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  • THOTH Segundo capitulo

    O garoto cai na água, assustado se debate e afunda, bolhas sobem e de repente o garoto já quase no fundo do lago é puxado para cima a espada começa a boiar e leva o garoto para cima, Froki ouve uma risada em sua cabeça.
    _Hah! hah! hah! E isso é por me chamar de corvo feio, seu garoto imprudente_ Caçoa Thoth.
    _Como você entrou na minha cabeça? Isso não fazia parte do nosso pacto.- Indaga Froki.
    _De fato Froki isso não faz parte do nosso pacto, mas creio que ter alguém te aconselhando a o que fazer com o poder ou como lidar com ele vá te ajudar.
    _Tudo bem faça o que achar melhor, só não me afogue.
    _Okay Froki agora vamos para o solo, se acha melhor.
    A espada começa a guiar o garoto para o início da gruta onde Siggy a ovelha o esperava para que voltassem para casa.
    Da espada de Thoth surge uma luz azul fluorescente, Froki aproveita dessa luz e usa ela como uma tocha, ele vai aos poucos chegando ao fim da caverna até que.
    _Garota cuidado- grita Thoth.
    Froki imediatamente olha para cima e vê uma criatura horrorosa, um morcego gigante, em seus olhos um vermelho sangue, ele olha fixamente para Froki, porém ao reparar na luz da espada ele se irrita e parte para cima do garoto, a ovelha corre e consegue fugir sem que Froki perceba.
    O garoto ágil desvia da criatura que se prepara para mais um ataque.
    _Thoth o que eu faço- Indaga o garoto preocupado.
    _você tem uma espada, use-a._ Diz Thoth na mente do garoto
    _Mas eu nunc_ Antes de terminar a frase o morcego desce em mais um voo rasante até o garoto que desta vez não desvia e é atingido em cheio no ombro esquerdo.
    _Ahhh desgraçado- Murmura o garoto
    _Você precisa atingi-lo ele enquanto ele desce_  Aconselha Thoth
    _Falar é fácil, para que está seguro dentro de uma espada_ Caçoa Froki com a mão no ombro machucado.
    _Seguro? Se você morrer para esse morcego, eu perco meu último fiel e vou junto, agora pare de falar e-_ Antes que Thoth termina-se a frase o morcego desce mais uma vez_ Cuidado garoto- Grita Thoth na mente de Froki.
    Porém desta vez quando desce, o garoto já estava preparado e atento, a adrenalina move as mãos de Froki mais uma vez e ele desvia da criatura e fere sua asa esquerda em um movimento desajeitado com a espada.
    _Bom, mas não será o suficiente, você tem que ataca-lo em um lugar letal.
    _Ok-É só o que Froki diz já concentrado na batalha ele olha fixamente para a criatura esperando o próximo ataque.
    O morcego voa desajeitado graças ao golpe de Froki, se prende no teto da caverna enquanto olha fixamente para a espada brilhante do garoto que atrai sua atenção, ele mira nela e desce em um voo rasante até o braço direito do garoto que mesmo tentando desviar ainda é atingido, porém consegue se proteger abrindo mão da espada que cai no chão.
    _Essa coisa não deveria ser cega? - Caçoa o garoto com raiva.
    _Pelo visto essa ''coisa'' tem mais visão que você agora vai pegar a espada rápido.
    O garoto corre em direção da espada e desliza para pega-la, o morcego ao perceber esse movimento desce em outro voo rasante em direção ao garoto que por um reflexo rápido pega a espada no meio do rasante da criatura e finca sobre o coração do monstro que cai morto sobre o garoto espirrando em sangue em sua vestimenta.
    O garoto rapidamente afasta o corpo morto da criatura enquanto retira a espada do morcego.
    _Ufa essa foi por pouco..., mas pera aí como eu vou chegar em casa sujo de sangue e essa espada, pelos deuses estou ferrado. - Murmura o garoto aliviado
    _Que deuses garoto, você é meu fiel não ouse citar o nome de outro deus enquanto eu estiver presente entendeu? _
    _Sim entendi, ''Por Thoth estou ferrado''- Caçoa o garoto
    _Melhorou, quanto as roupas e a espada eu posso resolver isso_ Diz Thoth
    De repente do pomo da espada sai a fumaça negra que fica envolta de Froki e da própria espada, o sangue se dissolve e some das roupas de Froki e da espada, a fumaça em torno da lâmina muda a forma dela transformando-a em um cajado.
    _Pronto estamos preparados para sair desse lugar.- Murmura Thoth enquanto volta para dentro da antiga espada.
    _Wow como você fez isso? A espada- Diz o garoto impressionado com a situação.
    _Você e a espada são meus instrumentos posso moldá-los como quiser, vamos andando.
    Depois de uma longa caminhada Thoth e Froki chegam ao fim da caverna, a luz do sol quase cega o garoto.
    _Eu sou um instrumento? Murmura o garoto preocupado
    _Foi só um modo de dizer garoto, não gaste seus miolos com isso.- Responde Thoth
    Ao sair da caverna Froki se depara com uma visão um tanto quanto estranha, suas ovelhas incluindo Siggy estão deitadas na frente da caverna, estranhando a situação ele começa a contar.
    _1,2,3,4,5.....,21,22,23; estão todas aqui como isso é possível.
    _Considere isso uma cortesia de seu deus e não ia ser bom para mim se você morresse de fome, agora vamos ao seu vilarejo.-
    Após uma caminhada por aquelas longas colinas Froki mesmo fraco e com fome é levado a prosseguir pelo seu instinto de sobrevivência, vai se movendo da maneira desajeitada e por isso chega a cair algumas vezes,então ele prossegue, até ver ao longe os campos dos servos, ao longe ele vê rostos conhecidos, alguns de seus irmãos ao longe brincam e isso dá forças pra ele continuar por mais um pouco, enquanto todas as ovelhas o seguem como se ele fosse o rei delas, elas nem berram, só andam atrás dele
     Chega na fazenda de seu pai, com todas as ovelhas, ao chegar desmaia no chão de fome, alertada pelo berrar das ovelhas a irmã mais velha de Froki vê a situação e o coloca para dentro de casa e põe as ovelhas no aprisco.
    Aos poucos Froki abre os olhos e vê sua irmã preocupada, a dormir, ela é a coisa mais próxima que Froki tem de uma figura materna, sempre cuidava dele, até se arriscava com o pai nesse sentido, ao contrário da maioria dos irmãos de Froki ela gostava dele porém, cuidava de todos os irmãos, mas como Froki sempre foi muito fraco e doente tinha uma atenção maior a ele, sempre teve, quando as outras crianças caçoavam dele ela era quem o protegia, ela o ensinou a cuidar das ovelhas para ter uma utilidade a fazenda e não apanhar ainda mais de seu pai, ela que convenceu seu irmão do meio a ensinar Froki a usar uma espada e ela que ensinou Froki a ler. Uma figura amável por volta de 25 anos cabelos loiros como os de Sif a esposa de Thor, um rosto e corpo machucados pela vida na fazenda, uma mãe para a maioria dos irmãos de Froki.
    Ao perceber que Froki havia acordado ela diz.
    _Froki, graças aos deuses você está bem, sumiu por dois dias inteiros por onde esteve garoto?
    _As ovelhas se desgarraram e eu gastei muita energia procurando elas, acabei dormindo em algum lugar qualquer, mas eu estou bem Ágda acredite, aliás não o vejo por aqui, onde está meu cajado?- Responde cansado Froki
    _O cajado usei ele para colocar as ovelhas no aprisco, elas estavam muito obedientes, que tipo de magia você usou com elas?- Responde Ágda rindo.
    _ Foi apenas meu jeitinho- Retruca Froki rindo, mesmo fraco ainda bem-humorado.
    _Seu bobo, você deve estar com fome eu trouxe isso pra você, mas você dormiu por muito tempo e deve estar frio.
    Froki nem pensa pega o prato frio de arroz e peixe, e come como um bárbaro, com suas mãos vai se sujando, come rápido.
    _Você devia estar com fome, dois dias sem comer.
    _Desculpa eu nem perguntei como você estava, não vai te prejudicar trazer comida para mim? ele continua te tratando daquele jeito?
    _Sim, mas tudo bem Froki, ele não tem tempo para me importunar, com todas as 1000 esposas dele, ele só fica no quarto se empanturrando.
    _Se empanturrando da comida que nós colhemos para ele. Interrompe Froki
    _Sim, mas o que nós podemos fazer? as terras são dele, nós só trabalhamos para ele.
    _As coisas não deveriam ser assim...
    Ao falar isso um homem entra no quarto, tão gordo que quase entala na porta para entrar, passa a mão nas barbas ruivas e diz:
    _Parece que você sobreviveu, que pena...
    Froki ao ouvir isso sente as lágrimas chegando em seus olhos, porém se controla e não chora.
    _Uma pena realmente...- Responde o garoto triste.
    _Quem te liberou minha comida, ela?
    _Eu roubei, ela só veio ver se eu tinha sobrevivido para dar as boas novas para o senhor.
    _Você não tinha esse direito. Diz o homem gordo
    _Por que não?, eu trouxe todas as suas ovelhas, esse não era o combinado.
    _Trouxe as ovelhas 1 dia depois do que foi combinado, e agora ainda foi petulante comigo o seu pai, garoto eu deveria te deixar morrer do fome.
    _Como fez com Aegerki, pai?
    _Você tem muita coragem em dizer isso Froki._ Diz o pai enquanto prepara a mão para dar um tapa na cara de Froki.
    _Ulliriki, por favor não faça isso.- responde Ágda assustada
    _Você o chamou pelo nome, ele não fez...
    _Ainda não, mas vai fazer em breve.
    _Mas ele é nosso pai.
    _Por isso foi benevolente em não me abandonar quando soube que eu estava gravida.
    _Ágda, ele te forçou a fazer isso.
    Antes que pudesse continuar Ulliriki exclama
    _GAROTO!!, quem você acha que é, ela será minha esposa e isso não te diz respeito.
    _Você faz isso com as outras também? Seu velho nojento!. Exclama Froki apavorado.
    _Esses dois dias pelo visto te deram bolas.-Ao dizer isso Ulliriki pega Froki pelo pescoço e o levanta._Bolas que você nunca teve, não deveria ter. Dizendo isso ele pega a calça do garoto e quando ia abaixa-la, o da um chute no rosto e corre para fora.
    _Você não deveria ter feito isso com ele pai, é só um garoto. Diz Ágda extremamente descontente com a atitude do velho
    _O garoto que levou de mim, a mais bela das esposas. Diz o homem com voz grossa já muito bravo.
    _Então é disso que se trata, o senhor acha que ele tem culpa de uma fatalidade dessas? ela também era minha mãe, me criou desde que eu era criança, me ensinou tudo o que eu sei, eu também sinto falta dela,  e nem por isso eu trato o  Froki desse jeito. Responde Ágda inconformada
    _Não é disso que se trata Ágda o garoto é rebelde, e desobedece minhas ordens, não me respeita e quando vem aqui ainda espera que eu o alimente. Diz o homem já muito alterado e bêbado.
    _Ele é seu filho é sua obrigação alimenta-lo. Diz Ágda inconformado com a atitude do homem gordo.
    _Que tom de voz é esse Ágda quer receber o mesmo tratamento que ele? Diz Ulliriki enquanto tira o cinto
    Ao dizer isso Ulliriki anda em direção a Ágda a pega pelo pescoço e diz:
    _Se não quiser sofrer com ele é bom fazer o que eu mandar. Diz o homem ao apertar o pescoço da garota
    Enquanto isso Froki muito abatido com a situação sai à procura de Thoth no aprisco, busca de alguma forma um consolo ou apenas uma palavra de amizade do deus. Depois de andar um pouco ele vê o cajado encostado na parede o empunha e diz.
    _Thoth ele tem que morrer, para passar minha mensagem esse homem não pode continuar vivo. Explica Froki se segurando para não chorar.
    _Muita calma meu garoto ele é seu pai, é um pedaço de lixo asqueroso, mas ainda é seu pai. Diz Thoth inconformado com a atitude de Froki.
    _Thoth ele TEM QUE MORRER. Ao dizer isso o garoto se desmonta em lágrimas na parte de fora do aprisco se encostando na parede do curral. Thoth por favor, eu sei que o que eu te peço é egoísmo, mas por favor me atenda eu te imploro, eu rezo para agradecer todos os dias, pelo seu amor me ajude a acabar com a vida daquele monstro. Diz o garoto soluçando.
    _Meu garoto se ele morrer agora pela suas mãos, você vai para o calabouço e em seguida para a forca, e esse não é um bom jeito de passar uma mensagem, deixe as coisas acontecerem e com o tempo ele irá morrer.
    _Thoth você não me entende, se ele não morrer agora, Ágda vai, ela não merece passar por tudo aquilo, NÃO MERECE, para mudar a vida de Ágda eu não me importo em ir para a forca, não me importo morrer nessa situação se ela sair dessa situação, então mais uma vez eu te imploro Thoth o deus mensageiro passe a minha mensagem.
    Ao dizer isso uma sombra sai do cajado tomando a forma do corvo meio humano_Se assim quiser assim será feito, meu único fiel, sua mensagem será repassada.
    _Garoto repita comigo
    _Mensagem da peste diz, doença para o injusto, morte para o monstro, traga o êxito dos justos e a justiça para eles enquanto os injustos se ajoelham aos seus pés por perdão a mensagem será repassada, a mensagem finalmente será repassada. Recita Thoth
    _Doença para o injusto, morte para o monstro, traga o êxito dos justos e a justiça para eles enquanto os injustos se ajoelham aos seus pés por perdão a mensagem será repassada, a mensagem finalmente será repassada. Repete Froki.
    Um pequeno corvo sai do olho de Thoth e voa em direção ao quarto de Ágda e aos poucos se transforma em fumaça negra, entra pela janela.
    _Eu não terminei com você. Diz Ulliriki ao vestir sua calça.
    A sombra entra no quarto toma o corpo de Ulliriki adentrando em todos seus orifícios. Ágda encolhida na parede quarto nua e morrendo de medo enquanto Ulliriki aos poucos se ajoelha e cai, a fumaça se transforma em um corvo de novo, o corvo pousa sobre a cama na frente de Ágda e diz.
    _Você moça boa, não merece o que o injusto fez com você, tu deves esquecer tudo. O corvo diz isso com uma voz fina e esganiçada, em seus olhos vários círculos rodam com um redemoinho no mar. O sangue do injusto dentro de tu, o filho do injusto você quer que ele saia?
    _A criança dentro de mim não tem culpa do pai que teve, a deixe viver por favor corvo.
    _Como quiser moça. Responde o corvo com a voz fina.
  • TIBÉRIO

    Cheguei em casa por volta do meio-dia e meia. Atirei sobre o sofá da sala a minha pasta com o material escolar e comecei a subir a escada em direção ao meu quarto. Mal havia subido uns cinco degraus e ouvi, vinda da cozinha, a voz de minha mãe:
    – Ricardo, é você meu filho?
    E quem mais poderia ser àquela hora? Meu pai estava no trabalho e só retornaria para casa depois das seis da tarde, minha irmã Izildinha estava na casa de minha tia Ana.
    – Troque logo de roupa que já vou servir o almoço – continuou ela como se eu estivesse em sua presença.
    – Um minuto só, mamãe – respondi maquinalmente.
    Entrei no quarto e me dirigi de imediato à janela que dava para a rua.
    Lá fora uma quantidade considerável de pessoas caminhava pela calçada. Aquele era o horário em que muitas delas deixavam os locais de trabalho e iam para casa almoçar. Debrucei-me no parapeito da janela e estiquei o pescoço na tentativa de avistar quem eu esperava encontrar.
    Não tive dificuldade em identificar Tibério, meu colega de classe que há poucos minutos andava ao meu lado, vindo da escola.
    Ia o desafortunado rua afora cambaleando como sempre fazia ao caminhar.
    Movido por uma mistura de compaixão e curiosidade, fixei nele os meus olhos e o acompanhei enquanto descia a rua.
    Aquilo era inacreditável. Mesmo com tamanha dificuldade para se locomover, nunca se soube que ele levasse um tombo ou que se batesse em alguém enquanto caminhava.
    – Este menino, com certeza, teve paralisia infantil, meu filho – informou minha mãe logo que o viu pela primeira vez.
    Naquela época aquele tipo de enfermidade era uma espécie de tragédia muito comum. A vacina que livraria o mundo daquele terrível mal só viria quase 10 anos depois. Até lá a poliomielite continuava fazendo vítimas de forma indiscriminada.
    E Tibério era uma das pessoas que sofria as suas consequências.
    Da porta do quarto veio outro chamado de minha mãe.
    – Só um minuto, mamãe – respondi de pronto.
    – O que está vendo aí? – procurou saber ela, vendo que eu me encontrava atento à rua.
    – Nada importante não – desconversei, enquanto ouvia seus passos descendo a escada.
    Voltei a observar a rua.
    Lá embaixo, já quase virando a esquina da rua onde ele morava, ia o menino tentando se equilibrar sobre a perna sadia. A perna esquerda era perfeita, entretanto, a direita mal ia até o chão. Era torta.
    Na minha cabeça de menino, acreditava que se houvesse uma maneira de desentortá-la, o problema estaria resolvido. 
    Em menos de um minuto Tibério desapareceu, virando a esquina.
    Sumiu da minha vista o menino, mas não da minha cabeça.
    Até hoje, depois de tantos anos, a sua imagem continua como uma fotografia gravada de forma indelével em minha mente.
    Ainda o vejo entrar na sala de aula e se dirigir à sua carteira, a qual estava sempre disposta ao lado da porta de entrada.
    – Não sente aí! – gritou certa vez um de nossos colegas a um aluno novato. – Esta carteira tem dono!
    Em nossa inocência de gente miúda, acreditávamos que se alguém se sentasse ali, seria contaminado pela sua “doença”.
    Aquele era o primeiro ano de Tibério em nossa escola. Ele viera para Ribeirão quando as aulas daquele ano já haviam começado.
    Segundo ficamos sabendo, sua família era de Botucatu e seu pai viera trabalhar na empresa Matarazzo, fábrica que beneficiava algodão.
    Além disso, pouco sabíamos a seu respeito.
    Nada perguntávamos e ele não se propunha a dizer.
    Sua enfermidade, apesar de estar numa das pernas e em um dos braços, era o bastante para tolher-lhe a fala. Somente abria a boca quando dona Lurdinha, a professora, lhe dirigia a palavra questionando-lhe alguma coisa.
    E ela fazia aquilo até com certa frequência, pois sempre obtinha dele respostas que nenhum de nós conseguia dar. Fora isso, não abria a boca a não ser para responder “presente” no momento da chamada.
    Tibério estava sempre sozinho.
    Como ser amigo de uma pessoa como aquela?
    Ele não podia jogar bola, não podia brincar de coisas como pique-esconde, não conversava. Para nós ele era um inútil.
    E além disso, ser amigo dele, poderia significar não ser amigo de ninguém.
    Na hora do recreio, todos os dias, lá estava ele na biblioteca da escola.
    Aquele menino lia compulsivamente.
    Aí estava outro problema. Para que íamos querer um amigo para ler?
    Leitura, segundo minha mãe e dona Lurdinha, é atividade solitária.
    Solitária e silenciosa.
    A verdade é que não queria ser amigo de Tibério. Simplesmente não precisava.
    Eu apenas permitia que ele me acompanhasse na volta da escola. Permitia porque não havia como me esquivar daquilo. Morávamos no mesmo bairro e, portanto, seguíamos quase que pelas mesmas ruas até nossas casas. 
    No começo ele pedia para me acompanhar, depois, com o tempo, passou a ser uma companhia constante e até natural.
    Não eram raras as vezes em que eu precisava diminuir a velocidade dos meus passos para que ele não ficasse para trás.
    Era um incômodo sem tamanho aquilo. Principalmente nas quartas-feiras quando eu precisava chegar mais rápido em casa, porque tinha algo muito importante para fazer logo depois do almoço: às treze horas precisava estar na estação de trem.
    Da cozinha veio mais um chamado de mamãe. Era preciso ir almoçar.
    ***
     “Viagem ao centro da Terra”. Este era o livro que havia conseguido emprestado e que pretendia terminar em duas semanas. Mas passados quase oito dias do início da leitura, pouco havia avançado. Que me perdoasse Júlio Verne, mas minha viagem naqueles dias definitivamente era outra.
    Atirei sobre uma mesinha de canto da sala o livro e subi para o meu quarto. Ao sair dali olhei o relógio de parede: quatro horas.
    Ainda faltavam várias horas para terminar o dia, para eu ir para a cama, para vir outro dia... e muitas e muitas outras horas para terminar as férias. 
    Instantes depois estava deitado em minha cama, com as mãos cruzadas sob a cabeça e os olhos mirando o nada no teto. Entretanto, os pensamentos estavam distantes, na estrada de ferro que passava nas proximidades da fazenda de meu tio Afonso.
    A casa naquela hora da tarde estava mergulhada em silêncio. Na rua algumas vozes de vez em quando podiam ser ouvidas, mas o resto era quietude e ausência.
    Ausência!!
    Jamais havia imaginado que aquela palavra teria um significado tão intenso quanto naquele momento.
    Estava ali mergulhado em meu mundo de quase nada quando ouvi a voz de minha mãe anunciando o seu retorno da rua.
    – Ricardo, está aí em cima? – indagou ela enquanto subia as escadas.
    Tive por um instante vontade de não lhe dar resposta alguma, pois queria ficar sozinho. Sozinho com Maria Rosa.
    Mas respondi ao seu chamado.
    – Não me diga que desistiu da leitura – comentou mamãe, trazendo nas mãos o livro que eu havia deixado na sala minutos antes.
    – É que...
    Não terminei a frase e ela me interrompeu.
    – Afinal o que está acontecendo, meu filho? – indagou minha mãe com ares de preocupação verdadeira. – Você tem andado meio estranho desde que voltou da fazenda. Já conversamos sobre o que aconteceu no rio. Nem eu nem seu pai estamos aborrecidos com aquilo. Foi, diríamos, um acidente. Graças a Deus você está bem e nada aconteceu nem com seu tio nem com o empregado dele.
    Não seria justo dizer a ela que o acidente era mesmo a causa de meu alheamento, de minha falta de fome e de sono... Mas muito menos seria conveniente dizer a ela que o motivo de toda aquela minha lassidão era... Maria Rosa.
    “Mas o que é isso, meu filho! Nessa idade e já com este tipo de problema?! Você ainda é uma criança!”
    Aquelas provavelmente seriam as palavras de minha mãe. Claro que não haveria nenhum sermão por parte dela, apenas uma série interminável de conselhos.
    Afinal, em minha idade era de se imaginar que as preocupações fossem outras. Mas não eram. E por um bom tempo, por anos a fio, Maria Rosa varreu meus pensamentos, tomou o meu tempo e alimentou os meus sonhos.
    – O que é então, Ricardo? Está doente?
    De repente veio da rua uma voz que se assemelhava a outra que há algum tempo não ouvia. Lá fora alguém passava e falava sobre as maravilhas do parque infantil inaugurado no bosque municipal dia antes. Uma das vozes era muito semelhante à voz de Tibério.
    “Tibério?!”, pensei.
    – Estou preocupado com um colega de escola – menti.
    – Preocupado com um colega de escola?! Ele está doente ou está com algum problema? – procurou saber minha mãe, mostrando-se deveras curiosa.
    – Não sei se já lhe contei, mas há em minha classe um menino com paralisia infantil.
    – Sei quem é. É o filho de dona Norma. Eles moram na rua de baixo, próximo ao armazém de seu Altino.
    – É ele mesmo. O nome dele é Tibério.
    – E por que está preocupado com ele, meu filho amado?
    – Eu gostaria de ser amigo dele, mas...
    – Mas?
    – Se eu for amigo dele, muita gente não vai querer ser mais meu amigo.
    – Acha mesmo que isso pode acontecer? Seus amigos podem se afastar de você, se você se tornar amigo do Tibério?
    – Acho que sim.
    – E por que estas pessoas deixariam de ser suas amigas se fizesse algo assim?
    – O Tibério não pode correr, não pode jogar bola. Por isso ninguém quer ser amigo dele.
    – Mas isso não impede que você e seus amigos sejam também amigos dele. Pelo menos tente para ver o resultado. Acho que aqueles que deixarem de ser seus amigos por causa disso, não são seus verdadeiros amigos. Brincadeiras não se resumem apenas em sair por aí correndo ou jogando bola, meu filho. E o que ele gosta de fazer na hora do recreio da escola?
    – Ele está sempre na biblioteca. Ele lê o tempo todo.
    – Deve ser então um bom aluno – riu minha mãe.
    – Ele sabe tudo que a professora Lurdinha pergunta.
    – Está vendo.
    – Mamãe, posso lhe fazer uma pergunta?
    – Claro que pode.
    – Por que Deus fez isso com ele? Você sempre disse que Deus é bom, justo, generoso...
    – Deus fez o quê?
    – Deixar o Tibério nascer daquele jeito.
    – Não acho que Deus tenha algo a ver com isso não. Mas se tiver, pode acreditar que Ele está reservando alguma coisa grandiosa para este menino.
    – O que quer dizer com isso, mamãe?
    – Gostaria que guardasse os nomes de duas pessoas muito importantes: Helen Keller e Beethoven.
    – Quem são estas pessoas? – perguntei curioso sem sequer imaginar de quem se tratava.
    – Helen Keller é escritora americana e Beethoven foi um músico que nasceu na Áustria.
    – E o que tem estas duas pessoas com o Tibério? – procurei saber, visivelmente mais curioso ainda pelo rumo que aquela conversa estava tomando.
    – Tudo. A Helen Keller nasceu cega, surda e muda e mesmo assim se tornou uma das mulheres mais importantes da América do Norte. Formou-se em universidade e já escreveu vários livros. Já o Beethoven, aos 26 anos ficou surdo e mesmo assim continuou a compor maravilhosas músicas. Músicas que daqui a cem, duzentos, trezentos anos serão ouvidas e admiradas. E dizem os entendidos, que foi após a surdez total que ele produziu algumas de suas mais importantes obras. 
    – Como é possível uma pessoa surda conseguir compor música??!!
    – Talvez aí esteja a mão de Deus, meu filho. Quem sabe com seu amigo Tibério isto já esteja acontecendo. Deus para compensá-lo pelo problema físico que ele tem está lhe dando alguns dons que as pessoas comuns não possuem. Mas em todos estes casos, acho que Deus sozinho não fez nem faz nada. Essas pessoas precisam de um esforço imenso para conseguir superar dificuldades. Com seu amigo da escola, somente o tempo nos dirá, mas pelo visto...
    – Não havia pensado nisso – disse eu depois de alguns instantes de pura meditação.
    – Já imaginou quanta honra para alguém hoje em dia dizer que é amigo da Helen Keller desde a infância?
    – Sabe aquele dinheiro que disse para a senhora que estava guardando para comprar uma coisa?
    – Sim. O que tem o dinheiro a ver com isso que estamos falando?
    – Queria comprar uma muleta para o Tibério.
    – Está pensando em comprar uma muleta para o seu colega de classe?!
    – É. Achei que ele andaria melhor se tivesse uma – disse eu quase envergonhado pelo que estava revelando.
    – Meu filho amado, que bom que pensou nisso, mas lhe garanto uma coisa: o seu colega não precisa de muletas para andar. Ele precisa mesmo talvez seja de sua amizade, do seu companheirismo e de todos que estão à volta dele. Não tenho nenhuma dúvida de que um dia você vai se orgulhar de ter sido amigo dele.
    Naquele momento tive uma vontade imensa de chorar, mas me contive.
    Aquela era a minha mãe, a mulher mais incrível que Deus poderia ter colocado neste mundo.
    Com aquelas poucas palavras ela acabara de me dar mais uma lição para toda a minha vida.
  • Tirando a sorte grande

    Era um motel de beira de estrada sujo. O Jonas tinha pegado uma garota de programa para entrar com ele de fachada na frente, enquanto o Maleita ficaria escondido dentro do porta malas. “Ei, ninguém me falou que ia ser a três. Para mim não tem problema, mas eu cobro o dobro.” “Olha só......a gente paga......mas não vai ter sexo aqui. Só senta na cama e espera tudo acontecer que a gente já vai embora.” O Jonas falava enquanto o Maleita tentava desviar o olhar de Sheila. Ela era bonita e sexy, e ele não estava acostumado com isso. “Como assim?” Ela tinha a pose das Stellas em Detroit Rock City. “A gente precisa fazer um trampo........vender umas parada........os caras vão vir buscar aqui. Para você não muda nada.......até vai receber sem trabalhar.” A presença feminina num quarto de motel incomodava os dois amebas, na verdade. “Não quero participar de nada. Me deixem ir embora.” “Não dá.........você, tipo............podia contar para alguém.” Assim era o raciocínio simples de uma ameba. “Entendi. Mas eu quero receber três vezes mais que o combinado então.” Assim era o raciocínio simples de uma empreendedora. “Tudo bem.”

    Ainda restava algum tempo antes dos clientes chegarem. Porque as mães do Jonas e do Maleita eram do tipo ditadura da moral judaico-cristão, nenhum deles conseguia estar na companhia de uma mulher sem se sentir como William Miller, de Quase Famosos, junto com a Penny Lane. “Você não precisa participar.......sabe...........se quiser pode ficar escondida no banheiro.” O Maleita queria ser gentil. “Já participei de coisa muito pior, meu bem. Hahahahaha.” “Haha......é......mas é que a gente nunca sabe o que vai acontecer. De repente os caras resolvem encrespar e.........” “Sei bem como é o a gente nunca sabe o que vai acontecer. Olha só o que estou fazendo num motel. Ahahahah.” A Sheila estava tão a vontade com a situação quanto um peixe dentro da água. “Assim.......com todo respeito.......você........sabe.......nunca pensou em fazer outra coisa da vida?” Agora era o Jonas que queria fazer amizade. “Olha só quem esta me julgando? E você? Com todo o respeito.......já pensou?” “Mas........é diferente........” “O que é diferente? Nós três estamos fodidos aqui.” “Mas pelo menos eu não vendo o corpo.........nossa......desculpa......eu não......” O impulso judaico-cristão do Maleita fez ele se sentir como a Angela Hayes, de Beleza Americana, quando ela conta pra o Lester que é virgem. “Pelo menos eu vendo o que é meu. É meu direito. E você? O que tá vendendo aqui?” Num sinal claro de que a conversa estava encerrada Sheila foi para o banheiro, que não tinha porta. “Eu vou cagar, então, por favor, não venham aqui. Para cagar em cima eu cobro mais.” Foi estranho para os dois escutarem uma mulher falar cagar, mas eles estavam se borrando de medo dela por causa do tom duro com que ela falou.

    Com o ambiente pesado, e a Sheila no banheiro, o tempo parecia que não passava. “Eles já tinham que estar aqui.” Na cabeça do Maleita era questão de tempo para a polícia entrar no quarto estourando tudo. Quando os carcamanos bateram na porta ele quase teve um ataque cardíaco. Eram três caras: um velho desarmado e dois grandões ostentando armas na cintura e nas mãos. “Vocês estão sozinhos aqui?” O capo falava e os leões de chácara encaravam. Era como o Cara de Tijolo em Snatch. “Não. Tem uma amiga nossa no banheiro. Mas ela esta fazendo cocô mesmo.” O futuro dono da mercadoria olhou de canto de olho para o jamanta da esquerda, que levantou a mão com a arma até a altura do ombro, encarou os amebas, e entrou no banheiro. Parecia com o John McClane em Duro de Matar I. “Ei! Não posso nem cagar em paz?” A Sheila escutava tudo sentada na privada como fica alguém que esta usando o trono, e já tinha decidido só sair de lá a hora que tudo estivesse resolvido. O capanga fez cara de poucos amigos, um sinal de positivo com a cabeça para o chefe, e voltou para o seu lugar de poste ao lado do big dog. “Ok. Cadê a mercadoria?” O Jonas pegou a mochila que estava no sofá e colocou em cima da cama. O velho abriu, viu o que tinha dentro, e olhou para o capanga da direita, que saiu e rapidamente voltou com uma maleta. “Tá aqui o pagamento. Não gastem tudo em chocolate.”

    Depois que os gangsteres saíram nenhum dos dois sabia direito o que fazer. “Vamos esperar um pouco antes de ir para não levantar suspeitas.” Sugeriu o Jonas. “Vamos embora daqui logo!” Protestou o Maleita. Sheila saiu do banheiro e abriu a maleta que estava na cama enquanto os dois discutiam. Quando eles escutaram o tric tric das travas olharam para ela sincronizados como os dançarinos de Chicago. “Meu Deus! É muito dinheiro! Parabéns rapazes! Vamos comemorar!” Sheila falou isso já deitando nos lençóis de seda da cama redonda e deslizando a mão pelo corpo. O desespero de ver uma mulher pelada deixou os dois amebas travados sem piscar. Sheila riu, abriu o frigobar, pegou três garrafinhas de whiskey, deu uma para cada idiota, e brindou. “Vocês vão pagar, então vamos nos divertir.” Ela virou a garrafinha que estava em sua mão e começou a tirar a roupa. Os dois repetiram o gesto e, tremendo como vara verde, foram brincar.

    Com a ajuda de uma profissional do sexo eles descobriram um mundo novo. Estica dali, chupa de lá, dobra pra cá, gira, torce, fode de pé, fode deitado, fode lado. A cada novidade uma garrafinha de alguma coisa ia goela abaixo. Vodka, vinho, cerveja, e a galadeirinha do quarto tinha mais bebida do que festa de formatura. Sheila foi deslumbrante, se superou. Cada um gozou três vezes sem nem saber de que lado estava a boceta. No fim eles gemiam mais que ela. A mistura álcool + sexo animal levou os dois direto para o paraíso do sono dos campeões. Jonas começou a roncar como um trator com defeito em menos de cinco minutos. O Maleita não precisou de tanto, depois da última gozada apagou sem nem se preocupar em tirar o pau de dentro da onde ele estava. Sheila ainda tomou um banho quente antes de pegar a maleta com o dinheiro e sair.
  • Todo Poderoso

    Noite passada matei um homem. Estou lhe contando isso, na tentativa de tirar esse peso de mim. Confesso. Sim, o assassinei à sangue frio. Foi tão simples, tão rápido e não hesitei, vi que podia fazê-lo e fiz. A pobre vítima numa hora existia e na outra... má sorte... nem mesmo teve tempo de se defender ou ao menos implorar por misericórdia. Recordo-me que, durante o ato, me senti magnificamente poderoso, a morte do sujeito me fez sentir mais vivo e eu sorri diabolicamente diante da cena.
                   A sensação de poder e orgulho no entanto, logo deram lugar para o sentimento de culpa e arrependimento. Fiquei realmente péssimo, sentia um vazio em meu estômago e para ser honesto com você, confesso que andei chorando. E eu quis voltar atrás. Ah! Como eu quis... Passei a madrugada inteira sem pregar os olhos. Vasculhei minha mente até a cabeça doer, procurando uma solução, uma forma de reverter tudo aquilo. Eu bem sabia que poderia ter dado uma maquiada nas coisas, poderia ter usado desculpas esfarrapadas que me tirassem daquela situação. Porém, meu orgulho não permitia, estava feito... Eu havia dado cabo daquele homem para sempre e tudo o que restou dele foi aquilo que já fora escrito.
                   Você provavelmente está pensando que com o meu ofício, coisas assim deveriam ser corriqueiras e eu já deveria estar acostumado a matar. Bem, você está parcialmente correto. Evidentemente, este não foi o meu primeiro assassinato. Para dizer a verdade, eu nem sei ao certo lhe dizer quantos já matei em toda minha vida profissional. Por favor, não entenda isso como insensibilidade da minha parte, tão pouco interprete como descuido. Não fico contando vantagem de quantos já matei até mesmo por respeito aos falecidos. Gosto de pensar que mato apenas quando há real necessidade, para que as coisas possam funcionar da maneira que devem.
                   Mas então, por que esta morte não foi apenas mais uma em minha carreira? Por que me afetou desse modo? O fato é que desta vez foi arbitrário. Isto é, não havia a tal real necessidade. Matei um homem só pra ver ele morrer... Ele não tinha uma ligação direta com o meu objetivo, ele nem ao menos entrou em meu caminho. Foi como caçar em um zoológico. Foi como brincar de ser Deus, matando a esmo, dando câncer à criancinhas, atropelando idosos, explodindo usinas, causando terremotos, enchentes, tsunamis, vulcões em erupção, tornados, pestes e epidemias.
                   Espero não ficar viciado. Imagino a cena: sento em frente a máquina de escrever para criar mais uma história e tudo que sai é uma avalanche de mortes, assassino personagens ao acaso. “Fulano de Tal foi a padaria comprar os ingredientes para um esplêndido café da manhã. No balcão do estabelecimento ele cumprimenta o Zé Cicrano, padeiro e amigo seu de longa data. Enquanto escolhia cuidadosamente o iogurte de sabor ideal, um sujeito usando uma meia-calça na cabeça entra armado para assaltar a padaria, Zé Cicrano tenta reagir e o bandido atira nele – o padeiro morre na hora. Fulano de Tal se agacha e começa a rezar baixinho no canto do corredor de iogurtes. O bandido retira a meia-calça e pula o balcão da padaria em busca do dinheiro no caixa. Fulano resolve tentar fugir de lá correndo, se levanta e põe as pernas para funcionar, porém ao chegar à porta um segundo assaltante que estava esperando pelo seu comparsa para a fuga, avista Fulano e dispara contra ele. O tiro atingi a perna de Fulano de Tal que cai no chão agonizando. Que tipo de Deus deixa isso acontecer? Fulano pensa angustiado enquanto os dois assaltantes se juntam para fuzilá-lo ali mesmo na calçada à luz de uma manhã nublada.” Escrevo essa cena medíocre com um sorriso anestesiado no rosto. Hahaha morram, seus fracos fodidos! Ninguém pode com o escritor todo-poderoso aqui.
  • TRAÇOS DE UMA ANSIEDADE

     Durante toda a minha trajetória de vida, passei por muitas coisas complicadas, situações que prejudicaram tanto eu mesmo quanto minha família. Desde então, eu venho tentando buscar algo melhor para mim, e para todos que estão evolvidos na minha história. Muitas coisas vem acontecendo,e a cada dia que passa eu rezo para que tudo dê certo.

      Sou um homem trans,e ainda preciso passar por várias transformações pessoais, que inclusive já pensei em jogar muitas para o ar e desistir. Acho que o maior desânimo, foi de alguns sonhos que foram interrompidos. 

      ANSIEDADE

      Minhas primeiras crises de ansiedade começaram ano passado (2019), quando eu havia começado meu primeiro emprego. Eu não sabia como lidar como medo de errar, meu  meu coração acelerava tanto, que eu sentia  falta de ar com tantos pensamentos que vinham a mente. Muitas pessoas tentavam me ajudar me vendo naquela situação, e eu só queria fugir de onde eu estava. A partir daquele dia, já imaginei o quanto eu teria que lutar e manter a calmo para não acontecer tudo novamente, cheguei a frequentar terapeuta umas duas vezes.

         Foi e continua sendo algo bem chato de lidar. É muito doloroso acordar em um dia todo feliz e de bem com tudo, e do nada bater um desânimo total e simplesmente chorar muito. Tem dias que da vontade de sair por aí sem rumo, só ir, tem momentos que ficar no quarto sozinho sem ninguém por perto é um alívio. É ai que você não encontra uma forma de explicar o que se passa na cabeça, fica sem rumo diante de qualquer coisa ou situação e tudo ao seu redor, parece estar sem sentido.
     Ser uma pessoa ansiosa é saber lidar com seus medos, preocupações, angústias. A grande maioria das pessoas falam coisas do tipo "ah, mas a pessoa está assim só para fazer drama, só para chamar a atenção" . Esse tipo de argumento é totalmente horrível para julgar quem sofre diariamente com esse problema. 

    Ajudar quem sofre de ansiedade independente do dia faz toda a diferença, seja com alguma palavra de carinho, um abraço... Se você convive com alguém que passa por essa situação, não deixe de trazer muito amor, conforto e segurança. 

       -  PEQUENOS GESTOS VALEM A PENA!
  • Trancafiados Vol.1

      Lembro-me muito bem, em que em janeiro de 1945, estava eu com a minha família em casa ainda morávamos em Desden na Alemanha, eu meu pai e minha mãe, em meio a guerra estávamos economizando uma quantidade significativa de comida e água.. porém em meio a guerra, a comida e bebida iriam acabar alguma hora sem dúvidas, todas as manhãs eu acordava e sempre olhava para minha janela que estava na esquerda da minha cama, sempre olhava e ficava pensando até quando aquela guerra iria durar, levariam, anos.. meses... décadas? Essa era uma das perguntas que eu não conseguiria responder, meios os dias iriam passando.... no fim de janeiro de 45 meu pai ficou extremamente doente, ardia a febre, ficava de cama o dia inteiro sem ter forças pra nem sequer levantar um copo, fiquei muito preocupado com ele e sabia que deveria tomar alguma ação rapidamente... então me lembrei que havia antes do início da guerra uma espécie de farmácia no final do meu bairro, porém em tempos de guerra era extremamente proibido e perigoso sair nas ruas, porém não pensei duas vezes em tentar pegar algum remédio, peguei o mínimo de coisas possíveis para ir até a farmácia, saindo de casa a rua está totalmente vazia, algumas casas destruídas ou abandonadas por suas famílias, não muito longe da farmácia escuto um barulho de alguma coisa batendo.. então percebo que está vindo da casa na minha direita, poderia simplesmente ignorado e ter ido até a farmácia, mas fiquei intrigado com o barulho, entrei na casa que aparentava estar abandonada, abri a porta e o barulho continuou, subi no 2° Andar e vi que o barulho estava vindo da porta no fim do corredor, me aproximei e perguntei.. "Oi?... Tem alguém aí?". Então uma voz respondeu.. "Olá!! Por favor me ajude.. estou presa aqui!!". Com um pouco de receio perguntei.. "O'que aconteceu aqui?". Ela um pouco mais calma me explicou.. "Eu estava aqui em casa, quando derrepente escutei alguém batendo na minha porta, quando olhei pelo olho mágico para ver quem era.. percebi que eram 2 soldados nazistas que estavam fazendo uma varredura em todas as casas". Muito preocupado perguntei se ela estava ferida, porém ela me disse que estava muito bem... então tentei pegar um pé de cabra que havia na garagem da mulher e arranquei as tábuas que a impediam de sair, então ela me agradeceu e perguntou se poderia me ajudar de alguma forma, então respondi; "Na verdade tem uma coisa... meu pai está muito doente gostaria de saber se você teria algum remédio..?". Ela me respondeu; "Infelizmente não tenho remédios mas eu sou médica, e trabalhava na farmácia no fim do bairro, se quiser posso lhe emprestar a chave da farmácia, você vai, pega os remédios e trás pra mim para podermos tentar ajudar seu pai.." eu muito agradecido aceitei a oferta e fui até a farmácia, chegando lá eu abri a porta e percebi que estavam com poucos remédios porém já conseguiria pegar apenas o necessário para ajudar meu pai... peguei o Último medicamento e quando olhei para a porta da farmácia, vi um soldado nazista entrando, totalmente armado, sem dúvidas se ele me visse, atiraria primeiro e perguntaria depois, então com muito cuidado me aproximei da porta dos fundos e consegui sair de lá..... Chegando em casa com a médica, ela olhou meu pai e me disse que se esperasse mais algumas horas meu pai provavelmente não teria sobrevivido, foi uma das coisas mais terríveis que aconteceram comigo naquele ano, isso que eu nem sabia por oque estava por vir..



