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crise

  • Cacos

    Meu coração está em pedaços 
    E eu mais uma vez juntando os cacos 
    To aqui de novo, tentando me concertar 
    Desse estrago que seu “amor” me fez 
    Juntando o que sobrou, depois que mais uma vez me deixou.

    Não sei se vai ser possível juntar tudo
    Meu coração foi esmagado
    Meus sentimentos foram desprezados 
    Eu estou destruída, sem rumo, sem saída 

    Está sendo quase impossível me refazer 
    E colar cada pedacinho que restou
    Suportar a dor da despedida e seu amor que nunca ficou 
    Mas agora eu desisto, vou deixar o vento levar
    Que carregue meu coração pra bem longe 
    Para alguém que queira mesmo me amar. 

  • Cansaço

    Tô cansado de me sentir demais
    pros outros ser
    coisas surreais
    e de dentro
    não me conhecer mais.
    Tô cansado de ser de menos
    de menos interessante
    de menos compreensivo
    de menos amante.
    De esperar do mundo de mais
    de mais cor
    de mais sabor
    de mais fervor.
    De mim dar de menos
    menos compreensão
    menos paixão
    menos intenção.
    Afinal esse é mais um poema
    de alguém que quer ajuda
    de um cara as vezes contente
    escrevendo sobre gente
    a qual nunca muda.


    Rio de Janeiro, Dez de Fevereiro de Dois Mil e Vinte
  • Cão Morto

    Muito morto, tanto quanto pode ser. Sim. E mais: Contente.
    Senti uma bofetada no rosto. Ele não, estava morto. Um morto não se assusta com um vivo, muito menos aquele desvivido, bravo. Negaram, abandonaram, maltrataram e por fim, mataram-no. E mesmo assim, permanecia como um monumento anônimo numa rua perdida de uma Curitiba estranha. Olhos escancarados em desafio inconveniente à vida que lhe foi tão custosa, a língua para fora estancando um sorriso macabro.
    Voltando ao golpe. Fui pego de surpresa, mas é redundante, golpes são assim. Eu que, arrogantemente, andava em plena vida nesse mundo de imortais, me virei, dei de cara com a morte. E ela me esbofeteou. Justo. Sem aviso ou mensagem, interrompi sua peça póstuma em ousadia digna de gente. Como quem não quer nada adentrei em sua morada e chutei o trabalho de sua, ironicamente, vida.
    Mas foi ela (a vida) quem primeiro me bateu, a fragrância de milhões e milhões de seres vivos lutando uma batalha infinda pelos restos do cão, excretando compostos dos mais variados e malcheirosos. Desculpa, menti, afinal a vida e a morte são a mesma donzela, e seu tapa era igual. E ele ria, em deboche. Ele? Sim, o cão.
    Porque, fruto do desprezo de milhares de pessoas estava ali, morto mas nunca tão cheio de vida, contra a vontade de todos que empinaram o nariz a ele. Havia vencido. Pela ação de milhões de decompositores cada pedaço de matéria em sua carcaça renasceria, era imortal e isso lhe dava certo contentamento a morte e a vida que teve.
    Um dia, pensei eu afagando o rosto moralmente doído, ele será gente, e empinará o nariz para aqueles que um dia lhe foram irmãos no abandono. Ai eu entendi. Tempos atrás, havia sido cão e, algum dia, amaldiçoei essa raça esnobe e estranha que me negava. Ironicamente, em uso do ciclo interminável da matéria, eu renasci gente e tive a chance também de negar meu passado oculto. Devo tê-la tomado, não lembro, o que torna o pecado ainda pior.
    Ele ria entre moscas e tive pena, por fim. Meu rosto já esfriava, o dele era o próximo. As mil próximas vidas lhe custariam muito mais que essa, ele ria, morto, contente, inocente.
  • Carta para a pessoa que me tornei

    Não moça, não escreve pra ele. Não manda mensagem. Ele não quer te ouvir. Não quer saber da sua dor. Não mais.Guarda tuas lágrimas, conversa com teu caderno. Conversa com você mesma. Dê a ele o tratamento que ele te dá. Se importe menos. Demonstre menos. Tente não pensar.
    Se reame, se redescubra. Se não consegue ser feliz agora, ao menos mantenha a cabeça erguida. Você é maior que isso. Não espere tanto de quem não tem nada para dar. Guarde seu amor, transforme-o em uma coisa bonita, não dolorosa. O que você sente é lindo, não se culpe por sentir. A culpa não é sua se ele não sabe receber.
    Moça, eu sei o que você sente. Eu sei como dói. Reencontre seu equilíbrio, redescubra como é viver só para você.
    Viva por você. Deixe de apenas de existir. Viva, moça, viva. Ninguém vale tuas lágrimas, nada deveria molhar teu sorriso, que é lindo.
    Moça, guarda o passado, guarda o que é bom, mas não deixa de viver. por agora acabou. Por agora você perdeu seu lar. Mas também perdeu suas amarras. Aproveita.
    Moça, quem te ama vai estar ao seu lado. Sem evasivas, sem confusões.
    Se ame mais, moça. Esse é todo o amor que você precisa.
  • Catarse

    C horo sentido
    A lívio imediato
    T rauma revivido
    A spiro renovado
    R ui a muralha
    S aem as amarras
    E pifania necessária

    À derradeira libertação
    Movimento de mudança
    Imerso na sofreguidão

    Pois só é digno do céu
    Quem sobreviveu
    Às agruras do inferno.
  • Chá das Cinco



    Peço às visitas que entrem
    Entrem, mas apenas se forem ficar
    Pois, senão, que sozinha me deixem
    Basta de ir embora antes de chegar.

    A porta está sempre aberta e espera
    Espera muito, se precisar
    Até que finde a primavera,
    Não há problema em demorar.

    Leve muito tempo, mas venha certo
    Certo que ao puxar a cadeira
    Ficará do outono ao próximo inverno
    Ou até que floresça a última videira.

    Pois quero viver uma vida inteira
    Inteira, de verdadeiros sentimentos
    Da lua cheia ao raiar da aurora,
    Não apenas de breves momentos.
  • Colorindo Dores

    Qual será a cor da dor
    De brigar com seu amor,
    De deixar passar o tempo
    E lembrar do que passou?

    Me pergunto a cor da dor
    De esquecer do seu Senhor
    Não perdoar quem te feriu
    E cultivar algum rancor...

    E qual será a cor da dor
    De ter que ver alguém partir
    Sem nem sequer se despedir,
    Nem mesmo olhar pra trás...

    No fundo toda dor tem cor
    Tem tamanho, profundidade,
    Chegam a ter personalidade
    E até crise de meia-idade,
    Tem data pra terminar.

    Qual a cor da sua dor?
    Ela tem cor pra começar?
    E à noite, no seu quarto,
    Sozinho, pensativo, frágil...
    Onde será que ela está?
  • Conforto

    Vai ser difícil ? Vai, e muito... Já está sendo na verdade, mas o alívio de saber que sofrer por quem não mereceu meu amor vai acabar em algum momento, é o que me conforta... Nenhuma dor é eterna, assim como seus dias bons também não foram.

  • Contraditório por natureza

    Os seres humanos possuem duas características irrevogáveis e imutáveis, são mentirosos e contraditórios. Não se trata de um julgamento moral, não existe um culpado, certo ou errado, é apenas um fator comportamental. A prova maior de tudo isso, é que mesmo tendo consciência de tais fatores, ainda preferem negar, mentir e contradizer a própria natureza.
  • Copacabana - Cap. 1

    Luiza Mello, 39 anos. Luiza é uma jornalista de pretigio e é dona de um grande jornal brasileiro: Diário Metropolitano. Ela é solteira e cuida da mãe, Marilia. Marilia tem diabetes e prescisa de cuidados. Também moram na casa, Laura, sua irmã. Luiza banca Laura em tudo: calçados, roupas, joias etc... Laura é desocupada e só fica vendo revista de fofoca, tv e cuidando dos seus animais domésticos: um Gato amarelo e um Coelho. Essas são as únicas coisas que ela sabe fazer. Laura já tentou ser modelo, atriz, mais nunca deu certo. Ela prejudica a irmã em tudo. Laura já vendeu joias de Luiza para comprar roupas e já vendeu fotos intimas de Luiza para paparazzis. Luiza nunca soube disso.
    Gustavo Ryan, um cantor que agora se dedica a outros empreendimentos, tinha laços empresariais com a empresa de Luiza. Mas um dia, em um acordo que daria a divisão de lucros entre publicidade e o jornal fracassou. Nisso Gustavo cancelou os laços da sua empresa, Costa e Silva com o jornal.
    Luiza: ''Não... Divisão? Não, claro que não!''
    Gustavo: ''Luiza... é uma simples divisão, metade metade!''
    Luiza: ''Mas é muito dinheiro... Se fosse mais pra mim...'' -  Gustavo a interrompe
    Gustavo: ''Peraí... Você quer mais?... Cacete, isso é pouco? Meio a meio!''
    Luiza: ''Não... esse eu não aceito!''
    Gustavo: ''Ta bom... Sem acordo, sem vinculo empresarial...''
    Luiza: ''Mas Gustavo... Eu presciso dos teus serviços!...''
    Gustavo: ''Decide!''
    Luiza: ''Ta bom!... Encerramento do vinculo empresarial da Costa e Silva e da Diário Metropolitano'' - Luiza avisa o seu assistente Marcos - ''Marcos, faz a papelada... pra ontem.... Rápido por favor!!

    Andaraí, Rio de Janeiro. Vive José e Paola, pai e filha. Paola que quer sair do buraco com ela mesmo diz, José um paraplégico que sobrevive vendendo jornais na sua banca improvisada. Paola quer sair da probreza:
    Paola: ''José... Eu vou tirar a gente dessa miséria, eu juro...''
    José: ''Minha filha... Todo o dia a gente toma café, almoça e janta sem prescisar de ninguém.''
    Paola: ''Pai... A mamãe morreu por causa que a gente não tinha dinheiro pra pagar um hospital.''

    Leblon, Rio de Janeiro. Vive César, João e Marina, filho e seus pais respectivamente. João de 42 anos é representante comercial de uma fábrica de móveis e Marina o ajuda com uma especie de ''secretária''. Ela é vaidosa demais e só compra vestidos carissímos. César pede a Marina se ela autoriza ele ir a uma festa. César tem 16 anos. Ao chegar na festa que era do seu amigo, Italo, ele encontra bebidas alcoólicas, pois alguns convidados eram maiores de 18. Nisso ele encontra uma garota, também de 16 anos, Montserrat. Eles ficam conversando até que rola um clima com eles:
    César: ''Sei lá... Eu tive pensando se você quer ir a um lugar mais afastado daqui...''
    Montserrat: ''Claro... Bora ir pro quarto do Italo... Fala com ele se a gente pode ir pra lá...''
    César fala com Italo e o mesmo libera o quarto pros dois...
    Italo: ''Tá vai... Olha a camisinha hein... (risos)''
    César fica sem graça, mais ele vai com Montserrat para o quarto.
    Montserrat puxa assunto sobre namoro, e César se interresa ainda mais por ela. Ambos se conhecem melhor e eles se beijam e a noite esquenta...

    Como já era de noite, Luiza vai ver sua mãe. Ela está passando mal e a leva para o hospital São Jorge, também em Copacabana. Ela descobre que sua mãe está com um tumor no cerebro e ela deve fazer uma cirurgia. Luiza faz o orçamento e paga os tratamentos e etc... A cirurgia está marcada para o dia seguinte.

    Paola, antes de dormir, olha a internet e pesquisa sobre ''Simpátias para ficar rica'' e encontra diversos. Uma das simpáticas, diz que é para pegar uma nota de 5 reais e joga-la na água com sal. Paola faz e depois percebe que os cinco reais do seu pai era para comprar café no dia seguinte, pois a banca estava fechada pois tinha quebrado um suporte dos jornais. José prescisava para comprar o pão do dia seguinte e comprar parafusos, pois não deu tempo de comprar no dia que está indo embora.

    César e Montserrat estão deitados na cama:
    Montserrat: ''Gostou?''
    César: ''Claro!... Quero que a gente se encontre mais vezes...''
    Montserrat: ''Amanhã vai eu, a minha irmã e o namorado dela no shopping... Quer ir?''
    César: ''Tá... Tá bom...''
    Horas depois, César chega a sua casa e sua mãe está no sofá vendo filme com seu pai.
    Marina: ''Como foi filho?''
    César: ''Ah.. foi bom... foi legal!... Posso ir amanhã com uma amiga nova?''
    Marina: ''Amiga... Sei... Tá bom... Pode ir...''

    No dia seguinte. Laura vai até o quarto de Luiza, mais não vê ela. Ela andando pelo quarto encontra uma foto de Luiza com seu ex. Laura pega a foto e leva té seu quarto e tira cópia. Ela liga para um paparazzi que ela é amiga, Fernando. Fernando marca com Laura numa sorveteria para a troca da foto por dinheiro.

    José acorda e vai tomar banho. Depois ele olha na carteira e não encontra nada. Ele vai até o quarto de Paola e a indaga sobre o dinheiro. Paola nega ter pegado e gastado em algo mais. Ele fala para ela que eles vão ficar sem café da manhã por que o dinheiro sumiu. José vai para a sala e Paola vai até ele:
    Paola: ''Pai... Vai ficar com raiva?''
    José: ''Paola...'' - Paola o interrompe.
    Paola: ''Fui eu... Eu vi uma simpátia e...'' - José a interrompe.
    José: ''O que?... Não... e agora?..'' - José fica pensativo após isso.
    Paola tem a ideia de ir com Vanderlei, um amigo deles que faz concerto de sapatos, para emprestar 10 reais. Ela vai até lá e empresta. Nisso ela vai até a padaria, compra pão e volta para sua casa. Ela dá o troco para José que vai até uma loja de ferramentas comprar os parafusos. Ela olha uma matéria sobre Luiza. E fica om a vontade de ter dinheiro como ela.

    Continua...
  • Demanda de Sabotagem

    Para cada momento
    sinto que algo falta
    algo fatal
    que vai me matar
    de felicidade
    ou de estranhamento

    Me inspiro em instantes de cor
    sintoma de que a minha realidade está doente
    e que minha motivação vem de algo
    que causa dor

    Lugares claustrofóbicos
    como esse
    me trazem uma estranha sensação de
    liberdade
    De que apesar das limitações
    há sinceridade

    Saio das mãos do palhaço no sábado
    Mas caio nos braços do meu carrasco na segunda

    Serei feliz depois do Carnaval

    Antes de querer
    ou depois que morrer.
  • Desabafo

    Recentemente baixei um aplicativo para ajudar na ansiedade. Minha ansiedade não é tão forte a ponto de se manifestar fisicamente de forma muito evidente (exceto por uma pequena mania automutiladora e insônia antes de algum evento importante), mas mesmo assim incomoda. Esse aplicativo disse que escrever pode ajudar a organizar os pensamentos, por isso estou escrevendo isso. Quando era criança sempre tentei ter diários, mas nunca consegui escrever todos os dias. Sempre fui assim, não sou muito boa em começar e terminar coisas. Geralmente começo e digo que um dia termino. Acaba que eu tenho pelo menos cinco livros que comecei a escrever e não acabei, além de um livro de poesias em que só falta terminar os desenhos (que sou eu quem faço, por isso faz um ano que está atrasado). Tem várias outras coisas que comecei e não terminei, mas não vêm ao caso.
    Ultimamente parece que o mundo está tentando me cobrar uma resposta acerca de uma coisa. Eu gosto de cantar e tocar violão. Um sonho que eu tinha quando criança era ser cantora igual a Avril Lavigne. Já participei de festivais, tentei fazer uma banda e a minha tentativa mais recente foi uma dupla com meu namorado. Dos três festivais que participei, ganhei um (acredito que ganhei por falta de concorrência, embora tentem me dizer o contrário), a banda não deu muito certo também. Eu quis dar um tempo para a nossa dupla faz quase um ano. Fizemos só uma apresentação, que foi uma participação no show de um amigo. Acho que as pessoas gostaram. Mesmo assim, tenho problemas para enxergar que somos bons nisso. Meu namorado disse que é coisa da minha cabeça, porque às vezes eu acho que está muito ruim e ele diz que isso fica maior do que parece pra mim. Gosto de tocar e cantar com ele, embora eu fique meio ranzinza quando ensaiamos, e dependendo do lugar que ensaiamos eu começo a ficar incomodada. Se for um lugar onde passa muita gente, eu começo a achar que as pessoas não estão gostando ou estão rindo da gente, aí eu começo a ficar triste. Parece que o mundo quer saber de mim se eu vou ou não continuar nisso. Apesar do meu medo, eu adoraria cantar pras pessoas e saber que elas gostam do que eu faço. Só que minha cabeça não para de me dizer o contrário.
    Eu faço faculdade de manhã e vou pra lá de van, porque meu pai não pode me levar e é mais tranquilo. Além de mim, tem um pessoal que está no ensino médio que também vai comigo. Eles são legais na maioria, mas tem tido um problema essa semana que me incomodou, mas acho melhor não falar disso. Acho que vou ficar irritada. Só queria dizer que está me incomodando e estou desanimada de ir nessa van. 
    Meus pais também estão me deixando meio maluca. Eu sei que se você que está lendo tiver mais ou menos minha idade, vai concordar com isso, e que se não, vai dizer que é uma fase. Eles não me deixam maluca porque não gosto deles. Pelo contrário. Eles me deixam assim porque eu gosto muito deles, então eu fico em dúvida se devo fazer o que eu quero ou o que eles querem. Sei que eles querem o melhor pra mim, mas porque eu iria querer o contrário? Acho que nesse ponto vejo o mundo mais simplificado do que eles. Pais sempre pensam no pior que poderia acontecer, enquanto nós pensamos nas coisas boas. Eu tenho quase 18 anos e tenho medo de continuar com essa dúvida. Principalmente meu namorado, porque o que está nos atrapalhando um pouco é o fato de eles não quererem que eu namore agora (ou até minha formatura (ou até eu ter 30 anos)) e ele está muito incomodado com isso. Tudo isso me deixa muito chateada. Não gosto de ter que escolher entre meus pais e meu namorado. Não deve ser tão difícil assim ter os dois. Acho que as coisas estão se complicando além do necessário.
    Agora que já acabei de incomodar você que está lendo, pode continuar a ler outros textos. Eu precisava desabafar e foi bom contar com você para ler. Desculpe se essa leitura não te agregou conhecimento útil ou diversão. Mesmo assim, obrigada por ler.
  • Diga SIM a verdade

    Quando começamos a abrir os olhos, quando não deixamos os sentimentos cegarem mais a gente, quando deixamos de nos abster das situações, por medo do que está por vir, tudo flui e uma enxurrada de verdades são jogadas na sua cara, e por mais doloroso que seja, é muito melhor conviver com a verdade, do que com uma vida de mentiras.

