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  • Ponteiro terráqueo

    se o mundo
    parar de girar
    sairemos do lugar

    será que voltaríamos
    à atratividade obedecendo
    às leis da gravidade

    ou ficaríamos fixados
    asfixiados como relógios
    quebrados descompensados

    então o ponteiro para de girar
    e nos arremesa juntamente
    com o mar

    quem vai nos retornar?

    então
    o mundo gira pelas
    árvores e naturezas

    então
    em um mundo cínico
    quadrado e de certezas

    onde o homem
    opere a natureza em níveis
    de torpezas e impurezas

    há de fixar-se
    em qualquer lugar

    para pegar impulso e
    pular

    e a gravidade
    aonde estará
  • ‘EU’, ‘ELES’ e ‘NÓS’

    Sabíamos que estávamos sendo vigiados por ‘ELES’. Muitos relatos de abduções, fotografias e filmagens de suas naves e tecnologias não paravam de ser publicados nas redes sociais. Porém, por esforços dos governos mundiais que negavam e ocultavam os fatos, e também, por uma certa mescla de realidade e fantasia nos filmes e seriados hollywoodianos, e, provedoras globais de fluxos de mídias via streaming, além da ignorância que era pregada nas diversas religiões de sermos o centro do universo, ignoramos os sinais por ‘ELES’ transmitidos.

    ‘ELES’ até que apelaram a partir da década de 1970, quando começaram a desenhar os agroglifos nas culturas de certas gramíneas, por meio do achatamento de culturas como: cereais, colza, cana, milho, trigo, cevada e capim. E era obvio que não tínhamos ainda tecnologias para realizar o feito desses complexos e grandes desenhos em apenas algumas horas. Mas, mesmo assim, ignoramos. E, criamos soluções para explicar o inexplicável, e tudo foi abordado como um feito fictício. Então, pagamos o preço por mesclar a realidade e a fantasia, não sabendo mais diferenciar uma da outra. Assim, preferimos viver o engodo, e fomos enganados por nós mesmos.

    Entretanto, ‘Nós’ criamos a S.U.P.E.R (Superintendência Universal Para Extraterrestres Relações), em que na verdade era uma organização oculta e privada, que se fantasiava de uma Ecovila Sustentável criada por uma rede mundial de cientistas alternativos ufólogos, e pequenos empreendedores startup nos ramos da cyber tecnologia e biogenética (biohacking).

    Éramos perfeitos na arte do engodo, pois utilizamos as técnicas alienantes do sistema contra ele mesmo, ao fundarmos nossa Ecovila na Patagônia, que cobria uma área como mais de 239 km², banhada pelos paramos das geleiras andinas, com terras hiper férteis. Abrigando uma população de mais ou menos cinquenta e cinco mil habitantes de várias nacionalidades do mundo. Em que nosso maior foco agrícola e produção eram cânhamo, cannabis medicinal, morangos, uvas, cerejas, cevada e lúpulo, além de muitas criações de animais. E assim, fabricávamos os melhores vinhos, cervejas de cannabis e espumante de morango do mundo. Tudo de origem orgânica e primeira qualidade, e sem a necessidade de máquinas elétricas, ou movidas a combustíveis fosseis, tudo manufaturado a moda antiga, em que o trabalho humano e animal era o nosso maior forte.

    Vivíamos como antigos povos, antes da revolução industrial, nossas roupas, casas e utensílios eram manufaturados naturalmente, e nossas tecnologias eram 100% artesanais, permanentes e renováveis. Também, focávamos em energias sustentáveis como eólicas e fotovoltaicas, em que criamos a maior usina sustentável do mundo, que fornecia energia para todas as vilas da Patagônia por um custo acessível e barato, além de doar energia de graça para todas as dependências e prédios governamentais dessas vilas. Estratégia nossa, para implementar esse projeto com apoio intergovernamental, tanto da Argentina como do Chile.

    Porém, tudo isso não passava de uma capa que cobria o livro. Pois, subterraneamente éramos outra coisa.

