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crítica

  • "Animal racional"

    Deve-se subtrair a concepção defasada de que o que ocorre com as mulheres é algo "normal",vê-la como objeto na mão de um ser "dominante" impondo sobre a mesma uma coerção que só existe no mundo deturpado de sua mente doentia.Concepção essa,que contribui para fomentar atos desumanos e veementemente frios que aliados ao complexo de superioridade de gênero,facilmente desencadearão um feminicídio,ato de matar mulheres pelo simples fato de gênero e acariciarem seu ego doentio.Ato esse realizado para que possa sentir-se como um modelo de homem forte,modelo o qual a sociedade instiga.
    É necessário arrancar a "raiz" machista da sociedade de que a violência contra a mulher é algo dentro dos parâmetros mensurados como normais,tal qual vivem no breu da ignorância machista,negando-se a perceber que tais atitudes patriarcais,são estridentemente simbologia de um pedantismo,pois não existe uma relação de poder que não seja a criada na cabeça de quem pratica e perpetua tal ideologia.
    Dessa forma,é imprescindível a não omissão da classe feminina diante da tamanha boçalidade coletiva de objetificá-la,sendo um verídico adorno nas mãos de um homem,que a controla como uma marionete.É gritante o pedido de basta,chega de todas as mulheres que cansaram da vida que levam e/ou não querem ser as próximas vítimas do feminicídio,todavia o grito não é "ouvido".
    É urgentemente necessária um consciência social sobre a degradação e hostilização da mulher,não cabendo apenas fingir se preocupar,como feriados para homenageá-la e depois caem no esquecimento,um show de hipocrisia gratuito.A mulher é hostilizada cotidianamente e induzida a sentir-se frívola,sem moral,para que assim sucumba todas as vontades impostas a ela.
    Quão rápido o machismo e o feminicídio ocorrem,deve-se enfatizar que homens e mulheres são diferentes,mas essas diferenças não podem definir valores,hierarquias ou discriminação.Deve-se ressaltar a conscientização desde cedo que não existe superioridade,acabar com a ideia de que é algo "normal",exaltando o respeito como diretriz principal.Dar voz e assistência às mulheres,criando assim uma sociedade mais humana e ética.
  • (SOBRE) O CADÁVER DA BELEZA

    Uma lágrima-sorriso
    se verteu do amar dos olhos,
    com tanto sal, com tanta vida
    quanto a própria luz do olhar.
     
    Uma lágrima choveu do céu dos olhos seus,
    brincando com os ares do rosto,
    num sorriso cáustico
    de que mesmo a vida
    já teria sido sonhada
    alguma vez...
  • [Conto] DEDO PODRE

    Naquela manhã de sábado quente, acordei questionando se realmente deveria ir à festa com o meus amigos. Será que vale a pena, já que o garoto mais insuportável do mundo vai estar lá? Realmente não sei. Sinto-me encurralada, a galera está falando da tal noite a semana inteira e os meus amigos me pressionam para dar uma resposta boa, tipo: “É lóooogico que eu vou!”.

    Na realidade, o pessoal acha que é frescura da minha parte, mas ninguém reconhece o quanto ele é infantil. É um porre. Como ele pôde? Até os meus amigos parecem fechar os olhos ao que ele fez. Se atreveu a me fazer passar vergonha em meio a todo o colégio! Aff. Neste exato instante, dizer que o odeio não me parece nem um pouco exagerado. Babaca!

    Foi inevitável, passei a tarde refletindo: será que conseguirei me divertir com a presença daquele ser tão insuportável e imaturo lá? Fala sério, parece que sou um imã de gozação dele. Pensar nisso é uma tortura.

    O cara realmente é um idiota. Sinto-me envergonhada só de lembrar da última que ele me aprontou. Jamais esquecerei o dia em que estava enfezada e o imbecil veio dar uma de que era simpático, o engraçadinho foi logo perguntando o que eu tinha; eu, trouxa, como sempre, fui sincera e disse estar decepcionada por ter engordado 5 quilos. Óbvio, de modo algum, o problema não foi a pergunta, mas o seu comentário, totalmente previsível ser algo desagradável por vir dele. Afinal, sabe o que ele me disse? Detalhe, gritando para a turma toda: “Mas é claro! Você quer ser magra como??? Sempre está mastigando! Come chocolate a aula toda e ainda egoísta a ponto de sequer oferecer. Por isso está aí, parecendo uma porca obesa! Já sei, você veio falar isso só para eu te elogiar, queria me ouvir dizer que você é magra e tem um corpo com “bonitas curvas”, né? Hahaha!”. Não obstante, ele levantou a blusa mostrando o “tanquinho” - infelizmente, o problema é que ele é lindo e apesar de todo o meu ranço, não consigo negar - e disse que eu nunca chegaria aos pés dele. Resumindo, ele é um bosta e ainda assim fui eu quem passei vergonha. Pois é, eu disse, bem desagradável, ele é um tremendo imbecil.

    O fato de memorar isso me impulsionou a ir, pois, eu jamais daria a ele esse gostinho. Me recuso a me privar de algo por causa dele.

    Chegando lá, tudo estava bem animado e a festa parecia prometer. Trombei com ele ainda na fila que ousou em me dar um sorrisinho sarcástico malicioso, não me contive e, como de praxe, não exitei em revirar os olhos. Prometi a mim mesma que não o deixaria estragar a minha noite, eu havia levado tempo demais para me produzir e estava um arraso, não seria por causa dele que perderia o clima.

    Tempo depois, os meus colegas chegaram e toda a galera estava dançando. Apesar dos meus pés estarem me matando, a música era contagiante demais. Sem sequer esperar, um cara puxou a minha mão como quem me guiava convidando-me para dançar, tratava-se do baile da escola e por isso não fiquei receosa de seguir, afinal, conhecia todos ali. Porém, além de tomar um baita susto, instantaneamente fiquei frustrada, posso dizer que acima de tudo chocada, quando um feixe de luz roxa iluminou o seu rosto e pude reconhecer o Eduardo. Novamente, não me contive e soltei um “Grr, só pode ser perseguição!” enquanto tentava soltar sua mão.

    Estranhamente, disse que precisava conversar num canto, a sua expressão foi de receio, pela primeira vez notei que ele não estava com ar de zombaria. Como se fosse um mantra, enquanto caminhava sibilei para mim mesma três vezes “não irei me estressar essa noite”. Primeiro, pediu apenas para ouvi-lo, não queria ouvir de imediato as minhas constatações, assim o fiz. Ele veio com um papinho nada a cara dele de “me desculpe”, “será que pode me perdoar?”; depois a coisa foi ficando ainda mais esquisita, começou a me elogiar dizendo que sou bonita e blá blá blá; como se a coisa não pudesse ficar pior, contou que as minhas patadas o magoavam e ainda me pediu para parar, como se a minha grosseria para com ele surgisse do nada; a parte surreal foi ele alegando - assumindo - que só fazia aquilo para chamar minha atenção, que na realidade estava super na minha. Acredita que o filho da mãe teve a cara de pau de falar que era “afinzaço” de mim? Oi?!

    Sem saber o que falar, numa inútil tentativa de fugir da situação embaraçosa corri desesperadamente para o banheiro. Passei a mão molhada na nuca enquanto fitava-me no espelho do lavabo. Por que eu estava tensa? Para tornar tudo engraçado, o trecho do ícone da Kelly Key não saía da minha mente “você é gatinho, mas assim não dá”. A música alta me impedia de refletir com clareza se poderia esquecer meses de fúria oriunda de uma perseguição idiota e dar a ele uma chance, permitindo-me conhecer o “boy lixo”. Espontaneamente, dei risada debochando de mim mesma, já que só o fato de cogitar a ideia soava absurdo. Definitivamente não, não mesmo! Fala sério, se é assim, que ele entre em combustão, quero mais que essa situação seja para ele torturante, como foi para mim todos esses meses de brincadeirinha sem graça.

    No mesmo instante, um súbito pensamento trouxe de volta cor à minha noite. Com certeza, aquilo se tratava de mais uma brincadeira ridícula dele, uma tentativa de aferir se sentia algo por ele, caso caísse em sua ladainha, iria usar como motivo para me caçoar o resto do ano. Puff, mais infantil do que podia imaginar.

    Me recompus e sai do banheiro, iria fingir que nada havia acontecido, simplesmente optei por ignorar o ocorrido. Não deu certo, na porta do banheiro o Otávio me encurralou “tem um cara que é afim de você há um tempão. Mana, fica com o Edu?”, não posso ser hipócrita em negar que não passou pela minha cabeça acatar a proposta - a galera toda sabia, agora, era evidente o porquê de não darem trela às minhas reclamações a seu respeito - , mas tudo o que consegui fazer foi gargalhar. Sim, eu gargalhei, só não sei concluir se foi mais pelo cúmulo do absurdo ou de constrangimento. Não deu em outra, o boy ficou super sem graça - mais que eu até, se é que foi possível - e sumiu na multidão, o Otávio soltou um “Bom, você quem sabe. Eu até te entendo.” e saiu em disparada atrás do amigo.

    Aquela noite foi inusitada de todas as formas, eu não conseguia processar o que estava rolando e me senti super mal pela forma como ele saiu. Não deu em outra, perdi o clima e decidi ir embora. O cara era mais complicado do que eu pensava. Me deparei com ele sentado na calçada sozinho no lado de fora, “Meu pai vai vir me buscar, quer uma carona? Sei que sua casa é no final da minha rua”. Não queria ser chata, aceitei e percebi que ele levou como uma anuência à um bate-papo. Conversar com ele sobre aquilo não foi tão horrível como imaginei que seria. E, sim, a coisa toda era real. O pai dele estava demorando consideravelmente, cheguei a duvidar se ele sequer havia feito a tal ligação. Acabou que conversamos bastante e pela primeira vez em um diálogo não o classifiquei em pensamento como “desprezível”.

    A festa era no bairro, então decidimos por ir caminhando e encontrarmos o seu pai no caminho. Não sei o que aconteceu, mas, do nada me vi correndo pelo quarteirão com ele em meio a gargalhadas. Naquela noite, eu ri tanto que a minha barriga chegou a doer. Fiquei surpresa, fui capaz de reconhecer uma característica positiva nele, conseguir me fazer rir. Naquela madrugada quente, nos beijamos pela primeira vez, bom, eu o beijei. Fomos interrompidos pela buzina forte do carro do pai dele. Eu disse, aquela noite foi inusitada. Eu e o meu dedo podre.


    Janaina Couto ©
    [Publicado - 2016]

    @janacoutoj

  • [Roteiros] CIGARROS

    — Quanto tempo. Está me procurando... O que houve? O que quer?

    — Com tédio. Estou querendo ir na praça. Aquele lugar sempre remete você, sei lá. Vou ir.

    — Deve estar um deserto.

    — Não me importo. Eu gosto da calmaria.

    — Vai, chama alguém… Ou vai sozinho mesmo, pensar na vida. É gostoso.

    — Está ocupada?

    — São 23h40 e eu estou no busão… vou descer a serra… encontrar um pessoal e passar o feriado na praia.

    — Espero que seja quente.

    — Eu também, mas como essa madrugada pelo jeito vai ser gélida, já não tenho tanta esperança.

    — Eu queria era um maço de cigarro. Mas não posso gastar.

    — Vícios. Não há o que se fazer, a vontade vai te corroer até tragar.

    — Fuma há quanto tempo? 2 anos?

    — Menos.

    — Hum. Quantos maços por dia?

    — Não fumo todos os dias. Mas quando fumo mesmo, uns 4. Às vezes mais.

    — 4 maços? Cacete.

    — Não, 4 cigarros.

    — Ah, menos mal. Eu acho. Meu pai fuma 3 maços por dia.

    — Já não há uma parte do pulmão que salve.

    — Acho um absurdo.

    — Eu fumo com meu pai. Sempre quando vamos trocar um papo de vida, estamos fumando juntos.

    — Eu sou asmática. O cheiro do cigarro me enoja e dá pigarro.

    — Fresquinha.

    — Não, sensata. Jamais gastaria grana com o que me destrói.

    — Pode ser.

    — Conselho: Nunca pare de fumar por alguém. As pessoas te abandonam, o câncer não.

    — Essa frase não fez sentido

    — Era para ser um humor pesado. Não é pra ter sentido.

    — Ah tá, entendi.

    — Fuma qual cigarro?

    — Lucky Strike. Mas, com o tempo, me acostumei e passei a achar fraco. Passei a fumar Marlboro e não me satisfazia. Agora, Hollywood está suprindo as necessidades.

    — Marlboro fraco??

    — Sim, acredite.

    — E o Ministér? Já fumou?

    — Não.

    — Sempre achei o Marlboro forte. Insuportável.

    — O cheiro?

    — A gente precisa conhecer o inimigo

    — Você sempre odiou o cheiro, não vai dizer que começou a fumar…

    — O cheiro, sim, é insuportável. E nāo, eu nāo fumo.

    — Então não entendi.

    — Eu nāo consumo o que me destrói. Okay? Apenas.

    — Ingere açúcar?

    — Infelizmente, sim. Mas, quando possível, evito. Nesse sentido, me destruo. Pouco a pouco. Lentamente. Mas, eu dou a ele esse poder. Ainda assim, estou no controle.

    — Ninguém está. Então, é a mesma coisa.

    — Não. Pois, os cigarros que fumam perto de mim, me degradam sem o meu querer. Inalo. Me faz mal e eu não posso evitar. É exterior ao meu querer. É bem diferente. Agora, se eu quiser fumar, okay… a escolha foi minha. Eu dando o poder a coisa que me faz mal. Eu e minha vontade. Eu decidindo por mim. Ainda assim, no controle, alteridade…. até se tornar um vício. Aí fode. Mas, coisa que de uma forma ou outra, foi fruto das minhas ações.

    — Às vezes a gente faz coisas para suprir necessidades que nós mesmos fazemos ser necessárias, mesmo sabendo que tal coisa nos faz mal. Bebida, cigarro, entre outras coisas. É o que eu acho.

    — Sim. Vício. Você descreveu o que acarreta. É muito metafísico isso. Concorda?

    — Com o que disse? Sim.

    — Vício. Dá para fazer uma puta comparação ou intersecção com as pessoas.

    — E ao que disse lá em cima sobre câncer. Cigarro causa sim câncer, mas não como dizem.

    — Muita coisa causa câncer.

    — Sim, mas demora muito, em alguns pode ser em algumas dezenas de tragas, mas em outros pode nunca nem acontecer.

    — Sim. Como quem nunca tragou pode desenvolver.

    — Sim.

    — Porém, é evidente que quem é fumante está mais propenso. Seja ele passivo ou ativo.

    — Uma série de coisas que ingerimos, assim como vários temperos, causa câncer. E ninguém liga pra isso.

    — Cara, agrotóxico. Uma centena de coisas.

    — Eu não ligo pra nada disso, tô foda-se. E não quero me importar ou me preocupar.

    — Você diz estar “foda-se” para uma série de coisas. A questão é: Até onde isso é verdade? Já se questionou se diz isso a si mesmo apenas na tentativa de se auto convencer? Dizendo alto e em bom tom?

    — Nunca me perguntei. Mas não acho que seja.

    — Hum. É, pode ser. Ou simplesmente nunca se questionou.

    — A questão é que mesmo sabendo que é errado. A gente costuma, eu costumo, me apegar aos vícios e eles me controlam. Passo a agir por eles a ponto de fazer qualquer coisa para suprir meu desejo.

    — As vezes a gente deseja o que destrói e isso é duro de aceitar e lidar.

    — Concordo.

    — Isso explica muito sobre nós.

    — Eu sei… Eu sou a merda do cigarro não é?

    — Sim. E eu tô tentando parar de fumar.

    — E hoje um alguém te encarou e acendeu a porra de um cigarro na sua frente.

    — Exatamente. Justamente enquanto estou lidando com a abstinência.

    — A merda da abstinência.

    — Ela é sufocante porque os segundos correm e só o desejo com mais veracidade.

    — Ainda que cada trago seja intenso, pouco a pouco tudo se desfecha em cinzas.

    — Você sabe, você vê.

    — Não importa o quanto eu queira…

    — Eu sou nocivo.

    — Não pode continuar a me dar o poder de destruir você.

