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  • A Grande Rocha da Vida

    Quando a Terra Média ainda era dividida entre homens e criaturas, existiam os reinos dos humanos, o território dos gigantes, as cavernas dos elfos, o reino das fadas, o reino das nuvens dos deuses, e o misterioso reino dos pesadelos, habitado pelos demônios.
    Entre eles existia uma rocha mágica que podia curar quem a absorvesse, nem que fosse um pouquinho de seu poder de doenças e feridas, A Grande Rocha da vida. Todas essas nações podiam usar o seu poder, moderadamente, para que não houvesse conflitos ou guerras por posse dela, tanto que cada nação tinha um dia específico da semana para usar o poder da Grande Rocha, a menos que fosse emergência.
    Havia um segredo sobre a Rocha que só os deuses e os demônios tinham em conhecimento, que se alguém absorvesse todo o seu poder, obteria vida eterna e poder ilimitado, o suficiente para derrotar qualquer um, e segundo as Runas dos Tempos dos Profetas, apenas quem tivesse o sangue de demônios ou deuses podia absorver toda a Rocha, mas “lá se sabe se isso é verdade”.
    Um dia os demônios tentaram tomar a Rocha só para eles no objetivo de que Helldron, Rei dos demônios, absorvesse-a e destruísse as outras nações, dominando o mundo, mas falharam porque todos se uniram e os selaram junto ao portal proibido que dava acesso para o Reino dos Pesadelos. Muitos morreram, pois os demônios eram muito poderosos. Quando tudo estava se estabilizando os deuses fizeram um comunicado pacífico, dizendo que iriam pegar a Rocha e leva-la aos céus para que eles decidissem quem usaria ou não o seu poder, mas não aceitaram e obrigaram os deuses a se exilarem nos céus. Os deuses são pacíficos e inteligentes então para manter a ordem eles aceitaram seu exílio, pois sabiam que depois desse comunicado poderia haver desconfiança. E assim terminou o que eles chamaram de “A Guerra Centenária”, pois pode não parecer, mas a guerra contra os demônios durou 200 anos.
    Os demônios não eram muito amigáveis. Eles tinham três corações e viviam 700 anos. As fadas eram fascinantes porque eles voavam sem ao menos ter asas e mantinham um corpo jovem mesmo estando a poucos dias da morte. Vivem 300 anos e quando morrem seus corpos demoram 50 anos para se decompor. Os humanos viviam uma vida normal, sua expectativa de vida era cerca de 90 anos. Os gigantes, bem, eles não eram maus, mas alguns eram brutos demais, outros eram amigáveis, e uns eram travessos, pois pregavam peças nos humanos se fantasiando de demônios e assustando-os dizendo que “nós, os demônios voltamos para tomar a Grande Rocha e destruir todas as nações”, e por isso os gigantes eram mal interpretados por alguns humanos, pois achavam que os gigantes queriam a volta dos demônios... “será que é verdade?”. Os elfos também eram pacíficos, assim como os deuses, mas também eram misteriosos. Pesquisavam segredos do mundo, mas não diziam para os outros. Os deuses não eram como divindades, eram nomeados de deuses por serem muito sábios, tentavam evitar conflitos, procuravam jeitos de beneficiar a todos. Eles não são eternos, mas vivem 300 anos a mais que os demônios. Antes dos deuses serem exilados, alguns se relacionavam com humanos, e a junção dos dois originou uma nova espécie, que rapidamente virou uma nação também, e ficaram conhecidos como druidas. Os druidas têm duas diferenças dos humanos, uma, é que eles nascem com os olhos muito amarelados e brilhantes, e outra é que eles têm um poder de cura parecido com a da Grande Rocha da Vida, só que um druida pode curar apenas feridas, pois envenenamentos, doenças, essas coisas eles não conseguem curar. Havia um, porém no nascimento de um druida, pois alguns nasciam como humanos normais, mas eles não eram mandados para os outros reinos, pois os anciões ensinavam técnicas de cura com ervas e outras coisas que eles encontravam na floresta dos druidas. E também não podem absorver tanto da Grande Rocha. Todos aceitaram o surgimento dos druidas, as fadas se aliaram a eles, e os dois agiram por gerações como “unha e carne”.
    Muitos anos depois da Guerra Centenária, na floresta dos druidas, havia 200 anos que humanos não nasciam, e acharam que tal coisa não iria mais acontecer, até que uma menina nasceu só que ela nasceu com muitas doenças, meio fraca, e por alguma razão, a Grande Rocha não curava suas doenças. Ela sempre admirou a Rocha, mesmo não podendo ajuda-la. Ela cresceu, conheceu um humano por quem se apaixonou, eles casaram-se e um ano depois tiveram a noticia de que ela estava gravida. Numa expedição aos Montes de Gelo, seu marido morreu num acidente. Quando o bebê estava pronto para nascer, numa mesa de parto, ela não tinha forças para fazer com que o bebê saísse, e sentia muita dor. Mesmo estando ciente de que não funcionava, levaram ela até a Rocha, pois era uma emergência, e, por incrível que pareça, a mesma a deu forças para deixa-lo sair. Ela sabia que ia morrer, mas antes de morrer viu que era um menino, e o nomeou como Seikatsu, que do japonês para o português significa “vida”.
    O Avô de Seikatsu não gostava dele, pois dizia ele que Seikatsu matou a própria mãe, então o menino foi criado por todos os druidas. Ele não guardava rancor de seu avô e não se sentia muito triste quando falavam de sua mãe, pois para ele ela era uma heroína por viver tantos anos no estado em que estava, e deixou ele como prova de sua força, e como ela, ele também admirava a grande Rocha.
    Quando completou maior idade decidiu iniciar uma jornada pela Terra Média para conhecer todas as criaturas das outras nações, indo primeiro para o reino mais próximo dos humanos, pois ele queria conhecer a cultura do povo do qual seu pai fazia parte.
    Chegando lá ele se encantou com o jeito dos humanos, seu jeito de comemorar o deixava impressionado. Com o dinheiro que ele havia guardado por anos para quando chegasse sua jornada, ele pretendia comprar várias coisas do reino humano, mas descobriu que no dia seguinte teria um festival que os humanos celebravam para comemorar a vitória contra os demônios na Guerra Centenária, então guardou suas economias para o tão esperado evento. No dia do festival, todos cantavam e dançavam juntos, e o rei propôs irem todos até à Grande Rocha para admirá-la enquanto celebravam, e como ele chegou atrasado não conseguiu comprar nada, então só podia aproveitar a longa caminhada até a Rocha. Chegando lá, todos se espantaram, pois, metade da Rocha tinha sumido, como se alguém tivesse a cortado e levado embora, e seu poder estava enfraquecido, incapaz de curar qualquer um.
    Não demorou muito pra todas as nações ficarem sabendo. Os humanos convocaram uma reunião para saber o que houve, mas o atual estado da Grande Rocha começou a causar discórdia, pois os druidas e as fadas acusaram os humanos de roubar o poder da Rocha por terem sido vistos por perto, e os gigantes não estavam do lado de ninguém, só sabiam que alguém havia roubado a Grande Rocha e que estavam prontos para qualquer batalha para encontrá-la, e os elfos não reagiram de nenhum modo, o que era muito suspeito. Seikatsu não conseguiu engolir o fato de que a Grande Rocha não estava em seu estado normal, e que isso causaria guerra. Usou todas as suas economias para comprar uma espada, e um equipamento básico para sair numa jornada, e dessa vez não era para conhecer seres e lugares novos, e sim para descobrir o que aconteceu com a Grande Rocha. Ele falou com o rei sobre sua jornada, e pediu que alguns homens fossem com ele, mas o rei não pensava em nada além de se preparar o possível começo de outra “Guerra Centenária”, e os únicos que conseguiam ajudar a restaurar a ordem e resolver os conflitos sem violência eram os deuses, mas eles haviam sido exilados, e não estavam mais interessados em deixar seu exílio e intervir na Terra.
    Seikatsu andou por três dias até chegar perto do reino dos gigantes. Chegando lá, viu alguns homens com pedras nas mãos, atirando-as em um buraco bem fundo, onde tinha um gigante com uma cara ameaçadora. Ele espantou aqueles homens com sua espada, chamou ajuda de alguns gigantes, e tiraram aquele brutamonte do buraco. O gigante agradeceu, e perguntou o que trazia um bravo humano até o território dos gigantes. Seikatsu explicou a situação, e o gigante, conhecido como Smasher, jurou que o guiaria até completar seu objetivo de descobrir o que aconteceu com a Grande Rocha da Vida. Eles fizeram uma pesquisa em metade do território dos gigantes, falaram inclusive com o comandante deles, e todos negaram que não sabiam nada sobre o atual estado da Grande Rocha, então eles partiram.
    Dois dias depois, eles chegaram num bosque, onde encontraram um enorme golem de planta, que expeliu um gás roxo que os envenenou e os fez cair de sono.  Quando acordaram, deram de cara com um monte de crianças flutuando, e perceberam que estavam no Reino das fadas.  As fadas explicaram a situação, foi um mal entendido, pois o golem de planta era só um guardião, mas ele não ataca a menos que cheguem perto do Reino das fadas sem avisar com antecedência. Enquanto Smasher estava fazendo a pesquisa sobre o desaparecimento da metade da Rocha, Seikatsu estava explorando aquela linda cidade, e enquanto passava por um recanto com plantações de uvas, ele se deparou com uma linda fada, e os dois ficaram por um longo tempo se encarando, como se nunca tivessem visto algo tão especial na vida. Eles se cumprimentaram, o nome dela era Hana. Ela ouviu falar sobre o que ele estava fazendo, e perguntou se ele gostaria de passar mais um dia pelo reino das fadas. Ele aceitou, e ela mostrou a ele como era a cidade à noite. Perto de um lago, meio embaraçados, explicaram o que sentiram um pelo outro quando se viram, pareciam sincronizados, um só, e no dia seguinte, ela o acompanhou em sua jornada.
    Seikatsu não tinha noção por onde começar a procurar uma passagem para as cavernas dos elfos, mas por sorte, Hana sabia onde era, porque quando mais nova, acompanhava sua mãe em entregas de flores para os elfos, pois por algum motivo eles adoravam comer pétalas de flores. Chegando lá n hesitaram em ir direto falar com a chefia. Os elfos disseram que descobriram que o rei dos demônios conseguiu um jeito de escapar antes de ser selado, e que ele estava habitando um corpo humano, e que foi ele que absorveu a Rocha, só que seu corpo humano era fraco, então só conseguiu absorver metade da Rocha, e a outra metade está fraca, e a mesma podia se destruir a qualquer momento. Seu plano era absorver os demônios do selo do portal proibido, reconstituir seu corpo original e terminar de absorver todo o poder da Grande Rocha da Vida.
    Saindo de lá, eles partiram em direção à Grande Rocha, no objetivo de dizer a todos o que realmente estava acontecendo, e chegando lá se deparou com os druidas caídos no chão próximos à Rocha, e um homem que aparentava estar com más intenções. Eles diziam que era seu pai. Então, o “pai” de Seikatsu começou a se decompor e surgir um demônio enorme de dentro dele, sendo esse Helldron, o Rei dos demônios. Helldron explicou que não houve nenhum acidente, e que Helldron matou e tomou o corpo do pai de Seikatsu, e matou todos os outros que estavam com ele. Smasher tentou um ataque surpresa, mas foi ludibriado, pois Helldron o pegou de surpresa, e o lançou contra a Grande Rocha. Smasher não aguentou tal impacto e teve alguns de seus ossos quebrados, impossibilitando-o de lutar. Os humanos temeram o poder de Helldron, e alguns deles recuaram, mas os gigantes, as fadas e os elfos, ficaram e lutaram bravamente, mas “a que preço?” Muitos foram mortos, Helldron estava invencível. Seikatsu partiu rapidamente para cima dele, e assim, num chute com poder suficiente pra abrir uma cratera, Helldron o lançou até a Rocha, fazendo com que seu corpo a perfurasse, e por alguma razão, ela não estava curando ninguém. Por alguns instantes, todos pensaram que era o fim. Helldron gargalhava comemorando sua vitória, e quando ia se aproximando da Rocha para absorvê-la, uma incrível luz surgiu de dentro dela, sua estrutura começou a se partir em pedaços, e de dentro dela, surgira um corpo emitindo luz, era Seikatsu. Helldron se perguntou o porquê, e como ele absorveu a Rocha, e um velho druida entendeu em fim que, Seikatsu e talvez até sua mãe não tivessem poderes de cura porque haviam herdado poder dos deuses, e na teoria, os deuses tinham mais controle sobre o poder da Rocha do que os demônios. Seikatsu absorveu em um estalar de dedos, toda a energia da Rocha tirada por Helldron, e, num soco estrondeante, reduziu Helldron em poeira. Seikatsu curou a todos, reviveu alguns mortos, despediu-se de Hana e dos druidas, e, emitindo uma incrível luz verde que iluminava toda a Terra Média, transformou-se em um incrível cristal, que se parecia com a Grande Rocha da Vida. Seu corpo virou uma estatua de pedra dentro daquele cristal. Sua Historia foi contada por gerações. Festivais celebrando sua vitória sobre Helldron, e todos o chamavam como, O Menino da Vida.
  • A guerra de sangue cap.1 começo

    -…. Magnus pega sua espada caida no chao , e vai correndo na direçao do dragão vermelho,o dragão pensando que ele éra um alvo facil góspe uma ernome bola de fogo em direção de Magnus , magnus alevanta seu escudo e continuar a andar na direçao do dragão , magnus sendo atingido pela bola de fogo do dragão continua a caminha para frente pois a bola de fogo só deu uma queimadinha em seu escudo… Magnus vai e solta seu ernome escudo e pula em direçao ao dragão,ele alevanta sua espada e………….
    -Mãeeeeeee……
    Mãe-que ,que foi filho…
    Filho-Porque Magnus pulo em direção ao ernome dragão vermelho ?
    Mãe-Porque ele ia corta a cabeça do dragão,e salvaria a pricesa das mãos do dragão filho.
    Filho-Más se o dragão é um animal , então não são patas mãe ?
    ……..(relogio veio a tocar)…………
    Mãe-bom acho que esta na hora de dormi.
    Calmamente ela coloca o livro encima da mesa de seu filho, e tampa ele com um ernome coberto,e beijou sua testa…..
    filho- mãe mas como termino a historia ?
    A mãe dizendo para ele dormi, e ele insistia para que ela termina-se a historia…. Então depois de um tempo a mãe nervosa falou
    -VAI DORMI IMEDIATAMENTE RAGNA!!
    o menino desesperado coloca o coberto em sua cabeça e fala
    Ragna-boa noite!!
    Ragna olha com um olho para sua mae enquanto o outro ficava enbaixo do coberto e fala
    Ragna-mãe amanhã é meu aniversario e vô fazer 8 anos, sera que você poderia fazer aqueles biscoito que só você sabe como fazer ?
    A mãe olha e rapidamente Ragna se esconde enbaixo do coberto
    a mãe apenas deu um sorriso e falo
    Mãe-boa noite…..
    ……...10 anos depois……...
    …………..Mãe-filho por que você não sai da sala do seu pai e vem aqui enbaixo comer unpouco
    Ragna simplesmente abre a porta e sai com um livro em sua mão
    Mãe-Filho por que você não deixa o livro em cima da mesa do seu pai e vem comer….
    Ragna simplesmente deixa o livro em cima da mesa e fala
    Ragna-mãe … hoje eu irei em busca do meu pai…
    Mãe-filho eu acho melhor…
    Ragna-não eu irei sim nem adianta tentar me impedir já faz 8 anos que ele sumiu e não volto, deixando nós pobres, se lembre que nós tivemos que trabalhar como se agente fosse escravos!!
    Ragna inconscientemente conjura uma magia que fez a porta que estava atras dele ser arrancada e destruida……
    A mãe de magnus assustada tenta acalma-lo , mas quando a porta da sala de seu pai ela vê diversos livros de magias,conjuração,invocaçao,etc encima da mesa de seu pai… e fala
    Mãe-então éra isso que você estava pesquisando…..
    Ragna se acalma e vê sua mae com uma cara como se fosse chorar e pergunta se esta tudo bem …
    sua mãe irritada fala
    Mãe-filho…… a você se lembra da historia sobre seu avô não se lembra ?
    Ragna tentar lembra da historia….
    “seu avõ era um guerreiro que sabia usar algumas magias, que lutou contra um dos maiores dragões que toda a historia tinha visto,um dragão que conseguia controlar o sangue de outros animais e usa-las como arma…. O dragão cortou sua perna direita, seu braço esquerdo e seus olhos,… mas com isso o seu avô conseguio corta a barriga to dragão totalmente, e venceu…. E como premio ele cortou os braços e pernas de um recém nascido de dragão que estava no ninho daquele dragão ernome, e arranco os olhos , deixando o filhote totalmente banhado de sangue… com ajuda de sua esposa que sabia magias curativas conseguio usar o braço do filhote de dragão e sua perna , já seus olhos,demoro cerca de 2 horas arrancar os perfurados e colocar os olhos do dragão filhote que mesmo recém nascido já tinha 1,90 m de altura o tamanho de um homen sadio…….. no final ele conseguio ter 1 braço,1 perna e 2 olhos de dragão mais já que essas partes de dragão eram diferentes de um ser humano começo a ter efeitos negativos , o avô começo a ficar louco e assasino milhares de seus companheiros… e no final ele foi morto por tais amigos… deixando 1 esposa e 1 filho recém nascido para trás”……………
    Ragna-sim eu lembro mais ou menos , mas oque tem?
    Sua mãe pensou 2 vezes e falo
    Mãe-deixa filho……
    e depois de varias horas, Ragnus fico curioso por que sua mãe pergunto se ele se lembrava da historia de seu avô que éra pai do seu pai, oque teria a ver ? Isso….. anoite todos da casa foram dormi………….. 
     
     continuação ?
  • A HISTORIA DO MENINO SEM PAI

    Era uma noite de sábado, exactamente as 22 horas. Um garoto chamado Luiz. Luiz era uma criança amargurada e triste, olhava sempre ao seu redor seus amigos falando sobre seus pais, elas diziam que seus pais tinham lhe dado brinquedos e aparelhos electrónicos. Nessa noite, Luiz começou a se perguntar o por que não tinha um pai. Se levantou e foi até o quarto de sua mãe.
    - Mamãe por quê não tenho um pai? todos os meus amigos tem só eu que não. Sua mãe ficou assustada, com a pergunta do garoto.
    - Sente se aqui meu filho, vou te contar tudo.
    - você ainda estava na barriga da mamãe, então não vai se lembrar. uma certa noite tive uma discussão com seu pai, ele dizia que não estava pronto para ter uma família . Dizia que ele era muito novo para ''estragar'' a vida com um filho. No dia seguinte quando eu acordei, ele já não estava lá mais. Nunca mais ouvi falar nele, e sinto muito por isso.
    O garoto ficou em silêncio por um tempo, olhou no fundo dos olhos de sua mãe, e disse: Mamãe, a senhora não tem culpa. Te amo muito, e já que não terei meu pai, a senhora terá todo o meu amor em dobro.
  • A Hora Morta

    Existem coisas que não podemos ver,não podemos tocar,mas sabemos que estão aqui.
    Em nossa mente formamos imagens,tentamos dar forma para aquilo que sabemos existir,mas não conseguimos corporizar.Sombras,calafrios,ruídos,sobressaltos em meio ao sono,tudo indica que algo nos vigia,alguma coisa nos acompanha.
    Mas o que seria?
    E porque?
    De onde vem?
    Talvez venha originar-se da região mais profunda de uma caverna,das entranhas mais sombrias do oceano,ou até mesmo da soturna e lamacenta cratera no centro da terra.
    Tudo é incógnita.
    Tudo é mistério.
    Mas extremamente real.
    Na hora morta,onde o sol já se pôs,mas a lua ainda não surgiu,é neste momento que a sombra maligna cobre toda terra.As nuvens movimentam-se com maior rapidez,tocadas que são pelo sopro malévolo do vento,empurradas por aquilo,ou aquele,que não vemos mas sabemos existir.É como se o canto mortal e inebriante de uma sereia adentrasse em nossos ouvidos sem que percebamos,e inconscientemente deixamos fluir o que de mais perverso existe em nosso ser,tomados que somos por estranhas e perigosas sensações.Começa ali,nosso caminho pelo que é misterioso,oculto e perigoso.
    Por alguns instantes os sinos ficam em silencio,calam-se as orações,os templos cerram suas portas.Algo de pernicioso esta no ar,cada segundo parece arrastar-se lentamente,Como se a agonizar pelo pavor que carrega.Sonhos são destruídos,vidas são arrancadas,almas são possuídas.
    A hora morta parece interminável,E o mais assustador é saber que ela pode durar sessenta minutos,um dia inteiro,ou até mesmo uma vida inteira.    
     