  • TREM NOTURNO PARA NEBRASKA

    Da janela do trem que acabava de sair do túnel não se via nada além das estrelas, que de tão longe, não nos vê.

             O homem tinha um violão, um lápis, um caderno e uma varanda do lado de dentro dos muros.

            Ele fazia anotações que escondia no armário.

            Ele cantava algumas canções no sótão da cabana que ficava no fundo do corredor, perto da ponte de onde vinham os sinais.

            À noite entre o jantar e o café ele conversava com seus amigos e falava sobre “Comentários a Respeito de John”, sobre a “Balada de Narayama” e sobre a chuva que o pegou próximo ao leito do rio.

            Depois do café ele e os outros tinham que voltar e dormir, sem saber onde iriam acordar.
  • Três alunos memoráveis

    Entre os anos de 1983 e 1984, em São Paulo, tive três alunos memoráveis: Adelino Bocão, que, aos quatorze anos, gabava-se por ter morado numa favela perigosa do Rio de Janeiro e, principalmente, por possuir uma cicatriz de bala calibre 38 no crânio, acima da orelha esquerda; Beto Bigodinho, que não se gabava de anda, mas, como fiquei sabendo por boca de terceiros - pois ele quase não falava -, tinha lido Os Sertões, de Euclides da Cunha, aos treze anos de idade, em menos de uma semana; e Magno Braz Ferreira de Oliveira, que, já aos treze anos, impressionava por sua habilidade de falsificar assinaturas de professores e roubar galinhas sem deixar pistas que o pudessem incriminar.
    Mudei-me para Minas Gerais.
    Trinta e dois anos depois, voltei a São Paulo, a passeio.
    Freei o carro no semáforo do cruzamento da Rua Copenhague com a Benedito Leite de Ávila, e um pivete noiado de crack aproveitou que a janela do carro estava aberta, encostou as lancetas de uma garrafa quebrada de cerveja em meu pescoço, gritando, como um louco, que queria a minha carteira e o meu celular. Mas, como eu o agarrei pelo antebraço, puxei-o com tal força que bateu com o nariz na lateral do veículo, perdendo os sentidos por um instante, e tive o tirocínio de abrir a porta, pisar-lhe no pescoço e chamar a polícia, ele acabou desistindo de sua empreitada. Naturalmente, não ficou preso, assim como preso também não ficou o seu pai, Adelino Bocão, que, a esse tempo, achava-se condenado a quinze anos de reclusão por tráfico de drogas e assalto à mão armada, mas, por qualquer motivo tão insondável que até hoje ninguém sabe explicar ao certo, foi solto após cumprir doze dias de cadeia, mediante um alvará de soltura expedido pela Justiça, em atendimento à precisa intervenção judicial de Sua Excelência, o eminente Deputado Federal Magno Braz Ferreira de Oliveira, fato esse sobre o qual, a princípio, só se soube a boca miúda, mas que não tardou a vir a público, pois Adelino Bocão e o Deputado Federal Magno Braz Ferreira de Oliveira foram desmascarados como cabeças do crime organizado do Estado de São Paulo, conforme se pode verificar no Capítulo 8, página 523, do livroMapa do Crime Organizado do Estado de São Paulo, lançado pela Editora Saraiva, e de autoria do Sociólogo Dr. Roberto Álvaro Dias, a quem - a despeito de seu vasto bigode -, por uma questão de respeito, ninguém mais chama de Beto Bigodinho.
  • Três histórias e um jantar

    1
    Samuel acordou naquela manhã bem disposto. Planejara uma noite especial com a esposa. Fariam seu jantar anual juntos. O plano era tentar sair do trabalho o mais rápido possível, o que dificilmente conseguia, e chegar em casa perto das 21h, para preparar aquela refeição especial, seria um momento extraordinário, como o é todos os anos.
    Embora os últimos dias tenham sido turbulentos na relação do casal, Samuel sabia que essa ocasião era sempre feliz para o casal. Poderiam deixar sua brigas de lado e se deleitarem com a comida deliciosa, preparada com amor e carinho. Ele sentira a esposa um pouco distante, provavelmente por conta dos dias difíceis. Apenas esperava que ela não esquecesse desta data tão singular.
    Foi ao escritório feliz, tinha a esperança de uma noite maravilhosa com a mulher que ama. Demorou cerca de 40 minutos de sua casa até o escritório. Roque & Campos advogados, era onde atuava como advogado criminal. Preferia crimes de colarinho branco, a chance de retaliações criminosas eram menores e não gostava de lidar com crimes violentos. Contudo, mesmo, de certa forma, realizado naquele lugar, não pretendia ficar por muito mais tempo, talvez fosse seu último ano ali. Chegara a hora de mudar de cidade. Fizera fortuna nesse ramo, não precisava, de fato, trabalhar, seu patrimônio era invejável, seus pais lhe deixaram uma fortuna imensa e sua esposa também veio de família rica. Trabalhava apenas por gosto à profissão.
    Cumprimentou a doce e rechonchuda Rebecca, recepcionista do escritório, com um aceno. Ela sempre lhe respondia com um sorriso sincero e um “Bom dia, Sam”.
    - Bom dia Sam.  Desculpe a pergunta, mas o que é essa pulseira que sempre lhe vejo usar?
    - Oi Rebecca. É um adorno que minha mulher me deu há uns 15 anos. Quando planejamos nosso primeiro jantar anual. São duas chavinhas simbólicas, ela tem os dois cadeados. Representam nosso amor e como nos completamos e precisamos um do outro. Eu nunca as tiro.
    - Que lindo! Mas essa pulseirinha parece bem velha. Acho até que vai arrebentar com a primeira brisa que você pegar – ela diz rindo.
    - Quando isso acontecer minha esposa conseguirá um cordão novo e renovaremos nossos votos. Foi um acordo que fizemos, fique tranquila – ele respondeu com um sorriso simpático.
    Gostava de Rebecca e sempre deixava algum agrado para ela depois do almoço, geralmente uma guloseima calórica. Também era muito querido em seu ambiente de trabalho, costumava jogar futebol às terças à noite, pagava o almoço dos estagiários uma vez por mês, ou mais dependendo de ocasiões especiais como aniversários, despedidas, boas-vindas. Os clientes sempre lhe procuravam por seu ótimo atendimento e postura cavalheiresca.
    Ao meio dia foi convidado para um almoço com seus colegas da área criminal, Edward, Wayne e Francine. Foram a uma cantina italiana próxima ao escritório.
    - Sam, hoje temos a noite do uísque, você vai, não é? – Indagou Edward, esperançoso.
    - Não posso, tenho um jantar especial com minha esposa. É uma tradição nossa. Fazemos todos os anos, na terceira quinta feira de outubro, não posso desmarcar de jeito nenhum.
    - Vamos lá, Sam. Será bem divertido. É difícil passar tempo com o pessoal do escritório em um lugar descontraído. E o Wayne bêbado é sempre engraçado – disse Francine quase cochichando a parte final no ouvido de Samuel, com seus belos lábios quase encostando na orelha dele, e com a mão postada, gentilmente, em seu ombro.
    - Sinto muito Fran, realmente não posso, uma pena que este mês as duas datas coincidiram. Esse jantar é muito especial e querido por nós. Preparamos tudo juntos, acendemos algumas velas, incensos, tomamos um bom vinho tinto, deixamos o clima bem romântico. – ele dizia com uma expressão sonhadora.
    Desde que conhecera Samuel, Francine estivera apaixonada, contudo, nunca foi correspondida em seus avanços. Mesmo quando ambos ficaram bêbados na festa de final de ano, ela tentou roubar-lhe um beijo e ele desviou. Pediu desculpas para ela, deu-lhe um beijo no rosto e foi embora para casa e sua esposa.
    - E depois fodem em cima da comida mesmo, né? – disse Wayne gargalhando – é sensacional! Trepa gostoso e depois derruba tudo no chão.
    - Nunca fizemos isso. Parece um pouco nojento - diz Samuel com ar pensativo. – Talvez, quem sabe.
    - Em dois anos de escritório você nunca deixou de ir. Fará muita falta. – Replicou Edward.
    - Sempre teremos mês que vem meu caro.
    Depois do almoço, Samuel entrou e saiu de reunião diversas vezes, não queria deixar pendencias, nem se atrasar para seu jantar. Conversou com seu chefe e conseguiu sair do escritório por volta das 20h. Foi direto para casa.
    2
    Caitlyn acordou revigorada. Na noite anterior não fizera amor com seu marido, por opção dela. Ele sempre fora apressado, pulava as preliminares ou fazia de qualquer jeito. Era a forma de dar uma lição nele, afinal, quando se empenhava era o melhor amante que ela já teve. Funcionava, ela sabia que homens geralmente eram egoístas na cama, só que seu marido, aos poucos, aprendia  a generosidade carnal e a saciava. Aquela recusa no sexo fora apenas uma pequena lição para reforçar o que ele já sabia, fora apenas um pequeno erro.
    No fundo Caitlyn acreditava, e tinha razão, que ele simplesmente não conseguia se segurar, não controlava suas vontades e todo o tesão que sentia por aquela loira de olhos castanhos. Ele sempre elogiou seus seios dizendo que tinham o tamanho exato pra encher-lhe, completamente, a mão. Não podia negar que o sexo era extraordinário, mas ele precisava entender que sexo não era só enfiar um pau ereto dentro dela. Com o tempo, de fato, ele ia melhorando, as greves de sexo tornavam-se menos constantes.  Caitlyn imaginou que aquela fora a primeira vez no ano que puniu o marido.
    Ultimamente andara chateada com seu esposo. Sabia que o problema maior não era ele e sim a cidade onde se fixaram nos últimos tempos. Não aguentava mais morar ali. Precisava descarregar suas energias de alguma forma. Tinha medo de que o número de seus seguidores, em suas redes sociais, diminuísse por falta de material para postar. Muito embora não tivesse perdido nenhum patrocínio em seu canal sobre saúde, isso poderia ocorrer logo. E seu canal sobre dicas de viagens e indicando atividades em cada cidade que visitasse ou morasse, encontrava certo declínio. Isso a preocupava, sabia que dinheiro não era problema nem para ela nem para seu marido, mesmo assim gostava do que fazia e de seus resultados. Pensava em mudar do país, talvez ir para a Itália, ou Grécia. Conversaria sobre isso com seu esposo nos próximos dias.
    Saiu de casa com a sensação de que esquecera algo importante. Não sabia o que e não conseguia lembrar de forma alguma.
    Na entrada da casa, pegou um taxi e visitou algumas lojas de produtos para malhação e alimentação saudável. A rede era um de seus patrocinadores masters, então, fez um breve vídeo ali elogiando toda a loja e os funcionários. Comeu uma barra de cereal, transmitindo tudo ao vivo para seus seguidores, descrevendo seu sabor incrível e os benefícios que traziam para si e para qualquer pessoa que a consumisse.
    Quando desligou o celular para encerrar o trabalho, reservou algum tempo para conhecer melhor aquela loja e seus funcionários. Gostava de dar atenção a todos e, por isso, era sempre muito querida. Saiu dali e foi almoçar com Hanna, iria negociar um novo contrato de patrocínio para seu canal e atrasou-se por conta das conversas dentro da loja, isso raramente acontecia, era uma mulher muito metódica e organizada. Hanna lhe apresentou uma proposta e Caitlyn utilizou seu talento natural para negociar. Conseguiu aumentar bastante o valor envolvido. Ambas pareceram satisfeitas e Caitlyn se despediu agradecendo, para, então, seguir com seus compromissos da tarde.
    Seu próximo afazer era em uma academia, iria gravar outro vídeo. Tinha muito carinho por esses momentos, só precisava se filmar correndo na esteira ou algo do tipo, então poderia cuidar da saúde e ganhar seu dinheiro, além de incentivar milhares de pessoas a uma vida saudável. Passou cerca de duas horas por ali, tirou diversas fotos e fez muitos vídeos. Para manter seu status deveria ser uma mulher presente nas redes sociais. Era um trabalho de tempo integral.
    Tomou um banho morno. Toda aquela endorfina do exercício lhe dava tesão. Sentiu vontade de se tocar (droga, deveria ter transado ontem), mas aguentou. A ideia de ser pega no banheiro da academia não lhe agradava.
    No começo da noite fechara três contratos novos e fizera um pequeno trabalho voluntário cuidado de idosos. Passou o final de tarde e começo da noite com aqueles idoso, ouvindo suas histórias, compartilhando abraços e sorrisos. Imaginou que já era tarde, seu dia fora cansativo e tudo o que queria era voltar para casa, talvez resolver o que não conseguiu na academia.
    Na porta do asilo viu um taxi passando e estendeu seu braço para que ele parasse. Não viu que já tinha um passageiro dentro, até que o carro passasse e fosse embora. O segundo taxista parou.
    3
    Daniel era um jovem que morava sozinho. Não era muito belo, contudo, não poderia ser categorizado como feio. O melhor elogio que recebera fora quando lhe chamaram de um homem normal. Tinha cabelos negros curtos, barba rala e olhos castanho escuro, quase pretos. Não se destacaria na multidão nem que fosse o único presente.
    Após um investimento ruim e uma empresa falida, virou taxista. Tirava um dinheiro bom, mesmo com todos os aplicativos disponíveis por aí. Ele gostava de andar pelas ruas dirigindo seu belo carro, a única coisa que sobrou da época de vagas gordas. Tinha um genuíno amor em dirigir, mas era seleto, não parava para qualquer passageiro, talvez por isso o dinheiro não fosse tão bom quanto poderia. Não aceitava qualquer um em seu carro e nas noites adorava dar carona para garotas bêbadas, eventualmente, alguma dava em cima dele.
    Durante a manhã, conseguiu duas corridas para o aeroporto, o que lhe deixou muito feliz. Anotou em seu relatório e seguiu rodando pela cidade. A tarde não foi muito boa, levou alguns engravatados para suas reuniões importantes, um garoto para um hospital, pela energia com que ele entrou no carro e óculos escuro naquela tarde nublada imaginou que não iria receber boas notícias, e um casal apaixonado que não se soltava no banco de trás, achou interessante observar que as alianças não combinavam (ela tinha uma, ele não).
    Lembrou que não transava desde que sua namorada o deixou. Depois até recebeu um boquete meia boca de uma passageira bêbada, que vomitou nele, antes que pudesse gozar, e apagou. Foi bem frustrante e terminou em uma noite solitária limpando o carro por algumas horas.
    Em seu tempo como taxistas teve algumas corridas bem loucas, mas nenhuma teve um desfecho parecido com a sua próxima.
    Viu uma mulher em frente a um asilo. Ela deu sinal, desesperada, para outro taxistas, só que ele passou reto. Quando viu o carro de Daniel sorriu, era um belo sorrio, uma bela mulher.
    Daniel encostou.
    4
    Caitlyn entrou no taxi, no banco de trás e fechou a porta, delicadamente, não teve força suficiente para fechá-la na primeira tentativa, teve que usar um pouco mais de força na segunda vez.
    - Não tem problema moça, pode bater essa porta velha.
    - Que nada, seu carro está novinho e cheiroso, estou vendo que cuida muito bem dele. E, por favor, me chame de Caitlyn.
    - Eu tento manter tudo em ordem. Afinal, é como ganho a vida né (será que eu tento algo com ela), nunca se sabe quando uma dama tão elegante entrará aqui. E se vou lhe chamar de Caitlyn, por favor me chame de Daniel.
    - (que cantada horrível) Muito obrigada. Sabe aqueles dias em que você tem que lembrar de algo importante e não faz ideia do que seja?
    - Eu sei sim. E quanto mais você tenta lembrar, mais você esquece, não é?
    - Isso mesmo – responde ela em um riso sincero – odeio essa sensação.
    - Para onde você vai, Caitlyn?
    - Estou indo para casa, moro na rua 15, número 2017, mas estou com pressa. Posso te pedir para não ligar o taxímetro? Te pago 150 aqui, agora. É bem mais que o dobro da corrida – disse Caitlyn lhe estendendo três notas de 50.
    - Nossa Caitlyn! Mas é contra a lei, não posso transportar uma passageira se não ligar o taxímetro. Desculpe.
    - Nem por mais 150? – diz ela estendendo mais três notas de 50.
    - Bom, acho que todo mundo tem seu preço. Vamos lá.
    Os dois jogaram conversa fora pelos próximos 20 minutos, ela morava em um lugar bem afastado e conhecido por suas casas suntuosas. Esses casarões enormes sempre são afastadas de tudo e de todos. Daniel invejava essa vida rica que levavam. Era para ele ter conseguido isso com seu investimento e sua empresa, se não fosse por um sócio corrupto e um péssimo consultor financeiro foderam com a sua vida. Pelo menos é o que ele se dizia todas as manhãs. Logo, chegariam ao destino, a falta de trânsito era um alívio.
    - Então eu pulei só de sunga na piscina tão forte que ela quase saiu pela minha cabeça. Ficou parecendo um fio dental na minha bunda e todo mundo riu e mim. – diz Daniel gargalhando e limpando as lágrimas.
    - Não acredito! E como você saiu de lá.
    - Eu estava com minha ex namorada, ela que me avisou, eu só senti o incômodo. Fiquei com muita vergonha e pedi para irmos embora. Ela topou. foi uma das últimas vezes que saímos.
    - O que aconteceu?
    - Coisas de relacionamento, sabe? As coisas esfriaram e em vez de tentar concertar, resolvermos procurar coisas novas – (talvez não fosse sensato partilhar as traições que ela descobriu? Quantas passageiras você fodeu enquanto ela lhe esperava em casa preparando uma jantar delicioso para vocês?).
    - Eu não sei. Casei muito jovem. Meu marido foi o único homem que já tive na vida. Mas o que aconteceu depois?
    - Terminamos há uns 4 meses. Ela não suporta mais olhar para mim. Agora resolvi dar um tempo das mulheres – (mais para todas as mulheres resolveram dar um tempo de você, não é, Daniel?) – prefiro que as coisas aconteçam naturalmente agora. Não tenho pressa.
    - Você deve atrair muitas mulheres, não?
    (ela está dando em cima de mim?)
    - Não muitas, acho que esse meu jeito quieto afasta elas um pouco.
    - Eu discordo. Fale um pouco mais de você, é daqui da cidade? Seus pais são daqui?
    - Eu sempre morei aqui sim, mas meus pais são falecidos há muito tempo. Desde que minha ex foi embora, estou sozinho em meu apartamento. Infelizmente é bem longe daqui – diz ele em um risinho nervoso.
    - Minha casa é aquela ali. Pode encostar.
    - Muito obrigado, Caitlyn.
    - Eu que agradeço, Daniel. – diz ela saindo do carro.
    Daniel alcançou o porta luvas. Ficou em dúvida se anotava aquela corrida, pois não ligara seu taxímetro. Antes de terminar seu raciocínio ouviu.
    - Sabe, meu marido não está em casa. Quer entrar para ganhar sua gorjeta?
    Daniel se perdeu por um instante em seus pensamentos. Lembrou-se da vez em que transou com uma passageira casada, dentro de seu carro, no banco de trás. Estavam na frente da casa dela. O sexo era bom. Bom o suficiente para que não ouvisse a porta abrindo, mas não o suficiente para que não sentisse aquele cano gelado de revolver encostando em sua nádega esquerda (pelo menos não foi no meio). Nunca vai esquecer aquela frase, proferida com uma calma tenebrosa, “O senhor quer, por gentileza, tirar o pau de dentro da minha esposa?”. Provavelmente foi o momento mais aterrorizante de sua vida. E a mulher não pagou a corrida. No fundo desconfiou que pudesse ser algum golpe, talvez alguma fantasia em que o marido queria pegar a mulher traindo ele, não sabia, tem muita gente estranha nesse mundo. Também, não se importava, afinal, vivera para contar a história.
    Deu uma outra olhada naquela loira maravilhosa esperando em sua janela (qual a chance de algo assim acontecer de novo?), tudo o que fazia era imaginá-la nua. Aceitou o convite.
    E cometeu o maior erro de sua vida.
    Acompanhou-a até a porta. Tomou cuidado para confirmar se as luzes estavam apagadas, não poderia arriscar um marido raivoso lá dentro.
    (Tudo apagado e casa silenciosa, tá limpo! Me dei bem)
    Ela girou a chave lentamente e empurrou a porta que gemeu um pouco. Era uma casa enorme, com dois andares. O jardim da frente era lindo e bem cuidado.
    - Por favor, entre. – disse Caitlyn com uma voz doce.
    Ele entrou na casa.
    Não sentiu o cheiro doce do clorofórmio, nem o abraço forte daquele homem enorme que saiu de trás da porta. Mas tem certeza de ter ouvido algo parecido com “desculpe querido, acabei de lembrar que precisava trazer um vinho”, antes de apagar.
    5
    Daniel não sabe quanto tempo se passou. Quando acordou viu-se acorrentado em cima de uma mesa de aço. Seus braços juntos em uma extremidade, sem muito espaço para qualquer movimento e as pernas na outra. Olhando ao redor viu o que parecia ser um porão limpo e organizado, com diversas velas espalhadas, iluminando bem o ambiente e um incenso que queimava lentamente. Era como se tivessem transformado aquilo em uma maldita sala de jantar.
    Sentia uma dor intensa na panturrilha e quando olhou para baixo viu que vestia apenas sua cueca e reparou nos cortes intensos e bem definidos em sua perna esquerda, pedaços de Daniel que ali faltavam, além do sangue que escorria. Sentiu o desespero em seu coração quando observou à sua volta dois pratos sujos com o que parecia sua carne recém retirada.
    (Por Deus, o que fizeram comigo?)
    - A sim, vejo que já está acordado. Preferia que não estivesse. Acho que não vai gostar do que vem a seguir. A esposa esqueceu o vinho, só que resolvemos comprar durante a refeição. É algo indispensável, não diria?
    - Quem diabos é você?
    - Sou Samuel. Mas meus amigos me chamam de Sam. Você pode escolher como preferir.
    - Me tira daqui seu merda! Que porra é essa, por que estão fazendo isso comigo? – as corrente tilintavam durante o acesso de raiva de Daniel.
    - Ora meu amigo, se acalme. É uma pequena tradição que tenho com minha esposa. Todos os anos nos reunimos para um jantar muito especial. Neste ano é você. Nos deu algum trabalho raspar essas suas pernas peludas. Seu cabelo e a barba foram fáceis, mas dificilmente comemos esse tipo de pele. O que tem dentro é mais saboroso, sabia que o cérebro humano é bem nutritivo? Mas ai a carne já está morta. O sabor da carne viva é inigualável. Olha só, já estou salivando de novo.
    Aquelas palavras provocaram o horror em Daniel. Imaginou que iria morrer ali, seminu em uma mesa de aço, sendo devorado vivo por dois lunáticos em um jantar à luz de velas. E para piorar, ninguém se daria conta disso por dias, talvez semanas.
    (Isso não pode ser verdade, não pode acabar tudo assim.)
    Caitlyn chega com uma garrafa de vinho na mão e um belo sorriso estampado no rosto. Serviu vinho para os dois e sentara, cada um de uma lado da mesa, então, aquele casal sinistro conversava casualmente. Samuel cortava pedaços de sua perna esquerda e servia a esposa, Daniel gritava a plenos pulmões.
    - Sabe Daniel, esse porão é totalmente a prova de som. Você poderia ter um pouco de educação e nos deixar comer sem esse barulho todo, ou ao menos poderia conversar conosco. Deus, onde achou esse cara amor?
    - Tivemos sorte. Ele foi tão mal em tentar me conquistar que tive que forçar um pouco, fiquei preocupada de assustá-lo e perder nossa janta.
    - Sabe, meu caro Daniel, os tendões tem um gosto muito bom, mas são como chiclete, eles não se desfazem na boca. Este aqui é o meu preferido – diz Samuel cortando o tendão de Aquiles de Daniel – às vezes gosto de cortar em pedaços bem pequenos, só para ter o prazer de engolir.
    - Por favor, eu imploro, me tire daqui. Ninguém precisa saber o que aconteceu.
    - Eles sempre imploram, né amor? – diz Caitlyn com um olhar de pena – eu acho broxante. Por isso prefiro mulheres, são mais saborosas e aguentam a dor com mais dignidade.
    - Sim, mas dos homens vem o meu prato preferido amor, aliás, o nosso. E vem justamente em duas pequenas unidades, uma para cada.
    Daniel arregalou os olhos e por alguns instante parou com toda a sua gritaria.
    - Isso mesmo Daniel. Estou falando das suas bolas. As vezes os caras morrem antes de chegarmos lá, o que é uma pena. Mas quando estão vivos, é, de longe, a parte mais saborosa. Hummmmmmmm – Samuel pareceu se perder em pensamentos enquanto lambia os lábios - Você nem vai sentir mais a dor, eu juro. Serão dois corte rápidos.
    - Não estrague as coisas amor, esse será só o nosso café da manhã. Não brinque com os sentimentos da comida, sabe como os homens são com essas coisinhas insignificantes. Aposto que se perguntasse se ele preferia morrer ou perder as bolas e ir embora, ele escolheria a morte.
    - Talvez amor. Só que sabemos que ele não sairá daqui com vida de qualquer forma. – Os dois riram, uma risada que atingiu o fundo da alma de Daniel. Ele já encontrava-se à beira de um colapso. - Sabe, nós cauterizamos os ferimentos quando estamos saciados. Às vezes vocês vivem, às vezes não. Tudo fica jogado à sorte. Espero que você viva Daniel, já fazem quatro anos que não como essa iguaria deliciosa de um ser vivo. Faça-me um favor e não fode comigo tá bom? – este final soou com uma grande irritação na voz - Fique vivo até amanhã, é tudo que lhe peço.
    - Vocês são LOUCOS! Completamente lunáticos! Qual é a PORRA do problema de vocês! – em seus gritos, saliva saia da boca de Daniel, como um cão raivoso.
    - Amor, você deixou a comida chateada. – disse Caitlyn em tom conciliador.
    - Entendo, acho que me excedi. Não deveria ter puxado assunto com ele. Não sabia que era tão sentimental assim. Quer mais um pedaço paixão?
    - Por favor, eu gostei que não é muito musculoso, a carne está tão macia.
    - Sim, você escolheu muito bem. Obrigado amor. E você Daniel, quer um pedaço?
    Daniel não respondeu, apenas chorou.
    Os minutos se alongavam como horas. Daniel desmaiou e acordou algumas vezes. Toda vez que acordava via aquele casal macabro consumindo sua carne e desmaiava novamente (é um sonho? Isso não pode ser real!). Foi então que acordou e viu que, de sua panturrilha para baixo, a perna esquerda não existia mais.
    - Amor, estou satisfeita, melhor guardarmos para depois
    - Claro, paixão. E você amigão, ainda está conosco – diz Samuel dando alguns tapinhas no rosto de Daniel.
    - O... que...? – Daniel estava um pouco grogue, mas reparou em uma pequena e frágil pulseira no braço de seu captor. Aquela pulseira tinha duas chaves pequenas.
    (se eu conseguisse um puxão rápido, ele talvez nem sentisse. Porra, quem estou enganando, eu vou morrer nessa mesa)
    - Daniel?
    - Pooor favoooor – sua voz soava baixa e arrastada – me... deeiixe... ir...
    - Ora Daniel, seja inteligente, sabe que não podemos deixar isso acontecer. Mas vou tentar te manter vivo até amanhã. Você vivo é o melhor tempero. – diz enquanto acende um pequeno maçarico portátil – E vamos fazer todo o possível para isso.
    O grito de Daniel quando a chama encontra seu toco de perna, onde antes existia seu pé, fez com que Caitlyn se assustasse. Samuel não se importou e continuou.
    - Sabe, não comemos pé, a pele é muito dura. O gosto não é muito bom e normalmente a higiene é precária. Mas precisamos cortar fora para evitar qualquer infecção. Sua saúde está em primeiro lugar. Pelo menos até o café da manhã.
    - Ai amor, você é terrível. – diz Caitlyn rindo.
    - Eu sei. Paixão. Sabe, conversei com o pessoa do escritório hoje e eles deram uma ideia...
    - Aquela Francine ainda fica em cima de você?
    - Sim, mas não se preocupe, logo iremos embora. Um ano no máximo. Logo podemos levantar suspeitas.
    - Deveríamos trazê-la para jantar – Diz Caitlyn em um risinho histérico.
    - Não, não amor. Não podemos ter conexões com a janta. Por isso já me livrei do carro desse rapaz. Mas como eu ia falando. Sugeriram transar em cima da comida.
    - Não acho que se referiam a esse tipo de comida amor. Mas...
    Caitlyn se despiu vagarosamente e Samuel a beijou.
    - Lembre-se do que você me deve amor.
    - Sim paixão. Farei tudo por você hoje.
    Daniel acordou novamente e viu seu captor com sua língua nas partes baixas de sua mulher, fazendo-a gemer. Sentiu ânsia de vômito, mas segurou. Teve uma ideia, com um pouco de sorte, poderia dar certo. Precisava guardar suas energias e torcer. Um fiapo de esperança aparecia.
    O casal levantou e se jogaram em cima da mesa, com Daniel.
    - Cuidado com a perna dele. Não queremos causar sofrimento desnecessário no nosso hospede.
    Eles continuaram o ato de amor na mesa, por vezes em cima de Daniel, as vezes apenas por perto.
    (eles são completamente insanos)
    Foi quando Daniel sentiu algo metálico e, ligeiramente, gelado em sua mão.
    (por favor, Deus, faça com que seja isso)
    Com um movimento rápido conseguiu fechar os dedos naquelas chaves e as segurou com toda sua força e desespero, aguardando o movimento de Samuel. Quando ele se mexeu, o cordão frágil arrebentou e as chaves se alojaram na mão de Daniel que não conseguiu conter uma pequena lágrima, não tinha certeza se de felicidade ou de tristeza. Por sorte Samuel não reparou, toda sua atenção era para sua esposa.
    - Amor ele está chorando. Isso estraga o clima. Não acho que foi uma boa ideia.
    - Tem razão paixão. Não gostei. Vamos terminar lá em cima.
    O casal se retirou deixando Daniel sozinho. Ele não ouviu a porta sendo fechada, então controlou ao máximo seus gemidos de dor. Nada pode fazer quanto às lagrimas que escorriam por seu rosto. Com cuidado tentou colocar a chave no cadeado que prendia as correntes de sua mão.
    A chave não entrava, tentou as duas posições e nada. Esforçou-se para mudar de chave e a segunda entrou, na primeira tentativa. Um breve sorriso escapou em seus lábios quando ela girou e ouviu um pequeno “click”. Seus braços estavam livres.
    Soltar as pernas fora fácil. Contudo, a esquerda latejava incessantemente. Ele precisaria de algo para se apoiar e teria que ter cuidado para não derrubar os pratos no chão. Não se esqueceu de pegar uma faca, a mesma que aquele desgraçado usará para sua perna, talvez precisasse de algo para se defender.
    Com cuidado pegou o prato de um lado da mesa e colocou-o do outro, então, conseguiu descer com uma perna só. Imaginou que talvez pudesse ir pulando até a porta, só que tinha quase certeza de que iria cair como um saco de batata e fazer um estardalhaço. Resolveu, cuidadosamente, deitar no chão e se arrastar devagar até a escada para a casa. Subir aqueles degraus foi a coisa mais difícil que fez em vida.
    Lá em cima, ouvia Barry White tocando, bem alto, no andar superior
    (esses filhos da puta realmente estão fazendo amor),
    então aproveitou que em frente à saída do porão havia uma porta e a abriu vagarosamente. Como desconfiava, era uma armário de vassouras. Pegou uma para usar de muleta e conseguiu se manter de pé. Andou o mais silenciosamente que pôde até a cozinha. Viu ali um faqueiro de verdade e escolheu a maior de todas.
    Voltou até o armário de vassouras, foi quando ouviu passos.
    - Amor, volta pra cá!
    - Calma paixão, só vou fazer uma última boquinha e já volto. Você sabe que isso sempre me dá fome.
    Os passos se aproximavam e Daniel, com muito cuidado, entrou no armário. Concentrou-se para ouvir os passos que ainda vinham das escadas. Ouviu um pequeno assobiar ritmado, não identificava a música, contudo, era mais fácil de ouvir do que os passos. Logo, chegara naquele corredor. Daniel colocou sua mão na maçaneta, a porta deixou entreaberta, bastava empurrar. E a faca na outra mão, pronta para o ataque. Foi quando ouviu uma pequena escorregada.
    - Mas que merda. Isso é sang...
    Antes que Samuel terminasse, Daniel surgiu daquele pequeno armário e enviou a faca em sua barriga, o mais fundo que conseguiu e tentou girar a faca.
    - Morre, seu filho da puta!
    Daniel se segurou no batente e conseguiu empurrar aquele miserável escada abaixo rumo ao porão infernal de que escapara. Fechou a porta e, com muito esforço, a trancou por fora. Não ouvia Caitlyn, então tentou voltar para a cozinha, quando um tiro passou zunindo perto de sua orelha direita, fazendo-o cair para frente, dentro da cozinha.
    Com sua perna boa conseguiu chutar a porta para que fechasse antes do segundo tiro.
    - EU VOU TE MATAR SEU MALDITO!!!
    A voz soou demoníaca, foi incrivelmente mais assustadora do que tudo que passara até ali, mas Daniel riu. Um riso que doía todo o seu corpo.
    Ouviu uma sirene.
    (Por isso que eu amo bairros ricos. Ouviram dois tiros e com um tempo de resposta incrível a polícia bate recorde na chegada. Se fosse em meu bairro eu teria que esperar meia hora.)
    Ele ouviu duas batidas forte na porta da casa.
    - Senhores, tivemos a reclamação de dois ruídos estranhos na região e disseram que podem ter vindo desta residência. Poderiam abrir a porta, por favor.
    Não houve resposta. Ele bateu na porta mais duas vezes
    (Porra, não é a polícia. É só um guardinha de bairro)
    - SOCORRO, PELO AMOR DE DEUS! ESTÃO TENTANDO ME MATAR!!! – Daniel gritou o mais alto que pode. Não sabe se aquele guarda lhe ouviu. Acreditou que não, pois não escutou outra batida na porta.
    Daniel foi tomado por um sentimento de insanidade. Chorava copiosamente e ria ao mesmo tempo. Sua perna boa tentava segurar a porta. Tinha certeza que se Caitlyn tentasse entrar, ela conseguiria, sua força moribunda não seria resistência. Ou se Samuel estivesse vivo ele poderia entrar ali e matá-lo com um tiro na cabeça. Ou pior, poderiam levá-lo de volta ao porão.
    (Não, por favor, tudo menos aquele porão. Mate-me agora, mas não me leve para o porão. Se quiser eu arranco minhas bolas e te dou se você só me der um tiro na cabeça.)
    Eles não vieram.
    A polícia chegou minutos depois e encontraram Daniel em estado de choque. Salvaram sua vida, por pouco. Semanas depois seu carro foi encontrado, depenado em um ferro velho. O policial explicou que, provavelmente, Samuel conhecia alguma rua da região que era bem visada por ladrões de carro, ou conhecia alguém que pudesse se livrar daquele veículo facilmente.
    Os policiais conseguiram rastrear ao menos dez mortes ligadas ao casal, ocorridas em sete cidades diferentes. Mas as últimas palavras do detetive John ficarão na memória de Daniel até o fim de seus dias.
    - Não achamos nenhum dos dois corpos na casa.
  • Tudo aquilo que ainda não nomeei

    Praça XV. 20 horas e 47 minutos de um dia qualquer. Tiro meu pacote de tabaco do bolso e ponho uma quantidade razoável em um pedaço de seda, juntamente com um filtro na ponta. O selo cuidadosamente. Sem pressa. Com minuciosidade. Tudo parecia calmo no dia de hoje. Porém, colocando as mãos no bolso da jaqueta, percebo que o isqueiro que tinha posto ali mais cedo não estava mais. Merda, pensei, enquanto respirava fundo, tentando não culpar a tudo e a todos por mais essa aparente “conspiração do universo”, capaz de me frustrar por mais uma vez.
    Amigo, com licença, você tem isqueiro? Pergunto a um passante qualquer, que transitava com seu passo apressado pela rua. Típico de quem acaba de sair do trabalho depois de um dia provavelmente exaustivo e só quer chegar em casa, ver a esposa, os filhos ou apenas ter a própria companhia solitária. Ou eu poderia estar completamente enganado. Afinal é o Centro do Rio. Tudo aqui tem um passo apressado. Tudo cheira a turbulência. A ansiedade. Só de pisar por uma calçada ou duas você já entra em um ritmo tão frenético que sente que pode ter um ataque do coração a qualquer momento. Mas isso não vem ao caso.
    Inalando e exalando fumaça, em um ritmo calmo e melancólico, me peguei olhando para as luzes da cidade. Ouvindo os sons dispersos ao redor, de carros, motos, ônibus, pessoas. Conversas ecoavam. Passos e mais passos. Alguns barulhos de saltos agulhas. Outros de sapatos sociais, que embora tenham começado o dia polidos, apresentáveis, agora, ao final do dia, se mostravam já gastos. Minha mente se voltava repentinamente para lembranças meio opacas, que eu não sabia distinguir com clareza. Alguns cheiros, bastante específicos, de pipocas e churros do carrinho de um ambulante me lembravam um pouco a minha infância. Misturados aos cheiros de bebidas entornadas nas calçadas sujas. Tudo ao mesmo tempo. Formando uma mescla, uma tela completa.
    Tento trazer a memória com precisão a última vez que tive um momento verdadeiramente feliz. Não que eu fosse exatamente triste. Não. Essa coisa de completude é para quem acreditava em polaridades. Eu não. Embora eu tivesse a necessidade de tentar ser totalidade na maior parte das vezes. Não sou feliz, mas também acho que não sou exatamente triste. Talvez um pouco mais para tons melancólicos. Nem sei dizer. Só tento trazer à lembrança momentos. Como um memorial. Nada em específico. Quanto amigos tive até aqui? Poucos, eu acho. Em meio a essas turbulências de uma grande metrópole movimentada, acho que ninguém dá a mínima mais. Quantos amores? Não sabia precisar. Mas me questionava: quais? Os que existiram de verdade ou os que eu acho que inventei na minha cabeça e no final partiram como folhas ao vento?
    Hoje em dia acho que minhas memórias vão se volatizando pouco a pouco. Tal como essa fumaça que o vento já levou. E agora sabe-se lá para onde o vento as levou. Como se os relógios tivessem subitamente congelado. Por um milésimo de segundo, ao terminar o último trago. Mas eles continuam correndo. Os relógios batem. Incessantemente. Tal como o ritmo frenético das ruas daqui. E talvez eu devesse ser menos nostálgico, mesmo sem saber exatamente qual é o ponto exato das minhas frustações. Deveria talvez ser menos trágico neste momento. Me aterrar mais. Como sempre faço. Ser feito da matéria sólida como madeira, que mesmo apodrecendo continua firme.
    Logo eu que sou sempre tão contido em relação aos meus sentimentos, me pego em uma turbulência que nem mesmo as tintas que jogo nas minhas telas abstratas são capazes de captar. Eu que carrego o peso do mundo nas costas. Como se fosse uma mochila de suprimentos tão minha. Seria isso uma coisa natural? Intrínseca?  
       
                                                                                                                                     ◊◊◊

    Verifico mais uma vez o celular para ver se não haviam mensagens novas. Nada. Justamente quando eu estou com toda energia do mundo dentro mim, é impressionante como parece que ninguém interessante surge para apaziguar. Para saciar as minhas fomes mais ávidas. Não que eu não tivesse nada para fazer ou estivesse entediada. Pelo contrário. Não era o momento de ócio que me atravessava. Eu estava ali, presente, com alguns amigos de faculdade. Todos supostamente atores, como eu. E também o diretor, que tínhamos praticamente como figura de um pai. Sem contar também os figurinistas, assistentes de palco, etc. Todos aqueles que faziam o nosso trabalho acontecer. Todos aqueles que trabalhavam duro para que o próximo espetáculo pudesse acontecer. Bichinhos de teatro. Cada um com suas próprias ambições nesse meio intenso que é a arte cênica. Sentados em uma mesa de um bar aleatório, que ninguém conhecia muito bem, em Copacabana.
    Andando pelas ruas, pós ensaio, simplesmente decidimos parar ali para tomar algo. Uma espécie de happy hour depois de um dia inteiro de trabalhos intensos. Em plena terça-feira! Creio que quando se quer muito tomar uma cerveja não tem dia certo ou errado para isso. A gente não costumava se preocupar muito com isso. Sobre se era o dia “certo” ou “errado”. Morais imorais, eu dizia. Eu, pelo menos, era muito assim. Alimentava minhas vontades que surgiam no quotidiano. Como quem alimenta um animalzinho feroz que anseia por algo.
    Mas eu já estava começando a ficar um tanto quanto impaciente. Inquieta. Não sei dizer ao certo qual era o ímpeto que surgia em mim. Eu adorava jogar conversa fora ali com eles. Discutir mais um ou outro detalhe da nossa peça que estava a caminho. Como era habitual. Porém, tinha momentos em que eu me sentia flutuante. Uma folha que se descola de uma enorme árvore no outono. E fica flanando no ar por um tempo. Como se eu não estivesse mais ali. Não sei se pelo álcool ou pela minha própria mente, que fazia isso naturalmente. Como se em alguns breves momentos eu pudesse me personificar em sei lá o quê. Sair do meu próprio corpo e observar a mim mesma. Observar atentamente aquela personagem que eu era. Que frequentemente sentia a sensação de não pertencer a lugar algum. Como um deslocamento ou fragmento. Eu me perdia tentando decifrar os traços da minha própria personalidade. Quem era eu e quem eram os outros em mim. O que era invasão, colonização. E o que era eu, como totalidade fragmentária.   
    Sim, eu estava inquieta, caótica, turbulenta. Porém não ansiosa. Porque as vezes eu sentia vontade de devorar o mundo, de tentar caber nos mais diversos espaços, mesmo sabendo que nem sempre isso era possível. Eu tinha meu próprio espaço, ele só era demasiadamente móvel.
    Não sabia exatamente a quanto tempo eu estava ali sentada. Só sabia que nesse meio tempo tinha aberto discretamente o Tinder várias vezes, por debaixo da mesa. Em busca de uma nova conversa, de uma nova excitação, não sei. Só precisava alimentar o animal feroz que habitava em mim.
    Quando estava quase me dando por vencida e voltava a conversar com meus amigos, fixada naquela realidade do bar, o celular vibrou, avisando sobre novas notificações. Era um velho contato, que eu havia saído no mês passado. Aleatoriamente ele perguntou como eu estava e propôs um cinema ou uma praia qualquer dia. O certo era que eu queria algo que fosse realmente novidade. Porque aquele blasé de propostas repetidas era meio enjoativo. Já estava acostumada com aquele cenário repetitivo. E eu queria algo para hoje. O meu tempo é o agora. Algo que fosse comovente, porém imediato. Como um soco no estômago ou um trovão que eletriza o céu repentinamente. O animal estava com fome. Precisava de carne fresca.
    Familiarizada que eu estava a viver sob a pele de tantas personagens cênicas – putas, santas, mães, filhas, rebeldes, introvertidas, sonhadoras e suicidas – de uma coisa eu sabia: eu gostava daquilo que me parecia irrevogavelmente intenso. Embora isso me causasse certa aceleração. Quase uma sensação de que se eu não agisse, o mundo poderia explodir a qualquer momento e me partir em milhões de pedacinhos. Desagregar. E, talvez, eu não soubesse ser destoante disso. Eu era feita do fogo primário de tempos mais remotos. E tinha consciência disso. O problema desse elemento é que quando sai de controle, rapidamente é capaz de incendiar florestas inteiras, cidades inteiras e corroer até mesmo aquilo que parecia mais sólido.
    Te encontro mais ou menos em uma hora no seu apartamento, pode ser?  Mandei para ele, mesmo sem ter sido convidada ou ao menos saber se ele estava em casa. Pareceu um pouco chocado a princípio, mas disse que poderia ser. Dito e feito. Fiquei mais algum tempo no bar com o pessoal, terminando os últimos goles de uma cerveja que já estava começando a esquentar. Paguei a minha parte da conta e pedi um Uber para Botafogo.
    A fim de evitar explicações, julgamentos ou qualquer desconforto, me despedi de todos afirmando que eu estava cansada e que precisava ir para casa. Ao entrar no carro, um leve sorriso de canto de boca surgiu repentinamente em mim. Eu sabia mesmo como viver as personas de mim mesma que habitavam em mim. E a noite só estava começando.      

