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brazilian literature

  • ANO NOVO

    Ano novo
    Mais um dia
    Foi o velho
    Noutro dia.

    Zero hora
    Um começa
    Outro termina
    Novo dia.

    Quem espera um ano inteiro
    Ansiedade apinha
    É melhor chorar agora
    Que sofrer por mais de um dia.
  • Antecedente da cicatrização

    Como quando a orelha inflama porque o brinco estava um pouco sujo; ou quando colamos o curativo adesivo que fixa na pele de modo a puxar todos os pelos na hora de sair.
    Mesmo sabendo que no fim iria doer, provoquei. Botei o brinco pra inflamar, colei o curativo pra fazer doer. Queria viver aquilo, nem se fosse por míseros segundos, minutos, horas, dias. Nem sei mais quanto tempo passei imersa naquela banheira de espumas.
    Corria cada vez mais só pra vê-la. Queria era socorro, socorro da própria situação. Socorro de mim mesma. Mas por mais rápido que eu o fizesse, não a alcançava. Dormia sem conseguir descansar. Não sabia como evitar, como não sentir. Era, humanamente, impossível fechar o peito para aquela que, outrora, me visitava com flores e com pele macia a me acariciar.
    Deitada sobre seu peito sentia que a perdia. Procurava sua mão. Meus dedos se entrelaçavam nos dela, mas os dela no meu. Ficava ali parada até o momento em que escorria pelo meu corpo. Indo embora sem dizer adeus.
    Enquanto eu souber que a ferida não será fechada por completo, vou levando. Empurrando com o resto de forças que sobrara do restante da minha alma, que jorrava água escura, afim de fugir do precipício que eu mesma criara.
  • Apesar de tudo, eu te amo

    Apesar de tudo que passamos, de todos os erros, eu ainda te amo.
    Você talvez não saiba disso, dos meus sentimentos, dos meus pensamentos e das minhas sensações. 
    Mesmo depois de tantas coisas, depois de te ver com um "relacionamento sério" com outra no facebook, de após o término eu está lá, ao seu lado, depois de te ver ficando com outra na minha frente, eu ainda estou aqui, por que eu te amo, e a única coisa que eu quero é te ver feliz, estar ao seu lado a todo momento, mesmo que você não me escolha pra ser sua namorada, eu vou estar aqui.
    Eu tento superar, juro que tento fazer esse sentimento sumir.
    Eu tento conhecer outras pessoas, eu tento sair e me relacionar com elas mas, no final, eu posso está com elas fisicamente, mas meus pensamentos sempre estarão em você. 
    Do que adianta eu tentar sair com outras pessoas que não são tão interessantes como você é para mim? e se no final eu sempre vou pensar "não é ele, não é a mesma sensação, não é o mesmo toque, não é o mesmo beijo, não é ele".
    Eu chego em casa devastada e sempre pensando em você, no teu beijo, pensando no que eu errei, no que eu podia ter feito para que o "nós" desse certo e se tornasse real, se eu deveria me entregar mais, demonstrar mais, te chamar pra sair mais vezes, conversar mais, te mandar algumas das minhas cantadas bobas que eu sei que você adora, ou dos meus memes e piadas sem graça.
    Eu só queria uma resposta pra minha incerteza, eu queria saber o que você sente, no que eu posso melhorar, no que eu errei.
    Talvez o erro não seja eu, mas eu não tenho certeza.
    Eu quero ficar aqui com você, te ajudar no que posso, tentar te segurar, fazer piadas só pra te ver sorrir.
    Eu só quero que você saiba que dentro de mim existe um sentimento vivo, eu vou está aqui mesmo depois de perceber que nós nunca vamos dá certo, mas no final eu sempre vou te amar.
    "Eu quero você sem garantia e com defeito pra nunca mais te devolver."
  • Aprisionados em nossos pensamentos

    Aprisionados em nossos próprios pensamentos de derrota mais profundos,não conseguimos nós soltar para coisas grandes alcançar
  • Arroz com feijão [conto]

    Rafael estava com um problema com seus pais: eles descobriram que ele fumava maconha. O jovem vacilou com uma ponta no carro, e depois que sua mãe abriu o carregador de 12V para plugar o celular, e se deparou com aquele celofane do diabo, o garoto especial já não era tão especial assim. Na verdade era um problema. Aliás, vários problemas. “Quem pois aquela porcaria na boca dele?” “Será que ele está só nisso?” “Onde nós erramos?” Dr. Sampaio e a Sra. Sampaio estavam apavorados. Em estado de choque. A sujeira tinha chegado em casa. Era o primeiro sinal do fim dos tempos.
    Estava tudo abalado. Admiração. Confiança. Futuro. Quando eles chegaram em casa, colocaram aquela ponta na mesa da sala e olharam para Rafael, seu pai foi eloquente: “Não me venha com esse papo de é de um amigo.” “Você fumou isso no carro?” Foi o primeiro questionamento da chorosa Sra. Sampaio. Rafael estava sendo crucificado, e assim como Jesus parecia querer aquilo. Ele olhava para uma e para o outro com o desdém com que Pôncio Pilatos lavou as mãos. Como quem não tem nada para dizer.
    A postura era ultrajante. Inaceitável. “Também não é nenhuma novidade. Olha só para você.” “Depois que começou a faculdade você virou outra pessoa.” Era uma mistura de negação com raiva. “Você não tem nada para dizer?” Que tinha sido um erro. Que estava arrependido. Que não ia acontecer de novo. Que aquela droga maldita tinha pegado ele num momento de fraqueza e com a ajuda de Deus ele ia se livrar daquele terrível mau. Os dois topavam escutar qualquer coisa que soasse como um mea culpa. Assumir é sempre o primeiro passo.
    “Como assim não significa nada?” Significou muita coisa quando Césinha, o primo da Sra. Sampaio, foi preso com dezoito anos fumando maconha na praça. Foram cinco anos de cana. Nunca mais ele se recuperou. Significou muito para o Tio Joe, que começou assim e hoje é viciado em crack. “Que mané planta. Que outros tempos coisa nenhuma.” Vai pra cadeia sim. Não tem essa. É crime. Contra a lei. Vicia. Mata. “A única coisa que mudou  aqui é que você está metido com essa merda.” É coisa de vagabundo. Ninguém nunca viu alguém de bem envolvido com isso. Era como se o apresentador no jornal da noite estivesse narrando a verdade mais verdade de todos os tempos.
    Estupefata era o verbete que melhor definia a Sra. Sampaio. “Me diz que você não vai fazer mais isso, por favor.” Rafael olhou para o outro lado. O Sr. Sampaio bufou. “Conversa com a gente.” Implorou a mãe. E ele dizia: “Eu não deixo de fazer nada por causa disso.” Era um dos primeiros da XXVIV Turma de Biologia da faculdade, tinha um bom estágio, planos. Isso era só diversão, no fim do dia, como uma cerveja. “Como assim?” Não é simples assim. “Você vai precisar de mais, e mais e mais.” Não dá para controlar. É droga. “Em muitos lugares já é legalizado.” “Mas aqui não.”
    Conversa vai, conversa vem. “Meu filho, você não precisa disso.” Agora já parecia possível que o garoto especial fosse um especial com asterisco. “Como eu vou poder ficar tranquilo sabendo que você está por aí com drogas?” O Sr. Sampaio apelava e demonstrava amor ao seu jeito tosco. “Onde você vai para comprar essa porcaria? Olha o tipo de gente que você está se envolvendo.” Se as leis não servem aos interesses da sociedade, ou se as políticas públicas favorecem confrontos sociais, “não são assuntos para serem debatidos em casa”, entre uma família que tenta salvar sua cria. “Isso não é problema seu. Você tem que trabalhar,” finalizou o patriarca.
    Minutos de silêncio. Agonia. Choramingos. “Isso é só uma fase” era a frase que piscava em um luminoso de neon que brilhava dentro da cabeça da Sra. Sampaio. “E enquanto você tiver nessa fase vai ter que se virar sozinho” era a reação que parecia óbvia para um pai, segundo as convicções do Dr. Sampaio. “Tudo bem”, era a forma mais rápida que Rafael via de acabar com a contenda.
    Uma pulga saltou de trás da orelha da Sra. Sampaio gritando: “ele vai embora de casa, ele vai embora de casa.” Dr. Sampaio não se oporia. “Tome um banho que vou arrumar o jantar”, disse a matriarca na esperança de restaurar a harmonia e a família. Rafael levantou e foi para o quarto. O pai olhou para mãe com cara de preocupação, depois ligou a TV. Ela foi para cozinha preparar o jantar.
  • As opiniões de um ignóbil

    O meu tempo nesse mundo parece querer se esvair, não sinto mais a alegria de viver que outrora inundava meu ser. É uma maldição? Poderia eu um dia me olhar no espelho e refletir uma imagem que não passe de desgosto e amargura, sinceramente não sei dizer. Eu nem ao menos quero me ver diferente do que sou, quero apenas que acabe tudo logo, não importo com o que outros pensam sobre mim. Não sei se vão sentir algo quando for para eu partir. Nada me faz querer continuar, minha vontade é fraca, minha força, inexistente. Mal sei dizer se um dia voltarei ao normal - que ideia tola, eu nem sei se posso considerar algo normal.

    Pelas minhas costas encontro verdades imutáveis, tão claro como o sol. Prevejo que minha importância se foi a tempos, mesmo assim, ainda dependo de outros para que continue vivendo. Mas sabe que é engraçado, mesmo tendo tantos inimigos, não temo mais os que tramam contra mim, sei que não sou das melhores pessoas, nem mesmo me esforço para ser. Minha personalidade é fraca, me conformo com pouco, traquejo social, Hump, até parece que estou me esforçando muito. Malditas vidas que eu abomino, continuam a existir nesse mundo odioso, mais tempo vem passando e a cada novo minuto me retraio, cada vez que passa uma quinzena, viso acordar apenas para ser deixado de novo. Humilho-me por restos, me odeio, quero que outros me odeiem, não me importo com suas opiniões, mas desejo muito que me odeiem.
    A vida me parece frágil. Outro dia sem mesmo perceber comecei a torcer para que outro semelhante perdesse tudo o que tinha, apenas para que eu pudesse me sentir melhor. Posso parecer um monstro, desejando que uma pessoa tenha tudo tirado de si. Não ligo para o que essa sociedade cheia de moralistas julguem certo. Quero mais é que se explodam, são todos uns fracos amargurados que só pensam em suas próprias vidas, acham que por terem mais que os outros tem o direito de ter pena de alguém. Absurdo, eles que deveriam ter pena de suas patéticas vidas artificiais, completamente mimados por um sistema feito para empurrar cada vez mais o fraco para baixo e alavancar o forte. Meritocracia é ótimo, principalmente quando seu pai tem uma Ferrari na garagem. Queria vê-los como gado, essa sim é uma vida simples, não precisa ir para lugar nenhum, você se alimenta o máximo que pode, vive na própria merda. O gado, ninguém é diferente, tem aqueles que acordam no pasto verde, ou outros que ficam expostos em prateleiras de supermercado, é um fim que se considera digno, um pobre animal violado, desmembrado para o prazer de outros que nem agradecem por sua comida, olham aquilo como mais um prato em meio a tantos outros. Quem me dera ser como o gado.
    Em meio a tantos pensamentos, começo a me achar um lunático. Quero tantas coisas, mas quero elas de maneira fácil. Não quero me esforçar, nem pensar em ter que lutar por elas, mas no fim dizem que os bens adquiridos pelo fruto de trabalho duro, são mais doces que aqueles que são apenas presenteados - Ninguém fala isso, mas queria conhecer alguém que falasse assim. Chega a ser ironia, eu desprezo os acomodados e os desleixados, mas se houvesse uma competição, em absoluto estaria em primeiro. É assim que são as coisas, posso até ser hipócrita, assim é a humanidade, tem seus surtos megalomaníacos baseados em nada, querem tudo, mesmo já tendo demais, a única coisa que compartilham é a habilidade de cagar, essa vem direto do fabricante, se sua merda é cheirosa, então venda e fatura em cima dos trouxas que vão comprar.

    Parte 2: Só mais um babaca, você ainda está lendo isso?

