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crítica

  • Uma mão sempre arruma uma boa luva

    É de senso comum e bom alvitre que que Machado de Assis é considerado um dos nossos melhores escritores. Em termos de ficção, ao menos, é o mais famoso. Nascido em 21 de junho de 1939, no Morro do Livramento que Joaquim Maria Machado de Assis nasceu. Era neto de libertos, seus pais eram o pintor Francisco de Assis e a portuguesa Maria Leopoldina Machado de Assis.
                Aos seis anos, presenciou a morte de sua única irmã. Quatro anos depois, sua mãe falece. Seu pai casa-se uma segunda vez em 1854. Aos catorze anos, o jovem Machado de Assis trabalha para manter a casa com a madrasta, pois seu pai também falecera. Pouco se sabe da juventude machadiana, mas o que se sabe é que já nesta época o mulato sabia ler e escrever.
                O adolescente suburbano do Rio de Janeiro tinha uma queda bela vida intelectual e da boêmia da cidade. A Rua do Ouvidor com suas livrarias e cafés chamavam-lhe a atenção. Queria ser participe daquele meio. Ascender socialmente. Ainda na juventude, como que atraído pelas letras, foi caixeiro de livraria, tipógrafo, revisor, logo após, inicia como cronista e jornalista.
                Mas sua estreia foi com um poema, A palmeira, publicado no jornal Marmota Fluminense. Não por coincidência, seu primeiro livro publicado foi uma coletânea de poemas, Crisálidas (1864). Machado de Assis, à custa de muito esforço, pois era um homem de cor, ocupou diversos cargos públicos. Trabalhou na Secretária de Agricultura, foi membro da Ordem da Rosa, e diretor da Diretoria da Diretoria do Comércio em 1889.
                Além de poeta, contista, romancista, dramaturgo, foi crítico, trabalhando inclusive como censor! Mas assim como Machado adorava dialogar com o leitor em suas sobras, que pensa o leitor desse devaneio biográfico? Para entendermos uma obra, devemos saber primeiro quem a produz, e quando a produz. Já dissemos quem, mas talvez nos falte o quando. E esse quando era o Rio de Janeiro de 1874.
                O tráfico negreiro no Atlântico estava proibido por lei de 1850. A Lei do Ventre Livre estava em vigor desde 1871. A Guerra do Paraguai havia feito os seus estragos geopolíticos e na política interna brasileira. Havia um gérmen abolicionista que cresceria a partir dos finais da década de 70 do século XIX. O Imperador mantinha sua popularidade a todo custo, se tornando último elo das elites com a Monarquia.
                O romance (ou seria melhor dizer: a novela) A mão e a luva é considerado uma das melhores obras machadianas. E das que já li, embora seja boa, é menos que Dom Casmurro ou um Memórias Póstumas de Brás Cubas. Até mesmo contos como O alienista me foram mais palatáveis e de sincero proveito que essa história da fase romântica de Machado de Assis, aos 35 anos, quando estava casado com a portuguesa Carolina Augusta Xavier Novais.
                Aqui já se delineia muito do que se tornará estilo próprio do autor: uma leitura da alma feminina, ironia, determinismo, fatalismo, relativismo etc. O romantismo de Machado de Assis tem um ingrediente a mais que os outros livros dessa escola literária: a ambição dos amantes, motor primeiro das paixões que se legitimam. Os românticos, geralmente perdem o páreo na corrida dos corações.
                A galeria de personagens é curta nesse drama. Começamos com dois amigos, Estêvão e Luís Alves, ambos estudantes. O primeiro apaixonado por Guiomar, uma órfã de pai e mãe, que busca se tornar professora. O romance entre os dois desanda, e por mais de dois anos sem se verem, encontram-se por acidente em chácara da baronesa, madrinha da jovem Guiomar.
                A esse seleto grupo de personagens, adentram a baronesa, viúva que encontra em Guimar substituta da filha morta; seu sobrinho Jorge, um mancebo que deseja desposar a bela Guiomar e ter como herança as rendas da tia; Mrs. Oswald, viúva inglesa e intervencionista das questões familiares. Mas de todos, é Luís Alves que vai se sobressaindo, pois consegue ultrapassar Jorge no atalho do coração de Guimar. Estêvão de tão cego por sua paixonite aguda, não percebe nada que se processa ao redor.
                Se um a ama mais por ambição egoísta, e o outro por cegueira deliberada, Luís Alves é o amante comedido que tendo consigo a paciência dos estrategos e as posses, resgata para si aquele coração que parece intocável, que ninguém parece suspirar. E nisto consiste a forma machadiana de romantismo, ama-se menos por fervor dos impulsos naturais como no naturalismo e mais por necessidades várias como a ascensão social.
                Estêvão é o típico amante que exaspera em paixões fulminantes, é tolo e falto de juízo como diriam sem uma época. Parvo, pois não sabe ler nenhum sentimento no corpo e na voz da amada. Jorge, nem o coloco na conta de amante, seu amor é tecido pelas hábeis mãos da governanta inglesa. Essa última personagem merece papel de destaque, dissimula e se utiliza dos sentimentos alheios como boa manipuladora.
                Confesso que o final foi inesperado da minha parte, mas não tive tanta emoção ou diversão como em outras leituras. O uso da gramática, da ortografia e de erudição são aqui de sorte que engrandecessem a leitura, sem pedantismo, há aqui força de quem passei nas palavras, as domina por completo. Se A mão e a luva está aquém de outras obras de Machado de Assis, ela está muito além de outras obras românticas, com suas relações açucaradas e agourentas.
  • Uma vida Cyberlife

