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  • Tirando a sorte grande

    Era um motel de beira de estrada sujo. O Jonas tinha pegado uma garota de programa para entrar com ele de fachada na frente, enquanto o Maleita ficaria escondido dentro do porta malas. “Ei, ninguém me falou que ia ser a três. Para mim não tem problema, mas eu cobro o dobro.” “Olha só......a gente paga......mas não vai ter sexo aqui. Só senta na cama e espera tudo acontecer que a gente já vai embora.” O Jonas falava enquanto o Maleita tentava desviar o olhar de Sheila. Ela era bonita e sexy, e ele não estava acostumado com isso. “Como assim?” Ela tinha a pose das Stellas em Detroit Rock City. “A gente precisa fazer um trampo........vender umas parada........os caras vão vir buscar aqui. Para você não muda nada.......até vai receber sem trabalhar.” A presença feminina num quarto de motel incomodava os dois amebas, na verdade. “Não quero participar de nada. Me deixem ir embora.” “Não dá.........você, tipo............podia contar para alguém.” Assim era o raciocínio simples de uma ameba. “Entendi. Mas eu quero receber três vezes mais que o combinado então.” Assim era o raciocínio simples de uma empreendedora. “Tudo bem.”

    Ainda restava algum tempo antes dos clientes chegarem. Porque as mães do Jonas e do Maleita eram do tipo ditadura da moral judaico-cristão, nenhum deles conseguia estar na companhia de uma mulher sem se sentir como William Miller, de Quase Famosos, junto com a Penny Lane. “Você não precisa participar.......sabe...........se quiser pode ficar escondida no banheiro.” O Maleita queria ser gentil. “Já participei de coisa muito pior, meu bem. Hahahahaha.” “Haha......é......mas é que a gente nunca sabe o que vai acontecer. De repente os caras resolvem encrespar e.........” “Sei bem como é o a gente nunca sabe o que vai acontecer. Olha só o que estou fazendo num motel. Ahahahah.” A Sheila estava tão a vontade com a situação quanto um peixe dentro da água. “Assim.......com todo respeito.......você........sabe.......nunca pensou em fazer outra coisa da vida?” Agora era o Jonas que queria fazer amizade. “Olha só quem esta me julgando? E você? Com todo o respeito.......já pensou?” “Mas........é diferente........” “O que é diferente? Nós três estamos fodidos aqui.” “Mas pelo menos eu não vendo o corpo.........nossa......desculpa......eu não......” O impulso judaico-cristão do Maleita fez ele se sentir como a Angela Hayes, de Beleza Americana, quando ela conta pra o Lester que é virgem. “Pelo menos eu vendo o que é meu. É meu direito. E você? O que tá vendendo aqui?” Num sinal claro de que a conversa estava encerrada Sheila foi para o banheiro, que não tinha porta. “Eu vou cagar, então, por favor, não venham aqui. Para cagar em cima eu cobro mais.” Foi estranho para os dois escutarem uma mulher falar cagar, mas eles estavam se borrando de medo dela por causa do tom duro com que ela falou.

    Com o ambiente pesado, e a Sheila no banheiro, o tempo parecia que não passava. “Eles já tinham que estar aqui.” Na cabeça do Maleita era questão de tempo para a polícia entrar no quarto estourando tudo. Quando os carcamanos bateram na porta ele quase teve um ataque cardíaco. Eram três caras: um velho desarmado e dois grandões ostentando armas na cintura e nas mãos. “Vocês estão sozinhos aqui?” O capo falava e os leões de chácara encaravam. Era como o Cara de Tijolo em Snatch. “Não. Tem uma amiga nossa no banheiro. Mas ela esta fazendo cocô mesmo.” O futuro dono da mercadoria olhou de canto de olho para o jamanta da esquerda, que levantou a mão com a arma até a altura do ombro, encarou os amebas, e entrou no banheiro. Parecia com o John McClane em Duro de Matar I. “Ei! Não posso nem cagar em paz?” A Sheila escutava tudo sentada na privada como fica alguém que esta usando o trono, e já tinha decidido só sair de lá a hora que tudo estivesse resolvido. O capanga fez cara de poucos amigos, um sinal de positivo com a cabeça para o chefe, e voltou para o seu lugar de poste ao lado do big dog. “Ok. Cadê a mercadoria?” O Jonas pegou a mochila que estava no sofá e colocou em cima da cama. O velho abriu, viu o que tinha dentro, e olhou para o capanga da direita, que saiu e rapidamente voltou com uma maleta. “Tá aqui o pagamento. Não gastem tudo em chocolate.”

    Depois que os gangsteres saíram nenhum dos dois sabia direito o que fazer. “Vamos esperar um pouco antes de ir para não levantar suspeitas.” Sugeriu o Jonas. “Vamos embora daqui logo!” Protestou o Maleita. Sheila saiu do banheiro e abriu a maleta que estava na cama enquanto os dois discutiam. Quando eles escutaram o tric tric das travas olharam para ela sincronizados como os dançarinos de Chicago. “Meu Deus! É muito dinheiro! Parabéns rapazes! Vamos comemorar!” Sheila falou isso já deitando nos lençóis de seda da cama redonda e deslizando a mão pelo corpo. O desespero de ver uma mulher pelada deixou os dois amebas travados sem piscar. Sheila riu, abriu o frigobar, pegou três garrafinhas de whiskey, deu uma para cada idiota, e brindou. “Vocês vão pagar, então vamos nos divertir.” Ela virou a garrafinha que estava em sua mão e começou a tirar a roupa. Os dois repetiram o gesto e, tremendo como vara verde, foram brincar.

    Com a ajuda de uma profissional do sexo eles descobriram um mundo novo. Estica dali, chupa de lá, dobra pra cá, gira, torce, fode de pé, fode deitado, fode lado. A cada novidade uma garrafinha de alguma coisa ia goela abaixo. Vodka, vinho, cerveja, e a galadeirinha do quarto tinha mais bebida do que festa de formatura. Sheila foi deslumbrante, se superou. Cada um gozou três vezes sem nem saber de que lado estava a boceta. No fim eles gemiam mais que ela. A mistura álcool + sexo animal levou os dois direto para o paraíso do sono dos campeões. Jonas começou a roncar como um trator com defeito em menos de cinco minutos. O Maleita não precisou de tanto, depois da última gozada apagou sem nem se preocupar em tirar o pau de dentro da onde ele estava. Sheila ainda tomou um banho quente antes de pegar a maleta com o dinheiro e sair.
  • Todo Poderoso

    Noite passada matei um homem. Estou lhe contando isso, na tentativa de tirar esse peso de mim. Confesso. Sim, o assassinei à sangue frio. Foi tão simples, tão rápido e não hesitei, vi que podia fazê-lo e fiz. A pobre vítima numa hora existia e na outra... má sorte... nem mesmo teve tempo de se defender ou ao menos implorar por misericórdia. Recordo-me que, durante o ato, me senti magnificamente poderoso, a morte do sujeito me fez sentir mais vivo e eu sorri diabolicamente diante da cena.
                   A sensação de poder e orgulho no entanto, logo deram lugar para o sentimento de culpa e arrependimento. Fiquei realmente péssimo, sentia um vazio em meu estômago e para ser honesto com você, confesso que andei chorando. E eu quis voltar atrás. Ah! Como eu quis... Passei a madrugada inteira sem pregar os olhos. Vasculhei minha mente até a cabeça doer, procurando uma solução, uma forma de reverter tudo aquilo. Eu bem sabia que poderia ter dado uma maquiada nas coisas, poderia ter usado desculpas esfarrapadas que me tirassem daquela situação. Porém, meu orgulho não permitia, estava feito... Eu havia dado cabo daquele homem para sempre e tudo o que restou dele foi aquilo que já fora escrito.
                   Você provavelmente está pensando que com o meu ofício, coisas assim deveriam ser corriqueiras e eu já deveria estar acostumado a matar. Bem, você está parcialmente correto. Evidentemente, este não foi o meu primeiro assassinato. Para dizer a verdade, eu nem sei ao certo lhe dizer quantos já matei em toda minha vida profissional. Por favor, não entenda isso como insensibilidade da minha parte, tão pouco interprete como descuido. Não fico contando vantagem de quantos já matei até mesmo por respeito aos falecidos. Gosto de pensar que mato apenas quando há real necessidade, para que as coisas possam funcionar da maneira que devem.
                   Mas então, por que esta morte não foi apenas mais uma em minha carreira? Por que me afetou desse modo? O fato é que desta vez foi arbitrário. Isto é, não havia a tal real necessidade. Matei um homem só pra ver ele morrer... Ele não tinha uma ligação direta com o meu objetivo, ele nem ao menos entrou em meu caminho. Foi como caçar em um zoológico. Foi como brincar de ser Deus, matando a esmo, dando câncer à criancinhas, atropelando idosos, explodindo usinas, causando terremotos, enchentes, tsunamis, vulcões em erupção, tornados, pestes e epidemias.
                   Espero não ficar viciado. Imagino a cena: sento em frente a máquina de escrever para criar mais uma história e tudo que sai é uma avalanche de mortes, assassino personagens ao acaso. “Fulano de Tal foi a padaria comprar os ingredientes para um esplêndido café da manhã. No balcão do estabelecimento ele cumprimenta o Zé Cicrano, padeiro e amigo seu de longa data. Enquanto escolhia cuidadosamente o iogurte de sabor ideal, um sujeito usando uma meia-calça na cabeça entra armado para assaltar a padaria, Zé Cicrano tenta reagir e o bandido atira nele – o padeiro morre na hora. Fulano de Tal se agacha e começa a rezar baixinho no canto do corredor de iogurtes. O bandido retira a meia-calça e pula o balcão da padaria em busca do dinheiro no caixa. Fulano resolve tentar fugir de lá correndo, se levanta e põe as pernas para funcionar, porém ao chegar à porta um segundo assaltante que estava esperando pelo seu comparsa para a fuga, avista Fulano e dispara contra ele. O tiro atingi a perna de Fulano de Tal que cai no chão agonizando. Que tipo de Deus deixa isso acontecer? Fulano pensa angustiado enquanto os dois assaltantes se juntam para fuzilá-lo ali mesmo na calçada à luz de uma manhã nublada.” Escrevo essa cena medíocre com um sorriso anestesiado no rosto. Hahaha morram, seus fracos fodidos! Ninguém pode com o escritor todo-poderoso aqui.
  • TREM NOTURNO PARA NEBRASKA

    Da janela do trem que acabava de sair do túnel não se via nada além das estrelas, que de tão longe, não nos vê.

             O homem tinha um violão, um lápis, um caderno e uma varanda do lado de dentro dos muros.

            Ele fazia anotações que escondia no armário.

            Ele cantava algumas canções no sótão da cabana que ficava no fundo do corredor, perto da ponte de onde vinham os sinais.

            À noite entre o jantar e o café ele conversava com seus amigos e falava sobre “Comentários a Respeito de John”, sobre a “Balada de Narayama” e sobre a chuva que o pegou próximo ao leito do rio.

            Depois do café ele e os outros tinham que voltar e dormir, sem saber onde iriam acordar.
  • Três alunos memoráveis

    Entre os anos de 1983 e 1984, em São Paulo, tive três alunos memoráveis: Adelino Bocão, que, aos quatorze anos, gabava-se por ter morado numa favela perigosa do Rio de Janeiro e, principalmente, por possuir uma cicatriz de bala calibre 38 no crânio, acima da orelha esquerda; Beto Bigodinho, que não se gabava de anda, mas, como fiquei sabendo por boca de terceiros - pois ele quase não falava -, tinha lido Os Sertões, de Euclides da Cunha, aos treze anos de idade, em menos de uma semana; e Magno Braz Ferreira de Oliveira, que, já aos treze anos, impressionava por sua habilidade de falsificar assinaturas de professores e roubar galinhas sem deixar pistas que o pudessem incriminar.
    Mudei-me para Minas Gerais.
    Trinta e dois anos depois, voltei a São Paulo, a passeio.
    Freei o carro no semáforo do cruzamento da Rua Copenhague com a Benedito Leite de Ávila, e um pivete noiado de crack aproveitou que a janela do carro estava aberta, encostou as lancetas de uma garrafa quebrada de cerveja em meu pescoço, gritando, como um louco, que queria a minha carteira e o meu celular. Mas, como eu o agarrei pelo antebraço, puxei-o com tal força que bateu com o nariz na lateral do veículo, perdendo os sentidos por um instante, e tive o tirocínio de abrir a porta, pisar-lhe no pescoço e chamar a polícia, ele acabou desistindo de sua empreitada. Naturalmente, não ficou preso, assim como preso também não ficou o seu pai, Adelino Bocão, que, a esse tempo, achava-se condenado a quinze anos de reclusão por tráfico de drogas e assalto à mão armada, mas, por qualquer motivo tão insondável que até hoje ninguém sabe explicar ao certo, foi solto após cumprir doze dias de cadeia, mediante um alvará de soltura expedido pela Justiça, em atendimento à precisa intervenção judicial de Sua Excelência, o eminente Deputado Federal Magno Braz Ferreira de Oliveira, fato esse sobre o qual, a princípio, só se soube a boca miúda, mas que não tardou a vir a público, pois Adelino Bocão e o Deputado Federal Magno Braz Ferreira de Oliveira foram desmascarados como cabeças do crime organizado do Estado de São Paulo, conforme se pode verificar no Capítulo 8, página 523, do livroMapa do Crime Organizado do Estado de São Paulo, lançado pela Editora Saraiva, e de autoria do Sociólogo Dr. Roberto Álvaro Dias, a quem - a despeito de seu vasto bigode -, por uma questão de respeito, ninguém mais chama de Beto Bigodinho.
  • Tudo aquilo que ainda não nomeei

    Praça XV. 20 horas e 47 minutos de um dia qualquer. Tiro meu pacote de tabaco do bolso e ponho uma quantidade razoável em um pedaço de seda, juntamente com um filtro na ponta. O selo cuidadosamente. Sem pressa. Com minuciosidade. Tudo parecia calmo no dia de hoje. Porém, colocando as mãos no bolso da jaqueta, percebo que o isqueiro que tinha posto ali mais cedo não estava mais. Merda, pensei, enquanto respirava fundo, tentando não culpar a tudo e a todos por mais essa aparente “conspiração do universo”, capaz de me frustrar por mais uma vez.
    Amigo, com licença, você tem isqueiro? Pergunto a um passante qualquer, que transitava com seu passo apressado pela rua. Típico de quem acaba de sair do trabalho depois de um dia provavelmente exaustivo e só quer chegar em casa, ver a esposa, os filhos ou apenas ter a própria companhia solitária. Ou eu poderia estar completamente enganado. Afinal é o Centro do Rio. Tudo aqui tem um passo apressado. Tudo cheira a turbulência. A ansiedade. Só de pisar por uma calçada ou duas você já entra em um ritmo tão frenético que sente que pode ter um ataque do coração a qualquer momento. Mas isso não vem ao caso.
    Inalando e exalando fumaça, em um ritmo calmo e melancólico, me peguei olhando para as luzes da cidade. Ouvindo os sons dispersos ao redor, de carros, motos, ônibus, pessoas. Conversas ecoavam. Passos e mais passos. Alguns barulhos de saltos agulhas. Outros de sapatos sociais, que embora tenham começado o dia polidos, apresentáveis, agora, ao final do dia, se mostravam já gastos. Minha mente se voltava repentinamente para lembranças meio opacas, que eu não sabia distinguir com clareza. Alguns cheiros, bastante específicos, de pipocas e churros do carrinho de um ambulante me lembravam um pouco a minha infância. Misturados aos cheiros de bebidas entornadas nas calçadas sujas. Tudo ao mesmo tempo. Formando uma mescla, uma tela completa.
    Tento trazer a memória com precisão a última vez que tive um momento verdadeiramente feliz. Não que eu fosse exatamente triste. Não. Essa coisa de completude é para quem acreditava em polaridades. Eu não. Embora eu tivesse a necessidade de tentar ser totalidade na maior parte das vezes. Não sou feliz, mas também acho que não sou exatamente triste. Talvez um pouco mais para tons melancólicos. Nem sei dizer. Só tento trazer à lembrança momentos. Como um memorial. Nada em específico. Quanto amigos tive até aqui? Poucos, eu acho. Em meio a essas turbulências de uma grande metrópole movimentada, acho que ninguém dá a mínima mais. Quantos amores? Não sabia precisar. Mas me questionava: quais? Os que existiram de verdade ou os que eu acho que inventei na minha cabeça e no final partiram como folhas ao vento?
    Hoje em dia acho que minhas memórias vão se volatizando pouco a pouco. Tal como essa fumaça que o vento já levou. E agora sabe-se lá para onde o vento as levou. Como se os relógios tivessem subitamente congelado. Por um milésimo de segundo, ao terminar o último trago. Mas eles continuam correndo. Os relógios batem. Incessantemente. Tal como o ritmo frenético das ruas daqui. E talvez eu devesse ser menos nostálgico, mesmo sem saber exatamente qual é o ponto exato das minhas frustações. Deveria talvez ser menos trágico neste momento. Me aterrar mais. Como sempre faço. Ser feito da matéria sólida como madeira, que mesmo apodrecendo continua firme.
    Logo eu que sou sempre tão contido em relação aos meus sentimentos, me pego em uma turbulência que nem mesmo as tintas que jogo nas minhas telas abstratas são capazes de captar. Eu que carrego o peso do mundo nas costas. Como se fosse uma mochila de suprimentos tão minha. Seria isso uma coisa natural? Intrínseca?  
       
                                                                                                                                     ◊◊◊

    Verifico mais uma vez o celular para ver se não haviam mensagens novas. Nada. Justamente quando eu estou com toda energia do mundo dentro mim, é impressionante como parece que ninguém interessante surge para apaziguar. Para saciar as minhas fomes mais ávidas. Não que eu não tivesse nada para fazer ou estivesse entediada. Pelo contrário. Não era o momento de ócio que me atravessava. Eu estava ali, presente, com alguns amigos de faculdade. Todos supostamente atores, como eu. E também o diretor, que tínhamos praticamente como figura de um pai. Sem contar também os figurinistas, assistentes de palco, etc. Todos aqueles que faziam o nosso trabalho acontecer. Todos aqueles que trabalhavam duro para que o próximo espetáculo pudesse acontecer. Bichinhos de teatro. Cada um com suas próprias ambições nesse meio intenso que é a arte cênica. Sentados em uma mesa de um bar aleatório, que ninguém conhecia muito bem, em Copacabana.
    Andando pelas ruas, pós ensaio, simplesmente decidimos parar ali para tomar algo. Uma espécie de happy hour depois de um dia inteiro de trabalhos intensos. Em plena terça-feira! Creio que quando se quer muito tomar uma cerveja não tem dia certo ou errado para isso. A gente não costumava se preocupar muito com isso. Sobre se era o dia “certo” ou “errado”. Morais imorais, eu dizia. Eu, pelo menos, era muito assim. Alimentava minhas vontades que surgiam no quotidiano. Como quem alimenta um animalzinho feroz que anseia por algo.
    Mas eu já estava começando a ficar um tanto quanto impaciente. Inquieta. Não sei dizer ao certo qual era o ímpeto que surgia em mim. Eu adorava jogar conversa fora ali com eles. Discutir mais um ou outro detalhe da nossa peça que estava a caminho. Como era habitual. Porém, tinha momentos em que eu me sentia flutuante. Uma folha que se descola de uma enorme árvore no outono. E fica flanando no ar por um tempo. Como se eu não estivesse mais ali. Não sei se pelo álcool ou pela minha própria mente, que fazia isso naturalmente. Como se em alguns breves momentos eu pudesse me personificar em sei lá o quê. Sair do meu próprio corpo e observar a mim mesma. Observar atentamente aquela personagem que eu era. Que frequentemente sentia a sensação de não pertencer a lugar algum. Como um deslocamento ou fragmento. Eu me perdia tentando decifrar os traços da minha própria personalidade. Quem era eu e quem eram os outros em mim. O que era invasão, colonização. E o que era eu, como totalidade fragmentária.   
    Sim, eu estava inquieta, caótica, turbulenta. Porém não ansiosa. Porque as vezes eu sentia vontade de devorar o mundo, de tentar caber nos mais diversos espaços, mesmo sabendo que nem sempre isso era possível. Eu tinha meu próprio espaço, ele só era demasiadamente móvel.
    Não sabia exatamente a quanto tempo eu estava ali sentada. Só sabia que nesse meio tempo tinha aberto discretamente o Tinder várias vezes, por debaixo da mesa. Em busca de uma nova conversa, de uma nova excitação, não sei. Só precisava alimentar o animal feroz que habitava em mim.
    Quando estava quase me dando por vencida e voltava a conversar com meus amigos, fixada naquela realidade do bar, o celular vibrou, avisando sobre novas notificações. Era um velho contato, que eu havia saído no mês passado. Aleatoriamente ele perguntou como eu estava e propôs um cinema ou uma praia qualquer dia. O certo era que eu queria algo que fosse realmente novidade. Porque aquele blasé de propostas repetidas era meio enjoativo. Já estava acostumada com aquele cenário repetitivo. E eu queria algo para hoje. O meu tempo é o agora. Algo que fosse comovente, porém imediato. Como um soco no estômago ou um trovão que eletriza o céu repentinamente. O animal estava com fome. Precisava de carne fresca.
    Familiarizada que eu estava a viver sob a pele de tantas personagens cênicas – putas, santas, mães, filhas, rebeldes, introvertidas, sonhadoras e suicidas – de uma coisa eu sabia: eu gostava daquilo que me parecia irrevogavelmente intenso. Embora isso me causasse certa aceleração. Quase uma sensação de que se eu não agisse, o mundo poderia explodir a qualquer momento e me partir em milhões de pedacinhos. Desagregar. E, talvez, eu não soubesse ser destoante disso. Eu era feita do fogo primário de tempos mais remotos. E tinha consciência disso. O problema desse elemento é que quando sai de controle, rapidamente é capaz de incendiar florestas inteiras, cidades inteiras e corroer até mesmo aquilo que parecia mais sólido.
    Te encontro mais ou menos em uma hora no seu apartamento, pode ser?  Mandei para ele, mesmo sem ter sido convidada ou ao menos saber se ele estava em casa. Pareceu um pouco chocado a princípio, mas disse que poderia ser. Dito e feito. Fiquei mais algum tempo no bar com o pessoal, terminando os últimos goles de uma cerveja que já estava começando a esquentar. Paguei a minha parte da conta e pedi um Uber para Botafogo.
    A fim de evitar explicações, julgamentos ou qualquer desconforto, me despedi de todos afirmando que eu estava cansada e que precisava ir para casa. Ao entrar no carro, um leve sorriso de canto de boca surgiu repentinamente em mim. Eu sabia mesmo como viver as personas de mim mesma que habitavam em mim. E a noite só estava começando.      

                                                                                                                                   ◊◊◊

    Ah, eu tinha que admitir, de todos os meus fracos, esse cheiro de café e seus barulhinhos, quando está finalizando seu processo de ser passado, invadindo a sala era um dos melhores prazeres da vida. Me fazia lembrar do quanto eu gostava de observar os detalhes sinestésicos do quotidiano. Talvez por isso eu tivesse tanto gosto por ser roteirista. Transformar aquilo que era típico da banalidade em arte do movimento. Em tela imagética que cria cenas, sentimentos e histórias.
    E embora as horas passassem voando e caísse madrugada adentro, lá pelas três e tantas, eu continuava tão ativo quanto quem produz de dia. Aliás, já tinha mesmo me acostumado a produzir nesse horário, tão silencioso e enigmático. Ele parece, justamente, trazer um tipo de energia diferente. Meio semelhante aos processos inconscientes. Quando você mergulha em algo que não está tão claro. Porém sabe que dali surgirão coisas que fazem total sentido para sua produção. Não era psicodelia ou loucura. Eram apenas ritmos que fluíam de maneiras tão próprias e oníricas que se transformavam em arte. 
    E era engraçado pensar que apesar de ter recém entrado na casa dos trinta, a tão temida idade da vida do jovem adulto, eu percebia que continuava com um ligeiro brilho nos olhos. Brilho de quem ainda se permite ter alguma capacidade sonhadora. E não. Não que eu não tivesse tido as minhas quedas de Ícaro e meus mergulhos ao fundo do poço. Tive inúmeros. Porém, uma força aquosa me movimentava. Me fazia seguir adiante, sempre com meus fluxos internos. O que também me motivava a me mesclar em moldes diversos. Do surrealismo ao pragmatismo.
    Aqui, em Niterói, os movimentos eram tão diferentes dos que eu costumava conhecer quando mais novo, que as vezes eu me perdia nesse turbilhão de pensamentos. E esquecia o que eu estava fazendo ou pensando inicialmente. Longe de casa por tantos anos, eu tinha aprendido a ressignificar o que eu considerava como minha casa. O interior de Minas, que parecia tão grande quando eu era moleque, hoje ficava cada vez mais pequenininho, a cada visita que eu fazia a minha mãe. Como se eu pudesse mapear cada canto que antes não conseguia.
    Talvez eu tivesse adquirido uma noção de profundidade que antes eu não tinha. Tudo era tão maior. E claro. Certamente era gostoso respirar aquele ar mais puro do interior. Fingir me perder nas estradas de barro. Criar bichos no quintal. Sentir a cica da fruta arrancada do pé, ainda não madura, que a gente teimava em comer. O cheiro do mato depois da chuva. O primeiro beijo, daqueles de criança, com a prima atrás da árvore do quintal dos avós. A primeira vez com quinze anos, com a namoradinha depois da escola, escondido dos pais. E todas as lembranças a mais. Mas eu já não pertencia mais inteiramente a aquele cenário. Cada experiência nas cidades grandes me mostrava e mostra que as configurações da minha própria mise-en-scène chamada vida é por aqui. Pelo menos por enquanto.
    Mas agora, acho que eu deveria voltar ao trabalho. Ter um projeto para terminar, por mais empolgante que possa ser, ainda sim tem seu lado chato. Por isso tomo mais uma xícara de café. Eu deveria entregar esse roteiro até o final de semana. E cada detalhe contava. O problema na verdade é quando você está determinado, mas sente que já tinha gasto grande parte da sua criatividade em projetos anteriores. Eu queria algo esplêndido. De roteiros meia boca Hollywood já estava cheio. E não. Eu não era nenhum gênio capaz de fundar uma nova Nouvelle Vague. Mas acreditava que o cinema latino-americano por si só deveria ser aquela seta fora da curva. E por isso eu sentia que tinha quase a obrigação de tornar meus trabalhos inovadores. Menos clichês ou previsíveis.
    Tomava mais uma xícara de café. Parava. Ia até a janela. Observava o pouco movimento de carros circulando a essa hora da noite, aqui pelas ruas do Centro. Se ao menos uma ínfima gotícula de criatividade pudesse de repente cair do céu.
    Nesse misto de apreensão e estresse, eu me lembrava de como tudo aparentemente parecia ser mais fácil durante a graduação. Embora tivesse me mudado para Ouro Preto, aos vinte, para fazer filosofia, o impacto da solidão da cidade era tão mais latejante aqui. Sozinho, em outro estado. Tinha uma amizade ou outra por aqui. Pessoas que eu tinha conhecido no mestrado. Gente que certamente estava mais acostumada ao meio artístico cinematográfico do que eu. Mas que acabei me familiarizando e me vinculando aos poucos. Tal como quando se entra em uma piscina gelada e ao invés de pular de cabeça você molha as partes do corpo de vagar. Porém, ao mesmo tempo, os contatos pareciam estar sempre dispersos. Eram gotículas se cruzando e se separando na janela do vidro do ônibus.
    Na correria do caos de uma cidade grande como o Rio de Janeiro, ninguém parecia ter tempo inteiramente para nada. Nem mesmo eu tinha a ingenuidade de achar que eu tinha. E isso foi algo que percebi assim que saí do interior e vim para cá. A discrepância entre o interior e os centros urbanos batia forte cada vez mais, na medida em que também os beats acelerados do meu coração batiam descompassados. Talvez devido às três xícaras de café pós meia noite.
    Decidi deixar cair meu corpo pesado no colchão que se encontrava no chão da sala; por sinal também era meu quarto. Ainda não tinha conseguido dinheiro para comprar uma cama descente. Afinal, ter recém começado a trabalhar com roteiros cinematográficos não era uma abundância, ainda mais em circunstâncias sócio-políticas como as atuais. Mas dava para pagar as contas. E não tinha jeito, eu definitivamente amava o que eu fazia, apesar dos apesares.
    Acendi um beck que já estava pela metade. Depois de ter inúmeras vezes trocado de remédios para insônia, sem obter grandes resultados, foi o que descobri que funcionava. O que me desacelerava por alguns instantes. Conseguia relaxar, enquanto sorvia aquela fumaça densa e sincopada. Eu sentia o peso do meu próprio corpo no colchão. Até finalmente pegar no sono.          

                                                                                                                                 ◊◊◊

    Puta merda! Não acredito que eu perdi a porra da hora mais uma vez. Eu catava minhas roupas jogadas pelo chão e enfiava tudo de qualquer jeito pelo corpo. Nessa tentativa ridícula, batia os braços e as pernas em tudo quanto era canto do quarto, acordando o rapaz seminu que ainda dormia em um sono profundo. Qual era mesmo o seu nome? Felipe? Fernando? Algo assim. Eu vestia as roupas sem muitas noções, enfiando a cabeça e as pernas nos lugares errados. Parecia um furacão descontrolado. Até que finalmente consegui ajeitar tudo, abotoar as calças e arrumar a minha franja reta despenteada.
    Pedi um Uber para casa e fui embora sem olhar para trás. Ele pareceu meio atordoado com essa saída súbita. Sem a famosa cerimônia de tomarmos café juntos, sorrindo e comentando sobre a noite anterior. Ainda bem que eu tinha uma desculpa realista para me desvencilhar disso. Não suportava esses clichês. Porém, pior do que isso, era que só de pensar que eu ainda tinha que ir para casa, tomar um banho, para tirar aquele cheiro úmido de testosterona da pele, trocar a roupa, para não perceberem que era a mesma de ontem e ajeitar minimamente a minha aparência, para que ninguém desconfiasse que eu havia mentido na noite anterior, já me deixava esgotada.
    Mas eu estava acostumada. Eu nutria meus apetites e depois limpava as cenas dos crimes. Sem deixar vestígios. Felizmente ou infelizmente eu tinha me tornado muito boa em inventar desculpas e situações só para poder viver minha vida em paz. Sem nenhuma consideração alheia. Poderia até ter alguns amigos mais próximos, que eu revelava um ou dois detalhes mais íntimos da minha vida. Mas eu não poderia me dar ao luxo de confiar em ninguém. De deixar que meu trabalho fosse comprometido pela minha vida privada. Era assim que as coisas funcionavam.  
    Cheguei ao ensaio já exausta. Porém, só de pisar naquele palco improvisado de taco sentia as energias retornando ao meu corpo. E como era gratificante estar ali. Me lembrava de que talvez fosse por isso que eu tivesse escolhido ser atriz. Cada vez que adentrava a pele de algum personagem, eu sentia um calor interno. Uma eletricidade que se espalhava por toda a coluna. Algo me abraçando. E agora mais do que nunca. Tudo isso porque após inúmeras audiências fracassadas, tinha finalmente conseguido o papel que eu tanto queria. Sentia que estava com tudo. Não estava ainda no que poderia ser considerado “o topo”. Mas, aos vinte e dois, sentia que as coisas estavam começando a se encaminhar nos trilhos certos. E eu confesso que sentia um orgulho próprio crescendo.
    Dizem que nós mulheres temos ciclos que se findam e se iniciam de sete em sete anos. E eu estava apenas no começo da idade do novo. Da exploração de novos mundos e possibilidades. Por isso me inflamava de novas expectativas. Mesmo sabendo que criar algumas delas era um pouco perigoso. Então eu só queimava com aquilo que eu sentia que tinha algum calor para mim. Alguma faísca mínima. Eram apenas nesses momentos que eu conseguia me entregar e ser verdadeira. Nos outros, era apenas mais uma das minhas múltiplas personas agindo. E fugindo daquilo que eu sentia que não era para mim. 
    Ao final do ensaio, o diretor comentou que queria conversar comigo. Um frio na barriga crescia.  Eu estava otimista. Pensava que finalmente tinha chegado a hora de eu ser reconhecida. Expectativas. Quem sabe uma indicação nova. Algum trabalho promissor para quando a temporada chegasse ao fim. Me preparava para isso. Talvez fosse por isso que Reinaldo andava tão mais próximo de mim nos últimos tempos. Sentia uma atenção especial se desenvolvendo. Não que ares de condescendência tomassem a minha cabeça. Mas me sentia preparada para avançar para uma nova etapa. Como se eu pudesse me expandir para algo que estava por vir.     
    Luana, veja bem, tenho observado o seu trabalho como atriz principal; e você é realmente bastante ativa nesta companhia, comentou ele, com um tom um pouco mais intimista do que o habitual. O que me causou estranheza, pois parecia que algo não estava certo. Comecei a pensar que talvez pudesse perder o meu papel. Porém deixei esses medos passarem ligeiros após essa pausa. E ele continuou. Porém, o que eu quero realmente dizer é que mulheres tão novas quanto você não sobrevivem nesse meio artístico sem que saiam com as pessoas certas, se é que me entende, ele falava macio e convicto. Eu ouvia suas palavras em silêncio, quase sem reação, pois não estava acreditando naquilo que ouvia. Parecia que eu estava em uma espécie de cenário irreal, desses que você não acredita que está fazendo parte. Sendo assim, queria propor aqui em off que você saísse para jantar amanhã comigo, propôs, tentando alisar minha coxa direita com muita naturalidade. Ouvi dizer que um caça talentos famoso está pelo Rio de Janeiro; e com os contatos certos, você poderia subir a um outro patamar, ainda mais sendo bonita e acessível, digamos assim.
    Conforme ele tentava me convencer de todos esses absurdos e se sentia cada vez mais no direito de me tocar, a maré da incredulidade logo passava e, retornando à realidade crua, eu explodia em raiva. Olha, Reinaldo, eu respeito muito o seu trabalho e tudo o que fez pela gente nessa companhia, mas você não tem o direito de se dirigir a mim dessa forma, esbravejei, me afastando dele atordoada. Eu só vou te dar uma chance sua putinha, falou em um tom mais agressivo, porém, ainda mantendo sua firmeza impassível e dura, enquanto segurava meu braço para eu não ir embora. E eu sei que para você vai ser fácil, você trepa com qualquer um mesmo, completou rindo agressivamente, baixinho, como quem se diverte.
    Comecei a sentir as lágrimas a caminho, mas ainda fui capaz de engolir o que estava por vir e gritei para ele nunca mais encostar um dedo em mim. Era um grito oco, mas firme, que surgiu em um impulso que eu não sabia dizer muito bem da onde partia. Era defesa. Era o mínimo de resistência que meu corpo ainda abalado conseguia ecoar. Consegui me soltar dele bruscamente e saí tão rápido pela porta que não sabia se corria ou se andava. Só queria chegar em casa. Sair daquele ambiente doentio. O mais rápido possível. Não tinha mais ninguém no prédio. E eu não queria ficar sozinha com ele de novo. Toda aquela imagem agradável e paternal que eu tinha dele agora já não fazia mais tanto sentido.  
    Me mantive impassível o caminho todo. Mas quando cheguei no meu apartamento não aguentei. Desabei. Ali no chão frio mesmo. Como cacos que se espatifam no chão. E se esparramam para todos os cantos. Não sabia dizer exatamente o que eu sentia. Se era raiva. Se era nojo. Medo. Angústia. Ou até mesmo a sensação torturante de que eu poderia ser devorada pelos lobos a qualquer momento. Em quem confiar? Eu não acreditava nas palavras que ele tinha dirigido a mim. Parecia uma fábula inventada de mal gosto. Em cada vírgula eu sentia a sua ambição nojenta e vulgar. O seu status de poder imundo, que fazia ele sentir como se pudesse fazer com os outros o que bem quisesse. Como marionetes a seu bel prazer. Não era aquele homem que eu tinha conhecido a um tempo atrás. Não sabia mais quem ele era. E aquele cenário todo ficava rodopiando na minha mente. Me fazia sentir náuseas. Minha cabeça começava a doer. Não conseguia respirar direito.     
    Quando se é mulher, toda a liberdade e afirmação que a gente jura ter conquistado, pode parecer ruir quando coisas desse tipo acontecem. Pequenas e grandes fatalidades do quotidiano. Que nos jogam de um lado para o outro. Chacoalhando. Supondo que somos meras bonecas. Para enfeitar e decorar os ambientes. Para exalar o odor da graça e do recato. Da submissão frente a um jogo de poder desleal. Cruel e esmagador. O que era segurança? Em quem confiar?
    Eu sabia do meu valor. Não poderia ser medido por um sex appeal. Por um corpo desejável nos lençóis que cheiram a capital. Eu sabia do quanto eu tinha dado duro para chegar até aqui. Tinha aberto mão de muita coisa. Da zona de conforto que deveria ter sido se eu tivesse cursado administração para trabalhar na rede de hotéis do meu pai. Agradando a todos. Sendo tudo aquilo que esperavam de mim.
    Ao invés disso, eu sabia que não era isso que eu queria para minha vida. Eu era atriz, porque lá no fundo eu sentia pulsar em mim uma paixão pelo o que eu fazia. E homem nenhum seria capaz de me parar. Nem mesmo aqueles que me ofereciam o poder fácil. Porque eu sei que esse poder deles jamais seria negociado. Dado de bandeja. E sabia que só me sentiria poderosa se eu tivesse conquistado isso tudo com as minhas próprias garras. E eu não iria parar até conseguir. 