    Lembro que quando era jovem via as pessoas com um olhar mais inocente, “ dizer o obvio parece ser uma de minhas qualidades, o que não significa muita coisa, já que todos são assim”, aposto que até os maiores filósofos da história já sentaram um dia em seu urinol de barro e pensaram: “acho que vou bater uma só para relaxar”. Quem nunca, eu com toda certeza entro nessa categoria, “a de punheteiro, não de filosofo”. É bizarro, mas gosto de imaginar como as pessoas fazem suas coisas quando estão em sua privacidade. Quero dizer, logicamente existe aquele momento em que uma enxurrada de hormônios inundam o corpo e você só tem que descarregar. Agora eu imagino Hitler, Mussolini, Trotsky, e outros babacas de esquerda. “ Pois é, não sou da cartilha, nem me considero conservador e essas viadagem, na minha opinião a única coisa que os difere é a vontade de sair dando o rabo com a de pôr em prática.
    Bem na verdade eu quero mais é que tudo acabe logo, mal posso esperar para chegar o tão amado apocalipse bíblico, finalmente essa galerinha do velho barbudo que não é o papai noel vai sossegar. Realmente espero que deus exista, assim posso dar um soco na cara dele, “Por favor cristão, não leve a mal, mas deus é um otário se ele existir”, não é por nada, mas eu seria um deus melhor, sou obtuso em meus questionamentos, mas quero ter certeza de que se fosse para ter essa trabalho, eu seria melhor que meus professores do estadual. Me vejo usando uma toga branca que vai até minhas sandálias de couro persa, depois ia soltar dois macacos na terra e ver eles se fuderem até brotar essa bosta que é a humanidade. Sendo bem sincero, eu com toda certeza iria me divertir no juízo final. Fazia questão de criar várias instâncias e protocolar milhões de pedidos, só para essa galera ficar batendo um papo no limbo.
    Quem sabe um dia eu ainda possa fazer isso, a tecnologia está aí, porque não? Star Trek me prometeu que no século 24 haveria dobra espacial, desmaterialização e até holo-salas, o que difere deus de um grande inventor que pensou simplesmente para deixar seus espermatozoides em alguma poça.
    Uma beleza são as mulheres, é claro, as que realmente importam, sendo mães, esposas, tias, primas, irmãs e amigas. Não quero aquelas que te olham com superioridade e um aspecto vazio na voz, apenas desejo conversar com as que eu realmente me sinto próximo, aquelas que têm a capacidade de zelar e amar, sem medo de serem desprezadas. As mulheres que não vem com papinho vitimista tentam fazer de leis sua loja de conveniência, sendo franco, porque existe feminicídio, o que difere isso de homicídio, esse país louco chamado Brazolia. Onde o povo que realmente merece respeito não fica na internet ou cuidando da vida do outro, “parece que estou me contradizendo, mas não odeio realmente toda a humanidade, é claro, poucos são aqueles dos quais respeito, mas ainda assim, existem alguns que eu queria ver prosperar”.
    Homens por outro lado, podia ser só 20% da população, competição não é comigo, sou mais do tipo que pega a amiga gorda se ela já está sem opção, mesmo assim ainda existem uns São Jorges que tentam dificultar para mim. Isso sim irrita uma feminista, um cara que pensa em pegar mulher, na cabeça delas eu imagino que os homens seriam grandes sacos reprodutivos que não agregam em nada, mas quer saber é só a minha opinião, “quer saber de outra coisa? Eu não ligo para o que você pensa”.
    Fugindo um pouco o papo triste de desilusão e emo viado, “Lgbtqgasifasf, ou tanto faz a sigla que essa galera esta usando agora”, eu sinceramente não entendo o cara vir na minha frente, falar que é gay e querer meu respeito por isso, eu estou cagando se você da o rabo, ou se apenas esfrega a lampada do gênio. Quando que o cu de alguém virou palco para debate e discussão. Agora, além dessa galera turbinada no gatorade, tem uma outra que define como Xenomorfo, ou sei lá o que, quero dizer, realmente você atestar que gosta de uma coisa, ou desgosta de outra é tão importante assim. Vamos supor que é, por um breve momento, vamos supor que as escolhas individuais sobre sexualidade são realmente importantes. O que mudou no mundo? Viramos uma sociedade mais inclusiva apenas por aceitar que alguém quer dar para o megatron? Ou será que é mais relevante levar em conta como essas pessoas se aceitam e quiçá, aceitam outras pessoas? Lógica é algo que não funciona bem no mundo de hoje, e quer saber, quero que todos se fodam, meu respeito por essa galera acabou a partir do momento que qualquer coisa e é literalmente qualquer coisa pode ser um gênero. Eu sinceramente compreendo o fetiche, isso é normal do ser humano, mas da forma que foi escalonado, parece piada da revista Mad.
  • As Três Maravilhas

    Os dias passaram o arrastando por trombadas de sentimentos incontroláveis. Pensava ele estar acima das suas emoções, porém, por pensar estar acima, tirara a mão do mastro, e fora arrastado pelas tempestades sentimentais. Forças destrutivas o empurraram novamente a lama, e se sentira energeticamente imundo. Abrira a porta escrotamente para o mal de si, e violara a regra de sua santidade e perfeição. O mal o rondara, e percebera-se insano.

    Não podia crer que novamente tropeçara… o mesmo ciclo vicioso… a cobra que morde o próprio rabo… a mordida na própria língua.

    Entretanto, o Sagrado com toda a sua Mística o amava. E como uma mulher estéril que sorriu de felicidade pelo fim de sua improdutividade, ao ter um varão, na sua velhice… o Sagrado, assim, pacientemente, e rigorosamente, o educava com AMOR.

    O Místico Amor…

    O Amor do Amante e do Ser Amado… que faz do dois, três, e das três maravilhas uma só PRESENÇA.

    Havia entre eles compreensão e trabalho mútuo… era o pequeno e O GRANDE… o fraco e O FORTE… o encarnado e O IMANIFESTO…, que se despontavam em duas formas distintas, o inferior e O SUPERIOR. Contudo, um dependia do outro para ser visivelmente revelado.

    A Inteligência Superior a ele ofertada o fazia diferente dos demais, por isso, ao cair se levantava rapidamente… O SAGRADO compreendia que os tempos atuais eram ofuscados por uma sombra de trevas e ignorância, e que a LUZ teria como trabalho romper a cápsula de ignorância em que o SER AMADO nasceria, pois não tinha como nascer numa poça de lama sem estar melado por ela… só que ele mesmo (O Ser Amado) estava cansado dessas repetidas quedas na poça suja. Suas quedas eram mínimas em sua totalidade, nada que magoasse alguém, nada que ferisse… nada que matasse… nada de inveja, cacoetes, ou avareza… nada de arrogância, intolerância e cinismo… nada de extrema ignorância ou alienação. Caía contra ele mesmo… caía em sua perfeição, em sua santidade.

    E assim, se magoava e se autopunia, porquanto, almejava o principado. Por isso, os cavaleiros sombrios o perseguiam, e caía, quando, enganado pelo pequeno eu, amante da luxúria, cega e apaixonadamente o dominava. Entretanto, sabia quem era o inimigo, o estudara, o observara… e, também, o compreendeu… e dele mesmo teve compaixão.

    Vira os seus pequenos filhos que ao longo do seu nascimento no mundo das ilusões, nascera de suas traumáticas experiencias. Todos eles estavam berrando e choramingando por comida. O seu filho Medo tinha como iguaria a egoística proteção e isolamento, e a culpa era sua sobremesa favorita; Já a sua filha Ambição se deliciava de glamour, com biscoitos recheados de estrelismos. Porém, o que mais lhe preocupava, era seu filho mais velho Desejo, que crescera além da conta, e, trouxera sua amante Luxúria para habitar em sua morada, e juntos se deliciavam no doce picante chocolate da paixão.

    Notara que alimentar esses filhos seus era trabalho de sua personalidade mecânica e falsa, habitante dos infra mundos, cultivada exatamente por todas as coisas que contraiu e aprendeu em toda sua vida social metropolitana, fixa pelas teias de pontos de vistas alienados a uma realidade criada nos padrões ilusórios do pensar, sentir e agir mecanicamente.

    Sim! Ao se observar e autoanalisar a sua personalidade induzida…, sem sombra de dúvidas em sua mecânica ambiguidade, se percebera homem-máquina… um mero robô-humanoide que trabalha, se alegra, sofre, se droga, goza, come e dorme. E, pensara na etimologia da palavra robô, provinda do russo Работа (rabota), que quer dizer: trabalho, algo meramente mecânico, e percebera que seu instinto não passava disso… uma mera programação… pronta para executar as suas funções animais de prazer e dor. Graças a uma ignorante educação equivocada, que o adestrou a atuar, desde infância, em um frágil mundo de mentiras, em razão dos múltiplos episódios exteriores e de choques aleatórios, que abrolham em seu interior algumas mudanças quase sempre errôneas, ou não coincidentes com o evento em tese.

    E, assim, oculta e perspicazmente se sentara na poltrona da sua existência…, e vira seus malcriados filhos, que, insistindo em crescer em sua persona, desde cedo, assumir o controle da condução de sua vida mecânica, pois, estes, veio a existência unicamente por causa da pressão dos dramas, tragédias e comédias que se apresentam nas telas e palcos da vida. Claramente vira, que por culpa dessa mecanicidade do ser, O SAGRADO perdera sua essência e fragrância, despossibilitando a sua santa e perfeita manifestação harmoniosa, em sua vivência material orgânica. Já que toda forma de ação conscientemente mística-divina, fora substituída pelo automatismo mecânico do individuo social… o chamado cidadão comum.

    Analisara que sua débil e frágil personalidade mecanizada e controlada pelos ‘eus’ criados de si se adaptava a ambientes e pessoas. Escaneando e criando autoimagens em costumes e hábitos moldáveis pelo intelecto, utilizando de discursos e palavras, pensamentos e movimentos ilusórios, que utilizavam de hipnose consciente para o adormecimento da própria consciência.

    Ao se perceber mecanizado, resolvera ir a fonte de tudo que o programava… sentou-se em profundo silêncio, fixando os olhos ao chão… fizera uma pergunta ao universo do seu ser… e, prometera a si mesmo levantar-se, apenas com a resposta. Fixo em sua empreitada, o tempo, destruidor de todo gênero e criações humanas, ali parou. E, percebeu a expansão do seu próprio Ser Divino, além matéria, e viu o quanto era amado e protegido por essa Absoluta Grandeza. Também, junto a essa visão divina, se culpava por não se dedicar totalmente a esse Primeiro Amor… era o Ser Amado, porém, por não ter o Divino Amante por primazia, ainda não o conhecia. E, por ainda não o conhecer em sua Divina Essência, não se tornou o instrumento musical de suas harmoniosas canções… não alcançando ainda o Imanifesto que manifesta tudo.

    Em sua meditação sabia que a viagem era longa, e o trabalho pesado, a vida corpórea orgânica e encarnada tinha que enfrentar o mundo para se livrar de suas rédeas e freios. Sabia que o mundo material não passava de uma escola da alma, por isso, o alienado entretenimento social não o sequestrava.

    E, clamando silenciosamente orou: “Ó Sagrada e Mística Essência Divina que se assenta no trono de meu coração; Grande Sol Central Esplendoroso, mais radiante entre todas as luzes desse plano material; Magnifica Lua Cheia que ofusca as luzes cintilantes de todas as estrelas no imenso escuro dos céus; Consciente Inteligência do Eterno Sentido Divino; Grande Oceano pelo qual desagua todos os rios; Soberano entre as fontes de todos os néctares nascentes; Leão de todas as selvas e pastagens. Ó tu de olhos abertos em todos os lugares, fala-me diretamente sem intermediações, pois, tenho sede de ti. Como poderei eu te conhecer… aqui sentado e meditando?”

    Ali, parado, meditando por horas afinco, nada ouvira… nada vira… e não deslumbrara nada.