                Poucas coisas nos angustiam como o futuro. Essa coisa que apenas projetamos e não vivemos cria sonhos e gera pesadelos. Quando a Sem Tinta Editorial resolveu publicar uma coletânea de contos de ficção científica, a antologia Cyberlife, diversos autores nacionais se empenharam na tarefa de escrever sobre a vida no futuro. A base para isso era a inclusão de vidas artificiais e alienígenas, o que tornava o cenário complexo para nós humanos.
                O organizador Erick Alves acertou em cheio nas escolhas. Em catorze contos, vemos como os terráqueos teriam que lidar com novas formas de vida, sejam elas com ossos de metal e pele orgânica, ou vindo de planetas distantes. O livro mescla vários subgêneros da ficção científica como o cyberpunk e a space opera, além de grandes doses de futurismo. Técnica e imaginação foram essenciais na construção desses mundos.
                O conto que abre a coletânea é o Injeção leta de culpa, escrito pelo Erick Alves. Nessa história ele aborda a relação entre duas personagens: Lady Fox, uma rebelde de um grupo revolucionário chamado de a Corte, e Norene, uma agente policial. Aqui o autor aborda a marginalização da juventude sem esperança e niilista, em contraponto ao corporativismo das instituições e a rigorismo das leis penais. O final foi emocionante e inesperado.
                O texto seguinte, Onde mora a lua do Thiago Franco, foi o que menos gostei. O conto tem uma ótima narrativa em primeira pessoa, e se divide entre as memórias da protagonista como viajante espacial e o seu presente como gladiadora. Embora o título do conto se refira a lua, o satélite teve muito pouca importância. A obra é carregada de nuances poéticas, mas o problema mesmo é o final, com direito até a Deus ex machina. Acabou com o clima de “felizes para sempre”, para o que foi apresentado na trama, soou romântico demais.
                O terceiro conto para mim é o melhor. O Rodrigo Ortiz Vinholo nos trouxe o conto A semente do céu. De todos os contos apresentados, ele apresentou o melhor conceito e também o desenvolveu com muito sucesso. A história narrada em primeira pessoa revela os questionamentos de um extraterrestre que vive em bairros planejados, o que eu entendi como se fossem guetos nos moldes de segregação racial. As sementes a que o título se refere são capsulas espaciais que chegam a terra, e graças a sua alta tecnologia, regeneram a vida em seu interior. O conto aborda de modo muito prolífico o fanatismo religioso e o preconceito racial, bem como as consequências sociais negativas sobre o fato.
                O meu conto vem logo em seguida, e se chama O Bairro Esquecido. Nele eu abordo a história de um bairro onde convergem refugiados, androides, cibercriminosos e extraterrestres. Eu gostei muito do resultado desse conto, e o organizador acreditou na sua estrutura narrativa. Espero que o leitor goste. Para mim foi um desafio escrever um conto sem mocinhos nem vilões.
                Anabel, a poeta é escrito pelo Felipe Del Bosco. Nesse conto o autor aborda de modo poético vários questionamentos sobre o tecnicismo, voltado para a escrita. Ao longo do texto, a protagonista demonstra ter umas fugas da realidade. O cotidiano se torna uma montanha russa de alucinações constantes. O que mais surpreende nesse conto é que a protagonista não é bem o que pensamos no início.
                Jon O’Brien nos traz o conto Crianças aprendem a odiar. Embora a protagonista e a narrativa foquem em crianças, o conto é bem assustador. Uma metáfora para a ausência de humanismo o período de educação infantil, o que torna as crianças cada vez mais violentas e portadoras de preconceitos enraizados de modo profundo. As crianças são o espelho da sociedade, só que sem freios morais.
                Um pequeno ponto pálido é o conto trazido pela escritora Ana Carolina Machado. É a história mais curta do livro, mas rico em detalhes e sentimentos. O primeiro é a solidão, não caber em um mundo, estar a margem de uma sociedade e saber que nunca mais pode voltar para a sua terra natal provoca uma certa angústia. Estar invisível numa sociedade cada vez mais artificial traz mesmo uma náusea na gente.
                O homem de vime é um conto que une o cyberpunk e o thriller psicológico. Yian é um agente policial que tem como missão levar um prisioneiro a Kadath, onde oniromante, seres que controlam a capacidade se sonhar, irão cuidar de extrair as informações de sua mente. Ao longo da obra, temos uma sensação sufocante de déjà vu. Foi um dos contos que mais gostei, o final foi um choque para mim. A imagem do homem de vime a que o autor recorreu é perturbadora.
