforto em um nível que deixa de ser apenas a adrenalina de uma boa trama.
    5- Todo escritor tem um acervo básico de referências na cachola. Se você tivesse que citar suas maiores influências, quais seriam e porquê?
    LG - Minhas maiores referências vão desde escritores há diretores de cinema. Mencionarei dois aqui, que inspiram minhas horas: Edgar Allan Poe e Tim Burton. Ambos, apesar de universos diferentes trazem o ar gótico e estilo excêntrico que amo me inspirar nas obras.
    6- Seu livro une terror e steampunk, um pouco de fantasia, bonecas e tem até um escritor como protagonista! Como é que você uniu tantos elementos diversos e formou a trama do livro Cidadolls?
    LG - O livro traz as referências que coleto na minha vida, além dos toques de surrealismo vindos de meus sonhos. As imagens da trama vêem com músicas e estímulos externos, se formando em um universo novo misturando estilos.
    7- Pergunta indiscreta: existe bloqueio criativo ou falta de gestão de tempo?
    LG - Bloqueio criativo, creio que sempre tem. Em um momento, a história trava e chego a pensar que não vai ir mais. No entanto, quando deixamos a mente descansar tudo retorna bem.
    8- Como um autor independente faz para brigar por um espaço ao sol com os livros estrangeiros de autores já consagrados?
    LG - Divulgando. Creio que divulgando bastante e tentando ampliar os locais onde sua história é ouvida, pode trazer mais espaço e um reconhecimento que se aproxime do que esperamos para a arte que fazemos.
    9 – Uma autora prolífica como você deve estar produzindo algo aí, nos conte tudo e não esconda nada! Quais os planos para o futuro?
    LG - Estou escrevendo ultimamente a continuidade da saga Cidadolls, além de um livro de fantasia que pretendo seguir adiante.
    10 – Qual lembrete a autora gostaria de deixar para os seus leitores?
    LG – O que eu peço para eles, é apenas uma coisa: Nunca esquecer a imaginação. Creio que, deixar-se imaginar é uma porta para mundos incríveis e viagens que a realidade pode estar longe de proporcionar.
    Deixe abaixo links e endereços para que os leitores possam visitar:
    Instagram  — @larissaactress, @ditebowery
    Mais informação do livro na bio do Instagram @editoraimmortal.
    https://www.facebook.com/EditoraImmortal/
    https://www.clubedeautores.com.br/livro/cidadolls#.XP_CFdJKgfc
    https://www.amazon.com.br/Cidadolls-Larissa-Gomes-ebook/dp/B07L2LMY7W
  • Escritos sobre a Penumbra