     

  • A igreja do Padre Bento (Um triste relato sobre a pedofilia)

    Ouço os sinos de a igreja bater e os pelos do meu corpo se arrepiarem. Como eu odeio passar na frente desse lugar e lembrar as coisas terríveis acontecidas comigo. Não sou um jovem. Sou um homem com certa experiência, com mulher e dois filhos, mas existem certas coisas que precisam ficar guardadas com a gente.
    Nasci no interior da cidade, em um município de um pouco mais de seis mil habitantes. Um lugar escondido do resto do planeta, onde luz elétrica e água encanada eram artigos de luxo e privilégio de uma dezena de notáveis, resumindo, os ricos. Cresci dentro de uma família pobre. Meu pai era pedreiro e minha mãe ficava cuidando da casa e dos sete filhos, três homens e quatro mulheres; eu fui o quarto a nascer.
    Na vila havia uma igreja, pequena e de aspecto estranho. Desde o começo eu não gostava muito de ir até lá, mas era inevitável. Aos domingos minha mãe vestia a gente com a melhor roupa disponível; a minha era uma calça de algodão e uma camisa verde escura amarrotada, a gente não tinha dinheiro pra comprar um ferro e todos nós saíamos amarrotados de casa.
    Bastava ver o padre para eu ficar nervoso. Tentava disfarçar, porém, era fatal. Meu pai notava e me repreendia. Como eu odiava aquilo, levar esporro e ser levado na marra para dentro daquela igreja imunda. Se as pessoas soubessem o que acontecia ali dentro, principalmente com os meninos pequenos, muitos ficariam enojados. Entre um Pai nosso e uma Ave Maria, entre pedidos intensos de cura e libertação, a missa transcorria na maior das tranquilidades, tudo aparência pra inglês ver, aquilo tudo não passava de uma grande mentira e eu sabia de tudo.
    Como eu detestava os finais das cerimônias. O padre caminhando em direção de seus seguidores, distribuindo abraços afetuosos e apalpando as nádegas rechonchudas das moças puras, tudo discretamente para não ser pego em flagrante por um pai que o mataria ali mesmo; sim, todos na cidade andavam armados e vez ou outra alguém aparecia com a boca cheia de formiga abandonado num terreno qualquer. E quando ele se aproximava da gente, com aquele sorriso falso e com aqueles passos lentos e calculados; parecia com um animal armando o bote contra a sua presa.
    O padre boa praça se deitava com as moças virgens a acariciava os genitais dos meninos pequenos, e eu fui uma dessas crianças. Tinha nove anos na primeira vez. Fui à igreja para levar uma vasilha cheia de bolo de milho feito pela minha mãe, era um agrado dela para ele. As mulheres tinham o hábito, principalmente as casadas, de ofertarem comida para o padre, já às moças novas davam outra coisa de presente para ele.
    Filho da puta, desgraçado! Ele passava aquelas mãos grandes e cheias de calo pelo meu corpo, dedilhava seus dedos pelas minhas nádegas e manipulava meu pênis, e eu sem ter como reagir me tremia por inteiro. E eu não conseguia fugir. O abuso acontecia e ele me segurava. No final de tudo erguia as calças e mandava eu me vestir; e com os olhos marejados eu me vestia.
    - Já sabe. Se abrir o bico eu acabo com você, seu pai e com a puta da tua mãe. – Ele dizia enquanto ajeitava o pênis ainda ereto dentro da calça.
    Eu voltava com medo para casa. De longe eu enxergava mamãe de cara fechada. O que eu ia falar? O jeito era mentir, e era isso que eu fazia.
    - Por que tá chorando? – Ela indagou.
    - Apanhei de uns meninos no caminho.
    Mas ela não se preocupava se eu estava ferido, a preocupação dela era com a porra do bolo de milho.
    - Conseguiu entregar o que eu te pedi?
    - Consegui sim senhora.
    - E o padre como está?
    Mentalmente eu respondi:
    - O filho da puta deve estar deitado de pau duro pensando em mim e sem remorso algum pelo que fizera comigo.
    - Lhe fiz uma pergunta. Não vai responder.
    - Acho que tá. Não perguntei.
    - Ok. Agora vá já pra dentro. Mais tarde eu sirvo seu almoço.
    Mas eu não queria almoçar, estava sem estômago, sem ânimo e sem vontade. Porra nove anos de idade, uma criança, um menino que mal sabia o que fazer da vida. E eu me enfiava no meu quarto, deitava a cabeça no travesseiro e chorava por horas.
    Na idade adulta fui descobrir que o abuso sofrido por mim é denominado como pedofilia. Dizem que os pedófilos são pessoas que tem preferencia por fazerem sexo com crianças, sejam elas meninos ou meninas, e eu fui uma vítima. Quem comete esse crime na grande maioria são os homens e o padre Bento foi o sujeito responsável por tirar a minha inocência; e foi graças a ele que me tornei o adulto inseguro e medroso que sou hoje.
    Hoje em dia esses desgraçados usam a internet como ferramenta para atrair crianças. Os malditos usam da esperteza para atrair meninos e meninas inocentes. Sem ter a noção do perigo muitas delas se deixam levar pela conversa agradável e resolvem escondida dos pais se encontrarem com esse tipo de ser humano. No começo é um suco, um sorvete um simples agrado, mas depois disso começa o pesadelo. E ai daquele que falar pra alguém. Ameaças são feitas, e é através dessa intimidação que eles conseguem êxito na maioria das suas investidas.
    Minha filha mais nova detesta o fato de eu não permitir que ela acesse o computador de casa sem a minha presença, mas é por precaução. Eu não quero que a minha filha seja mais uma vítima desse tipo de gente, pois só eu sei como é sentir-se sujo logo após ser penetrado por um doente mental.
    O padre Bento? Esse morreu com dez tiros. Ele foi pego em flagrante em cima de uma moça, mas a putaria não foi dentro da sacristia como normalmente acontecia, mas sim dentro da casa da mulher. O marido desconfiado da esposa pediu para que seguissem seus passos e quando seu informante avisou que a mesma estava em casa com o padre, ele recarregou sua espingarda e foi pra casa. Ao chegar até lá abriu a porta lentamente e foi sendo guiado pelos sons emitidos pela mulher. A porta do quarto foi derrubada com um chute, os dois, a esposa e o padre se abraçaram, mas foram separados pelo marido furioso. Do lado de fora foi possível ouvir os tiros, as lágrimas e o pedido de perdão da mulher, depois disso um silêncio e em seguida mais dois tiros.
  • A IMOBILIDADE DA LUZ

    Agora do mesmo jeito que os fiz, desfazer-los-ei. Morrem uns para existir outros. Às vezes, o tédio ou falta de perspectiva me faz deletar em massa. Assim eu era. Sei que podia parecer algo cruel deletar a existência de “alguém”, (espero que entenda) não fazia isso por que queria ou por que gostava, simplesmente porque era preciso. 
    A vida foi, a princípio, uma ideia que me surgiu em um momento de tédio; Eu não esperava tanto; simplesmente me surpreendi! Quando tive a primeira ideia da criação, estava passando por um momento conflituoso, tinha me entediado com tantos projetos monótonos e acabei destruindo o meu último projeto que era uma esfera consideravelmente grande de energia branca, e foi aí que tive a ideia de algo mais interessante: resolvi criar uma galáxia invés de constelações e centros sugantes. Mesmo assim, vi que aquilo não passava de uma ampliação dos meus projetos anteriores. Então, fui a pasárgada refletir; estava muito exausto e nenhuma ideia boa ainda me exsurgia. Após algumas consideráveis eternidades, vislumbrei algo que seguia um fluxo próprio e fugia da monotonia; algo que era regido por uma regra geral. Era a gênese da vida. Assim sendo, foi nesse momento que me debrucei em um projeto magnificente: A Criação. Remodelei os destroços da esfera de outrora, criei a natureza e os animais. Com o pulsar das gerações e o dardejar dos milênios, sucumbi ao ver o grande equívoco da criação: foi a pior monotonia que já vivera; antes pelo menos eu podia ter eternidades para outras coisas, entretanto, daí em diante, tive que tutelar esse projeto. Nesse momento, tive muito trabalho, deletando e renovando existências que no fundo seguem uma lógica continua de perpetuação. Isso tudo me dava calafrios em gastar algumas das minhas eternidades nesse fastidioso trabalho. Sei que para infinitas eternidades que tenho, algumas não iriam me fazer diferença. Entretanto, isso me fustigava lentamente e me causava uma monotonia cruel. Foi então que decidi criar uma vida que se destacasse. Por tentativa e erro, comecei por macacos, depois sapos, aliens, e por fim, sapiens. Já estava com as mãos doloridas de tanto misturar. Com o tempo acabei gostando dessa criatura. Pensei, que talvez deveria misturar dois deles. E assim ficou: Sapiens Sapiens. No final do processo, só restou uma criatura, e assim, intitulei-o de Anão. Ah não, não era esse nome; lembrei: Adão. E assim o foi. A criatura a cada “secundos” demonstrava destreza, sabedoria e, assim, me alegrava. Certa vez, resolvi criar o Destino para cuidar da vida e da morte. Com tempo livre, ocupei-me em outros projetos, e acabei deixando a minha criação em segundo plano. E de supetão quando estava no cinturão de Orion, uma ideia catucou a minha mente, sugerindo-me a criação de uma companheira para a criatura. Estava sem tempo para visitar frequentemente a minha criação, e por isso, resolvi dá a luz à ideia. Só que quando fui criá-la, tinha esquecido da fórmula. Misturei sapo, macaco, peixe e acabei criando uma mistura de sapiens com peixes; vi que não estava legal para uma companheira. Chamei-a de sereia para não ser desprezada. E sem obter sucesso, resolvi arrancar uma costela do Adão, e assim, formei uma companheira; intitulei-a de Eva . Vi com o tempo que ambos estavam felizes. Mas isso não me agradava nem um pouco. Felicidade é monótono e monotonia me causava incômodo. Então coloquei uma arvore com frutos afrodisíacos para testar a resiliência de ambos. Eles passaram um tempo se contendo em comer os frutos; foi então que decidi colocar uma serpente para atentá-los. A serpente fez um ótimo trabalho. Ainda me recordo da retórica da serpente que usou para ludibriar Eva: 
    —Estes frutos têm poderes especiais, por que não comes um? 
    —Porque fui proibida; estes frutos não fazem bem. 
    —Não seja tola, se o criador colocou uma árvore desta no paraíso, é claro que foi para vocês. Ele devidamente está testando a inteligência de vocês. E desta forma, ele quer que vocês ultrapassem as restrições e façam a diferença. 
    —hum, talvez tenhas razão 
    —É claro que tenho; sou fruto do criador!. venha aqui; Tome este fruto, este é seu; partilhe-o com Adão. 
    E assim, Eva levou o fruto, e Adão, ingenuamente, comeu o fruto de Eva e não percebeu que caíra na tentação da serpente. Dessa forma, acabei vendo a fragilidade dessas criaturas; vi que estavam muito longe da minha sapiência. E nessa lógica, vi que eles jamais iriam chegar perto dos meus Arcanjos. Com efeito, condenei-os a lei do Destino. E assim ao Destino declarei: 
    —Estarás incumbido de ceifar a vida deles, toda vez que chegar a hora. Eles terão o fado de nascer, crescer, procriar e morrer. Eles não mais viverão uma eternidade. Vão sentir a dor carnal. sofrerão com os temores e seguirão a Lei Natural. 
    Depois me ausentei e deixei-o regendo a criação. 
    Após algumas finitas eternidades, resolvi visitar a criação. Senti um verdadeiro abalo ao ver aonde a minha criação chegara. As criaturas de outrora não mais seguiam a Lei Natural. Criaram a sua própria lei. O Destino estava cada vez mais com problemas. As criaturas estavam dominando cada vez mais a inteligência. Estavam adiando o veredicto do Destino. Guerras, miséria, contrastes, tecnologia, temor, destruição, estavam caracterizando a criação. Aquilo de fato não era monótono, era extremamente inconstante. Talvez a minha ânsia pela fuga da constância tenha a impulsionado à Evolução. Não os via mais como uma criação. Via-os como uma transmutação. E destarte, resolvi me ausentar novamente e esperar mais algumas eternidades para ver até onde eles irão chegar...
  • A Jornada

    Após o futebol e o banho no clube, numa tarde de sábado, dois amigos se dirigem à lanchonete, sentam pedem cerveja e trocam ideias.
    -Novidades?
    -Bem, eu estou pensando. Tenho uma nova ideia para um novo conto.
    -Como sempre, o modo será na terceira pessoa.
    -Você tem razão.
    -Eu já gosto do uso da primeira pessoa, ser participante.
    -Gosto não se discute.
    -Bem! O que versa esse novo conto, cotidiano como sempre?
    -Por que como sempre?
    -É sua praia.
    -Concordo. Você com seus longos romances, eu com os meus contos.
    -Então sobre o que é esse seu novo conto?
    -Espermatozoide.
    -Ah! Dá licença. Fez um gesto pedindo outra cerveja. –E isso dá um conto?
    -Dá.
    -Você está tirando uma comigo. Descreve no geral a idéia.
    -A linha mestra é essa: Milhões de espermatozoides afoitos, preparados. O clímax está para ser atingido, todo o organismo se prepara, neste evento está presente o Organizador.
    -Quem é o Organizador?
    -É a inteligência do organismo, o ser supremo, aquele que decide a melhor tática para lutar contra a morte, prolongar a vida, coisas desse tipo, entendeu?
    -Entendi mais ou menos, a trepada está em curso, os espermatozóides estão se preparando, este fato é de uma importância tal, que conta com a presença do Organizador, certo?
    -Você está pegando o cerne da coisa.
    -Bem até agora não tem nada de novidade, desses milhões de espermatozoides, só um vai conseguir e pronto, acabou o conto. Puxa! Já foi a segunda cerveja, sua vez de pedir.
    -MANOEL MAIS UMA. Posso prosseguir?
    -Sim.
    -O Organizador ao assumir seu lugar de honra, um súbito silencio reina, os espermatozpodes se perfilam em uma formação militar... São aproximadamente trezentos milhões.
    -Igual esses desfile cívico militar?
    -Sim, e o silencio é quebrado pelas vozes em coro dos espermatozoides que ressoa forte no organismo, como um tremor por todo o corpo.
    -O que eles gritam?
    -Ó GRANDE ORGANIZADOR. OS QUE VÃO MORRER TE SAUDAM!
    -Está parecendo os gladiadores da Roma antiga, saudando Cesar.
    -Isso mesmo, essa é a idéia.
    -Hun! Desses milhões, apenas um vai sobreviver, os restantes... É está certo, o restante vai morrer.
    -Não, você deduziu errado, é ao contrario.
    -Ao contrario?
    -Sim.
    -Não é possível, você está dizendo...! Fecundação é vida, e apenas um desses espermatozoides vai conseguir sobreviver... Qual é meu!
    -Afirmo: É contrario do seu entendimento, se você não ficasse me interrompendo a todo minuto.
    -Mas...
    -Até aqui tudo bem com o meu conto?
    -Claro que não, para um possível conto tem que ter pé e cabeça, se é que você ta me entendendo.
    -Claro que estou.
    -Então? Deixa-me pedir mais uma, é melhor chamar o teu filho para nos vir buscar, a lei seca não está para brincadeira, é a quarta.
    -Tenho uma pergunta: O que é que pode morrer?
    -Tudo o que tem vida, é claro.
    -O que fatalmente acontece com um ser vivo?
    -Um dia vai morrer.
    -Como dois mais dois é quatro?
    -Sim.
    -Presta atenção: - Ó GRANDE ORGANIZADOR OS QUE VÃO MORRER TE SAUDAM.
    -Estou quase chegando lá, mas ainda faltam dados para processar.
    - Vou continuar, no desenrolar os dados que te faltam poderão aparecer. Após a saudação: Ó GRANDE ORGANIZADOR OS QUE VÃO MORRER TE SAUDAM, o corpo vibra, a explosão acontece, os que vão tentar a morte se encontram agora no canal vaginal a caminho das tubas uterinas para o encontro com a célula já formada vinda do ovário a caminho do útero, é uma corrida frenética, os mais fracos vão ficando para traz, outros menos vigorosos pegam carona no vácuo.
    -Agora entendi, para a morte agir, é preciso uma vida, logo a vida é o caminho para à morte.
    -Demorou hein?
    -É está certo, os espermatozoides, saúdam o Organizador, porque sabem que caminharão para uma morte certa.
    -É isso ai, imagine-os lutando entre si pelo primeiro lugar nessa luta insana onde apenas um ou dois vencerão. Gritando, berrando: - Tudo por uma morte digna! Para a morte dignaaaa!
    -Agora estou boiando. Tudo por uma morte digna?
    -Sim claro, pois milhões e milhões vão ficar pelo caminho, após a fecundação, os remanescentes que não conseguiram, serão eliminados, destruídos pelo organismo feminino, morrerão sem honra, sem terem conseguido o grande objetivo que lhes daria uma morte digna. Nessa corrida dos espermatozoides até as tubas uterinas, o que cada um deles, passam, sofre para serem os primeiros a chegar, e não há garantia que vão conseguir. Para você essa jornada dá um conto ou não?
    -Sim! Sob esse prisma sim, pode dar até um romance.
    -Eu posso escrever, como um observador que descrevesse as cenas, que inicia com a saudação: Ó GRANDE ORGANIZADOR OS QUE VÃO MORRER TE SAUDAM. Descreverei o desempenho dos mais fortes e hábeis, como também dos mais fracos, individualizarei alguns, como um fraco, que tenta ficar por todos os meios no vácuo de um forte, acreditando que:- Não pode perder esse vácuo, ele o levará até o objetivo,quando chegar utilizará todas suas forças e terá chance, estará mais descansado do que este, que o está levando em seu vácuo.
    -Puxa! Entendi, estou até emocionado, eu venci essa corrida, para mim era tudo ou nada, ao chegar ao canal vaginal após a explosão, parecia ouvir uma voz “venha, venha, mais depressa, mais depressa, nade mais rápido, mais rápido, nade, nade, não desista, você consegue,...”.
    -Isso! Continue, você pegou o fio da meada.
    -Mas o conto é seu...
    -Esquece! Continue, dê um backspace na sua mente até “você consegue”, mas muitas serão as agruras até as tubas uterinas, e quando lá chegardes, após passardes pelo útero novas dificuldades irá enfrentar na tuba uterina, aonde a célula que vem do ovário, é impulsionada por milhões e milhões de cílios em direção ao útero, os cílios são delicados com a célula, a conduzem com carinho maternal, mas tudo farão para te impedir a aproximar-se dela. Lembre-se você não está caminhando e sim nadando! Nadando em um mar cremoso, espumoso, gosmento, esbranquiçado e opalino.
    -Arre!  Xá comigo!... -Eu nadava, nadava naquele mar cremoso, vibrava minha cauda, que me impulsionava para frente, sempre para frente, mas esse mar era revolto, em consequência das mais de trezentos milhões de caudas iguais a minha, que o agitava, e grande parte deles provocava uma forte corrente contrária á minha direção. Dei-me conta da dura realidade do momento vivido por mim. A forte corrente contrária ao meu avanço era originada por milhões e milhões de caudasà minha frete, eu contribuía com minha força e vontade, para esse mar cremoso se tornasse revolto, mas eu não estava na frente. Qual a minha chance? Minha cabeça estava revestida de acrossoma, rica em enzimas que facilitaria minha penetração no ovócito, que está a caminho do útero transportado carinhosamente pelos movimentos suaves e cadenciados dos cílios que revestem a tuba uterina. Chance? Acima, abaixo, à direita, e à esquerda de mim, milhões e milhões de iguais, sempre para frete, nadando, nadando, vigorosas oscilações de caudas que impulsionam para frente e revolvem com vigor esse mar cremoso, oscilações... oscilações que remetem à vida.
    -Bom! Muito bom, poderia ter usado também espumoso e gosmento na discrição desse mar.
    -Não, acho que cremoso está mais... Como vou dizer...
    -Deixe prá lá. Percebo que nesta jornada você já mostra desânimo, questiona qual sua chance, sente-se derrotado antes da hora, e as dificuldades reais ainda não se apresentaram na cena.
    -Tem muita coisa ainda?
    -Como tem.
    -Como você continuaria então a minha jornada uterina?
    -Jornada minha, sua, e de todo...
    -Tudo bem! E?
    -Eu continuaria de onde você parou, a narrar como observador fica mais fácil.
    -Então continue.
    O canal vaginal, é hostil a essa jornada, são barreiras biológicas que tentam impedir a chegada à célula reprodutora feminina, que neste momento continua seu caminho ao útero, deslizando sobre os cílios, mansamente, aguardando , desejando, ansiando, implorando pela sua chegada e de seus iguais. Neste canal que ainda VOCÊ se encontra, o pH é baixo que em contado com esse mar cremoso, espumoso, gosmento, esbranquiçado e opalino, começa a destrui-lo, para desestabiliza-lo, matando sem dó e sem piedade milhares de seus iguais, e VOCÊ, percebe, vê, sente, o genocídio acontecendo na periferia desse mar cremoso, espumoso, gosmento, esbranquiçado e opalino, e pela primeira vez na sua jornada, VOCÊ deixa de nadar para frente, diminui seu ritmo, e muda sua direção em noventa graus para o centro do mar cremoso, agora VOCÊ, está com medo, procura segurança no centro do mar cremoso, e percebe que muitos iguais, adotaram a mesma estratégia, VOCÊ e milhares de seus iguais chegam ao centro seguro, nadam devagar, cautelosamente, lá na frente também há destruição e genocídio, o mar cremoso também continua seu caminho independente de você e seus iguais, com seu perímetro sofrendo ataques contínuos destruidores. Sim o centro é  um pouco mais seguro, foi boa estratégia, seria uma boa garantia de sucesso se VOCÊ fosse o único a ter essa brilhante ideia, mas não! Milhares e milhares pensaram como VOCÊ, no centro você e seus iguais nadam com lentidão para frente, sempre corrigindo o curso, para frente e corrigindo... Corrigindo...  Para se mantiver no centro. Você e o mar cremoso, o mar cremoso, você e seus iguais continuam a jornada lentamente e pra frente e corrigindo... Corrigindo. O útero não pode estar muito distante, e no colo uterino será travada a batalha final, onde se encontram as glândulas mucosas, que liberam um muco que impede a passagem de vários microrganismos, como também tentará impedir a sua e de seus iguais, e os que conseguirem passar, serão todos vitoriosos? NÃO, TODOS NÃO, APENAS UM OU DOIS! Se prepare para a batalha final que abrirá caminho para a tuba uterina onde se encontra a célula que vem do ovário, que é impulsionada por milhões e milhões de cílios em direção ao útero, os cílios são delicados com a célula, a conduzem com carinho maternal. Parabéns VOCÊ CONSEGUIU ATÉ AQUI. Olhe à sua volta, o que vês? Cadê os milhões de iguais, ondem estão, ficaram no caminho, pereceram? Note! Quantos sobraram, quantos são os sobreviventes até agora, dez, vinte? Hum! Eu acho que mais ou menos uns trezentos imaginem dos aproximadamente trezentos a quatrocentos milhões sobraram apenas trezentos incluindo VOCÊ. Olhe, para eles, olhe bem para eles... Eles... Eles estão firmes, inteiros e como você ostenta nas cabeças carapaças de ocrossamas, isto indica que tanto eles como Você estão aptos a perfurar e adentrar na célula que vem do ovário, que é impulsionada por milhões e milhões de cílios em direção ao útero, os cílios são delicados com a célula, a conduzem com carinho maternal, mas tudo farão para te impedir a aproximar-se dela. Elas oscilam... Oscilam...Conduzem...Conduzem... Contrárias à sua direção, não se preocupe, o ambiente não é mais hostil e sim aconchegante, acolhedor... Propício a voz que fala, ouça... Ouça... “venha, venha, mais depressa, mais depressa, mais rápido, mais rápido, não desista, você consegue,...”
    Agora É COM VOCÊ...
    Como verdadeiros aríetes os espermatozoides que são agora não mais que cento e cinquenta, os outros não conseguiram vencer os cílios em oscilações direcionadas ao útero, arremetem contra a célula, e muitos ainda após a investida são levados pela correnteza dos cílios caindo dentro do útero e sem nenhuma chance de volta. Cadê VOCÊ? Já rodou na correnteza contraria dos cílios, aonde a célula que vem do ovário, é impulsionada por milhões e milhões de cílios em direção ao útero, os cílios são delicados com a célula, a conduzem com carinho maternal. Onde está VOCÊ, ainda está arremetendo com fúria tua cabeça contra a célula? Ou...
    Ou... BINGO! BINGO! VOCÊ CONSEGUIU... Faça bom proveito de sua morte digna.
    -Acabou?
    -Sim
    Posso ser sincero?
    -Com certeza.
    -Depois de toda essa luta, agruras, para ganhar uma morte digna, te confesso sinceramente que não tenho pressa alguma de me encontrar com a DIGNA.
    -Nem eu.
  • A lamparina de Luanda