  • E Se o Céu Fosse Azul?

    E se o céu fosse azul?
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    “É complicado explicar nossos sentimentos quando todos estão focados demais em seguir suas vidas dentro de um padrão. Assim como os ocidentais não conseguem entender a relação conjugal muçulmana, a massa populacional generaliza todo e qualquer bem-querer para suas simplistas e humildes categorias afetivas, simplesmente não conseguindo compreender a verdadeira beleza do amor.

    Não, não especificamente o amor de namorado e namorada. Não que alguém possa ser julgado por pensar dentro desses limites, visto que desde os antigos gregos as relações já eram categorizadas em apenas três tipos: o amor familiar, o amor de amigo e o amor erótico. Oh, mas pergunto eu, agora, nesta mais dramática e horrenda fase da vida, em meus castos dezesseis anos: será que nunca ninguém parou para pensar que coisas assim abstratas não devem e não podem ser categorizadas?

    Digo por experiência própria; sou perfeccionista e muito organizado. Etiqueto todos meus livros, e meus lápis-de-cor estão por ordem de marca e então de tonalidade, passo as noites classificando minhas ações diárias em boas ou más — que me desculpem os mimados filósofos, eu tenho uma crença dualista —, por que não iria tentar categorizar, decifrar e entender as causas de meus sentimentos? Graças a isso, percebi que o auto-sadismo é uma utopia tão grande quanto o comunismo. Dominar a nós mesmos? Ora, nem sequer conhecemos a esse “nós mesmos” para termos a nós em nossas próprias mãos!

    Talvez seja por ter tido meu chão arrancado de sob meus pés ao descobrir que não há limites na vida que eu perdoe a todos. Talvez seja apenas minha péssima memória, mas eu não guardo rancor de daqueles que nunca entenderam e que eu sei que nunca entenderão, pois se nem mesmo eu entendo, o que podem os outros?”

    Fecho o diário e o jogo contra a parede. Por Deus, como ando dramático esses dias. Os hormônios, dizem, a escola, a pressão jovial, a sociedade, o capitalismo, as estrelas, as ervilhas que você não comeu aos sete anos, Ad, eu avisei você que devia ter comido (vamos, mãe, depois a senhora não compreende por que não temos laços estreitos), há cada desculpa dita que as vezes penso em deixar de tomar a homeopatia para ver se minha imunidade baixa de vez e eu arranje uma pneumonia fatal.

    Mas não devo, porque poder, eu posso. Nem tenho real motivo, na verdade sou orgulhoso demais para admitir minha morte. Suicida, eu? Por favor, tenho um diploma de doutorado me esperando num futuro bem distante desse Ensino Médio medíocre que de bom grado curso, ainda tenho muito que apanhar neste mundo.

    E não só isso: seja, ou não, as ervilhas... Eu tenho aqueles que amo. Considere-se um deus, sabe para que negativos números de pessoas que eu conto a respeito de minhas relações? Exato! Simplesmente não entendo aquelas garotinhas de internet que espalham sua vida a todos e depois reclamam de falsidade, fofoca e essas coisas entediantes. Pelas divindades que esses seres humanos creem, quem deu saúde a vocês? Não que eu esteja condenando o estilo de vida “sou um livro aberto”, só apenas aquelas pessoas que não ligam a Física à vida em “Toda ação tem uma reação”, não associando seus atos com suas recompensas.

    Se bem que não mereço minhas recompensas. E lá vou eu novamente recolher meu diário da cesta de basquete em minha parede para cair novamente em uma crise de autodepreciarão e baixa confiança em minha capacidade.  Mas de fato, como eu gostaria de ter mais problemas em minha vida para justificar minha sede por atenção, a mesma atenção que eu rejeito da penca de pessoas que arduamente oferecem-na para mim.

    Eu sou um monstro. Mas um monstro com sentimentos. Um bem cruel, talvez, daquele que tem sua própria política de lidar com as pessoas, mas isso não convém aqui, não agora, não nesta parte da narração.

    Levanto da cama, a tal bem arrumada que eu odeio que sentem para não amassar a colcha. Calço os simples tênis sem cadarço, ponho um casaco fino, mais por ganhar um upgrade de bolsos do que pela estação, recolho a chave e o celular da escrivaninha e saio para uma caminhada reflexiva. Nesses dias que, perdoem-me as garotas, são piores que o mensal feminino, ficar trancado em casa com ar de melancolia apenas piora as coisas.

    Meus pais não estão em casa, não que isso signifique que eles estão sempre trabalhando e não podem dar atenção para mim, pois são um exemplar casal que visa a melhora da estrutura e padrão de vida familiar. A última parte até é verdade, mas eu passo um bom tempo com eles, mesmo que os ignorando. Ignorando apenas para depois reclamar da falta de atenção deles para comigo. Abaixo a cabeça e sigo em direção da porta me sentindo um lixo.

    Sentir o ar de outono me deixa melhor. Amo meias-estações por suas temperaturas agradáveis, moderadas e neutras, por sua impotência de atividades pré-definidas que deixa a maioria das pessoas zangadas. Seja por ser um jovem rebelde com minhas calças largas e zíper aberto, ou não, eu adoro isso.

    Na rua, sei para onde estou indo. Costumo desligar totalmente enquanto caminho, por isso estou sempre mais perdido que as pessoas que eventualmente me pedem informações. Mas neste bairro sei onde fica os lugares que vou, que tenho e que gosto de ir. Especialmente esse que me dirijo agora, o único lugar que sei que, independente de todos os defeitos que amo definir e categorizar, serei aceito e ganharei atenção, mesmo com toda manha de criança mimada que faço o tempo todo, como neste exato momento!

    Se estar doente faz qualquer um ganhar atenção, então ser doente não cumpriria minhas expectativas de vida? Houve um tempo em que achei que o simples contato social era o suficiente de atenção que eu precisaria conquistar, mesmo que me negasse a ganhar até mesmo isso. Porém, me superei, ultrapassei as barreiras de mim mesmo e fiz laços. Mas agora percebo que... preciso de mais. Eu preciso de muito mais do que apenas umas boas horas de conversa e de riso, eu preciso de contato físico.

    Sim, julguem-me, seus infelizes, admito ser mortal.

    É por esse imperador dos meus defeitos que acelero meus passos até começar a correr pela calçada, sentindo o vento refrescante me ajudando a ganhar velocidade, agitando meus cabelos e quase espantando meu choro. Chego à sua casa e aperto o interfone, cruzando os dedos para ele estar sozinho em casa também. Por mais que eu tenha veia artística para encantar a todos quem queira, com uma especialização em pais de amigos e colegas, não é um bom momento para tal coisa. Quando a habilidade e o mau momento se confrontam, minha reação quase sempre termina numa mistura de nazista com ogro canibal em frente de um ser da minha espécie, mas de etnia diferente.

    Al atende a porta com um olhar meio inocente de curiosidade e abre um sorriso ao me ver. Desce as escadas com a chave do portão, calmamente, do jeito que sabe que fico doido quando age tão vagarosamente. Minhas pernas estão balançando de forma violenta, flexionando os joelhos e os jogando para a posição normal novamente como se eu quisesse quebrá-los. Faço isso quando estou nervoso ou com excesso de energia. Ele testa chave por chave, como se não soubesse qual é a certa mesmo morando nesta casa por toda sua vida.

    — Anda logo, seu filho da mãe, eu quero entrar. — Coço o nariz com a manga do casaco e percebo que não consigo deixar meus braços parados também. Parece que necessito fazer milhões de coisas ao mesmo tempo para obter milhões de sensações ao mesmo tempo, exatamente a motivação que leva alguém às drogas psicoativas, como a cafeína. E olha que hoje eu nem cheguei perto da cafeteira.

    Al finalmente abre o portão fazendo um pequeno suspense e sorri para mim novamente. Parece que não percebe que estou — tão visivelmente — distante de uma recepção sorridente, mas na verdade sei que ele sabe. Sei que ele não entende, mas respeita e aceita essa limitação, o que faz dele a pessoa que mais amo nesse mundo.

    — Só não incendeie minha casa novamente que vai ficar tudo bem. — Ele me puxa pelo ombro, envolvendo-me num abraço. Sabe que sou orgulhoso demais para iniciar a ação, não importa o quão necessitado estou, sabe que sou um idiota. Sou um idiota maior ainda por nos meus bons dias ignorar e ter nojo da afetividade de Al, por isso me esquivo de seus abraços sempre que estou bem. Sim, sou mais fresco que um vegetariano num churrasco, ignorando até mesmo os formais abraços de despedidas, especialmente os de Al. Mas não agora, porque é por eles que agora estou aqui.

    Seus braços são fortes, apesar de não parecer, ou simplesmente os sinto melhor quando estou fraco. Eles me envolvem de forma tão paternal e aconchegante que é quase hipnótico, assim como seu perfume. Ah, o cretino parece fazer de propósito em usar o mesmo perfume forte que meu irmão mais velho, que divide o mesmo péssimo gosto de Al. Meu irmão não mora comigo, mas sempre que vem me traz um presente. Eu sempre quis abraçar meu irmão desta maneira, como ele me abraçava na infância, mas quando passei dos dez anos comecei a refutar o afeto. Por que sou tão patético?

    Estou com os dedos enterrados nas costas de sua blusa, absorvendo todo seu calor, tudo o que tem para me dar. Ele já passou por situações parecidas nesses anos em que começou a me chamar de amigo, essas minhas crises não são raras. Seu corpo é proporcional ao meu, mas neste momento parece muito maior, abrangendo não apenas meus ombros e costas, mas todo meu ser. Um nível muito mais abstrato e metafísico de abraço.

    — Adrian, seriamente, você está mesmo muito carente. Ache logo uma namorada. — Alberto se afasta, mas ainda mantém suas mãos pesadas sobre meus ombros. — E, eu não queria falar nada, mas você é muito mais legal quando está quase chorando.

    É tão verdade que ao invés de responder algo a altura apenas suspiro sonoramente para impor um limite de abuso verbal sobre a situação e me enrolo novamente num abraço, esfregando meu rosto na sua blusa para absorver melhor o perfume. E Al não se importa. Apenas dá uma risadinha afetuosa e me leva para dentro depois de trancar o portão comigo pendurado ao seu tronco como uma criança, que talvez, no fim, é mesmo o que eu queira ser neste momento. Voltar as coisas simples e objetivas de antigamente, onde o céu é azul e tem estrelas, e não uma confusa teoria de universo expandido e incerto.

                    Al me larga no sofá da sala para pegar o controle remoto da televisão. Não aparenta estar preocupado, zangado, aborrecido, não está tenso como qualquer um estaria quando um amigo apenas de más horas aparece na porta. Não me enxota, muito menos tenta me ajudar com perguntinhas de motivo, causa, intensidade; Al simplesmente me ajuda sendo Al nas horas certas. E é esse o problema.

    Logo que senta ao meu lado não consigo evitar de segurar sua mão, entrelaçando firmemente nossos dedos, não importando o que isso possa parecer. Meu nariz escorre as lágrimas que eu não posso nem vou derramar, e minha garganta sofre com meus sentimentos arranhando as grades da prisão.

    — O que quer assistir? Está passando a reprodução dos babuínos do canal animal. — Ele me olha com seus olhos brilhantes que não são descritíveis. Nenhum olhar é descritível no momento em que se olha nos olhos, pois você se obriga a retribuir, e todo olhar profundo vai além de globos oculares e seu reflexo de luminosidade, passa a ser uma conexão de almas. Todos sabem que almas não são plausíveis de serem postas em palavras.

    — Você está se alienando com essa televisão — respondi entre fungadelas.

    — Oh, desculpe, sou um burguês indigno?

    Seu tom de falsa preocupação acompanhada da risadinha estranha e pausada que faz com que seus ombros e peito mexam mais que o normal me abre um corte interior. Sua mão está quente e age como sal nessa ferida, porque sei que há mais um mundo inteiro de pessoas que acham “fofo” isso em Al. Ele não é fofo, é estranho, mas carismático o suficiente para ser adorado por todos aqueles que o conhecem, e admirado por aqueles que o acompanham mais de perto. Al é um exemplo de estudante, de colega, de amigo, o maldito de um garoto popular com compaixão por todos. Quantos não devem ter exposto, e oferecido, e empurrado seus sentimentos a ele, assim como estou fazendo? E quantos Al já não ajudou exatamente como está fazendo agora? Não sou único, não sou especial. Ele também me ama, assim como a todos.

    Mas eu infelizmente preciso dele, como muita gente. Às vezes sinto por ele, naqueles dias em que estou pensando e formulando uma visão mais concreta e administrável de Al, sinto realmente pena. Ele cuida de todos, mas essa massa não é suficiente para dar conta de seus sofrimentos. Aqueles que deveriam fazer isso simplesmente estão num nível superior de egoísmo, ocupados demais para lembrar dele. Mas não me importo, não é meu dever cuidar do meu amigo, não quando eu não tenho a mesma exclusividade que dedico a ele.

     Ele nunca será feliz, por isso deverá continuar contentando-se em cuidar de pessoas como eu. E estou contente com isso, afinal, sempre soube que nossa relação perduraria enquanto não existisse bons momentos entre nós, a tristeza e o sofrimento são o que nos mantêm unidos.

    — Você é uma família tão família que chega a ser mais que a minha família. — Al avança para cima de mim fazendo um ruído de coisas meigas e passa seus braços sobre mim, balançando nossos corpos de um lado para o outro no sofá. Seu rosto também é quente, o que me enoja um pouco. Tão gay.

    — Eu também te amo, Adrian, querido. — ele sempre teve uma adoração ridícula por colocar sotaque nas palavras para retribuir o afeto verbal ou físico das pessoas, especialmente daquelas que geralmente não fazem isso. Vai ver que é sua herança europeia dominadora cantando mais uma vitória.

    — Pare de ser gay.

    — Não sou gay.

    — Mas está gay.

    — Amiga, não brinque com isso.

    — Cale a boca que você ajuda mais.

    Ele riu mais uma vez. Sentir seu peito também quente quase febril colado ao meu ouvido quase me questiona que tipo de desejo sinto por Al. Mas já discuti tal assunto internamente milhões de vezes, já abordei em meu diário essa dúvida por pelo menos meses, somando todos os relatos, e foi assim que cheguei à conclusão que o amor não pode ser categorizado. Amo do fundo de todo meu ser esse cara, mas nunca poderei explicar como. Nunca conseguirei definir minha relação com ele a não ser superficialmente.

    E superficialmente, posso dizer que nunca o terei para mim, o que talvez seja o único motivo pelo qual eu ainda estime seu abraço tanto assim. Não sou conhecido por ter os relacionamentos mais duradouros, meu espírito neocolonialista me recorre a lógica do dominar, explorar e abandonar. Sou um monstro, um monstro nos braços da única pessoa que provavelmente iria para o paraíso no caso de apocalipse, por não se importar com esse meu jeito de considerar os outros.

    Não consigo mais me conter e minhas lágrimas escapam em pares ridículos. Al acaricia meus cabelos, compreensivo, e sinto raiva por ele já saber o que fazer. Odeio estar nessa frágil desvantagem. Odeio precisar parecer estar mal para conseguir atenção de meu amigo. Odeio ter que ver outros fazendo o mesmo, e odeio mais ainda aqueles que recebem sua atenção, necessitadas, mas se mantém firme em todos os momentos. Esses últimos são os piores falsos atores metidos a heróis que já vi, todos sabem que os melhores personagens são os vilões.

    Meu celular vibra, sei que é minha mãe. Está começando a escurecer mais cedo e ela se preocupa muito comigo, sei que sim. Mas não quero de modo algum voltar para minha realidade, mesmo que não consiga parar de pensar nela. Em minha mente, pensamentos são verdadeiros, mas são apenas pensamentos. Alberto é tão horrível por me mimar deste jeito...

    Ele me convida para passar a noite na sua casa, dizendo que podemos jantar sua macarronada especial e encontrar a melhor fórmula de enganar a professora de Matemática por não termos feito o dever de casa, mas rejeito o convite. Sei que é de coração, mas não posso aceitar.

    Levanto-me e respondo minha mãe por mensagem, limpando minhas lágrimas. Al pede então se quero companhia até em casa, e isso eu aceito. Guardo o celular o no bolso e seguro sua cintura delineada, que apenas consegue fazer com que sua afirmação masculinidade seja queimada e assoprada para longe do plausível.

    Ele passa o braço sobre meus ombros e já estou melhor. Eu sempre estou melhor depois de receber uma boa dose do meu amor físico e compreensivamente espiritual. Deste meu afeto que não posso classificar e deceparia um membro daquele que o tentasse fazer.

    — Vamos logo, eu ainda não fiz os deveres.

    O mundo é uma maldita competição, onde não há como sofrer por amor, mas só por sua falta. O que todos buscam é bastante abstrato e de certa forma coletivo. Há como separar e monopolizar, mas... Não se corta um membro para esse sobreviver, isso é certo.

    O caminho de volta sempre é doloroso porque já fico pensando na falta de carinho de Al que terei por aquela noite, na negligência de meu sonho de sonhar enrolado nessa bolha de afago que ganho dele. Por isso, passo o trajeto até minha casa apenas aproveitando a sensação de falsa exclusividade que Al me passa.

    Por que alguns abraços são melhores que outros? Será psicológico? Será um sensor da alma que diga “esse é bom, esse não, fique longe”, será a vontade e compreensão da outra pessoa para nós, necessitados? Será que varia da personalidade e despojo do outro, do medo de demonstrar proximidade em público? Não sei, mas parece não exatamente depender dos outros, é muito mais minha vontade e julgamento que contam.

