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brazilian literature

  • Amor de verão?

    Malas prontas para a viagem de intercâmbio. Meia-noite, três pedrinhas contra a janela. Um abraço, vários beijos e os caninos no meu pescoço. Eu queria mudar de vida e agora consegui. Tenho tempo para fazer intercâmbio em todos os países do mundo com meu eterno namorado, literalmente.

  • Aniversario de um personagem

    sabe a maioridade poética que tanto buscam - eu já tive a tempos. por quê? - eu me pergunto - por quê a tecnologia estraga a inteligencia e a criatividade dos jovens escritores? - um texto cheio de dúvidas que até Foucault teria prazer em ler! - é só isso que tenho a mostrar - no centésimo poema autoral - que de original nada tem - existem pouquíssimas certezas neste vasto mundo - algumas das quais posso dizer agora (1) existe mais chances de você morrer atropelado por uma vaca do que ganhar na loteria - principalmente se você morar perto de uma - (2) ninguém nem mesmo seus heróis foram tão grandes assim - (3) seus pais fazem sexo - e não é só pra te ter e isso vale para seus avós, tios, irmãs, primos “isso se você já não estiver fazendo com nenhum deles”- (4) você não é especial, não importa o quanto fizeram você acreditar nisso - (ultima) se você me acompanha até aqui te garanto uma passagem pro inferno, mas pelo menos teve boas reflexões - ate a proxima
  • ANO NOVO

    Ano novo
    Mais um dia
    Foi o velho
    Noutro dia.

    Zero hora
    Um começa
    Outro termina
    Novo dia.

    Quem espera um ano inteiro
    Ansiedade apinha
    É melhor chorar agora
    Que sofrer por mais de um dia.
  • Antecedente da cicatrização

    Como quando a orelha inflama porque o brinco estava um pouco sujo; ou quando colamos o curativo adesivo que fixa na pele de modo a puxar todos os pelos na hora de sair.
    Mesmo sabendo que no fim iria doer, provoquei. Botei o brinco pra inflamar, colei o curativo pra fazer doer. Queria viver aquilo, nem se fosse por míseros segundos, minutos, horas, dias. Nem sei mais quanto tempo passei imersa naquela banheira de espumas.
    Corria cada vez mais só pra vê-la. Queria era socorro, socorro da própria situação. Socorro de mim mesma. Mas por mais rápido que eu o fizesse, não a alcançava. Dormia sem conseguir descansar. Não sabia como evitar, como não sentir. Era, humanamente, impossível fechar o peito para aquela que, outrora, me visitava com flores e com pele macia a me acariciar.
    Deitada sobre seu peito sentia que a perdia. Procurava sua mão. Meus dedos se entrelaçavam nos dela, mas os dela no meu. Ficava ali parada até o momento em que escorria pelo meu corpo. Indo embora sem dizer adeus.
    Enquanto eu souber que a ferida não será fechada por completo, vou levando. Empurrando com o resto de forças que sobrara do restante da minha alma, que jorrava água escura, afim de fugir do precipício que eu mesma criara.
  • Apesar de tudo, eu te amo

    Apesar de tudo que passamos, de todos os erros, eu ainda te amo.
    Você talvez não saiba disso, dos meus sentimentos, dos meus pensamentos e das minhas sensações. 
    Mesmo depois de tantas coisas, depois de te ver com um "relacionamento sério" com outra no facebook, de após o término eu está lá, ao seu lado, depois de te ver ficando com outra na minha frente, eu ainda estou aqui, por que eu te amo, e a única coisa que eu quero é te ver feliz, estar ao seu lado a todo momento, mesmo que você não me escolha pra ser sua namorada, eu vou estar aqui.
    Eu tento superar, juro que tento fazer esse sentimento sumir.
    Eu tento conhecer outras pessoas, eu tento sair e me relacionar com elas mas, no final, eu posso está com elas fisicamente, mas meus pensamentos sempre estarão em você. 
    Do que adianta eu tentar sair com outras pessoas que não são tão interessantes como você é para mim? e se no final eu sempre vou pensar "não é ele, não é a mesma sensação, não é o mesmo toque, não é o mesmo beijo, não é ele".
    Eu chego em casa devastada e sempre pensando em você, no teu beijo, pensando no que eu errei, no que eu podia ter feito para que o "nós" desse certo e se tornasse real, se eu deveria me entregar mais, demonstrar mais, te chamar pra sair mais vezes, conversar mais, te mandar algumas das minhas cantadas bobas que eu sei que você adora, ou dos meus memes e piadas sem graça.
    Eu só queria uma resposta pra minha incerteza, eu queria saber o que você sente, no que eu posso melhorar, no que eu errei.
    Talvez o erro não seja eu, mas eu não tenho certeza.
    Eu quero ficar aqui com você, te ajudar no que posso, tentar te segurar, fazer piadas só pra te ver sorrir.
    Eu só quero que você saiba que dentro de mim existe um sentimento vivo, eu vou está aqui mesmo depois de perceber que nós nunca vamos dá certo, mas no final eu sempre vou te amar.
    "Eu quero você sem garantia e com defeito pra nunca mais te devolver."
  • Aprisionados em nossos pensamentos

    Aprisionados em nossos próprios pensamentos de derrota mais profundos,não conseguimos nós soltar para coisas grandes alcançar
  • Aquelas Pessoas

    Pessoas
    Que usam pessoas
    Pra valer-se de algo

    Acreditam que são
    Se enxergam demais
    Sentem de menos

    Pessoas
    Que usam pessoas
    Como escudos de ganância
    Sabem dar ordens
    Para o que lhes convém

    Pessoas
    Que usam pessoas
    Padecem de bom senso
    E humildade
    Se já foi ou vai ser
    Tanto faz

    Pessoas
    Que usam pessoas
    Desconhecem o preço
    Que um dia hão de arcar
    Para pagar aquilo
    Que nem mesmo o seu dinheiro
    Pode comprar
  • Arroz com feijão [conto]

    Rafael estava com um problema com seus pais: eles descobriram que ele fumava maconha. O jovem vacilou com uma ponta no carro, e depois que sua mãe abriu o carregador de 12V para plugar o celular, e se deparou com aquele celofane do diabo, o garoto especial já não era tão especial assim. Na verdade era um problema. Aliás, vários problemas. “Quem pois aquela porcaria na boca dele?” “Será que ele está só nisso?” “Onde nós erramos?” Dr. Sampaio e a Sra. Sampaio estavam apavorados. Em estado de choque. A sujeira tinha chegado em casa. Era o primeiro sinal do fim dos tempos.
    Estava tudo abalado. Admiração. Confiança. Futuro. Quando eles chegaram em casa, colocaram aquela ponta na mesa da sala e olharam para Rafael, seu pai foi eloquente: “Não me venha com esse papo de é de um amigo.” “Você fumou isso no carro?” Foi o primeiro questionamento da chorosa Sra. Sampaio. Rafael estava sendo crucificado, e assim como Jesus parecia querer aquilo. Ele olhava para uma e para o outro com o desdém com que Pôncio Pilatos lavou as mãos. Como quem não tem nada para dizer.
    A postura era ultrajante. Inaceitável. “Também não é nenhuma novidade. Olha só para você.” “Depois que começou a faculdade você virou outra pessoa.” Era uma mistura de negação com raiva. “Você não tem nada para dizer?” Que tinha sido um erro. Que estava arrependido. Que não ia acontecer de novo. Que aquela droga maldita tinha pegado ele num momento de fraqueza e com a ajuda de Deus ele ia se livrar daquele terrível mau. Os dois topavam escutar qualquer coisa que soasse como um mea culpa. Assumir é sempre o primeiro passo.
    “Como assim não significa nada?” Significou muita coisa quando Césinha, o primo da Sra. Sampaio, foi preso com dezoito anos fumando maconha na praça. Foram cinco anos de cana. Nunca mais ele se recuperou. Significou muito para o Tio Joe, que começou assim e hoje é viciado em crack. “Que mané planta. Que outros tempos coisa nenhuma.” Vai pra cadeia sim. Não tem essa. É crime. Contra a lei. Vicia. Mata. “A única coisa que mudou  aqui é que você está metido com essa merda.” É coisa de vagabundo. Ninguém nunca viu alguém de bem envolvido com isso. Era como se o apresentador no jornal da noite estivesse narrando a verdade mais verdade de todos os tempos.
    Estupefata era o verbete que melhor definia a Sra. Sampaio. “Me diz que você não vai fazer mais isso, por favor.” Rafael olhou para o outro lado. O Sr. Sampaio bufou. “Conversa com a gente.” Implorou a mãe. E ele dizia: “Eu não deixo de fazer nada por causa disso.” Era um dos primeiros da XXVIV Turma de Biologia da faculdade, tinha um bom estágio, planos. Isso era só diversão, no fim do dia, como uma cerveja. “Como assim?” Não é simples assim. “Você vai precisar de mais, e mais e mais.” Não dá para controlar. É droga. “Em muitos lugares já é legalizado.” “Mas aqui não.”
    Conversa vai, conversa vem. “Meu filho, você não precisa disso.” Agora já parecia possível que o garoto especial fosse um especial com asterisco. “Como eu vou poder ficar tranquilo sabendo que você está por aí com drogas?” O Sr. Sampaio apelava e demonstrava amor ao seu jeito tosco. “Onde você vai para comprar essa porcaria? Olha o tipo de gente que você está se envolvendo.” Se as leis não servem aos interesses da sociedade, ou se as políticas públicas favorecem confrontos sociais, “não são assuntos para serem debatidos em casa”, entre uma família que tenta salvar sua cria. “Isso não é problema seu. Você tem que trabalhar,” finalizou o patriarca.
    Minutos de silêncio. Agonia. Choramingos. “Isso é só uma fase” era a frase que piscava em um luminoso de neon que brilhava dentro da cabeça da Sra. Sampaio. “E enquanto você tiver nessa fase vai ter que se virar sozinho” era a reação que parecia óbvia para um pai, segundo as convicções do Dr. Sampaio. “Tudo bem”, era a forma mais rápida que Rafael via de acabar com a contenda.
    Uma pulga saltou de trás da orelha da Sra. Sampaio gritando: “ele vai embora de casa, ele vai embora de casa.” Dr. Sampaio não se oporia. “Tome um banho que vou arrumar o jantar”, disse a matriarca na esperança de restaurar a harmonia e a família. Rafael levantou e foi para o quarto. O pai olhou para mãe com cara de preocupação, depois ligou a TV. Ela foi para cozinha preparar o jantar.
  • As opiniões de um ignóbil

    O meu tempo nesse mundo parece querer se esvair, não sinto mais a alegria de viver que outrora inundava meu ser. É uma maldição? Poderia eu um dia me olhar no espelho e refletir uma imagem que não passe de desgosto e amargura, sinceramente não sei dizer. Eu nem ao menos quero me ver diferente do que sou, quero apenas que acabe tudo logo, não importo com o que outros pensam sobre mim. Não sei se vão sentir algo quando for para eu partir. Nada me faz querer continuar, minha vontade é fraca, minha força, inexistente. Mal sei dizer se um dia voltarei ao normal - que ideia tola, eu nem sei se posso considerar algo normal.

    Pelas minhas costas encontro verdades imutáveis, tão claro como o sol. Prevejo que minha importância se foi a tempos, mesmo assim, ainda dependo de outros para que continue vivendo. Mas sabe que é engraçado, mesmo tendo tantos inimigos, não temo mais os que tramam contra mim, sei que não sou das melhores pessoas, nem mesmo me esforço para ser. Minha personalidade é fraca, me conformo com pouco, traquejo social, Hump, até parece que estou me esforçando muito. Malditas vidas que eu abomino, continuam a existir nesse mundo odioso, mais tempo vem passando e a cada novo minuto me retraio, cada vez que passa uma quinzena, viso acordar apenas para ser deixado de novo. Humilho-me por restos, me odeio, quero que outros me odeiem, não me importo com suas opiniões, mas desejo muito que me odeiem.
    A vida me parece frágil. Outro dia sem mesmo perceber comecei a torcer para que outro semelhante perdesse tudo o que tinha, apenas para que eu pudesse me sentir melhor. Posso parecer um monstro, desejando que uma pessoa tenha tudo tirado de si. Não ligo para o que essa sociedade cheia de moralistas julguem certo. Quero mais é que se explodam, são todos uns fracos amargurados que só pensam em suas próprias vidas, acham que por terem mais que os outros tem o direito de ter pena de alguém. Absurdo, eles que deveriam ter pena de suas patéticas vidas artificiais, completamente mimados por um sistema feito para empurrar cada vez mais o fraco para baixo e alavancar o forte. Meritocracia é ótimo, principalmente quando seu pai tem uma Ferrari na garagem. Queria vê-los como gado, essa sim é uma vida simples, não precisa ir para lugar nenhum, você se alimenta o máximo que pode, vive na própria merda. O gado, ninguém é diferente, tem aqueles que acordam no pasto verde, ou outros que ficam expostos em prateleiras de supermercado, é um fim que se considera digno, um pobre animal violado, desmembrado para o prazer de outros que nem agradecem por sua comida, olham aquilo como mais um prato em meio a tantos outros. Quem me dera ser como o gado.
    Em meio a tantos pensamentos, começo a me achar um lunático. Quero tantas coisas, mas quero elas de maneira fácil. Não quero me esforçar, nem pensar em ter que lutar por elas, mas no fim dizem que os bens adquiridos pelo fruto de trabalho duro, são mais doces que aqueles que são apenas presenteados - Ninguém fala isso, mas queria conhecer alguém que falasse assim. Chega a ser ironia, eu desprezo os acomodados e os desleixados, mas se houvesse uma competição, em absoluto estaria em primeiro. É assim que são as coisas, posso até ser hipócrita, assim é a humanidade, tem seus surtos megalomaníacos baseados em nada, querem tudo, mesmo já tendo demais, a única coisa que compartilham é a habilidade de cagar, essa vem direto do fabricante, se sua merda é cheirosa, então venda e fatura em cima dos trouxas que vão comprar.

    Parte 2: Só mais um babaca, você ainda está lendo isso?

    Lembro que quando era jovem via as pessoas com um olhar mais inocente, “ dizer o obvio parece ser uma de minhas qualidades, o que não significa muita coisa, já que todos são assim”, aposto que até os maiores filósofos da história já sentaram um dia em seu urinol de barro e pensaram: “acho que vou bater uma só para relaxar”. Quem nunca, eu com toda certeza entro nessa categoria, “a de punheteiro, não de filosofo”. É bizarro, mas gosto de imaginar como as pessoas fazem suas coisas quando estão em sua privacidade. Quero dizer, logicamente existe aquele momento em que uma enxurrada de hormônios inundam o corpo e você só tem que descarregar. Agora eu imagino Hitler, Mussolini, Trotsky, e outros babacas de esquerda. “ Pois é, não sou da cartilha, nem me considero conservador e essas viadagem, na minha opinião a única coisa que os difere é a vontade de sair dando o rabo com a de pôr em prática.
    Bem na verdade eu quero mais é que tudo acabe logo, mal posso esperar para chegar o tão amado apocalipse bíblico, finalmente essa galerinha do velho barbudo que não é o papai noel vai sossegar. Realmente espero que deus exista, assim posso dar um soco na cara dele, “Por favor cristão, não leve a mal, mas deus é um otário se ele existir”, não é por nada, mas eu seria um deus melhor, sou obtuso em meus questionamentos, mas quero ter certeza de que se fosse para ter essa trabalho, eu seria melhor que meus professores do estadual. Me vejo usando uma toga branca que vai até minhas sandálias de couro persa, depois ia soltar dois macacos na terra e ver eles se fuderem até brotar essa bosta que é a humanidade. Sendo bem sincero, eu com toda certeza iria me divertir no juízo final. Fazia questão de criar várias instâncias e protocolar milhões de pedidos, só para essa galera ficar batendo um papo no limbo.
    Quem sabe um dia eu ainda possa fazer isso, a tecnologia está aí, porque não? Star Trek me prometeu que no século 24 haveria dobra espacial, desmaterialização e até holo-salas, o que difere deus de um grande inventor que pensou simplesmente para deixar seus espermatozoides em alguma poça.
    Uma beleza são as mulheres, é claro, as que realmente importam, sendo mães, esposas, tias, primas, irmãs e amigas. Não quero aquelas que te olham com superioridade e um aspecto vazio na voz, apenas desejo conversar com as que eu realmente me sinto próximo, aquelas que têm a capacidade de zelar e amar, sem medo de serem desprezadas. As mulheres que não vem com papinho vitimista tentam fazer de leis sua loja de conveniência, sendo franco, porque existe feminicídio, o que difere isso de homicídio, esse país louco chamado Brazolia. Onde o povo que realmente merece respeito não fica na internet ou cuidando da vida do outro, “parece que estou me contradizendo, mas não odeio realmente toda a humanidade, é claro, poucos são aqueles dos quais respeito, mas ainda assim, existem alguns que eu queria ver prosperar”.
    Homens por outro lado, podia ser só 20% da população, competição não é comigo, sou mais do tipo que pega a amiga gorda se ela já está sem opção, mesmo assim ainda existem uns São Jorges que tentam dificultar para mim. Isso sim irrita uma feminista, um cara que pensa em pegar mulher, na cabeça delas eu imagino que os homens seriam grandes sacos reprodutivos que não agregam em nada, mas quer saber é só a minha opinião, “quer saber de outra coisa? Eu não ligo para o que você pensa”.
    Fugindo um pouco o papo triste de desilusão e emo viado, “Lgbtqgasifasf, ou tanto faz a sigla que essa galera esta usando agora”, eu sinceramente não entendo o cara vir na minha frente, falar que é gay e querer meu respeito por isso, eu estou cagando se você da o rabo, ou se apenas esfrega a lampada do gênio. Quando que o cu de alguém virou palco para debate e discussão. Agora, além dessa galera turbinada no gatorade, tem uma outra que define como Xenomorfo, ou sei lá o que, quero dizer, realmente você atestar que gosta de uma coisa, ou desgosta de outra é tão importante assim. Vamos supor que é, por um breve momento, vamos supor que as escolhas individuais sobre sexualidade são realmente importantes. O que mudou no mundo? Viramos uma sociedade mais inclusiva apenas por aceitar que alguém quer dar para o megatron? Ou será que é mais relevante levar em conta como essas pessoas se aceitam e quiçá, aceitam outras pessoas? Lógica é algo que não funciona bem no mundo de hoje, e quer saber, quero que todos se fodam, meu respeito por essa galera acabou a partir do momento que qualquer coisa e é literalmente qualquer coisa pode ser um gênero. Eu sinceramente compreendo o fetiche, isso é normal do ser humano, mas da forma que foi escalonado, parece piada da revista Mad.
  • As Três Maravilhas