    Portanto, sabia que para poder receber as ondas de vibrações harmoniosas do SUPERIOR, primeiro tinha que se domar: educar todos os seus sentidos… peneirar todos os seus pensamentos… frear todos os seus sentimentos… adestrar todas as suas emoções. Se conhecer e ser o senhor de si mesmo, deixando de alimentar os seus ‘eus’ criados, e, assim, matá-los de fome e sede, para que educadamente perceba a superioridade do Pai, e possa o servir com frequente piedade e fé inquebrantável.

    Intentara evolutivamente que a melhor riqueza e nobreza do ser humano é a FÉ. Que seguindo a missão de sua existência no aqui e agora, atrairia a verdadeira felicidade que é independente e indiferente a ter alguma coisa, e ser algo ou alguém de sucesso para viver. Que, interiorizando e espiritualizando cada ação, até o ato de limpar uma fossa de merda pública em reverencia e gratidão, chegaria à maestria e principado. Degustara o doce mel da verdade, e queria obter os melhores dos bens e serviços devocionais, vivendo a vida sabiamente vivida purificando todas as maldades suas e dos demais. Descobriu que pela Fé… atravessaria as tormentas, pela Sinceridade… o mar dos egos e, pela Bonança e compaixão… o outro lado do reino da morte.

    De repente, em sua meditação, o espírito destruidor que o tentava, o inundou de maus pensamentos, gerando em sua mente maus sentimentos. Vira claramente a face do Anjo da Destruição, prateada como a lua em sua feminina forma tentadora, que faz lançar a culpada alma nos infra mundos infernais, e que goza de toda desolação. Ela estava deslumbrantemente irresistível, e cheirava paixão e luxúria. Seu sexo molhado de gozo tentador estava exposto, e latejando desejo o chamava. Sua boca parecia doce como mel, melados de néctar do prazer. No entanto, um pensamento de morte passou como vulto em sua consciência… e, meditando profundamente, enquanto se via nos braços demoníacos da luxúria, freou sua paixão, e disse, dessa vez, em voz audível: “Ó Dona de meu Desejo, como és bela e tentadora, estou agora ardendo de paixão e tesão por ti, porém, sinto seu calor arder como brasa, se me entrego a ti queimarei minha alma em sua chamas mortíferas. Ó Espírito de Tentação! Penso agora em minha morte, e tenho ela agora como fiel companheira. Você não tem mais lugar em mim”. Falando isso, o Tentador se dissolveu diante de seus olhos como um monte areia a esparramar pelo chão.

    A partir daquele dia as três maravilhas abundou o seu ser… de um que era se tornou vários; de vários, um; manifesto ou invisível atravessa sem resistências as paredes, as rochas como se penetrasse uma queda d’água de cachoeira; submergia na terra, e tornava a subir como se fosse o mar; caminha nas águas como se fosse terra firme; voava pelos ares como os pássaros, e sentava nas nuvens como os seres inefáveis; até a lua e o sol inflamados de calor, Ele acariciava com suas mãos, e no mundo dos deuses e semideuses se manifestava em glória; conhecia os homens e lia os seus pensamentos, sabia dos caminhos de sua alma, aquilo que faz elevar e tropeçar, dizendo: “Esse é o seu pensamento e desejo. Isso ou aquilo está em seu espírito. Este é o destino que te espera.”; E tinha sabedoria e inteligência para instruir e adestrar qualquer alma vivente.

    E assim, se manteve calmo e sereno em sua iluminação. O AMOR do AMANTE envolveu o SER AMADO, purificando de todas as impurezas acumuladas em seus centros orgânicos. O humanoide de programação emocional, deletou sua atividade efemeramente mecânica, transcendendo o corpo biológico, que agora era o receptáculo do SAGRADO em si mesmo.

    Nada mais o afetava, livrou-se do medo… fez da morte física sua companheira, e matou-se a si mesmo, renascendo das cinzas do sofrimento, se purificando nas águas do arrependimento, emergindo no ar do Sagrado Conhecimento… não por estar isento de emoções e sentimentos. Mas, unicamente por se livrar do corpo mortificado do desejo… que, ilusoriamente se ajoelhava perseguindo o prazer, e alienadamente orava fugindo da dor.
  • Às vezes no barulho da noite…

    Será se ele olha pra elas como quem está apaixonado?

    Será se ele faz planos com elas de casar em Vegas altamente chapado?

    Será se ele pensa nelas durante o dia, ou melhor, durante o barulho da noite?

    Será se ele procura nelas a paz que não se encontra por aqui?

    Será se ele quer envelhecer do lado de alguma delas? 

    Será se o peito dele não aperta quando escuta “eu te amo” sabendo que não tem nada de amor ali? 

    Será se ele pensa em mim quando está com elas? 

    Será se ele vai me ligar um dia só pra dizer que está com saudades? 

    Será se ele já tá bem resolvido com ela e não precisa de mais nada? 

    Será se existe ela? 

    Será se essa cacofonia vai embora na noite que vem? 

    Será se ele vem? 

  • Ausência

    Em um bar uma conversa se inicia. Dois homens, um de mais idade e outro mais jovem.
    - O que você fez quando soube da morte de seu pai? – Perguntou o homem do outro lado da mesa.
    - Não fiz nada, por quê? – Respondeu o jovem vestido elegantemente um terno preto e de chapéu na cabeça.
    - Mas como não, ele era teu pai?!
    - Sim, mas nunca se importou comigo.
    O homem mais velho respirou fundo.
    - Mas ele sempre lhe deu tudo, não entendo?!
    O jovem colocou a mão no bolso enquanto respondia.
    - Sim. Quando criança me encheu de brinquedos, na adolescência pagou meus estudos...
    - E agora na fase adulta ele deu a vida por você. – Concluiu o homem.
    Um sorriso se abriu no rosto do jovem.
    - No entanto tem o principal.
    - Principal?
    - Amor. Você sabe o que é isso?
    A voz do homem era bastante insegura.
    - Amor... Bem, amor é quando um homem gosta de uma mulher, ou vice e versa. É isso?
    O jovem riu contido.
    - É, pode ser. Mas o amor não se restringe a isso apenas. O amor pode ser demonstrado de várias maneiras. Com um bom dia, um sorriso, um abraço. Quando você conta uma história para o seu filho, quando você brinca com seu neto. Existem diversas formas de se demonstrar amor, e esses são só alguns exemplos.
    - E seu pai deve ter feito muito dessas coisas com você, não é mesmo?!
    O jovem acendeu um cigarro, deu uma baforada e olhou para o teto de estrelas.
    - Nunca fez. Ele era um homem ocupado, trabalhava muito.
    O homem abaixou a cabeça e por um breve momento olhou para o chão sujo de bitucas de cigarro.
    - Então você nunca gostou de seu pai
    - Pelo contrário, eu o amava.
    - Mas...
    - Eu não o culpo pela ausência, pela falta de amor e pelos abraços que eu não recebi. Só não entendo porque ele foi tão distante se ele teve a chance de estar comigo todos os dias.
    Os dois se levantaram; o homem mais velho apoiado em uma bengala, o mais novo apoiado na mesa por estar levemente embriagado.
    - Você perdoaria seu velho pai? – Perguntou o homem velho tentando esboçar um sorriso.
    - Acho que sim. Se ele dissesse que me ama e me desse o abraço mais apertado que ele deu em alguém. – Respondeu o mais novo abrindo os braços.
    Com lágrimas nos olhos e a voz fraca o velho disse:
    - Esse abraço apertado pode ser dado pelo pai do seu pai?
    - Pode vô. É claro que pode.
    No mesmo instante em que os dois se abraçaram tudo se transformou. O amor que o homem mais jovem não teve do pai estava sendo trocado pelo amor simples, puro e singelo do avô.
    - Não se preocupe garoto, se teu pai não te amou como você gostaria, tenha certeza de que o velho aqui vai lhe dar em dobro, pode apostar.
    E lá se foram os dois, de braços dados e de corações abertos.
  • B A I I S C T N Â

     

     

                           B                              A

                              I                         I

                                 S               C

                                     T       N

                                         Â

     

     


                         
                        t e l e              v i s ã o

     


                        t e l e             v a z ã o

     


                        t e l e              v a z i o

     

     

     

     

     




    ..................................................................................................................................

    © "Copyright" do Autor, IN: Concursos literários do Piauí. Teresina, 2005, Fundação Cultural do Piauí. 226 p. Página 188.
  • Bailarina

    Sinto seu cheiro
    Faltando no corpo
    Sinto em meus poros
    Deixe-se levar pelo meu sal, meu mar, meu Sol
    Mel, calor, torpor
    Mesmo sem você, acho que estou indo bem
    Um carvalho em meio à rotina das estações
    Âncora, esperando pouso leve
    Suas asas me aprovam
    Na sua rocha sólida, escudo, correm tuas águas
    Diga-me sim
    Bailarina
    Confie em mim
    Sua felicidade é o meu jardim.


    Poema do meu primeiro livro de poesias, Átomo, lançado em dezembro de 2018, com prefácio de Rafael Cortez e apresentação de Thomas Pescarini e disponível em formato físico e ebook na Amazon.
  • Bate-papo [conto]