    A editora Estúdio Armon se tornou conhecida pela publicação da antologia mensal Revista Action Hiken (RAH) e títulos de mangás nacionais. Em 2018 enveredou na edição de livros. O primeiro título do selo literário da Armon foi a coletânea de terror Penumbra: contos sombrios. A obra ilustrada reuniu roteiristas que já vinham publicando quadrinhos e iniciantes na literatura.
    São 11 autores divididos em 250 páginas. Cada conto recebeu uma ilustração de Eddy Fernandes, ilustrador conhecido pelo primeiro sucesso da RAH, o mangá mudo O som da coragem. As imagens ambientam as tramas muito bem, além de conferir maior identidade ao projeto. O livro foi editado por Fábio Gesse, que também escreveu a Apresentação, mostrando um talento para a prosa que até então desconhecia. Desejaria ler alguma ficção dele no futuro.
    O conto de abertura foi escrito pela quadrinista e motociclista Andressa Gohan. Patolli deve ter sido inspirado no filme Jumanji ou em alguma roda de RPG da vida. Na trama, um grupo de amigos se reúne para se divertir com um antigo jogo ameríndio, o que lhes trouxe graves consequências. Os personagens fogem dos estereótipos, são críveis em seus dilemas. Só esperei uma ameaça maior que a apresentada.
    A coisa abaixo do abismo de Bruno Alfuro é uma história à moda lovecraftiana: cosmicismo, descrições ambíguas e muitas adjetivações. Como sou fã do estilo narrativo de H. P. Lovecraft, considerei um dos melhores. Usou muito bem os seus conhecimentos em biologia para descrever o fundo do mar. Se você já leu Dagon e O chamado de Chthulu vai gostar desse conto.
    Xará do anterior, Bruno Vieira é mais conhecido no meio como um investidor em plataformas de autopublicação. Mas reside dentro de si um escritor fenomenal. Ao longe foi o conto que mais gostei. Comecei a ler sem pretensão, e acabei me surpreendendo com o drama de uma família que vive reclusa e que não pode ser tocada pelos raios solares. É intrigante, desesperador e traz aflição em quem lê.
    Sanatorium é um conto de Érica Samizava, revisora dos títulos da Armon. Considero que esse conto se perdeu um pouco nas homenagens, embora tenha retratado o cenário do hospital e a contratação da protagonista de maneira crível. O conto é dividido em capítulos, o que deixou o terror dentro de um cenário limitado como o hospital um pouco entrecortado.
    Mia foi escrito por Erix Oliver, quadrinista que acertou muito no one-shot da antologia HarmoniHQ, a ficção policial a Inclinação para o mal. Penso que em Mia o autor não reproduziu os mesmos acertos. De acordo o conceito de “arma de Tchekhov”, todos os elementos apresentados no conto devem ser relevantes para a trama. Oliver usou vários, um quadro, uma boneca e um quarto, e não senti ligação entre nenhum deles.
    Gabriel Ota nos traz Diário de um homem louco, é difícil perceber se o que acontece no conto é real ou apenas um delírio do protagonista. Isso reflete também a indecisão do autor em dar o melhor rumo para a obra. Me pareceu que a história deveria ter ido por um lado, que era o de um terror psicológico introspectivo. Mas a narrativa abusa dos pontos cegos do leitor, e é bem cadenciada.
    O Caçador Supremo inova ao trazer terror e elementos indígenas. Dividida em dois capítulos, Henrique Zimmerer inscreve nos elementos do folclore um horror sobrenatural que não e via há muito tempo. É curto, mas tem um desfecho inteligente e coeso. As árvores de olhos amarelos foi escritor por Ricardo Santos, que é odontólogo. Se passa no Japão e se inspira nas lendas do folclore nipônico.
    O elevador de Caliban conta sobre um funcionário de uma multinacional de tecnologias. Dois fenômenos sobrenaturais acontecem no lugar, e o protagonista passa por um deles. Não ficou claro qual a relação entre os fenômenos. Não experimentei nenhum sentimento de urgência ao ler a obra. Me pareceu que não havia algo de relevante acontecendo. O conto também se arrasta muito para chegar ao que queremos.
    Recomento a leitura da coletânea. A fonte escolhida no livro ficou perfeita, e o espaçamento muito adequado. Papel offwhite com boa gramatura, encadernação com capa fosca e lombada quadrada. O projeto gráfico ficou de ponta, apesar da dita inexperiência do editor. Em alguns contos, os diálogos começaram erroneamente com hífen, apenas os últimos são iniciados com travessão. Algumas palavras parecem agarradas umas às outras, e hifens parecem onde não deveriam.
    Nada do supracitado impede a leitura, e podem ser facilmente corrigidos em futuras revisões. Cada conto possui um “FIM”, não era necessário, dá a entender que não seria possível continuação e spin-offs. Possui duas orelhas, uma com minibiografia do autores e autoras e com a história da Armon. Considerado esse um piloto, a Armon foi bem-sucedida. O projeto é consistente e trouxe boas narrativas nesse primeiro volume.
    Para adquirir o seu exemplar, acesse aqui:
    http://estudioarmon.iluria.com/livros-ct-233ff4
    Para acompanhar os lançamentos do Estúdio Armon:
    https://www.instagram.com/estudioarmon/?hl=pt-br
  • Espelho

    Quando me olhava no espelho, não via mais aquela mulher que todos elogiavam em festas e eventos. Quando eu colocava aquela calça jeans que uns meses atrás ficava justa no meu corpo e vejo que hoje em dia ela não passa nem da coxa,percebo que a tal beleza que eles admiravam foi embora. Quando me vejo passando mil e um produtos para rejuvenescer a pele, pesquisando receitas de como acabar com as minhas estrias e celulite percebo o quanto eu me perdi. O que mais me dói ao me olhar no espelho, não é o corpo que todos meus ex namorados adoravam e sim que me permiti ser engolida por esse padrão e esqueci que o que realmente me torna belíssima é minha mente e nada mais!

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