                O conto seguinte é do autor Paulo Matheus Ferrari. Em seu O som do metal, um homem ganha um violino de um estranho na rua, assim, sem mais nem menos! Ao longo do conto, através desse gesto, o personagem vai se questionando sobre a artificialidade da vida humana. O conceito de mind upload foi legal, mas acho que a história em si careceu de um contexto melhor. O diálogo do protagonista com a alíen foi desconexo em relação a proposta do conto. Achei que o autor ia desenvolver conflitos maiores, mas se limitou a desconfiança e reticências do protagonista.
                Em O jardim, a autora Sabrina Mota Marcondes nos mostra uma protagonista que tenta revitalizar a natureza através de pequenas ações como resgatar plantas. Um conflito em grande escala colocou humanos, robôs e extraterrestres em lados opostos. Confesso que na primeira leitura, você não saberá identificar a qual grupo ela pertence. Parabenizo a escritora, foi genial.
                O autor Mardey Stealth nos traz um conto semelhante ao do Thiago Franco, só que desenvolvido com mais competência, acredito eu. Aqui também temos um protagonista gladiador. Sua única esperança de sair dessa vida de batalhas é derrotar o campeão. Panthogar narra os últimos passos desse guerreiro em busca de liberdade. O autor se permitiu certo exagero no conflito do protagonista título com o campeão da arena, mas narrado de modo mais crível e com um final coerente.
                A autora Fernanda Miranda nos traz um conto com referência direta ao feminismo, mas ao invés de mulheres, temos robotas, e ao invés de uma ideologia, um vírus. F-7 e S.I é o mais cyberpunk dos contos dessa coletânea. A narração é muito boa, porém, os conceitos parecem meio genéricos, tipo “mundo-cópia” e os clichês dos velhos chips neurais. Nesse futuro, as robotas são androides femininas que são usadas para diversão sexual por seus donos, a autora não fala diretamente, e nem precisava. Entretanto, um vírus chamado Sentimentos-Intensos mudam suas configurações básicas, criando uma nova personalidade chamada F-7. E tem uns problemas estruturais básicos: o vírus S.I torna as robotas hipersensíveis, emocionalmente instáveis e desinteressadas, como elas vão se tornar livres nessas condições? E por último, se as robotas foram criadas pelos membros do Conselho Intermundial para auxiliar os humanos, porque são produzidas e vendias em série? Isso é fetichismo da mercadoria. Eu achei o conto bem panfletário! As metáforas utilizadas pela autora não caíram bem. O argumento da história é falho e contraditório.
                Sentimento obscuro é escrito pela Francy Lima. Nesse conto, um velho robô resgata uma criança de dentro de uma capsula de hibernação. Ao longo da história os dois descobrem que tem um passado em comum. Esse é o tipo de conto que peca pelo pouco espaço. Conhecendo esse risco, o autor sabe que sua narrativa pode apresentar soluções vacilantes na trama. Mesmo assim ela cumpriu sua função, mostrou um futuro possível e a relação entre robôs, humanos e extraterrestres. Mas faltou algo mais para prender minha atenção.
                Por último, temos o conto Brand new life da autora Mayra Pamplona. A história foca em Aglaya, a única sobrevivente de sua família após uma infecção bacteriana que provocou milhões de vítimas. Vivendo numa colônia terrificada em Marte, a protagonista vive como ume mendiga, comendo sobras de lixo e o pouco que adquire com seu artesanato. Gostei do clima descompromissado da história. A vida de Aglaya é bem traumática, só achei algumas situações exageradas como quando o robô deu sua chave mestra a alienígena, o que poderia colocar não só a vida dela em risco, bem como a de toda a Bahram. Tirando isso, gostei muito do desenvolvimento da história, mostra um outro lado dos seres humanos, que deveriam ser mis recorrentes.
                Foi a primeira edição, do primeiro do livro da Sem Tinta Editorial, então não serei rigoroso nas críticas. Os pequenos erros que apareceram não impactaram de modo negativo na leitura, e poderão ser corrigidos facilmente numa segunda edição do livro. Um ou dois parágrafos que não estavam com espaço inicial, ou uma palavra sem acento gráfico. Nada que desabone o livro.
                A brochura tem mais de 190 páginas, dividida em catorze contos, que nos dão um gostinho de quero mais. Conta com orelhas, a capa é em Supremo 300g. A introdução fica por conta de Erick Alves.  A capa do livro é sensacional. No fim do livro, temos um anúncio de nova antologia, essa será de terror e se chama Chave das trevas. O livro custa R$ 25,00. Leitura recomendada a todos os leitores de ficção científica.
    Para adquirir acesse:
  • Via Permanente