    Pouca gente sabe que morei em Luanda, capital de Angola, na África, durante o curtíssimo período de fevereiro de 1977 a março de 1978, com minha família, onde comemorei dois aniversários, o de onze e o de doze anos. Foi esse um fato que se tornou secreto, não sendo comentado nem mesmo nos círculos familiares, e que meus pais, não sem justa razão, fizerem questão e esquecer. Mas o que de mais secreto há nessa história se deve ao meu silêncio, pois nem mesmo meus pais jamais vieram a saber - pois nunca lhes revelei: é que lá conheci Kambami, um feiticeiro, por meio de quem vivenciei um acontecimento estranho, inconcebível mesmo para a mente de um brasileiro, ou talvez para qualquer mente que não seja africana.
    Antes, morávamos no Rio de Janeiro, onde meu pai trabalhava como encarregado de obras numa firma de construção civil. Deu-se, porém, que a firma faliu, e ele ficou desempregado por quase um ano. Ao final desse período, minha avó paterna, cujo pai viera do Congo para o Brasil em 1890, apresentou pela primeira vez ao meu pai a ideia de ir para a África, morar em Luanda, onde vivam dois tios e uns primos dela.
    Mas que futuro melhor alguém poderia esperar, trocando o Rio de Janeiro por Luanda, ainda mais que Angola estava enfrentando um conflito armado desde 1975? No caso de meu pai, havia, sim, um vislumbre de futuro, e, quem sabe, até de um grande futuro: ele tinha sido lapidador antes de entrar para o ramo da construção civil, e Luanda era um grande centro de comercialização de diamantes. E não havia muito mais o que se fazer na cidade. Seja como for, tanto que meu pai pensou nos diamantes, não quis outra coisa.
    Viajamos: eu, meu pai, minha mãe e meu irmão, este mais novo do que eu dois anos. O avião fez uma conexão na Líbia, era uma sexta-feira, às duas horas da tarde, e a primeira sensação que tive ao saltar no aeroporto foi a de que o calor fosse me matar antes que eu pudesse pedir um copo d’água. Mas em Luanda não era tão quente assim, caso em que eu não estaria aqui agora para contar a história.
    Fomos morar num bairro que, lá, era de classe média, mas, aqui no Brasil, não passaria de um cortiço. A casa era péssima; as águas, pestilentas, e eu esperava que ficássemos naquele bairro e naquela casa só provisoriamente, até que arranjássemos outro lugar, em melhores condições. Havia um odor nauseante e contínuo de esgoto a céu aberto, frequentes cortes de energia elétrica e, por conseguinte, falta de água. Dias mais tarde, descobri que em Luanda pagava-se um ano de aluguel adiantado, motivo por que era certo que teríamos de passar pelo menos um ano naquela casa, a menos que meu pai tomasse o prejuízo financeiro referente à quebra de contrato, para mudarmos mais cedo dali. Passou-se um ano que, a mim, pareceu uma eternidade, e, enfim, meu pai chegou com a notícia de que tinha encontrado uma nova casa. Antes, porém, que nos mudássemos, como não poderia deixar de ser, minha mãe quis ir vê-la para dar seu aval, e no dia em que ela foi, eu e meu irmão fomos juntos. Meu pai não estava conosco, pois tinha ido acertar detalhes do contrato de um trabalho que havia conseguido. Aproximando-se da casa, eu e meu irmão nos adiantamos três ou quatro passos, e entramos nela antes de minha mãe. Era uma tarde cinzenta e enxergava-se com certa dificuldade no interior da habitação, mesmo com a chama bruxuleante de uma lamparina que ardia em cima de um baú antigo de madeira escalavrada a um canto da sala. Minha mãe entrou. E foi justo nesse momento, quando nós três achávamo-nos no interior da casa, que ela me fez saber que se passava ali o estranho fenômeno.
    - Quem apagou a lamparina? – perguntou-me ela, com uma expressão muito exasperada.
    Apontei para o meu irmão, que tinha acabado de cair ao chão subitamente, sem nenhum motivo aparente, e havia perdido os sentidos. Com um grito de pavor, depois de apertar o rosto com as duas mãos, minha mãe atirou-se sobre ele, segurou-o pelos ombros e agitou-o loucamente. Mas ele não esboçou reação. Minutos depois ele foi internado, tendo sido levado ainda desacordado ao hospital, por alguém a quem minha mãe pediu socorro.
    Amedrontado, entendi logo que havia uma sinistra relação entre o apagar da lamparina e o mal súbito que se abateu sobre o meu irmão.
    Senti-me aliviado quando, no mesmo dia, minha mãe disse que se recusava a ir morar naquela casa. Meu pai comentou que era bobagem, mas não chegou a interpor nenhuma objeção contra a decisão dela. E, assim, continuamos no mesmo lugar.
    Chegando em casa, minha mãe me chamou e disse que precisava me explicar uma coisa.  Foi então que ela contou o real motivo por que tinha ficado tão desesperada ao ver meu irmão caído. Antes de começar a dizer, ela hesitou, disse que era uma coisa horrível, mas horrível mesmo, e que só Deus podia nos ajudar, então falou: existe uma tradição em uma certa comunidade de Angola, cujo nome ela não conhecia, em que se praticavam rituais satânicos, sacrificavam crianças, que eram postas nuas em cima de chapas de ferro em brasa, bebiam sangue de galinha diretamente no coto do pescoço cortado, comiam cacos de vidro, atravessavam punhais no coração e não morriam, nem sequer sangravam, proibiam seus adeptos de trabalhar ou estudar, colocavam jovens nus e de mãos amarradas às costas deitados em cima de formigueiros, onde ficavam até desmaiar das picadas. E havia também as mandingas, que eram muitas e muito eficazes, entre as quais estava a que consistia em um método para se salvar do inferno a alma de algum homem que morresse com muito pecado, mas que lograsse o respeito e a benquerença da comunidade: com um ato hediondo de bruxaria, lançavam-se os pecados da alma desse homem venerado sobre a alma de alguém, para que pagasse os pecados em seu lugar – pois pecados nunca podem ser extintos, mas apenas passados de uma alma para outra. E o que faziam para passar o pecado de uma para outra alma? Assim que morria o homem pecador, porém idolatrado pela comunidade, acendiam uma lamparina e a deixavam dentro da casa em que ele morara. E aquele a quem o destino se dignasse em enviar para apagar a chama da lamparina, recebia sobre si toda a carga de pecados do morto, vindo a morrer também, pouco depois, de morte feia – pois pecadores não têm morte bonita - indo sua alma para o inferno em lugar do outro. Chamavam esse ritual de Gees Brandm, em africânder, o que significa algo como “espírito que queima” ou “espírito do fogo” ou “espirito em chamas”. Era de prodigiosa emergência para a comunidade a realização desse mister, e muito necessário era que alguém apagasse a chama, pois, em não aparecendo ninguém que o fizesse, e expirando-se oo fogo naturalmente pelo extinguir da combustão, estaria o venerável homem morto irremediavelmente condenado à danação.
    O médico pediu alguns exames, e mamãe lhe disse que ia providenciar o mais rápido possível. Chegando em casa, entretanto, ela disse:
    - Não haverá exame nenhum! Isso não é caso para medicina. É coisa de mandinga. Só se cura com outra mandinga. Ou talvez nem assim... oh, meu Deus...!
    E decidiu que ia procurar Galobé de Prates, um padre curandeiro que vivia num bairro próximo, e que, apesar de católico, batia tambores às vezes.
    - Ele não tem nada – afirmou o padre. - Nada de espiritual, quero dizer. Se quer um conselho, a senhora deveria procurar um médico.
    Mas havia um problema sobre o qual meus pais não haviam pensado antes de mudarmos para Luanda, e que, se tivessem pensado, talvez nunca teríamos saído do Rio de Janeiro: eles não confiariam aos médicos de Luanda nem mesmo o tratamento de uma dor de barriga.
    Em casa, tendo conversado sobre o que o padre dissera, mamãe e papai chegaram à mesma conclusão, e quase disseram a uma só voz que voltaríamos o mais breve possível ao Brasil.
    Foi à véspera de nossa partida de Luanda, que conheci Kambami, o feiticeiro.
    Eu estava em frente a casa, brincando, quando um homem negro muito velho de cabelos brancos, vestindo calça e bata brancas, passou do outro lado da rua e me chamou pelo nome... por nome? De onde ele me conhece? Eu nunca o tinha visto antes, e estava decidido a não ir até ele, mesmo porque mamãe sempre nos ensinara a não conversar com estranhos. Mas, seja como for, uma força estranha me fez atravessar a rua, mesmo sem querer.
    Ele me disse que precisava falar comigo antes que eu fosse embora de Luanda... antes que eu fosse embora de Luanda? Como ele sabia que eu estava para ir embora de Luanda? Pediu-me que eu o seguisse, mas não disse para onde. E fui. Não sei por que, mas eu agia tão naturalmente, que parecíamos velhos amigos, e que não houvesse qualquer perigo em um menino de doze anos acompanhar um estranho a lugar ignorado.
    Chegamos a um largo barracão de madeira enegrecida pela exposição diuturna ao sol e à chuva, coberto de palhas e com uma chaminé fumegante. A área interior era ampla, sem divisórias, e o piso, de chão de terra batida. Kambami me chamou para nos assentarmos num dos bancos de tábua que se instalavam rente às paredes, ao redor de todo interior o salão. Foi somente aí que ele me disse seu nome e o que queria comigo.
    - Você é um escolhido – falou ele, com uma voz de trovão que surpreendeu por ter saído da garganta de um homem tão velho como era Kambami. – Você não sabe, nem seus pais sabem, nem ninguém sabe, mas um escolhido tem direito a um pedido, qualquer pedido, aos nossos bons espíritos.
    Kambami tinha um olho preto e outro branco,  este parecendo queimado com ácido ou fogo, ou seria uma marca de nascença, não sei. O fato é que olhei para os olhos dele e senti um arrepio. Levantei-me do banco e saí correndo.
    Naquela noite eu demorei para pegar no sono e, quando adormeci, tive pesadelos em que vi meu corpo fritando sobre chapas de ferro em brasa, e galinhas sem cabeça rodopiando pelo chão, aspergindo sague pelo coto do pescoço.
    No Hospital de Beneficência Portuguesa do Rio de Janeiro, o médico disse à minha mãe que meu irmão estava imediatamente liberado para ir para casa, pois o seu problema era uma simples anemia, o que seria tratado com vinte gotas de Combiron, duas vezes por dia, durante cinco dias.
    Foi à mesa do jantar que, conversando, meus pais decidiram que não comentariam com ninguém o fato ocorrido na África, pois, de qualquer modo, o ritual de transmissão de pecados de uma alma para outra era, no mínimo, uma coisa esdrúxula, em que as pessoas resistiriam em acreditar, e os tomariam por mentirosos. Mamãe reparou em como meu irmão, sentado à cabeceira da mesa, estava saudável, e disse que, talvez, a história da mandinga do Gees Brandm fosse só uma lenda, ideia essa com a qual meu pai concordou de pronto e disse que era isso mesmo que ele sempre achou. Já tinha dito a ela que era uma bobagem, então não se lembrava?
    Mas a felicidade de meus pais foi duramente golpeada dois dias depois, quando, voltando da escola, ao passar pelo portão, entrando em casa, perdi os sentidos e caí nos braços de minha mãe, que me esperava ali. Minutos depois, encontrava-me no mesmo Hospital de Beneficência Portuguesa do Rio de Janeiro, em que meu irmão estivera, mas, dessa vez, o médico não disse que se tratava de algo simples. Em vez disso, fiquei internado, entrei em coma vinte minutos depois, e os exames, que ficaram prontos vinte e quatro horas depois, indicaram tumor cerebral oligodendroglioma de crescimento rápido e agressivo no lóbulo frontal.
    Parecia não haver no mundo sentimento de consternação maior do que aquele que vi no semblante de minha mãe, quando acordei do coma e ela estava olhando para mim. Dali em diante, eu teria vida por mais alguns meses, talvez um ano ou pouco mais, como fiquei sabendo por ter ouvido o próprio médico contar a meu pai, num momento em que ambos conversavam perto do meu leito, achando que eu estivesse dormindo.
    Se a tristeza de minha mãe era grande, não o era, porém, a ponto de que não pudesse ser aumentada. E foi pensando em poupar-lhe de maior sofrimento, que resolvi me calar, e não revelar-lhe a verdade que eu tinha escondido sobre a lamparina de Luanda: a verdade de que a chama quem apagou fui eu.
  • a lenda de Èden/capitulo 4 o poderoso guardião fracassado (P & R)

    -isso foi rápido demais eu não vi quase nada-questiona luna
    -é assim mesmo mosa,guardiões da luz tem sua velocidade elevada desse jeito mesmo-fala pafunsu
    -eu não te dei o direito de me chamar de mosa-fala luna
    -bom vamos focar na próxima luta -fala pafunsu
    -primeiro como foi a sua luta
    pafunsu olha para cima e começa a pensar 
    -Oh não-fala luna 
                                                                 //////FLASH BACK TIME COM COMENTÁRIO EXTRA\\\\\\
    -outro flash back naaaaaoooo-fala luna
    -ja era-riu pafunsu
                                                                               INICIO DO FLASH BACK TIME
    Depois de pafunsu entrar no campo foi anunciada a luta entre ele e um cara desconhecido,quando começam a lutar pafunsu da um chute que afunda o rosto do sujeito e o dito-cujo perde a luta
                                                                                   COMENTÁRIO EXTRA
    -isso foi rápido,até demais-falou luna

    -guardiões da luz tem uma velocidade muito alta,porem uma defesa baixa de mais-falou pafunsu

    -por isso acabou rápido-fala luna

                                                                              CONTINUAÇÃO DO FLASH BACK TIME
    E na outra luta,era um guardião mais lento e com muito mais defesa,porem pafunsu era muito rapido e o outro cara nem chegara perto de sua velocidade e pafunsu o finalizou com facilidade,e por fim a ultima luta,porem esse cara era diferente dos demais 

    -acho que vou aparecer dele e dar aquele baita chute trava coluna nele- falou pafunsu

    ele o faz porem erra,por que seu adversario se defendeu com um outro chute,então tentou dar um soco e seu oponente parou o soco com outro soco ate que pafunsu pensa:

    -vou jogar um trovão nele 

    então pafunsu joga um trovão que errou,porem servia apenas para atrapalhar e atrair o adversário,perto o suficiente para atravessar a sua cabeça com uma mao aberta e eletrificada e assim que atravessa sua cabeça ela explode e ele é declarado vencedor da luta e o primeiro guardião da luz
                                                                                          FIM DO FLASHBACK TIME
    -agora falta a luta de quem-pergunta pafunsu

    -do gustavo-fala luna

    -era,não é mais,agora é a luta do rafael-fala gustavo

    -vai chorar-zoa pafunsu

    -nao,mais to quase-fala gustavo

    entao,finalmente os guerreiros de fogo entram em campo porem o destaque é mais do brasileiro de altura mediana e cabelo escuro e forte,estava sendo destaque por ser um daqueles que ajudou juan com aquela criatura de fogo e estavam em punhos uma luva e uma espada,algo que digamos era meio diferente,afinal pra que usar uma luva,mas ao iniciar a primeira luta que no caso era a dele o rapaz qua agora sabiamos o nome por anuncio de cahethel:lan santiago era seu nome e por coincidencia o outro cara tambem era brasileiro e se chamava edgar

    -isso esta muito estranho o nick falou que cabelos de cores estranhas sao caracteristicas dos descendentes dos guardiões da terra,só que nenhum dos guardiões do fogo tem olhos vermelhos,nem o rafael tem isso-fala pafunsu

    -pafunsu eu quero assistir-fala luna sentada em uma cadeira de rodas comendo um pãozim

    ao começar a luta edgar solta uma bomba de canhão de fogo 

    -esse ataque pode incinerar um planeta inteiro diga adeus aos seus ossos-fala edgar com uma risada alta

    lan apenas poem sua mão com a luva para frente e devolve para seu oponente o ataque como se não fosse nada e incinera completamente todo o seu corpo até reduzi-lo a cinzas

    -isso foi rapido-falou luna

    -luna para de falar so isso,mas realmente foi bem rapido,rapido ate de mais-fala pafunsu 

    porem a proxima pessoa a entrar em luta é seu amigo rafael

    -bom é isso vou conseguir-falou rafael

    no inicio da luta refael lança seus ioios a ponto que ficassem com suas cordas por todo o campo,quase que impossibilitando seu adversario de se mover,entao o adversario tenta queimar as cordas,que apenas ficavam em seu lugar sugando a energia e repassando a força pro ioio que ia ficando maior e deixando as cordas cada vez mais quente e entao rafael mexeu seus fios ate que cortou seu adversario e transformou-o em uma especie de picadinho frito de carne humana e entao rafael e declarado vencedor da luta

    -meu deus(do ceu berg)que nojo ele cortou o cara como picadinho argh-fala luna
     
    -meu deus que merda to com vontade de vomitar-falou pafunsu

    cahethel pede para alguem vir la para ressucitar o rapaz e devolve-lo a terra,afinal o perdedor teria apenas os poderes retirados e depois iria ser mandado para a terra para poder viver normalmente a sua vida na terra 

    -espero que perca logo,esse garoto é um piromaniaco sadico,nao seria uma boa te-lo como guardiao-pensou cahethel 

    a proxima luta sera entre lan e rafael

    -se prepare para ser queimado-falou rafael

    a cara de ridicularizaçao de lan era tao grande que chegou a ser ridiculo pra ele o que rafael falava,entao meio totalmente puto da vida rafael jogou seu ioio em cima de lan que nao apenas segurou como tambem quebrou o mesmo 

    -serio isso nao destroi nem um planeta anão gelo,acha mesmo que pode comigo-sacaneou lan

    tudo isso deixa rafael mais puto e tambem desesperado,ele refaz o ioio com suas chamas e aumenta o tamanho do mesmo a ponto de poder subir em cima do ioio como um carro gigante e tenta atropelar lan que desvia com uma facilidade enorme com se estivesse apenas dando um pulinho pro lado e da uma zoada

    -tao lento que nem chega a mach 1

    rafael putao responde:esse deus aqui chega a mach 36.000 

    -nao chega nem a mach 900 de tao lento 

    rafael acelera mais uma vez e lan apenas pega sua espada e da um corte certeiro no meio do rafael e corta o ioio dele ao meio e antes que rafael pudesse reclamar lan aparece rapido atraz dele e corta sua cabeça em instantes e assim lan e declarado ganhador por cahethel  e na plateia luna fala:

    -ele perdeu mesmo meu desu,eu dont believe

    -perdeu feio-fala pafunsu

    -nao acredito nisso-fala gustavo irritado-ele nao devia ter perdido 

    sim era isso rafael tinha perdido feio e lan havia se tornado o novo guardião do fogo,rafael foi ressucitado,teve seus poderes extraidos e foi mandado para seus pais na terra com a advertencia de nao mexer de novo em fosforos,mas claro cahethel deixou ele se despedir dos amigos afinal as proximas lutas seriam seguidas em elemento:agua,depois espiritual,depois escuridao,depois terra e por ultimo estrela ja era quase certo os vencedores afinal no ataque ja tinha uma da agua,uma da espiritual e uma da escuridão porem terra e estrela foram considerados dificeis de saber afinal havia tres guardioes da terra no incidente e nenhum da estrela,mas apos as despedidas começaram as batalhas da agua e a vencedora foi kamillie orihara da oceania,foi uma luta rapida nao igual a dos guardioes da luz mas tambem tinha seus meritos

    -aposto que foi bem facil ne,kamille ou posso te chamar de kamie-fala luna para a nova guardiã

    -serio querida e a sua-fala kamie

    -eu quase morri-fala luna

    -deveria ter morrido-fala kamie

    -que moça ruim pra eu-fala luna

    pra se ter uma ideia do quao rapido foi cada luitra era aproximadamente 20 segundos por luta depois disso era uma vitoria muito facil

    -nao curti essa moça,,mas curti as outras duas -falou luna

    essas tais garotas eram as duas dos elementos espiritual e escuridão,regendo o elemento da escuridão estava uma garota chamada julie kanam de istambul tinha uma personalidade calma e bem calada e ate alegre porem muito timida e gostava de chamar todo mundo de demonio algo que mostrava seu autismo com força altissima e regendo o elemento espiritual estava giulya kim than essa diferente da ultima ja era mais ativa e animada e gostava de cantar do nada,em especial k-pop (eu tenho uma amiga que gosta dessas musicas e como eu tava sem nada melhor pra colocar presente pra voces) as 2 seriam as mais novas guardiães do grupo 
                                                                            ENTREVISTA UTILITARIA COM LUNA GERLOFF
    -oi,oi,oi tudo bem,tudo bão-pergunta luna

    -tudo bem-fala giu

    julie calada

    -que merda eu to fazendo aqui-falou kamie

    -entrevista,xiu-sussurra luna

    -nao quero ficar no autismo de voces-fala kamie

    -xiu,agora continuando como foi a ultima luta de voces-pergunta luna

    -eu so entupi a mina de agua e explodi ela,como qualquer ser humano normal faria-fala kamie

    luna assustada pergunta:

    -e o que voce mais gosta kamie

    -rola-fala kamie-de varias idades idades,de muitos amores

    luna vermelha finge que nao escutou nada e passa para giu

    -entao giu como foi sua luta-pergunta luna

    -eu basicamente invoquei espiritos do alem e fiz todos atacarem como distraçao e voei por debaixo da terra em forma fantasma e possui o meu oponente por traz enquanto secava seu corpo-fala giu

    -e pior que a primeira-pensou luna desesperada

    e assustada luna pergunta com uma cara de nao me mate:

    -e....doq......do que voc.....do que voce gosta

    -kpop,escuto o dia todo,ate dormindo se possivel-fala giu 

    Luna agarra giu e fala:

    -meu desuuuu nos vamos dar tao bem

    -giu esta assustada com voce apertando ela assim luna-fala gustavo como um cameraman ou algo do tipo

    -ok,ok,ok eu largo,mas agora e sua vez julie-fala luna

    luna ja simpatiza com a garota ser baixinha a ponto de parecer uma versao de mini-chibi baby edition

    -entao como voce venceu-pergunta luna

    julie fica calada

    -fala pelo menos de quem voce gosta

    entao a garota gagueja e fala:
    hu..hu....hu...huinglerson-e some em uma sombra de vergonha 

    todos os presentes ficam calados por um instante e luna com um sorriso encerra a transmiçao

    -bae,bae pessoas-fala luna
                                                                              FIM DO ENTREVISTA COM LUNA GERLOFF
    -o que foi isso perguntou gustavo

    -nem eu sei acho que ela gosta do....-fala luna ate ser interrompida pelo pafunsu

    -quem gosta de quem-pergunta pafunsu

    -eu..eu gosto muito de pãozim-fala luna

    -e eu gosto de assistir a luta,elas sao muito bacanas

    -principalmente as com poderzinho sem a rajada tipo seu ataque na ultima luta-fala luna

    -e eu tambem-fala giu sobrando no canto mas manjando da situação 

    -e a proxima luta parece estar prestes a começar-fala pafunsu

    e julie estava com eles porem calada 

    -ainda bem que voces gostam por que o nick e o juan vao lutar daqui a pouco-fala pafunsu

    -eu avaliei os dois,so iram se encontrar se for na final,mas seu amigo nao tem chance o poder do juan é anormal para um guardião da grama,eles nao passam de curandeiros e protetores,juan de algum jeito serve de ataque e aquele modo dele nao vai ajudar em nada-fala julie

    -ela falou-riu pafunsu-finalmente hahaha

    julie some de novo e pafunsu estranha novamente (ate ai tudo normal)

    -ela ate que ta certa a luta deles vai ocorrer no final,vai ser emocionante-fala luna

    -duvido que esse tal de nick ganhe,nao esqueçam que tiveram 3 guardiões da terra no incidente e pelo jeito ele vai lutar com os 3-fala giu

    -eu confio no moso-fala luna

    -eu tambem-fala gustavo

    -concordo-fala pafunsu

    entao as outras guardioes retrucam

    -vai levar surra-fala kamie

    -chute na butt-fala giu

    -uhum-fala (ou grunge)julie 

    entao alguem vai andando naquela direçao era lan

    -alguem percebeu que o primeiro nome dele e mais japones que o do gustavo-fala pafunsu

    lan vai ate gustavo e da um soco com força na barriga dele que o faz cair,e o arrasta pelo cabelo ate cahethel,entao cahethel ouve o que o garoto tem a dizer e troca umas letras de um crachazinho que esta com cada um