    Chegamos e Al para, olha para mim e suspira. Suas sobrancelhas estão levemente franzidas e seus lábios contraídos nas extremidades, uso muito da minha percepção de desenhista para analisá-lo. Ele sabe que minha mãe não gosta que faça isso, mas mesmo assim beija minha testa e me manda entrar.

    — Está frio, vá para dentro logo. — Talvez minha mãe não goste de Al porque não compreenda verdadeiramente nossa relação. Se compreendesse, também não gostaria por julgá-la impura e prejudicial, como faz agora, mas levando esses adjetivos em outro sentido, o verdadeiro.

    — E você fique mais uns minutos aqui que talvez consiga faltar aula amanhã — respondo encontrando as chaves e abrindo o portão. Já está bem escuro, e minha irmã mais nova nos observa da janela. Sei que vou levar uma bronca por ter chegado tarde, não ter avisado que sairia, nem para onde, nem com quem, e ainda mais por voltar com um garoto para casa. Mas isso só acontece porque as pessoas categorizam os sentimentos.

    Um acesso de raiva toma conta de mim, sei que odeio todos dentro dessa casa, sei que não poderei conversar adequadamente com nenhum deles. Sei que vou tentar me controlar, mas vou acabar fugindo de todos e me trancar no quarto, vou pegar meu diário, falarei mal deles, desenharei Al e rasgarei a folha.

    Aceno uma última vez para meu amigo antes de entrar em casa. Pela luminosidade dos postes de luz sei que ele sorriu para mim antes de dar meia volta e ir para casa. Amanhã agirei como se nada tivesse acontecido e estarei todo sorrisos. Ignorarei Al e refutarei todo e qualquer sentimento negativo que tente chegar perto de mim. É um ciclo vicioso e desgastante, mas que semana que vem poderei recuperar minhas forças novamente. Antes de fechar a porta e encarar a realidade, murmuro para a solidão da rua:

    — Até semana que vem, Al.

      Como pode me odiar tanto assim?
    ---
                    — Agora, alunos — malas, lesados, ignorantes, pirralhos, pesos de porta —, caros alunos — morram, morram, morram e — por favor — MORRAM! — encontrem um colega que tenha a mesma cor de meia que vocês.

                    Foi assim que saí do inferno para trabalhar como burocrata do demônio. Menos sofrido, mas bem mais desagradavelmente complicado. Foi assim também que o coordenador escolar estava visivelmente se sentindo naquela linda manhã, aparentemente muito propícia para uma atividade de integração social de uma turma nova. Seus olhos corriam de um aluno para o outro gritando insultos enquanto por fora só vomitava palavras programadas, tipo quando um programa é censurado e na tela aparece aquela mensagem automática com um narrador estilo áudio do Google Tradutor.

                    Olhei ao redor. Olhei bem ao redor. Meu redor eram duas paredes de canto o qual eu me escondia das baratas humanas. De todos os insultos que o coordenador queria despejar na minha nova turma. Da atividade que ninguém queria realizar mas estavam sendo obrigados, porque, é claro, quem nunca achou sua alma gêmea ao esbarrar os dedos romanticamente no mesmo par de meias do mostruário? Quem nunca fez uma amizade de décadas por perceber que seu colega de academia sarado e peludo usa a mesma soquete branca suada que você?

                    Mas não. Ele não podia ser normal. Ele tinha que ser um grande cretino. Ele tinha que sorrir, ele tinha que ter um sorriso tão bonito, tão grande, tão monstruosamente grande que parecia que me faria vampiro igual a ele com aqueles caninos enormes. Era o único agitado, animado, pilhado como só alguém banhado em cafeína poderia estar, mas não, era apenas seu jeitinho natural. A cada novo desafio da atividade de integração se escolhia um novo par, o qual eram dados quinze minutos para conversar e se conhecer melhor, para no fim cada dupla apresentar à classe os interesses em comum que tinham achado. Ah, ele amava tudo e todos, sempre achava um lote inteiro coincidências para contar à turma no final. Todos saíam sorridentes depois de apenas quinze minutos de sua maldita ladainha.

                    Eram quinze atividades para fazer os estudantes bateram um papinho desconfortável entre si e quebrarem as panelinhas, e naquela sétima atividade eu tive a infelicidade de ter meias azuis-marinhas. Tinha pelo menos outros dez com meias azuis, mas ele veio até mim porque, no mínimo, eu devia estar poluindo a imagem mágica e purpurinada de turma feliz e unida que ele estava visando com meu mau humor de ódio à socialização. Ele precisava tirar o lixo do quadro colorido dele.

    — Ei, olha, que coincidência! — A ousadia em forma de uma mão cheia de dedos agarrou a borda da minha calça e levantou, mesmo que ela já estivesse curta e já fosse possível ver minhas meias. — Azul-marinho! — Estendeu sua mão com dignidade e quando não teve resposta agarrou a minha com firmeza. Machucou, e naquela hora eu prometi que me vingaria daquela indelicadeza.

    Com o outro pé posto sobre a borda, desci a calça até minhas meias sumirem de vista e minha cueca dar um oizinho ao pessoal. Até que o coordenador não pedisse para encontrar alguém com uma roupa de baixo da mesma cor estava tudo bem para mim.

    — Meu nome é Alberto, tenho catorze anos. Estudo na escola desde... Tipo, sempre. — ele riu alto. Eu encolhi meu pescoço. — Você é novo, né? Pode ficar comigo no intervalo.

    — Hum, Adrian. — Eu era meio tímido. — Obrigado.

    — Bem, então, Adrian, eu pensei.... — ele passou uma mão sobre meu ombro e foi me desgrudando do canto da sala, me guiando para o centro como se fosse um arquiteto indicando ao cliente onde ficariam as maravilhosas pinturas chinesas que ele havia enquadrado no meu projeto.

    Há uma quantidade quase obscena de garotos esquisitões que passam boa parte de sua vida encerrados no quarto gastando seu ciclo celular cerebral com algum RPG, e sendo sensato agora, dois por cento deles conseguirão seguir carreira nesse ramo porque estavam jogando em vez de estudar para trabalhar com tecnologia. Havia uma quantidade significativa de garotos esquisitões na minha antiga classe, eu era um deles. Mas naquele momento, no momento que Al me escolheu, fui diferente. Deixei tudo que me fazia ser eu de lado por um instante e posso explicar isso sem parecer delírio de uma obsessão.

    O que leva uma pessoa a ser solitária? Depende, é claro. Um trauma. Personalidade. Depressão. Chamar atenção, oh, sim, carência, esse é um fator bem interessante. Quem nunca teve uma fase emo-gótica-depressiva em sua miserável vida pode não acreditar nisso, mas se isolar do mundo pode significar apenas querer comprovar que é especial o suficiente para o mundo vir atrás de si quando der por sua falta. Imagine uma garota que desconfia que seu namorado, o Sr. Relações Sociais, esteja traindo ela. A mocinha briga com o namorado e o ignora determinadamente, não importa o que ele faça ou fale, não importa o quanto suplique ou peça para voltar, porque a única coisa que ela quer é sentir o prazer de tê-lo se importando consigo, uma massagem no ego e na autoestima.

    Claro que certas garotas mundo afora permanecem nessa tática por tanto tempo que Sr. Relações Sociais se cansa e vai embora, deixando-as realmente sozinhas dentro de uma depressão tão profunda que na certa enche a mente delas de “Eu não presto.”, “Ninguém me ama.” e “Sou uma forma a base de carbono desperdiçada nesse universo e não mereço essa miserável vida.” E aí se matam.

    Mas agora imagine com toda a fertilidade que tem sua mente: o que acontece quando todos esses caras esquisitos e solitários por causa de uma fase da vida meio violentamente conturbada pela mente fraca para mudanças e pseudo-depressivos por carência recebem atenção? Eles passam a depender das pequenas atenções como se fosse crack e fazem qualquer coisa para consegui-la, tornando-se quase arrogantes e bastante mimados.

    Foi assim comigo. Naquele momento em que Al passou seu braço sobre meus ombros eu entendi que nenhuma outra atenção seria como a que eu estava recebendo naquele momento, que aquilo era melhor que a comida da minha avó. Eu soube que precisaria conseguir mais doses daquela morfina relaxante para o resto de minha vida. Mas isso tudo correu pelo meu subconsciente por mísero um segundo, sem chegar em meu conhecimento explicitamente, porque na hora eu resisti até o último segundo para ceder conversar com Alberto, fui bem rude, um verdadeiro ogro.

    Sei que ele usou dessa habilidade com os outros também. Com os outros esquisitões, com os outros colegas sociais, com professores, todos, todos mesmo. Essa era a linda cadeia de vítimas da manipulação que Al tecia como uma grande aranha pernuda, peluda, nojenta e de traseiro grande. Era tão viciante, tão doentio, que a cada vez que Alberto falava comigo eu sentia que precisava de mais e mais, mas só para mim... Tinha dias que eu me sentia único; todas as brincadeiras eram a meu respeito, ele estava sempre perto da minha classe, sorrindo, sorrindo com aquelas presas enormes de quem me engoliria algum dia. Tinha vezes que nem bom dia eu recebia, que eu me sentia uma usina de tratamento de esgoto entupida e inútil e me perguntava constantemente o que havia de errado comigo, o que eu havia feito. Hoje sei que fazia tudo parte da teia, da manipulação; solte a linha, deixe ele nadar e então puxe de volta com força que terá o peixe em suas mãos.

    Sei que não fui só eu que caí nesse truque, sei que não fui só que eu que me obriguei a socializar mais com a turma, com muitas pessoas para conseguir ficar mais perto da Alberto, que entrei para seu fã clube, que me tornei seu cachorrinho, seu servo para carregá-lo numa liteira a espera de migalhas de sua atenção. Não foi ruim, por mais que eu tenha feito parecer com minhas próprias palavras, teria sido bem pior ter me suicidado por não ter ganhado atenção suficiente, teria sido bem pior não ter começado a me socializar, a estudar, a pensar na vida e no futuro. Al foi um ditador que cortou minha liberdade, mas me evoluiu de uma forma tão linda que seria o melhor treinador de pokemons que a humanidade já teria visto.

    Alberto me deu um futuro. E então comecei a pensar demais, em todos os segundos que estava longe dele eu preenchia minha mente com pensamentos sobre ele. Não posso afirmar como foi para os outros, mas depois que criar mil situações hipotéticas sobre o que poderia acontecer ou ter acontecido, me ocorreu, ineditamente, tentar entender o porquê de eu gostar tanto dele. Não, por que de eu depender tanto dele. Eu sequer gostava dele? Quem era ele?

    Todos sabem que o pior inimigo de qualquer governo é um povo culto e sabido.

    Ideias podres e nojentas vieram seguidas de reflexões e conclusões sobre a natureza, pela primeira vez no meu ponto de vista, negra e sombria de Al. Não perdi meu interesse por ele, pelo contrário, fiquei apenas mais obcecado em tentar entendê-lo e desvendá-lo como se fosse um cubo mágico de rosto anguloso e cintura fina. Mas tudo isso apenas me levou a um nojo terrível de Al e um asco perverso de mim, da minha infantilidade em cair nos braços de estranhos com tanta facilidade. Tudo isso fez com me eu me afastasse de Alberto numa — desta vez verdadeira — depressão reflexiva a respeito de sentimentos. Mas eu já estava ciente de que minhas relações eram necessárias e importantes e não as cortei, continuei um bom garoto social e ativo na escola, pelo menos uma fachada para garantir meus interesses.

    E Alberto surtou.

    Ele surtou. Não, na verdade apenas gosto de pensar que ele tenha passado noites em claro por minha causa, gosto de imaginar que ele tenha dedicado muito tempo de sua vida me odiando em segredo por ser o primeiro rebelde do sistema escravista que ele montara em sua vida, que ele me desenhara muitas vezes apenas para queimar a folha, que ele chorou em meu nome, apenas porque, no fundo, nunca deixei de ser um esquisitão carente. Tudo porque não o olhava do mesmo jeito, não abaixava mais a cabeça perante ele e o julgava mais severamente.

    Passei tempos de jejum de afeto para reflexão, questionei o sistema socialista de divisão igualitária de atenção e carinho em que viviam todos aqueles porcos. Mas não adiantou. Eu não ganhei a exclusividade que como objetivo toda a esquisitice carente me movera a agir.

    Alberto veio atrás de mim com toda sua boa vontade e altruísmo, questionou o que havia de errado comigo, como podia ajudar. Quase tive uma recaída ao pensar que ele se preocupava comigo, mas então lembrei que ele de fato se preocupava, mas isso não bastava para mim porque ele se preocupava com todos os outros também. Quando não me abri com meu amigo, senti seus olhos penetrantes e cristalinos nos meus e percebi que fui lido como uma mercadoria passada num leitor de código de barras: ele me compreendeu. Mas isso não fez diferença para o abraço do dia, o primeiro em muito tempo que eu rejeitei. Me tornei então a mercadoria defeituosa que voltou-se contra seu criador, mesmo que não importe o quanto eu tente me sentir um grande revolucionário vitorioso, sempre terei a culpa. Afinal, o culpado de ser um humano ingrato e insatisfeito não é ninguém mais do que minha própria falta de vontade de controlar minha natureza humana, e consigo sentir isso muito bem quando ainda me apoio nesse mesmo garoto em meus momentos de crise. Ainda que não me entenda por completo, me respeita e aceita essa limitação porque mesmo que eu o tenha deixado, ele não me deixou, não é?

    Especulo para meu próprio prazer que é apenas pose ele me tratar muito bem. Quando meu prazer é estar com ele, porém, logo minha fé nesse deus volta e tudo que sei desaparece novamente. Talvez eu só me mantenha são nos momentos de delírio porque a verdade de que ele nunca será feliz morrerá comigo, nem ele precisa saber disso.

    Este sou eu são. Este sou eu fora de uma crise. Este sou eu cuspindo na cara de Alberto num dia normal de aula quando ele tenta me cumprimentar com um abraço na frente de todos. Este sou eu no dia seguinte de ter humilhantemente derramado lágrimas no pescoço desse garoto, e de ter deixado a marca das minhas unhas na superfície daquela mão bem hidratada com creme de pitanga, de ter esfregado meu nariz naquela camiseta cheirosa e morna, de ter estado em paz e por sentir-me único para ele enquanto sentia o amor emanar daquele peito ronronante. Este sou eu, dono de mim mesmo, sentindo-me muito independente e confiante em meu conhecimento e sanidade mental de hoje. Por que eu guardo um preciso segredo que nenhum outro idiota nesta sala possui, uma propina em atenção que recebo quando estamos sozinhos para me manter calado em relação a verdade suprema que envolve todas as amizades de Alberto.

    — Pss, Ad. Ei, ei, Ad, olhe para cá. — Teve barulhos de alguém sem muita paciência se revolvendo na cadeira onde estava sentado, três classes atrás de mim e uma para a direita. — Ad!

    Hoje eu estava fiel à minha política de ignorar. Tão fiel que em pouco tempo teria que começar a pagar o dízimo para ela. Já disse que não me arrisco ficar perto demais de Al em público, nunca sei se estou agindo naturalmente ou não. E se parecer que estou feliz demais ao lado desse homem sem nem um mísero pelo na cara?

    — Ad, ei, Adrian, olha para cá! Aqui, eu, eu aqui! — Não. A aula parecia muito mais interessante.

    Remexi entre meus materiais, um bolo de papéis sujos, riscados e amassados misturados junto com lápis de três centímetros e canetas quebradas, tudo jogado dentro de um estojo velho com meu nome riscado com canetinha em grandes letras de forma, e achei um estilete cuja lâmina estava caindo da proteção de plástico. Qualquer um que me conhecesse apenas há três anos atrás poderia imaginar que eu estava prestes a deixar minha carta de despedida para o mundo antes de enterrar o metal frio e pontiagudo nos meus branquelos pulsos. Mas hoje não. Hoje tomo sol e meus pulsos tem cor de um brasileiro estereotipado bem-nutrido. Até porque, como já disse antes, só não deixo esse mundo por orgulho, mas nada me impede de brincar com a criatividade e a imaginação.

    Peguei dois tocos de lápis gastos e risquei com o estilete na madeira seguindo uma ordem: 17:30, lá, fazendo menção ao banco meio remoto de uma praça com parquinho infantil perto da escola. Pedi para a menina de rabo de cavalo cheio de fios soltos atrás de mim passar esses lápis coloridos, nada suspeitos de portarem uma mensagem de tão deprimentemente sujos que estavam. Quem não entenderia um bilhete sem nem mesmo olhar seu conteúdo? Materiais escolares que normalmente se troca e empresta com colegas são bem mais seguros.

    Al recebeu a mensagem em suas mãos, olhou para mim, para os lápis, para mim e sorrindo se pôs a revirar a madeira velha em busca de minhas palavras. Alinhou as duas partes do convite na palma de sua mão depois de ter achado as ranhuras malfeitas e leu com visível cuidado, movendo os lábios ridiculamente. Se fosse para os outros verem, meu querido Alberto, não acha que eu teria escrito na lousa ao invés de malditos lápis? Mas a frase travou no limite de meu cérebro enquanto suspirava o ar do arrependimento de ter feito aquilo. Às vezes não chego apenas a achar, mas ter mais certeza que Al se faz de idiota retardado do que garanto minha existência quando penso em, por exemplo, pudim de leite. Nosso amor ocorre melhor quando sou eu a criança da relação, porque não importa o quanto eu critique, ainda há uma dose maior do que eu gostaria de sentimentos entre nós.

    Em resposta, Al rabiscou em uma borracha tijolão de duas cores e a pôs em um voo curto e baixo até minhas costas. Juntei, fechando o látex fervido e condensado em minhas mãos, quase com medo de olhar a resposta. Meu lindo amigo aguardava minha reação com olhos maliciosos e queixo apoiado nas costas das mãos, sobre a mesa.  

    “Antes”. Fiquei sinceramente meio irritado com uma resposta dessas. Quem não ficaria? Faço de tudo para alinhar, com muita dificuldade, minha vida social, escolar e familiar com Al, como um grande homem de negócios, e Alberto parece ignorar isso nos momentos mais complicados para mim. Final de tarde, o dia todo nessa escola, prometi cuidar da Nanda para meus pais, um monte de trabalho de aula atrasado que procrastinei e precisava terminar... Não estava para as gracinhas dele.