    [21:23:59] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: Oi
    [21:24:15] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: ola
    [21:24:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tudo bem?
    [21:24:31] M amizade entra na sala.
    [21:24:45] h mama h diz para Todos: algum cara aí afim?
    [21:25:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: sim e vcs?
    [21:25:27] coroa safado entra na sala.
    [21:25:40] Moreno22 diz para Todos: aumente seu pênis de forma natural. {www.penislandia.cz}
    [21:25:47] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tbem
    [21:25:53] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: da onde tcm?
    [21:25:55] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:26:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: ZS e vcs?
    [21:26:07] Carol15 entra na sala.
    [21:26:10] KRALHUDO fala reservadamente para Ele&Ela: 19cm de rola para esposinha e maridão…...afim?
    [21:26:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: ZN
    [21:26:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: quantos anos vcs tem?
    [21:26:47] Hserio entra na sala.
    [21:26:54] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: eu 32 e ela 35 e vcs?
    [21:26:59] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:27:13] Safado CAM1 entra na sala.
    [21:27:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: eu 38 ele 42
    [21:27:32] Coroa safada diz para h34: tenho muita coisa para te ensinar ahahhaha
    [21:27:45] Kzado quer entra na sala.
    [21:27:48] Loirinha sai da sala.
    [21:27:53] Macho sai da sala.
    [21:28:10] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:28:20] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: o q vcs fazem?
    [21:28:33] Gordinho T entra na sala.
    [21:28:47] Einsten entra da sala.
    [21:28:55] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: somos liberais, gostamos de fazer tudo
    [21:29:13] Safado CAM1 fala reservadamente para Ksal Discreto: quer ver um homem de verdade fuder sua mulher seu corno?
    [21:29:33] Mulher entra na sala.
    [21:29:42] Hserio fala reservadamente para Ela&Ele: oi
    [21:29:50] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:29:53] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: legal, mas eu quis dizer no q vcs trabalham rsrsrs
    [21:30:10] Marta ZO entra na sala.
    [21:30:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: rsrsrs eu sou arquiteta e ele é advogado e vcs?
    [21:30:33] h mama h diz para Todos: algum cara afim?
    [21:30:49] Paola entra na sala.
    [21:30:57] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: sou empresário e ela é médica
    [21:31:04] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: vcs tem filhos?
    [21:31:24] Einstein sai da sala.
    [21:31:37] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: temos 2 e vcs?
    [21:31:45] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: legal, nós temos 1
    [21:31:50] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: até por isso a gente quer ser discreto
    [21:32:04] Coroa safada diz para Safado CAM1: vamos
    [21:32:10] Hilda Hilst entra na sala.
    [21:32:17] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: nós tbem gostamos de ser discretos
    [21:32:23] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: não vamos em casas de swing ou coisas assim
    [21:32:30] Maduro entra na sala.
    [21:32:42] H22cm diz para Todos: cavalo comendo famosa sem vaselina {www.animalfuck.jh}
    [21:32:57] Carol15 diz para Todos: alguém quer tc?
    [21:33:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: nós tbem não
    [21:33:10] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: como vc são?
    [21:34:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: eu 1,70m, 65kg, loira e olhos castanhos, ele 1,85m, 93kg, moreno e olhos castanhos e vcs?
    [21:34:25] H pintudo sai da sala.
    [21:34:07] Hilda Hilst diz para Todos: alguém aqui quer só tc?
    [21:34:16] Hserio diz para Hilda Hilst: oi
    [21:34:40] Marcelo sai da sala.
    [21:34:59] Carol15 diz para Maduro: não
    [21:35:05] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: eu 1,80, 80kg, loiro e olhos castanhos, ela 1,75, 68kg loira e olhos verdes
    [21:35:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: o q vcs procuram?
    [21:35:34] h mama h diz para Todos: algum cara aí afim? tenho local na ZN
    [21:35:43] paulo17 sai da sala.
    [21:35:55] Safado CAM sai da sala.
    [21:36:10] H66 diz para Madura CAM: vc é homem seu viado
    [21:36:13] H66 diz para Todos: cuidado!!!! a Madura CAM é uma bixa loca
    [21:36:30] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:36:40] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: uma aventura com um casal discreto e vc?
    [21:37:13] H pintudo entra na sala.
    [21:37:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: isso aí tbem rsrs
    [21:37:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: uma aventura sem compromisso
    [21:37:30] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: vcs já saíram com outros casais?
    [21:38:05] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: não, e vcs?
    [21:38:30] M inversão diz para H66: me dexa em paz seu escroto
    [21:38:40] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tbem não
    [21:38:55] renato bi sai da sala.
    [21:39:03] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: o q vcs quiseram dizer quando disseram que gostam de fazer tudo? rsrs
    [21:39:19] Evangélica amizade sai da sala.
    [21:39:30] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:39:50] M inversão sai da sala.
    [21:40:18] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: nós dois somos bi, gostamos de tudo entre 4 paredes rsrsrs
    [21:40:30] Hserio sai da sala.
    [21:40:47] Mario 47 entra na sala.
    [21:41:09] PAU DURO CAM sai da sala.
    [21:41:30] Moreno22 diz para Todos: aumente seu pênis de forma natural. {www.penislandia.cz}
    [21:41:51] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: do que vcs gostam?
    [21:42:03] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: a gente estava pensando mais em uma troca de casais
    [21:42:13] Caroline entra na sala.
    [21:42:31] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: podemos fazer várias trocas rsrsrs
    [21:42:47] Elton21anos sai da sala.
    [21:43:11] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: não sei, nunca transei com outro homem
    [21:43:21] DotadoCAM entra na sala.
    [21:43:30] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: minha esposa disse que já transou com outras mulheres na faculdade
    [21:43:40] DotadoCAM diz para Mulher Perdida: oi
    [21:43:43] DotadoCAM diz para h passivo: oi
    [21:43:48] DotadoCAM sai da sala.
    [21:44:11] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: as coisas acontecem de forma natural
    [21:44:19] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: o q rolar rolou rsrsrs
    [21:44:32] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: seu marido sai com outros homens sempre?
    [21:44:50] Hilda Hilst sai da sala.
    [21:45:09] Matheus sai da sala.
    [21:45:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: não, a gente tem uns brinquedinhos para se divertir
    [21:45:30] Ninfa diz para Todos: famoso confessa que gosta de transar com cabras {www.semvergonhadacabra.hg}
    [21:45:48] Caroline diz para Ksado43: 18
    [21:46:12] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: desculpem, mas acho que isso não vai dar certo
    [21:46:22] Caroline diz para Ksado43: q nojo
    [21:46:34] Caroline sai da sala.
    [21:47:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tudo bem
    [21:47:22] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:47:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: até
    [21:47:30] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: até
    [21:47:45] Ksal Discreto sai da sala.
    [21:47:55] Ela&Ele sai da sala.
  • Belezas

    A visão do mundo quando bom
    desperta dos estalos das cordas, do som
    assusta-me, como cativa-me...
    bruta como o silêncio anormal
    de um órgão esquecido
    no vazio de sua catedral.

    A visão do mundo quando bom
    una, dona de belas aparências,
    confunde-me, como expressa-me, furiosa e fervente
    melancólica como o escuro azul
    e azul como o fogo mais quente.

    A visão do mundo quando bom
    está no teu calcanhar enquanto te sigo
    ao fim do mundo, o apocalipse, ou à imperdoável morte do meu coração
    e por todos os caminhos, ando contigo
    sem deixar o olhar sequer cair ao chão.
  • Bom dia!

    Que o sol ao nascer te faça sorrir, te mostrando que mais um dia se inicia. Que o vento leve os seus sonhos até Deus e que tudo se realize. Mas, quando entardecer e tudo escurecer, não desamine.
    As estrelas vão brilhar e logo mais a lua aparecerá. Mas, se as nuvens cobrirem o céu, feche os olhos e perceba, que nem todos os dias terminam como a gente quer, mas, podem começar como a gente sonha.


    Luca Schneersohn
  • BREVE HISTÓRIA DO IMPÉRIO EM TEOMAKIA

    No continente de Éos, mais precisamente na região central, localiza-se o Império Sagrado. Este, estabeleceu-se numa vasta região, onde se localizavam dezenas de tribos, com idiomas bastante similares, que eventualmente foram unificadas em 8 pequenas nações. Como era natural que ocorresse, essas nações acabaram por se tornarem em monarquias rudimentares, as quais entravam em constantes guerras e alianças. No fim desse período, numa fase semelhante a baixa antiguidade, quatro reinos restaram, tendo cada um anexado um dos demais por meio de casamentos e/ou tratados de unificação. Havia uma peculiaridade nesses reinos.
    Haviam quatro portadores de poderes sobrenaturais que passavam seus poderes para sucessores. Não se sabia exatamente como isso tudo funcionava, mas eles naturalmente tornaram-se generais em seus respectivos reinos. Tradicionalmente, esse poder, conhecido como "A Virtude" no Reino do Sul e regiões próximas e como "O Legado" nos demais reinos, era transmitido somente dentro de determinadas tribos, que tornaram-se clãs. A influência de cada um desses clãs aumentou ao ponto de que, adentrando aquela civilização em uma condição social de feudalismo, tornaram-se todos esses clãs, em seus respectivos reinos, famílias tradicionalmente nobres. Assim que cada um dos 8 reinos se unificou a um outro, os tratados tenderam para centralizar o poder na figura do portador do Legado. 
    Passados mais alguns anos, a religião comum de toda essa região, a Doutrina, passou a ser ameaçada por religiões de povos do leste. Foi então iniciado um processo de unificação forçada, visando um esforço de defesa. Ocorreu que a falta de articulação entre os reinos resultou em uma derrota quase absoluta: um vasto território de quase 3 milhões de km² foi tomado de assalto por centenas de inimigos com habilidades sobrenaturais, liderados por dois generais imortais, sendo um homem e uma mulher. Acredita-se que eram deuses. Todos os 4 portadores foram eliminados, sendo substituidos por seus herdeiros aprendizes. Entretanto, sendo ambos ainda muito jovens, preferiu-se uma estratégia de menos enfrentamento e de poupar suas populações. Os quatro reinos foram reduzidos a uma pequena parte do norte do antigo Reino Ocidental. Foi então firmado um tratado de paz com os deuses. 
    Na pequena parte reduzida dos quatro reinos, eles foram unificados em um, com um monarca eleito entre os líderes de clãs. Foram criadas também as cátedras, títulos militares dados aos portadores. Mais sete anos e iniciou-se um processo de retomada do território. Os quatro Catedráticos lideraram os exércitos em consecutivas vitórias, reconquistando quase metade do território perdido em cerca de cinco décadas. Seus sucessores retomaram quase o mesmo território dos anteriores em cerca de três décadas. Estes, por sua vez, escolheram aprendizes jovens. Os quatro jovens escolhidos foram os últimos até o início da história contada de Teomakia. Após a reconquista de tão vasto território, estabeleceu-se a capital real numa região ao sul do continente, Augusta. Foi estabelecido o Senado, tendo presença de cada um dos chefes dos clãs tradicionais, os quais eram responsáveis pela eleição do Prínceps (o monarca, o primeiro cidadão). Ao Prínceps, após coroação da Doutrina, é dado o título de Imperator. 
    O atual Imperator é Tiago Primeiro, Prínceps, Imperator e Rei de Australis, Occidentalis, Orientalis e Septentrionalis. Os catedráticos no início da história são: Aidan Silva, Barão da Colina, Herói de Australis e Catedrático do Fogo; Éolo Piero, Duque de Sol, Paladino e herdeiro de Orientalis e Catedrático do Ar; Orlando Mercio, Marquês do Ocidente, Protetor de Occidentalis e Catedrático da Terra; e Adriano Gelo, Duque de Fluvius, Defensor e herdeiro de Septentrionalis e Catedrático da água. 
    A Cátedra é tradicionalmente passada a um nobre, do sexo masculino, de clã reconhecido, puro de ascendência filho legítimo.
  • Caçadora