    — Eu dei o poder e luto para tomar ele. Já havia se tornado um vício.

    — Tenho sede do seu trago.

    — Dizer isso não me ajuda.

    — Desejo você para cacete a ponto de ser egoísta, te querer só para mim. É forte a ponto de te fazer mal. Eu sou a merda de um nocivo. E você tem a porra de um vício. Me desculpa.

    — Eu queimo em intensidade e incendeio ao queimar o cigarro.

    — E é nesse momento em que me tem nas mãos. E eu me desfaço. Momento que sou teu. Momento que você, pelo prazer, me dá o poder.

    — Eu detesto você por tudo isso. E detesto ainda mais a mim.

    — Tudo poderia ser suave. Mas, como você falou, o controle só existe enquanto não há o vício.

    — Sim.

    — São pequenos esforços diários...

    — Eu sei. E hoje, eu não vou tomar minha dose de você.

    — (…).


    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2019]

    @janacoutoj

  • [Roteiros] RUPTURA

    Eu sempre vou ter o que falar. Não guardo palavras. Mas, é cansativo quando são proferidas em vão. Sobre o meu sentir, você sabe. Aliás, fim de semana passado foi incrível.

    Posso apontar a dedo (os seus e meus) erros e os acertos, ações e omissões, os altos e baixos.

    Obrigada pelos altos.
    Obrigada pelos dias gostosos.
    Obrigada pelos olhares, pelos momentos de verdade.
    Obrigada por me mostrar inúmeras coisas.
    Obrigada pela imensidão do que me permitiu sentir.

    Porém, foi sobretudo, conturbado para apenas uma estação. Não vivemos ou viveremos tudo o que eu gostaria. Não comecei nada pensando no fim.

    O ponto final você põe, agora, sozinho. Não precisa me falar razões. A minha resistência ao CEDER e a sua necessidade em IMPOR sempre foi um problema entre nós. Sobretudo, o jeito como lidamos com as coisas, que é grotescamente diferente. Causou muitos dias baixos (como ontem e hoje).

    Todas as minhas declarações, choros, abraços, beijos, toques e olhares, foram sempre, profundamente, de verdade.

    Sabe, você diz sentir o universo por mim. Não sei como se pode amar alguém e facilmente colocar ponto final em relação a ela, bem como sempre ameaçar partir. Muito menos como tudo pode ser razão para partida. Não sei se é por você ser imediatista. Não sei.

    Acaba por me proporcionar alvoroço emocional. O alvoroço existe justamente pelo que pulsa em mim, por eu gostar de ti de uma forma desmedida.

    Você parece não perceber que, para quem está do outro lado, isso é foda, pra cacete. É uma espécie de controle emocional. Sem contar que mostra fragilidade do nosso elo, em muitos sentidos. Te disse isso das outras vezes.

    Francamente, como amiga, se atenta nisso. Como isso afeta e o que demonstra para o outro. Não sei se nos seus relacionamentos anteriores isso fluía ou como sua parceira reagia. Mas, pode descartar se quiser. Não tenho outra experiência para poder comparar. E, ainda que tivesse, sabe o quanto detesto comparações.

    Por favor, não me venha com “vai deixar a nossa coisa se desmanchar”. Sendo sincera, você quem iniciou a ruptura e, dessa vez, simplesmente acatei sua decisão. Não jogue o peso da sua escolha sobre mim.

    Recordo precisamente do seu efêmero posicionamento. Ouvi com atenção aquela frase, que, aliás, óbvio, atordoa a minha mente. “Não está bom pra mim”. Ainda que antes mesmo de proferi-la, intuitivamente pude pressentir o que diria. A mensagem amarga. Ao soar de cada silaba proferida, cada movimento dos teus lábios, queimava. Lentamente eu provava cada farpa do veneno.

    Não vou enganar a ti, muito menos a mim mesma, estou decepcionada e, mormente, com raiva. Por todo um conjunto.

    Aquela conversa não foi em vão. Aliás, nunca qualquer conversa, fala, minha foi frívola. Detesto a ideia de me doar em conversas baldias.

    Você não pode dar tchau pra mim sempre que tiver vontade. Fazendo-me sentir imenso temor diante de toda e qualquer coisa ínfima, propriamente por saber que você, a qualquer momento, irá se voltar a mim dizendo um adeus ou ameaçando isso.

    Você não pode me dispensar e depois -quando quiser - me chamar, acreditando que vou ignorar isso e simplesmente "gozar".

    Não pode me descartar assim, achando que isso não me abala ou enfraquece um vínculo.

    Sabe o pior? Isso não foi agora. Já havia acontecido mais vezes do que eu gostaria, aliás, vezes demais que chega a ser difícil de acreditar. É tristemente reincidente.
    Não quero uma relação instável. Não quero me sentir insegura, pontualmente nesse sentido: “hoje ele quer estar comigo, amanhã, sem mais nem menos, talvez não”.
    Tenho horror a estar constantemente dependente da sua aprovação e, principalmente, a conviver com a necessidade incessante em me certificar de que “está tudo bem entre nós”.

    Não quero ficar absurdamente pressionada pela ideia de que “se eu não fizer determinada coisa ou se não agir da forma que ele espera/deseja, independente do que penso ou quero a respeito, para mantença do ‘nós” irei ceder, senão ele virá colocar um ponto final ou ameaçar fazer”.

    Não quero estar obrigada a ceder quando não vê necessidade ou sequer sentir vontade para tanto, muito menos quando reconhecer um problema quanto a anuência. Fico apavorada ao me ver sendo qualquer pessoa, que não eu mesma, por temer sua partida.

    Naquela madrugada, custava pensar antes de agir? O que te faz mudar de ideia logo após enfiar na minha garganta um ponto final? Nem sei se mudou, sequer o que te motivou a tomar uma decisão incrivelmente ruim. Juro que isso me intriga. Desde quando o que penso ou sinto sobre a árdua transição do “nós” para o “eu e você” passou a te importar?

    Você fez isso, sozinho, quando eu menos esperava, quando eu sequer podia sentir cheiro de partida, muito menos cogitar qualquer coisa parecida.

    Depois daquela tarde de domingo quente, quando fizemos juras de amor e promessas, exatamente quando, para mim, estava tudo passando a fluir de um modo surreal; mais uma vez, você me fez sangrar, encerrando o nosso ciclo por “bobagem”, quando parecia ser o início do nosso melhor tempo. 

    Acredito que foi a coisa mais idiota que você fez. Justamente por eu gostar pra caralho de você aquela conduta foi uma merda.

    Talvez, seja como canta Adriana Calcanhoto, “Rasgue as minhas cartas e não me procure mais, assim, será melhor.”

    Não importa o que diga. Não me é interessante que as promessas sejam renovadas. Pois, não me valem de nada até que as cumpra. Teve inúmeras chances e elas não foram aproveitadas.

    Não irei permitir ser como das outra vezes. Ainda que eu dê uma nova chance, para o “nós”, é muito provável que semana que vem você faça a mesma coisa. Nessa frequência, irei permanecer me magoando. Detesto com todas as minhas forças o “vai e vem”. Eu não aguento isso.

    Fico pensando naquilo... Se para ti não está bom, imagina para mim com essa instabilidade partindo de você. Não é decidido quanto ao meu “eu”, em muitos sentidos.

    É claro, não imaginava que o nosso relacionamento poderia ser conturbado assim. Instável. Não quero isso para nós. Desejo pisar em terreno seguro. Mergulhar e não cair nas pedras.

    Eu que sempre falei em reciprocidade e priorizei “leveza”, me deparo num naufrágio. Não está sendo saudável e você não vê ou, ridiculamente, fecha os olhos.

    Por constatar o caminhar das coisas e acreditar sinceramente que, nós dois, desejando, seríamos capazes de contornar a situação. Nos proteger da mácula. Te escancarei isso antes. Justamente pela árdua percepção que, naquele domingo, eu te implorei: “vamos tentar”. Mas, infelizmente, nas oportunidades para vermos a tentativa, ela não aparece.

    Desse jeito eu não quero mais. Estive pensando muito de sábado pra cá. A mesma cena se repete. Não quero permanecer num relacionamento desse jeito, a nossa coisa não estava boa para ti e, para mim, estava ainda pior. Sabe por quê?

    Não quero ter que ceder aos seus caprichos (saiba diferenciar ao que me refiro) sob ameaça de te perder! Muita pressão sentimental que estava me sufocando. Sinto que a qualquer momento estarei sozinha, quando eu menos esperar, então é melhor que seja agora, já que você mesmo decidiu isso sob o argumento ridículo de que não supro as suas expectativas.

    No mais, anseio estar com alguém confiante sobre mim. Você sempre com ameaça de fim não demonstra isso.

    Aliás, quanto a sua carta, foi a primeira que recebi dessa forma de amor. Olha, independente de tudo, você sabe o quanto eu sinto por você.

    Desculpa não conseguir responder. Pela primeira vez, não tenho palavras. E isso é raro. Acredito que por estar indignada, com raiva e decepcionada, por aquilo que já falei.

    Eu confiei em você. Confiei em muitos sentidos. Estava mergulhando e me entregando emocionalmente e fisicamente. Para o cara sempre romper comigo por nada. Sem contar nas ameaças de partidas anteriores e nas coisas que já te foram ditas.

    É evidente. Fiquei e estou magoada. Quanto ao nosso vínculo, sou porto seguro enquanto você, para mim, aparenta ser incapaz de ser qualquer coisa próximo a isso. Sempre instabilidade da sua parte.

    Não vou me sabotar tentando repousar a culpa da ruptura nas minhas condutas. Eu sei que tentei agir para você, a todo instante, da forma que eu gostaria que agisse comigo.

    Lembra? Em muitos momentos eu falei “É apenas o começo. Estamos nos conhecendo. Calma, tudo no seu tempo. Podemos lidar da nossa forma. Não esquece o nosso pacto”.

    A estação inteira eu pugnei por um relacionamento saudável. Com sinceridade, reciprocidade e confiança. Sem joguinhos, desconfiança e “paranóias”, pois sequer haviam razões para tanto. Eu via a instabilidade e a repudiava com todas as forças, pois, afinal, eu gosto muito de você e queria o “nós”.

    Acredito mesmo que quando os dois querem, fazem acontecer. Mas, se é preciso maturidade.

    Em muitos momentos não me impus da forma que eu deveria. Ao contrário, conversei cruamente para te explicar o problema de algumas coisas e que poderia se sentir seguro quanto a outras. Não obstante, aceitei coisas que não gostei, de modo desprezível deixando “passar” para ficar tudo bem entre a gente.

    Digo com convicção que em instante algum agi num imediatismo cego contigo, por temer o que isso poderia suscitar em você, a mim e, sobretudo, na nossa coisa. Sei que até mesmo tu reconhece. Pois, diante de toda e qualquer pequena situação de desconforto, eu explicava as minhas razões, problemas e escolhas, me fazendo “nua e crua”.

    Sempre valorizei e recordo de todos esses diálogos. Para mim, representavam um marco para que desde as ínfimas à grotescas situações de incômodo não se repetissem. Deveríamos evoluir para sabermos enfrentar e lidar com coisas novas.

    Reconhecendo que não raramente pareci a sua psicóloga, explicando o problema das coisas, pontos de vistas, aconselhando a ressignificar e mostrando como tudo poderia ser mais suave. Nós dois precisávamos de equilíbrio e aprender a sopesar as coisas.

    Como se não bastasse, para mim mesma, muitas vezes te julguei por “infantil”. Assim como sei que, ainda no momento tendo plena convicção do contrário, também fui.
    Fizemos “pactos” para facilitar o correr dos nossos dias, já que vemos e lidamos com toda e qualquer coisa de modos absurdamente distintos. “Eu e você sempre ‘nus’ e ‘crus’”, lembra? Mas, aparentemente, nos instantes em que mais se era preciso, só eu recordava e estava disposta a segui-los.

    No último mês, houveram partidas em todas as semanas. Todas! As mesmas promessas já foram feitas outras vezes, sobretudo, nas últimas semanas. Por favor, não vamos normalizar isso. Mostra bem mais que fragilidade.

    Relacionamento é balança e não depende só de um. A conduta do outro gera sempre reação. Se isso prosseguir, da maneira como estava, é inequívoco que iremos adentrar novamente no mesmo ciclo vicioso. Assim, acabando somente por prolongar isso, a ruptura.

    Não adianta forçar nada! A entrega, o cuidado, o zelo e a valorização da nossa coisa deveria ser, de ambas as partes, natural. Independente do quanto eu deseje, independente da nossa conexão foda, não temos que forçar dar certo.

    É insano. Foi o meu primeiro relacionamento e sei que minha inexperiência pode ter atrapalhado. Não que sirva de justificativa para erros e afins. Quero dizer que, apesar de tudo, eu tentei agir com maturidade e responsabilidade afetiva. Convivi com uma sede insaciável de afastar as coisas que abalavam o “eu e você”.

    Acredito que irei me magoar ainda mais persistindo nessa ganância de cuidar de algo que independe somente de mim. Não sei como de um instante a outro as coisas podem ser diferentes.

    Você sabe muito bem. Dei um passo muito grande, seria uma surpresa e acabei te contando quando do seu adeus.

    Percebe? É difícil digerir que até mesmo quando tudo está bem, sem mais nem menos, do nada, chove. É triste remoer que na maior parte do tempo estamos no “baixo”, enquanto me apego aos poucos momentos de “alto”.

    Foi a estação em que senti o mundo. Mas, foram dias, sobretudo, conturbados. As minhas emoções ficaram à flor da pele.

    Não acato sua decisão sob o argumento de “é melhor agora enquanto é cedo, antes de entrelaçamos nossas vidas ainda mais, antes se apegar”. Não, não tomo, porque eu já estava apegada o suficiente, desde o meio-termo. No mais, pouco a pouco, te inseri em todos os âmbitos da minha vida.

    Tratava-se do nosso começo e ele deveria ser, em tese, muito bom. Deveríamos, os dois, estarmos eufóricos pela entrega um do outro. A reciprocidade, a sinceridade, o cuidado emocional com o outro tinha de ser trivial. Sem a necessidade de precisar provar que se importa ou, muito menos, se sentir obrigado a tanto.
    Sabe o que demonstra que não estava sendo saudável? Palavras suas: “ambos estão exaustos”. São coisas que não coincidem para mim. Exaustão em um curto lapso temporal. Uma estação! Parece muitos mais tempo, não é? Mas, não, foi só um verão. Com o outono, chegou a ruptura.

    Dessa forma, eu não consigo seguir. Passo o meu dia ponderando em como podemos elevar o suporte do nosso afeto. Fico tentando compreender o que acontece. Como se não bastasse, sinto constantemente o peso de precisar provar para você que pode confiar em mim, que gosto de você, que me importo, que me preocupo.
    Sendo que eu acredito que nunca fiz nada para você pensar o contrário e agir de acordo com tal. Não faz ideia do quanto me sinto imunda por isso. Insuficiente. Ainda que seja convicta de quem sou, muitas vezes, me senti assim diante de ti.

    A única vez que a partida partiu de mim, foi por isso. Por perceber tudo! Conversamos sobre reciprocidade, leveza, sentir e tudo mais. Houveram promessas de ambas as partes. Você se atentou a algumas coisas, mas ao que magoava, não. Com a primeira chuva de outono, nos encontramos nisso, partida.

    Possamos gostar muito um do outro. Mas, não foi a primeira que me disse “não está bom para mim”. Não sei como isso vai mudar de uma hora a outra. Levando em consideração o quanto já tentei, me sinto esgotada, sem cartas na manga. Como de um segundo a outro te farei sentir-se realizado? Não quero ser hipócrita.

    É duro. Posso gritar para o mundo o quanto é duro para mim enfrentar isso aqui, a ruptura.

    Sofro pelo que poderia ter sido e não foi. Não esquece.

    Acredito que estou frustrada, não pela minha entrega, mas justamente por acreditar com lasciva veemência que, depois do pôr do sol daquele domingo, nós dois iríamos tentar, mesmo! Por acreditar que as promessas, conversas e pactos não tinham sido em vão. Pelo meu crer de que nunca mais haveriam idas e vindas. Sempre estive disposta a enrrigecer a nossa coisa.