    O trem longuíssimo,
    incansável,
    no pátio á manobrar,
    “rodando pra lá e pra cá”,
    ia puxando os vagões,
    sua carga,
    seus varões,
    arrastando pelos trilhos da vida
    a vida da carga humana.

    Atravessando a malha urbana,
    cortando cidades, bairros e vilas,
    vai levando a esperança,
    pra deixar a dor da insegurança,
    que queima nos corações proletários.

    Máquina de aço,
    aço de homens
    que fazem a estrada rodar,
    comendo o cascalho da vida,
    o lastro,
    o trilho, a estrada,
    seu repasto...

    Massa de homens
    fazendo a vida girar,
    girando as rodas nos trilhos,
    trilhando a estrada sem brilho
    seguindo até o infinito,
    então, perdendo no tempo, seu grito.

    Homens de faces marcadas,
    de “almas mal lavadas”,
    esperam o trem do destino,
    vencidos no cruzamento da linha,
    deitados sobre os dormentes
    de qualquer Via Permanente...
  • Vira-lata

    The green and yellow
    do autoproclamado patriota,
    esconde, sob o manto do anonimato,
    o mais “puro” Vira-lata,
    que precisa ser estudado...
    Fervorosamente alienado,
    vive abraçado à bandeira de listras e estrelas,
    como mortalha que encobre suas “besteiras”!
    Frequentemente questionado
    Sobre o seu nacionalismo,
    a resposta vem fácil:
    E daí?
    Temos um “Grande Tio”
    a nos proteger!
    Que, em troca, apenas espolia
    a dignidade que a nação já teve...
    Um dia!
  • Você não é bonito, você é um padrão!

    "Obcecado por dentes alinhados, sobrancelhas finas, uma pele lisa e macia sem nenhum tipo de ruga ou marcação. Uma cintura estreita, seguida de um quadril largo e coxas grandes. Uma grande bunda e grandes peitos..."