    Já haviam se passado dois dias desde que os sequestros começaram, as delegacias da região estavam lotadas de policiais e informantes, todos desesperados por uma única pista. Nos hospitais seguranças cercavam os berçários, pais nunca deixavam um enfermeiro ficar a sós com seus filhos. Dois dias, quarenta crianças, todas tiradas dos braços das mães em sete diferentes hospitais da cidade.
    Sofia tentara rastrear os sequestradores a partir de câmeras de segurança, mas não conseguiu nada além do que a policia tinha, os bebes eram pegos por enfermeiros que trabalhavam nos hospitais, eles aparentavam estar fazendo seu trabalho de rotina, contudo, nunca chegavam ao destino, desapareciam dentro de um carro junto com a criança, tudo pego pelas câmeras.
    No primeiro dia dez roubos dentro de uma hora, dois recém-nascidos e oito que já estavam a mais de um dia no berçário, quando chamaram a policia já haviam desaparecido, essa primeira onda ocorreu somente em um hospital, os outros trintas seguiram o mesmo padrão no dia seguinte, menos de uma hora e em seis hospitais diferentes. As câmeras de trânsito não conseguiam acompanhar os criminosos, haviam poucas e cobriam somente uma parte pequena das ruas.
    A cidade inteira estava em pânico, a mídia não saia de cima da polícia, os gerentes dos hospitais estavam ocupados demais tendo que atender advogados que ameaçam processos milionários, Sofia sabia que quanto mais alvoroço acontecesse, mais as pessoas deixariam passar os detalhes, então estava na hora dela agir.
    Após assistir as câmeras diversas vezes, juntou os seguintes padrões, o comportamento dos enfermeiros até recolherem as crianças eram normais, nenhum dos quarenta apresentara qualquer sinal de nervosismo, nenhum teve qualquer contato estranho ou incomum entre eles, ou seja, sequestrador com sequestrador, assim como agiram de forma completamente confortável quando saíram do hospital e entraram no carro, o mais provável era que o quer que tenha motivado os roubos tenha acontecido entre os segundos em que as câmeras não pegavam eles, se tornava difícil notar qualquer interação com outros possíveis cumplices nesses momentos, ninguém estranho, tudo em perfeita ordem, parecia completamente inútil.
    O único detalhe que juntava todos os membros como cumplices era que em cada roubo o carro do sequestrador pertencia a outro sequestrador, todos segundo os familiares sem qualquer ligação. Os carros foram encontrados, estavam separados em diversos bairros da cidade, sem GPS, sem os donos, sem pistas.
    No primeiro dia vinte minutos após chamarem a policia as BRs que levavam para fora da cidade estavam fechadas, no segundo dia elas foram reforçadas, a guarda nacional ajudava a cercar a cidade, ninguém passava sem ser visto, pelo menos era isso que eles queriam acreditar, o mais provável era que as crianças ainda estivessem na cidade, a questão era acha-las.
    Sofia pensou em qual seria o próximo passo da polícia, estavam prontos para invadir todo e qualquer lugar que pudesse abrigar quarenta recém-nascidos, quanto tempo demorariam para conseguir a permissão? Algumas horas?! Ninguém conseguiria esconder-se por tanto tempo com esse número de reféns, os planos eram outros, talvez aquelas crianças não tivessem algumas horas.
    Eram quatro horas da manhã, Sofia decidiu que não valia a pena correr atrás de todos os quarenta suspeitos, escolheu um, Carlos Mendonça, quarenta e dois anos, residia no hospital a mais de uma década, casado e com três filhos, um homem normal, pai amoroso e ótimo jogador de cartas segunda a esposa. A casa do suspeito ficava próximo a casa de uma das vítimas, podia ser coincidência ou ele podia estar de olho na gravida a muito tempo.
    A menina esgueirou-se pelo jardim da casa, sempre de olho para que ninguém a visse, escalou até o segundo andar onde sabia por informações recolhidas de conversas com “vizinhas informantes” (fofoqueiras) que ficava o quarto do suspeito e sua esposa. A janela estava fechada, mas era de vidro e por ela podia-se ver uma mulher de idade já avançada deitada na cama em um sono profundo, um sono que conseguira a muito custo, isso era o que indicava os frascos de soníferos ao lado da cama. Outro motivo pelo qual Sofia escolhera aquela família em especial era por que fora uma das primeiras entrevistadas, metade dos familiares de suspeitos ainda estavam na delegacia e a garota preferia fazer seu trabalho longe da polícia.
    Todos na vizinhança dormiam, tão calmos e ao mesmo tempo tão desesperados, Sofia desceu para o jardim, encontrou a porta dos fundos e com um grampo abriu a fechadura como se fosse um jogo de criança.
    Andou pela casa sorrateiramente, procurou pelos filhos, mas eles não estavam, deviam ter sido mandados para os cuidados de algum parente para evitar que comtemplassem a tristeza da mãe, era uma coisa boa, não seria interrompida. Subiu as escadas, fechou as cortinas do quarto, vestiu uma mascara completamente branca que só possuía buracos para os olhos e foi em direção a cama.
    - Cristina! – sussurrou bem perto do ouvido da mulher, mas não surgiu efeito.
    - Cristina! – voltou a repetir, agora mais alto dando um empurrão na dorminhoca.
    A mulher resmungou um pouco, virou-se de frente para a menina e quando abriu os olhos, entrou em desespero, tentou gritar, mas uma mão tapava sua boca. Seu próximo instinto foi pular para fora da cama, novamente frustrada, desta vez devido a faca de caça que repousava em seu pescoço.
    - Não quero ter de usar meios violentos. – disse Sofia – mas não hesitarei um segundo se me obrigar a fazê-lo, estamos entendidos?
    A mulher com os olhos arregalados e cheios de medo acenou com a cabeça de forma afirmativa. Sofia retirou a mão que tapava a boca da vítima, mas manteve a faca,
    sentou-se na cama confortavelmente enquanto era observada pelo olhar amedrontado de Cristina.
    - É... é dinheiro? – perguntou a mulher gaguejando – Te... te... tem no... co... co... cofre, a senha é 2...2... 4...
    - Isso não é um assalto!
    A mulher permaneceu um momento em silencio, então pediu se poderia sentar, Sofia permitiu, contudo, sem remover a faca do pescoço da vítima.
    - É meu marido? – perguntou a mulher com os olhos cheios de lágrimas. – Você é uma parente?
    - Não Cristina, sou só alguém querendo fazer a coisa certa.
    - Com uma faca?
    - Com os meios que a justiça despreza, mas necessita.
    As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto da mulher. – Eu não tenho nada a ver com isso, meu marido também não, é um grande engano, ele é uma boa pessoa.
    - Ele sequestrou um bebe e desapareceu, não é a definição correta de boa pessoa.
    - Você não entende, ele não pode ter feito isso, ele é um homem carinhoso, um pai de família gentil, nunca esquece meu aniversário, continua dizendo que me ama todos os dias mesmo depois de vinte anos de casamento.
    - Parece perfeito demais não acha?!
    - Por que está aqui? Tem alguma pista dele, tem dele algo a mais que os outros? Não conheço todos os envolvidos, mas tenho certeza que assim como meu Carlinhos eles são vítimas de alguém que os manipulou.
    - Acha mesmo que ele é inocente?
    - Eu conheço meu marido!
    - Então consegue imaginar alguma oferta que o teria feito repensar seu estilo de vida? Dinheiro, algum favor especial talvez?
    - Dinheiro? Eu sei que ele é só um enfermeiro, mas dinheiro nunca foi um problema, ele herdou uma fortuna de seus pais, poderia ter pego tudo e ido embora, em vez disso dedica todo dia cada centavo dele para dar a mim e a nossos filhos a vida mais alegre que poderíamos desejar.
    - E onde está sua alegria agora?
    A mulher caiu em prantos e Sofia não demonstrou qualquer sinal de pena diante da cena, assim como sua mão não afrouxou no pescoço da refém.
    - Temos um problema aqui! – disse a menina – Tudo indica que seu marido faz parte de algum grupo de lunáticos que resolveu sequestrar quarenta crianças de uma vez só em um período de dois dias, sabe o quanto isso é insano? Não faz o menor sentido! Sabe, eu gostaria que ele não fosse culpado, acredite em mim, assim eu pouparia uma bala na hora de matar os responsáveis, o problema é que preciso de uma outra teoria que o livre dessa, você tem alguma?
    - Ah...ah... Não sei... ah... Talvez alguém parecido com ele, talvez... eu não sei... – a mulher voltou a chorar, tentou controlar quando sentiu o fio da navalha apertar mais contra seu pescoço.
    - Vamos lá Cristina, eu não tenho muito tempo.
    - EU NÃO SEI! Bolar uma teoria não deveria ser o seu trabalho?
    - Estou sem ideias, preciso de uma segunda opinião, que tipo de grupo é lunático a esse ponto?
    - Tráfico sexual, trabalho infantil, órgãos, EU NÃO SEI!
    - Sabe qual é o problema com esses grupos Cristina?
    - Eu... eu... eles... não fazem escândalo?!
    - Exatamente! Você não está se esforçando para livrar seu marido dessa Cristina.
    - ELE É INOCENTE! Porque não acredita em mim?! Eu não sei de nada, ele era um bom homem, meu deus ele até doava dinheiro para igreja todo mês.
    Sofia suspirou desapontada, retirou a faca da garganta da vitima e a guardou no sapato, as duas permaneceram em silencio por um momento, até que a menina notou algo no que havia ouvido.
    - Vocês são religiosos? – perguntou ela a mulher.
    - Não exatamente! A religião vem de família, mas as doações são nossa única ligação com esse tipo de culto atualmente e é só porque a igreja faz obras de caridade ou algo assim...
    - Está me dizendo que não sabe exatamente para que a igreja usava o dinheiro?
    - Era o... era... meu marido... que... cuidava disso... você... você acha que...
    - Um homem perfeito?! Talvez você esteja certa e não seja nada, mas só por precaução vou checar para onde o dinheiro ia, tem pelo menos o nome da igreja?
    Alguns quilômetros longe dali, dentro de uma cafeteria vinte e quatro horas, Sofia procurava em um dos computadores do estabelecimento, tentando encontrar informações sobre o Centro de fé e contemplação do senhor Jesus Cristo. Era uma comunidade bem grande, muitas propagandas sobre obras de caridade, embora as igrejas deste culto fossem templos pequenos e espalhados em vários pontos da cidade, todos os anúncios traziam consigo a imagem do patrono da religião, o padre
    Deo Missusa, latim, se fosse escrito Missus a Deo significava enviado de deus, Sofia entendia um pouco de latim e essa podia ser novamente só uma coincidência, mas aquele parecia ser um nome inventado, do tipo que artistas usam para parecerem mais chamativos.
    “O que Deus diria disso?!” pensou ela.
    Após alguns minutos de pesquisa encontrou um numero de telefone, sabia que não ajudaria muito, mas resolveu tentar um contato com o próprio “Enviado de Deus”, através da linha de ajuda a viciados. Saiu da cafeteria, encontrou um lugar sossegado e então telefonou, foi quase que imediatamente atendida por uma mulher.
    - Centro de fé e contemplação do senhor Jesus Cristo, que a benção do senhor esteja com você, com quem estou falando?
    Sofia enrugou um pouco a voz para parecer rouca – Meu... Meu nome é Karine, eu... eu preciso de ajuda... eu quero me matar.
    Houve uma comoção do outro lado da linha, outra pessoa assumiu o telefone, desta vez um homem, afinal, a linha era para viciados, não suicidadas. – Boa noite Karine, meu nome é Jeferson, estou aqui para te ajudar, preciso que continue na linha ok? O senhor nosso deus tem um proposito para você, sua vida tem um valor inestimável...
    Sofia resolveu criar um pouco mais de drama – Onde está a mulher? Eu estava falando com uma mulher? – ameaçou um choro – Porque todo mundo me passa para outra pessoa?
    - Karine, eu preciso que se acalme ok?! A irmã Maria está aqui comigo, ela não saiu, eu pedi para assumir o telefone, já lidei com isso antes querida, tem algo que deseje em seu coração?
    - Deo!
    - Como?
    - O padre Deo está ai?
    - Sinto muito querida, o padre encontrasse em seus aposentos, mas Deus fala através de todos nós, pode falar conosco e estará falando com Deus.
    - Por favor! – Sofia fingiu que estava chorando, parecia bem convincente, era uma ótima atriz – eu estava... estava vindo para cá, pronta a pular, pronta a tirar minha vida, então eu vi, eu vi um cartaz, era o padre Deo, é um sinal, meus pais sempre foram religiosos, eu nunca liguei para essas coisas, por favor, eu preciso falar com o padre, ou então não tem porque eu continuar nessa ligação.
    A resposta foi rápida – Tudo bem Karine, eu preciso que prometa continuar na linha, não faça nada precipitado, vamos tentar entrar em contato com o padre, mas enquanto isso, porque você não nos dá sua localização?! talvez o padre possa te encontrar pessoalmente.
    - NÃO! Vocês estão mentindo, vão chamar a polícia, vão me mandar de volta para aquela maldita clínica, EU QUERO FALAR COM DEO OU VOU PULAR!
    - Calma Karine, estamos ligando para o padre agora mesmo...
    A ligação se estendeu por alguns minutos com Jeferson incentivando o tempo todo para que a vitima se acalmasse e tivesse paciência, Sofia por sua vez mostrava cada vez mais sinais de impaciência para que agilizassem as coisas, por fim a ligação foi passada para o “Santo Deo”.
    - Que a benção do senhor esteja com você, o que há em seu coração querida? – perguntou o padre.
    Era hora de decidir bem o que dizer, Sofia queria saber se a igreja tinha algo a ver com os sequestros, pensou em alguns dos sequestradores. – Meu nome é Karine... meu pai era Gregório Castro...
    Sofia não disse mais nada, esperou uma reação.
    - Um dos sequestradores?! – disse o padre.
    “E o peixe morde a isca” pensou a menina, mesmo que tivesse visto todas as notícias seria difícil decorar todos os quarenta nomes, muitos dos jornais nem se deram ao trabalho de citar todos os envolvidos, de novo, poderia ser coincidência, mas a garota chegara até ali com algo extremamente banal como contribuições para caridade, não tinha porque não ir a diante.
    - Ele falava muito da igreja – Sofia continuava com a voz de choro – você o conhecia?
    - Deus conhece todos os seus servos minha querida, mas eu sou só um mortal, não tive a honra de conhece-lo, tenho certeza que era um bom homem...
    - Então porque ele...
    - O diabo as vezes tem vitórias que não conseguimos entender, mas Deus sabe a hora de agir, se seu pai era um bom servo, tenho certeza que Deus perdoara seus pecados.
    - E os seus, padre?
    - Meus?!... meus pecados? Somos todos iguais aos olhos de Deus.
    - Ele sempre doava dinheiro para igreja! – disse Sofia atirando no escuro.
    - Ele era um doador fiel da caridade sim, e Deus ajuda quem ajuda os desfavorecidos.
    Uma ligação, havia uma ligação entre dois suspeitos, ambos doavam para igreja, como sempre sem provas, mas as coincidências continuavam a aparecer.
    - O que está pensando em fazer querida? – continuou a falar o padre – É por isso que está pensando em cometer o pecado do suicídio, por causa dos pecados de seu pai?
    - Como posso viver com isso padre? Minha amiga pensa do mesmo jeito, a mãe dela também fez isso, era uma boa mulher – mais uma tentativa, Sofia pensou em outro
    nome entre os sequestradores - Julia Tália Santos, sempre doava para sua caridade – esperava outra mordida, mas as coisas mudaram a partir daí.
    - Quem é você? – perguntou o padre de forma fria.
    Nesse instante Sofia entendeu que fora descoberta, estava ligando pontos demais, pedindo informações demais, e o líder de um culto só podia ser burro até determinado ponto ou não seria o líder.
    - Onde estão eles? – perguntou a menina.
    - Os sequestradores? Porque eu deveria saber disso?
    - Porque eles trabalham para você, porque sua maldita igreja sequestrou quarenta crianças e posso apostar que não faz parte de um programa de caridade.