                                                                                                                                   ◊◊◊

    Ah, eu tinha que admitir, de todos os meus fracos, esse cheiro de café e seus barulhinhos, quando está finalizando seu processo de ser passado, invadindo a sala era um dos melhores prazeres da vida. Me fazia lembrar do quanto eu gostava de observar os detalhes sinestésicos do quotidiano. Talvez por isso eu tivesse tanto gosto por ser roteirista. Transformar aquilo que era típico da banalidade em arte do movimento. Em tela imagética que cria cenas, sentimentos e histórias.
    E embora as horas passassem voando e caísse madrugada adentro, lá pelas três e tantas, eu continuava tão ativo quanto quem produz de dia. Aliás, já tinha mesmo me acostumado a produzir nesse horário, tão silencioso e enigmático. Ele parece, justamente, trazer um tipo de energia diferente. Meio semelhante aos processos inconscientes. Quando você mergulha em algo que não está tão claro. Porém sabe que dali surgirão coisas que fazem total sentido para sua produção. Não era psicodelia ou loucura. Eram apenas ritmos que fluíam de maneiras tão próprias e oníricas que se transformavam em arte. 
    E era engraçado pensar que apesar de ter recém entrado na casa dos trinta, a tão temida idade da vida do jovem adulto, eu percebia que continuava com um ligeiro brilho nos olhos. Brilho de quem ainda se permite ter alguma capacidade sonhadora. E não. Não que eu não tivesse tido as minhas quedas de Ícaro e meus mergulhos ao fundo do poço. Tive inúmeros. Porém, uma força aquosa me movimentava. Me fazia seguir adiante, sempre com meus fluxos internos. O que também me motivava a me mesclar em moldes diversos. Do surrealismo ao pragmatismo.
    Aqui, em Niterói, os movimentos eram tão diferentes dos que eu costumava conhecer quando mais novo, que as vezes eu me perdia nesse turbilhão de pensamentos. E esquecia o que eu estava fazendo ou pensando inicialmente. Longe de casa por tantos anos, eu tinha aprendido a ressignificar o que eu considerava como minha casa. O interior de Minas, que parecia tão grande quando eu era moleque, hoje ficava cada vez mais pequenininho, a cada visita que eu fazia a minha mãe. Como se eu pudesse mapear cada canto que antes não conseguia.
    Talvez eu tivesse adquirido uma noção de profundidade que antes eu não tinha. Tudo era tão maior. E claro. Certamente era gostoso respirar aquele ar mais puro do interior. Fingir me perder nas estradas de barro. Criar bichos no quintal. Sentir a cica da fruta arrancada do pé, ainda não madura, que a gente teimava em comer. O cheiro do mato depois da chuva. O primeiro beijo, daqueles de criança, com a prima atrás da árvore do quintal dos avós. A primeira vez com quinze anos, com a namoradinha depois da escola, escondido dos pais. E todas as lembranças a mais. Mas eu já não pertencia mais inteiramente a aquele cenário. Cada experiência nas cidades grandes me mostrava e mostra que as configurações da minha própria mise-en-scène chamada vida é por aqui. Pelo menos por enquanto.
    Mas agora, acho que eu deveria voltar ao trabalho. Ter um projeto para terminar, por mais empolgante que possa ser, ainda sim tem seu lado chato. Por isso tomo mais uma xícara de café. Eu deveria entregar esse roteiro até o final de semana. E cada detalhe contava. O problema na verdade é quando você está determinado, mas sente que já tinha gasto grande parte da sua criatividade em projetos anteriores. Eu queria algo esplêndido. De roteiros meia boca Hollywood já estava cheio. E não. Eu não era nenhum gênio capaz de fundar uma nova Nouvelle Vague. Mas acreditava que o cinema latino-americano por si só deveria ser aquela seta fora da curva. E por isso eu sentia que tinha quase a obrigação de tornar meus trabalhos inovadores. Menos clichês ou previsíveis.
    Tomava mais uma xícara de café. Parava. Ia até a janela. Observava o pouco movimento de carros circulando a essa hora da noite, aqui pelas ruas do Centro. Se ao menos uma ínfima gotícula de criatividade pudesse de repente cair do céu.
    Nesse misto de apreensão e estresse, eu me lembrava de como tudo aparentemente parecia ser mais fácil durante a graduação. Embora tivesse me mudado para Ouro Preto, aos vinte, para fazer filosofia, o impacto da solidão da cidade era tão mais latejante aqui. Sozinho, em outro estado. Tinha uma amizade ou outra por aqui. Pessoas que eu tinha conhecido no mestrado. Gente que certamente estava mais acostumada ao meio artístico cinematográfico do que eu. Mas que acabei me familiarizando e me vinculando aos poucos. Tal como quando se entra em uma piscina gelada e ao invés de pular de cabeça você molha as partes do corpo de vagar. Porém, ao mesmo tempo, os contatos pareciam estar sempre dispersos. Eram gotículas se cruzando e se separando na janela do vidro do ônibus.
    Na correria do caos de uma cidade grande como o Rio de Janeiro, ninguém parecia ter tempo inteiramente para nada. Nem mesmo eu tinha a ingenuidade de achar que eu tinha. E isso foi algo que percebi assim que saí do interior e vim para cá. A discrepância entre o interior e os centros urbanos batia forte cada vez mais, na medida em que também os beats acelerados do meu coração batiam descompassados. Talvez devido às três xícaras de café pós meia noite.
    Decidi deixar cair meu corpo pesado no colchão que se encontrava no chão da sala; por sinal também era meu quarto. Ainda não tinha conseguido dinheiro para comprar uma cama descente. Afinal, ter recém começado a trabalhar com roteiros cinematográficos não era uma abundância, ainda mais em circunstâncias sócio-políticas como as atuais. Mas dava para pagar as contas. E não tinha jeito, eu definitivamente amava o que eu fazia, apesar dos apesares.
    Acendi um beck que já estava pela metade. Depois de ter inúmeras vezes trocado de remédios para insônia, sem obter grandes resultados, foi o que descobri que funcionava. O que me desacelerava por alguns instantes. Conseguia relaxar, enquanto sorvia aquela fumaça densa e sincopada. Eu sentia o peso do meu próprio corpo no colchão. Até finalmente pegar no sono.          

                                                                                                                                 ◊◊◊

    Puta merda! Não acredito que eu perdi a porra da hora mais uma vez. Eu catava minhas roupas jogadas pelo chão e enfiava tudo de qualquer jeito pelo corpo. Nessa tentativa ridícula, batia os braços e as pernas em tudo quanto era canto do quarto, acordando o rapaz seminu que ainda dormia em um sono profundo. Qual era mesmo o seu nome? Felipe? Fernando? Algo assim. Eu vestia as roupas sem muitas noções, enfiando a cabeça e as pernas nos lugares errados. Parecia um furacão descontrolado. Até que finalmente consegui ajeitar tudo, abotoar as calças e arrumar a minha franja reta despenteada.
    Pedi um Uber para casa e fui embora sem olhar para trás. Ele pareceu meio atordoado com essa saída súbita. Sem a famosa cerimônia de tomarmos café juntos, sorrindo e comentando sobre a noite anterior. Ainda bem que eu tinha uma desculpa realista para me desvencilhar disso. Não suportava esses clichês. Porém, pior do que isso, era que só de pensar que eu ainda tinha que ir para casa, tomar um banho, para tirar aquele cheiro úmido de testosterona da pele, trocar a roupa, para não perceberem que era a mesma de ontem e ajeitar minimamente a minha aparência, para que ninguém desconfiasse que eu havia mentido na noite anterior, já me deixava esgotada.
    Mas eu estava acostumada. Eu nutria meus apetites e depois limpava as cenas dos crimes. Sem deixar vestígios. Felizmente ou infelizmente eu tinha me tornado muito boa em inventar desculpas e situações só para poder viver minha vida em paz. Sem nenhuma consideração alheia. Poderia até ter alguns amigos mais próximos, que eu revelava um ou dois detalhes mais íntimos da minha vida. Mas eu não poderia me dar ao luxo de confiar em ninguém. De deixar que meu trabalho fosse comprometido pela minha vida privada. Era assim que as coisas funcionavam.  
    Cheguei ao ensaio já exausta. Porém, só de pisar naquele palco improvisado de taco sentia as energias retornando ao meu corpo. E como era gratificante estar ali. Me lembrava de que talvez fosse por isso que eu tivesse escolhido ser atriz. Cada vez que adentrava a pele de algum personagem, eu sentia um calor interno. Uma eletricidade que se espalhava por toda a coluna. Algo me abraçando. E agora mais do que nunca. Tudo isso porque após inúmeras audiências fracassadas, tinha finalmente conseguido o papel que eu tanto queria. Sentia que estava com tudo. Não estava ainda no que poderia ser considerado “o topo”. Mas, aos vinte e dois, sentia que as coisas estavam começando a se encaminhar nos trilhos certos. E eu confesso que sentia um orgulho próprio crescendo.
    Dizem que nós mulheres temos ciclos que se findam e se iniciam de sete em sete anos. E eu estava apenas no começo da idade do novo. Da exploração de novos mundos e possibilidades. Por isso me inflamava de novas expectativas. Mesmo sabendo que criar algumas delas era um pouco perigoso. Então eu só queimava com aquilo que eu sentia que tinha algum calor para mim. Alguma faísca mínima. Eram apenas nesses momentos que eu conseguia me entregar e ser verdadeira. Nos outros, era apenas mais uma das minhas múltiplas personas agindo. E fugindo daquilo que eu sentia que não era para mim. 
    Ao final do ensaio, o diretor comentou que queria conversar comigo. Um frio na barriga crescia.  Eu estava otimista. Pensava que finalmente tinha chegado a hora de eu ser reconhecida. Expectativas. Quem sabe uma indicação nova. Algum trabalho promissor para quando a temporada chegasse ao fim. Me preparava para isso. Talvez fosse por isso que Reinaldo andava tão mais próximo de mim nos últimos tempos. Sentia uma atenção especial se desenvolvendo. Não que ares de condescendência tomassem a minha cabeça. Mas me sentia preparada para avançar para uma nova etapa. Como se eu pudesse me expandir para algo que estava por vir.     
    Luana, veja bem, tenho observado o seu trabalho como atriz principal; e você é realmente bastante ativa nesta companhia, comentou ele, com um tom um pouco mais intimista do que o habitual. O que me causou estranheza, pois parecia que algo não estava certo. Comecei a pensar que talvez pudesse perder o meu papel. Porém deixei esses medos passarem ligeiros após essa pausa. E ele continuou. Porém, o que eu quero realmente dizer é que mulheres tão novas quanto você não sobrevivem nesse meio artístico sem que saiam com as pessoas certas, se é que me entende, ele falava macio e convicto. Eu ouvia suas palavras em silêncio, quase sem reação, pois não estava acreditando naquilo que ouvia. Parecia que eu estava em uma espécie de cenário irreal, desses que você não acredita que está fazendo parte. Sendo assim, queria propor aqui em off que você saísse para jantar amanhã comigo, propôs, tentando alisar minha coxa direita com muita naturalidade. Ouvi dizer que um caça talentos famoso está pelo Rio de Janeiro; e com os contatos certos, você poderia subir a um outro patamar, ainda mais sendo bonita e acessível, digamos assim.
    Conforme ele tentava me convencer de todos esses absurdos e se sentia cada vez mais no direito de me tocar, a maré da incredulidade logo passava e, retornando à realidade crua, eu explodia em raiva. Olha, Reinaldo, eu respeito muito o seu trabalho e tudo o que fez pela gente nessa companhia, mas você não tem o direito de se dirigir a mim dessa forma, esbravejei, me afastando dele atordoada. Eu só vou te dar uma chance sua putinha, falou em um tom mais agressivo, porém, ainda mantendo sua firmeza impassível e dura, enquanto segurava meu braço para eu não ir embora. E eu sei que para você vai ser fácil, você trepa com qualquer um mesmo, completou rindo agressivamente, baixinho, como quem se diverte.
    Comecei a sentir as lágrimas a caminho, mas ainda fui capaz de engolir o que estava por vir e gritei para ele nunca mais encostar um dedo em mim. Era um grito oco, mas firme, que surgiu em um impulso que eu não sabia dizer muito bem da onde partia. Era defesa. Era o mínimo de resistência que meu corpo ainda abalado conseguia ecoar. Consegui me soltar dele bruscamente e saí tão rápido pela porta que não sabia se corria ou se andava. Só queria chegar em casa. Sair daquele ambiente doentio. O mais rápido possível. Não tinha mais ninguém no prédio. E eu não queria ficar sozinha com ele de novo. Toda aquela imagem agradável e paternal que eu tinha dele agora já não fazia mais tanto sentido.  
    Me mantive impassível o caminho todo. Mas quando cheguei no meu apartamento não aguentei. Desabei. Ali no chão frio mesmo. Como cacos que se espatifam no chão. E se esparramam para todos os cantos. Não sabia dizer exatamente o que eu sentia. Se era raiva. Se era nojo. Medo. Angústia. Ou até mesmo a sensação torturante de que eu poderia ser devorada pelos lobos a qualquer momento. Em quem confiar? Eu não acreditava nas palavras que ele tinha dirigido a mim. Parecia uma fábula inventada de mal gosto. Em cada vírgula eu sentia a sua ambição nojenta e vulgar. O seu status de poder imundo, que fazia ele sentir como se pudesse fazer com os outros o que bem quisesse. Como marionetes a seu bel prazer. Não era aquele homem que eu tinha conhecido a um tempo atrás. Não sabia mais quem ele era. E aquele cenário todo ficava rodopiando na minha mente. Me fazia sentir náuseas. Minha cabeça começava a doer. Não conseguia respirar direito.     
    Quando se é mulher, toda a liberdade e afirmação que a gente jura ter conquistado, pode parecer ruir quando coisas desse tipo acontecem. Pequenas e grandes fatalidades do quotidiano. Que nos jogam de um lado para o outro. Chacoalhando. Supondo que somos meras bonecas. Para enfeitar e decorar os ambientes. Para exalar o odor da graça e do recato. Da submissão frente a um jogo de poder desleal. Cruel e esmagador. O que era segurança? Em quem confiar?
    Eu sabia do meu valor. Não poderia ser medido por um sex appeal. Por um corpo desejável nos lençóis que cheiram a capital. Eu sabia do quanto eu tinha dado duro para chegar até aqui. Tinha aberto mão de muita coisa. Da zona de conforto que deveria ter sido se eu tivesse cursado administração para trabalhar na rede de hotéis do meu pai. Agradando a todos. Sendo tudo aquilo que esperavam de mim.
    Ao invés disso, eu sabia que não era isso que eu queria para minha vida. Eu era atriz, porque lá no fundo eu sentia pulsar em mim uma paixão pelo o que eu fazia. E homem nenhum seria capaz de me parar. Nem mesmo aqueles que me ofereciam o poder fácil. Porque eu sei que esse poder deles jamais seria negociado. Dado de bandeja. E sabia que só me sentiria poderosa se eu tivesse conquistado isso tudo com as minhas próprias garras. E eu não iria parar até conseguir. 

                                                                                                                              ◊◊◊

    Definitivamente aqueles últimos dias tinham sido insuportáveis. Os meus únicos momentos de mínimas calmarias e desligamentos eram quando eu entrava em contato com as minhas tintas. Mas como eu estava correndo para entregar uma nova coleção a tempo para a vernissage da semana que vem, eu já não conseguia abstrair e pintar mais com tanta paciência. Acendia um tabaco atrás do outro. Eu não parava. Estava tão frenético. De repente tinha me tornado muito parecido com o ritmo daqui. Eu simplesmente queria que tudo saísse o melhor possível. Uma grande oportunidade como essa não acontecia todos os dias. Ainda mais para quem está começando agora. Precisava então ser o melhor no que eu estava fazendo.
    O telefone tocava. E eu, com as minhas mãos sujas de amarelos, marrons e tons ocres, bufava ainda mais, pensando que aquela deveria ser mais uma distração. Ou mais uma tormenta. Era da galeria. Já atendi esperando pelo pior e infelizmente ele veio. Me dizendo que como eu ainda não tinha nome no mercado, ao invés de disponibilizarem uma sala inteira para meus quadros, eles decidiram, de última hora, reduzir para apenas uma parede. E provavelmente ela era minúscula. Em um canto isolado. Sem muita vida. Tinha me esforçado tanto para levar diversas obras que combinavam entre si. Que só faziam total sentido juntas. Mas era inegociável. No fundo eu sabia desde o início que estava bom demais para ser verdade quando recebi a proposta.
    Logo depois de desligar o telefone, lavei as mãos. Sentei no pequeno sofá de dois lugares da sala e me perdi nos meus próprios desânimos por algumas horas. Era como se toda a energia que eu investi ao longo desse tempo todo já não servisse mais para muita coisa. E pesava. Frustrava sim. Como quem se frustra com a potência que investiu aparentemente no lugar errado. No momento errado talvez. Não sei. Não restava muito o que saber. Deixei o quadro que estava diante de mim do jeito que estava. Pela metade. Andei até a cozinha, abri a geladeira para ver se tinha alguma coisa minimamente animante e achei uma garrafa de vinho. Não sabia de quem era. Deveria ser de algum dos meninos ou de alguma de suas visitas aleatórias, da festa que deram semana passada, quando eu estava fora. Foda-se. Depois eu compro outra.
    Levei a garrafa para sala e acabei com ela. Sem longas demoras. Enquanto voltava a terminar também o quadro. Eu estava claramente bêbado. Mas não sem controle. Sozinho em casa. Mas não me sentindo solitário, como na maior parte do tempo. Sentia a coragem voltando. Coragem líquida talvez, como diriam meus amigos. E eu voltava a botar os pés no chão novamente, quando voltava a ficar sóbrio. Recobrando a razão. Aquela que me tornava sólido e disposto a seguir em frente.
    Apesar dessa pequena frustação, os dias que se seguiram foram de intensa criação. Acho que descontei toda a minha amargura nas telas, nas formas. Passei dias inteiros em casa pintando. Porém, mergulhado em uma certa melancolia também. Era estranho como quase toda vez que eu começava uma nova tela parecia que meus sentimentos escorriam junto com as cores. Eu não era muito de demonstrar as coisas. De me portar como uma pessoa sentimental. Mas quando eu segurava o pincel, era o momento que tudo vinha à tona. Quase como em uma espécie de vômito catártico. E eu estava em sincronia com as minhas palhetas de cores. Com as minhas formas abstratas. Com meus significados. Com cada tom sobre tom. O que nos resta então, em meio a isso tudo? Nem eu sei dizer. E a minha cabeça doía. Quando me dei conta já era sábado à noite. E eu estava exausto emocionalmente.
    Um dos meninos, percebendo meu estado, sugeriu que eu saísse um pouco. Sair? Mas acho que ainda tenho coisas para terminar, falei para ele em tom indignado. Ai Arthur, para de agir que nem um velho, você só tem vinte anos ainda, vai te fazer bem, comentou como quem está cansado de tentar convencer alguém das mesmas coisas, além do mais, vou precisar do quarto essa noite. E eu me lembrava do quão descarado os colegas de quarto poderiam ser. Como já estava acostumado com esses pedidos, resolvi ceder. Tomei um banho, vesti um jeans um pouco desbotado e fui andando. Uma das vantagens de morar na Lapa era estar sempre a dois passos de qualquer coisa. Culturalmente falando. Ou simplesmente para farrear.
    Sabe aquela sensação estranha de que mesmo estando cercado de pessoas, você se sente sozinho? É como se seu corpo fosse mais um na multidão. Um formigueiro de gente, indo e vindo naquele pequeno espaço da boate e você está ali. No anonimato passivo. E não. Eu não fico angustiado de estar no meio de multidões. Não tenho fobia disso nem nada. Talvez eu até goste um pouco. Às vezes costumo me sentir como um voyeur do quotidiano. Com alguém atento a cada detalhe. Como se as pessoas fossem pequenos borrões de cores. De tons quentes e frios.
    A essa altura o álcool começava a fazer um leve efeito. O corpo ficava mais leve. Os ombros relaxavam. As mandíbulas. Os olhos. Tudo em mim era suave. Eu começava até a fazer pequenos movimentos com o corpo. Bem mínimos mesmo. Ao ínfimo som da música, que eu não sabia dizer qual era exatamente. Pensava novamente no controle e decidia ir até o terraço para fumar. Voltar a botar os pés no chão. Mas quando botei a mão no bolso percebi que tinha esquecido o tabaco em cima da mesa. Como sempre mais uma colaboração para que as coisas não acontecessem. Típico.
    Desci as escadas em um ritmo que misturava a minha frustação com o som do ambiente. Parei em um canto mais afastado e fiquei observando aquelas formas dançantes na minha frente. Nesse mar de sensações humanas, que só cada um sabe que carrega. Ou as vezes o álcool os faz esquecer que sabem. Mas continuam sentindo mesmo assim. Toda adrenalina da noite. Todo tesão. Toda ansiedade. Todo desânimo. Toda frustação. Todo sonho e idealização volátil. Tudo ali acontecendo a cada instante. Todo esse ritmo agridoce do balanço das horas que eu nem sempre compreendia muito bem.
    Do outro lado da pista um par de olhos me olhava com tanta fixidez que me intrigava. Era um olhar masculino. E eu não sabia muito bem como lidar com aquilo. Me sentia desconfortável. Mas de alguma forma um pouco magnetizado. Não. Eu não era gay, pensava comigo mesmo na minha consciência. Ele sorria, como quem tentava tranquilizar alguém com os gestos. Eu não deveria ter bebido. Eu não era gay. Ele se aproximava de mim como quem se sente convidado. Não. Não. Não se aproxime. O que eu estava fazendo. Eu não era assim. Oi, cumprimentava uma voz macia no meu ouvido. E eu sentia aquele hálito quente misturado a sensação gélida de uma bala de menta arrepiando os pelos da minha nuca. Não. Eu não era gay. Eu tentava dizer alguma coisa. Fazer uma menção de recuar. Fugir agora mesmo. Sair correndo daquele estabelecimento. Mas começava a sentir um par de mãos envolta do meu pescoço. E meus pensamentos ficaram em suspenso. Eu não era.... Meus olhos se fecharam automaticamente. E eu senti uma onda de calor. Não sei mais o que era. Não sei mais o que fui. Sentia uma ereção latejante começando. E as mãos dele procurando algo como se já soubesse o que acontecia. Você quer sair daqui? Perguntou, com um sorriso meio travesso. O que eu estava fazendo? Eu deveria ir para casa agora mesmo. Isso já estava passando dos limites. Sim, respondi tão rápido que até me assustei com aquela prontidão. Da onde eu tirei essas coisas?
    No dia seguinte, quando os primeiros feixes de luz entravam pela janela, através da cortina mal fechada, eu acordei. Por alguns instantes deixei aqueles tons amarelo-alaranjados iluminarem parte do meu corpo. Ainda nu. Emaranhado nos lençóis cor de creme. De um motel qualquer do Centro que eu mal sabia o nome direito. A minha esquerda estava ele. Ainda meio sonolento. Se espreguiçando como um gato manhoso. Também nu. E agora eu via com mais clareza alguns dos detalhes daquele corpo. Detalhes que a falta de luminosidade e a euforia da noite anterior não me fizeram reparar. Um corpo masculino como o meu. Porém tão diferente de mim ao mesmo tempo. Já não me sentia mais desconfortável. Pelo contrário. Experienciar aquele tipo de toque, que eu nunca tinha me dado ao prazer de sentir, me fazia ter a ligeira sensação de que algo se abria em mim. Talvez uma nova perspectiva. Talvez novas formas de sentir as sensações. Não sabia dizer. Só poderia estar enlouquecendo.
    Apesar disso tudo, não poderia me manter assim tão inebriado. Precisava me justificar. Esclarecer as coisas para ele. Talvez para mim também. Disse então a ele, um pouco hesitante, que embora a noite tivesse sido realmente muito boa, eu não era quem ele pensava que eu era. E não poderia ser mesmo. E quem você é afinal? Me indagou ele, brincando e rindo, como se aquela situação fosse divertida. Uma pergunta que me irritava um pouco, mas ao mesmo tempo se tornava quase angustiante. Não sabia ao certo. As minhas sólidas certezas estavam se evaporado junto com os prazeres da noite anterior. Olha, eu não sou gay, respondi de maneira séria, como quem precisa defender uma causa. Mesmo sem saber se falava sério ou não. Eu também não sou, Arthur, comentou ele, parecendo se divertir ainda mais. Parecia estar disposto a me irritar profundamente ou me torturar. Acho que percebeu quando fiquei atônito, encarando ele por longos segundos. Já ouviu falar em uma coisa chamada bissexualidade? Existe e não foi um conceito eu que inventei não, dizia ele bastante afirmativo de si, mas ao mesmo tempo brincalhão. E continuou. Quem sabe agora você não ache a “solução” para os seus “problemas”.                  

                                                                                                                                      ◊◊◊ 

    Resolvi dar uma variada hoje. Tinha acordado invadido por um bom humor tamanho. E por isso, ao final do dia, decidi parar em uma cafeteria que eu gostava para tomar um expresso duplo. Eu gostava muito do meu próprio café, mas hoje senti que a atmosfera pedia um toque diferente. Não sei porque, mas eu tinha essa mania de me “presentear” vez ou outra com alguma coisa que eu gostava muito. Às vezes porque eu estava muito feliz. Outras porque estava um pouco triste. Sempre tinha uma justificativa que dizia respeito a alguma emoção muito forte pulsando. Embora eu não fosse uma pessoa impulsiva.   
    Consegui uma mesa um pouco mais reservada, fiz o meu pedido e aproveitei para abrir o notebook e trabalhar um pouco mais. Apesar de eu já ter entregado o roteiro ontem, me sentia cheio de energia pulsante para começar algo novo. O bom de ir a uma das poucas cafeterias que abria em um final de tarde de domingo era poder escrever meus roteiros com mais tranquilidade. Sem a interferência dos barulhos das conversas, dos talheres, xícaras e sons ao redor. Inspirava fundo, totalmente despretensioso. E percebia como era bom essa sensação. O cheiro do café. As poucas pessoas que circulavam por ali, passeando despretensiosamente, porque, afinal, hoje não era dia de semana. Tudo fluía bem. 
    Parecia banal, mas alguns segundos eu me enchia de espanto por perceber o quanto era bom a sensação de se sentir vivo. Não apenas ter consciência que se está vivo. Mas sentir algo fluido e quente ao mesmo tempo por dentro. Era uma mistura de algo que cheirava a infância, a um calor muito primordial, como a terra após um dia inteiro exposta ao sol, misturado a algo mais feroz, talvez mais instintivo. E quando o gosto do café expresso chegou a minha língua, eu sentia um prazer enorme se mesclando a aquilo tudo. Quando eu falava sobre isso, muitas pessoas chegavam a me olhar com estranheza. Como quem não compreende que essas sensações sinestésicas são mais quotidianas do que parecem. E são simples. Não complexas como pode parecer. Mas profundas.
    Cada gota de café, cada cheiro do ambiente. Tudo parecia um novo material ainda não explorado, que poderia ficar bom nas cenas que vinham a minha mente. As palavras pareciam escorrer pelos meus dedos com uma imensa facilidade. Mas eu precisava de mais. Terminei de beber o café e saí para caminhar um pouco. Como um flâneur sem nenhum destino em específico. O sol estava prestes a se pôr. Parei por fim, apoiado a uma mureta. Com um olhar um pouco distante. Mergulhado no que minha visão enquadrava em um contraste entre a palheta de cores do céu e a da Baía de Guanabara. E aquilo bastava.
    Por alguns momentos eu ficava em suspenso por ali. Quase sem fôlego. Por alguns momentos eu pertencia a aquela cidade. E o lar no interior já se desembaraçava. Não existiam mais tantos apegos a ter uma cidade natal. Estava conformado a ser esse andarilho cosmopolita. Que embora fosse um pouco solitário as vezes, no pequeno espaço do apartamento, ainda sim me sentia livre. Cada respiração era uma expansão. De mim. Das minhas forças criativas. De todos aqueles sonhos que eu adiei. Mas desengavetei depois que resolvi me dedicar ao mestrado aqui. E agora todos esses pequenos processos faziam cada vez mais sentido. Naquele momento tudo estava exatamente onde deveria estar. E eu estava presente. E as palavras tornavam a jorrar novamente, depois que o êxtase passava aos poucos. Eu abria novamente, então, a tela do notebook e escrevia meus brainstorms como se eu pudesse me apossar das palavras. Fazer as ideias e histórias dançarem no ar.
    Quando já estava escuro e os pontos de luz do mar ficavam meio ofuscados, decidi ir finalizando minhas escritas e ir para casa. Já estava começando a esfriar. E o vento da orla, de uma tarde de outono, começava a se mostrar ainda mais evidente. Optei por voltar a pé para casa. Caminhar um pouco sob esse céu me fazia bem.
    Tive então a ideia de chamar alguns amigos para tomar um vinho lá em casa hoje. Acho que viria bem a calhar. Passei no mercado e comprei três garrafas de Concha y Toro: um Malbec, um Cabernet Sauvignon e um Merlot. Uma pequena variação de uvas que agradaria a todos os gostos. Paguei as compras, enquanto mandava uma mensagem no grupo. Se eles não topassem, ao menos eu teria um mini estoque de vinho. Mas para minha sorte eles se animaram. Fazia tempo que eu não marcava algo assim. Alguns até perguntaram: Diego, o que deu em você? Mas acho que hoje valia a pena deixar fluir.
    Tinha convidado poucas pessoas. Acho que o ambiente ficava mais aconchegante assim. Alguns fumavam na janela. Outros bebiam taças de vinho. Discutíamos ideias. Projetos eventuais. Falávamos bobeiras. Casos da vida. Risadas embriagadas. Tudo parecia se tornar uma questão existencial. Acho que era sob essa atmosfera que eu queria viver. Sem comparar direta ou indiretamente o passado com o presente. Sem estabelecer juízos de valor que não possam se modificar com o tempo. E se tornarem outros. E depois mais outros. Criando movimentos vivos.
           
                                                                                                                                        ◊◊◊

    Os últimos seis meses tinham sido particularmente duros. Com a rotina intensa de ensaios na companhia, quase não sobrava tempo para investir em qualquer outro projeto que fosse. Mas eu estava satisfeita. Tínhamos acabado de realizar a primeira apresentação. E apesar de não ter dado tanto público como gostaríamos, fomos bastante elogiados pela crítica. A sensação calorosa de que todo aquele esforço tinha valido a pena me inflamava agora. Especialmente porque depois daquele episódio, a cada ensaio, Reinaldo fazia de tudo para me sabotar. Tudo que eu fazia quando estava trabalhando tinha que ter o dobro de cuidado e dedicação. Mais do que qualquer outro ali.
    Eu odiava essa sensação de ter que me afirmar o tempo todo, com mais determinação a cada dia, só para não ser engolida. Para não ficar para trás. Depois do assédio muita coisa acho que muda na vida de uma pessoa. Os medos vêm mais fortes à mente e reverberam no corpo todo. E tudo aquilo que parecia tão leve e natural, agora demorava um pouco mais para ser executado. Uns dias são de completo bloqueio. Tudo fica meio estranho. Opaco. Sem brilho. Sem som. E sem cor. Mas eu continuava. Trabalhava duro. Batia o texto com a minha colega de apartamento até mesmo nos finais de semana e feriados. 
    Infelizmente, quando se é um homem influente no meio artístico, poucos são aqueles que não compactuam direta ou indiretamente com esse tipo de posicionamento. Era bizarro pensar que nesse meio, como todos queriam estar ao menos uma vez sob os holofotes brilhantes, se sujeitavam a todo tipo de coisas. Como cachorrinhos que vem lamber os dedos do dono. Mas felizmente eu tinha conseguido me desvencilhar disso. Não que eu me sentisse melhor do que ninguém ou mais esperta. Porém sabia o quanto eu vinha lutando para existir aqui. E ao mesmo tempo queria poder ter o orgulho caloroso de quem eu estava me tornando. Sem depender de jogos sujos para isso. Sem depender de cicatrizes maculadas pelo ar fétido de ter que se vender.   
    Apesar de tudo, era bom poder contar com as pessoas com quem eu trabalhava na companhia. Eu via hoje, ao termino da peça, o brilho nos olhos de cada um. Mesmo nos olhos daqueles que estavam mais desesperançosos com os nossos processos de criação. Estávamos todos integrados. Por alguns momentos sentia uma atmosfera familiar. Quase que de pertencimento. Certamente era um momento muito propício para comemorarmos essa nossa pequena vitória.
    Escolhemos, então, um bar próximo dali para brindar. Reinaldo disse que daria carona para alguns no seu carro e que o consumo de hoje seria por conta dele. Claro, tinha que forjar ser um homem com uma personalidade carismática, que fazia todos ao seu redor o idolatrarem. Se eles soubessem as sujeiras que se escondiam por trás daquela máscara. Aquilo me enojava. Decidi pegar um Uber para evitar qualquer situação na qual tivesse que estar supostamente sujeita a ele de alguma maneira. Até mesmo na minha conta do bar eu fiz questão de pedir uma comanda separada. Todos estavam tão eufóricos com a conquista de hoje que nem perceberam. Ainda bem. Pois odiava ter que me explicar. Mas ele percebeu. E pareceu ainda mais enfurecido com o meu desdém.
    Tentava me desprender um pouco daquele olhar nauseante. Aproveitar um pouco o ambiente com o pessoal. Afinal de contas, aquela era também a minha noite. Mas confesso que tinha momentos em que minha mente parecia me trair. E a tranquilidade da noite em amigos, se transformava em uma crescente angústia. Começava a me sentir sufocada. Como quem sente duas mãos pesadas estrangulando a garganta. Me lembrava dos pesadelos que andava tendo. Me lembrava dos olhares. Das sabotagens. Precisava de um ar. De um respiro mais longo. O que é segurança? Mas para minha sorte, o bar tinha uma espécie de terraço. A salvação. Uma área aconchegante destinada para os fumantes. Ou para quem sentia que poderia ter uma crise a qualquer momento.
    Apoiada na sacada, eu tentava respirar lentamente. Minha cabeça doía. E eu tentava me concentrar em qualquer outra coisa para não colapsar. O que é segurança? Necessitava de algo que fosse um pouco mais rápido que uma respiração lenta e profunda. Você por acaso teria um cigarro? Perguntei a um rapaz que fumava ligeiramente próximo a mim. Não. Eu não tinha o hábito de fumar. A menos que eu estivesse muito nervosa ou angustiada. E sabia que mesmo não sendo habitual não era a melhor opção. Mas as vezes a gente recorria às medidas mais drásticas.
    Você está bem? Me perguntou ele, com um olhar um tanto quanto melancólico. Eu comentei que só estava passando por uma noite um pouco complicada. Felizmente, ele não procurou entrar em detalhes. Só se calou. E voltou a fumar no seu canto, sem me encarar muito.
    Parecia que compartilhávamos um silêncio bastante confortável enquanto fumávamos. Daqueles que não é preciso dizer nada. E nem mesmo inventar falar de como estava o tempo, para não criar distancias. Para uma mulher como eu, que costumo ser bastante comunicativa, ficar um longo tempo em meio a um silêncio pairando no ar, ao estar na presença de alguém, não costumava ser um bom sinal. Mas não nesse caso. Estranhamente os nossos silêncios se comunicavam de uma maneira bastante peculiar e razoável.
    Inalando e exalando fumaça, começava a surgir uma agradável calmaria. Minha cabeça começava a voltar para o lugar. As imagens de pânico se desfaziam. Acho que elas começavam a ir embora com o vento. Meu nome é Luana, disse, sentindo a necessidade de me apresentar a aquele estranho. Prazer, Arthur.
    A partir disso, conversamos um pouco. Tentei puxar assuntos para compensar o episódio anterior. Me distrair um pouco. Ele me dizia que tinha vindo ao bar com seus colegas de casa. Ideia deles. Arthur parecia ser um tanto quanto introvertido demais. Disse que eles já estavam um pouco bêbados na mesa lá em baixo e que ele preferia ficar um pouco distante. Não gostava muito de perder o controle. Achei aquilo meio engraçado. Porque todo mundo parece necessitar de umas doses de escapes momentâneos hoje em dia. As vivências pesam as vezes. Então não sei. Estar o tempo todo em um estado de sobriedade me parece ser meio exaustivo. Mas acho que aquela pose rígida não duraria muito tempo.
    O tempo foi passando e um cigarro se transformou em dois. Depois em três long necks. E aos poucos parecia que já éramos amigos de longa data. Embora eu saiba que quando eu bebo um pouco tenho a tendência a ficar mais sociável do que o de costume. Mas isso não vinha ao caso.
    Eu ia percebendo que ele tinha uma linguagem corporal meio enigmática. Não sabia dizer se ele estava tenso ou relaxado. O que queria de mim. O que pensava. Entretanto, como não sou muito de analisar eternamente as coisas, mas sim agir, perguntei se ele queria tomar mais umas cervejas no meu apartamento. O que o fez parecer meio hesitante a princípio. Mas depois agiu como se fosse exatamente a pergunta que ele estivesse esperando. E eu já não estava muito preocupada em disfarçar nada. Em esconder nada.                

                                                                                                                                        ◊◊◊

    Os últimos três meses tinham sido bastante diferentes do que eu estava habituado. Com a chegada de um novo ano, ao invés de eu me sentir um pouco reflexivo ou melancólico, me sentia até esperançoso. Não que pudesse ser considerado um ímpeto de euforia ou algo assim. Era apenas um toque de leveza.
    A minha produção artística tinha aumentado consideravelmente. Enquanto a quantidade de tabacos vinha diminuído. Era bom estar sob uma nova perspectiva. Mais calorosa talvez. Acho que resultava da estranheza de saber que quando eu achava que a vida era mesmo essa coisa que acontecia em meio a matizes acinzentados e suas variações, achando que nada mais poderia me surpreender, eu poderia estar completamente errado.
    Não costumava me deixar balançar por qualquer pessoa ou situação, mas quando ela surgiu naquela noite foi como uma reviravolta. Como as formas abstratas de uma tela dançando para mim no escuro. E me saltava aos olhos que, embora ela não fosse nada parecida comigo, as nossas imensidões dialogavam.
    Depois do meu último término, a anos atrás, me pegava convivendo com a estranha sensação de que talvez ninguém mais fosse capaz de ver através de mim. De que talvez ninguém fosse se interessar realmente por aquilo que eu era. Melancólico, abstrato e pessimista. Um retrato daquilo que eu não sabia ser diferente. E o episódio no quarto de motel barato tinha mexido um pouco com isso também. Porém, tinha sido só um encontro efêmero. Desses que até vem com intensidades e cheios de novidade. Mas que não dão em nada no final das contas. E eu estava conformado de saber que meus encontros com as pessoas estavam fadados a isso. Não que eu fosse de muitas pessoas, de muitos contatos. Pelo contrário. Preferia nitidamente a minha própria companhia. Acho que ela era menos decepcionante. Embora eu me pegasse sendo uma decepção a mim mesmo diversas vezes.
    Mas o que estava pensando, antes de me perder nesses pessimismos típicos, é que desde aquela primeira vez com um homem, em um dia na qual eu não estava esperando nada, algo tinha acontecido. Porém, eu já não focava mais nisso. Tentava apagar aquilo da memória. Dificilmente me entregava assim. Eu preferia aprofundar as minhas raízes no meu trabalho. Na minha arte. Assim eu era. Assim as coisas deveriam ser.
    Porém, apesar disso, eu gostava de mergulhar nos abismos das pessoas que me interessavam. Era intrigante empreender esses mergulhos mais profundos. Mesmo que eu tivesse um pouco de receio de me aventurar em coisas desse tipo. E assim eu empreendi essa descida ao caos que habitava em Luana. E que eu achava até bonito. Meio confuso. Cheio de amarras embaraçadas. Algumas meio ininteligíveis. Mas ainda assim, tinha uma certa beleza. Uma abstração que me enchia os olhos.   
    No começo foi um pouco difícil lidar com toda aquela energia. Com todo aquele vigor. Eu queria ser casa, aconchego terreno. E embora ela parecesse querer também, ela gostava de ser livre. Voar que nem os pássaros selvagens. Ela me dizia que não queria namorar. Que preferia deixar as coisas como estavam. Com algumas saídas entre nós. Com mais frequência do que se poderia chamar de casual. E eu não estava habituado a isso. Não estava acostumado a coabitar em um relacionamento na qual eu tivesse que dividir. Na qual fossemos um, mas ao mesmo tempo continuássemos a sermos dois. Individualmente. Eu gostava de quando nos fundíamos em uma coisa só. Porém, confesso que talvez também gostasse do jeito como preservávamos nossos espaços subjetivos. Nossos refúgios solos. Acho que encarava isso como estar em algo mais aberto. Não sabia dizer ao certo. Mas preferia deixar um pouco de lado essa minha mania de entender tudo. De nomear e explicar tudo. 
    E dia após dia ela me ensinava a desbravar as intensidades. A ser pura pulsão. A lidar com eventuais ciúmes. A ressignificar a palavra “minha”. Que já não era sobre posse. Era sobre entregas. E eu a ensinava a desacelerar. A saber parar também. Pois alguns de seus excessos poderiam se tornar um tanto quanto destrutivos. Éramos fogo e terra. Duas faces da mesma moeda no final das contas. E não precisávamos de “porquês” plausíveis para coexistir.