    “Não”. Breve e muito autoexplicativo. Mandei a borracha de volta, agora com os dois lados riscados, ele recebeu e ficou olhando a borracha com uma cara estranha de sobrancelhas frisadas que só consigo encontrar em Al, o lábio inferior preso entre os caninos, esfregando a mão na lateral do pescoço como se tivesse com torcicolo. Deu-me uma outra olhadela indignada e mexeu a boca num pedido mudo para mim pelo menos esperá-lo no fim da aula. Assenti de mau gosto.

    O último período escorreu lentamente pelos meus olhos e tudo que consegui ouvir eram ruídos dos pés de Alberto batendo ritmicamente na lateral da classe, cada batida parecendo contar os segundos para o fim daquela tortura. Quando fomos dispensados joguei meu bem conservado estojo e os cadernos militantes das trincheiras russas na Primeira Guerra Mundial dentro do saco de mochileiro que arrasto diariamente por aí e fui saindo em direção à porta na frente de todos. Meus passos não eram rápidos, os outros que cismam em demorar mais que o normal para ficarem tricotando com os vizinhos de classe em vez de seguirem suas miseráveis vidas e irem para casa.

    Estava cruzando pela frente da sala, logo atrás do professor que entendia meus sentimentos de liberdade, mochila pendendo de um ombro, mãos nos bolos das calças de corte reto, olhando Al jogar suas trouxas nas costas, rápido, muito rápido para me alcançar com seu olhar de recriminação por eu não estar esperando como um bom amigo.

    Vamos, Al, eu não sou um bom amigo. Não sei de onde tirou essa ideia, de um desenho da Disney talvez, parece provável. Talvez esse mesmo desenho tenha te ensinado a caridade, perseverança, humildade, bondade e todos esses valores puritanos que fazem de você nunca largar ou se cansar de mim. Nunca olhar feio para mim. Nunca retribuir meu tratamento. Obrigado Walt.

    Mas fui calado, literalmente, antes de qualquer oportunidade de comentar a respeito disso. Al sempre fora estranho, em muitos e deturpados sentidos, mas naquele dia eu sentia que havia muito mais coisas erradas do que o normal. O meu normal. Nosso normal. O normal para nossa relação doentiamente não natural. Desde que o vi aquela manhã, soube que precisava evitá-lo o máximo que podia, e não apenas pela minha política de proteção à minha integridade moral (também conhecida como “o dia seguinte à minha crise”), havia algo mais que meu muito tempo de observação paranoica estava me avisando para ter cuidado. Infelizmente, só consegui confirmar meio tarde demais que aquele era o último momento para mim estar de frescura perto dele e isso alertou meus mirabolantes miolos para uma possível situação que eu ainda não programara e esquematizara, não tinha catalogada nem sob controle.

    Al estava tão... desafiante, sim, meio valentão como um galante corcel resfolegante num vasto campo verde, mesmo que faltasse muita massa muscular naqueles quartos traseiros para ser agradável de montar. Senti-me violentado por aquela atitude, parecia que minha confiança havia sido prensada contra armários de escolas americanas e sacudida até dar o dinheiro do almoço para aquele cara. Um Al rebelde. Não sabia ainda que tipo de sensação isso causava em minha pessoa. Rebelde. Repeti a palavra algumas vezes mentalmente até ele me alcançar na porta para ver como soava e comecei a ficar animado para cobrir o pouco de preocupação com a súbita e desconhecida mudança de humor de meu querido amigo.

    E se ele finalmente tivesse se irritado comigo? E se eu tivesse passado dos limites no dia anterior, colocado pressão e peso demais em suas costas? Talvez ele tivesse feito suas contas mentais e calculado que não valia mais a pena me sustentar, continuar vivendo em com minha chantagem, talvez aquele fosse o dia em que ele fosse finalmente, e pela primeira vez desde que o conheço, ser rude comigo. Quem sabe ele cortasse por inteiro nossa relação! Tinha consciência que deveria começar a ficar assustado e amedrontado, mas minha animação só crescia, ao passo que ele, ao meu lado, continuava anormalmente calado, me olhando quase sem piscar.

    Ah, e se todos vissem Al, o Grande Alberto, meu, seu, nosso, nosso querido Alberto perdendo o ritmo de Madre Tereza, acabando sem paciência com um dos muitos que ele acolheu e ensinou a ser civilizado, que hipocrisia! Talvez aquela fosse a tão aguardada chance de rolar aquele ditador escada abaixo, aquela que ele nos escravizara para subir tão arduamente apenas para mendigar sua presença. Ah, talvez eu até deixasse ele me socar, dar-me uma surra tão grande com aqueles braços ridiculamente sem definição beirando pernas de galinha alimentada com transgênicos.

    Sim! Era isso que eu faria. Apanharia como um bom garoto e a culpa seria dele, não deixaria que Al ficasse com as recompensas se caso fosse acabar de me aturar de vez; não, se era para ser o final de tudo, teria que ser o mais épico de todos os tempos, teria que fazer jus à grandeza que admito que meu oponente tem, teria que honrar toda a preparação que ele estava fazendo naquele momento, ao meu lado, me olhando ansioso, assim como ele teria que respeitar meu rápido aprendizado com ninguém menos do que ele próprio. Assista sua própria criação, meu querido.

    Se fosse para nunca mais poder me apoiar em Alberto, se fosse para nunca mais ganhar seu carinho... Então que pelo menos eu pagasse todo o mal que já fizera àquela pobre e infeliz criatura com não apenas uma dor interna. Talvez eu quisesse mesmo arrebentar o nariz para apenas me sentir melhor por todo o estrego que já havia causado, levar minha primeira briga a fundo, deixar marcas as quais sempre que olhasse lembrasse de meu querido Al. Meu precioso Al que agora se rebelava contra mim, mais que com razão. Uma vingança.

    Estava animado, uma animação superficial, uma animação nervosa, acabaria tudo, era a hora, aquela hora que, no fundo, sabia que aconteceria, mas nunca admitia porque sabia que sairia de meu controle. Mas no momento eu tinha tudo sub controle. Já sabia o que fazer, acabara de me convencer disso, já sabia o que Alberto faria, já calculara tudo. Não é só você que entende de cálculos psicológicos, ah, não.

    Estávamos ainda lado a lado, mais próximo do que eu permitiria num “dia seguinte”, atrasando os passos, sentindo os pensamentos um do outro tencionando nossos movimentos, os estudantes começando a nos ultrapassar e no meio daquela multidão era o local perfeito, nós dois entendíamos isso. Muitos vieram se despedir de Al, alguns poucos menos de mim, mas nossa concentração estava focada apenas em nossa despedida e em nada mais, cada um apostando na própria capacidade social de se virar no ato.

    E lá vinha. Senti meu pulso sendo agarrado, as mãos suadas e indelicadas escorregando contra minha pele, mas com força suficiente para me fazer girar no lugar e parado o encarar de frente. Parecíamos pedras impedindo o fluxo de um rio poluído que esbarrava em nossas costas, parando lentamente e desinteressadamente para ver o que fazíamos pregados ao chão.

    Percebi bem logo que aquela era sua primeira briga também, ele não tinha a posição que se espera de alguém que vai lutar. Seus olhos, brilhantes, isso nunca mudaria, eu sentiria falta, sentiria. Seu maxilar firme, os dentes trincados, garganta presa, era um novato, sua beleza social que abdicava hoje sempre o poupara dessa experiência... Ergueu sua outra mão em minha direção e apertei meus olhos a espera da dor lasciva que deixaria minha expressão odiável do avesso. Não, não poderia esperar isso de alguém tão inexperiente. A posição de seus membros, notei entre espiadelas, a proximidade que o impedia de pegar velocidade para um golpe forte, seu peito que encontrava o meu, sua mão que subia deslizando pelo meu braço desproporcional até meu pescoço a encontrar com aquela outra, me segurando mais próximo, seus lábios sobre os meus.

    E todos prenderam sonoramente a desnecessária respiração que fazem para sobreviver junto comigo quando se deram conta do que estava acontecendo. Seus malditos lábios prendendo os meus como doces garotinhas ruivas e hidratadas com manteiga de cacau humilhando as maltrapilhas bolsistas que com certeza reprovariam de ano por ter pegado a matéria pela metade. Era como me sentia, como se tivesse pego um assunto no fim, meio muito perdido no centro de uma cidade desconhecida, criticando um filme por não ter assistido seu começo.

    Uma atmosfera ilusória e instável de sonho engoliu tudo como fazia Alberto ao me encostar contra a parede, espalhando estudantes como um cardume assustado. Meus músculos tão rígidos que tinha medo que quebrassem caso tentasse fazer movimentos bruscos, os membros tão paralisados, mas que não podiam sentir menos do que antes, ao contrário, cada toque era percebido com cada detalhe e recebido com tanto pânico por meu cérebro que trabalhava para entender como e porque, onde foi que havia errado, que vírgula ou expoente colocara de fora da conta... Era tudo tão fantástico que poderia não ser real. Um sonho. Um daqueles em que eu esquecera de vestir-me e todos falavam da cor de minha cueca, um cheio de vozes perseguidoras de fundo, de gritos e gritinhos, tudo disforme, um pesadelo onde o suave toque dos dedos adolescentes de Al entre meus cabelos machucava, onde todos seus movimentos eram errados, onde eu era errado. E eu odeio estar errado.

    Não havia motivo. Não havia razão. Não havia explicação plausível para mim estar me engasgando com uma saliva que pela primeira vez estava duvidando ser minha, para mim estar recebendo um ar usado por outra narina, por outro pulmão, estar aspirando o gás carbônico que as células de sabe-se lá de que parte do corpo dele descartaram. Não havia motivo para ele ter se rebaixado tanto assim. Não podia ser verdade, de maneira alguma.

    Não sou uma pessoa criativa, longe disso, sou apenas um garoto comum com um pensamento e sonhos iguais ao de tantos outros. Mas sou imaginativo com uma mente curiosa dada a explorar partes desnecessárias dos meus desejos, descobri isso a pouco tempo. Descobri também que o maior defeito de uma mente ampla (não de conhecimento) assim é a exposição radioativa a situações absurdas, inimagináveis, que explodiria como um balão de aniversário as mentes comuns, mas que na minha nem mais cócegas fazem de tão habituada a idiotices e loucuras de pensamento que está. Talvez o maior defeito de meu cérebro seja aceitar e banalizar esses desejos inoportunos, seja acolher a todos essas pobres e necessitadas ideias tratando-as de igual para igual, sendo que se elas se concretizassem, eu morreria. Morto por ideia absurda materializada. Assassinado por um elefante rosa em minha sala, pelo choque de não saber lidar com a situação. Enfartado de preocupação por ter criado asas de demônio em minhas costas por não saber como escondê-las. Sufocado por Alberto por não saber como explicar às outras pessoas o que está acontecendo. Longe de minha mente, não sou ninguém perto da realidade.

    Mas a realidade estava ali. Os olhos de Al estavam fechados como se não quisessem me ver, os meus arregalados, encarando aquela pele lisa, perfeita. Aquele momento que parecia não acabar nunca mais, parecia infinito. Havia uma parcela adorável nisso, uma conquista interior de talvez ter o momento único de atenção do meu melhor amigo, do meu mais que melhor amigo, um peso que me aliviou em finalmente não precisar mais esconder minha necessidade afetiva da sociedade, de me livrar finalmente de toda a burocracia social que se tem que passar ao admitir que ama alguém, um certo ar de leoa de quadril largo gabando-se para as outras fêmeas que conseguiu ser a principal do chefe do bando. Mas isso era pressionado para um cantinho minúsculo do dedão da mão esquerda que era o único que pervertidamente continuava a empurrar Alberto contra mim.

    Só faltava o motivo. Isso me frustrava, isso me frustra até agora. Ele não seria idiota suficiente para se apunhalar junto comigo sendo que podia apenas me chutar com suas galochas coloridas. Talvez ele soubesse que isso iria doer mais, talvez ele soubesse que esse era seu único plano maquiavélico que eu ainda não havia cogitado. Ah, como ele era inteligente! Mais do que eu podia esperar, uma vingança bem elaborada, quem sabe, uma humilhação pública que levaria tudo que eu tinha, tudo que ele me dera, tudo que me ensinara a conquistar, tiraria de mim meu Al, exatamente, rapidamente e sem barreiras como ele fez com a bala que estava na minha boca momentos antes. 

    Com toda certeza subestimei o tamanho do ódio de Alberto por mim. E ainda que existisse uma excitação enorme em saber que pelo menos esse posto eu ocupava unicamente o primeiro lugar, também era um pouco deprimente. O que eu fizera? Como as coisas haviam chegado tão longe? Derrubar socialmente Alberto não parece tão divertido agora. Mas eu consegui e não posso mais me arrepender.

    Ele se afastou lentamente de mim, abrindo os olhos apenas quando pode garantir que conseguiria me olhar sem parecer um ciclope. Eu tremia e estava prestes a chorar, mas ele apenas sorriu e foi-se separando de mim aos poucos, ameaçando chegar para perto novamente se eu representasse perigo em alguma maneira. Desceu as unhas bem aparadas pela superfície frontal da minha camiseta até ela acabar numa barra feita à mão.

    — Não era isso que você queria? — Maior e de muito mais efeito que qualquer surto psicótico que poderia ter.

    Nisso, virou a cabeça como que envergonhado e foi embora ignorando todos que tentavam pará-lo para fazer perguntas, mas não, isso era o prêmio bônus que ele deixaria para mim. Ah, se eu soubesse o que tive que encarar logo depois sua partida, sua fuga, nunca teria desejado que ele saísse da minha frente. Se eu soubesse que aquele cretino tinha deixado um chiclete sem gosto no canto interno da minha bochecha, eu talvez teria criado um pouco mais de coragem para ir atrás dele tirar satisfação. Mas não, eu, como guerreiro vencido, deveria aceitar minha humilhante derrota, aceitar e reconhecer o seu esforço, respeitar todas as feridas e cicatrizes que ele adquiriu para acabar comigo e por isso enfrentar de cabeça erguida toda aquela multidão de adolescentes que acabavam de ganhar o assunto do mês, que já pegavam seus celulares para espalhar a desgraça, que já começavam a avançar para cima de mim. Infelizmente, eu nunca cheguei a respeitar Alberto, caso contrário isso não teria acontecido.

    Uma garota, muitíssima apegada a Al, chegou em mim para dizer:

    — Eu super apoio vocês, está bem? — ela enganchou seu braço no meu, fazendo-se de simpática, me levando para longe das outras garotas que também tentavam falar comigo — Vocês podem ficar juntos, eu vou ajudar vocês a superarem os outros, está bem? Eu entendo perfeitamente vocês, sei a dificuldade que estão passando, precisam ser fortes, está bem?

    Ah, sim.

    Somos muito fortes.

    Acabamos de sair de uma luta, não está vendo? Não está vendo minhas lágrimas héteras?

    Uma pequena confusão no início. Uma ignorância sem tato na lida conosco, uma burrice cega perto de nós, como se dormissem durante uma explicação de matéria de prova e agora, na hora da avaliação viessem pedir a nós a resposta por meio de perguntas desesperadas e objetivas.

    Mas assim como dois e dois são quatro não resolvem nossos problemas, posso dizer que sua razão não tem lugar em nossa consideração.

    E mais. Buscam respostas, mas sequer sabem a questão. A única que não me permite viver — ou deixar de — por me atormentar, por ser tão tentadora que nenhuma especulação minha foi digna de ser considerada: por que, Alberto? Por que se vingou de mim, de você, de nós tão brutalmente, meu querido?

    Terça à tarde
    ---
    É Terça à tarde. Meu Deus, já é Terça à tarde. Se eu resmungar por uma terceira noite seguida à minha mãe que estou doente demais, febril, que juro que se tivesse um termômetro em casa ela veria como estava com pelo menos trinta e oito graus e meio, como estava fraco, com dor de cabeça e olhos pesados, ela não vai acreditar. Na primeira noite, ela nem entrou em meu quarto, me deu boa noite da porta e ofereceu um chá, dizendo que era melhor eu faltar aula no dia seguinte. Eu faltei. Passei a Segunda como tinha passado o resto de Sexta, Sábado e Domingo, deitado na cama com o olhar vago, sentado à escrivaninha com os pensamentos perdidos, jantando com a cara voltada para o prato e alheio ao que estava acontecendo ao meu redor. A cena se repetia e se repetia, de novo e de novo, sugava minha concentração como um acrobata nu no meio de um movimento particularmente difícil diante de uma plateia delirante, e esse era eu, eu estava delirando.

    Segunda à noite minha mãe veio sentar ao meu lado para pedir se estava tudo bem. Obviamente ela notou que havia algo de errado em eu passar três dias sem brigar com Nanda, sem discutir com o pai, muito menos sem questionar nada. Talvez ela tenha notado o pedaço de mim que foi arrancado da realidade e designado especialmente para reviver constantemente o que havia acontecido no fim da aula Sexta-feira, para manter Alberto em minha mente. Respondi que apenas estava indisposto, um resfriado, quem sabe, que tinha muita dor de cabeça, uma fraqueza de corpo terrível. Ela fez um olhar de reprovação e me deixou faltar aula novamente. Agora já é Terça à tarde e se eu ainda estiver de frescura ela me levará ao médico e ele fará perguntas, e de perguntas para responder eu não preciso de mais nenhuma além da que está me jogando na cama com o peso do mundo contra meu peito: por quê?

    Eu ainda não acredito. Não quero acreditar e é por isso que não fui à escola todos esses dias, porque tenho medo de passar a crer depois de ver Alberto na minha frente depois do... do seja lá o que ele fez comigo. Pegar no sono tem sido difícil, desacelerar meu coração, conseguir relaxar meus músculos para fechar os olhos, é tão difícil que tenho medo de tentar. Esse é mais um dos porquês vindo do porquê maior e mais avassalador, o porquê de toda vez que apoio a cabeça no travesseiro, tiro lentamente a tensão dos músculos e respiro fundo deitando as pálpebras, uma dor venenosa e aguda toma conta do meu peito, me trazendo todo o pânico que eu deveria ter sentido naquele momento... E mesmo quando, depois de muito me revirar na cama entre sucessivas injeções de angústia lasciva, consigo pegar no sono, Aberto me persegue.