                                                                                                                              ◊◊◊

    Definitivamente aqueles últimos dias tinham sido insuportáveis. Os meus únicos momentos de mínimas calmarias e desligamentos eram quando eu entrava em contato com as minhas tintas. Mas como eu estava correndo para entregar uma nova coleção a tempo para a vernissage da semana que vem, eu já não conseguia abstrair e pintar mais com tanta paciência. Acendia um tabaco atrás do outro. Eu não parava. Estava tão frenético. De repente tinha me tornado muito parecido com o ritmo daqui. Eu simplesmente queria que tudo saísse o melhor possível. Uma grande oportunidade como essa não acontecia todos os dias. Ainda mais para quem está começando agora. Precisava então ser o melhor no que eu estava fazendo.
    O telefone tocava. E eu, com as minhas mãos sujas de amarelos, marrons e tons ocres, bufava ainda mais, pensando que aquela deveria ser mais uma distração. Ou mais uma tormenta. Era da galeria. Já atendi esperando pelo pior e infelizmente ele veio. Me dizendo que como eu ainda não tinha nome no mercado, ao invés de disponibilizarem uma sala inteira para meus quadros, eles decidiram, de última hora, reduzir para apenas uma parede. E provavelmente ela era minúscula. Em um canto isolado. Sem muita vida. Tinha me esforçado tanto para levar diversas obras que combinavam entre si. Que só faziam total sentido juntas. Mas era inegociável. No fundo eu sabia desde o início que estava bom demais para ser verdade quando recebi a proposta.
    Logo depois de desligar o telefone, lavei as mãos. Sentei no pequeno sofá de dois lugares da sala e me perdi nos meus próprios desânimos por algumas horas. Era como se toda a energia que eu investi ao longo desse tempo todo já não servisse mais para muita coisa. E pesava. Frustrava sim. Como quem se frustra com a potência que investiu aparentemente no lugar errado. No momento errado talvez. Não sei. Não restava muito o que saber. Deixei o quadro que estava diante de mim do jeito que estava. Pela metade. Andei até a cozinha, abri a geladeira para ver se tinha alguma coisa minimamente animante e achei uma garrafa de vinho. Não sabia de quem era. Deveria ser de algum dos meninos ou de alguma de suas visitas aleatórias, da festa que deram semana passada, quando eu estava fora. Foda-se. Depois eu compro outra.
    Levei a garrafa para sala e acabei com ela. Sem longas demoras. Enquanto voltava a terminar também o quadro. Eu estava claramente bêbado. Mas não sem controle. Sozinho em casa. Mas não me sentindo solitário, como na maior parte do tempo. Sentia a coragem voltando. Coragem líquida talvez, como diriam meus amigos. E eu voltava a botar os pés no chão novamente, quando voltava a ficar sóbrio. Recobrando a razão. Aquela que me tornava sólido e disposto a seguir em frente.
    Apesar dessa pequena frustação, os dias que se seguiram foram de intensa criação. Acho que descontei toda a minha amargura nas telas, nas formas. Passei dias inteiros em casa pintando. Porém, mergulhado em uma certa melancolia também. Era estranho como quase toda vez que eu começava uma nova tela parecia que meus sentimentos escorriam junto com as cores. Eu não era muito de demonstrar as coisas. De me portar como uma pessoa sentimental. Mas quando eu segurava o pincel, era o momento que tudo vinha à tona. Quase como em uma espécie de vômito catártico. E eu estava em sincronia com as minhas palhetas de cores. Com as minhas formas abstratas. Com meus significados. Com cada tom sobre tom. O que nos resta então, em meio a isso tudo? Nem eu sei dizer. E a minha cabeça doía. Quando me dei conta já era sábado à noite. E eu estava exausto emocionalmente.
    Um dos meninos, percebendo meu estado, sugeriu que eu saísse um pouco. Sair? Mas acho que ainda tenho coisas para terminar, falei para ele em tom indignado. Ai Arthur, para de agir que nem um velho, você só tem vinte anos ainda, vai te fazer bem, comentou como quem está cansado de tentar convencer alguém das mesmas coisas, além do mais, vou precisar do quarto essa noite. E eu me lembrava do quão descarado os colegas de quarto poderiam ser. Como já estava acostumado com esses pedidos, resolvi ceder. Tomei um banho, vesti um jeans um pouco desbotado e fui andando. Uma das vantagens de morar na Lapa era estar sempre a dois passos de qualquer coisa. Culturalmente falando. Ou simplesmente para farrear.
    Sabe aquela sensação estranha de que mesmo estando cercado de pessoas, você se sente sozinho? É como se seu corpo fosse mais um na multidão. Um formigueiro de gente, indo e vindo naquele pequeno espaço da boate e você está ali. No anonimato passivo. E não. Eu não fico angustiado de estar no meio de multidões. Não tenho fobia disso nem nada. Talvez eu até goste um pouco. Às vezes costumo me sentir como um voyeur do quotidiano. Com alguém atento a cada detalhe. Como se as pessoas fossem pequenos borrões de cores. De tons quentes e frios.
    A essa altura o álcool começava a fazer um leve efeito. O corpo ficava mais leve. Os ombros relaxavam. As mandíbulas. Os olhos. Tudo em mim era suave. Eu começava até a fazer pequenos movimentos com o corpo. Bem mínimos mesmo. Ao ínfimo som da música, que eu não sabia dizer qual era exatamente. Pensava novamente no controle e decidia ir até o terraço para fumar. Voltar a botar os pés no chão. Mas quando botei a mão no bolso percebi que tinha esquecido o tabaco em cima da mesa. Como sempre mais uma colaboração para que as coisas não acontecessem. Típico.
    Desci as escadas em um ritmo que misturava a minha frustação com o som do ambiente. Parei em um canto mais afastado e fiquei observando aquelas formas dançantes na minha frente. Nesse mar de sensações humanas, que só cada um sabe que carrega. Ou as vezes o álcool os faz esquecer que sabem. Mas continuam sentindo mesmo assim. Toda adrenalina da noite. Todo tesão. Toda ansiedade. Todo desânimo. Toda frustação. Todo sonho e idealização volátil. Tudo ali acontecendo a cada instante. Todo esse ritmo agridoce do balanço das horas que eu nem sempre compreendia muito bem.
    Do outro lado da pista um par de olhos me olhava com tanta fixidez que me intrigava. Era um olhar masculino. E eu não sabia muito bem como lidar com aquilo. Me sentia desconfortável. Mas de alguma forma um pouco magnetizado. Não. Eu não era gay, pensava comigo mesmo na minha consciência. Ele sorria, como quem tentava tranquilizar alguém com os gestos. Eu não deveria ter bebido. Eu não era gay. Ele se aproximava de mim como quem se sente convidado. Não. Não. Não se aproxime. O que eu estava fazendo. Eu não era assim. Oi, cumprimentava uma voz macia no meu ouvido. E eu sentia aquele hálito quente misturado a sensação gélida de uma bala de menta arrepiando os pelos da minha nuca. Não. Eu não era gay. Eu tentava dizer alguma coisa. Fazer uma menção de recuar. Fugir agora mesmo. Sair correndo daquele estabelecimento. Mas começava a sentir um par de mãos envolta do meu pescoço. E meus pensamentos ficaram em suspenso. Eu não era.... Meus olhos se fecharam automaticamente. E eu senti uma onda de calor. Não sei mais o que era. Não sei mais o que fui. Sentia uma ereção latejante começando. E as mãos dele procurando algo como se já soubesse o que acontecia. Você quer sair daqui? Perguntou, com um sorriso meio travesso. O que eu estava fazendo? Eu deveria ir para casa agora mesmo. Isso já estava passando dos limites. Sim, respondi tão rápido que até me assustei com aquela prontidão. Da onde eu tirei essas coisas?
    No dia seguinte, quando os primeiros feixes de luz entravam pela janela, através da cortina mal fechada, eu acordei. Por alguns instantes deixei aqueles tons amarelo-alaranjados iluminarem parte do meu corpo. Ainda nu. Emaranhado nos lençóis cor de creme. De um motel qualquer do Centro que eu mal sabia o nome direito. A minha esquerda estava ele. Ainda meio sonolento. Se espreguiçando como um gato manhoso. Também nu. E agora eu via com mais clareza alguns dos detalhes daquele corpo. Detalhes que a falta de luminosidade e a euforia da noite anterior não me fizeram reparar. Um corpo masculino como o meu. Porém tão diferente de mim ao mesmo tempo. Já não me sentia mais desconfortável. Pelo contrário. Experienciar aquele tipo de toque, que eu nunca tinha me dado ao prazer de sentir, me fazia ter a ligeira sensação de que algo se abria em mim. Talvez uma nova perspectiva. Talvez novas formas de sentir as sensações. Não sabia dizer. Só poderia estar enlouquecendo.
    Apesar disso tudo, não poderia me manter assim tão inebriado. Precisava me justificar. Esclarecer as coisas para ele. Talvez para mim também. Disse então a ele, um pouco hesitante, que embora a noite tivesse sido realmente muito boa, eu não era quem ele pensava que eu era. E não poderia ser mesmo. E quem você é afinal? Me indagou ele, brincando e rindo, como se aquela situação fosse divertida. Uma pergunta que me irritava um pouco, mas ao mesmo tempo se tornava quase angustiante. Não sabia ao certo. As minhas sólidas certezas estavam se evaporado junto com os prazeres da noite anterior. Olha, eu não sou gay, respondi de maneira séria, como quem precisa defender uma causa. Mesmo sem saber se falava sério ou não. Eu também não sou, Arthur, comentou ele, parecendo se divertir ainda mais. Parecia estar disposto a me irritar profundamente ou me torturar. Acho que percebeu quando fiquei atônito, encarando ele por longos segundos. Já ouviu falar em uma coisa chamada bissexualidade? Existe e não foi um conceito eu que inventei não, dizia ele bastante afirmativo de si, mas ao mesmo tempo brincalhão. E continuou. Quem sabe agora você não ache a “solução” para os seus “problemas”.                  

                                                                                                                                      ◊◊◊ 

    Resolvi dar uma variada hoje. Tinha acordado invadido por um bom humor tamanho. E por isso, ao final do dia, decidi parar em uma cafeteria que eu gostava para tomar um expresso duplo. Eu gostava muito do meu próprio café, mas hoje senti que a atmosfera pedia um toque diferente. Não sei porque, mas eu tinha essa mania de me “presentear” vez ou outra com alguma coisa que eu gostava muito. Às vezes porque eu estava muito feliz. Outras porque estava um pouco triste. Sempre tinha uma justificativa que dizia respeito a alguma emoção muito forte pulsando. Embora eu não fosse uma pessoa impulsiva.   
    Consegui uma mesa um pouco mais reservada, fiz o meu pedido e aproveitei para abrir o notebook e trabalhar um pouco mais. Apesar de eu já ter entregado o roteiro ontem, me sentia cheio de energia pulsante para começar algo novo. O bom de ir a uma das poucas cafeterias que abria em um final de tarde de domingo era poder escrever meus roteiros com mais tranquilidade. Sem a interferência dos barulhos das conversas, dos talheres, xícaras e sons ao redor. Inspirava fundo, totalmente despretensioso. E percebia como era bom essa sensação. O cheiro do café. As poucas pessoas que circulavam por ali, passeando despretensiosamente, porque, afinal, hoje não era dia de semana. Tudo fluía bem. 
    Parecia banal, mas alguns segundos eu me enchia de espanto por perceber o quanto era bom a sensação de se sentir vivo. Não apenas ter consciência que se está vivo. Mas sentir algo fluido e quente ao mesmo tempo por dentro. Era uma mistura de algo que cheirava a infância, a um calor muito primordial, como a terra após um dia inteiro exposta ao sol, misturado a algo mais feroz, talvez mais instintivo. E quando o gosto do café expresso chegou a minha língua, eu sentia um prazer enorme se mesclando a aquilo tudo. Quando eu falava sobre isso, muitas pessoas chegavam a me olhar com estranheza. Como quem não compreende que essas sensações sinestésicas são mais quotidianas do que parecem. E são simples. Não complexas como pode parecer. Mas profundas.
    Cada gota de café, cada cheiro do ambiente. Tudo parecia um novo material ainda não explorado, que poderia ficar bom nas cenas que vinham a minha mente. As palavras pareciam escorrer pelos meus dedos com uma imensa facilidade. Mas eu precisava de mais. Terminei de beber o café e saí para caminhar um pouco. Como um flâneur sem nenhum destino em específico. O sol estava prestes a se pôr. Parei por fim, apoiado a uma mureta. Com um olhar um pouco distante. Mergulhado no que minha visão enquadrava em um contraste entre a palheta de cores do céu e a da Baía de Guanabara. E aquilo bastava.
    Por alguns momentos eu ficava em suspenso por ali. Quase sem fôlego. Por alguns momentos eu pertencia a aquela cidade. E o lar no interior já se desembaraçava. Não existiam mais tantos apegos a ter uma cidade natal. Estava conformado a ser esse andarilho cosmopolita. Que embora fosse um pouco solitário as vezes, no pequeno espaço do apartamento, ainda sim me sentia livre. Cada respiração era uma expansão. De mim. Das minhas forças criativas. De todos aqueles sonhos que eu adiei. Mas desengavetei depois que resolvi me dedicar ao mestrado aqui. E agora todos esses pequenos processos faziam cada vez mais sentido. Naquele momento tudo estava exatamente onde deveria estar. E eu estava presente. E as palavras tornavam a jorrar novamente, depois que o êxtase passava aos poucos. Eu abria novamente, então, a tela do notebook e escrevia meus brainstorms como se eu pudesse me apossar das palavras. Fazer as ideias e histórias dançarem no ar.
    Quando já estava escuro e os pontos de luz do mar ficavam meio ofuscados, decidi ir finalizando minhas escritas e ir para casa. Já estava começando a esfriar. E o vento da orla, de uma tarde de outono, começava a se mostrar ainda mais evidente. Optei por voltar a pé para casa. Caminhar um pouco sob esse céu me fazia bem.
    Tive então a ideia de chamar alguns amigos para tomar um vinho lá em casa hoje. Acho que viria bem a calhar. Passei no mercado e comprei três garrafas de Concha y Toro: um Malbec, um Cabernet Sauvignon e um Merlot. Uma pequena variação de uvas que agradaria a todos os gostos. Paguei as compras, enquanto mandava uma mensagem no grupo. Se eles não topassem, ao menos eu teria um mini estoque de vinho. Mas para minha sorte eles se animaram. Fazia tempo que eu não marcava algo assim. Alguns até perguntaram: Diego, o que deu em você? Mas acho que hoje valia a pena deixar fluir.
    Tinha convidado poucas pessoas. Acho que o ambiente ficava mais aconchegante assim. Alguns fumavam na janela. Outros bebiam taças de vinho. Discutíamos ideias. Projetos eventuais. Falávamos bobeiras. Casos da vida. Risadas embriagadas. Tudo parecia se tornar uma questão existencial. Acho que era sob essa atmosfera que eu queria viver. Sem comparar direta ou indiretamente o passado com o presente. Sem estabelecer juízos de valor que não possam se modificar com o tempo. E se tornarem outros. E depois mais outros. Criando movimentos vivos.
           
                                                                                                                                        ◊◊◊

    Os últimos seis meses tinham sido particularmente duros. Com a rotina intensa de ensaios na companhia, quase não sobrava tempo para investir em qualquer outro projeto que fosse. Mas eu estava satisfeita. Tínhamos acabado de realizar a primeira apresentação. E apesar de não ter dado tanto público como gostaríamos, fomos bastante elogiados pela crítica. A sensação calorosa de que todo aquele esforço tinha valido a pena me inflamava agora. Especialmente porque depois daquele episódio, a cada ensaio, Reinaldo fazia de tudo para me sabotar. Tudo que eu fazia quando estava trabalhando tinha que ter o dobro de cuidado e dedicação. Mais do que qualquer outro ali.
    Eu odiava essa sensação de ter que me afirmar o tempo todo, com mais determinação a cada dia, só para não ser engolida. Para não ficar para trás. Depois do assédio muita coisa acho que muda na vida de uma pessoa. Os medos vêm mais fortes à mente e reverberam no corpo todo. E tudo aquilo que parecia tão leve e natural, agora demorava um pouco mais para ser executado. Uns dias são de completo bloqueio. Tudo fica meio estranho. Opaco. Sem brilho. Sem som. E sem cor. Mas eu continuava. Trabalhava duro. Batia o texto com a minha colega de apartamento até mesmo nos finais de semana e feriados. 
    Infelizmente, quando se é um homem influente no meio artístico, poucos são aqueles que não compactuam direta ou indiretamente com esse tipo de posicionamento. Era bizarro pensar que nesse meio, como todos queriam estar ao menos uma vez sob os holofotes brilhantes, se sujeitavam a todo tipo de coisas. Como cachorrinhos que vem lamber os dedos do dono. Mas felizmente eu tinha conseguido me desvencilhar disso. Não que eu me sentisse melhor do que ninguém ou mais esperta. Porém sabia o quanto eu vinha lutando para existir aqui. E ao mesmo tempo queria poder ter o orgulho caloroso de quem eu estava me tornando. Sem depender de jogos sujos para isso. Sem depender de cicatrizes maculadas pelo ar fétido de ter que se vender.   
    Apesar de tudo, era bom poder contar com as pessoas com quem eu trabalhava na companhia. Eu via hoje, ao termino da peça, o brilho nos olhos de cada um. Mesmo nos olhos daqueles que estavam mais desesperançosos com os nossos processos de criação. Estávamos todos integrados. Por alguns momentos sentia uma atmosfera familiar. Quase que de pertencimento. Certamente era um momento muito propício para comemorarmos essa nossa pequena vitória.
    Escolhemos, então, um bar próximo dali para brindar. Reinaldo disse que daria carona para alguns no seu carro e que o consumo de hoje seria por conta dele. Claro, tinha que forjar ser um homem com uma personalidade carismática, que fazia todos ao seu redor o idolatrarem. Se eles soubessem as sujeiras que se escondiam por trás daquela máscara. Aquilo me enojava. Decidi pegar um Uber para evitar qualquer situação na qual tivesse que estar supostamente sujeita a ele de alguma maneira. Até mesmo na minha conta do bar eu fiz questão de pedir uma comanda separada. Todos estavam tão eufóricos com a conquista de hoje que nem perceberam. Ainda bem. Pois odiava ter que me explicar. Mas ele percebeu. E pareceu ainda mais enfurecido com o meu desdém.
    Tentava me desprender um pouco daquele olhar nauseante. Aproveitar um pouco o ambiente com o pessoal. Afinal de contas, aquela era também a minha noite. Mas confesso que tinha momentos em que minha mente parecia me trair. E a tranquilidade da noite em amigos, se transformava em uma crescente angústia. Começava a me sentir sufocada. Como quem sente duas mãos pesadas estrangulando a garganta. Me lembrava dos pesadelos que andava tendo. Me lembrava dos olhares. Das sabotagens. Precisava de um ar. De um respiro mais longo. O que é segurança? Mas para minha sorte, o bar tinha uma espécie de terraço. A salvação. Uma área aconchegante destinada para os fumantes. Ou para quem sentia que poderia ter uma crise a qualquer momento.
    Apoiada na sacada, eu tentava respirar lentamente. Minha cabeça doía. E eu tentava me concentrar em qualquer outra coisa para não colapsar. O que é segurança? Necessitava de algo que fosse um pouco mais rápido que uma respiração lenta e profunda. Você por acaso teria um cigarro? Perguntei a um rapaz que fumava ligeiramente próximo a mim. Não. Eu não tinha o hábito de fumar. A menos que eu estivesse muito nervosa ou angustiada. E sabia que mesmo não sendo habitual não era a melhor opção. Mas as vezes a gente recorria às medidas mais drásticas.
    Você está bem? Me perguntou ele, com um olhar um tanto quanto melancólico. Eu comentei que só estava passando por uma noite um pouco complicada. Felizmente, ele não procurou entrar em detalhes. Só se calou. E voltou a fumar no seu canto, sem me encarar muito.
    Parecia que compartilhávamos um silêncio bastante confortável enquanto fumávamos. Daqueles que não é preciso dizer nada. E nem mesmo inventar falar de como estava o tempo, para não criar distancias. Para uma mulher como eu, que costumo ser bastante comunicativa, ficar um longo tempo em meio a um silêncio pairando no ar, ao estar na presença de alguém, não costumava ser um bom sinal. Mas não nesse caso. Estranhamente os nossos silêncios se comunicavam de uma maneira bastante peculiar e razoável.
    Inalando e exalando fumaça, começava a surgir uma agradável calmaria. Minha cabeça começava a voltar para o lugar. As imagens de pânico se desfaziam. Acho que elas começavam a ir embora com o vento. Meu nome é Luana, disse, sentindo a necessidade de me apresentar a aquele estranho. Prazer, Arthur.
    A partir disso, conversamos um pouco. Tentei puxar assuntos para compensar o episódio anterior. Me distrair um pouco. Ele me dizia que tinha vindo ao bar com seus colegas de casa. Ideia deles. Arthur parecia ser um tanto quanto introvertido demais. Disse que eles já estavam um pouco bêbados na mesa lá em baixo e que ele preferia ficar um pouco distante. Não gostava muito de perder o controle. Achei aquilo meio engraçado. Porque todo mundo parece necessitar de umas doses de escapes momentâneos hoje em dia. As vivências pesam as vezes. Então não sei. Estar o tempo todo em um estado de sobriedade me parece ser meio exaustivo. Mas acho que aquela pose rígida não duraria muito tempo.
    O tempo foi passando e um cigarro se transformou em dois. Depois em três long necks. E aos poucos parecia que já éramos amigos de longa data. Embora eu saiba que quando eu bebo um pouco tenho a tendência a ficar mais sociável do que o de costume. Mas isso não vinha ao caso.
    Eu ia percebendo que ele tinha uma linguagem corporal meio enigmática. Não sabia dizer se ele estava tenso ou relaxado. O que queria de mim. O que pensava. Entretanto, como não sou muito de analisar eternamente as coisas, mas sim agir, perguntei se ele queria tomar mais umas cervejas no meu apartamento. O que o fez parecer meio hesitante a princípio. Mas depois agiu como se fosse exatamente a pergunta que ele estivesse esperando. E eu já não estava muito preocupada em disfarçar nada. Em esconder nada.                

                                                                                                                                        ◊◊◊

    Os últimos três meses tinham sido bastante diferentes do que eu estava habituado. Com a chegada de um novo ano, ao invés de eu me sentir um pouco reflexivo ou melancólico, me sentia até esperançoso. Não que pudesse ser considerado um ímpeto de euforia ou algo assim. Era apenas um toque de leveza.
    A minha produção artística tinha aumentado consideravelmente. Enquanto a quantidade de tabacos vinha diminuído. Era bom estar sob uma nova perspectiva. Mais calorosa talvez. Acho que resultava da estranheza de saber que quando eu achava que a vida era mesmo essa coisa que acontecia em meio a matizes acinzentados e suas variações, achando que nada mais poderia me surpreender, eu poderia estar completamente errado.
    Não costumava me deixar balançar por qualquer pessoa ou situação, mas quando ela surgiu naquela noite foi como uma reviravolta. Como as formas abstratas de uma tela dançando para mim no escuro. E me saltava aos olhos que, embora ela não fosse nada parecida comigo, as nossas imensidões dialogavam.
    Depois do meu último término, a anos atrás, me pegava convivendo com a estranha sensação de que talvez ninguém mais fosse capaz de ver através de mim. De que talvez ninguém fosse se interessar realmente por aquilo que eu era. Melancólico, abstrato e pessimista. Um retrato daquilo que eu não sabia ser diferente. E o episódio no quarto de motel barato tinha mexido um pouco com isso também. Porém, tinha sido só um encontro efêmero. Desses que até vem com intensidades e cheios de novidade. Mas que não dão em nada no final das contas. E eu estava conformado de saber que meus encontros com as pessoas estavam fadados a isso. Não que eu fosse de muitas pessoas, de muitos contatos. Pelo contrário. Preferia nitidamente a minha própria companhia. Acho que ela era menos decepcionante. Embora eu me pegasse sendo uma decepção a mim mesmo diversas vezes.
    Mas o que estava pensando, antes de me perder nesses pessimismos típicos, é que desde aquela primeira vez com um homem, em um dia na qual eu não estava esperando nada, algo tinha acontecido. Porém, eu já não focava mais nisso. Tentava apagar aquilo da memória. Dificilmente me entregava assim. Eu preferia aprofundar as minhas raízes no meu trabalho. Na minha arte. Assim eu era. Assim as coisas deveriam ser.
    Porém, apesar disso, eu gostava de mergulhar nos abismos das pessoas que me interessavam. Era intrigante empreender esses mergulhos mais profundos. Mesmo que eu tivesse um pouco de receio de me aventurar em coisas desse tipo. E assim eu empreendi essa descida ao caos que habitava em Luana. E que eu achava até bonito. Meio confuso. Cheio de amarras embaraçadas. Algumas meio ininteligíveis. Mas ainda assim, tinha uma certa beleza. Uma abstração que me enchia os olhos.   
    No começo foi um pouco difícil lidar com toda aquela energia. Com todo aquele vigor. Eu queria ser casa, aconchego terreno. E embora ela parecesse querer também, ela gostava de ser livre. Voar que nem os pássaros selvagens. Ela me dizia que não queria namorar. Que preferia deixar as coisas como estavam. Com algumas saídas entre nós. Com mais frequência do que se poderia chamar de casual. E eu não estava habituado a isso. Não estava acostumado a coabitar em um relacionamento na qual eu tivesse que dividir. Na qual fossemos um, mas ao mesmo tempo continuássemos a sermos dois. Individualmente. Eu gostava de quando nos fundíamos em uma coisa só. Porém, confesso que talvez também gostasse do jeito como preservávamos nossos espaços subjetivos. Nossos refúgios solos. Acho que encarava isso como estar em algo mais aberto. Não sabia dizer ao certo. Mas preferia deixar um pouco de lado essa minha mania de entender tudo. De nomear e explicar tudo. 
    E dia após dia ela me ensinava a desbravar as intensidades. A ser pura pulsão. A lidar com eventuais ciúmes. A ressignificar a palavra “minha”. Que já não era sobre posse. Era sobre entregas. E eu a ensinava a desacelerar. A saber parar também. Pois alguns de seus excessos poderiam se tornar um tanto quanto destrutivos. Éramos fogo e terra. Duas faces da mesma moeda no final das contas. E não precisávamos de “porquês” plausíveis para coexistir.

                                                                                                                                   ◊◊◊

    Muita coisa tinha se passado nesses últimos tempos sem que eu percebesse. As apresentações continuaram a acontecer. Os dias se tornaram mais corridos. Três meses se passaram como se fossem três semanas. Mas era extremamente gratificante. Eu tinha conseguido finalmente ter tido coragem para contar aos meus amigos da companhia o ocorrido. E, para minha surpresa, a maioria tinha me apoiado. A confiança começava a se estabelecer nos nossos vínculos.
    Ao término da temporada, decidimos entre nós que nos desvencilharíamos da companhia teatral de Reinaldo e fundaríamos nosso próprio grupo. Confesso que não era uma decisão exatamente fácil. Estava sendo difícil para todos. Ainda mais que agora tínhamos um nome e um certo reconhecimento. E isso pesava na vida de qualquer artista. Sobretudo de quem estava em início de carreira. Mas entre o prestígio artístico turbulento e a tranquilidade de poder trabalhar em um ambiente na qual eu não fosse constantemente assediada, eu preferia zelar pela minha saúde mental. Isso era importante. E eu merecia estar em um ambiente que me fizessem bem. Que fosse simplesmente saudável para eu estar. Pois cada dia a mais naquele lugar fazia eu me sentir como quem está constantemente se equilibrando em uma corda bamba para não adoecer. Entre a euforia de cada apresentação bem-sucedida e os constantes olhares perseguidores. E também os toques, nada sutis, disfarçados de esbarrões ou incidentes. Como se a minha pele não me pertencesse. Como se fosse objeto público. O que é estar segura?
    E sim. Eu tinha consciência de que, infelizmente, eu ganharia menos. Que talvez o caminho a ser percorrido fosse mais longo em trabalhos independentes. O meio artístico poderia ser bem ingrato quando queria. Ainda mais quando era mantido vivo pelas influências, pelos prestígios e acordos absurdos. Tudo isso pesava tremendamente na balança. Será que vai ser o suficiente? Será que vai dar para pagar as contas e ainda seguir adiante com os projetos? Não. Não era fácil. Mas era preferível.
    Porém, para além desse inconveniente, a minha vida também tinha adquirido rumos interessantes nos últimos tempos. Quando Arthur apareceu naquela noite, em que uma crise e um turbilhão de sentimentos angustiantes me atravessava, eu sinceramente achei que ia ser só mais um estranho. Uma conversa para matar o tempo e aliviar o peso. Um corpo a mais ou a menos na minha cama. Um êxtase de uma noite que iria embora com os primeiros raios de sol. Uma presença calorosa para acalentar por um tempo extremamente efêmero, como as brasas queimando em uma fogueira, que se apaga depois de um tempo. Seria apenas o habitual. Tão habitual quanto almoçar todos os dias ou escovar os dentes. Apenas mais uma necessidade. Pois a minha fome não era nunca pequena.
    Porém, surpreendentemente, a noite em claro com ele no meu apartamento se tornou um convite para uma exposição na semana seguinte. E depois se tornou um convite meu para ele assistir a minha peça. Não era como estar em um relacionamento. Mas ao mesmo tempo era parecido. Algo do tipo. E, estranhamente, o ponto mais forte entre a gente não era o sexo. O que fazia falta. Mas acho que entre nós existia uma espécie de cumplicidade de quem se cruza assim, por acaso, e se conecta. Continuávamos com os nossos quotidianos, com os nossos pequenos e expansivos mundinhos individuais. Mas eles se entrelaçavam. Nas conversas, nos orgasmos, nos olhares, nas peles, nas artes e nas dores indizíveis de cada um.      
    Eu gostava de estar com ele. Sentia que eu não perdia as minhas liberdades. Nem as minhas individualidades me forçando a me dissolver em uma presença masculina. Eu me bastava. Eu era um fragmento inteiro. Mas ainda assim era bom poder me adentrar nessas trocas. E eu conseguia ser sincera. Sem ter qualquer imprescindibilidade de ser alguma persona em específico para me proteger ou agradar.  A gente era simplesmente o que era. E isso era o suficiente.
    E claro, eu continuava com as minhas próprias aventuras particulares. Conhecer pessoas era sempre algo que me atraía muito. Eu gostava de encarar esses personagens quotidianos. Saber como funcionavam, como se conectavam com as coisas ao redor. Achava bonita essa coisa de experimentar a multiplicidade. A multiplicidade de corpos, gostos, efeitos, cheiros, ambientes, sons e temperaturas. E embora desde muito cedo parecesse uma coisa muito natural para mim, não costumava encarar as coisas na aleatoriedade. Como atriz, eu gostava de prestar atenção nos gestos, nas pequenas sutilezas. O que pode um corpo sentir e experienciar?     

                                                                                                                                          ◊◊◊

    Meus processos de escrita se tornaram um pouco bloqueados novamente. Era impressionante como o fluxo da abundância nem sempre era contínuo. Tinha dias que simplesmente não adiantava a quantidade de café e nem o meu apreço pelos seus sabores. Não escorria quase nada pelos dedos batendo nas teclas do notebook. E muito menos nas anotações do bloco de notas. Eu estava dormindo um pouco mal. Preocupado novamente com prazos e processos criativos. Parecia que minha mente andava em outro lugar. Talvez estivesse vagando pelo interior de Minas. Pelas lembranças incompletas de saudades que as vezes apertam no peito. Da minha mãe, dos meus três irmãos, da vó que ajudou a me criar. E até mesmo dos gatos e cachorros que meu irmão mais novo tinha mania de resgatar da rua eu parecia sentir falta.
    Minha vida obviamente fazia mais sentido por aqui. Eu sentia que fluía melhor por aqui. Mas ao mesmo tempo, as vezes me sentia tão pequeno nesse mar de gente. Gente que se esbarra, mas que não se atravessam. Morar em uma cidade grande as vezes trazia seus pesos. Surgiam sentimentos conflituosos. Uma saudade do conforto de casa misturada a sensação apavorante de ficar sozinho. E eu sei. Eu sei que tinha prometido a mim mesmo naquele dia que tudo isso bastava. Que eu não precisava deixar a minha mente flutuar em saudades que cheiram a medo da solidão. Porque aquele passado já não me pertencia mais. Eu acho que só tinha mesmo era medo de ficar sozinho. Perdido na cidade que ainda não me acolheu como filho.
    Cada vez mais eu percebia também que acender um beck antes de dormir não estava mais funcionando como calmante natural. Meu corpo parecia não responder mais. Tinha se tensionado. O fluxo aquoso tinha se tornado o gelo sólido de um inverno europeu. E a chuva continuava caindo lá fora, escorrendo pela minha janela sem parar. Madrugada silenciosa. Daquelas que eu costumava considerar perfeita para terminar um roteiro ou criar algo novo. Mas hoje era só mais uma madrugada na qual a insônia vinha me abraçar ternamente.
    Mas afinal de contas, os dias ruins não eram todos que eu tinha. De vez em quando, ainda saía com os amigos do mestrado. Convidava eles para fazer algo. Eu era bastante comunicativo quando eu queria. Adorava estar rodeado de pessoas com quem eu pudesse trocar experiências acadêmicas. E até mesmo experiências de vida. Para jogar um papo fora ou sei lá. Sabia que fazia bem. E eu gostava dessa sensação de tomar “banho de gente”.
    Porém, ultimamente, a maior parte do meu tempo eu estava passando no meu quarto. Escrevendo sem parar. Apagando e reescrevendo. E sentindo uma tremenda vontade de jogar tudo fora as vezes. Porque apesar de todos os apesares, de se fazer o que gosta, a gente ainda tem que lidar com os prazos. Tem que pagar as contas.
    Por vezes, me pegava chorando no meio do banho repentinamente. Mas nem eu sabia exatamente pelo o quê. Não sabia dizer exatamente se era bom ou ruim. Porque ao mesmo tempo em que me batia um prazer imenso por estar vivo, mesmo com as diversas cicatrizes, me crescia uma estranha angústia. Mas eu só deixava escorrer. Era bom deixar escorrer todos aqueles sentimentos. Deixar cair as gotículas no tapete e serem absorvidas pelo tecido. Deixar a pele secar ao vento. Deixar as emoções viverem fluxos parecidos com os ciclos da água. Afinal, ter me mantido otimista ao longo desses trinta anos é o que me sustentava. Apenas tentava lidar com essas emoções na medida em que surgiam. E acho que grande parte dos meus roteiros se refletiam em um pouco disso. Por mais imparciais que parecessem ser. Mas o fato é que eu precisava de uma reinvenção urgente. Para não acabar enlouquecendo.
    No dia em que fui entregar um dos meus últimos roteiros, não pude deixar de observar um cartaz bastante convidativo pregado em um dos murais. Com suas cores misturadas e vibrantes, ele indicava um workshop de curta duração de dança contemporânea. Nem sei ao certo porque passou pela minha cabeça me inscrever. Nunca tinha me arriscado a dançar nada na vida. Para dizer a verdade, ultimamente os meus movimentos tinham sido muito mais voltados para a minha produção, para meus fluxos de consciência. Mas talvez fosse bom estourar esta bolha. Sair um pouco desses ciclos repetitivos. Eu não tinha nada a perder mesmo. E sendo de curta duração, eu não precisava me comprometer a permanecer por longos tempos.  
    Para a minha surpresa, a primeira aula tinha sido melhor do que eu imaginava. Era bom ter essa sensação de movimento. Me sentia meio desengonçado sim. Mas fluía. De alguma maneira. O som da música do estúdio e os balanços dos corpos ao redor. Sentia até uma facilidade em me comunicar com as pessoas. Com algumas mais do que outras. Tanto com as palavras, quanto com o corpo. E não pude deixar de notar que o espaço parecia permeado por uma maioria de mulheres. E que elas pareciam ser potentes no que faziam. Leves na dança. Envoltas em uma certa aura transcendente. Mas sempre tinha quem se destacasse mais. Era claramente perceptível.      