    Não, esse trecho não foi escrito por um psicopata, por um maníaco... Esse trecho foi escrito pela sociedade, descreve perfeitamente o PADRÃO.
    Ah, como você conhece esse padrão. É o padrão você tenta entrar todos os dias, é o padrão que você busca...
    Engraçado como o ser humano pode ser tão fútil e ingrato a ponto de nunca estar satisfeito com sua aparência, com o que enxerga no espelho. Não estou generalizando, de maneira alguma... Eu conheço muito bem as exceções. 
    Conheço aqueles que não se abatem, não abaixam a cabeça.
    O simples fato de não mostrar o que os outros querem, desejam, almejam e mais do que nunca, invejam, jamais vai para-lós... São superiores ao cabelinho da moda, as roupas de grife, ao corpinho definido.
    São aqueles que procuram apenas a felicidade e o amor, buscam ter uma vida de sucesso, expandir seus conhecimentos e tornar-se cada vez mais atraentes. 
    Não atraentes para os leigos, mas atraentes para pessoas diferentes, para pessoas especiais. Pessoas que compartilham os mesmos ideias, que podem dar amor e afeto independente do rostinho que o parceiro tem, do corpo que o parceiro tem, da aparência que o parceiro tem. 
    Não existe beleza exterior, existem exigências feitas todos os dias por nós mesmos, somos os jurados mais cruéis do planeta. Cobramos dos outros o que não queremos que nos cobrem, somos hipócritas... 
    Você é feio? Seja o feio mais atraente.

    Jamais ligue para o que as pessoas veem, e sim para o que elas sentem.
     Ao encher uma pessoa de amor e compaixão, você está fazendo a diferença, você está sendo BONITO, está tendo atitudes BONITAS.

    Quem lhe disse que espinhas são nojentas? Que o cabelo deve ser bem penteado? Que as roupas tem que combinar? É TUDO UMA QUESTÃO DE PERSPECTIVA. O FEIO, não existe.
    Todos nós somos diferentes, e isso é incrível...

    Sinta-se, perceba-se... Você está aqui para cumprir sua missão! Você está aqui por um propósito! Ninguém jamais vai poder te ditar o que fazer ou não.
    Nunca, em momento algum, deixe de fazer algo por não se sentir bonito o bastante para aquela ocasião.

    APROVEITE A VIDA MEU CAMARADA, seja boa pinta, seja descolado, mas nunca deixe de ser VOCÊ MESMO.
  • Vou Virar Plutão

    Com os rostos virados para as estrelas, acho que criavámos uma conexão forte. Como se fossemos estrelas também. 
    Mas então ela se levantou, com o rosto numa expressão agoniada. Passou as mãos pelos cabelos, bufando de raiva. Mas antes que pudesse perguntar se estava tudo bem, ela me atropelou com as palavras.

    -Não te deixa brava que a vida seja só isso!?-ela apontou para nada como se visse a coisa mais ridícula do mundo.

    Fiquei quieta, sem abrir a boca, porque sabia que ela me atropelaria com as palavras novamente.

    -Não, não! Me corrijo: você não fica indignada de ver que as pessoas aceitam que a vida seja somente isso?

    Penso sobre isso. Aliás, a vida era sobre o que? Ser feliz? Fazer o bem? Deixar sua marca? Fazer o que você quiser fazer? Passar no ciclo da vida? Espera...isso era sobre Rei Leão, não fazia muito sentido. 
    Mas para ela fazia sentido, porque ela estava agoniada. Parecia que iria ter um surto de raiva e que quebraria tudo em volta. 

    -NÃO É JUSTO! PORQUE AS PESSOAS ACHAM QUE TUDO VAI SER DESSE JEITO?

    -Desse jeito como?-eu finalmente pergunto.

    Ela respira fundo e então olha para mim. Eu a encaro como uma aluna querendo aprender, porque tudo que ela fala faz sentido para mim.

    -As pessoas elas...elas se conformam que a vida é desse jeito. Nasce, cresce, sofre, trabalha e morre. Cadê...-ela para como se estivesse buscando palavras- cadê todo mundo que não quer ser assim.

    Ela estava mais incomodada de estar sozinha ou de todos acharem a vida tão superficial? Eu ficaria com medo de estar sozinha, mas não ela... Acho que ela se preocupava mais com o fato de todos estarem cegos com relação à vida. 

    -Puxa-ela diz passando as mãos pelos cabelos, ainda naquela agonia-As pessoas dizem que nossa vida é só um grão e que somos apenas um entre sete bilhões e meio de pessoas... Então porque todos vivem a mesma vida? Se somos tão insignificantes assim, porque todos não tentam ser insignificantes de um jeito único?

    Aquilo fazia sentido. E de novo eu me sentia uma aluna escutando o professor. Ou melhor, a professora. 
    Então por um tempo nós ficamos calados e voltamos a olhar as estrelas. 

    -Eu quero virar Plutão-ela murmurou com as pálpebras pesadas.