    E, exatamente uma semana depois, tudo volta ao antes. Ao morno.

    Meu mais insano e desmedido amor, o “eu e você” não vai prosseguir. É árduo dizer que na maior parte do tempo estávamos frustrados um com o outro, ainda que em vertentes distintas.

    Não quero viver na esperança de tentar. Não quero permanecer num relacionamento que conforme palavras suas, “só tenho preocupações”. Não quero seguir assim.
    Nossa afinidade deveria ser o refúgio. Algo digno de agradecimento. Sabe, muitas noites eu agradeci ao universo por estar ao seu lado, por dividir essa fase com você. Ansiei muito para que passasses a me ter como confidente, assim como te fiz o meu. Te falei isso, mas sempre respeitei o seu jeito peculiar, astuto e ocluso, nesse sentido; acredito que tratava-se de uma questão de tempo para você se sentir confortável para tanto.

    Talvez eu tenha posto muito expectativa e essa seja a raiz da frustração. Mesmo que eu tenha tentado manter os meus pés no chão. Desejei ter o seu verdadeiro “eu” comigo.

    Nesse quesito, sobre a sua carta, nas folhas “amarelas”, eu gostaria, mas não consigo ler aquilo e dizer “você não foi assim para mim”. No entanto, afirmo com convicção que você não foi somente aquilo.

    Existem dois caras em você. Aquele por quem me apaixonei e o que me faz ir embora.

    Sei que eu não sou ótima. Que não sou a dona da razão, aliás, não raramente estou completamente equivocada. Mas, realmente tentei agir para contigo da forma que eu gostaria que agisse comigo.

    Eu não menti uma vez sequer. Não tratei com desdém. Não joguei na cara o tempo que despendi para estarmos juntos. Não enganei, nem com ações, nem com palavras e em nenhum instante isso passou pela minha cabeça. Eu fui nua e crua para você, te mostrei cada fresta. Mas, nada disso foi o suficiente.

    Como se não bastasse, o meu sentir, nas suas palavras, “não o satisfaz”. E, quanto a isso, me recuso alegar qualquer coisa. E sei que essa frase jamais será esquecida por mim. Já disse o quanto detesto seu imediatismo?

    Estou assoberbada de pensamentos confusos e conflitantes. Por hora, não sei o que tenho mais a falar. E o que sei que tenho, prefiro acalentar.

    Já falei tanto. Fiz cartas de amor (puras). Me declarei. Me entreguei. Sobretudo, me joguei da cascata, a queda foi gostosa, mas acabei presa nas pedras.

    Não quero mais. Desculpa, sei que devo, pois também errei contigo, apesar da minha “ingenuidade”, como mesmo dissestes. Aquela história. E, sinceramente, pensando em tudo que vivenciamos, analisando os motins das nossas discussões, aquela consistiu na única coisa com titulo de “problema” e digna de uma ameaça de partida. Quanto às demais, trataram-se de coisas que poderiam facilmente ser resolvidas e acabaram, por nós, prolongadas.

    Independente da minha raiva e decepção, juro que digo isso com um imenso pesar, meu bem: Nada do que te digo agora é inconsciente. Essas não serão mais palavras em vão.

    Eu não havia planejado falar nada disso aqui. Depois de agradecer pelos nossos “autos”, pensei: “ao decorrer dos nossos dias, já falei o bastante”. Nada do que expus te é novidade. Não abandono o espetáculo sem mais nem menos.

    Sabe o que me corrói? Não fui para ti quem eu gostaria. Ser refúgio e confidente, por exemplo. Você não me permitiu ser. Acabava comigo te ver “morno”, com a mente e o olhar distante e, especialmente, por notar que os problemas te consumiam a ponto de te fazer agir mal com os que te querem bem.

    Foram muitas as vezes que te implorei para saber o que estava rolando e querer ajudar, mas parei quando me disse em voz alta e em bom tom que não queria a minha ajuda. Não dividiu. Não mostrou confiar em mim. Não me inseriu nos outros âmbitos da sua vida.

    Ainda assim, por ter ciência da sua dificuldade em compartilhar, te perdoo pelos momentos de desdém, pelos instantes que estava atordoado com os problemas a ponto de parecer que eu nem estava ali, que a minha presença tanto fazia.

    Porém, muitas vezes, agiu como um idiota comigo, como você mesmo pormenorizou na segunda folha amarela daquela carta. Como se não bastasse, quando diante dessas ações te disse “eu não não mereço ser tratada assim”, não ouvi sequer um pedido de desculpas, mas sim um “então arranja um cara que te trate melhor que eu”.

    São tantas coisas. São praticamente infindas para apenas uma estação. Fiz uma escolha, acatei sua decisão e, por hoje, não quero falar sobre isso. A minha cabeça está cheia e o meu coração inquieto. Não existe mais o “nós”.

    Eu disse sério ao falar que estou com raiva e decepcionada. Essa ruptura será ainda mais complicada se mantermos contato contínuo. Pelo menos agora.

    Mais uma vez, te peço, não coloque a ruptura nas minhas mãos. Você já tomou uma decisão e eu simplesmente concordei com ela. Faço isso pelo meu bem estar emocional e psicólogo.

    Não quero perder minha essência ou personalidade, como é o caso de ceder a meros caprichos, para manter relações, ainda por cima instáveis. Não quero me desgastar na tentativa de salvar algo sozinha, que não está somente sob o meu controle.

    Me apavora te ouvir dizer que existe algo mais, que estou dissimulando as razões da minha anuência. Parece absurdamente que não prestou atenção ou que ridiculamente descartou tudo o que já desabafei. Não é “do nada” e não tem que se achar estranho. Uma vez, naquele domingo, a partida surgiu de mim e pelos mesmos motivos de agora.

    Sabe o quanto desprezo idas e vindas. No pôr do sol daquele mesmo domingo te disse: “Me vejo voltando atrás numa decisão e isso não é comum para mim. Por respeito a nós, não vamos jogar fora”.

    Você voltou atrás também, em todas as suas despedidas…

    Suas ameaças de partidas e as despedidas foram motivadas com base em que eu fui para você, dentro dos seus limites, ideais de certo e errado e sentimentos.

    Sua percepção sobre o meu desejo de estar com você, príncipalmente sobre o meu sentir, depende de que eu seja quem você quer, ceder, suprir as suas expectativas até mesmo nas coisas mais mínimas.

    Sabe, eu tenho fervor por quem me deseja por inteira. A mim mesma. Não irei mudar a ponto de se tornar uma versão pirata de mim mesma.

    Eu queria poder agradar você, óbvio. Mas, sendo eu mesma e não precisando provar o meu desejo e tudo o que sinto da maneira que você achava que deveria ser. “Não está bom para mim”. Não consigo ceder a ponto de me tornar o amor que te satisfaz, que você deseja.

    Houveram pedidos de desculpas e promessas mútuos, mas nem todas elas foram cumpridas. No principal imbróglio, sequer houve tentativa. Nunca acreditei numa mudança repentina. Mas, o mínimo que eu esperava era uma mísera tentativa.

    Com instabilidade e insegurança sobre mim, tive dias de inquietação emocional e psicológica. Não consigo lidar, me martiriza. Acaba, assim, me atrapalhando nas coisas mais simples (concentração, estudo, trabalho).

    Confesso que nos “altos” me proporcionou coisas incríveis, êxtase. Mas, a maior parte do tempo estávamos no “baixo”. Pelo morno, me sentindo insuficiente, idiota e até mesmo alguém ruim. Sobretudo, “o não satisfaz”.

    Percebeu como sou repetitiva? Isso torna essa conversa densa e incrivelmente cansativa.

    Ainda que me questione, não vou mais te expor motivos. Foram coisas sempre ditas.

    Não vamos ser hipócritas. Isso não precisa acabar mal. Não vamos denegrir a imagem um do outro, não há razão. Aliás, algo assim é ridículo.

    Se é preciso aceitar os erros. Ficar triste pelo que não foi. Reconhecer o que se perdeu. E seguir com maturidade. No mais, agradecer os momentos de “altos”. Não é tratando como se nunca tivéssemos nos conhecidos que a ruptura se tornará fácil.

    Você não foi e não é qualquer pessoa. Isso não vai mudar, para mim. Marcou.

    Eu comecei com sinceridade. Vou terminar assim também.

    A minha decisão está tomada. Espero que aprendamos a não cometer os mesmos erros.

    Sobre a nossa coisa, o nosso meio-termo, me mostrou como sou intensa. Obrigada, mesmo, pelos instantes de intensidade. Adorava quando a nossa coisa pegava fogo.

    Você foi contemplado em ter o meu sentir, o meu querer, o meu corpo. Eu jamais havia me entregado tanto.

    Peço para que a nossa coisa fique entre nós. Principalmente os nossos detalhes, as coisas importantes que aconteceram. Desejos, intenções e afins. Assim como as coisas agradáveis e desagradáveis. Lembre, são memórias suas e minhas também.

    Me agrada a ideia de estagnar no tempo o “eu e você”.

    Não sei como vai me perceber depois da ruptura. Acredito e espero que não seja motivo para “descaracterizar” o meu eu. Jamais irei desonrar o seu nome. Por favor, não o faça com o meu. Não há razões. Não me interprete mal, peço isso por desencargo de consciência. Acredito no que sente por mim e sei que não faria tal coisa.
    Desculpa se te proporcionei momentos ruins.

    Foram meses repletos de primeiras vezes, para mim. Você sabe. Aliás, a primeira vez que proferi “eu amo você”, dessa forma de amor. E dane-se se foi cedo.
    Reconheço que sobre algumas coisas dei passos largos e tropecei nos meus próprios pés. Fui inconsequente. Me arrependo. Mas, jamais irei me arrepender pelo que fui e sou capaz de sentir. Muito menos, pelas palavras de amor ditas.

    Uma pena eu não tê-las visto valorizadas…

    Não quero ser vista como hipócrita.

    Sei que não compreende o meu pedido em mantermos a amizade. Não consegue entender como posso não mais te querer como seu parceiro (mesmo amando-o) e, ainda assim, implorar para que me tenha como amiga. “Não entendo como eu não te querer como amiga é algo que se deva discutir e fazer sentido”.

    Coloquei tudo às claras. Detesto quando questiona o que eu sinto. Eu não queria que fosse assim. Ansiei a transformação do meio-termo muito tempo. Você sabe. O meu sentir nasceu muito antes do verão. Não fale insinuando como se eu tivesse em algum momento mentido sobre o meu sentir, muito menos diminuindo o que me rasga o peito.

    A perda não é apenas de uma parceira ou um parceiro. É de um amigo(a) também. Não apague o meio-termo. Tudo começou numa amizade sem mais pretensões.

    - “Se você realmente sentisse intensamente, iria querer permanecer e continuar, tentar mudar. Nunca se afastar do problema, igual você fez. Me esquece. Você de repente decidiu que os nossos confrontos te fizeram sentir uma fracassada. Além de tudo, foi capaz de esquecer todos os momentos bons, sem mais nem menos, descartar-los e valorizar só os pontos ‘baixos’ para justificar a sua hipócrita vontade de partir. Forte seu amor.  Não vou negar. As vezes me pego preso nisso… questionando se tudo o que me disse, se cada palavra de afeto foi realmente cheia de sinceridade. Você é boa com as palavras e tenho medo de tê-las usado para comigo de uma forma deplorável. Não sei se seria capaz de dissimular dessa forma. É louco dizer, mas, sim, eu acredito no que diz sentir por mim. Ainda que muitas vezes não tenha agido de forma condizente, ainda que eu mesmo fique matutando a respeito. Tudo isso é insano (como você mesmo costumava dizer).”

    Quanto à mantença do “nós”, me recuso a permanecer no que me fazia sentir um fracasso. Essa sensação existia por você ter me dito bem mais de uma vez que a minha linguagem do amor não te satisfazia.

    Da forma que você coloca, faz-me sentir ingrata. Também estou despedaçada. Nos nossos dias, pouco a pouco eu estava me desfazendo em alguns sentidos e precisava do seu agir para me refazer. Por isso tanto diálogo, da minha parte. Por isso a ideia do “pacto”.

    Falei isso naquele domingo. Lembra? Com seriedade. Mas, quando tudo soava calmaria. Você choveu em mim. Foi isso que você fez naquela madrugada de sábado. Naquela noite quente, prometi a mim mesma que era a última vez que iria me fazer chorar. Última vez que iria me frustrar por você descartar suas promessas e não pensar em mim antes de fazer algo que tanto me afetava.

    Me desculpa por ser tão repetitiva. Te remeto inúmeras palavras, te falo coisas infindas, e sei que você acha um porre, acaba descartando quase tudo.

    Ao pôr do sol daquele domingo, me disse as mesmas coisas que agora. E eu voltei atrás na minha decisão, lembra? No mais, deixei claro que a hipótese de partida, da minha parte, se tratava de algo que não desejava, mas que a cogitei para evitar me machucar.

    Ainda que em outro contexto, estamos novamente na mesma coisa. Mas, dessa vez, eu já estou machucada.

    Espero que você fique bem, mesmo. Mas, sendo sincera, não vou mentir. Espero, no mínimo, um pingo de saudade, arrependimento ou pesar pela perca.

    - “Espero o mesmo de ti. Sinto uma saudade incessante. Sonho com você. Tenho arrependimento também. Quanto a estar despedaçada, não acredito. Se você sentisse saudade, vontade, amor… resgataria o ‘nós”. É simples. Eu te falei estar disposto a mudar, mas você não se importa.Eu faria o impossível por você e é deprimente te ver me colocar como imundo. Não jogue entrega na minha cara, suportei muita coisa por você e tu simplesmente joga fora. Sabe, me abri emocionalmente como jamais havia feito com qualquer pessoa. Você tem o meu amor nas mãos e está esfarelando ele. Nunca imaginei que seria capaz de uma coisa dessas. Te vejo traindo quem eu vi em você, principalmente, tudo o que me dizia ser. Você diz estar machucada enquanto me machuca também e não se dar conta.”

    Não me surpreende você não acreditar em mim. Simples para você falar pensando em quem fui contigo. Se coloca no meu lugar. Você mesmo reconheceu coisas nada bacanas que partiam de você. Não quero discutir.

    Foram poucos dias para tudo voltar ao antes. E as três coisas que eu mais te pedi para evitar, porque me afetava muito, vinheram num pacote no mesmo final de semana. Me decepcionei muito naquele sábado. Eu chorei a madrugada inteira.

    Não entendo como pode me amar e não tentar evitar fazer algo que eu tanto te pedia para ser cauteloso. Não entendo como não conseguia evitar fazer o que me desabava.

    Sabe, eu reconhecia quando agiria daquela maneira. Pressentia. Sabia quando seria tomado pelo seu imediatismo cego. Nesses momentos, eu falava coisas como: “Presta atenção. Lembra do que combinamos sobre lidar com os problemas. Não precisa ser assim”. Justamente para ver se você pensava em mim e no valor do nosso vínculo.  Antes de fazer qualquer coisa ou dizer, eu sempre pensava em como você ia se sentir. Por isso tenho certeza de que nunca te ofendi ou derrespeitei, ou magoei com o que falei.

    Não estava sendo saudável, meu bem. Não quero nós dois num relacionamento que ainda no início não estava sendo leve. Não vamos mais reviver essas discussões… Okay?

    - “Não adianta eu dizer mais nada. Vejo que persistirá nessa decisão. Eu preciso digerir a ideia e aprender a lidar. Sabe, foi você mesma quem terminou com a gente. Não te entendo. Eu corri atrás e você não quis mais, praticamente me esnobou. Permanece com a vontade de se afastar e de que, se ficar, será somente para ter minha amizade. Eu não quero ser somente o seu amigo, quero dividir uma vida contigo, desejo ser o seu parceiro. Sabe, nós discutimos algumas vezes e eu te disse coisas impulsivas, sobretudo, nunca dotadas de veracidade, foram coisas que eu não deveria (e não queria) ter lhe dito. Porém, apesar de tudo, isso jamais significou que não quero a sua presença e muito menos que ela tanto fazia para mim. Não precisa ter medo, pode confiar nessas minhas promessas, nas falas que te remeto agora.No entanto, acima de qualquer coisa, sabe o que é foda? No momento que acreditei que ficaria comigo, você foi embora. Isso foi péssimo. Tenho medo de dizer a mim mesmo o que isso significa. Você não está disposta a erguer um castelo comigo.”