                                                                                                                                   ◊◊◊

    Tirar um cochilo a tarde tinha suas vantagens. Muitos não gostavam. Mas eu, particularmente, me sentia renovado. Mais até do que no sono da noite. Tanto que acordei, lavei o rosto e estranhamente tive ânimo para dar os toques finais a um quadro que eu estava trabalhando nesses últimos tempos. As cores que eu utilizava agora não puxavam mais tanto para os tons amarronzados, amarelados foscos e nem cinzas. Era o vermelho vivo e voraz e os alaranjados que saltavam aos meus olhos. As formas dançavam com mais facilidade. Tinham paixão. Movimento. Talvez elas estivessem precisando disso. E embora eu ainda nutrisse um apego pelas formas antigas, eu achava bonito como novas coisas me apareciam. Ia sentindo aos poucos que eu não tinha mais tanto medo assim do novo. Não me pareciam mais abismos fundos e incertos. Embora ainda fossem imprevisíveis. No fundo, talvez, a perspectiva do novo sempre estivesse ali, como um velho amigo me rondando. Eu só deveria não hesitar em acessá-lo. 
    Enraizado nessas sensações de bom humor, decidi fazer uma pequena surpresa para Lua. Assim, de última hora. Nada demais. Só me veio de repente um ímpeto de vê-la. Já fazia umas duas semanas que não nos víamos pessoalmente. E por mais que trocássemos mensagens diariamente, não era exatamente a mesma coisa. Então tomei uma ducha rápida, troquei a roupa respingada de tintas e parti. Sem tabacos no bolso. Sem grandes expectativas. Assim, de cara limpa e coração lavado.
    Já era começo de noite quando peguei o metrô em direção ao Flamengo. Estava um pouco cheio, mas não impossível. Conforme ele andava, eu começava a prestar atenção nas pessoas ao redor. Geralmente, em transportes públicos, eu costumava me voltar muito para dentro. Para os meus próprios pensamentos ou sensações desagradáveis do ambiente. Mas hoje só observava. Nada em especial. Alguns rostos cansados do trabalho. Alguns concentrados em uma tela ou em algum livro. Uma ou duas crianças que pareciam brincar de se esconder uma da outra através da saia longa, em estilo indiano, da mãe. Mas a mulher aparentemente não se importava. Aparentava estar imersa em algum tipo de estranha alegria causada pela agitação dos pequenos. Como traços de cores vibrantes em meio a matizes acinzentados.
    Quando cheguei a meu destino, não precisei procurar muito para vislumbrar de longe a fisionomia dela através dos vidros. Seu jeito enérgico e apaixonante de se mexer e de se comunicar. Ela se destacava sem fazer grandes esforços. Era o natural dela.
    Ao que tudo indica, a aula já estava no final. Resolvi esperar em um dos bancos do lado de fora. Alguns minutos não iriam ser problemáticos. Observava o pátio ao redor. As pessoas que saíam da aula. As árvores com os seus tons vivos de verão, porém encobertas pelo escuro da noite. Tudo parecia estar exatamente onde deveria estar. Mas a demora começava a ser um pouco longa demais. Cinco minutos se tornaram dez. Depois quinze. Depois vinte. Vinte e cinco. Meia hora! Todos saíam e nada dela. Não queria parecer paranoico. Não queria parecer preocupado ou tenso. Mas comecei a achar aquilo meio estranho. Decidi encontrá-la. Mas talvez não tivesse sido boa ideia.
    Na pequena sala, ela beijava um rapaz ao fundo, com as luzes apagadas. Uma espécie de facada no peito, mesmo que tivéssemos uma liberdade conversada tantas e tantas vezes. Eu soube que era ela, porque a luz do poste amarelado do lado de fora fazia com que alguns feixes iluminassem seu rosto. Qual a distância entre as palavras e a realidade? Sabia que não deveria me sentir assim. Mas talvez começasse a pesar os sentimentos mais obscurecidos. Os ciúmes. Os pessimismos. A sensação de que tudo não passava de algo fadado a fracassar. Eu não sabia se eu era suficiente. Começava a me sentir inseguro.  
    Eu estava quase dando as costas para ir embora. Porém, devido aos barulhos de passos, ela percebeu que não estava a sós. Vi quando ela abriu os olhos subitamente e se espantou com a minha presença ali. Sem entender muito bem o que se passava. E talvez um pouco preocupada também.
    Ela vinha em minha direção, tentando talvez apaziguar. Mas eu estava paralisado com o que via. Meus batimentos começaram a acelerar. Aquilo não poderia ser real. Parecia um fruto da minha imaginação. Eu só poderia estar ficando louco. E da minha boca só saía quase inaudível um loop lento e confuso de uma palavra que só eu parecia ouvir. Diego?

                                                                                                                                 ◊◊◊

    O meu espanto de ontem trouxe à tona diversas memórias adormecidas. Nove meses atrás, naquele quarto de um motel barato no Centro do Rio. Apesar de não termos trocado contatos, eu me lembrava de Arthur com carinho. Eu já tinha dormido com outros caras. Até mais do que com mulheres. Mas o que eu achava engraçado nele era seu jeito tão dúbio. Ele hesitava, entrava em negação. Porém, tinha uma força que o puxava para o outro lado. Que o fazia se entregar por fim. E isso fazia ele parecer uma pessoa cansada. Aparentemente cansado de lutar diariamente contra si mesmo.
    Confesso que tive uma felicidade súbita de saber que o quotidiano banal ainda podia fazer as pessoas se cruzarem assim. Parecia cinematograficamente arranjado. Coisa que não aconteceria duas vezes na mesma existência. Pois só de roteirizar já me parecia improvável. E acho engraçado de pensar que se mudassem o cenário, talvez fosse mais plausível esse contexto. Se acontecesse no interior talvez fosse mais viável. Estávamos acostumados a cruzar com um ou outro conhecido diariamente. Todo mundo parecia saber da vida de todo mundo. Mas em uma cidade como o Rio de Janeiro tudo parecia tão distante. Não geograficamente falando. Eram as conexões que eram difíceis. Efêmeras como chuva de verão carioca.
    Ontem à noite, as coisas aconteceram de uma maneira improvável. Eu diria quase mística ou misteriosa. Lua não entendeu muito bem o que se passava. Não sabia se sentia culpa ou tentava entender o que aquele estranho encontro significava. Jogava palavras ao vento freneticamente, tentando formular atitudes coerentes. Arthur, por sua vez, parecia congelado. Estático. Como quem não consegue reagir muito bem. E talvez nem quisesse reagir. A barreira só se rompeu quando eu sugeri que sentássemos em outro lugar para conversar, pois os porteiros já estavam querendo fechar o estúdio.
    A noite me pareceu mais longa do que o habitual. Cada um, a seu modo, tentava explicar o que se passava. Três perspectivas. Três enquadramentos. Três narrativas diferentes. Que pareciam correr em paralelo. Mas que se mesclavam. E se complementavam.
    Me peguei me perguntando o porquê de eu e Arthur termos perdido contato. Talvez por medo dele, talvez por distração minha. Não sei dizer. Mas mesmo antes de me encontrar com ele, ainda me lembrava daquela noite com emoções pairando no ar. Fixamos uma certa nostalgia um do outro. Gostava da sensação de ter sido a primeira experiência na vida de alguém. Gostava de pensar que talvez eu pudesse ser marcante para alguém. Como tatuagem que fica na pele para a vida toda, mesmo desbotando com o tempo. E que eu era capaz de romper paradigmas que pareciam totalmente cristalizados. Não sei se pela dureza do tempo ou da vida.  
    Já Lua, me trazia outras sensações. Parecia que tudo era rápido demais, porém intenso como um furacão. Un coup de foudre. Ela me atraía de uma maneira que nem eu sabia ao certo como explicar. Parecia contrastar comigo. Me puxava para o fundo. Como uma sereia que encantava pescadores. Tinha lábia. E embora eu fosse quase dez anos mais velho, ela conseguia fazer fluir as minhas estruturas de uma maneira impressionante. Parecia que eu já não era mais tão experiente. Parecia que todos esses anos já não importavam mais. Fazia eu me sentir como se o meu tempo fosse o agora. Duas semanas saindo juntos parece que tinham se tornado dois meses.

                                                                                                                                ◊◊◊

    Como personagens tão diferentes eram capazes de se atrelar assim? Tudo acontecera tão repentinamente e com tons tão vorazes. Não me recordo muito bem como as coisas foram capazes de saltar assim tão rápidas. Mas quando me dei conta, já nos emaranhávamos nos meus lençóis. Era aquele ambiente, no meu pequeno apartamento, divido com uma amiga, na Urca, que parecia que o tempo e o espaço eram capazes de se expandir a cada momento. Os espaços vazios eram preenchidos. Os cômodos. As mobílias. Os corpos. As células. Selvagens. Como se os interiores suplicassem por serem alimentados. Mas sem afobações. Sem ansiedades.  
    Eu, que sempre tinha fomes, inquietações e agitações atravessadas na carne, me sentia inundada em serenidade. Sentia que era capaz de ser nutrida por aqueles dois homens. Por aquelas presenças. Não como quem depende. Mas como quem se sente conectada. Éramos pertencimento? Éramos elementos que se combinavam. Quase que necessários um ao outro naquele presente. No instante tudo se fazia valer. Éramos os gozos do fogo se espalhando em labaredas crescentes. Dos líquidos que escorriam pelas têmporas, pelas bocas, pelas costelas e pelas coxas. Penetrando as três camadas da terra. A crosta. O manto. Até chegar no núcleo. E explodir novamente. Em múltiplos pedacinhos brilhantes que se estilhaçam. E depois cair em riso. Em suspiros entrecortados. E afagos com as pontas dos dedos.
    Aquela noite fazia eu me questionar. Não como quem se indaga querendo saber uma verdade estática. Lispector estava certa: “quem se indaga é incompleta”. Quais os limites da pele? Quais os limites dos poros? Mas não. Eu não era incompleta. Eu era algo em aberto. Em andamentos. Como quem abre o peito e em uma fração de segundos é capaz de inspirar todo ar disponível. E se sentir preenchida. De algo. De uma sensação pulsante. Gelatinosa? Macia? Quente!
    Eu era planta carnívora. Eu era a ressaca do mar. Não sei o que fui. Não sei o que era. Eu era intensidade. Éramos intensidades. E quando os primeiros raios de sol começaram a surgir pelo vidro da janela, senti que me enchia de luz.
    Arthur dormia tranquilo. Esparramado no colchão. Tal como em um sonho infantil, imperturbável. Diego, que não tinha pregado os olhos em nenhum momento, foi até a cozinha passar um café. Eu saía de um banho rápido, enrolada em uma toalha vermelha felpuda, sem me secar por completa. Abria a janela e deixava que o vento e os feixes amarelados secassem cada gotícula da minha pele. Uma a uma. E sentia os pelos se arrepiando. Um banho de energia.
    O cheiro do café quente envolvia o apartamento. Eu deixava meu corpo pesar para trás. E me deitava. Incrédula. Radiante. Atônita. Fechava os olhos. Sentia a pele morna de Arthur esbarrando na minha sem querer. Ele parecia despertar com a minha presença. E me abraçou. Como quem segura preguiçosamente um travesseiro macio contra o corpo.
    Os carros e ônibus circulavam ao longe. Alguns pássaros cantavam. A cidade despertava para uma manhã de verão de sábado. Diego vinha trazendo na garrafa térmica o nosso café. Mas pareceu se esquecer dele segundos depois, pousando-o na mesinha de cabeceira. Ele se aconchegava junto da gente. Como quem finaliza uma grande cena. Gran finale. Como quem compõem o espaço do colchão com aquilo que faltava. E era bom estar aqui. Era bom poder ir pegando no sono. Vagarosa. Isso bastava.              

                                                                                                                                          ◊◊◊

    Todas aquelas certezas, tão sólidas, tão feitas, pareciam tomar outros rumos. Cada momento se transformava em efeitos labirínticos. Às vezes eu sentia como se tudo acontecesse tão rápido que eu precisava de um tempo para assimilar. Era o tipo de interação que despertava tantos tipos de emoções variadas que nem eu mesmo sabia se faziam parte do meu espectro. Confesso que talvez eu tenha entrado em uma espécie de pânico a princípio. Eu não sei se sabia mais lidar tão bem assim com as novidades. Ainda mais quando envolviam duas pessoas ao mesmo tempo. O meu próprio temperamento se mesclando a lida com os temperamentos de Lua e Diego. Uma mistura de angústia com prazeres. Mas não era exatamente ruim. Não. Não era sobre isso.
    Apesar de tudo o que vinha acontecendo nesses últimos tempos, depois daquela noite, tentávamos continuar com os nossos quotidianos normalmente. Embora fosse improvável. Ao mesmo tempo que quase nada parecia ter mudado na rotina, quase tudo tinha mudado. Eu sentia que meus tons iam se modificando também. Realidade e abstração. As fronteiras se alargavam. A minha maneira de ver algumas coisas também. As vivências em meio a cidade. Acho que eu me sentia acolhido. Quase confortável. Era possível ser casa em dois seres diferentes ao mesmo tempo? Era possível multiplicar os sentimentos?
    Quanto mais eu achava que entendia da vida, das coisas do mundo, das possibilidades, das pessoas, mais eu me enganava. Cada vez mais as palavras sentiam a necessidade de serem ressignificadas. Quase como se eu pudesse criar uma nova língua. Mas nem mesmo eu sabia precisamente como torná-las plenas em si mesmas. Compreensíveis. Desemaranhadas. O que éramos então? Amigos? Amantes? Companheiros? Combinações? Delírios tropicais de veraneio?
    Tudo o que vivíamos me parecia ser sobre aprendizados. Aprendendo a ver. A ouvir. A inspirar. A provar. A sentir. Ou reaprendizados. Era confuso. Oblíquo. Delicioso. Inebriante. Divertido. Apavorante. Talvez fosse sobre os sentimentos inefáveis. Aqueles que nos atravessam repentinamente. Ao sabor das estações do ano. E nunca permanecem os mesmos. Vão se constituindo e mudando toda hora. Como expressar em palavras ou em pensamentos tudo aquilo que ainda não nomeei?
  • tudo bem se você não gostar

    ontem no ônibus eu vi uma senhora usando um daqueles chapeus meio triangulares-não-poliedros que os chineses usam nas plantações de arroz. ela vestia também uma bata laranja cheia de tampas de latinha. achei tão curioso, e mais ainda porque ela puxou assunto comigo. pensei que fosse ser eu, mas foi ela. ela perguntou se eu era vegana porque eu estava tão elegante, e disse sem mais nem menos que a médica dela deu a noticia de que ela nunca mais vai poder comer carne porque carne da câncer. é claro. enquanto conversávamos, ela pediu pra eu falar mais alto porque a audição dela não estava das melhores. me senti encabulada em falar alto demais dentro de um ônibus lotado de silêncios, mas falei alto. eu estava mesmo bem elegante. mais tarde a vi de novo com "ele não" escrito no rosto, usando o mesmo chapeu não-poliedro, no meio do bloquinho de carnaval, que fica no meio de curitiba, que fica no meio do mundo. hoje eu conheci um homem que tem mais de cem diplomas. cem. me mostrou seringas antigas enormes de vidro, dentro de latas quentes pelo sol, me explicou como eram, antigamente, as esterilizações. só com fogo e água quente, e funcionava. ele apontou pra uma seringa que estava de lado e disse que era a mais rara de todas, olhei, era igual as outras. mas também não era igual. me mostrou penas e tinteiros velhos, o que me deixou com vontade de escrever. tinha também um vidro com um pó alaranjado, e quando eu perguntei o que era ele disse que não sei, melhor não mexer, vai saber o que tem aí. eu não mexi. ele adivinhou meu nome do meio sem nunca ter me conhecido antes. eu poderia ter tantos nomes do meio, mas eu tenho o que eu tenho, e ele sabe o que ele sabe. cheguei a conclusão que as caixas de fósforo antigas são muito mais interessantes que as de hoje em dia, e que as pessoas deveriam estar pensando é nisso. as páginas que falam sobre a guerra no meu novo livro favorito estão enrugadas de água da chuva, parecem lágrimas, mas não as minhas. é que eu nunca saio de guarda chuva. sujei minha bolsa branca com molho de pimenta porque eu ainda não aprendi a segurar pastel de palmito, vinagrete, molho, bolsa, livro e gentilezas, ao mesmo tempo, só com duas mãos. fiquei pensando que eu não conheço de verdade os meus pais como pessoas, a não ser como "pai", ou como "mãe". será que alguém conhece o próprio pai como ser, ou qualquer familiar como ser, além de todos os termos familiares convencionais? será que alguém conhece alguém? nenhuma das fotos 3x4 que eu tenho foi roubada, ao contrário do que algumas pessoas pensam. se tivéssemos o tamanho que ficamos quando usamos pernas de pau, teríamos que ter bem mais que dois joelhos. hoje é domingo, tem gente que não gosta. mas eu adoro adoro adoro, e tudo bem se você não gostar.
  • Ufa! Essa foi por pouco...!

    — Mais um dia! (exclama Carlos exausto!)
    — Eu não me queixaria disso; antes mais um, do que menos um (diz Nelson como sempre em tom de brincadeira, enquanto cumpria os últimos preparativos para deixar a aeronave). O que vamos fazer agora; jantar, ou tomar um porre?
    Como Carlos não lhe respondera, Nelson volta à carga:
    — Ora vamos, rapaz! O mundo não vai acabar em cansaço e mau humor; vai?
    — Não, não vai; mas, o que preciso mesmo, por enquanto, é de um bom banho e de um bom sono.
    — Bom, com respeito ao banho, eu até que concordo; mas, com respeito ao sono, eu não tenho tempo pra isso agora; talvez, bem mais tarde!
    Carlos era o piloto responsável pelo jatinho particular que servia ao banqueiro Gaizka Aguirre, sua esposa Ruth e seus dois filhos: Danielle, de vinte e cinco anos e Jonathan, de vinte e dois. Carlos, vinte e nove anos, era um jovem bem apessoado, austero e muito compenetrado em seu trabalho; mas, ultimamente, ele vinha apresentando sérios sinais de estafa e uma constante irritação, o que começava a preocupar o seu amigo e copiloto Nelson – de vinte e seis. É certo que a viagem havia sido longa e que o sol de verão havia sido inclemente; mas, isso não era absolutamente razão para ele estar assim tão cansado e de tão mau humor.
    — Você não gostaria de conversar e de se abrir comigo, Carlos? O que é que está acontecendo? Eu tenho notado que você já não é mais o mesmo; parece muito cansado, irritado… Ou seria aborrecido com alguma coisa em específico? Existe algo que eu, como seu amigo, possa fazer?
    — Não, eu estou bem. É que eu preciso acessar na net as cartas de navegação e fazer o planejamento do voo de volta para amanhã; é só isso.
    — E eu posso ajudar, nisso? (pergunta Nelson, já sabendo qual seria a resposta)
    — Oh, não! Aproveite a estadia por aqui. Mas tenha juízo, rapaz; amanhã partiremos logo cedo e, como você bem sabe, a patroa Danielle não tolera qualquer atraso ou ineficiência.
    Nelson se despede e vai para o seu bar preferido, onde joga bilhar, conversa com os amigos e aprecia a praia iluminada até altas horas da noite, enquanto que Carlos toma um táxi e vai direto para o hotel. No dia seguinte, já no aeroporto e se preparando para a partida…
    — E aí, comandante! Em forma e animado pro caminho de volta? (pergunta Nelson enquanto contata a torre de controle e faz os últimos preparativos antes da taxiagem)
    Carlos, como já era de se esperar, não responde palavra; em vez disso, continua checando os controles de flaps, ailerons, profundor, leme e etc. A maioria dos voos costumava ser entre Estados Unidos, Brasil e França, onde os Aguirre tinham residências e a maior parte dos negócios; mas, algumas vezes iam também para o oriente médio, o que era ótimo para quebrar a monotonia do trabalho.
    — Veja só como são as coisas (diz Carlos pensativo, enquanto decolava em Miami, rumo a São Paulo); quando eu estava ainda estudando e me preparando pra ser piloto, eu era considerado a maior atração… e isso por onde quer que eu fosse! As garotas me amavam e os colegas me invejavam…! Hoje, que já sou piloto "há anos!" elas simplesmente desapareceram, ou, talvez, prefiram me ignorar. Você sabe como é; elas dizem que vida de mulher de piloto não combina com os seus anseios de esposas, de mães, ou, de donas de casa…!
    — Cara! (diz Nelson quase gritando um "eureka!") Então é esse o motivo da tua zanga e irritação constante! (Nelson ri gostoso) Olha, eu não esquento com isso. No momento, eu não estou mesmo pensando em me amarrar; mas, quando chegar a hora, eu acho que vou me dar bem. Só como exemplo; você sabe que eu vivo dando em cima da patroa Danielle… Mas isso é só farra; isso não leva a nada! O que a gente tem que fazer, quando se está mesmo a fim, é procurar uma garota que seja madura, idônea, adequada, conveniente… O que eu quero dizer é que a gente tem que procurar uma gata que não seja tão exigente e implicante a ponto de se interpor entre a gente e a nossa profissão. E depois, a gente não fica tanto tempo assim fora de casa… Quer dizer… Ainda existe coisa muito pior por aí!
    — Hum, não sei não (interrompe Carlos, com um sorriso meio sem graça).
    — Cara! (diz Nelson com o seu jeito divertido e dando um golpe no ar) Eu vou arranjar uma namorada pra você! Como você prefere; loira ou morena? Grandona ou pequena? Agitada ou serena? Lunática ou terrena? Escolhe: Lucélia, ou Lorena?…
    — Nem pensa, Nelson! (interrompe Carlos que nunca estava para brincadeiras) Nem pensa!
    Nesse momento Nelson olha o horizonte, checa de novo as cartas de navegação e a previsão das condições atmosféricas para o voo e o que vê o faz deixar prontamente a brincadeira de lado. Após a linha do equador, já entrando em solo brasileiro, um largo cinturão de nuvens muito altas, espessas, carregadas e escuras ia se formando.
    — Parece que vamos ter que reduzir a velocidade pra diminuir um pouco o "sacode", comandante (diz Nelson já fazendo os preparativos para enfrentar o mau tempo). Eu odeio essas formações de cumulonimbus… Me fazem lembrar daquelas rodovias esburacadas; ou, o que é pior; daqueles infames "quebra-molas" que a gente passa sem ver e "de repente!" a gente mete a cabeça no teto!
    — É, e esse não vai dar pra contornar (diz Carlos quase que de si para si). Avise a Danielle pra se preparar e apertar o cinto; vamos entrar numa zona de fortíssima turbulência.
    Como faltava ainda alguns minutos para darem de encontro ao mau tempo, Nelson decide ir e dar o alerta pessoalmente. Danielle, como sempre, estava estudando. Assentada numa das poltronas laterais e com uma porção de livros e cadernos espalhados numa mesa, à sua frente, ela apenas ergue os olhos para ver quem vinha e em seguida volta à sua leitura. Uma visita de Nelson, durante um voo, não constituía novidade alguma para ela.
    — Parece que a minha linda terá que abandonar os estudos por alguns instantes… (diz Nelson enquanto se aproxima) Estamos pra entrar numa zona de forte turbulência… Melhor se preparar.
    — Olha aqui, Nelson; pra começar, eu não sou "a tua linda"; e depois, nem linda exatamente eu sou. Eu sei que não sou feia de assustar; mas, "linda?!" (Danielle sorri com deboche) Ninguém nunca te disse que com essa tua cantada de hipocrisia você não irá conquistar nenhuma garota... pelo menos, não as que sejam sérias? A não ser que ela se ache mesmo linda, é claro (diz Danielle sorrindo enquanto guardava os livros).
    Nelson fica imóvel, em silêncio e introspecção, por um instante, e depois lhe diz num tom grave e pausado.
    — Eu gosto muito de brincar com você, Danielle; porque você é, de fato, uma garota muito jóia… Mas, na verdade, eu nem deveria fazer isso, sabia? (pausa) Ele poderia não gostar e… Bom, deixa pra lá.
    — Não estou te entendendo (diz Danielle num tom de interrogação).
    — Não, nada não (ainda num tom reflexivo, enquanto se vira e se afasta em direção à cabina).
    — Ah, tá! Você deve estar pensando que eu vou ficar aqui, "morrendo de curiosidade!" ou, te perguntar o porquê dessa tua encenação, certo? (diz ela zombando)
    — Não, não; esquece. Eu falei demais; só isso. Acontece que quando eu estou triste, ou preocupado com alguém, eu acabo pensando alto… mas, não é nada não (se afasta, entra na cabina e fecha a porta).
    O mau tempo foi "tremendo!" e teve uma duração de uns vinte minutos. Assim que tudo volta à calma, Nelson anuncia a Danielle ‒ agora pelo sistema de comunicação interna, que a situação já havia voltado ao normal e lhe deseja bons estudos. Não levou nem cinco minutos e Danielle bate à porta da cabina.
    — Nelson, você poderia vir aqui um instante?
    — Claro, sem dúvida! (Nelson tem que se esforçar para conter uma gostosa gargalhada!) Posso, comandante? (pergunta a Carlos que apenas faz um aceno dizendo que sim)
    — Vem cá; (diz Danielle, fazendo um aceno para que ele se assente ao seu lado). Que história é essa que você começou a encenar aquela hora e que não terminou; hã? Diz aí! Eu quero ver o fim desse teu drama! (Danielle sorria, mas com certa irritação)
    Nelson não era bonito, mas era um tipo simpático, muito brincalhão e agradável. Nesse momento, ele mal conseguia fazer o ar sério e introspectivo que a cena exigia. Olhando sempre para baixo e evitando a todo custo o olho-no-olho com Danielle, ele diz:
    — Está bem. Não vai ter jeito mesmo, não é? Mas eu ainda insisto em dizer que eu não devia estar aqui te falando sobre isso. Se o Carlos fica sabendo… Eu… Eu nem sei o que ele poderá fazer!
    — Nelson, Nelson! Você é mesmo um tremendo de um sacana! Me custa acreditar que você esteja tentando armar uma troça pro Carlos – teu superior! Eu sei o que ele te faria; primeiro ele iria te matar e depois ele te mandaria embora – rua! Só que não vai rolar, Nelson; eu te conheço bem demais pra acreditar em qualquer coisa que você invente.
    Nelson, fingindo um grande alívio, se levanta dizendo:
    — Então, eu posso ir? Estou liberado?
    A essa altura, a curiosidade de Danielle sobre a "armação" de Nelson já era tamanha que ela simplesmente não podia deixar de ouvir o restante da tramóia!
    — Hã… não; senta aí e me conta tudinho! Com certeza eu vou chorar de tanto rir!
    Nelson costumava representar muito bem as suas "peças"; mas, desta vez, só com muita dificuldade ele consegue se conter e não cair na risada. Voltando a se sentar, ele se prepara para dar um desfecho ao drama.
    — Você tem reparado na ansiedade e na irritabilidade do Carlos ultimamente; não tem?
    — Não (diz Danielle com um sorriso matreiro estampado em seu rosto). Ele está cansado e querendo tirar umas férias; é isso?
    — Hã… Você nem percebeu. Mulheres! E depois, nós é que não notamos o vestido novo, o penteado ou a nova cor do cabelo delas! (diz, indignado e se preparando para se levantar e voltar para a cabina)
    — Ou, ou, ou, espera aí! Era só isso?
    — Ora, e o que mais deveria eu dizer a uma mulher que não nota sequer a existência, os anseios ou os mais sinceros sentimentos de uma pessoa tão legal, tão especial e que vive há tão poucos metros de distância dela; hã? Me diz!
    — Nelson, deixa de graça e diz logo o que você insinuou que tinha a dizer; vamos! Essa tua estória já está me dando nos nervos, sabia?
    — Dizer, pra quê? Pra você se divertir? Não senhora; não às custas do meu amigo. Ele é um tipo sisudo, muito capaz e até bastante confiante no trabalho dele, mas, ele é também uma pessoa muito tímida, especialmente no que respeita às mulheres. Ou será que você acha mesmo que ele ainda não se casou, com seus quase trinta anos de idade, porque é um tipo muito feio, desajeitado, incapaz… Hã? Ele não é um sujeito feio, é? (pergunta Nelson com ares de ingenuidade)
    — Ai, ai! Você está na profissão errada, Nelson. Você deveria ter feito artes cênicas, em vez de pilotagem; isso sim!
    — Eu acho legal a gente brincar, Danielle; eu vivo brincando; você sabe disso. O grande problema é que quando eu falo sério, ninguém acredita. Você não é a primeira pessoa que duvida de mim – quando eu falo sério­. Bom, se me dá licença, eu tenho que retornar ao meu posto.
    — Espere aí, Nelson! O que você está me dizendo simplesmente não pode ser uma peça, uma brincadeira… Você está ciente do que está fazendo? Isso não é uma coisa com a qual se possa brincar… Não da maneira como você está apresentando! Isso é verdade? Mesmo, mesmo?
    — O que você pensa em fazer, Danielle? (diz Nelson, a essa altura já sinceramente preocupado com o rumo da brincadeira) Se estiver pensando em se divertir, por favor, arrume alguma outra coisa, ou um outro alguém. Se divertir às custas dos sentimentos ou da timidez de uma pessoa honesta e sincera, nunca deu bom resultado. Além do que, você estaria não só brincando com os sentimentos dele, mas, também pondo a minha cabeça a prêmio! Se for se divertir, por favor, não se esqueça disso!
    Nelson, muito sério e sem fazer mais qualquer comentário, se levanta e volta ao seu cockpit enquanto que Danielle fica a olhar no vazio e sem saber exatamente em que pensar. Corria-lhe pelo corpo uma estranha sensação de adrenalina e parecia que seu coração estava batendo fora do compasso… Ela sabia que Nelson era um tremendo de um gozador; mas, por alguma razão, ela simplesmente não queria acreditar que isso fosse apenas uma peça. E depois, a maneira firme e tão sentimental com que ele falara… Por várias vezes ela examinou e reexaminou toda a conversa, cada cena e tudo a fazia crer que era fato. Era como se de repente, tudo tivesse ganhado vida e cores, à sua volta, e ela sente um ar de ansiedade, num misto de felicidade, que há muito não sentia…!
    — E então? (pergunta Carlos, ao retorno de Nelson) Se é que eu posso te perguntar alguma coisa, naturalmente.
    — Claro que pode; a minha vida é um livro aberto – só que escrito em Sânscrito antigo! (diz com um meio sorriso) Você conhece aquela expressão "de saia justa!" pra quando a gente se vê num beco sem saída? É isso aí.
    — Uai, e que problema seria esse? (pergunta Carlos intrigado)
    — Hum… Você sabe que eu vivo brincando com a Danielle… Aquelas "cantadas", sem qualquer fundamento; agora, ela me chama lá pra conversarmos e me dá o maior gelo de toda a minha vida! Você sabe; aqueles do tipo "chega pra lá – se manca – presta atenção!" Bom, até que enfrentar isso, exatamente, não me seria um tão grande problema; eu tenho estrutura pra isso. Só que… (uma pausa longa, e um suspiro!)
    — Ora vamos, homem! Quem brinca com água tem que estar disposto a se molhar; diz aí, o que é que te aflige!
    — Hã… Você já reparou como a Danielle anda irritada comigo e vem me dando o fora, mesmo sabendo que minhas brincadeiras são sempre muito respeitosas e que não passam de meras brincadeiras? E, já reparou também no modo como ela vem olhando pra você? Ela…
    — Nelson, (interrompe Carlos) deixa de brincadeiras comigo. Você sabe muito bem que eu estou aqui é pra trabalhar e que eu não aprecio nem um pouco esse teu humor, muitas vezes, inconsequentes!
    — Antes fosse humor! (diz Nelson, após uma pausa e sinceramente arrependido da burla sem volta que acabara arranjando)
    O restante da viagem transcorreu tudo normal, porém, em quase absoluto silêncio. Nelson se absteve de qualquer comunicação que não fosse a estritamente necessária com o piloto, com a passageira e com o controle de tráfego aéreo. Após os cheques finais de pós voo e o hangaramento da aeronave no aeroporto, Nelson chama Carlos a um canto e diz:
    — Bem, normalmente sou eu quem leva a patroazinha pra casa; mas, desta vez não vai dar. Eu te agradeceria muito se você fizesse isso por mim… Pode ser?
    Após um aceno afirmativo do amigo…
    — Carlos, eu sei que às vezes eu sou um tanto extravagante, nas minhas brincadeiras… Mas eu também tenho um coração, eu tenho sentimentos e eu posso te assegurar de que eu sei "e como sei!" o quanto dói a gente ser ignorado por alguém a quem a gente ama. Eu me preocupo pelo teu bem, é verdade; mas, eu me preocupo muito mais pelo bem dela. O homem, quando quer, ele vai à luta e diz logo tudo o que sente; já a mulher, parece que ela tem que ficar sempre na expectativa… Esperando pra ser notada… Eu, se fosse você, daria a ela a atenção que ela merece. Pode acreditar, meu amigo; você é um sujeito de muita sorte!
    Nisso chega Danielle que é prontamente recebida por Carlos, que também se oferece pra carregar-lhe as malas até o carro e pra levá-la até sua casa. Nelson dá um tempo ainda no hangar e, limpando da testa um suor de desconforto, exclama de si para si:
    — Ufa! Essa foi por pouco!
  • UFC Bandini