    - Dominus tem um grande plano para elas, você é uma criatura sem fé, não entenderia.
    - A policia está ouvindo essa conversa!
    - Não está não! – disse o padre com confiança – essa é uma linha privada, já tenho sua localização e alguém de olho em você, é só uma adolescente metendo o nariz onde não é chamada...
    Sofia desligou o telefone e olhou em volta tentando encontrar os olhos do padre em algum lugar, não havia ninguém, estava sozinha, a rua era silenciosa e ao longe os primeiros raios de sol nasciam, ela suspirou aliviada e ao mesmo tempo sentindo o coração pular para fora do peito.
    Agora que já sabia que a igreja realmente tinha algo a ver com isso ela tinha que encontrar um modo de chegar até eles, estariam em um grande culto ou algo assim, devia haver muita gente envolvida, não que fossem fazer isso em um lugar público, mas devia ter um jeito de chegar a eles.
    Sofia entrou novamente na cafeteria, era a única cliente ali, pensou em pedir algo, passara muito tempo sem comer nada, foi até o balcão e enquanto avaliava as opções notou vários cartões de visita, taxis, livrarias, grupos de ajuda, e lá estava ele, a imagem de Deo “Faça parte da nossa comunidade!” dizia o cartão.
    - Vai pedir? – disse o garoto atrás do balcão assustando Sofia que estava focada nos cartões.
    - Não! – respondeu ela rápido – desculpa, quero dizer, estou escolhendo ainda.
    O garoto sorriu e de forma graciosa fez uma reverencia, Sofia riu e voltou os olhos para o cardápio. Ao fundo ouviu o telefone tocar, o garoto atendeu imediatamente, deixando a menina sozinha com as opções.
    Seria um dia puxado, ela precisava de energia, começara a pensar que se metera com algo muito grande, afinal, estava sozinha, passou os olhos pelo hambúrguer e pela
    torrada, pensou em pedir talvez um pastel, estranhamente estava com vontade de comer pastel.
    - Karine? – perguntou o atendente.
    Sofia ergueu os olhos a tempo de ver um teaser ser disparado contra seu peito, ela tombou no chão com 50 mil volts passando pelo seu corpo, tremia freneticamente, já tinha feito treinamento com armas de choque, não era algo fácil de suportar, conseguiu com muita força arrancar os ganchos que lhe transmitiam a corrente, mas ficou no chão convulsionando. O menino ficou lá, com um olhar catatônico, observando sua presa, após alguns segundos pegou a faca que era usada para cortar os bolos e deu a volta no balcão indo em direção a sua vítima.
    Sofia ainda tremia, mas levar tantos choques nos treinamentos devia valer alguma coisa, pois ela conseguiu se levantar, cambaleou para longe do atacante, mal conseguia se manter de pé, sua única opção era tentar aguentar até que seu corpo tivesse condições de lutar.
    O menino se aproximou rapidamente enfiando a faca no braço de Sofia, ela gritou de dor e voltou a tombar ao chão, desta vez levando uma serie de mesas e cadeiras junto, a faca não entrara muito fundo, acabou caindo durante a confusão. O atendente pulou em cima da pobre garota desferindo diversos socos em um ritmo frenético, a cada golpe a consciência de Sofia ia esvaziando, “como pudera ser tão descuidada?” pensou ela “Não notara um agressor tão próximo, tanto treino, tanto esforço para acabar assim?! Não! ainda não estava acabado”.
    Um movimento rápido entre um dos socos, uma cabeçada, as cabeças se chocaram forte o suficiente para empurrar o garoto para trás. Sofia encontrava-se exausta, afastara o inimigo, mas por quanto tempo? Não tinha mais forças para lutar, para sua surpresa, não precisaria mais lutar.
    O garoto começara a resmungar de dor, perguntando o que diabos tinha acontecido, ficaram ali por alguns minutos, os dois, Sofia em um estado bem pior que o garoto, até que o seu ex-inimigo veio ao seu socorro, ajudou a levanta-la, correu pegar o kit de primeiros socorros quando viu o estado do corte em seu braço e enquanto limpava o ferimento a garota aproveitou para perguntar algo que já imaginava.
    - Você tem alguma ligação com Deo?
    - O cara da igreja? Não!
    - Como conhece a igreja? – perguntou apontando para os cartões de visita.
    - Fiz uma doação! Para um programa de viciados e... a mais ou menos um mês atrás me convidaram para uma comemoração para doadores, era um tipo de palestra, dormi a sessão inteira, me deram os cartões na saída.
    - Soldados russos! – disse Sofia, agora entendia o que havia acontecido, como todas aquelas pessoas tinha sido convencidas a fazer o que fizeram.
    O garoto olhou em volta, somente agora parou para tentar entender o que havia acontecido, o teaser para ladrões estava em cima do balcão, acabara de ser usado, uma faca ensanguentada estava caída no chão, sentiu-se horrorizado, havia feito aquilo com a menina.
    - Não se preocupe, não vou contar para ninguém – disse Sofia – desde que não conte que estive aqui.
    O garoto tinha muitas perguntas, mas foi convencido a deixar que a garota fosse embora sem responder nada, e com o aviso para que não atendesse o telefone.
    Soldados russos, fora isso que aconteceu, os doadores que compareceram a reunião de comemoração foram hipnotizados para serem como soldados russos, ativados com algum sinal, prontos para executar qualquer ordem que lhes fossem dada, seriam necessários apenas alguns segundos para ativar as marionetes durante os sequestros, poderia ser qualquer um a fazê-lo, bastava algum sinal pré-programado. A reunião havia acontecido segundo o garoto no subsolo da decima terceira cede da igreja, todos dormiram na reunião, motivo pelo qual não falavam dela por ai, talvez estivesse erada, mas tinha a impressão que seria lá que o quer que estivesse acontecendo seria realizado.
    Oito horas da manhã Sofia já se encontrava livre de quase todas as dores, sangramento estancado, ferida limpa, estava na hora da caçada. A garota finalmente se vestia para um combate, botas de couro, uma malha que absorvia impactos, duas facas na cintura, duas facas nas botas, cobrira tudo com um sobretudo preto, e a ultima peça era um rife de caça com dardos tranquilizantes que guardou dentro de um case de violão junto com sua máscara, na rua pareceria uma menina comum, quem a via mal sabia que estava indo em direção a uma guerra.
    Passou algumas vezes por frente de televisões que anunciavam a invasão da polícia em vários pontos da cidade, a guarda nacional estava ajudando, vários vídeos eram gravados a partir de câmeras de celular, o perímetro das invasões era sempre evacuado, podiam estar lidando com terroristas, não encontrariam nada e demorariam muito tempo para fazer isso.
    Demorou uns quarenta minutos até chegar a igreja, não havia ninguém ali, não na parte de cima pelo menos, Sofia levou um tempo para achar a entrada do subsolo, lá em baixo parou na escada, ficou abaixada observando a sala, era um lugar imenso, bem maior que o andar anterior, a porta lacrava a sala e impedia que qualquer som saísse de lá.
    Os fieis podiam ainda não estar ali, mas os sequestradores estavam, todos desacordados amarados em cadeiras, vendados e amordaçados. Sofia não conseguia ver os recém-nascidos, mas agora tinha certeza que aquele era o lugar certo. Em um canto do salão arrumando o que parecia ser um palco estavam dois homens grandes vestidos de branco com sinais de cruzes invertidas desenhados em seus trajes, a garota não podia ser burra e enfrentar os dois em uma luta corpo a corpo, seria esperto
    guardar os dardos do rifle para quando estivesse em real perigo, por hora faria tudo com calma, para começar colocou a mascara branca, não podia ser reconhecida.
    Tentando ser a mais silenciosa possível esgueirou-se pelo canto do salão, aproveitando que os dois grandões estavam distraídos em uma discussão calorosa sobre a posição de uma das peças de madeira. Quando conseguiu alcançar o fim do salão, entrou em baixo do palco e de lá engatinhou até que estivesse ao alcance dos calcanhares dos dois, com um movimento rápido puxou as facas da cintura e cortou os tendões acima dos calcanhares, imediatamente os dois homens tombaram de bruços no chão, Sofia saiu do esconderijo e apertou a faca contra a garganta dos monstros de branco, os dois ficaram paralisados com as laminas ameaçando acabar com suas vidas.
    - Onde estão os bebês? – perguntou ela.
    O grandão do lado direito resmungou – Sua vadia, não vamos falar nada, Dominus vai cuidar de você, estará morta assim que Deo chegar.
    A lâminas foram pressionadas com mais força e uma linha de sangue escorreu pelo pescoço.
    - Estão com os fies! – disse o do lado esquerdo em desespero – a gente só banca o segurança, por favor, não me mata.
    - CALADO IDIOTA! – gritou o outro.
    Sofia retirou a faca do pescoço do da direita e com o cabo lhe deu uma coronhada que o fez perder a consciência, enfim, voltou a atenção para o da esquerda. – Continue a falar.
    - Eles separam os bebes, não dava pra manter todos em um só lugar, vai ser hoje ao meio dia, era para ser a noite, mas tiveram que adiantar, todos reunidos... são sacrifícios... para Dominus, nunca foi feito antes, é o maior ritual, eles realmente esperam invocar esse tal Deus hoje...
    - Porque não se livraram dos sequestradores ainda?
    - Eles vão assumir a culpa!
    - Fui atacada fora daqui por alguém hipnotizado, quantos mais há?
    - Não sei, não cuido disso!
    A faca foi apertada mais fundo na carne gorda do pescoço. – Eu não sei, eu juro, sei que são bastante, tem até uns policiais, todos que doaram, e as pessoas doam bastante para essa igreja.
    - Então é provável que se eu ligar para policia vão saber que estou aqui e as crianças somem?
    - Bem provável!
    Sofia fez igual a antes e apagou o grandão com uma coronhada. Amarrou os dois, amordaçou-os e empurrou para de baixo do palco, onde não seriam vistos. Suas opções eram limitadas, precisava derrubar Deo antes de chamar a polícia, procurou pelo lugar coisas que talvez pudessem ser uteis, tomou cuidado o tempo todo, mas felizmente ninguém apareceu, por fim onze horas a portaa da escada se abriram e pessoas começaram a entrar, a menina estava escondida em cima de uma das vigas de ferro do teto junto com as lâmpadas, as luzes estavam viradas para o outro lado de forma que não dava par ver que havia alguém ali, o rifle estava pronto, Deo estaria no palco e seria o primeiro a cair.
    Os minutos iam passando e cada vez mais pessoas chegavam, alguns sem nada, outras com os bebes no colo. Todas as crianças foram colocadas no centro da sala junto com os sequestradores, aparentemente ter o sangue dos recém-nascidos nas roupas dos sequestradores fazia parte do plano.
    Deo foi o último a aparecer, cumprimentava a todos como se não estivessem para sacrificar quarenta crianças em um ritual macabro e insano.
    - Louvado seja Dominus! – disse ele ao se posicionar em seu lugar no palco, todos os fies repetiram em coro, devia ter umas setenta pessoas ali.
    Sofia pegou o celular, pronta a mandar sua localização para a polícia, assim que começasse a atirar ninguém mais poderia impedi-la, bastava um click e a ajuda estaria a caminho, infelizmente um estrondo forte assustou a todos e tomou atenção da garota. Um dos grandões que estava em baixo do palco havia acordado e se debatia feito um peixe fora da água.
    Os fieis se amonturam para tirá-los de lá enquanto outros procuravam ao redor da sala quem fora o responsável por aquilo. Deo parecia furioso, olhava para todos os lados imaginando quem ousaria se intrometer em um dia tão especial, eis que ele viu algo, viu o cano do rifle, viu a tempo de desviar do primeiro disparo, um alvoroço se estabeleceu, todos procuraram um lugar para se esconder e os bebes começaram a chorar em um coro que poderia derrubar um gigante, a confusão só aumentou, as pessoas corriam de um lado para o outro derrubando as cadeiras com os reféns que acordavam desesperados tentando se soltar.
    Sofia apertou o botão de enviar da mensagem e começou a disparar seguidamente os dardos contra Deo que corria de proteção em proteção fugindo dos disparos.
    - ELA ESTÁ NO TETO SEUS IDIOTAS! – gritou ele para seus fiéis.
    Alguém virou um foco de luz para posição da garota, agora todos podiam vê-la, estava exposta, os fieis que já haviam se acalmado começaram a atirar nela coisas que encontravam pelo chão, para sorte da garota todos eram péssimos de mira.
    Dois dos fieis decidiram escalar as paredes para poderem alcançar a posição da atiradora, nesse momento Sofia teve que mudar o seu alvo, derrubar os dois foi fácil, o
    problema é que outros decidiram fazer o mesmo e os dardos estavam acabando, sem falar que Deo ainda estava de pé.
    No centro do salão alguns dos sequestradores soltaram-se das amarras e pareciam estar cientes de sua situação porque não esperaram nem mesmo um segundo para sair dando porrada nos verdadeiros vilões. Deo gritava frases que deveriam ativar a hipnose, mas não funcionava muito, pois assim que alguém recebia um golpe na cabeça voltava ao normal.
    A briga ficava cada vez mais intensa, os sequestradores estavam bem mais irados, contudo estavam em menor número, havia alguns que nem se quer haviam sido desamarrados ainda, sem falar que tinham que sempre levar a briga para longe de onde estavam os bebes, quase ninguém mais se lembrava da menina que começara a confusão, o que fora muita sorte, já que os dardos haviam acabado.
    Deo por sua vez ainda se lembrava daquela pequena criatura, irado com o fracasso do seu plano e notando que sua saída de emergência fora trancada, pôs-se a escalar a parede para derrubar a criança. Ele subia rápido motivado pela raiva, nem esperou estar próximo ao alvo, se atirou agarrando a perna da menina derrubando os dois de cima da viga.
    Sofia ficou pendurada pelas mãos na barra de ferro, Deo estava logo abaixo pendurado em sua perna, era um lugar alto, se caíssem poderiam quebrar muitos ossos ou até mesmo morrer. O padre era bem mais pesado do que aparentava, fazendo com que a garota tivesse que aplicar muita força para não soltas as mãos.
    - O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO PIRALHA?! – gritou o padre.
    - ACABANDO COM UM GRUPO DOENTE DE LUNÁTICOS!
    A garota tentava chutar freneticamente o peso em suas pernas, mas a coisa abaixo dela parecia fortemente motivada a manter-se presa.
    Vendo uma oportunidade única Deo sacou uma das facas que ficavam na bota da menina e cravou em sua perna extraindo um grito de dor da pobre atiradora. Deo retirou a faca e quando estava pronto para mais uma facada a garota soltou a viga, os dois despencaram, o impacto com o chão foi forte, Deo pode ouvir suas costelas quebrando na queda, seus pulmões foram perfurados, sangue jorrou de sua boca, Sofia por sua vez teve a queda amortecida pelo cadáver do padre junto da malha revestida que estava usando, uma ou duas costelas se partiram, ela estava fraca, mancando, mas conseguiu se por de pé encarrando horrorizada o pedaço de carne abaixo dela.
    Os fieis que ainda restavam se desesperaram ao ver a queda do líder, alguns foram nocauteados durante a distração, alguns tentaram correr para fora da igreja, mas os policiais já cercavam o perímetro. Os reféns finalmente controlaram a situação, as crianças continuavam a chorar e depois de tanta baderna ia ser difícil fazer eles pararem.
    Sofia sabia que não poderia estar ali quando a polícia chegasse, teria muita coisa para explicar, sem falar que acabara de provocar a morte de um homem, cambaleou para trás do palco, havia uma porta de fuga que Deo provavelmente teria usado se ela não tivesse trancado antes dele chegar. Antes de sair um dos reféns chamou sua atenção.
    - Quem é você? – perguntou ele perplexo com a salvadora mascarada.
    - Pode me chamar de caçadora! – respondeu Sofia antes de correr para fora da igreja e desaparecer.
  • Calidoscópio