    É complicado erguer castelo com alguém que diante de qualquer lajota colocada torta ameaça abandonar a execução ou a faz. Dá a sensação de que a qualquer momento a obra vai ficar inacabada e desmoronar. Do jeito que você coloca, tudo se torna pequeno. Me colocando como venenosa faz eu me sentir muito bem.

    Não foi minha intenção “esnobar”. Foi o que te disse: Eu, ferida, iria passar a ferir você também. Não quero isso. Olha, eu não queria somente a sua parte fácil de amar. Não. Eu mesma falei: “eu e você nus e crus”. Eu disse desejar o seu verdadeiro “eu” comigo.

    Moram dois caras em você. O que fez eu meu me apaixonar e aquele que tem atitudes comigo nada bacanas, me tratando de uma forma que não gosto, e assim me cortando. E, se tratando de um amor que ainda estava no começo, esse primeiro cara deveria ser o mais presente e não o segundo. Diante do segundo cara, eu não conseguia ser o meu melhor com você.

    Aliás, tem algo que está engasgado e preciso te questionar. Sabe o que eu não entendo? Você me disse assim, duas semanas atrás: “Eu posso ser só esse primeiro cara”. “Posso mostrar só o meu melhor”. Me passou a impressão de que, de algum modo, você tinha plena consciência de tudo o que apontei… Não sei.

    - “Me desculpa. Sim, eu sempre tive. Por isso quero você de volta. Para agir como você merece. Aliás, como deveria ter agido desde o incio. Com o inicio da ruptura, passei a ver e valorizar tudo de uma outra forma. Me sinto mal com tudo isso. Porém, ainda que você exponha infindas coisas, só consigo pensar que: ‘É por isso quer partir pra sempre?’. Tenho a horrível sensação de essa conversa não vai dar em nada. Sinto que estou de mãos atadas. Estou implorando para ficar enquanto você constantemente arranja um argumento para reforçar sua partida. Me faz um monstro.”

    Já que percebia, por qual razão não agia assim antes? Já pensou nisso? Sabe, são um conjunto de pequenas coisas e estou decepcionada pela existência delas.
    Argumento porque você merece justificativas. Sobretudo, porque gostaria que se colocasse no meu lugar. Principalmente, que tentasse entender. Você sabe muito bem que não ser tratado da forma esperada por quem a gente ama, corta. Mas, tenho a sensação de que para ti, estou “fazendo tempestade em copo d’água”. “Sou exagerada”.

    A minha decisão não é fácil. Eu sinto o universo por você. Ainda que tenha me decepcionado com atitudes. E é duro assumir isso. Sinto saudade do primeiro cara, muita. Sinto saudade de olhares, toques, do seu abraço, de me sentir protegida ao caminhar contigo, do seu timbre… É por sentir muito, intensamente, que as coisas que apontei me machucaram e você não está percebendo isso.
     
    Isso é difícil, mesmo. Eu vejo que reconhece o que eu expus para aceitar a sua decisão de partida. Não questionou nada e disse reconhecer. Mas, vejo que não vê como motivo para ruptura.

    Eu adoraria — com todas as minhas forças — acreditar quando você disse “eu estou prometendo que vou mudar, porque a minha visão é outra agora”. Eu não sei qual é a sua visão, mas, ainda assim, tenho medo. Poxa, você confirmou que tinha percepção de tudo aquilo antes.

    Os dias correm e em todos eles eu revivo “a nossa coisa”. Tudo poderia ter sido diferente, assim como você mesmo expôs naquela sua última música.

    Não é por meras brigas. Isso vai existir, justamente porque nos importamos e queremos fazer dar certo estarmos juntos.

    O problema é por se tratar das mesmas coisas. Como vamos crescer persistindo nos mesmos “erros”, persistindo no que destabiliza a nós dois?

    Você é astuto, tem controle sobre o que quer. Sei que não me quer como amiga. Porém, preciso saber que você está bem. Se precisar de mim, independente do que for, me diz.  Você sempre disse ter problemas, mas tinha um bloqueio em dividir comigo. Se precisar desabafar, eu estou aqui. Pode confiar em mim. Não irá ouvir julgamentos. Eu sempre questionei sobre eles por me preocupar. Não faço ideia do que sejam. Eu ainda me importo. Isso não vai mudar. Sabe o quanto sinto, sabe onde e como me encontrar, se quiser, se precisar.

    Pensa numa coisa, por favor, é a última coisa que te peço. Questiona se, pelo caminhar das coisas, eu te fazia sentido.

    O sentido a gente percebe com o tempo. Sobre “tempo”, você disse não acreditar. Eu também. Mas, sobre relacionamento, é tudo novo para mim. Ao longo da estação, mudei pensamentos, me vi em coisas que antes dizia “jamais” e fui eufórica com coisas que antes me assombravam.

    Por favor, pensa realmente nisso. Pois, uma coisa é querer a presença de alguém e outra coisa é querer a presença daquela pessoa. E, se tratando daquela pessoa, se é preciso agir com maturidade e responsabilidade afetiva. 

    Se tratando de você, para mim, há sentido. Mas, não naquele caminhar.

    Me chame de venenosa, hipócrita o que for. Só não me puna por estar desacreditada quanto a promessas. Acredito que a mudança que tanto ansiei só existiria na certeza quanto aquilo. Eu sendo “aquela pessoa”. Acredito que assim você agiria como tal.

    Essa infinidade de palavras não existiriam se você não fizesse sentido para mim.

    Juro que tentei, mas não consigo entender como por qualquer “problema” você mudava comigo e dizia coisas como “presta atenção, eu só vou caindo fora” ou que o caminhar não te agradava. Como se não bastasse, algumas vezes, de última hora, tirou o nosso encontro dos seus planos porque, para ti, me ver “não valeria a pena”. E, não obstante, claro, sempre cogitava dar um basta comigo e chegou a fazer isso algumas vezes.

    É difícil ouvir essas coisas de alguém que você ama. Eu me senti insuficiente mesmo. Insuficiente para ti. É isso que eu quis dizer com um fracasso.

    - “Você nunca foi insuficiente, muito menos qualquer coisa perto disso. Aliás, eu pensei. Não quero ser seu amigo. Sei que não irei suportar te ver com outra pessoa, um dia vai acontecer e eu não quero estar lá pra ver isso, muito menos te ouvir falando desse alguém para mim. Não quero ter contato. Mas, ainda assim, pode contar comigo, sempre que quiser, para qualquer coisa. Sabe, eu amo você de todas formas e uma delas é como amigo.”

    Eu gostaria de ser sua amiga.

    Se isso acontecer, vai demorar muito. Pra caralho. Eu não sou do tipo que se apaixona em cada esquina.

    A recíproca é a mesma. Olha, você é um cara super atraente. Devem ter dezenas de garotas lindas interessadas em você e que despertam seu interesse também. Isso nós dois sabemos. Eu sou facilmente substituível. Se ocupo um posto, logo mais ele não será meu. Você já se envolveu com outras mulheres. Já teve outros relacionamentos. Sabe que o que digo é verdade. E se por acaso um dia se lembrar de mim, vai ser em algo singelo, por exemplo, ouvindo “É Você Que Tem”.

    E independente de qualquer coisa, da minha decepção amorosa (já falamos a respeito, sabe o que quero dizer), jamais desejarei o seu mal ou direi coisas ruins a seu respeito para qualquer pessoa. As coisas que aconteceram entre a gente e também o que não aconteceu, só cabe a nós. Aliás, ainda que eu possa em muitos momentos sentir raiva, desprezo e afins, sou incapaz de sentir ódio a ponto de profanar de modo detestável o outro. Não sou alguém que se domina por sentimentos ruins.

    No mais, também reconheço as minhas falhas. Espero, mesmo, que você não tenha somente memórias ruins. Tentei e acredito não ter magoado com palavras, te respeitei (em todos os sentidos). Se em algum instante eu não fiz isso, peço perdão. Pois, tenho muito medo de apontar e de cobrar do outro algo que não está em mim.

    Hoje, eu amo você. Mesmo. Apesar dos pesares. Ainda que, olhando com distancia, eu não goste de quem foi comigo.

    Não sei se você sabe, mas há 5 linguagens do amor. As nossas são diferentes, acredito que por isso você “não vê o meu sentir”.

    Talvez, agora, a minha decisão para você (mesmo depois de tudo que eu expus e esclareci) não faça sentido. Mas, daqui alguns dias, meses ou sei lá, acredito que fará.

    Nem sempre o sentir é o suficiente para duas pessoas ficarem juntas. E juro que acredito naquela ideia de que “há formas de se amar alguém para sempre”. No entanto, às vezes justamente a nossa forma de amar, lidar com as coisas, vê-las ou sei lá, atinge o outro de uma forma que não imaginamos. É preciso ouvir o outro e ter cuidado com o que se está construindo.

    A minha decisão é para não mais me magoar. Eu sou muito intensa. Tudo me afeta muito. É frustante ser o bilhete dourado enquanto o outro só enxerga preto e branco.

    Os nosso pacto estava sendo quebrado e os diálogos e promessas sendo vãos. Eu valorizo tanto essas coisas. Reforço, eu, ferida, ia passar a ferir você também.

    Quero muito o seu bem. Sei que um dia outro alguém vai ter o seu sentir e não quero que esteja despedaçado. Não quero que lembre de mim de uma forma ruim.

    Queria ter te proporcionado somente coisas boas, talvez eu não tenha feito, assim como você não fez.

    Apesar do quanto eu sinta, jamais irei me perdoar se, por acaso, persistir nisso aqui e perder a minha essência.

    Eu apago a luz e fecho a porta com cuidado.

    “Não suporto meios termos. Por isso, não me doo pela metade. Não sou sua meio amiga nem seu quase amor. Ou sou tudo ou sou nada.” — Clarice Lispector. Faz sentido sua escolha. Eu penso a mesma coisa. Queria parecer mais forte. Vou respeitar sua decisão.

    Ps. Se um dia eu escrever um livro, leia. Provavelmente, terá textos meus sobre sentimentos e coisas atreladas a você. Será capaz de reconhecer, eu acho. (Se quiser, claro).

    - “Ninguém será capaz de substituir você pra mim. Só você teve esse posto, da forma que sempre desejei, e só você terá, por todo o sempre. Não vou estragar isso. Talvez eu faça aquilo que você sempre me falou “ressignificar”. E sim, eu já estou despedaçado. Nunca me senti dessa forma. Me magoa ver que está decidida. Só me resta tentar superar e, além de tudo, respeitar. Me desculpa por todos os ‘baixos’. Eu amo você.”

    Nunca mais ouse duvidar do que sinto.

    Sabe, eu realmente acreditei que não mais estava fadada ao Naufrágio.

    Por fim, não joga fora as minhas palavras, nenhuma delas.


    Janaina Couto ©
    Publicado — 2020
    @janacoutoj


    [PS. Não se trata de um relato pessoal. Mas, confesso que é um imenso pesar reconhecer que o meu texto foi lapidado sob um apanhado de relatos de pessoas queridas que estão ao meu entorno.
    Ainda que mesmo nas coisas mais sutis possamos constatar algo a se repudiar e imediatamente afastar-se, não raramente, horrivelmente, isso acontece apenas quando se tornam salientes.]
  • A gênese do caos

    Um livro de ficção científica me atraí por diversos motivos, dentre eles: os personagens singulares, a trama que me provoca um sentimento de encantamento e a verossimilhança com a nossa realidade. O livro Manjedoura tem tudo isso, sendo uma grata surpresa para um primeiro título publicado pelo autor Sandro J. A. Saint, jovem autor araçaense. Seu romance é um prato cheio para amantes da ficção científica.
                Um tipo de obra que sempre estará em voga é a distopia. Essa narrativa que vislumbra um mundo onde a sociedade está colapsada devido a fatores socioeconômicos, políticos e/ou culturais, lembra o quanto a humanidade é sobrecarregada de contradições. Com certa dose de pessimismo e fatalismo, a modernidade e o progresso se tornam fatores de diluição da sociedade. O livro se torna um alerta, ou seria uma profecia?
                Manjedoura como um primeiro livro de Sandro J. A. Saint apresenta uma narrativa coerente e original, pois consegue sintetizar muito bem os elementos narrativos desse tipo de história. Unindo pós-apocalipse e cyberpunk numa trama distópica, o romance nos traz uma realidade árida, pouco convidativa. Um ambiente carnívoro com relações sociais predatórias. Os protagonistas revelam bem os sentimentos em relação a esse mundo intoxicado de poluição e violência. Como não poderia faltar num livro como este, a temporalidade é desconhecida. Não sabemos se estamos em um futuro ou em uma realidade paralela.
                O livro começa com uma inserção objetiva nesse mundo, um modo de acautelar o leitor e fazê-lo entender que a narrativa terá um cenário diferenciado. É nesse mesmo prólogo que ficamos sabendo que a população mundial cresceu de tal forma que as guerras e o baixo número de recursos naturais diminuíram o número populacional a menos de 30% do total. As elites, sob as suas variadas vertentes, políticos, militares, cientistas e artistas, se unem e formam um único órgão chamado de Cúpula. Seu objetivo é conduzir os resquícios da humanidade.
                Para resolver o problema da superpopulação, eles criam o Projeto Manjedoura, humanos não nascem, são produzidos em escala industrial em laboratórios, chipados e depois dispersados pela cidadela. Mesmo nesse cenário repressor, há revoltas. Grupos rebeldes se organizam e formam os White Mouses, indo viver na clandestinidade fora da Cúpula, ondes serão perseguidos pelas sentinelas.
                Os protagonistas que conduzem a trama são Hanss Nagaf, o emocionante mensageiro-chefe; Jason Cry, o pupilo falastrão de Hanss; e por fim, Handra, a belicosa guerreira do frio. A personalidade desses personagens é única. Com certeza você vai se identificar com todos ou um deles. Mesmo outros personagens que aparecem na trama têm sua personalidade bem definida e atuante na história. Nenhum personagem aqui foi desperdiçado e agrega a narrativa.
                Hanss é um personagem que soa familiar, conduz a trama com bom humor e se mostra um personagem sentimental, a todo momento tenta empreender uma visão mais espiritualizada da vida. Handra é o tipo de protagonista feminista que falta a muitas obras, forte, sem com isso perder a feminilidade. Jason representa o olhar do leitor, sua impulsividade judiciosa e olhar cético vão trazer os conflitos necessários ao trio, bem como divertir o leitor, se tornando um alívio cômico numa sociedade tão agressiva.
                Minha recomendação é: leia esse livro! O livro está com uma edição impecável feita pela Editora Lexia, custa apenas R$ 21,90 mais o frete. Tem orelhas, miolo em papel offset, capa e contracapa feita pelo próprio autor, reforçando o caráter autoral da obra. Se o leitor busca uma ficção científica distópica com pitadas de fim do mundo, Manjedoura é a pedida.
  • A história até a História