    Os dias passaram o arrastando por trombadas de sentimentos incontroláveis. Pensava ele estar acima das suas emoções, porém, por pensar estar acima, tirara a mão do mastro, e fora arrastado pelas tempestades sentimentais. Forças destrutivas o empurraram novamente a lama, e se sentira energeticamente imundo. Abrira a porta escrotamente para o mal de si, e violara a regra de sua santidade e perfeição. O mal o rondara, e percebera-se insano.

    Não podia crer que novamente tropeçara… o mesmo ciclo vicioso… a cobra que morde o próprio rabo… a mordida na própria língua.

    Entretanto, o Sagrado com toda a sua Mística o amava. E como uma mulher estéril que sorriu de felicidade pelo fim de sua improdutividade, ao ter um varão, na sua velhice… o Sagrado, assim, pacientemente, e rigorosamente, o educava com AMOR.

    O Místico Amor…

    O Amor do Amante e do Ser Amado… que faz do dois, três, e das três maravilhas uma só PRESENÇA.

    Havia entre eles compreensão e trabalho mútuo… era o pequeno e O GRANDE… o fraco e O FORTE… o encarnado e O IMANIFESTO…, que se despontavam em duas formas distintas, o inferior e O SUPERIOR. Contudo, um dependia do outro para ser visivelmente revelado.

    A Inteligência Superior a ele ofertada o fazia diferente dos demais, por isso, ao cair se levantava rapidamente… O SAGRADO compreendia que os tempos atuais eram ofuscados por uma sombra de trevas e ignorância, e que a LUZ teria como trabalho romper a cápsula de ignorância em que o SER AMADO nasceria, pois não tinha como nascer numa poça de lama sem estar melado por ela… só que ele mesmo (O Ser Amado) estava cansado dessas repetidas quedas na poça suja. Suas quedas eram mínimas em sua totalidade, nada que magoasse alguém, nada que ferisse… nada que matasse… nada de inveja, cacoetes, ou avareza… nada de arrogância, intolerância e cinismo… nada de extrema ignorância ou alienação. Caía contra ele mesmo… caía em sua perfeição, em sua santidade.

    E assim, se magoava e se autopunia, porquanto, almejava o principado. Por isso, os cavaleiros sombrios o perseguiam, e caía, quando, enganado pelo pequeno eu, amante da luxúria, cega e apaixonadamente o dominava. Entretanto, sabia quem era o inimigo, o estudara, o observara… e, também, o compreendeu… e dele mesmo teve compaixão.

    Vira os seus pequenos filhos que ao longo do seu nascimento no mundo das ilusões, nascera de suas traumáticas experiencias. Todos eles estavam berrando e choramingando por comida. O seu filho Medo tinha como iguaria a egoística proteção e isolamento, e a culpa era sua sobremesa favorita; Já a sua filha Ambição se deliciava de glamour, com biscoitos recheados de estrelismos. Porém, o que mais lhe preocupava, era seu filho mais velho Desejo, que crescera além da conta, e, trouxera sua amante Luxúria para habitar em sua morada, e juntos se deliciavam no doce picante chocolate da paixão.

    Notara que alimentar esses filhos seus era trabalho de sua personalidade mecânica e falsa, habitante dos infra mundos, cultivada exatamente por todas as coisas que contraiu e aprendeu em toda sua vida social metropolitana, fixa pelas teias de pontos de vistas alienados a uma realidade criada nos padrões ilusórios do pensar, sentir e agir mecanicamente.

    Sim! Ao se observar e autoanalisar a sua personalidade induzida…, sem sombra de dúvidas em sua mecânica ambiguidade, se percebera homem-máquina… um mero robô-humanoide que trabalha, se alegra, sofre, se droga, goza, come e dorme. E, pensara na etimologia da palavra robô, provinda do russo Работа (rabota), que quer dizer: trabalho, algo meramente mecânico, e percebera que seu instinto não passava disso… uma mera programação… pronta para executar as suas funções animais de prazer e dor. Graças a uma ignorante educação equivocada, que o adestrou a atuar, desde infância, em um frágil mundo de mentiras, em razão dos múltiplos episódios exteriores e de choques aleatórios, que abrolham em seu interior algumas mudanças quase sempre errôneas, ou não coincidentes com o evento em tese.

    E, assim, oculta e perspicazmente se sentara na poltrona da sua existência…, e vira seus malcriados filhos, que, insistindo em crescer em sua persona, desde cedo, assumir o controle da condução de sua vida mecânica, pois, estes, veio a existência unicamente por causa da pressão dos dramas, tragédias e comédias que se apresentam nas telas e palcos da vida. Claramente vira, que por culpa dessa mecanicidade do ser, O SAGRADO perdera sua essência e fragrância, despossibilitando a sua santa e perfeita manifestação harmoniosa, em sua vivência material orgânica. Já que toda forma de ação conscientemente mística-divina, fora substituída pelo automatismo mecânico do individuo social… o chamado cidadão comum.

    Analisara que sua débil e frágil personalidade mecanizada e controlada pelos ‘eus’ criados de si se adaptava a ambientes e pessoas. Escaneando e criando autoimagens em costumes e hábitos moldáveis pelo intelecto, utilizando de discursos e palavras, pensamentos e movimentos ilusórios, que utilizavam de hipnose consciente para o adormecimento da própria consciência.

    Ao se perceber mecanizado, resolvera ir a fonte de tudo que o programava… sentou-se em profundo silêncio, fixando os olhos ao chão… fizera uma pergunta ao universo do seu ser… e, prometera a si mesmo levantar-se, apenas com a resposta. Fixo em sua empreitada, o tempo, destruidor de todo gênero e criações humanas, ali parou. E, percebeu a expansão do seu próprio Ser Divino, além matéria, e viu o quanto era amado e protegido por essa Absoluta Grandeza. Também, junto a essa visão divina, se culpava por não se dedicar totalmente a esse Primeiro Amor… era o Ser Amado, porém, por não ter o Divino Amante por primazia, ainda não o conhecia. E, por ainda não o conhecer em sua Divina Essência, não se tornou o instrumento musical de suas harmoniosas canções… não alcançando ainda o Imanifesto que manifesta tudo.

    Em sua meditação sabia que a viagem era longa, e o trabalho pesado, a vida corpórea orgânica e encarnada tinha que enfrentar o mundo para se livrar de suas rédeas e freios. Sabia que o mundo material não passava de uma escola da alma, por isso, o alienado entretenimento social não o sequestrava.

    E, clamando silenciosamente orou: “Ó Sagrada e Mística Essência Divina que se assenta no trono de meu coração; Grande Sol Central Esplendoroso, mais radiante entre todas as luzes desse plano material; Magnifica Lua Cheia que ofusca as luzes cintilantes de todas as estrelas no imenso escuro dos céus; Consciente Inteligência do Eterno Sentido Divino; Grande Oceano pelo qual desagua todos os rios; Soberano entre as fontes de todos os néctares nascentes; Leão de todas as selvas e pastagens. Ó tu de olhos abertos em todos os lugares, fala-me diretamente sem intermediações, pois, tenho sede de ti. Como poderei eu te conhecer… aqui sentado e meditando?”

    Ali, parado, meditando por horas afinco, nada ouvira… nada vira… e não deslumbrara nada.

    Portanto, sabia que para poder receber as ondas de vibrações harmoniosas do SUPERIOR, primeiro tinha que se domar: educar todos os seus sentidos… peneirar todos os seus pensamentos… frear todos os seus sentimentos… adestrar todas as suas emoções. Se conhecer e ser o senhor de si mesmo, deixando de alimentar os seus ‘eus’ criados, e, assim, matá-los de fome e sede, para que educadamente perceba a superioridade do Pai, e possa o servir com frequente piedade e fé inquebrantável.

    Intentara evolutivamente que a melhor riqueza e nobreza do ser humano é a FÉ. Que seguindo a missão de sua existência no aqui e agora, atrairia a verdadeira felicidade que é independente e indiferente a ter alguma coisa, e ser algo ou alguém de sucesso para viver. Que, interiorizando e espiritualizando cada ação, até o ato de limpar uma fossa de merda pública em reverencia e gratidão, chegaria à maestria e principado. Degustara o doce mel da verdade, e queria obter os melhores dos bens e serviços devocionais, vivendo a vida sabiamente vivida purificando todas as maldades suas e dos demais. Descobriu que pela Fé… atravessaria as tormentas, pela Sinceridade… o mar dos egos e, pela Bonança e compaixão… o outro lado do reino da morte.

    De repente, em sua meditação, o espírito destruidor que o tentava, o inundou de maus pensamentos, gerando em sua mente maus sentimentos. Vira claramente a face do Anjo da Destruição, prateada como a lua em sua feminina forma tentadora, que faz lançar a culpada alma nos infra mundos infernais, e que goza de toda desolação. Ela estava deslumbrantemente irresistível, e cheirava paixão e luxúria. Seu sexo molhado de gozo tentador estava exposto, e latejando desejo o chamava. Sua boca parecia doce como mel, melados de néctar do prazer. No entanto, um pensamento de morte passou como vulto em sua consciência… e, meditando profundamente, enquanto se via nos braços demoníacos da luxúria, freou sua paixão, e disse, dessa vez, em voz audível: “Ó Dona de meu Desejo, como és bela e tentadora, estou agora ardendo de paixão e tesão por ti, porém, sinto seu calor arder como brasa, se me entrego a ti queimarei minha alma em sua chamas mortíferas. Ó Espírito de Tentação! Penso agora em minha morte, e tenho ela agora como fiel companheira. Você não tem mais lugar em mim”. Falando isso, o Tentador se dissolveu diante de seus olhos como um monte areia a esparramar pelo chão.

    A partir daquele dia as três maravilhas abundou o seu ser… de um que era se tornou vários; de vários, um; manifesto ou invisível atravessa sem resistências as paredes, as rochas como se penetrasse uma queda d’água de cachoeira; submergia na terra, e tornava a subir como se fosse o mar; caminha nas águas como se fosse terra firme; voava pelos ares como os pássaros, e sentava nas nuvens como os seres inefáveis; até a lua e o sol inflamados de calor, Ele acariciava com suas mãos, e no mundo dos deuses e semideuses se manifestava em glória; conhecia os homens e lia os seus pensamentos, sabia dos caminhos de sua alma, aquilo que faz elevar e tropeçar, dizendo: “Esse é o seu pensamento e desejo. Isso ou aquilo está em seu espírito. Este é o destino que te espera.”; E tinha sabedoria e inteligência para instruir e adestrar qualquer alma vivente.

    E assim, se manteve calmo e sereno em sua iluminação. O AMOR do AMANTE envolveu o SER AMADO, purificando de todas as impurezas acumuladas em seus centros orgânicos. O humanoide de programação emocional, deletou sua atividade efemeramente mecânica, transcendendo o corpo biológico, que agora era o receptáculo do SAGRADO em si mesmo.

    Nada mais o afetava, livrou-se do medo… fez da morte física sua companheira, e matou-se a si mesmo, renascendo das cinzas do sofrimento, se purificando nas águas do arrependimento, emergindo no ar do Sagrado Conhecimento… não por estar isento de emoções e sentimentos. Mas, unicamente por se livrar do corpo mortificado do desejo… que, ilusoriamente se ajoelhava perseguindo o prazer, e alienadamente orava fugindo da dor.
  • Às vezes no barulho da noite…

    Será se ele olha pra elas como quem está apaixonado?

    Será se ele faz planos com elas de casar em Vegas altamente chapado?

    Será se ele pensa nelas durante o dia, ou melhor, durante o barulho da noite?

    Será se ele procura nelas a paz que não se encontra por aqui?

    Será se ele quer envelhecer do lado de alguma delas? 

    Será se o peito dele não aperta quando escuta “eu te amo” sabendo que não tem nada de amor ali? 

    Será se ele pensa em mim quando está com elas? 

    Será se ele vai me ligar um dia só pra dizer que está com saudades? 

    Será se ele já tá bem resolvido com ela e não precisa de mais nada? 

    Será se existe ela? 

    Será se essa cacofonia vai embora na noite que vem? 

    Será se ele vem? 