    De olheiras feitas e cansaço para dois dias, faço bem meu papel de doente. Infelizmente descobri que passar dias vegetando não me levaria a conclusão alguma sobre o motivo que levou Alberto se destruir socialmente, na frente tanta gente que garanto que nunca mais olhará em sua cara por isso, apenas para me dar um tapa tão bem dado. Lógico, é tão encantadoramente inteligente que sabia que me dar um tapa de verdade não seria tão eficiente quanto... quanto... eu ainda não acredito. Alberto me beijou.

    Não acredito que ele me odeie tanto assim. Tenho vontade de jogar pela janela tudo que aparece pela minha frente, inclusive eu mesmo, só de pensar que o rancor que ele sentia por eu ter que ficar impondo regras tolas ao nosso relacionamento, por se arrepender de me mimar tanto, tudo de ruim que eu trouxe a sua vida embolado cuidadosamente para ser pago de uma maneira tão violenta e bem planejada.

    E apesar de estar muito provavelmente sozinho e incompreendido alheiamente, com um arrependimento maior que Alberto está sentindo agora, se é que está, e uma tristeza infinita por finalmente ter sido largado, eu me sinto bastante orgulhoso dele. Ele atuou muito bem. Uma forma descomunal de convencer a todos a seu redor, menos a mim, claro, pois ele precisava me fazer sentir mal. Estou orgulhoso do empenho dele, estou orgulhoso de mim por ter conseguido fazer ele se empenhar tanto em uma única pessoa, por ter pelo menos feito ele dar uma parte verdadeiramente única dele apenas para mim. Mesmo que para isso eu tenha aberto mão do pouco, mas frequente Al que tinha até então.

    Mesmo com todas essas considerações e conclusões, permanece: por que ele se rebaixou junto comigo? Se fechar os olhos e tocar a ponta dos dedos em meus lábios, consigo sentir a boca macia de Alberto ainda na minha, como se ainda estivesse aí para me dar um calafrio pela espinha e arrepiar os pelos do meu braço. Fiz questão de manter bem viva essa sensação como forma de não esquecer o sacrifício dele.

    Estou sozinho agora. Matei o único que me entendia.

    Matei em mim, claro, pois o real deve estar agora em sua casa, mais que satisfeito por ter me feito ficar e depressão por sua causa, por ter me rebaixado a nada novamente. Acho até que pode ter feito as coisas exatamente desse jeito para me deixar afogado nessas incertezas da causa que o moveu a fazer coisas dessa maneira, ele é mais manipulador que eu sequer posso imaginar.

    Nanda sai pela porta de frente e saltita até mim na sarjeta na frente de casa.

    — Que te aconteceu?

    Nanda tem oito anos e uma compreensão de mim que se limita às coisas que ela rouba do meu quarto. Às vezes tenho vontade de sufocá-la a noite para que ela não precise crescer nem sofrer com as amarguras que a vida vai aos poucos largando para cima de nós. Ela senta ao meu lado, bem viva.

    — Nem vem com essa história de que está doente, só a mãe que cai nessas. — Oito anos de pura inteligência, que orgulho.

    Paro para pensar um pouco no que responder. Não é uma questão de confiar ou não em Fernanda, é que ela não compreende o fato, não conhece a história toda. Mas sendo apenas uma criança, não se interessa sobre a história dramática do seu irmão adolescente, não me questiona sobre algo desinteressante. E é isso que eu preciso, diminuir as perguntas que até hoje só foderam com minha vida.

    — Briguei com um amigo. — Afasto os cabelos que me caíam sobre o rosto. Estou sentado no meio-fio, queixo apoiado nos joelhos unidos ao peito. Mato formigas que passam com um graveto.

    — Alberto? Brigou com Alberto, sério?

    Olho com o canto dos olhos para ela. Ela me encara incrédula.

    — Adrian, você é muito bobo, viu? — Ela agita uma mão me repreendendo infantilmente. — Ele é seu melhor amigo, não pode deixar que uma briguinha estrague a amizade de vocês.

    Solto um riso seco, olhando para o céu, desta vez. Viu? Para início de conversa, nunca tivemos uma amizade, depois, não foi apenas uma briguinha. Foi uma batalha final que eu induzi e perdi de modo humilhante.

    — Eu sei que você gosta muito dele. Ele gosta um monte de você também, eu sei disso, sabia?

    — Nanda, eu não.... Olha, eu e Alberto.... Não.... —Não há como explicar isso para uma terceira pessoa.

    — Você acha que só porque eu tenho oito anos você entende mais das coisas do que eu, né? — Ela se encosta em mim, passando a me abraçar. — Mas eu te vejo melhor que você.

    Isso, por algum motivo, crava mais fundo a agulha que estava presa às minhas costelas esses últimos dias. Puxo ela contra mim notando como estou confuso e andando sobre afirmações sem bases. Um toque de desespero motivador começa a agitar meu sangue.

    — Minha professora disse que quando temos problemas temos que compartilhar porque é por isso que vivemos com a família e vamos à escola com um monte de amigos. Quando temos dúvidas temos que perguntar para quem sabe e quando ninguém sabe a gente mesmo imagina a resposta. Mas nem sempre uma resposta inventada é certa, sabia?

    Ouço meu coração martelando em minha cabeça. Eu nunca deixarei a sensação quente e aconchegante do abraço de Al para trás, nunca conseguirei esquecer como ele me olhava de modo carinhoso, como colocava meus cabelos para trás quando caíam sobre minha face. Nunca tirarei isso de minha mente e carne se ainda tiver motivos para lembrar de tudo. E enquanto eu mantiver essa dúvida cruel, esse porquê, nunca afastarei Al de mim. Não posso desfazer o ato que o levou a acabar com tudo, nem me arrependo de reivindicar exclusividade, mas posso pelo menos tirar o gostinho doce do espírito daquele porco arrancando dele os motivos. Ainda não perdi a luta por completo, não vou deixar que ele continue me manipulando mesmo depois do fim do nosso relacionamento. Acabará não só para ele; vou tirar o resto de mim também.

    — Entende? É por isso que eu zerei minha última avaliação de matemática. Eu inventei as respostas e não estava certo. Aí a Gabriela brigou comigo porque ela não queria amiga burra, mas então a gente fez as pazes porque a professora mandou.

    Sinto uma brisa morna passando entre nós e entendo que mesmo que eu e Nanda não estamos falando da mesma coisa, ela ainda sabe mais do que eu sobre mim mesmo.

    — Tem razão, mana. Vou falar com ele. Agora mesmo.

    Mando ela entrar para casa e avisar nossa mãe caso ela chegar em casa antes de mim que estou na casa de Alberto. Corro mesmo me sentindo fraco e assustado, um covarde completo, e sinto também uma animação crescer dentro de mim. Afasto a euforia que seria encontrar Al, tento lembrar a mim mesmo que não vou lá para nada mais que fazer uma pergunta. Deus, como meu coração fica pesado a cada passo que dou, como é difícil convencer a mim mesmo que Alberto me odeia e que eu devo odiá-lo também para não sentir-me uma barata.

    A casa grande, de cerca cinza, lá está ela. Penso em tocar o interfone, mas nas Terças-feiras sua mãe tem folga e não quero que ela ouça nossa conversa. Pego meu celular e com dedos trêmulos digito seu número, eu o excluí, mas nada adianta quando se sabe os dígitos de cor. Penso em chamá-lo para fora e então conversarmos aqui mesmo na rua, terreno neutro. Sinto que não conseguiria me manter firme num ambiente perfumado com o cheiro hipnotizante de Alberto. Ponho o celular contra a orelha, ansioso, não sei por que, mas ansioso demais. O medo toma conta das minhas pernas.

    Ouço o toque dele da janela do segundo andar, onde é o seu quarto. Logo para e a ligação é encerrada.  Afasto o celular do rosto e como nada acontece, ligo novamente, o medo subindo para meu tronco. O toque vem novamente daquela janela, dura dessa vez um pouco mais, aquela música modinha que só Alberto mesmo para pôr de toque do celular, mas logo cessa e mais uma vez a chamada é finalizada.

    Engulo a saliva de maneira arranhada, talvez meu resfriado não seja de todo mentira, e ajeito meus cabelos para trás com as mãos começando a suar. Decido então tocar o interfone. Ele tinha que me ouvir, não podia ser tão cruel a ponto de me ignorar por completo.... Não ainda.

    A mãe dele abre a porta da sala e colocando a mão sobre a testa vem até mim. Desenchaveia a porta, tem rugas em sua testa e ela parece preocupada, o que me deixa preocupado, mais ainda, o medo sobe sobre meu estômago e sinto um enjoo que me faz engolir a saliva que não tenho.

    — Meu Deus, Adrian, que bom que veio. Ele ligou para você?

    Faço que não com a cabeça, não entendo o que essa senhora quer dizer.

    — Passou a tarde de ontem e hoje todinha trancado no quarto, não sei o que fazer com aquele menino, está me assustando tanto! Nunca ficou assim antes.

    Ela me puxa pelo braço para dentro me guiando pela sala, corredor e escadas, parando lá em cima. Eu sei o resto do caminho.

    — Ele não quer me contar o que ouve, mas você deve saber. — Um gelo percorre meu corpo, ele está subindo, o medo, está começando a me machucar. — Mas não me interessa se ele não quer me contar. A sua companhia deve melhorar o ânimo dele, vá lá. — Ela dá meia volta torcendo as mãos na blusa fina, soltando o ar preocupadamente. Desce as escadas e eu fico sozinho encarando a porta do quarto dele no fim do corredor.

    Vou até lá, estou decidido. Paro em frente ao cômodo, sinto-me desconfortável, há algo de errado nisso tudo. Retomo a mim mesmo o motivo de estar ali para afastar mais dúvidas além das que eu trouxe e endurecendo a postura bato na porta. Um “entra, mãe” veio de lá de dentro e eu abri a porta depois de um momento de hesitação.

    Al está encolhido em sua cama, com as cortinas fechadas, o lugar está escuro. Tem metade dos livros de sua estante jogados pelo chão e suas cobertas estão emboladas em um canto do quarto. Ele está de costas para mim e quando me aproximo vejo que seu peito sobre e desce de maneira irregular. Alberto está chorando.

    O medo chegou até meu peito e por alguns momentos de horror esqueço de como respirar. Estou em desordem, já estava, agora é um pandemônio interno que me estapeia com a ideia de Al chorando, me estrangulando então por vê-lo frágil daquele jeito.

    — Alberto... — sussurro indo em sua direção com passos vacilantes. Doía andar até ele.

    Ele se vira para mim, assustado com minha presença e se encolhe contra a parede desta vez. Segura suas pernas esguias entre os braços, mãos que rapidamente varrem os olhos e bochechas para limpar as lágrimas. Parece que se prepara para dizer algo, mas nada sai de sua boca, de seus lábios, foco neles e Sexta-feira volta, estou diante de Alberto, Senhor, como posso tentar retribuir o ódio de uma criatura dessas?

    Respiro fundo, paro diante da cama dele. Não posso me deixar levar. Não consigo encará-lo também, então foco nos desenhos do Mickey Mouse que saltitam por seu lençol.

    — Alberto, por que você....

    — Me desculpe. — Ele interrompe. Sua voz está falha e se vê claramente que luta para não cair no choro soluçante novamente. — Eu não devia ter feito aquilo. Fui longe demais.

    Isso me confunde e embaralha as palavras do discurso já pronto que tinha em minha mente, me fazendo ficar com os lábios entreabertos por alguns segundos, sem sair som algum, esperando ele continuar, esperando que algo lógico venha à minha cabeça para dizer. Aspiro o ar do ambiente fechado pensando em oxigenar o cérebro num grande suspiro, mas inalo junto o cheiro tão agradável de Al que está presente por todas suas coisas, por todo seu quarto e isso não me ajuda a refletir. É único. Algo forte, de garoto e desodorante, mas também algo carinhoso e aconchegante. Tem aroma de árvores de folhas finas, de uma floresta de pinheiros ao sol, só que frio e misterioso. Talvez como abraço e outono ou um abraço no outono. Talvez tenha apenas o infinito contido em sua essência e eu esteja captando pequenas partes de um todo mais complexo.

    — É sério, eu... eu não sei o que pensei naquela hora. Foi além do meu controle, quando vi, fiz. — Esfrega a palma na face, terminando levando os dedos até os cabelos, enterrando eles no meio dessa cabeleira lisa e clara, espetada de tão desarrumada e despenteada. — Me desculpe.

    Balanço a cabeça sem entender. Ele não devia estar reagindo assim.

    — Não, Alberto. — Coço a nuca, respiro, sou invadido pela essência de Al, Al está em todo lugar. — Não se desculpe. Só me responda. — Olho em volta, capturo aqueles grandes olhos azuis claros e úmidos, ah, Deus, estão me encarando tão profundamente, com tanta expectativa, com tanta fervura, ele só pode querer me ver dessa maneira, pressionado, desconfortável, sem palavras. — Por que fez isso?

    Ele deixa cair o braço que antes apoiava sobre a cabeça, largando-o sobre o colo, flexionando os dedos. Parece treinar estrangular alguém. Fica uns instantes quieto, apenas me encarando fixamente, analisando cada milímetro de mim, físico e metafísico.

    — Como é que vou saber? — Diz por fim, irritado com minha pergunta talvez inconivente, desviando os olhos. Levanta da cama com dificuldade e eu tenho o impulso de ajudá-lo, parece que nem forças para se levantar sozinho tem. Começa a recolher os livros que estão jogados pelo carpete. — Como caralhos eu vou saber, Adrian?

    Suspira sonoramente, parecendo uma velha. Nunca me senti mais ignorante em toda minha vida. Um completo inútil, ainda por cima, nem consigo entender a pessoa que mais me importa. Para diminuir essa sensação começo a ajudar na coleta dos livros. Fico uns instantes em silêncio, mas minha vontade é tagarelar infinitamente sobre o motivo do porquê vim aqui e fazer isso ser entendido, coisa que... parece que não estou conseguindo muito. Talvez meu Al apenas esteja jogando comigo novamente. Meu não. Al não é mais meu. Nunca foi, na verdade.

    — Adrian — começa, mas logo para. Está hesitante, parece confuso, ainda meio irritado. Do jeito que franze as sobrancelhas, o conheço bem, parece mesmo irritado. Mas Al nunca fica irritado de verdade. Ou pelo menos nunca demonstra. — Olha só, não sei bem se entendi por que você está aqui.

    Prendo a respiração. Determinação, determinação.

    Ponho os livros empilhados na borda da prateleira onde ficam normalmente, eu sei, eu conheço a ordem por assunto que ele criou, sei listá-las na ordem em que ficam postas, livros da escola, livros de idiomas, livros de leitura obrigatória, livros da infância, livros de heróis, modinhas infanto-juvenis, depressivos, de autoajuda, crônicas, nonsense, sagas medievais gigantescas, clássicos pequenos e monstruosos e sua modesta coleção de mangás.

    — Ou talvez — continua, vendo que me entreti com os livros e deixei sua pergunta sem resposta. —, simplesmente tenha sido você que não entendeu alguma coisa aqui ainda.

    Rio. Me viro para ele, desta vez sim sabendo que tinha resposta. Oh, e como eu sabia.

    — Eu entendi bem o que aconteceu, bem até demais, Alberto. Entendi que você me salvou, lá naquele dia que nos conhecemos, na oitava série, na atividade de integração, eu me lembro. Entendi que nunca em toda minha vida encontraria uma pessoa como você, e entendi também que você sempre foi tão incrível que nunca ninguém encontraria alguém como você e por isso todos gostam de ti.

    — Do que você está falando, seu idiota? — Sua voz começa a ficar embaraçada novamente, seus olhos úmidos me afetam, mas não posso mais parar.

    — Então entendi que por você ser a pessoa mais bondosa e carinhosa de todas, nunca rejeitaria o afeto de ninguém que salvou também, nenhum dos seus amigos, ninguém mesmo. Entendi que queria cuidar de todos de uma vez só como fazia comigo. Entendi que não era o único que dependia de você. Não era o único que te queria, nem o único que você queria.

    — Você por algum acaso está me chamando de puta? ­— Sim, ele está começando a chorar de verdade, chorando e gritando, ele está mesmo zangado agora, pela primeira vez na vida, mas agora não consigo mais parar.

    — Entendi que sua crueldade era boa e sua bondade era cruel e que isso era viciante. Entendi que você ia atrás de mim para me fazer depender de você, então quando eu me voltava a ti, você me dava as costas apenas para me ver indo atrás. Entendi que tudo isso não passava de um joguinho para você. Um joguinho social.

    — Adrian, meu Deus, do que você está falando, pare com isso... — Seu choro me corta, ele me abre, o medo já passou, ou simplesmente tomou conta de todo meu ser a ponto de eu não mais discerni-lo do resto do meu corpo. E agora tudo que eu quero é responder minha pergunta e ir para casa chorar tanto e com tanta vontade como Al está fazendo por minha causa agora.

    — Entendi tudo isso de você e ainda sim continuei necessitando de ti, porque você se tornou tudo para mim. Mas também entendi que apenas sua atenção, a mesma que você dava para todo mundo não era suficiente para mim, e sei, eu realmente sei, como fui cruel contigo. Porque minha raiva de mim mesmo por te querer era do tamanho da repulsa que tive por ti. — Nesse momento, Al se apoia na parede, como se ouvir o próprio sistema sendo posto em palavras, desmascarado por seu principal alvo, fosse demais para suportar. — Entendi que isso talvez tenha ido longe demais, que eu tenha ultrapassado os limites da sua paciência infinita, talvez fosse isso mesmo que eu queria. E entendi, por último, que, depois de tanto tempo sofrendo pela minha rebeldia você quis me largar de vez, pois eu era uma ameaça a você. Mas fez isso de uma maneira que podia se vingar de mim também, para que saísse vitorioso no fim. — Al me encara com olhos arregalados e vermelhos, me acusando, chorando com a face desfigurada, que beirava ora o furioso, ora o confuso, ora o atônito. Eu? Não sinto mais nada, nem se vivo ou se já morri para ser a assombração que agora atormenta Al em seu quarto. Talvez seja por isso que me olha assim. — A única coisa que não entendi, meu querido Alberto, é o motivo de eu estar aqui. Porque eu preciso seguir em frente, por favor, apenas me dê esse favor, porque eu respeito demais a ti, eu me orgulho da sua inteligência para todas essas estratégias que você bola, para toda essa organização e manipulação. E eu que pensava que estava a par de todas as suas ideias! — Rio sem achar graça de verdade. — Só me diga por que para acabar comigo em frente a todo mundo você teve que se afundar junto comigo? Se rebaixar a tanto?