    O filósofo grego Aristóteles foi enfático em dizer que a poesia era mais relevante que a História, pois aquela é mais universal que essa. De modo concreto, a disciplina a que o pensador está falando não é a mesma da Era Contemporânea. Podemos remontar a sua cientifização ao século XIX, quando diversas correntes e teorias surgem. Se o século XVIII foi o “Século da Filosofia”, o seguinte será o “Século da História”.
                Quando Leopold von Ranke lançou suas teses sobre a escrita da História, ele tentava evadir de uma história filosófica, ou seja, uma história sem um método corporificado (REIS, 1996). Embora não tenha ido muito longe da esfera filosófica, Ranke colocou a História não apenas como narração de eventos, mas como método e processo ideográfico, buscando o singular no tempo e espaço. O objetivismo entra em cena.
                Isso implicava em grandes problemas, seria possível o historiador estar isento de sua subjetividade? O método historiográfico-erudito é infalível? O método rankeano é um axioma. As fontes, embora estejam bem definidas em seu papel, são limitadas. Ranke se propõe a historiografar a política, a história dos grandes homens. A guerra, a diplomacia e os registros oficiais são os cânones dessa história.
                O hegelianismo e o positivismo são compreensões metafísicas da realidade histórica. Ambas atribuem uma lei universalizante e determinada dos eventos. Nem mesmo o materialismo histórico foi capaz de romper com essa cadeia. Pois mesmo no socialismo científico, a sociedade segue uma marcha etapista. O homem é determinado pelas suas condições materiais, embora faça a sua história, está é condicionada pela sua época.
                No final do século XIX, quando a questão do nacionalismo ganha forma, a História adquire um papel novo: legitimar o Estado e criar um passado em comum (BOURDÈ & MARTIN, 1983). A França é a que mais se apropria desse ideal. A Escola Metódica surge na esteira de Ranke. A política ganha ainda mais destaque. Os eventos vão formando um povo, e o povo uma nação.
                No século seguinte, nos “frementos anos 20”, dois historiadores de uma universidade periférica estabelecem uma crítica aos metódicos como Ch. Seignobos e Ch. Langlois. Para Marc Bloch e Lucien Febvre, apenas a narração ipsi literis dos documentos oficiais não seriam suficientes para compreender a história humana. Era necessário um esforço epistemológico maior nesse sentido.
                A História desce um degrau nas estruturas. Passa da política para as questões socioeconômicas e das mentalidades. As fontes se alargam, bem como seu método de crítica interna e externa. A revista Les Annales surge (BURKE, 1992). Uma das maiores contribuições dessa escola historiográfica foi a interdisciplinaridade com outras ciências e campos do saber como a linguística, a geologia, a antropologia, a sociologia e outras.
                Embora não haja consenso entre os historiadores da Historiografia, podemos dividir a história dos Annales em primeira geração, a de Bloch & Febvre; a segunda geração, a de Braudel; e por fim, a terceira geração, também conhecida como Nova História, que se ampara nos aspectos da cultura para a sua escrita (PESAVENTO, 2012). Isso não significa que não houvesse outras tendências demarcando território, como o neomarxismo inglês de E. P. Thompson. A ciência adquiriu novos métodos, novos temas e campos de atuação profissional.
                Para além das críticas, podemos destacar os seguintes avanços: a História do Tempo Presente, o ressurgimento da narrativa, a História Oral, todo registro humano no tempo e no espaço como fonte historiográfica, a percepção do tempo braudeliano, a interdisciplinaridade etc. Com esses recursos o historiador poderá fazer uma história total. Não no sentido de algo definitivo, mas no sentido da mais ampla percepção da historicidade, cobrindo o máximo de elementos possíveis dos eventos e fatos históricos.
    Referências bibliográficas
    BOURDÉ, Guy; MARTIN, Hervé. As escolas históricas. Portugal: Publicações Europa América, 1983.
    BURKE, Peter. A Escola dos Annales 1929-1989: A revolução francesa da historiografia. 2. ed. São Paulo: Editora UNESP, 1992.
    PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & História Cultural. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.
    REIS, José Carlos. A História, Entre a Filosofia e a Ciência. São Paulo: Editora Ática, 1996.
    ROCHA, Everardo. O que é mito. Editora Brasiliense, 1996.
    SÁEZ, Oscar Calávia. A variação mítica como reflexão. Revista de Antropologia, São Paulo, USP, vol. 45, nº 1, p. 07 – 36, 2002.
    VEYNE, Paul. Acreditavam os gregos em seus mitos? Ensaio sobre a imaginação constituinte. São Paulo: Brasiliense, 1984.
  • A IMOBILIDADE DA LUZ

    Agora do mesmo jeito que os fiz, desfazer-los-ei. Morrem uns para existir outros. Às vezes, o tédio ou falta de perspectiva me faz deletar em massa. Assim eu era. Sei que podia parecer algo cruel deletar a existência de “alguém”, (espero que entenda) não fazia isso por que queria ou por que gostava, simplesmente porque era preciso. 
    A vida foi, a princípio, uma ideia que me surgiu em um momento de tédio; Eu não esperava tanto; simplesmente me surpreendi! Quando tive a primeira ideia da criação, estava passando por um momento conflituoso, tinha me entediado com tantos projetos monótonos e acabei destruindo o meu último projeto que era uma esfera consideravelmente grande de energia branca, e foi aí que tive a ideia de algo mais interessante: resolvi criar uma galáxia invés de constelações e centros sugantes. Mesmo assim, vi que aquilo não passava de uma ampliação dos meus projetos anteriores. Então, fui a pasárgada refletir; estava muito exausto e nenhuma ideia boa ainda me exsurgia. Após algumas consideráveis eternidades, vislumbrei algo que seguia um fluxo próprio e fugia da monotonia; algo que era regido por uma regra geral. Era a gênese da vida. Assim sendo, foi nesse momento que me debrucei em um projeto magnificente: A Criação. Remodelei os destroços da esfera de outrora, criei a natureza e os animais. Com o pulsar das gerações e o dardejar dos milênios, sucumbi ao ver o grande equívoco da criação: foi a pior monotonia que já vivera; antes pelo menos eu podia ter eternidades para outras coisas, entretanto, daí em diante, tive que tutelar esse projeto. Nesse momento, tive muito trabalho, deletando e renovando existências que no fundo seguem uma lógica continua de perpetuação. Isso tudo me dava calafrios em gastar algumas das minhas eternidades nesse fastidioso trabalho. Sei que para infinitas eternidades que tenho, algumas não iriam me fazer diferença. Entretanto, isso me fustigava lentamente e me causava uma monotonia cruel. Foi então que decidi criar uma vida que se destacasse. Por tentativa e erro, comecei por macacos, depois sapos, aliens, e por fim, sapiens. Já estava com as mãos doloridas de tanto misturar. Com o tempo acabei gostando dessa criatura. Pensei, que talvez deveria misturar dois deles. E assim ficou: Sapiens Sapiens. No final do processo, só restou uma criatura, e assim, intitulei-o de Anão. Ah não, não era esse nome; lembrei: Adão. E assim o foi. A criatura a cada “secundos” demonstrava destreza, sabedoria e, assim, me alegrava. Certa vez, resolvi criar o Destino para cuidar da vida e da morte. Com tempo livre, ocupei-me em outros projetos, e acabei deixando a minha criação em segundo plano. E de supetão quando estava no cinturão de Orion, uma ideia catucou a minha mente, sugerindo-me a criação de uma companheira para a criatura. Estava sem tempo para visitar frequentemente a minha criação, e por isso, resolvi dá a luz à ideia. Só que quando fui criá-la, tinha esquecido da fórmula. Misturei sapo, macaco, peixe e acabei criando uma mistura de sapiens com peixes; vi que não estava legal para uma companheira. Chamei-a de sereia para não ser desprezada. E sem obter sucesso, resolvi arrancar uma costela do Adão, e assim, formei uma companheira; intitulei-a de Eva . Vi com o tempo que ambos estavam felizes. Mas isso não me agradava nem um pouco. Felicidade é monótono e monotonia me causava incômodo. Então coloquei uma arvore com frutos afrodisíacos para testar a resiliência de ambos. Eles passaram um tempo se contendo em comer os frutos; foi então que decidi colocar uma serpente para atentá-los. A serpente fez um ótimo trabalho. Ainda me recordo da retórica da serpente que usou para ludibriar Eva: 
    —Estes frutos têm poderes especiais, por que não comes um? 
    —Porque fui proibida; estes frutos não fazem bem. 
    —Não seja tola, se o criador colocou uma árvore desta no paraíso, é claro que foi para vocês. Ele devidamente está testando a inteligência de vocês. E desta forma, ele quer que vocês ultrapassem as restrições e façam a diferença. 
    —hum, talvez tenhas razão 
    —É claro que tenho; sou fruto do criador!. venha aqui; Tome este fruto, este é seu; partilhe-o com Adão. 
    E assim, Eva levou o fruto, e Adão, ingenuamente, comeu o fruto de Eva e não percebeu que caíra na tentação da serpente. Dessa forma, acabei vendo a fragilidade dessas criaturas; vi que estavam muito longe da minha sapiência. E nessa lógica, vi que eles jamais iriam chegar perto dos meus Arcanjos. Com efeito, condenei-os a lei do Destino. E assim ao Destino declarei: 
    —Estarás incumbido de ceifar a vida deles, toda vez que chegar a hora. Eles terão o fado de nascer, crescer, procriar e morrer. Eles não mais viverão uma eternidade. Vão sentir a dor carnal. sofrerão com os temores e seguirão a Lei Natural. 
    Depois me ausentei e deixei-o regendo a criação. 
    Após algumas finitas eternidades, resolvi visitar a criação. Senti um verdadeiro abalo ao ver aonde a minha criação chegara. As criaturas de outrora não mais seguiam a Lei Natural. Criaram a sua própria lei. O Destino estava cada vez mais com problemas. As criaturas estavam dominando cada vez mais a inteligência. Estavam adiando o veredicto do Destino. Guerras, miséria, contrastes, tecnologia, temor, destruição, estavam caracterizando a criação. Aquilo de fato não era monótono, era extremamente inconstante. Talvez a minha ânsia pela fuga da constância tenha a impulsionado à Evolução. Não os via mais como uma criação. Via-os como uma transmutação. E destarte, resolvi me ausentar novamente e esperar mais algumas eternidades para ver até onde eles irão chegar...
  • A loucura normal ...

    A loucura dos loucos, não deveria preocupar tanto (ela é normal, simples e individual), mas a loucura coletiva e institucional dos ditos normais. Essa sim deveria ter o empenho feroz dos estudos da medicina para encontrar cura.
  • A miséria sustenta seu ego !

    Por que se noz não tivéssemos pra onde olhar.
    Como nos conformaríamos com nosso “patamar”, tudo isso gira em torno da hipocrisia. Muitos cobram mudança, Igualdade social, direitos iguais etc... Porém quando saímos dessa “bolha”. Nos deparamos com a hipocrisia da conformidade / sustentação da conformidade.“Eu me conformo em ser assim, porque ele tem menos que eu” . Sempre nos apoiando no pilar de baixo novamente se sustentando no declive alheio.
    Base pra sustentar a ideia !
       Relato pessoal : Quando mais jovem sempre reclamei da minha classe social, até hoje não me conformo muito. Porém sustento meu ego e desejo de ser  rico ou seja ter poder aquisitivo em questão de evolução e realização pessoal. Não apoiando em pessoas específicas como comumente é a base da inveja ou a utopia do ser rico. Enfim sempre comentei com os meus pais, e sempre com desdém fui tratado em relação ao assunto. Porém oque sempre me incomodou eram as justificativas dos mesmos.                          - Olhe as pessoas que têm menos que você. ! 
    - Olhe quantas pessoas passando fome. !
    - Olhe quantas pessoas queriam estar no seu lugar. !
       Contudo, tudo isso era dito não para que me sentisse encomendado com a situação das mesmas, mas sim para que eu fizesse então o uso do termo. sustentação da conformidade, ou seja, aderir à ideia que tenho onde me apoiar e me conformar com o que tenho, pois ainda a onde me comparar, e com isso aceitar a monotonia de ser e estar onde me encontro e sou !.
       Mas ao começo de tudo a ideia não era de se colocar no lugar do outro ?. 
       Ao deixar de olhar pra ''cima'' posso sim parar de praticar inveja, vontade de ser mais, superioridade etc... Porém olhando pra baixo, encontro um ser fazendo então o  uso do ego para se conformar com oque tem, por que querendo ou não há a comparação mas não a equiparação com o mesmo que se encontra “abaixo” de nos. 
     HIPOCRISIA
    substantivo feminino
    1. 1. 
característica do que é hipócrita; falsidade, dissimulação.
    2. 2. 
ato ou efeito de fingir, de dissimular os verdadeiros sentimentos, intenções; fingimento, falsidade.
    CONFORMIDADE
    substantivo feminino
    1. 1. 
correspondência, analogia ou identidade de forma, modo, tipo ou caráter."c. de angulação"
    2. 2. 
ato ou efeito de se conformar, de aceitar, de se pôr de acordo; conformação, concordância.
    DECLIVE
    adjetivo de dois gêneros e substantivo masculino
    1. 1. 
diz-se de ou superfície cuja altura diminui gradualmente à medida que é percorrida."trecho d." 2. 
POR METÁFORA
que ou o que está em decadência.                                            
    UTOPIA
    substantivo feminino
    1. 1. 
lugar ou estado ideal, de completa felicidade e harmonia entre os indivíduos.
    2. 2. 
qualquer descrição imaginativa de uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade.
    DESDÉM
    substantivo masculino
    1. 1. 
desprezo arrogante; altivez, soberbia, sobranceria."a dona da loja tratou-o com d."
    2. 2. 
POR EXTENSÃO
comportamento distanciado; indiferença.
  • A morte do eu

    “After a year in therapy, my psychiatrist said to me: ‘maybe life isn’t for everyone’.” 
    O inferno está vazio e todos os demônios estão na minha cabeça. Conjecturo vozes que, no desabrochar da vigília, anunciam-me um transtorno psicótico. Hoje eu tranco o curso, tranco a vida. Cheguei a vasculhar, um dia, a possibilidade do suicídio ser apenas o enterro, mas não a morte em si; todavia, certifico-me, nessa náusea amorfa, que a angústia se infiltra na teia neurossucumbidora antes de incinerarmos a nós mesmos. Conto os dias, odiando o teísmo onipotente, para encontrar o que acredito ser minha alforria: o psiquiatra. Há de ser minha muleta metafísica. Dispneia. Se enlouquecer-me novamente, tenho clonazepam. Vinte gotas; vinte e sete, se precisar. Alivio-me com esse meu novo deus volátil. 
    Sento-me à beira da cama; meus pés desmaiam sobre o chão. Penumbra. Nada me daria mais prazer do que nunca ter de acordar novamente. Sinto na alma a enfadonha arte de vestir-se. Fico apreensivo com minha sanidade dúbia diante das aulas anavalhadas que vagarei hoje. Degusto o Escitalopram com um café áspero. Lembro – fitando um eterno nada – a face sem sentença da minha psicanalista, e esbravejo-me; quero que suba no telhado e grite quem sou eu, pois já me foge essa concepção. Deposito o frasco de benzodiazepínico no bolso; esqueço o celular em casa. 
    Ao longo dos sertões da manhã, o medo do pânico se empodera como um fascista. Claustrofobia. Perscruto que na selva da minha psique não reino como Zumbi Dandara, mas apenas sou uma marionete do caos. Convenço-me da morte iminente: seja por um edema de glote, seja por um cataclismo pneumológico. Vendaval de sinapses. Minha mitral esperneia-se, regurgita-se, fibrila-se; almejo fugir-me; visto a entropia desajustada; balbucio uma filosofia sórdida. Subunidade beta da Proteína G, Guanosina Difosfato Inativa, Adenilato Ciclase: importantíssimo para vocês, futuros médicos. Cronograma de Caim. Quinquilharia. Pandemônio.
    Comprei uma aliança para essa miséria de vida, mas não prometo a monogamia – resmungo ao asilo que concerne minha consciência. Permuto as desvantagens e vantagens de ser um amontoado de átomos; aquelas me logram. Perambulariam como os nômades que nutrem sentimentos por mim? Por mais que sejam escassos, não me ousa denegrir a árvore-mãe que doou suas raízes à fruta empobrecida de alma. Aproveito o anticlímax dessa patologia arruaceira para ler o DSM: tenho todas as anarquias possíveis: transtorno de ansiedade generalizada, síndrome do pânico, depressão, desconexão com o divino, apatriotismo sem-terra. 
    Como um cadáver maquiado, encargo-me da polidez pós-morte: metáfora para os primórdios da tarde. Sobre o alcoolismo: eternizara – não que deguste a ideia, porém era a morfina que varria minhas esquinas neurais; era, senão, o hospício que tratava meu cansaço insuportável de gente. Olho-me: identifico em cada dobramento da minha organogênese os assassinos da minha jornada. A tarde, porém, caminha de forma taciturna; enrosca nos galhos, tropeça nas ironias machadianas, vivencia a chaga de Édipo, mas caminha. Adentro um elevador eremita: coercitivamente controlo a respiração: minhas cavernas pulmonares ecoam desespero.
    Palmilhando os arredores do abismo, pondero em relação ao futuro notívago: ou a insônia reluzirá novamente ou uma bala perfundirá meu encéfalo – entrará por um ouvido e sairá no outro, nada menos. Sinto meus passos derradeiros nesse morro cascalhado. Cairá sequer uma lágrima desse meu rosto surrado diante da morte de meu pai? Meu recinto ainda tem o cheiro de vazio. Insisto em deleitar-me na água que escorre do chuveiro, mas em vão. Pressuponho que dentro da gaiola do meu peito habite um pássaro que almeja voar, todavia se debate nas grades costais, depena-se e desiste da vida. Perfumo o ar com sobriedade: irrita-me o anseio acalentador das pessoas. Recebo, ainda que caquético, no toante dessa noite, uma visita: meu humor sacoleja como um cão solto na praia. Lê-me: você parece ótimo. Não se esqueça, minha cara, que os buquês, por mais que sejam sorridentes e carinhosos, são feitos de flores mortas. 
  • A nova onda cyberpunk