    para tia Francisca Miriam

    Do outro lado    odal ortuo oD

    Ohlepse on ameop o    o poema no espelhO

    Não esconde nada    adan ednocse oãN

    Sarvalap sa euqrop    porque as palavraS

    São apenas um jogo    ogoj mu sanepa oãS

    Oãça-snegami ed    de imagens-açãO

     

     

     

     

     

     

     

     





    ..................................

    © "Copyright" do Autor, IN: Concursos literários do Piauí. Teresina, 2005, Fundação Cultural do Piauí. 226 p. Página 192.
  • Calor

    Calor

    Inferno

    Inverso

    Do inverno.



    Poema do meu primeiro livro de poesias, Átomo, lançado em dezembro de 2018, com prefácio de Rafael Cortez e apresentação de Thomas Pescarini e disponível em formato físico e ebook na Amazon.
  • Capiitura involuntaria

    Epílogo do Capitulo 1.
    15 de julho de 1974 -Segunda feira, 06 : 50 h. O Jorge Luiz finalizou o seu primeiro dia de trabalho na Base Aérea e caminha para a parada do ônibus quando é surpreendido com a ocorrência, uma aeronave que passou veloz pela cabeceira da pista quebrando o muro do aeroporto e parando entre a calçada e a avenida. Refeito do susto correu para o local do acidente e para a sua surpresa verificou que estava se aproximando da aeronave uma equipe de militares em 02 veículos, um jipe e um caminhão com vários soldados, antes da chegada das equipes de socorro do aeroporto. Foi possível perceber que os uniformes e os veículos não possuíam identificações e o militar que comandava a equipe ao se aproximar foi logo perguntando para o Jorge o que ele estava fazendo no local pois não foi permitido a qualquer militar da Base Aérea participar daquela operação e o Jorge estava fardado quando a caminho da parada do ônibus.
    Os comentários do Jorge não foram aceitos e recebeu ordem de detenção daquele oficial e foi levado com o indivíduo que foi capturado dentro da aeronave estando desacordado para um outro veículo, o qual surgiu em transito na avenida, aparentava ser um veículo civil do tipo caminhão baú e ao ser aberto as portas traseiras identificou ser um veículo frigorífico e comportava em seu interior o que parecia ser uma unidade médica uti sob os cuidados de uma equipe de 04 pessoas com roupas especiais do tipo utilizada na contenção de vítimas contaminadas.
  • Cascas de Semente

    Era um sábado quando vi nuvens de tempestade se aproximando. Ventos fortes atingiam a cidade em um fim de tarde, e a escuridão que se aproximava estragou o lindo pôr do sol que estava prestes a acontecer. Pássaros cantavam enquanto voltavam para as suas casas em busca de proteção.

    A chuva é boa para diversas pessoas, mas ruim para muitas outras. Infelizmente, não tinha como pensar nessas pessoas quando a chuva estava vindo, afinal não tinha nenhuma delas por perto para me lembrar disso. Ao contrário de boa parte da cidade, estava abrigado quando trovões soavam e raios eram vistos no meio dos relâmpagos. Porém eu ainda podia pensar em algo. Antes dos trovões, quando a tempestade ainda estava para chegar, era possível ver uma árvore da janela da qual eu estava perto. Ela estava carregada de grandes cascas de sementes, a maioria seca, com tons amarronzados, duras e velhas. O vento forte venceu quase todas, exceto duas. Elas não pareciam mais jovens do que as outras, eram simplesmente normais. Estavam no mesmo galho, mas eu não conseguia crer que só sobraram elas. Procurei por um longo tempo, examinando cada parte da árvore, porém não tinha nada além delas.

    Agora, já de volta com os raios e relâmpagos, fiquei me perguntando sobre o porquê de duas e somente essas duas tentarem resistir a uma tempestade mortífera. Elas podiam estar com medo de se soltarem e do que viria depois disso. Esse medo pode ter paralisado elas, impedindo que se juntassem as outras que já estavam no chão. Talvez também quisessem ver mais uma vez a paisagem lá de cima antes de serem jogadas para todos os lados pelo vento forte. Porém há uma outra explicação que particularmente me encanta: as duas cascas de semente, mesmo já estando velhas e terem visto muito isso, queriam apreciar o seu último pôr do sol que ocorreria no dia seguinte, já que este lhes fora surrupiado. Pode ser que, em sua morte, elas só queriam ver o sol sumindo devagar mais uma última vez enquanto uma brisa suave, e não um vento violento, as retirava calmamente de seu galho.

    Essa última hipótese me cativou tanto que de cinco em cinco minutos olhava pela janela para verificar se elas continuavam lá. Não queria fazer isso, lutava contra essa vontade de ficar observando elas para poder me concentrar em outros afazeres, mas simplesmente não conseguia. Percebi, então, que eu estava torcendo pelas lindas cascas de semente. Queria que elas sobrevivessem para que pudessem ver o seu pôr do sol.

    Peguei no sono antes da tempestade terminar e a primeira coisa que fiz quando acordei foi olhar pela janela. Lá estavam elas, as duas grandes sobreviventes. Esperei até o sol começar a dar tchau e me sentei embaixo da árvore para comemorar essa vitória com as cascas de semente. Depois disso, não quis mais olhar pela janela, pois não queria ver a morte das minhas duas heroínas.
     
  • Céu

    Risco cinza
    No céu fundo azul
    A engrenagem segue
    Os ponteiros com pressa
    Na esquina recordamos tudo
    Presente, até o futuro
    Passado
    A luz chega
    O ódio pode quase tudo
    O amor é absoluto
    Mas sem o negativo, ódio
    Talvez fosse obtuso
    Acho que não
    Estou certo, estou errado.


    Poema do meu primeiro livro de poesias, Átomo, lançado em dezembro de 2018, com prefácio de Rafael Cortez e apresentação de Thomas Pescarini e disponível em formato físico e ebook na Amazon.
  • Chá das Cinco



    Peço às visitas que entrem
    Entrem, mas apenas se forem ficar
    Pois, senão, que sozinha me deixem
    Basta de ir embora antes de chegar.

    A porta está sempre aberta e espera
    Espera muito, se precisar
    Até que finde a primavera,
    Não há problema em demorar.

    Leve muito tempo, mas venha certo
    Certo que ao puxar a cadeira
    Ficará do outono ao próximo inverno
    Ou até que floresça a última videira.

    Pois quero viver uma vida inteira
    Inteira, de verdadeiros sentimentos
    Da lua cheia ao raiar da aurora,
    Não apenas de breves momentos.
  • Ciclos M - MOÇA

    Moça, os tempos não são fáceis, né ? 
    A mente parece ter dado nó, parece que tudo está fora do lugar.
     
    Moça, se levante dessa cama 
    Tome um banho de água fria 
    Volte a sorrir !
     
    Moça, tempestades são constantes 
    Mas ao início do outro dia o sol volta a surgir.
    Pare de sofrer pelos tombos 
    veja quantas vezes tu já ressurgiu como fênix. 
     
    Moça, esquece os erros do passado 
    Pense no futuro que te espera alí a frente.
    Esquece das tuas dores e lute pra chegar lá !
     
    Moça, não decepcione a Menina
    Moça, torne a Mulher real
    Moça, eu confio em você
    Moça, não desista de si mesma !
  • Ciclos M - MULHER

    Mulher, espero que tenha recuperado aquele lindo sorriso que tanto encantava.
    Espero que seu amor próprio seja maior do que arranha céu
    Pois sempre foi linda, apenas não reconhecia.
     
    Mulher, ressurgir como fênix é bom
    Mas espero que sua alma não se desconstrua nunca mais.
     
    Mulher, espero que tenha compreendido que sua felicidade depende exclusivamente de você.
    Espero que olhe pra trás e veja que todos os tombos foram necessários.
     