    Eu a olho confusa, mas ela nem se dá conta disso antes de voltar a falar.

    -Plutão não é planeta, não é nada...Não é ninguém. Mas mesmo assim as pessoas ainda sabem mais sobre ele do que sobre os planetas de verdade... Não é?-seus olhos se viram para mim.

    -Claro-eu concordo-Plutão é o não planeta mais importante.

    -Ele é...E eu vou virar Plutão-seus olhos se fecham com o sono. 

    Tudo que ela falava fazia sentido para mim, mas eu discordo apenas de uma coisa. Não acho que todos precisem viver uma vida insignificante única, acho que isso só serve para pessoas que querem ser planetas...
    Se ela vai ser Plutão eu vou me tornar uma Lua apenas para ela. Vamos viver no futuro, e no passado, e vamos ser insignificantes juntos...Mas ainda assim únicos. 




  • Xadrez político em 2022: promova mais Cavalos que Damas

    Embora diversas pesquisas de intensão de votos apontem para uma esperança civilizatória nas eleições de 2022, a realização da projeção necessita de tantos desenlaces que a expectativa vai caindo a cada nova condição. O bolsonarismo tem que continuar derretendo, as esquerdas devem se engajar na internet, Lula não deve ser preso de novo, alianças devem ser feitas com prepostos da direita para garantir a governabilidade etc.
    O presidenciável Lula faz um arrastado acordo com Geraldo Alckmin (PSDB), algo que pode abrir às portas da governadoria de São Paulo para Fernando Haddad. Isso pode ser ruim para Guilherme Boulos (Psol), que apesar de ser o político de esquerda com melhor engajamento em redes sociais, conta com a inexperiência em cargos eletivos. O tabuleiro vai se reordenando progressivamente em benefício de petistas e aliados.
    Mas nem só da Presidência da República vive a política nacional. São 513 deputados federais e 81 senadores, numa salada partidária de 33 legendas (TSE, 2021). Levando em conta as bancadas de direita e de esquerda, temos um congresso centro-liberal até à extrema-direita.
    À destra da democracia corresponde a 79,92% de deputados, contra apenas 20,08% de deputados de esquerda ou centro-esquerda (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2021). Levando em conta a representação do Senado por partido, temos 86,41% de centro-liberais até extrema-direita, e 13,58% de centro-esquerda e esquerda (SENADO, 2021).
    Nesse jogo democrático, a esquerda insiste na mesma estratégia errática: promover a Dama e esquecer das outras peças. Uma Dama desprotegida não sobrevive a partida. Gastar 50% do fundo para eleger um presidente de esquerda e ter uma maioria congressista opositora não me parece o cenário mais vantajoso.
    Mas novas peças vêm se mobilizando no tabuleiro. A fusão entre DEM e PSL parece ser uma última saída para abafar o Poder Executivo em 2022, prevendo o derretimento do bolsonarismo e a vitória de Lula. O novo partido se chamará União Brasil (nº 44), o que dará uma bancada de 82 deputados, cerca de 15,98% da Câmara dos Deputados, e 9,87% do Senado — se tornando a quarta maior bancada —, contando com um trunfo: a Presidência do Senado (G1, 2021).
    A “Terceira Via” parece ser a estrada que o Brasil não quer tomar. São tantos presidenciáveis aleatórios que é mais fácil Cabo Daciolo (Brasil 35) abocanhar os votos dos bolsonaristas arrependidos e os antipetistas no próximo pleito do que o ex-superministro da Justiça Sérgio Moro e “pseudogamer” de rodoviária (Podemos).
    Personas non gratas e desconhecidas do grande público se aventuram em desordenado desespero. Os exemplos de alpinismo político não faltam, principalmente aqueles que ganharam quinze minutos de fama após a CPI da COVID-19 como a “ingênua!?” Simone Tebet (MDB) e o bolsonarista arrependido Alessandro Vieira (Cidadania).
    O “Centrão” se tornou uma fábrica de candidatos à Presidência da República, tão atrativos quanto um picolé de chuchu. Indivíduos estofados com muito ar e com muitas platitudes à boca. Mas ao menos temos mais memes para usar nas redes sociais — tinha que ter ao menos um lado bom.
    Ciro Gomes (PDT), é o peão envenenado do tabuleiro, peça que nem os jogadores a direita e a esquerda querem. Historicamente odiado pela direita devido as suas críticas ácidas e políticas públicas macroeconômicas, ele inova em 2021 e 2022 e se torna rejeitado dentro da própria esquerda, diminuindo o seu já minguado eleitorado. Ciro Gomes é o Enéas invertido: com discurso de ódio à esquerda, tem cabelo e não usa barba.
    Apesar do Plano Nacional de Desenvolvimento cirista, a política real tem se mostrado diferente das partidas do Ciro Games. Se o candidato continuar a alimentar o seu ostracismo político, logo entrará num game over. Uma possível aliança com Marina Silva (REDE) poderia melhorar a projeção eleitoral de Ciro Gomes, mas esse casamento político necessitaria de um divórcio prévio entre o pedetista e o marqueteiro João Santana.
    Tem muita partida ainda a ser jogada até o segundo semestre de 2022. A corrida da esquerda é sempre à Presidência, enquanto isso o Brasil Paralelo vai às favelas ensinar que a terra é plana e cigarros curam câncer de pulmão. Estratégias políticas fracassadas continuam em vigor, divisão e autofagia esquerdista marcam a década. Enquanto isso, a Senhora Democracia adormece, ela está com sono, talvez tenha desmaiado com tantas ameaças a sua pessoa.
    REFERÊNCIAS
    CÂMARA DOS DEPUTADOS. Bancada atual. Disponível em: https://www.camara.leg.br/deputados/bancada-atual, Acesso em 16 out. 2021, às 10:50 horas.
    HANNA, Wellington. DEM e PSL aprovam fusão; novo partido se chamará União Brasil. G1política. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2021/10/06/dem-aprova-por-aclamacao-fusao-com-psl-novo-partido-se-chamara-uniao-brasil.ghtml, Acesso em 16 out. 2021, às 11:19 horas.
    SENADO. Senadores em exercícios: 56ª Legislatura (2019-2023): por partido. Disponível em: https://www25.senado.leg.br/web/senadores/em-exercicio/-/e/por-partido, Acesso em 16 out. 2021, às 11:02 horas.
    TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Partidos políticos registrados no TSE. Disponível em: https://www.tse.jus.br/partidos/partidos-politicos/registrados-no-tse, Acesso em 16 out. 2021, às 11:05 horas.
  • Zelizeu (primeira parte)