    Diferente do que afirmam os críticos, a morte do cyberpunk foi anunciada com certos exageros. O pós-cyberpunk, movimento no qual a tecnologia e a sinergia entre homens e máquinas é considerada algo possível, ao menos até o momento continua sendo uma utopia cibernética e não uma realidade concreta. A alta tecnologia e a baixa qualidade de vida é algo muito mais palpável. O cyberpunk não cria ilusões, revela fatos diários.
                Quando a Darda Editora se propôs a explorar esse subgênero da ficção científica, o mundo e a liberdade criativa para criar histórias nessa realidade foi imensa, e também envolvente. No total, oito autores foram selecionados. Já conheço até o trabalho de alguns deles, pois já fui seus colegas em outras antologias. Recomendo esse livro pelas novas abordagens, dramáticas e catárticas nesse livro.
                O primeiro conto é escrito pela Aline Cristina Moreira, e se chama Ilusões. Esse texto nos mostra como a tecnologia é muito frágil para substituir as relações humanas, cada vez mais artificiais. Não posso falar mais, senão correrei o risco de revelar o final da história. Foi uma leitura assustadora.
                O segundo conto é o meu, Assalto ao Banco Genoma, um hacker baiano recebe uma bolada em criptomoedas para assaltar um banco de registro de DNA para um nobre europeu. Mas enquanto ele invade o BG, uma força tarefa chega ao seu quartel general. Não gosto muito de comentar meus próprios contos, mas eu fiquei muito satisfeito com esse aqui.
                O conto do Cesar Luis Theis, o Nuances da cyber-sociedade, a alta tecnologia tem o mesmo status de uma droga, pois o seu uso é viciante, gera dependência e problemas psíquicos no seu usuário. Foi o trabalho mais coeso, com começo, meio e fim bem claros. Ficou muito nítido em qual mundo a narrativa se desenvolvia, o conflito entre hacker e máquina foi sensacional, usando xadrez como plataforma de combate. Melhor conto.
                Sangue e circuitos de Fabiana Prieto trouxe uma narrativa deja vú, a história parece se repetir em seu final, se tornando um anticlímax. Pareceu mais um prólogo de um romance do que um conto, ao menos me pareceu assim. O conto tem uma ótima ambientação, e se peca pelos personagens com pouca personalidade, a autora tem um ótimo argumento em mãos para desenvolver uma prosa maior.
                Jonnata Henrique é um dos poetas e contistas mais prolíficos que conheci, e um dos mais talentosos também. A história de O setor 469 também tem um ótimo cenário, uma típica distopia com um plano de fundo cyberpunk. Depois de uma Terceira Guerra Mundial, a população diminui para metade e ocorre a chipagem dos seres humanos. O setor 469 usa um programa de testes de robôs militares, e para isso, usa presidiários. Apesar do conceito ser instigante, a obra é muito curta, e termina com muitas pontas soltas. Careceu de um melhor desenvolvimento.
                Fuga na Cidade de Neon de Rafael Danesin trouxe a narrativa mais dinâmica e final mais aterrador da coletânea. Joh Haarp (que devido a flexão de dois gêneros não tive certeza se era um homem ou mulher) está fugindo de sua crio-prisão. Como um lobo solitário fugindo dos caçadores, o fugitivo causa um grande estrago na cidade, sempre com tiradas satíricas e sagacidade.
                Suellen Silva traz Vida de Cão. A história é simples, tem um cão-robô como protagonista. O cyberpunk é um gênero permeado pelo conflito entre o homem e tecnologia, o indivíduo e a sociedade, corporações umas contra as outras. Trazer esse conflito através de um novo olhar nos tira da zona de conforto.
                Fantasy and Dreams é o conto do Tauã de Lima Verdan Rangel, e fecha a antologia. Confesso que de todos esse foi o conto que eu menos gostei. Embora ele seja o de maior quantidade de páginas, não em pareceu que ela foi desenvolvida muito bem. A narrativa em primeira pessoa deixou vários pontos em branco. Personagens foram citados como numa lista de supermercado, mas não tiverem desenvolvimento de personalidade ou ações claras na trama. Outro conto que parece um prólogo de uma narrativa maior.
                Esse é o meu primeiro livro publicado com a editora, não sei porque, mas o livro demorou muito para ser editado. O livro tem apenas oito contos, eu sempre espero que a antologia tenha no mínimo cem páginas, esse é o maior pecado da antologia. A diagramação do livro não está ruim, mas uma segunda edição necessitará de uma melhor revisão, me pareceu que o livro foi editado às pressas, mesmo com cinco meses de produção e apenas 60 páginas. Inclusive eu achei que eles mudariam a capa, ele não instiga muito a leitura. O livro te orelhas, marcador de página exclusivo. Miolo em papel offset 70, capa papel cartão 200. Se você quer acompanhar mais um dos meus trabalhos ou se você gosta mesmo de cyberpunk o livro é sua pedida.
    Para adquirir o livro cesse aqui:
    https://www.dardalivraria.com.br/9143094-Antologia-Cibernetica
  • A paixão como eterno crime culposo

    Poucos livros conseguiram abordar as relações conflituosas no casamento como A Guerra Conjugal, do escritor curitibano Dalton Trevisan. Os contos reproduzem os papéis e o psicológico de muitos casais. Com objetividade, humor negro e uso de metáforas, seus textos transmitem uma valoração naturalista da união entre homem e mulher.
                Em todos os contos, dois personagens se fazem presentes, João e Maria, por si só uma ironia do autor, pois nos remetem a famosa história dos Irmãos Grimms. Lembrando o Star System usado em obras de mangá, como as de Osamu Tezuka. Assim a visão do leitor se volta para as ações dos personagens e a influência do meio em que vivem. Isso foi essencial para que sua narração direta não ficasse vaga durante a leitura.
                Sua narrativa sintética não impediu a construção de personagens redondos, algo bastante difícil numa narrativa tão árida. O casal onipresente, ao longo dos diversos contos apresenta inúmeras facetas. Em algumas histórias João é um homem passivo com os atos de Maria, seja na infidelidade ou sendo violentado pela mesma. Em outras ele é o carrasco, trata Maria com indiferença, torturando-a ou a trai com um amante.
                Maria por sua vez, vai de uma dominadora até uma escrava sexual. Muitas vezes a esposa usa dos seus dotes físicos para obter do marido ganhos materiais, ou exceder na lascívia e ser perdoada. Em alguns contos, no entanto, Maria sofre horrores ao se casar com João. Os fetiches do cônjuge ferem não apenas o corpo de Maria, mas também o seu orgulho, ao ponto de em uma das histórias, João colocar o amante para viver sobre o mesmo teto.
                Outros personagens constantes em todo o livro são os filhos. Apresentam-se sempre como vítimas do malfadado casamento entre João e Maria. As famílias crescem desestruturadas. Se o casal ganha em algum aspecto, os filhos saem perdendo, tanto na saúde, paz, lazer etc.
                João e Maria constituem o arquétipo de casamento feliz que inexiste por vários motivos apresentados no livro: As paixões e o instinto sempre acabam interferindo na união conjugal, o casamento formado por interesses materiais impedem qualquer desenvolvimento sentimental, a idealização do casamento encobre as motivações dos conjugues, o casamento também é feito de conflitos. Muitos outros motivos são apresentados no decorrer do livro, o que acaba tornando as situações absurdas, porém reais.
                Sua experiência como advogado deve ter ajudado a formar os cenários dos contos, muitos deles lembram o gênero policial, os finais sempre imprevisíveis e abruptos deixam o leitor desconcertado. A escrita rica de Dalton Trevisan impressiona pelos artifícios que usa nos seus textos, por exemplo, o gore em alguns contos deixam as suas histórias bastante sombrias. A dependência física de alguns personagens sejam eles João ou Maria, dá o parecer de que a paixão é uma droga, e o casamento um ritual para o seu uso.
                Com a falta de descrição dos personagens, pois são tão comuns que mesmo o leitor (a) poderia ser um deles (as), o que nos resta é nos atentar ao cenário. Por vezes a imundície dos antros, e mesmo nos personagens, é o que mais impressiona. Ficamos sem entender porque homens tão asquerosos acabam seduzindo as belas Marias? E horrorosas mulheres os valorosos João? Talvez a resposta esteja na imposição do casamento pela moral vigente.
                Algo notável nos escritos de A Guerra Conjugal é o uso de metáforas seja para encobrir ou codificar conteúdo erótico, tornando as passagens por vezes fantasiosas e em outras até poéticas. Vide o seguinte trecho do conto Quarto de Horrores: “Em pé na cama, inteiramente despido, João soprava a flautinha de bamba... Olhos vidrados, descobertas as vergonhas, girava à sua roda, ora aos pulos, ora de cócoras...”; outro conto com uma bela metáfora é A Normalista: “Sobre a cabeceira a imagem da santa e ali na cômoda a manada de elefantes vermelhos do bem grande ao menor, sempre de trombas para a parede...”. O foco da narrativa é o psicológico dos personagens que são transmitidos através das suas ações nem sempre louváveis. A um clima de demência nas relações “afetuosas” dos personagens que lembram o filme Psicose.
                Outra consideração a sua precisa narrativa é o uso de elementos sensoriais. Chegam a se tornar sensitiva as coisas simples do dia a dia como o amargo do café, o frio do sereno, o penacho de um cardeal ganha não apenas forma, mas total sensibilidade através das palavras de Dalton. Para histórias tão conflituosas, esse uso de elementos sensoriais acaba por diminuir o clima pesado da narrativa.
                A Guerra Conjugal mostrou que o casamento não passa de uma idealização extravagante de uma moral piegas. Nos contos do livro ninguém consegue se realizar na instituição falida que se tornou o casamento, seja ele civil, no religioso ou as uniões estáveis. Muito disso devido à interferência de outrem, e do que cada João e Maria espera receber, e não doar em prol do outro.
  • A verdade

    É verdade, talvez eu não seja boa em nada além de escrever, ou talvez nem escrever eu saiba realmente. Ser rejeitada é um 
    sentimento estranho, me faz querer tentar de novo, mas eu me sinto tão inútil agora que não quero fazer nada que não desistir,
    acredite não sinto pena por mim mesma, estou somente decepcionada. 
    Estamos todos vazios, procurando algo que nos torne úteis e que sejamos bons em fazer, por isso toda essa coisa de tentar para ser aceito é desgastante caso o resultado não seja o esperado, por que o vazio de antes acaba se tornando ainda maior, como se tornou comigo neste exato momento.
    Acho que não consigo evitar de 
    me odiar nessas horas, oque me faz ter mais raiva de mim por que não basta ser rejeitada por outros ou desapontar aos outros,
    sou 
    rejeitada e repreendida por mim mesma, e parece que minhas críticas acerca da minha própria pessoa se tornam cada vez mais duras e intolerantes. 
    Eu deveria dizer para nunca desistir de seus sonhos, e persegui-los a qualquer custo, mas eu estou com medo de fazê-lo e meu tornozelose torcer
    enquanto corro atrás deles, estou com medo porque sei que não vou conseguir realizá-los, mas agora acabou,
    os sintomas da 
    insegurança me tomam por completo e as noites estão se tornando mais longas, me esconderei no canto novamente com auto criticas a serem feitas, e sonhos a serem consumidos pela falta de confiança.
  • ACID+NEON VOL.2

    “A neblina se agita rasgada por uma histérica dança de feixes neon. O caos das ruas fomenta a ansiedade nos corações alheios e as malhas sintéticas se energizam ao tocar contra as peles humanas. Não se reconhece mais origens, há apenas especulações sobre o amanhã, assim como reflexos turvos no asfalto molhado e o sol que agora brilha timidamente no horizonte de obscuro. Sob a chuva, lágrimas se misturam ao sangue e o sangue ao fluído.”
    — Fragmentos de Belona, livro I.
    ACID+NEON 2.0 é uma antologia colaborativa multimidiática inspirada no cyberpunk. Produzida pelo Studio Coverge, conta com a participação de mais de 20 artistas e convidados que se unem para criar esse experimento de imersão na cultura da distopia tecnológica. A primeira publicação realizada em 2018 trouxe uma chamada para um universo corrupto e caótico, acompanhado de leituras visuais e sonoras que engrandeciam a experiência.
    Para o segundo volume, ACID+NEON amplia seus horizontes explorando ainda mais o Futuro Próximo, amarrado a intrigas de escala nacional e global, com pitadas de romance, aventura, horror, o bom e velho noir e um toque gótico e clássico do cyberpunk, nos formatos conto, trilha sonora, arte digital e boardgame.
    O lançamento da versão digital (disponibilizada gratuitamente) será no dia 07 de março e a campanha para o Financiamento Coletivo da versão física inicia na metade de março! Siga nossos canais para não perder nada!
  • ALIEN

     
    A beleza é só mais uma ilusão:
    outra forma de dominar o ser,
    encaNcerando-o numa prisão,
    ainda que pelo próprio prazer...




    © do Autor, IN: Concursos literários do Piauí. Teresina, Fundação Cultural do Piauí, 2005. 226 p. Página 177.



  • Animal desalmado

    Nimguém merecia , ninguém deveria ter seu corpo violado 
    ninguém merecia ter esse trauma gravado 
    e não é um caso nem dois é simplesmente um punhado 
    foram machucadas simplesmente por estar ali na hora errada em frente a um animal desalmado 
    e depois vêem as perguntas do "tipo onde estava? com quem estava? estava pedindo por isso né? estava bêbada mesmo queria o que? "
    queria mesmo saber que mundo é esse é quando se tornou tão antiquado onde culpado vira vítima e a vítima vira o culpado 
    mais Veja bem o estuprador não é só aquele cara esquisito e Também o garanhão ,o Bonito , é o cara de família .
    nós não deveríamos concientizar mulheres a como não ser estupradas , nem a como se vestir perto dos caras 
    devíamos é ensinar os caras 
    devíamos é ensinar as pessoas a não apoiar o coleguinha estuprador que é bem sucedido , o cara que faz chantagem emocional com a própria mulher para força-la, o carinha que você ouviu reclamações dele mais não acreditou que era verdade porque a moça estava bêbada 
    estupro não vêem apenas de desconhecidos , vêem também de conhecidos vêem de pessoas que deveríamos confiar que deveríamos poder confiar , e isso continua acontecendo e o porque muitas pessoas não denunciam? talvez porque aquele carinha legal diz " ninguém vai acreditar na sua palavra" " é sua palavra contra a minha" ou quando os amigos do carinha dizem se liga você nunca vai encontrar alguém como ele" 
    isso precisa ser mudado , apenas deve ser mudado .
  • Antes ...