    -o que aconteceu-perguntou luna

    -esse cara no dia que eu cheguei aqui deu um jeito de trocar nossos nomes e nacionalidade pra ele parecer japones,eu sou o unico hikari aqui,Lan Hikari-fala Lan

    -nao tendi nada-fala luna 

    -nem eu-fala pafunsu com gustavo vomitando sangue nos braços tentando ajeitar ele

    -aquele e o amigo de voces indo pro ringue-fala kamie

    -e ele sim-fala gustavo meio tonto

    -e o moso-fala luna

    -parece ter uma rola bacana-fala kamie passando a lingua sensualmente entre o labio 

    -eu mereço-fala luna envergonhada de como caminha a humanidade

    mais todos estavam ansiosos afinal nick iria lutar finalmente contra alguem,afinal apos uma historia com aquela (cap2) era impossivel nao ficar curioso com o treino,entao entram em campo um dos 2 caras do incidente e nick dormindo por que cahethel apenas o lançou pro campo enquanto ele dormia meio ensanguentado

    -prontos-fala cahethel-comecem

    -isso nao e justo o moso ta dormindo-fala luna

    entao no meio do campo o outro cara grita:

    -ninguem te perguntou nada,indiazinha

    luna e seus belos cabelos de india se ofendem e mandam ele se-fu mentalmente

    a luta começa com o adversario apontando-lhe o dedo e falando:

    -renda-se eu sou o mais forte aqui e posso destruir qualquer um

    ele era alto como se tivesse 2m e 10 de altura,mas nick ja esta dormindo no chão,como se estivessem pouco se importasse  e seu oponente considerou isso como uma afronta direta de nick e da um soco no chao causando um terremoto que apenas fez nick ficar rolando pelo chão ate que foi chegando perto de seu adversario rolando pela grama do local e ao tentar esmagalo com um pisao,nick chuta ele no rosto ainda no chao dormindo e afunda o rosto do pobre rapaz que ia esmagar a cabeça de nick com um pisão e ainda racha a barreira media de cahethel,todo destruido pelo chute o guerreiro se levanta porem ja e tarde nick esta em pe em sua frente dormindo e lhe da um soco na barriga que explode tanto o seu estomago quanto o resto da barreira do cahethel,entao cahethel fala:

    -treinamento duro pessoal,vamos fazer magia do tempo no sr.matias pra ver se acorda

    apos tenta usar a magia do tempo cahethel nao consegue e fala:

    -nao acredito,mudança do tempo nao funciona nele

    -o que isso quer dizer-pergunta luna

    -significa que nem se eu mudar o tempo,o nick nao vai ficar parado,nao vai envelhecer mais rapido e nem tentar diminuir a velocidade dele e ainda me proibe de viajar pro passado enquanto eu estiver a 1 galaxia de distancia dele-fala cahethel

    -chega vei,esse cara ta muito apelão-falou pafunsu

    -disse o cara que terminou 3 lutas em 4 milisegundos-fala nick

    -voce nao tava dormindo-falou pafunsu

    -habilidade de fotossintese e so eu estar encostando em terra que eu me recupero mais rapido-fala nick

    -bom mais tirando isso-nick colocando um punho fechado em frente ao rosto so que com um sorriso corajoso-eu vou vencer todo mundo,que esta aqui eu prometo isso pra voces 
    FIM
    __________________________________________________________BONUS_________________________________________________________________

    NOME:Kamille Orihara        APELIDO:Kamie         PAÍS:Australia
    ELEMENTO:Agua        HABILIDADE:Solidificação e Gaseificação
    GOSTA DE:Instrumentos Pessoais Masculinos (IPM)

    NOME:juliane kanam      APELIDO:Julie     PAÍS:Istambul
    ELEMENTO:Escuridão      HABILIDADE:Nuvem escura
    GOSTA DE:Pafunsu (DARK STALKER)

    NOME:Giulya kim than    APELIDO:Giu      PAÍS:Coreia do Sul
    ELEMENTO:Espiritual      HABILIDADE:Necromancia
    GOSTA DE:K-POP

    ________________________ERRATAS__________________
     NOME:Gustavo Santiago  APELIDO:Gusta ou Gustavo  PAÍS:Brasil
    ELEMENTO:Estrela     HABILIDADE:Escudo Estelar
    GOSTA DE:Olhar as estrelas

    NOME:Lan Hikari   APELIDO:Nenhum   PAÍS:Japão
    ELEMENTO:Fogo    HABILIDADE:Escudo Estelar
    GOSTA DE:Não se sabe




  • A Morte

    Entre os castiçais, fogo e reclusão.
    Era uma madrugada alta cheia de inspiração onde eu me deitava com ela contando os morcegos do teto.
    Uma voz: "aqui, entre os dois, eu me escondo e digo amém às suas diabruras".
    Levantamos e fomos até a penteadeira. Nada no espelho...
    Nos espantamos ao ver em nossa cama a Morte e uma rosa branca, exclamamos: "que lisura antiga tal honra!"
    E num torpor pegamos uma adaga e cortamos nossos possessos.
    Dormimos, o sol entrou e nos queimou.
    Morremos. O fim do mundo acabou.
  • A MORTE DO DELATOR

    O que acha que vai acontecer, Cabeça Dura?
    A pergunta foi feita por uma amiga do peito. De peito, de boca e de outras anatomias. Mas o “Cabeça Dura” originava-se de minha fama de teimoso. Também, né?
    Não tenho ideia, Branquinha.
    Tratava-a por Branquinha em razão da pele lanuda. Atributo que lhe trazia temores e tremores, haja a vista o assédio de gulosos lobos, a exemplo daquele que, sem a menor consideração ao pudor, comia-a com os olhos.
    Bicho nojento, disse Branquinha, desviando-se do ardiloso olhar e colando-se a mim.
    Nunca vi o Planalto tão cheio, Cabeça Dura. Que fauna, hein!
    Tinha razão a Branquinha. O ambiente acolhia sotaques para todos os gostos. Alguns soltavam brincadeiras, outros aturavam-se, porquanto inimigos de longas datas, mas a maioria estampava a interrogação no semblante. Não era para menos: havíamos recebido a ordem de estar ali às oito horas da manhã. “Para cientificá-los de uma notícia de extrema gravidade”, dizia a nota assinada pelo chefão. Agora estávamos a esperá-lo.
    Olha ali, olha ali aqueles dois, Cabeça Dura. A mocinha e o velhote. A orelhuda impiedosa e o bengaludo impiedoso. De papo, hiena e pantera. Pode um negócio desse? Só acredito porque estou vendo, Cabeça Dura.
    Dei a concordância de cabeça. A reunião tinha o mérito de juntar aquelas figuras, cobras criadas, com umas a engolirem outras. Se bem que, aqui acolá, algumas engoliam sapos. É a vida, a lei da selva. É o secular jogo de interesse, em que predadores e presas vivem trocando de posição e ingênuos caindo na conversa de espertalhões. O Homem bem que podia ter bolado uma travinha nessa criação a fim de harmonizar os interesses antagônicos. Brequei a tola reflexão, já que o chefe acabava de chegar.
    Não digo silêncio sepulcral porque detesto chavões. Mas o silêncio que se fez era sepulcral, sim. Éramos os vassalos aos pés do rei.
    Como a nos lembrar que aquele território era dele, o chefe deu tremenda patada, situou-se no centro dum círculo, olhou-nos ferozmente e abriu o discurso em forma de rugido:
    Falta um camarada aqui. Já perceberam? Esse camarada é um infrator da lei. Traidor de nossos princípios. Esse...
    Não notamos a falta de ninguém. Será que...
    Como ousa me interromper, seu veado?
    Vejam. Brigamos por termos a violência em nosso sangue. Isso nunca vai mudar. Matamos exclusivamente para sobreviver. Saciados, cessamos a matança. Isso também é milenar. Pois bem, há dias eu investigava um camaradinha. Não sei como soube, certo é que ontem ele me procurou. Disse que se entregava, mas tinha valiosíssima informação a me dar. Em troca, queria o perdão da pena. Concordei. Concordei, mas vou matá-lo, vou extinguir a sua raça. Odeio delatores. Era isso que eu queria compartilhar com vocês. Agora, a delação dele, camaradas, é gravíssima. Precisamos extinguir também a raça...
    Data vênia, majestade. Quem é o...
    Porra, caralho! Feche essa matraca, filho duma cadela. Por que não vai coçar o focinho, seu cão sarnento?
    Devia ter mais respeito com a gente, seu velho safado, e não ficar estuprando a educação com essa bocarra fedorenta. Não basta esmagar a ética com as suas patadas?
    Cadê você? Me respeite. Me chame de majestade.
    Respeito uma ova. Você não merece respeito, tampouco o título de majestade. Nem o tratamento padrão de nossa espécie, o amável camarada, você merece mais. Merecia a nossa reverência até ir passear no podre território dos humanos. Divertia-se nos circos e jogava fora os nossos valores. Tanto é verdade que voltou crápula e com essa linguagem chula. Misericórdia! Vai ter de me escutar agora, seu mentiroso duma figa. Vou desmascará-lo, bandido. Escutem, camaradas.
    Ficamos de queixo no chão. Eram milhares de vozes sincronizadas, mas não víamos as falantes. Voz limpa, comunicação perfeita, verdadeira arte. Sabíamos, contudo, que a voz era das camaradas formigas. Deitaram falação:
    Escutem, camaradas. Vou dar nome aos bois. O infrator da Lei da Selva, infratores, aliás, são o camarada Búfalo Americano e esse aí. O camarada Búfalo não vai morrer. Está chupando o dedo, leve e solto por aí. Não houve investigação, pena, muito menos delação, camaradas. Mas houve e está havendo crime. O camarada Búfalo e esse aí estão estocando alimentos. Estocando carne, camaradas. Carne, entenderam? Sabíamos da tramoia, por isso, ontem, uma formiga-rainha seguiu o camarada Búfalo. A lua estava no começo de minguante quando o infeliz se encontrou com esse verme. Antenas ligadas, nossa mestra flagrou a safadeza.
    O safadão do Búfalo dizia estar desconfiando de nós. “As camaradas formigas são organizadas, comunicativas, espertas. Elas podem nos derrubar, majestade”, reforçava o babão. Então a dupla satânica traçou o diabólico plano.
    O bandidão aí marcaria o presente encontro a fim de nos dar ciência da suposta delação do camarada Búfalo. Artimanha, cujo objetivo era escorar outra ciência. A de que um crime estava sendo cometido por uma camarada. Sabem quem era essa camarada, a raça que seria extinta, nas palavras desse imbecil? Nós, as formigas. E sabem qual era o nosso crime? Estaríamos roubando fungos de um frigorífico. Agora segurem-se na cela, camaradas. O camarada Búfalo matava outros camaradas apenas para bajular esse infeliz. Dava-lhe a carne e ficava sorrindo. Matar para não se alimentar viola o primeiro artigo da Lei da Selva, camaradas. Digo matava porque agora ele está noutra. O camarada Búfalo está se corrompendo, camaradas. Ele e o cabeludão aí. Para quem desconhece, há um frigorífico no limite sul de nosso território. O tal de quem estaríamos roubando fungos. Chama-se Frigorífico Dois Irmãos. Pois bem, os irmãos querem parte de nosso território para criar bovinos. O que fizeram? Corromperam a duplinha infame. Estão dando carne ao peste do Búfalo, que repassa a esse vagabundo. Propina, camaradas. Então, camaradas...
    Se há uma coisa que animais não toleram é falsidade. Daí que começaram a caminhar na direção do camarada leão. Caminhavam lentamente, olhar fixo. A hiena, o tigre de bengala, o cachorro e o veado puxavam a fila.
    Cercado, o rei se encolhia.
    Nossa, Cabeça Dura. Vai rolar confusão. Vamos também, meu Carneirinho. Dar uma marrada nele, incentivava-me Branquinha, a mais linda das ovelhas daquele planalto.
    Não rolou confusão. O camarada leão liberou um lamento em forma de rugido, escutamos um estrondo e o fedor fez a galera recuar. Quem tinha nariz saiu com ele tampado.
    Também não suportamos.
    Reizinhos, viu?
  • A morte do eu

    “After a year in therapy, my psychiatrist said to me: ‘maybe life isn’t for everyone’.” 
    O inferno está vazio e todos os demônios estão na minha cabeça. Conjecturo vozes que, no desabrochar da vigília, anunciam-me um transtorno psicótico. Hoje eu tranco o curso, tranco a vida. Cheguei a vasculhar, um dia, a possibilidade do suicídio ser apenas o enterro, mas não a morte em si; todavia, certifico-me, nessa náusea amorfa, que a angústia se infiltra na teia neurossucumbidora antes de incinerarmos a nós mesmos. Conto os dias, odiando o teísmo onipotente, para encontrar o que acredito ser minha alforria: o psiquiatra. Há de ser minha muleta metafísica. Dispneia. Se enlouquecer-me novamente, tenho clonazepam. Vinte gotas; vinte e sete, se precisar. Alivio-me com esse meu novo deus volátil. 
    Sento-me à beira da cama; meus pés desmaiam sobre o chão. Penumbra. Nada me daria mais prazer do que nunca ter de acordar novamente. Sinto na alma a enfadonha arte de vestir-se. Fico apreensivo com minha sanidade dúbia diante das aulas anavalhadas que vagarei hoje. Degusto o Escitalopram com um café áspero. Lembro – fitando um eterno nada – a face sem sentença da minha psicanalista, e esbravejo-me; quero que suba no telhado e grite quem sou eu, pois já me foge essa concepção. Deposito o frasco de benzodiazepínico no bolso; esqueço o celular em casa. 
    Ao longo dos sertões da manhã, o medo do pânico se empodera como um fascista. Claustrofobia. Perscruto que na selva da minha psique não reino como Zumbi Dandara, mas apenas sou uma marionete do caos. Convenço-me da morte iminente: seja por um edema de glote, seja por um cataclismo pneumológico. Vendaval de sinapses. Minha mitral esperneia-se, regurgita-se, fibrila-se; almejo fugir-me; visto a entropia desajustada; balbucio uma filosofia sórdida. Subunidade beta da Proteína G, Guanosina Difosfato Inativa, Adenilato Ciclase: importantíssimo para vocês, futuros médicos. Cronograma de Caim. Quinquilharia. Pandemônio.
    Comprei uma aliança para essa miséria de vida, mas não prometo a monogamia – resmungo ao asilo que concerne minha consciência. Permuto as desvantagens e vantagens de ser um amontoado de átomos; aquelas me logram. Perambulariam como os nômades que nutrem sentimentos por mim? Por mais que sejam escassos, não me ousa denegrir a árvore-mãe que doou suas raízes à fruta empobrecida de alma. Aproveito o anticlímax dessa patologia arruaceira para ler o DSM: tenho todas as anarquias possíveis: transtorno de ansiedade generalizada, síndrome do pânico, depressão, desconexão com o divino, apatriotismo sem-terra. 
    Como um cadáver maquiado, encargo-me da polidez pós-morte: metáfora para os primórdios da tarde. Sobre o alcoolismo: eternizara – não que deguste a ideia, porém era a morfina que varria minhas esquinas neurais; era, senão, o hospício que tratava meu cansaço insuportável de gente. Olho-me: identifico em cada dobramento da minha organogênese os assassinos da minha jornada. A tarde, porém, caminha de forma taciturna; enrosca nos galhos, tropeça nas ironias machadianas, vivencia a chaga de Édipo, mas caminha. Adentro um elevador eremita: coercitivamente controlo a respiração: minhas cavernas pulmonares ecoam desespero.
    Palmilhando os arredores do abismo, pondero em relação ao futuro notívago: ou a insônia reluzirá novamente ou uma bala perfundirá meu encéfalo – entrará por um ouvido e sairá no outro, nada menos. Sinto meus passos derradeiros nesse morro cascalhado. Cairá sequer uma lágrima desse meu rosto surrado diante da morte de meu pai? Meu recinto ainda tem o cheiro de vazio. Insisto em deleitar-me na água que escorre do chuveiro, mas em vão. Pressuponho que dentro da gaiola do meu peito habite um pássaro que almeja voar, todavia se debate nas grades costais, depena-se e desiste da vida. Perfumo o ar com sobriedade: irrita-me o anseio acalentador das pessoas. Recebo, ainda que caquético, no toante dessa noite, uma visita: meu humor sacoleja como um cão solto na praia. Lê-me: você parece ótimo. Não se esqueça, minha cara, que os buquês, por mais que sejam sorridentes e carinhosos, são feitos de flores mortas. 
  • A mosca sobre o nariz

    Hoje é um dia especial. É a primeira vez que viajo em um trem na vida. Já tenho 43 anos e é a minha primeira vez. Sempre tive fascinação por trens. Ficava imaginando quando criança aquela coisa comprida que parecia nunca parar de correr, nada parecia mais forte do que um trem e isso encantava-me. A paixão pelos trens passou a atravessar a minha vida. Músicas que envolvessem trens pareciam sempre mais legais de ouvir...Trem Azul, The last Train to Clashville, Trenzinho Caipira e outros. Livros cujo enredo se passassem em trens já me chamavam a atenção de imediato, Assassinato no Expresso do Oriente, A garota no trem. E os filmes? Ah, os filmes!! Expresso para o amanhã, Train to Bulsan e generalizava até para aqueles que nada tinham a ver com trens, mas que levavam o nome no título como O expresso da meia-noite. E tudo isso sem falar na coleção de miniaturas, gravuras, fotos e mil bugigangas com motivos que tinham trens como referência. Mas tudo isso já tinha ficado para trás, eram coisas de uma infância e pedaços de uma adolescência, substituídos pelas coisas do mundo adulto que sempre impunham a realidade como premissa básica.
    E aqui estou eu subindo nele pela primeira vez, com as emoções grudando na pele e   preparando-me para uma viagem de 6 horas. Será que os astronautas que foram a Lua sentiram isso que estou sentindo? Entro e procuro o meu lugar (comprei assento na janela, é claro). Achei ele sóbrio e funcional, se é que posso descreve-lo dessa maneira. Sento-me e começo apreciar a viagem. Ao meu lado está sentado um homem vestindo camisa de time de futebol. Ele dorme e uma mosca tenta pousar em seu nariz.   Árvores, pontes e cidades se sucedem. Lembro que preciso falar com Berenice (que coisa...ela me fascina essa é que a verdade...paixão antiga eu diria). Procuro o celular para ligar para ela. É urgente que eu fale com ela. Começo uma ligação e a maldita bateria acaba. E para piorar eu não trouxe um carregador (que burro que eu sou). Procuro ajuda com o passageiro sentado atrás de mim. Pergunto-lhe se não pode emprestar-me um carregador. Nada. Nem me olhou de volta. Fico meio sem graça. Não desisto e decido pedir para um outro passageiro. Uso meu melhor tom de voz e ele também sequer vira para olhar-me. Tento com um terceiro passageiro e fico com a impressão de ter falado com as paredes do trem. Já achando tudo estranho peço para um quarto passageiro e este pareceu olhar através de mim. Que merda é essa? Todo mundo resolveu ficar mudo ou é uma epidemia de esquisitice? Tem algo de errado aqui. Alguma coisa aconteceu e eu não sei o que foi. Decido ir para outro vagão. Puxo conversa com um sujeito gordo que comia batatas fritas e... nada. O que está acontecendo na porra desse trem?  Estou em pé no meio do corredor e quase todas as poltronas estão ocupadas, pessoas leem revistas, outros dormem, crianças brincam com jogos eletrônicos, alguns conversam. Tudo normal como deve ser uma viagem tranquila de trem. Só que ninguém parece me ver.
    Uma sensação estranha percorre meu corpo, como se algo gelado e gosmento escorresse pelas minhas costas e eu não pudesse alcançar. Ninguém me vê, ninguém me escuta... um trem com dezenas de pessoas e ninguém sabe de mim. Mil perguntas surgem em minha cabeça. Belisco-me com força na esperança de estar apenas dormindo. Vou de um vagão a outro. Esbarro de propósito nas pessoas, peço as horas para outro, experimento tomar bruscamente a revista de um, derrubo o doce de chocolate de uma criança gordinha. Nada acontece. Simplesmente ninguém esboça a menor reação, ninguém me vê. Em um ato de desespero eu fico em pé bem no meio do corredor e grito a plenos pulmões, xingo, chamo palavrões, rogo pragas e... ninguém sequer altera uma única ruga do rosto para prestar atenção em mim. Tudo segue seu curso de normalidade. Menos eu.
    Procuro meu lugar de volta e sento-me sem entender o que aconteceu. Procuro palavras para explicar o que sinto e não consigo. Minha mente não consegue processar o que ocorreu.  O passageiro ao meu lado ainda dorme e percebo que a mosca agora está pousada em seu nariz. Olho para a paisagem que corre fora do trem. Acho que nunca chegarei a lugar nenhum. Acho que seguirei neste trem. E continuarei seguindo.
  • A Náusea