                                                                                                                                   ◊◊◊

    Muita coisa tinha se passado nesses últimos tempos sem que eu percebesse. As apresentações continuaram a acontecer. Os dias se tornaram mais corridos. Três meses se passaram como se fossem três semanas. Mas era extremamente gratificante. Eu tinha conseguido finalmente ter tido coragem para contar aos meus amigos da companhia o ocorrido. E, para minha surpresa, a maioria tinha me apoiado. A confiança começava a se estabelecer nos nossos vínculos.
    Ao término da temporada, decidimos entre nós que nos desvencilharíamos da companhia teatral de Reinaldo e fundaríamos nosso próprio grupo. Confesso que não era uma decisão exatamente fácil. Estava sendo difícil para todos. Ainda mais que agora tínhamos um nome e um certo reconhecimento. E isso pesava na vida de qualquer artista. Sobretudo de quem estava em início de carreira. Mas entre o prestígio artístico turbulento e a tranquilidade de poder trabalhar em um ambiente na qual eu não fosse constantemente assediada, eu preferia zelar pela minha saúde mental. Isso era importante. E eu merecia estar em um ambiente que me fizessem bem. Que fosse simplesmente saudável para eu estar. Pois cada dia a mais naquele lugar fazia eu me sentir como quem está constantemente se equilibrando em uma corda bamba para não adoecer. Entre a euforia de cada apresentação bem-sucedida e os constantes olhares perseguidores. E também os toques, nada sutis, disfarçados de esbarrões ou incidentes. Como se a minha pele não me pertencesse. Como se fosse objeto público. O que é estar segura?
    E sim. Eu tinha consciência de que, infelizmente, eu ganharia menos. Que talvez o caminho a ser percorrido fosse mais longo em trabalhos independentes. O meio artístico poderia ser bem ingrato quando queria. Ainda mais quando era mantido vivo pelas influências, pelos prestígios e acordos absurdos. Tudo isso pesava tremendamente na balança. Será que vai ser o suficiente? Será que vai dar para pagar as contas e ainda seguir adiante com os projetos? Não. Não era fácil. Mas era preferível.
    Porém, para além desse inconveniente, a minha vida também tinha adquirido rumos interessantes nos últimos tempos. Quando Arthur apareceu naquela noite, em que uma crise e um turbilhão de sentimentos angustiantes me atravessava, eu sinceramente achei que ia ser só mais um estranho. Uma conversa para matar o tempo e aliviar o peso. Um corpo a mais ou a menos na minha cama. Um êxtase de uma noite que iria embora com os primeiros raios de sol. Uma presença calorosa para acalentar por um tempo extremamente efêmero, como as brasas queimando em uma fogueira, que se apaga depois de um tempo. Seria apenas o habitual. Tão habitual quanto almoçar todos os dias ou escovar os dentes. Apenas mais uma necessidade. Pois a minha fome não era nunca pequena.
    Porém, surpreendentemente, a noite em claro com ele no meu apartamento se tornou um convite para uma exposição na semana seguinte. E depois se tornou um convite meu para ele assistir a minha peça. Não era como estar em um relacionamento. Mas ao mesmo tempo era parecido. Algo do tipo. E, estranhamente, o ponto mais forte entre a gente não era o sexo. O que fazia falta. Mas acho que entre nós existia uma espécie de cumplicidade de quem se cruza assim, por acaso, e se conecta. Continuávamos com os nossos quotidianos, com os nossos pequenos e expansivos mundinhos individuais. Mas eles se entrelaçavam. Nas conversas, nos orgasmos, nos olhares, nas peles, nas artes e nas dores indizíveis de cada um.      
    Eu gostava de estar com ele. Sentia que eu não perdia as minhas liberdades. Nem as minhas individualidades me forçando a me dissolver em uma presença masculina. Eu me bastava. Eu era um fragmento inteiro. Mas ainda assim era bom poder me adentrar nessas trocas. E eu conseguia ser sincera. Sem ter qualquer imprescindibilidade de ser alguma persona em específico para me proteger ou agradar.  A gente era simplesmente o que era. E isso era o suficiente.
    E claro, eu continuava com as minhas próprias aventuras particulares. Conhecer pessoas era sempre algo que me atraía muito. Eu gostava de encarar esses personagens quotidianos. Saber como funcionavam, como se conectavam com as coisas ao redor. Achava bonita essa coisa de experimentar a multiplicidade. A multiplicidade de corpos, gostos, efeitos, cheiros, ambientes, sons e temperaturas. E embora desde muito cedo parecesse uma coisa muito natural para mim, não costumava encarar as coisas na aleatoriedade. Como atriz, eu gostava de prestar atenção nos gestos, nas pequenas sutilezas. O que pode um corpo sentir e experienciar?     

                                                                                                                                          ◊◊◊

    Meus processos de escrita se tornaram um pouco bloqueados novamente. Era impressionante como o fluxo da abundância nem sempre era contínuo. Tinha dias que simplesmente não adiantava a quantidade de café e nem o meu apreço pelos seus sabores. Não escorria quase nada pelos dedos batendo nas teclas do notebook. E muito menos nas anotações do bloco de notas. Eu estava dormindo um pouco mal. Preocupado novamente com prazos e processos criativos. Parecia que minha mente andava em outro lugar. Talvez estivesse vagando pelo interior de Minas. Pelas lembranças incompletas de saudades que as vezes apertam no peito. Da minha mãe, dos meus três irmãos, da vó que ajudou a me criar. E até mesmo dos gatos e cachorros que meu irmão mais novo tinha mania de resgatar da rua eu parecia sentir falta.
    Minha vida obviamente fazia mais sentido por aqui. Eu sentia que fluía melhor por aqui. Mas ao mesmo tempo, as vezes me sentia tão pequeno nesse mar de gente. Gente que se esbarra, mas que não se atravessam. Morar em uma cidade grande as vezes trazia seus pesos. Surgiam sentimentos conflituosos. Uma saudade do conforto de casa misturada a sensação apavorante de ficar sozinho. E eu sei. Eu sei que tinha prometido a mim mesmo naquele dia que tudo isso bastava. Que eu não precisava deixar a minha mente flutuar em saudades que cheiram a medo da solidão. Porque aquele passado já não me pertencia mais. Eu acho que só tinha mesmo era medo de ficar sozinho. Perdido na cidade que ainda não me acolheu como filho.
    Cada vez mais eu percebia também que acender um beck antes de dormir não estava mais funcionando como calmante natural. Meu corpo parecia não responder mais. Tinha se tensionado. O fluxo aquoso tinha se tornado o gelo sólido de um inverno europeu. E a chuva continuava caindo lá fora, escorrendo pela minha janela sem parar. Madrugada silenciosa. Daquelas que eu costumava considerar perfeita para terminar um roteiro ou criar algo novo. Mas hoje era só mais uma madrugada na qual a insônia vinha me abraçar ternamente.
    Mas afinal de contas, os dias ruins não eram todos que eu tinha. De vez em quando, ainda saía com os amigos do mestrado. Convidava eles para fazer algo. Eu era bastante comunicativo quando eu queria. Adorava estar rodeado de pessoas com quem eu pudesse trocar experiências acadêmicas. E até mesmo experiências de vida. Para jogar um papo fora ou sei lá. Sabia que fazia bem. E eu gostava dessa sensação de tomar “banho de gente”.
    Porém, ultimamente, a maior parte do meu tempo eu estava passando no meu quarto. Escrevendo sem parar. Apagando e reescrevendo. E sentindo uma tremenda vontade de jogar tudo fora as vezes. Porque apesar de todos os apesares, de se fazer o que gosta, a gente ainda tem que lidar com os prazos. Tem que pagar as contas.
    Por vezes, me pegava chorando no meio do banho repentinamente. Mas nem eu sabia exatamente pelo o quê. Não sabia dizer exatamente se era bom ou ruim. Porque ao mesmo tempo em que me batia um prazer imenso por estar vivo, mesmo com as diversas cicatrizes, me crescia uma estranha angústia. Mas eu só deixava escorrer. Era bom deixar escorrer todos aqueles sentimentos. Deixar cair as gotículas no tapete e serem absorvidas pelo tecido. Deixar a pele secar ao vento. Deixar as emoções viverem fluxos parecidos com os ciclos da água. Afinal, ter me mantido otimista ao longo desses trinta anos é o que me sustentava. Apenas tentava lidar com essas emoções na medida em que surgiam. E acho que grande parte dos meus roteiros se refletiam em um pouco disso. Por mais imparciais que parecessem ser. Mas o fato é que eu precisava de uma reinvenção urgente. Para não acabar enlouquecendo.
    No dia em que fui entregar um dos meus últimos roteiros, não pude deixar de observar um cartaz bastante convidativo pregado em um dos murais. Com suas cores misturadas e vibrantes, ele indicava um workshop de curta duração de dança contemporânea. Nem sei ao certo porque passou pela minha cabeça me inscrever. Nunca tinha me arriscado a dançar nada na vida. Para dizer a verdade, ultimamente os meus movimentos tinham sido muito mais voltados para a minha produção, para meus fluxos de consciência. Mas talvez fosse bom estourar esta bolha. Sair um pouco desses ciclos repetitivos. Eu não tinha nada a perder mesmo. E sendo de curta duração, eu não precisava me comprometer a permanecer por longos tempos.  
    Para a minha surpresa, a primeira aula tinha sido melhor do que eu imaginava. Era bom ter essa sensação de movimento. Me sentia meio desengonçado sim. Mas fluía. De alguma maneira. O som da música do estúdio e os balanços dos corpos ao redor. Sentia até uma facilidade em me comunicar com as pessoas. Com algumas mais do que outras. Tanto com as palavras, quanto com o corpo. E não pude deixar de notar que o espaço parecia permeado por uma maioria de mulheres. E que elas pareciam ser potentes no que faziam. Leves na dança. Envoltas em uma certa aura transcendente. Mas sempre tinha quem se destacasse mais. Era claramente perceptível.      

                                                                                                                                   ◊◊◊

    Tirar um cochilo a tarde tinha suas vantagens. Muitos não gostavam. Mas eu, particularmente, me sentia renovado. Mais até do que no sono da noite. Tanto que acordei, lavei o rosto e estranhamente tive ânimo para dar os toques finais a um quadro que eu estava trabalhando nesses últimos tempos. As cores que eu utilizava agora não puxavam mais tanto para os tons amarronzados, amarelados foscos e nem cinzas. Era o vermelho vivo e voraz e os alaranjados que saltavam aos meus olhos. As formas dançavam com mais facilidade. Tinham paixão. Movimento. Talvez elas estivessem precisando disso. E embora eu ainda nutrisse um apego pelas formas antigas, eu achava bonito como novas coisas me apareciam. Ia sentindo aos poucos que eu não tinha mais tanto medo assim do novo. Não me pareciam mais abismos fundos e incertos. Embora ainda fossem imprevisíveis. No fundo, talvez, a perspectiva do novo sempre estivesse ali, como um velho amigo me rondando. Eu só deveria não hesitar em acessá-lo. 
    Enraizado nessas sensações de bom humor, decidi fazer uma pequena surpresa para Lua. Assim, de última hora. Nada demais. Só me veio de repente um ímpeto de vê-la. Já fazia umas duas semanas que não nos víamos pessoalmente. E por mais que trocássemos mensagens diariamente, não era exatamente a mesma coisa. Então tomei uma ducha rápida, troquei a roupa respingada de tintas e parti. Sem tabacos no bolso. Sem grandes expectativas. Assim, de cara limpa e coração lavado.
    Já era começo de noite quando peguei o metrô em direção ao Flamengo. Estava um pouco cheio, mas não impossível. Conforme ele andava, eu começava a prestar atenção nas pessoas ao redor. Geralmente, em transportes públicos, eu costumava me voltar muito para dentro. Para os meus próprios pensamentos ou sensações desagradáveis do ambiente. Mas hoje só observava. Nada em especial. Alguns rostos cansados do trabalho. Alguns concentrados em uma tela ou em algum livro. Uma ou duas crianças que pareciam brincar de se esconder uma da outra através da saia longa, em estilo indiano, da mãe. Mas a mulher aparentemente não se importava. Aparentava estar imersa em algum tipo de estranha alegria causada pela agitação dos pequenos. Como traços de cores vibrantes em meio a matizes acinzentados.
    Quando cheguei a meu destino, não precisei procurar muito para vislumbrar de longe a fisionomia dela através dos vidros. Seu jeito enérgico e apaixonante de se mexer e de se comunicar. Ela se destacava sem fazer grandes esforços. Era o natural dela.
    Ao que tudo indica, a aula já estava no final. Resolvi esperar em um dos bancos do lado de fora. Alguns minutos não iriam ser problemáticos. Observava o pátio ao redor. As pessoas que saíam da aula. As árvores com os seus tons vivos de verão, porém encobertas pelo escuro da noite. Tudo parecia estar exatamente onde deveria estar. Mas a demora começava a ser um pouco longa demais. Cinco minutos se tornaram dez. Depois quinze. Depois vinte. Vinte e cinco. Meia hora! Todos saíam e nada dela. Não queria parecer paranoico. Não queria parecer preocupado ou tenso. Mas comecei a achar aquilo meio estranho. Decidi encontrá-la. Mas talvez não tivesse sido boa ideia.
    Na pequena sala, ela beijava um rapaz ao fundo, com as luzes apagadas. Uma espécie de facada no peito, mesmo que tivéssemos uma liberdade conversada tantas e tantas vezes. Eu soube que era ela, porque a luz do poste amarelado do lado de fora fazia com que alguns feixes iluminassem seu rosto. Qual a distância entre as palavras e a realidade? Sabia que não deveria me sentir assim. Mas talvez começasse a pesar os sentimentos mais obscurecidos. Os ciúmes. Os pessimismos. A sensação de que tudo não passava de algo fadado a fracassar. Eu não sabia se eu era suficiente. Começava a me sentir inseguro.  
    Eu estava quase dando as costas para ir embora. Porém, devido aos barulhos de passos, ela percebeu que não estava a sós. Vi quando ela abriu os olhos subitamente e se espantou com a minha presença ali. Sem entender muito bem o que se passava. E talvez um pouco preocupada também.
    Ela vinha em minha direção, tentando talvez apaziguar. Mas eu estava paralisado com o que via. Meus batimentos começaram a acelerar. Aquilo não poderia ser real. Parecia um fruto da minha imaginação. Eu só poderia estar ficando louco. E da minha boca só saía quase inaudível um loop lento e confuso de uma palavra que só eu parecia ouvir. Diego?

                                                                                                                                 ◊◊◊

    O meu espanto de ontem trouxe à tona diversas memórias adormecidas. Nove meses atrás, naquele quarto de um motel barato no Centro do Rio. Apesar de não termos trocado contatos, eu me lembrava de Arthur com carinho. Eu já tinha dormido com outros caras. Até mais do que com mulheres. Mas o que eu achava engraçado nele era seu jeito tão dúbio. Ele hesitava, entrava em negação. Porém, tinha uma força que o puxava para o outro lado. Que o fazia se entregar por fim. E isso fazia ele parecer uma pessoa cansada. Aparentemente cansado de lutar diariamente contra si mesmo.
    Confesso que tive uma felicidade súbita de saber que o quotidiano banal ainda podia fazer as pessoas se cruzarem assim. Parecia cinematograficamente arranjado. Coisa que não aconteceria duas vezes na mesma existência. Pois só de roteirizar já me parecia improvável. E acho engraçado de pensar que se mudassem o cenário, talvez fosse mais plausível esse contexto. Se acontecesse no interior talvez fosse mais viável. Estávamos acostumados a cruzar com um ou outro conhecido diariamente. Todo mundo parecia saber da vida de todo mundo. Mas em uma cidade como o Rio de Janeiro tudo parecia tão distante. Não geograficamente falando. Eram as conexões que eram difíceis. Efêmeras como chuva de verão carioca.
    Ontem à noite, as coisas aconteceram de uma maneira improvável. Eu diria quase mística ou misteriosa. Lua não entendeu muito bem o que se passava. Não sabia se sentia culpa ou tentava entender o que aquele estranho encontro significava. Jogava palavras ao vento freneticamente, tentando formular atitudes coerentes. Arthur, por sua vez, parecia congelado. Estático. Como quem não consegue reagir muito bem. E talvez nem quisesse reagir. A barreira só se rompeu quando eu sugeri que sentássemos em outro lugar para conversar, pois os porteiros já estavam querendo fechar o estúdio.
    A noite me pareceu mais longa do que o habitual. Cada um, a seu modo, tentava explicar o que se passava. Três perspectivas. Três enquadramentos. Três narrativas diferentes. Que pareciam correr em paralelo. Mas que se mesclavam. E se complementavam.
    Me peguei me perguntando o porquê de eu e Arthur termos perdido contato. Talvez por medo dele, talvez por distração minha. Não sei dizer. Mas mesmo antes de me encontrar com ele, ainda me lembrava daquela noite com emoções pairando no ar. Fixamos uma certa nostalgia um do outro. Gostava da sensação de ter sido a primeira experiência na vida de alguém. Gostava de pensar que talvez eu pudesse ser marcante para alguém. Como tatuagem que fica na pele para a vida toda, mesmo desbotando com o tempo. E que eu era capaz de romper paradigmas que pareciam totalmente cristalizados. Não sei se pela dureza do tempo ou da vida.  
    Já Lua, me trazia outras sensações. Parecia que tudo era rápido demais, porém intenso como um furacão. Un coup de foudre. Ela me atraía de uma maneira que nem eu sabia ao certo como explicar. Parecia contrastar comigo. Me puxava para o fundo. Como uma sereia que encantava pescadores. Tinha lábia. E embora eu fosse quase dez anos mais velho, ela conseguia fazer fluir as minhas estruturas de uma maneira impressionante. Parecia que eu já não era mais tão experiente. Parecia que todos esses anos já não importavam mais. Fazia eu me sentir como se o meu tempo fosse o agora. Duas semanas saindo juntos parece que tinham se tornado dois meses.

                                                                                                                                ◊◊◊

    Como personagens tão diferentes eram capazes de se atrelar assim? Tudo acontecera tão repentinamente e com tons tão vorazes. Não me recordo muito bem como as coisas foram capazes de saltar assim tão rápidas. Mas quando me dei conta, já nos emaranhávamos nos meus lençóis. Era aquele ambiente, no meu pequeno apartamento, divido com uma amiga, na Urca, que parecia que o tempo e o espaço eram capazes de se expandir a cada momento. Os espaços vazios eram preenchidos. Os cômodos. As mobílias. Os corpos. As células. Selvagens. Como se os interiores suplicassem por serem alimentados. Mas sem afobações. Sem ansiedades.  
    Eu, que sempre tinha fomes, inquietações e agitações atravessadas na carne, me sentia inundada em serenidade. Sentia que era capaz de ser nutrida por aqueles dois homens. Por aquelas presenças. Não como quem depende. Mas como quem se sente conectada. Éramos pertencimento? Éramos elementos que se combinavam. Quase que necessários um ao outro naquele presente. No instante tudo se fazia valer. Éramos os gozos do fogo se espalhando em labaredas crescentes. Dos líquidos que escorriam pelas têmporas, pelas bocas, pelas costelas e pelas coxas. Penetrando as três camadas da terra. A crosta. O manto. Até chegar no núcleo. E explodir novamente. Em múltiplos pedacinhos brilhantes que se estilhaçam. E depois cair em riso. Em suspiros entrecortados. E afagos com as pontas dos dedos.
    Aquela noite fazia eu me questionar. Não como quem se indaga querendo saber uma verdade estática. Lispector estava certa: “quem se indaga é incompleta”. Quais os limites da pele? Quais os limites dos poros? Mas não. Eu não era incompleta. Eu era algo em aberto. Em andamentos. Como quem abre o peito e em uma fração de segundos é capaz de inspirar todo ar disponível. E se sentir preenchida. De algo. De uma sensação pulsante. Gelatinosa? Macia? Quente!
    Eu era planta carnívora. Eu era a ressaca do mar. Não sei o que fui. Não sei o que era. Eu era intensidade. Éramos intensidades. E quando os primeiros raios de sol começaram a surgir pelo vidro da janela, senti que me enchia de luz.
    Arthur dormia tranquilo. Esparramado no colchão. Tal como em um sonho infantil, imperturbável. Diego, que não tinha pregado os olhos em nenhum momento, foi até a cozinha passar um café. Eu saía de um banho rápido, enrolada em uma toalha vermelha felpuda, sem me secar por completa. Abria a janela e deixava que o vento e os feixes amarelados secassem cada gotícula da minha pele. Uma a uma. E sentia os pelos se arrepiando. Um banho de energia.
    O cheiro do café quente envolvia o apartamento. Eu deixava meu corpo pesar para trás. E me deitava. Incrédula. Radiante. Atônita. Fechava os olhos. Sentia a pele morna de Arthur esbarrando na minha sem querer. Ele parecia despertar com a minha presença. E me abraçou. Como quem segura preguiçosamente um travesseiro macio contra o corpo.
    Os carros e ônibus circulavam ao longe. Alguns pássaros cantavam. A cidade despertava para uma manhã de verão de sábado. Diego vinha trazendo na garrafa térmica o nosso café. Mas pareceu se esquecer dele segundos depois, pousando-o na mesinha de cabeceira. Ele se aconchegava junto da gente. Como quem finaliza uma grande cena. Gran finale. Como quem compõem o espaço do colchão com aquilo que faltava. E era bom estar aqui. Era bom poder ir pegando no sono. Vagarosa. Isso bastava.              

                                                                                                                                          ◊◊◊

    Todas aquelas certezas, tão sólidas, tão feitas, pareciam tomar outros rumos. Cada momento se transformava em efeitos labirínticos. Às vezes eu sentia como se tudo acontecesse tão rápido que eu precisava de um tempo para assimilar. Era o tipo de interação que despertava tantos tipos de emoções variadas que nem eu mesmo sabia se faziam parte do meu espectro. Confesso que talvez eu tenha entrado em uma espécie de pânico a princípio. Eu não sei se sabia mais lidar tão bem assim com as novidades. Ainda mais quando envolviam duas pessoas ao mesmo tempo. O meu próprio temperamento se mesclando a lida com os temperamentos de Lua e Diego. Uma mistura de angústia com prazeres. Mas não era exatamente ruim. Não. Não era sobre isso.
    Apesar de tudo o que vinha acontecendo nesses últimos tempos, depois daquela noite, tentávamos continuar com os nossos quotidianos normalmente. Embora fosse improvável. Ao mesmo tempo que quase nada parecia ter mudado na rotina, quase tudo tinha mudado. Eu sentia que meus tons iam se modificando também. Realidade e abstração. As fronteiras se alargavam. A minha maneira de ver algumas coisas também. As vivências em meio a cidade. Acho que eu me sentia acolhido. Quase confortável. Era possível ser casa em dois seres diferentes ao mesmo tempo? Era possível multiplicar os sentimentos?
    Quanto mais eu achava que entendia da vida, das coisas do mundo, das possibilidades, das pessoas, mais eu me enganava. Cada vez mais as palavras sentiam a necessidade de serem ressignificadas. Quase como se eu pudesse criar uma nova língua. Mas nem mesmo eu sabia precisamente como torná-las plenas em si mesmas. Compreensíveis. Desemaranhadas. O que éramos então? Amigos? Amantes? Companheiros? Combinações? Delírios tropicais de veraneio?
    Tudo o que vivíamos me parecia ser sobre aprendizados. Aprendendo a ver. A ouvir. A inspirar. A provar. A sentir. Ou reaprendizados. Era confuso. Oblíquo. Delicioso. Inebriante. Divertido. Apavorante. Talvez fosse sobre os sentimentos inefáveis. Aqueles que nos atravessam repentinamente. Ao sabor das estações do ano. E nunca permanecem os mesmos. Vão se constituindo e mudando toda hora. Como expressar em palavras ou em pensamentos tudo aquilo que ainda não nomeei?
  • tudo bem se você não gostar

    ontem no ônibus eu vi uma senhora usando um daqueles chapeus meio triangulares-não-poliedros que os chineses usam nas plantações de arroz. ela vestia também uma bata laranja cheia de tampas de latinha. achei tão curioso, e mais ainda porque ela puxou assunto comigo. pensei que fosse ser eu, mas foi ela. ela perguntou se eu era vegana porque eu estava tão elegante, e disse sem mais nem menos que a médica dela deu a noticia de que ela nunca mais vai poder comer carne porque carne da câncer. é claro. enquanto conversávamos, ela pediu pra eu falar mais alto porque a audição dela não estava das melhores. me senti encabulada em falar alto demais dentro de um ônibus lotado de silêncios, mas falei alto. eu estava mesmo bem elegante. mais tarde a vi de novo com "ele não" escrito no rosto, usando o mesmo chapeu não-poliedro, no meio do bloquinho de carnaval, que fica no meio de curitiba, que fica no meio do mundo. hoje eu conheci um homem que tem mais de cem diplomas. cem. me mostrou seringas antigas enormes de vidro, dentro de latas quentes pelo sol, me explicou como eram, antigamente, as esterilizações. só com fogo e água quente, e funcionava. ele apontou pra uma seringa que estava de lado e disse que era a mais rara de todas, olhei, era igual as outras. mas também não era igual. me mostrou penas e tinteiros velhos, o que me deixou com vontade de escrever. tinha também um vidro com um pó alaranjado, e quando eu perguntei o que era ele disse que não sei, melhor não mexer, vai saber o que tem aí. eu não mexi. ele adivinhou meu nome do meio sem nunca ter me conhecido antes. eu poderia ter tantos nomes do meio, mas eu tenho o que eu tenho, e ele sabe o que ele sabe. cheguei a conclusão que as caixas de fósforo antigas são muito mais interessantes que as de hoje em dia, e que as pessoas deveriam estar pensando é nisso. as páginas que falam sobre a guerra no meu novo livro favorito estão enrugadas de água da chuva, parecem lágrimas, mas não as minhas. é que eu nunca saio de guarda chuva. sujei minha bolsa branca com molho de pimenta porque eu ainda não aprendi a segurar pastel de palmito, vinagrete, molho, bolsa, livro e gentilezas, ao mesmo tempo, só com duas mãos. fiquei pensando que eu não conheço de verdade os meus pais como pessoas, a não ser como "pai", ou como "mãe". será que alguém conhece o próprio pai como ser, ou qualquer familiar como ser, além de todos os termos familiares convencionais? será que alguém conhece alguém? nenhuma das fotos 3x4 que eu tenho foi roubada, ao contrário do que algumas pessoas pensam. se tivéssemos o tamanho que ficamos quando usamos pernas de pau, teríamos que ter bem mais que dois joelhos. hoje é domingo, tem gente que não gosta. mas eu adoro adoro adoro, e tudo bem se você não gostar.
  • Ufa! Essa foi por pouco...!

    — Mais um dia! (exclama Carlos exausto!)
    — Eu não me queixaria disso; antes mais um, do que menos um (diz Nelson como sempre em tom de brincadeira, enquanto cumpria os últimos preparativos para deixar a aeronave). O que vamos fazer agora; jantar, ou tomar um porre?
    Como Carlos não lhe respondera, Nelson volta à carga:
    — Ora vamos, rapaz! O mundo não vai acabar em cansaço e mau humor; vai?
    — Não, não vai; mas, o que preciso mesmo, por enquanto, é de um bom banho e de um bom sono.
    — Bom, com respeito ao banho, eu até que concordo; mas, com respeito ao sono, eu não tenho tempo pra isso agora; talvez, bem mais tarde!
    Carlos era o piloto responsável pelo jatinho particular que servia ao banqueiro Gaizka Aguirre, sua esposa Ruth e seus dois filhos: Danielle, de vinte e cinco anos e Jonathan, de vinte e dois. Carlos, vinte e nove anos, era um jovem bem apessoado, austero e muito compenetrado em seu trabalho; mas, ultimamente, ele vinha apresentando sérios sinais de estafa e uma constante irritação, o que começava a preocupar o seu amigo e copiloto Nelson – de vinte e seis. É certo que a viagem havia sido longa e que o sol de verão havia sido inclemente; mas, isso não era absolutamente razão para ele estar assim tão cansado e de tão mau humor.
    — Você não gostaria de conversar e de se abrir comigo, Carlos? O que é que está acontecendo? Eu tenho notado que você já não é mais o mesmo; parece muito cansado, irritado… Ou seria aborrecido com alguma coisa em específico? Existe algo que eu, como seu amigo, possa fazer?
    — Não, eu estou bem. É que eu preciso acessar na net as cartas de navegação e fazer o planejamento do voo de volta para amanhã; é só isso.
    — E eu posso ajudar, nisso? (pergunta Nelson, já sabendo qual seria a resposta)
    — Oh, não! Aproveite a estadia por aqui. Mas tenha juízo, rapaz; amanhã partiremos logo cedo e, como você bem sabe, a patroa Danielle não tolera qualquer atraso ou ineficiência.
    Nelson se despede e vai para o seu bar preferido, onde joga bilhar, conversa com os amigos e aprecia a praia iluminada até altas horas da noite, enquanto que Carlos toma um táxi e vai direto para o hotel. No dia seguinte, já no aeroporto e se preparando para a partida…
    — E aí, comandante! Em forma e animado pro caminho de volta? (pergunta Nelson enquanto contata a torre de controle e faz os últimos preparativos antes da taxiagem)
    Carlos, como já era de se esperar, não responde palavra; em vez disso, continua checando os controles de flaps, ailerons, profundor, leme e etc. A maioria dos voos costumava ser entre Estados Unidos, Brasil e França, onde os Aguirre tinham residências e a maior parte dos negócios; mas, algumas vezes iam também para o oriente médio, o que era ótimo para quebrar a monotonia do trabalho.
    — Veja só como são as coisas (diz Carlos pensativo, enquanto decolava em Miami, rumo a São Paulo); quando eu estava ainda estudando e me preparando pra ser piloto, eu era considerado a maior atração… e isso por onde quer que eu fosse! As garotas me amavam e os colegas me invejavam…! Hoje, que já sou piloto "há anos!" elas simplesmente desapareceram, ou, talvez, prefiram me ignorar. Você sabe como é; elas dizem que vida de mulher de piloto não combina com os seus anseios de esposas, de mães, ou, de donas de casa…!
    — Cara! (diz Nelson quase gritando um "eureka!") Então é esse o motivo da tua zanga e irritação constante! (Nelson ri gostoso) Olha, eu não esquento com isso. No momento, eu não estou mesmo pensando em me amarrar; mas, quando chegar a hora, eu acho que vou me dar bem. Só como exemplo; você sabe que eu vivo dando em cima da patroa Danielle… Mas isso é só farra; isso não leva a nada! O que a gente tem que fazer, quando se está mesmo a fim, é procurar uma garota que seja madura, idônea, adequada, conveniente… O que eu quero dizer é que a gente tem que procurar uma gata que não seja tão exigente e implicante a ponto de se interpor entre a gente e a nossa profissão. E depois, a gente não fica tanto tempo assim fora de casa… Quer dizer… Ainda existe coisa muito pior por aí!
    — Hum, não sei não (interrompe Carlos, com um sorriso meio sem graça).
    — Cara! (diz Nelson com o seu jeito divertido e dando um golpe no ar) Eu vou arranjar uma namorada pra você! Como você prefere; loira ou morena? Grandona ou pequena? Agitada ou serena? Lunática ou terrena? Escolhe: Lucélia, ou Lorena?…
    — Nem pensa, Nelson! (interrompe Carlos que nunca estava para brincadeiras) Nem pensa!
    Nesse momento Nelson olha o horizonte, checa de novo as cartas de navegação e a previsão das condições atmosféricas para o voo e o que vê o faz deixar prontamente a brincadeira de lado. Após a linha do equador, já entrando em solo brasileiro, um largo cinturão de nuvens muito altas, espessas, carregadas e escuras ia se formando.
    — Parece que vamos ter que reduzir a velocidade pra diminuir um pouco o "sacode", comandante (diz Nelson já fazendo os preparativos para enfrentar o mau tempo). Eu odeio essas formações de cumulonimbus… Me fazem lembrar daquelas rodovias esburacadas; ou, o que é pior; daqueles infames "quebra-molas" que a gente passa sem ver e "de repente!" a gente mete a cabeça no teto!
    — É, e esse não vai dar pra contornar (diz Carlos quase que de si para si). Avise a Danielle pra se preparar e apertar o cinto; vamos entrar numa zona de fortíssima turbulência.
    Como faltava ainda alguns minutos para darem de encontro ao mau tempo, Nelson decide ir e dar o alerta pessoalmente. Danielle, como sempre, estava estudando. Assentada numa das poltronas laterais e com uma porção de livros e cadernos espalhados numa mesa, à sua frente, ela apenas ergue os olhos para ver quem vinha e em seguida volta à sua leitura. Uma visita de Nelson, durante um voo, não constituía novidade alguma para ela.
    — Parece que a minha linda terá que abandonar os estudos por alguns instantes… (diz Nelson enquanto se aproxima) Estamos pra entrar numa zona de forte turbulência… Melhor se preparar.
    — Olha aqui, Nelson; pra começar, eu não sou "a tua linda"; e depois, nem linda exatamente eu sou. Eu sei que não sou feia de assustar; mas, "linda?!" (Danielle sorri com deboche) Ninguém nunca te disse que com essa tua cantada de hipocrisia você não irá conquistar nenhuma garota... pelo menos, não as que sejam sérias? A não ser que ela se ache mesmo linda, é claro (diz Danielle sorrindo enquanto guardava os livros).
    Nelson fica imóvel, em silêncio e introspecção, por um instante, e depois lhe diz num tom grave e pausado.
    — Eu gosto muito de brincar com você, Danielle; porque você é, de fato, uma garota muito jóia… Mas, na verdade, eu nem deveria fazer isso, sabia? (pausa) Ele poderia não gostar e… Bom, deixa pra lá.
    — Não estou te entendendo (diz Danielle num tom de interrogação).
    — Não, nada não (ainda num tom reflexivo, enquanto se vira e se afasta em direção à cabina).
    — Ah, tá! Você deve estar pensando que eu vou ficar aqui, "morrendo de curiosidade!" ou, te perguntar o porquê dessa tua encenação, certo? (diz ela zombando)
    — Não, não; esquece. Eu falei demais; só isso. Acontece que quando eu estou triste, ou preocupado com alguém, eu acabo pensando alto… mas, não é nada não (se afasta, entra na cabina e fecha a porta).
    O mau tempo foi "tremendo!" e teve uma duração de uns vinte minutos. Assim que tudo volta à calma, Nelson anuncia a Danielle ‒ agora pelo sistema de comunicação interna, que a situação já havia voltado ao normal e lhe deseja bons estudos. Não levou nem cinco minutos e Danielle bate à porta da cabina.
    — Nelson, você poderia vir aqui um instante?
    — Claro, sem dúvida! (Nelson tem que se esforçar para conter uma gostosa gargalhada!) Posso, comandante? (pergunta a Carlos que apenas faz um aceno dizendo que sim)
    — Vem cá; (diz Danielle, fazendo um aceno para que ele se assente ao seu lado). Que história é essa que você começou a encenar aquela hora e que não terminou; hã? Diz aí! Eu quero ver o fim desse teu drama! (Danielle sorria, mas com certa irritação)
    Nelson não era bonito, mas era um tipo simpático, muito brincalhão e agradável. Nesse momento, ele mal conseguia fazer o ar sério e introspectivo que a cena exigia. Olhando sempre para baixo e evitando a todo custo o olho-no-olho com Danielle, ele diz:
    — Está bem. Não vai ter jeito mesmo, não é? Mas eu ainda insisto em dizer que eu não devia estar aqui te falando sobre isso. Se o Carlos fica sabendo… Eu… Eu nem sei o que ele poderá fazer!
    — Nelson, Nelson! Você é mesmo um tremendo de um sacana! Me custa acreditar que você esteja tentando armar uma troça pro Carlos – teu superior! Eu sei o que ele te faria; primeiro ele iria te matar e depois ele te mandaria embora – rua! Só que não vai rolar, Nelson; eu te conheço bem demais pra acreditar em qualquer coisa que você invente.
    Nelson, fingindo um grande alívio, se levanta dizendo:
    — Então, eu posso ir? Estou liberado?
    A essa altura, a curiosidade de Danielle sobre a "armação" de Nelson já era tamanha que ela simplesmente não podia deixar de ouvir o restante da tramóia!
    — Hã… não; senta aí e me conta tudinho! Com certeza eu vou chorar de tanto rir!
    Nelson costumava representar muito bem as suas "peças"; mas, desta vez, só com muita dificuldade ele consegue se conter e não cair na risada. Voltando a se sentar, ele se prepara para dar um desfecho ao drama.
    — Você tem reparado na ansiedade e na irritabilidade do Carlos ultimamente; não tem?
    — Não (diz Danielle com um sorriso matreiro estampado em seu rosto). Ele está cansado e querendo tirar umas férias; é isso?
    — Hã… Você nem percebeu. Mulheres! E depois, nós é que não notamos o vestido novo, o penteado ou a nova cor do cabelo delas! (diz, indignado e se preparando para se levantar e voltar para a cabina)
    — Ou, ou, ou, espera aí! Era só isso?
    — Ora, e o que mais deveria eu dizer a uma mulher que não nota sequer a existência, os anseios ou os mais sinceros sentimentos de uma pessoa tão legal, tão especial e que vive há tão poucos metros de distância dela; hã? Me diz!
    — Nelson, deixa de graça e diz logo o que você insinuou que tinha a dizer; vamos! Essa tua estória já está me dando nos nervos, sabia?
    — Dizer, pra quê? Pra você se divertir? Não senhora; não às custas do meu amigo. Ele é um tipo sisudo, muito capaz e até bastante confiante no trabalho dele, mas, ele é também uma pessoa muito tímida, especialmente no que respeita às mulheres. Ou será que você acha mesmo que ele ainda não se casou, com seus quase trinta anos de idade, porque é um tipo muito feio, desajeitado, incapaz… Hã? Ele não é um sujeito feio, é? (pergunta Nelson com ares de ingenuidade)
    — Ai, ai! Você está na profissão errada, Nelson. Você deveria ter feito artes cênicas, em vez de pilotagem; isso sim!
    — Eu acho legal a gente brincar, Danielle; eu vivo brincando; você sabe disso. O grande problema é que quando eu falo sério, ninguém acredita. Você não é a primeira pessoa que duvida de mim – quando eu falo sério­. Bom, se me dá licença, eu tenho que retornar ao meu posto.
    — Espere aí, Nelson! O que você está me dizendo simplesmente não pode ser uma peça, uma brincadeira… Você está ciente do que está fazendo? Isso não é uma coisa com a qual se possa brincar… Não da maneira como você está apresentando! Isso é verdade? Mesmo, mesmo?
    — O que você pensa em fazer, Danielle? (diz Nelson, a essa altura já sinceramente preocupado com o rumo da brincadeira) Se estiver pensando em se divertir, por favor, arrume alguma outra coisa, ou um outro alguém. Se divertir às custas dos sentimentos ou da timidez de uma pessoa honesta e sincera, nunca deu bom resultado. Além do que, você estaria não só brincando com os sentimentos dele, mas, também pondo a minha cabeça a prêmio! Se for se divertir, por favor, não se esqueça disso!
    Nelson, muito sério e sem fazer mais qualquer comentário, se levanta e volta ao seu cockpit enquanto que Danielle fica a olhar no vazio e sem saber exatamente em que pensar. Corria-lhe pelo corpo uma estranha sensação de adrenalina e parecia que seu coração estava batendo fora do compasso… Ela sabia que Nelson era um tremendo de um gozador; mas, por alguma razão, ela simplesmente não queria acreditar que isso fosse apenas uma peça. E depois, a maneira firme e tão sentimental com que ele falara… Por várias vezes ela examinou e reexaminou toda a conversa, cada cena e tudo a fazia crer que era fato. Era como se de repente, tudo tivesse ganhado vida e cores, à sua volta, e ela sente um ar de ansiedade, num misto de felicidade, que há muito não sentia…!
    — E então? (pergunta Carlos, ao retorno de Nelson) Se é que eu posso te perguntar alguma coisa, naturalmente.
    — Claro que pode; a minha vida é um livro aberto – só que escrito em Sânscrito antigo! (diz com um meio sorriso) Você conhece aquela expressão "de saia justa!" pra quando a gente se vê num beco sem saída? É isso aí.
    — Uai, e que problema seria esse? (pergunta Carlos intrigado)
    — Hum… Você sabe que eu vivo brincando com a Danielle… Aquelas "cantadas", sem qualquer fundamento; agora, ela me chama lá pra conversarmos e me dá o maior gelo de toda a minha vida! Você sabe; aqueles do tipo "chega pra lá – se manca – presta atenção!" Bom, até que enfrentar isso, exatamente, não me seria um tão grande problema; eu tenho estrutura pra isso. Só que… (uma pausa longa, e um suspiro!)
    — Ora vamos, homem! Quem brinca com água tem que estar disposto a se molhar; diz aí, o que é que te aflige!
    — Hã… Você já reparou como a Danielle anda irritada comigo e vem me dando o fora, mesmo sabendo que minhas brincadeiras são sempre muito respeitosas e que não passam de meras brincadeiras? E, já reparou também no modo como ela vem olhando pra você? Ela…
    — Nelson, (interrompe Carlos) deixa de brincadeiras comigo. Você sabe muito bem que eu estou aqui é pra trabalhar e que eu não aprecio nem um pouco esse teu humor, muitas vezes, inconsequentes!
    — Antes fosse humor! (diz Nelson, após uma pausa e sinceramente arrependido da burla sem volta que acabara arranjando)
    O restante da viagem transcorreu tudo normal, porém, em quase absoluto silêncio. Nelson se absteve de qualquer comunicação que não fosse a estritamente necessária com o piloto, com a passageira e com o controle de tráfego aéreo. Após os cheques finais de pós voo e o hangaramento da aeronave no aeroporto, Nelson chama Carlos a um canto e diz:
    — Bem, normalmente sou eu quem leva a patroazinha pra casa; mas, desta vez não vai dar. Eu te agradeceria muito se você fizesse isso por mim… Pode ser?
    Após um aceno afirmativo do amigo…
    — Carlos, eu sei que às vezes eu sou um tanto extravagante, nas minhas brincadeiras… Mas eu também tenho um coração, eu tenho sentimentos e eu posso te assegurar de que eu sei "e como sei!" o quanto dói a gente ser ignorado por alguém a quem a gente ama. Eu me preocupo pelo teu bem, é verdade; mas, eu me preocupo muito mais pelo bem dela. O homem, quando quer, ele vai à luta e diz logo tudo o que sente; já a mulher, parece que ela tem que ficar sempre na expectativa… Esperando pra ser notada… Eu, se fosse você, daria a ela a atenção que ela merece. Pode acreditar, meu amigo; você é um sujeito de muita sorte!
    Nisso chega Danielle que é prontamente recebida por Carlos, que também se oferece pra carregar-lhe as malas até o carro e pra levá-la até sua casa. Nelson dá um tempo ainda no hangar e, limpando da testa um suor de desconforto, exclama de si para si:
    — Ufa! Essa foi por pouco!
  • UFC Bandini