    Filho de Josué Bonsucesso Bem-Aventurado, mecânico falido de aeronaves marítimas, e da pobre, ingênua e póstuma Josefina Beatrice Eldervina Arnalda, nasce, em um hospital semiprivado em uma tenebrosa tarde tipicamente invernal de verão, o nosso objeto contemplativo Zelizeu.
    Mas, meu caríssimo, devo deixar claro de antemão que não há romances ou surpresas na história de Zelizeu, então, por obséquio, não espere com esperança descabida tais eventos.
    Zelizeu, órfão de mãe já de parto, foi criado somente pelo seu pai, e desde pequeno sempre demostrou aptidões para a metalurgia, coisa que rapidamente foi notado pelo seu progenitor que não tardou em arranjá-lo um oficio no bairro industrial da cidade. Assim Zelizeu, aos nove anos de existência, já era uma pequena peça de minimíssima importância dentro da indústria metalúrgica, coisa que não muda nos dezenove anos posteriores.
    Claro que agora você deve estar pensando: “Mas então quer dizer que a verdadeira história (aquela que realmente importa ser contada, aquela que ficará guardada em nossos corações e mentes, como algo verdadeiramente extraordinário) só se inicia com seus vinte e oito anos?”
    Não, meu caríssimo...
    Acontece que Zelizeu, aos seus vinte e oito anos, quatro meses e um dia de existência, torna-se sozinho no mundo triste em que nasceu, pois seu pai sofre um mal súbito e falece enquanto fazia devotadamente suas necessidades fisiológicas matutinas diárias. Com tal acontecimento e saboreando de uma epifania inigualável Zelizeu sente-se livre para largar o oficio determinado pelo seu, agora finado, progenitor  e seguir o seu verdadeiro sonho; ser auxiliar de cozinha em um uma empresa multinacional de fast food, todavia tamanha sensação momentânea termina tão subitamente quanto iniciou-se e ele não se encoraja o suficiente para pedir demissão, assim continua sendo apenas mais uma peça de insignificante importância dentro da indústria metalúrgica do bairro industrial da cidade. Não que eu queira dizer que ele teria mais significância vital atuando como auxiliar de cozinha ou qualquer outro honrado trabalho, a existência de Zelizeu já estava fardada em apenas ser uma minúscula quase insignificante peça nessa colossal engrenagem cósmica em que habitamos.
  • Zumbi, mais que ação, um ideal