    Quando acabo de falar, fica um silêncio desconfortável. De fala, claro, porque meu coração martela em meus ouvidos e tento recuperar o fôlego (por falar tanto) da maneira menos ruidosa possível, sem muito sucesso. Além dos grunhidos secos de choro sendo reprimidos por Al, que está me olhando mais pendendo para o desorientado agora. Me encara demais, ele, e começo a me sentir meio idiota por ter feito todo esse discurso para talvez sair daqui sem uma resposta.

    Espero Al se acalmar na expectativa dessa resposta. Preciso da resposta. Ele respira fundo, engole o choro e, Deus, ele estende a mão para a Dona Ira, essa vagabunda, que está ao seu lado.

    — SEU. IDIOTA. — Ele pega o primeiro livro que consegue alcançar e atira em mim, era O Pequeno Príncipe. — Como é que pôde pensar numa coisa dessas? — Os Treze Porquês. — Você é louco? Você é retardado? Tem problemas? — Memórias do Subsolo. Engraçado que na versão da L&PM foi traduzido como Notas do Subsolo. — Dos grandes, né? ­— Quando roça a mão na Dança dos Dragões, ao lado da versão integral dos Irmãos Karamazóv de capa dura, sei que não vou desviar e vai doer, vai doer mais que perder meu Al, mas não mais que sair sem saber o que vim saber.

    Pulo meio abaixado para frente e agarro seu pulso antes que consiga atirar o monstro literário em mim. Al se debate como uma bonequinha de pano, enquanto grita para mim soltá-lo, mas aqueles pulsos branquelos são gravetinhos em minhas mãos, me sinto rude e agressivo, mas não diminuo a pressão. Estou tocando Al, meu Al, mas não importa agora, eu só quero que ele fale para mim ir embora para sempre de sua vida.

    Ele só para de me xingar quando a força que faço, sem perceber direito, em seu pulso se torna tamanha que precisa me dar um soco para se soltar. Ele também não mede forças, aquele grande filho da puta, minha cabeça voa para trás e bate na porta. Finalmente solto seu pulso, está vermelho e não consigo me importar. Só quero que me diga. Não me importo com essa dor lasciva que arrebenta meu crânio e fica se chocando contra meu cérebro, fazendo um grande milk-shake cor-de-rosa. Só preciso saber.

    — Escute aqui, Adrian, — Ele massageia o pulso, face corada pelo choro e raiva, me encara profundamente, os olhos cristalinos e ensolarados agora tempestuosos, apesar de limpos, sempre limpos. Meu Deus, o que estou fazendo. — Você quer tanto saber essa merda de pergunta, tudo bem, eu lhe respondo. — Dá uma grande puxada de ar, e solta. — Porque eu te amo, imbecil. Eu gosto de você, você sempre foi meu amigo mais especial, mas eu não te vejo só como amigo, está bem?

    Não, não faz sentido.

    — Mas... — Hesito, esse poderia ser mais um de seus truques. — Sexta-feira passada você fez aquilo porque queria me destruir, foi nossa batalha final...

    — Batalha final, garoto? Você está doido? — Joga as mãos para cima, pasmo comigo. Não entendo o que ele diz, começo a me sentir confuso, perdido, nada comparado a antes. Minhas certezas que tinha certeza que eram certas começam a oscilar e só quero saber minha resposta, a resposta final para tudo acabar, não gosto quando contrariam minha versão das coisas, minhas verdades são sempre verdadeiras. — Eu te beijei simplesmente porque eu queria, porque eu desejo você. As pessoas se beijam quando amam, sabia?

    Minha cabeça dói da pancada agora, ainda por cima, estou começando a sentir dor cada vez mais forte e não gosto disso, e nada, nadinha faz sentido. Começo também a me sentir idiota, o sangue sobe minha face e queima, sobe a culpa, sobe o medo, sobe o arrependimento e não sei o que fazer. Embasbacado paro olhando Al declarar-se para mim em nossa despedida final.

    — Mas contigo foi sempre assim, não é? — Ele passa a mão no rosto, esmagando o nariz, ainda está zangado, mas parece se conter. Lágrimas começam a descer novamente por sua face. — Sempre foi difícil. Você não parece aceitar as coisas como elas são, simples, práticas, sem explicações, você sempre tem que problematizar toda a sua vida, e, adivinha? Você me puxou junto para esse buraco negro que você criou.

    — Mas você....

    — Sim, Ad, sim — Al me corta. — Eu tenho amigos, eu trato eles bem porque sou uma pessoa normal tentando ser simpático. Mas você... Puts, eu me apaixonei por ti. E você parece uma criança fantasiando mil e uma estratégias para negar isso não importando o quando eu deixe claro para ti. — Põe as mãos nos meus ombros, ele está quente, quente como um dia de verão, com o aroma de outono, me sinto em março, mas estamos em outubro e isso não ajuda a organizar as coisas. — Eu sabia desde o início que talvez você não sentisse o mesmo por mim, mas você sempre me tratou tão... com tanta...  Eu não sei, Meu Deus, você me deixa confuso, ora me abraça e sinto que gosta de mim, ora vira as costas e me sinto um lixo.

    Ele faz uma pausa, analisando cada centímetro do meu ser. Era mentira. Al não sabe tudo sobre mim e eu não sei nada sobre ele. E ao que parece agora, também não sei nada sobre mim. Ou da realidade.

    — Sei que esse tipo de relacionamento não é fácil. Pensei que era por isso que não queria ficar comigo na frente dos outros. Mas poxa, Adrian, você sabia que eu era gay! E você não falava nada, não dizia nem sim, nem não, apenas ignorava completamente e isso me deixava louco.

    Oh, meu Deus, Alberto é gay. Eu não sabia disso, mas de um jeito sabendo, creio. Minha cabeça dói tanto e eu sou tão idiota.

    — Então, se quer que eu seja mais específico, depois de tanto esperar, e esperar e esperar por ti, apenas sendo ignorado, Sexta eu resolvi deixar o mais claro que achei que conseguiria. Na frente de todos porque se não você iria me ignorar do mesmo jeito!

    Cai em soluços, esforçando-se para falar. Ele está tão perto, tão frágil, tão outra pessoa do que me lembro. Sequer consigo me lembrar direito do que me lembro, dói tanto....

    — Não sei, Adrian, juro que não sei. Parece que você tem uma memória seletiva, deleta tudo que não presta para seu joguinho doentio de criar historinhas. Quando vi que você não veio para a aula Segunda pensei estava passando um tempinho para tentar se esquecer disso também. Sério. Eu te amo. Mas você é uma máquina de sofrimento alheio, meu Pai. Eu não posso continuar com isso. Não dá mais. Não tem como. Não tem como se vivemos em realidades, em universos tão diferentes apesar do mesmo mundo.

    Então... Nossa relação não era complicada? E.... eu sou especial para Al?

    Assinto lentamente, percebo que lágrimas estão escorregando por minhas bochechas, mas não entendo o motivo. Não, hoje não há comparações, elas me fugiram e eu também não entendo. Alberto tira suas mãos de meus ombros, há uma expressão de dor em seu rosto. Deve estar doendo para ele também. Al me parece uma pessoa tão comum agora, não entendo o que aconteceu.

    — Então... se você puder ir agora, por favor, seria bom. Me desculpe por tentar amar você, cara. Agora por favor, eu preciso chorar amargamente.

    Me inclino para frente, seguro seu queixo entre o polegar e o indicador e ponho meus lábios sobre os dele, Alberto nada faz para me impedir. Afasto meu rosto um pouco, o suficiente para conseguir vê-lo. Al está horrível, choroso, e eu estou confuso. E nem pude sentir sua saliva. Me aproximo e experimento seus lábios novamente, dessa vez entreabrindo-os, e não encontro nenhuma resistência. Ele não escovou os dentes esta tarde.

    — Eu não sei, Al. Eu só... não sei.

    — Eu sei. Por isso estamos aqui, Adrian. — Ele me afasta delicadamente, parecendo se dilacerar por isso. Al, no fim das contas, ainda continua muito gentil, mesmo depois de me atirar parte de sua pequena biblioteca. — Este é o grande problema.

    — Mas eu queria saber.

    — Você sabe. Demais e muito, mas aquilo que não é necessário saber. Você pensa demais. — Dá um beijo em minha bochecha e como isso seca minhas lágrimas não sei dizer. — Agora vá embora, e tente explicar para minha mãe no caminho o que foi essa gritaria aqui dentro que ela deve estar, além de preocupadíssima, arrancando os cabelos de curiosidade.

    Hesito. Minha pergunta já foi respondida. Prometi que depois disso iria para casa e então tudo teria acabado.

    — Você ainda é meu amigo, Al?

    Ele sacode a cabeça e se vira de costas, juntando novamente os livros voadores.

    — Vá para casa, Ad. Não me machuque mais.

    — Mas você me ama ainda?

    — Muito. Agora vá embora antes que eu faça Crime e Castigo entrar fisicamente em seu cérebro.

    Sorrio, e dando meia volta vou embora. Tinha razão. Esse foi o fim de tudo, tudo acabou, terminou. Nossa relação complicada acabou e tudo deve mudar agora.

    Sinto-me ansioso para ver o que começa de agora em diante. O tudo que acabou, mas tem que começar de novo, apesar de diferente. O tudo mudou porque eu mudei, instantaneamente, e noto isso agora. Ai, Alberto, depois de tudo que faço por ti você ainda tem coragem de reclamar? Tsc, vou viver para cair nesses seus joguinhos, seu manipulador. Mas esse, agora, eu não vou perder.

  • Efeito

    Vira o Super Homem, não come, não sente cede.
    O Robõ Cop, não sente amor nem sente dor.
    Egoista.
    Se sente invencivel com aço no lugar de
    arterias, metal no lugar de coração.
    Palavras cortanres como lâmina, atinge feito
    pedregulho em atiradeiras. Deixando meu Eu
    em cacos, meu âmago.
    De dentro para fora você desfigura o que
    havia de melhor em mim.
    Feito coléra.
    Por seu efeito Super Homem.
  • Ele

    Ele cansou. Está exausto de correr atrás do presente. Cansou do cheiro de coisas novas e preferiu usar o tato para encontrar conforto. Ele engoliu litros e mais litros de gritos acorrentados que hoje pesam dentro de seu estômago. Ele está tentando evitar essa ânsia que bate em sua porta todos os dias. Ele sobe as escadas até o vigésimo andar só pra olhar pela janela e assistir o presente visto de cima. Ele caiu na inércia. Entrou em piloto automático. Ele adotou o padrão e expulsou os devaneios da sua própria boca. Ele quebrou os próprios dedos pra não conseguir escrever sobre o peso dos gritos que arranham suas pregas vocais. Ele ficou diante de todos os caminhos e vendou os olhos para entrar no mais dolorido. Ele não está aqui. Ele está no seu próprio mundinho pedindo socorro por dentro e forçando um sorriso por fora. Ele pediu ajuda aos remédios e se viu com um punhado de fragmentos da própria morte em suas mãos. Pensou em por pra dentro também. Mas os gritos ocuparam todo o espaço. Cheio. Transbordando. Fechado.
  • Enfim entendemos o significado de união

    A humanidade se regozija
    Estamos vivendo a era da prosperidade
    Tecnologias por todo lado
    Tudo estava bem...
    Cada vez mais e mais descobertas
    Cada vez mais e mais máquinas
    Meio ambiente?!
    Passado
    Em breve não precisaríamos mais disso 
    Seríamos capazes de produzir nossos próprios recursos naturais
    Áreas verdes de nada mais serviriam
    Estariam apenas ocupando espaço
    Barrando o progresso
    Logo seriam substituídas por empresas
    Afinal, elas geram lucro

    No entanto, tantas descobertas e inovações
    Nos deixaram ignorantes
    Egoístas
    Detemos tanto poder, tanta inteligência
    Passamos a nos achar invencíveis 
    Seres racionais usando sua racionalidade
    Nada de mais...
    Nos tornamos dependentes da tecnologia
    E como tolos permitimos que o mecanismo que quebrava fronteiras e unia a humanidade,
    Servisse como ferramenta principal para separa-la 
    Guerras 
    Disputas 
    Tecnologia sendo usada em armamentos nucleares
    Bombas capazes de destruir uma cidade inteira
    Humanos se achando deuses
    Para que retórica se existia violência?!
    Impor ideias é bem menos cansativo

    O mundo estava todo conectado
    Mas a humanidade nunca esteve tão desunida 
    Por isso, que quando uma pandemia assolou o mundo
    Tudo parou
    Desespero
    Mortes em massa
    Recursos chegando ao fim
    Tão pertos mas ao mesmo tempo tão distantes de uma cura
    A humanidade foi lembrada de sua fragilidade
    Haviam coisas que, não importa o quanto o quanto evoluíssemos,
    Nunca seríamos capazes de controlar

    E somente assim foi que nos lembramos do significado de união
    De empatia
    De amor ao próximo
    Finalmente percebemos que somos mortais
    Que a tecnologia não é capaz de resolver tudo
    E principalmente, fomos capazes de recpnhecer a importância do outro

    Mas, apesar de tudo
    Ainda existem aqueles que insistem em
    Tornar político um problema relacionado à saúde
    Querem alguém a quem culpar 
    Querem ver o circo pegar fogo
    Tais pessoas
    Culpam o presidente
    Culpam a China
    Culpam os ricos
    Culpam as pessoas por saírem para trabalhar
    Mandam ficar em casa
    Mas criticam o fechamento do comércio
    E o isolamento social
    Há mesmo aqueles que desdenham da pandemia
    Chamam de gripe
    Um golpe para desestabilizar as grandes potências
    Porém, como culpar os outros
    Como criticar
    Poderia milagrosamente mudar nossa situação?!
    A preocupação maior não deveria ser
    Como venceremos isso?!
    Devemos todos focar em acabar com tudo isso
    Agora mais do nunca devemos estar unidos
    Todos se ajudando 
    Sem discriminação
    Sem desigualdade
    Nesse momento é crucial que seja a humanidade 
    Contra o Covid-19

    Aos governantes, sabedoria
    Ao povo, paciência e compreensão
    Vamos vencer
    Mas para isso cada um deve fazer a sua parte
    E ajudar da melhor forma possível
    Afinal,
    Juntos somos mais fortes!
  • Ensaio auto analítico sobre Id e não Poder – ou “Nietzsche, Freud e Sócrates entram em um bar...”

    As ideias vêm, vão e voltam; mas a impotência é a mesma. A vitória do Superego sobre o Superman. Quanto esforço é necessário para tornar-te quem tu és? Como saber se é o isso ou o ego falando? As ideias vêm e vão – isso é mais forte do que eu! Mas se penso, não falo, não faço, logo não existo, desisto... E se insisto, me vejo perdido entre a Vontade (de Potência) e a inabilidade que me estapeia a cara.
              A resposta: Conformismo ou esforço? Trabalho ou inércia? Negativo, Reativo, Passivo ou Ativo; de que adianta, se o pé não encontra chão onde pousar? Esforço compensa ignorância? O que vale mais: a intenção ou a atenção? Ser dedicado não significa ser hábil, tão pouco hábil significa ser sábio. (Ouço uma voz: “Eis que te apanho, niilista!”). As artimanhas da linguagem – velha embusteira! Me convêm, me confortam, me iludem a ponto de não querer mais ser o que tendo à me tonar; o que já sou agora, basta. O jogo de palavras, pois, é a expressão linguística da razão inadequada.
              Detesto admitir que me entreguei... E apelei covardemente à retórica, o botão vermelho dos fracos. O Escravo transvestido de Senhor. Sou um anão na terra de gigantes, escalando seus membros montanhosos, fincando minhas garras em migalhas de Poder. Finalmente, no cume do colosso, a vista é melancólica; pois evidentemente nunca a conquistarei. A não ser que... Me atrevo? E se esta vista, que tanto seduz, não fosse a real? O segredo para ser o rei do mundo, é moldá-lo – por exemplo – do tamanho ideal para um anão e inconveniente para um gigante. Quanto mais gênios, menos gênios – o extraordinário ordinário. A verborragia é mascara, não aquela que cobre a cara, mas a cada momento fala – sem palavras...
              Não me tente – exclamo ao superego – com esses valores superiores fantasmagóricos. O fato é que estou fraco, mas não sou escravo de ninguém (isto vale para você, Ego corrompido). A afirmação virá. Sim! Triunfante. Não obstante, não me resta apenas ambicionar esperançoso. É na guerra que se encontra a paz – existe o poder de curar mesmo no ferimento... AMOR FATI.
  • Ensaio sobre a terapia na escrita introspectiva

    "Minha escrita é análoga ao espasmo dos membros ao despertar de um sonho intenso, é o ato de segurar um cigarro fantasma entre os dedos – sequela de um vício passado. Escrevo como quem diz 'eu amo você' pela enésima vez, como quem se desculpa ao pisar no rabo do cachorro acidentalmente. Escrevo, não por que preciso, apenas faço sem julgar. Escrevo por impulso.
              Palavras e palavras e palavras perdidas entre a rota de colisão da criatividade com a autocrítica, findadas pela revisão algoz. Letras assombrando minhas noites insones, dando fruto a ideias desconexas fadadas a serem palavras não lidas ou lixo eletrônico. Textos abandonados, vítimas da procrastinação e intervenção de outros textos, que se misturam formando uma grande avalanche de conceitos mal explorados, inacabados e esquecidos. Minha escrita é análoga à um ciclo vicioso, meus hábitos são hábitos de um viciado.
              Escrevo até atingir o narciso orgasmo literário contido em cada ponto final e, não obstante, não me orgulho disto. Meu sonho é algum dia escrever algo à alguém, pois, apesar de todos os esforços, no fundo todas a palavras são minhas e para mim. Literatura é atividade solitária e a comunicação por meio dela é uma mentira. Tudo escrito vem de dentro para dentro, numa espécie de introspectiva metalinguística.
              Contudo, é inevitável o dilema do escritor. Figura que vaga num deserto de vaidade em busca de olhos em sua direção, de mentes engajadas em suas opiniões. O leitor é um pequeno, porém imprescindível, intermediário entre aquele que escreve e o que é escrito. Apenas com a leitura por parte de terceiros é possível concretizar a satisfação que a escrita promove. Em outras palavras: a escrita é o diálogo entre o escritor e seu texto e o leitor é como um psicanalista silencioso – ele se acomoda num canto e aguarda até o escritor encontrar um modo de se encontrar dentro das próprias palavras.
              Escrevo como quem faz terapia. A ilusão de estar sendo ajudado é proveitosa para o doutor e cogente para mim. Escrevo para me salvar. Escrevo por escrever..."
  • Entre Lobos - cap. 7 (conto-romance)