    A
        Mais uma vez, ele errou a maldita questão de Física. Olhou para a tela do celular e viu que horas eram. Espantou-se, pois não havia percebido que já havia passado a tarde inteira.
      “Mais uma tarde estudando Física para o vestibular.”
        Irritado, Fernando tentou encontrar o erro da questão. Por dez minutos, ele passou os olhos pela folha, procurando, minuciosamente, o erro. Não encontrou e deu um soco na perna, tentando achar um meio de ficar menos frustrado.
        Fernando esfregou o rosto com as mãos, bufando. E, por algum motivo, depois de amassar a cara, ele encarou a mão direita. Pensou que estava suja, por isso, resolveu levantar-se da cadeira e foi ao banheiro para lavá-la.
        Botou a mão direita debaixo de um feixe de água e com a esquerda, esfregou, tentando tirar a sujeira. Como se fosse um robô que tivesse sido posto num corpo humano há pouco tempo, Fernando encarou a sua mão direita.
       “ A minha mão tem essa cor mesmo?”
         Ultimamente, as únicas coisas que a mão de Fernando encostava eram o lápis, a caneta, a borracha, o marca-texto e a folha da apostila. Qual foi a ultima vez que, juntamente com a esquerda, a direita guiou o guidão da bicicleta? Ou que passou a folha de um livro que não tinha nada relacionado com vestibular? Ou que tocou uma bola de vôlei, seu esporte favorito? Fernando mal podia lembrar da ultima vez que a mão direita segurou um copo de refrigerante (ele negaria até a morte que já segurou um copo de cerveja!) numa festa.
        E falando em festa, quando foi a ultima vez que Fernando dançou? Quando foi a ultima vez que ele tentou ficar com uma menina e ouviu um não como resposta? Pior ainda, quando foi a ultima vez que ele teve tempo para conversar com os amigos?
       Olhando para a sua mão direita, apoiada na pia de mármore do banheiro do cursinho, Fernando sentiu falta. Falta daquele grupo de amigos. Ele não conseguia negar, sentia falta daqueles idiotas. Sentia falta de falar de garotas, e suas bundas e peitos. Era engraçado o quão eles divergiam. Para Fernando e Carlos, Fulana era mais bonita, enquanto Igor e Iago achavam que Cicrana ou Beltrana eram muito mais bonita. Sentia falta de passar parte da noite jogando videogame, ouvindo zoeiras e comendo guloseimas, biscoitos. Sentia falta, também, daquela filosofia de grupo. Sim, quando estavam em grupo, nenhum deles era burro. Todos eram capazes de terem idéias fantásticas sobre os mais variados assuntos. Mas o que ele mais sentia falta era daquilo que ele nunca teve. Ele sentia falta de segurar uma mão mais macia do que a dele, uma mão feminina que o acalmasse.
     Porém, por mais que tivesse voltado para sua cabine, onde estavam sua apostila, estojos, livros e o caderno, Fernando estava com a sua mente em outro lugar. Não importava-se mais com o valor da aceleração centrípeta, muito menos para o valor de atrito. “Foda-se isso tudo!” pensava. A grande incógnita da questão era porque ele sentia falta disso tudo?
       Abismado e em procura de respostas, Fernando pegou o celular e foi procurar alguém para recorrer. Seus amigos estavam em aula, num outro cursinho. Sua prima estava trabalhando num estagio. Sua melhor amiga estava de castigo. Por um milésimo de segundo, ele pensou em mandar uma mensagem para sua mãe, perguntando qual a razão daquilo tudo. Chegou a digitar a pergunta, entretanto, ele já sabia a resposta da mãe.
      — Você abdicou dessas coisas para passar no vestibular! – Diria sua mãe, com um tom de obviedade na voz, como se a pergunta fosse tola demais para ser proferida.
      —  Mas, mãe, por quê?
      — Porque, enquanto você perde tempo com seus amigos, ou perde tempo procurando uma namorada, ou perder tempo caçando qualquer motivo para não estudar, alguém estará estudando e pegará sua vaga. E, então, você perderá mais um semestre da sua vida, tentando entrar na universidade.
      A conversa imaginada dava náuseas no Fernando.
      Fernando, diante do argumento imaginado da sua mãe, tentou concentrar-se, usando como motivação uma pessoa queria a mesma vaga de Medicina que ele queria.
       Por vinte minutos, Fernando lutou. Seus olhos liam, linha por linha, a questão. Segurado pela mão direita, o lápis corria junto, tentando acompanhar o ritmo do olhar do adolescente. Mas, mais uma vez, a mente do Fernando não estava naquela questão.
      “Por que devo abdicar do meu lazer, só para passar no vestibular?”
       Mais uma vez, a voz imaginada de sua mãe voltou, com um tom irritado, respondendo a nova obvia pergunta dele:
      — É pelo seu futuro, meu filho. Você tem que estudar para ter uma boa vida. Acredite, na faculdade, isso não vai acontecer.
       Ele já havia ouvido esse argumento. E por mais tentador que fosse, ele não conseguia acreditar nas palavras da mãe. Ele via o esforço da sua irmã, que também havia feito em Medicina. Fernando perdeu as contas de quantas vezes Sofia estudou, virando a madrugada, por causa de uma prova. Ele não esqueceu as dez horas diárias que a irmã gastou para passar no vestibular. Um ano de luta que, no final, rendeu para ela uma vaga no curso.
       Talvez fosse fácil acreditar que, se ele passasse dez horas, todos os dias, estudando, ele passaria no vestibular, assim como a Sofia. O problema era que, ao contrario da irmã, Fernando nunca foi esforçado como ela. Ao contrario dela, que podia passar horas sentada, estudando Física, ou Matemática, ou Química, ele não conseguia. Ele, contrastando com Sofia, nunca foi um dos melhores alunos da sala. Nem tirava acima de oito em todas as matérias. Para falar a verdade, desde que conheceu o Ensino Médio, cada vez mais era difícil manter as notas das Exatas acima da media. Ele ia muito bem, obrigado, em todas as matérias, menos, Física, Matemática e Química.
        Cansado de olhar para aquela apostila, Fernando catou suas coisas, enfiou tudo na mochila e saiu do curso. Foi até o ponto de ônibus e pegou um ônibus para o shopping mais perto. Mandou uma mensagem para a mãe avisando que jantaria um hambúrguer.
       Fernando andou sem rumo no shopping, pensando. Esbarrou algumas vezes em algumas pessoas, que resmungaram e não aceitaram o pedido de desculpas dele.  Resolveu passar na livraria, a fim de procurar algum Best-seller.
       Encontrou um livro que despertou seu interesse, porém, uma garota roubou o foco do garoto. Era Marcela, a menina mais inteligente que Fernando conheceu/ estudou com. Ela estava irreconhecível. Sem maquiagem, os olhos, verdes, estavam fundos, cercados por olheiras. Chegava a estar pálida.
      Assustado, Fernando aproximou-se dela. Sem pensar muito, disse:
    — Como vai você, Marcela?
    — Bem, e você, Fernando? — A garota respondeu tristonha.
       Fernando preocupou-se com ela. Ela era sempre alegre. Agora estava tão para baixo. Por isso, perguntou o que aconteceu com ela. A resposta de Marcela fez o adolescente ficar cheio de náuseas.
    — Eu sofri um colapso nervoso há um mês, causado pelo estresse. O meu psiquiatra me proibiu de fazer o vestibular. De acordo com ele, eu tenho que estabilizar a minha saúde mental.
       Saúde mental? Estresse? Uma adolescente de dezessete anos com problemas de adultos? Isso não é normal.
    — O que aconteceu, Marcela?
     — Vestibular.
       Algo acendeu no Fernando. “Isto está errado!”, pensava. Como, em sã consciência, alguém podia ser levado àquele estado? Só para garantir seu futuro?
       Fernando queria saber o que estava errado. O que mudou, nele? Será que, somente ele estava enxergando o erro? Como jovens de dezessete anos tem que ser levados a estudarem tantas coisas? Por que jovens tem que fazer o tal do ”vestibular”? Para garantir o que não se pode garantir?  
      Fernando, como um autômato, despediu-se da garota e saiu da loja. Mais uma vez, ele estava sem rumo. Sua cabeça estava perdida em uma imaginação. Uma vida hipotética. Fernando viu sua vida, como em um trailer de filme.
      Passou em Medicina e a carga de estudo só aumentou. Em algum ponto do curso, ele começou a namorar e, não era como gracioso como ele se lembrava. Tinha que dividir seu tempo entre amigos, namorada, família e estudo. Tudo aquilo era exaustivo, mas ele se convencera de que no final, as coisas dariam certo.
      Eventualmente, ele terminou com a namorada. Fez um esforço tremendo para não deixar as notas caírem. Ele começou, dentro do curso de Medicina, a viver uma espécie de vida de medico. Entravam e saiam pacientes. Poucos recursos pioravam a situação, fazendo com que o estresse aumentasse.
      Ele formou-se e, as coisas não melhoraram. Agora tem a residência. Tempo? Ele teve pouco, mas era jovem, tinha vinte e sete anos. E, como esperado, a residência apenas dificultou a vida dele.
       Enquanto ele assistia ao filme da vida, de alguma forma, Fernando já havia comido algum lanche e estava voltando para casa. Preferiu pausar o filme e começou a refletir. Estava irritado, não podia negar. E aquela náusea que não passava.
       Ele compreendeu o problema. Fernando estava irritado com o vestibular. Pois, somente o vestibular, e outras coisas ruins, podiam fazer um jovem ver o seu futuro com tamanho pessimismo.
       O vestibular é uma desgraça, disse Fernando em alto bom som, enquanto voltava para casa, a pé. Ele sentia-se cansado. Sua mochila, pesando muito mais psicologicamente do que fisicamente, e sua náusea não ajudavam. Ele andava lentamente, sentindo tudo aquilo em cada passo.
      — O vestibular é uma desgraça. Não foi feito para humanos. Qual o sentido de fazer um adolescente ter conhecimento de mais de dez matérias, ensinadas em três anos. São cento e oitenta questões malignas, que fazem você duvidar de você mesmo. Você estuda para uma prova por um ano. Se você passar, um ano salvo. Não passou, um ano perdido.
       Quanto mais pensava que o vestibular estava errado, mais enjoado ficou. A náusea foi crescendo. Eis que seu corpo, contra a sua vontade, arqueou. Sua boca abriu, dando passagem para a sua janta e lanche da tarde. A fraqueza abraçou-o, e ele pensou:
       — Parece que eu tenho muito tempo para me divertir. Eu sei disso, mas porque eu não acredito? Por que eu tenho a sensação que, a partir de agora, eu serei fraco deste jeito para sempre?
       Ligou para o pai e pediu para ele buscá-lo e, segundos depois, seu corpo pediu arrego, e Fernando desmaiou. 
     “O cansaço físico, mesmo que suportado forçosamente, não prejudica o corpo, enquanto o conhecimento imposto à força não pode permanecer na alma por muito tempo.”
                                                                                    -- Platão
  • A noite do urso

    I.

    Num espaço mal localizado entre o centro e a periferia, como que no purgatório, vivem ou sobrevivem em buraco estreito de dois cômodos, sala e cozinha, com vista para a parede cinzenta do prédio em frente, Salete e Susie. Uma, puta recém chegada ao serviço e à localidade, empurrada pelas vicissitudes da vida e dos tempos de crise, de cabelos louros esvoaçantes de raízes mal pintadas e bunda dura, perseguida; a outra conviva, puta travesti, velha de zona, experiente e vivida, cabelos enrolados e ruivos, que recebeu ali no seu cafofo, na ausência da conviva antiga fugitiva das dívidas com o traficante de plantão, a noviça já descrita.

    Já há 4 meses convivem bem as duas, em eventuais arranca-rabos, na exuberância de suas feminilidades singulares.

    Mas tem sido tempos de crise e a zona anda fraca, competitiva. Já era, mas anda mais, os pais de família e os pra desvirginar andam endividados, demitidos, vendo jornal. Tem segurado a verba, ou comido mais barato, medo dos tempos. Do outro lado, tempos de crise, aumenta a oferta e, por conseguinte, a competição, diminui a receita.

    “Escuta, loira, tu não vai ficar na minha calçada hoje não vai? Porque não quero essa bunda branca tirando freguês meu não hein. Pode ir pro outro lado, pra outras bandas, que hoje, se Deus quiser, vem aquele meu cliente antigo, que libera uma gorjeta gorda. Chispa de perto de mim”, diz Salete pra Susie.

    “Tu acha que anda fácil assim né travesti, que eu fico onde eu quiser, passeando….semana passada fiquei ali pros lados da Marlene, que não estava, depois a mulher chegou e queria me encher de tabefe, a desgraçada da trava. Essas travestis são muito folgadas, acham que mulher não paga conta!”

    “Mulher? Aqui é tudo mulher minha querida. E vocês, com essas bucetinha de fábrica, ainda estão na desvantagem…”

    “Desvantagem, que desvantagem filha?”

    “Sim, desvantagem sim…pergunta para os homens, que estão todos preferindo as trava e as trans. Querem carne dura, firme, dar aquela cancera, não essa bundinha e peitinho mole.”

    “Han, que absurdo! Eu, que achei que não aguentaria essa vida nem uma semana, já estou cheia de cliente freguês viu, saiba a senhora. Deus do céu, se minha mãe me ouvisse….sempre me disse, estuda desgraçada, mas não!….”

    “Pois é, pará de chororô agora ai, se arruma, que tá ficando tarde.” Finaliza Salete.

    Caem as luzes da cidade, o trânsito, logo chegam ali os peões nos seus carros baratos fodidos ou em motos, mesmo a pé, os mais desinibidos. Nos carros fechados, envidraçados negros onde ninguém nada vê, nem quem, passam os pais de família da casa-grande para dentro das sombras das entradas dos motéis, aristocráticos.

    II.

    Noite ruim de procura mas, sabe lá Deus por que, a zona não está tão lotada, tem rua para todo mundo se espalhar. Mesmo os novinhos viados andam por ali, de um lado para o outro, dando a cara, fazendo charme. Salete e Susie ocupam a mesma rua, meio afastadas mas nem tanto, fingindo não se conhecer e mostrando a que vieram, emperiquitadas, brilhantes. Noite clara.

    Encosta um carro, passa devagar, na procura; acorrem as duas, na seca de dinheiro para as contas, ao encontro. Peitam-no quase ao mesmo tempo, dependurando na janela e fazendo o motorista parar para a decisão.

    Baixa a janela, um palhaço. Nariz vermelho, peruca laranja, maquiagem branca no rosto, barriga grande de pai quarentão forçando a roupa colorida suja de doce de criança. Vinha, Marcos – Marcão para os amigos do emprego antigo - de uma festa infantil, emprego novo. Tendo levado o pé na bunda do escritório contábil, com as contas de 3 meses para pagar, aceitou o convite do cunhado para o trabalho; aprendeu uns sorrisos, uns truques, encher bexiga, piadas toscas e historinhas fáceis paras as crianças das festas de pobre que apareciam.

    Depois do expediente resolveu passar ali, naquela quinta-feira clara.

    “Ei, branquinha, entra ai logo vai”

    “E ai bonitão, vai com essa dai não, que ela não manja, deixa só que eu vou contigo e te mostro como é” provoca Salete

    “Que isso filha, quer me foder, sai daqui”

    “É, bonitona, vaza. E eu gosto de buceta, na boa”. Diz Marcão educadamente.

    “Aqui meu amor, tenho outras coisas que vão fazer você esquecer que já viu buceta na vida”

    “Que isso minha querida….”

    “Vaza travesti, sai daqui logo vai….”

    Vira a esquina um carro dos guardas de trânsito.

    “Vai vai vai, entra logo ai, logo, que aqui parar dá multa e já ando fodido demais!”

    Entram as duas.


    III.

    “Sabe como é que é, quando a coisa aperta a gente pega qualquer coisa. Mas não está mole não, crianças são o diabo. Reunidas um inferno. Volto para casa só o bagaço, e ainda tenho que ficar limpando tinta da cara. E pra pagar a conta tenho que ficar caçando mil festas, com o bosta do meu cunhado. Mas é o que está tendo.”

    “Aí, não vou entrar com travesti no motel não, já disse que curto uma buceta. Pode dizer onde você quer descer….”

    “Nada disso meu amor, pôs no carro tem que levar o serviço. Daqui eu não saio. Vai lá, confia em mim, vamos expandir esses horizontes….”

    “Eu não acredito, era só o que me faltava, é isso que dá!”

    IV .

    A luz vermelha da lâmpada vermelha reflete na parede vermelha. Nesse quarto estreito, com janela para uma rua vazia e um prédio baixo, cinza, do outro lado da rua, chegam três novos clientes desse fim de noite, quase amanha; um deles, tremendo nervosamente, envergonhado, fecha a porta e segura um tempo a chave, na fechadura, enquanto uma, de sutiã já à mostra, desabotoa e desenlaça o cabelo amarelado e a outra coloca a bolsa colorida sobre a pequena mesa próxima demais da cama no quarto estreito.

    Da bolsa, enquanto o homem, ligeiramente mais calmo se vira para a cama, fita a mulher de seios fartos e brancos, no quarto vermelho, da bolsa urge um mundo de coisas, estranhas ao primeiro. Enquanto as tira, Salete nomeia-as, prazerosamente:

    “Consolo; cinta, fivela, algema, lubrificante, consolo, massageador, massageador de próstata….”

    Confuso, o palhaço, Marcão, senta na beira da cama. Susie puxa-o, deita-o, despe-o. Confuso. Pelado. Confuso. Pai de família, 2 filhos, mulher...

    “Consolo, gel afrodisíaco, esferas anais….”

    Trabalhador. Homem sério. Palhaço.

    “Você está tremendo, fica tranquilo, vamos cuidar bem de você” Diz Susie, enquanto Salete solta o cabelo, tira os saltos, desabotoa….

    Alguém mexe na fechadura; abre a porta, rápido, decidido. No batente surge um menino, cabelos coloridos rosa e olhar sacana no corpo caramelado e jovem, e do lado, um urso. Um urso de pelúcia, metro e oitenta de altura, roxo.

    Por alguns segundos prolongados entreolham-se, de dentro do quarto o palhaço só de nariz vermelho e cueca branca já estirado na cama, Susie, Salete, consolos vermelhos no quarto vermelho de luzes vermelhas, e o urso, roxo, com menino púbere e sapeca ao batente.

    “Pedrão, tu é viado?!” Pergunta Marcão, surpreso, surpreendido porém surpreso.

     Novo silêncio, mais breve.

    “Porra Marcão, é a crise, são as crianças, me deixam maluco. Passei na zona, gostei desse aqui, sei lá….” Choraminga o urso melosamente.

    Fecha a porta. Encaminha-se o urso e o jovem ao quarto certo, fim do corredor.

    V.

    Hoje não irão trabalhar. Primeiro dia do mês, ir ao mercado, pagar contas, pôr a vida da pequena casa em ordem. Ir na manicure, arrumar o cabelo, viver um pouco, longe da rua e dos olhos, dos dedos indicadores. Susie, de camisola branca caminha de um lado para o outro nos dois cômodos estreitos, banheiro, fazendo hidratação no cabelo, lendo a embalagem da tinta recém-comprada, enquanto Salete, sentada na ponta da cama de casal onde dormem ambas, arruma a bolsa, procura algo.

    “Temos que comprar papel, acabou.” diz Susie

    “Ahan”

    “Enfim, ir logo no mercado, tem nada nessa casa. Na porra da geladeira só tem água..”

    “Sim”. Responde Salete, distraída, enquanto mexe na bolsa, arrumando as coisas

    “Quê que você tanto futuca ai hein?”

    “Eu não tô achando, será que eu deixei naquele motelzinho de merda ontem….? Tu viu o massageador de próstata por ai?”

    “Ai eu não, aquele treco estranho. Que bom que perdeu” responde Susie, enquanto passa para a cozinha, saco plástico no cabelo com creme, camisola branca…..


    VI.

    Marcão começa mais um dia de trabalho, naquele inferno cheio de crianças, mas sente-se bem. Dentro de si, uma alegria se renova, vibrante. Feliz.
  • A nova cura para o mundo

    Muito tempo atrás, mesmo antes de voce nascer, seus pais e avós, eu pisei neste mundo, conheci cada parte e construí meu grande Império secreto.
    Meu nome é Powerful, fui expulso do meu planeta por pensar diferente, e agir de forma diferente, eles diziam que eu agia assim por ser sozinho, mas o que ser sozinho tem a ver ? Eu fiz tudo aquilo por que eu queria, nao por que eu estava sozinho. Destruí dezenas de moradas, matei milhares deles, e nao me arrependo, eu fiz o que tinha que ser feito. Foi melhor para todo mundo.
    No ano de 1876 a.C, eu estava no meu planeta, e houve uma guerra, eu era um bebê, mas eu ainda lembro, vários dos assassinos eram do povo vizinho, eles estavam armados, atirando em todo mundo, sem dó, meu povo corria e se escondia, nao querendo ser mortos, eu ouvia gritos, choros, e tiros por todo lado, e eu estava numa cabana, sozinho, com medo, e ninguém estava lá para me proteger, um dos assassinos entrou na cabana aonde eu estava, olhou para um lado e para o outro e olhou-me nos olhos, ele estava pronto para me matar, então algo dentro de mim brilhou, e eu pude entrar na mente do assassino, e fiz ele mudar de idéia, ele saiu da cabana e todos eles recuaram, com medo. Com o passar do tempo, cada vez que alguém contava essa história, ela ficava cada vez mais falsa, ninguém sabia o que realmente tinha acontecido, exceto eu.
    Depois que eu cresci, com meus dez anos de idade, eu comecei a entender o que havia acontecido naquele ano de 1876 a.C, e foi aí que tudo começou a mudar. Eu passava cada hora do meu dia planejando uma vingança, eu queria me vingar pelo o que eles haviam feito com meu povo, então eu passei seis anos planejando, e me fortalecendo, eu ficava longe de tudo e de todos, não fazia amizade, não conversava com ninguém, uns me chamavam de louco, mas eu segui meu caminho.
    Depois dos seis anos aprimorando minhas habilidades, eu saí no meio da noite e fui ate o planeta vizinho, usei meus poderes da mente para fazer com que uns matassem aos outros, eu gostei daquilo, de ver aquela mesma guerra acontecendo novamente, todos correndo, gritando e implorando por suas vidas. Eu comecei a camihar pelo terreno deles, com o chão cheio de poças de sangue, eu me sentei ali mesmo e vi cada um se matar. Assim que todos se mataram, vieram vários povos, o meu também estava lá, só para ver o que havia acontecido, e eu sorri e disse:
    -Não precisam mais ter medo, o mal já foi derrotado.
    Todos ficaram em choque, se perguntando como eu tinha feito aquilo, e eu respondi todas as perguntas, então o chefe do meu povo caminhou ate a mim, retirou meu cordão e disse:
    -Saia!
    E me expulsou, na mesma hora que ele disse aquelas dolorosas palavras eu fechei meus olhos e senti um vento sobre minha pele, quando os abri novamente, eu estava aqui, nesse Planeta que todos chamam de Terra.
  • A nova cura para o mundo

    Andei por tanto tempo aqui, me adaptei fácil ao ar, as pessoas me olhando foi o que mais me incomodou, eu sou normal, como todos eles, só tenho coisas que ninguém tem.
    Fui em boa parte da Escócia, comi a comida típica de lá, vesti as roupas deles, o problema é que me tornei um ladrãozinho, logo eu, com 17 anos e ladrão.
    Confesso que demorei uns meses para me adaptar e fazer amizades, é, eu resolvi fazer amigos, estava num planeta estranho, precisava de aliados.
    Depois de um ano, eu fiz amizade forte com o Jonas, ele me deixou morar na casa dele e tudo começou a fluir.
    -Vamos comer Power.
    Diz Jonas da cozinha.
    -Já estou indo, espere.
    Logo eu digo do quarto.
    Almoçamos algo que se chama macarrão, é muito bom, o gosto, a textura, no meu planeta era tudo diferente...
    Jonas gostava de ir em lugares históricos, caminhava comigo pela Escócia, era tudo perfeito.
    Jonas tinha uma intimidade muito grande com uma mulher chamada Karina, eu não gostei muito do jeito dela, ela era espalhafatosa, gritava demais e fazia tudo correndo, Jonas por outro lado, dizia que amava ela, que sem ela, ele não vive, que papo furado.
    Eu acabei falando tanto do Jonas e citei poucas coisas sobre mim...
    Talvez ninguém queira saber como sou, talvez já não gostem de mim pelo fato de eu ser um ser de outro planeta, de ser um assassino...
    Mas isso também me consome á alma... Me olhar no espelho e me ver refletido ali, pálido, sem expressão, com o cabelo castanho todo bagunçado, com minhas roupas roubadas e largas, olhos caídos, pele gelada, boca seca... E quem tem esse nome? Powerful? Se bem que esse nome me descreve direitinho...
    Eu não me encaixo aqui, está na hora de ir para outro lugar, talvez eu peça para o Jonas vir comigo, mas acho difícil ele largar a namorada para viver em outro lugar com um alguém que não demonstra afeto pelos outros.
    É uma boa idéia ir sozinho, assim ninguém me atrapalha. Está na hora de mudar, vou para New Orleans, ouvi boatos que os vampiros são donos daquele lugar , que nada!
    Vampiro de verdade são aqueles do meu planeta, esses que estão aqui são os que foram expulsos de lá, e aqui já não são mais nada.
    Espero que alguém lá saiba como me fazer voltar, senão vou ter que ir à força.
    Assim, destruindo qualquer coisa que me impeça de conseguir meu objetivo.
  • A Passagem