    ─ Porra, Camila, eu já cansei! Você sempre faz as suas merdas e depois vem pra cima de mim, se fazendo de vítima. Desse jeito não dá. Eu faço tudo por você, e toda semana você vem com essa mesma história de que quer terminar e que eu sou a pior coisa que já aconteceu na sua vida. ─ Arthur gritava para Camila, gesticulando com as mãos, furioso, indo hora em direção a ela, hora em direção ao copo de cerveja que ameaçava a beber.
    ─ Você é um idiota! - gritou Camila de volta para Arthur ─ Há quatro dias eu te disse que estava grávida, e você não me deu apoio nenhum. Você é um bosta, Arthur! Tive que conversar com a minha mãe sobre isso e você sabe como nós duas não se damos bem. ─ Camila, agora, chorava. Suas lágrimas manchavam a maquiagem dos seus olhos e escorriam pela sua pele clara criando rios negros em suas bochechas.
     ─ Ainda bem que eu não estou grávida. Você seria um pai de merda. Você nem sequer tem um emprego. É um derrotado. Paga de escritor para poder comer essas vadiazinhas aí que se fingem de intelectuais, cheias de fogo do rabo. ─ Camila avançou em direção à mesa, pegou o copo e arremessou contra Arthur. Errou o alvo por pouco, e o copo passou há dez centímetros da testa dele, se chocou contra a parede, espalhando cerveja e cacos de vidros por toda a sala.
    ─ Vai começar a jogar as coisas agora?! Você é doida, Camila. Eu sabia disso desde o momento que te vi. Eu podia ter pulado fora, mas não, eu fiquei do seu lado te ajudando com as suas paranoias. ─ ele acendia um cigarro, andando descontrolado de um lado para outro, pisando com os chinelos nos cacos de vidros que estalavam sob os seus pés.
    ─ Essa sua gravidez foi uma invenção da sua cabeça. E a primeira coisa que te falei foi para fazer a porra do exame. E você fez? Claro que não. Tentei me aproximar e te dar apoio, mas você me afastou de todo jeito possível. Então decidi te dar espaço, um tempo pra você colocar as ideias no lugar, e agora você vem aqui pra dizer que não tem gravidez e, que ainda por cima, ontem trepou com a piranha da Cecília.
    ─ Trepei mesmo! Ela é muito melhor que você na cama. Ela me fode bem melhor do que você com essa coisinha aí que tem no meio das pernas.
    ─ Uma puta lésbica, é isso o que você é. ─ Arthur já passava para o segundo cigarro.
    ─ Eu não tenho culpa se você não consegue satisfazer uma mulher. Eu tava bêbada e perdida, porque você me abandonou.
    ─ Eu te abandonei? Você quem me afastou. Você é doida! Precisa de tratamento. Uma hora você diz que me ama, que nunca mais vai ficar com uma mulher de novo. Outra hora você me afasta e diz que eu sou pior que todas as namoradas que você já teve
    ─ Arthur Bandini eu te odeio! Quando eu aparecer morta com os pulsos cortados, saiba que você que vai carregar o peso da minha morte, seu merda! ─ ela correu para a cozinha e ele foi atrás perdendo o chinelo no caminho e cortando o pé num caco de vidro em formato de pirâmide afiada que entrou fundo em seu calcanhar.
    Na cozinha, Camila jogava freneticamente as coisas pra fora das gavetas, procurando uma faca ou algo que pudesse se cortar. Cega pela raiva e pela maquiagem que atrapalhava a sua visão, nem reparou o suporte de facas, que ficava em cima do armário. Arthur entrou na cozinha afoito e segurou seus braços. Ela se debatia para tentar se livrar, mas, ele era mais alto e bem mais forte do que ela.
    ─ Não faz isso, Camila! Você não pode fazer isso.
    ─ Me larga. Eu posso e vou. Uma hora você vai ter que me soltar.
    ─ Eu só vou te soltar quando você ficar calma e prometer que não vai fazer nenhuma besteira. ─ ouvindo isso Camila relaxou os músculos, por um instante Arthur pensou que ela iria desmaiar.
    ─ Está bem. Me larga, eu prometo que não vou me matar hoje. Eu vou embora, não aguento ficar mais um segundo no mesmo ambiente que você. ─ ele a largou e ela foi caminhando em direção à sala, notando no chão as pequenas poças de sangue que o pé direito de Arthur fez.
    Arthur seguiu logo atrás dela, reparando, também, no sangue. O caco de vidro entrava mais em sua pele, na medida que ele ia caminhando.
    ─ Olha o que você fez, sua louca. Agora estou sangrando igual um porco.
    ─ Você merece, você é um porco, nunca será nada mais que isso. Nunca será um escritor ou qualquer outra coisa, o seu destino é morrer seco e sozinho, sua mãe teve sorte de morrer antes de ver a desgraça em que você se tornou. ─ ela procurava o celular jogando as almofadas do sofá no chão.
    ─ Escuta aqui, sua putinha! ─ ele chegou até ela numa velocidade incrível pulando e mancando, a encarou como fazem os lutadores de UFC um dia antes da luta ─ Você não abre a porra dessa boca pra falar da minha mãe! Você não sabe de porra nenhuma. ─ Camila se assustou, pensou que ele iria bater nela.
    ─ Eu não quero ver você nunca mais na minha vida. Eu fiz tudo por você, aturei os seus insultos, estive do seu lado quando você surtava, até fui na casa da sua família ouvir eles falando merda com esse sotaque escroto de roceiro que vocês têm.
    Ouvindo isso, Camila deu um passo para trás. A chama viva da loucura agora iluminava os seus olhos verdes, sua maquiagem borrada dava um ar macabro a seu rosto, a pouca luz da estante da sala iluminava os seus cabelos ruivos que voavam com o vento que entrava pela janela escancarada. Ela fechou a mão com toda a sua força e fúria e deu um soco na cara de Arthur. O soco, em si, nem foi muito forte, mas foi bem aplicado. A pequena garota parecia uma boxista profissional, atingiu parte do lábio superior e o nariz de Arthur que caiu desmaiado em cima do sofá revirado. Ela localizou o celular caído no canto da sala encharcado de cerveja, nem se preocupou em secar o aparelho, apenas pegou a bolsa e saiu do apartamento de dele o deixando lá, desmaiado. Enquanto descia de escada, só conseguia pensar se tinha quebrado os dedos da mão, que começava a ficar inchada.
    ***
    Arthur acordou duas horas depois, às três da manhã, com o gosto de cerveja velha e de sabor metálico do sangue em sua boca, que doía bastante. Um fio de sangue correu pelo seu nariz indo parar no sofá formando uma pequena poça. A cabeça ainda rodava, pelo belo golpe recebido. Tentou se levantar equilibrando-se no sofá quando sentiu uma dor aguda, que veio da sola do pé e subiu até a bacia. Arthur se sentou e deu uma bela olhada em volta. O pequeno apartamento em que morava estava um caos. Almofadas pelo chão, cacos de vidro espalhado e o cheiro de cerveja e cigarro impregnado no lugar. De onde estava sentado dava pra ver parte do chão da cozinha com garfos, facas, e panos de prato pelo chão. Arthur seguiu com os olhos as pequenas poças de sangue que paravam onde ele estava. Mais uma dose aguda de dor percorreu a sua perna. Em seguida, veio em sua mente a briga e o nocaute que recebeu da garota. “Arthur Bandini, famoso escritor, é nocauteado pela namorada peso pena e fica horas desacordado”. Imaginou a manchete na capa no jornal do dia seguinte, acompanhada de alguma foto sua, tirada de um ângulo ruim, e riu do quão ridículo ele era naquele momento.
    Colocando o pé sobre o colo, avaliou a situação e viu que não era boa. O caco estava bem fundo em seu calcanhar, apenas um pequeno brilho era visto em meio ao sangue seco. “Isso vai doer pra caralho”, pensou. Apoiado com a ponta do pé, e se escorando pelas paredes, foi até o armário do banheiro, onde encontrou uma pinça de sobrancelhas que Camila havia deixado lá. Olhando em volta, viu todos os objetos deixados ali por ela. Escova de dentes, hidratante, um vidro de sabonete líquido e um barbeador rosa. Arthur se pegou pensando como a sua vida havia mudado depois que a conheceu, não só nesses pequenos detalhes, mas também nos outros aspectos de sua vida pessoal e emocional. Esse pensamento o deixou triste por alguns segundos e foi interrompido por uma fisgada de dor quando relaxou o pé. Se arrastou novamente para o sofá com o seu kit médico improvisado, que consistia em uma pinça de sobrancelhas, uma tesoura, uma toalha de rosto e meia garrafa de conhaque barato. Jogou uma bela dose de conhaque na sola do pé e sentiu o álcool arder como fogo. Logo em seguida, tomou uma boa dose direto do gargalo, e também esterilizou a pinça com a bebida. “Isso vai doer pra caralho”, pensou novamente. Abriu a pinça com os dedos e enfiou na ferida, sentiu o metal arranhar no vidro quando tentava alcançar o caco. O agarrou com força e forçou sua saída para fora do pé. Dois pequenos jatos de sangue espirraram num vermelho escarlate e sujaram o tapete mais ainda. Saboreou a dor. Afinal, era uma dor boa, era a sua dor. Às vezes, a gente tem que saborear  nossa dor.  Lembrou-se do dia em que disse para Camila que a amava, de como aquele sentimento doía por ficar preso dentro dele e o alívio de dizer o que sentia em voz alta. Depois do flashback, lavou o pé com conhaque, fez algumas tiras com a toalha de rosto e atou o calcanhar num curativo tosco, mas, eficaz.
    O relógio marcava três e quarenta e cinco. Arthur pegou o celular e achou o telefone de Camila rapidamente nos favoritos e ligou. Uma musiquinha seguida de uma voz eletrônica avisava que o telefone estava fora de área ou desligado. Buscou na agenda o número do fixo. Antes de ligar pensou o que a mãe dela ia pensar de uma ligação a essa hora da madruga, refletiu um pouco e decidiu que valia a pena em visto dos acontecimentos de horas antes. O telefone tocou cinco vezes, já ia desistir quando uma voz rouca atendeu do outro lado.
    ─ Pronto. ─ era voz de Fábio, irmão de Camila.
    ─ Fábio, aqui é o Arthur, beleza?! Desculpa tá ligando a essa hora. A Camila tá aí?
    ─ Não, cara, ela passou pela sala igual uma bala e foi direto pro quarto, depois passou por mim e falou alguma coisa. Acho que disse que ia para a casa da Cecília. Vocês brigaram? Era ela de novo, Cecília.
    ─ Nada de mais Fábio, tá tudo bem. Desculpa incomodar, eu ligo amanhã, boa noite. ─ Arthur desligou antes de Fábio responder.
    Já derrotado, recolocou as almofadas sujas de cerveja no sofá, pegou a garrafa de conhaque, se recostou e tomou um belo gole. A bebida desceu queimando sua garganta e deixando um gosto amargo em sua boca, exatamente como deve ser o gosto de qualquer vício. Os pensamentos vieram a mil por hora. Começou a refletir sobre a sua vida. A saída da redação de um jornal importante na cidade para tentar a vida de escritor, que até então, sem sucesso. Até conseguiu colocar uns contos para venda on-line, mas, ainda não é o suficiente para viver da escrita. Inúmeros projetos inacabados geraram pastas e mais pastas no computador.  Pensou nos seus amigos que optaram em seguir por outros caminhos, nada ligados à arte, e como eles estavam bem de vida. Lembrou das palavras de Camila sobre a sua mãe durante a briga, isso o entristeceu imediatamente e as lágrimas vieram aos olhos e escorreram em um choro solitário e silencioso em o seu rosto. A imagem dela veio em seguida, parecia estar ali agora, olhando pra ele com seu sorriso sarcástico e os seus olhos verdes e furiosos. O relacionamento mais intenso que tivera. Os dois era muitos diferentes e isso, de certa forma, os completavam, um precisava do outro na mesma proporção de que precisavam se odiar. Menos de um mês foi o bastante para que os dois já planejassem um futuro juntos. Ele se lembrou, também, que a essa altura ela deveria estar descontando as mágoas fodendo com Cecília. Tomou mais uma bela golada de conhaque e outra em seguida, e assim foi até terminar de secar a garrafa. Naquela noite, Arthur Bandini, escritor desconhecido e frustrado foi nocauteado duas vezes.
    ─ Porra, Camila, eu já cansei! Você sempre faz as suas merdas e depois vem pra cima de mim, se fazendo de vítima. Desse jeito não dá. Eu faço tudo por você, e toda semana você vem com essa mesma história de que quer terminar e que eu sou a pior coisa que já aconteceu na sua vida. ─ Arthur gritava para Camila, gesticulando com as mãos, furioso, indo hora em direção a ela, hora em direção ao copo de cerveja que ameaçava a beber.
    ─ Você é um idiota! - gritou Camila de volta para Arthur ─ Há quatro dias eu te disse que estava grávida, e você não me deu apoio nenhum. Você é um bosta, Arthur! Tive que conversar com a minha mãe sobre isso e você sabe como nós duas não se damos bem. ─ Camila, agora, chorava. Suas lágrimas manchavam a maquiagem dos seus olhos e escorriam pela sua pele clara criando rios negros em suas bochechas.
     ─ Ainda bem que eu não estou grávida. Você seria um pai de merda. Você nem sequer tem um emprego. É um derrotado. Paga de escritor para poder comer essas vadiazinhas aí que se fingem de intelectuais, cheias de fogo do rabo. ─ Camila avançou em direção à mesa, pegou o copo e arremessou contra Arthur. Errou o alvo por pouco, e o copo passou há dez centímetros da testa dele, se chocou contra a parede, espalhando cerveja e cacos de vidros por toda a sala.
    ─ Vai começar a jogar as coisas agora?! Você é doida, Camila. Eu sabia disso desde o momento que te vi. Eu podia ter pulado fora, mas não, eu fiquei do seu lado te ajudando com as suas paranoias. ─ ele acendia um cigarro, andando descontrolado de um lado para outro, pisando com os chinelos nos cacos de vidros que estalavam sob os seus pés.
    ─ Essa sua gravidez foi uma invenção da sua cabeça. E a primeira coisa que te falei foi para fazer a porra do exame. E você fez? Claro que não. Tentei me aproximar e te dar apoio, mas você me afastou de todo jeito possível. Então decidi te dar espaço, um tempo pra você colocar as ideias no lugar, e agora você vem aqui pra dizer que não tem gravidez e, que ainda por cima, ontem trepou com a piranha da Cecília.
    ─ Trepei mesmo! Ela é muito melhor que você na cama. Ela me fode bem melhor do que você com essa coisinha aí que tem no meio das pernas.
    ─ Uma puta lésbica, é isso o que você é. ─ Arthur já passava para o segundo cigarro.
    ─ Eu não tenho culpa se você não consegue satisfazer uma mulher. Eu tava bêbada e perdida, porque você me abandonou.
    ─ Eu te abandonei? Você quem me afastou. Você é doida! Precisa de tratamento. Uma hora você diz que me ama, que nunca mais vai ficar com uma mulher de novo. Outra hora você me afasta e diz que eu sou pior que todas as namoradas que você já teve
    ─ Arthur Bandini eu te odeio! Quando eu aparecer morta com os pulsos cortados, saiba que você que vai carregar o peso da minha morte, seu merda! ─ ela correu para a cozinha e ele foi atrás perdendo o chinelo no caminho e cortando o pé num caco de vidro em formato de pirâmide afiada que entrou fundo em seu calcanhar.
    Na cozinha, Camila jogava freneticamente as coisas pra fora das gavetas, procurando uma faca ou algo que pudesse se cortar. Cega pela raiva e pela maquiagem que atrapalhava a sua visão, nem reparou o suporte de facas, que ficava em cima do armário. Arthur entrou na cozinha afoito e segurou seus braços. Ela se debatia para tentar se livrar, mas, ele era mais alto e bem mais forte do que ela.
    ─ Não faz isso, Camila! Você não pode fazer isso.
    ─ Me larga. Eu posso e vou. Uma hora você vai ter que me soltar.
    ─ Eu só vou te soltar quando você ficar calma e prometer que não vai fazer nenhuma besteira. ─ ouvindo isso Camila relaxou os músculos, por um instante Arthur pensou que ela iria desmaiar.
    ─ Está bem. Me larga, eu prometo que não vou me matar hoje. Eu vou embora, não aguento ficar mais um segundo no mesmo ambiente que você. ─ ele a largou e ela foi caminhando em direção à sala, notando no chão as pequenas poças de sangue que o pé direito de Arthur fez.
    Arthur seguiu logo atrás dela, reparando, também, no sangue. O caco de vidro entrava mais em sua pele, na medida que ele ia caminhando.
    ─ Olha o que você fez, sua louca. Agora estou sangrando igual um porco.
    ─ Você merece, você é um porco, nunca será nada mais que isso. Nunca será um escritor ou qualquer outra coisa, o seu destino é morrer seco e sozinho, sua mãe teve sorte de morrer antes de ver a desgraça em que você se tornou. ─ ela procurava o celular jogando as almofadas do sofá no chão.
    ─ Escuta aqui, sua putinha! ─ ele chegou até ela numa velocidade incrível pulando e mancando, a encarou como fazem os lutadores de UFC um dia antes da luta ─ Você não abre a porra dessa boca pra falar da minha mãe! Você não sabe de porra nenhuma. ─ Camila se assustou, pensou que ele iria bater nela.
    ─ Eu não quero ver você nunca mais na minha vida. Eu fiz tudo por você, aturei os seus insultos, estive do seu lado quando você surtava, até fui na casa da sua família ouvir eles falando merda com esse sotaque escroto de roceiro que vocês têm.
    Ouvindo isso, Camila deu um passo para trás. A chama viva da loucura agora iluminava os seus olhos verdes, sua maquiagem borrada dava um ar macabro a seu rosto, a pouca luz da estante da sala iluminava os seus cabelos ruivos que voavam com o vento que entrava pela janela escancarada. Ela fechou a mão com toda a sua força e fúria e deu um soco na cara de Arthur. O soco, em si, nem foi muito forte, mas foi bem aplicado. A pequena garota parecia uma boxista profissional, atingiu parte do lábio superior e o nariz de Arthur que caiu desmaiado em cima do sofá revirado. Ela localizou o celular caído no canto da sala encharcado de cerveja, nem se preocupou em secar o aparelho, apenas pegou a bolsa e saiu do apartamento de dele o deixando lá, desmaiado. Enquanto descia de escada, só conseguia pensar se tinha quebrado os dedos da mão, que começava a ficar inchada.
    ***
    Arthur acordou duas horas depois, às três da manhã, com o gosto de cerveja velha e de sabor metálico do sangue em sua boca, que doía bastante. Um fio de sangue correu pelo seu nariz indo parar no sofá formando uma pequena poça. A cabeça ainda rodava, pelo belo golpe recebido. Tentou se levantar equilibrando-se no sofá quando sentiu uma dor aguda, que veio da sola do pé e subiu até a bacia. Arthur se sentou e deu uma bela olhada em volta. O pequeno apartamento em que morava estava um caos. Almofadas pelo chão, cacos de vidro espalhado e o cheiro de cerveja e cigarro impregnado no lugar. De onde estava sentado dava pra ver parte do chão da cozinha com garfos, facas, e panos de prato pelo chão. Arthur seguiu com os olhos as pequenas poças de sangue que paravam onde ele estava. Mais uma dose aguda de dor percorreu a sua perna. Em seguida, veio em sua mente a briga e o nocaute que recebeu da garota. “Arthur Bandini, famoso escritor, é nocauteado pela namorada peso pena e fica horas desacordado”. Imaginou a manchete na capa no jornal do dia seguinte, acompanhada de alguma foto sua, tirada de um ângulo ruim, e riu do quão ridículo ele era naquele momento.
    Colocando o pé sobre o colo, avaliou a situação e viu que não era boa. O caco estava bem fundo em seu calcanhar, apenas um pequeno brilho era visto em meio ao sangue seco. “Isso vai doer pra caralho”, pensou. Apoiado com a ponta do pé, e se escorando pelas paredes, foi até o armário do banheiro, onde encontrou uma pinça de sobrancelhas que Camila havia deixado lá. Olhando em volta, viu todos os objetos deixados ali por ela. Escova de dentes, hidratante, um vidro de sabonete líquido e um barbeador rosa. Arthur se pegou pensando como a sua vida havia mudado depois que a conheceu, não só nesses pequenos detalhes, mas também nos outros aspectos de sua vida pessoal e emocional. Esse pensamento o deixou triste por alguns segundos e foi interrompido por uma fisgada de dor quando relaxou o pé. Se arrastou novamente para o sofá com o seu kit médico improvisado, que consistia em uma pinça de sobrancelhas, uma tesoura, uma toalha de rosto e meia garrafa de conhaque barato. Jogou uma bela dose de conhaque na sola do pé e sentiu o álcool arder como fogo. Logo em seguida, tomou uma boa dose direto do gargalo, e também esterilizou a pinça com a bebida. “Isso vai doer pra caralho”, pensou novamente. Abriu a pinça com os dedos e enfiou na ferida, sentiu o metal arranhar no vidro quando tentava alcançar o caco. O agarrou com força e forçou sua saída para fora do pé. Dois pequenos jatos de sangue espirraram num vermelho escarlate e sujaram o tapete mais ainda. Saboreou a dor. Afinal, era uma dor boa, era a sua dor. Às vezes, a gente tem que saborear  nossa dor.  Lembrou-se do dia em que disse para Camila que a amava, de como aquele sentimento doía por ficar preso dentro dele e o alívio de dizer o que sentia em voz alta. Depois do flashback, lavou o pé com conhaque, fez algumas tiras com a toalha de rosto e atou o calcanhar num curativo tosco, mas, eficaz.
    O relógio marcava três e quarenta e cinco. Arthur pegou o celular e achou o telefone de Camila rapidamente nos favoritos e ligou. Uma musiquinha seguida de uma voz eletrônica avisava que o telefone estava fora de área ou desligado. Buscou na agenda o número do fixo. Antes de ligar pensou o que a mãe dela ia pensar de uma ligação a essa hora da madruga, refletiu um pouco e decidiu que valia a pena em visto dos acontecimentos de horas antes. O telefone tocou cinco vezes, já ia desistir quando uma voz rouca atendeu do outro lado.
    ─ Pronto. ─ era voz de Fábio, irmão de Camila.
    ─ Fábio, aqui é o Arthur, beleza?! Desculpa tá ligando a essa hora. A Camila tá aí?
    ─ Não, cara, ela passou pela sala igual uma bala e foi direto pro quarto, depois passou por mim e falou alguma coisa. Acho que disse que ia para a casa da Cecília. Vocês brigaram? Era ela de novo, Cecília.
    ─ Nada de mais Fábio, tá tudo bem. Desculpa incomodar, eu ligo amanhã, boa noite. ─ Arthur desligou antes de Fábio responder.
    Já derrotado, recolocou as almofadas sujas de cerveja no sofá, pegou a garrafa de conhaque, se recostou e tomou um belo gole. A bebida desceu queimando sua garganta e deixando um gosto amargo em sua boca, exatamente como deve ser o gosto de qualquer vício. Os pensamentos vieram a mil por hora. Começou a refletir sobre a sua vida. A saída da redação de um jornal importante na cidade para tentar a vida de escritor, que até então, sem sucesso. Até conseguiu colocar uns contos para venda on-line, mas, ainda não é o suficiente para viver da escrita. Inúmeros projetos inacabados geraram pastas e mais pastas no computador.  Pensou nos seus amigos que optaram em seguir por outros caminhos, nada ligados à arte, e como eles estavam bem de vida. Lembrou das palavras de Camila sobre a sua mãe durante a briga, isso o entristeceu imediatamente e as lágrimas vieram aos olhos e escorreram em um choro solitário e silencioso em o seu rosto. A imagem dela veio em seguida, parecia estar ali agora, olhando pra ele com seu sorriso sarcástico e os seus olhos verdes e furiosos. O relacionamento mais intenso que tivera. Os dois era muitos diferentes e isso, de certa forma, os completavam, um precisava do outro na mesma proporção de que precisavam se odiar. Menos de um mês foi o bastante para que os dois já planejassem um futuro juntos. Ele se lembrou, também, que a essa altura ela deveria estar descontando as mágoas fodendo com Cecília. Tomou mais uma bela golada de conhaque e outra em seguida, e assim foi até terminar de secar a garrafa. Naquela noite, Arthur Bandini, escritor desconhecido e frustrado foi nocauteado duas vezes.
  • Ultimo dia na terra

          O vento noturno soprava de forma tão violenta que tudo que eu podia ouvir era um zunido estridente que impedia até o mais recluso de meus pensamentos. A lua brilhava, pálida e fantasmagórica no céu, parecia agora tão distante quanto qualquer outra alma naquele deserto que parecia não ter fim. Vagava já pelo quinto dia na imensidão árida que um dia já tinha sido o estado do Mato Grosso. Há cinco dias, havia partido de minha cidade natal, Sorriso, em direção a capital, levando três cantis de água e uma mochila de enlatados para sobreviver no que agora era conhecido como “o vazio”. A cada passo que dava, uma pegada se formava, e, logo era apagada pelo vento. Aos poucos, o deserto apagava todos os rastros de minha existência. Sabia que no fim, o vazio acabaria por engolir-me.
        - Este é meu último dia na terra- digo a mim mesmo, mas quase não posso ouvir por conta do vento ensurdecedor. – Ou será, se não chegar ao meu destino.
           Tateio o lado esquerdo do meu grosso casaco de pele em busca do bolso. Quando encontro a fissura, deslizo os dedos para dentro dela e retiro os dois recortes de jornal que carreguei comigo pelos últimos 31 anos. O primeiro continha a foto de dois homens de terno apertando as mãos calorosamente, logo abaixo, havia uma matéria intitulada “projeto de lei 6.299/2002 é finamente aprovado, inicia nova era para os defensivos agrícolas”. A matéria datava do ano 2019. O ano em que passamos a nos alimentar de veneno, a nos banhar em veneno e a respira-lo também. Os campos morreram e o grande potencial agrícola do país sucumbiu, levando consigo toda nossa esperança. As fontes de água foram comprometidas e o ar era carregado de tóxicos. A natureza pereceu diante de nossos olhos e não pudemos fazer nada.
            O grande estado do Mato Grosso, referência em desenvolvimento agroindustrial, tornou-se o vazio. As enfermidades apareciam aos montes, o veneno era perspicaz, matava o corpo lentamente e só depois de causar sérios danos a sanidade. Lutas começaram pela sobrevivência e as pessoas fugiram para o deserto. Eu, entretanto, fiquei. Fiquei, na esperança de que a ajuda chegasse, o governo talvez, mas perdemos contato com o resto do território então imagino que não haja mais nada além do vazio.  A última notícia do mundo velho estava contida no outro recorte de jornal que carregava comigo há tanto tempo, este dizia “Centro de refugiados aberto na grande Cuiabá, começa o processo de desintoxicação”. Era para lá que estava indo. Minha última esperança.
              Os dias eram insuportavelmente quentes e as noites faziam congelar até a mais profunda fibra de meu corpo. Todas as noites, quando o frio atravessava os grossos casacos de pele, eu cogitava incendiar os recortes para me aquecer, mas sempre descartava a ideia. Mesmo tão antigos, eles eram minha única ligação com o mundo velho, e agora, mais uma vez, me fizeram seguir em frente. Enquanto andava, o pacote que estava no meu bolso direito balançava e fazia barulho. Dentro do invólucro, havia sementes, de todas as cores e tamanhos. Esperava que quando encontrasse a última esperança no deserto, pudesse devolver ao vazio a antiga beleza do mundo velho, talvez houvesse alguém lá que soubesse como. As sementes eram a relíquia de um não mais tão jovem colecionador, assim como a arma que eu carregava na cintura. Esta, estava carregada com o que eu havia apelidado de anti-sementes, quando eu tivesse que plantar uma, algo morreria. Se o vazio acabasse por vencer minha fibra, eu alimentaria o solo seco com meu sangue.
              No final do quinto dia, me sobrava apenas meio cantil de água e uma pequena quantidade de comida e eu não fazia ideia de quando encontraria algum recurso novamente. Como em tantas outras ocasiões, a ideia de desistir espreita em meus pensamentos. Cerro os olhos com força e minhas pernas fraquejam. As lagrimas não aparecem, meu corpo estava carente de água. 
    - Não posso mais seguir em frente- digo como em tantas outras vezes- esta viagem não tem sentido. Assinei minha sentença quando resolvi deixar o abrigo.
    Mesmo contra a vontade, abro os olhos outra vez e o que vejo me deixa em choque. Havia uma figura encapuzada parada em pé a menos de 20 passos de mim. Fico receoso, as pessoas no vazio não eram mais confiáveis, o veneno podia fazer coisas inimagináveis com a mente. A figura então tira o capuz e revela seu rosto, era um senhor. Além das queimadoras do sol, o homem não aparentava nenhuma enfermidade visível, tampouco parecia representar alguma ameaça. Resolvo então aproximar-me com cautela, todo cuidado ainda era pouco. Quando estou a cinco passos do homem, posso ver seu olhar vazio e não posso deixar de imaginar que o meu rosto deve estar exibindo a mesma expressão. 
      - De onde veio, meu senhor? – grito para a figura- E para onde vai?
    O velho fixa seu olhar vazio no meu e a resposta arrasta-se para fora de sua boca com dificuldade.
      - Eu venho do grande cemitério. Parti tem uma noite e busco um lugar onde possa sobreviver.
    Reparo que o homem parece estar realizando grande esforço para responder ao meu questionamento, penso em oferecer-lhe um pouco de minha água, sua viagem também não era fácil. Mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, o velho cai ao chão bem em frente aos meus pés. Desesperado viro seu corpo para cima e vejo que o homem não consegue mais manter os olhos totalmente abertos, o vazio o havia alcançado, não lhe restava muito tempo. Eu, contudo, precisava da informação que o senhor tinha.
    - O que é o grande cemitério? – pergunto
    Aproximo meu rosto ao do velho e ouço seu último sussurro.
    -A grande capital cinza, agora é só uma enorme lápide no deserto. Nenhuma alma vive.
    Ao desferir essas palavras, o senhor fecha os olhos pela última vez. O choque daquela informação acertou meu peito em cheio. 
    - Não há nada além da areia e do veneno- digo fazendo com que as palavras ecoem no vazio. Agora os ventos estavam já mais calmos. – FOI TUDO EM VÃO.
    Tiro as sementes do bolso fundo e as deposito na areia ao lado do corpo do velho.
    - Meu último dia na terra- digo outra vez, agora sentindo o peso dessas palavras.
    Deito ao lado do cadáver e das sementes e sinto a areia fina se moldar ao formato do meu corpo. Minhas costas relaxaram ao toque da superfície macia. Retiro a arma do coldre em minha cintura e coloco-a em frente aos meus olhos. O Brilho da lua reflete no cano do revólver e eu entendo a mensagem. Olho para o céu e percebo que a aurora começa a pintar-se em um tom avermelhado.
    -Meu último dia na terra.
    Engatilho a arma e aponto-a para meu queixo com a mão direita. Com a mão esquerda, pego um punhado de areia e deixo-a escorrer entre os dedos. A terra estava morta e eu logo iria me juntar a ela. Vislumbro as estrelas mais uma vez e penso se existe algo lá em cima observando, esperando algo de mim. Com certeza estava decepcionado. Cerro os olhos com força e respiro fundo. Em um último ato desesperado, vou de encontro a paz que tanto buscava. O estrondo da arma ecoa pelo deserto e se dissipa no vento, levou consigo minha alma. Meu sangue regou a solo, morto há tanto tempo. Havia plantado a última semente, e o fruto agora alimentaria a terra por muito tempo.
  • Um bom dia para voar

    “A brisa cheia de maresia do mar, o ar puro ao sobrevoar as grandes florestas, o brilho do sol refletido nos olhos. Tudo isso é maravilhoso nos primeiros anos de voo. A liberdade de não se ter fronteiras. Ir para o lado que soprasse meu coração.
    E acreditem esse sopro já me levou para vários lugares por todo o planeta. Conheço todos os continentes de cor. Desertos, mares, florestas verdes e até mesmo as florestas cinza habitadas pelas criaturas mais comicamente trágicas que já vi.
    E as caçadas? Ah a primeira caça!
    A emoção de sair do ninho e obter o sustento por si só. Como era bom! Dos roedores aos anfíbios e algumas outras coisas que a gente acaba comendo por aí quando não se tem muita coisa para fazer, sabem como é. Mas não vamos nos ater ao meu cardápio nos dias áureos.
    Tenho o dever de dizer algo sobre essa ilusória liberdade dos meus primeiros anos de voo.
    É falsa! Simplesmente uma farsa que os sacanas dos ventos beberrões nos contam quando somos jovens e temos nossos sonhos como combustível básico pra nosso vindouro futuro. Dia a mais, dia a menos, a maquiavélica, a horrenda e necromântica rotina nos pega. E ela nos suga todos os sonhos, combustíveis, pele e alma. Suga tudo!
    E aí num fatídico dia você percebe não ser o personagem principal no filme do universo. Nem a classe alfa do mundo, o rei dominante. Pelos deuses! Vocês não podem imaginar o baque que foi quando tive essa revelação, essa verdadeira epifania.
    Não sabem como é para uma águia real descobrir que os reis desse mundo são aqueles seres asquerosos que vivem nas florestas sem vida. É deprimente, lhes digo! São uns animais sem penas, cabeçudos, de asas finas que não voam e patas longas. Lembram de longe os macacos. Mas que meu amigo Nunga não leia isso, ele não gosta nada da analogia. Diz não ser de bom grado religioso compará-los a seres que obviamente são o mal do mundo.
    Passei por todos aqueles processos semelhantes ao do luto: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Agora vejo como são engraçados certos acontecimentos. Por exemplo, mesmo para quem sempre esteve com o mundo sob as suas asas, um universo de detalhes pode passar despercebido.
    Não somente através da visão, pude enxergar melhor onde eu estava e o que eu representava nisso tudo. Quanto mais me aproximava daquela selva cinza e deprimente percebia o quão ensurdecedora era a confusão de sons que vinha dali, o gosto das coisas também mudava. E o ar?! Por Fênix! Era verdadeiramente impossível de respirar quando eu me aventurava a entrar na redoma de todos os tipos de poluição que envolvia esse mundo sem cor e sem vida.
    Era assustador fazer minhas tocaias e investigações desses bichos escrotos. Alguns amigos contavam histórias que diziam que eles nos caçavam e éramos o prato principal de seus banquetes. Ainda bem que nada de mau nunca aconteceu comigo, entretanto era preciso muita coragem para manter minhas investigações sobre esses autoproclamados seres superiores. Achava engraçado, quando por força do vento, eu acabava me aproximando demais deles.
    Os que aparentavam serem os mais velhos costumavam apontar um equipamento estranho e alongado para mim, e então pressionavam algo dentro dele que fazia um barulho gritante e seco que julguei ter o objetivo de me afugentar. E funcionava, claro. Mas achei interessante eles quererem me enxotar dali, já que isso demonstrava medo.
    Anos depois descobri qual era a verdadeira função de tal equipamento nefasto. Fiquei mortificado!
    Porém, nas vezes que eu me aproximava de jovens da espécie, eles ficavam me observando. Era palpável o modo como me olhavam com gosto, como que hipnotizados pela minha simples presença em seu céu amargo. Seus olhos brilhavam e um tipo de espasmo tomava conta de suas caras. A experiência me ensinou que eles tinham nome para esses espasmos, davam o nome de “sorriso”.
    Só sei que era medonho. Eu ainda os repreendia com toda a minha valentia e gritava “Tô de verde, por acaso?”. Mas isso só os fazia aumentar os espasmos. Era nojento. Claramente eles não me entendiam. Eram incapazes de se comunicar, como eu suspeitava.
    Assim o tempo foi passando. Tanto para mim quanto para o mundo. Era páreo duro supor quem se deterioraria antes. Eu, infelizmente, apostaria no mundo. Ele sofria de maneira excruciante.
    Os biomas artificiais dos humanos (descobri ser assim que chamavam uns aos outros) cresciam cada vez mais. Consumia tudo que tivesse verde e vida como um vírus alcoólatra ao ter a sorte grande de parar num mausoléu de vikings. As estações do ano se perdiam e se confundiam umas com as outras. Surgiam novos desertos e os antigos ampliavam-se. Chover era raro e quando chovia causava mais destruição do que benfeitorias. O mar tentava invadir das formas mais brutais possíveis as terras dantes verdes e alegres.
    Todos os animais do mundo, os verdadeiros e eternos responsáveis por controlar e organizar a natureza desde os tempos ermos eram agora exterminados. E, além disso, os que restaram ainda vivem com medo e traumatizados. São usados em experiências fúteis, ou ainda escravizados e utilizados para divertir os filhotes de humanos.
    Em suma, tudo está desregulado e errado. Muito errado!
    Percebendo o tamanho de minha insignificância neste mundo irreal, eu desisti de só ficar olhando e reclamando da vida. Se o futuro pode ser algo melhor, eu devo levantar minha velha asa e fazer algo de realmente significante que possa mudar esse quadro temerário que nos encontramos hoje.
    Tive uma ideia magnífica!
    Eu iria mudar isso. Eu iria prover o fio de esperança, há muito perdido, à sofrida terra em que vivo. Mesmo que tivesse de dar a minha vida pelos meus ideais.
    Eu vou atacar uma daquelas aves de metal que esses parasitas usam para fazer suas migrações!
    Devo dizer que assim que vi essa distopia da natureza me espantei astronomicamente. Alguns amigos desavisados e mais religiosos julgaram ser a grande deusa Fênix transcendida dos sete céus. E logo um bando foi querer ter uma palavrinha com a divindade. O resultado foi um suicídio em massa e pane geral da deusa mecânica. Foi um dia triste para todos nós.
    Mas voltando ao meu plano.
    Serei mais esperto que meus desafortunados amigos. Aprendi com o tempo onde atacar exatamente para ter o resultado esperado. Se tudo der certo, mato toda uma manada de humanos que ali estiverem viajando. E como ponto bônus, se eu tiver sorte e mira laser, posso fazê-lo cair em cima de uma daquelas árvores quadradas de pedra em que vivem aos montes.
    Muito bem, amigos, é isso!
    Aqui vou eu para ficar na história. Espero que esse dia marque a reviravolta da natureza sobre essa doença.
    Adeus.”
    Termina aqui o relato com as justificativas deixadas pela folclórica águia conhecida como Gusty, o Insano.
    O que se viu a seguir nessa conturbada história foi algo como uma formiga atacando um tiranossauro. A águia acertou com o bico de raspão numa das turbinas do boing. O que serviu perfeitamente para quebrar seu pescoço e matá-la, porém sem efeito algum ao avião que por segurança achou melhor realizar um pouso forçado e nada mais.
    Para acrescer catastroficamente o azar de todos os seres vivos terráqueos que não tiveram sua revolução, dias depois, após reclamações das empresas aéreas em relação ao excesso de animais voadores sujando o céu. Que segundo eles atrapalhavam o progresso da sociedade mundial, uma junta governamental, em resposta, decidiu-se por adotar medidas “fundamentais”, segundo seu porta-voz, no que tange a tais infortúnios no tráfego aéreo.
    Foi anunciado um ousado novo projeto de engenharia internacional nomeado de DESMATAMENTO PARA UMA SOCIEDADE MELHOR.
  • Um breve conto na História