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    Não se sinta perdido...LEIA os capítulos anteriores! Tenha uma ótima leitura e Obrogado a a tenção!!
    Katherine estava em seu quarto no segundo andar quando de sua janela os viu chegar. Não soube ao certo o que estava acontecendo afinal de contas Mark não os visitava com frequência, mas o que a deixou incomodada foi a presença de Derek.
    — Mark querido! – sua tia os recebeu. — Mas que ótima surpresa!
    — Olá titia! – a cumprimentou.
    — Mas o que o trás aqui a essa hora? – já era final de tarde. — Espero que nada...
    — Não, não! Eu vim por que...bem... – fitou Derek ao seu lado. — Precisamos...
    — Gostaria de falar com a senhora e o seu marido. – Derek interveio.
    Mark o mirou surpreso, de fato, não imaginava que seu amigo estivesse disposto a “encarrar” aquela situação de forma tão decidida.
    — Você é...? – a mulher então o fitou. – Oh, claro! – lembrou-se do almoço de outro dia. — O amigo de Mark.
    – Derek! – apresentou-se estendendo a mão para a senhora que respondeu ao gesto.
    — Derek, isso! – ela falou ainda recordando do assunto que envolveu ambos aquele dia. — Sim! Alan está na sala, mas o que há? – perguntou buscando a face dos dois a sua frente.
    — Gostaria de falar com vocês sobre Katy. – Derek respondeu.
    Ainda antes que acabasse de falar veio a voz rouca do homem de dentro da casa indo em direção a saída.
    — Mas que conversaria é essa afinal de contas? – falou e em seguida surgiu ao lado da mulher ao escancarar ainda mais a passagem. — Mark? O que está acontecendo?
    A mulher, com o olhar pedido sobre Deck, ainda tentava entender qual era a situação.
    — Esse rapaz – então voltou dizendo. — Veio nos falar sobre Katy. – sem tirar o olhar de cima dele foi direto ao ponto.
    — Katherine? – soltou franzindo a testa e quase que instantaneamente flechando Derek com um olhar desgostoso.
    — Sim! – ele posicionou-se.
    — E oque exatamente você teria para dizer sobre nossa filha? – adiantou-se colocando-se a frente de sua esposa que recuou obrigando-se a observar a conversa por um espaço que lhe sobrara.
    Nenhum deles havia reparado, mas não muito distante de onde estavam, Katherine, atrás de um pilar os observava com atenção. Assim que ela percebeu ser a razão daquela visita sentiu um certo desconforto, seu coração acelerar como nunca antes. Sim, a verdade é que reprovara Derek no primeiro instante em que o conheceu... Sua rebeldia, suas roupas desgastadas, aqueles olhares audaciosos, intrometido sobre ela, mas reconhecia também que algo havia mudado com a aproximação que tiveram outro dia no parque. Agora ele estava ali, falando com seus pais e ao mesmo tempo em que aquilo lhe parecia um absurdo, foi algo que mexeu ainda mais com seus sentimentos.
    — Espera. O que você está me dizendo?! – Alan. — Sentimentos por Katherine?
    — Não quero que o senhor me entenda mal – Derek se explicando. — Tenho as melhores intenções por Katherine e acredito que ela...
    — Filho! – Alan intrometeu-se e depois deu uma pausa fechando a porta para que ele e os dois rapazes ficassem a sós na varanda.
    Assim que viu a entrada ser fechada, Katherine resolveu deixar a sala, foi então que sua mãe a enxergou.
    — Querida! O que está fazendo aqui? Achei que estivesse em seu quarto. – aproximou-se de sua filha.
    — Ouvi, o que estavam, dizendo. – Katherine respondeu pausadamente.
    — Oh, sim! Mas não se preocupe, está bem? Seu pai vai resolver tudo. Esses jovens rapazes sempre confusos com as ideias. – concluiu sorridente em quando seguia com ela para o segundo andar.
    Do lado de fora.
    — Você não sabe o que está dizendo e eu entendo, afinal de contas você não deve imaginar o que realmente se passa com Katy, então vou ser franco com você.
    — Pelo contrário! Sei exatamente o que está acontecendo e isso não interfere no que sinto por ela, Senhor.
    — Você sabe?! – fitou Mark. — Então entende que já temos muito com o que nos preocupar aqui e não precisamos ainda ter que sondar um relacionamento que certamente não tem possibilidade de ir muito longe – pausa. — Talvez, sim, você tenha boas intenções... Derek, não é mesmo? – puxou o nome da memória. — Mas Katy não tem que passar por esse tipo de decepção.
    — O senhor me desculpe! Entendo que queira mantê-la segura, mas como pode ter tanta certeza de que não teremos um ótimo relacionamento? Acredito no amor que sinto por ela se Katherine estiver disposta a...
    — Amor! – Alan repetiu a palavra com certo desdém. — Acredite filho. Não é exatamente o “AMOR” que mantém um relacionamento ou até mesmo um casamento por anos. Em condições normais temos que saber provir a família de tantas formas que você ainda – o fitou por completo. — Desconhece. Com a condição de Katy a situação é ainda mais exigente.
    — Não estou descartando dificuldades Sr. Alan, mas tenho certeza de que Katherine e eu nos ajustaríamos a nossa maneira.
    — E que maneira seria essa?! – o homem então disse em um tom mais duro. — Levá-la para suas farras onde vocês brigam e bebem a noite inteira? – ficou Mark que mirava um canto qualquer enquanto ouvia. — Minha filha não vai ser mais uma de suas diversões, rapaz!
    — Mas senhor... – Derek insistiu.
    — Não há mais o que ser discutido sobre isso! – o homem concluiu. — Katherine está bem do jeito que está e espero que não se aproxime dela. – estendeu a mão indicando o caminho da estrada. — E você, Mark, faça o favor de não ficar instigando essa bobagem.
    — O senhor está errado! – Derek segui falando mesmo com seu amigo o empurrando para fora da varanda. — Todos vocês estão errados! Estão sufocando ela. Impedindo que ela tenha a própria vida!
    Sem dar atenção Alan fechou a porta.
    Já no andar de cima, da janela, Katherine viu seu primo e o amigo embarcarem em suas motos. Ainda antes de dar partida Derek a viu entre as brechas da cortina e foi embora.
  • Entre Lobos (conto-romance) 1/9

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    Estados Unidos 8/12/1941

    “...Peço que o Congresso declare que, em vista do ataque ardiloso e não provocado do Japão no domingo, 7 de dezembro, um estado de guerra passa a existir entre os Estados Unidos e o Japão”
    Franklin Roosevelt


    Minnesota, condado de Todd, final de tarde. Dias após o ataque a frota naval americana.

         Escorado sobre a mesa da cozinha, John tentava estabilizar a frequência da radio. A todo instante era transmitido notícias sobre a guerra que partira da Alemanha nazista sobre a Europa. Agora, com a participação do seu país na batalha após o ataque em Pearl Harbor, todo jovem americano era bem vindo ao exército e isso o deixava tenso, pois, Derek era seu único filho e possivelmente iria acabar envolvido àquela causa. Sua concentração era tamanha sobre os noticiários que se quer havia reparado que o próprio chegara e de fato só deu-se conta disso depois que seu filho largara um envelope a sua frente.

          — O que é isso? – perguntou sem tocar na correspondência.
          — Aqueles desgraçados vão pagar caro pelo o que fizeram! – Derek respondeu com precisão. — Vou me juntar ao exército! – declarou.

          O homem escorou-se na guarda da cadeira e tomou fôlego. Desfez-se do ar e levantou sem dizer uma única palavra deixando que a transmissão da rádio encontrasse seu próprio jeito de se consolidar. Foi até o armário e retirou um cigarro da carteira e em seguida escorou-se à porta de saída. Acendeu o fumo e tragou a fumaça profundamente antes de começar a falar.

          — Só espero que não esteja fazendo isso por causa daquela def...
          — Deixe Katy fora disso! – Derek interferiu-se. — Isso nada tem a ver com ela. – esclareceu. — E agradeceria se o senhor não a chamasse dessa forma novamente. A caso tem simpatia pelos ideias daquele tal Führer? – finalizou em um tom mais sério.
          — Não diga bobagens, rapaz! – o senhor firme contra aquela injúria. — Mas está bem! Faça como quiser. Não vai mais me ouvir dar um “pio” sobre essa garota, mas saiba que está criando a ti mesmo um grande problema! – deu outra tragada no cigarro.

          Derek não soube ao certo se seu pai se referia a sua entrada ao exército ou ao seu relacionamento instável com Katherine. Em meio aquele breve silêncio em que se encontravam, ouviram a chegada de um visitante. O rapaz deixou sua motocicleta junto a de Derek e foi de encontro a ambos, agora, parados em frene a  entrada da casa.

          — Sr. John! – o rapaz o cumprimentou respeitosamente antes de falar com Derek.
          — Olá, Mark! – o homem respondeu. — E as novidades, rapaz?
          — Bem... – mirou Derek. — O senhor já deve estar sabendo da nossa... Inclusão! – orgulhoso, referiu-se ao alistamento militar.
         — Claro que sim! – demonstrando não estar surpreso em saber que os dois estariam juntos também naquela empreitada, John respondeu com um pigarro rouco. — Afinal de contas, onde um estaria se não estivesse o outro? – riu-se com certo deboche.
          Mark apenas respondeu com um sorriso na face.

          — Precisamos conversar! – Mark dirigiu-se ao amigo logo à sua frente.

         Percebendo que seria um assunto que não lhe dizia respeito, John deixou que os dois rapazes ficassem a sós. Depois de trocarem algumas poucas palavras Mark deixou clara a razão de ter vindo. De dentro de sua jaqueta, retirou uma folha de papel dobrada e entregou ao outro. Era de Katherine, escrita por sua irmã Mary.

          — Ela está preocupada, Dek! – Mark comentou. — Acha que a ideia de termos entrado no exército foi meio... impulsiva. – descontraiu.

          A mensagem falava sobre a repulsa de Katherine sobre o alistamento de ambos e do quanto ela tronara-se mais reclusa após o término do relacionamento com Derek. Informalmente, pedia ainda para que ele viesse vê-la, deixando claro que os pais dela agora mostravam-se mais receptivos quando a presença dele.

          — Como ela está? – Derek pediu sobre Katy.
          — Até onde sei, mal tem deixado o próprio quarto... – breve pausa. — Pra uma pessoa que adorava fazer passeios isso deve significar alguma coisa, não?
          — Nada disso precisava ter acontecido. – Derek soltou. — Sabe que não foi por minha causa que...
          — Não os tenha mal. – Mark o interrompeu. — Meus tios sempre foram muito cautelosos a tudo o que envolvesse Katy... Só pensam na segurança dela.

         Ficaram em silêncio por alguns segundos.
         — Então, você não vêm? – perguntou.

         Derek o fitou condenando a possível chance de o amigo ter lido sua correspondência.

         — Não, não! – Mark logo se defendeu ao perceber a reação do outro. — Elas só me fizeram prometer que te convenceria ou te levaria amarado até lá. – brincou pondo novamente o capacete.

          Ainda que aquele convite lhe parecesse, num primeiro instante, estranho, Derek sabia que era preciso aceita-lo já que lhe restava pouco tempo na cidade e a verdade é que pouco importava se os pais de Katy, por causa da atual situação da filha, apenas iriam tolera-lo. Ele ainda a amava e nada sabia do que estava por vir assim de partisse para longe dela.

          — Vou dar uma saída! – esquivando parte de seu corpo para dentro da casa avisou seu pai que respondeu erguendo seu copo munido de whisky enquanto ainda fumava e fuçava na transmissão da rádio.

    Confira o capítulo seguinte! 
  • Entre Lobos (conto-romance) 3/9

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    Não sinta-se perdido LEIA os capítulos anteriores! Tenha uma ótima leitura!

          Mary e Katherine vinham caminhando sobre a calçada quando viram, surpresas, seu primo alçando voo de dentro de um estabelecimento poucos metros a sua frente. O rapaz caiu completamente desengonçado e por esse motivo tiveram razões o suficiente para crer que ele não teria condições de erguer-se novamente, mas ainda mais incrédulas, viram ele, ainda meio zonzo, pôr-se em pé. Correram dar-lhe suporte.

    — Mark! – Mary assustada sem entender o que estava acontecendo. — Meu Deus! O que foi isso?! – o investigava de cima a baixo como se buscasse a certeza de que não lhe faltava qualquer pedaço.

    — Varsóvia! – o outro disse ofegante apoiando-se sobre os joelhos. — Maldito desgraçado! – soltou usando o restante do fôlego.

    — O que?! – no primeiro instante a única coisa que conseguiu pensar foi que se ele estivesse bêbado ou  provavelmente estava delirando por causa da queda.

    — Varsóvia foi rendida – continuou falando. — E aquele filho da mãe – mirou para dentro do bar. — Acha que está seguro. – sacudiu a cabeça negativamente. — Não hoje!

    — Mas do que você está falando?

    — Cuidado! – então advertiu afasto-as da entrada antes que fossem atropeladas pelos dois rapazes que agora saíam porta a fora socando-se.

    Sobre a calçada, depois de apartarem-se, Derek e o grandalhão passaram a se espreitar, um estudava o outro esperando o primeiro equívoco, um simples deslize para aquele embate chegar ao fim.

    — Nem sei bem ao certo o porquê de estarmos fazendo isso, cara! – Derek de punhos cerrados, fixo no oponente.

    — É um bom motivo pra você se arrepender de ter entrado nessa, então! – o outro respondeu.

    Então, todos ouviram a sirene soar e a viatura policial encostar rente a calçada.

    — Mas o que está havendo aqui? – o oficial falou sem deixar o veículo.

    Ambos se recompuseram, mas ainda se encarando.

    — Desculpa, chefe. – Mark adiantou-se. — Foi só um desentendimento entre... amigos. – buscou o semblante de Derek e o outro.

    — Mas olhem só... – o policial reconheceu Derek. — Parece que a confusão da noite passada não foi o suficiente, hein rapaz! Por que não me admira que você esteja no meio desse tumulto?

    — Eu...

    — Foi por minha causa! – Mark novamente. — Me desentendi com o... amigo – indicou com a face o grandalhão. — E... cá estamos nós. – soltou sem de fato explicar a situação. — Mas não foi nada de mais, já estamos... resolvidos, certo? – fitou o rapaz novamente que não respondeu, apenas ergueu mais o rosto mostrando superioridade.

    — Então é melhor que todos se acalmem. – o oficial falou com autoridade. — Ou vão acabar encrencados de verdade! Todos vocês. – completou antes de dar partida na viatura.

    O grandalhão passou uma das mãos sobre o lábio e sentiu o gosto do próprio sague. Sorriu.

    — Nada mal! – começou a recuar lentamente e por fim dando as costas para todos e indo embora.

    — Mas afinal de contas o que foi tudo isso?! – Mary completamente confusa. — Não acredito que você anda se envolvendo em confusão, Mark! – reprovou. — Titia não iria gostar nem um pouco de saber que...

    — Não se preocupe. – disse num tom calmo. — A propósito esse é Derek! – apresentou o amigo. — E obrigado, cara. – agradeceu em seguida.

    — Por ter levado uns socos por você? – o outro descontraiu. — Como eu poderia ter recusado!

    — Bem, me parece que os dois valentões estão satisfeitos, não? – Mary ainda tentou repreende-los.

    — Não muito! – Mark. — Ser jogado daquela forma foi humilhante. – completou vendo o sorriso machucado do amigo. — Me senti menosprezado, droga!

    Derek se ria ouvindo o amigo desgostoso quando passou a reparar na demasiada indiferença de uma das moças sobre tudo o que estava acontecendo. De fato, a garota ser quer havia dito uma única palavra desde que elas apareceram por lá. Talvez fosse tímida ou simplesmente, assim mostrou seu delicado e refinado modo de se vestir, ele a enojava. A verdade é que dificilmente se saberia ao certo e, de qualquer forma, aquele rosto doce com olhos claros lembrando dois diamantes azuis sutilmente lapidados, já havia aguçado a atenção dele. Como provavelmente aconteceria, a moça percebeu o olhar descarado e persistente sobre ela. Tentou desvencilhar-se buscando pontos que o tirassem de sua mira, mas obtinha sucesso por poucos segundos. Não demorou muito para que Mary reparasse no que estava acontecendo.

    — Bem... – Mary continuou. — Eu e Katy já estamos indo e aconselho a você a ir para casa também antes que arrume mais confusão. – sugeriu.

    — Estamos bem. – Mark declarou. — Foi só um imprevisto. – completou.

    — Você não tem mais jeito mesmo, Mark! – adiantou-se dando passagem para Katherine. — Não tem! – reforçou.

    Derek encontrava-se com as ideias distantes.

    — Ei! – Mark chamava o amigo. — Dek! – próximo a entrada do estabelecimento chamava o amigo. — Acho que merecemos tomarmos outra, não?

    — Por que nunca me falou sobre ela? – Derek então soltou.

    — O que? – voltou-se para o amigo.

    — Nunca me falou sobre essa sua prima... Kathy, não é?

    — Não! Não, não, não. Esquece! – o outro já cortando o assunto. — Nem pense nisso, cara. Vai encontrar problemas, ali!

    — E acaso não estou acostumado com isso? – abriu os braços mostrando sua situação. — Maldita hora que resolvi me envolver na tua confusão Mark! Ela deve estar me achando um animal.