    Antes disso, o Homem vivia a natureza, o Homem era a natureza. Hoje ele apenas a contempla com saudades doloridas, muitas vezes não mais que através de miragens fotográficas.
    Contudo, o Homem ainda vive na natureza, mesmo distante dela, mesmo disfarçando ela, mesmo negando ela.
    A natureza o compõe e o integra.
  • Arqueologia Pop – Blood Crystals

    É com muito prazer — e outro tanto de nostalgia — que, dou início a esse projeto por tanto tempo adiado. Seu adiamento foi devido a condições pessoais. Sanei esses problemas. Resolvi batizar o projeto de Arqueologia Pop.
              A arqueologia, a grosso modo, é uma ciência que estuda a sociedade através de seus vestígios materiais. Foi ofício de muitos aventureiros e, no mundo contemporâneo, renomados cientistas. Com menos romantismo, e o mesmo tanto de trabalho, estarei através de vários textos, escavando, resgatando e trazendo a luz antigas obras esquecidas dos mangás brasileiros. Aquelas que só os fãs embebidos de nostalgia podem se lembrar.
              Estarei dando prioridade àquelas obras descontinuadas, mas tratarei também, futuramente, de títulos já concluídos, logo seja possível a leitura. E como irei proceder? Irei ler o capítulo um de cada obra, ou o seu prólogo. Não sendo possível nenhuma das últimas opções, irei ler o capítulo disponível, seja ele qual for. Estão excluídos dessa lista as obras que deixaram o seu hiato. Esses serão feitas resenhas regulares mesmo. O objetivo é mais analisar as condições de descontinuidade dos títulos, e não culpar o autor, mas não será esquecido os seus erros. Entrarei em contato com os autores sempre que possível.
              O primeiro título que eu escolhi, o conheci na revista Anime dô da Editora Escala. Todo otaku nascido antes de 2010 conheci essa revista, assim como a revista Neo Tokyo. Na seção de fanzines, eu li uma vez uma obra que me chamou bastante atenção. O mangá era Blood Crystals. Na época, o autor vendia até camisa da obra. A venda do fanzines era feito pelo Correio. Custava muito barato, menos de seis reais, fora o correio.
              Atualmente, pesquisando na internet, consegui ler o primeiro Cap. 1: Recordações numa scan. O mangá tem referências diretas da mitologia nórdica, bebe de fontes do RPG japonês como Final Fantasy. Mas, talvez a maior influência tenha sido o manhwa Ragnarök, que veio a influenciar a produção do jogo Ragnarök Online, MMORPG, jogo de representação de papel com múltiplos jogadores em massa online, ufa!
              A obra foi publicada no Brasil pela Conrad (2004-2005), no famoso formato meio-tankohon. A obra, originalmente de 10 volumes, se transformou em 20. Além da história focada na mitologia nórdica, o traço estilizado de Lee Myung-Jin contribuiu em muito para a inspiração da obra, seja esse de modo direito ou indireto. Era impossível ir numa banca e não ver o volume da Conrad.
              A história gira em torno de uma sessão de treinamento entre dois personagens. Asgard é um espadachim bonachão que tenta passar algumas lições a sua pupila Sasha, uma simpática amazona. Durante o treinamento, além de mostrar as suas habilidades e seu bom-humor, Asgard demonstra capacidades sobre humanas, sério gente, o cabra tora uma espada nos dentes?! Êta fida da... adiante, cof-cof. Depois da derrota de Sasha, decidem descansar um pouco, sabe como é, hora da resenha.
              Corta para outro plano. No centro da Terra, existe um Mundo Diagonal, uma espécie de ilha meia-torta que flutua sobre a lava. Lá existem diversas criaturas, dentre elas, seres draconianos. São diversas raças, possivelmente, inimigas dos humanos. Dois personagens conversam, demonstrando alguma intimidade e, ao mesmo tempo, hierarquia.
              Davkas está sentado num trono, e reconhece um recém-chegado mascarado como ausente por dez anos. Atrás dele, embora só apareça em um quadro com o seu rosto de perfil, há um prisioneiro. O mascarado parece estar deixando o local para algum encontro. O personagem Davkas me chamou a atenção, primeiro por possuir um refém — um trunfo, quem sabe —, segundo, por ele ser um drow, um tipo de elfo negro. Seres belos, mas muito perigosos.
              O capítulo imprime dinâmica e tensão. Carrega um bom-humor em todas as suas páginas. Sasha é desenhado em ângulos bem generosos pelo autor, se é que me entendi? Como diria Kazemon “Carino anca”. Nada demais, apenas para prender a audiência. Asgard é um personagem misterioso, e como essa introdução se propõe a nos conduzir a um perigo iminente, não temos muito tempo para descobrir os objetivos desses personagens, embora tenhamos alguns vislumbres, como a referência aos cristais do título. Engraçado que o fato de Asgard ser Guardião dos Cristais está na sinopse, e não no capítulo do mangá, o que me leva a acreditar que ele foi dividido em duas partes.
              Acho que é nisso que o capítulo peca. São poucas páginas para introduzir tantos personagens e conflitos. Mesmo assim, o autor já nos mostra com simples diálogos um pouco dos futuros conflitos e mitologia da história, como o uso dos cristais no cotidiano, até mesmo para produzir alimentos. Os antagonistas têm um bom designer, e ficamos ansiosos por descobrir os seus objetivos.
              O traço do mangá já demonstra um grande profissionalismo. Faz pouco uso de retículas. As cenas de ação têm impacto, e há linhas de movimento e impacto suficiente para promover a tensão. Enquadramento adequado, mas com poucas divisões, fica tudo muito verticalizado. A capa demonstra uma boa colorização, simples, mas instiga a leitura e está de acordo ao título do mangá, nos remetendo ao mote da trama. Apesar da capa do capítulo estar grafado Blood Crystal, o autor a denomina na sinopse como Blood Crystals, preferi tratar a obra por esse último nome.
              Eu lembro de ter entrado em contato com o autor ao menos uma vez. Ele disse que o trabalho, apesar de prazeroso, se tornou inviável por um momento. Por isso, ficou mais vantajoso descontinuar a publicação. Passou a trabalhar como ilustrador de games e livros de RPG, em geral, trabalhando para o mercado estadunidense. Foi, ou ainda é, professor e proprietário da Halftones Escola de Desenho. Não obtive novas respostas até o fechamento dessa resenha crítica.
              O mangá poderia muito bem continuar, e quem sabe, ser fechado em um álbum de 200 páginas. Não é uma obra estilo Dragon Ball, que necessite de um grande elenco e desenvolvimento de muitos capítulos para resolver os conflitos da trama. Isso é especulação minha. Bem, isso é tudo pessoal! Aguardem novas postagens.
             
    Título: Blood Crystals
    Ano de publicação: 2011
    Autor: Frank Willian
    Sinopse: Blood Crystals conta a história de Asgard um dos guardiões dos cristais de sangue que vive em um mundo repleto de gigantes e criaturas estranhas, um mundo dividido entre os seres do mundo exterior e entre o mundo das poderosas forças do núcleo do planeta que almejam conquistar por completo o mundo exterior em posse dos cristais de sangue.
    Cap. 1 – Recordações, nº de pág. 22.

    Próxima expedição: Nova Ventura.
  • Arqueologia Pop – Kroma!

              O grupo Zine EXPO teve uma grande função social na divulgação e produção de quadrinhos nacionais, principalmente os mangás. Eram desenhistas e roteiristas amadores tentando galgar um espaço no mercado editorial, com recursos próprios, com a cara e a coragem que só artistas do cenário independente tem. Singravam a diversos eventos, vendendo os seus quadrinhos em formatinhos de papel offset e lombada grampeada.
              Dentre o catálogo da Zine Expo, em seu site, eu conheci e adquiri alguns quadrinhos, dentre eles, o Magic Ystin do Laio Yune, o Digude do Vinicius de Souza, o Templários do Yuji Katayama, autores que eu chamo carinhosamente dos Três Mosqueteiros Carioca. E por fim, comprei um quadrinho que tinha uma capa bem legal, o Kroma!. O título era produzido por uma dupla de irmãos.
              O roteiro era do Washington Messias, com desenho do Erick Messias, ou para ficar mais fácil, produzido pelo Messias Brothers. Kroma! tinha uma identidade visual bem legal, e uma trama que me envolveu de súbito. Usar a temática de gangues com o shonen pode não parecer nada fora do normal, mas quando você vê o cenário e os personagens que conduzem a trama, você muda de opinião imediatamente. Saca só!
              Henry está em plena aula de História, mas o joguinho de luta tava mais legal e toma um esbregue da professora. Voltando para casa, ele acaba encontrando o seu pai Abraham largado no sofá, bêbado igual uma raposa. Escornado mesmo. O jovem vai preparar o rango e relembra da mãe falecida semanas atrás. Henry parece estar sofrendo com o chamado “luto difícil”, um forte apego emocional a imagem idealizada da pessoa morta. Ele se apresenta apático e melancólico, além de tímido.
              Em pleno meio-dia, uma visita inoportuna chega, é a Candy, aluna de intercâmbio. Henry a leva para conhecer a Academia de Gangue do Abraham, e para azar de ambos, o velhote acorda. Depois do rolezinho, eles chegam na sala de treino, que é aberta com poder de kroma. Após o término da visita, um grupo grande de jovens moradores visita a casa de Abraham e decidem que querem continuar seus treinos para defenderem o território de invasões de gangues inimigas.
               Mas para surpresa de todos, havia um espião que desafia a academia. O pai de Henry o força a lutar contra o desafiante. Daí ocorre uma das melhores lutas que eu já li num shonen. Só depois da luta é que descobrimos o objetivo do misterioso desafiante, o José “JC” Carlos. Suas habilidades são bem diferenciadas, e prometem lutas incríveis.
              Apesar da história começar com o Henry, o verdadeiro protagonista da história é o JC. Apresentar o personagem o colocando como antagonista no primeiro capítulo é uma inversão de expectativa que o leitor jamais iria esperar. Afinal de contas, é esse personagem que tem o grande objetivo que irá conduzir a trama: destruir o sistema de gangues, que gera violência e desigualdades.
              Seguindo com o JC, o personagem chama muito a atenção em vários sentidos. Ele é negro, luta ao som do hip-hop e tem um grande sonho. Você sente empatia logo de cara pelo personagem. Tem personalidade e um passado trágico: perdeu o irmão mais velho para as gangues. É um bom personagem para fazer um contraponto com o outro coprotagonista, o Henry que, deixaria a desejar como protagonista, mesmo tendo um bom plano de fundo.
              O sistema de gangues parece funcionar muito semelhante as nossas milícias, grupos armados que realizam atividades ilegais em comunidades pobres e favelas, como segurança, extorsão e tráfico. As gangues, nessa história, parecem ter surgido de modo orgânico na sociedade. Existe todo um sistema bem definido, incluindo Juízes de Guerra, ou seja, tem um sistema legal próprio estabelecendo as relações sociais. Uma justiça alternativa.
              As gangues têm seu próprio exército particular e território. Gangues maiores cobram dinheiro de gangue menores, e aglutinam outros territórios, ao que tudo indica. Além disso, existe toda uma economia em torno das gangues, pois, existe um sistema educacional e impostos. Seria interessante, nos futuros capítulos, se os autores explorassem as relações socioeconômicas do Estado com essas gangues.
              Na história, as habilidades dos personagens estão relacionadas ao Círculo Kromático. Num primeiro momento, parece complexo, mas, cada cor está relacionada a um tipo específico de habilidade, que pode ser usada de modo combinado. Como se aprende ou se desenvolve o poder kroma, não sabemos ainda. Levando em conta o que foi apresentado, teriam variações e usos bem estratégicos em batalha.
              O Henry, por exemplo, possui uma técnica ocular em que, ajustando o poder entre ele e o oponente, o jovem poderia bloquear a emissão de kroma do adversário. Já o JC, parece ter uma habilidade diferenciada, originada de outra fonte: o som. Cada som parece lhe conferir uma habilidade diferente, por exemplo, ouvindo hip-hop ele apela para as acrobacias, ouvindo rock, ele fica com supervelocidade. Fico imaginando o que aconteceria se ele ouvisse funk ou sertanejo universitário... melhor não, eu passo.
              A Candy foi o alívio cômico, mas se eu tivesse que fazer uma análise mais profunda, ela parece ser uma menina de classe média. A gente logo vê que ela está muito deslocada na academia. Parece ser uma patricinha vinda de outro lugar, pronta a viver novas experiências, mas que sofrerá com a adaptação. Fico imaginando que ela seria um bom exemplo de personagem que evoluiria muito, a Candy é muito perceptiva.
              O sentido de academia de gangue aqui é menos voltado a um tipo de Ensino Superior e mais direcionado a academia de exercícios físicos mesmo. A obra se passa numa favela, cheia de violência e conflitos. Me aparecem que os autores deram um que de autobiografia na obra. Tá muito crível, ruas apertadas, casas claustrofóbicas, uso de gírias, enfim, muito favela. Eu adorei a abordagem.
              O traço nos remete ao Masashi Kishimoto. Esse artista deixou um ótimo legado entre os mangakás. Sua arte é menos caricata, não chega a ser realista como um gekigá, mas respeita a anatomia mais que outros autores. Erick Messias usa pouca hachura e retículas, investe nos chapados de preto e branco, deixando a arte clara, mas dinâmica. Eu só acho que ele poderia ter feito um dégradé em algumas páginas, ou utilizado texturas, quebraria a monotonia das páginas. Os rostos apresentam boas expressões, definindo muito bem o humor dos personagens.
              Enquadramento perfeito, dinamizou a luta. Aliás, luta bem coreografada, dando peso e movimento na medida certa. Linhas de movimento bem executada. Os diálogos estão bons, os balões não arrastam a leitura. O capítulo cumpriu sua função narrativa e gerou boas expectativas para o próximo capítulo. Tem ação, contexto e ambientação. Já tenho nítido o que os autores querem contar.
              O mangá foi lançado em 2015, sendo vendido em formatinho, de modo independente em dois volumes. Em 2018, sob pseudônimo de Dr. Nankim, os autores republicaram num site de mesmo nome, paralisando a obra. Na época eu entrei em contato com o roteirista, ele fazia faculdade e nada estava descartado. Se a série teria chance de continuar?
              Sim. Eu acho viável. O objetivo do JC era acabar com um sistema de gangues, o mesmo objetivo interrompido pelo Abraham, que desejava formar uma Antigangue —uma gangue que lutaria para dissolver o sistema. Para isso, eles precisam recuperar as jaquetas da primeira gangue existente, a Blackberry, que na verdade, são boton que registram a kroma do usuário!? O JC rapou um, havia mais três livres. No todo são dez. Vai fazendo as contas, mano.
              O arco inicial, para recuperar os boton escondidos poderiam ser usados para desenvolver os personagens, que não sei porque raios, o autor apresentou uns dez logo de cara. E os arcos seguintes seriam direcionados a desenvolver os vilões mais poderosos que, provavelmente, estariam em posse das seis jaquetas restantes. Não ia terminar cedo assim não, mas, mantendo um bom ritmo de publicação, bimestral, por exemplo, seria uma ótima série de se acompanhar, inclusive, com alto apelo comercial.
              Eu entrei em contato com o roteirista da série novamente. Ele disse que apesar de ter algumas páginas prontas, não dará continuidade ao título por algum tempo. Graduado em História, não tem tempo para se dedicar a obra. Não conseguiu seguir na área como quadrinista. Atualmente ele trabalha só, o desenhista deixou o projeto. Essa é mais uma daquelas obras que não conseguem se sustentar sem um mercado editorial para o seu amparo, mas que merecia uma segunda chance.
    Título: Kroma!
    Ano de publicação: 2018
    Autor: Roteiro, Washington Messias; desenho, Erick Messias.
    Sinopse: Após a morte da esposa, Abraham entra em decadência e deixa de pagar os Juízes de Guerra. O território da Blackberry Gangue está oficialmente aberto para invasões. Abraham, Henry, Candy e os discípulos da academia estão correndo sérios perigos. A primeira ameaça adentra o território, Abraham aceita o desafio à sua academia. Quem enfrentará o invasor?
    Cap. 1 – Blackberry Gangue, nº de pág. 30.
    Cap. 1.2 – Invasão, nº de pág. 32.
  • Arqueologia Pop – Nova Ventura