    ─ Porra, Camila, eu já cansei! Você sempre faz as suas merdas e depois vem pra cima de mim, se fazendo de vítima. Desse jeito não dá. Eu faço tudo por você, e toda semana você vem com essa mesma história de que quer terminar e que eu sou a pior coisa que já aconteceu na sua vida. ─ Arthur gritava para Camila, gesticulando com as mãos, furioso, indo hora em direção a ela, hora em direção ao copo de cerveja que ameaçava a beber.
    ─ Você é um idiota! - gritou Camila de volta para Arthur ─ Há quatro dias eu te disse que estava grávida, e você não me deu apoio nenhum. Você é um bosta, Arthur! Tive que conversar com a minha mãe sobre isso e você sabe como nós duas não se damos bem. ─ Camila, agora, chorava. Suas lágrimas manchavam a maquiagem dos seus olhos e escorriam pela sua pele clara criando rios negros em suas bochechas.
     ─ Ainda bem que eu não estou grávida. Você seria um pai de merda. Você nem sequer tem um emprego. É um derrotado. Paga de escritor para poder comer essas vadiazinhas aí que se fingem de intelectuais, cheias de fogo do rabo. ─ Camila avançou em direção à mesa, pegou o copo e arremessou contra Arthur. Errou o alvo por pouco, e o copo passou há dez centímetros da testa dele, se chocou contra a parede, espalhando cerveja e cacos de vidros por toda a sala.
    ─ Vai começar a jogar as coisas agora?! Você é doida, Camila. Eu sabia disso desde o momento que te vi. Eu podia ter pulado fora, mas não, eu fiquei do seu lado te ajudando com as suas paranoias. ─ ele acendia um cigarro, andando descontrolado de um lado para outro, pisando com os chinelos nos cacos de vidros que estalavam sob os seus pés.
    ─ Essa sua gravidez foi uma invenção da sua cabeça. E a primeira coisa que te falei foi para fazer a porra do exame. E você fez? Claro que não. Tentei me aproximar e te dar apoio, mas você me afastou de todo jeito possível. Então decidi te dar espaço, um tempo pra você colocar as ideias no lugar, e agora você vem aqui pra dizer que não tem gravidez e, que ainda por cima, ontem trepou com a piranha da Cecília.
    ─ Trepei mesmo! Ela é muito melhor que você na cama. Ela me fode bem melhor do que você com essa coisinha aí que tem no meio das pernas.
    ─ Uma puta lésbica, é isso o que você é. ─ Arthur já passava para o segundo cigarro.
    ─ Eu não tenho culpa se você não consegue satisfazer uma mulher. Eu tava bêbada e perdida, porque você me abandonou.
    ─ Eu te abandonei? Você quem me afastou. Você é doida! Precisa de tratamento. Uma hora você diz que me ama, que nunca mais vai ficar com uma mulher de novo. Outra hora você me afasta e diz que eu sou pior que todas as namoradas que você já teve
    ─ Arthur Bandini eu te odeio! Quando eu aparecer morta com os pulsos cortados, saiba que você que vai carregar o peso da minha morte, seu merda! ─ ela correu para a cozinha e ele foi atrás perdendo o chinelo no caminho e cortando o pé num caco de vidro em formato de pirâmide afiada que entrou fundo em seu calcanhar.
    Na cozinha, Camila jogava freneticamente as coisas pra fora das gavetas, procurando uma faca ou algo que pudesse se cortar. Cega pela raiva e pela maquiagem que atrapalhava a sua visão, nem reparou o suporte de facas, que ficava em cima do armário. Arthur entrou na cozinha afoito e segurou seus braços. Ela se debatia para tentar se livrar, mas, ele era mais alto e bem mais forte do que ela.
    ─ Não faz isso, Camila! Você não pode fazer isso.
    ─ Me larga. Eu posso e vou. Uma hora você vai ter que me soltar.
    ─ Eu só vou te soltar quando você ficar calma e prometer que não vai fazer nenhuma besteira. ─ ouvindo isso Camila relaxou os músculos, por um instante Arthur pensou que ela iria desmaiar.
    ─ Está bem. Me larga, eu prometo que não vou me matar hoje. Eu vou embora, não aguento ficar mais um segundo no mesmo ambiente que você. ─ ele a largou e ela foi caminhando em direção à sala, notando no chão as pequenas poças de sangue que o pé direito de Arthur fez.
    Arthur seguiu logo atrás dela, reparando, também, no sangue. O caco de vidro entrava mais em sua pele, na medida que ele ia caminhando.
    ─ Olha o que você fez, sua louca. Agora estou sangrando igual um porco.
    ─ Você merece, você é um porco, nunca será nada mais que isso. Nunca será um escritor ou qualquer outra coisa, o seu destino é morrer seco e sozinho, sua mãe teve sorte de morrer antes de ver a desgraça em que você se tornou. ─ ela procurava o celular jogando as almofadas do sofá no chão.
    ─ Escuta aqui, sua putinha! ─ ele chegou até ela numa velocidade incrível pulando e mancando, a encarou como fazem os lutadores de UFC um dia antes da luta ─ Você não abre a porra dessa boca pra falar da minha mãe! Você não sabe de porra nenhuma. ─ Camila se assustou, pensou que ele iria bater nela.
    ─ Eu não quero ver você nunca mais na minha vida. Eu fiz tudo por você, aturei os seus insultos, estive do seu lado quando você surtava, até fui na casa da sua família ouvir eles falando merda com esse sotaque escroto de roceiro que vocês têm.
    Ouvindo isso, Camila deu um passo para trás. A chama viva da loucura agora iluminava os seus olhos verdes, sua maquiagem borrada dava um ar macabro a seu rosto, a pouca luz da estante da sala iluminava os seus cabelos ruivos que voavam com o vento que entrava pela janela escancarada. Ela fechou a mão com toda a sua força e fúria e deu um soco na cara de Arthur. O soco, em si, nem foi muito forte, mas foi bem aplicado. A pequena garota parecia uma boxista profissional, atingiu parte do lábio superior e o nariz de Arthur que caiu desmaiado em cima do sofá revirado. Ela localizou o celular caído no canto da sala encharcado de cerveja, nem se preocupou em secar o aparelho, apenas pegou a bolsa e saiu do apartamento de dele o deixando lá, desmaiado. Enquanto descia de escada, só conseguia pensar se tinha quebrado os dedos da mão, que começava a ficar inchada.
    ***
    Arthur acordou duas horas depois, às três da manhã, com o gosto de cerveja velha e de sabor metálico do sangue em sua boca, que doía bastante. Um fio de sangue correu pelo seu nariz indo parar no sofá formando uma pequena poça. A cabeça ainda rodava, pelo belo golpe recebido. Tentou se levantar equilibrando-se no sofá quando sentiu uma dor aguda, que veio da sola do pé e subiu até a bacia. Arthur se sentou e deu uma bela olhada em volta. O pequeno apartamento em que morava estava um caos. Almofadas pelo chão, cacos de vidro espalhado e o cheiro de cerveja e cigarro impregnado no lugar. De onde estava sentado dava pra ver parte do chão da cozinha com garfos, facas, e panos de prato pelo chão. Arthur seguiu com os olhos as pequenas poças de sangue que paravam onde ele estava. Mais uma dose aguda de dor percorreu a sua perna. Em seguida, veio em sua mente a briga e o nocaute que recebeu da garota. “Arthur Bandini, famoso escritor, é nocauteado pela namorada peso pena e fica horas desacordado”. Imaginou a manchete na capa no jornal do dia seguinte, acompanhada de alguma foto sua, tirada de um ângulo ruim, e riu do quão ridículo ele era naquele momento.
    Colocando o pé sobre o colo, avaliou a situação e viu que não era boa. O caco estava bem fundo em seu calcanhar, apenas um pequeno brilho era visto em meio ao sangue seco. “Isso vai doer pra caralho”, pensou. Apoiado com a ponta do pé, e se escorando pelas paredes, foi até o armário do banheiro, onde encontrou uma pinça de sobrancelhas que Camila havia deixado lá. Olhando em volta, viu todos os objetos deixados ali por ela. Escova de dentes, hidratante, um vidro de sabonete líquido e um barbeador rosa. Arthur se pegou pensando como a sua vida havia mudado depois que a conheceu, não só nesses pequenos detalhes, mas também nos outros aspectos de sua vida pessoal e emocional. Esse pensamento o deixou triste por alguns segundos e foi interrompido por uma fisgada de dor quando relaxou o pé. Se arrastou novamente para o sofá com o seu kit médico improvisado, que consistia em uma pinça de sobrancelhas, uma tesoura, uma toalha de rosto e meia garrafa de conhaque barato. Jogou uma bela dose de conhaque na sola do pé e sentiu o álcool arder como fogo. Logo em seguida, tomou uma boa dose direto do gargalo, e também esterilizou a pinça com a bebida. “Isso vai doer pra caralho”, pensou novamente. Abriu a pinça com os dedos e enfiou na ferida, sentiu o metal arranhar no vidro quando tentava alcançar o caco. O agarrou com força e forçou sua saída para fora do pé. Dois pequenos jatos de sangue espirraram num vermelho escarlate e sujaram o tapete mais ainda. Saboreou a dor. Afinal, era uma dor boa, era a sua dor. Às vezes, a gente tem que saborear  nossa dor.  Lembrou-se do dia em que disse para Camila que a amava, de como aquele sentimento doía por ficar preso dentro dele e o alívio de dizer o que sentia em voz alta. Depois do flashback, lavou o pé com conhaque, fez algumas tiras com a toalha de rosto e atou o calcanhar num curativo tosco, mas, eficaz.
    O relógio marcava três e quarenta e cinco. Arthur pegou o celular e achou o telefone de Camila rapidamente nos favoritos e ligou. Uma musiquinha seguida de uma voz eletrônica avisava que o telefone estava fora de área ou desligado. Buscou na agenda o número do fixo. Antes de ligar pensou o que a mãe dela ia pensar de uma ligação a essa hora da madruga, refletiu um pouco e decidiu que valia a pena em visto dos acontecimentos de horas antes. O telefone tocou cinco vezes, já ia desistir quando uma voz rouca atendeu do outro lado.
    ─ Pronto. ─ era voz de Fábio, irmão de Camila.
    ─ Fábio, aqui é o Arthur, beleza?! Desculpa tá ligando a essa hora. A Camila tá aí?
    ─ Não, cara, ela passou pela sala igual uma bala e foi direto pro quarto, depois passou por mim e falou alguma coisa. Acho que disse que ia para a casa da Cecília. Vocês brigaram? Era ela de novo, Cecília.
    ─ Nada de mais Fábio, tá tudo bem. Desculpa incomodar, eu ligo amanhã, boa noite. ─ Arthur desligou antes de Fábio responder.
    Já derrotado, recolocou as almofadas sujas de cerveja no sofá, pegou a garrafa de conhaque, se recostou e tomou um belo gole. A bebida desceu queimando sua garganta e deixando um gosto amargo em sua boca, exatamente como deve ser o gosto de qualquer vício. Os pensamentos vieram a mil por hora. Começou a refletir sobre a sua vida. A saída da redação de um jornal importante na cidade para tentar a vida de escritor, que até então, sem sucesso. Até conseguiu colocar uns contos para venda on-line, mas, ainda não é o suficiente para viver da escrita. Inúmeros projetos inacabados geraram pastas e mais pastas no computador.  Pensou nos seus amigos que optaram em seguir por outros caminhos, nada ligados à arte, e como eles estavam bem de vida. Lembrou das palavras de Camila sobre a sua mãe durante a briga, isso o entristeceu imediatamente e as lágrimas vieram aos olhos e escorreram em um choro solitário e silencioso em o seu rosto. A imagem dela veio em seguida, parecia estar ali agora, olhando pra ele com seu sorriso sarcástico e os seus olhos verdes e furiosos. O relacionamento mais intenso que tivera. Os dois era muitos diferentes e isso, de certa forma, os completavam, um precisava do outro na mesma proporção de que precisavam se odiar. Menos de um mês foi o bastante para que os dois já planejassem um futuro juntos. Ele se lembrou, também, que a essa altura ela deveria estar descontando as mágoas fodendo com Cecília. Tomou mais uma bela golada de conhaque e outra em seguida, e assim foi até terminar de secar a garrafa. Naquela noite, Arthur Bandini, escritor desconhecido e frustrado foi nocauteado duas vezes.
    ─ Porra, Camila, eu já cansei! Você sempre faz as suas merdas e depois vem pra cima de mim, se fazendo de vítima. Desse jeito não dá. Eu faço tudo por você, e toda semana você vem com essa mesma história de que quer terminar e que eu sou a pior coisa que já aconteceu na sua vida. ─ Arthur gritava para Camila, gesticulando com as mãos, furioso, indo hora em direção a ela, hora em direção ao copo de cerveja que ameaçava a beber.
    ─ Você é um idiota! - gritou Camila de volta para Arthur ─ Há quatro dias eu te disse que estava grávida, e você não me deu apoio nenhum. Você é um bosta, Arthur! Tive que conversar com a minha mãe sobre isso e você sabe como nós duas não se damos bem. ─ Camila, agora, chorava. Suas lágrimas manchavam a maquiagem dos seus olhos e escorriam pela sua pele clara criando rios negros em suas bochechas.
     ─ Ainda bem que eu não estou grávida. Você seria um pai de merda. Você nem sequer tem um emprego. É um derrotado. Paga de escritor para poder comer essas vadiazinhas aí que se fingem de intelectuais, cheias de fogo do rabo. ─ Camila avançou em direção à mesa, pegou o copo e arremessou contra Arthur. Errou o alvo por pouco, e o copo passou há dez centímetros da testa dele, se chocou contra a parede, espalhando cerveja e cacos de vidros por toda a sala.
    ─ Vai começar a jogar as coisas agora?! Você é doida, Camila. Eu sabia disso desde o momento que te vi. Eu podia ter pulado fora, mas não, eu fiquei do seu lado te ajudando com as suas paranoias. ─ ele acendia um cigarro, andando descontrolado de um lado para outro, pisando com os chinelos nos cacos de vidros que estalavam sob os seus pés.
    ─ Essa sua gravidez foi uma invenção da sua cabeça. E a primeira coisa que te falei foi para fazer a porra do exame. E você fez? Claro que não. Tentei me aproximar e te dar apoio, mas você me afastou de todo jeito possível. Então decidi te dar espaço, um tempo pra você colocar as ideias no lugar, e agora você vem aqui pra dizer que não tem gravidez e, que ainda por cima, ontem trepou com a piranha da Cecília.
    ─ Trepei mesmo! Ela é muito melhor que você na cama. Ela me fode bem melhor do que você com essa coisinha aí que tem no meio das pernas.
    ─ Uma puta lésbica, é isso o que você é. ─ Arthur já passava para o segundo cigarro.
    ─ Eu não tenho culpa se você não consegue satisfazer uma mulher. Eu tava bêbada e perdida, porque você me abandonou.
    ─ Eu te abandonei? Você quem me afastou. Você é doida! Precisa de tratamento. Uma hora você diz que me ama, que nunca mais vai ficar com uma mulher de novo. Outra hora você me afasta e diz que eu sou pior que todas as namoradas que você já teve
    ─ Arthur Bandini eu te odeio! Quando eu aparecer morta com os pulsos cortados, saiba que você que vai carregar o peso da minha morte, seu merda! ─ ela correu para a cozinha e ele foi atrás perdendo o chinelo no caminho e cortando o pé num caco de vidro em formato de pirâmide afiada que entrou fundo em seu calcanhar.
    Na cozinha, Camila jogava freneticamente as coisas pra fora das gavetas, procurando uma faca ou algo que pudesse se cortar. Cega pela raiva e pela maquiagem que atrapalhava a sua visão, nem reparou o suporte de facas, que ficava em cima do armário. Arthur entrou na cozinha afoito e segurou seus braços. Ela se debatia para tentar se livrar, mas, ele era mais alto e bem mais forte do que ela.
    ─ Não faz isso, Camila! Você não pode fazer isso.
    ─ Me larga. Eu posso e vou. Uma hora você vai ter que me soltar.
    ─ Eu só vou te soltar quando você ficar calma e prometer que não vai fazer nenhuma besteira. ─ ouvindo isso Camila relaxou os músculos, por um instante Arthur pensou que ela iria desmaiar.
    ─ Está bem. Me larga, eu prometo que não vou me matar hoje. Eu vou embora, não aguento ficar mais um segundo no mesmo ambiente que você. ─ ele a largou e ela foi caminhando em direção à sala, notando no chão as pequenas poças de sangue que o pé direito de Arthur fez.
    Arthur seguiu logo atrás dela, reparando, também, no sangue. O caco de vidro entrava mais em sua pele, na medida que ele ia caminhando.
    ─ Olha o que você fez, sua louca. Agora estou sangrando igual um porco.
    ─ Você merece, você é um porco, nunca será nada mais que isso. Nunca será um escritor ou qualquer outra coisa, o seu destino é morrer seco e sozinho, sua mãe teve sorte de morrer antes de ver a desgraça em que você se tornou. ─ ela procurava o celular jogando as almofadas do sofá no chão.
    ─ Escuta aqui, sua putinha! ─ ele chegou até ela numa velocidade incrível pulando e mancando, a encarou como fazem os lutadores de UFC um dia antes da luta ─ Você não abre a porra dessa boca pra falar da minha mãe! Você não sabe de porra nenhuma. ─ Camila se assustou, pensou que ele iria bater nela.
    ─ Eu não quero ver você nunca mais na minha vida. Eu fiz tudo por você, aturei os seus insultos, estive do seu lado quando você surtava, até fui na casa da sua família ouvir eles falando merda com esse sotaque escroto de roceiro que vocês têm.
    Ouvindo isso, Camila deu um passo para trás. A chama viva da loucura agora iluminava os seus olhos verdes, sua maquiagem borrada dava um ar macabro a seu rosto, a pouca luz da estante da sala iluminava os seus cabelos ruivos que voavam com o vento que entrava pela janela escancarada. Ela fechou a mão com toda a sua força e fúria e deu um soco na cara de Arthur. O soco, em si, nem foi muito forte, mas foi bem aplicado. A pequena garota parecia uma boxista profissional, atingiu parte do lábio superior e o nariz de Arthur que caiu desmaiado em cima do sofá revirado. Ela localizou o celular caído no canto da sala encharcado de cerveja, nem se preocupou em secar o aparelho, apenas pegou a bolsa e saiu do apartamento de dele o deixando lá, desmaiado. Enquanto descia de escada, só conseguia pensar se tinha quebrado os dedos da mão, que começava a ficar inchada.
    ***
    Arthur acordou duas horas depois, às três da manhã, com o gosto de cerveja velha e de sabor metálico do sangue em sua boca, que doía bastante. Um fio de sangue correu pelo seu nariz indo parar no sofá formando uma pequena poça. A cabeça ainda rodava, pelo belo golpe recebido. Tentou se levantar equilibrando-se no sofá quando sentiu uma dor aguda, que veio da sola do pé e subiu até a bacia. Arthur se sentou e deu uma bela olhada em volta. O pequeno apartamento em que morava estava um caos. Almofadas pelo chão, cacos de vidro espalhado e o cheiro de cerveja e cigarro impregnado no lugar. De onde estava sentado dava pra ver parte do chão da cozinha com garfos, facas, e panos de prato pelo chão. Arthur seguiu com os olhos as pequenas poças de sangue que paravam onde ele estava. Mais uma dose aguda de dor percorreu a sua perna. Em seguida, veio em sua mente a briga e o nocaute que recebeu da garota. “Arthur Bandini, famoso escritor, é nocauteado pela namorada peso pena e fica horas desacordado”. Imaginou a manchete na capa no jornal do dia seguinte, acompanhada de alguma foto sua, tirada de um ângulo ruim, e riu do quão ridículo ele era naquele momento.
    Colocando o pé sobre o colo, avaliou a situação e viu que não era boa. O caco estava bem fundo em seu calcanhar, apenas um pequeno brilho era visto em meio ao sangue seco. “Isso vai doer pra caralho”, pensou. Apoiado com a ponta do pé, e se escorando pelas paredes, foi até o armário do banheiro, onde encontrou uma pinça de sobrancelhas que Camila havia deixado lá. Olhando em volta, viu todos os objetos deixados ali por ela. Escova de dentes, hidratante, um vidro de sabonete líquido e um barbeador rosa. Arthur se pegou pensando como a sua vida havia mudado depois que a conheceu, não só nesses pequenos detalhes, mas também nos outros aspectos de sua vida pessoal e emocional. Esse pensamento o deixou triste por alguns segundos e foi interrompido por uma fisgada de dor quando relaxou o pé. Se arrastou novamente para o sofá com o seu kit médico improvisado, que consistia em uma pinça de sobrancelhas, uma tesoura, uma toalha de rosto e meia garrafa de conhaque barato. Jogou uma bela dose de conhaque na sola do pé e sentiu o álcool arder como fogo. Logo em seguida, tomou uma boa dose direto do gargalo, e também esterilizou a pinça com a bebida. “Isso vai doer pra caralho”, pensou novamente. Abriu a pinça com os dedos e enfiou na ferida, sentiu o metal arranhar no vidro quando tentava alcançar o caco. O agarrou com força e forçou sua saída para fora do pé. Dois pequenos jatos de sangue espirraram num vermelho escarlate e sujaram o tapete mais ainda. Saboreou a dor. Afinal, era uma dor boa, era a sua dor. Às vezes, a gente tem que saborear  nossa dor.  Lembrou-se do dia em que disse para Camila que a amava, de como aquele sentimento doía por ficar preso dentro dele e o alívio de dizer o que sentia em voz alta. Depois do flashback, lavou o pé com conhaque, fez algumas tiras com a toalha de rosto e atou o calcanhar num curativo tosco, mas, eficaz.
    O relógio marcava três e quarenta e cinco. Arthur pegou o celular e achou o telefone de Camila rapidamente nos favoritos e ligou. Uma musiquinha seguida de uma voz eletrônica avisava que o telefone estava fora de área ou desligado. Buscou na agenda o número do fixo. Antes de ligar pensou o que a mãe dela ia pensar de uma ligação a essa hora da madruga, refletiu um pouco e decidiu que valia a pena em visto dos acontecimentos de horas antes. O telefone tocou cinco vezes, já ia desistir quando uma voz rouca atendeu do outro lado.
    ─ Pronto. ─ era voz de Fábio, irmão de Camila.
    ─ Fábio, aqui é o Arthur, beleza?! Desculpa tá ligando a essa hora. A Camila tá aí?
    ─ Não, cara, ela passou pela sala igual uma bala e foi direto pro quarto, depois passou por mim e falou alguma coisa. Acho que disse que ia para a casa da Cecília. Vocês brigaram? Era ela de novo, Cecília.
    ─ Nada de mais Fábio, tá tudo bem. Desculpa incomodar, eu ligo amanhã, boa noite. ─ Arthur desligou antes de Fábio responder.
    Já derrotado, recolocou as almofadas sujas de cerveja no sofá, pegou a garrafa de conhaque, se recostou e tomou um belo gole. A bebida desceu queimando sua garganta e deixando um gosto amargo em sua boca, exatamente como deve ser o gosto de qualquer vício. Os pensamentos vieram a mil por hora. Começou a refletir sobre a sua vida. A saída da redação de um jornal importante na cidade para tentar a vida de escritor, que até então, sem sucesso. Até conseguiu colocar uns contos para venda on-line, mas, ainda não é o suficiente para viver da escrita. Inúmeros projetos inacabados geraram pastas e mais pastas no computador.  Pensou nos seus amigos que optaram em seguir por outros caminhos, nada ligados à arte, e como eles estavam bem de vida. Lembrou das palavras de Camila sobre a sua mãe durante a briga, isso o entristeceu imediatamente e as lágrimas vieram aos olhos e escorreram em um choro solitário e silencioso em o seu rosto. A imagem dela veio em seguida, parecia estar ali agora, olhando pra ele com seu sorriso sarcástico e os seus olhos verdes e furiosos. O relacionamento mais intenso que tivera. Os dois era muitos diferentes e isso, de certa forma, os completavam, um precisava do outro na mesma proporção de que precisavam se odiar. Menos de um mês foi o bastante para que os dois já planejassem um futuro juntos. Ele se lembrou, também, que a essa altura ela deveria estar descontando as mágoas fodendo com Cecília. Tomou mais uma bela golada de conhaque e outra em seguida, e assim foi até terminar de secar a garrafa. Naquela noite, Arthur Bandini, escritor desconhecido e frustrado foi nocauteado duas vezes.
  • Ultimo dia na terra

          O vento noturno soprava de forma tão violenta que tudo que eu podia ouvir era um zunido estridente que impedia até o mais recluso de meus pensamentos. A lua brilhava, pálida e fantasmagórica no céu, parecia agora tão distante quanto qualquer outra alma naquele deserto que parecia não ter fim. Vagava já pelo quinto dia na imensidão árida que um dia já tinha sido o estado do Mato Grosso. Há cinco dias, havia partido de minha cidade natal, Sorriso, em direção a capital, levando três cantis de água e uma mochila de enlatados para sobreviver no que agora era conhecido como “o vazio”. A cada passo que dava, uma pegada se formava, e, logo era apagada pelo vento. Aos poucos, o deserto apagava todos os rastros de minha existência. Sabia que no fim, o vazio acabaria por engolir-me.
        - Este é meu último dia na terra- digo a mim mesmo, mas quase não posso ouvir por conta do vento ensurdecedor. – Ou será, se não chegar ao meu destino.
           Tateio o lado esquerdo do meu grosso casaco de pele em busca do bolso. Quando encontro a fissura, deslizo os dedos para dentro dela e retiro os dois recortes de jornal que carreguei comigo pelos últimos 31 anos. O primeiro continha a foto de dois homens de terno apertando as mãos calorosamente, logo abaixo, havia uma matéria intitulada “projeto de lei 6.299/2002 é finamente aprovado, inicia nova era para os defensivos agrícolas”. A matéria datava do ano 2019. O ano em que passamos a nos alimentar de veneno, a nos banhar em veneno e a respira-lo também. Os campos morreram e o grande potencial agrícola do país sucumbiu, levando consigo toda nossa esperança. As fontes de água foram comprometidas e o ar era carregado de tóxicos. A natureza pereceu diante de nossos olhos e não pudemos fazer nada.
            O grande estado do Mato Grosso, referência em desenvolvimento agroindustrial, tornou-se o vazio. As enfermidades apareciam aos montes, o veneno era perspicaz, matava o corpo lentamente e só depois de causar sérios danos a sanidade. Lutas começaram pela sobrevivência e as pessoas fugiram para o deserto. Eu, entretanto, fiquei. Fiquei, na esperança de que a ajuda chegasse, o governo talvez, mas perdemos contato com o resto do território então imagino que não haja mais nada além do vazio.  A última notícia do mundo velho estava contida no outro recorte de jornal que carregava comigo há tanto tempo, este dizia “Centro de refugiados aberto na grande Cuiabá, começa o processo de desintoxicação”. Era para lá que estava indo. Minha última esperança.
              Os dias eram insuportavelmente quentes e as noites faziam congelar até a mais profunda fibra de meu corpo. Todas as noites, quando o frio atravessava os grossos casacos de pele, eu cogitava incendiar os recortes para me aquecer, mas sempre descartava a ideia. Mesmo tão antigos, eles eram minha única ligação com o mundo velho, e agora, mais uma vez, me fizeram seguir em frente. Enquanto andava, o pacote que estava no meu bolso direito balançava e fazia barulho. Dentro do invólucro, havia sementes, de todas as cores e tamanhos. Esperava que quando encontrasse a última esperança no deserto, pudesse devolver ao vazio a antiga beleza do mundo velho, talvez houvesse alguém lá que soubesse como. As sementes eram a relíquia de um não mais tão jovem colecionador, assim como a arma que eu carregava na cintura. Esta, estava carregada com o que eu havia apelidado de anti-sementes, quando eu tivesse que plantar uma, algo morreria. Se o vazio acabasse por vencer minha fibra, eu alimentaria o solo seco com meu sangue.
              No final do quinto dia, me sobrava apenas meio cantil de água e uma pequena quantidade de comida e eu não fazia ideia de quando encontraria algum recurso novamente. Como em tantas outras ocasiões, a ideia de desistir espreita em meus pensamentos. Cerro os olhos com força e minhas pernas fraquejam. As lagrimas não aparecem, meu corpo estava carente de água. 
    - Não posso mais seguir em frente- digo como em tantas outras vezes- esta viagem não tem sentido. Assinei minha sentença quando resolvi deixar o abrigo.
    Mesmo contra a vontade, abro os olhos outra vez e o que vejo me deixa em choque. Havia uma figura encapuzada parada em pé a menos de 20 passos de mim. Fico receoso, as pessoas no vazio não eram mais confiáveis, o veneno podia fazer coisas inimagináveis com a mente. A figura então tira o capuz e revela seu rosto, era um senhor. Além das queimadoras do sol, o homem não aparentava nenhuma enfermidade visível, tampouco parecia representar alguma ameaça. Resolvo então aproximar-me com cautela, todo cuidado ainda era pouco. Quando estou a cinco passos do homem, posso ver seu olhar vazio e não posso deixar de imaginar que o meu rosto deve estar exibindo a mesma expressão. 
      - De onde veio, meu senhor? – grito para a figura- E para onde vai?
    O velho fixa seu olhar vazio no meu e a resposta arrasta-se para fora de sua boca com dificuldade.
      - Eu venho do grande cemitério. Parti tem uma noite e busco um lugar onde possa sobreviver.
    Reparo que o homem parece estar realizando grande esforço para responder ao meu questionamento, penso em oferecer-lhe um pouco de minha água, sua viagem também não era fácil. Mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, o velho cai ao chão bem em frente aos meus pés. Desesperado viro seu corpo para cima e vejo que o homem não consegue mais manter os olhos totalmente abertos, o vazio o havia alcançado, não lhe restava muito tempo. Eu, contudo, precisava da informação que o senhor tinha.
    - O que é o grande cemitério? – pergunto
    Aproximo meu rosto ao do velho e ouço seu último sussurro.
    -A grande capital cinza, agora é só uma enorme lápide no deserto. Nenhuma alma vive.
    Ao desferir essas palavras, o senhor fecha os olhos pela última vez. O choque daquela informação acertou meu peito em cheio. 
    - Não há nada além da areia e do veneno- digo fazendo com que as palavras ecoem no vazio. Agora os ventos estavam já mais calmos. – FOI TUDO EM VÃO.
    Tiro as sementes do bolso fundo e as deposito na areia ao lado do corpo do velho.
    - Meu último dia na terra- digo outra vez, agora sentindo o peso dessas palavras.
    Deito ao lado do cadáver e das sementes e sinto a areia fina se moldar ao formato do meu corpo. Minhas costas relaxaram ao toque da superfície macia. Retiro a arma do coldre em minha cintura e coloco-a em frente aos meus olhos. O Brilho da lua reflete no cano do revólver e eu entendo a mensagem. Olho para o céu e percebo que a aurora começa a pintar-se em um tom avermelhado.
    -Meu último dia na terra.
    Engatilho a arma e aponto-a para meu queixo com a mão direita. Com a mão esquerda, pego um punhado de areia e deixo-a escorrer entre os dedos. A terra estava morta e eu logo iria me juntar a ela. Vislumbro as estrelas mais uma vez e penso se existe algo lá em cima observando, esperando algo de mim. Com certeza estava decepcionado. Cerro os olhos com força e respiro fundo. Em um último ato desesperado, vou de encontro a paz que tanto buscava. O estrondo da arma ecoa pelo deserto e se dissipa no vento, levou consigo minha alma. Meu sangue regou a solo, morto há tanto tempo. Havia plantado a última semente, e o fruto agora alimentaria a terra por muito tempo.
  • Um breve conto na História