  • Assassino Familiar

    Todos estavam festejando e brindando com as suas caras garrafas de champanhe em um pequeno círculo. Era fim de ano e toda a família estava comemorando por estarem bem e juntos em uma bela cobertura de frente para o mar. Não era uma família muito grande, tendo uma esposa e seu marido, que tinham uns 45 anos, e seus 4 filhos: um casal de gêmeos com 20 anos, uma menina com 18 e um menino de 15 anos. Antes mesmo da meia-noite e ainda com vários pratos à disposição para serem devorados, todos estavam dormindo e nem os fogos de artifício que brotavam de todos os cantos foram capazes de acordar essa família.
    O primeiro a acordar foi o jovem de 15 anos. Ele abriu os olhos bem devagar como se as suas pálpebras pesassem dezenas de quilos e percebeu que ainda estava de noite. Ele tentou se levantar jogando um dos braços para a frente para se apoiar no chão, mas não conseguiu e acabou com a cara no chão. Na queda, mordeu a língua e uma dor aguda foi direto para o seu cérebro, fazendo todos os músculos faciais se revirarem. Foi aí que percebeu que os seus braços e pernas estavam amarrados de maneira bem firme, chegando inclusive a doer um pouco. E o cheiro, o cheiro também era forte e confundia os sentidos. Ele vinha de todos os lugares: das roupas, das paredes e da enorme poça em que estava sentado. Finalmente percebeu que estava em uma piscina inflável que nunca tinha visto antes com outras três pessoas ainda desacordadas. Piscou algumas vezes tentando aumentar a velocidade dos seus olhos para fazer com que o seu cérebro pegasse no tranco. Depois de uma dezena de piscadas, percebeu que o cheiro era de gasolina. E que não era pouca, pois parecia que tinha uns três postos à sua volta em um dia bem movimentado de promoção. Sentiu o seu estômago se revirar por causa do cheiro e do medo crescente. Os seus olhos começaram a marejar, mas pouco antes de sua visão ficar encoberta pelas lágrimas identificou que aqueles que estavam ao seu lado eram a sua família com a exceção dos gêmeos.
    Ele não tinha forças o suficiente para voltar a ficar sentado, então foi tentando se virar de barriga para cima para tentar achar os seus irmãos. Quando se virou para o lado oposto, o seu rosto ficou paralisado tentando entender o que estava acontecendo. Ele viu a sua irmã segurando uma faca enquanto encarava o gêmeo que estava amarrado em uma cadeira de madeira. Ela sorria com os seus olhos vidrados no gêmeo, sem desviá-los nem mesmo por um segundo. Ainda deitado no chão, ele tentou falar alguma coisa, perguntar o que estava acontecendo, o porquê disso tudo ou qualquer outra coisa que levasse a algum diálogo, mas só conseguiu balbuciar alguns sons sem sentido. Foi o suficiente para que ela virasse o rosto. Embora os seus olhos parecessem aterrorizados, o sorriso macabro continuava em seu rosto. Ela deu alguns passos em direção a ele e ao resto dos seus familiares amarrados, mas repentinamente e bruscamente parou na metade do caminho. Ficou os encarando por uns 10 segundos antes de começar a falar:
    — Finalmente acordaram para o show! — a sua voz estava trêmula — Não é nada pessoal com nenhum de vocês, só quero me divertir um pouco. Se me deixarem em paz, a vida continuará! — ela voltou a andar na direção deles, levantou o irmão que estava no chão o deixando sentado e depois deu as costas e voltou a encarar o seu gêmeo. Durante toda a fala os olhos dela estavam marejados e assustados, mas o sorriso maníaco não saiu em momento algum.
    Todos da família estavam assistindo atentamente cada movimento que ela fazia sem pronunciar nenhuma palavra. Ela ficou olhando para uma mesa que, pela distância, a sua família não conseguia saber o que tinha nela. Depois de quase um minuto em que ficou quase sem se movimentar, a não ser por uns leves movimentos de não com a cabeça, ela pegou um martelo e um prego de uns 8 centímetros, posicionou o prego no joelho do gêmeo que não parava de repetir a palavra “não”, tomou distância com a mão, disse “sim” e com apenas uma martelada enfiou o prego inteiro bem na articulação do joelho. O gêmeo deu um enorme grito de dor e recebeu um soco por causa disso. Ele chorava como um recém-nascido e, talvez por causa do barulho, ela amordaçou o gêmeo. Os seus pais começaram a implorar para que ela parasse e por isso foram amordaçados também. Os outros dois irmãos não emitiram nenhum som. Eles olhavam, mas não acreditavam. Talvez pensassem que era um pesadelo ou que tinha alguma droga alucinógena no champanhe, aquilo só não podia ser real. Mas para o gêmeo era real e ficava ainda mais a cada minuto que passava e a tortura aumentava.
    Logo quando terminou de amordaçar os pais, voltou para o gêmeo e pregou o outro joelho dele. A família tentava desviar o olhar, mas sempre um acabava vendo alguma parte da tortura. As unhas sendo arrancadas lentamente com alicate ou rapidamente com pedaços de madeira embaixo delas, os diversos cortes feitos pelo corpo, a órbita ocular sendo arrancada com uma colher, a língua sendo arrancada com uma faca quente e as articulações sendo rompidas uma a uma. Essas foram apenas algumas das que eles tiveram estômago para ver. Normalmente elas aconteciam depois de um momento de alívio quando tudo ficava em silêncio. Esse silêncio era a esperança de que o gêmeo tinha morrido e que o seu sofrimento tinha acabado. Mas em todas as vezes ele só tinha desmaiado e em todas elas o gêmeo era obrigado a acordar seja por injeções de adrenalina ou por cheirar amônia, a tortura tinha que continuar.
    Ela só acabou depois de umas duas horas quando ela encharcou o corpo do gêmeo com gasolina e ficou parada na frente de todos com o seu maldito sorriso e com lágrimas saindo dos seus olhos.
    — Todos nos comportamos muito bem e por isso vamos sobreviver. Logo tudo isso irá acabar e poderemos voltar a viver nossas vidas normalmente. — Ela acendeu o isqueiro e ficou com ele no ar de olhos fechados enquanto as lágrimas aumentavam. Depois de uns quinze segundos a sua mão ficou mole e o soltou, caindo em uma poça de gasolina no chão e iniciando um incêndio sobre o corpo do gêmeo. Todos da família assistiam sem acreditar no que os olhos viam, quietos, pasmos. Eles viram o fogo atingir primeiro as pernas do gêmeo, fazendo com que os músculos da panturrilha se contraíssem em meio aos gritos de dor. Quando o fogo atingiu a barriga e o peito, os punhos já estavam fechados, mas os músculos da nuca se enrijeceram forçando o pescoço a virar a cabeça para o alto como se os seus gritos praguejassem contra um deus cruel. Até que um silêncio quase total atingiu a cobertura, a não ser pelos choros e pelo baixo estalar do fogo. O gêmeo agora parecia uma estátua de pedra completamente cinza e sem vida, mas que ainda transmitia a dor e o sofrimento que a artista queria provocar.
    Logo depois que os gritos acabaram, o resto da família foi dopada novamente e posta para dormir. Eles só acordaram quando a polícia chegou e todos esperavam que os policiais dissessem que tinha sido só um pesadelo. Quando era confirmada a realidade, o choro intenso voltava a acontecer. A gêmea também foi encontrada desacordada e quando voltou a consciência não parava de repetir que foi forçada a fazer tudo. Durante os depoimentos da família à polícia, tudo a apontava como culpada, mas ela insistia em sua inocência. Segundo sua versão, ela também foi dopada e acordou um pouco antes de todos. O seu irmão gêmeo já estava amarrado e, por mais que tentasse, não conseguia tirar o sorriso do rosto que parecia pregado na face. Foi aí que começou a ouvir uma voz em seu ouvido direito como se tivesse outra pessoa falando em um ponto nele. Era essa voz que estava ordenando cada ação que ela fazia e, se sequer hesitasse em obedecer, a voz dizia que toda a sua família iria sofrer e morrer por culpa dela. Então ela teve que decidir quantos iriam morrer e ela optou pela opção que tinha menos vítimas.
    Apesar de uma extensa investigação, nenhuma prova que sustentasse a versão dela foi encontrada. Não havia sinal de toxinas em seu organismo que pudessem ter causado o sorriso e nem algum vestígio de qualquer equipamento eletrônico que pudesse justificar as vozes em seu ouvido. Quase toda a sua família acreditava que ela era um monstro, com exceção do seu irmão que se apegava ao terror que viu nos olhos dela no dia do ano novo. Mesmo com o apoio dele, ela foi condenada a quase cem anos de prisão em um hospital psiquiátrico. Será nele onde passará o resto de sua vida como uma vilã sádica para alguns e, para outros, como uma heroína que se sacrificou para que sua família pudesse sobreviver.
  • Ausência

    Em um bar uma conversa se inicia. Dois homens, um de mais idade e outro mais jovem.
    - O que você fez quando soube da morte de seu pai? – Perguntou o homem do outro lado da mesa.
    - Não fiz nada, por quê? – Respondeu o jovem vestido elegantemente um terno preto e de chapéu na cabeça.
    - Mas como não, ele era teu pai?!
    - Sim, mas nunca se importou comigo.
    O homem mais velho respirou fundo.
    - Mas ele sempre lhe deu tudo, não entendo?!
    O jovem colocou a mão no bolso enquanto respondia.
    - Sim. Quando criança me encheu de brinquedos, na adolescência pagou meus estudos...
    - E agora na fase adulta ele deu a vida por você. – Concluiu o homem.
    Um sorriso se abriu no rosto do jovem.
    - No entanto tem o principal.
    - Principal?
    - Amor. Você sabe o que é isso?
    A voz do homem era bastante insegura.
    - Amor... Bem, amor é quando um homem gosta de uma mulher, ou vice e versa. É isso?
    O jovem riu contido.
    - É, pode ser. Mas o amor não se restringe a isso apenas. O amor pode ser demonstrado de várias maneiras. Com um bom dia, um sorriso, um abraço. Quando você conta uma história para o seu filho, quando você brinca com seu neto. Existem diversas formas de se demonstrar amor, e esses são só alguns exemplos.
    - E seu pai deve ter feito muito dessas coisas com você, não é mesmo?!
    O jovem acendeu um cigarro, deu uma baforada e olhou para o teto de estrelas.
    - Nunca fez. Ele era um homem ocupado, trabalhava muito.
    O homem abaixou a cabeça e por um breve momento olhou para o chão sujo de bitucas de cigarro.
    - Então você nunca gostou de seu pai
    - Pelo contrário, eu o amava.
    - Mas...
    - Eu não o culpo pela ausência, pela falta de amor e pelos abraços que eu não recebi. Só não entendo porque ele foi tão distante se ele teve a chance de estar comigo todos os dias.
    Os dois se levantaram; o homem mais velho apoiado em uma bengala, o mais novo apoiado na mesa por estar levemente embriagado.
    - Você perdoaria seu velho pai? – Perguntou o homem velho tentando esboçar um sorriso.
    - Acho que sim. Se ele dissesse que me ama e me desse o abraço mais apertado que ele deu em alguém. – Respondeu o mais novo abrindo os braços.
    Com lágrimas nos olhos e a voz fraca o velho disse:
    - Esse abraço apertado pode ser dado pelo pai do seu pai?
    - Pode vô. É claro que pode.
    No mesmo instante em que os dois se abraçaram tudo se transformou. O amor que o homem mais jovem não teve do pai estava sendo trocado pelo amor simples, puro e singelo do avô.
    - Não se preocupe garoto, se teu pai não te amou como você gostaria, tenha certeza de que o velho aqui vai lhe dar em dobro, pode apostar.
    E lá se foram os dois, de braços dados e de corações abertos.
  • B A I I S C T N Â

     

     

                           B                              A

                              I                         I

                                 S               C

                                     T       N

                                         Â

     

     


                         
                        t e l e              v i s ã o

     


                        t e l e             v a z ã o

     


                        t e l e              v a z i o

     

     

     

     

     




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    © "Copyright" do Autor, IN: Concursos literários do Piauí. Teresina, 2005, Fundação Cultural do Piauí. 226 p. Página 188.
  • Bailarina

    Sinto seu cheiro
    Faltando no corpo
    Sinto em meus poros
    Deixe-se levar pelo meu sal, meu mar, meu Sol
    Mel, calor, torpor
    Mesmo sem você, acho que estou indo bem
    Um carvalho em meio à rotina das estações
    Âncora, esperando pouso leve
    Suas asas me aprovam
    Na sua rocha sólida, escudo, correm tuas águas
    Diga-me sim
    Bailarina
    Confie em mim
    Sua felicidade é o meu jardim.


    Poema do meu primeiro livro de poesias, Átomo, lançado em dezembro de 2018, com prefácio de Rafael Cortez e apresentação de Thomas Pescarini e disponível em formato físico e ebook na Amazon.
  • Bate-papo [conto]

    [21:23:59] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: Oi
    [21:24:15] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: ola
    [21:24:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tudo bem?
    [21:24:31] M amizade entra na sala.
    [21:24:45] h mama h diz para Todos: algum cara aí afim?
    [21:25:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: sim e vcs?
    [21:25:27] coroa safado entra na sala.
    [21:25:40] Moreno22 diz para Todos: aumente seu pênis de forma natural. {www.penislandia.cz}
    [21:25:47] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tbem
    [21:25:53] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: da onde tcm?
    [21:25:55] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:26:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: ZS e vcs?
    [21:26:07] Carol15 entra na sala.
    [21:26:10] KRALHUDO fala reservadamente para Ele&Ela: 19cm de rola para esposinha e maridão…...afim?
    [21:26:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: ZN
    [21:26:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: quantos anos vcs tem?
    [21:26:47] Hserio entra na sala.
    [21:26:54] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: eu 32 e ela 35 e vcs?
    [21:26:59] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:27:13] Safado CAM1 entra na sala.
    [21:27:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: eu 38 ele 42
    [21:27:32] Coroa safada diz para h34: tenho muita coisa para te ensinar ahahhaha
    [21:27:45] Kzado quer entra na sala.
    [21:27:48] Loirinha sai da sala.
    [21:27:53] Macho sai da sala.
    [21:28:10] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:28:20] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: o q vcs fazem?
    [21:28:33] Gordinho T entra na sala.
    [21:28:47] Einsten entra da sala.
    [21:28:55] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: somos liberais, gostamos de fazer tudo
    [21:29:13] Safado CAM1 fala reservadamente para Ksal Discreto: quer ver um homem de verdade fuder sua mulher seu corno?
    [21:29:33] Mulher entra na sala.
    [21:29:42] Hserio fala reservadamente para Ela&Ele: oi
    [21:29:50] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:29:53] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: legal, mas eu quis dizer no q vcs trabalham rsrsrs
    [21:30:10] Marta ZO entra na sala.
    [21:30:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: rsrsrs eu sou arquiteta e ele é advogado e vcs?
    [21:30:33] h mama h diz para Todos: algum cara afim?
    [21:30:49] Paola entra na sala.
    [21:30:57] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: sou empresário e ela é médica
    [21:31:04] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: vcs tem filhos?
    [21:31:24] Einstein sai da sala.
    [21:31:37] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: temos 2 e vcs?
    [21:31:45] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: legal, nós temos 1
    [21:31:50] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: até por isso a gente quer ser discreto
    [21:32:04] Coroa safada diz para Safado CAM1: vamos
    [21:32:10] Hilda Hilst entra na sala.
    [21:32:17] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: nós tbem gostamos de ser discretos
    [21:32:23] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: não vamos em casas de swing ou coisas assim
    [21:32:30] Maduro entra na sala.
    [21:32:42] H22cm diz para Todos: cavalo comendo famosa sem vaselina {www.animalfuck.jh}
    [21:32:57] Carol15 diz para Todos: alguém quer tc?
    [21:33:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: nós tbem não
    [21:33:10] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: como vc são?
    [21:34:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: eu 1,70m, 65kg, loira e olhos castanhos, ele 1,85m, 93kg, moreno e olhos castanhos e vcs?
    [21:34:25] H pintudo sai da sala.
    [21:34:07] Hilda Hilst diz para Todos: alguém aqui quer só tc?
    [21:34:16] Hserio diz para Hilda Hilst: oi
    [21:34:40] Marcelo sai da sala.
    [21:34:59] Carol15 diz para Maduro: não
    [21:35:05] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: eu 1,80, 80kg, loiro e olhos castanhos, ela 1,75, 68kg loira e olhos verdes
    [21:35:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: o q vcs procuram?
    [21:35:34] h mama h diz para Todos: algum cara aí afim? tenho local na ZN
    [21:35:43] paulo17 sai da sala.
    [21:35:55] Safado CAM sai da sala.
    [21:36:10] H66 diz para Madura CAM: vc é homem seu viado
    [21:36:13] H66 diz para Todos: cuidado!!!! a Madura CAM é uma bixa loca
    [21:36:30] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:36:40] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: uma aventura com um casal discreto e vc?
    [21:37:13] H pintudo entra na sala.
    [21:37:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: isso aí tbem rsrs
    [21:37:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: uma aventura sem compromisso
    [21:37:30] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: vcs já saíram com outros casais?
    [21:38:05] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: não, e vcs?
    [21:38:30] M inversão diz para H66: me dexa em paz seu escroto
    [21:38:40] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tbem não
    [21:38:55] renato bi sai da sala.
    [21:39:03] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: o q vcs quiseram dizer quando disseram que gostam de fazer tudo? rsrs
    [21:39:19] Evangélica amizade sai da sala.
    [21:39:30] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:39:50] M inversão sai da sala.
    [21:40:18] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: nós dois somos bi, gostamos de tudo entre 4 paredes rsrsrs
    [21:40:30] Hserio sai da sala.
    [21:40:47] Mario 47 entra na sala.
    [21:41:09] PAU DURO CAM sai da sala.
    [21:41:30] Moreno22 diz para Todos: aumente seu pênis de forma natural. {www.penislandia.cz}
    [21:41:51] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: do que vcs gostam?
    [21:42:03] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: a gente estava pensando mais em uma troca de casais
    [21:42:13] Caroline entra na sala.
    [21:42:31] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: podemos fazer várias trocas rsrsrs
    [21:42:47] Elton21anos sai da sala.
    [21:43:11] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: não sei, nunca transei com outro homem
    [21:43:21] DotadoCAM entra na sala.
    [21:43:30] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: minha esposa disse que já transou com outras mulheres na faculdade
    [21:43:40] DotadoCAM diz para Mulher Perdida: oi
    [21:43:43] DotadoCAM diz para h passivo: oi
    [21:43:48] DotadoCAM sai da sala.
    [21:44:11] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: as coisas acontecem de forma natural
    [21:44:19] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: o q rolar rolou rsrsrs
    [21:44:32] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: seu marido sai com outros homens sempre?
    [21:44:50] Hilda Hilst sai da sala.
    [21:45:09] Matheus sai da sala.
    [21:45:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: não, a gente tem uns brinquedinhos para se divertir
    [21:45:30] Ninfa diz para Todos: famoso confessa que gosta de transar com cabras {www.semvergonhadacabra.hg}
    [21:45:48] Caroline diz para Ksado43: 18
    [21:46:12] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: desculpem, mas acho que isso não vai dar certo
    [21:46:22] Caroline diz para Ksado43: q nojo
    [21:46:34] Caroline sai da sala.
    [21:47:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tudo bem
    [21:47:22] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:47:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: até
    [21:47:30] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: até
    [21:47:45] Ksal Discreto sai da sala.
    [21:47:55] Ela&Ele sai da sala.
  • Belezas

    A visão do mundo quando bom
    desperta dos estalos das cordas, do som
    assusta-me, como cativa-me...
    bruta como o silêncio anormal
    de um órgão esquecido
    no vazio de sua catedral.