    As ervas daninhas cresciam no quintal se espalhando por todo o jardim num Verde e fusco pálido. Isaque permanecia sentado numa rústica e velha cadeira de palha, enquanto passeava os olhos pelo álbum de fotografias da família. E em meio a recordações e saudades, fixou os olhos cansados como se o passado tivesse arrebatado do canto escuro da memória uma antiga lembrança animada.
        Parecia indiferente e apático, soltou uma tosse baixa e seca e esfregou os olhos. Rebeca, sua esposa, olhava para o marido debruçada sobre o anteparo da varanda próximo a porta da cozinha. Isaque ficara por demais velho, e o desejo de dar a vida um sentido, extinguiram-se nele agora. Ele olha para o jardim com desdém, um vento forte sopra por sobre a copa das árvores e folhas uivando numa melodia deprimente, como se cantasse uma canção de despedida.
        Rebeca, sua mulher, também ficou velha, e ela não pode fazer nada a não ser observar o marido que está sempre a fazer as mesmas coisas. Com isso eles viam os dias e anos que iam e vinham, chegavam e passavam, as vezes Isaque murmurava uma palavra sem sentido, era o máximo que podia fazer, depois adormecia sentado.
        Lá vai o velho Isaque, outro dia, caminha pelo estreito corredor da varanda. Numa das mãos trás um velho cachimbo, a outra levemente se apoia sobre um cajado torto de vara de bambu. Ele senta em sua cadeira como de costume e pega o álbum de fotografias desgastado pela ação do tempo, em seguida começa ociósamente a folhear suas páginas.
        Rebeca perdeu a conta de quantas vezes viu esta cena, Isaque não notara a presença da esposa porque tem uma doença degenerativa nos olhos por conta da idade. Ele se deteve numa fotografia em particular, um primo, há muito havia morrido porque certa manhã de quaresma caíra de uma mulinha e batera levemente com a cabeça, não era homem mais velho que Isaque e já partíra a meio caminho da mocidade.
        Rebeca lembrava o que dele diziam a seu respeito, perguntado se sobrevivera a queda, ainda sobre os pés do animal, ele respondeu com ar travesso "morre-se muito bem as seis ou sete da tarde". Tinha lido num livro. Ao cabo de algumas horas morreu.
        Quando em quando Isaque pensava sobre a sorte dos homens toda vez que lembrava do primo, embora na sua juventude vivera a vida em todo o seu esplendor, agora ela tornou-se um fardo... penosa. Ali estava Isaque, mergulhado em solidão profunda, levado por uma correnteza de estranhos sentimentos. Sussurrou uma palavra surda acenando o braço lentamente para a mulher que, supunha ele, havia de estar no mesmo lugar de ontem.
        Rebeca estava disposta a ouvir, fosse o que fosse, fizesse ou não sentido, porque isaque andava meio caduco de uns anos para cá. Murmurou algumas palavras enquanto a esposa consentia positivamente com a cabeça na medida em que ouvia, depois deixou o cachimbo cair no chão e adormeceu. Rebeca recolheu o velho cachimbo caído e se retirou um pouco corcunda para dentro de casa.
        Alguns dias se passaram quando o sino da igreja soou, o sol deslizava sereno pelo céu e se aninhava por detrás do cimo. Na saída havia muita gente conhecida, Rebeca estava muito bem arrumada, mais do que de costume. Isaque ia na frente puxando o cortejo fúnebre.
        Lá vai o velho Isaque, antes de morrer fez a esposa jurar por céu e terra encurvada sobre sua velha cadeira que, neste dia, não derramaria uma única lágrima. A mulher consentiu. Isaque afigurava-se animoso e mais vivo, parecia que a paz veio a ter pessoalmente.
        Um dia rebeca se achava sentada na cadeira rústica de Isaque, e folheava o álbum de fotografias da família. Uma fotografia em particular chamou sua atenção, eram Isaque e Rebeca no dia em que se casaram. Ela foi acometida de um sentimento estranho, fechou o álbum e entrou para dentro de casa, era quarta feira de cinzas, um ano depois que Isaque havia partido. O sol deslizava sereno pelo céu num indo e vindo de uma eterna passagem.
  • A Pianista

    Não sei por que. Mas estava lá. 
    Parado.
    Em minhas mãos um folheto com os hinos do dia.
    Não sabia nenhuma música e não estava afim de cantar. Muito menos ler.
    O grupo era pequeno. Tinha no máximo dez pessoas. Sendo a maioria jovens como eu, e os velhos eram bem velhos. 
    A pessoa que mais me chamava atenção era a pianista. Caroline, esse era seu nome. Se não me engano.
    Caroline 
    Caroline
    Sempre tocou piano. Ganhou prêmios por isso. Tocava com sua alma, sentia cada tecla bater em seu coração. Suas belas mãos pálidas tocavam gentilmente cada nota.
    Todos ali ajoelhados. Ouvindo e admirando, louvando e glorificando ao som daquela maravilhosa pianista.
    Lá estava ela. Com seu cabelo preto amarrado num coque bagunçado pela ventania que estava aquele dia. Provavelmente iria chover.
    Sua camisa azul de bolinhas vermelhas estava com as mangas dobradas até a altura do cotovelo, usa uma saia rodada preta, que ia até o joelho. Calça uma sapatilha bege, mas insistia dizer que aquilo era nude. 
    Ela vinha para a igreja caminhando, fazia isso todo domingo, eu sempre a via passar em frente de casa. Nunca atrasava- se.
    Sempre adiantada.
    Chegava na igreja antes de todos. Apenas para limpar o piano. Instrumento antigo. Amigo antigo. Lugar onde ela sempre tocara sua divina melodia.
    Todos a cumprimentam. Vão chegando aos poucos.
    Ela sorri. Sorriso atraente.
    Seus olhos escuros se encaixavam perfeitamente com seu belo rosto pálido e fino. Olhar sereno. 
    Caminha com serenidade, transborda calmaria e paz. Continua sorrindo.
    Passa a missa toda assim, com aquele semblante de boa moça. Garota adorável. Sorriso doce.
    A missa é curta.
    Após tocar oito hinos, tudo acaba.
    O padre termina a missa como todas as outras.
    Palavra da salvação. Todos respondem e levantam-se como se não vissem a hora de ir embora.
    Caroline faz reverência ao seu público, concluía com um sinal da cruz e um aceno para alguém da multidão 
    Fecha o piano. Com extremo cuidado, cuida como se fosse um filho. Após isso se reúne ao resto do grupo de canto. Beijos na bochecha e abraços. Sorrisos e risadas.
    Todos a cumprimentam.
    - Foi uma ótima missa, não achou Otávio? – ela diz. Sua voz era macia, como a de um anjo, suave e calma, como o piano que acabara de tocar.
    - Não sei, na verdade, parecem todas iguais para mim – respondo.
    Ela sorri. 
    Aquele sorriso inesquecível. 
    Fiz amizade com ela havia algumas semanas. Ela notou meu interesse em tocar algum instrumento. Me ofereceu algumas aulas, recusei algumas vezes, sem motivo algum. E sem motivo algum aceitei naquele dia.
    Sua volta para casa era, como a ida à igreja. Todos a cumprimentam. Sorrisos. Acenos. Ela sorri. E acena. Uma, duas, três vezes. E repete. 
    Sorriso lindo.
    Sua casa é verde, com enormes portões cinzas. Ainda morava com seus pais. Mesmo tendo seus vinte e poucos anos, continuava indecisa sobre o que faria da vida. Sem sonhos. Sem futuro planejado. Sem namorado. Acreditava não ter sorte para arrumar um. Não imagina a beleza que tem.
    Venta muito. Segura sua saia para que não levante. Dizia para eu não olhar caso isso acontecesse.
    Caminhamos rápido para que não fossemos pegos de surpresa pela chuva que não veio.
    Uma casa bem grande. Daria duas da minha facilmente. Tinha sala de jantar. Sala de estar. Sala de recreação. Sala de lazer. Suíte. Cozinha. E outros tipos de salas. 
    Ela pede para que eu espere na sala. Sento numa poltrona de couro. Desconfortável no início. Mas com o tempo ficou aconchegante. Não há televisão naquela sala. E nem nas outras. 
    Apenas retratos. E mais retratos. Alguns quadros também. 
    Em um dos retratos vejo sua mãe. É bonita como ela. Ouvi histórias que diziam que a mãe dela havia fugido com um vizinho, e deixara Caroline com o pai, que por sinal não estava em nenhuma foto ali. E também, não estava na casa.
    Ela demora.
    Decido então fazer passeio pela casa. 
    São dois andares. 
    No de baixo, temos as salas a cozinha que é bem espaçosa, não tem mesa, pois a mesma fica na sala de jantar ao lado. Na cozinha, tem apenas os armários que cobrem todas as paredes do lado direito, tem também a geladeira e o fogão.
    Uma escada em espiral fica no meio da sala de recreação. Subo-a.
    A escada dá de encontro com um corredor. Extenso corredor. 
    A primeira porta é branca, giro a maçaneta e a abro. Dentro encontro uma cama de casal com vários travesseiros. Doze no mínimo. Um enorme guarda roupa, vai do chão ao teto, engolindo a parede. Um cheiro forte de colônia toma conta do ar. Deve ser o quarto do pai dela.
    A segunda porta, é marrom, lisa. Abro-a. É apenas o quarto de tralhas, coisas que não usam mais. Haviam diversos instrumentos quebrado.
    Nesse corredor havia mais cinco portas. Mas logo na terceira, era o quarto dela.
    Um enjoativo odor adocicado toma conta do meu nariz instantaneamente. A porta está meio aberta. Ouço o som do rádio.
    Entro.
    Ela estava lá. 
    Caroline
    Caroline
    Usando apenas a camisa e uma calcinha azul com rendas. Suas pernas brancas chamavam minha atenção, ela as balança conforme o ritmo da música. 
    O ranger da porta a pega de surpresa, dá um pulo de leve e se vira, colocando a mão sobre o peito. Posso ver o volume de seus mamilos sob a camisa. Ela solta a escova de cabelo.
    O quarto é delicado como ela. Haviam inúmeros instrumentos por ali. Violões. Guitarras. Flautas. Trompete. E muitos outros.
    No canto, por ironia, está um teclado todo empoeirado. Abandonado.
    Ela sorri.
    No centro do quarto está sua cama. Grande. Muito grande.
    Ela sorri.
    Passeio pelo quarto, encaro o espelho do guarda roupa, estou arrumado, bonito.
    Sorrio.
    Um raio de sol que entra de penetra desviando da cortina lilás, paira sobre o teclado empoeirado. Um punhado de poeira dança na faixa de luz solar. Passo meu dedo, bem devagar sobre as teclas, daria para ouvir um som decrescente, se o teclado estivesse ligado. Ou com bateria. 
    Não entendo de teclado.
    Olho para Caroline. Parece não se importar. Aquele devia ter sido seu primeiro instrumento. Abandonou-o. Pergunto o porquê disso. 
    O motivo de tê-lo deixado de lado.
    - Cansei dele. – Ela diz, Sorriso.
    Cansou dele. 
    Todo o tempo que haviam passado juntos não contava mais.
    Sorrio para ela.
    Pressiono uma tecla. Não faz som. 
    Está sem bateria ou desligado. Não entendo de teclado.
    Abaixo na altura dele. Assopro. Uma nuvem de poeira se espalha pelo quarto.
    Ela desabotoa um botão.
    Coloca as duas mãos sobre o instrumento.
    Você não se importa mais com ele, pergunto esperando que ela me dê uma resposta positiva.
    - Sim, mas ele está velho, não serve mais para mim. – Ela diz. Mordiscando o lábio inferior e sorri.
    Não era a resposta que eu queria ouvir. 
    Desabotoa outro botão. 
    A porta range com o vento leve que entra pela janela. A cortina balança. Com um pouco de esforço levanto o teclado de sua base.
    - O que está fazendo. – Ela pergunta. 
    Sorrio.
    Sua camisa está quase toda aberta. Com o passo que ela dá, posso ver seu seio balançar. Vem em minha direção. 
    Sorrio. Ela não. 
    Levanto aqueles aproximadamente dez quilos acima do ombro, e então a golpeio no rosto.
    O golpe não é forte o suficiente para desmaia-la.
    Ela apenas cai e põe a mão sobre a boca. 
    Posso ver seu seio. Sangue pinga no chão de piso branco. 
    Meus braços pesam. Já estão cansados. Caminho por alguns centímetros arrastando o teclado. 
    Ela chora. 
    O sangue escorre de sua boca e pinga sobre seu mamilo marrom. Escorre por ele e pinga em sua barriga, e logo é absorvido pelo tecido da camisa de bolinhas.
    Não sei por que fiz. Apenas senti vontade.
    E então a saciei.
    Com muito esforço, ergo o teclado novamente. E a golpeio de novo. Um golpe contra sua cabeça.
    Ao tentar se proteger ela acaba quebrando o pulso. Som que posso ouvir com clareza. 
    Ela chora. Urra de dor.
    Ergo o teclado novamente.
    Então solto contra ela. 
    Ergo o teclado. Mais um golpe.
    Peças se soltam.
    Sangue espirra.
    Ergo o teclado. Mais um golpe.
    Ela não se move.
    Meus braços doem. Estou ofegante e soado.
    Suas pernas brancas estão sujas com seu sangue. Ela agora tem um motivo para não tocar o teclado. Seu pulso está roxo e inchado.
    Silêncio.
    Paro em frente ao espelho. Arrumo minha gravata. Bonito.
    Por sorte as gostas de sangue não são aparentes em meu terno.
    Olho para ela. Não está mais tão bonita. 
    Tristeza.
    Seu rosto, com o nariz quebrado e faltando alguns dentes, está coberto de sangue. Seu cabelo está molhado por uma poça enorme de seu sangue. 
    Deve ter encontrado a paz.
    Desço a escada. A cafeteira apita. Sirvo um pouco de café. Caminho pela sala. Observo novamente as fotos e quadros. 
    Seu pai não está ali. Sua mãe continua sorrindo. 
    Muito linda. Se Caroline tivesse ido embora com ela. Nada disso teria acontecido
  • A PORTA TRANCADA

    Enola podia perceber a agitação entre as amigas, os cochichos, os risos contidos, mas os olhares eram na direção do casarão.
    - Então meninas, por que estão tão animadas?
    - Oh Enola, que bom vê-la esta manhã - Sorri Ingrid. - Não sabe ainda que o casarão foi vendido?
    - Sim, todo mundo sabe. Algum ricaço misterioso o comprou a mais de um mês.
    - Pois estão, o ricaço misterioso chegou esta manhã, ainda estão trazendo seus pertences em carroções.
    - E o que tem de mais?
    - O que tem de mais minha querida é que o ricaço é jovem e... bonito, muito bonito.
    - Logo a dona ricaça deve chegar também.
    - Acho que não Enola, papai disse que ele é viúvo e que veio de Ohio. Um jovem e rico viúvo e... sem filhos.
    - Então quem sabe alguma de vocês desencalha.
    - Isso seria um sonho, nunca vi a mansão por dentro e há anos não aparecia um comprador. Papai disse que ele nem pechinchou. Apenas pagou e disse que logo se mudaria. A propósito, seu nome é Liam.
    - Isso vai render uma ótima comissão a seu pai, eu espero.
    - É verdade, talvez ele me compre o vestido para o baile da senhora Hilton.
    As demais moças ainda fitavam a mansão na esperança de rever o distinto cavaleiro. Enola retornou para seus afazeres, levando as compras para casa.
    Duas semanas passaram-se sem que Enola conhecesse o cobiçado jovem mas, os comentários na cidade eram sempre sobre ele. Como seus olhos claros pareciam com o céu ou, sobre como seus cabelos castanho-claros eram como o de um anjo ou ainda sobre como sua face bela e alva era como a de um príncipe saído dos contos de fadas.
    Na noite do baile em que toda a elite da cidade estava reunida sob o mesmo luxuoso teto, Enola servia os convidados de sua senhora. Ingrid e as amigas mais abastadas da cidade pareciam procurar por alguém entre os demais convidados, recusavam-se a dançar com os costumeiros rapazes. Elas estavam cansadas de serem cortejadas por filhos de barbeiros, padeiros ou pequenos comerciantes. No entanto, quando o jovem de olhos azul anil adentrou o salão da senhora Hilton, seus olhos pousaram primeiramente em Enola, que servia chá ao doutor Swenson, o velho médico quase cego que pigarreava sem parar.
    - Boa noite senhorita.
    - Boa noite meu senhor. Chá?
    - Somente se me chamar de Liam.
    Os olhos de Enola se erguem para vislumbrar o príncipe encantado descrito pela moças repetidamente.
    - Está bem meu se... quer dizer, Liam.
    Enola o serve e os olhos das demais damas solteiras e até das casadas estão sobre eles.
    - Então o senhor é o novo proprietário da antiga mansão dos Costello?
    - Sim, sim. Me mudei a cerca de duas semanas. E... a senhorita mora aqui?
    - Não, quem me dera. Moro com minha mãe a alguns quarteirões ao norte daqui.
    - E o que sua mãe faz?
    - Ela também era serviçal da senhora Hilton mas ela adoeceu e sente muitas dores nas juntas então eu tomei seu lugar.
    - E o seu pai?
    - Bem, papai faleceu quando eu ainda era pequena.
    - Lamento.
    - Mais chá?
    - Não, não, obrigado.
    - Desculpe o atrevimento mas, alguém já lhe disse que você tem um rosto angelical?
    Enola apenas ri, meio sem jeito.
    - Gostaria de conhecer a mansão? É um lugar muito grande e eu mesmo ainda não a conheço direito, talvez pudesse me ajudar, ainda tenho muitas coisas para desembrulhar.
    - Seria uma honra meu se... quer dizer, Liam.
    - Então lhe espero amanhã para o almoço e depois você me ajuda com minhas bugigangas. Eu pagarei um bom preço.
    - Está certo, estarei lá para ajudá-lo, mas o almoço é desnecessário Liam.
    - Deixe disso, eu faço questão. Afinal, onde estão os modos dos cavaleiros de hoje? Você é minha convidada.
    - Sendo assim, está bem.
    Enola serviu os demais convidados mas, seus pensamentos estavam em Liam. Que rapaz adorável!
    As invejosas viraram a cara para Enola pelo resto da noite, pois Liam não falou com ninguém mais a não ser Enola e a anfitriã da festa. Outras sorriram para Enola, como Ingrid, Berta e Lilian que embora fossem de famílias tradicionais da região tinham em Enola uma amiga e confidente.
    Enola visitou Liam no dia seguinte, uma refeição finamente preparada os aguardava e o cheiro era apetitoso. A casa tinha apenas uma governanta com sotaque alemão e cara de general, dois cachorros que ficavam correndo pelo quintal mas, jamais adentravam as portas do casarão. Enola e Liam desembrulharam alguns objetos de decoração aparentemente antigos, conversaram e riram bastante. No fim do dia, Liam pagou generosamente a encantada jovem mais que o dobro do que um dia de serviço árduo valeria.
    - Enola, queria agradecer sua companhia, você é uma jovem fascinante.
    - Obrigada. Você é um cavaleiro Liam. Se precisar de alguém para limpar os cômodos, de vez em quando, pode me chamar.
    - Na verdade o que preciso não é de apenas mais uma serviçal, embora precise de algumas, é verdade. Henriet não dará conta de tudo sozinha. Mas... estava pensando em algo como uma companheira.
    Enola não sabia o que responder mas era nítida sua emoção com o comentário.
    - Então, será que eu teria a permissão de sua mãe para cortejá-la e... claro se for de sua vontade também.
    - Claro Liam, mamãe não poria empecilhos para um homem tão distinto e educado.
    - Está certo! Você não sabe como me deixou feliz, Enola.
    Três meses se passam até que o casamento de Liam e Enola leve toda a cidade a igreja matriz. Até o prefeito estava presente, dos mais nobres aos mais simples, todos participaram do banquete ofertado em comemoração. Enola e Liam estavam felizes e apaixonados.
    Durante semanas a festa de casamento era assunto na cidade. Enola não precisava mais trabalhar, ainda assim assumia as tarefas de manter o casarão arrumado e limpo. A governanta Henriet às vezes parecia ser a dona da casa, usando de seu tom autoritário e Enola a empregada . A moça não se importava, fôra submissa a vida toda e além do mais, ela não conseguia ficar parada.
    - Henriet, percebi que esta porta sempre está trancada, o que há aqui?
    - Nada. O patrão trancou-a com ordens de que não seja aberta. Apenas ele tem a chave. Achei que ele já lhe tivesse dito.
    - Não, ele não disse nada.
    - Deve ter se esquecido. Ele é um homem muito ocupado. O que você queria neste cômodo?
    - Nada. Apenas estava tirando o pó dos móveis e esta sala está trancada. Apenas isso.
    Henriet apenas olha Enola, com seu tom de superioridade e retira-se sem dizer mais nada. Enola permanece cabisbaixa no meio da sala e decide que vai visitar sua mãe. Precisa tomar um ar. Enquanto está se arrumando para sair, Liam chega em casa:
    - Onde pensa que vai?
    - Vou visitar minha mãe. Estou com saudades. Quer vir comigo?
    - Não posso, estou muito atarefado e... você não deve andar por aí sozinha.
    - Não seja bobo querido, conheço todos na cidade, eu ficarei b...
    - Eu disse que você não deve andar sozinha. Em outras palavras, você fica!
    - Mas eu precis...
    - Quem decide o que você precisa ou não fazer, sou eu!
    - Henriet! Henriet!
    - Sim?
    - Enola está proibida de sair de casa sem minha expressa permissão. Está claro?
    - Sim senhor.
    Alguns dias se passam e Liam quase não para em casa. Enola se vê solitária e começa a questionar sua decisão de ter-se casado com seu príncipe encantado. Henriet vigiava todas as ações da moça.
    - Estas chaves não abrem essa porta, já lhe disse que apenas o patrão tem a chave.
    - Se não há nada de errado com esta sala, qual o problema de eu vê-la?
    - A curiosidade matou o gato, já diz o ditado. Fique longe desta porta!
    A noite quando Liam chegou em casa, Enola questionou-o sobre a misteriosa sala:
    - Meu bem, por que uma das salas está sempre trancada?
    - Apenas alguns pertences meus, coisas pessoais.
    - Mas, são pessoais até para mim?
    - Sim. Para qualquer um.
    - Eu não entendo o que pode haver de tão...
    Um tapa rápido e certeiro queima o rosto de Enola que é atirada contra a cama pela violência do golpe.
    - Eu já disse. Não gosto de ter que repetir as coisas nem de ser contrariado.
    O cheiro da bebida misturado ao perfume barato pode ser percebido, assim como as manchas de batom na camisa branca.
    As lágrimas correm pelo rosto de Enola enquanto ela continua pasma com o que acabou de acontecer. Liam deixa o quarto e não retorna pelo resto da noite. Enola fica sozinha com seus lamentos.
    No dia seguinte Liam retorna mais cedo com um buquê de flores coloridas.
    - Ontem... bem ontem, gostaria que esquecesse isso. Não vai se repetir.
    - Desculpas aceitas, se é isso que você está tentando dizer. - Enola responde cheirando suas flores de perfume adocicado.
    - Sendo assim, poderíamos nos recolher mais cedo esta noite. O que acha?
    - Gostaria muito de poder visitar minha mãe, ela já não estava nada bem no dia do nosso casamento, depois disso nunca mais a vi.
    - Ah, é verdade, esqueci de lhe contar. Sua mãe faleceu há dois dias. O enterro foi ontem. Que cabeça a minha!
    - O que?
    - Pois é, como são as coisas, não é?
    As lágrimas descem pelo rosto de Enola mais uma vez com o sabor amargo da perda de sua amada mãe aliada a raiva pela displicência ultrajante do marido.
    Liam agarra-a pelos cabelos e arrasta-a para o quarto. Henriet ouve de longe os pedidos de socorro e choro de Enola enquanto seu patrão consegue o que quer a força.
    Ainda bem cedo, de madrugada, Enola levanta-se da cama, o marido tem os olhos fechados, sorrateiramente ela intenta fugir da mansão que tornou-se sua prisão. Assim que deixa o quarto ela corre até a grande porta que está trancada. Ela procura e encontra o molho de chaves em cima da mesa de centro da sala-de-estar. Enquanto procura a chave certa que lhe dará a liberdade, um ranger de dobradiças lentamente permeia o ambiente. A porta que sempre estivera trancada é a única aberta em toda a casa. Enola hesita por apenas um instante, então ela segue até a porta semi-aberta, adentra a sala, fecha novamente a porta e acende a luz. O que ela vê a deixa aterrorizada. Sobre uma mesa colonial, esmeradamente trabalhada estão seis recipientes de um vidro muito grosso e pesado, várias cabeças de mulheres, mergulhadas em um líquido transparente.
    - Mas o que é isso? - Ela diz para si mesma horrorizada e amedrontada.
    - São minhas ex-mulheres! Se é o que quer saber! - Liam fecha a porta atrás de si. - Era um bom motivo para não querer você bisbilhotando aqui não acha?
    - O que e... por que?
    - Na verdade, não sei dizer, apenas faço o que gosto e eu... gosto disso. A propósito, o próximo vidro é seu, já coloquei até seu nome nele. Vai ficar muito bonita na minha coleção.
    - Você é um monstro! Seis esposas que você matou!
    - Não, não. Não me julgue mal, apenas quatro são minhas, Samantha, Verônica, Julliet, Cloe e agora você, Enola. Sinta-se honrada! As outras duas são do meu pai.
    Henriet abre a porta e entra.
    - Henriet, Henriet, por favor me ajude! Sei que você não gosta de mim, mas não pode me deixar morrer assim.
    - Na verdade meu nome é Klauss. - Henriet retira a peruca loira para revelar uma cabeça calva. - E essas duas são minhas. Está é Leonnore, minha ex-esposa e esta é a verdadeira Henriet, minha governanta e amante. Quando Leonnore descobriu nosso caso, acabei logo com as duas. Eu não sabia mas Liam, quer dizer, Aldric, assistiu a tudo. Não o culpo por ter tomado gosto pela coisa, afinal ele tinha apenas sete anos.
    - Está bem papai, apresentações feitas, vamos para o que interessa. Minha querida Enola, foi bom... na verdade não foi não, enjoei muito rápido de você.
    Liam, ou melhor Aldric, abre uma caixa de madeira e retira um enorme machado.