    Manhã fria, 18 junho de 1785, começo do inverno.
    O sol tentava rasgar a espessa bruma que tingia de branco a região. A fogueira ainda crepitava pausadamente , o fraco lume se extinguia aos poucos em meio a fumaça que subia em caracóis e ondeavam aos tênues raios de luz que se projetavam por entre as frestas do telhado do rancho e atingiam o rosto enrugado e forte , onde a tez marrom brotava por entre as barbas brancas de Dorneles Pereira Castro, condutor de comitiva de muares e sacramentado de bom mateiro desde os vinte anos pelos caminhos de Viamão e Queretiba.
    O velho poncho azul anil cobria praticamente todo o corpo de mestre Dorneles, estirado sobre o couro curtido , o ar frio daquela manhã fazia o vapor brotar de sua boca acompanhando a respiração. Aos poucos os sons matinais foram despertando a tropa, azurros e relinchos vinham do encosto ainda encoberto pela densa neblina que pairava pesadamente desde as margens do rio.
    — Mate– gritou Cruz, braço direito de Dorneles que o acompanhava há vários anos e já lhe havia salvo de uma escaramuça na região há algum tempo.
    Com o grito e o cheiro da erva , Dorneles suspirou e se esticou, os músculos ainda doíam da longa jornada até o momento ; nas suas “contas” , seiscentos quilômetros e mais esse tanto até o destino-Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará nas minas gerais.
    – Um Mate- para esquentar a alma– pensou.
    Refeito , depois de um bom gole , se pôs em pé e com uma corrida de olhos conferiu o restante do pessoal : Basto, Tobias, Tomé e Gato, pessoal de confiança, gente brava e forte aprimorada pela profissão corajosa . Eram em sete e ninguém até o momento, haviam sofrido algum acidente grave ou constipação que era comum nas longas viagens que enfrentavam.
    O alvoroço dos animais se intensificou…
    — Cruz — gritou Dorneles, manda o Xisto olhar a tropa, os animais estão inquietos , pode ser cobra ou capivaras que subiram do rio.
    -Minutos depois, um estrondo-
    E surge Xisto com uma capivara ainda esperneando sobre os ombros e na mão direita o mosquete fumegante arrastado pelo capim molhado.
    Freguesia de Santo Antônio de Lisboa. (Lapa-PR)
    Quatro meses antes na Freguesia de Santo Antônio de Lisboa. (hoje município de Lapa-PR)– raiar do outono. O vilarejo naquele horário onde o sol da manhã incidia parcialmente e a fumaça das chaminés formavam um quadro pintado à pinceladas robustas; o caiado pálido das casinhas, umas de taipa simples outras mais coloridas de alvenaria e beiral, essas mais afastadas e abastadas, eram margeadas por ruas estreitas de terra batida. Velhos galpões no centro comercial com paredes de tijolos a mostra e quase todos com manchas de barro seco formando uma linha da altura de meia porta registrando marcas dos respingos da chuva na terra vermelha. Esse era o cenário corriqueiro, que aos poucos era tomado por vida, gente que vinha dos campos, das casas, pessoas comercializando vendendo e trocando. A freguesia era assim pulsava comercio e dinheiro principalmente vindo de seus arredores onde os pastos eram alugados para os tropeiros e suas tropas.
    –OIÊeeeee—Avante…
    Dorneles e a comitiva iniciou a jornada. O tropel : com muitos animais para comercio além das mulas cargueiras com as bruacas abarrotadas no lombo acondicionando mantimento e os ferros da cozinha.
    Cavaleiros atentos em seus cavalos conduziam a tropa — estrada de chão– levantando uma poeira fina– –alvoroço –relinchos– a égua madrinha à frente carregando o cincerro; o som atropelado pelo alvoroço mal se ouvia mas mesmo assim a récua o seguia. As crianças da Freguesia apinhadas no marco português da praça vozeavam os tropeiros. Na verdade local eles eram os heróis desbravadores do sertão da Colônia. Muitos garotos aos 10 anos já peleavam pela profissão acompanhando o pai ou parente.
    A nuvem de pó seguia a tropa tingindo o céu de vermelho, do alto da colina Dorneles virou-se respeitoso, de um pulo apeou do Lustro seu baio fincou as botas no chão seco, respeitoso retirou o chapéu e murmurou por baixo do lenço que cobria o nariz e boca:
    – “Bença” meu Santo Antonio.- – (padroeiro do local desde 1768).
    Seus companheiros imitaram mas não apearam- a ladainha foi rápida; o vento agora carregava a poeira para o oeste deixando à mostra no lado oposto o campo verde, úmido e extenso e ao fundo a imponente montanha ( anos depois tornou-se local de adoração e peregrinação) brotava no horizonte.
    O Caminho de Viamão cortava a paisagem crua desde o sul da Colônia até Sorocaba(vila de Nossa Senhora da Ponte de Sorocaba na época) rota de riqueza e de abastecimento do sudeste. O passo do baio embalava os pensamentos de Dorneles naquele instante, ora alegres e passageiros , ora pesarosos, muitos companheiros haviam morrido nessas jornadas e as cruzes brotavam ao longo daquele chão pedregoso, testemunha dos ataques indígenas e dos assaltantes em emboscada; seu nome há pouco tempo quase vira epitáfio talhado à faca em uma delas, não fosse a esperteza do companheiro Cruz ao ajudá-lo.
    Como lã caída da roca de fiar no vermelhão, a estrada serpenteava pela mata fechada (Atlântica). Uma riqueza exuberante , um verde de marcar a alma, os cavaleiros adentraram na floresta dos Campos Gerais.
    Serra de Ybytukatu –Botucatu
    Longe dali, a três dias de jornada da comitiva de Dorneles, ao pé do Morro do Cabôre- coruja grande- como os tupis o chamavam , na Serra de Ybytukatu -Botucatu-vento bom-também na língua tupi, Rosales baforava o pito de barro; lampiões chamejavam ao azeite de peixe, iluminando parcamente o interior da pousada mau cheirosa onde se encontrava.
    A construção antiga abrigava cinco quartos e um galpão para o rancho, geralmente uma única refeição forte em proteínas e um mate que os tropeiros de passagem preparavam com os utensílios e provisões que traziam.
    Em seu quarto, Rosales sentado na cama de tábuas, colchão de capim bravo e estrado de tiras de couro que gemiam com seu peso concentrado na cabeceira, puxou o facho do lampião para perto e desatou as tiras de algodão trançado que amarravam a sua algibeira. Lentamente desembrulhou dos trapos um objeto brilhante, uma estatueta assemelhando-se à prata.
    – Hermosa– pensou fechando os olhos e suspirando fundo, recordando os caminhos que o trouxeram até ali.
    A região que se vislumbra ao norte do vale da Serra de Ybytukatu é rica em história e lendas ,resquícios de caminhos utilizados pelos indígenas que ligavam os Andes ao Atlantico ,muitos anos antes do período pré–cabralino.
    Desde Potosí na Bolívia, pelo Caminho do Peabiru, estatueta prateada chegara à Rosales por várias mãos, “compañeros “ contratados à ouro e outros “por respeito” já que deviam favores, cobrados a bala se negados. Em Capitania de Mato Grosso , onde Rosales ancioso aguardou; partiu rumo a Ybytukatu como um raio, no seu castanho “alado”.
    ***
    Dorneles e o tropel já haviam vencido a pesada caminhada até Itararé, via Castro, desviando para Botucatu;
    ás margens do Paranapanema
    em seu ponto mais raso,
    céu azul cintilante,
    mais de trezentos pisantes
    iniciaram a travesia
    e ao longe se ouvia
    o farfalhar da água barrrenta.
    –Avante… avante
    O assoreamento do rio naquele trecho já evidenciava o futuro desastre da Mata Atlantica, percebia-se grandes desmatamentos ao longo dos caminhos que conduziam às minas gerais.
    Dorneles mirava as belezas que ainda se podiam ver com relativa abundância, jacarandás,angicos, ipês , espécies nobres da mata — Cruz–berrou, vamos acampar ao pé do jacarandá.
    A árvore já presenciara várias sestas sob sua copa hoje verde; sorte de outros que ainda o verão trajado de lilas profundo e acamparão sobre o tapete de flores.
    Mas será outra comitiva…
    Cruz e os amigos cercaram os muares no pequeno campo de confinamento atrás do jacarandá; o capim ralo e muita erosão em linha do pisoteio dos animais eram fatores da degradação do uso sucessivo das pernoites ou descansos rápidos dos tropeiros no local.
    Tomé além de ferrador era bom cozinheiro, montou rapidamente o tripé de ferro, pendurou a ciculateira, fez fogo para o mate. Na grelha estendeu o toucinho e a carne de sol enquanto cantarolava uma canção do Sul:
    ♫ rumo ao desconhecido ♫ avante com coragem ♫ levando a mulher amada na imagem…
    Dorneles abriu a malotagem, retirou do bornal de couro uma carta que recebera de um certo Capitão portugues , o documento era um contrato e continha instruções – Dorneles leu e releu- atento, esta viagem era diferente de todas de sua longa experiencia.
    O planejamento era pegar com o gringo a estatueta prateada , rumar mais ao leste para os Sertões de Aracoara(Araraquara) especificamente para um pequeno vilarejo que se tornaria São Carlos do Pinhal . Em seguida desviar a rota para os Campos de Nossa Senhora da Conceição da Franca, anteriormente Pouso dos Bagres conhecido pelos bandeirantes e palco de reivindicação do Capitão para elevação de Freguesia .
    Nesse local o Capitão português me aguarda- pensou.
    Em torno da grelha, acocorados , entre um naco e outro , o pessoal proseava com ares sérios. O assunto era o declínio da mineração nas minas gerais, os depósitos de ouro de aluvião findavam rapidamente.
    –Depois dessa jornada me estabeleço no sertão paulista- disse Xisto.
    Pensamento repartido com quase todo o pessoal da comitiva, cada um era praticamente especializado em outras ocupações e essas rotas de desbravadores iniciados pelos bandeirantes foram criando nichos civilizatórios ao longo dos Caminhos, mesmo que precários.
    Levas de povoadores foram fincando raízes em todo o interior paulista : agricultores e comerciantes, de mascates a grandes fazendeiros de terras oriundas de familias de sesmeiros no decorrer da colonização; a expanção estava sendo rapida na região, e o número de escravos aumentava.
    Dorneles há muito já sabia da falência das minas e tinha também seus planos, mas não seria São Paulo seu destino final , laços afetivos o prendiam no Sul do Brasil colônia.
    A saia rodada na altura dos tornozelos, esvoaçante aos ventos dos pampas , o espartilho, a tez de leite, delicada e decisiva … Maria… Maria… Dorneles sonhava acordado.
    ***
    –Reúne todos, picar a mula, Cruz o caminho é longo– berrou Dorneles, quero chegar em Botucatu no começo da noite.
    –Vai pernoitar—pergunta Cruz
    –Talvez sim, o importante é não falhar. Confira as armas!
    — Vamos ter que usar? Perguntou inquieto Cruz.
    –Nunca se sabe.
    –O gringo é confiável?
    Dorneles deixou no ar… Meia hora depois estavam a caminho do Morro do Caboré na Serra de Ybytukatu ao encontro de Rosales.
    Os lampejos de uma tempestade ao longe, delineavam os morros da serra; assustador e cativante o cair da boca da noite e nesse lusco-fusco brotavam histórias de bruxedos e religiosidades , sempre o antagonismo entre ambas povoavam as conversas noturnas dos peões, principalmente nas caminhadas noturnas.
    Já nos contornos da estalagem a comitiva apeou e confinou a tropa e pela habilidade fizeram o trato rapidamente. Os sete homens seguiram em direção á fraca luz que pulsava dos janelões da casa. Dorneles à frente empunhando o holofote – semelhante a uma lanterna feita com bambu onde queimavam uma trouxa de pano velho embebida em óleo de peixe.
    Ao longe vindo em direção ao grupo outra luz amarelada ziguezagueava nas mãos de um homem que tinha dificuldade de caminhar pela estrada sinuosa e pedregosa.
    –Boas! Bem-vindos a minha casa, me sigam que eu os levo até lá, choveu muito por aqui e o caminho está ruim.
    Dorneles cumprimentou o velho homem e o seguiu como se não conhecesse o caminho, seus amigos atentos e em dupla foram atrás e todos empunhavam armas: o local a noite era ermo e propício a emboscadas.
    Ao se aproximarem da pousada, Rosales junto ao balaústre de madeira próximo a escadaria que levava aos quartos cumprimentou o grupo:
    –Hola estimados , bienvenidos, ya era hora!
    Dorneles fez um aceno e todos adentraram na parte térrea do lugar.
    Rosales desceu as escadarias e os acompanhou—una bebida para todos, gritou para o velho.
    Após um aperto de mãos, Dorneles puxou Rosales para uma mesa afastada dos demais. Aquele era o terceiro encontro dos dois em todas os anos de andanças pelos sertões. O primeiro fora em Sorocaba, ponto final da Rota de Viamão.
    –Está sozinho amigo, fez boa viagem?
    –Si, solo yo , acompañado de las estrellas del cielo y mi compañero, señor- abriu a pesada capa e mostrou o revolver escuro na cinta.
    –Está com a encomenda?
    –Sí. Rosales sentado, arrastou a cadeira dando as costas para o grupo que bebiam e se entretinham em causos, no lado oposto do salão.
    Puxou a algibeira, desatou os nós do embrulho e entregou a Dorneles.
    –Mas é linda! Crispou a testa examinado todos os detalhes externos — Prata pura—
    A estatueta era da prata das minas de Potosí, um palmo esticado de comprimento representado um homem adornado com trajes incas. Talvez um deus mitológico, a cabeça era maior que o tronco de uma desproporcionalidade acentuada , uma obra perfeita moldada e fundida pelas hábeis mãos de algum artesão desconhecido e talentoso.
    Por fim a esperada encomenda do Capitão Português latifundiário nos Campos de Nossa Senhora da Conceição da Franca estava nas mãos de Dorneles que não o conhecia pessoalmente, havia firmando compromisso através da carta timbrada que recebera de um mensageiro de confiança do capitão. Junto a carta havia um pequeno saco de algodão com 40 tostões de prata- 3200 réis- metade do trato firmado, a outra parte receberia na entrega.
    Dorneles estava curioso em conhecer o elo entre Rosales e o capitão e a historia que cercava esse personagem português. Uma puxada de assunto e o gringo desatou a falar junto aos tragos de cachaça.
    –Su nombre real no lo sé, pero…
    O Capitão saiu de Portugal após o sismo de 1755 onde Lisboa sua cidade natal fora brutalmente destruída e o maremoto que se seguiu levou seus mais queridos, completando a catástrofe de sua vida.
    Seguiu para a Espanha e rumou para Venezuela no Vice Reino da Nova Granada onde o Império Espanhol a escolheria como Capitania-Geral . Navios mercantes espanhóis singravam o Atlântico com frequência e nessa jornada aventureira o Capitão Português conheceu Antonio Guzmon um rico comerciante de prata que havia fincado os pés e se afortunara nas Minas de Potosí – na Real Audiência de Charcas- hoje Bolívia, no Vice Reino do Peru sob domínio Espanhol.
    O Capitão, habilidoso no comercio de pedras preciosas em Portugal, nessa nova vida que escolhera e se aventurou a convite de Guzmon para a região de Charcas- nas minas de prata.
    Com os anos fez fortuna e antes que as minas começassem a dar sinais de exaurimento rumou definitivamente para o Brasil colonial estabelecendo-se na região nordeste da capitania de São Paulo onde adquiriu terras; constituindo nova família e novos laços onde o coração sedento e saudoso e o idioma se uniram por completo.
    Por fim , a estatueta prateada selaria o amor por sua companheira , um amor brasileiro.
    ***
    — La estatuilla costosa , muy costosa … resmungou Rosales enigmático.
    Mas Rosales não sabia do segredo guardado entre Antonio Gusmon, o Capitão Portugues e Dorneles a respeito da peça de prata…
    A caminho da Sesmaria do Itaqueri (Itaqueri da Serra-Itirapina)
    O velho da estalagem puxando por uma das pernas aproximou-se da mesa onde se encontravam Dorneles e Rosales, o som do arrastar fez com que os dois interrompessem a conversa e dessem atenção, embora contrariados.
    –Uma bebida quente para os senhores. O velho despejou da ciculateira em duas xícaras de barro um liquido amarronzado escuro e fumegante cujo aroma surpreendente preencheu o ambiente. Dorneles já conhecia embora preferisse o mate.
    — Passei na bola de torrar hoje, adiantou.
    –De onde veio este, velho?
    –Província do Rio de Janeiro, das roças de lá e dizem que o cultivo está se alastrando pelo litoral de São Paulo.
    –Muy estimulante , completou o gringo.
    O grupo ficou reunido por mais algum tempo e depois se recolheram. Dorneles estava ansioso para cumprir a ordem expressa na carta que recebera do Capitão Português- “verificar a estatueta atentamente e em segredo”.
    Sozinho em seu quarto trancafiou a porta carunchenta, alimentou a lamparina com mais óleo fedorento e aumentou a chama. Sua silhueta formou uma sombra assustadora na parede descascada.
    Pela manhã, deixando o Caminho do Picadão a comitiva mudou a rota e seguiram rumo ao centro leste paulista; uma vasta região onde os povoados surgiam no entorno das prósperas fazendas de criação bovina e canavieiras principalmente.
    Tomé a frente gaiteava várias canções o trotear dos cavalos e os solavancos acompanhavam o ritmo. Margearam o Tietê e cento e vinte quilômetros depois pelas trilhas riscadas na mata Atlântica ainda exuberante nesse local, passaram pela recém formada Sesmaria dos Pinheiros, depois São Pedro e rumaram para o descanso na Sesmaria do Itaqueri (Itaqueri da Serra-Itirapina) parada obrigatória dos tropeiros e que há anos fora dos bandeirantes.
    Ao cair da tarde em um pequeno dos vários descampados em Itaqueri ao lado de uma retorcida e jovem figueira e uma capela de pau a pique mais distante, a tropa acampou. Peões de outras comitivas que rumavam para os campos de Araraquara e Goiás ali se encontravam e algazarreavam ao redor de uma grande fogueira.
    Xisto confinou e alimentou os muares e se pôs em guarda. Jogou o assento em um banco indígena talhado na árvore; a cada colherada de arroz , feijão e toucinho requentado na caçarola olhava o pessoal distanciado. No horizonte em lusco-fusco o sol caia atrás da serra, as casinhas ao longe iluminadas pelo fogaréu e o céu em breu repleto de estrelas formava um cenário de paz. De repente uma estrela cadente riscou o firmamento…
    Foi para Minas , pensou. Inconscientemente aspirando a sorte para os inconfidentes.
    Dorneles acomodado precariamente ainda não dormira, lembrava-se da noite anterior e de seu manuseio demorado na estatueta…
    -“Em uma panela preta com água sobre o fogo de uma espiriteira de bronze, mergulhara a peça brilhante completando com mais liquido até deixa-la submersa . Com o tempo a fervura fez borbulhas , indicando o tempo de retirada da estatueta ; Dorneles apoiou a base sobre a mesa , segurou fortemente o tronco que lembrava um deus inca e com muita pressão girou a cabeça da peça no sentido anti-horário deslizando-a na fina rosca embebida por uma resina vegetal pegajosa amolecida pela fervura da agua. O corpo adornado descolou-se por completo.
    Com o cenho carregado Dorneles retirou com cuidado uma pequena bruaca redonda de couro que preenchia completamente o espaço interno da estatua, que até então externamente parecera sólida e sem entalhamento perceptível .
    Passou os punhos limpando a mesa e entornou da bruaca algumas pedras, sete diamantes com matizes entre marrom claro e quase incolor. As pedras reunidas sobre a mesa sob a luz do lampião refletia riscos de luz no rosto deslumbrado de Dorneles. Ele sabia do segredo, mas não imaginava o fantástico valor envolvido .
    Como que acordando de um sonho atordoante rapidamente voltou as pedras no involucro, conferindo atentamente antes e aproveitando que a resina estava ainda gelatinosa girou a cabeça da peça de prata travando-a novamente no corpo . O segredo fora revelado e confirmado; salvaguarda para Rosales seguir o caminho de volta são e salvo “-
    Dorneles cobriu o rosto com o chapéu e procurou dormir, o silencio que embalava o sono pesado dos tropeiros no arraial era quebrado ocasionalmente por um ladrar ou piar distante.
    ***
    Do alto da Serra do Itaqueri , a mil metros e pouco, Dorneles confirmava o rumo da trilha mirando o horizonte distante ponteado por morros e suaves outeiros da Serra de Dourado. A paisagem da mata fragmentada em retângulos ,quadrados e outras formas amorfas representava na essência a mão obra escrava , a opressão ao indígena e agora mais intensificada ao negro; uma paisagem natural sendo substituída pelas culturais agrícolas surgidas do solo fértil com a exploração do ser humano, a terra produzindo o alimento ao troco do sangue de milhares.
    O vento seco e quente da Chapada Guarani e sussurrava duvidas e contrições em Dorneles.
    As escritas arqueológicas dizem que os profetas subiam às montanhas e ampliavam suas visões sobre o futuro olhando os acontecimentos marcantes das terras abaixo. Como tal embora nunca relacionado a esta referencia antiga, Dorneles intuitivamente visionou naquele momento que profundas mudanças viriam para Colônia.
    Após o sismo Portugal recrudesceu a cobrança dos impostos, praticamente Lisboa foi reconstruída com a riqueza da Capitania de Minas e essa exploração sem limites contribuiu para seu relativo exaurimento . Insurgências surgiam pela Colônia e rechaçadas com violência.
    Dorneles cismava olhando aquele chão riscado de culturas e sofrimentos. Afinal os diamantes vieram contrabandeados da Bolívia, um crime aos olhos da coroa portuguesa. Mas o que fazer se ele já havia aceitado a missão, talvez por zelo a sua profissão de desbravador ou por ganancia aos 6400 reis,? Ele estava servindo ao Capitão português que seria o infrator maior, mas o fazia cumplice.
    A tropa desconhecia o contrato confirmado na carta que Dorneles recebera. Portanto ele estava sozinho nesse surto visionário que o transformaria num revel. Dorneles abraçaria as causas insurgentes ou apenas se vingaria do tal Capitão?
    Seu olhar anteriormente incógnito agora se mostrava decisivo na alternativa tomada e rumou com a comitiva para a Praça de Itaqueri de Baixo(Itirapina) seguindo depois para a Sesmaria do Pinhal.
    ***
    18 junho de 1785-Sesmaria do Pinhal(São Carlos)
    Xisto jogou a capivara abatida à bala e pólvora do mosquete sobre uma mesa e começou a destrinchá-la- ele era hábil nessas tarefas.
    Dorneles desceu o arrampado até as margens do rio com mato úmido na altura da cintura , escalou uma grande pedra de basalto que se projetava sobre a agua e olhou para o oeste. O curso d’agua serpenteava entre a bruma por cinco quilômetros abaixo.
    Ladeando as margens e mais acentuadamente na direita num plano mais elevado vislumbrava-se a beleza das araucárias, muitas delas cujo topo circular ora desapareciam ora surgiam ao sabor do vento através da neblina. Um cenário cativante que Dorneles parecia querer guardar na sua mente como se fosse pela última vez. –E seria—
    O revoar barulhento das gralhas-azuis em meio ao pinheiral despertou o tropeiro desse conforto visual. Era preciso partir sem demora.
    Reuniu-se com Cruz e discretamente entregou-lhe a algibeira com a estatueta e uma carta lacrada ordenando que seguisse viagem com a tropa para os Campos de Nossa Senhora da Conceição da Franca.
    –Entregue a encomenda e essa carta para o Capitão português que certamente estará lhe esperando disse Dorneles.
    — Não seguirá com a tropa? – perguntou atônito Cruz, sem entender o momento.
    Dorneles entregou-lhe um saquinho de couro com 40 tostões de prata perfazendo 3200 reis
    —São seus agora e a quanto a carta, entregue-a em mãos do português, trato feito?
    Cruz ainda atordoado com a noticia concordou com a cabeça, a responsabilidade de toda a comitiva além dessa entrega era abastecer Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará – minas gerais, passou a ser dele.
    Dorneles montou o Lustro e levando outra mula com os apetrechos de acampamento e alimentos seguiu margeando o rio até se perder de vista entre a vegetação alta, sempre rumo oeste para os Campos de Aracoara-Goias .
    Na madrugada que antecedera esses fatos, Dorneles manuseara novamente a estatueta e escrevera uma carta trocando-a pela original que havia recebido do Capitão.
    O documento a ser entregue era curto e seco na escrita – “Se quiser conversa estarei a caminho do planalto Central da Capitania de Goyaz- Vilarejo de Sete Pedras”
    Os lugares históricos aqui descritos foram pesquisados em sites de livre acesso, sendo que poderão ser verificados colocando-se os nomes dos vilarejos e sesmarias como palavras-chave para efeito de pesquisa.
  • Um Casal Como Outro Qualquer

    A brisa da boca da noite, carregada do odor das rosas do jardim refrigera o rosto de Alberto quando este se senta na varanda de sua casa naquela quinta-feira. É assim que chega aos quarenta anos de idade; gerente de uma agencia da Caixa Econômica Federal, com um ótimo salario e vantagens, mas com um sorriso embaçado e um suspiro sufocado que mais parece um soluço.

    Na janela ao lado do banco em que se sentara na varanda, o clarão azulado e tremulo da tv sintonizada na telenovela de certa emissora, lembra lhe a toda hora o porquê de ele estar sozinho ali. Lá dentro agora, ninguém diz nada, apenas os atores na tela do aparelho é que detém o monopólio da palavra. Sua filha Carla de quinze anos deve estar trancada no quarto mergulhada nas redes sociais conversando futilidades com as amigas, enquanto, Letícia, sua esposa, está na sala hipnotizada em uma das cinco novelas diárias a que assiste religiosamente. Sim, sua esposa é viciada em novelas, era a conclusão a que Alberto chegava.

    Letícia é uma esposa prendada, disso ele nunca pode reclamar. Ela preferiu não trabalhar fora para cuidar da casa e da filha, tarefa que cumpre com mestria trazendo o lar impecavelmente, arrumado e limpo. Suas roupas sempre estão muito bem passadas e suas gravatas e meias separadas em gavetas organizadíssimas.

    “— Deus me livre de você ir pro trabalho sujo ou amassado, o quê vão pensar de mim...?—“ Dizia ela sempre como se entoasse um mantra sagrado

     Bastava Alberto fazer uma simples menção do desejo de alguma comida diferente que no dia seguinte lá estava a guloseima fumegando sobre a mesa.

    Tudo isto parecia perfeito aos olhos dos amigos e familiares e despertava a inveja de outros tantos que os conheciam, ou pensavam conhecer. Mas para Alberto, tudo parece artificial. Um vazio o consome dia após dia mergulhando-o em profunda melancolia.

    “— Onde tudo se perdeu, meu Deus? Em que ponto de nossa vida tudo mudou?” — Perguntava-se com a alma dorida.

    Ele sentia agora em sua vida o verdadeiro significado da palavra saudade ao se lembrar do começo.

    Alberto e Letícia se conheceram no ensino médio e começaram a namorar. Ele se encantara com o sorriso daquela lourinha e se apaixonara de cara.

    Alberto, cheio de sonhos, mas com sacrifício, entrou para a faculdade de Administração. Letícia, fã de romances açucarados, sonhava tornar-se escritora. Casaram-se depois de seis anos entre noivado e namoro quando ele passou no concurso público para bancário da CEF. Ela logo engravidou e, até começou a escrever seu sonhado romance, mas nunca o concluiu.

    Carla nasceu e a felicidade parecia não ter limites para o casal que fazia suas refeições todos juntos na mesa em animada conversa e que passava férias na praia. Com tempo e dedicação, Alberto foi promovido a gerente e, com o ótimo salário e vantagens o conforto melhorou. Mudaram-se para uma casa maior, trocaram o velho carro popular por um modelo novinho e, até compraram um bom carro para Letícia levar a Carlinha para a escola, ir ao supermercado e tudo mais. Até empregada eles tinham agora. Tudo parecia perfeito até que, de uns cinco anos pra cá, mais ou menos, as coisas começaram a esfriar e, há alguns meses, três meses para ser exato, as coisas entre eles pioraram e muito. As conversas entre o casal foram rareando até que se transformaram em simples cumprimentos de amigos comuns. Letícia se mostrava cada vez mais distante do marido e, com exceção das novelas, parecia ter perdido o gosto de tudo o que costumava fazer, inclusive dos passeios regados a sorvete no final de semana com Alberto.

    Ela nunca o tinha tratado mal, mas, ultimamente este quadro mudara e Letícia passara a trata-lo nos cascos.

      Mesmo com todas as mudanças para melhor em sua vida financeira, ela mostrava-se cada vez mais indiferente em relação a ele. Não acalentava mais o sonho de ser escritora e, nem mesmo lia mais os romances açucarados pelos quais tinha verdadeira paixão, ao contrário, mergulhava em apatia e, a única coisa que a animava eram as telenovelas nas quais perdia-se em devaneios.

    Tudo na casa deles estava mudado. Antes faziam as refeições em família sentados à mesa, hoje ele janta sozinho e a mulher come na sala com o prato na mão para não perder um minuto sequer da trama televisiva. Alberto vai para o quarto e lê um livro ou assiste ao telejornal e muitas vezes nem vê quando a mulher vem pra cama. Até o sexo rareou muito e, quando acontece, é sempre por iniciativa dele e Letícia cede como se cumprisse a uma obrigação demonstrando pouco ou nenhum desejo. Tudo isso o magoava e Alberto não entendia o que acontecia, mas ela parecia não perceber a angustia do marido e, se percebia, não ligava. Enfim, Alberto sentia-se um estranho em sua própria casa, magoado e humilhado.

    De repente, uma tremenda angustia o desperta do transe pensativo em que se encontrava na varanda de casa. Um nó na garganta parece sufocá-lo e ele se levanta abruptamente e entra em casa, atravessa a sala e pega as chaves do carro sobre a mesa.

    —Aonde você vai? — Pergunta-lhe a esposa sem tirar os olhos da tv, no fundo sem querer saber.

    — Vou dar uma volta pra espairecer, tá muito calor aqui.

    Ela nada diz e ele sai sem rumo.

    Alberto sente-se mal, pois sabe que o casamento está acabando e é só uma questão de tempo até o fim de tudo e isto o apavora, pois sabe que ainda ama muito sua mulher e sente que ficará perdido sem ela, mas não sabe até quando vai aguentar. No fundo ele sabe que terá que ter uma conversa muito séria com ela, mas teme que tudo chegue realmente ao fim, porém, não dá pra se iludir e viver de lembranças para sempre.

    Ele dirige sem rumo. Os barezinhos daquele bairro nobre estão abarrotados de pessoas. Ele para em uma choperia, (Alpha Point), que lhe parece agradável.

    — Um chope sem colarinho, por favor. — Diz ele ao barman logo que encosta no balcão.

    Um sorriso perolado em uma mesa onde uma galera animada se encontrava festejando sabe-se lá o quê, se abre ao ver aquele quarentão atraente sozinho no balcão. Ela é uma garota linda de, no máximo vinte anos, cabelos pretos, saia justa e decote generoso. É uma garota de programa e, com seu olho clínico e experiente, vê em Alberto a oportunidade de ampliar sua clientela.

    Sensualmente caminha até ele.

    — Oi! — Diz ela sentando-se no balcão a seu lado.

    — Oi! — Responde Alberto sacando qual era a da garota.

    — Tá esperando alguém?

    — Talvez... Você, quem sabe... — responde ele encarando-a nos olhos. A garota, experiente, sente a tristeza daquele olhar, já vira aquela tristeza impressa em muitos olhos e se apieda dele e percebe que aquele homem necessita de algo mais do que sexo, ele necessita conversar. Ela vê ali a sua deixa.

    — Trás um chope aqui pra minha amiga. Você não vai me aplicar um boa noite cinderela né... —Completa ele.

    Ela ri gostosamente.

    O barman serve a garota.

    — Meu nome é Alberto, e você...? Como devo te chamar? — Diz ele estendendo-lhe a mão.

    — Julia. — É nome de guerra, ele sabe, mas isso não importa.

    — O quê você faz da vida, Julia, quando não tá tentando conquistar um tiozão como eu?

    Ela ri novamente ao perceber que ele é esperto, mas, algo a atrai nele.

    — Estudo direito e o que eu faço aqui à noite é pra ajudar a pagar a faculdade.

    — Você trabalha sozinha ou é agenciada?

    — Sozinha. Eu mando em mim e escolho com quem saio.

    —Hum, então eu passei no controle de qualidade...

    —Sim. Você é muito atraente e me admira ver um homem assim desacompanhado. Problemas no casamento? — Pergunta ela lançando olhar significativo para a aliança no dedo dele. Nessa hora ele baixa a cabeça com um pesar que durou apenas alguns micro segundos e levantou-a altivo novamente.

    — Mais dois chopes, por favor.

    O barman os serve.

    — Você tem certeza de que quer perder tempo me ouvindo.

    — Se eu não tivesse certeza já teria ido embora há muito tempo, gato. — Diz ela, pois simpatizara com ele e via ali um cliente em potencial, sabia que depois de ouvi-lo as coisas aconteceriam, e se não acontecessem, o chope estava rolando grátis mesmo... Pensava ela.

    As palavras rolam fáceis e Julia ouve, opina e, em pouco tempo os dois já riem como velhos amigos.

    — Olha, Alberto, eu tenho certeza que ela não faz por mal e, como mulher te digo, ela ainda te ama. Você tem é que conversar com sua mulher assim como está conversando comigo... Descubra qual é o problema. Talvez ela queira o mesmo que você.

    —Eu quero apenas carinho, atenção e um pouco de sexo quente as vezes.

    — Taí uma coisa em que eu posso te ajudar de verdade. Que tal se fossemos pro meu ap, é aqui pertinho. — Fala ela sorrindo significativamente levantando as sobrancelhas encarando-o.

    — Tudo bem. Vamos então, mas vamos ter que parar numa farmácia no caminho pra comprar preservativos.

    — Relaxa bobo, tem um monte lá em casa.

    Alberto pagou a conta e foram de mãos dadas. De fato o ap da garota era perto, atravessando a rua, na verdade. Era uma quitinete, mas bem organizada para uma jovem prostituta estudante de direito.

    Pela primeira vez em vinte anos Alberto beijava outra mulher, pois ele nunca tinha traído a esposa. Todo o desejo represado dentro dele veio à tona e explodiu em sexo em sua maneira mais pura e selvagem. Julia, experiente, cedeu sem frescuras a todos os desejos dele que não eram nada de mais, apenas sentia que ali estava um homem carente.

    — Nossa você tava mesmo carente, hein. Quase acabou comigo, e eu tô falando sério. — Falou ela aconchegando-se sobre o peito dele e quedaram-se exaustos quase dormindo, mas não por muito tempo. Parecendo cair no mundo real novamente, Alberto pulou da cama e pôs-se a vestir-se. Tinha que voltar pra casa, era o único pensamento que enchia sua cabeça.

    — Meu Deus, tenho que ir, — falava ele vestindo as calças com pressa. — Quanto te devo, Julia? — Completa ele abrindo a carteira.

    —Olha como você foi muito bom de cama é só duzentos. —

    — Toma aqui quatrocentos, você merece e espero de coração que te ajude a pagar a faculdade.

    O sorriso dela foi imenso.

    — Me dá teu celular um pouquinho. — Falou ela enquanto ele abotoava a camisa. Alberto não entendeu, mas o entregou a ela mesmo assim.

    — Você tem algum amigo chamado Nelson?

    — Não que eu me lembre.

    — Agora tem. — Disse ela digitando algo no celular dele. — Coloquei meu numero na sua agenda com nome de Nelson pra sua mulher não desconfiar. Podemos marcar novamente, mas me liga antes pra agendar.

    — Com certeza vou ligar. — Falou ele apressado e, após um selinho em sua amante, desceu as escadas em tropel, enquanto ela caiu novamente na cama e voltou a dormir, sorrindo satisfeita com a féria da noite.

    Alberto chegou em casa, abriu a porta devagar para não acordar Letícia. Um pouco de remorso o fez tremer ao vê-la dormindo e uma pontinha de frustração o picou, pois, no fundo tinha a esperança de que a esposa o estivesse esperando acordada e, vê-la dormindo, causa-lhe tremendo desalento, pois era sinal de que não se preocupava mais com ele.

    —“ Doce ilusão” —pensa ele desanimado. — “ Ela não liga mais”.

    Não demorou e o sono chegou.

    Na manhã seguinte ele se levanta com esforço e vai pro banho. Sua aparência é horrível.

    Letícia esta terminando de por a mesa quando ele entra na cozinha e despeja café na xicara e o bebe puro sem açúcar e sem adoçante. Letícia faz uma careta ao vê-lo fazendo isto.

    — A noite foi boa, hein. — Diz ela com um leve ar de deboche. Ele finge não ouvir.

    —Posso saber a que horas você chegou ontem? — Fala ela encostando-se à pia com as mãos na cintura.

    — Três e pouco. — Responde ele secamente.

    — Posso saber onde você estava? — Fala ela vestindo a carapuça de esposa dedicada.

    — Fui a uma choperia e encontrei o Nelson, um velho amigo, e esqueci da hora. — Continua ele com respostas curtas e diretas.

    — Você não ligou... Fiquei preocupada.

    — Ficou preocupada nada, Letícia, — diz ele largando com alarde sobre a mesa, o talher com que passava manteiga no pão, — cê tá cagando pro que eu faço ou deixo de fazer. Nem foi capaz de me esperar acordada pra, pelo menos brigar comigo, mesmo sabendo que jamais fui de sair e voltar de madrugada. Se você tivesse ficado preocupada comigo teria, ao menos ligado ou, no mínimo, ter mandado uma mensagem. Quer saber, Letícia, eu poderia ter sido assaltado e morto e meu corpo poderia estar no IML agora que você estaria aí parada com esta cara de bosta que você tem mostrado nos últimos meses pensando no capítulo de hoje daquelas novelinhas de merda que você tanto adora. — Explode ele diante da mulher atônita, pois nunca ela tinha presenciado aquela reação do marido.

    — Alberto... Você... Você...— Balbucia ela chorosa

    — Quer saber, Letícia, não enche o saco. Eu tô por aqui, — diz ele correndo o indicador sobre a testa, — eu não aguento mais ser tratado como um estranho em minha própria casa. Vô tomar café na padaria, lá pelo menos o seu Manuel me recebe com um sorriso e conversa comigo. — Termina ele atirando o guardanapo com raiva sobre a mesa e sai pisando duro.

    Letícia está chocada com a explosão do marido.

    — “Será que ele descobriu?”— Pensa  ela sentando-se pesadamente na cadeira e vertendo lágrimas.  —“ Não, é impossível...”

    Ela já tinha deixado a Carla no colégio quando o celular tocou o alarme de mensagem chegando. Letícia tinha acabado de chegar em casa quando leu a mensagem

    “ Vamo fazê o esquema do shpping?”

    Ela o havia conhecido há uns três meses quando, depois de um milhão de manobras inúteis, não conseguira estacionar o carro em frente a uma farmácia. Aquele rapaz de dezenove anos, que assistira atento ao seu festival de barbeiragens, se ofereceu para estaciona-lo pra ela.

    Letícia, tremula, agradeceu a ajuda do rapaz que se apresentou como Fábio e disse que era filho do dono da loja ao lado da farmácia. Ela o achou descomunalmente lindo, ficando sem jeito diante dele.

    — Qué tomá um café comigo? — Convida ele pousando seus olhos azuis nela que recusa da primeira vez, mas não resiste ao segundo convite.

    Fábio, no auge dos seus dezenove anos, é um rapaz bonito de cabelos negros curtos ao estilo soldado do exército e corpo bem definido e bom de papo. Letícia está fascinada e ele percebe. “Deve ser comum em sua vida fascinar mulheres” pensa ela.

    — Desculpe, mas eu tenho que falar, você tem pernas lindas. — Diz ele na bucha.

    Ela fica rubra. Aquele rapaz a desconserta, afinal. Ela já está na casa dos trinta e oito e aquele menino com jeito de homem  a encabula.

    Letícia nunca tivera outro homem além do Alberto e estava, assustadoramente atraída por aquele garoto.

    Não demorou para que ele a convencesse  a se encontrarem novamente e rolou um beijo. Daí pro motel foi um pulinho. Ela queria ter essa experiência e o sexo foi avassalador. Primeiro sentiu remorso pelo marido, mas, depois pensou que estivesse apaixonada pelo rapaz. Com o tempo, descobriu que eles não tinham nada a ver, pois o rapaz era um tremendo cabeça vazia e só pensava em motos e futebol.

    Muitas vezes quis terminar tudo, mas o sexo era muito bom e ela adorava a sensação de liberdade que ele lhe proporcionava. A sensação de ser dona de seu corpo e desejos a satisfaziam  e Letícia acabava sempre cedendo aos apelos do rapaz.

     Era sempre assim que eles se encontravam, ela deixava o carro no estacionamento do shopping, entrava no carro dele e iam para um motel. Isso fazia com que ela se sentisse uma canalha e evitasse encarar o marido nos olhos, por vergonha. Ela o amava e não queria perde-lo.

    Mais uma vez ela cedeu aos apelos de Fábio e foi com ele, mas jurou a si mesma que seria a última vez. Depois da transa aquela manhã, ela teve uma conversa muito séria com seu amante onde expos tudo o que sentia e terminou o relacionamento amigavelmente. Fábio relutou em aceitar no começo, mas depois pareceu entender. Mesmo assim, enquanto ele estava no banho, Letícia pegou seu celular e apagou seu contato na agenda e fez o mesmo com o dela, cortando assim o último contato entre os dois.

    Naquela noite quando Alberto saiu do banho encontrou a mesa posta pra dois e sua esposa esperando-o

    — A Carla tá no quarto? — Pergunta ele.

    — Tá. Ela comeu mais cedo. — Responde ela com voz mansa.

    Alberto intrigou-se ao ver a tv desligada e, mais ainda quando a esposa se serviu e se sentou com ele à mesa.

    —Não vai assistir à novela hoje?

    —Não. Acho que nunca mais vou perder meu tempo de uma maneira tão idiota. —Responde ela olhando-o serenamente.

    No início, pasmado e até meio desconfiado da atitude da esposa, Alberto comeu em silêncio, mas estava gostando de tê-la perto dele novamente.

    —Estes dias li o livro que você começou a escrever, —fala ele sem mais nem menos. — É muito bom e acho que você devia termina-lo. Quem sabe até publicá-lo.

    — Sério? Você leu meu livro? Quando?

    — Há alguns meses e... Eu queria te dizer o que eu achei mas não consegui sua atenção.

    — Desculpe. — Diz ela baixando os olhos.

    — Você escreve bem. Devia terminar de escrevê-lo.

    — Você acha mesmo que escrevo bem?

    —Sim, muito.

    — Acha que devo publicar? Fica muito caro...

    — Nós temos algumas economias que acho vale apena investir no seu talento.

    Letícia sorri satisfeita e seus olhos brilham.

    Naquela noite ele a procurou e ela o acolheu em seus braços não com indiferença como nos últimos tempos, mas com paixão, desejo como há muito não acontecia naquela cama.

    — Te amo. — Falou ele quando quedaram-se, exaustos um ao lado do outro.

    — Também te amo. — Respondeu ela sorrindo.

    Então, ela recostou a cabeça no peito dele, satisfeita e cheia de planos para terminar o livro e sentiu-se feliz por amá-lo tanto e ter redescoberto esse amor. Sentiu vergonha do caso que teve e estava ansiosa por recomeçar com o marido.

    Ele acariciou os cabelos da esposa recostada em seu peito e pensou em ligar para a Julia para marcar outro encontro, pra semana próxima, quem sabe.  
  • Um conto branco, rosa e dourado