    Manhã fria, 18 junho de 1785, começo do inverno.
    O sol tentava rasgar a espessa bruma que tingia de branco a região. A fogueira ainda crepitava pausadamente , o fraco lume se extinguia aos poucos em meio a fumaça que subia em caracóis e ondeavam aos tênues raios de luz que se projetavam por entre as frestas do telhado do rancho e atingiam o rosto enrugado e forte , onde a tez marrom brotava por entre as barbas brancas de Dorneles Pereira Castro, condutor de comitiva de muares e sacramentado de bom mateiro desde os vinte anos pelos caminhos de Viamão e Queretiba.
    O velho poncho azul anil cobria praticamente todo o corpo de mestre Dorneles, estirado sobre o couro curtido , o ar frio daquela manhã fazia o vapor brotar de sua boca acompanhando a respiração. Aos poucos os sons matinais foram despertando a tropa, azurros e relinchos vinham do encosto ainda encoberto pela densa neblina que pairava pesadamente desde as margens do rio.
    — Mate– gritou Cruz, braço direito de Dorneles que o acompanhava há vários anos e já lhe havia salvo de uma escaramuça na região há algum tempo.
    Com o grito e o cheiro da erva , Dorneles suspirou e se esticou, os músculos ainda doíam da longa jornada até o momento ; nas suas “contas” , seiscentos quilômetros e mais esse tanto até o destino-Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará nas minas gerais.
    – Um Mate- para esquentar a alma– pensou.
    Refeito , depois de um bom gole , se pôs em pé e com uma corrida de olhos conferiu o restante do pessoal : Basto, Tobias, Tomé e Gato, pessoal de confiança, gente brava e forte aprimorada pela profissão corajosa . Eram em sete e ninguém até o momento, haviam sofrido algum acidente grave ou constipação que era comum nas longas viagens que enfrentavam.
    O alvoroço dos animais se intensificou…
    — Cruz — gritou Dorneles, manda o Xisto olhar a tropa, os animais estão inquietos , pode ser cobra ou capivaras que subiram do rio.
    -Minutos depois, um estrondo-
    E surge Xisto com uma capivara ainda esperneando sobre os ombros e na mão direita o mosquete fumegante arrastado pelo capim molhado.
    Freguesia de Santo Antônio de Lisboa. (Lapa-PR)
    Quatro meses antes na Freguesia de Santo Antônio de Lisboa. (hoje município de Lapa-PR)– raiar do outono. O vilarejo naquele horário onde o sol da manhã incidia parcialmente e a fumaça das chaminés formavam um quadro pintado à pinceladas robustas; o caiado pálido das casinhas, umas de taipa simples outras mais coloridas de alvenaria e beiral, essas mais afastadas e abastadas, eram margeadas por ruas estreitas de terra batida. Velhos galpões no centro comercial com paredes de tijolos a mostra e quase todos com manchas de barro seco formando uma linha da altura de meia porta registrando marcas dos respingos da chuva na terra vermelha. Esse era o cenário corriqueiro, que aos poucos era tomado por vida, gente que vinha dos campos, das casas, pessoas comercializando vendendo e trocando. A freguesia era assim pulsava comercio e dinheiro principalmente vindo de seus arredores onde os pastos eram alugados para os tropeiros e suas tropas.
    –OIÊeeeee—Avante…
    Dorneles e a comitiva iniciou a jornada. O tropel : com muitos animais para comercio além das mulas cargueiras com as bruacas abarrotadas no lombo acondicionando mantimento e os ferros da cozinha.
    Cavaleiros atentos em seus cavalos conduziam a tropa — estrada de chão– levantando uma poeira fina– –alvoroço –relinchos– a égua madrinha à frente carregando o cincerro; o som atropelado pelo alvoroço mal se ouvia mas mesmo assim a récua o seguia. As crianças da Freguesia apinhadas no marco português da praça vozeavam os tropeiros. Na verdade local eles eram os heróis desbravadores do sertão da Colônia. Muitos garotos aos 10 anos já peleavam pela profissão acompanhando o pai ou parente.
    A nuvem de pó seguia a tropa tingindo o céu de vermelho, do alto da colina Dorneles virou-se respeitoso, de um pulo apeou do Lustro seu baio fincou as botas no chão seco, respeitoso retirou o chapéu e murmurou por baixo do lenço que cobria o nariz e boca:
    – “Bença” meu Santo Antonio.- – (padroeiro do local desde 1768).
    Seus companheiros imitaram mas não apearam- a ladainha foi rápida; o vento agora carregava a poeira para o oeste deixando à mostra no lado oposto o campo verde, úmido e extenso e ao fundo a imponente montanha ( anos depois tornou-se local de adoração e peregrinação) brotava no horizonte.
    O Caminho de Viamão cortava a paisagem crua desde o sul da Colônia até Sorocaba(vila de Nossa Senhora da Ponte de Sorocaba na época) rota de riqueza e de abastecimento do sudeste. O passo do baio embalava os pensamentos de Dorneles naquele instante, ora alegres e passageiros , ora pesarosos, muitos companheiros haviam morrido nessas jornadas e as cruzes brotavam ao longo daquele chão pedregoso, testemunha dos ataques indígenas e dos assaltantes em emboscada; seu nome há pouco tempo quase vira epitáfio talhado à faca em uma delas, não fosse a esperteza do companheiro Cruz ao ajudá-lo.
    Como lã caída da roca de fiar no vermelhão, a estrada serpenteava pela mata fechada (Atlântica). Uma riqueza exuberante , um verde de marcar a alma, os cavaleiros adentraram na floresta dos Campos Gerais.
    Serra de Ybytukatu –Botucatu
    Longe dali, a três dias de jornada da comitiva de Dorneles, ao pé do Morro do Cabôre- coruja grande- como os tupis o chamavam , na Serra de Ybytukatu -Botucatu-vento bom-também na língua tupi, Rosales baforava o pito de barro; lampiões chamejavam ao azeite de peixe, iluminando parcamente o interior da pousada mau cheirosa onde se encontrava.
    A construção antiga abrigava cinco quartos e um galpão para o rancho, geralmente uma única refeição forte em proteínas e um mate que os tropeiros de passagem preparavam com os utensílios e provisões que traziam.
    Em seu quarto, Rosales sentado na cama de tábuas, colchão de capim bravo e estrado de tiras de couro que gemiam com seu peso concentrado na cabeceira, puxou o facho do lampião para perto e desatou as tiras de algodão trançado que amarravam a sua algibeira. Lentamente desembrulhou dos trapos um objeto brilhante, uma estatueta assemelhando-se à prata.
    – Hermosa– pensou fechando os olhos e suspirando fundo, recordando os caminhos que o trouxeram até ali.
    A região que se vislumbra ao norte do vale da Serra de Ybytukatu é rica em história e lendas ,resquícios de caminhos utilizados pelos indígenas que ligavam os Andes ao Atlantico ,muitos anos antes do período pré–cabralino.
    Desde Potosí na Bolívia, pelo Caminho do Peabiru, estatueta prateada chegara à Rosales por várias mãos, “compañeros “ contratados à ouro e outros “por respeito” já que deviam favores, cobrados a bala se negados. Em Capitania de Mato Grosso , onde Rosales ancioso aguardou; partiu rumo a Ybytukatu como um raio, no seu castanho “alado”.
    ***
    Dorneles e o tropel já haviam vencido a pesada caminhada até Itararé, via Castro, desviando para Botucatu;
    ás margens do Paranapanema
    em seu ponto mais raso,
    céu azul cintilante,
    mais de trezentos pisantes
    iniciaram a travesia
    e ao longe se ouvia
    o farfalhar da água barrrenta.
    –Avante… avante
    O assoreamento do rio naquele trecho já evidenciava o futuro desastre da Mata Atlantica, percebia-se grandes desmatamentos ao longo dos caminhos que conduziam às minas gerais.
    Dorneles mirava as belezas que ainda se podiam ver com relativa abundância, jacarandás,angicos, ipês , espécies nobres da mata — Cruz–berrou, vamos acampar ao pé do jacarandá.
    A árvore já presenciara várias sestas sob sua copa hoje verde; sorte de outros que ainda o verão trajado de lilas profundo e acamparão sobre o tapete de flores.
    Mas será outra comitiva…
    Cruz e os amigos cercaram os muares no pequeno campo de confinamento atrás do jacarandá; o capim ralo e muita erosão em linha do pisoteio dos animais eram fatores da degradação do uso sucessivo das pernoites ou descansos rápidos dos tropeiros no local.
    Tomé além de ferrador era bom cozinheiro, montou rapidamente o tripé de ferro, pendurou a ciculateira, fez fogo para o mate. Na grelha estendeu o toucinho e a carne de sol enquanto cantarolava uma canção do Sul:
    ♫ rumo ao desconhecido ♫ avante com coragem ♫ levando a mulher amada na imagem…
    Dorneles abriu a malotagem, retirou do bornal de couro uma carta que recebera de um certo Capitão portugues , o documento era um contrato e continha instruções – Dorneles leu e releu- atento, esta viagem era diferente de todas de sua longa experiencia.
    O planejamento era pegar com o gringo a estatueta prateada , rumar mais ao leste para os Sertões de Aracoara(Araraquara) especificamente para um pequeno vilarejo que se tornaria São Carlos do Pinhal . Em seguida desviar a rota para os Campos de Nossa Senhora da Conceição da Franca, anteriormente Pouso dos Bagres conhecido pelos bandeirantes e palco de reivindicação do Capitão para elevação de Freguesia .
    Nesse local o Capitão português me aguarda- pensou.
    Em torno da grelha, acocorados , entre um naco e outro , o pessoal proseava com ares sérios. O assunto era o declínio da mineração nas minas gerais, os depósitos de ouro de aluvião findavam rapidamente.
    –Depois dessa jornada me estabeleço no sertão paulista- disse Xisto.
    Pensamento repartido com quase todo o pessoal da comitiva, cada um era praticamente especializado em outras ocupações e essas rotas de desbravadores iniciados pelos bandeirantes foram criando nichos civilizatórios ao longo dos Caminhos, mesmo que precários.
    Levas de povoadores foram fincando raízes em todo o interior paulista : agricultores e comerciantes, de mascates a grandes fazendeiros de terras oriundas de familias de sesmeiros no decorrer da colonização; a expanção estava sendo rapida na região, e o número de escravos aumentava.
    Dorneles há muito já sabia da falência das minas e tinha também seus planos, mas não seria São Paulo seu destino final , laços afetivos o prendiam no Sul do Brasil colônia.
    A saia rodada na altura dos tornozelos, esvoaçante aos ventos dos pampas , o espartilho, a tez de leite, delicada e decisiva … Maria… Maria… Dorneles sonhava acordado.
    ***
    –Reúne todos, picar a mula, Cruz o caminho é longo– berrou Dorneles, quero chegar em Botucatu no começo da noite.
    –Vai pernoitar—pergunta Cruz
    –Talvez sim, o importante é não falhar. Confira as armas!
    — Vamos ter que usar? Perguntou inquieto Cruz.
    –Nunca se sabe.
    –O gringo é confiável?
    Dorneles deixou no ar… Meia hora depois estavam a caminho do Morro do Caboré na Serra de Ybytukatu ao encontro de Rosales.
    Os lampejos de uma tempestade ao longe, delineavam os morros da serra; assustador e cativante o cair da boca da noite e nesse lusco-fusco brotavam histórias de bruxedos e religiosidades , sempre o antagonismo entre ambas povoavam as conversas noturnas dos peões, principalmente nas caminhadas noturnas.
    Já nos contornos da estalagem a comitiva apeou e confinou a tropa e pela habilidade fizeram o trato rapidamente. Os sete homens seguiram em direção á fraca luz que pulsava dos janelões da casa. Dorneles à frente empunhando o holofote – semelhante a uma lanterna feita com bambu onde queimavam uma trouxa de pano velho embebida em óleo de peixe.
    Ao longe vindo em direção ao grupo outra luz amarelada ziguezagueava nas mãos de um homem que tinha dificuldade de caminhar pela estrada sinuosa e pedregosa.
    –Boas! Bem-vindos a minha casa, me sigam que eu os levo até lá, choveu muito por aqui e o caminho está ruim.
    Dorneles cumprimentou o velho homem e o seguiu como se não conhecesse o caminho, seus amigos atentos e em dupla foram atrás e todos empunhavam armas: o local a noite era ermo e propício a emboscadas.
    Ao se aproximarem da pousada, Rosales junto ao balaústre de madeira próximo a escadaria que levava aos quartos cumprimentou o grupo:
    –Hola estimados , bienvenidos, ya era hora!
    Dorneles fez um aceno e todos adentraram na parte térrea do lugar.
    Rosales desceu as escadarias e os acompanhou—una bebida para todos, gritou para o velho.
    Após um aperto de mãos, Dorneles puxou Rosales para uma mesa afastada dos demais. Aquele era o terceiro encontro dos dois em todas os anos de andanças pelos sertões. O primeiro fora em Sorocaba, ponto final da Rota de Viamão.
    –Está sozinho amigo, fez boa viagem?
    –Si, solo yo , acompañado de las estrellas del cielo y mi compañero, señor- abriu a pesada capa e mostrou o revolver escuro na cinta.
    –Está com a encomenda?
    –Sí. Rosales sentado, arrastou a cadeira dando as costas para o grupo que bebiam e se entretinham em causos, no lado oposto do salão.
    Puxou a algibeira, desatou os nós do embrulho e entregou a Dorneles.
    –Mas é linda! Crispou a testa examinado todos os detalhes externos — Prata pura—
    A estatueta era da prata das minas de Potosí, um palmo esticado de comprimento representado um homem adornado com trajes incas. Talvez um deus mitológico, a cabeça era maior que o tronco de uma desproporcionalidade acentuada , uma obra perfeita moldada e fundida pelas hábeis mãos de algum artesão desconhecido e talentoso.
    Por fim a esperada encomenda do Capitão Português latifundiário nos Campos de Nossa Senhora da Conceição da Franca estava nas mãos de Dorneles que não o conhecia pessoalmente, havia firmando compromisso através da carta timbrada que recebera de um mensageiro de confiança do capitão. Junto a carta havia um pequeno saco de algodão com 40 tostões de prata- 3200 réis- metade do trato firmado, a outra parte receberia na entrega.
    Dorneles estava curioso em conhecer o elo entre Rosales e o capitão e a historia que cercava esse personagem português. Uma puxada de assunto e o gringo desatou a falar junto aos tragos de cachaça.
    –Su nombre real no lo sé, pero…
    O Capitão saiu de Portugal após o sismo de 1755 onde Lisboa sua cidade natal fora brutalmente destruída e o maremoto que se seguiu levou seus mais queridos, completando a catástrofe de sua vida.
    Seguiu para a Espanha e rumou para Venezuela no Vice Reino da Nova Granada onde o Império Espanhol a escolheria como Capitania-Geral . Navios mercantes espanhóis singravam o Atlântico com frequência e nessa jornada aventureira o Capitão Português conheceu Antonio Guzmon um rico comerciante de prata que havia fincado os pés e se afortunara nas Minas de Potosí – na Real Audiência de Charcas- hoje Bolívia, no Vice Reino do Peru sob domínio Espanhol.
    O Capitão, habilidoso no comercio de pedras preciosas em Portugal, nessa nova vida que escolhera e se aventurou a convite de Guzmon para a região de Charcas- nas minas de prata.
    Com os anos fez fortuna e antes que as minas começassem a dar sinais de exaurimento rumou definitivamente para o Brasil colonial estabelecendo-se na região nordeste da capitania de São Paulo onde adquiriu terras; constituindo nova família e novos laços onde o coração sedento e saudoso e o idioma se uniram por completo.
    Por fim , a estatueta prateada selaria o amor por sua companheira , um amor brasileiro.
    ***
    — La estatuilla costosa , muy costosa … resmungou Rosales enigmático.
    Mas Rosales não sabia do segredo guardado entre Antonio Gusmon, o Capitão Portugues e Dorneles a respeito da peça de prata…
    A caminho da Sesmaria do Itaqueri (Itaqueri da Serra-Itirapina)
    O velho da estalagem puxando por uma das pernas aproximou-se da mesa onde se encontravam Dorneles e Rosales, o som do arrastar fez com que os dois interrompessem a conversa e dessem atenção, embora contrariados.
    –Uma bebida quente para os senhores. O velho despejou da ciculateira em duas xícaras de barro um liquido amarronzado escuro e fumegante cujo aroma surpreendente preencheu o ambiente. Dorneles já conhecia embora preferisse o mate.
    — Passei na bola de torrar hoje, adiantou.
    –De onde veio este, velho?
    –Província do Rio de Janeiro, das roças de lá e dizem que o cultivo está se alastrando pelo litoral de São Paulo.
    –Muy estimulante , completou o gringo.
    O grupo ficou reunido por mais algum tempo e depois se recolheram. Dorneles estava ansioso para cumprir a ordem expressa na carta que recebera do Capitão Português- “verificar a estatueta atentamente e em segredo”.
    Sozinho em seu quarto trancafiou a porta carunchenta, alimentou a lamparina com mais óleo fedorento e aumentou a chama. Sua silhueta formou uma sombra assustadora na parede descascada.
    Pela manhã, deixando o Caminho do Picadão a comitiva mudou a rota e seguiram rumo ao centro leste paulista; uma vasta região onde os povoados surgiam no entorno das prósperas fazendas de criação bovina e canavieiras principalmente.
    Tomé a frente gaiteava várias canções o trotear dos cavalos e os solavancos acompanhavam o ritmo. Margearam o Tietê e cento e vinte quilômetros depois pelas trilhas riscadas na mata Atlântica ainda exuberante nesse local, passaram pela recém formada Sesmaria dos Pinheiros, depois São Pedro e rumaram para o descanso na Sesmaria do Itaqueri (Itaqueri da Serra-Itirapina) parada obrigatória dos tropeiros e que há anos fora dos bandeirantes.
    Ao cair da tarde em um pequeno dos vários descampados em Itaqueri ao lado de uma retorcida e jovem figueira e uma capela de pau a pique mais distante, a tropa acampou. Peões de outras comitivas que rumavam para os campos de Araraquara e Goiás ali se encontravam e algazarreavam ao redor de uma grande fogueira.
    Xisto confinou e alimentou os muares e se pôs em guarda. Jogou o assento em um banco indígena talhado na árvore; a cada colherada de arroz , feijão e toucinho requentado na caçarola olhava o pessoal distanciado. No horizonte em lusco-fusco o sol caia atrás da serra, as casinhas ao longe iluminadas pelo fogaréu e o céu em breu repleto de estrelas formava um cenário de paz. De repente uma estrela cadente riscou o firmamento…
    Foi para Minas , pensou. Inconscientemente aspirando a sorte para os inconfidentes.
    Dorneles acomodado precariamente ainda não dormira, lembrava-se da noite anterior e de seu manuseio demorado na estatueta…
    -“Em uma panela preta com água sobre o fogo de uma espiriteira de bronze, mergulhara a peça brilhante completando com mais liquido até deixa-la submersa . Com o tempo a fervura fez borbulhas , indicando o tempo de retirada da estatueta ; Dorneles apoiou a base sobre a mesa , segurou fortemente o tronco que lembrava um deus inca e com muita pressão girou a cabeça da peça no sentido anti-horário deslizando-a na fina rosca embebida por uma resina vegetal pegajosa amolecida pela fervura da agua. O corpo adornado descolou-se por completo.
    Com o cenho carregado Dorneles retirou com cuidado uma pequena bruaca redonda de couro que preenchia completamente o espaço interno da estatua, que até então externamente parecera sólida e sem entalhamento perceptível .
    Passou os punhos limpando a mesa e entornou da bruaca algumas pedras, sete diamantes com matizes entre marrom claro e quase incolor. As pedras reunidas sobre a mesa sob a luz do lampião refletia riscos de luz no rosto deslumbrado de Dorneles. Ele sabia do segredo, mas não imaginava o fantástico valor envolvido .
    Como que acordando de um sonho atordoante rapidamente voltou as pedras no involucro, conferindo atentamente antes e aproveitando que a resina estava ainda gelatinosa girou a cabeça da peça de prata travando-a novamente no corpo . O segredo fora revelado e confirmado; salvaguarda para Rosales seguir o caminho de volta são e salvo “-
    Dorneles cobriu o rosto com o chapéu e procurou dormir, o silencio que embalava o sono pesado dos tropeiros no arraial era quebrado ocasionalmente por um ladrar ou piar distante.
    ***
    Do alto da Serra do Itaqueri , a mil metros e pouco, Dorneles confirmava o rumo da trilha mirando o horizonte distante ponteado por morros e suaves outeiros da Serra de Dourado. A paisagem da mata fragmentada em retângulos ,quadrados e outras formas amorfas representava na essência a mão obra escrava , a opressão ao indígena e agora mais intensificada ao negro; uma paisagem natural sendo substituída pelas culturais agrícolas surgidas do solo fértil com a exploração do ser humano, a terra produzindo o alimento ao troco do sangue de milhares.
    O vento seco e quente da Chapada Guarani e sussurrava duvidas e contrições em Dorneles.
    As escritas arqueológicas dizem que os profetas subiam às montanhas e ampliavam suas visões sobre o futuro olhando os acontecimentos marcantes das terras abaixo. Como tal embora nunca relacionado a esta referencia antiga, Dorneles intuitivamente visionou naquele momento que profundas mudanças viriam para Colônia.
    Após o sismo Portugal recrudesceu a cobrança dos impostos, praticamente Lisboa foi reconstruída com a riqueza da Capitania de Minas e essa exploração sem limites contribuiu para seu relativo exaurimento . Insurgências surgiam pela Colônia e rechaçadas com violência.
    Dorneles cismava olhando aquele chão riscado de culturas e sofrimentos. Afinal os diamantes vieram contrabandeados da Bolívia, um crime aos olhos da coroa portuguesa. Mas o que fazer se ele já havia aceitado a missão, talvez por zelo a sua profissão de desbravador ou por ganancia aos 6400 reis,? Ele estava servindo ao Capitão português que seria o infrator maior, mas o fazia cumplice.
    A tropa desconhecia o contrato confirmado na carta que Dorneles recebera. Portanto ele estava sozinho nesse surto visionário que o transformaria num revel. Dorneles abraçaria as causas insurgentes ou apenas se vingaria do tal Capitão?
    Seu olhar anteriormente incógnito agora se mostrava decisivo na alternativa tomada e rumou com a comitiva para a Praça de Itaqueri de Baixo(Itirapina) seguindo depois para a Sesmaria do Pinhal.
    ***
    18 junho de 1785-Sesmaria do Pinhal(São Carlos)
    Xisto jogou a capivara abatida à bala e pólvora do mosquete sobre uma mesa e começou a destrinchá-la- ele era hábil nessas tarefas.
    Dorneles desceu o arrampado até as margens do rio com mato úmido na altura da cintura , escalou uma grande pedra de basalto que se projetava sobre a agua e olhou para o oeste. O curso d’agua serpenteava entre a bruma por cinco quilômetros abaixo.
    Ladeando as margens e mais acentuadamente na direita num plano mais elevado vislumbrava-se a beleza das araucárias, muitas delas cujo topo circular ora desapareciam ora surgiam ao sabor do vento através da neblina. Um cenário cativante que Dorneles parecia querer guardar na sua mente como se fosse pela última vez. –E seria—
    O revoar barulhento das gralhas-azuis em meio ao pinheiral despertou o tropeiro desse conforto visual. Era preciso partir sem demora.
    Reuniu-se com Cruz e discretamente entregou-lhe a algibeira com a estatueta e uma carta lacrada ordenando que seguisse viagem com a tropa para os Campos de Nossa Senhora da Conceição da Franca.
    –Entregue a encomenda e essa carta para o Capitão português que certamente estará lhe esperando disse Dorneles.
    — Não seguirá com a tropa? – perguntou atônito Cruz, sem entender o momento.
    Dorneles entregou-lhe um saquinho de couro com 40 tostões de prata perfazendo 3200 reis
    —São seus agora e a quanto a carta, entregue-a em mãos do português, trato feito?
    Cruz ainda atordoado com a noticia concordou com a cabeça, a responsabilidade de toda a comitiva além dessa entrega era abastecer Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará – minas gerais, passou a ser dele.
    Dorneles montou o Lustro e levando outra mula com os apetrechos de acampamento e alimentos seguiu margeando o rio até se perder de vista entre a vegetação alta, sempre rumo oeste para os Campos de Aracoara-Goias .
    Na madrugada que antecedera esses fatos, Dorneles manuseara novamente a estatueta e escrevera uma carta trocando-a pela original que havia recebido do Capitão.
    O documento a ser entregue era curto e seco na escrita – “Se quiser conversa estarei a caminho do planalto Central da Capitania de Goyaz- Vilarejo de Sete Pedras”
    Os lugares históricos aqui descritos foram pesquisados em sites de livre acesso, sendo que poderão ser verificados colocando-se os nomes dos vilarejos e sesmarias como palavras-chave para efeito de pesquisa.
  • Um Casal Como Outro Qualquer

    A brisa da boca da noite, carregada do odor das rosas do jardim refrigera o rosto de Alberto quando este se senta na varanda de sua casa naquela quinta-feira. É assim que chega aos quarenta anos de idade; gerente de uma agencia da Caixa Econômica Federal, com um ótimo salario e vantagens, mas com um sorriso embaçado e um suspiro sufocado que mais parece um soluço.

    Na janela ao lado do banco em que se sentara na varanda, o clarão azulado e tremulo da tv sintonizada na telenovela de certa emissora, lembra lhe a toda hora o porquê de ele estar sozinho ali. Lá dentro agora, ninguém diz nada, apenas os atores na tela do aparelho é que detém o monopólio da palavra. Sua filha Carla de quinze anos deve estar trancada no quarto mergulhada nas redes sociais conversando futilidades com as amigas, enquanto, Letícia, sua esposa, está na sala hipnotizada em uma das cinco novelas diárias a que assiste religiosamente. Sim, sua esposa é viciada em novelas, era a conclusão a que Alberto chegava.

    Letícia é uma esposa prendada, disso ele nunca pode reclamar. Ela preferiu não trabalhar fora para cuidar da casa e da filha, tarefa que cumpre com mestria trazendo o lar impecavelmente, arrumado e limpo. Suas roupas sempre estão muito bem passadas e suas gravatas e meias separadas em gavetas organizadíssimas.

    “— Deus me livre de você ir pro trabalho sujo ou amassado, o quê vão pensar de mim...?—“ Dizia ela sempre como se entoasse um mantra sagrado

     Bastava Alberto fazer uma simples menção do desejo de alguma comida diferente que no dia seguinte lá estava a guloseima fumegando sobre a mesa.

    Tudo isto parecia perfeito aos olhos dos amigos e familiares e despertava a inveja de outros tantos que os conheciam, ou pensavam conhecer. Mas para Alberto, tudo parece artificial. Um vazio o consome dia após dia mergulhando-o em profunda melancolia.

    “— Onde tudo se perdeu, meu Deus? Em que ponto de nossa vida tudo mudou?” — Perguntava-se com a alma dorida.

    Ele sentia agora em sua vida o verdadeiro significado da palavra saudade ao se lembrar do começo.

    Alberto e Letícia se conheceram no ensino médio e começaram a namorar. Ele se encantara com o sorriso daquela lourinha e se apaixonara de cara.

    Alberto, cheio de sonhos, mas com sacrifício, entrou para a faculdade de Administração. Letícia, fã de romances açucarados, sonhava tornar-se escritora. Casaram-se depois de seis anos entre noivado e namoro quando ele passou no concurso público para bancário da CEF. Ela logo engravidou e, até começou a escrever seu sonhado romance, mas nunca o concluiu.

    Carla nasceu e a felicidade parecia não ter limites para o casal que fazia suas refeições todos juntos na mesa em animada conversa e que passava férias na praia. Com tempo e dedicação, Alberto foi promovido a gerente e, com o ótimo salário e vantagens o conforto melhorou. Mudaram-se para uma casa maior, trocaram o velho carro popular por um modelo novinho e, até compraram um bom carro para Letícia levar a Carlinha para a escola, ir ao supermercado e tudo mais. Até empregada eles tinham agora. Tudo parecia perfeito até que, de uns cinco anos pra cá, mais ou menos, as coisas começaram a esfriar e, há alguns meses, três meses para ser exato, as coisas entre eles pioraram e muito. As conversas entre o casal foram rareando até que se transformaram em simples cumprimentos de amigos comuns. Letícia se mostrava cada vez mais distante do marido e, com exceção das novelas, parecia ter perdido o gosto de tudo o que costumava fazer, inclusive dos passeios regados a sorvete no final de semana com Alberto.

    Ela nunca o tinha tratado mal, mas, ultimamente este quadro mudara e Letícia passara a trata-lo nos cascos.

      Mesmo com todas as mudanças para melhor em sua vida financeira, ela mostrava-se cada vez mais indiferente em relação a ele. Não acalentava mais o sonho de ser escritora e, nem mesmo lia mais os romances açucarados pelos quais tinha verdadeira paixão, ao contrário, mergulhava em apatia e, a única coisa que a animava eram as telenovelas nas quais perdia-se em devaneios.

    Tudo na casa deles estava mudado. Antes faziam as refeições em família sentados à mesa, hoje ele janta sozinho e a mulher come na sala com o prato na mão para não perder um minuto sequer da trama televisiva. Alberto vai para o quarto e lê um livro ou assiste ao telejornal e muitas vezes nem vê quando a mulher vem pra cama. Até o sexo rareou muito e, quando acontece, é sempre por iniciativa dele e Letícia cede como se cumprisse a uma obrigação demonstrando pouco ou nenhum desejo. Tudo isso o magoava e Alberto não entendia o que acontecia, mas ela parecia não perceber a angustia do marido e, se percebia, não ligava. Enfim, Alberto sentia-se um estranho em sua própria casa, magoado e humilhado.

    De repente, uma tremenda angustia o desperta do transe pensativo em que se encontrava na varanda de casa. Um nó na garganta parece sufocá-lo e ele se levanta abruptamente e entra em casa, atravessa a sala e pega as chaves do carro sobre a mesa.

    —Aonde você vai? — Pergunta-lhe a esposa sem tirar os olhos da tv, no fundo sem querer saber.

    — Vou dar uma volta pra espairecer, tá muito calor aqui.

    Ela nada diz e ele sai sem rumo.

    Alberto sente-se mal, pois sabe que o casamento está acabando e é só uma questão de tempo até o fim de tudo e isto o apavora, pois sabe que ainda ama muito sua mulher e sente que ficará perdido sem ela, mas não sabe até quando vai aguentar. No fundo ele sabe que terá que ter uma conversa muito séria com ela, mas teme que tudo chegue realmente ao fim, porém, não dá pra se iludir e viver de lembranças para sempre.

    Ele dirige sem rumo. Os barezinhos daquele bairro nobre estão abarrotados de pessoas. Ele para em uma choperia, (Alpha Point), que lhe parece agradável.

    — Um chope sem colarinho, por favor. — Diz ele ao barman logo que encosta no balcão.

    Um sorriso perolado em uma mesa onde uma galera animada se encontrava festejando sabe-se lá o quê, se abre ao ver aquele quarentão atraente sozinho no balcão. Ela é uma garota linda de, no máximo vinte anos, cabelos pretos, saia justa e decote generoso. É uma garota de programa e, com seu olho clínico e experiente, vê em Alberto a oportunidade de ampliar sua clientela.

    Sensualmente caminha até ele.

    — Oi! — Diz ela sentando-se no balcão a seu lado.

    — Oi! — Responde Alberto sacando qual era a da garota.

    — Tá esperando alguém?

    — Talvez... Você, quem sabe... — responde ele encarando-a nos olhos. A garota, experiente, sente a tristeza daquele olhar, já vira aquela tristeza impressa em muitos olhos e se apieda dele e percebe que aquele homem necessita de algo mais do que sexo, ele necessita conversar. Ela vê ali a sua deixa.

    — Trás um chope aqui pra minha amiga. Você não vai me aplicar um boa noite cinderela né... —Completa ele.

    Ela ri gostosamente.

    O barman serve a garota.

    — Meu nome é Alberto, e você...? Como devo te chamar? — Diz ele estendendo-lhe a mão.

    — Julia. — É nome de guerra, ele sabe, mas isso não importa.

    — O quê você faz da vida, Julia, quando não tá tentando conquistar um tiozão como eu?

    Ela ri novamente ao perceber que ele é esperto, mas, algo a atrai nele.

    — Estudo direito e o que eu faço aqui à noite é pra ajudar a pagar a faculdade.

    — Você trabalha sozinha ou é agenciada?

    — Sozinha. Eu mando em mim e escolho com quem saio.

    —Hum, então eu passei no controle de qualidade...

    —Sim. Você é muito atraente e me admira ver um homem assim desacompanhado. Problemas no casamento? — Pergunta ela lançando olhar significativo para a aliança no dedo dele. Nessa hora ele baixa a cabeça com um pesar que durou apenas alguns micro segundos e levantou-a altivo novamente.

    — Mais dois chopes, por favor.

    O barman os serve.

    — Você tem certeza de que quer perder tempo me ouvindo.

    — Se eu não tivesse certeza já teria ido embora há muito tempo, gato. — Diz ela, pois simpatizara com ele e via ali um cliente em potencial, sabia que depois de ouvi-lo as coisas aconteceriam, e se não acontecessem, o chope estava rolando grátis mesmo... Pensava ela.

    As palavras rolam fáceis e Julia ouve, opina e, em pouco tempo os dois já riem como velhos amigos.

    — Olha, Alberto, eu tenho certeza que ela não faz por mal e, como mulher te digo, ela ainda te ama. Você tem é que conversar com sua mulher assim como está conversando comigo... Descubra qual é o problema. Talvez ela queira o mesmo que você.

    —Eu quero apenas carinho, atenção e um pouco de sexo quente as vezes.

    — Taí uma coisa em que eu posso te ajudar de verdade. Que tal se fossemos pro meu ap, é aqui pertinho. — Fala ela sorrindo significativamente levantando as sobrancelhas encarando-o.

    — Tudo bem. Vamos então, mas vamos ter que parar numa farmácia no caminho pra comprar preservativos.

    — Relaxa bobo, tem um monte lá em casa.

    Alberto pagou a conta e foram de mãos dadas. De fato o ap da garota era perto, atravessando a rua, na verdade. Era uma quitinete, mas bem organizada para uma jovem prostituta estudante de direito.

    Pela primeira vez em vinte anos Alberto beijava outra mulher, pois ele nunca tinha traído a esposa. Todo o desejo represado dentro dele veio à tona e explodiu em sexo em sua maneira mais pura e selvagem. Julia, experiente, cedeu sem frescuras a todos os desejos dele que não eram nada de mais, apenas sentia que ali estava um homem carente.

    — Nossa você tava mesmo carente, hein. Quase acabou comigo, e eu tô falando sério. — Falou ela aconchegando-se sobre o peito dele e quedaram-se exaustos quase dormindo, mas não por muito tempo. Parecendo cair no mundo real novamente, Alberto pulou da cama e pôs-se a vestir-se. Tinha que voltar pra casa, era o único pensamento que enchia sua cabeça.

    — Meu Deus, tenho que ir, — falava ele vestindo as calças com pressa. — Quanto te devo, Julia? — Completa ele abrindo a carteira.

    —Olha como você foi muito bom de cama é só duzentos. —

    — Toma aqui quatrocentos, você merece e espero de coração que te ajude a pagar a faculdade.

    O sorriso dela foi imenso.

    — Me dá teu celular um pouquinho. — Falou ela enquanto ele abotoava a camisa. Alberto não entendeu, mas o entregou a ela mesmo assim.

    — Você tem algum amigo chamado Nelson?

    — Não que eu me lembre.

    — Agora tem. — Disse ela digitando algo no celular dele. — Coloquei meu numero na sua agenda com nome de Nelson pra sua mulher não desconfiar. Podemos marcar novamente, mas me liga antes pra agendar.

    — Com certeza vou ligar. — Falou ele apressado e, após um selinho em sua amante, desceu as escadas em tropel, enquanto ela caiu novamente na cama e voltou a dormir, sorrindo satisfeita com a féria da noite.

    Alberto chegou em casa, abriu a porta devagar para não acordar Letícia. Um pouco de remorso o fez tremer ao vê-la dormindo e uma pontinha de frustração o picou, pois, no fundo tinha a esperança de que a esposa o estivesse esperando acordada e, vê-la dormindo, causa-lhe tremendo desalento, pois era sinal de que não se preocupava mais com ele.

    —“ Doce ilusão” —pensa ele desanimado. — “ Ela não liga mais”.

    Não demorou e o sono chegou.

    Na manhã seguinte ele se levanta com esforço e vai pro banho. Sua aparência é horrível.

    Letícia esta terminando de por a mesa quando ele entra na cozinha e despeja café na xicara e o bebe puro sem açúcar e sem adoçante. Letícia faz uma careta ao vê-lo fazendo isto.

    — A noite foi boa, hein. — Diz ela com um leve ar de deboche. Ele finge não ouvir.

    —Posso saber a que horas você chegou ontem? — Fala ela encostando-se à pia com as mãos na cintura.

    — Três e pouco. — Responde ele secamente.

    — Posso saber onde você estava? — Fala ela vestindo a carapuça de esposa dedicada.

    — Fui a uma choperia e encontrei o Nelson, um velho amigo, e esqueci da hora. — Continua ele com respostas curtas e diretas.

    — Você não ligou... Fiquei preocupada.

    — Ficou preocupada nada, Letícia, — diz ele largando com alarde sobre a mesa, o talher com que passava manteiga no pão, — cê tá cagando pro que eu faço ou deixo de fazer. Nem foi capaz de me esperar acordada pra, pelo menos brigar comigo, mesmo sabendo que jamais fui de sair e voltar de madrugada. Se você tivesse ficado preocupada comigo teria, ao menos ligado ou, no mínimo, ter mandado uma mensagem. Quer saber, Letícia, eu poderia ter sido assaltado e morto e meu corpo poderia estar no IML agora que você estaria aí parada com esta cara de bosta que você tem mostrado nos últimos meses pensando no capítulo de hoje daquelas novelinhas de merda que você tanto adora. — Explode ele diante da mulher atônita, pois nunca ela tinha presenciado aquela reação do marido.

    — Alberto... Você... Você...— Balbucia ela chorosa

    — Quer saber, Letícia, não enche o saco. Eu tô por aqui, — diz ele correndo o indicador sobre a testa, — eu não aguento mais ser tratado como um estranho em minha própria casa. Vô tomar café na padaria, lá pelo menos o seu Manuel me recebe com um sorriso e conversa comigo. — Termina ele atirando o guardanapo com raiva sobre a mesa e sai pisando duro.

    Letícia está chocada com a explosão do marido.

    — “Será que ele descobriu?”— Pensa  ela sentando-se pesadamente na cadeira e vertendo lágrimas.  —“ Não, é impossível...”

    Ela já tinha deixado a Carla no colégio quando o celular tocou o alarme de mensagem chegando. Letícia tinha acabado de chegar em casa quando leu a mensagem

    “ Vamo fazê o esquema do shpping?”

    Ela o havia conhecido há uns três meses quando, depois de um milhão de manobras inúteis, não conseguira estacionar o carro em frente a uma farmácia. Aquele rapaz de dezenove anos, que assistira atento ao seu festival de barbeiragens, se ofereceu para estaciona-lo pra ela.

    Letícia, tremula, agradeceu a ajuda do rapaz que se apresentou como Fábio e disse que era filho do dono da loja ao lado da farmácia. Ela o achou descomunalmente lindo, ficando sem jeito diante dele.

    — Qué tomá um café comigo? — Convida ele pousando seus olhos azuis nela que recusa da primeira vez, mas não resiste ao segundo convite.

    Fábio, no auge dos seus dezenove anos, é um rapaz bonito de cabelos negros curtos ao estilo soldado do exército e corpo bem definido e bom de papo. Letícia está fascinada e ele percebe. “Deve ser comum em sua vida fascinar mulheres” pensa ela.

    — Desculpe, mas eu tenho que falar, você tem pernas lindas. — Diz ele na bucha.

    Ela fica rubra. Aquele rapaz a desconserta, afinal. Ela já está na casa dos trinta e oito e aquele menino com jeito de homem  a encabula.

    Letícia nunca tivera outro homem além do Alberto e estava, assustadoramente atraída por aquele garoto.

    Não demorou para que ele a convencesse  a se encontrarem novamente e rolou um beijo. Daí pro motel foi um pulinho. Ela queria ter essa experiência e o sexo foi avassalador. Primeiro sentiu remorso pelo marido, mas, depois pensou que estivesse apaixonada pelo rapaz. Com o tempo, descobriu que eles não tinham nada a ver, pois o rapaz era um tremendo cabeça vazia e só pensava em motos e futebol.

    Muitas vezes quis terminar tudo, mas o sexo era muito bom e ela adorava a sensação de liberdade que ele lhe proporcionava. A sensação de ser dona de seu corpo e desejos a satisfaziam  e Letícia acabava sempre cedendo aos apelos do rapaz.

     Era sempre assim que eles se encontravam, ela deixava o carro no estacionamento do shopping, entrava no carro dele e iam para um motel. Isso fazia com que ela se sentisse uma canalha e evitasse encarar o marido nos olhos, por vergonha. Ela o amava e não queria perde-lo.

    Mais uma vez ela cedeu aos apelos de Fábio e foi com ele, mas jurou a si mesma que seria a última vez. Depois da transa aquela manhã, ela teve uma conversa muito séria com seu amante onde expos tudo o que sentia e terminou o relacionamento amigavelmente. Fábio relutou em aceitar no começo, mas depois pareceu entender. Mesmo assim, enquanto ele estava no banho, Letícia pegou seu celular e apagou seu contato na agenda e fez o mesmo com o dela, cortando assim o último contato entre os dois.

    Naquela noite quando Alberto saiu do banho encontrou a mesa posta pra dois e sua esposa esperando-o

    — A Carla tá no quarto? — Pergunta ele.

    — Tá. Ela comeu mais cedo. — Responde ela com voz mansa.

    Alberto intrigou-se ao ver a tv desligada e, mais ainda quando a esposa se serviu e se sentou com ele à mesa.

    —Não vai assistir à novela hoje?

    —Não. Acho que nunca mais vou perder meu tempo de uma maneira tão idiota. —Responde ela olhando-o serenamente.

    No início, pasmado e até meio desconfiado da atitude da esposa, Alberto comeu em silêncio, mas estava gostando de tê-la perto dele novamente.

    —Estes dias li o livro que você começou a escrever, —fala ele sem mais nem menos. — É muito bom e acho que você devia termina-lo. Quem sabe até publicá-lo.

    — Sério? Você leu meu livro? Quando?

    — Há alguns meses e... Eu queria te dizer o que eu achei mas não consegui sua atenção.

    — Desculpe. — Diz ela baixando os olhos.

    — Você escreve bem. Devia terminar de escrevê-lo.

    — Você acha mesmo que escrevo bem?

    —Sim, muito.

    — Acha que devo publicar? Fica muito caro...

    — Nós temos algumas economias que acho vale apena investir no seu talento.

    Letícia sorri satisfeita e seus olhos brilham.

    Naquela noite ele a procurou e ela o acolheu em seus braços não com indiferença como nos últimos tempos, mas com paixão, desejo como há muito não acontecia naquela cama.

    — Te amo. — Falou ele quando quedaram-se, exaustos um ao lado do outro.

    — Também te amo. — Respondeu ela sorrindo.

    Então, ela recostou a cabeça no peito dele, satisfeita e cheia de planos para terminar o livro e sentiu-se feliz por amá-lo tanto e ter redescoberto esse amor. Sentiu vergonha do caso que teve e estava ansiosa por recomeçar com o marido.