    A visão do mundo quando bom
    una, dona de belas aparências,
    confunde-me, como expressa-me, furiosa e fervente
    melancólica como o escuro azul
    e azul como o fogo mais quente.

    A visão do mundo quando bom
    está no teu calcanhar enquanto te sigo
    ao fim do mundo, o apocalipse, ou à imperdoável morte do meu coração
    e por todos os caminhos, ando contigo
    sem deixar o olhar sequer cair ao chão.
  • Bistância

    tele   visão
    tele   vazão
    tele   vazio
  • Bom dia!

    Que o sol ao nascer te faça sorrir, te mostrando que mais um dia se inicia. Que o vento leve os seus sonhos até Deus e que tudo se realize. Mas, quando entardecer e tudo escurecer, não desamine.
    As estrelas vão brilhar e logo mais a lua aparecerá. Mas, se as nuvens cobrirem o céu, feche os olhos e perceba, que nem todos os dias terminam como a gente quer, mas, podem começar como a gente sonha.


    Luca Schneersohn
  • BREVE HISTÓRIA DO IMPÉRIO EM TEOMAKIA

    No continente de Éos, mais precisamente na região central, localiza-se o Império Sagrado. Este, estabeleceu-se numa vasta região, onde se localizavam dezenas de tribos, com idiomas bastante similares, que eventualmente foram unificadas em 8 pequenas nações. Como era natural que ocorresse, essas nações acabaram por se tornarem em monarquias rudimentares, as quais entravam em constantes guerras e alianças. No fim desse período, numa fase semelhante a baixa antiguidade, quatro reinos restaram, tendo cada um anexado um dos demais por meio de casamentos e/ou tratados de unificação. Havia uma peculiaridade nesses reinos.
    Haviam quatro portadores de poderes sobrenaturais que passavam seus poderes para sucessores. Não se sabia exatamente como isso tudo funcionava, mas eles naturalmente tornaram-se generais em seus respectivos reinos. Tradicionalmente, esse poder, conhecido como "A Virtude" no Reino do Sul e regiões próximas e como "O Legado" nos demais reinos, era transmitido somente dentro de determinadas tribos, que tornaram-se clãs. A influência de cada um desses clãs aumentou ao ponto de que, adentrando aquela civilização em uma condição social de feudalismo, tornaram-se todos esses clãs, em seus respectivos reinos, famílias tradicionalmente nobres. Assim que cada um dos 8 reinos se unificou a um outro, os tratados tenderam para centralizar o poder na figura do portador do Legado. 
    Passados mais alguns anos, a religião comum de toda essa região, a Doutrina, passou a ser ameaçada por religiões de povos do leste. Foi então iniciado um processo de unificação forçada, visando um esforço de defesa. Ocorreu que a falta de articulação entre os reinos resultou em uma derrota quase absoluta: um vasto território de quase 3 milhões de km² foi tomado de assalto por centenas de inimigos com habilidades sobrenaturais, liderados por dois generais imortais, sendo um homem e uma mulher. Acredita-se que eram deuses. Todos os 4 portadores foram eliminados, sendo substituidos por seus herdeiros aprendizes. Entretanto, sendo ambos ainda muito jovens, preferiu-se uma estratégia de menos enfrentamento e de poupar suas populações. Os quatro reinos foram reduzidos a uma pequena parte do norte do antigo Reino Ocidental. Foi então firmado um tratado de paz com os deuses. 
    Na pequena parte reduzida dos quatro reinos, eles foram unificados em um, com um monarca eleito entre os líderes de clãs. Foram criadas também as cátedras, títulos militares dados aos portadores. Mais sete anos e iniciou-se um processo de retomada do território. Os quatro Catedráticos lideraram os exércitos em consecutivas vitórias, reconquistando quase metade do território perdido em cerca de cinco décadas. Seus sucessores retomaram quase o mesmo território dos anteriores em cerca de três décadas. Estes, por sua vez, escolheram aprendizes jovens. Os quatro jovens escolhidos foram os últimos até o início da história contada de Teomakia. Após a reconquista de tão vasto território, estabeleceu-se a capital real numa região ao sul do continente, Augusta. Foi estabelecido o Senado, tendo presença de cada um dos chefes dos clãs tradicionais, os quais eram responsáveis pela eleição do Prínceps (o monarca, o primeiro cidadão). Ao Prínceps, após coroação da Doutrina, é dado o título de Imperator. 
    O atual Imperator é Tiago Primeiro, Prínceps, Imperator e Rei de Australis, Occidentalis, Orientalis e Septentrionalis. Os catedráticos no início da história são: Aidan Silva, Barão da Colina, Herói de Australis e Catedrático do Fogo; Éolo Piero, Duque de Sol, Paladino e herdeiro de Orientalis e Catedrático do Ar; Orlando Mercio, Marquês do Ocidente, Protetor de Occidentalis e Catedrático da Terra; e Adriano Gelo, Duque de Fluvius, Defensor e herdeiro de Septentrionalis e Catedrático da água. 
    A Cátedra é tradicionalmente passada a um nobre, do sexo masculino, de clã reconhecido, puro de ascendência filho legítimo.
  • Caçadora