    BASEADO EM PESSOAS REAIS
    CAPÍTULO 1
    Há muito tempo, distante de todo e qualquer tipo de civilização que se preze, houve um reino ironicamente chamado de Grande Reino. Grande em nome, pois em mentalidade era desprezível. Um completo atraso cultural da população local. Os nativos do reino eram pessoas com baixíssimas expectativas, contentavam-se com pouco e miseravelmente julgavam serem os melhores. Quem governava essa mentalmente infértil terra era o Rei Alce X que recentemente assumira o trono.
    Foi preciso uma intensa e dolorosa guerra entre os dois maiores feudos de Grande Reino até a derradeira batalha na qual o novo Rei saiu coroado. Além de sangue foram derramadas muitas lágrimas e as terras em que se plantavam suprimentos eram plantadas as mais variadas mentiras e tramas, tudo com o intuito de ganhar o trono. Mesmo com a coroa em sua cabeça, o Rei saíra debilitado de pessoas de confiança e acabou rodeado de interesseiros dos quais até hoje ele tem certa desconfiança.
    Rodeando o Castelo Real se espalhavam inúmeras propriedades de vassalos do Rei nas quais era produzido o essencial para manutenção da vida em Grande Reino. Em épocas de rigoroso inverno tudo era armazenado para própria subsistência, porém, ao nascer das primaveras tudo voltava ao normal e apenas o excedente ficava para os produtores. Injustiça, sim. Conformidade, também. E com isso o tempo decorria sem que nenhuma melhoria fosse acrescida à população em geral.
    Dentro da propriedade real havia os mais diversos estabelecimentos, desde um simples armazém particular até um imenso e pomposo haras, onde o Rei resguardava seus mais preciosos cavalos e também onde sua filha, a Princesa, passava a maior parte do tempo. Devido a isso, recebeu o apelido de Princesa do Haras.
    A Princesa era linda, impossível de não se apaixonar à primeira vista. Diversos pretendentes ela já tivera, mas recusara-os todos, alegando estar à espera da pessoa certa. Doce ingenuidade muitos diriam. Maturidade por outro lado talvez. Com estatura não muito alta e cabelos castanhos escuros ela possuía a elegância de toda princesa e a graça de qualquer menina de sua idade. Aspirava ter uma profissão quando crescesse, contrariando não os costumes da época, mas sim da região. Não tinha culpa de ter nascido onde ainda se acreditava que as mulheres eram apenas moldadas para a procriação. Ela queria ser médica.
    “Ainda vou curar as feridas do meu povo e livrá-los dos males que tanto lhe afligem”, dizia ela quando perguntada sobre seu futuro.
    Para isso, foi matriculada em um curso de iniciação para jovens aspirantes à medicina, no qual só havia nobres e jovens fidalgos.
    O certo é que em algum dos recentes bailes populares que a realeza promovia, a Princesa, com toda sua joliesse e encantamento inatos, despertou os mais puros e sinceros sentimentos em um jovem camponês, o Menino.
    CAPÍTULO 2
    Em uma das quase infinitas propriedades de Grande Reino morava uma família simples de camponeses composta por quatro peculiares integrantes: o Pai, obviamente o patriarca, que providenciava o fundamental para a família e um homem bastante inteligente, sempre demonstrava franqueza em suas posições; a Mãe, figura da família que representava amor, carinho e proteção, além de ser uma mulher de muita fibra e coragem (o Pai também era carinhoso e amoroso, porém de um jeito mais “paterno”); a Cadela, inseparável animal de estimação da família, já velha e muito apegada a seus donos, adorava correr pela propriedade procurando gatos e ratos para se divertir; e por fim o Menino. Um jovem tímido e bastante sonhador. Adorava ficar contemplando as estrelas no céu e contando todas elas. Era um rapaz muito racional, mas também muito sensível e romântico. “Nasci na época errada”, ele pensava assim. Todos seus amigos disputavam para ver quem era o mais galanteador do grupo, mas não ele. E isso acabou se acentuando desde o último baile quando
    o Menino pela primeira vez a viu.
    Após aquela festa, assim que chegou em casa ele foi direto para o telhado da pequena casa apreciar o horizonte celestial procurar respostas que ele sabia que não seriam encontradas ali. As telhas estavam úmidas devido ao sereno e uma fina garoa, comum nessa época do ano, começou a descer do céu e lavou seu rosto rubro da puberdade.
    “Menino, entre já ou acabará constipado desse jeito”, disse a Mãe em um tom misto de ordem e de preocupação ao mesmo tempo.
    Ele então desceu e entrou. O Pai estava junto ao parapeito da janela dando de comer à Cadela enquanto assobiava uma velha canção. Mesa posta. Os três humanoides foram enfim se alimentar.
    A paixão irradiante no rosto do Menino era facilmente percebida à mesa. Repetiu duas vezes o prato de sopa, comida que sempre repugnou. O Menino era carnívoro. Não pensava muito para comer um bom pedaço de carne. Dizia que isso era preciso para fortalecer os dentes. Sopa amolecia-os e um dia os faria cair. Nunca vira ninguém que usasse dentadura por comer sopa a vida inteira, mas era nisso que preferia acreditar o cético Menino.
    Tinha muitos amigos nas redondezas. Os mais próximos eram o Enferrujado e o Sr. Calendário, este último com quem conviveu toda a infância. Ambos os amigos eram bastante próximos da moça que arrebatara o coração do pobre Menino, a Princesa do Haras. Era hora de fazer valer essas amizades e ver no que ia dar.
    Foi falar com eles e logo lhe contaram uma inesperada novidade:
    “O Rei irá promover uma série de justas em busca de um bom pretendente para a Princesa”, disse o Calendário.
    “Além disso, o vencedor levará uma generosa quantia de dinheiro”, completou o Enferrujado.
    O prêmio em dinheiro pouco importava para o Menino, era a sua tão sonhada chance de chegar mais perto da Princesa. Logo lembrou que jamais havia andado a cavalo e pior ainda, participar de uma justa? Sequer vira uma de verdade. Apenas imaginava a partir das histórias que o Pai lhe contava. Quando era criança, sempre que ouvia as histórias de cavaleiros procurava a Cadela e tentava montá-la. Sem sucesso em todas as vezes.
    Era preciso pensar em outra maneira de participar daquele torneio. E então o Menino teve uma ideia.
    CAPÍTULO 3
    Percorrendo os pavimentados pátios da Praça Central, o Menino buscava seus amigos imigrantes, oriundos do extremo sul e do outro lado do mar. Eram pessoas de pele escura, cabelos pretos e nariz achatado. Eram os Músicos. Havia três deles ali em Grande Reino: Jota, o Redondo, famoso por seu incessante dedilhar em seu alaúde de madeira; o Mouro, muito bom tocador de seu violão Péricles; e a Cabocla, uma negra baixinha responsável por tornar em palavras a melodia de seus companheiros.
    O Menino viera propor a eles que o ajudassem a entrar no Castelo Real durante o torneio de justas que o Rei organizaria.
    Os Músicos toparam com a condição de obterem, ao final de tudo, um lugar fixo para morar e esposas e um marido.
    “Tentarei fazer o melhor que puder para arranjá-los tais recompensas”, prometeu o Menino.
    Os imigrantes que chegavam a Grande Reino não eram bem vistos pela população local. Havia sempre a desconfiança de quem vinham para roubar os empregos dos nativos. O Rei Alce X assim que assumiu o trono elaborou uma política de incentivo à imigração a fim de promover uma maior interação entre as pessoas, fazendo com que todas as culturas aprendessem umas com as outras.
    Após o acordo com os Músicos, o Menino foi até a vendinha de roupas mais antiga do feudo, a Loja do Lourenço. Chegando lá acabou comprando uma peça em promoção, que seria jogada fora, mas que era perfeitamente o que ele precisava para o plano.
    Feliz com a compra e mais contente ainda com que viu em seguida. Do alto da torre mais alta e mais protegida, beirada à janela, estava ela, penteando seus belos e brilhosos cabelos, a Princesa do Haras. O Menino teve a certeza de que tudo que estava disposto a fazer não seria em vão, valeria muito a pena.
    CAPÍTULO 4
    A Princesa acordou cedo em seu luxuoso quarto. Mesmo com a cara amassada de sono não perdia a beleza, era algo dela. Não havia menina mais graciosa que ela naquelas terras. O vento entrou pela janela semiaberta trazendo consigo aromas das flores da imensa árvore que crescera ao lado da torre. Foi fechar a janela e ficou lá por um tempo, alisando seu belo cabelo, observando a vida fora do Castelo. Logo foi se lavar e se aprontar para o desjejum.
    Ela passara a noite admirando a lua cheia e criando histórias em sua cabeça sobre príncipes encantados. Pensava em como seria a pessoa que a faria voar pelas nuvens, embrulhar seu estômago com coloridas borboletas. Pensava no seu primeiro beijo. Como seria a sensação da qual todas suas amigas comentavam após cada baile. "Seria algo de outro mundo realmente?", se indagava, "ou apenas mais uma demonstração de afeto?". Eram perguntas que esperava responder quando o momento chegasse.
    Naquela manhã ela estava diferente. Parecia mais moça, mais madura. Mais mulher.
    Desceu as escadas acompanhada do guarda misterioso que seu pai contratara para tomar conta dela. Era alto e forte, se movia rapidamente embora sua armadura atrapalhasse a locomoção. Estava em mau estado e rangia nas juntas. Intrigava à Princesa não saber quem era o homem por trás daquele elmo, entretanto tal mistério aliado a essa sua curiosidade não lhe apetecia. Decidiu deixar por isso mesmo e não se importar mais.
    Tudo de que mais gostava estava posto à mesa. Comeu com gosto. Irreconhecível. Seu pai, o Rei, percebendo repentina mudança de comportamento, mandou uma das amas ir ao quarto de sua filha e trazer os lençóis. "No mínimo estranho", pensou a Princesa.
    Alguns instantes mais tarde a ama retornou ao salão onde todos comiam com a roupa de cama. Estava profundamente manchada de um tom vermelho, ainda úmida. Não restavam dúvidas. Assim como a primavera chegara a Grande Reino, chegara à vida da Princesa. Nos jardins da entrada do Castelo as mais variadas cores se revelavam nas flores. No alto da torre mais alta, no quarto, na cama, era a Princesa quem florescia.
    "Anunciem pelo Reino", disse o pai ao seu assessor, "as justas serão na semana que vem. Minha garotinha enfim se tornou mulher!", completou com orgulho na fala.
    A comida se revirou no estômago da Princesa. Quis chorar. Chorou. Às pressas voltou correndo aos seus aposentos. De repente tudo ficou triste para ela. Começou a chover.
    CAPÍTULO 5
    O dia do torneio se aproximava e a angústia cada vez mais tomava conta do Menino. Passava todo o fim de tarde com os Músicos. Eles também estavam ansiosos. Seria a primeira vez que ficariam próximos da realeza.
    Naquele dia ele convidou-os para jantar com ele em sua casa. Enquanto comiam, o Mouro notou que o Menino deixava sempre suas batatas por último. A justificativa do anfitrião era a mesma de sempre:
    “Por último sempre o melhor!”.
    Não lembrava quando começou a dizer isso, mas já tinha um bom tempo. Desde a agradável infância que tivera talvez.
    Enquanto o Mouro e Jota, o Redondo resolveram tocar mais um pouco ao ar livre, a Cabocla decidiu que queria passear ao longo da pequena estrada que levava ao centro. O Menino resolveu
    acompanhá-la. Mesmo apaixonado pela Princesa não podia negar que se sentia atraído pelas sinuosas curvas da moça de pele escura. Afinal ele ainda era um homem. Um animal. Um ser vivo.
    A Cabocla não fazia exatamente o tipo que despertava amores no Menino, todavia era uma bela rapariga em sua fase adolescente. Ela sempre contava histórias sobre suas amigas, as Ninfas, e de como seu amigo, o Arteiro, nutria desejo por elas. Enfim, caminharam durante um bom tempo até ele resolver quebrar o silêncio:
    “Você realmente não acha nenhum homem daqui interessante, não é mesmo?”, perguntou.
    A resposta veio prontamente:
    “Até acho. Só não sei se os homens daqui me acham interessante”. Aquilo o surpreendeu.
    “Ora, você é divertida, canta bem e sobretudo, muito atraente. Aposto que muitos homens fariam de tudo para ficar um pouco com você”.
    “Às vezes eu só queria alguém que me apreciasse de verdade.” Fez uma pausa. Pararam. “Você, o que realmente acha: bonita mesmo ou apenas atraente?”.
    Aquela pergunta o surpreendeu ainda mais. Não sabia o que fazer. Ele de fato a achava muito atraente, mas não poderia dizer se era tão bonita como encantadora. Bonita era sua amada Princesa. Cabelos longos ao vento. Olhar doce.
    “E-eu, b-bom...”, as palavras não saíam de sua boca como queria. Realmente não sabia o que responder. Percebendo seu nervosismo a Cabocla inclinou-se para cima e levemente tocou os lábios dele com os seus. Aquilo tudo não durou um segundo e logo ela desceu dos calcanhares e disse:
    “Desculpe, não era minha intenção lhe deixar assim”, e completou se despedindo: “Boa noite, Menino”.
    Nem responder ele respondeu. Ficou estagnado passando seus dedos pela boca como que pensando se o que acontecera foi real ou apenas mais algum de seus devaneios que ele tem quando acordado.
    Voltou para casa se perguntando se os outros Músicos ainda estariam de pé. Já planejara que no dia seguinte teria que ir à floricultura. Ideias rodeavam sua mente como abutres rodeiam seu
    banquete em putrefação. O dia tinha sido bom, a noite superara as expectativas, mas viriam melhores ainda. Assim ele esperava.
    CAPÍTULO 6
    Sentada à cabeceira da cama, enxugando lágrimas do rosto, estava a Princesa. Agora que sua maturidade havia chegado não sabia como se sentir. Feliz por ter ultrapassado a fronteira da infância ou triste pelas inúmeras responsabilidades que teria a partir de então.
    “Isso acontecerá com mais frequência daqui pra frente, filha”, lhe disse mais cedo sua mãe. Aquelas palavras até poderiam ter como objetivo confortá-la, mas parece que trouxeram ainda mais desespero.
    Inesperadamente bate à porta o cavaleiro misterioso. “Entre”, disse ela docilmente.
    Ele sentou-se ao lado dela na cama e tirou o elmo. A Princesa se espantou com que viu.
    “Mas você é tão jovem”, disse.
    “Sim, não muito mais velho que a senhorita”, ele respondeu. “Posso saber a graça do cavaleiro que me acompanha dia e
    noite?”
    “Certamente. Todos que conheço me chamam de Enferrujado, já deve imaginar o porquê”, ele respondeu olhando em direção à sua armadura.
    “Porque veio conversar comigo?”
    “Vi como estava se sentindo mal. Não está muito animada com essas justas que possivelmente decidirão seu destino, não é?”
    “Não mesmo. Eu queria ter eu mesma a possibilidade de escolher meu futuro companheiro, mas querer está muito longe de poder. Inviável”, respondeu a Princesa.
    “Talvez eu possa ajudar. Procure-me no dia do torneio antes de seu início. Quero que você conheça alguém”.
    “Tudo bem”.
    Ele saiu do quarto e ela foi para a penteadeira. Sentou-se e começou a encarar seu reflexo no espelho bastante pensativa.
    Há alguns anos ela pouco se importava com a aparência. De uns tempos para cá começou a se valorizar mais. “A quem será que o cavaleiro irá me apresentar?”, ela se perguntava. Mesmo se fosse alguém especial, mesmo que fosse seu tão sonhado príncipe, ela sabia que não teria a aprovação do Rei se não fosse um rapaz nobre.
    Àquela altura, se realmente era seu príncipe que estava prestes a conhecer, nada mais importava. Estava decidida até mesmo a fugir. Decidida a ser feliz.
    CAPÍTULO 7
    Como havia planejado ao fim do dia anterior, o Menino acordou perto da hora almoço e se dirigiu à floricultura. A dona do estabelecimento era uma antiga conhecida dele e mãe de um de seus melhores amigos, o Sr. Calendário. Era conhecida como a Gata das Flores. Uma mulher alta e esguia, muito simpática. Chegando lá viu que o movimento não estava dos melhores.
    “Bom dia, Menino”, a dona disse assim que o avistou.
    “Bom dia”, respondeu. “Estou à procura das mais belas flores que a senhora tiver por aqui. É para uma ocasião especial. Pretendo presentear a garota mais bela do reino o mais charmoso e colorido dos buquês.”
    “Hmmm... Parece que o garotinho que vi crescer está caído de amores. Verei o que tenho para lhe oferecer”.
    A jovem senhora procurou por um tempo o que tinha de melhor dentre suas flores e fez um lindo arranjo. Havia brancas, amarelas, vermelhas. “Talvez ela goste”, pensou o Menino.
    Pagou uma parte das flores e prometeu que o restante traria mais tarde. Até pensou em colocar um bilhete, mas logo repensou a ideia. A primeira coisa que queria falar com ela teria de ser cara a cara. Não escrito. Mesmo se quisesse escrever não saberia o que escrever. Aquilo parecia meio paradoxal. Ele era muito bom com as palavras, quando eram postas no papel. Tinha uma enorme dificuldade em pronunciá-las e essa debilidade aumentava quando o alvo eram garotas. Não era doença, apenas timidez. Teria de ser vencida em algum momento da vida.
    Ao chegar em casa guardou as flores cuidadosamente e foi para o quintal ver seu velho animal, Cadela. Estava deitada com o queixo no chão. Olhar distante, no horizonte. Certamente esperando o Pai voltar do trabalho. Era de costume ela fazer
    isso sempre que ele saía. O Menino sentou-se na cadeira de balanço e colocou-se a fazer carinho na cabeça do bicho. Logo adormeceram. Os dois. Em sua cabeça o jovem não sonhava outra coisa senão o dia em que finalmente conheceria a Princesa. “Valeria tudo isso a pena?”, às vezes se perguntava em seu consciente se era mesmo a coisa certa a fazer, a pessoa certa a amar. A dúvida não durava muito quando se lembrava do rosto que vira no baile. “Ora, é claro que vale”.
    Em outro plano era a Cadela quem sonhava. Nada muito utópico. Coisa simples. Em todos seus sonhos ela estava de barriga para cima recendo todo o carinho do mundo. Cócegas incessantes que a faziam muito bem. Isso é o barato, não só dos cachorros, mas dos animais em geral. Não precisam mentir, se passar por outra pessoa. Não exigem muito do meio. Não se corrompem como o homem. E ainda dizem por aí que são irracionais.
    O Menino acordou pouco depois. Continuava acariciando a Cadela que não despertara ainda. Ele sabia que ela não duraria por muito mais tempo então tentava passar grande parte de sua ociosidade ao seu lado. Quando a tarde estava caindo junto com a temperatura recebeu uma visita. Seu amigo Enferrujado tinha vindo lhe contar as novidades.
    CAPÍTULO 8
    “Mudança de planos”, o Enferrujado começou dizendo. “O baile será daqui a dois dias, data de aniversário da Princesa”.
    Dois dias. Menos do que o Menino imaginara, mas ao mesmo tempo seriam os dias mais longos de sua vida.
    “O que fez o Rei mudar sua decisão?”, perguntou ansioso.
    “A menina, parece que agora já é mulher. O Rei então resolveu adiantar os preparativos”.
    Aquela notícia fez a cabeça do Menino girar. Dizia-se que as meninas já amadurecidas sempre tendiam a olhar com mais aprovação rapazes bem mais velhos. Ele, que nem barba tinha, era mais provável que fosse confundido com uma criança. Ainda assim tinha que manter seu plano. Não podia desistir, não agora.
    “Tudo bem, já me arranjei com os Músicos, vou entrar disfarçado como um deles e tentar me aproximar dela dessa maneira”. Parecia brilhante se a ideia de seu amigo não o deixasse ainda mais animado.
    “Disse à princesa que iria apresentá-la a uma pessoa especial. Antes que as disputas tenham início você deve me encontrar atrás da tenda real. Economize bem seu discurso romântico que provavelmente não teremos muito tempo.”
    Concomitantemente aos planos do Menino surgiam boatos de que em breve uma nova guerra pelo trono do reino ganharia mais espaço no cotidiano do povo. Dizia-se que já estava tudo armado para um golpe e que faltava apenas a faísca para a eclosão das batalhas. Ele até já tinha ouvido falar em tudo isso, mas não havia tempo para pensar em outros conflitos senão nos que já existiam dentro de si.
    No dia seguinte, véspera do torneio, o Menino ficou vagal. Quando não estava de papo pro ar estava se entretendo com Cadela, conversando com o bicho. Tinha vezes que ele achava que eles se entendiam perfeitamente e outras que pensava que tudo o que falava pra ela não significava nada. Uma vez, sozinho em casa com o animal, começou a contar-lhe sobre como seria bom ser independente, livre mundo afora. Cadela suspirou profundamente e logo depois soltou a flatulência mais fétida que poderia já ter existido. Por isso, às vezes, ele preferia guardar suas imaginações no plano da mente do que expô-los em vão a ela.
    O ambiente lusco-fusco deu lugar ao escuro da abóbada celestial permeada de pontos brilhantes. De repente um cometa rasgou o céu e deixou um rastro ao lado da lua. A Cadela uivou sem direção e o Menino desejou. Então foi descansar.
    CAPÍTULO 9
    O aniversário da Princesa chegou não da maneira que realmente esperava. Lutas no lugar do baile. Dança de justas substituindo a dança da meia-noite. Sim, haveria posteriormente um baile. Mas não como sonhou. Talvez fosse ela a debutante com menos expectativas dos últimos tempos. Depois de se lavar e passar sua essência predileta, a ama chegou ao quarto para lhe ajudar a vestir a roupa. Era um vestido longo com uma combinação entre suas três cores favoritas: branco, rosa e dourado, sem muitos adornos, mas muito elegante. Digno de uma princesa.
    “Se reparou ontem no céu deve ter visto aquele lindo cometa que cruzou as estrelas”, disse a ama.
    “Vi”, respondeu em sua cabeça a Princesa, “e espero que meu desejo se realize”. Naquele dia ela optou por comer pouco. Tinha
    receio de que as emoções do dia lhe fizessem devolver o café-da- manhã em público.
    Olhou pela janela os preparativos nos jardins. De fato estavam muito bonitos, mas nada que a entusiasmasse. O que ela queria de verdade era que chegasse logo a hora do encontro com o rapaz misterioso que o Enferrujado lhe prometeu.
    O haras, seu pequeno refúgio, estava povoado de desconhecidos que iam chegando aos montes para a disputa. Nem lá ela podia buscar um pouco de paz. Ela resolveu se recolher de volta ao quarto e esperar até a hora que precisaria estar presente.
    Havia um bilhete sobre sua cama. Parecia escrito às pressas e o autor não tinha uma boa grafia, entretanto entendeu o recado. Estava na hora de tentar mudar sua sorte.
    CAPÍTULO 10
    Enfim o grande dia. Trombetas davam a tônica daquela manhã. O Menino estava trajado conforme o combinado, como um de seus amigos Músicos. Apesar da recompensa por tocar em eventos não ser das mais generosas, músicos em geral tinham o privilégio de se sentar na mesma tribuna que a realeza. Desse modo, portanto, o Menino ficaria perto da Princesa.
    Após ultrapassar os grandiosos portões ele ficou deslumbrado. Já havia estado em festas só que menores. Aquilo era colossal. “E se eu não agradá-la? O que será que ela está vestindo? E se eu for pego? Ela é linda demais para mim”, perguntas e preocupações sem fim que rodeavam a cabeça do Menino o deixavam um pouco inquieto e ansioso demais. Estava apenas à espera do sinal de seu amigo Enferrujado para ir ao encontro de sua amada.
    E eis que veio. Da outra margem do riacho, refletindo a luz do sol com sua desgastada armadura estava o intermediador de tudo isso. Caminhou lentamente. Começou a suar. Seus batimentos aceleravam à medida que chegava mais perto. Passou devagar pelo Enferrujado que levemente acenou a cabeça para o Menino.
    “Boa sorte, amigo”.
    E ali estava ela, parada, também à sua espera.
    Linda. Sorriso meio tímido, mas muito cativante. Suas pequenas covas rosadas preenchiam seu belo rosto. Seus longos
    cabelos caíam sobre as covas. Aquele vestido tricolor lhe caía muito bem. Era de uma leveza que a fazia parecer transcendental. Um anjo. Meio sem jeito, como de seu habitual, o Menino aproximou-se vagarosamente. “Cheguei até aqui e não vou conseguir dizer nada? É isso mesmo?”, seu subconsciente lutava contra a barreira que a timidez lhe impunha. Até proferir as primeiras palavras.
    “É um enorme prazer conhecê-la pessoalmente, Princesa. Devo confessar que espero por este dia há muito tempo”.
    Ela corou, sabia que ele estava sendo sincero. Gostou do jeito dele. Ele não era nenhum príncipe encantado. Era um rapaz simples.
    “Você é muito gentil, rapaz. Como deveria chamá-lo?” “Chamam-me Menino, se agradar à senhorita”
    “Acompanhar-me-ia em um passeio pelo pomar antes do início das disputas?” A Princesa estendeu o braço como forma de afirmar seu convite. Ele entrelaçou seu braço com o dela e seguiram até o pomar.
    Ela logo sentiu que o Menino era especial. Rapaz incomum se comparado com os de sua idade. Ao longo do passeio pararam à sombra de uma laranjeira. O sol já estava no zênite quando resolveram sentar ao pé da árvore e comer algumas laranjas.
    “Que engraçado”, disse a Princesa, “você come a parte suculenta só depois de comer as fibras. Detesto essa parte branca, por isso jogo fora”
    “Ora, costumo dizer que o melhor sempre fica por último”.
    Aquilo foi o que respondeu o Menino. “Que resposta estúpida”, ele pensou. “Aliás, por que estamos nos intrigando com laranjas? Seria hora de uma investida mais aguda?”. Tentar ir mais adiante com a Princesa poderia ser sua passagem só de ida para o fracasso. Fracasso iminente. Ou um grande passo rumo à conquista. Beijou-lhe a bochecha. Ela nitidamente ficou envergonhada, mas retribuiu-lhe o ósculo na face. Agora o Menino é que havia corado.
    “Voltemos?”, invitou a Princesa.
    Em seu bolso havia um pequeno pedaço de papel no qual ele escreveu um pequeno poema. O Menino agora era poeta, quem diria. Engraçado como o amor torna as coisas mais leves e aparentemente mais fáceis de serem vividas. Até poetizar ele era capaz. Tudo graças a ela. Mais adiante o Enferrujado os esperava com um semblante de pressa. Decidiu ler, independente do que ela fosse
    pensar daquele amontoado de palavras. “Permita-me ler umas palavras à Princesa antes de nos despedirmos?”. Ela consentiu. Tirou de seu bolso com as mãos trêmulas e pôs-se a ler algo mais ou menos parecido com isso:
    Ao te ver, faces ruborizadas
    Porém, um dia sem a apreciar com meus olhos, Noites aterrorizadas
    É um pesadelo não a ter por perto Sonho acordado, sequer sei o que é certo
    Espero que entenda essa paixão,
    Tamanho anseio em lhe ver, devaneio sem perceber Ó, Princesa, por que fizeste isso
    Afanaste meu coração
    Gaguejando em algumas pronúncias o Menino completou sua leitura. Aquilo havia surpreendido positivamente a Princesa, disso ele tinha certeza. Mais surpresas a aguardavam. Flores lindas. Seria tudo como havia imaginado se ele não as tivesse esquecido. Tão vivas, as flores. Tão esquecidas. Ficaram sobre a mesa. Ele saiu tão depressa que nem se lembrou de pegá-las. Uma pontada de arrependimento bateu em seu peito e logo passou. “Eu estou aqui, não estou? Abertamente me declarando para a mulher mais maravilhosa de todas. Pra mim valeu a pena tudo vivido até aqui”, e foi com essa ideia que ele se despediu da Princesa.
    Ali não seria um ‘adeus’, seria um ‘até logo’.
    CAPÍTULO 11
    O reino todo concentrava suas atenções no torneio. Mais especificamente no que parecia ser o candidato favorito nas disputas. Era o melhor arqueiro dentre todos os homens e manejava lanças como ninguém. Pois é. O Menino, em virtude de perceber que talvez pudesse perder a Princesa para o tal apelidou-o de Vilão. Entre o restante era conhecido como o Curado. Dizia-se que quando menino foi abruptamente acometido por uma febre e salvo por mãos divinas, o que teria tornado o rapaz invencível nas batalhas. Mas eram apenas boatos.
    De volta à tribuna junto de seus familiares e membros da corte, a Princesa, com um largo sorriso no rosto, sentou-se ao lado de seu pai e depositou sua mão sobre a dele. “Por onde esteve?”, indagou o Rei Alce X. “Apenas dando uma volta pelo pomar, está um dia tão deslumbrante”, ela respondeu. Se para ela estava difícil controlar sua felicidade para o Menino estava quase impossível. Na tenda ao lado ele não tirava os olhos dela.
    As justas se arrastaram ao longo de toda a jornada. O Curado, ou Vilão, estava imbatível. Não havia um único arranhão em sua armadura polida. O sangue derramado pela sua lança tornava a vívida grama verde em tristes capins ruivos. A velocidade com que atirava suas flechas era inacreditável. Seu alcance era preciso. Um verdadeiro campeão. Um verdadeiro pretendente para a Princesa. E foi ele o escolhido.
    Ao pôr-do-sol, quando o torneio foi declarado encerrado, o Curado se dirigiu à tribuna real para acompanhar o encerramento do evento. Os Músicos iriam tocar. O Menino iria entrar em cena novamente. Outrora tão perto da Princesa e agora tão distante. Afinal, o futuro noivo dela acabara de ser escolhido. Tinha que tentar esquecer e atuar conforme o combinado caso contrário poderia ser descoberto. Muito poucos sabiam que de verdade os Músicos eram apenas três. Nunca dois e jamais quatro. Três.
    Jota, o Redondo, começou com um belo solo em seu alaúde. Logo mais entraram o Mouro com seu violão e a Cabocla fazendo acrobacias e simultaneamente tocando sua flauta doce. Então o Menino começou a assoprar sua gaita. Tudo ia bem até ele se distrair e desviar seu olhar para os gracejos que o Vilão fazia à Princesa. Seu coração apertou. Não conseguiu tocar mais como antes. Os Músicos perceberam a desatenção dele e tentavam abafar os ruídos da gaita cantando alto. Aquilo não estava agradando o Rei.
    “Algum problema, gaiteiro?”, perguntou o Rei, “Parece estar mais interessado na conversa entre os noivos do que em seu instrumento.” O Menino não ouviu. Continuava fitando a situação.
    “O que ele está fazendo?”, sussurrou a Cabocla para o Mouro. O Vilão então se virou e resolveu intervir na situação. Não fisicamente. Com verdades. Infelizmente, das poucas pessoas de Grande Reino que sabiam da existência de apenas três Músicos, ele era uma delas.
    “Ora, não vê, grande Rei Alce X, que estamos diante de uma farsa? Qualquer um sabe que nunca houve e nunca haverá um quarto membro musical. Este rapaz está aqui ilegalmente!”, disse apontando para o Menino.
    “Guardas! Capturem-no imediatamente!”, bravejou o Rei.
    Finalmente se dando conta da situação, o Menino começou a correr. Correu como nunca antes havia corrido. Três guardas estavam em seu encalço. Dois desistiram. O terceiro continuava atrás. Mas esse ele conhecia. Desengonçado em sua armadura velha estava seu amigo Enferrujado. O Menino parou.
    “Fuja. Fuja para o mais longe que puder. Tentarei saber das intenções do Rei e lhe mandarei notícias. Agora vá!”
    “Por favor”, disse o Menino, “não deixe que a casem com aquele maldito”, uma lágrima escorreu do seu rosto.
    “Vá! Agora!”, ordenou o Enferrujado.
    E então ele foi, mas não para longe como acabara de suplicar o amigo. Era impossível que fosse ficar distante de sua amada. Foi para casa. Triste e inconsolável.
    CAPÍTULO 12
    A Princesa estava cabisbaixa. “Logo agora que conheci a pessoa certa para mim acontece um infortúnio desses”. Ao seu lado o Rei estava furioso com a falha na segurança. Mandou reforçar a vigilância ao redor do Castelo e redobrar os olhos sobre a filha.
    “Enferrujado, dia e noite o quero ao lado dela”. Como consolo para ela, o casamento fora adiado. O Rei pediu intermináveis desculpas ao Curado e à sua comitiva e pediu que aguardassem para a realização da cerimônia matrimonial.
    Ela caminhava de volta aos seus aposentos experimentando o gosto salgado das lágrimas nos lábios. Às suas costas o Enferrujado acompanhava seu trajeto. Colocou sua pesada mão sobre o ombro da Princesa e lhe prometeu:
    “Eu vou dar um jeito, pequena, só me prometa que não tentará nenhuma besteira”.
    O dia havia sido muito exaustivo para todos. Fortes emoções especialmente para ela. Resolveu ir se deitar. Em sua cama ela perdeu a noção do tempo. Isso pouco importava. Se passassem dias, meses ela não ligaria. Ela estava gostando mesmo do Menino. Difícil de admitir, ainda mais para uma princesa, estar pensando em um jovem tão simplório como ele. Mas estava. Finalmente ela teria encontrado a pessoa certa. A pessoa que a faria muito feliz.
    Angústia. Mil coisas se passavam em sua cabeça. Queria fugir dali, mas não tinha para onde ir. Além do mais seria rapidamente alcançada pelos homens do seu pai. Tinha de esperar. Talvez fosse o mais sensato a fazer.
    CAPÍTULO 13
    O Menino estava recolhido em um canto de seu quarto. Cadela ao seu lado. O bicho parecia sentir a tristeza dele. Ele tinha chorado a noite toda. Recebeu uma carta de seu amigo Enferrujado que dizia haver centenas de cartazes do Menino espalhados. A recompensa era generosa se ele fosse entregue sem vida. Melhor ainda se capturado vivo. Para sua sorte ele era muito bem querido por todos de seu convívio social e nunca fez inimigos, porém há sempre aqueles que pensam melhor com o bolso cheio. A partir dali ele não poderia confiar em ninguém.
    Deprimido e com a autoestima baixa ele resolveu que não havia nada a perder. “Já não me importo com que vem daqui pra frente”, matutava. Resolveu sair de casa, ainda que discretamente, e foi procurar uns amigos que certamente poderiam lhe oferecer um pouco de distração. Em uma viela bastante tenebrosa estavam aqueles que o Menino procurava. Conhecidos como Chaminé e Planta, os dois eram responsáveis pelos eventos informais mais agitados. Já até haviam sido presos e tiveram que passar a noite na prisão.
    Aproximou-se deles e de cara sentiu um estranho, porém atrativo aroma no ar.
    “Ora se não é o Menino que vemos por aqui”, anunciou Chaminé. Abraçou o jovem deprimido e Planta logo passou para ele um fino rolo. O Menino soprou forte como sua gaita e em seguida tossiu à beça.
    “Vamos nos divertir, viver o agora. O que vem depois nós lidamos apenas depois”, convidou um Menino pseudoanimado. O que ele realmente queria era voltar no tempo, mais exatamente para o pomar junto da Princesa, mas naquele momento quis mesmo era jogar tudo para o alto.
    Seguiram para uma taverna de caráter bastante duvidoso e que a partir de um determinado horário promovia shows de strip- tease. Ao adentrar o recinto, o Menino sentiu pena do pobre primata que levava tabefes, não pequenos tapas. A proprietária era a Dona Maria Joana, antiga prostituta que resolver entender de negócios de repente e abriu o estabelecimento. Fazia sucesso
    isso era verdade. Os três se sentaram em uma mesa bem próxima ao palco e Chaminé o orientou:
    “Não confie em ninguém aqui, ninguém mesmo”.
    Bebidas iam e viam do balcão para a mesa dos rapazes como um pêndulo. O Menino já estava começando a enxergar em dobro quando as strippers entraram no palco. Ruivas, morenas e loiras. Quando era mais novo ele sonhava em se casar com uma moça de cabelos cor de paina, assim como os dele. Cresceu e passou a olhar apenas para mulheres de uma forma geral, sem falsos encantamentos. Tanto é que estava apaixonado não por uma loira e sim por uma linda princesa de cabelos castanhos escuros perfumados. Uma das dançarinas lembrava a sua amada. Claro que isso se acentuou por causa do álcool.
    A stripper foi chegando cada vez mais perto e ele se viu sozinho à mesa. Procurou por seus dois amigos. O vulto que parecia ser Chaminé estava do outro lado da taverna atracado com uma mulher mais velha. Já o outro, Planta, estava parado junto à porta de entrada com outro homem. Um homem com uma roupa diferente, toda brilhante e equipada. A stripper agora estava sobre ele, acariciando-o. Todos em volta pararam para assistir. O Menino era o centro das atenções. Uma sensação quente começou a subir pelo seu corpo. Ficou tenso. Rígido. “Não posso fazer isso”, ele pensava, “simplesmente não posso”.
    Ele se levantou bruscamente, o que a fez cair de cima dele, se estatelando no chão. O ambiente girava ao seu redor. Ouvia vaias e burburinhos por todos os lados. Homens e mulheres cuspiam nele e o empurravam. Então ele caiu. Foi um baque contra o piso. Lentamente seus olhos foram fechando, quando subitamente um homem alto e forte o puxou para cima. Era o homem com a roupa brilhante. Sentiu que uma fina lâmina estava encostada em sua garganta. Foi só então que percebeu que se tratava de um guarda.
    “Não se mexa”, disse o guarda pressionando levemente a espada contra o Menino, “você está preso!”.
    Foi levado até a saída pelo guarda e de relance viu Planta remexendo um pequeno saco de moedas. De fato, ele não podia confiar em mais ninguém. Ou quase ninguém.
    CAPÍTULO 14
    A solitária cela nas masmorras do Castela estava mais do que gélida. Desconfortável em demasia, o Menino pensava no que fazer para passar o tempo mais rápido e tentar esquecer que
    passaria o resto de seus dias ali. Ele não estava zangado com o Planta, tampouco contente, claro. Era apenas pena que ele sentia do rapaz. Como era fácil trocar uma amizade por um bom punhado de recompensa. De fato os tempos haviam mudado e com ele veio essa inesperada e triste inversão de valores.
    Um amigo seu, o Artista, adorava falar sobre inversão de valores. Era um menino muito polêmico e contundente em seus ideais. Experimentara da vida talvez um pouco cedo demais, mas era de fidelidade incontestável. Talvez, se o Menino saísse dali, devesse casá-lo com a Cabocla, afinal ainda estava devendo esse favor a ela e seus demais amigos Músicos.
    Algumas semanas se passaram e o Menino continuava ali. Visivelmente mais magro e pálido ele começava a ter algumas dificuldades para se mexer. Estava muito fraco. Era servido tanto de dia como de noite uma aguada e insossa sopa. Ele sentia que seus dentes não eram tão resistentes como antes, o que poderia provar sua teoria. “Que importa? Vou apodrecer aqui de qualquer jeito”, era no que ele acreditava.
    Certo dia pela manhã o Enferrujado foi até sua cela vê-lo. Conversaram durante um bom tempo. A guerra por Grande Reino estava prestes a se iniciar e toda a corte temia pelo pior. Invasões e ataques à guarda do Rei pareciam já estar todos planejados e o casamento de sua Princesa seria no dia seguinte. Estranhou que nenhuma lágrima tivesse escorrido de seus olhos. Tradicionalmente o noivo dava um grande presente à sua noiva. O Vilão decidiu que a execução do Menino seria o mais apropriado para dar à sua futura esposa. Morte por enforcamento. A agonia de estar tão perto do chão e em fração de segundos deixar o mundo. A última notícia foi a que realmente o fez chorar. Cadela não estava mais entre eles. O seu amigo cavaleiro contou que o bicho uivou a noite toda esperando a volta do Menino. Já estava velha e não forte o suficiente para aguentar uma madrugada inteira ao relento do sereno. Faleceu esperando sua volta. Soluçando, restava a ele apenas que se conformasse.
    Foi um dos dias em que mais esteve em paz. Aquele desconforto todo de estar preso finalmente teria um fim, junto com ele. Teria pelo menos uma última chance de admirar toda a beleza que a Princesa exalava e acenar-lhe uma última despedida. Com toda a certeza ela estaria em uma linda vestimenta, talvez rosa, talvez branca, talvez dourada, isso não tinha como dizer. Eram suas cores preferidas. Podia ser também que combinasse as três cores. Linda ela estaria de qualquer jeito. Por um momento quis ficar com raiva de tudo, mas soube que era assim mesmo que pessoas como ele terminavam. Classes diferentes não se misturavam e a de baixo jamais alteraria sua condição de submissa à superior e sempre a sustentaria.
    O Menino percebeu que já era de noite por causa do frio que tomou sua cela completamente. Estava a poucas horas de deixar aquele cubículo para sempre e ir encontrar Cadela. Perguntou-se se ela estaria ainda uivando à sua espera no horizonte da transcendência. Iria abraçá-la tão forte como nunca o fizera. Um som estrondoso de canhão o fez voltar de seus pensamentos. A guerra havia chegado ao castelo.
    Gritos e comandos de ataque podiam ser ouvidos de longe. O Menino começou a inquietar-se em sua cela. Podia ser sua chance de escapar ou podia ser que os rebeldes o esmagariam ao verem nele um peso morto. Havia alguém que não via total inutilidade nele. O Enferrujado. Ele chegou ofegante.
    “Tenho uma ideia. Não discuta. É agora ou nunca”. O Menino ouviu atentamente ao plano e concordou. O cavaleiro deu os detalhes finais e saiu, agora talvez ele estivesse com mais frio que antes.
    CAPÍTULO 15
    Assim que a cela se abriu ele imediatamente buscou a saída. Não conseguia enxergar muito bem daquele jeito. Estava ligeiramente mais lento que o normal. Se escorando por entre os becos ele finalmente atingiu a área fora do Castelo. Seguiu pela estrada que levava às redondezas de sua agora inabitada casa. Inabitada e quase totalmente destruída. Aqueles que se rebelavam não aliviaram nada que encontraram pelo caminho.
    Chegou pouco tempo depois. Ele pôde julgar que seus pais haviam partido há não muito tempo aparentemente. As faíscas da lareira ainda estalavam. Ele começou a procurar incessantemente algo muito valioso. “Tem que estar aqui em algum lugar”. Enfim achou. Estava bem despedaçado e queimado, mas a intenção era mais importante. Guardou e saiu. Sem perceber tropeçou em algo duro no quintal. A terra estava fofa sob a cruz de madeira. Percebeu do que se tratava. Voltou a entristecer-se com a ida de Cadela, porém concentrou-se novamente no que devia fazer.
    O Menino se sentia seguro como nunca antes. Todas essas recentes desventuras contribuíram para torná-lo uma pessoa de muito mais atitude. Ele enfim sentia-se um homem de verdade. E foi confirmar seus anseios.
    CAPÍTULO 16
    Com o pente à mão, a Princesa estava parada olhando através da janela o caos. A vidraça era a linha tênue que a separava de seu conforto e a submergia na realidade. Desejou jogar-se do parapeito e voar livre para bem longe, onde nada mais a afligiria. Sentou-se em frente à penteadeira. Na porta do seu quarto guardas tagarelavam.
    “Veja, é o cavaleiro de sucata”, disse um dos dois guardas que paravam junto à porta de sua amada.
    “Ordens do Rei Alce X. Estou encarregado de levar a Princesa a um lugar mais seguro”, exibiu o documento com certificação real. Mesmo desconfiado o guarda deu passagem e ele entrou no quarto.
    Parada em frente ao espelho estava ela. Penteava seus longos cabelos em um movimento uniforme. Penteava apenas por pentear. Ela sabia que não sairia ilesa se fosse capturada por rebeldes. Com o canto do olho a Princesa viu a entrada do Cavaleiro.
    “Ah, é você. Parece que é o último amigo que me restou.”
    “Temos de ir”, disse ele, “ordens do Rei. Vou levá-la a um lugar seguro.”
    “O que meu pai ordena ou não deixou de ser relevante para mim desde o dia que concordou em casar-me com aquele crápula”, disse uma Princesa indiferente.
    “Princesa, garanto que ficará bem distante desse vil homem e mais perto de quem realmente gosta, se é que ainda gosta.”
    Ela então entendeu o que aquela visita significava e concordou em ir com o Cavaleiro.
    CAPÍTULO 17
    Descendo às pressas a escada em espiral que tinha saída para os jardins de trás do Castelo estavam o Cavaleiro e a Princesa. Ele segurava a mão dela e a puxava pelos degraus. O objetivo era tirá-la a salvo do Castelo.
    Ela estava com medo. Todo o ambiente no qual crescera e vivera todos seus momentos felizes estava em chamas. Percorrendo o caminho reconheceu pelo menos três corpos de senhoras que fizeram parte de sua infância. Sentiu por elas, mas continuou
    determinada. “O Menino conseguiu se salvar e agora estou indo me salvar para junto dele”. Deixaria toda aquela vida de regalias para trás e começaria uma nova vida.
    Foi quando a poucos metros viu seu pai lutando contra três homens armados. O Rei até era um pouco senil, mas era um exímio combatente. Cortou um ao meio e o segundo perdeu a cabeça em um golpe singular. O terceiro levou mais tempo. Por portar um escudo deu mais trabalho. Com um pontapé nas pernas do homem, o Rei o fez ajoelhar-se e sem piedade deu-lhe um ataque derradeiro.
    O olhar da Princesa e o de seu pai se encontraram. Ela sentiu que ele queria dizer alguma coisa. Não deu tempo. A velozes galopes um cavaleiro mascarado, armado de uma lança, atravessou o jardim e deu fim ao Rei. A longa estaca com ponta de ferro entrou pelo abdômen e saiu pelas costas, perfurando toda a região estomacal do pai da Princesa. Ele caiu de lado e ela conseguiu ler seus lábios pela última vez que pareciam dizer: “Me desculpe”. Ela não se aguentou e começou a chorar. Deixou de seguir o Cavaleiro para ir acudir seu pai. Em vão. O carrasco do Rei desceu de sua montaria e tirou a máscara. Era o Curado. O Vilão. Ele jogou a máscara fora e se aproximou da Princesa.
    “Você é a próxima. Assim não sobrará ninguém da linhagem real que me impeça de assumir o controle do Reino”, disse ele em um tom de orgulho enquanto desembainhava uma adaga.
    “Por quê?”, ela perguntou engasgando-se com a fala
    “Foi sempre a minha intenção. Eu planejava matá-lo apenas após nosso casamento, mas essa rebelião veio a calhar. Sou apenas o homem certo, na hora certa...”, ele se aproximou mais dela “...no lugar certo”. O Vilão estava pronto para abatê-la quando o Cavaleiro o atingiu com uma pedra na cabeça.
    “Vamos! Corra!”
    A Princesa jogou fora seus sapatos e começou a correr. Estavam perto de conseguir. Tão perto. Ela corria tanto que nem percebeu que passou a correr sozinha. Quando olhou para trás viu o cavaleiro de joelhos, peito estufado para frente, como se algo
    o tivesse atingido. Voltou para ver o que havia acontecido. Da região de seu coração saía uma ponta de aço em cores vermelhas e roxa. Uma flecha envenenada. Ao longe viu o Vilão segurar um arco. Sua tristeza naquele momento era imensurável. Ela pôs-se a chorar.
    “Agora só me sobrou o Menino, me diga onde ele está”. O misterioso Cavaleiro então decidiu retirar o pesado elmo. Ao
    revelar seu rosto foi eminente a cara de surpresa que a Princesa fez.
    “Não, não, não...”, dizia em meio a um rio de lágrimas.
    “Pegue”, o Menino estendeu para ela o que era para ser o mais charmoso dos buquês. Era só um monte de flores murchas e chamuscadas. “Eu devia ter lhe dado isso antes”, disse sorrindo. A calma dele a deixava confusa.
    “Por último sempre o melhor”, foram suas últimas palavras.
    Ali sim seria um ‘adeus’.
    O veneno começou a agir e paralisou toda a parte de baixo do Menino. Infeliz morte, mas morreu sorrindo. A nobre Princesa do Haras agora se ajoelhava e chorava pelo simplório Menino. O Menino que era sonhador, que montou em Cadela, que olhava as estrelas. O Menino que era romântico, que era poeta. O Menino que teve seu momento de fraqueza e decidiu tornar sua inativa vida em uma mais sativa. O Menino que chegou a ser inclusive cavaleiro. O Menino que foi de tudo, menos um menino apenas. E que agora iria encontrar a Cadela.
    A Princesa pegou em sua mão e inclinou-se. Ele já estava morto quando ela o beijou. O primeiro beijo da Princesa. Em uma pessoa morta. Primeiro e último.
    CAPÍTULO 18
    Sim, a expressão morrer de desgosto existe e foi o que aconteceu. Não aguentando ver o Menino que jazia sem vida ao seu lado, seu pai morto também, a Princesa acompanhou-os todos nessa viagem longínqua. Suas mãos ainda estavam dadas às do Menino quando foram encontrados no dia seguinte. O caos havia tomado Grande Reino. Uma verdadeira anarquia pairava. O corpo do Curado não foi encontrado, inteiro. Havia partes dele ao longo de todo
    o jardim.
    A enorme dificuldade que o Rei Alce X tivera para organizar a região era pouco a pouco esquecida. Pequenas comunidades independentes foram se formando e declaravam autonomia sobre as terras. Eram guerras sem fim. O Menino morreu sem cumprir a promessa de arranjar cônjuges para os Músicos. Estes se mudaram para longe. Do Mouro sabia-se que havia arranjado um pequeno affair com uma simpática moçoila chamada Gota. Quis o destino que seu amigo Artista, de cuja sexualidade às vezes duvidava, ficasse com a Cabocla. Ele a fazia muito feliz. Já o tocador Jota permanecia sozinho, acompanhado apenas de seu alaúde.
    A interminável luta de sentimentos dentro do Menino acabou por matá-lo. Fosse ele um pouco menos indeciso talvez ainda estivesse vagando por aí. Porém raro é aquele que sabe definir o que é certo e errado nessa fase da vida. Ele teve a oportunidade de viver uma eloquente paixão e bucólicos momentos de felicidade. A fusão entre sentimentalismo e razão com a qual ele levou a vida tornou-se seu legado.
    A Princesa infelizmente acabou descobrindo o amor tarde demais, mas conseguiu, mesmo que por pouquíssimo tempo, contribuir para o bem-estar emocional de um jovem rapaz. Que culpa teve ele de se apaixonar à primeira vista pela mais linda das mulheres? Quem sabe ela não tenha aprendido o verdadeiro significado de gostar de alguém.
    De idas e vindas é que é feita a vida. A todos cabe desempenhar da melhor maneira possível o que lhe é desafiado. O Menino estava morto, a Princesa estava morta. Cadela idem. Seres com diferentes perspectivas que agora dividiam o mesmo espaço temporal. Podia ter sido qualquer um em seus lugares, o que mostra que não há predestinação, muito menos interferências sobrenaturais.
    Parece ironia. Todos sabem que um dia terão de partir e ainda assim fazem de tudo para adiar esse momento, tentando ser felizes como se cada dia fosse o último. A morte não avisa, é inevitável e nem um pouco desejada.
    Feliz ou não, essa história chegou ao seu fim.
    FIM