    Ele acariciou os cabelos da esposa recostada em seu peito e pensou em ligar para a Julia para marcar outro encontro, pra semana próxima, quem sabe.  
  • Um conto branco, rosa e dourado

    BASEADO EM PESSOAS REAIS
    CAPÍTULO 1
    Há muito tempo, distante de todo e qualquer tipo de civilização que se preze, houve um reino ironicamente chamado de Grande Reino. Grande em nome, pois em mentalidade era desprezível. Um completo atraso cultural da população local. Os nativos do reino eram pessoas com baixíssimas expectativas, contentavam-se com pouco e miseravelmente julgavam serem os melhores. Quem governava essa mentalmente infértil terra era o Rei Alce X que recentemente assumira o trono.
    Foi preciso uma intensa e dolorosa guerra entre os dois maiores feudos de Grande Reino até a derradeira batalha na qual o novo Rei saiu coroado. Além de sangue foram derramadas muitas lágrimas e as terras em que se plantavam suprimentos eram plantadas as mais variadas mentiras e tramas, tudo com o intuito de ganhar o trono. Mesmo com a coroa em sua cabeça, o Rei saíra debilitado de pessoas de confiança e acabou rodeado de interesseiros dos quais até hoje ele tem certa desconfiança.
    Rodeando o Castelo Real se espalhavam inúmeras propriedades de vassalos do Rei nas quais era produzido o essencial para manutenção da vida em Grande Reino. Em épocas de rigoroso inverno tudo era armazenado para própria subsistência, porém, ao nascer das primaveras tudo voltava ao normal e apenas o excedente ficava para os produtores. Injustiça, sim. Conformidade, também. E com isso o tempo decorria sem que nenhuma melhoria fosse acrescida à população em geral.
    Dentro da propriedade real havia os mais diversos estabelecimentos, desde um simples armazém particular até um imenso e pomposo haras, onde o Rei resguardava seus mais preciosos cavalos e também onde sua filha, a Princesa, passava a maior parte do tempo. Devido a isso, recebeu o apelido de Princesa do Haras.
    A Princesa era linda, impossível de não se apaixonar à primeira vista. Diversos pretendentes ela já tivera, mas recusara-os todos, alegando estar à espera da pessoa certa. Doce ingenuidade muitos diriam. Maturidade por outro lado talvez. Com estatura não muito alta e cabelos castanhos escuros ela possuía a elegância de toda princesa e a graça de qualquer menina de sua idade. Aspirava ter uma profissão quando crescesse, contrariando não os costumes da época, mas sim da região. Não tinha culpa de ter nascido onde ainda se acreditava que as mulheres eram apenas moldadas para a procriação. Ela queria ser médica.
    “Ainda vou curar as feridas do meu povo e livrá-los dos males que tanto lhe afligem”, dizia ela quando perguntada sobre seu futuro.
    Para isso, foi matriculada em um curso de iniciação para jovens aspirantes à medicina, no qual só havia nobres e jovens fidalgos.
    O certo é que em algum dos recentes bailes populares que a realeza promovia, a Princesa, com toda sua joliesse e encantamento inatos, despertou os mais puros e sinceros sentimentos em um jovem camponês, o Menino.
    CAPÍTULO 2
    Em uma das quase infinitas propriedades de Grande Reino morava uma família simples de camponeses composta por quatro peculiares integrantes: o Pai, obviamente o patriarca, que providenciava o fundamental para a família e um homem bastante inteligente, sempre demonstrava franqueza em suas posições; a Mãe, figura da família que representava amor, carinho e proteção, além de ser uma mulher de muita fibra e coragem (o Pai também era carinhoso e amoroso, porém de um jeito mais “paterno”); a Cadela, inseparável animal de estimação da família, já velha e muito apegada a seus donos, adorava correr pela propriedade procurando gatos e ratos para se divertir; e por fim o Menino. Um jovem tímido e bastante sonhador. Adorava ficar contemplando as estrelas no céu e contando todas elas. Era um rapaz muito racional, mas também muito sensível e romântico. “Nasci na época errada”, ele pensava assim. Todos seus amigos disputavam para ver quem era o mais galanteador do grupo, mas não ele. E isso acabou se acentuando desde o último baile quando
    o Menino pela primeira vez a viu.
    Após aquela festa, assim que chegou em casa ele foi direto para o telhado da pequena casa apreciar o horizonte celestial procurar respostas que ele sabia que não seriam encontradas ali. As telhas estavam úmidas devido ao sereno e uma fina garoa, comum nessa época do ano, começou a descer do céu e lavou seu rosto rubro da puberdade.
    “Menino, entre já ou acabará constipado desse jeito”, disse a Mãe em um tom misto de ordem e de preocupação ao mesmo tempo.
    Ele então desceu e entrou. O Pai estava junto ao parapeito da janela dando de comer à Cadela enquanto assobiava uma velha canção. Mesa posta. Os três humanoides foram enfim se alimentar.
    A paixão irradiante no rosto do Menino era facilmente percebida à mesa. Repetiu duas vezes o prato de sopa, comida que sempre repugnou. O Menino era carnívoro. Não pensava muito para comer um bom pedaço de carne. Dizia que isso era preciso para fortalecer os dentes. Sopa amolecia-os e um dia os faria cair. Nunca vira ninguém que usasse dentadura por comer sopa a vida inteira, mas era nisso que preferia acreditar o cético Menino.
    Tinha muitos amigos nas redondezas. Os mais próximos eram o Enferrujado e o Sr. Calendário, este último com quem conviveu toda a infância. Ambos os amigos eram bastante próximos da moça que arrebatara o coração do pobre Menino, a Princesa do Haras. Era hora de fazer valer essas amizades e ver no que ia dar.
    Foi falar com eles e logo lhe contaram uma inesperada novidade:
    “O Rei irá promover uma série de justas em busca de um bom pretendente para a Princesa”, disse o Calendário.
    “Além disso, o vencedor levará uma generosa quantia de dinheiro”, completou o Enferrujado.
    O prêmio em dinheiro pouco importava para o Menino, era a sua tão sonhada chance de chegar mais perto da Princesa. Logo lembrou que jamais havia andado a cavalo e pior ainda, participar de uma justa? Sequer vira uma de verdade. Apenas imaginava a partir das histórias que o Pai lhe contava. Quando era criança, sempre que ouvia as histórias de cavaleiros procurava a Cadela e tentava montá-la. Sem sucesso em todas as vezes.
    Era preciso pensar em outra maneira de participar daquele torneio. E então o Menino teve uma ideia.
    CAPÍTULO 3
    Percorrendo os pavimentados pátios da Praça Central, o Menino buscava seus amigos imigrantes, oriundos do extremo sul e do outro lado do mar. Eram pessoas de pele escura, cabelos pretos e nariz achatado. Eram os Músicos. Havia três deles ali em Grande Reino: Jota, o Redondo, famoso por seu incessante dedilhar em seu alaúde de madeira; o Mouro, muito bom tocador de seu violão Péricles; e a Cabocla, uma negra baixinha responsável por tornar em palavras a melodia de seus companheiros.
    O Menino viera propor a eles que o ajudassem a entrar no Castelo Real durante o torneio de justas que o Rei organizaria.
    Os Músicos toparam com a condição de obterem, ao final de tudo, um lugar fixo para morar e esposas e um marido.
    “Tentarei fazer o melhor que puder para arranjá-los tais recompensas”, prometeu o Menino.
    Os imigrantes que chegavam a Grande Reino não eram bem vistos pela população local. Havia sempre a desconfiança de quem vinham para roubar os empregos dos nativos. O Rei Alce X assim que assumiu o trono elaborou uma política de incentivo à imigração a fim de promover uma maior interação entre as pessoas, fazendo com que todas as culturas aprendessem umas com as outras.
    Após o acordo com os Músicos, o Menino foi até a vendinha de roupas mais antiga do feudo, a Loja do Lourenço. Chegando lá acabou comprando uma peça em promoção, que seria jogada fora, mas que era perfeitamente o que ele precisava para o plano.
    Feliz com a compra e mais contente ainda com que viu em seguida. Do alto da torre mais alta e mais protegida, beirada à janela, estava ela, penteando seus belos e brilhosos cabelos, a Princesa do Haras. O Menino teve a certeza de que tudo que estava disposto a fazer não seria em vão, valeria muito a pena.
    CAPÍTULO 4
    A Princesa acordou cedo em seu luxuoso quarto. Mesmo com a cara amassada de sono não perdia a beleza, era algo dela. Não havia menina mais graciosa que ela naquelas terras. O vento entrou pela janela semiaberta trazendo consigo aromas das flores da imensa árvore que crescera ao lado da torre. Foi fechar a janela e ficou lá por um tempo, alisando seu belo cabelo, observando a vida fora do Castelo. Logo foi se lavar e se aprontar para o desjejum.
    Ela passara a noite admirando a lua cheia e criando histórias em sua cabeça sobre príncipes encantados. Pensava em como seria a pessoa que a faria voar pelas nuvens, embrulhar seu estômago com coloridas borboletas. Pensava no seu primeiro beijo. Como seria a sensação da qual todas suas amigas comentavam após cada baile. "Seria algo de outro mundo realmente?", se indagava, "ou apenas mais uma demonstração de afeto?". Eram perguntas que esperava responder quando o momento chegasse.
    Naquela manhã ela estava diferente. Parecia mais moça, mais madura. Mais mulher.
    Desceu as escadas acompanhada do guarda misterioso que seu pai contratara para tomar conta dela. Era alto e forte, se movia rapidamente embora sua armadura atrapalhasse a locomoção. Estava em mau estado e rangia nas juntas. Intrigava à Princesa não saber quem era o homem por trás daquele elmo, entretanto tal mistério aliado a essa sua curiosidade não lhe apetecia. Decidiu deixar por isso mesmo e não se importar mais.
    Tudo de que mais gostava estava posto à mesa. Comeu com gosto. Irreconhecível. Seu pai, o Rei, percebendo repentina mudança de comportamento, mandou uma das amas ir ao quarto de sua filha e trazer os lençóis. "No mínimo estranho", pensou a Princesa.
    Alguns instantes mais tarde a ama retornou ao salão onde todos comiam com a roupa de cama. Estava profundamente manchada de um tom vermelho, ainda úmida. Não restavam dúvidas. Assim como a primavera chegara a Grande Reino, chegara à vida da Princesa. Nos jardins da entrada do Castelo as mais variadas cores se revelavam nas flores. No alto da torre mais alta, no quarto, na cama, era a Princesa quem florescia.
    "Anunciem pelo Reino", disse o pai ao seu assessor, "as justas serão na semana que vem. Minha garotinha enfim se tornou mulher!", completou com orgulho na fala.
    A comida se revirou no estômago da Princesa. Quis chorar. Chorou. Às pressas voltou correndo aos seus aposentos. De repente tudo ficou triste para ela. Começou a chover.
    CAPÍTULO 5
    O dia do torneio se aproximava e a angústia cada vez mais tomava conta do Menino. Passava todo o fim de tarde com os Músicos. Eles também estavam ansiosos. Seria a primeira vez que ficariam próximos da realeza.
    Naquele dia ele convidou-os para jantar com ele em sua casa. Enquanto comiam, o Mouro notou que o Menino deixava sempre suas batatas por último. A justificativa do anfitrião era a mesma de sempre:
    “Por último sempre o melhor!”.
    Não lembrava quando começou a dizer isso, mas já tinha um bom tempo. Desde a agradável infância que tivera talvez.
    Enquanto o Mouro e Jota, o Redondo resolveram tocar mais um pouco ao ar livre, a Cabocla decidiu que queria passear ao longo da pequena estrada que levava ao centro. O Menino resolveu
    acompanhá-la. Mesmo apaixonado pela Princesa não podia negar que se sentia atraído pelas sinuosas curvas da moça de pele escura. Afinal ele ainda era um homem. Um animal. Um ser vivo.
    A Cabocla não fazia exatamente o tipo que despertava amores no Menino, todavia era uma bela rapariga em sua fase adolescente. Ela sempre contava histórias sobre suas amigas, as Ninfas, e de como seu amigo, o Arteiro, nutria desejo por elas. Enfim, caminharam durante um bom tempo até ele resolver quebrar o silêncio:
    “Você realmente não acha nenhum homem daqui interessante, não é mesmo?”, perguntou.
    A resposta veio prontamente:
    “Até acho. Só não sei se os homens daqui me acham interessante”. Aquilo o surpreendeu.
    “Ora, você é divertida, canta bem e sobretudo, muito atraente. Aposto que muitos homens fariam de tudo para ficar um pouco com você”.
    “Às vezes eu só queria alguém que me apreciasse de verdade.” Fez uma pausa. Pararam. “Você, o que realmente acha: bonita mesmo ou apenas atraente?”.
    Aquela pergunta o surpreendeu ainda mais. Não sabia o que fazer. Ele de fato a achava muito atraente, mas não poderia dizer se era tão bonita como encantadora. Bonita era sua amada Princesa. Cabelos longos ao vento. Olhar doce.
    “E-eu, b-bom...”, as palavras não saíam de sua boca como queria. Realmente não sabia o que responder. Percebendo seu nervosismo a Cabocla inclinou-se para cima e levemente tocou os lábios dele com os seus. Aquilo tudo não durou um segundo e logo ela desceu dos calcanhares e disse:
    “Desculpe, não era minha intenção lhe deixar assim”, e completou se despedindo: “Boa noite, Menino”.
    Nem responder ele respondeu. Ficou estagnado passando seus dedos pela boca como que pensando se o que acontecera foi real ou apenas mais algum de seus devaneios que ele tem quando acordado.
    Voltou para casa se perguntando se os outros Músicos ainda estariam de pé. Já planejara que no dia seguinte teria que ir à floricultura. Ideias rodeavam sua mente como abutres rodeiam seu
    banquete em putrefação. O dia tinha sido bom, a noite superara as expectativas, mas viriam melhores ainda. Assim ele esperava.
    CAPÍTULO 6
    Sentada à cabeceira da cama, enxugando lágrimas do rosto, estava a Princesa. Agora que sua maturidade havia chegado não sabia como se sentir. Feliz por ter ultrapassado a fronteira da infância ou triste pelas inúmeras responsabilidades que teria a partir de então.
    “Isso acontecerá com mais frequência daqui pra frente, filha”, lhe disse mais cedo sua mãe. Aquelas palavras até poderiam ter como objetivo confortá-la, mas parece que trouxeram ainda mais desespero.
    Inesperadamente bate à porta o cavaleiro misterioso. “Entre”, disse ela docilmente.
    Ele sentou-se ao lado dela na cama e tirou o elmo. A Princesa se espantou com que viu.
    “Mas você é tão jovem”, disse.
    “Sim, não muito mais velho que a senhorita”, ele respondeu. “Posso saber a graça do cavaleiro que me acompanha dia e
    noite?”
    “Certamente. Todos que conheço me chamam de Enferrujado, já deve imaginar o porquê”, ele respondeu olhando em direção à sua armadura.
    “Porque veio conversar comigo?”
    “Vi como estava se sentindo mal. Não está muito animada com essas justas que possivelmente decidirão seu destino, não é?”
    “Não mesmo. Eu queria ter eu mesma a possibilidade de escolher meu futuro companheiro, mas querer está muito longe de poder. Inviável”, respondeu a Princesa.
    “Talvez eu possa ajudar. Procure-me no dia do torneio antes de seu início. Quero que você conheça alguém”.
    “Tudo bem”.
    Ele saiu do quarto e ela foi para a penteadeira. Sentou-se e começou a encarar seu reflexo no espelho bastante pensativa.
    Há alguns anos ela pouco se importava com a aparência. De uns tempos para cá começou a se valorizar mais. “A quem será que o cavaleiro irá me apresentar?”, ela se perguntava. Mesmo se fosse alguém especial, mesmo que fosse seu tão sonhado príncipe, ela sabia que não teria a aprovação do Rei se não fosse um rapaz nobre.
    Àquela altura, se realmente era seu príncipe que estava prestes a conhecer, nada mais importava. Estava decidida até mesmo a fugir. Decidida a ser feliz.
    CAPÍTULO 7
    Como havia planejado ao fim do dia anterior, o Menino acordou perto da hora almoço e se dirigiu à floricultura. A dona do estabelecimento era uma antiga conhecida dele e mãe de um de seus melhores amigos, o Sr. Calendário. Era conhecida como a Gata das Flores. Uma mulher alta e esguia, muito simpática. Chegando lá viu que o movimento não estava dos melhores.
    “Bom dia, Menino”, a dona disse assim que o avistou.
    “Bom dia”, respondeu. “Estou à procura das mais belas flores que a senhora tiver por aqui. É para uma ocasião especial. Pretendo presentear a garota mais bela do reino o mais charmoso e colorido dos buquês.”
    “Hmmm... Parece que o garotinho que vi crescer está caído de amores. Verei o que tenho para lhe oferecer”.
    A jovem senhora procurou por um tempo o que tinha de melhor dentre suas flores e fez um lindo arranjo. Havia brancas, amarelas, vermelhas. “Talvez ela goste”, pensou o Menino.
    Pagou uma parte das flores e prometeu que o restante traria mais tarde. Até pensou em colocar um bilhete, mas logo repensou a ideia. A primeira coisa que queria falar com ela teria de ser cara a cara. Não escrito. Mesmo se quisesse escrever não saberia o que escrever. Aquilo parecia meio paradoxal. Ele era muito bom com as palavras, quando eram postas no papel. Tinha uma enorme dificuldade em pronunciá-las e essa debilidade aumentava quando o alvo eram garotas. Não era doença, apenas timidez. Teria de ser vencida em algum momento da vida.
    Ao chegar em casa guardou as flores cuidadosamente e foi para o quintal ver seu velho animal, Cadela. Estava deitada com o queixo no chão. Olhar distante, no horizonte. Certamente esperando o Pai voltar do trabalho. Era de costume ela fazer
    isso sempre que ele saía. O Menino sentou-se na cadeira de balanço e colocou-se a fazer carinho na cabeça do bicho. Logo adormeceram. Os dois. Em sua cabeça o jovem não sonhava outra coisa senão o dia em que finalmente conheceria a Princesa. “Valeria tudo isso a pena?”, às vezes se perguntava em seu consciente se era mesmo a coisa certa a fazer, a pessoa certa a amar. A dúvida não durava muito quando se lembrava do rosto que vira no baile. “Ora, é claro que vale”.
    Em outro plano era a Cadela quem sonhava. Nada muito utópico. Coisa simples. Em todos seus sonhos ela estava de barriga para cima recendo todo o carinho do mundo. Cócegas incessantes que a faziam muito bem. Isso é o barato, não só dos cachorros, mas dos animais em geral. Não precisam mentir, se passar por outra pessoa. Não exigem muito do meio. Não se corrompem como o homem. E ainda dizem por aí que são irracionais.
    O Menino acordou pouco depois. Continuava acariciando a Cadela que não despertara ainda. Ele sabia que ela não duraria por muito mais tempo então tentava passar grande parte de sua ociosidade ao seu lado. Quando a tarde estava caindo junto com a temperatura recebeu uma visita. Seu amigo Enferrujado tinha vindo lhe contar as novidades.
    CAPÍTULO 8
    “Mudança de planos”, o Enferrujado começou dizendo. “O baile será daqui a dois dias, data de aniversário da Princesa”.
    Dois dias. Menos do que o Menino imaginara, mas ao mesmo tempo seriam os dias mais longos de sua vida.
    “O que fez o Rei mudar sua decisão?”, perguntou ansioso.
    “A menina, parece que agora já é mulher. O Rei então resolveu adiantar os preparativos”.
    Aquela notícia fez a cabeça do Menino girar. Dizia-se que as meninas já amadurecidas sempre tendiam a olhar com mais aprovação rapazes bem mais velhos. Ele, que nem barba tinha, era mais provável que fosse confundido com uma criança. Ainda assim tinha que manter seu plano. Não podia desistir, não agora.
    “Tudo bem, já me arranjei com os Músicos, vou entrar disfarçado como um deles e tentar me aproximar dela dessa maneira”. Parecia brilhante se a ideia de seu amigo não o deixasse ainda mais animado.
    “Disse à princesa que iria apresentá-la a uma pessoa especial. Antes que as disputas tenham início você deve me encontrar atrás da tenda real. Economize bem seu discurso romântico que provavelmente não teremos muito tempo.”
    Concomitantemente aos planos do Menino surgiam boatos de que em breve uma nova guerra pelo trono do reino ganharia mais espaço no cotidiano do povo. Dizia-se que já estava tudo armado para um golpe e que faltava apenas a faísca para a eclosão das batalhas. Ele até já tinha ouvido falar em tudo isso, mas não havia tempo para pensar em outros conflitos senão nos que já existiam dentro de si.
    No dia seguinte, véspera do torneio, o Menino ficou vagal. Quando não estava de papo pro ar estava se entretendo com Cadela, conversando com o bicho. Tinha vezes que ele achava que eles se entendiam perfeitamente e outras que pensava que tudo o que falava pra ela não significava nada. Uma vez, sozinho em casa com o animal, começou a contar-lhe sobre como seria bom ser independente, livre mundo afora. Cadela suspirou profundamente e logo depois soltou a flatulência mais fétida que poderia já ter existido. Por isso, às vezes, ele preferia guardar suas imaginações no plano da mente do que expô-los em vão a ela.
    O ambiente lusco-fusco deu lugar ao escuro da abóbada celestial permeada de pontos brilhantes. De repente um cometa rasgou o céu e deixou um rastro ao lado da lua. A Cadela uivou sem direção e o Menino desejou. Então foi descansar.
    CAPÍTULO 9
    O aniversário da Princesa chegou não da maneira que realmente esperava. Lutas no lugar do baile. Dança de justas substituindo a dança da meia-noite. Sim, haveria posteriormente um baile. Mas não como sonhou. Talvez fosse ela a debutante com menos expectativas dos últimos tempos. Depois de se lavar e passar sua essência predileta, a ama chegou ao quarto para lhe ajudar a vestir a roupa. Era um vestido longo com uma combinação entre suas três cores favoritas: branco, rosa e dourado, sem muitos adornos, mas muito elegante. Digno de uma princesa.
    “Se reparou ontem no céu deve ter visto aquele lindo cometa que cruzou as estrelas”, disse a ama.
    “Vi”, respondeu em sua cabeça a Princesa, “e espero que meu desejo se realize”. Naquele dia ela optou por comer pouco. Tinha
    receio de que as emoções do dia lhe fizessem devolver o café-da- manhã em público.
    Olhou pela janela os preparativos nos jardins. De fato estavam muito bonitos, mas nada que a entusiasmasse. O que ela queria de verdade era que chegasse logo a hora do encontro com o rapaz misterioso que o Enferrujado lhe prometeu.
    O haras, seu pequeno refúgio, estava povoado de desconhecidos que iam chegando aos montes para a disputa. Nem lá ela podia buscar um pouco de paz. Ela resolveu se recolher de volta ao quarto e esperar até a hora que precisaria estar presente.
    Havia um bilhete sobre sua cama. Parecia escrito às pressas e o autor não tinha uma boa grafia, entretanto entendeu o recado. Estava na hora de tentar mudar sua sorte.
    CAPÍTULO 10
    Enfim o grande dia. Trombetas davam a tônica daquela manhã. O Menino estava trajado conforme o combinado, como um de seus amigos Músicos. Apesar da recompensa por tocar em eventos não ser das mais generosas, músicos em geral tinham o privilégio de se sentar na mesma tribuna que a realeza. Desse modo, portanto, o Menino ficaria perto da Princesa.
    Após ultrapassar os grandiosos portões ele ficou deslumbrado. Já havia estado em festas só que menores. Aquilo era colossal. “E se eu não agradá-la? O que será que ela está vestindo? E se eu for pego? Ela é linda demais para mim”, perguntas e preocupações sem fim que rodeavam a cabeça do Menino o deixavam um pouco inquieto e ansioso demais. Estava apenas à espera do sinal de seu amigo Enferrujado para ir ao encontro de sua amada.
    E eis que veio. Da outra margem do riacho, refletindo a luz do sol com sua desgastada armadura estava o intermediador de tudo isso. Caminhou lentamente. Começou a suar. Seus batimentos aceleravam à medida que chegava mais perto. Passou devagar pelo Enferrujado que levemente acenou a cabeça para o Menino.
    “Boa sorte, amigo”.
    E ali estava ela, parada, também à sua espera.
    Linda. Sorriso meio tímido, mas muito cativante. Suas pequenas covas rosadas preenchiam seu belo rosto. Seus longos
    cabelos caíam sobre as covas. Aquele vestido tricolor lhe caía muito bem. Era de uma leveza que a fazia parecer transcendental. Um anjo. Meio sem jeito, como de seu habitual, o Menino aproximou-se vagarosamente. “Cheguei até aqui e não vou conseguir dizer nada? É isso mesmo?”, seu subconsciente lutava contra a barreira que a timidez lhe impunha. Até proferir as primeiras palavras.
    “É um enorme prazer conhecê-la pessoalmente, Princesa. Devo confessar que espero por este dia há muito tempo”.
    Ela corou, sabia que ele estava sendo sincero. Gostou do jeito dele. Ele não era nenhum príncipe encantado. Era um rapaz simples.
    “Você é muito gentil, rapaz. Como deveria chamá-lo?” “Chamam-me Menino, se agradar à senhorita”
    “Acompanhar-me-ia em um passeio pelo pomar antes do início das disputas?” A Princesa estendeu o braço como forma de afirmar seu convite. Ele entrelaçou seu braço com o dela e seguiram até o pomar.
    Ela logo sentiu que o Menino era especial. Rapaz incomum se comparado com os de sua idade. Ao longo do passeio pararam à sombra de uma laranjeira. O sol já estava no zênite quando resolveram sentar ao pé da árvore e comer algumas laranjas.
    “Que engraçado”, disse a Princesa, “você come a parte suculenta só depois de comer as fibras. Detesto essa parte branca, por isso jogo fora”
    “Ora, costumo dizer que o melhor sempre fica por último”.
    Aquilo foi o que respondeu o Menino. “Que resposta estúpida”, ele pensou. “Aliás, por que estamos nos intrigando com laranjas? Seria hora de uma investida mais aguda?”. Tentar ir mais adiante com a Princesa poderia ser sua passagem só de ida para o fracasso. Fracasso iminente. Ou um grande passo rumo à conquista. Beijou-lhe a bochecha. Ela nitidamente ficou envergonhada, mas retribuiu-lhe o ósculo na face. Agora o Menino é que havia corado.
    “Voltemos?”, invitou a Princesa.
    Em seu bolso havia um pequeno pedaço de papel no qual ele escreveu um pequeno poema. O Menino agora era poeta, quem diria. Engraçado como o amor torna as coisas mais leves e aparentemente mais fáceis de serem vividas. Até poetizar ele era capaz. Tudo graças a ela. Mais adiante o Enferrujado os esperava com um semblante de pressa. Decidiu ler, independente do que ela fosse
    pensar daquele amontoado de palavras. “Permita-me ler umas palavras à Princesa antes de nos despedirmos?”. Ela consentiu. Tirou de seu bolso com as mãos trêmulas e pôs-se a ler algo mais ou menos parecido com isso:
    Ao te ver, faces ruborizadas
    Porém, um dia sem a apreciar com meus olhos, Noites aterrorizadas
    É um pesadelo não a ter por perto Sonho acordado, sequer sei o que é certo
    Espero que entenda essa paixão,
    Tamanho anseio em lhe ver, devaneio sem perceber Ó, Princesa, por que fizeste isso
    Afanaste meu coração
    Gaguejando em algumas pronúncias o Menino completou sua leitura. Aquilo havia surpreendido positivamente a Princesa, disso ele tinha certeza. Mais surpresas a aguardavam. Flores lindas. Seria tudo como havia imaginado se ele não as tivesse esquecido. Tão vivas, as flores. Tão esquecidas. Ficaram sobre a mesa. Ele saiu tão depressa que nem se lembrou de pegá-las. Uma pontada de arrependimento bateu em seu peito e logo passou. “Eu estou aqui, não estou? Abertamente me declarando para a mulher mais maravilhosa de todas. Pra mim valeu a pena tudo vivido até aqui”, e foi com essa ideia que ele se despediu da Princesa.
    Ali não seria um ‘adeus’, seria um ‘até logo’.
    CAPÍTULO 11
    O reino todo concentrava suas atenções no torneio. Mais especificamente no que parecia ser o candidato favorito nas disputas. Era o melhor arqueiro dentre todos os homens e manejava lanças como ninguém. Pois é. O Menino, em virtude de perceber que talvez pudesse perder a Princesa para o tal apelidou-o de Vilão. Entre o restante era conhecido como o Curado. Dizia-se que quando menino foi abruptamente acometido por uma febre e salvo por mãos divinas, o que teria tornado o rapaz invencível nas batalhas. Mas eram apenas boatos.
    De volta à tribuna junto de seus familiares e membros da corte, a Princesa, com um largo sorriso no rosto, sentou-se ao lado de seu pai e depositou sua mão sobre a dele. “Por onde esteve?”, indagou o Rei Alce X. “Apenas dando uma volta pelo pomar, está um dia tão deslumbrante”, ela respondeu. Se para ela estava difícil controlar sua felicidade para o Menino estava quase impossível. Na tenda ao lado ele não tirava os olhos dela.
    As justas se arrastaram ao longo de toda a jornada. O Curado, ou Vilão, estava imbatível. Não havia um único arranhão em sua armadura polida. O sangue derramado pela sua lança tornava a vívida grama verde em tristes capins ruivos. A velocidade com que atirava suas flechas era inacreditável. Seu alcance era preciso. Um verdadeiro campeão. Um verdadeiro pretendente para a Princesa. E foi ele o escolhido.
    Ao pôr-do-sol, quando o torneio foi declarado encerrado, o Curado se dirigiu à tribuna real para acompanhar o encerramento do evento. Os Músicos iriam tocar. O Menino iria entrar em cena novamente. Outrora tão perto da Princesa e agora tão distante. Afinal, o futuro noivo dela acabara de ser escolhido. Tinha que tentar esquecer e atuar conforme o combinado caso contrário poderia ser descoberto. Muito poucos sabiam que de verdade os Músicos eram apenas três. Nunca dois e jamais quatro. Três.
    Jota, o Redondo, começou com um belo solo em seu alaúde. Logo mais entraram o Mouro com seu violão e a Cabocla fazendo acrobacias e simultaneamente tocando sua flauta doce. Então o Menino começou a assoprar sua gaita. Tudo ia bem até ele se distrair e desviar seu olhar para os gracejos que o Vilão fazia à Princesa. Seu coração apertou. Não conseguiu tocar mais como antes. Os Músicos perceberam a desatenção dele e tentavam abafar os ruídos da gaita cantando alto. Aquilo não estava agradando o Rei.
    “Algum problema, gaiteiro?”, perguntou o Rei, “Parece estar mais interessado na conversa entre os noivos do que em seu instrumento.” O Menino não ouviu. Continuava fitando a situação.
    “O que ele está fazendo?”, sussurrou a Cabocla para o Mouro. O Vilão então se virou e resolveu intervir na situação. Não fisicamente. Com verdades. Infelizmente, das poucas pessoas de Grande Reino que sabiam da existência de apenas três Músicos, ele era uma delas.
    “Ora, não vê, grande Rei Alce X, que estamos diante de uma farsa? Qualquer um sabe que nunca houve e nunca haverá um quarto membro musical. Este rapaz está aqui ilegalmente!”, disse apontando para o Menino.
    “Guardas! Capturem-no imediatamente!”, bravejou o Rei.
    Finalmente se dando conta da situação, o Menino começou a correr. Correu como nunca antes havia corrido. Três guardas estavam em seu encalço. Dois desistiram. O terceiro continuava atrás. Mas esse ele conhecia. Desengonçado em sua armadura velha estava seu amigo Enferrujado. O Menino parou.
    “Fuja. Fuja para o mais longe que puder. Tentarei saber das intenções do Rei e lhe mandarei notícias. Agora vá!”
    “Por favor”, disse o Menino, “não deixe que a casem com aquele maldito”, uma lágrima escorreu do seu rosto.
    “Vá! Agora!”, ordenou o Enferrujado.
    E então ele foi, mas não para longe como acabara de suplicar o amigo. Era impossível que fosse ficar distante de sua amada. Foi para casa. Triste e inconsolável.
    CAPÍTULO 12
    A Princesa estava cabisbaixa. “Logo agora que conheci a pessoa certa para mim acontece um infortúnio desses”. Ao seu lado o Rei estava furioso com a falha na segurança. Mandou reforçar a vigilância ao redor do Castelo e redobrar os olhos sobre a filha.
    “Enferrujado, dia e noite o quero ao lado dela”. Como consolo para ela, o casamento fora adiado. O Rei pediu intermináveis desculpas ao Curado e à sua comitiva e pediu que aguardassem para a realização da cerimônia matrimonial.
    Ela caminhava de volta aos seus aposentos experimentando o gosto salgado das lágrimas nos lábios. Às suas costas o Enferrujado acompanhava seu trajeto. Colocou sua pesada mão sobre o ombro da Princesa e lhe prometeu:
    “Eu vou dar um jeito, pequena, só me prometa que não tentará nenhuma besteira”.
    O dia havia sido muito exaustivo para todos. Fortes emoções especialmente para ela. Resolveu ir se deitar. Em sua cama ela perdeu a noção do tempo. Isso pouco importava. Se passassem dias, meses ela não ligaria. Ela estava gostando mesmo do Menino. Difícil de admitir, ainda mais para uma princesa, estar pensando em um jovem tão simplório como ele. Mas estava. Finalmente ela teria encontrado a pessoa certa. A pessoa que a faria muito feliz.
    Angústia. Mil coisas se passavam em sua cabeça. Queria fugir dali, mas não tinha para onde ir. Além do mais seria rapidamente alcançada pelos homens do seu pai. Tinha de esperar. Talvez fosse o mais sensato a fazer.
    CAPÍTULO 13
    O Menino estava recolhido em um canto de seu quarto. Cadela ao seu lado. O bicho parecia sentir a tristeza dele. Ele tinha chorado a noite toda. Recebeu uma carta de seu amigo Enferrujado que dizia haver centenas de cartazes do Menino espalhados. A recompensa era generosa se ele fosse entregue sem vida. Melhor ainda se capturado vivo. Para sua sorte ele era muito bem querido por todos de seu convívio social e nunca fez inimigos, porém há sempre aqueles que pensam melhor com o bolso cheio. A partir dali ele não poderia confiar em ninguém.
    Deprimido e com a autoestima baixa ele resolveu que não havia nada a perder. “Já não me importo com que vem daqui pra frente”, matutava. Resolveu sair de casa, ainda que discretamente, e foi procurar uns amigos que certamente poderiam lhe oferecer um pouco de distração. Em uma viela bastante tenebrosa estavam aqueles que o Menino procurava. Conhecidos como Chaminé e Planta, os dois eram responsáveis pelos eventos informais mais agitados. Já até haviam sido presos e tiveram que passar a noite na prisão.
    Aproximou-se deles e de cara sentiu um estranho, porém atrativo aroma no ar.
    “Ora se não é o Menino que vemos por aqui”, anunciou Chaminé. Abraçou o jovem deprimido e Planta logo passou para ele um fino rolo. O Menino soprou forte como sua gaita e em seguida tossiu à beça.
    “Vamos nos divertir, viver o agora. O que vem depois nós lidamos apenas depois”, convidou um Menino pseudoanimado. O que ele realmente queria era voltar no tempo, mais exatamente para o pomar junto da Princesa, mas naquele momento quis mesmo era jogar tudo para o alto.
    Seguiram para uma taverna de caráter bastante duvidoso e que a partir de um determinado horário promovia shows de strip- tease. Ao adentrar o recinto, o Menino sentiu pena do pobre primata que levava tabefes, não pequenos tapas. A proprietária era a Dona Maria Joana, antiga prostituta que resolver entender de negócios de repente e abriu o estabelecimento. Fazia sucesso
    isso era verdade. Os três se sentaram em uma mesa bem próxima ao palco e Chaminé o orientou:
    “Não confie em ninguém aqui, ninguém mesmo”.
    Bebidas iam e viam do balcão para a mesa dos rapazes como um pêndulo. O Menino já estava começando a enxergar em dobro quando as strippers entraram no palco. Ruivas, morenas e loiras. Quando era mais novo ele sonhava em se casar com uma moça de cabelos cor de paina, assim como os dele. Cresceu e passou a olhar apenas para mulheres de uma forma geral, sem falsos encantamentos. Tanto é que estava apaixonado não por uma loira e sim por uma linda princesa de cabelos castanhos escuros perfumados. Uma das dançarinas lembrava a sua amada. Claro que isso se acentuou por causa do álcool.
    A stripper foi chegando cada vez mais perto e ele se viu sozinho à mesa. Procurou por seus dois amigos. O vulto que parecia ser Chaminé estava do outro lado da taverna atracado com uma mulher mais velha. Já o outro, Planta, estava parado junto à porta de entrada com outro homem. Um homem com uma roupa diferente, toda brilhante e equipada. A stripper agora estava sobre ele, acariciando-o. Todos em volta pararam para assistir. O Menino era o centro das atenções. Uma sensação quente começou a subir pelo seu corpo. Ficou tenso. Rígido. “Não posso fazer isso”, ele pensava, “simplesmente não posso”.
    Ele se levantou bruscamente, o que a fez cair de cima dele, se estatelando no chão. O ambiente girava ao seu redor. Ouvia vaias e burburinhos por todos os lados. Homens e mulheres cuspiam nele e o empurravam. Então ele caiu. Foi um baque contra o piso. Lentamente seus olhos foram fechando, quando subitamente um homem alto e forte o puxou para cima. Era o homem com a roupa brilhante. Sentiu que uma fina lâmina estava encostada em sua garganta. Foi só então que percebeu que se tratava de um guarda.
    “Não se mexa”, disse o guarda pressionando levemente a espada contra o Menino, “você está preso!”.
    Foi levado até a saída pelo guarda e de relance viu Planta remexendo um pequeno saco de moedas. De fato, ele não podia confiar em mais ninguém. Ou quase ninguém.
    CAPÍTULO 14
    A solitária cela nas masmorras do Castela estava mais do que gélida. Desconfortável em demasia, o Menino pensava no que fazer para passar o tempo mais rápido e tentar esquecer que
    passaria o resto de seus dias ali. Ele não estava zangado com o Planta, tampouco contente, claro. Era apenas pena que ele sentia do rapaz. Como era fácil trocar uma amizade por um bom punhado de recompensa. De fato os tempos haviam mudado e com ele veio essa inesperada e triste inversão de valores.
    Um amigo seu, o Artista, adorava falar sobre inversão de valores. Era um menino muito polêmico e contundente em seus ideais. Experimentara da vida talvez um pouco cedo demais, mas era de fidelidade incontestável. Talvez, se o Menino saísse dali, devesse casá-lo com a Cabocla, afinal ainda estava devendo esse favor a ela e seus demais amigos Músicos.
    Algumas semanas se passaram e o Menino continuava ali. Visivelmente mais magro e pálido ele começava a ter algumas dificuldades para se mexer. Estava muito fraco. Era servido tanto de dia como de noite uma aguada e insossa sopa. Ele sentia que seus dentes não eram tão resistentes como antes, o que poderia provar sua teoria. “Que importa? Vou apodrecer aqui de qualquer jeito”, era no que ele acreditava.
    Certo dia pela manhã o Enferrujado foi até sua cela vê-lo. Conversaram durante um bom tempo. A guerra por Grande Reino estava prestes a se iniciar e toda a corte temia pelo pior. Invasões e ataques à guarda do Rei pareciam já estar todos planejados e o casamento de sua Princesa seria no dia seguinte. Estranhou que nenhuma lágrima tivesse escorrido de seus olhos. Tradicionalmente o noivo dava um grande presente à sua noiva. O Vilão decidiu que a execução do Menino seria o mais apropriado para dar à sua futura esposa. Morte por enforcamento. A agonia de estar tão perto do chão e em fração de segundos deixar o mundo. A última notícia foi a que realmente o fez chorar. Cadela não estava mais entre eles. O seu amigo cavaleiro contou que o bicho uivou a noite toda esperando a volta do Menino. Já estava velha e não forte o suficiente para aguentar uma madrugada inteira ao relento do sereno. Faleceu esperando sua volta. Soluçando, restava a ele apenas que se conformasse.
    Foi um dos dias em que mais esteve em paz. Aquele desconforto todo de estar preso finalmente teria um fim, junto com ele. Teria pelo menos uma última chance de admirar toda a beleza que a Princesa exalava e acenar-lhe uma última despedida. Com toda a certeza ela estaria em uma linda vestimenta, talvez rosa, talvez branca, talvez dourada, isso não tinha como dizer. Eram suas cores preferidas. Podia ser também que combinasse as três cores. Linda ela estaria de qualquer jeito. Por um momento quis ficar com raiva de tudo, mas soube que era assim mesmo que pessoas como ele terminavam. Classes diferentes não se misturavam e a de baixo jamais alteraria sua condição de submissa à superior e sempre a sustentaria.
    O Menino percebeu que já era de noite por causa do frio que tomou sua cela completamente. Estava a poucas horas de deixar aquele cubículo para sempre e ir encontrar Cadela. Perguntou-se se ela estaria ainda uivando à sua espera no horizonte da transcendência. Iria abraçá-la tão forte como nunca o fizera. Um som estrondoso de canhão o fez voltar de seus pensamentos. A guerra havia chegado ao castelo.
    Gritos e comandos de ataque podiam ser ouvidos de longe. O Menino começou a inquietar-se em sua cela. Podia ser sua chance de escapar ou podia ser que os rebeldes o esmagariam ao verem nele um peso morto. Havia alguém que não via total inutilidade nele. O Enferrujado. Ele chegou ofegante.
    “Tenho uma ideia. Não discuta. É agora ou nunca”. O Menino ouviu atentamente ao plano e concordou. O cavaleiro deu os detalhes finais e saiu, agora talvez ele estivesse com mais frio que antes.
    CAPÍTULO 15
    Assim que a cela se abriu ele imediatamente buscou a saída. Não conseguia enxergar muito bem daquele jeito. Estava ligeiramente mais lento que o normal. Se escorando por entre os becos ele finalmente atingiu a área fora do Castelo. Seguiu pela estrada que levava às redondezas de sua agora inabitada casa. Inabitada e quase totalmente destruída. Aqueles que se rebelavam não aliviaram nada que encontraram pelo caminho.
    Chegou pouco tempo depois. Ele pôde julgar que seus pais haviam partido há não muito tempo aparentemente. As faíscas da lareira ainda estalavam. Ele começou a procurar incessantemente algo muito valioso. “Tem que estar aqui em algum lugar”. Enfim achou. Estava bem despedaçado e queimado, mas a intenção era mais importante. Guardou e saiu. Sem perceber tropeçou em algo duro no quintal. A terra estava fofa sob a cruz de madeira. Percebeu do que se tratava. Voltou a entristecer-se com a ida de Cadela, porém concentrou-se novamente no que devia fazer.
    O Menino se sentia seguro como nunca antes. Todas essas recentes desventuras contribuíram para torná-lo uma pessoa de muito mais atitude. Ele enfim sentia-se um homem de verdade. E foi confirmar seus anseios.
    CAPÍTULO 16
    Com o pente à mão, a Princesa estava parada olhando através da janela o caos. A vidraça era a linha tênue que a separava de seu conforto e a submergia na realidade. Desejou jogar-se do parapeito e voar livre para bem longe, onde nada mais a afligiria. Sentou-se em frente à penteadeira. Na porta do seu quarto guardas tagarelavam.
    “Veja, é o cavaleiro de sucata”, disse um dos dois guardas que paravam junto à porta de sua amada.
    “Ordens do Rei Alce X. Estou encarregado de levar a Princesa a um lugar mais seguro”, exibiu o documento com certificação real. Mesmo desconfiado o guarda deu passagem e ele entrou no quarto.
    Parada em frente ao espelho estava ela. Penteava seus longos cabelos em um movimento uniforme. Penteava apenas por pentear. Ela sabia que não sairia ilesa se fosse capturada por rebeldes. Com o canto do olho a Princesa viu a entrada do Cavaleiro.
    “Ah, é você. Parece que é o último amigo que me restou.”
    “Temos de ir”, disse ele, “ordens do Rei. Vou levá-la a um lugar seguro.”
    “O que meu pai ordena ou não deixou de ser relevante para mim desde o dia que concordou em casar-me com aquele crápula”, disse uma Princesa indiferente.
    “Princesa, garanto que ficará bem distante desse vil homem e mais perto de quem realmente gosta, se é que ainda gosta.”
    Ela então entendeu o que aquela visita significava e concordou em ir com o Cavaleiro.
    CAPÍTULO 17
    Descendo às pressas a escada em espiral que tinha saída para os jardins de trás do Castelo estavam o Cavaleiro e a Princesa. Ele segurava a mão dela e a puxava pelos degraus. O objetivo era tirá-la a salvo do Castelo.
    Ela estava com medo. Todo o ambiente no qual crescera e vivera todos seus momentos felizes estava em chamas. Percorrendo o caminho reconheceu pelo menos três corpos de senhoras que fizeram parte de sua infância. Sentiu por elas, mas continuou
    determinada. “O Menino conseguiu se salvar e agora estou indo me salvar para junto dele”. Deixaria toda aquela vida de regalias para trás e começaria uma nova vida.
    Foi quando a poucos metros viu seu pai lutando contra três homens armados. O Rei até era um pouco senil, mas era um exímio combatente. Cortou um ao meio e o segundo perdeu a cabeça em um golpe singular. O terceiro levou mais tempo. Por portar um escudo deu mais trabalho. Com um pontapé nas pernas do homem, o Rei o fez ajoelhar-se e sem piedade deu-lhe um ataque derradeiro.
    O olhar da Princesa e o de seu pai se encontraram. Ela sentiu que ele queria dizer alguma coisa. Não deu tempo. A velozes galopes um cavaleiro mascarado, armado de uma lança, atravessou o jardim e deu fim ao Rei. A longa estaca com ponta de ferro entrou pelo abdômen e saiu pelas costas, perfurando toda a região estomacal do pai da Princesa. Ele caiu de lado e ela conseguiu ler seus lábios pela última vez que pareciam dizer: “Me desculpe”. Ela não se aguentou e começou a chorar. Deixou de seguir o Cavaleiro para ir acudir seu pai. Em vão. O carrasco do Rei desceu de sua montaria e tirou a máscara. Era o Curado. O Vilão. Ele jogou a máscara fora e se aproximou da Princesa.
    “Você é a próxima. Assim não sobrará ninguém da linhagem real que me impeça de assumir o controle do Reino”, disse ele em um tom de orgulho enquanto desembainhava uma adaga.
    “Por quê?”, ela perguntou engasgando-se com a fala
    “Foi sempre a minha intenção. Eu planejava matá-lo apenas após nosso casamento, mas essa rebelião veio a calhar. Sou apenas o homem certo, na hora certa...”, ele se aproximou mais dela “...no lugar certo”. O Vilão estava pronto para abatê-la quando o Cavaleiro o atingiu com uma pedra na cabeça.
    “Vamos! Corra!”
    A Princesa jogou fora seus sapatos e começou a correr. Estavam perto de conseguir. Tão perto. Ela corria tanto que nem percebeu que passou a correr sozinha. Quando olhou para trás viu o cavaleiro de joelhos, peito estufado para frente, como se algo
    o tivesse atingido. Voltou para ver o que havia acontecido. Da região de seu coração saía uma ponta de aço em cores vermelhas e roxa. Uma flecha envenenada. Ao longe viu o Vilão segurar um arco. Sua tristeza naquele momento era imensurável. Ela pôs-se a chorar.
    “Agora só me sobrou o Menino, me diga onde ele está”. O misterioso Cavaleiro então decidiu retirar o pesado elmo. Ao
    revelar seu rosto foi eminente a cara de surpresa que a Princesa fez.
    “Não, não, não...”, dizia em meio a um rio de lágrimas.
    “Pegue”, o Menino estendeu para ela o que era para ser o mais charmoso dos buquês. Era só um monte de flores murchas e chamuscadas. “Eu devia ter lhe dado isso antes”, disse sorrindo. A calma dele a deixava confusa.
    “Por último sempre o melhor”, foram suas últimas palavras.
    Ali sim seria um ‘adeus’.
    O veneno começou a agir e paralisou toda a parte de baixo do Menino. Infeliz morte, mas morreu sorrindo. A nobre Princesa do Haras agora se ajoelhava e chorava pelo simplório Menino. O Menino que era sonhador, que montou em Cadela, que olhava as estrelas. O Menino que era romântico, que era poeta. O Menino que teve seu momento de fraqueza e decidiu tornar sua inativa vida em uma mais sativa. O Menino que chegou a ser inclusive cavaleiro. O Menino que foi de tudo, menos um menino apenas. E que agora iria encontrar a Cadela.
    A Princesa pegou em sua mão e inclinou-se. Ele já estava morto quando ela o beijou. O primeiro beijo da Princesa. Em uma pessoa morta. Primeiro e último.
    CAPÍTULO 18
    Sim, a expressão morrer de desgosto existe e foi o que aconteceu. Não aguentando ver o Menino que jazia sem vida ao seu lado, seu pai morto também, a Princesa acompanhou-os todos nessa viagem longínqua. Suas mãos ainda estavam dadas às do Menino quando foram encontrados no dia seguinte. O caos havia tomado Grande Reino. Uma verdadeira anarquia pairava. O corpo do Curado não foi encontrado, inteiro. Havia partes dele ao longo de todo
    o jardim.
    A enorme dificuldade que o Rei Alce X tivera para organizar a região era pouco a pouco esquecida. Pequenas comunidades independentes foram se formando e declaravam autonomia sobre as terras. Eram guerras sem fim. O Menino morreu sem cumprir a promessa de arranjar cônjuges para os Músicos. Estes se mudaram para longe. Do Mouro sabia-se que havia arranjado um pequeno affair com uma simpática moçoila chamada Gota. Quis o destino que seu amigo Artista, de cuja sexualidade às vezes duvidava, ficasse com a Cabocla. Ele a fazia muito feliz. Já o tocador Jota permanecia sozinho, acompanhado apenas de seu alaúde.
    A interminável luta de sentimentos dentro do Menino acabou por matá-lo. Fosse ele um pouco menos indeciso talvez ainda estivesse vagando por aí. Porém raro é aquele que sabe definir o que é certo e errado nessa fase da vida. Ele teve a oportunidade de viver uma eloquente paixão e bucólicos momentos de felicidade. A fusão entre sentimentalismo e razão com a qual ele levou a vida tornou-se seu legado.
    A Princesa infelizmente acabou descobrindo o amor tarde demais, mas conseguiu, mesmo que por pouquíssimo tempo, contribuir para o bem-estar emocional de um jovem rapaz. Que culpa teve ele de se apaixonar à primeira vista pela mais linda das mulheres? Quem sabe ela não tenha aprendido o verdadeiro significado de gostar de alguém.
    De idas e vindas é que é feita a vida. A todos cabe desempenhar da melhor maneira possível o que lhe é desafiado. O Menino estava morto, a Princesa estava morta. Cadela idem. Seres com diferentes perspectivas que agora dividiam o mesmo espaço temporal. Podia ter sido qualquer um em seus lugares, o que mostra que não há predestinação, muito menos interferências sobrenaturais.
    Parece ironia. Todos sabem que um dia terão de partir e ainda assim fazem de tudo para adiar esse momento, tentando ser felizes como se cada dia fosse o último. A morte não avisa, é inevitável e nem um pouco desejada.
    Feliz ou não, essa história chegou ao seu fim.
    FIM