    Mulher, espero que a Menina se orgulhe por ter chegado longe.
    Mulher, espero que a Moça se orgulhe por não ter desistido.
    E eu me orgulharei juntamente 
    pois finalmente a lagarta se transformou em borboleta. 
    Dando asas pra sonhos, e se libertando de tudo aquilo que lhe impedia de voar !
  • Colina - TEOMAKIA Prólogo

    O trato era mútuo: Caio ajudaria Maria a encontrar pistas sobre o passado de seu mestre enquanto ela o ajudaria a fazer o mesmo com relação ao seu. Era tarefa difícil mas, desde que foram nomeados para suas Cátedras, receberam permissão do próprio imperador para agir conforme lhes parecesse melhor. Desde que, é claro, não colocassem em risco a vida de terceiros. Seus mestres eram os dois ex-catedráticos mais misteriosos da geração passada. Quando perguntados, os outros dois se limitaram ao mínimo, dizendo que eles eram poderosos, tinham um entrosamento fora do comum e surpreendiam os inimigos sempre. Até o dia em que os surpreenderam a todos.Aidan, então catedrático do fogo, foi primeiro a nomear alguém completamente fora do padrão para sua sucessão. O paladino Éolo, catedrático do ar, foi primeiro a desertar e matar um companheiro.

    Hoje estavam atrás de pistas sobre Aidan. Sua mãe residia na casa grande atrás da antiga colina, 3 léguas a noroeste, seguindo a estrada do verão desde o portão leste. Após saírem pelos portões, ainda por meia légua havia a periferia da cidade. Apenas a estrada principal era calçada com pés de moleque¹, sendo as demais ruas, finas e tortuosas, de terra batida. Crianças descalças dividiam as poças de lama com porcos, cães, galinhas e patos, brincando e correndo. Foi assim por alguns minutos até que os dois catedráticos, montados em seus jovens garranos, finalmente encontraram a estrada rural, ladeada por chácaras pequenas. Do lado norte-nordeste as propriedades se estendiam até uma alta cadeia de montanhas. Do lado sul-sudoeste, as pastagens e pequenas plantações se perdiam de vista até o horizonte distante. A medida que avançavam, distanciavam-se das montanhas e adentravam mais na planície do grande Rio dos Bois.


    Uma estrada de terra numa região acidentada. Montes com vegetação verdejante ao fundo.

    Seguiram conversando sobre seus antecessores. Ambos estavam órfãos de mestre desde a mesma data. Num fatídico dia, dois anos antes, os dois haviam protagonizado uma luta totalmente improvável. A dupla, até então, era considerada a esperança de vitória na guerra. Sempre encontravam solução para qualquer crise, vencia batalhas impossíveis, realizavam verdadeiros milagres. Mas a fatalidade ocorreu, e até hoje ninguém soube explicar o motivo.


    Maria e Caio tinham um certo entrosamento também. Tinham idades semelhantes, dezessete anos, e gostavam de conversar sobre livros e idéias. Contudo, muito por conta do ocorrido entre seus antecessores, os dois não eram assim tão próximos. Sempre pairou sobre eles o fantasma da insegurança, que os impedia de se aproximarem um do outro sem imaginar que isso poderia acabar como acabou antes.


    Aliás, diferente dos outros dois catedráticos, eles viviam a sombra de seus mestres. Caio era visto com desconfiança por todos, por ter aprendido por anos a arte da guerra com um homem que traiu o Império e passou a servir os deuses pagãos. Maria, de uma forma completamente diferente, também amargava um destino semelhante. Nunca antes uma mulher, cabocla² e plebeia havia sido escolhida como Catedrática. Presente de Aidan, o homem que admirava, e que lançava sobre ela uma sombra gigantesca. Ela tinha que mostrar valor para provar que podia ser sucessora de um Dragão, mas não qualquer Dragão. Era Aidan, o "herói improvável", o sucessor indesejado. Ele tinha uma aura tão mitológica que nem parecia que esteve com Maria durante anos.

    Um calor abrasador, logo após o final de uma chuva pela manhã, dava o tom quente e úmido daquele dia. As pedras escorregadias da estrada logo deram espaço a uma via sem pavimento, com lama e terra batida. Ao longo do caminho, encontraram algumas pessoas, para as quais sempre perguntavam se estavam no caminho certo. Primeiro, um pai com três filhos numa carroça de leite, lhes disse que estavam próximos da antiga colina, que ela ficaria a direita da estrada após a próxima subida. Durante a subida, um homem com uma enxada e chapéu de palha que caminhava e cruzou com eles lhes disse o mesmo. Quando chegaram ao topo encontraram um casal com dois filhos pequenos, uma menina mais velha e um de colo. O homem mostrou a casa atrás da colina, mas não havia colina. Na verdade haviam dois pequenos declives que acabavam num descampado plano e redondo onde deveria haver uma. A mulher confirmou que era isso mesmo. Não souberam dizer o que houve com a colina, mas insistiram que ela existiu.

    Ao entrarem pela estrada de cascalho, após atravessarem uma porteira e mais um mata-burro a frente, chegaram a porta da casa. Era um edifício relativamente novo, em arquitetura colonial clássica, com dois andares, portas grandes de madeira vermelha e duas janelas da mesma cor de cada lado. Encima, uma varanda de fora a fora. Tinha um curral pequeno próximo e parecia ter uma horta nos fundos. Aparentemente não haviam escravos. Era um tanto modesto, levando em consideração que já foi a casa de um dos generais do império.

    Bateram na porta. Caio e Maria estavam vestidos mais informalmente, para não passar estranheza. Logo, dona Maria José, ultima integrante da família Silva, abriu a porta. Era uma mulher triste, muito abatida, de baixa estatura. A maioria dos cabelos já brancos e presos, óculos simples sobre seus olhos de um profundo negro, tão tristes como uma mãe que acabou de perder seu único filho poderia ter. Ver ela assim partiu o coração de Maria, que ficou profundamente abalada. Caio ficou mudo, todo sem jeito. Talvez fosse melhor assim, já que ele era irreverente demais. A voz dela, fraquinha, deu até um nó na garganta da menina.

    - Boa tarde meus filhos, vamos entrar, tomar um cafezinho?! - aparentemente dona Maria reconheceu os dois. Isso encurtava a parte das apresentações, o que era bom, ainda mais naquelas circunstâncias. Abraçou os dois com toda a força que nem aparentava mais ter. - Estou tão feliz de ver vocês bem. Seu olhar me lembra do meu filho. Os olhos vermelhos lhe caem bem também. - Boa tarde dona Maria. Obrigada. - respondeu a jovem. - A senhora está bem?

    Após um cumprimento tímido de Caio, a conversa prosseguiu. Foi melhor ele ser mais discreto mesmo. Se o olhar da catedrática lembrava o de seu mestre, o olhar do companheiro certamente a lembraria do que o matou. Não tinham pensado nisso antes, agora esperavam que isso não piorasse as coisas. Vendo que não seria um problema, Maria perguntou a dona Maria José se poderiam entrar num assunto mais delicado. Ela já imaginava o que era, consentiu com a cabeça. - Eu queria saber mais sobre seu filho. Como ele era? como a senhora o via? - Ele era meu filhinho. Foi uma criança ativa, mas educada e bem comportada. Seu pai faleceu na guerra quando ele tinha 6 anos, e acabou deixando para ele tanto o título de Barão quanto a cátedra, já que acabou sobrando como único homem chefe da família Silva vivo. Por conta disso, foi atrás de aprender com um tutor na Marca Oriental. Eu tive que aceitar, era o ultimo pedido do pai dele. Por isso, por quase 10 anos em que ele foi criado como irmão daquele homem, eu tive pouco contato com meu menino. E mesmo depois que voltou, ele sempre se referia a aquele bandido como irmão dele.

    - Senhora, me desculpe por perguntar sobre isso, mas eu preciso saber mais sobre meu mestre. Sei que dói muito perder alguém importante. Afinal, ele também era importante para mim. Mas sei que para a senhora foi uma perda muito pior.

    - Menina, a gente cria o filho é pro mundo. Eu sabia que um dia ia ter que deixar ele ir, mesmo que eu nunca tenha querido isso. Mas perder um filho pra vida é normal. Perder pra morte? A dor é grande demais! Não é justo que uma mãe enterre um filho. Ele tinha que viver muito depois que eu me fosse. Eu devia ter poder de protegê-lo a minha vida toda.

    Era algo muito pesado de ouvir, quanto mais deveria ser, de sentir. Maria entendia a dor de perder alguém, que era amado com tanta força por ela, mas não podia imaginar o que era para uma mãe perder um filho. Entretanto o que mais impressionava era a forma como a mãe via o filho. Maria já tinha ouvido todo tipo de história sobre seu mestre, mas nunca que ele tivesse sido dócil, tímido, frágil ou comportado. Educado era, mas quando tratava com desconhecidos e quando era necessário. Quando estava sério confrontava aqueles de quem discordava com energia. Quando não, fazia chacota com tudo e com todos, passava raiva nos adversários, humilhava opositores, fazia piadas de duplo sentido. Nunca viu ele realmente nervoso, mas ouviu falar que era uma cena atemorizante. Já ouviu histórias de que asters ou até mesmo deuses foram orientados a abandonar o campo de batalha se ele estivesse presente. Gostava de lutar, sorria sempre que estava em combate e preferia estar em desvantagem. Mas agora estava ouvindo sobre a outra face desse mito. E, por incrível que pareça, conseguia imaginar. Com ela ele já havia sido gentil, humilde, tímido e até mesmo tinha demonstrado insegurança. Cruzar esses fatos fazia dele uma pessoa de verdade. E dava uma saudade dele grande por demais.

    Para os colegas de cátedra, ele era um palhaço, mas quase sempre a certeza de uma vitória, já que era o mais poderoso deles. Para os novos catedráticos, ele fazia medo, parecia ser imprevisível e um tanto desequilibrado psicologicamente. Para os inimigos, o apelido que o deram, Flagelo dos Santos, diz muito. Eles o consideravam a arma suprema da Igreja dos Santos para eliminar os deuses, dando a entender que o próprio rei dos deuses deveria ter cuidado com ele. Mas, para essa mãe, ele era simplesmente seu menino.

    Por fim, antes de ir embora, Maria perguntou sobre a suposta colina que haveria em frente a casa. Era uma história comprida, mas resumindo, os deuses haviam descoberto sobre a família de Aidan, 12 anos atrás. Naquela época os Asters faziam incursões profundas dentro do Império, e pela vastidão do território, eles conseguiam chegar perto da capital sem muita dificuldade, antes de serem interceptados por cavaleiros de elite. Ocorreu, então, que um grupo de dezenas de Asters cercou aquela casa. Pela época e pela quantidade, certamente era o Destacamento Dourado do Carneiro. Quando eles começaram a atear fogo entorno da propriedade, de alguma maneira que ela não soube explicar, Aidan caiu do céu, controlou as chamas, as fez atear-se nos inimigos e se colocou a frente da casa. Dona Maria José, mesmo muito preocupada, conseguiu apenas olhar para o que estava acontecendo.

    Aquele que parecia ser o capitão do destacamento, provavelmente Hamal, Aster Capital Major, que estava sobre a colina que havia ali, começou a descer em disparada. Quando ele estava a meio caminho, Aidan encheu o peito e cuspiu uma rajada de fogo. Após um forte estrondo, muita fumaça e poeira, sobraram inimigos mortos nas duas laterais e atrás da casa. Porém, onde estava o grosso do destacamento e seu capitão, nem a colina sobrou. O incêndio do outro lado da estrada só foi ser controlado no dia seguinte, com a ajuda do exército imperial. Desde esse dia nenhuma incursão foi vista dentro do império novamente sem ao menos um deus no meio e a guerra passou a ser majoritariamente do outro lado da fronteira. Tempos depois, passou a ser conhecido como Flagelo dos Santos. Apenas uma coisa não mudou: a mãe continuou a ver seu filho como um menino frágil e dócil. Somente ela, no entanto.


    ¹ pés de moleque: um tipo de calçamento de estradas e ruas caracterizado por pedras irregulares encaixadas, que com o tempo tendiam a ficar pretas e lisas. Foi um método bastante utilizado durante o Brasil Império.

    ² caboclo: mestiço de indígena com branco europeu.

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