     

  • UM DIA

    Um dia eu perdoei meu inimigo e fui forte.
    No outro eu pedi perdão e fui grande.
    Um dia mostrei minhas razões e fui eloquente.
    No outro ouvi meu próximo e fui humano.
    Um dia lutei pela minha causa e fui bravo.
    No outro lutei pela causa alheia e fui gente.
    Um dia batalhei pelo que queria e fui perseverante.
    No outro dividi o pão e fui rico.
    Um dia recebi aplausos e fui admirado.
    No outro fiz o bem em silêncio e os céus me aplaudiram.
    Um dia usei a inteligência e fui respeitado.
    No outro usei o coração e fui amado.
  • Um dia para cair no esquecimento

    Acordei com dores de todas as formas físicas e psicológicas conhecidas. Ninguém me ama, nem eu. Estou pronto para morrer. Estou pronto há décadas. Por favor Senhor, perdoe minha covardia e acabe com isso. Se as dores no peito não são um sinal claro do fim, o que vai ser? Não sei porque corpo e mente insistem nessa tortura. Parece que centenas de micro aranhas estão arranhando minha garganta e um bando de duendes do inferno estão martelando a minha cabeça. O que mais eu botei para dentro além de bebida? A culpa é dassa porra!

    Liguei o rádio e um cronista tosco estava falando alguma coisa sobre viciados em drogas. “Estas pessoas precisam entender que elas não estão aptas a viver em sociedade porque elas não produzem...”. Sempre que escuto coisas assim culpo a comunicação pelos caos social. É muita voz para pouca ideia. Coloquei um K7 velho do Led Zeppelin para tocar e fui para cozinha empurrado pela queimação no estômago.

    ♫“In my time of dying, want nobody to mourn;
    All I want for you to do is take my body home;
    Well, well, well, so I can die easy;
    Well, well, well, so I can die easy....”♫

    Era disso que eu precisava!

    Abri a geladeira e me deparei com um queijo velho, leite e um pouco de margarina. Pus o leite no fogo junto com a margarina. O queijo ganhou mais um tempo para juntar mofo. Acendi um baseado e fiquei olhando a margarina derreter e se espalhar pelo leite, depois formar uma deliciosa espuma de gordura com a nata pronta para transbordar felicidade para Gregors por todo fogão. Quando começou a subir na panela desliguei e coloquei numa xícara que tava meio limpa em cima da pia. Me sentia como um americano sentado na cozinha tomando leite com margarina, fumando um cigarro e lendo o jornal.

    Trim, trim, trim.....parei de ler e fiquei esperando a secretária eletrônica atender. Sempre me assusto quando o telefone toca. Ninguém nunca me ligou para conversar ou dar boas notícias. “Piiiii.........Oi...bom dia.....nós não nos conhecemos......meu nome é Miguel.......sou coordenador do curso de letras na faculdade.............queríamos te convidar para recitar seus poemas........no nosso próximo Congresso........meu número é 2 4 5 3 0 4 2........bem......obrigado.”

    É sempre bom saber que se tem para onde correr, mas estou querendo ficar parado no momento. Não lendo o jornal. Passando o olho numa notícia sobre os caminhos para se acabar com a pobreza ficou claro que eu e o resto da humanidade não estávamos vivendo no mesmo planeta.

    Virei o K7 e sentei na companhia de um livro de contos do Bukowski. Nós sim estávamos vivendo no mesmo planeta. Entre “Atirei num cara lá em Reno” e “Kid foguete no matadouro” cai no sono dos campeões.

    Foram pouco mais de uma hora sem sentir nenhuma das dores da vida. Levantei pensando que precisava de alguma coisa para acompanhar o queijo que tinha sobrado na geladeira, além de cigarro e bebida. Não ia ter como fugir de pisar na rua.

    Tomei um banho e fiz tudo que podia para não se parecer com o que eu era. Ser eu sempre torna tudo mais difícil. Ninguém gosta de pessoas como eu. Não consigo disfarçar muito bem que acho que tudo é ruim, que os outros são chatos e os lugares que não são minha casa também não são legais.

    Bolei mais um baseado para conseguir suportar a pressão dos olhares na rua e sai rumo ao mercado. As vezes é estranho ver as um exército de carne humana fazendo coisas cotidianas como robôs pré-programados. Levantar cedo, ir na escola/trabalho, almoçar assistindo TV, jantar assistindo TV, dormir assistindo TV. Na maioria do tempo isso não faz o menor sentido. A ideia de viver num mundo onde isso não é o padrão me agrada mais que o atual cenário. Tenho visões em que me vejo tendo impulsos repentinos de gritando desesperadamente que todos parem tudo. Depois caio no chão me retorcendo como plástico pegando fogo. Nem sempre é fácil manter o controle. Não é que não gosto das pessoas, mas prefiro elas longe de mim.

    No caminho ainda tive a oportunidade de testemunhar um acidente de trânsito. O carro do direita parou para o que vinha no sentido oposto, na esquerda, atravessar a pista e entrar na rua transversal. O carro que vinha atrás não quis ser tão gentil, e na tentativa de desviar do outro que parou encheu a lateral do que vinha da esquerda. Pensei que a brutalidade do outro transformou a gentileza do um em estupidez, e ainda bem que eu não estava em nenhum carro.
    Cheguei no mercado preparado para ser direto e letal. Entrar, comprar o que tinha que ser comprado e sair em cinco minutos, sem precisar falar com ninguém de preferência. Peguei leite, margarina, banana, mais queijo, pão e umas garrafinhas de suco de cevada. Respondi cinco “nãos” para a mocinha do caixa e pedi dois maços de cigarro. Voltei para casa sem precisar usar muito mais que monossílabos para me comunicar. Considerei uma saída de grande sucesso. Me sentia tão feliz e pronto para encarar a vida que o fardo de estar vivo parecia quase como um presente divino.

    Ajeitei tudo na cozinha e fui me preparar. Era terça-feira, um bom dia para ir ao bar. Vazio e silencioso. Sem jogo de futebol, sem hormônios desesperados por uma metida, sem papo, sem calor humano. O verdadeiro paraíso. Não há dor que o álcool não possa curar nem tempo que ela não possa preencher. Só precisava de mais um baseado e de escutar o outro lado do K7 do Led que dormi no meio. Não se tinha alguma coisa haver com o alinhamento de Plutão com a Lua, mas o dia estava favorável e nada seria capaz de me deter, mas a campainha tocou seguida do gruindo: “carteeeeeeeeiro”. Olhei e vi um envelope sendo arremessado por debaixo da porta. Era o Ministério da Guerra que estava cobrando minhas contribuições atrasadas, e elas não querem receber em poemas contemporâneos realistas marginais, tem que ser em dinheiro. Isso ou uma bala no peito atirada por um extremista qualquer num ponto remoto do mapa. Que merda! Peguei o telefone e liguei para o cretino do recital.
  • Um Dialogo

    Eric do Vale

    - Lembra-se de que, uma vez, eu te disse que aqui as paredes tem ouvidos?

    -Lembro sim, por quê?

    -Porque quero que continue sabendo disso.

    -Aconteceu alguma coisa?

    -Não sei, aconteceu?

    -Perguntei primeiro.

    - E por que você acha que aconteceu alguma coisa?

    - Pela forma como você me abordou...         

    -Então, aconteceu.

    -Não aconteceu nada.

    -Melhor assim.

    -Com licença.

    -Espere, eu ainda não terminei.

    -Você quer me explicar o que é que está havendo?

    -Torno a dizer que aqui as paredes tem ouvidos e olhos também.  

    -Eu já sei.

    -Sabe mesmo?

    -Você já tinha me dito isso, antes.

    -E digo de novo.

    -Posso saber por quê?

    -Porque fiquei sabendo de uma história sua.

    -Uma história minha?

    -Uma pessoa veio me dizer que você foi procurar o chefe e disse que precisava falar com ele, pois era de extrema importância. Aí, o chefe perguntou do que se tratava e você disse que era em particular.

    -Eu não vou nem perguntar quem foi que te falou isso, porque sei que você não vai revelar, mas posso te garantir uma coisa: isso nunca aconteceu. Pode até ter acontecido e eu não esteja recordando, mas que importância tem isso?

    -Não sei se tal informação procede, nem quero saber e tenho raiva de quem sabe. Mas, o que me deixou com a pulga atrás da orelha foi que eu tomei conhecimento disso por meio de alguém com quem não tenho nenhuma ligação, sem falar no conselho que essa fonte me deu: “Não acho essa pessoa muito confiável. Muito cuidado! ”.

    -Se eu quisesse aprontar com você, já teria feito isso, antes.

    -Quer dizer que você estava querendo puxar o meu tapete?

    -Não é bem assim...

    - Só te digo uma coisa: caso queira me derrubar, certifique-se, primeiro, se a pessoa, ou as pessoas, para quem você está fazendo a minha caveira é, ou são, de inteira confiança. E eu não estou falando só de mim, lembra-se daquela figura que foi falar mal do chefe para o pessoal ligado a ele? Nem preciso te dizer como isso terminou, porque você viu com os seus próprios olhos. Aqui, dedo duro não tem vez.

    -  Não é, nunca foi e jamais será a minha pretensão puxar o tapete seu ou de quem quer que seja. Acho que não me expressei direito. 

    - Por isso, eu te digo para tomar muito cuidado com o que diz.

    -Vou seguir esse seu conselho.

    -Só mais uma coisa: aqui, todo cuidado é pouco. 


  • Um Final Feliz...

    Essa é a história de uma menina que nunca se encaixou em nenhum lugar do mundo…
    Desde pequena ela se sentia diferente das outras meninas de sua idade. Enquanto as outras gostavam de se arrumar, de serem aceitas nos grupinhos mais populares da escola, essa garota usava moletom de cactos, as “amigas” diziam que era pijama, mas ela considerava um elogio ser diferentes das pessoas ao seu redor (ela sempre gostou disso).

    Ela também gostava de caminhar mata a dentro com sua irmã e algumas colegas, brincar de escolinha, (odiava bonecas, queria aventura) sonhava em ser bruxa, dormia na sala escondida da mãe pra assistir os filmes do Harry Potter, amava os animais, até roubou um gato uma vez. A vida inteira morou pertinho do mar, numa casa velha, na rua da cachoeira, gostava de cantar. Reunia as amigas no quintal para contar histórias de terror, subia em goiabeiras, corria de medo de borboletas gigantes, mas vivia procurando cobra coral no meio das pedras da cachoeira. Ela era estranhamente interessante.

    Na adolescência começou a estudar a Bíblia, afinal, ela amava aprender sobre tudo, sempre acreditou em Deus e amava toda a sua criação. Mas também acreditava em alienígenas e fadas, passava horas olhando para o céu em busca de naves, mas só via aviões e ainda assim tentava imaginar que eram realmente óvnis.
    Seu primeiro beijo foi aos 13 anos com o garoto da escola que ELA escolheu. Os pais surtaram quando souberam, a proibiram de ver o garoto, afinal ela era nova demais, e sua família era muito cristã. Foi a primeira vez que sofreu por alguém.

    Com o tempo ela se tornava mais questionadora, curiosa sobre tudo, sobre o mundo, sobre as pessoas, não se contentava com respostas curtas, queria saber o porque de tudo! Se revoltava quando não tinha a resposta que queria, foi uma adolescente rebelde, e ao mesmo tempo tímida, mas sempre em busca dos seus sonhos. Agora ela queria cantar numa banda de rock, e é claro que ela conseguiu, apesar de não ter durado muito tempo, ela conseguia quase tudo o que queria.

    A partir daqui, a história vai começando a ficar um pouco triste e pesada. Aos 16 anos ela se apaixonou pelo baixista da banda, que também se apaixonou por ela, e começaram a namorar, escondido, porque seus pais ainda a achavam nova demais pra isso, até que descobriram e os chantagearam dizendo: -“ou ele te assume e te leva pra morar com ele, ou não queremos mais que vocês se vejam.” Já imaginam né, ela foi morar com ele e sua família, e assim ficaram por dois anos, até que ela fez dezoito anos e seus pais a aceitaram de volta em sua casa, até seu namorado foi junto, e assim ficaram mais um ano, até que certas atitudes de ambos, fizeram com que essa história chegasse ao fim, só que não…

    Ele voltou a morar com os pais e ela decidiu ir morar sozinha pela primeira vez. Ela até tinha algumas amigas, e queria aproveitar a vida, saía, bebia, curtia o que podia, mas nada a satisfazia. No fim do dia, ela só queria acordar com alguém ao seu lado, mas nem sempre era quem ela queria, e tudo voltava a rotina, festa, amigas, bebedeira e mais insatisfação. Ela se perdeu, conheceu o inferno, mas nunca perdeu a esperança nas pessoas, no amor. Ela levou um longo tempo para esquecer a história com o baixista, até que desistiu e decidiu recomeçar a vida.

    Abandonou tudo e todos que se diziam amigos, foi morar no interior, para poder ficar perto dos pais e cuidar melhor de si mesma, conheceu pessoas incríveis e um lugar mais incrível ainda. Ela teve algumas crises de ansiedade até se acostumar com o novo estilo de vida, ela partiu alguns corações (quem nunca), mas ela encontrou alguém na pequena cidade que a fizesse feliz da forma que ela sempre sonhou, e hoje estão juntos.

    Hoje ela faz 25 anos, e diz com toda a certeza que se encontrou, que encontrou seu lugar no mundo. Ela é fotógrafa, registra com amor os momentos de amor, ela tem as pessoas mais importantes ao seu lado, ela é grata todos os dias pelos amigos que fez, pela beleza da natureza, pela magia encontrada em cada cachoeira. Ela é feliz, ela sou eu!

  • Uma controversa

    O ano era 1890, em Avaré, havia uma família que era o exemplo para as outras instituições familiares. Faby era a filha do casal Silvia. Ela era uma bela jovem admirada por todos por conta da sua intelectualidade. Era tão linda quanto o pôr do sol que se via a beira do mar. Seus pais, Carla Francisca Silvia, era uma ótima mãe e uma excelente dona de casa, todos comentavam o quanto sua casa era totalmente arrumada e limpa, seu marido Sebastian Carlos Silvia era um excelente pai e marido. Era a mão direita do prefeito e sempre frequentava a missa de quartas, sextas e domingos com a sua família. 
    Faby estava no seu último ano do ensino do médio, sua família já estava tentando arranjar um marido para sua única filha, e pretendente era o que não faltava. Na sua escola de Faby os professores pediam para os alunos que escrevessem bilhetes onde eles escreveriam seus desejos para o futuro  e por conta de um sorteio, Faby foi escolhida para ler seu bilhete para todos da turma, quando leu todos da turma se chocaram pois não era o destino que todos imaginava para a bela Faby, no bilhete estava escrito: “ Meu desejo é que eu possa passar meus dias sem ir à igreja e possa frequentar lugares onde a minhas perguntas sejam respondidas sem envolver a religião e que as mulheres possam ser superiores aos homens”. Por conta do bilhete seus responsáveis foram chamados para falar sobre esse ato considerado uma rebeldia pela moça, seus pais conversaram com o reitor e disseram que aquilo não se repetiria.  
    Chegando em casa a dona Carla foi direto pro quarto da moça e quando chegou não pode acreditar no que viu, havia relatos jornalísticos de bruxaria, onde diziam que elas se sentiam superiores aos homens colado no quarto da moça, alguns encantamentos e algumas coisas similares. Ela quase teve um desmaio quando viu aquilo, quando Faby chegou em casa depois de ter ajudado uma senhora que morava na colina, Sebastian queria dar uma surra na filha por tentar destruir a imagem da família perfeita, mas dona Carla conseguiu controlar a raiva do marido e ordenou que a moça não deveria mais ver a senhora da Colina, que era ela que estava incentivando a Faby a ter pensamentos como aqueles. Mas uma fofoca começou a se introduzir no meio da igreja em plena a missa de sexta, numa sexta-feira 13, onde todos da cidade se reuniram e diziam que Faby era a mais pecadora de todos, que ela havia se tornado uma bruxa junto com a senhora da colina, algo que já estava sendo esquecido pelos moradores. Era impossível a missa ter um fim, e como o Padre havia pedido para alguns de seus fiéis, pediu para que trancassem as postas e não deixasse os Silvas saírem dali. Do nada o padre diz que Deus estava mandando-o a jogar Faby e sua mãe na fogueira, Sebastian enlouqueceu, entrou em desespero e saiu batendo em todas as mulheres e homens que seguravam sua filha e esposa, pediu para que elas fugissem, mas só Faby fugiu.  
    Faby conseguiu fugir para colina, onde ninguém tinha coragem de ir. Seu pai for morto por ter ajudo uma bruxa a fugir e sua mãe foi presa por homens em um cativeiro onde ninguém sabia o que ocorria. Chegando na colina ela pediu ajuda a Izzy, uma senhora que morava isolada de todos. Ela contou que a muitos tempos atrás eles achavam que ela era a bruxa das bruxas, por que todos os homens eram caídos por ela e ela nunca precisou ser sustentado por homem. As mulheres enfurecidas pediram para que o padre expulsasse Izzy, ou ela acabaria dominando a cidade que já era pequena. Izzy foi viver na colina, onde ela ainda recebia visita de alguns homens, mas ninguém de Avaré, ela deixou a moça viver ali até que a poeira abaixasse. Faby passou uns 2 anos com Izzy, quando resolveu voltar para Avaré, chegando lá ela soube que a Febre de Lassa matou quase todos da sua cidade, ela foi ver o padre, ele ao ouvir a sua voz pediu para que ela fosse embora de lá, que tudo aquilo tinha acontecido por terem deixado uma bruxa viva, por mais que a mãe dela tinha sido morta na fogueira nem isso acabou com a ira de fúria para o padre. Faby na hora encheu seu coração de raiva e a única coisa que fazia era chorar enquanto voltava para a colina, chegando na colina Izzy perguntou o que havia acontecido e Faby contou tudo, Izzy disse que havia uns livros onde havia receitas de alguns medicamentos, Faby estudou e fez vários testes de vacinas com um velho que estava com a Febre de Lassa quando ele veio visitar Izzy, depois de muitos esforços ela conseguiu achar a cura. Faby saiu distribuindo a cura para todos de Avaré, quando foi entregar ao Padre, ela disse para ele lembrar que quem salvou ele foi uma bruxa e não o senhor que ele acreditava. 
  • Uma simples história

    Ainda me lembro! Uma quarta de tardezinha. 4 aula do dia, e a atenção voltada para o português. Ao final o desafio de criar um texto literário. Confesso que um pouco me assombrei. Mas o que temer? Algo que eu sei é escrever.
                Hora de ir embora, segui andando, estava como pássaro que em voo sai do galho sem destino, mas com a certeza de que em outro galho pousará. Já em casa, caneta e caderno velho em minhas mãos, meu desespero começa - mal sabia eu que, aflição maior estava por vir – meu desejo era escrever uma história, já estava tudo em minha mente, faltava apenas jogar no papel.
                Np momento em que pensava dar início ao meu texto, o cachorro vem e começa a brincar, queria minha companhia. Começou cheirar-me, saltar em meu colo. Não tive escolha, fui satisfazer o desejo do meu amigo que me olhava, quase q implorando minha atenção. Instantes depois, volto ao caderno, estava pronto para a primeira palavra desenhar, meu pai chaga e liga a TV, o futebol estava a começar. Não conseguia escrever, não queria assistir, era o barulho que me atrapalhava. Foi necessário ir para um lugar mais tranquilo. Fui para meu quarto. E, com isso, não havia escrito nada.
                Agora sim – pensei comigo mesmo – consigo escrever. Sentado na cama, caneta na mão e caderno no colo... Do nada ouço uma voz “olha o arroz ai!”. Era minha mãe, que clamava do banheiro. Olho para a sala e meu pai continua deitado, sobrou para mim determinada tarefa. Então vou a cozinha, desligo o fogo e volto ao meu quarto. Novamente sento na cama, caneta na mão e caderno no colo.
                Cerca de cinco minutos depois continuava na mesma posição.  De minha cabeça a história sumiu. – Será que o que eu tinha a escrever fosse algo tão incrível que um ser estranho, talvez invisível, padece vir a rouba-la? Um ladrão de histórias. Porque logo eu ser a vítima? Há tantos escritores profissionais que, com certeza, escrevem e pensam melhor do que eu­ – Quem pensamento idiota, não, idiota não, este é um pensamento muito criativo, coisa de quem não está em seu juízo perfeito.
                E continuava a perguntar para eu mesmo. Como alguém pode perder o que não se pode tocar, algo imaginário e que somente eu sabia, existente apenas em minha mente? E esta pergunta acabou ficando sem resposta. Estaria eu louco? E agora como posso ocupar as linhas destas folhas? Podia perguntar algo ao meu travesseiro, com ele estão confidenciados inúmeras coisas referente a amor, medo e sonhos, tudo coisa minha. Onde está meu juízo? Meu confidente falando? Não conheço sua personalidade. E se ele contasse para todos? Que vergonha sentiria.
                Não estou normal, tudo por causa de uma história. Eu aqui sem ter o q escrever e com pensamentos tão absurdos. De fato minha história havia sido roubada, mas quem são os culpados? Talvez tenha sido o arroz, o futebol ou o cachorro, o cachorro? Não, não pode ser, seria ele capaz de tanto? Será que o arroz e o jogo ajudaram o bicho? Um complô contra mim. Que loucura, como posso ser capaz de pensar em tanto e não poder escrever um simples trabalho de escola. Estava me afogando em meus pensamentos.
                Então me dei conta, a ansiedade acabou me enganando, o entusiasmo de escrever era tanto que não havia pensado em nada. Retornei a mim mesmo, é obvio! Não escrevia porque não havia o q escrever. Então sorrindo de mim mesmo, lembrando de cada pensamento, vendo minhas próprias reações de preocupação sendo que não havia nada pra se preocupar. E o pássaro encontrou um galho onde pousar, respirei fundo e comecei a escrever os últimos sessenta minutos de minha vida, a mão em rápidos movimentos foi enchendo a folha de papel e a alegria me consumia a cada palavra desenhada.
  • Uma Taça

    Em uma taça, o sangue dela e um beijo interrompido.
    Minhas noites eram tranquilas até ela entrar na minha cama e dizer: "eu sou aquela que vê seus exorcismos".
    Foi fatal o beijo naquele dia do passado.
    Vampiro, deixei me enclausurar sofrendo a ausência dela. Ela descobriu os meus piores demônios.
  • Uma vida Cyberlife

                Poucas coisas nos angustiam como o futuro. Essa coisa que apenas projetamos e não vivemos cria sonhos e gera pesadelos. Quando a Sem Tinta Editorial resolveu publicar uma coletânea de contos de ficção científica, a antologia Cyberlife, diversos autores nacionais se empenharam na tarefa de escrever sobre a vida no futuro. A base para isso era a inclusão de vidas artificiais e alienígenas, o que tornava o cenário complexo para nós humanos.
                O organizador Erick Alves acertou em cheio nas escolhas. Em catorze contos, vemos como os terráqueos teriam que lidar com novas formas de vida, sejam elas com ossos de metal e pele orgânica, ou vindo de planetas distantes. O livro mescla vários subgêneros da ficção científica como o cyberpunk e a space opera, além de grandes doses de futurismo. Técnica e imaginação foram essenciais na construção desses mundos.
                O conto que abre a coletânea é o Injeção leta de culpa, escrito pelo Erick Alves. Nessa história ele aborda a relação entre duas personagens: Lady Fox, uma rebelde de um grupo revolucionário chamado de a Corte, e Norene, uma agente policial. Aqui o autor aborda a marginalização da juventude sem esperança e niilista, em contraponto ao corporativismo das instituições e a rigorismo das leis penais. O final foi emocionante e inesperado.
                O texto seguinte, Onde mora a lua do Thiago Franco, foi o que menos gostei. O conto tem uma ótima narrativa em primeira pessoa, e se divide entre as memórias da protagonista como viajante espacial e o seu presente como gladiadora. Embora o título do conto se refira a lua, o satélite teve muito pouca importância. A obra é carregada de nuances poéticas, mas o problema mesmo é o final, com direito até a Deus ex machina. Acabou com o clima de “felizes para sempre”, para o que foi apresentado na trama, soou romântico demais.
                O terceiro conto para mim é o melhor. O Rodrigo Ortiz Vinholo nos trouxe o conto A semente do céu. De todos os contos apresentados, ele apresentou o melhor conceito e também o desenvolveu com muito sucesso. A história narrada em primeira pessoa revela os questionamentos de um extraterrestre que vive em bairros planejados, o que eu entendi como se fossem guetos nos moldes de segregação racial. As sementes a que o título se refere são capsulas espaciais que chegam a terra, e graças a sua alta tecnologia, regeneram a vida em seu interior. O conto aborda de modo muito prolífico o fanatismo religioso e o preconceito racial, bem como as consequências sociais negativas sobre o fato.
                O meu conto vem logo em seguida, e se chama O Bairro Esquecido. Nele eu abordo a história de um bairro onde convergem refugiados, androides, cibercriminosos e extraterrestres. Eu gostei muito do resultado desse conto, e o organizador acreditou na sua estrutura narrativa. Espero que o leitor goste. Para mim foi um desafio escrever um conto sem mocinhos nem vilões.
                Anabel, a poeta é escrito pelo Felipe Del Bosco. Nesse conto o autor aborda de modo poético vários questionamentos sobre o tecnicismo, voltado para a escrita. Ao longo do texto, a protagonista demonstra ter umas fugas da realidade. O cotidiano se torna uma montanha russa de alucinações constantes. O que mais surpreende nesse conto é que a protagonista não é bem o que pensamos no início.
                Jon O’Brien nos traz o conto Crianças aprendem a odiar. Embora a protagonista e a narrativa foquem em crianças, o conto é bem assustador. Uma metáfora para a ausência de humanismo o período de educação infantil, o que torna as crianças cada vez mais violentas e portadoras de preconceitos enraizados de modo profundo. As crianças são o espelho da sociedade, só que sem freios morais.
                Um pequeno ponto pálido é o conto trazido pela escritora Ana Carolina Machado. É a história mais curta do livro, mas rico em detalhes e sentimentos. O primeiro é a solidão, não caber em um mundo, estar a margem de uma sociedade e saber que nunca mais pode voltar para a sua terra natal provoca uma certa angústia. Estar invisível numa sociedade cada vez mais artificial traz mesmo uma náusea na gente.
                O homem de vime é um conto que une o cyberpunk e o thriller psicológico. Yian é um agente policial que tem como missão levar um prisioneiro a Kadath, onde oniromante, seres que controlam a capacidade se sonhar, irão cuidar de extrair as informações de sua mente. Ao longo da obra, temos uma sensação sufocante de déjà vu. Foi um dos contos que mais gostei, o final foi um choque para mim. A imagem do homem de vime a que o autor recorreu é perturbadora.
                O conto seguinte é do autor Paulo Matheus Ferrari. Em seu O som do metal, um homem ganha um violino de um estranho na rua, assim, sem mais nem menos! Ao longo do conto, através desse gesto, o personagem vai se questionando sobre a artificialidade da vida humana. O conceito de mind upload foi legal, mas acho que a história em si careceu de um contexto melhor. O diálogo do protagonista com a alíen foi desconexo em relação a proposta do conto. Achei que o autor ia desenvolver conflitos maiores, mas se limitou a desconfiança e reticências do protagonista.
                Em O jardim, a autora Sabrina Mota Marcondes nos mostra uma protagonista que tenta revitalizar a natureza através de pequenas ações como resgatar plantas. Um conflito em grande escala colocou humanos, robôs e extraterrestres em lados opostos. Confesso que na primeira leitura, você não saberá identificar a qual grupo ela pertence. Parabenizo a escritora, foi genial.
                O autor Mardey Stealth nos traz um conto semelhante ao do Thiago Franco, só que desenvolvido com mais competência, acredito eu. Aqui também temos um protagonista gladiador. Sua única esperança de sair dessa vida de batalhas é derrotar o campeão. Panthogar narra os últimos passos desse guerreiro em busca de liberdade. O autor se permitiu certo exagero no conflito do protagonista título com o campeão da arena, mas narrado de modo mais crível e com um final coerente.
                A autora Fernanda Miranda nos traz um conto com referência direta ao feminismo, mas ao invés de mulheres, temos robotas, e ao invés de uma ideologia, um vírus. F-7 e S.I é o mais cyberpunk dos contos dessa coletânea. A narração é muito boa, porém, os conceitos parecem meio genéricos, tipo “mundo-cópia” e os clichês dos velhos chips neurais. Nesse futuro, as robotas são androides femininas que são usadas para diversão sexual por seus donos, a autora não fala diretamente, e nem precisava. Entretanto, um vírus chamado Sentimentos-Intensos mudam suas configurações básicas, criando uma nova personalidade chamada F-7. E tem uns problemas estruturais básicos: o vírus S.I torna as robotas hipersensíveis, emocionalmente instáveis e desinteressadas, como elas vão se tornar livres nessas condições? E por último, se as robotas foram criadas pelos membros do Conselho Intermundial para auxiliar os humanos, porque são produzidas e vendias em série? Isso é fetichismo da mercadoria. Eu achei o conto bem panfletário! As metáforas utilizadas pela autora não caíram bem. O argumento da história é falho e contraditório.
                Sentimento obscuro é escrito pela Francy Lima. Nesse conto, um velho robô resgata uma criança de dentro de uma capsula de hibernação. Ao longo da história os dois descobrem que tem um passado em comum. Esse é o tipo de conto que peca pelo pouco espaço. Conhecendo esse risco, o autor sabe que sua narrativa pode apresentar soluções vacilantes na trama. Mesmo assim ela cumpriu sua função, mostrou um futuro possível e a relação entre robôs, humanos e extraterrestres. Mas faltou algo mais para prender minha atenção.
                Por último, temos o conto Brand new life da autora Mayra Pamplona. A história foca em Aglaya, a única sobrevivente de sua família após uma infecção bacteriana que provocou milhões de vítimas. Vivendo numa colônia terrificada em Marte, a protagonista vive como ume mendiga, comendo sobras de lixo e o pouco que adquire com seu artesanato. Gostei do clima descompromissado da história. A vida de Aglaya é bem traumática, só achei algumas situações exageradas como quando o robô deu sua chave mestra a alienígena, o que poderia colocar não só a vida dela em risco, bem como a de toda a Bahram. Tirando isso, gostei muito do desenvolvimento da história, mostra um outro lado dos seres humanos, que deveriam ser mis recorrentes.
                Foi a primeira edição, do primeiro do livro da Sem Tinta Editorial, então não serei rigoroso nas críticas. Os pequenos erros que apareceram não impactaram de modo negativo na leitura, e poderão ser corrigidos facilmente numa segunda edição do livro. Um ou dois parágrafos que não estavam com espaço inicial, ou uma palavra sem acento gráfico. Nada que desabone o livro.
                A brochura tem mais de 190 páginas, dividida em catorze contos, que nos dão um gostinho de quero mais. Conta com orelhas, a capa é em Supremo 300g. A introdução fica por conta de Erick Alves.  A capa do livro é sensacional. No fim do livro, temos um anúncio de nova antologia, essa será de terror e se chama Chave das trevas. O livro custa R$ 25,00. Leitura recomendada a todos os leitores de ficção científica.
    Para adquirir acesse:
  • Vai, Mas Volta Logo!