    Já haviam se passado dois dias desde que os sequestros começaram, as delegacias da região estavam lotadas de policiais e informantes, todos desesperados por uma única pista. Nos hospitais seguranças cercavam os berçários, pais nunca deixavam um enfermeiro ficar a sós com seus filhos. Dois dias, quarenta crianças, todas tiradas dos braços das mães em sete diferentes hospitais da cidade.
    Sofia tentara rastrear os sequestradores a partir de câmeras de segurança, mas não conseguiu nada além do que a policia tinha, os bebes eram pegos por enfermeiros que trabalhavam nos hospitais, eles aparentavam estar fazendo seu trabalho de rotina, contudo, nunca chegavam ao destino, desapareciam dentro de um carro junto com a criança, tudo pego pelas câmeras.
    No primeiro dia dez roubos dentro de uma hora, dois recém-nascidos e oito que já estavam a mais de um dia no berçário, quando chamaram a policia já haviam desaparecido, essa primeira onda ocorreu somente em um hospital, os outros trintas seguiram o mesmo padrão no dia seguinte, menos de uma hora e em seis hospitais diferentes. As câmeras de trânsito não conseguiam acompanhar os criminosos, haviam poucas e cobriam somente uma parte pequena das ruas.
    A cidade inteira estava em pânico, a mídia não saia de cima da polícia, os gerentes dos hospitais estavam ocupados demais tendo que atender advogados que ameaçam processos milionários, Sofia sabia que quanto mais alvoroço acontecesse, mais as pessoas deixariam passar os detalhes, então estava na hora dela agir.
    Após assistir as câmeras diversas vezes, juntou os seguintes padrões, o comportamento dos enfermeiros até recolherem as crianças eram normais, nenhum dos quarenta apresentara qualquer sinal de nervosismo, nenhum teve qualquer contato estranho ou incomum entre eles, ou seja, sequestrador com sequestrador, assim como agiram de forma completamente confortável quando saíram do hospital e entraram no carro, o mais provável era que o quer que tenha motivado os roubos tenha acontecido entre os segundos em que as câmeras não pegavam eles, se tornava difícil notar qualquer interação com outros possíveis cumplices nesses momentos, ninguém estranho, tudo em perfeita ordem, parecia completamente inútil.
    O único detalhe que juntava todos os membros como cumplices era que em cada roubo o carro do sequestrador pertencia a outro sequestrador, todos segundo os familiares sem qualquer ligação. Os carros foram encontrados, estavam separados em diversos bairros da cidade, sem GPS, sem os donos, sem pistas.
    No primeiro dia vinte minutos após chamarem a policia as BRs que levavam para fora da cidade estavam fechadas, no segundo dia elas foram reforçadas, a guarda nacional ajudava a cercar a cidade, ninguém passava sem ser visto, pelo menos era isso que eles queriam acreditar, o mais provável era que as crianças ainda estivessem na cidade, a questão era acha-las.
    Sofia pensou em qual seria o próximo passo da polícia, estavam prontos para invadir todo e qualquer lugar que pudesse abrigar quarenta recém-nascidos, quanto tempo demorariam para conseguir a permissão? Algumas horas?! Ninguém conseguiria esconder-se por tanto tempo com esse número de reféns, os planos eram outros, talvez aquelas crianças não tivessem algumas horas.
    Eram quatro horas da manhã, Sofia decidiu que não valia a pena correr atrás de todos os quarenta suspeitos, escolheu um, Carlos Mendonça, quarenta e dois anos, residia no hospital a mais de uma década, casado e com três filhos, um homem normal, pai amoroso e ótimo jogador de cartas segunda a esposa. A casa do suspeito ficava próximo a casa de uma das vítimas, podia ser coincidência ou ele podia estar de olho na gravida a muito tempo.
    A menina esgueirou-se pelo jardim da casa, sempre de olho para que ninguém a visse, escalou até o segundo andar onde sabia por informações recolhidas de conversas com “vizinhas informantes” (fofoqueiras) que ficava o quarto do suspeito e sua esposa. A janela estava fechada, mas era de vidro e por ela podia-se ver uma mulher de idade já avançada deitada na cama em um sono profundo, um sono que conseguira a muito custo, isso era o que indicava os frascos de soníferos ao lado da cama. Outro motivo pelo qual Sofia escolhera aquela família em especial era por que fora uma das primeiras entrevistadas, metade dos familiares de suspeitos ainda estavam na delegacia e a garota preferia fazer seu trabalho longe da polícia.
    Todos na vizinhança dormiam, tão calmos e ao mesmo tempo tão desesperados, Sofia desceu para o jardim, encontrou a porta dos fundos e com um grampo abriu a fechadura como se fosse um jogo de criança.
    Andou pela casa sorrateiramente, procurou pelos filhos, mas eles não estavam, deviam ter sido mandados para os cuidados de algum parente para evitar que comtemplassem a tristeza da mãe, era uma coisa boa, não seria interrompida. Subiu as escadas, fechou as cortinas do quarto, vestiu uma mascara completamente branca que só possuía buracos para os olhos e foi em direção a cama.
    - Cristina! – sussurrou bem perto do ouvido da mulher, mas não surgiu efeito.
    - Cristina! – voltou a repetir, agora mais alto dando um empurrão na dorminhoca.
    A mulher resmungou um pouco, virou-se de frente para a menina e quando abriu os olhos, entrou em desespero, tentou gritar, mas uma mão tapava sua boca. Seu próximo instinto foi pular para fora da cama, novamente frustrada, desta vez devido a faca de caça que repousava em seu pescoço.
    - Não quero ter de usar meios violentos. – disse Sofia – mas não hesitarei um segundo se me obrigar a fazê-lo, estamos entendidos?
    A mulher com os olhos arregalados e cheios de medo acenou com a cabeça de forma afirmativa. Sofia retirou a mão que tapava a boca da vítima, mas manteve a faca,
    sentou-se na cama confortavelmente enquanto era observada pelo olhar amedrontado de Cristina.
    - É... é dinheiro? – perguntou a mulher gaguejando – Te... te... tem no... co... co... cofre, a senha é 2...2... 4...
    - Isso não é um assalto!
    A mulher permaneceu um momento em silencio, então pediu se poderia sentar, Sofia permitiu, contudo, sem remover a faca do pescoço da vítima.
    - É meu marido? – perguntou a mulher com os olhos cheios de lágrimas. – Você é uma parente?
    - Não Cristina, sou só alguém querendo fazer a coisa certa.
    - Com uma faca?
    - Com os meios que a justiça despreza, mas necessita.
    As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto da mulher. – Eu não tenho nada a ver com isso, meu marido também não, é um grande engano, ele é uma boa pessoa.
    - Ele sequestrou um bebe e desapareceu, não é a definição correta de boa pessoa.
    - Você não entende, ele não pode ter feito isso, ele é um homem carinhoso, um pai de família gentil, nunca esquece meu aniversário, continua dizendo que me ama todos os dias mesmo depois de vinte anos de casamento.
    - Parece perfeito demais não acha?!
    - Por que está aqui? Tem alguma pista dele, tem dele algo a mais que os outros? Não conheço todos os envolvidos, mas tenho certeza que assim como meu Carlinhos eles são vítimas de alguém que os manipulou.
    - Acha mesmo que ele é inocente?
    - Eu conheço meu marido!
    - Então consegue imaginar alguma oferta que o teria feito repensar seu estilo de vida? Dinheiro, algum favor especial talvez?
    - Dinheiro? Eu sei que ele é só um enfermeiro, mas dinheiro nunca foi um problema, ele herdou uma fortuna de seus pais, poderia ter pego tudo e ido embora, em vez disso dedica todo dia cada centavo dele para dar a mim e a nossos filhos a vida mais alegre que poderíamos desejar.
    - E onde está sua alegria agora?
    A mulher caiu em prantos e Sofia não demonstrou qualquer sinal de pena diante da cena, assim como sua mão não afrouxou no pescoço da refém.
    - Temos um problema aqui! – disse a menina – Tudo indica que seu marido faz parte de algum grupo de lunáticos que resolveu sequestrar quarenta crianças de uma vez só em um período de dois dias, sabe o quanto isso é insano? Não faz o menor sentido! Sabe, eu gostaria que ele não fosse culpado, acredite em mim, assim eu pouparia uma bala na hora de matar os responsáveis, o problema é que preciso de uma outra teoria que o livre dessa, você tem alguma?
    - Ah...ah... Não sei... ah... Talvez alguém parecido com ele, talvez... eu não sei... – a mulher voltou a chorar, tentou controlar quando sentiu o fio da navalha apertar mais contra seu pescoço.
    - Vamos lá Cristina, eu não tenho muito tempo.
    - EU NÃO SEI! Bolar uma teoria não deveria ser o seu trabalho?
    - Estou sem ideias, preciso de uma segunda opinião, que tipo de grupo é lunático a esse ponto?
    - Tráfico sexual, trabalho infantil, órgãos, EU NÃO SEI!
    - Sabe qual é o problema com esses grupos Cristina?
    - Eu... eu... eles... não fazem escândalo?!
    - Exatamente! Você não está se esforçando para livrar seu marido dessa Cristina.
    - ELE É INOCENTE! Porque não acredita em mim?! Eu não sei de nada, ele era um bom homem, meu deus ele até doava dinheiro para igreja todo mês.
    Sofia suspirou desapontada, retirou a faca da garganta da vitima e a guardou no sapato, as duas permaneceram em silencio por um momento, até que a menina notou algo no que havia ouvido.
    - Vocês são religiosos? – perguntou ela a mulher.
    - Não exatamente! A religião vem de família, mas as doações são nossa única ligação com esse tipo de culto atualmente e é só porque a igreja faz obras de caridade ou algo assim...
    - Está me dizendo que não sabe exatamente para que a igreja usava o dinheiro?
    - Era o... era... meu marido... que... cuidava disso... você... você acha que...
    - Um homem perfeito?! Talvez você esteja certa e não seja nada, mas só por precaução vou checar para onde o dinheiro ia, tem pelo menos o nome da igreja?
    Alguns quilômetros longe dali, dentro de uma cafeteria vinte e quatro horas, Sofia procurava em um dos computadores do estabelecimento, tentando encontrar informações sobre o Centro de fé e contemplação do senhor Jesus Cristo. Era uma comunidade bem grande, muitas propagandas sobre obras de caridade, embora as igrejas deste culto fossem templos pequenos e espalhados em vários pontos da cidade, todos os anúncios traziam consigo a imagem do patrono da religião, o padre
    Deo Missusa, latim, se fosse escrito Missus a Deo significava enviado de deus, Sofia entendia um pouco de latim e essa podia ser novamente só uma coincidência, mas aquele parecia ser um nome inventado, do tipo que artistas usam para parecerem mais chamativos.
    “O que Deus diria disso?!” pensou ela.
    Após alguns minutos de pesquisa encontrou um numero de telefone, sabia que não ajudaria muito, mas resolveu tentar um contato com o próprio “Enviado de Deus”, através da linha de ajuda a viciados. Saiu da cafeteria, encontrou um lugar sossegado e então telefonou, foi quase que imediatamente atendida por uma mulher.
    - Centro de fé e contemplação do senhor Jesus Cristo, que a benção do senhor esteja com você, com quem estou falando?
    Sofia enrugou um pouco a voz para parecer rouca – Meu... Meu nome é Karine, eu... eu preciso de ajuda... eu quero me matar.
    Houve uma comoção do outro lado da linha, outra pessoa assumiu o telefone, desta vez um homem, afinal, a linha era para viciados, não suicidadas. – Boa noite Karine, meu nome é Jeferson, estou aqui para te ajudar, preciso que continue na linha ok? O senhor nosso deus tem um proposito para você, sua vida tem um valor inestimável...
    Sofia resolveu criar um pouco mais de drama – Onde está a mulher? Eu estava falando com uma mulher? – ameaçou um choro – Porque todo mundo me passa para outra pessoa?
    - Karine, eu preciso que se acalme ok?! A irmã Maria está aqui comigo, ela não saiu, eu pedi para assumir o telefone, já lidei com isso antes querida, tem algo que deseje em seu coração?
    - Deo!
    - Como?
    - O padre Deo está ai?
    - Sinto muito querida, o padre encontrasse em seus aposentos, mas Deus fala através de todos nós, pode falar conosco e estará falando com Deus.
    - Por favor! – Sofia fingiu que estava chorando, parecia bem convincente, era uma ótima atriz – eu estava... estava vindo para cá, pronta a pular, pronta a tirar minha vida, então eu vi, eu vi um cartaz, era o padre Deo, é um sinal, meus pais sempre foram religiosos, eu nunca liguei para essas coisas, por favor, eu preciso falar com o padre, ou então não tem porque eu continuar nessa ligação.
    A resposta foi rápida – Tudo bem Karine, eu preciso que prometa continuar na linha, não faça nada precipitado, vamos tentar entrar em contato com o padre, mas enquanto isso, porque você não nos dá sua localização?! talvez o padre possa te encontrar pessoalmente.
    - NÃO! Vocês estão mentindo, vão chamar a polícia, vão me mandar de volta para aquela maldita clínica, EU QUERO FALAR COM DEO OU VOU PULAR!
    - Calma Karine, estamos ligando para o padre agora mesmo...
    A ligação se estendeu por alguns minutos com Jeferson incentivando o tempo todo para que a vitima se acalmasse e tivesse paciência, Sofia por sua vez mostrava cada vez mais sinais de impaciência para que agilizassem as coisas, por fim a ligação foi passada para o “Santo Deo”.
    - Que a benção do senhor esteja com você, o que há em seu coração querida? – perguntou o padre.
    Era hora de decidir bem o que dizer, Sofia queria saber se a igreja tinha algo a ver com os sequestros, pensou em alguns dos sequestradores. – Meu nome é Karine... meu pai era Gregório Castro...
    Sofia não disse mais nada, esperou uma reação.
    - Um dos sequestradores?! – disse o padre.
    “E o peixe morde a isca” pensou a menina, mesmo que tivesse visto todas as notícias seria difícil decorar todos os quarenta nomes, muitos dos jornais nem se deram ao trabalho de citar todos os envolvidos, de novo, poderia ser coincidência, mas a garota chegara até ali com algo extremamente banal como contribuições para caridade, não tinha porque não ir a diante.
    - Ele falava muito da igreja – Sofia continuava com a voz de choro – você o conhecia?
    - Deus conhece todos os seus servos minha querida, mas eu sou só um mortal, não tive a honra de conhece-lo, tenho certeza que era um bom homem...
    - Então porque ele...
    - O diabo as vezes tem vitórias que não conseguimos entender, mas Deus sabe a hora de agir, se seu pai era um bom servo, tenho certeza que Deus perdoara seus pecados.
    - E os seus, padre?
    - Meus?!... meus pecados? Somos todos iguais aos olhos de Deus.
    - Ele sempre doava dinheiro para igreja! – disse Sofia atirando no escuro.
    - Ele era um doador fiel da caridade sim, e Deus ajuda quem ajuda os desfavorecidos.
    Uma ligação, havia uma ligação entre dois suspeitos, ambos doavam para igreja, como sempre sem provas, mas as coincidências continuavam a aparecer.
    - O que está pensando em fazer querida? – continuou a falar o padre – É por isso que está pensando em cometer o pecado do suicídio, por causa dos pecados de seu pai?
    - Como posso viver com isso padre? Minha amiga pensa do mesmo jeito, a mãe dela também fez isso, era uma boa mulher – mais uma tentativa, Sofia pensou em outro
    nome entre os sequestradores - Julia Tália Santos, sempre doava para sua caridade – esperava outra mordida, mas as coisas mudaram a partir daí.
    - Quem é você? – perguntou o padre de forma fria.
    Nesse instante Sofia entendeu que fora descoberta, estava ligando pontos demais, pedindo informações demais, e o líder de um culto só podia ser burro até determinado ponto ou não seria o líder.
    - Onde estão eles? – perguntou a menina.
    - Os sequestradores? Porque eu deveria saber disso?
    - Porque eles trabalham para você, porque sua maldita igreja sequestrou quarenta crianças e posso apostar que não faz parte de um programa de caridade.
    - Dominus tem um grande plano para elas, você é uma criatura sem fé, não entenderia.
    - A policia está ouvindo essa conversa!
    - Não está não! – disse o padre com confiança – essa é uma linha privada, já tenho sua localização e alguém de olho em você, é só uma adolescente metendo o nariz onde não é chamada...
    Sofia desligou o telefone e olhou em volta tentando encontrar os olhos do padre em algum lugar, não havia ninguém, estava sozinha, a rua era silenciosa e ao longe os primeiros raios de sol nasciam, ela suspirou aliviada e ao mesmo tempo sentindo o coração pular para fora do peito.
    Agora que já sabia que a igreja realmente tinha algo a ver com isso ela tinha que encontrar um modo de chegar até eles, estariam em um grande culto ou algo assim, devia haver muita gente envolvida, não que fossem fazer isso em um lugar público, mas devia ter um jeito de chegar a eles.
    Sofia entrou novamente na cafeteria, era a única cliente ali, pensou em pedir algo, passara muito tempo sem comer nada, foi até o balcão e enquanto avaliava as opções notou vários cartões de visita, taxis, livrarias, grupos de ajuda, e lá estava ele, a imagem de Deo “Faça parte da nossa comunidade!” dizia o cartão.
    - Vai pedir? – disse o garoto atrás do balcão assustando Sofia que estava focada nos cartões.
    - Não! – respondeu ela rápido – desculpa, quero dizer, estou escolhendo ainda.
    O garoto sorriu e de forma graciosa fez uma reverencia, Sofia riu e voltou os olhos para o cardápio. Ao fundo ouviu o telefone tocar, o garoto atendeu imediatamente, deixando a menina sozinha com as opções.
    Seria um dia puxado, ela precisava de energia, começara a pensar que se metera com algo muito grande, afinal, estava sozinha, passou os olhos pelo hambúrguer e pela
    torrada, pensou em pedir talvez um pastel, estranhamente estava com vontade de comer pastel.
    - Karine? – perguntou o atendente.
    Sofia ergueu os olhos a tempo de ver um teaser ser disparado contra seu peito, ela tombou no chão com 50 mil volts passando pelo seu corpo, tremia freneticamente, já tinha feito treinamento com armas de choque, não era algo fácil de suportar, conseguiu com muita força arrancar os ganchos que lhe transmitiam a corrente, mas ficou no chão convulsionando. O menino ficou lá, com um olhar catatônico, observando sua presa, após alguns segundos pegou a faca que era usada para cortar os bolos e deu a volta no balcão indo em direção a sua vítima.
    Sofia ainda tremia, mas levar tantos choques nos treinamentos devia valer alguma coisa, pois ela conseguiu se levantar, cambaleou para longe do atacante, mal conseguia se manter de pé, sua única opção era tentar aguentar até que seu corpo tivesse condições de lutar.
    O menino se aproximou rapidamente enfiando a faca no braço de Sofia, ela gritou de dor e voltou a tombar ao chão, desta vez levando uma serie de mesas e cadeiras junto, a faca não entrara muito fundo, acabou caindo durante a confusão. O atendente pulou em cima da pobre garota desferindo diversos socos em um ritmo frenético, a cada golpe a consciência de Sofia ia esvaziando, “como pudera ser tão descuidada?” pensou ela “Não notara um agressor tão próximo, tanto treino, tanto esforço para acabar assim?! Não! ainda não estava acabado”.
    Um movimento rápido entre um dos socos, uma cabeçada, as cabeças se chocaram forte o suficiente para empurrar o garoto para trás. Sofia encontrava-se exausta, afastara o inimigo, mas por quanto tempo? Não tinha mais forças para lutar, para sua surpresa, não precisaria mais lutar.
    O garoto começara a resmungar de dor, perguntando o que diabos tinha acontecido, ficaram ali por alguns minutos, os dois, Sofia em um estado bem pior que o garoto, até que o seu ex-inimigo veio ao seu socorro, ajudou a levanta-la, correu pegar o kit de primeiros socorros quando viu o estado do corte em seu braço e enquanto limpava o ferimento a garota aproveitou para perguntar algo que já imaginava.
    - Você tem alguma ligação com Deo?
    - O cara da igreja? Não!
    - Como conhece a igreja? – perguntou apontando para os cartões de visita.
    - Fiz uma doação! Para um programa de viciados e... a mais ou menos um mês atrás me convidaram para uma comemoração para doadores, era um tipo de palestra, dormi a sessão inteira, me deram os cartões na saída.
    - Soldados russos! – disse Sofia, agora entendia o que havia acontecido, como todas aquelas pessoas tinha sido convencidas a fazer o que fizeram.
    O garoto olhou em volta, somente agora parou para tentar entender o que havia acontecido, o teaser para ladrões estava em cima do balcão, acabara de ser usado, uma faca ensanguentada estava caída no chão, sentiu-se horrorizado, havia feito aquilo com a menina.
    - Não se preocupe, não vou contar para ninguém – disse Sofia – desde que não conte que estive aqui.
    O garoto tinha muitas perguntas, mas foi convencido a deixar que a garota fosse embora sem responder nada, e com o aviso para que não atendesse o telefone.
    Soldados russos, fora isso que aconteceu, os doadores que compareceram a reunião de comemoração foram hipnotizados para serem como soldados russos, ativados com algum sinal, prontos para executar qualquer ordem que lhes fossem dada, seriam necessários apenas alguns segundos para ativar as marionetes durante os sequestros, poderia ser qualquer um a fazê-lo, bastava algum sinal pré-programado. A reunião havia acontecido segundo o garoto no subsolo da decima terceira cede da igreja, todos dormiram na reunião, motivo pelo qual não falavam dela por ai, talvez estivesse erada, mas tinha a impressão que seria lá que o quer que estivesse acontecendo seria realizado.
    Oito horas da manhã Sofia já se encontrava livre de quase todas as dores, sangramento estancado, ferida limpa, estava na hora da caçada. A garota finalmente se vestia para um combate, botas de couro, uma malha que absorvia impactos, duas facas na cintura, duas facas nas botas, cobrira tudo com um sobretudo preto, e a ultima peça era um rife de caça com dardos tranquilizantes que guardou dentro de um case de violão junto com sua máscara, na rua pareceria uma menina comum, quem a via mal sabia que estava indo em direção a uma guerra.
    Passou algumas vezes por frente de televisões que anunciavam a invasão da polícia em vários pontos da cidade, a guarda nacional estava ajudando, vários vídeos eram gravados a partir de câmeras de celular, o perímetro das invasões era sempre evacuado, podiam estar lidando com terroristas, não encontrariam nada e demorariam muito tempo para fazer isso.
    Demorou uns quarenta minutos até chegar a igreja, não havia ninguém ali, não na parte de cima pelo menos, Sofia levou um tempo para achar a entrada do subsolo, lá em baixo parou na escada, ficou abaixada observando a sala, era um lugar imenso, bem maior que o andar anterior, a porta lacrava a sala e impedia que qualquer som saísse de lá.
    Os fieis podiam ainda não estar ali, mas os sequestradores estavam, todos desacordados amarados em cadeiras, vendados e amordaçados. Sofia não conseguia ver os recém-nascidos, mas agora tinha certeza que aquele era o lugar certo. Em um canto do salão arrumando o que parecia ser um palco estavam dois homens grandes vestidos de branco com sinais de cruzes invertidas desenhados em seus trajes, a garota não podia ser burra e enfrentar os dois em uma luta corpo a corpo, seria esperto
    guardar os dardos do rifle para quando estivesse em real perigo, por hora faria tudo com calma, para começar colocou a mascara branca, não podia ser reconhecida.
    Tentando ser a mais silenciosa possível esgueirou-se pelo canto do salão, aproveitando que os dois grandões estavam distraídos em uma discussão calorosa sobre a posição de uma das peças de madeira. Quando conseguiu alcançar o fim do salão, entrou em baixo do palco e de lá engatinhou até que estivesse ao alcance dos calcanhares dos dois, com um movimento rápido puxou as facas da cintura e cortou os tendões acima dos calcanhares, imediatamente os dois homens tombaram de bruços no chão, Sofia saiu do esconderijo e apertou a faca contra a garganta dos monstros de branco, os dois ficaram paralisados com as laminas ameaçando acabar com suas vidas.
    - Onde estão os bebês? – perguntou ela.
    O grandão do lado direito resmungou – Sua vadia, não vamos falar nada, Dominus vai cuidar de você, estará morta assim que Deo chegar.
    A lâminas foram pressionadas com mais força e uma linha de sangue escorreu pelo pescoço.
    - Estão com os fies! – disse o do lado esquerdo em desespero – a gente só banca o segurança, por favor, não me mata.
    - CALADO IDIOTA! – gritou o outro.
    Sofia retirou a faca do pescoço do da direita e com o cabo lhe deu uma coronhada que o fez perder a consciência, enfim, voltou a atenção para o da esquerda. – Continue a falar.
    - Eles separam os bebes, não dava pra manter todos em um só lugar, vai ser hoje ao meio dia, era para ser a noite, mas tiveram que adiantar, todos reunidos... são sacrifícios... para Dominus, nunca foi feito antes, é o maior ritual, eles realmente esperam invocar esse tal Deus hoje...
    - Porque não se livraram dos sequestradores ainda?
    - Eles vão assumir a culpa!
    - Fui atacada fora daqui por alguém hipnotizado, quantos mais há?
    - Não sei, não cuido disso!
    A faca foi apertada mais fundo na carne gorda do pescoço. – Eu não sei, eu juro, sei que são bastante, tem até uns policiais, todos que doaram, e as pessoas doam bastante para essa igreja.
    - Então é provável que se eu ligar para policia vão saber que estou aqui e as crianças somem?
    - Bem provável!
    Sofia fez igual a antes e apagou o grandão com uma coronhada. Amarrou os dois, amordaçou-os e empurrou para de baixo do palco, onde não seriam vistos. Suas opções eram limitadas, precisava derrubar Deo antes de chamar a polícia, procurou pelo lugar coisas que talvez pudessem ser uteis, tomou cuidado o tempo todo, mas felizmente ninguém apareceu, por fim onze horas a portaa da escada se abriram e pessoas começaram a entrar, a menina estava escondida em cima de uma das vigas de ferro do teto junto com as lâmpadas, as luzes estavam viradas para o outro lado de forma que não dava par ver que havia alguém ali, o rifle estava pronto, Deo estaria no palco e seria o primeiro a cair.
    Os minutos iam passando e cada vez mais pessoas chegavam, alguns sem nada, outras com os bebes no colo. Todas as crianças foram colocadas no centro da sala junto com os sequestradores, aparentemente ter o sangue dos recém-nascidos nas roupas dos sequestradores fazia parte do plano.
    Deo foi o último a aparecer, cumprimentava a todos como se não estivessem para sacrificar quarenta crianças em um ritual macabro e insano.
    - Louvado seja Dominus! – disse ele ao se posicionar em seu lugar no palco, todos os fies repetiram em coro, devia ter umas setenta pessoas ali.
    Sofia pegou o celular, pronta a mandar sua localização para a polícia, assim que começasse a atirar ninguém mais poderia impedi-la, bastava um click e a ajuda estaria a caminho, infelizmente um estrondo forte assustou a todos e tomou atenção da garota. Um dos grandões que estava em baixo do palco havia acordado e se debatia feito um peixe fora da água.
    Os fieis se amonturam para tirá-los de lá enquanto outros procuravam ao redor da sala quem fora o responsável por aquilo. Deo parecia furioso, olhava para todos os lados imaginando quem ousaria se intrometer em um dia tão especial, eis que ele viu algo, viu o cano do rifle, viu a tempo de desviar do primeiro disparo, um alvoroço se estabeleceu, todos procuraram um lugar para se esconder e os bebes começaram a chorar em um coro que poderia derrubar um gigante, a confusão só aumentou, as pessoas corriam de um lado para o outro derrubando as cadeiras com os reféns que acordavam desesperados tentando se soltar.
    Sofia apertou o botão de enviar da mensagem e começou a disparar seguidamente os dardos contra Deo que corria de proteção em proteção fugindo dos disparos.
    - ELA ESTÁ NO TETO SEUS IDIOTAS! – gritou ele para seus fiéis.
    Alguém virou um foco de luz para posição da garota, agora todos podiam vê-la, estava exposta, os fieis que já haviam se acalmado começaram a atirar nela coisas que encontravam pelo chão, para sorte da garota todos eram péssimos de mira.
    Dois dos fieis decidiram escalar as paredes para poderem alcançar a posição da atiradora, nesse momento Sofia teve que mudar o seu alvo, derrubar os dois foi fácil, o
    problema é que outros decidiram fazer o mesmo e os dardos estavam acabando, sem falar que Deo ainda estava de pé.
    No centro do salão alguns dos sequestradores soltaram-se das amarras e pareciam estar cientes de sua situação porque não esperaram nem mesmo um segundo para sair dando porrada nos verdadeiros vilões. Deo gritava frases que deveriam ativar a hipnose, mas não funcionava muito, pois assim que alguém recebia um golpe na cabeça voltava ao normal.
    A briga ficava cada vez mais intensa, os sequestradores estavam bem mais irados, contudo estavam em menor número, havia alguns que nem se quer haviam sido desamarrados ainda, sem falar que tinham que sempre levar a briga para longe de onde estavam os bebes, quase ninguém mais se lembrava da menina que começara a confusão, o que fora muita sorte, já que os dardos haviam acabado.
    Deo por sua vez ainda se lembrava daquela pequena criatura, irado com o fracasso do seu plano e notando que sua saída de emergência fora trancada, pôs-se a escalar a parede para derrubar a criança. Ele subia rápido motivado pela raiva, nem esperou estar próximo ao alvo, se atirou agarrando a perna da menina derrubando os dois de cima da viga.
    Sofia ficou pendurada pelas mãos na barra de ferro, Deo estava logo abaixo pendurado em sua perna, era um lugar alto, se caíssem poderiam quebrar muitos ossos ou até mesmo morrer. O padre era bem mais pesado do que aparentava, fazendo com que a garota tivesse que aplicar muita força para não soltas as mãos.
    - O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO PIRALHA?! – gritou o padre.
    - ACABANDO COM UM GRUPO DOENTE DE LUNÁTICOS!
    A garota tentava chutar freneticamente o peso em suas pernas, mas a coisa abaixo dela parecia fortemente motivada a manter-se presa.
    Vendo uma oportunidade única Deo sacou uma das facas que ficavam na bota da menina e cravou em sua perna extraindo um grito de dor da pobre atiradora. Deo retirou a faca e quando estava pronto para mais uma facada a garota soltou a viga, os dois despencaram, o impacto com o chão foi forte, Deo pode ouvir suas costelas quebrando na queda, seus pulmões foram perfurados, sangue jorrou de sua boca, Sofia por sua vez teve a queda amortecida pelo cadáver do padre junto da malha revestida que estava usando, uma ou duas costelas se partiram, ela estava fraca, mancando, mas conseguiu se por de pé encarrando horrorizada o pedaço de carne abaixo dela.
    Os fieis que ainda restavam se desesperaram ao ver a queda do líder, alguns foram nocauteados durante a distração, alguns tentaram correr para fora da igreja, mas os policiais já cercavam o perímetro. Os reféns finalmente controlaram a situação, as crianças continuavam a chorar e depois de tanta baderna ia ser difícil fazer eles pararem.
    Sofia sabia que não poderia estar ali quando a polícia chegasse, teria muita coisa para explicar, sem falar que acabara de provocar a morte de um homem, cambaleou para trás do palco, havia uma porta de fuga que Deo provavelmente teria usado se ela não tivesse trancado antes dele chegar. Antes de sair um dos reféns chamou sua atenção.
    - Quem é você? – perguntou ele perplexo com a salvadora mascarada.
    - Pode me chamar de caçadora! – respondeu Sofia antes de correr para fora da igreja e desaparecer.
  • Calidoscópio