    É uma manhã fria e cinzenta. Em frente a mansão uma comitiva de carroças carrega a mudança do ilustre jovem que parte da cidade com sua esposa e a governanta, seus dois cães e várias caixas que são colocadas cuidadosamente na charrete junto com Liam e Henriet. Ingrid vai até a charrete para se despedir de Enola.
    - Bom dia senhor Liam, vocês estão de partida?
    - Sim minha jovem, negócios no Iowa, precisamos nos mudar, seu pai pode arranjar um novo comprador, estou colocando a venda.
    - Certamente papai pode cuidar disso. Posso me despedir da minha amiga?
    - Sinto muito, mas ela não quer falar com ninguém. Ainda está muito abalada com a perda da mãe.
    - Estranho ela não ter ido nem mesmo ao velório da mãe.
    - Ela não tem se sentido bem nestes últimos dias, queira nos desculpar, estamos de partida.
    - Claro, queira me perdoar.
    A comitiva começa a andar, Ingrid dá apenas um adeus, esperando que a amiga esteja vendo-a.
    - Adeus Enola.

    Um jovem distinto adentra a farmácia.
    - Bom dia.
    - Bom dia senhor.
    - Charles. Meu nome é Charles.
    - O que o senhor precisa senhor Charles.
    - Senhor não, por favor, apenas Charles.
    - Tudo bem Charles, do que você precisa?
    - Na verdade, preciso de formol e... preciso conversar, acabei de me mudar para cá vindo do Wisconsin. É sempre tão quente aqui na California?
    - Boa parte do ano é sim.
    A moça estende a mão.
    - Muito prazer, meu nome é Abigail.
    - Abigail, o prazer é todo meu.
    - Você mudou para cá com sua família?
    - Não, apenas eu e meu assessor particular, o senhor George.
    - E um cavaleiro tão distinto quanto o senhor não tem uma esposa?
    - Infelizmente fiquei viúvo ainda muito cedo. A tuberculose é cruel.
    - Oh, sinto muito.
    - Eu estava pensando Abigail, se depois que terminar tudo por aqui hoje, se você não gostaria de fazer um passeio comigo, me mostrar a região?
    - Está bem, eu saio às cinco.
    - Te pego aqui às cinco então.
    O galante senhor Charles vai deixando a loja, mas antes de sair:
    - Me desculpe o atrevimento mas, alguém já lhe disse que você tem um rosto angelical?


  • A Promessa

    Altas horas da madrugada. Jogo a mochila nas costas, faço o sinal da cruz, peço a Nossa Senhora a proteção, ajoelho-me diante dela e agradeço. Preciso pagar algo. Na mochila carrego algumas peças de roupa: uma blusa para caso faça frio, uma calça, um par de chinelos novos, meias e algumas cuecas. Claro sem esquecer-me de toalha e sabonete, estou indo viajar.
    Não vou de carro, avião, e muito menos de ônibus. Serei guiado pelas minhas pernas e pelo amor que tenho por Jesus Cristo, o nosso santo salvador. Tranco a porta de casa com a chave, enfio ela no bolso da calça e dou inicio a minha caminhada.
    O céu de cor escura e estrelada é acompanhado por uma lua cheia gigantesca, tão grande que até dá para tocá-la com a ponta dos dedos, mas eu não quero. Ao meu redor poucas casas, árvores, e silêncio. Estou nessa jornada sozinho, só eu e Deus; em minha humilde opinião, melhor companheiro não há.
    O dia amanhece. O sol aparece e eu resolvo sentar-me. Sem alternativas escolho o chão, forrado de capim seco. De dentro da mochila eu tiro pão e água, como lenta e vagarosamente, saboreando cada pedaço, cada gole, cada momento. Vejo carros passando apressados do meu lado, mas não enxergo o tempo passar.
    Prossigo minha jornada que será longa, mas que terá uma justa recompensa em sua chegada. No trajeto muitos param e ofertam-me carona, eu agradeço, mas recuso, pois promessa feita deve ser cumprida.
    Quase um dia inteiro de caminhada e o cansaço começa a tomar conta. Suor escorre do meu corpo e lágrimas descem dos meus olhos, eu venci. A igreja está lá, imponente diante de mim.
    Coloco-me de joelhos sobre o asfalto fervente. Cruzo os dedos numa prece e dou glórias aos céus e agradeço Jesus e a Nossa Senhora por ter me dado saúde para atingir o objetivo dessa jornada. Agradeço a Deus por ter salvado minha mulher e meu filho.
    Foram meses de sofrimento. Minha esposa teve diversas complicações durante a gestação. Meu filho nasceu prematuro, com apenas seis meses de gravidez. Ela quase faleceu, meu pequeno também, mas prometi a Deus e a Nossa Senhora se os salvasse eu iria a pé para a igreja e esse seria o meu agradecimento.
    Pacientemente esperei. Com amor e devoção rezei e pedi com todas as minhas forças um milagre. Foram dias difíceis. Dias em que eu pensei em desistir, principalmente quando os médicos diziam-me que já não havia mais esperança. Noites em claro em que eu trocava meu sono só para ficar ao lado dos grandes amores da minha vida, minha mulher e meu filho.
    Não desisti, insisti e venci. Estava sentado na sala de espera do hospital, o rosto cansado e o olhar triste; o coração batendo num esforço incomum, ele pedia para parar. Foi quando uma enfermeira veio em minha direção e com lágrimas nos olhos me falou:
    - Venha, o doutor deseja lhe ver.
    Sem entender nada eu fui. O lugar onde eles estavam era há poucos metros dali, mas para mim parecia ser uma distância incalculável. O médico de cabelos brancos e jaleco da mesma cor me aguardava de costas para mim. Ao virar-se para olhar-me vi um brilho em seus olhos, em seguida um sorriso grande, largo e bonito. Foi então que ele me disse:
    - Um milagre aconteceu! Sua esposa e seu menino despertaram. Não terão nenhum tipo de sequela, e amanhã mesmo você poderá leva-los para a casa.
    Desabei. Ajoelhei-me no chão cercado pelo médico e mais três enfermeiras. De longe vi meu filho ainda na incubadora, de olhinhos abertos e com cara de sono. Também vi minha amada esposa, de cabelos cacheados e aspecto cansado; se não tinha sido fácil para mim imagina como foi para ela ter suportado tamanha penitência.
    E então estou aqui. Diante da imagem de Nossa Senhora, de joelhos. Pagando aquilo que prometi. Nesse instante minha esposa troca meu filho, ele já tem quatro anos e hoje é seu primeiro dia de aula. Obrigado Senhor. Obrigado Deus. Obrigado Nossa Senhora. Minha vida e a minha família agora é toda sua.
  • A proposta

    - Você me ama?
    - Sim, eu ti amo muito. Mais do que tudo nessa vida.
    - Ama não. Você só tá me enganando, só quer me usar e depois me jogar fora. Como já fez com tantas outras.
    - Eu ti amo. Como você pode pensar isso de mim? Logo eu que joguei tudo para o alto para vir atrás de ti. Juro que ti amo.
    - Então prova!
    - Como? O que eu faço?
    - Mata o meu marido e foge comigo.
    Rodrigo recebeu com uma grande surpresa a proposta de Isabela. – Matar?! Nunca havia passado por sua cabeça matar alguém, mas para atender ao pedido de sua amada ele era capaz de fazer loucuras.
    - Você sabe que enquanto ele viver não podemos assumir o nosso romance e sermos felizes. Tá vendo essas marcas pelo meu corpo? Ele me bate, me maltrata, me tortura. Se descobrir nosso romance matará nós dois.
    Rodrigo continuava com a cabeça baixa – pensativo. Ele sabia que Luiz – o esposo de Isabela – Batia nela. Aquilo o deixava furioso, não entendia o porquê que com toda a humilhação que ela passava ao lado do marido, ainda continuava casada com ele. No entanto, mesmo com todo o ódio que ele tinha pelo marido de Isabela, nunca passara por sua cabeça mata-lo.

    Rodrigo e Isabela eram primos – cresceram juntos e juntos descobriram o amor – ele foi o primeiro homem de sua vida e ela a sua mulher. Apaixonaram-se e até sonhavam casar. Mas tal sonho não era fácil de realizar, sobretudo devido à oposição de seus familiares e a mentalidade conservadora da cidadezinha do interior onde viviam. E de fato não se realizou – a vida levou-os por caminhos diferentes. Isabela deixou a cidadezinha interiorana e foi morar na capital. Conheceu Luiz – um policial militar com quem se casou. Porém ela nunca conseguira esquecer o grande amor de sua vida – seu primo Rodrigo. Ele sofreu muito no dia que soube do casamento de Isabela. Foi em um bar, tomou todas e mais algumas. Não acreditava na noticia que recebera de que seu grande amor iria se casar com outro.

    - Então não passavam de mentira as juras de amor que ela me fazia? Pensava consigo Rodrigo. A resposta era sempre sim. – Só me resta esquece-la. E assim ele tentou fazer.

    Tempos depois Rodrigo decidiu deixar a pequena cidade do interior onde morava para seguir até a capital e ali quem sabe construir uma nova vida. No fundo do seu coração também carregava a esperança de reencontrar sua amada e quem sabe construir uma nova historia juntos. Não demorou muito para que Isabela soubesse que Rodrigo estava morando na capital. O que ocorreu bem no período em que ela atravessava uma crise tremenda no seu casamento. O fato é que ela nunca fora feliz ao lado de Luiz. Casara-se com ele mais por necessidade do que por amor. Luiz era machista e extremamente violento. Mantinha a esposa tal como uma prisioneira, uma escrava. Assim ela não pensou duas vezes em se jogar nos braços de Rodrigo. Quando se viram não conseguiram esconder um do outro que ainda se amavam perdidamente. E mesmo sobre forte risco passaram a ter um caso secreto. A vida ao lado de Luiz tornava-se cada dia mais insuportável para Isabela. No entanto ela sabia que o esposo já mais aceitaria um pedido de divorcio. Ao contrario, se soubesse que ela estava o traindo, ele a mataria sem nenhuma duvida. Assim a única forma que ela acreditava ser possível para livrar-se do marido, seria matando-o. E ninguém melhor para executar o serviço do que seu amante.

    - Eu sei que não deveria pedir isso para ti. Ele é mais forte que você, mais preparado. Seria muito arriscado. Você não daria conta.

    - Você pensa isso mesmo? Acha que só por que ele é policial militar tenho medo dele? Acha mesmo que não tenho coragem de mata-lo? Nos conhecemos desde criança e mesmo assim parece que tu não me conhece.

    - Não é isso. Sei da tua coragem. Mas o fato é que é muito arriscado. É melhor esquecermos isso. Talvez seja mesmo minha sina suportar aquele monstro que me espanca todos os dias, que desconta em mim as frustrações do seu trabalho.

    - Quando disse a ti que te amo acima de tudo, não estava brincando e que sou capaz de fazer qualquer coisa para provar o meu amor também não era apenas força de expressão. E para provar que te amo ti livrarei daquele monstro. Vou mata-lo.
    - Você jura? Você é capaz de fazer isso por mim, por nós, pela nossa felicidade?
    - Sim meu amor.
    Isabela abraçou Rodrigo e beijou-o loucamente. Despiram-se e transaram alucinadamente ao som do Motor Head, tal como já mais transaram até então. Aquela transa selava um pacto entre os dois – o pacto pela morte do Luiz.

    Isabela tinha tudo planejado há muito tempo: - Amanhã o Luiz vai dar plantão à noite. Quando ele for para o trabalho eu ti ligo e tu vai lá para minha casa. Dormimos juntos, ai vou arranjar uma arma para ti – o Luiz tem um revolver que ele deixa escondido em casa, sei o lugar pego e passo pra ti. Quando ele retornar do trabalho, quando abrir a porta de casa você estará lá esperando por ele, dai você descarrega a arma nele.

    - Amanhã? Já? Questionou Rodrigo.

    - Sim, amanhã. Não podemos perder tempo. Vai ser tranquilo. Ele já mais vai imaginar que você estará lá em casa esperando por ele de tocaia.
    - Ok, então. Vai ser amanhã.
    - Olha lá, não vai dar pra trás. Agora tenho que ir, pois se ele chegar em casa e eu não estiver, vai ser mais uma sessão de tortura.
    Beijaram-se e se despediram, agora era só esperar o momento que tudo aconteceria e fazer acontecer. Isabela voltando para casa imaginava consigo: – agora só basta àquele covarde desistir, mas ele não é louco de fazer isso comigo. Rodrigo por sua vez estava receoso no que poderia acontecer. Não o assassinato em si, pois era só apertar o gatilho, o problema era o que aconteceria depois – a morte de um policial militar e toda a perseguição que sofreria – tanto ele como sua amada. E assim não foi pouca ás vezes que ele imaginou desistir, em não cometer aquele crime, mas pensava no quanto seria decepcionante para sua amada se ele desistisse. Uma decepção que poderia significar o fim do romance deles.

    Chega então o dia tão aguardado. Luiz sai para o trabalho e duas horas depois Isabela liga para Rodrigo: - Meu amor, ele já foi para o trabalho, pode vir. Já estou com a arma em minhas mãos. Vem logo que estou louca pra ti ver. E não se preocupe que tudo vai dá certo. Tudo vai ficar bem e seremos muito felizes.

    - Ah aquela voz. A voz doce de Isabela no telefone, sussurrando no ouvido de Rodrigo o deixava maluco. Ele se esquecia de tudo, só pensava em esta com ela, em abraça-la, beijar todo o seu corpo e transarem alucinadamente tal como da ultima vez que se encontraram. Ao chegar a casa dela, ele não se arrependeu tiveram uma noite de amor incrível com muito sexo, drogas e rock in rol. A noite foi tão maravilhosa que passou rapidamente, tão rapidamente que eles nem perceberam que já começava raiar o sol de um novo dia.
    - Rodrigo, Rodrigo, tá na hora ele esta chegando, o Luiz tá chegando. Esconda-se que eu vou abrir a porta pra ele, quando ele entrar atire.
    - Amor, cheguei, abra a porta. Falou Luiz
    - Já vai. Gritou Isabela. Em seguida virou para Rodrigo dando lhe um beijo e dizendo – é agora meu bem.
    - O que você estava fazendo que demorou tanto para abrir essa porta? Gritou Luiz com Isabela.
    Mas antes que ela respondesse e que ele se quer colocasse os dois pés para dentro da casa ouve-se então os disparos – Pum, pum, pum. Sem nenhuma reação Luiz cai morto no chão. Rodrigo está tremulo com o revolver na mão olhando para o corpo do Luiz já sem vida, não acreditando no que acabara de fazer. Isabela por sua vez tinha um estranho sorriso nos lábios, um sorriso macabro. Ela vai até o marido que está morto no chão, senti o seu pulso e diz: - Ele esta morto. Rodrigo continua paralisado com a arma na mão, parecendo esta em estado de choque. Isabela por sua vez pega a arma que Luiz trazia na cintura vira para Rodrigo e lhe dá três tiros – pum, pum, pum. Em seguida ela liga para policia e conta tudo que havia acontecido.
    - Meu primo Rodrigo invadiu a minha casa para roubar. Meu querido marido tentou reagir, eles trocaram tiro e se mataram.
  • A Prova