    — Coisa que você não é, certo? – o amigo debochando.

    — Pro inferno! – cruzou por ele. — Você me deve essa e sabe disso! – deixou claro.

    — Pois bem! – Mark seguiu dizendo vendo o amigo entrar no bar. — Te pago uma cerveja, então!

    — Não! Não é o suficiente. – voltou a sentar-se de aonde havia saído. — Mas já é um começo. – acomodou-se dizendo por fim.
  • Entrevista com Erick Alves e Nayara Nunes – editores do Grupo Sem Tinta

    1- Como e onde surgiu a ideia do grupo Sem Tinta?
    R - A ideia para o grupo foi algo que cresceu de acordo com nossa experiência no mundo editorial. A vontade maior era colocar em prática todas as ideias que tínhamos enquanto prestávamos serviço para outras editoras e autores independentes. Às vezes, passávamos horas conversando sobre como seria legal ter um ou outro livro sobre um tema que gostávamos, que sentíamos falta. Foi só uma questão de tempo para que todos esses projetos ganhassem força para saírem do papel.
    2- Como vocês definem o atual mercado editorial do Brasil?
    R - A instabilidade atual do país, seja pela política ou pela crise editorial, torna a questão bem delicada. Entretanto, uma coisa parece ser certa: é um tempo de mudança e renovação do modelo de trabalho que era/é usado. As formas de publicação e lançamento de um livro se tornam cada vez mais variadas, isso abre um grande número de possibilidades. A questão é saber experimentar, trabalhar e aprender com a resposta dos leitores. Confiamos que, mesmo abalado, o mercado vai se estabelecer e continuar crescendo de livro em livro.
    3- Como a crise editorial afeta as pequenas editoras e plataformas de publicação alternativas?
    R - Das mais diversas formas. Porém, gostamos de pensar que, no geral, a crise trará um processo de renovação no mercado. Há uma oportunidade para as pequenas e médias editoras ganharem uma visibilidade maior em toda essa jornada de estabelecimento de um novo modelo de mercado.
    4- Quais as possibilidades que a internet pode oferecer a vocês?
    R - Basicamente, sem a internet seria quase impossível de sobrevivermos como editora. Uma vez que não estamos no eixo Rio de Janeiro/São Paulo, todo nosso trabalho é realizado de modo online. O mar de possibilidades para se trabalhar na internet é imenso. Assim, conseguimos ficar mais próximos dos autores e leitores, recebendo as sugestões, trabalhando as ideias e propostas e tentando chegar em um resultado esperado por eles.
    5- O que a grupo Sem Tinta trará de novo aos leitores brasileiros?
    R - Tentamos abordar temas únicos, assuntos novos ou que possam se desdobrar do que os leitores querem. Coletâneas de textos que desafiem quem vá escrevê-los e que surpreenda os que irão lê-los. Tudo isso, é claro, em uma edição que possa deixar sua estante ainda mais charmosa.
    6- Muitas editoras no Brasil apostam na publicação de coletâneas em cooperação com os autores, esse seria um modelo proposto pelo Sem Tinta?
    R - Com certeza! As antologias e coletâneas de contos abrem portas para novos escritores e novas ideias. As antologias são um ótimo lugar para se ter uma visão diferenciada da literatura, saindo dos padrões do gênero e conhecendo novas formas de contar histórias.
    7- Como se originou a antologia Cyberlife e quais os objetivos com esta publicação?
    R - A antologia surgiu da ideia de pensar no futuro. Deixar um pouco as grades naves espaciais e raios lasers de lado e pensar nas possibilidades de vida. Mas, principalmente, na individualidade que pode haver nessas vidas.
    8- Como é a relação de vocês com os escritores?
    R - Bem próxima. Por trabalharmos bastante com antologias, sempre estamos próximos dos nossos autores com grupos de Facebook, Whatsapp e pelo Instagram.
    9 – Quais os projetos para o futuro que o Grupo Sem Tinta tem em vista?
    R  - No momento, estamos trabalhando na antologia Nas Mãos da Morte, que traz um conjunto de textos que narra os momentos finais de diversos protagonistas e a visão única de cada um deles diante da morte. Também estamos lançando Rathla, uma novela de dark fantasy que tenta sair um pouco do clichê dos grandes épicos fantásticos e que tem um foco mais investigativo. Mas nosso trabalho mais atual é a antologia Taverna Bode Mágico, que está recebendo textos de High Fantasy para os amantes do bom e velho RPG medieval.
    10 – Qual recado você gostaria de deixar para os leitores?
    R – Algo bem básico, mas que gostamos de dizer por aqui: leia sempre! Siga no seu ritmo de leitura e leia o quanto puder, só não pare de conhecer novas histórias.
  • Era falta de ar

    A angústia me exaspera
    Faz-me querer afundar
    Num ritmo que acelera
    Faz-me querer gritar

    Meu coração não mais tolera
    Sua voz a me instigar
    Saudade de mim se apodera
    Sua voz a me molestar

    Espero que essa era
    Venha logo a se cerrar
    Tudo volte ao que era
    Venha logo me buscar
  • Esotérico Ato Manifesto da Revolução Existencial




    Nos primórdios da nossa existência como uma das muitas espécies que habita esse ecossistema terráqueo. Nós éramos simplesmente um ser coabitando e interagindo com os outros inúmeros seres aqui existentes. Não víamos a natureza como esse belo quadro pintado a óleo ou aquarela, ou como as ‘pixeladas’ imagens digitais no fundo dos nossos desktops eletrônicos e dispositivos móveis. Não ansiávamos pela chegada do tempo limitado do fim de semana para passear com a família nos bosques e pradarias, e nem tão pouco esperávamos a chegada das férias para curtir os muitos lugares paradisíacos, ou nos aventurar em trilhas, escaladas e caminhadas nos ditos ambientes naturais e ecológicos. Essa coisa alheia que hoje denominamos “NATUREZA” era intimamente o único e o primeiro mundo vital e cultural que existíamos.






    Nossos antepassados não só viviam em contato íntimo com as outras criaturas vegetais, animais e inanimadas, como se comunicavam diretamente com os seus espíritos e coração. Daí que surgem as fabulosas histórias e contos de fadas, gnomos, duendes, devas, ninfas, curupiras, orixás, anjos, caboclos, entre outras inúmeras manifestações do que hoje classificamos como “espíritos inorgânicos da natureza” em diversas culturas humanas espalhadas pelo mundo.
    Por isso, fica muito difícil para o nosso entendimento humano separar a nossa espiritualidade, cura e boa qualidade de vida da Mãe Natureza. Isso explica porque os diversos movimentos esotéricos, xamanísticos, taoistas, hinduístas, budistas, cabalistas, sufistas, gnósticos, wicca, candomblé, entre outros da busca da espiritualidade, como também os movimentos de cura, saúde mental, e medicina ancestral e alternativa se situarem em ambientes naturais abertos e ecológicos.





    Percebemos ao longo do nosso rigoroso processo civilizatório, em que gradualmente nos separamos do nosso natural habitar, que o SAGRADO em nós foi naturalmente esquecido. Deixamos de ouvir as MENSAGENS DOS VENTOS, paramos de falar a LÍNGUA DAS ÁRVORES E MONTANHAS, abandonamos o afeto de SENTIR COM O CORAÇÃO, e os nossos olhos se cegaram para o MUNDO INVISÍVEL. E, para piorar mais ainda a nossa situação, nos transformamos no pior predador que já existiu em todos os tempos. ‘Satânico Aniquilador’ das muitas culturas existenciais em todos os aspectos da natureza, e de nós mesmos.
    Atualmente nos tornamos existências humanas desencantadas, prisioneiras de nós mesmos em frente a uma tela Touch Screen de valores, e, de falsas concepções virtuais, mendigando uma irreal atenção em salva de palmas, likes e emotions de coraçãozinhos vermelhos, rostos redondos amarelados (caras de bolachas) e legais polegares opositores.




    As proximidades humanas se basearam em distantes conexões WI-FI, em que ignoramos cruelmente os nossos presentes íntimos entes queridos a nossa volta, em ser um direto participante na criação doAqui e Agora, para nos tornar um observador e um observadodistante do passado alienado dos desejos, anseios, críticas e felicidades do desconhecido “amigo” internauta. Preferimos viver solitários com políticas de privacidade essa virtual ruptura do contato natural, nos separando plenamente do sentido existencial da vivência humana, e minimizando a nossa consciência social, afetiva e emocional ao estado simplista do observador e do observado.
    A tecnologia não promove e nunca promoverá, assim como as propostas da comunidade científica, uma fusão harmoniosa com a existência humana e a natureza. Sua meta desde a revolução industrial é unicamente modificar. Acreditando melhorar, otimizar, maximizar, implantar, oportunizar e assegurar um conceito evolucionário de humanidade ciberneticamente supranatural, onde poderíamos viver sem depender dos recursos naturais e afetos sociais para nossa existência. Para assim, em vez de (como eles acreditam) subsistirmos, ‘sobresistirmos’ na lua, em Marte, ou em uma cosmológica galáxia distante como prega e aliena Hollywood.
    Então, eis a questão e desafio existencial da nossa cultura humana: ATÉ QUANDO FICAREMOS CALADOS E INERTES, TRANSMITINDO PARA AS GERAÇÕES FUTURAS ESSA GRANDE DEPRESSÃO EXISTENCIAL, PELO QUAL NOS CONVERTEMOS NO TIRANO PROBLEMÁTICO DESTRUIDOR DA BELEZA DE TODAS AS COISAS? Entretanto, quem se movimentará e falará com loucura e paixão para o despertar da grande massa? Quem será esse novo Meshiach e Avatar? Mas, enquanto ELE ou ELA não chegar ficaremos inertes, atrofiando nossa mente e coração nas telas e internet? Vemos, entretanto, que os desafios para o retorno do SAGRADO em nossas vidas são tremendamente numerosos.




    Devido a essa atual situação existencial em que a HUMANIDADE se encontra, envolto as novas e mutantes formas de opressão, ignorância e escravidão cultural, social e ambiental que impera na moderna virtual e industrial tecnológica sociedade capitalista, e, devido ao medo e do desespero que nos apodera, retratando que a maneira de como estamos vivendo é totalmente homicida e suicida perante aos nossos recursos naturais, onde cada vez mais poluímos e desperdiçamos as águas, degradamos o nosso ambiente e geramos lixo em quase tudo que vestimos, utilizamos e nos alimentamos. Além de toda ignorância em inúmeras faces do cotidiano sócio-cultural-ambiental humano, gerando tendências violentas e diversificadas para o crime, miséria, terrorismo, consumo de mortíferas drogas, doenças, imoralidades e agressões (físicas, psicológicas, verbais e mentais), sexualidade depravada e infelicidades que agora são tão comuns no nosso sistema sócio-virtual de vida. Em que os fatores desses relatos nos mostram que cada vida humana que nasce no mundo hoje, é mais um agente para crescer o nosso estilo existencial que é totalmente insustentável, destrutivo e prejudicial à vida do nosso habitar e de todos os seres vivos que habitam nele, inclusive as nossas próprias vidas… que se faz presente a proposta da REVOLUÇÃO EXISTENCIAL.
    Eu acredito com todos os meus dentes, unhas e fios de cabelos no PODER e na MAGIA DA EDUCAÇÃO na formação e transformação cultural da condição humana, e sei unicamente que a JUVENTUDE é o solo fértil em que a semente do VERDADEIRO SER HUMANO, romperá sua cápsula de ignorância em direção a um MUNDO LUMINOSO DE POSSIBILIDADES INFINITAS.






    Com base nesse princípio e nos frutos de minhas experiências de vida e ativismo, como um brasileiro latino americano e cidadão do mundo, habitando atualmente no oeste da Galileia, preocupado com o futuro da humanidade representado nos meus filhos e filha, e nos filhos e filhas dos irmãos e irmãs que são a NOVA GERAÇÃO EXISTENCIAL, e também, baseado nos diversos relacionamentos em trabalhos com crianças e adolescentes como um aspirante educador ambiental e alternativo, este ATO, que intitulo como REVOLUÇÃO EXISTENCIAL, foi idealizado e concebido, como uma nova fórmula existencial alternativa a esse SISTEMA FALIDO em que hoje alimentamos com a nossa energia, trabalho e atenção.




    Sendo este VALORO MANIFESTO adequadamente efetivo em todos os princípios básicos de desenvolvimento sustentável. Visando ser acessível a todos, e, agindo em prioridade no desenvolvimento da capacidade criativa humana, e de seu poder de auto-cura e restauração pela valorização existencial da vida, principalmente da JUVENTUDE, incentivando e reconhecendo as suas faculdades inatas, proporcionando o bem-estar vinculados as brincadeiras, expressões artísticas, corporais, culturais e esportivas, e, de práticas bioenergéticas em que o fundamento existencial satisfaça as suas necessidades diárias, com a plena responsabilidade de cuidar e manter a boa e sadia qualidade de vida das gerações futuras e do meio ambiente comunitário ecologicamente equilibrado.
    Manifestando no Aqui e Agora o Gan Éden judeu, o Paraíso cristão, o Taru Andé guarani, o Ilè Aiyé yorubá e a N’gola N’janga quilombola dos sonhos de liberdade dos nossos antepassados africanos que foram escravizados. Tudo isso meticulosamente pensado, escrito, falado e acreditado sem utopias na manifestação exata de um pleno e admirável MUNDO NOVO.





    Estou aqui plenamente consciente em alerta vermelho, para exclamar em poucas palavras que:
    SE VOCÊ NÃO FAZ PARTE DA SOLUÇÃO, ENTÃO VOCÊ FAZ PARTE DO PROBLEMA!
    Porém, se você chegou até aqui, isso prova que você faz parte da solução. Isso prova que eu não estou sozinho nisso e de que a responsabilidade para a implementação desse ATO MANIFESTO é sua também. Como vamos fazer isso acontecer e colocar essas palavras em práticas? Eu não sei, e não sei se você sabe também. Apenas, eu acredito na fé e na união dos nossos pensamentos e sentimentos de fazer isso acontecer. Não sei onde ou quando? E não sei se você também sabe. Sei apenas que devemos propagar essas ideias e fazer com que o maior número possível de pessoas acredite, como nós acreditamos…



    Podemos fortalecer isso, através de pequenas ações, se você compreende ou maneja bem outra língua, você pode traduzir esse ATO MANIFESTO e disseminar a ideia para outras culturas linguísticas. Eu apenas rufo como um tambor convocador e sou como um vaso que derrama água em outros recipientes. Pois a iniciativa da criação dessa reforma intitulada REVOLUÇÃO EXISTENCIALnão é minha, mas provém do ALGO que fez surgir e que movimenta todas as coisas. E este ALGO manifesta a cura e seus benefícios através da nossa união e de nossas boas ações.






    Acredito que somos a cura! EU e VOCÊ. E de que nossa união pode gerar a magia de fazer tudo acontecer. Sei que assim como eu, você está cansado desse sistema de vida podre e falido, e também, está cansado de reclamar e falar mal dele sem tomar atitudes para derrubá-lo. Sei que você tem medo de que seus filhos possam se transformar nisso. E se não tem filhos, sente medo de tê-los. Pois, como educá-los na verdade num mundo de mentiras? Sei que você está decepcionado, assim como eu, com a política e a religião e suas pluralidades de palavras paradisíacas futuristas. Onde nossos líderes lutam contra aquilo que eles verdadeiramente são, fazendo de suas ambições egoístas e malévolas nossas leis e crenças. Sei que você já se desesperou com essa realidade de vida triste e feia, onde o pesadelo é mais real do que os sonhos, e a solidariedade é utopia e o amor ao próximo é tão démodé.
    Sei também, que assim como eu, você já pensou desesperadamente em se matar, apenas como um desejo de acordar de um pesadelo. Mas sei que assim como eu, você foi forte e logo sorriu para o mundo num ato de transmutação de consciência divina. Sei que assim como eu, você experimentou muitas coisas para chegar a ser quem você é hoje. Sei que você levou muitas rasteiras e topadas na vida, foi humilhado e humilhada e que até hoje em um relapso de tempo você sente uma forte dor aguda não física, mas como um punhal atravessando o seu coração e o/a sufocando de uma forma tão real, que esse sentimento não pode ser verbalizado. Mas, sei que todas as quedas que você teve não foram derrotas, pois acredite meu amigo e minha amiga, você caiu quando esteve a subir.
    Sei que você já não sabe mais o que fazer, pensar e agir. Além de todo esse tédio de não ter o que fazer, por ter muita coisa para fazer e não saber por onde começar, e, de que tudo está chato e monótono.
    Como vê minha amiga ou meu amigo, estamos juntos na mesma embarcação chamada “Planeta Terra”, à deriva de um mar sideral desconhecido e com tripulantes desesperados pelo sentido da jornada.




    Eu acredito firmemente que num futuro próximo iremos nos encontrar e manifestar esse ATO MANIFESTO que hoje deslumbramos. Acredito no nosso potencial de criação, transformação e restauração. Já consigo ver o nosso convívio e cotidiano feliz com muitos trabalhos e desafios tremendos, com dores e alegrias iguais a de um parto, para um nascimento de uma nova maneira de viver, pensar e agir. Não vamos mudar o mundo e nem precisamos, pois, o mundo do jeito que A ENERGIA CRIADORA PAI-MÃE-FILHO nos deu, já é pleno, maravilhoso, justo e sustentável. O que vamos fazer é mudar a nós mesmos, na contemplação dos conhecimentos que nós nos esquecemos de valorizar. Como? Onde? Quando? Eu não sei. Você sabe? Se souber, ou tem uma solução me conte! A única coisa de que sei, é de que:
    A aranhazinha tece sua teia sem se preocupar com o inseto que lhe servirá de alimento. O inseto voa de encontro à teia sem se preocupar que vai servir de alimento. A teia é o atrativo dos propósitos. A aranhazinha depois de tecer sua teia, apenas somente espera. Armar a teia e pacientemente esperar… então, o ALGO que DANÇA EM TUDO fará com que mova na REDE DO INVISÍVEL a REALIZAÇÃO DOS SONHOS, manifestação dos propósitos. Concretização desse Esotérico Ato Manifesto da Revolução Existencial.

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