    para tia Francisca Miriam

    Do outro lado    odal ortuo oD

    Ohlepse on ameop o    o poema no espelhO

    Não esconde nada    adan ednocse oãN

    Sarvalap sa euqrop    porque as palavraS

    São apenas um jogo    ogoj mu sanepa oãS

    Oãça-snegami ed    de imagens-açãO

     

     

     

     

     

     

     

     





    ..................................

    © "Copyright" do Autor, IN: Concursos literários do Piauí. Teresina, 2005, Fundação Cultural do Piauí. 226 p. Página 192.
  • Calor

    Calor

    Inferno

    Inverso

    Do inverno.



    Poema do meu primeiro livro de poesias, Átomo, lançado em dezembro de 2018, com prefácio de Rafael Cortez e apresentação de Thomas Pescarini e disponível em formato físico e ebook na Amazon.
  • Capiitura involuntaria

    Epílogo do Capitulo 1.
    15 de julho de 1974 -Segunda feira, 06 : 50 h. O Jorge Luiz finalizou o seu primeiro dia de trabalho na Base Aérea e caminha para a parada do ônibus quando é surpreendido com a ocorrência, uma aeronave que passou veloz pela cabeceira da pista quebrando o muro do aeroporto e parando entre a calçada e a avenida. Refeito do susto correu para o local do acidente e para a sua surpresa verificou que estava se aproximando da aeronave uma equipe de militares em 02 veículos, um jipe e um caminhão com vários soldados, antes da chegada das equipes de socorro do aeroporto. Foi possível perceber que os uniformes e os veículos não possuíam identificações e o militar que comandava a equipe ao se aproximar foi logo perguntando para o Jorge o que ele estava fazendo no local pois não foi permitido a qualquer militar da Base Aérea participar daquela operação e o Jorge estava fardado quando a caminho da parada do ônibus.
    Os comentários do Jorge não foram aceitos e recebeu ordem de detenção daquele oficial e foi levado com o indivíduo que foi capturado dentro da aeronave estando desacordado para um outro veículo, o qual surgiu em transito na avenida, aparentava ser um veículo civil do tipo caminhão baú e ao ser aberto as portas traseiras identificou ser um veículo frigorífico e comportava em seu interior o que parecia ser uma unidade médica uti sob os cuidados de uma equipe de 04 pessoas com roupas especiais do tipo utilizada na contenção de vítimas contaminadas.
  • CAPÍTULO II – BOXE E RELIGIÃO.