    Teu cheiro já esta em minha pele
    Tua voz ecoa nos cantos sem parar
    Sinto teu abraço e meu corpo cede
    Já é a saudade que ocupa um lugar

    Um amor que não sei explicar
    Meus olhos brilham ao te ver sorrir
    Sei que logo vou te abraçar
    Mas viciei em te fazer feliz

    Amor, hoje somos apenas um
    Um único coração que vive por dois
    Mostrando que somos seres incomuns
    Mas que se encontraram em uma só voz

    Abro mão do meu mundo para te ter aqui
    Sei que meu amor vai ao teu encontro
    Já estava escrita nossa história 
    E assim vamos seguir

    Não esquece que te quero de mais
    Então vai, mas volta logo!
  • Valeu, tio!


    onibus
    Entrou no ônibus após uma pequena corrida.

    Não queria perder a oportunidade que o sinal de trânsito fechado lhe oferecia. Já na roleta, percebeu o missionário que, na forma de vendedor de cocadas, bradava como de costume sua história de conversão aos passageiros.

    Em meio ao testemunho proclamado no interior daquele coletivo, o recém-chegado passageiro caminhou pelo centro do longo veículo a conferir o troco recebido. Não vira o rosto da trocadora, nem do entusiasmado convertido, assim como o da maioria dos trabalhadores que, após mais um extenso dia, voltavam para suas casas através daquele popular meio de transporte.

    Não havia bancos vagos totalmente, apenas um lugar aqui, outro ali, sempre ao lado de algum outro alguém sem rosto e que, para seu desgosto, não muito espaço ofereciam para ele e sua enorme sacola de doces.

    Sim... Da mesma forma que o vendedor de cocadas, também ele, o recém-chegado passageiro, carregava guloseimas. Não portava uma cesta, como o prolixo missionário, mas segurava as alças de uma vultosa bolsa plástica, repleta de chocolates, balas, bombons e outras iguarias.

    Estas não eram para vender, ao custo da solidariedade alheia, em prol dos irmãos atendidos pela casa onde o ex-dependente químico declarava trabalhar; mas sim para o seu próprio consumo.

    No centro da cidade existia uma enorme casa de doces, que vendia em médias quantidades a preço de atacado. O recém-chegado passageiro abastecera-se lá. Sua cota mensal de glicose. Era início de mês e, com o salário recebido no bolso, dera início ao costumeiro estoque.

    Sentou-se ao final do coletivo; no penúltimo banco, pois visualizara um espaço no fundo do ônibus onde descobrira não haver ninguém ao lado, possibilitando-o assim começar a saborosa degustação. Mas, ao aproximar-se, percebera o motivo daquele inusitado vazio, a ele oferecido em plena hora do rush.

    Havia um menino de rua deitado sobre o último assento, ocupando o lugar destinado originalmente para duas ou três pessoas.

    Descalço, maltrapilho e sujo, o dimenor também portava um saco plástico, só que o detinha na altura da boca, pressionado em sua abertura por um par de mãos trêmulas, ainda sob o efeito do alucinógeno vapor.

    O rosto daquela criança em êxtase, retrato cruel da realidade urbana, foi a primeira e única feição avistada pelo homem dentro do coletivo. Torpor infantil. Contraste.

    Asco.

    Então, após entreabrir somente um dos olhos, o menino foi diretamente atraído pela transparência da sacola plástica carregada pelo recém-chegado passageiro; o único a sentar-se próximo a ele.

    Levantou-se com dificuldade e, no resto de inocência que a brutalidade desumana daquela grande cidade ainda lhe permitia experimentar, estendeu os braços na direção da sacola, numa mistura de sonho e realidade.

    “Valeu, tio!”, disse o moleque com o esboço de um tenro sorriso nos lábios marcados de cola.

    Valeu, tio!

    Mais ainda do que o sorriso, ficou marcada na mente do recém-chegado passageiro aquela frase. Alegre. Aliviada. Feliz. Uma simples e pequenina frase. Uma meia sentença. Muito mais rica em sua exclamação. Uma pequena pausa em meio a uma meia vida.

    Sem sua sacola de doces, o passageiro agora não mais era um recém-chegado. Estabelecera contato direto com a plenitude de sentido coletivo. E único. Desfizera-se de sua máscara, seu muro, sua redoma de vidro temperado.

    Temperança.

    Tocado pelas mãos daquela criança, sujas pelo mesmo cimento do intransponível muro agora derrubado, o passageiro já havia feito o verdadeiro percurso. O caminho precursor de todos os trajetos.

    Concretos acessos.

    Pela janela avistava o invisível. Marquises, pontes, viadutos... A cidade estava toda lá fora. Viva. Reflexos convexos de encontro a um complexo coletivo. Cidade. A rima na mente, incoerente, querendo conversa. E se tudo tivesse sido diferente para ele? E se, nessa idade... E se?

    Cidade.

    O doce sentido das palavras, degustado em forma de poesia. O abrupto encontro de realidades perdidas. Perdidas em meio a um insustentável sentido. Idas e vindas. A pressa. O medo. O egoísmo e a falsa sensação de impotência. Desculpas de culpas cabíveis. Reflexa ação do pensar coletivamente. Ônus.

    Ônibus.

    O resto do percurso foi feito em silêncio. Tudo diferente do normal. O vendedor de cocadas desceu; alguns outros passageiros desceram. O coletivo flutuando sobre as trilhas perdidas de uma tarde em despedida. Só havia aquele rosto, agora. E aquela frase...

    Valeu, tio!

    E aquele sorriso infantil.

  • Valuar

    O Vampiro - A Rosa e o Violino
    A rosa envelhecida estava na mesa.
    O violino velho estava repousando nos meus pés nús que mostravam gotas de sangue e uma taça.. Sim, eu era um vampiro.
    A Taça
    A taça quebrou ao ver a luz do sol que queimava ela, minha amada que virou cinzas vinho as quais guardei no fundo da nossa ampulheta, que destilava sempre aquela areia negra tumular dando um eco de amor e silêncio e missa milenar entre duas carnes.
    Uma Aliança Perdida
    Meus pés então estavam vermelhos, um beijo não demos, e agora? O que faria eu sem minha noiva?!! Estava assombrado.
    O Violino - Jardim Cemiterial
    Peguei meu violino quase sagrado e comecei a tocar.
    As rosas misteriosas do meu jardim cemiterial começaram a dançar e dançar ..
    Era lindo de ver aquele dia onde a ampulheta carreava a meia noite para o céu e onde o Universo conspirava ela, minha noiva.
    A Tumba
    Me sentei na tumba dela e de pernas cruzadas aveludadas, um beijo joguei no escuro da noite.
    A Boca Vermelha
    Os anjos viram e escutaram o estalido vindo da minha boca vermelha.
    O Céu
    O céu estava demais e o violino cantando ao léu.
    O Salão - Música
    Entrei no castelo e vi o salão usufruindo da marcha fúnebre de luto de Nerusco, meu fantasma companheiro de drinks e amor.
    O Luto
    Ele tocava pra mim, era o luto e eram as rosas.
    Um beijo vermelho em Nerusco e...
    Nerusco.
    A idéia...
    Dancei, me atraquei a Nerusco, rimos, choramos e brindamos e abrimos os túmulos do jardim até que... Esperei.
    BelezaAbraços
    ... Abraçado a Nerusco.
    Estava tudo lindo!...
    Valuar
    Voltamos ao salão e eu e Nerusco... Abrimos as cortinas negras ao redor da escadaria.
    Deixei o sol entrar e... Minha noiva está linda! Murmura: "Valuar? Criastes negras asas.
    A Rosa e o Violino
    FIM.
  • VELHO LOBO DO MAR

     A história que irei contar aconteceu há muito tempo atrás. Este conto perde-se nos registros dos grandes bardos. Contudo, apesar de tantos anos, ela ainda é uma historia atual; pois grandes exemplos não se perdem com os anos, são eternos.
     Imaginem uma ilha cercada por tamanha beleza; imaginem grandes montanhas cobertas de relvas e lindos lagos de águas cristalinas, tão cristalinas que dá até para ver o próprio reflexo. Exatamente nesse cenário que nossa historia começa. Desde a antiguidade grandes navegadores partem para o desconhecido em busca de terras para conquistar, e com o Lobo Do Mar não foi diferente. Sim, nesta época, uma época de fantasia esquecida pelos homens, os animais falavam e pensavam como gente. O Lobo Do Mar aportou nesta ilha quando ainda era jovem, junto com seus amigos humanos e amigos bichos. Mas que graça teria se esse conto fosse contado por minha pessoa? Vamos deixar que o Lobo Do Mar nos conte. Vou logo avisando que já faz tempo e por isso ele está velho, mas continua valente como outrora foi.
    *******
     - Sentem-se, crianças. – Digo para meus netos, enquanto nos aquecemos à beira da fogueira nesta noite sem luar. – Vou contar para vocês uma historia.
     - Vovô! O senhor vai contar de quando derrotou a grande Serpente Da Ilha? Assim que sua tripulação chegou aqui? – Perguntou um dos meus netinhos, o lobinho Azul. Batizamo-lo assim por causa da coloração de seu pelo, que puxava para o tom mais azul. Um lobo inteligente, e creio eu, que um dia será um grande alfa.
    *******
     Sem mais delongas, tudo começou quando meu grande amigo navegador e eu chegamos a esta ilha. Depois de longos dias navegando e com os alimentos já se acabando, precisávamos urgente de terra firme para se acomodar. Foi aí que avistamos este pedaço de terra. Quando aportamos neste litoral, ficamos encantados com a majestade da flora. Tudo era lindo, porém havia algo de estranho. Não víamos nenhum animal ou gente que pudéssemos falar. O lugar era silencioso demais. Eu não sou muito amigo dos pássaros, eles tagarelam muito, no entanto um lugar sem eles é sinal de um lugar astuto. Pássaros percebem o perigo muito antes de outros animais.
     Ficamos a primeira semana sem dificuldades, nos alimentamos de frutas. Eu sou lobo, e todos sabem que lobos necessitam de carne, contudo foi difícil achar tal paladar. Então tive que me contentar com frutas silvestres. Tudo ocorria bem até o momento que a Serpente Da Ilha conscientizou-se da nossa chegada. Alguns homens conseguiram evadir-se para o navio e fugir. Poucos remanescentes continuaram na ilha, a maior parte dos que ficaram eram animais, principalmente lobos. Sem saber o que fazer, bolamos um plano para podermos derrotar a serpente; mas ainda não tínhamos visto o animal. Sabíamos que era uma serpente por causa dos altos sibilares que ela emitia. Sabíamos também que não era uma cobra comum, mas um animal extraordinariamente grande.
     - Vamos atacar na parte da tarde, será mais fácil para nós. – Disse meu amigo navegante, um dos humanos mais leais que já conheci.
     - Vai ser um embate árduo, se alguém quiser desistir, use a canoa que fizemos. Porque se for preciso morreremos lutando. – Tentei parecer confiante aos meus companheiros.
     Como eu disse: o navegante era leal, porém os outros humanos covardes fugiram dali e os outros animais também; tristemente até os lobos fugiram, exceto uma. A loba que decidiu permanecer conosco ficou na praia, pois não queria que ela entrasse em combate. Quando chegou a hora do confronto, um temor dominou-me. A serpente tinha mais de cinquenta metros de comprimento. Era uma das maiores cobras que já vi em toda a minha existência. Enfrentamos o animal mesmo assim.
     - Vocês atrevem-se a invadir o local sagrado da grande serpente? – Disse a cobra. – Tolos, se acham que sairão com vida, estão enganados. Esta ilha pertence a mim, e eu expulsei a todos os outros que vieram antes de vocês.
     A cobra nos atacou primeiro. Investiu um golpe potente com sua calda. Eu fui para a direita e o navegante para a esquerda. Investi nela com minhas garras e dentes; meu parceiro desembainhou a espada e atacou o bicho. A serpente era ágil demais e não se cansava. Meu amigo e eu estávamos ficando sem forças para continuar a lutar.
     - Precisamos de uma estratégia se quisermos a vitória. – Disse o espadachim enquanto tentava proteger-se de um ataque da cobra.
     - Tente distraí-la que eu ataco a cabeça e tento decapitá-la com meus dentes. – Falei para ele.
     - Não adianta se esconderem de mim, posso senti-los. – Disse a serpente, presunçosamente.
     Fizemos como o planejado. Porém, mais tarde, se eu soubesse o que teria acontecido, nunca teria dito para que fizéssemos tal coisa. Pois o resultado foi glorioso, mas uma gloria conquistada pela dor.
     Enquanto o espadachim atacava a parte traseira da serpente, ela tentou abocanha-lo com tamanha fúria, foi aí que aconteceu a coisa mais terrível que poderia acontecer; os dentes da cobra cravaram-se na barriga do meu companheiro. A serpente enrolou-se nele tentando quebra-lhe os ossos. A cólera tomou-me por completo; em um ato de bravura cravei minhas garras afiadas e meus dentes no pescoço da serpente. Fora difícil, mas consegui separar a cabeça do animal do restante do corpo. Corri para meu amigo humano na esperança de conseguir ajuda-lo.
     - Vencemos! – Foi tudo que conseguiu dizer, antes que a morte o tomasse.
    *******
     A fogueira estala quando uma chama lambe uma lasca da madeira.
     - Naqueles tempos eu fiquei conhecido como o Grande Lobo Do Mar, pela minha bravura em derrotar a serpente. Ajudei a repovoar a ilha e dar vida para este lugar que vocês vivem hoje. – Digo para meus netos lobos. – Hoje me chamam de Velho Lobo Do Mar, pois estou velho e cansado, mas um dia cada um de vocês vão assumir suas próprias matilhas e fazerem as suas próprias historias. Nunca mais naveguei, porque não achei que seria o correto viajar sem meu fiel amigo, no entanto estou me preparando para a grande viagem.
     - Que viagem é essa, vovô? – Perguntou a lobinha, a única fêmea dos meus netos.
     - A viagem que todos nós faremos um dia. A viagem que meu amigo navegante fez. Dela ninguém escapa, dela ninguém volta.
     Os lobinhos cansados recolheram-se para dormir, eu contemplo o céu. Uivo para a noite e fico pensando no quanto a vida é passageira.
  • Vindicta

    [...]
    - Senhor... Lady Vane está... O que diabos aconteceu aqui?
    - Ele não pode suportar a dor... Tirou a própria vida.
        Houve um tempo em que éramos conhecidos como a suprema dinastia, mas agora, sou último dela. Nós Venuanos éramos fortes, poderosos. Qualidades que toda boa família sonhava em ter. Até que... Todos, salvo eu, foram assassinados. Há muita coisa para ser contada, então... Comecemos de onde tem de começar, do começo! Sóis e luas atrás, nós Venuanos vivíamos no reino de Miac, uma terra peculiar diria eu, coisas estranhas e brutais aconteciam, todos sem explicações. Falando em coisas estranhas me recordo de uma história, talvez não queiram saber, não é muito importante? Curiosos? Se aquietem! Tudo beeem! Dir-vos-eis de que se trata. Repito novamente, não é importante, apenas é a história de como toda minha família foi assassinada... Espere! Sim, isso é importante, como pude confundir-me? Certo, vamos lá. Residíamos em um palácio demasiado grande, com um jardim que se estendia além do horizonte, havia árvores de palmeiras gigantes, a grama variava entre um verde fraco quase sem cor e terra marrom, um tom claro semelhante ao verde dos olhos Venuanos. O céu de Miac, o reino usurpado dos Venuanos, o céu que, reluzia uma luz deveras calorosa e revigorante, dia após dia, noite após noite. Havia uma paz no reino, uma paz que durara décadas desde a grande revolução, assim chamada pelo meu pai que, era ainda jovem quando seu pai tomara para si o reino. Anteriormente havia os Garianos, um povo rude e asqueroso. Tipicamente brutal. Há um ditado em minha famíl... Havia um ditado em minha família que dizia “Um Gariano a menos equivale a uma erva daninha em um campo”. Durante muito tempo acreditei nisso, mamãe contava histórias que meu pai a contou e que o seu pai lhe contara quando ainda criança. Dizia que eles possuíam pares de chifres, unhas enormes que dilaceravam a carne igual dentes de leão corta a carne de sua presa. Essa ideia perturbadora me assombrava todas as noites, da minha infância até a quase juventude. Certo dia quando ainda brincava com os cavalinhos de madeira que mamãe tanto zelava, não pude conter-me com uma curiosidade. Tinha à frente do reino, além das muralhas, uma floresta, mamãe mesmo contava em suas histórias que lá viviam eles, os Garianos, dizia-me para não ir para lá, pois eles iriam cozinhar-me em um caldeirão. Ria-se em seguida dizendo “Ah, mas quem iria comer você? Só tem ossos” De fato... Só havia ossos... Retornando a história... Não pude conter-me, a meia-noite, quando a guarda-da-muralha estava distraída com as belas damas que tomavam ar fresco nas suas graças, sai pelo portão grandioso de madeira, Porem quanto mais grandiosos, mais falha terá. Havia uma estreita abertura, na qual pelo meu físico consegui atravessar sem o menor esforço, em questões de minutos já me encontrava meio caminho andado, olhava para trás com euforia enquanto dava curtos e rápidos passos, quando me aproximei das gigantescas árvores, um súbito arrepio na espinha me deu. Foi como se os fantasmas da infância voltassem em massa nos meus pensamentos. As histórias de mamãe pareciam cada vez mais verdadeiras ao passo que me aproximava daquelas altas e expeçam árvores, a visão entre elas era mínima, seria como mergulhar na escuridão. Parei mais rápido do que consegui correr. Observei aquele lugar totalmente opaco, virei-me para o reino, não havia alarme algum “O filho do rei sumiu e ninguém vem atrás? Isso é vergonha” Era meu pensamento. Talvez por que ensejava que alguém interrompesse aquela loucura, eu era demasiado inocente, um tanto tolo, porém inocente. Não havia uma alma mais pura que a minha. Dei mais algumas olhadas, todavia parecia que a floresta me puxava, algo nela me atraia. Algo inexplicável. Simplesmente adentrei-a, por segundos formulei as horrendas imagens que mamãe me contava, sentia que minha carne seria retirada de meus finos ossinhos, que iria arder em água quente para ser devorado... Engolia o ar seco que se enrolava em minha garganta. Eu sentia o suor frio escorrer-me o rosto e as mãos estremeciam. O que tinha eu de arma? “Poxa, esqueci a espada de madeira, como poderei lutar?” Alguns passos na escuridão e avistei uma luz densa verde. Aproximei-me receoso, estava certo que teria meu fim, entretanto para minha surpresa eram apenas sapos, sapos luminosos que pareciam dançar sincronicamente, semelhante à valsa das deusas Henota e Jenida. Os bichinhos eram verdes e peculiares, brilhavam como as estrelas. Achei-me em uma situação que já não conseguia pensar em nada, apenas direcionava-me minhas com as mãos àquela dança anfíbia. Quando toquei suas costas, senti algo puxar-me pelo ombro, uma mão áspera, no momento me lembrei de mamãe... Os Gerianos iriam comer-me... “Estás endoidecendo? Estás encrencado moleque, muito encrencado!” Disse Harlor, rei de Miac, também meu pai. Chegando ao palácio iniciou-se uma discussão... “Esse garoto está para deixar-me louco Vane, louco! Já não bastam as peripécias, as... As... As balbúrdias” “Não fale isso, ele é nosso filho, nosso garoto, és apenas curioso!” “Curioso? Esse garoto é um travesso, não sei o que me deu para não enfiar-lhe uma lamina no peito... Ora essa, agora quer ir para a floresta? Vai-te, ao menos não preciso quebrar a cabeça com um pirralho grotesco” Eu ouvia quieto, sabia que tinha feito por merecer, mas era inevitável que uma ponta de rancor e ódio crescia em mim naquele momento. Em seguida chegou meus irmãos, Goer e Hans, ambos jovens de uma beleza extraordinária e intelecto excepcional, porém franzinos e nada aptos para guerra. Apesar de terem uma personalidade deplorável, eu os admirava, queria ser como eles. “Logo repensava em meus sonhos quando me diziam à mesa do jantar: “És um monstrinho V, tens uma testa grande, caso fosse marrom, diria que estava à frente dos portões” E riam-se. Logo mamãe os interrompia dizendo: “Calem-se, deixem seu irmão em paz, não veem que ele será o cavaleiro do Midhy”? Olhava-me piscando, em uma espécie de símbolo afetuoso maternal. Papai, no entanto retrucava “Estás a delirar querida, não passa de um travesso magricela” Eu ria, mas no fundo, durante noites ficava a pensar “Sou um monstro? Por que não tive a sorte da beleza ou da sabedoria? O que fiz eu para merecer isso?”... Continuando, entraram no recinto meus irmãos, mal sabiam da história e já me atacaram com palavras de fúria, muitas apenas por diversão “Eu não falei? Mate-o papai, apenas nos traz problemas, quer chamar a atenção, mate-o, queime-o!”- Disse Goer. Já o outro era mais dócil “Queimar? Estás maluco Goer?...” Por um momento abri um ligeiro sorriso... “Queimar deixaria o reino empestado com seu futum, melhor seria envenena-lo!” Meu mundo caiu por completo, me senti uma escória, apenas retirei-me, achando inocentemente que se importariam, mas apenas olharam-me com um olhar de nojo, de repúdio! Estava decidido que ali não era meu lugar, por algum motivo desconhecido me odiavam. Não suportava mais. Subi rapidamente para meu quarto, chegando lá, quando estava arrumando alguns utensílios em minha pequena trouxa, senti minha mão formigar, como se estivesse queimando por dentro, um sebo verde e luminoso havia nela. Mamãe entrou no quarto em seguida, com um olhar de dó que me fazia sentir um leve ódio. Perguntava com ao menos uma lágrimas  nos olhos o que estava a  fazer, eu dizia com uma falsa serenidade que estava a partir. Não demorando muito tempo arrumei-me, recebi o seu beijo quente na testa. Vane... A única pessoa que me amara por compaixão.  Sai... nem mesmo um até logo recebi... Não sabia onde iria, estava apenas com a alma ausente, por não nem mesmo saber quem era eu... Andei... E andei para a escuridão.
    Depois de muito tempo retornei à Midhy. A juventude já se mostrava em minha face, os olhos já não conservavam o verde puro, deu-se o lugar a um negro fosco. Juntamente de mim estava um amigo, um verdadeiro amigo. Era um tanto misterioso, andava sempre com uma longa capa carmesim, seu rosto ofuscava-se na escura penumbra do capuz, sua voz se misturava a grunhidos muitas vezes impossíveis de entender. Não falávamos muito, não agora... Conhecemo-nos em uma taverna, dizia que estava a caminho de Miac, tinha contas pendentes, contas antigas... Quando chegamos aos portões nos separamos. No momento que sumiu de minha vista um dos soldados me abordaram “Quem és tu?” Ergui minha cabeça de modo que os não tão longos cabelos revelaram minha face, apesar da juventude, reconheceram-me. Era um milagre... “O filho desaparecido do rei retornou!” Todos aclamavam. À porta do palácio fui recebido por nada mais nada menos que a ilustre realeza. Respectivamente: Goer, Hans, Vane e Harlor. “Meu filho! Quanto tempo!” Disse Harlor, calorosamente abraçando-me, “De fato, pai”- Respondi-o, retribuindo o abraço pouco menos caloroso. Em seguida vieram Hans e Goer, abraçaram-me também e disseram uma ou duas palavra como: “Sentimos saudades monstrinho... quer dizer... irmãozinho” - Dando gargalhadas sempre. Por último veio Vane, ela que, na infância deu-me todo o falso, mas caridoso afeto que nunca tive. Abracei-a do mesmo modo que me abraçara quando criança. Entramos, chamaram às criadas. As mesmas mostraram-me os aposentos, como eu não conhecesse... Depois de um longo e angustioso banho desci já à noite ao baile. Iria ocorrer uma grande comemoração em minha homenagem. Talvez a maior... Três leitões e meia dúzia de galinhas foram sacrificados para a ceia. Após o jantar, que por sinal comi pouco, fomos ao salão principal. Via os corpos cintilantes movimentando-se, Harlor no trono observa-me ininterruptamente, levantou-se e veio andando até mim. Juntamente Goer, Hans e mamãe sempre atrás. Andei também em sua direção, o calor aumentava ao passo que me aproximava da mesa, havia algumas sobremesas, queijos e etc. Quando Harlor cogitou em falar-me algo consolador, logo o interrompi “Não precisa explicar papai, eu sei... Eu lhe perdoo” - Inquieto, porém disfarçando deu-me uma risada e saiu. Quando Harlor deu as costas agarrei uma lâmina que estava à mesa e desferi em sua direção... Sim, um homem encapuzado tentou matar Harlor, salvei-o, o mesmo ficou perplexo, imóvel por um tempo. Retirei a lâmina ensanguentada que caíra no chão derramando o líquido vermelho escuro e viscoso ao redor do cadáver. Depois de um tempo a guarda, que não por sinal não era tão guarda assim, chegou. Reviraram o corpo e logo identificaram de quem se tratava o suposto assassino. Era um homem que há pouco tempo chegara ao reino, usava capa carmesim e seu rosto era grotesco. Sim... Sem dúvida nenhuma era um Gariano, o último que ninguém sabia da existência. Disseram também que estava ali para cobrar uma divida, Porém acharam que se tratava de dinheiro... Harlor ainda assustado olhou-me, com um olhar diferente, um olhar de confiança, como se tivesse renascido para ele... Todos também me encaravam, Goer e Hans que murmuravam coisas como: “Assassino, mentiroso, quis se aproveitar para tomar o trono”. Eram uns invejosos... Dias depois fui proclamado como braço direito do rei. Como Goer e Hans ocupavam esse posto anteriormente, viraram contadores.
    “Em certa manhã caminhando pelo lindo jardim, ouvi vozes por de trás dos grandes pilares. Eram vozes conhecidas... Aproximei-me e estavam lá eles... Conversando escondidos, como se não quisessem ser vistos, ouvi pouco, mas esse pouco me serviu para tirar sérias conclusões... Estão armando contra o senhor, Harlor...”“ O que? Esses desgraçados. Nunca confiei neles... Estás certo do que estás falando filho? Goer e Hans são espertos, não fariam isso...” “Não posso afirma-lhe, pois são seus filhos e eu entendo isso, não quero me precipitar sobre nada, mas me senti no dever de avisar-lhe...” “Estás certo, certíssimo! Obrigado filho. Amo-te” - Estava a me virar quando o disse: “mais uma coisa...” “Sim meu filho?” “Caso nega-se a acreditar, acho que deves ver com seus próprios olhos, assim não viveras com essa duvida em seu coração... Vá atrás da sexta coluna, próximo às grandes fontes ao anoitecer” - “Verei...” - Ambos se despediram com um simples aceno e viraram as costas andando em direções opostas. Ao anoitecer estavam Goer e Hans conversando atrás do sexto pilar perto das grandes fontes. Discutiam inquietos e ansiosos. “Hans, tens certeza que aquela carta que recebera não era golpe? Tens certeza que tinha o nome da pessoa e local de encontro?” Perguntou impaciente Goer. “Cale-te, não sou asno, tenho certeza do que li, dizia certo o local, já o remetente era desconhecido” - Respondeu um tanto nervoso Hans. “Sabe Hans, estava essa noite pensando sobre o assunto de outrora, achas mesmo papai um bom rei?” - “És relativo meu caro, és relativo... Papai é bom, mas apenas no que foi treinado para ser, um brutamonte, um ogro. Não vês suas mãos? São calejadas das batalhas, ainda hoje as conserva... Digo... Como líder de guerra é nato, todavia como do povo não tem aptidão. Por isso necessitava de mentes como as nossas, trabalhando em conjunto. Éramos invencíveis, mas nosso irmãozinho querido tomou-nos o lugar, sabe por que meu caro? Por que nosso pai admira os brutos, homens das cavernas se entendem com os seus. Por isso digo-lhe, temos de retirar aquele monstrinho do cargo...” Após essas últimas palavras, Harlor revelou-se atrás das colunas. Os irmãos não perceberam a presença do pai e se assustaram. Logo disse um deles “P...Pai? Estavas aí? O que ouviste?” -  O não tão velho rei respondeu, com um ar impetuoso “ O que ouvi? O que eu ouvi?! Oras, ouvi o precisava ouvir!”  “Mas... Pai...” “Cale-te! Eu confiava em vocês, como puderam? Depois de tanto tampo... O perigo estava à minha frente e não percebi... Ele estava certo sobre vocês. Traidores!”  Com as últimas palavras todos os camponeses apareceram para ver do que se tratava o furdúncio. Olhavam com um ar de dúvida e conjecturas. Em seguida, rapidamente apareci, estava com um falso ar de questionamento, tentando acalmar Harlor. Ele que estava furioso e Goer e Hans sem entender nada diziam: “O que estás a acontecer meu pai? Traidores? Estás a caducar!” - Com mais ira o rei berrou - “Cale-te, vão morrer, não me importo se são meus filhos, irão morrer!” - Todos se admiraram com a pronúncia, principalmente Vane que chegara mais confusa que seus filhos... “O que está acontecendo aqui?” “Papai está louco” - Respondeu um dos irmãos - “Diz coisas com coisas, fala que somos traidores, que irá executar-nos” Vane voltou-se para Harlor que a olhou nos olhos e disse sério e ofegante: “Seus filhos... Seus filhos são uns covardes traidores, irão queimar!” - Vane logo se aproximou berrando - “Estás maluco? Não podes fazer isso, por qual azo pensas nisso?” “Pelo motivo de estarem conspirando!” - Respondeu o velho, sendo contido pelo caçula “É mentira, estás a blasfemar!” – Vane se virou para os filhos, desesperada e com um pingo de fé “Diga que é mentira, por favor, diga!” “Claro que é mamãe, esse velho está maluco” - Respondeu Goer fitando-o. “Velho? Isso é que pensas? Sou velho, mas ainda sei acender fogueiras!” - Disse o rei, retirando brutalmente Vane do caminho e arrastando pelos braços Goer e Hans até o centro do Jardim, onde haviam antigos troncos usados para incinerar corpos de Garianos na época da tomada do reino. Primeiro ele amarrou Hans com uma corda, que tentou relutar, mas em vão. Apesar de velho, Harlor conservava uma força extraordinária, sem muito esforço amarrou-o. Em seguida foi a vez de Goer que, tentava fugir, porém era também segurado pelos guardas que seguiam ordens do rei. Do mesmo modo foi disposto ao lado do irmão. O Velho rei gritou para todos ouvirem, em um momento de insanidade “Eis aqui dois traidores! Ambos conspiraram e mesmo sendo filhos meus terão o fim que todo traidor merece! A morte!” - No fim de suas palavras, Vane se precipitou em lágrimas aos pés de Harlor, implorando pela vida dos filhos na qual pariu, amamentou e criou com tanto zelo. Ambos estavam amarrados e choravam. Choravam por desespero de perder a vida, choravam em saber que nunca mais teriam os prazeres carnais, choravam, pois viam a mãe se debruçar em lágrimas e choravam por que deixariam o reino nas mãos de um velho louco e um irmão que consideravam mau. Notando suas vidas próximas ao fim, perceberam que a última alternativa seria correr aos meus pés “Irmãozinho, aconselhe papai, eles está ficando fora de si, sentenciar um filho por um crime que não cometera? Isso é hediondo... Por favor, eu lhe imploro, peço perdão por todo mal que lhe causei, sempre o amei... Nós dois o amávamos, por favor, irmão, solte-nos” - Diziam eles, intercalando entre si numa voz rouca e seca. Ouvindo isso abri um ligeiro sorriso e aproximei-me de Harlor. Sussurrei-lhe algumas palavras. Em seguida o rei se pronunciou novamente: “Hans... Você não será queimado... Apenas um serve de exemplo...” o Jovem foi desamarrado e conduzido para o palácio. Em seguida o rei ordenou calmo e sereno - “Queime o outro” - Ouviu-se então por um curto intervalo de tempo os gritos agonizantes de Goer que, queimava dos pés a cabeça em uma labareda diminuía ao tempo que a carne de torrava. Uma cinza espalhou-se ao redor, um silêncio agoniante dominou o local, aos poucos todos foram se retirando. Vane chorou a noite toda, aquela noite tudo ficou sombrio. O céu escureceu-se pela primeira vez em muito tempo, o ar cinzento e fúnebre acentuava a tristeza ali. Estava prestes a chover... Todos estavam em seus respectivos quartos quando o primeiro trovão rasgou o céu acompanhado de longos raios. A água começara a cair... Hans estava em seu quarto na torre lateral, nelas caiam longos cipós que iam até o chão. O horizonte estava escuro e quase não se via nada, nem mesmo a floresta, observava. Deitou-se em sua cama de braços abertos e olhando para o teto, ficou a refletir por um longo tempo... Não parava de pensar nos gritos agonizantes de ser irmão. O céu constantemente clareava em grandiosos relâmpagos, o clarão apenas o fazia relembrar as chamas que tomou o corpo do irmão. Em seguida percebeu uma luz verde aproximando-se dele, não ligou, achou que fosse apenas um reflexo nos musgo causado pelos clarões dos relâmpagos. Estava deveras errado. Quando se deu conta estava cercado de sapos que dançavam em uma sincronia incrível, foi então que notou que os clarões verdes se tratavam dos sapos. Em uma intercalação de luzes claras dos relâmpagos e verdes dos sapos na sinfonia da chuva, os pequenos anfíbios foram tomando o quarto. Apenas flashes de luzes eram vistos por Hans, quando se deu conta já era tarde... Estava sendo “engolido” pelos sapos, que saltavam sempre em sincronia. Apenas ouviram-se seus gritos... Depois um tempo entrou Vane em seu quarto, vira o filho na cama, seu outro filho amado disposto na cama. Com a face sebosa de um verde claro e brilhante que assemelhavam aos seus olhos. Sem ar, ironicamente sem brilho e sem vida...  Era demais para Vane, não aguentaria viver sem quem considerava suas vidas... Acabou por se jogar da torre ao chão, no salto da saudade e desespero de encontrar quem realmente amava...
     O filho caçula chegou ao pai que se encontrava ébrio em seu gracioso trono no grande salão e o disse “Então... Papai... Como se sente? Sem família, sem quem ter para receber ou dar amor...” “Do... Do que está falando?” - Respondeu um pouco confuso por causa da bebida, mas ainda consciente. “Ora, não sabes? Hans morreu envenenado e Lady Vane suicidou-se” - Disse ironizando, caminhando em direção ao velho lentamente. “O que? Estás mentindo... É mentira!” - Respondeu moribundo, soluçando com o álcool “Por que mentiria para o senhor? Jamais faria algo assim a vós...” - Respondeu dando longas gargalhadas que ecoavam pelo salão, ao tempo que a chuva caía constante. “O que estás a falar filho? Eu não entendo” “Ora seu velho! Goer estava certo, estás caducando!” “Olha como fala...” “Olha você, você que mataste minha família... sua dinastia corrupta, hipócrita, Gro... Grotescas!” - Gritou nervoso o jovem. “Família? Eu sou sua família” - Respondeu ainda confuso o velho “ Não percebes não é? Olha bem para esse seu filho, o que vê nele? Não vês a mãe? A minha mãe! Que você estuprou a anos atrás! Quando ainda era jovem...” O Velho fez cara de espanto e ao mesmo tempo de confuso “Diga! Não se lembra? Ao menos tenha a decência de lembrar-te, uma Gariana!” - No mesmo instante o velho levantou-se, tentou caminhar, mas caiu alguns degraus depois. “É, acho que se lembrou... você a violentou e depois de um tempo... Uma criança meio-sangue, nobre e bárbara, nasceu... Eu pai! Agora estou aqui, para pedir-lhe uma explicação... Por que me odiava? Por que me acolheu? Por que matou minha mãe quando ela trouxe-me à sua porta?...” Um silêncio tomou o local, apenas ruídos da chuva ouviam-se. “Responda!” – Berrou o jovem, impaciente. “Vá... Vá pro Inferno, Gariano asqueroso!” “Ah, eu vou sim, mas antes irá você! Encontro-te daqui um tempo velho!” - Foram as últimas palavras do jovem então descoberto Gariano, antes enfiar uma lâmina no peito do seu pai friamente e sem seguida se livrando dela. Passado algum tempo, um guarda adentrou o salão...

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