    Antes de tratar do quadrinho que eu li, o Zumbi em ação do Fernando Gomes, é necessário que eu faça uma pequena introdução. Zumbi dos Palmares é o personagem histórico mais comentado do país ultimamente. Não digo isso apenas por estarmos no Novembro Negro — utilizado pela publicidade a exaustão —, mas sim pelos debates históricos acerca desse homem.
              Para os pensadores... quero dizer, pseudointelectuais da extrema-direita, Zumbi, o mesmo que libertava negros da escravidão, possuía ele próprio escravos!? Nada disso tem o mínimo de fundamento historiográfico. Nenhuma fonte até hoje fez esse tipo de comprovação. Se houve negros e pardos que possuíram escravos, ou Estados africanos que se serviram do escravismo, isso não deve ser usado para legitimar o racismo atual.
              As ilações e especulações esvaziadas de historicidade, ou melhor, contexto histórico, distanciam esse homem negro do seu tempo e do espaço. Mas porque tornar logo Zumbi o vilão do regime escravocrata? Simples, para produzir misologia, pulverizar ignorância, legitimar o racismo produzindo a falsa ideia de que aquele que libertou seus iguais era um oportunista.        
              Quando li o mangá do Fernando Gomes, assim o chamo devido sua estrutura narrativa, vi a oportunidade das pessoas se interessarem um pouco por essa história tão maculada por ideologias vãs. O quadrinho toma algumas liberdades poéticas, algo plausível, visto que o autor produziu uma ficção com elementos históricos, e não apresentou uma tese de Doutorado em História do Brasil Colônia.
              Em Zumbi em ação, o nosso protagonista nasce em 1655 no Quilombo de Palmares, atual Alagoas. O filho de Dona Sabina cresceu um garoto levado, e ainda criança, acabou sendo capturado por um soldado após Zumbi jogar frutas nele. Há meio caminho ele acaba sendo resgatado por um tal Capitão Francisco. Se tornando seu tutor, o militar o leva para uma igreja em Porto Calvo, sendo batizado e educado lá.
              Depois de anos treinando esgrima com Francisco, Zumbi, agora bem mais velho, se junta ao seu mestre Capitão Francisco e luta contra bandoleiros pelas vilas e arraiais. Depois disso a história segue um ritmo mais rápido. Nos parece que o autor queria lançar algum panorama da vida desse herói nacional. A obra em one-shot se desenvolve como um longo flashback pelas mais de 30 páginas.
              A obra colorida ressaltou os grupos étnicos-raciais em conflito, bem como os mestiços. O desenho tem cara influência de mangá, mais pela sua estrutura narrativa do que pelos traços. De maneira resumida, a história traça a ascensão e queda de Zumbi como líder do Quilombo de Palmares. E mais que o traço em desenvolvimento, o que mais me incomodou foi o papel que Zumbi adquiriu na obra.
              Zumbi, embora protagonista, é um personagem mais passivo. Não estou cobrando fidelidade histórica do autor, talvez ele meso não tenha se aprofundado muito na história desse líder negro, mas, o Capitão Francisco como “sensei” de Zumbi ficou pouco crível e acabou atrelando a luta do personagem principal a motivações banais, infundadas até. Não achei crível. Não foi tão estimulante quanto sua luta pela liberdade.
              Ao longo da história o foco muda, mas o quadrinho é tão curto que isso acaba despercebido. O autor lançou outras obras, e Zumbi e Palmares são revisitados mais uma vez. O designer dos personagens é bacana, e mesmo adultos, nos remetem ao shonen de lutas. As lutas, mesmo não sendo o foco, são mal coreografadas e não dão o impacto necessário.
              Apesar dos impasses da obra, se você gostaria de ver Zumbi dos Palmares numa roupagem moderna e fantástica, adquira o seu exemplar. Talvez o maior destaque dessa obra seja despertar a curiosidade do leitor para acompanhar a trajetória desse homem que tanto contribuiu para a liberdade de homens e mulheres negras oprimidos pelo regime escravocrata português e brasileiro.

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