    Meu primo, aquele que costumava me levar ao fliperama, não era tão diferente de mim em certos aspectos, ele também morava só com sua mãe e não conheceu o seu pai. O relacionamento que tinha com a mãe não era dos melhores, tal qual eu mesmo, mas, o estranho, era que minha própria mãe via nele o filho que nunca teve, e posso dizer que os dois se completavam e, por se darem tão bem assim, é que o rapaz acabou se refugiando da família em minha casa e, e talvez fosse pelos maus tratos, que descontava em mim. Então, quando se tornou maior de idade, não houve nada que ninguém em sua antiga casa pudesse fazer para impedi-lo de se mudar para a minha. Na época, ele já era um pouco mais alto do que sou hoje em dia e de constituição forte, se comparado a maioria das pessoas, tinha cabelos e olhos negros, pele clara e cara espinhenta enfeitada com um nariz em forma de gancho pra lá de esquisito, ele também costumava usar um boné em sua cabeça que ostentava um logo bordado de um campeonato de artes marciais da região, mas que já estava velho, gasto e rasgado, tão rasgado que mais parecia o boné de um sem-teto, porém, como ficava bem acima de uma eterna carranca urbana1, o rapaz nunca sofria com as gozações quanto a sua aparência, ao menos, não enquanto ainda estava presente no local… Infelizmente tenho de lhe dar algum crédito em minha formação, afinal, como era praticante de boxe, além do fliperama, acabei sendo arrastado também para treinar com ele, e este treino seria algo extremamente necessário para mim, embora eu ainda não soubesse disso, mas, não foi por um simples acaso do destino que recebi aquelas aulas, não, ainda haveria um combate a ser travado no futuro, uma luta mortal, a qual, não é nenhum exagero dizer que o destino do mundo inteiro dependeria de meu desempenho, para sua ruína antes do tempo, ou para que todos vivêssemos um pouco mais!
    Treinávamos num velho salão comunitário cedido pela prefeitura a um lutador aposentado que morava por perto(em cidades pequenas, o que não falta são salões abandonados para serem emprestados a projetos de bairros), e, a princípio, era ele quem nos instruía e meu primo era seu assistente, sua sombra, e o imitava em tudo o que podia. E era bem engraçado ver o exagero do senhor em tudo o que dizia, bem, acho que preciso lhe dar um exemplo para que compreenda melhor:em todas as vezes que velho professor dirigia suas orientações aos alunos, dizia algo como:
    – Foi por treinar assim todos os dias, que me tornei um campeão nacional, depois de derrotar cento e vinte e oito adversários, e vocês também podem conseguir isso!
    Ou
    – Se seguirem esse treino, que foi criado e patenteado por mim mesmo, um dia, também serão campeões mundiais, como eu mesmo fui depois de derrotar cento e quarenta e dois oponentes!
    Em seguida a seus comentários motivacionais, o senhor sempre puxava um saquinho de amendoins do bolso, enchia uma das mãos com seu conteúdo e o enfiava vorazmente na boca, de modo que não conseguia falar mais nada, ele apenas podia mastigar…
    Devido a amizade que surgiu entre os dois, meu primo acabou tomando conta do local a partir do momento em que o autoproclamado campeão universal, se afastou completamente dos treinos, e meu primo passou a se orgulhar muito de ter o título de professor de boxe, qualquer coisa era motivo para demostrar seus socos.
    Eu era ainda uma criança quando comecei a treinar, acho que tinha oito ou nove anos, e mesmo que estivesse sempre o convidando, ainda levaria algum tempo para que Batata também me acompanhasse, masquando finalmente o fez, foi motivadopelos jogos que ainda jogávamos juntosnos fins de semana epreciso dizer que, eu também pensava exatamente como ele… Assim, para alcançar nosso objetivo, o de nos tornarmos iguais aos personagens dos games é que intencionalmentenos esquecemosdo comportamento passado de meu primo, na verdade foi fácil fazer issodevido ao episódio anterior (no dia em que ganhei meu videogame de presente) não ter se repetido, porém o único motivo dessa não-repetição, era simplesmente o fato deAna estarpresente em todas as ocasiões em que nos reuníamos, mesmo que o videogame,em nada a atraísse!
    Nas aulas, haviam pessoas de todas as idades, embora treinassem separadamente; a primeira coisa que aprendemos foi como fazer uma guarda, esta devia permanecer sempre com os punhos erguidos, como se formassem uma barreira a frente do rosto; Batata precisou de algumas tentativas para acertar, principalmente depois de ter perdido a concentração ao ouvir pela primeira vez uma palavra de incentivo do instrutor dirigida a mim:
    – Muito bom Snow!
    Na etapa seguinte, ele nos mostrou uma sequência simples de golpes, primeiro o jab, e depois o direto. Esta combinação consistia em atacar com um soco rápido com o punho que estivesse mais próximo do adversário (o jab), normalmente esse golpe não alcança uma grande potência e é mais usado para medir a distância do oponente a fim de que, se siga algum outro movimento, neste caso, atacar-se-ia com o punho que estivesse mais distante, com o qual é possível empreender maior poder, num golpe direto. O instrutor também nos mostrou como trocar as bases de acordo com os movimentos de nossos próprios golpes ou do oponente, e conduzidos por ele, todos os alunos praticaram socos no ar por alguns minutos. Seguindo a aula, nos mostrou como deixar a guarda que havíamos aprendido antes, no caminho, ou seja, entre nós e os golpes recebidos por um adversário imaginário. A próxima etapa foi separar os praticantes em duplas e instruí-los a treinar um com o outro: um dos parceiros deveria golpear de maneira encenada contra o companheiro que, por sua vez, bloquearia o golpe, e então, repetiriam os movimentos algumas vezes alternando o atacante. Nesse ponto os parceiros escolhidos foram obviamente Batata e eu, o que foi uma sorte, mas que acabou imediatamente quando fomos postos ao lado de um par de garotas que atraíram completamente a atenção de Batata. Meu primo dirigiu-nos um a frente do outro corrigindo nossa guarda e em seguida dizendo:
    – Quero que dá só jabs por enquanto, num tenta fazê outra coisa, ou vai machuca!
    E assim sucedeu, trocamos alguns socos de forma tímida, principalmente porque a atenção de meu amigo estava dividida entre executar socos rápidos e leves que morriam em minha guada e em observar as duas garotas bonitas, embora um pouco mais velhas, que estavam do nosso lado direito e que faziam tentativas muito desajeitadas de executar os golpes propostos pelo professor. Batata se encontrava especialmente encantado com uma garota loira cujo nome eu apenas conheceria anos mais tarde, de tal maneira que se esquecia que deveria se defender dos golpes que eu mesmo executava, e quase sempre se aproximava perigosamente de mim, arriscando-se a levar um golpe, só para observá-la melhor e por isso, ele quase foi atingido por muitas vezes.
    Então, com um misto de deboche e orgulho, vendo a dificuldade que enfrentávamos durante o exercício, nosso professor exclamou olhando para mim:
    – Não é tão fácil fazê isso que nem é no videogame, é?
    O interesse de Batata nas garotas bonitas era tanto que precisei cutucá-lo fortemente, enquanto não só o professor percebia a distração, como também as duas garotas, para que finalmente desse atenção a aula e acenasse com a cabeça para o instrutor em resposta. Ele nos observou por um tempo enquanto praticávamos, mas assim que meu primo se virou e caminhou para outra dupla que precisava de auxílio, Batata murmurou com a mão ao lado da boca para que ninguém mais ouvisse olhando em minha direção:
    – Na verdade, é sim. E acho também que vou gostar muito destas aulas, que bom que te acompanhei Vaniel!
    E se virou novamente para as garotas ao mesmo tempo que disparou dois golpes rápidos com peso maior que os anteriores e que quase me atingiram. Pensei em silêncio:
    – Será que eu deveria chamar Ana para dar um jeito nele também?
    Pensando bem, provavelmente eu devesse realmente tê-lo feito, pois a coisa piorou tanto que, agora meus golpes faziam com que os braços do garoto, o atingissem no rosto a cada soco, então, vendo que não deveria continuar pelo próprio bem dele, fiz uma pequena pausa para também observá-las. A outra garota era morena e um pouco mais alta, de cabelos curtos e negros, muito bonita e socava bem melhor do que a garota loira que Batata estava encantado, mas esta, de forma alguma era menos bonita que a anterior, na verdade seus cabelos loiros contrastavam lindamente com as luvas vermelhas que usava e suas roupas curtas, se é que posso chamar atenção para este fato, mas esta pausa em que as estivemos observando foi novamente interrompida quando nosso instrutor falou em voz alta:
    – Agora dá um soco direto no seu companheiro mais, cuidado pra não acertá!
    E, ao ouvir o comando, meu movimento simplesmente saiu num tipo de “modo automático”, mesmo que eu ainda estivesse observando as duas e isso, somado ao fato de que o Batata continuava mais distraído do que eu, e resultou que, meu soco acabou atingindo em cheio seu nariz, fazendo-o perder o equilíbrio e cair sentado para trás com lágrimas prontas para descer de seus olhos. Olhei atentamente para seu rosto em busca de qualquer coisa que fosse da cor vermelha mas não havia (felizmente):
    – Antes lágrimas do que sangue… – pensei comigo mesmo o examinando e em seguida, disse:
    – Batata… Batata, me desculpe, me distraí e não percebi que você também não estava concentrado o bastante para se defender!
    Estendi a mão para o ajudar a se levantar e, ao aceitar a ajuda, ele comentou o mais alto que pôde:
    – Já ouvi dizer que garotas loiras sempre fazem amigos brigarem… – em seguida abaixou o tom de voz para que somente eu ouvisse – mas não achei que era assim que acontecia!
    Provavelmente seus comentários foram, na verdade, um esforço monumental para disfarçar a dor de ter seu nariz atingido em cheio por um bom golpe e também toda a situação que se formou aos olhos do resto dos participantes.
    – Sinto muito, não queria te acertar… – acrescentei – só que… tive a impressão que você também se inclinou para frente ao mesmo tempo em que meu golpe ia em sua direção…
    – M-me… me desequilibrei… – gaguejou ele e, ao se levantar, fez ainda mais força para impedir que uma lágrima, que agora estava perigosamente inclinada, descesse pelo fundo (totalmente) vermelho que, felizmente, era apenas o seu rosto constrangido. Com a ameaça de que todos começassem a rir… ou melhor, fizessem com que as risadas baixas se tornassem ainda mais audíveis, o instrutor exclamou levantando uma das mãos:
    – Pessoal, não ri de seu amiguinho não, todos pode tomar algum golpe sem querê, o importante é levantá depois dele!
    O instrutor se aproximou de nós para examinar o rosto de meu amigo, colocou uma de suas mãos no queixo de Batata e a outra em sua testa, em seguida virou-o com violência para direita e depois para a esquerda, como se procurasse algum outro ponto que tivesse sido atingido além de seu nariz, até que percebeu que não havia nada de errado (além da cena em si…), provavelmente apenas o orgulho deletinha sido ferido, então meu primo se virou para mim e disse:
    – Toma mais cuidado pra não acertá o Batatinha, cês tem que olhá é pro que tá fazendo, não pra outro lado!
    Após me dizer isso, meu primo pareceu pensar por um instante com a boca semiaberta, provavelmente estava dividido entre a zombaria e algum outro conselho que brotava em sua mente. Finalmente depois de algum tempo parado, de tal forma que acreditei que estava aguardando a entrada de alguma mosca, ele abriu-a totalmente para dizer:
    – Acho que vô te inscrevê no campeonato regional, cê podia ganhá ele.
    Ele falava sobre o mesmo torneio que havia bordado no boné rasgado que, nem mesmo para os treinos, saía de sua cabeça e que era realizado na região aberto a vários estilos (inclusive ao boxe); meu primo, seus amigos e alunos, estavam sempre comentando sobre este assunto durante cada uma das aulas, aliás, quase todos que treinavam na cidade tinham a intenção de participar dele algum dia, e talvez eu devesse ter ficado mais feliz pois todo aquele tempo sendo usado como boneco de testes acabou me ajudando a ter uma noção maior daquilo, tanto que acredito que meu primo tenha dito tal coisa com sinceridade, mas participar do torneio era a última coisa em minha mente naquele momento, eu apenas pensava no golpe que havia acertado por acidente em meu amigo, me senti tão mal por isso que me desculpei por tantas e tantas vezes, que cheguei ao ponto de irritá-lo. Provavelmente tenha sido por minhas desculpas insistentes e não pelo golpe, que Batata tenha desaparecido dos treinos a partir do dia seguinte. Entretanto, a coisa mais curiosa que aconteceria neste dia, não seria um golpe acidental que quase feriu um amigo, tampouco a descoberta de minhas habilidades ocultas como lutador, mas sim que, de alguma maneira desconhecida que ainda me assombra, a notícia de que havia atingido um companheiro de treino acabou chegando em minha casa muito antes de mim. E quando entrei pela porta da cozinha na companhia de meu primo, fui recepcionado por uma pequena equipe, formada por meus avós e minha mãe que buscavam interceder por mim, já que não acreditaram que havia sido eu a golpear um amigo, mas o contrário, que tinha levado uma terrível surra e que mal conseguiu caminhar de volta para a casa, minha mãe então disse:
    – Cê num é capaz de acompanhá essas coisa, olha só a cara branca que cê chego de susto, num adianta querê lutá, se cê num sabe dá um soquinho, vai ficá ino lá só pra apanhá assim toda vez?
    – Cê é mole dimais pra isso!
    Um grande discurso repleto de invencionices sobre minha incapacidade foi escrito naquela noite, com a participação de todos, foi também neste dia que ouvi de meus avós, epela primeira vez, duas frases que nunca mais cessaram de repetire de incrementar em todas as vezes que eu saísse para treinar, não importando quantos anos haviam se passado:
    – Isso tudo, essas coisa de luta, é coisa do demônio!
    – Quando alguém pega espíritos, fica dando uns pulos igualzinho cê tava fazendo lá!
    Além de me dizerem isso e de sacudirem seus dedos furiosamente para todas as direções quando começavam com seus discursos, nenhum deles jamais assistiria nenhum de meus treinos, o que é óbvio, considerando suas opiniões, mas é como um desabafo para mim ressaltar este fato, nem lhes importavam que recebessem um convite formal para algum dos eventos dos quais eu ainda participaria e, voltando à aquela noite, depois de me “aconselharem”… por horas… quanto aos riscos de continuar treinando, minha avó falou:
    – É melhor cê ir dormi agora, vamo continuá pensando no que fazê e conversamos amanhã!
    Ela sempre me mandava ir dormir para não ouvir o que chamava de conversa de adulto, mas em todas as vezes pude ouvir claramente, de meu quarto, as discussões, já que todos falavam alto de mais, assim como ouvi naquela noite também os longos discursos que se seguiram. Eles falaram e falaram, até que finalmente encontraram um meio para combater a influência de meu primo e de suas praticas demoníacas: meus avós decidiram que me levariam a igreja sempre que os dias das reuniões e dos treinos coincidissem (não que exista algo de errado em se conhecer um pouco de religião, mesmo que não se tenha a intenção de segui-la, só que, na época, eu era apenas um adolescente que havia sido castigado por ser bom no boxe com uma boa dose de igreja, então não pensei dessa forma na ocasião) e mesmo que meus sentimentos de adolescente possam ser até questionados por alguns e por mim mesmo, não posso negar que tenho, até hoje, um certo orgulho de dizer que acabei sendo mais esperto do que eles e os vencendo em seu próprio jogo!
    Embora eu estivesse apenas sendo forçado a ir em ambos os lugares desde o início, primeiramente a ir praticar boxe e logo em seguida a igreja para combater o primeiro, as coisas seguem um certo propósito na vida, e ambos eram passos necessários para minha jornada futura, na qual, eu teria de lutar para conseguir um pouco mais de tempo para todo este mundo. Sem perceber, nos dias em que estive sentado no banco da igreja e ao lado de meu avô com a pior cara de garoto emburrado que consegui fazer, passei a me interessar muito pelos temas discutidos no púlpito o que, certamente, elevou o nível das discussões que tinha com Ana por entre os escombros do Túnel do Dragão:
    – O universo é coeso e auto suficiente, sendo um produto da criação perfeita de Deus, ele tem a capacidade de evoluir e de se adaptar sozinho e isso inclui toda espécie de vida que nele habita.
    – Não está pensando em colocar essa frase em nosso trabalho não é Snow!?
    – O assunto é astronomia e não religião!
    – E por que não Ana?
    – Você não acha incrível perceber que nosso sistema solar encontra-se em um vão, ou seja, um ponto vazio onde não existem outras estrelas ou corpos celestes que possam nos perturbar, gravitacionalmente falando, assegurando o nosso delicado equilíbrio?
    – Até temos nosso próprio guardião interestelar: p planeta Júpiter, que atrai para si a maioria dos asteroides ou rochas que vagueiam pelo espaço e ocasionalmente se aproximam do centro do sistema. Assim ele protege os planetas que estão mais ao centro de impactos mortais, tal como aquele que destruiu os dinossauros, é provável que Júpiter já tenha poupado nosso planeta de inúmeras repetições desse mesmo desastre, todo este zelo é uma prova irrefutável da existência de Um Criador!
    Ana também encontraria sua religião no futuro mas, por hora, apenas se contentava com os dizeres de sua mãe e repetiu o mesmo que ela (a mãe de Ana) sempre dizia a meus avós:
    – Isso não é prova alguma da existência de Deus, é só matemática, até aquele livro a que você se refere, foi escrita por um homem e provavelmente ele estava bêbado!
    – Ficaremos com o que eu mesma já escrevi: “este é só mais um em uma infinidade de outros planetas e universos, que podem ou não conter vida”.
    – Esta perfeição de que fala é uma simples questão de probabilidades, e não é apenas isso, a própria evolução é uma prova de que Deus não existe!
    Minhas tentativas de gaguejar alguma coisa para refutar a afirmação de Ana não adiantaram de nada, afinal, eu não era suficientemente esclarecido quanto ao assunto naquele tempo e apenas pude encarar a expressão triunfante da garota por ter ganho o debate, na verdade, levou muito tempo para que eu realmente formasse um pensamento mais adequado sobre isso: as Testemunhas de Jeová2 são um exemplo bastante interessante para se levar em conta aqui, pois citam os leões como criaturas doceis e gentis com as quais será possível, até mesmo, se brincar (após o término deste mundo), o que tem lá sua coerência, afinal teria mesmo Deus os criado como predadores carnívoros desde o início?
    Se não, o que teria provocado tamanha mudança em seu comportamento?
    A Teoria daEvolução de Charles Darwin3, realmente seria capaz de explicar isso?
    As Escrituras nos dizem que a queda do homem foi o estopim que gerou (atraiu) todo o mal deste ponto em diante, e assim sendo, foi ele mesmo (o homem), também o responsável indireto pela criação da cadeia alimentar. A partir de então, os animais começaram a se devorar, devido a Adão ter cedido o domínio da Terra (pois o homem fora feito para dominá-la) a espíritos sedutores que, por sua vez, foram os responsáveis por impor sua vontade a certas espécies, tornando-as predadoras, hora, não queria lúcifer ser semelhante a Deus?
    É aceitável pensar que tenha também tentado fazer (modificar) a natureza a fim de vê-la como se fosse sua própria criação, de tal forma que a linha que distingue o verdadeiro do falso se tornou indizível a nós. Seriam estes, os animais citados como malditos ou imundos?
    Haveria, por acaso, Deus criado qualquer coisa que fosse impura no início?
    Mas como não fui capaz de dizer nada disso naquele dia, tive apenas de suportar Ana desdenhando:
    – Por que não escreve o livro: As Filosofias de Vaniel?
    – Ou melhor ainda: Vaniel o Caçador de Dragões!
    – Ao menos, em seu próprio livro, poderia ser o protagonista e matar o dragão que lhe perseguiu no sonho, em vez de acordar e fugir!
    Sob certo ponto de vista, é ofensivo ter suas crenças e verdades mais sagradas, aquilo que move sua vida, chamadas (simplesmente) de filosofias, ainda mais num tom de deboche como Ana fizera, contudo, olhando por um outro ângulo, é exatamente o que estou fazendo neste momento, e por isso, gostaria de abraçá-la e dizer, se pudesse, que acabei seguindo o conselho e agradeço-o imensamente. Mas, a conversa que estávamos tendo, foi perturbada quando meu primo passou pelo corredor atrás de nós, pudemos ver que carregava consigo sua mochila jeans e um par de luvas negras muito brilhantes, balançando a vista de quem quisesse ver, ele sequer nos olhou, obviamente devido à presença de Ana, mesmo que estivesse escondida atrás dos escombros; a passagem do rapaz, além de arrebatar meu olhar para as luvas, também me fez recordar do compromisso imposto por minha família, algo que, mesmo que eu não gostasse, poderia me dar algum argumento para rebater Ana e, por isso, exclamei (com tom desanimado):
    – Preciso ir, vou ao culto com meus avós, eles sempre querem que eu vá nos mesmos dias em que meu primo vai treinar, para que não possa mais ir com ele.
    Anarespondeu:
    – Deve ser muito chato ter de ir a um lugar assim, não quero nunca ter que entrar numa igreja!
    – Não acho tão chato como você diz – respondi – as vezes falam coisas muito legais, há também algumas histórias sobre dragões como aqueles que enfrentamos na Bíblia4…
    – Pode ser – respondeu ela – ao menos, não precisa ir praticar luta com seu primo, isso realmente não combina com você e, com certeza, você não tem jeito nenhum para lutador Vaniel, sei que das outras vezes, você levou uma baita surra e mal conseguiu caminhar de volta para casa, como pode seu primo te levar só para apanhar assim?
    – Alguém como você não conseguiria ganhar luta alguma, mesmo que treinasse por muitos anos e que o destino do mundo inteiro dependesse disso!!!
    As vezes as palavras que ouvimos se tornam um tipo de estopim, pois, naquele momento, um sentimento completamente novo despertou dentro de mim, desejei profundamente lhe provar o contrário, retornar aos treinos e ser tão bom quanto pudesse ser e, quem sabe, até mesmo ganhar aquele torneio do qual tanto se falavanos treinos!
    – Não é bem assim Ana, ele (o professor) sempre diz que sou muito bom, aliás, fui eu quem fez o garoto chorar com golpe certeiro a alguns dias!
    Ana riu ruidosamente e exclamou:
    – Tudo bem então Vaniel, espero que o garotinho não tenha ficado muito machucado!
    O silêncio em que caí, preenchido pelas risadas, apenas foi quebrado quando a voz de minha avó se ergueu chamando por mim com certo ar autoritário, o que fez a garota apenas dizer:
    – Até mais tarde boxeador!
    E ir embora com um ataque de riso ainda maior…
     