     

  • UM DIA

    Um dia eu perdoei meu inimigo e fui forte.
    No outro eu pedi perdão e fui grande.
    Um dia mostrei minhas razões e fui eloquente.
    No outro ouvi meu próximo e fui humano.
    Um dia lutei pela minha causa e fui bravo.
    No outro lutei pela causa alheia e fui gente.
    Um dia batalhei pelo que queria e fui perseverante.
    No outro dividi o pão e fui rico.
    Um dia recebi aplausos e fui admirado.
    No outro fiz o bem em silêncio e os céus me aplaudiram.
    Um dia usei a inteligência e fui respeitado.
    No outro usei o coração e fui amado.
  • Um dia para cair no esquecimento

    Acordei com dores de todas as formas físicas e psicológicas conhecidas. Ninguém me ama, nem eu. Estou pronto para morrer. Estou pronto há décadas. Por favor Senhor, perdoe minha covardia e acabe com isso. Se as dores no peito não são um sinal claro do fim, o que vai ser? Não sei porque corpo e mente insistem nessa tortura. Parece que centenas de micro aranhas estão arranhando minha garganta e um bando de duendes do inferno estão martelando a minha cabeça. O que mais eu botei para dentro além de bebida? A culpa é dassa porra!

    Liguei o rádio e um cronista tosco estava falando alguma coisa sobre viciados em drogas. “Estas pessoas precisam entender que elas não estão aptas a viver em sociedade porque elas não produzem...”. Sempre que escuto coisas assim culpo a comunicação pelos caos social. É muita voz para pouca ideia. Coloquei um K7 velho do Led Zeppelin para tocar e fui para cozinha empurrado pela queimação no estômago.

    ♫“In my time of dying, want nobody to mourn;
    All I want for you to do is take my body home;
    Well, well, well, so I can die easy;
    Well, well, well, so I can die easy....”♫

    Era disso que eu precisava!

    Abri a geladeira e me deparei com um queijo velho, leite e um pouco de margarina. Pus o leite no fogo junto com a margarina. O queijo ganhou mais um tempo para juntar mofo. Acendi um baseado e fiquei olhando a margarina derreter e se espalhar pelo leite, depois formar uma deliciosa espuma de gordura com a nata pronta para transbordar felicidade para Gregors por todo fogão. Quando começou a subir na panela desliguei e coloquei numa xícara que tava meio limpa em cima da pia. Me sentia como um americano sentado na cozinha tomando leite com margarina, fumando um cigarro e lendo o jornal.

    Trim, trim, trim.....parei de ler e fiquei esperando a secretária eletrônica atender. Sempre me assusto quando o telefone toca. Ninguém nunca me ligou para conversar ou dar boas notícias. “Piiiii.........Oi...bom dia.....nós não nos conhecemos......meu nome é Miguel.......sou coordenador do curso de letras na faculdade.............queríamos te convidar para recitar seus poemas........no nosso próximo Congresso........meu número é 2 4 5 3 0 4 2........bem......obrigado.”

    É sempre bom saber que se tem para onde correr, mas estou querendo ficar parado no momento. Não lendo o jornal. Passando o olho numa notícia sobre os caminhos para se acabar com a pobreza ficou claro que eu e o resto da humanidade não estávamos vivendo no mesmo planeta.

    Virei o K7 e sentei na companhia de um livro de contos do Bukowski. Nós sim estávamos vivendo no mesmo planeta. Entre “Atirei num cara lá em Reno” e “Kid foguete no matadouro” cai no sono dos campeões.

    Foram pouco mais de uma hora sem sentir nenhuma das dores da vida. Levantei pensando que precisava de alguma coisa para acompanhar o queijo que tinha sobrado na geladeira, além de cigarro e bebida. Não ia ter como fugir de pisar na rua.

    Tomei um banho e fiz tudo que podia para não se parecer com o que eu era. Ser eu sempre torna tudo mais difícil. Ninguém gosta de pessoas como eu. Não consigo disfarçar muito bem que acho que tudo é ruim, que os outros são chatos e os lugares que não são minha casa também não são legais.

    Bolei mais um baseado para conseguir suportar a pressão dos olhares na rua e sai rumo ao mercado. As vezes é estranho ver as um exército de carne humana fazendo coisas cotidianas como robôs pré-programados. Levantar cedo, ir na escola/trabalho, almoçar assistindo TV, jantar assistindo TV, dormir assistindo TV. Na maioria do tempo isso não faz o menor sentido. A ideia de viver num mundo onde isso não é o padrão me agrada mais que o atual cenário. Tenho visões em que me vejo tendo impulsos repentinos de gritando desesperadamente que todos parem tudo. Depois caio no chão me retorcendo como plástico pegando fogo. Nem sempre é fácil manter o controle. Não é que não gosto das pessoas, mas prefiro elas longe de mim.

    No caminho ainda tive a oportunidade de testemunhar um acidente de trânsito. O carro do direita parou para o que vinha no sentido oposto, na esquerda, atravessar a pista e entrar na rua transversal. O carro que vinha atrás não quis ser tão gentil, e na tentativa de desviar do outro que parou encheu a lateral do que vinha da esquerda. Pensei que a brutalidade do outro transformou a gentileza do um em estupidez, e ainda bem que eu não estava em nenhum carro.
    Cheguei no mercado preparado para ser direto e letal. Entrar, comprar o que tinha que ser comprado e sair em cinco minutos, sem precisar falar com ninguém de preferência. Peguei leite, margarina, banana, mais queijo, pão e umas garrafinhas de suco de cevada. Respondi cinco “nãos” para a mocinha do caixa e pedi dois maços de cigarro. Voltei para casa sem precisar usar muito mais que monossílabos para me comunicar. Considerei uma saída de grande sucesso. Me sentia tão feliz e pronto para encarar a vida que o fardo de estar vivo parecia quase como um presente divino.

    Ajeitei tudo na cozinha e fui me preparar. Era terça-feira, um bom dia para ir ao bar. Vazio e silencioso. Sem jogo de futebol, sem hormônios desesperados por uma metida, sem papo, sem calor humano. O verdadeiro paraíso. Não há dor que o álcool não possa curar nem tempo que ela não possa preencher. Só precisava de mais um baseado e de escutar o outro lado do K7 do Led que dormi no meio. Não se tinha alguma coisa haver com o alinhamento de Plutão com a Lua, mas o dia estava favorável e nada seria capaz de me deter, mas a campainha tocou seguida do gruindo: “carteeeeeeeeiro”. Olhei e vi um envelope sendo arremessado por debaixo da porta. Era o Ministério da Guerra que estava cobrando minhas contribuições atrasadas, e elas não querem receber em poemas contemporâneos realistas marginais, tem que ser em dinheiro. Isso ou uma bala no peito atirada por um extremista qualquer num ponto remoto do mapa. Que merda! Peguei o telefone e liguei para o cretino do recital.
  • Um Dialogo

    Eric do Vale

    - Lembra-se de que, uma vez, eu te disse que aqui as paredes tem ouvidos?

    -Lembro sim, por quê?

    -Porque quero que continue sabendo disso.

    -Aconteceu alguma coisa?

    -Não sei, aconteceu?

    -Perguntei primeiro.

    - E por que você acha que aconteceu alguma coisa?

    - Pela forma como você me abordou...         

    -Então, aconteceu.

    -Não aconteceu nada.

    -Melhor assim.

    -Com licença.

    -Espere, eu ainda não terminei.

    -Você quer me explicar o que é que está havendo?

    -Torno a dizer que aqui as paredes tem ouvidos e olhos também.  

    -Eu já sei.

    -Sabe mesmo?

    -Você já tinha me dito isso, antes.

    -E digo de novo.

    -Posso saber por quê?

    -Porque fiquei sabendo de uma história sua.

    -Uma história minha?

    -Uma pessoa veio me dizer que você foi procurar o chefe e disse que precisava falar com ele, pois era de extrema importância. Aí, o chefe perguntou do que se tratava e você disse que era em particular.

    -Eu não vou nem perguntar quem foi que te falou isso, porque sei que você não vai revelar, mas posso te garantir uma coisa: isso nunca aconteceu. Pode até ter acontecido e eu não esteja recordando, mas que importância tem isso?

    -Não sei se tal informação procede, nem quero saber e tenho raiva de quem sabe. Mas, o que me deixou com a pulga atrás da orelha foi que eu tomei conhecimento disso por meio de alguém com quem não tenho nenhuma ligação, sem falar no conselho que essa fonte me deu: “Não acho essa pessoa muito confiável. Muito cuidado! ”.

    -Se eu quisesse aprontar com você, já teria feito isso, antes.

    -Quer dizer que você estava querendo puxar o meu tapete?

    -Não é bem assim...

    - Só te digo uma coisa: caso queira me derrubar, certifique-se, primeiro, se a pessoa, ou as pessoas, para quem você está fazendo a minha caveira é, ou são, de inteira confiança. E eu não estou falando só de mim, lembra-se daquela figura que foi falar mal do chefe para o pessoal ligado a ele? Nem preciso te dizer como isso terminou, porque você viu com os seus próprios olhos. Aqui, dedo duro não tem vez.

    -  Não é, nunca foi e jamais será a minha pretensão puxar o tapete seu ou de quem quer que seja. Acho que não me expressei direito. 

    - Por isso, eu te digo para tomar muito cuidado com o que diz.

    -Vou seguir esse seu conselho.

    -Só mais uma coisa: aqui, todo cuidado é pouco. 


  • Um Final Feliz...

    Essa é a história de uma menina que nunca se encaixou em nenhum lugar do mundo…
    Desde pequena ela se sentia diferente das outras meninas de sua idade. Enquanto as outras gostavam de se arrumar, de serem aceitas nos grupinhos mais populares da escola, essa garota usava moletom de cactos, as “amigas” diziam que era pijama, mas ela considerava um elogio ser diferentes das pessoas ao seu redor (ela sempre gostou disso).

    Ela também gostava de caminhar mata a dentro com sua irmã e algumas colegas, brincar de escolinha, (odiava bonecas, queria aventura) sonhava em ser bruxa, dormia na sala escondida da mãe pra assistir os filmes do Harry Potter, amava os animais, até roubou um gato uma vez. A vida inteira morou pertinho do mar, numa casa velha, na rua da cachoeira, gostava de cantar. Reunia as amigas no quintal para contar histórias de terror, subia em goiabeiras, corria de medo de borboletas gigantes, mas vivia procurando cobra coral no meio das pedras da cachoeira. Ela era estranhamente interessante.

    Na adolescência começou a estudar a Bíblia, afinal, ela amava aprender sobre tudo, sempre acreditou em Deus e amava toda a sua criação. Mas também acreditava em alienígenas e fadas, passava horas olhando para o céu em busca de naves, mas só via aviões e ainda assim tentava imaginar que eram realmente óvnis.
    Seu primeiro beijo foi aos 13 anos com o garoto da escola que ELA escolheu. Os pais surtaram quando souberam, a proibiram de ver o garoto, afinal ela era nova demais, e sua família era muito cristã. Foi a primeira vez que sofreu por alguém.

    Com o tempo ela se tornava mais questionadora, curiosa sobre tudo, sobre o mundo, sobre as pessoas, não se contentava com respostas curtas, queria saber o porque de tudo! Se revoltava quando não tinha a resposta que queria, foi uma adolescente rebelde, e ao mesmo tempo tímida, mas sempre em busca dos seus sonhos. Agora ela queria cantar numa banda de rock, e é claro que ela conseguiu, apesar de não ter durado muito tempo, ela conseguia quase tudo o que queria.

    A partir daqui, a história vai começando a ficar um pouco triste e pesada. Aos 16 anos ela se apaixonou pelo baixista da banda, que também se apaixonou por ela, e começaram a namorar, escondido, porque seus pais ainda a achavam nova demais pra isso, até que descobriram e os chantagearam dizendo: -“ou ele te assume e te leva pra morar com ele, ou não queremos mais que vocês se vejam.” Já imaginam né, ela foi morar com ele e sua família, e assim ficaram por dois anos, até que ela fez dezoito anos e seus pais a aceitaram de volta em sua casa, até seu namorado foi junto, e assim ficaram mais um ano, até que certas atitudes de ambos, fizeram com que essa história chegasse ao fim, só que não…

    Ele voltou a morar com os pais e ela decidiu ir morar sozinha pela primeira vez. Ela até tinha algumas amigas, e queria aproveitar a vida, saía, bebia, curtia o que podia, mas nada a satisfazia. No fim do dia, ela só queria acordar com alguém ao seu lado, mas nem sempre era quem ela queria, e tudo voltava a rotina, festa, amigas, bebedeira e mais insatisfação. Ela se perdeu, conheceu o inferno, mas nunca perdeu a esperança nas pessoas, no amor. Ela levou um longo tempo para esquecer a história com o baixista, até que desistiu e decidiu recomeçar a vida.

    Abandonou tudo e todos que se diziam amigos, foi morar no interior, para poder ficar perto dos pais e cuidar melhor de si mesma, conheceu pessoas incríveis e um lugar mais incrível ainda. Ela teve algumas crises de ansiedade até se acostumar com o novo estilo de vida, ela partiu alguns corações (quem nunca), mas ela encontrou alguém na pequena cidade que a fizesse feliz da forma que ela sempre sonhou, e hoje estão juntos.

    Hoje ela faz 25 anos, e diz com toda a certeza que se encontrou, que encontrou seu lugar no mundo. Ela é fotógrafa, registra com amor os momentos de amor, ela tem as pessoas mais importantes ao seu lado, ela é grata todos os dias pelos amigos que fez, pela beleza da natureza, pela magia encontrada em cada cachoeira. Ela é feliz, ela sou eu!

  • Um Mapa Recém Formado

    O NeoMuseu da Praça da Nova República era um prédio singularmente interessante em meio a um decadente centro composto de prédios de arquitetura antiga e predominantemente moderna degradadas pelo tempo devido aos remendos arquitetônicos que formavam aquele edifício em particular que pareciam incluir a maioria dos movimentos que fizeram parte da história da República dos Agulhas Negras. De uma das janelas do enorme Setor Histórico, Lucas encarava a rua escondida pelo véu escuro e amarronzado da tempestade de areia que no momento devorava a cidade como um todo e transformava em noite o dia que existia há menos de quinze minutos. 
    Ele se virou e encarou o Setor Histórico, um enorme e espaçoso corredor retilíneo ornamentado por quadros e mesas inteligentes que contavam diversos aspectos do mundo antigo e do novo. Junto dele existiam três outras almas que de tão pontuais não chegavam a realmente fazer diferença mediante a grandeza do lugar.
    Dispostos ao redor de uma das Mesas Inteligentes, um largo monólito negro dotado de inteligência artificial e tecnologia holográfica, existiam as figuras de Mário, Luis e Thaddeu, todos da turma de Lucas na Escola Histórica de Dom Capistrano, sendo o último o professor deles.
    - Então, todos prontos? - Perguntou Thaddeu tendo um sossegado sim como resposta.
    Lucas se aproximou da mesa, não gostava muito das aulas de história mundial apesar de achá-la um assunto interessante de ser discutido.
    - Ótimo. - Ele disse e ativou a mesa com um botão. 
    As cores resplandecentes e quentes da mesa saltaram para o ar dando vida e calor a um corpo frio e morto indicando a ativação dos sistemas holográficos e de realidade aumentada e em poucos instantes se pintou a vista de todos um extenso mapa sem nome qualquer sob ele apenas cinco cores diferentes colorindo territórios distintos com variadas dimensões, um era verde, outro azul e mais um amarelado. Um dia aquele show de luzes houvera sido uma das coisas mais impressionantes que Lucas já havia se deparado, mas agora parecia fútil e repetitivo, possivelmente pelo contexto que aquelas cores pintavam.
    - Quem de vocês pode me dizer o que é isso? - Ele questionou.
    - Um antigo Mapa Mundi político. - Responderam os três.
    Thaddeu sorriu, seu jeito agradável seguia as feições simpáticas envelhecidas que dominavam seu rosto e cabelos brancos.
    - Podem me dizer onde estão as principais diferenças entre esse e o nosso?
    - Em todo ele. - Respondeu Lucas.
    - Exato...vejam, a aula de hoje será sobre Fatos Históricos, quero que saibam alguns importantes por cima para pesquisarem especificamente sobre eles depois, ok?
    Os três assentiram.
    - Podemos começar pelo nosso contexto… - sugeriu o professor, ao passo que os três concordaram novamente.
    - Qual o evento histórico marca o fim da Antiga República?
    - O Golpe de 2030… - Disse Luis, do seu jeito naturalmente arrogante.
    - Também porém teve um mais geral, um que engloba o golpe militar.
    - O final da guerra civil em 2028 e o estabelecimento do Governo Provisório em 2029. - Disse Mário, que era o oposto ideal a figura de Luis tanto em jeito quanto em fala. Quieto, Lucas apreciava ver Luis errar e seus sucessivos tombos do pedestal imaginário em que colocara a si mesmo. 
    - Exatamente.- Ele falou de um jeito animado, como se recompensando a resposta correta. - O final da guerra e do governo provisório deram as condições para o golpe, não fosse por isso não haveria contexto para a tomada de poder e por consequência não existiria apoio popular suficiente...mas existem outros dois eventos que eu quero que se lembrem da nossa república, podem me dizer quais são?
    - A Queda da República de São Paulo e o Cinturão Nordestino. - Disse Lucas sem titubear. 
    - Muito bom. - Dissera Thaddeu sem o entusiasmo de antes e em seguida anunciou - vamos passar para a Europa...qual a primeira coisa que chama a atenção de vocês?
    Os três olharam atentamente o mapa por alguns momentos. 
    - Pra mim é isso aqui - disse Mário e apontou para um território no meio do mapa, um pequeno traçado quase invisível no continente entre a República Germânica e o Reino Inglês fazendo fronteira com outro pequeno tracejado desconhecido. Luis e Lucas o acompanharam no estranhamento. 
    Thaddeu elogiou a visão de seus alunos apesar de sua voz não ostentar o carisma de antes. 
    - Isso aí é o que se chamava de Holanda, ou Países Baixos. Era uma pequena monarquia constitucional que existia entre um país chamado Bélgica e a Alemanha...esse maiorzinho aqui que hoje é a República Germânica.
    Os três o encararam.
    - Qual foi o evento climático mais relevante dos últimos 200 anos? - Ele perguntou mirando o mapa.
    - As Grandes Inundações. - Disse Luis e ouviu apenas uma tentativa do mesmo elogio carismático que o professor ofertara a Mário.
    - As grandes inundações não são chamadas assim por acaso, depois das mudanças na África pelo calor e do Permafrost no Canadá e na Groenlândia, foi a vez da Europa ser atingida em cheio poucos meses depois em 2040. As grandes inundações exterminaram territórios inteiros por lá...um exemplo é o mapa da própria Alemanha, lembrem-se de que só se tornou República Germânica depois das Inundações, que hoje é só metade do que é mostrado aqui...as Grandes Inundações reconfiguraram praticamente o mundo inteiro por anos à fio...outro exemplo é no sudoeste asiático, onde existia um país enorme chamado Indonésia que perdeu quase sessenta por cento do território pra água, incluindo a antiga capital Jacarta… - ele explicou - mas sigamos...qual outro evento cataclísmico é importante na historiografia européia?
    - O vírus 34. - Responderam.
    - Exatamente...e o que foi o vírus 34, Lucas?
    - Uma cepa evoluída do covid-23. 
    - E qual era o contexto em que se espalhou o vírus 34, Mário?
    - Depois das mudanças climáticas, houve uma onda de refugiados vindos de várias partes do mundo que tinham como destino principal os EUA e a Europa, mas como eram muitos isso causou vários problemas de instabilidades política e social nesses lugares. Aí...em 2034, nos EUA, um refugiado canadense portava uma cepa evoluída da covid-23 que escapou do controle dos Cinturões Sanitários e foi parar na Europa, onde se tinha uma concentração muito alta de refugiados climáticos que estavam sendo direcionados pra várias partes do continente americano, europeu e sendo retornados ao seu país de origem...então essa cepa acabou se espalhando sem muita dificuldade pra lugares que estavam instáveis socialmente daí como não havia vacina e nem medicação pra se inibir o vírus em lugares ainda controlados, acabou que se ocorreu a Onda Vermelha, que dizimou dois quartos da população mundial. 
    - 3.5 bilhão de pessoas...esse é o número de mortos pelos vírus que chegamos por modelos estimados matematicamente por Inteligência Artificial, tirando outros 280 milhões de mortos pelas mudanças climáticas. - Disse Thaddeu, agora em um tom abaixo, próximo ao pesar.
    Os três se silenciaram junto de seu tutor.
    - De quando vocês são?
    - Eu nasci em janeiro de 70. - disse Mário.
    - Eu setembro. - Luis o acompanhou.
    - E eu em novembro. - Lucas terminou. 
    - Eu nasci em 2051, fevereiro de 51, mais ou menos uma década depois das Grandes Inundações terem avançado até seu ápice e durante o caos do vírus...eu ainda lembro de quando criança ouvir falar dos refugiados climáticos e das alterações nos mapas. - Os olhos dele miravam o mapa sem um ponto específico, estavam imersos neles mesmos apenas vocalizando sentimentos expressos nitidamente pelo olhar pesaroso. - Quando eu entrei pro Governo dos Agulhas Negras um professor meu me disse que os mapas eram meras conveniências porque enquanto a natureza humana seguisse como é, jamais haveriam fronteiras fixas...durante um tempo eu não entendia o que isso queria dizer exatamente, mas hoje em dia eu entendo...os homens que desconhecem o passado estão fadados a repeti-lo, nunca se esqueçam. Nunca repitam o passado. - Ele terminou. 
    Os três se entreolharam incertos do que dizer ou até mesmo para onde olhar enquanto Thaddeu mantinha sua vista sobre o mapa, seus olhos estavam marejados.
    - Me digam… - ele começou com a voz bamba - qual é o conceito de refugiados climáticos?
    - São pessoas que foram forçadas a mudar de país ou cidade por alterações extremas de temperatura ou ambiente. - Disse Luis, com a agora feição cabisbaixa.
    - Vamos dar uma pausa? - Perguntou Thaddeu.
    Ninguém resistiu à ideia.
    Lucas voltou sua atenção a janela, a tempestade de areia já havia passado e os raios de luz solar do meio dia já irradiavam pelo corredor ao passo que as luzes públicas de emergência haviam se apagado e os grandes e pesados caminhões de limpeza pública perambulavam pela rua recolhendo a areia espalhada por todo lado. Ele olhou ao redor da rua, primeiro para os prédios decadentes agora empoeirados e então os pequenos besouros caminhando pelas ruas se apressando para remover as grossas lonas de tecido estendidas nas tendas de frutas e abrir os comércios paralisados enquanto a vida voltava a perambular por aqueles lados. Ele mirou o céu claro pensando sobre como quando retornasse para casa se chegaria a tempo de evitar a próxima tempestade e, de certa maneira, percebeu porque não gostava das aulas de história.
  • Um velho ateu

    La vinha Edmilson se arrastando entre os outros. Estava visivelmente cansado, mas ninguém notava. Era uma daquelas pessoas sem rosto, como o trabalhador da construção de Chico Buarque, mas que custava caro a si mesmo. Tinha de pagar por cada necessidade e cada obrigação que devia cumprir. Havia a voz perene de políticos, sacerdotes e juízes, todos ditadores, os quais ele nomeara Bando de Autoridades, dizendo que ele tinha de fazer isso ou aquilo, ser assim ou assado para não cair nas garras da lei dos homens ou, pior, nas garras da lei divina. Devia ganhar sua vida honestamente mesmo não tendo como pagar tudo que lhe era exigido pelo direito de existir. Os mesmos ainda lhe diziam que esse direito era concedido por Deus, portanto, um direito sagrado e caro, o que fazia de Edmilson um eterno devedor. Isso era o Bando de Autoridades que dizia. As autoridades que nasceram com o direito de ser nobres e não escravos, como ele. Às vezes, Edmilson chegava a pensar que seria melhor ainda viver no tempo da escravidão, pelo menos poderia engrossar o caldo do feijão com os restos de porco rejeitados pelos senhores da casa grande e não teria de pagar pela moradia. E ele que hoje também trabalhava como um escravo, jamais poderia ter um daqueles apartamentos que ajudava a construir, hora em que mais se parecia com o “cidadão” de Zé Ramalho. Esse que tem um rosto, que já nasce com cara de fome, fadado a uma vida “severina”, mas que é chamado por um assobio, um sibilo, chamado por um nome que silva e ecoa nos subúrbios das capitais. Esse que, apesar de tudo, tinha direito a uma alegria fugaz gentilmente concedida pelo Bando de Autoridades. E tinha do que se orgulhar porque as autoridades reconheciam a importância dele para o progresso da Nação. Era com sua força de trabalho que ajudava a construir o futuro do país. E Edmilson deveria também ser grato por esse reconhecimento. Afinal, as autoridades eram pessoas muito importantes; pessoas de valor na sociedade, tementes a Deus e mereciam respeito.

    Contudo, o elogio do Bando de Autoridades não o ajudava em nada. Não lhe favorecia construir um futuro melhor para seus filhos. Às vezes, quando Edmilson se mostrava um pouco desanimado, sempre aparecia alguém para dizer que apesar de tudo, ele não podia reclamar da vida, porque tinha gente que vivia muito pior que ele. Edmilson tinha saúde, graças a Deus, e isso era o que importava.  Era, na verdade, tudo, pois certamente ele existia apenas para ter saúde. Para Edmilson, aquelas palavras eram tão importantes para seu futuro quanto os elogios do Bando de Autoridades. E a ouvir aquela mesmice entediante, preferia o ruído intermitente da máquina de concreto. Resignava-se. Devia fingir-se conformado com a parte que lhe cabia neste grande latifúndio que é o mundo; devia estampar sempre um ar de alegria e dizer que tudo tem melhorado e não pensar no aluguel que não pode atrasar. Refugiava-se então nas palavras do poeta cantando em pensamento os versos de sua canção preferida.

    Guedes, um companheiro de trabalho, interrompeu seu pensamento quando chegou eufórico ao trabalho e pediu a atenção de todos.

    – O que aconteceu, homem? — perguntou um dos colegas a Guedes.

    — Vocês nem imaginam! — disse Guedes cheio de orgulho. — Mas, ontem, finalmente, Deus veio me falar.

    O riso foi geral.

    — O que você bebeu? — perguntou outro.

    — É sério! — explicou Guedes. — Deus me deu a missão de transmitir uma mensagem. Mandou-me dizer que ele se arrependeu de ter privilegiado um povo escolhido. Disse que todos os povos são iguais e não há senhores nem escravos, mas todos devem ser solidários uns com os outros independentemente de sua nacionalidade ou religião. Dito isso, Deus desapareceu — conclui Guedes com naturalidade.

    Logo um dos homens, franzindo o cenho, desconfiado, perguntou a Guedes:

    — Ei! Você acha que a gente é idiota pra acreditar nisso?

    — Haha — riu sarcasticamente outro. — Temos nosso próprio profeta agora!

    — Guedes, o peão, virou o Profeta Campeão! — emendou outro.

    Nelson, que a princípio não dera importância ao que disse Guedes, fez um comentário:

    — Essa foi a maior besteira que eu já ouvi! Deus não faz nada errado, então por que iria se arrepender?

    Guedes respondeu com entusiasmo:

    — Deus fez milagres durante quarenta anos apenas para conservar o calçado de Moisés no deserto até que ele conduzisse seu povo escolhido à terra prometida e não adiantou nada porque seu povo não chegou à terra prometida. Depois, Deus mandou seu filho a Terra para tentar salvar seu povo, mas ele fracassou e nunca mais tentou. Mais tarde, usando o pseudônimo de Alá, Deus disse a Maomé que os muçulmanos eram seu povo escolhido, portanto todo o povo de Moisés e também os idólatras do seu filho deveriam ser mortos. Pode dizer que Deus não errou?

    Um ajudante o interrompeu perguntando num tom mais sério do que os outros, mas não menos irônico:

    — Por que Deus falaria com você e não com o Papa?

    — É — insistiu Nelson. — Por quê?

    Guedes não se deixou intimidar.

    — Ora, pelo mesmo motivo que ele não escolheu o Dalai Lama.

    Com um ar pensativo, Nelson refletiu:

    — Mas as religiões são diferentes. Quem vai dizer qual está certa?

    — O que está acontecendo aqui? — interrompeu o mestre de obras que acabara de chegar.

    — Deus falou com Guedes ontem — precipitou-se Nelson.

    — E daí? — questionou o mestre de obras. — Deus também falou comigo ontem.

    Nelson quebrou o silêncio inquisitório que se fez, perguntando:

    — Deus também apareceu para você?

    — Claro que não!

    — E como ele lhe falou?

    — A palavra de Deus está na Bíblia. É eterna e imutável — respondeu. — Basta ler para saber o que Deus lhe diz.

    — Então? — perguntou Nelson com curiosidade. — O que Deus lhe disse ontem?

    Os rostos dos homens tinham uma expressão de grande expectativa com a resposta do mestre de obras:

    — Ele disse que os servos devem se sujeitar a vossos senhores com todo o respeito, não apenas aos bons e sensatos, mas também aos perversos. Vocês são os servos e eu o senhor. Todos ao trabalho!

    — Viu! — exclamou Guedes. — É Deus mesmo que mandou uns escravizarem os outros.

    — Exatamente! — concordou o mestre de obras. — E qual o problema?

    — O problema é que ele me disse que está arrependido de ter dito isso para os escravos enquanto ensinava o povo escolhido a roubar.

    — Meu Deus, olha pra isso! — exclamou Nelson atônito. — Esse Guedes está maluco! Deus ensina que roubar é pecado.

    — Talvez para os escravos — redarguiu Guedes.

    — De onde você tirou que Deus ensina a roubar? — perguntou o mestre de obras a Guedes.

    Guedes abriu a pequena Bíblia que sempre trazia consigo em Êxodo, capítulo três, versículo vinte e um, e disse:

    — Diretamente da palavra de Deus. — demonstrou. — Você não disse que a palavra dele é eterna e imutável. Pois bem! Ouça: “E eu darei graça a este povo aos olhos dos egípcios; e acontecerá que, quando sairdes, não saireis vazios, porque cada mulher pedirá à sua vizinha e à sua hóspede, joias de prata, e joias de ouro, e vestes, as quais vós poreis sobre vossos filhos e sobre vossas filhas; e despojareis os egípcios”. E o que quer dizer despojar? — concluiu perguntando.

    — O quê? — perguntou Nelson olhando inseguro para o mestre de obras que se fingia indiferente aos argumentos da discussão.

    — Significa tirar de uma pessoa alguma coisa que lhe pertence por meios ilícitos, isto é, roubar. É o que Deus manda seu povo escolhido fazer.

    Enquanto todos estavam paralisados pela perplexidade com aquela constatação, Edmilson ficou reflexivo. Aquela questão em torno do que Deus disse ou não disse, fez ou não fez, era tão inútil para melhorar sua vida quanto as palavras dos abnegados e os elogios do Bando de Autoridades. Para ele, nada do que Deus tivesse dito ou viesse a dizer explicaria porque dava tudo a alguns e nada a outros. Voltou a cantarolar sua canção preferida na mente.

    — Você tirou o trecho do contexto. — explicou o mestre de obras. — Os hebreus estavam sendo escravizados e os egípcios precisavam de uma lição. Tiveram aquilo que mereciam.

    O debate havia se transformado numa disputa entre Guedes, para provar sua verdade, e os outros, para refutá-la, até a chegada do engenheiro. Surpreso com aquela discussão acalorada e inusitada perguntou o que acontecia por ali.

    — O Guedes disse que Deus lhe falou em pessoa — esclareceu Nelson. — E Deus mandou uma mensagem para nós.

    — Que mensagem?

    — Disse que somos todos iguais. Não existem senhores nem escravos.

    O engenheiro deu uma risada e perguntou:

    — E então?

    — Deus se arrependeu de ter escolhido um povo para proteger — respondeu Guedes. — Então devemos ser solidários para vivermos em paz uns com os outros.

    O engenheiro ficou pensativo por um instante de depois falou:

    — Bom! Deus podia muito bem esclarecer isso para a humanidade em edição extraordinária em todas as rádios e televisões do mundo. Assim falaria a todos de uma só vez. O que vocês acham?

    Cada um deu sua opinião e eles iniciaram um novo debate acerca da vontade e onipotência de Deus. Em dado momento, Guedes olhou para Edmilson que se mantinha calado e perguntou:

    —Ei! Edmilson. Você não diz nada?

    — Parece que Deus não conseguiu fazer a coisa certa.

    Alguns murmuraram escandalizados com aquela observação totalmente fora do contexto.

    — Ah é! — exclamou Nelson num tom desafiador. — E, por acaso, você faria melhor?

    O velho ateu poeta de Eduardo Gudin lhe veio à mente lembrando-lhe que se fosse Deus, daria aos que não tem nada. Edmilson refletiu sobre sua canção preferida e ousou ir além.

    — Se eu fosse Deus, daria tudo a todo mundo.

     
    FIM
  • Uma controversa

    O ano era 1890, em Avaré, havia uma família que era o exemplo para as outras instituições familiares. Faby era a filha do casal Silvia. Ela era uma bela jovem admirada por todos por conta da sua intelectualidade. Era tão linda quanto o pôr do sol que se via a beira do mar. Seus pais, Carla Francisca Silvia, era uma ótima mãe e uma excelente dona de casa, todos comentavam o quanto sua casa era totalmente arrumada e limpa, seu marido Sebastian Carlos Silvia era um excelente pai e marido. Era a mão direita do prefeito e sempre frequentava a missa de quartas, sextas e domingos com a sua família. 
    Faby estava no seu último ano do ensino do médio, sua família já estava tentando arranjar um marido para sua única filha, e pretendente era o que não faltava. Na sua escola de Faby os professores pediam para os alunos que escrevessem bilhetes onde eles escreveriam seus desejos para o futuro  e por conta de um sorteio, Faby foi escolhida para ler seu bilhete para todos da turma, quando leu todos da turma se chocaram pois não era o destino que todos imaginava para a bela Faby, no bilhete estava escrito: “ Meu desejo é que eu possa passar meus dias sem ir à igreja e possa frequentar lugares onde a minhas perguntas sejam respondidas sem envolver a religião e que as mulheres possam ser superiores aos homens”. Por conta do bilhete seus responsáveis foram chamados para falar sobre esse ato considerado uma rebeldia pela moça, seus pais conversaram com o reitor e disseram que aquilo não se repetiria.  
    Chegando em casa a dona Carla foi direto pro quarto da moça e quando chegou não pode acreditar no que viu, havia relatos jornalísticos de bruxaria, onde diziam que elas se sentiam superiores aos homens colado no quarto da moça, alguns encantamentos e algumas coisas similares. Ela quase teve um desmaio quando viu aquilo, quando Faby chegou em casa depois de ter ajudado uma senhora que morava na colina, Sebastian queria dar uma surra na filha por tentar destruir a imagem da família perfeita, mas dona Carla conseguiu controlar a raiva do marido e ordenou que a moça não deveria mais ver a senhora da Colina, que era ela que estava incentivando a Faby a ter pensamentos como aqueles. Mas uma fofoca começou a se introduzir no meio da igreja em plena a missa de sexta, numa sexta-feira 13, onde todos da cidade se reuniram e diziam que Faby era a mais pecadora de todos, que ela havia se tornado uma bruxa junto com a senhora da colina, algo que já estava sendo esquecido pelos moradores. Era impossível a missa ter um fim, e como o Padre havia pedido para alguns de seus fiéis, pediu para que trancassem as postas e não deixasse os Silvas saírem dali. Do nada o padre diz que Deus estava mandando-o a jogar Faby e sua mãe na fogueira, Sebastian enlouqueceu, entrou em desespero e saiu batendo em todas as mulheres e homens que seguravam sua filha e esposa, pediu para que elas fugissem, mas só Faby fugiu.  
    Faby conseguiu fugir para colina, onde ninguém tinha coragem de ir. Seu pai for morto por ter ajudo uma bruxa a fugir e sua mãe foi presa por homens em um cativeiro onde ninguém sabia o que ocorria. Chegando na colina ela pediu ajuda a Izzy, uma senhora que morava isolada de todos. Ela contou que a muitos tempos atrás eles achavam que ela era a bruxa das bruxas, por que todos os homens eram caídos por ela e ela nunca precisou ser sustentado por homem. As mulheres enfurecidas pediram para que o padre expulsasse Izzy, ou ela acabaria dominando a cidade que já era pequena. Izzy foi viver na colina, onde ela ainda recebia visita de alguns homens, mas ninguém de Avaré, ela deixou a moça viver ali até que a poeira abaixasse. Faby passou uns 2 anos com Izzy, quando resolveu voltar para Avaré, chegando lá ela soube que a Febre de Lassa matou quase todos da sua cidade, ela foi ver o padre, ele ao ouvir a sua voz pediu para que ela fosse embora de lá, que tudo aquilo tinha acontecido por terem deixado uma bruxa viva, por mais que a mãe dela tinha sido morta na fogueira nem isso acabou com a ira de fúria para o padre. Faby na hora encheu seu coração de raiva e a única coisa que fazia era chorar enquanto voltava para a colina, chegando na colina Izzy perguntou o que havia acontecido e Faby contou tudo, Izzy disse que havia uns livros onde havia receitas de alguns medicamentos, Faby estudou e fez vários testes de vacinas com um velho que estava com a Febre de Lassa quando ele veio visitar Izzy, depois de muitos esforços ela conseguiu achar a cura. Faby saiu distribuindo a cura para todos de Avaré, quando foi entregar ao Padre, ela disse para ele lembrar que quem salvou ele foi uma bruxa e não o senhor que ele acreditava. 

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