    Tem certos mangás nacionais que quando descontinuados, deixam tanta saudade que, só de ver uma imagem, vem uma nostalgia sem igual. Muitos artistas talentosos acabam deixando as suas obras em eternos hiatos. Os motivos são vários. Mas nada disso impede os leitores e fãs incondicionais de manterem a vontade de fogo queimando nas veias. Por isso, decidi reavivar essas brasas ainda mais.
              Nova Ventura é um desses títulos independentes de mangá nacional que me surpreendem pela sua qualidade e pelo carinho de seu público. Conheci essa obra, junto com muitas outras na seção de fanzines da revista AnimeDô e Neo Tokyo. Sempre tive curiosidade em conhecer essas obras, mas na época, era jovem, não tinha dinheiro para comprar pelo correio nem internet para ficar lendo regularmente.
              Mas hoje, com todos os recursos, não me faço de rogado e, me dou esse prazer tardio que não pude me dar na juventude. Nova Ventura é um mangá shonen do Ivan Lennon. Típica obra de fantasia e aventura, com elementos de RPGs e, dragões também, o que é um RPG sem dragões? — Não seria nada. Viva os dragões! — É uma história que envolve muito a gente. Realmente, li as mais de 50 páginas de modo muito rápido.
              A obra começa com uma página apresentando uma profecia do Guerreiro Milenar, uma criança nascida com grande poder. Poder esse que mudará o mundo. Ele irá construir uma “Nova Era”. Depois disso, acompanhamos um jovem tentando chegar numa universidade chamada UniNORTE. Nosso encrenqueiro protagonista se mete numa briga de bar e, para piorar, assusta toda a cidade com sua estranha amizade com um dragão.
              Mudando de cena, chegamos até o sombrio e porradeiro, Mikael Kanishi — sério, esse pivete é muito foda! —, ele é o bad boy que dá uma sova nos Bad Boys oficiais da UniNORTE. É aquele personagem com pinta de justiceiro, forte e muito decidido em seguir os seus preceitos custe o que custar. Personalidade é o que não falta nos personagens de Nova Ventura.
              Voltando para o nosso estranho protagonista, e o seu dragão que não sabe fazer aterrisagens, ele acaba chegando na UniNorte. Mas cai logo em cima de Nina, uma nerd aleatória de óculos fundo de garrafa. Isso acaba despertando a atenção indesejada do caçador Mikael, o brabão do negócio lá. Para surpresa de todos, antes que eles troquem uns tabefes, o inspetor Robz chega e leva o protagonista para o Supremo Diretor — ou seja, o reitor da instituição.
              O protagonista, mesmo preso, tenta dialogar com o homenzarrão de uns 3,5 metros de altura. Mas o Supremo Diretor Albert Russel não tá nem aí, e ainda queima a carta de recomendação do nosso herói, o que deixa ele putaço, mano. O inspetor e o gigantez saem para resolver um pepino, um bichinho de estimação fugiu, ou foi solto?! O protagonista foge da torre onde estava metido e passa a lutar com um dinossauro que cospe rajada de energia no melhor estilo Dragão Branco de Olhos Azuis. Nesse momento, acontece uma frenética luta. No fim dela, o herói se apresenta como Hiory Shibarai: “O Homem Que Vai Ganhar o Mundo”. Humildade pra que, né?
              Eu gostei muito do traço. Caricato, me lembrou imediatamente do Hiro Mashima, e não será improvável o Ivan ter se inspirado em Fairy Tail para criar a sua obra. O traço é simples, com poucas retículas, mas bem definido em sua identidade. É dinâmico, tem muita movimentação, ângulos diferentes nas horas das lutas e diagramação muito boa. Mesmo com técnica básica, conseguiu incrementar a obra com ilustrações coloridas em momentos chaves.
              A revisão merece muito destaque. Geralmente é comum ter erros de português nos quadrinhos, o que é impróprio para quem visa a profissionalização. A editoração está muito boa, sem muitos erros. Os balões de fala e pensamento tem fontes diferentes, gostei desse mote. O capítulo 1, cumpre todos os papéis: apresenta o protagonista, seu objetivo e o mundo em que ele vive. Como minha análise se detém ao primeiro capítulo da obra, fiquei numa expectativa bem grande de ler o resto. Queria saber tudo sobre o mundo de Nova Ventura e sobre a UniNORTE.
              O Hyori Shibarai é um típico protagonista shonen: brigão, gritalhão e amigão. Nada contra. Me parece que entre o Mikael ia derivar uma relação amigo/rival, a Nina ia ser a mina que luta, mas tende a ser mais protegida que contribuinte da ação. Não sei no todo. Talvez esteja me enganando. Os outros personagens também apresentam muito potencial a ser desenvolvido. Principalmente o diretor Robz, inspirado no filósofo inglês Thomas Hobbs, e o Supremo Diretor Albert Russel, inspirado no filósofo alemão Edmund Gustav Albrecht Husserl, ou no empresário estadunidense Albert Russel Erskine, fabricante de automóveis.
                Agora vamos àquela parte chata que todos vocês já conhecem. Na capa do mangá, o logotipo da série, que deveria estar em destaque, é muito pequeno. Tive que usar um microscópio para enxergar. Aparece o termo abaixo “Zine PB”, fiquei curioso. Descobri que o Ivan Lenonn é natural do estado da Paraíba, estudou na instituição de ensino Unipê Centro Universitário. Trabalhou com Marketing e Arte em algumas empresas.
              Na capa de página dupla, a Nina aparece. Mas do jeito que ela está desenhada, parece um ciclope, sério mano, olha isso. Ela parece unócula. Se fosse não seria problema, ao contrário, seria uma personagem com um diferencial. No fim do capítulo acontece uma coisa meio chata: a edição erra o nome do protagonista. Na pág. 49 aparece grafado Ryori com R, e na próxima, à pág. 50, Hyori com H. Faltou um pouco de atenção nessa hora.
              O mangá começou a ser publicado no ano de 2011. Num mundo em que ainda existia Orkut, e não tinha essa mamata dos streamings. O mangá chegou a ter um site próprio, onde eram publicados os capítulos. Chegou a finalizar o volume 1, e ainda chegar a metade do volume 2, totalizando uns 11 capítulos. O autor tinha previsão de publicar 17 volumes! Isso mesmo, não era dezessete capítulos, eram d-e-z-e-s-s-e-t-e v-o-l-u-m-e-s.
              Em 11 meses ele já tinha produzido um volume com oito capítulos, o que é um feito e tanto. Quase o ritmo de uma Shonen GanGan. Agora, me ajudem a fazer uma conta rápida que eu sou ruim desse negócio. 11 meses = 8 capítulos, ou seja, um volume por ano. Seriam necessários 136 capítulos para concluir a série, ou seja, a obra terminaria em mais de uma década, isso se ele mantivesse a regularidade das postagens. É surreal para mim.
              O mangá contava com apoio de HONNOUTeam, que ao que parece, era um grupo de scan. O site deles está fora do ar. Não sei se desde o primeiro capítulo, houve a formação da Equipe Ventura, composta pela Cary Monteiro, reticulista, colorista, blogueira e editora; Renato Queiroz Ribeiro, colorista; Hitsu, editora; e por fim, o Heudits que editava o roteiro da obra. Veja que a equipe era grande e contava com gente talentosa e experiente.
              E porque o mangá foi descontinuado? Rapaz, daí que vem o imbróglio do negócio, entendeu? Veja bem. O Orkut faliu, e o Facebook se tornou a rede social do momento. O autor Ivan Lenonn não simpatizava muito com ela, e quem gosta? A gente usa porquê é o jeito, meu irmão! Parou de fazer as postagens no Facebook e deletou a página do Facebook. Sim, o autor teve a pachorra de fazer isso, e sem avisar previamente. Ele realmente odeia o Facebook. Considerava a rede social “(...) viciante e sugadora de tempo e criatividade.” Bem isso aí.
               A página foi parar na mão de um fã... sério mano, o que se passa na cabeça desse manolo? O que um fã vai fazer com uma página de um mangá? Esse é o tipo de atitude que encerra uma carreira artística seja ela qual for. Se houve motivos mais graves por trás, não foram explicados aos leitores e muitos desistiram de acompanhar a obra e o autor. Então todo mundo ficou... embasbacado mesmo. Infelizmente, eu não consegui o contato do autor, não pude saber os reais motivos da paralização do título.
              O autor, para satisfazer a curiosidade dos fãs, postou as sinopses da obra do volume 1 ao 17. O lado bom é que temos spoiler até dizer chega, o ruim, é quem temos uma sub light novel, ao invés do mangá. Não quero condenar o autor, é difícil continuar um projeto assim sem retorno financeiro e tendo que contar com ajuda de outras pessoas para tocar o negócio.
              Às vezes você tem que escolher entre ser um artista amador sem dinheiro e um bacharel com um futuro emprego. A última opção é sempre a mais viável. Ele até tentou outra iniciativa, dessa vez com o Vini Pereira. Era outra obra shonen chamada Monkz, os personagens de Nova Ventura faziam até uma ponta. O título teve dois míseros capítulos, e foi cancelado. Uma versão impressa saiu na Craftcomicbook, mas a plataforma faliu. Hoje se chama Indieart/Shop. É, pessoal, quem comprou, comprou.
              Não temam, a história ainda tem salvação! Primeiro, o autor vai ter que condensar os eventos do mangá. Ao invés de fazer de cada saga um volume com umas 160 páginas, terá que transformar cada saga em um capítulo! Tipo, umas 34 páginas cada. A obra seria concluída com 578 páginas, nada mal para uma obra independente. O que daria uns cinco volumes impressos. Quem sabe ele até cortar alguns eventos que não irão influenciar no fechamento da obra. Isso daria uma economia de tempo e avanço na história sem igual.
              Esse enredo cumprido serve para muita coisa, para gente aprender, incluso. Afinal, erros fazem parte dos nossos futuros acertos. Galera, seguinte. Você que é mangaká, quadrinista, roteiristas e escritor de modo geral, saiba que você é responsável pelos seus canais de divulgação, fã não é adequado a essa função, por mais bem-intencionado que seja. Se você não pretende continuar a série, não mude o formato dela na metade. Evite spoilers. Ninguém gosta de revelação do enredo, as pessoas querem ler a obra.
              Pense em formas de financiamento, ou seja, vender os seus produtos. E autofinanciamento, o mesmo que dizer que você deve ter outras fontes de renda, tipo, um emprego. E faça como Ivan Lenonn, estude! Vá para uma faculdade, se for possível, mas estude. Estude o mercado, saiba se aproveitar das oportunidades. E mais importante, seja sincero com seus leitores. Eles merecem. Não seja antissocial, isso não funciona para artistas no Ocidente.
    Título: Nova Ventura
    Ano de publicação: 2010
    Autor: Ivan Lenonn
    Sinopse: Hyori Shibarai é um jovem domador de dragões. Ele está tentando chegar na UniNORTE e ser aceito na instituição, seu intuito é cumprir uma promessa e realizar seu o desejo mais profundo. Para sua jornada ele conhece acidentalmente Nina Ridart e o caçador Mikael Kanishi. Mas seu maior desafio será enfrentar um T-58 para sobreviver ao seu primeiro dia de calouro.
    Cap. 1 – O Homem Que Vai Ganhar O Mundo, nº de pág. 52.
  • As Paredes Falam

    Eu deveria estar dormindo
    Papai e mamãe fecharam a porta do quarto deles
    Acho que estavam com muito sono
    Porque conseguiram dormir mesmo de luz acesa
    Mas eu não consigo dormir
    Estou ouvindo vozes
    Talvez eu esteja ficando louca, mas...
    As paredes estão falando
    Estão gritando
    Se continuarem assim
    Brigando
    Vão acabar acordando os meus pais
    Se isso acontecer, papai pode ficar muito bravo
    Ele pode até bater nas paredes
    Do jeito que ele faz com a mamãe
    Agora, não ouço mais vozes
    Apenas tapas estalados
    Seguidos de um choro bem baixinho
    Não sei porque estou chorando também
    Mas odeio dormir com o travesseiro molhado
    Mesmo que isso aconteça todas as noites...
  • Às vezes

    Às vezes me sinto um dado viciado,
    que quando jogado,
    cai sempre no seis.

    - Quero jogar com esse dado!
    - Eu também!
    - Agora é minha vez!

    - Eu quero esse dado enviesado,
    que corrobora meu resultado!
    - Eu quero esse dado manipulado,
    pra gastar o meu francês!

    Outras vezes, sou o jogador,
    o pesquisador,
    o autor.

    O consciente manipulado
    acaba virando
    o manipulador.
  • Azul sempre foi a cor mais quente

    Azul sempre foi a cor mais quente
              Eu já havia lido light novels na internet. Acho esse gênero literário tipicamente japonês adequado ao nosso frenético século XXI. Não vamos confundir com contos ilustrados, pois, cada título é lançado periodicamente, formando um ou vários volumes. Além disso, a narrativa se ampara nos diálogos, e não nas descrições. Períodos curtos, linguagem sintética e acessível. Ótimas para iniciar alguém na leitura.
              No Novembro Negro, eu adquirir alguns títulos na Comix Book Shop, loja que todo leitor de quadrinhos ou otaku deve visitar. Comprei mangás nacionais e uma light novel. Pela primeira vez eu iria ler uma obra desse gênero impressa. A novel é um spin-off da franquia multimídia K. O livro é intitulado K: Side Blue, em volume único. A obra é escrita por Furuhashi Hideyuki (GoRa) e ilustrada pelo Suzuki Shingo (GoHands).
              A obra segue a rotina da organização Scepter 4, que tem seus componentes formados por espadachins com capacidades sobre humanas. O órgão é ligado ao governo japonês, e está sob liderança de Reishi Munakata, “o Rei Azul”. O objetivo desses leais espadachins é combater os denominados “sensitivos”, pessoas que também possuem poderes especiais, os “Betas”.
              O “protagonista” da trama, se é que podemos falar dele assim, é Takeru Kusuhara. Kusuhara era um jovem policial que acabou entrando em contato com “Betas” e de modo inesperado, desenvolveu seus poderes psíquicos. Ele é convidado para entrar na Scepter 4, mas para isso, terá que dominar as suas habilidades e saber manejar o seu sabre. Ao longo de sua trajetória, ele conhece o sombrio Gouki Zenjou, seu misterioso veterano.
              Reishi Munakata parece até pouco na obra, embora estampe a capa. O vemos em ação em momentos decisivos, mas só. Kusuhara opera mais como um alivio cômico, embora tenha destino trágico. Quem rouba a cena da light novel é Zenjou, o espadachim de um braço só. A escolha é interessante. O relacionamento entre os personagens e a virada da trama são excelentes.
              Aparece muitos termos originais, mas todos possuem nota de rodapé. A ação da obra é de cunho intimista, desenvolvendo mais os conflitos internos dos personagens. A obra tem uma história coesa e fechada em seu tomo. Tem bastante humor, e até um pouco de fanservice, nada demais, achei bem leve. As ilustrações são medianas, parecem mais o reaproveitamento dos modelos de personagens do anime de K, mas representam bem as cenas do livro.
              A leitura foi rápida e bem fluída. Achei alguns períodos muito longos, sem vírgulas ou aposto. Eu confio na tradução da Karen Kazumi Hayashida, sei que foi publicada em 2012, mas ela já tinha experiência com tradução. Senti falta mesmo foi de uma melhor revisão, Fábio Sakuda e Patricia Pereira Homsi poderiam ter feito um trabalho de adaptação bem melhor.
              Acho que se você quiser uma leitura descompromissada, leve, se deseja conhecer a narrativa de uma light novel ou se iniciar no mundo da leitura, essa obra é a certa para você. Mas se você quiser conhecer a franquia, eu recomendaria o anime ou mesmo os mangás. Ela se passa antes de alguns acontecimentos da obra original, foca em um lado da história, então não serve como introdução.
              A obra possuí 190 páginas divididos em 6 capítulos. Tem orelhas em capa cartão, capa e contracapa ilustrada. Tem uma galeria de personagens logo no início, cada capítulo tem uma ou duas ilustrações, algumas em páginas duplas, todas preto e branco. O papel do miolo é offwhite e de baixa gramatura. Eu recomendo por ela ser volume único e apresentar uma história que mesmo quem não viu ou leu K pode entender.
    Para adquirir com descontos, acesse aqui:
    Link 1 – https://www.lojanewpop.com.br/k-side-blue
    Link 2 – http://www.comix.com.br/k-side-blue.html
  • B A I I S C T N Â

     

     

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                        t e l e              v i s ã o

     


                        t e l e             v a z ã o

     


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    © "Copyright" do Autor, IN: Concursos literários do Piauí. Teresina, 2005, Fundação Cultural do Piauí. 226 p. Página 188.

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