    Na curta caminhada de casa até o culto, estive tão distraído com a lembrança das risadas de Ana que não conseguia pensar em outra coisa, senão na sensação de grandes luvas vermelhas acolchoadas em minhas mãos, na satisfação que costumava se apoderar de mim, quando observava o saco de areia se afastar levemente de sua posição quando era atingido por um fraco golpe, dos incetivos de meu primo que, sem que nenhum de nós soubesse, também eram sua contribuição para que o mundo fosse salvo através de mim anos mais tarde.
    – Ana está errada… eu vou mostrar pra ela!
    – Fica em silêncio Vaniel! – repreendeu-me meu avô gesticulando com o dedo sobre a boca quando, sem querer, pensei alto demais sentado num dos grandes bancos de madeira envernizada, durante a reunião. Do lado esquerdo do salão em que estávamos, apenas haviam homens, enquanto que minha avó se encontrava do lado oposto, a uma grande distância e tinha sua cabeça coberta com véu de renda branco, não sei dizer bem o porque, mas sempre gostei de vê-la naquele lugar, acho que apenas ela realmente se preocupava comigo, mesmo que não soubesse se comportar de maneira muito diferente do resto; parecia envolta em tanta paz e calma que, apenas por observá-la naquele dia, uma genial inspiração brotou em minha mente!
    Mas para executar o plano que concebi com perfeição, tive de antes, me focar no que dizia o pregador, que naquele momento falava sobre as grandes batalhas enfrentadas pelos filhos de Deus e memorizar cada capítulo, cada versículo por ele citado, para que, quando chegasse em casa, pudesse apanhar uma das velhas Bíblias de meus avós, já que eles tinham várias versões para fins de estudos, num ato que até os encheu de felicidade, e fazer algumas anotações a fim de formular melhor a ideia. Mas, precisei repetir o processo por mais alguns dias (já que a facilidade de uma busca no computador ainda não era acessível a todos), mas finalmente o terminei e, foi então que o tiro disparado por meus avós saiu pela culatra, quando lhes apresentei os motivos Bíblicos, pelos quais, eu deveria ter permissão de retornar aos treinos:
    – Tomemos como meu primeiro exemplo, os anjos de Deus, já que grande parte (senão todos) são guerreiros, e isso é atestado quando encontramos que eles carregam espadas, assim como o querubim que guarda a entrada do Jardim do Éden com uma espada flamejante; eles também usam escudos e vestem armaduras, permitam-me citar dois exemplos de versículos:
    Números 22:31 – “E, nesse momento, Yahweh abriu os olhos de Balaão. E ele pode contemplar o Anjo do Senhor posicionado no caminho, empunhando sua espada. Então Balaão inclinou sua cabeça e prostrou-se com o rosto rente ao chão.” (King James Atualizada 1999) 1 Cronicas 21: 15 – “Então Davi olhou para cima e viu o Anjo de Yahweh entre o céu e a terra, tendo na mão sua espada desembainhada e voltada contra Jerusalém. Em seguida, vestidos de luto, com panos de saco, Davi e os anciãos de Israel, prostraram-se com o rosto em terra.” (King James Atualizada 1999)
    – Não são apenas de anjos, mas há muitos outros guerreiros formidáveis nas Escrituras, como o rei Davi, Sansão, ou mesmo, Moisés, o profeta Hebreu que é tido como um grande general segundo algumas linhas de teologia, por sua inteligência. Moisés foi criado como um egípcio e, sendo da família real, é natural que também tenha recebido algum tipo de treino militar ou de combate já que essa prática era bem-vista, aos olhos do mundo antigo…
    O semblante de meus avós exibia cada vez mais desgosto a cada trecho que eu citava:
    Êxodo 2:12 - “Então olhando para todas as partes, e vendo que não estava por ali ninguém, matou ao egípcio, e o escondeu na areia.” (Padre Antônio Pereira de Figueiredo)
    – Moisés, de forma pensada investiu contra um guarda que, certamente, estava armado, venceu-o e em seguida teve a frieza de encobrir prontamente o corpo, provavelmente, tamanho controle das emoções sejam o produto de algum tipo de treinamento!
    – Mais Vaniel – interrompeu meu avô – Moisés usou o que sabia pra virá assassino, ele podia até tê estudos (teologia), mais não tinha revelação de Deus…
    Bem, isso fazia algum sentido, mas na época, não dei atenção, na verdade, sequer prestei atenção ao que meus avós diziam e continuei:
    – Em seguida temos:
    João 18:10 - “Então Simão Pedro, que tinha espada, desembainhou-a, e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. E o nome do servo era Malco.” (Almeida Revista e Corrigida 1969)
    – É certo que Pedro tinha o conhecimento de como usar uma espada, ou não a carregaria, nem mesmo teria sido tão estratégico (se é que posso dizer desta maneira) ao usá-la, pois teve a malícia de impor, propositalmente, uma restrição a Malco, para que este não se tornasse sumo sacerdote, já que, a tradição ditava que a posição somente poderia ser ocupada por alguém sem defeitos físicos ou quaisquer outros tipos de deformidades, então ao lhe impor a falta de uma orelha, Pedro também destruía o sonho de Malco, sem dúvida, uma estratégia de um guerreiro!
    Enquanto me ouviam, meus avós estavam simplesmente boquiabertos e eu apenas havia chegado a metade de meu discurso, então, eles me interromperam mas ficaram em silêncio durante alguns minutos, pensando no que deveria ser feito, ou em algo para me contradizer, depois da pausa, meu avô disse:
    – Então tá bom, se cê quer aprendê a batê nos outro, aprende, cê tá achando que Deus vai usar isso que cê tá fazendo pra salvá o mundo?
    – Não vai!
    Em seguida, eles me darem um castigo, de quase um mês sem videogame, mas suspenderam suas tentativas de me afastar de meu primo, deixando, a partir de então, que eu mesmo escolhesse onde gostaria de estar. Então pude voltar a frequentar os treinos de boxe, mas não sem que algum outro empecilho fosse colocado em meu caminho: certamente, aquilo que acontecia agora, em absolutamente todas as vezes que me dirigia ao treino, era uma outra tentativa de me desencorajar e ao mesmo tempo, uma forma de retaliação que sofri de minha mãe, digo isso porque as aulas tinham início as dezenove horas, de modo que, por acompanhar o professor, sempre cheguei no local alguns minutos antes do horário marcado, para ajudar a abrir e organizar o que quer que precisasse ser organizado, ou seja, meu primo ficava sentado me dizendo o que fazer… Fosse como fosse, essa história de treino, se transformou num conflito com minha mãe, pois costumeiramente, deveria ser eu a ir até o bar próximo a nossa casa a fim de buscar o refrigerante de Cola que ela tanto gostava (ou mesmo, qualquer outra coisa), isso porque minhã mãe jamais entrava em estabelecimentos comerciais, ao menos não enquanto eu “me dispunha” a ir por ela e, a partir do momento em que comecei a frequentar os treinos com mais afinco (logo após ter contrariado meus avós), ela passou a dar muito mais importância as ocasiões em que eu acabava saindo antes de comprar seu refrigerante. Na realidade, de minha parte, se tratava de um simples esquecimento, mas, após sair da aula e enfrentar a caminhada de volta para casa na (excelente) companhia de meu primo, eu deveria também abaixar minha cabeça e ouvir a bronca e, muitas vezes, os insultos por não haver lhe trazido aquilo pelo qual minha tia angariava fundos involuntários de meus avós!
    Muito mais do que a constante repetição da situação, o que certamente agravou minhas lembranças, foi o sentimento provocado na única vez, em que, farto de tantas acusações, tentei questionar:
    – Mas, por que tenho sempre de ir comprar isso eu mesmo, se não estou em casa nesse horário?
    – Não seria mais fácil que alguém fosse buscar o refrigerante, o bar é no quarteirão do lado, ou que, pelo menos, me lembrassem mais cedo, em vez de me atacar tanto quando volto?
    Mas, ao ouvir minhas palavras, minha avó saltou a minha frente com uma disposição que seria muito útil num treino de boxe e começou a apontar e sacudir seu dedo em frente ao meu nariz com grande velocidade e energia, enquanto gritava:
    – Vaniel, pra sua mãe é uma dificuldade falá com outras pessoa, tem que ser o cê, SEMPRE TEM QUE SER O CÊ!
    Palavra por palavra, isso ficou gravadona minha mente, principalmente pelo fato de que, por mais que tente me lembrar, nunca vi ninguém rir sem sequer disfarçar a situação, ou tirar sarro da cara de qualquer uma delas antes mesmo que dissessem qualquer palavra, tal qual eu mesmo já tive de suportar por tantas vezes devido a cor de meus cabelos – vai querê o quê, tiozinho? – realmente havia alguma dificuldade nisso para ela?
    Essa situação não passava de um grande esforço coletivo, em que usavam de desculpas para descontar sua raiva, a fim de, me afastar do treinamento; pensaram que eu, certamente, me cansaria de ter que discutir sobre o assunto a cada vez que voltava para casa, mas, o mais irônico de tudo isso, é que na época eu não tinha (quase) nenhum gosto por lutas, mas, por ter tantos empecilhos, tantas pessoas trabalhando para me impedirem, sem querer, eles me deram a ideia de que, se haviam esses obstáculos, aquele deveria ser um caminho correto, um caminho que eu precisava trilhar, não importando o que acontecesse, até passei a me achar como sendo algum tipo de escolhido; era também minha forma de me rebelar contra tantas injustiças, assim como qualquer adolescente normal, que tenta se rebelar contra os pais em dado momento.
    Os dias de igreja porém, não foram em vão, já que, em seguida a minha deserção, alguns acontecimentos muito especiais (e sobrenaturais)também contribuíram para vindicar minha suposta eleição, para o que exatamente, eu ainda não sabia, masos fatos se repetiram inúmeras vezes ao longo de minha vida. O simples ato de, se obter o conhecimento, ou melhor dizendo, de se receber a Verdade, equivale a encontrar uma chave que destranca uma porta no universo. Muitos daqueles que as vezes abrem tal porta, têm algo em comum, eles têm em si algum (ou alguns)dons Divinos, mas, a verdade é que, tais dons podem até ser herdados dentro de uma família, como foi em meu caso. Isso porque,dons não necessariamente significam bondade e verdade,pelo contrário, muitos dos que são cheios de dons, estão tão longe da Verdade quantose poderia estar, mas sobre isso eu não sabia ainda… Após quase um ano de treino ter se passado, minha vida já havia mudado bastante, principalmente pela presença de meu primo na casa, e como não tínhamos mais quartos, dormíamos no mesmo cômodo eeste,havia se tornado bem menor, pois agora acomodava duas camas em frente a janelaenferrujada, que mal podia ser aberta, em vez de uma. As camas ficavam de lados opostos, e abaixo, aos pés, logo após o corredor de entrada, estava um pequeno guarda-roupas e uma estante torta, com uma televisão bem pequena em que ficava meu videogame, já que este havia sido banido da sala de estar e da TV grande. Mas,meu colega de quarto, também se incomodava muito com o barulho dos jogos, portanto,o aparelho passou a ficar desligado durante todo o tempo em que ele estivesse em casa, o que sempre coincidia com a realização dos velhos campeonatos que Batata, Ana e eu organizávamos. Minha desaprovação com tudo isso, de fato existia, mas fora abafada pelos acontecimentos seguintes, quando surgiu meu primeiro sonho, dentre muitos que eu teria nos próximos anos e que, se tornariam realidade: em meio a uma escuridão tão densa e sufocante, que parecia sugar todo o ar para si mesma (como se respirasse), vaguei sozinho por muitos passos, hora me sentindo pesado para caminhar, hora disparando por alguns metros rumo ao breu que preenchia toda visão. Uma voz feminina e extremamente aguda, mas que lembrava a de minha mãe, subitamente surgiu, e ela repetia constantemente:
    – Vô te destruí. Vô te destruí. Vô te destruí!
    A sensação de presença maligna aumentava com a mesma intensidade que as palavras se tornavam mais altas e repetitivas, até o ponto em que se transformou numa imagem visível, mas escura, que passou do sonho para a realidade materializada ao meu lado; de um pulo, me pus de pé para fora da cama. A presença havia se formado exatamente na direção em que se encontrava meu colega de quarto então, temendo, mas com grande curiosidade em saber o que se passava, caminhei alguns passos contornando a cama, me perguntando o que haveria de ver após apertar o interruptor na parede e a luz preencher o local. Nada de mais na verdade!
    Tudo estava em seu devido lugar, ou seja, as roupas jogadas ao chão continuavam no chão, o console e a TV sobre a estante torta também, alguns bonecos de ação na parte superior ainda permaneciam de pé vigilantes, e tudo mais se encontrava onde sempre esteve… um típico quarto de adolescentes desorganizados. Contemplei o local por um instante e em seguida, apaguei a luz novamente, mas ao fazê-lo, as palavras ecoaram em minha cabeça como uma reação a tomada das trevas no local:
    – Vô te destruí. Vô te destruí. Vô te destruí…
    Acendi a luz novamente e procurei pela dona da voz, mas não havia nada.
    – Quem ou, o que, quer me destruir? – questionei a mim mesmo.
    – Se cê não apagá essa luz, vai sê eu a te destruí! – coaxou meu primo, então prontamente a apaguei, mas não pude adormecer mais; ao menos, ele não se recordou do ocorrido, pois nada comentou no dia seguinte, quem sabe tenha acreditado que se tratava de um simples sonho. Durante o próximo ano, fui atormentado por sonhos semelhantes e uma certa angustia, então, para não aborrecer o que quer que pudesse ser aborrecido, é que refreei minhas reclamações com a situação em que me encontrava. As coisas porém, começaram a, de fato, acontecer, a partir do momento em que, ouvi em uma pessoa, a mesma voz de meu sonho, e, a partir disso, é que as coisas caminharam para me trazer a este quarto de hospital, onde estou escrevendo estas palavras em total sigilo, numa escuridão tão perturbadora como a daquele sonho…
    O que aconteceu, foi que, meu primo levou uma garota para nossa casa, apresentando-a como sua namorada e disse que ela passaria alguns dias conosco devido a qualquer empecilho que havia na própria casa; era uma garota baixinha e desajeitada, loira mas de cabelos tingidos, longos e crespos, parecia que havia tomado seu penteado dos anos oitenta, o que não combinava em absolutamente nada com a garota, pois tinha uma cabeça anormalmente circular, dessas que esperamos encontrar em pessoas apelidadas de cara de bolacha… Toda a gentileza e cumprimentos que adornaram sua simpatia a primeira vista, logo desapareciam completamente quando não havia ninguém mais da família além de mim (e meu primo obviamente) por perto. Ela sempre me pareceu que queria se apropriar do lugar, infelizmente esta impressão não era só imaginação, pois, tenho certeza de que foi ela, quem deu a sugestão inicial do plano que visava diminuir ao máximo minha presença: sei que já estávamos ficando velhos demais para isso, mas não importava, idade não era impedimento para que Batata, Ana e eu continuássemos a nos aventurar por terras distantes em busca de espadas encantadas e de caçar dragões, claro, isso tudo dentro de nossa imaginação e brincadeiras de RPG, mas, não tínhamos mais como cenário, a minha casa, não, o ambiente havia se tornado hostil demais, então nos reuníamos agora na casa de um dos meus dois amigos. E foi exatamente num destes momentos de ausência, que organizaram uma (muito) oportuna reunião de família, e após algumas discussões, a garota sugeriu algo que foi imediatamente acatado por todos, e ficou estabelecido que eu dormiria, a partir deste dia, na sala de visitas… se é que se podia chamar aquele cômodo mal acabado, empoeirado e repleto de badulaques, de sala, ou no meu caso, a partir de então, de quarto… Na verdade, era só um local de despejo nos fundos, onde se jogava tudo que era indesejável (inclusive eu, ao que parece). Ficava logo após o corredor que saía da verdadeira sala de visitas, ao menos, havia um sofá-cama para mim, pois minha própria cama havia também sido confiscada. Então me instalei, devidamente oculto atrás da pilha de caixas cheias de objetos quebrados mas que não eram jogados fora porque minha mãe estava prestes a se tornar uma acumuladora, e o grande destaque da pilha, sua formidável utilidade era, sem dúvida, me manter longe da vista de todos.
    E foi só quando retornei de minha recente expedição a serviço do rei, que fui informado dos novos costumes e de que me havia sido vetado o direito de opinar sobre o assunto… Após o incidente, por muito tempo, mergulhei numa tristeza tão profunda que beirou a depressão, e provar o que quer que fosse para Ana, havia perdido toda a importância, o boxe, pelo qual tanto lutei antes, eu o esqueci!
    Me refugiei nos sonhos estranhos que comecei a ter, nas aventuras que imaginava durante nossa brincadeira de RPG eno livro que escrevia, muito embora, nem isso tenha durado, mas, por um tempo, me mantiveram distraído.Esta foi apenas, a primeira etapa de algo muito maior, uma jornada que seguiria desde o sofrimento até o aprendizado, passando antes por algumas visões, meus sonhos: de repente, me vi sozinho caminhando por uma velha estrada tão longa e reta que sua visão se perdia no horizonte, em cada um dos lados, contrastando com sua morbidez cinzenta, havia um lindo e vivo gramado. Surgindo de lugar algum, um carro passou por mim e foi em direção ao horizonte, mas veio a bater alguns metros a frente, em qualquer objeto que também aparecera sem nenhuma explicação, tal qual qualquer bom sonho têm. Me apressei e corri até o local, onde observei, dentro do veículo, uma figura escura indecifrável puxar o próprio braço de debaixo da direção e, em seguida, erguê-lo ao ar, mas a mão e os dedos caíram sobre o próprio peso. Surpreso, tentei ver de quem se tratava novamente mas sua identidade continuou oculta. Na manhã seguinte, soube que meus avós haviam ido juntos a uma consulta médica na cidade vizinha (no mesmo lugar abominável em que me encontro), eles haviam tomado carona com qualquer conhecido que iria ao mesmo destino, e aconteceu que, durante o trajeto, uma vaca apareceu – Como que, caiu do céu – como disse meu avô, na frente do veículo e uma colisão foi inevitável, entretanto, como estavam em baixa velocidade por acabarem de sair de uma curva perigosa, não foi um acidente fatal. Ao saber disso só pude pensar que a imagem de meu sonho se repetiu, tendo seu desfecho aplicado diretamente a minha avó que quebrou seu braço, era ela a figura que não pude reconhecer durante a visão. Mas, o mais estranho, é que meus sonhos nunca foram exatamente claros quanto a quem se destinavam e, as vezes, nem mesmo sobre as circunstancias e só, ao vê-los cumpridos, é que entendia perfeitamente de que se tratavam, talvez isto acontecesse porque eu ainda não estava suficientemente esclarecido nos assuntos espirituais, esclarecimentos estes, que ainda levariam muitos anos para chegar.
    1 CARRANCA URBANA – Apelido atribuído a expressão facial adotada por pessoas que geralmente vivem em cidades grandes e desejam evitar pedintes.
    2 TESTEMUNHAS DE JEOVÁ – Seu início, se deu com Charles Taze Russell (Ministro Cristão Americano – 16 de Fevereiro de 1852 a 31 de Outubro de 1916) quando fundou uma organização de estudos chamada Estudantes da Bíblia, na década de 1870. Mais tarde, fora registrada como Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados da Pensilvânia (1884); porém, foi Joseph Franklin Rutherford (8 de Novembro de 1869 a 8 de Janeiro de 1942), o segundo presidente da sociedade, quem promoveu as mudanças que, de fato, dariam forma as Testemunhas de Jeová (nome adotado em 1931). Uma de suas doutrinas mais fundamentais é a proibição ao combate e isso levou Ruherford e seis colaboradores a serem presos por interferirem nos esforços de guerra dos EUA, porém pouco tempo depois do fim da primeira guerra, foram libertados sob fiança.
    3 CHARLES DARWIN – Nascido em 12 de Fevereiro de 1809 na cidade de Shrewsburry, Inglaterra, e falecido dia 19 de Abril de 1882. Contra todos os credos da sociedade do período em que vivera, baseou-se em diversas observações do reino animal feitas em suas explorações para formular sua teoria, mas temeu publicá-la abertamente, devido as autoridades religiosas, tanto que, na verdade, em A Origem das Espécies (publicado em 24 de Novembro de 1859), existe uma única e breve divagação sobre a evolução do homem, em sua última página.
    4 Comentários sobre o assunto: APÊNDICE 9 – SOBRE OS DRAGÕES.

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