    Esmerino, Cicero, Francisco e Chagas tinham por hábito ir para frente da igreja para beber. Era o lugar mais alto da cidade e eles veriam de longe caso os pais de algum deles aparecessem para procurar o filho. Com o tempo, aquilo virou costume deles, uma marca da turma. Ironicamente, o melhor lugar para beber escondido era também o ponto mais a vista de todos. Mas, desde que não fizessem barulho, ninguém os importunaria ali.
    Entre eles, Francisco era o mais falador:
    – Rapaz, ela veio com uma história de venha cá Francisco, tenha medo não! Meu marido só chega amanhã e não sei quê e tal. Aí eu fui né! Nesse dia eu estava meio desconfiado já. –piscou para Esmerino – A safada queria era me enganar! Ela já sabia que o marido dela já andava desconfiado de que ela lhe colocava chifres enquanto ele viajava. Aí tramou pra dar um “perdido” no chifrudo, marcou comigo ao invés de marcar como o pé-de-lã oficial, aí mandou uma empregada dar o aviso pro corno. O chifrudo chegava, dava o flagrante e me matava ao invés de matar o amante verdadeiro. A sorte é qu’eu sou muito vivo! Não sabia a madame que eu já tinha um namoro com a empregada. Então Nalva chegou e me contou tudo. Quando eu fui pro quarto da coroa, eu já fui prevenido, deixei uma escada do lado de fora do lado da janela dela, por que a casa era ladeada pela ladeira da rua nova. Quando o corno chegou, a Nalva soltou um assobio agudo como um pássaro. Era o sinal pra eu fugir dali. Aí quando ele chegou ao quarto, eu já ia atravessando a rua lá do outro lado, peguei foi o beco. Fugi ligeiro dali! Mas tem uma coisa: passei a rola na empregada, na patroa e de quebra, passei chifre no marido e no Ricardão, olha aí! 
    – Francisco, tu és muito cagado! Disse Esmerino, cego de admiração pelo amigo. Esmerino era sem dúvida o mais ingênuo da turma. 
    – Cagado não, Esmerino, eu sou bode. Se meu chamego não fosse do agrado de tudo quanto é mulher, principalmente de Nalvinha – a empregada – nunca que ela iria me salvar daquela. Ou iria?
    Cicero, com ar de deboche e quente da bebida barata, emendou: É, Chico, se é bode eu não sei, mas vocação pra pescador você tem. Ô cabra pra mentir, pense...!
    – Mentiroso é você! – Francisco, se fazendo de ofendido, foi pra cima do amigo de forma bem forçada, quase teatral. Não queria ferir um amigo, mas tão pouco ser dado como mentiroso, bastava uma ameaça então, embora torcesse para Cicero não reagir. Ninguém, por incrível que possa parecer, fez qualquer esforço para segurá-lo, tão pouco Cicero se alterou. Chagas ficou só olhando, meio tonto da bebida. Todo mundo ali já era acostumado com as valentias de Francisco, e sabia também que ele nessas horas só fazia ciscar e sacudir poeira para o ar. Só quem se balançou pra ir acudir foi o inocente do Esmerino, mas não tinha coragem de se meter em briga, perdeu a cor. Francisco soltou uns berros, uns palavrões, cuspiu no chão, até que Cicero, apaziguador – Homem, deixe de coisa, eu só estava brincando. – pediu desculpas, mais para que a algazarra de Francisco não acordasse algum vizinho que pudesse dar parte à polícia. 
    – Acho bom mesmo, porque eu não queria ter que bater na cara de um amigo meu. Porque você sabe que quando eu me espalho, meu amigo, pra juntar é mais difícil.
    – Está certo, meu amigo...
    Quem conhece Cicero sabe que ele tem a fama de ser bom contador de causos, principalmente quando se trata de história da assombração. Fora isso tinha a fama também de não se esquentar com nada nesse mundo. Por isso mesmo, era o grande conselheiro da turma. Amores não correspondidos, briga com os pais, problemas na escola, tudo era com ele que os outros amigos procuravam conselhos.
    Chagas era o mais velho da turma, com uns vinte e dois anos eu acho. Era um bom amigo, mas tinha um defeito horrível: adorava caçoar dos companheiros, e era apaixonado por briga – dos outros! – corria léguas pra não ter que encarar uma de frente. Sempre dizia que dava um boi pra não entrar numa briga, mas dava uma boiada inteira pra ver uma. Vendo que aquele ensejo não ia dar em nada, deu de cutucar os ânimos de Francisco pra ver se despertava a fera – Ah Chico, vai deixa mesmo? Ciço te chamou de mentiroso!
    O que deu certo, pois Francisco se levantou ligeiro – Mentiroso é a puta que pariu!
    Cicero respirou fundo e olhou com ar de reprovação para Chagas, queixoso:
    – Tu não te emendas mesmo não é, fresco? Virou-se para Francisco insistindo – Eu já não disse que foi só brincadeira? Se eu soubesse que você não aguenta brincadeira, eu nem brincava com você.
    Esmerino não se aguentou: – Brincadeira é um jumento que tem lá no sítio de pai...
    – Ah, Chico... Dizia Chagas de novo.
    – Cala boca, Chagas! Cortou Cicero.
    Súbito, o sino bateu meia-noite. Esmerino começou a choramingar alguma coisa como
    – ai, nessas horas tem tudo que é alma na rua! – olhando para cada uma das ruas que se estendiam logo abaixo do patamar.
    – Vixe, lembrei de uma vez que um tio meu... ia começando Cicero. Tudo no mundo o fazia lembrar-se de algum causo. Isso, às vezes chegava a ser chato. – Ciço, essas histórias de alma não! Quis cortar Esmerino.
    Deixe de coisa Esmerino, seje homem! Ele ignorou a interrupção e continuou: Certa feita vinha meu tio Arnaldo de uma pesca perto do poço do enforcado. Já era meio tarde quando ele encostou o bote na beira do açude. Não sei o que deu nele de ficar àquela hora pescando ali, disse que não tinha pegado quase nada e já ia embora quando sentiu a água borbulhar. Ele pensou É peixe!, aí resolveu jogar linha pra ver se pegava ao menos uma traíra. Ficou por ali sem pescar nada, distraído. Esqueceu-se do tempo e foi ficando. Diz que quando deu meia noite em ponto, sentiu uma ondulação, como se algo muito pesado tivesse caído na água, fazendo o barco todo se balançar. Quando ele olhou pra trás, viu no galho de um pé de planta do outro lado uma corda amarrada, partida na ponta, e bem embaixo dela tinha como se fosse uma pessoa boiando... 
    – Era bem a alma do enforcado! – Cortou Chagas com os olhos arregalados e marejados. Você pode dizer que não tem medo dessas coisas, ou então que não acredita. E eu até acredito em você. Mas é certo que sempre que se escuta histórias de mistérios do outro mundo, os olhos se enchem de água como se uma súbita emoção tomasse conte da gente. Um misto de curiosidade e medo. – Não teve um morador dali que se enforcou na beira do açude? Não teve, Francisco?
    – E eu que sei!
    –...‘Tava muito escuro – continuou Cicero – e ele só viu foi quando a coisa se tremeu dento d’água e começou a vir pro lado dele boiando. Ele nem contou conversa; saiu do barco com tudo e fez carreira de lá, nem quis saber da tralha que levava no barco. No outro dia é que pai apareceu com as coisas de tio lá em casa, dizendo que tinha achado no açude e que reconheceu que era dele. Detalhe: pai achou as coisas do outro lado do açude!
    Na mesma hora que Esmerino perguntou “A alma arrastou o barco?”, uma Rasga-mortalha passou piando alto por cima deles. Tamanho foi o susto de todo mundo que Esmerino agarrou as partes íntimas certo de que se mijaria. O grito de chagas foi ainda mais alto que o pio da ave. Francisco disfarçou o medo como pode, mas o certo é que estava tão assustado quanto os amigos. Receoso de que alguém percebesse ralhou:
    – Seu tio foi frouxo. Se fosse eu, tinha entrado na água pra ver o que era!
    – Você é lá homem de fazer porra nenhuma Chico, brincou Cicero, tu fica aí tirando onda, mas meu tio que é meu tio mesmo, ex-soldado e tudo, não teve coragem de ficar pra ver, você ia ter!
    – Sou homem sim, seu filho duma quenga! Diga isso de novo, pra ver se você não perde esses seus dentes da frente!
    Esmerino pôs a mão no ombro de Francisco para acalmá-lo: Homem, deixe de ser afobado que Ciço ‘tá só brincando.
    – Brincando... Brincando ‘tá o cu dele! E não me venha com isso de brincadeira não que agora ele falou sério que eu sei! Bora uma aposta pra ver se eu não tenho coragem! Sou mais homem que vocês três juntos! Eu tenho coragem de... de... – ficou procurando no pensamento um ato impensável de bravura e achou: tenho coragem de ir lá no cemitério agora, de meia noite, pronto! Vou lá no cemitério agora, quer apostar? Vou e ainda dou uma coça em qualquer alma penada que der uma de besta pro meu lado!
    – ‘Tá, disso eu duvido! Cicero cruzou os braços, um sorriso de deboche nos cantos dos lábios.
    – Valendo o quê?
    – Eu não vou apostar nada qu’eu sei que ganho. Cortou Cicero, se saindo na conversa de aposta, que não era muito de seu agrado. Esmerino também quis desviar:
    – Deixe pra lá esse papo de aposta, gente.
    Francisco insistiu: Bora apostar meu filho, tem medo de perder? 
    – A’pois está certo, deixe: aposto eu! Disse chagas.
    – Tu me dá o quê seu for? 
    – Eu aposto... Chagas ficou pensativo, Pronto, eu aposto meu relógio como tu não é homem!
    – Está feito então e você’stão tudo de prova, se eu for no cemitério Chagas vai ter que me dar o relógio que ele ganhou do pai dele!
    – Eu te dou meu relógio, mas tu tem que trazer uma prova de que foi lá mesmo.
    – Ôxe! – indagou Francisco – e num vai ninguém comigo? – uma sombra encheu de um ar ridículo o olhar dele.
    – Eu vou morrer de ir ao cemitério numa hora dessas, Chico! – disse Chagas.
    – Nem eu! – Completou Esmerino.
    – Deixe de coisa Chico – disse Cicero segurando-o pelo braço – Você não tem que provar nada pra ninguém aqui.
    Francisco tirou o braço, bruto, encheu os peitos, quanto maior o medo, mais se fazia de macho. – Eu vou! Vou e ainda trago uma prova pra vocês, magote de fresco! 
    Saiu determinado, caminhando rápido, com passadas firmes, o orgulho conflitando pau a pau com o medo. De longe os outros o viram entrar em um beco escuro que servia de atalho para a rua do cemitério, depois disso, desapareceu.
    Cicero ficou puto com Chagas, aquilo tinha ido longe demais, mas ficou calado. Chagas bom só servia pra arrumar confusão pra eles, bêbado então... Na verdade, uma nuvem tomara conta do semblante de Cicero e de Esmerino, mas faltava coragem para tocar nesse assunto. Só restava então calar e esperar.
    O tempo começou a passar ás vezes rápido e distraído, às vezes lento, se agarrando nas coisas como fumaça. O sino badalou às duas da madrugada antes de badalar à uma, pra dizer que o tempo brincava sem querer passar; mas de repente badalou às 3 e às 4 horas quase juntas sem, no entanto, Francisco aparecer. Cicero dormia na calçada esperando. Chagas e Esmerino insistiam que já era hora, mas Cicero queria esperar. Ele conhecia o amigo, sabia que ele tinha ido mesmo. Mas, passada mais meia hora, vendo que o vento da noite começava a mudar, ele resolveu que era melhor mesmo ir, ainda hesitando um pouco.
    Eles já iam se levantando, tirando a terra do fundo das calças quando do nada, surge Francisco, todo arrepiado, pálido, com os olhos arregalados e assustados. Ele se tremia todo e quase não conseguia falar. 
    – E aí, fresco? Foi lá? Perguntou Chagas temendo perder o relógio novo. Francisco olhou para ele e fez que sim com a cabeça. Sua cara era a própria face do assombro.
    Cicero olhou impaciente para Francisco, o semblante pesado de preocupação. Chagas era indiferente à preocupação de Cicero com o amigo – Então, qu’é-de a prova? 
    Francisco, sem levantar a cabeça, tirou das costas uma cruz branca, de madeira. Ele a atirou aos pés de Chagas e falou quase inaudível: ‘Tá aqui, seu puto, tua prova! Me dê meu relógio pra cá!
    – Porra, doido!
    Esmerino, ao ver o que estava escrito se desesperou: – Puta que Pariu! Esse homem pegou logo essa cruz! Meu Deus do céu, e agora?
    Cicero, num repentino estouro vociferou – E AGORA? Tem que levar essa merda de volta! Você não tem juízo não, Francisco? Você viu a cruz que você pegou?
    – Ele já está morto mesmo... – brincou Chagas.
    – Tem graça não, seu VIADO! Cicero ia de um lado para o outro nervoso.
    Mas Francisco estava calado, cambaleou e caiu sentado batente da calçada, com o relógio nas mãos, a cara de assustado, tomou o último gole da garrafa e ficou olhando pro chão sem conseguir dizer mais nada. Um silêncio denso e opaco pairou no ar.
    – E agora, o que é que se faz? Finalmente perguntou Esmerino.
    Francisco se desculpou: Eu só conhecia esse caminho, fui direto nela sem nem pensar!
    – A gente tem que levar de volta, disse Cicero, o olhar perdido no horizonte onde o lençol denso da noite ia sumindo.
    – Eu nunca mais que volto lá! Nem debaixo de surra eu volto lá! Respondeu Francisco – Só de ver aquela foto na pedra eu me arrepiei todinho. Aquela luz estranha, a névoa, as cores...
    Esmerino deu uma solução – Quem armou essa embrulhada que dê jeito nela... N’é não, Chagas? 
    – Eu? Votes! Eu que não entro no cemitério nem de dia, vou morrer de ir de noite... Quem trouxe a cruz foi Francisco-bodão-eu-sou-foda-e-não-tenho-medo-de-nada! 
    – Eu arranco seus bofes pelo cu, seu fresco! Francisco foi pra cima de Chagas e dessa vez era de verdade, se Esmerino não o tivesse segurado, os dois se atracariam ali mesmo e Chagas levaria a pior. Foi ele quem, tirando coragem não sei de onde para tocar na cruz, a entregou para Chagas – Toma. Foi você mesmo que insistiu nesse papo de aposta, agora dá os teus pulos.
    – A’pois dei’stá, deixe que eu dou meu jeito. Mas no cemitério eu não vou!
    – E que jeito você vai dar?
    – Vou dar fim a esta merda.
    – Espere! – Francisco cortou a conversa tão seriamente que todos pararam e olharam para ele, tomou a cruz das mãos de Chagas e ficou um tempo olhando para ela. Uma lágrima desceu de seu olho e desta vez não era medo. Uma lembrança dolorosa passou por sua vista e todos puderam notar. Cicero, o sábio amigo, pôs a mão em seu ombro: – Também, Francisco... Tanta cruz o cemitério e você foi pegar justamente esta! 
    Francisco baixou vista e leu os dizeres “Francisco Nóbrega de Azevedo” com uma estrelinha indicando o ano em que nascera: 1961; e o ano em que morrera: 1980. Quanto tempo já fazia ninguém ali saberia dizer.
    – A deixem aí, disse por fim, quem sabe alguém a encontra e reza um terço por mim.
    Todos concordaram calados e então nada mais se falou. Quando o sol despontou no horizonte, os quatro rapazes se desintegraram no ultimo lufar do vento noturno.
  • A quebra do destino

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    Tenho 1 hora e meia para escrever um conto... Pois estou a esperar um carregamento de um arquivo e não tenho o que fazer, então vou fazer um conto... De que falar? Vou contar uma história real... É noite, umas 7 horas... Eu estava voltando para casa e então vi numa esquina perto de casa, onde fica uma fabrica, um casal que eu nunca tinha visto antes estava a conversar com o vigia do lugar, tudo normal, então vou em direção a eles e de repente um homem aparece atrás de mim e com um pedaço de pau ele tenta me agredir e consegue. Levo uma pancada na cabeça e acordo... Era um sonho! Sim, mas você vai ver que ao mesmo tempo era real. O tempo passou e Aconteceu algo inacreditável eu desta vez saia de casa, acho que ia comprar algo para comer, não lembro a hora, mas era noite e olhei para a esquina da fabrica e quando fui me aproximando vi que as pessoas que estavam ali eram as mesmas antes desconhecidas de meu sonho, estavam na mesma posição, mesmas roupas e conversavam, a mulher estava sentada numa moto. Daí olhei em volta pra ver se via o agressor, mas ele não apareceu, ainda bem né, foi tudo rápido e eu passei. Então para enfeitar este mini conto crio uma explicação... Antes de eu sonhar quase cheguei a conhecer uma garota que fazia curso no mesmo lugar que eu, então não a conheci, foi como se as circunstancias tivessem mudado, pois quase falei com ela, porem um homem que provavelmente era o pai dela entrou em minha frente na hora de eu atacar e falar com ela. Este homem era o agressor. Ou seja, eu não conheci a filha dele, por isto não tive algum tipo de discursão com ela que levasse o pai dela a me seguir e agredir. Talvez tudo tenha sido apenas uma coincidência, as pessoas, o lugar do sonho, pois praticamente para sair de casa tem que se passar por ali, para ir a parada pegar ônibus principalmente. Mas para quem acredita em destino, este conto foi: A quebra do destino. E o arquivo ainda não terminou de carregar... O que mais falar? Para este virar um breve romance eu voltei a ver a garota e desta vez a conheci... Será que vamos ter brigar ou algo que leve o pai dela a me fazer algo? Eu tive que decidir antes de conhecê-la e como a conheci decidi assim enfrentar esta situação sem medo, ou com este como um pouco precavido. É foi o que foi sem ser, ou seja, saiu tudo bem, até hoje estamos juntos e nada aconteceu. Às vezes acabamos fazendo coisas colocando medo sobre as pedras do destino, porem devemos enfrentar e assim seguir adiante. A verdade foi só o sonho e a ocasião real. A quebra do destino aconteceu para quem acredita em sonhos e destinos. Para mim foi apenas coincidência. Falei sonho, mas logicamente foi um pesadelo e para muitos uma premunição que gerou alguma coisa que me fez mudar este destino, talvez eu o tenha mudado inconscientemente. E este foi o fim, porem tenho que continuar o arquivo ainda não terminou de carregar. Então vou dizer é que à garota e o pai dela nem existiram, talvez o agressor do pesadelo fosse apenas um ladrão, se é que existiria este destino diferentemente de sem a aparição dele como foi o que no real aconteceu. Não passou nem 1 hora e vou terminando este conto por aqui, sim, deixando vocês pensado sobre suas vidas, que ocasião na vida de vocês ocorreu algo parecido? Parem após terminarem de ler e reflitam, busquem uma resposta para esta pergunta que fiz e quando encontrarem não tenham medo!
  • A rebelião das bruxas

    Interior do Rio Grande do Sul. 1984. Enquanto o país sai às ruas pelas Diretas, um grupo de mulheres e homens vivem tranquilamente numa grande fazenda no interior do Rio Grande do Sul, sem preocupações políticas. Não participam de eleições, nem de movimentos sociais. Sequer saem da fazenda. As compras de que necessitam são feitas pelos empregados, que recebem as mensagens e ordens pelas crianças. Cultivam apenas suas Oliveiras e produzem azeite. Abastecem a Alemanha e a Irlanda com suas deliciosas azeitonas e óleos dos mais variados tipos. Não competem com o restante dos produtores locais, pois a maioria deles está voltado para o mercado interno, embora alguns deles ambicionem alargar suas vendas além das fronteiras.
       Não costumam se socializar com os outros moradores. Ao que tudo indica, a religião deles, uma espécie de seita egípcia, da qual se sabe pouco, proíbe o contato direto com pessoas que não pertençam à irmandade, exceto em situações de emergência ou de estrita necessidade, casos expressos no GUIA, uma espécie de livro de ensinamentos que guardam em sua biblioteca. Comunicam-se entre si no antigo dialeto egípcio, uma língua morta em todo o mundo, mas conservada por eles. As crianças não frequentam a escola convencional. Costumam seguir o modelo egípcio de educação, o tipo de ensino que os sacerdotes da realeza do antigo Egito recebiam, com algumas adaptações. Estudam a língua nacional, a língua dos ancestrais(o egípcio antigo) e de seus pais, a língua universal do momento, a língua dos países com quem transacionam, a matemática, a astronomia(com forte viés astrológico), a história dos povos e a filosofia de sua religião. Não saíam da fazenda. A principal função delas era se comunicar com os empregados. Esse costume tem rendido à fazenda sérios problemas, pois frequentemente os fiscais do governo fazem visitas por causa das denúncias de "exploração de menores". No entanto, sempre davam um jeito molhando a mão de quem as procuravam. Além das crianças, outro problema que a Fazenda enfrentava eram as acusações de "incesto", "infaticídio", "homicídio", "automutilação compulsória", "trabalho escravo", "lavagem cerebral", "genocídio", "satanismo", "sacrifício de humanos", "criação de animais de fauna estranha à nacional" e "tráfico internacional de animais silvestres" etc. Por inúmeras vezes, as irmãs enfrentaram os tribunais. A fazenda foi diversas vezes vistoriada pelas autoridades, mas nada de concreto foi encontrado que pudesse incriminá-las. Só receberam uma multa por causa dos crocodilos que criavam no lago. Eram conhecidas na cidade como as "BRANCAS", pois só usavam trajes brancos. Muitas pessoas achavam que eram membros(as) de uma conhecida seita brasileira: A CULTURA RACIONAL, por causa das vestes brancas que usavam.
       Na verdade, a fazenda não constituía uma única família estrito senso, mas um conjunto de famílias que viviam em comunhão, uma sociedade alternativa unida pela crença nos deuses egípcios.  Eram "AS FILHAS DE ÍSIS", uma antiga ordem religiosa liderada por mulheres, uma seita existente mesmo antes das primeiras pirâmides serem erguidas. O culto sobreviveu ao longo de milênios. Talvez seja o único culto verdadeiramente egípcio a ter sobrevivido. O grupo atual que reside no Brasil tem origem alemã. Vieram ao Brasil no começo do século XX, por causa da perseguição nazista. Eram vistas pelo regime como ciganas e apátridas(sem pátria, apáticas politicamente).
       No século XIX e começo do século XX, a Alemanha era rica em cultos pagãos. Mais de cem cultos eram observados só dentro daquele território. Embora diferentes, os membros desses cultos guardavam relativo contato como forma de se defender das acusações e perseguições que sofriam e de encontrar formas de esconder liturgias que tinham em comum, como a crucificação ansata, praticada por todos. A maioria dessas seitas era liderada por mulheres. Quase todas foram extintas pelos nazistas e cristãos, sobrando poucas , que se espalharam mundo afora nos anos vinte e trinta do século XX.
       Havia uma família que liderava a Fazenda com mão de ferro. A família Muller, cuja matriarca e líder suprema era conhecida como MADAME MORGANA. Jovem e bonita, e de personalidade forte, tinha um semblante que escancarava certa crueldade e frieza. Seu olhar era profundo, marcante e ameaçador. Havia assassinado suas duas prováveis sucessoras, e estava planejando matar a terceira para se perpetuar no poder até sua crucificação, que adiou por cinco vezes alterando os registros de seu nascimento e de seus familiares. A vida na fazenda era curta. Aos cinquenta anos de idade, fosse homem ou mulher, a pessoa era sacrificada na cruz ansata, afogada e devorada por crocodilos. O ritual constituía no seguinte: havia uma grande lago(na forma de uma cruz) no campo da fazenda. Nele, uma cruz ansata de aço reluzente era ativada eletronicamente para descer às águas e depois subir. Os membros do culto cercavam o lago e faziam uma oração ao deus SOBEK (O DEUS CROCODILO DO EGITO). Terminada a oração, dois homens com máscaras de crocodilo acompanham a pessoa num barco. Antes de ser amarrada na cruz, a pessoa, sendo homem ou mulher, tem sua última relação sexual com os dois mascarados. O esperma era guardado numa vasilha e entregue à líder da fazenda. Eles a amarram na cruz e a fazem sangrar com pequenos cortes por todo o corpo. Uma nova oração se iniciava enquanto a cruz lentamente desce às águas, verticalmente. Terminada a oração, um grande banquete com vinho e frutas é servido aos presentes. Três dias depois, eles retornam ao lago e fazem uma oração. Erguem a cruz do local. Ela volta sem ninguém. E fica estendida e brilhando, a esperar o próximo sacrifício. Além de sofrer a agonia do afogamento, o sacrificado(a) é devorado(a) por crocodilos-do-Nilo, que as famílias criam no lago. Não sobrava nada, nem sequer a unha da pessoa. O ritual é uma representação de quando o deus Sobek devorou o coração de Osíris, esposo de Ísis, a principal deusa da comunidade.
       Havia um rodízio na gerência dos negócios e dos rituais na Fazenda. Completados os trinta e cinco anos, a matriarca passaria o posto à família mais antiga. Geralmente a liderança era repassada a uma família cuja líder tinha em torno de 22 ou 23 anos. A matriarca da família, que entregava a liderança, passaria a compor o Conselho Decisório(a justiça da comunidade) da fazenda até os cinquenta anos de idade, quando então seria levada à Cruz.
       O problema é que os trinca e cinco anos de Morgana nunca chegavam. Ela contava com a ajuda e a cumplicidade de algumas famílias na fazenda, que, em troca, tinham uma vida dupla: viviam na fazenda, mas saiam de lá para namorar e consumir. Claro que não saiam de branco, mas com roupas comuns para não chamar a atenção. Esse tipo de prática, dependendo dos atenuantes e agravantes, poderia levar à morte. Havia duas penas para quem tinha uma vida dupla, segundo as regras do Conselho(quem de fato mandava na fazenda): seria tatuada com uma cruz ansata invertida no dorso da mão, o que faria com que ninguém falasse com ela durante dois anos. Seria isolada. Depois retornaria à vida social normalmente, porém nunca poderia fazer parte da liderança da Fazenda ou do Conselho. Nem ser sacrificada no lago. Seria morta aos cinquenta anos, como todos(as), porém de forma diferente: seria queimada numa cruz invertida no campo, sem cerimônias. Esse era o destino dos "tatuados(as)", como eram chamados na fazenda. Constituíam uma subcultura dentro do grupo. Mesmo após dois anos, tempo em que a socialização já era permitida, os tatuados(as) costumavam se comunicar apenas com seus familiares e com outros(as) tatuados(as). Participavam apenas dos rituais obrigatórios a todos e tinham suas próprias cerimônias, em que elegeram Hórus como deus principal. O Conselho permitia que se adorassem quaisquer deuses e fizessem celebrações específicas, desde que não atrapalhassem os eventos gerais e obrigatórios, e não entrassem em conflito com os princípios e as tarefas da fazenda.
       Algumas famílias estavam insatisfeitas com a gestão de Morgana. Eram as famílias sucessoras que aguardavam o momento de assumir a gestão da fazenda e dos rituais. Diversas petições e reclamações foram direcionadas ao Conselho pedindo uma investigação no inventário da família de Morgana. Os pedidos ainda estavam sob análise. Enquanto isso, Morgana reinava absolutamente.
    - Mãe, ontem à noite vi uma das filhas da Madame Morgana saindo da fazenda escondida. E ela só retornou pela manhã.
    - Como sabe disso? passou à noite acordada espiando a vida alheia?
    - Mãe, olhe para essa mão? sou uma tatuada. Ontem foi um dos nossos festejos na Fazenda. "A coroação de Hórus". Ficamos próximos ao lago a noite inteira.
    - Já disse para ficar longe daquele lago. Você acha que os crocodilos ficam apenas na água. Eles saem. E estão famintos. Faz semanas que não se alimentam de carne.
    - Já sabemos, e eles estavam fora da água. Mas não se aproximaram por causa das fogueiras, disse a jovem.
    - Pois tome cuidado, minha filha. Já basta carregar a maldição de ser uma tatuada. E agora só falta ficar sem algum membro por causa desses crocodilos. Já temos aleijados demais por aqui. Todos vítimas desses animais. O lago é sagrado. Só devemos nos aproximar dele no dias de sacrifício.
    - Sim, o que faremos?  Posso denunciá-la?
    - Não precisa, bobinha. A Madame Morgana está cheia de processos no Conselho. Talvez seja sacrificada no Campo. Ela acha que a comunidade é idiota. Todos sabem que ela adultera seus documentos. Basta o Conselho analisar os documentos que perceberão a fraude. Mas eles precisam de tempo. Mesmo assim, a Madame Morgana, embora não respeite nossas tradições e regras, é uma boa gestora nos negócios. Foi a melhor administradora que a fazenda já teve. Talvez o conselho a engula por isso. Contudo, cedo ou tarde, ela e sua família serão queimadas nos campos. Semana que vem é minha vez de ser levada ao lago. Já vivi o suficiente. Minha alma agora pertence a Ísis.

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