    A S.U.P.E.R era um segredo de um punhado de famílias dentro da Ecovila, punhado esse, que era formado pelas pessoas menos relevantes da nossa comunidade eco agrícola. Na verdade, ‘NÓS’ éramos os fundadores dessa comunidade, mas passamos o nosso poder para os antigos moradores da região, transformando-os de simples camponeses em grandes empreendedores. Alguns ganhadores de prêmios Nobel e outras condecorações internacionais. Porquanto, eles eram nossas máscaras, e nem eles, como também, os outros moradores da Ecovila sabiam disso. ‘NÓS’ éramos um mistério… um segredo bem guardado por pactos de vida e morte, em meio ao paraíso andino.

    No submundo dos nossos quartéis subterrâneos, situava o centro tecnológico e informativo de nossa inteligência. Tínhamos uma empresa operadora de satélites, a StarSky Corporation, que atuava em 52 países com sedes em Israel e na China, além de 32 empresas subsidiarias de telecomunicações espalhadas pelo mundo. O que facilitava nossa rede de comunicações e informação, dessa forma, tínhamos olhos e ouvidos em todo lugar.

    Contudo, estávamos também sendo vigiados, e de início não sabíamos. Aquele fato da coisa observada, observar o observador. Pois nossos servidores se utilizavam da surface web, ou deep web como era mais conhecida. E, ‘ELES’ é que eram os verdadeiros donos do iceberg como todo. E, assim, os nossos olhos e ouvidos eram, também, os olhos e ouvidos deles. Seus motores de busca construíram um banco de dados, pelos seus spiders, e através de hiperligações indexaram nossas informações aos seus servidores na deepnet. Quando descobrimos que estávamos sendo escaneados, toda nossa informação já eram deles.

    Quando nossos hackers investigaram quem são ‘ELES’, se depararam com uma parede de proteção inacessível, em uma (darknet) parte do espaço IP alocado e roteado que não está executando nenhum serviço. Até para as inteligências dos governos mais poderosos o acesso era fechado, pois se utilizavam da Dark Internet, a internet obscura. E de cara percebemos que ‘ELES’, os não-humanos, eram quem estavam nos vigiando.

    Contudo, resolvemos abrir o jogo e mandar mensagens para ‘ELES’, em um projeto apelidado como: חנוך (Chanoch). Durante meses enviamos várias mensagens, então, de repente, nossos servidores detectou uma mensagem oculta que dizia: “E andou Enoque com Deus, depois que gerou a Matusalém, trezentos anos, e gerou filhos e filhas. E foram todos os dias de Enoque trezentos e sessenta e cinco anos. E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou.”.

    Ao receber aquele texto, ficamos perplexos. De início, achamos ser uma brincadeira. Até recebermos outra mensagem, que dizia: “E sucedeu que, indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho”. Então, depois de longas horas de reflexão, intentamos que as mensagens vêm a nós na forma e maneira que podemos perceber. Sendo, que eles queriam escolher alguém entre nós para uma viagem. Não sabíamos como responder a tal pedido, e mandamos uma mensagem correspondente do que temos de fazer para realizar tal acontecimento. E, eles nos responderam com três sequencias binárias: 101.

    No dia seguinte a essa misteriosa resposta, para o nosso espanto, fomos notificados por um de nossos agricultores que se encontrava no campo de cevada, se deparando com um símbolo gigante desenhado ‘IOI’. Então, rapidamente percebemos que aquele campo seria o local de contato. E, ‘EU’ fui escolhido para a tal viagem com ‘ELES’. Então, todas as noites acampei no local marcado.

    Acho que propositalmente, na noite 101 em que me encontrava sozinho em minha barraca, e já desesperançado de algum contato, ‘ELES’ vieram! E de súbito só me lembro de ver uma forte luz branca.

    Quando acordei, me deparei em uma maca feita de uma solução gelosa, de um verde fosforecente, algo como se estivesse deitado sobre água, mas, era firme, e amaciava com o peso do meu corpo. Não tinha temperatura, nem frio e nem quente, e o mais louco é que meu corpo não sentia esse material, era como se eu estivesse deitado sobre o ar. O ambiente era de uma luz violeta neon, muito calmo aos olhos, e não tinha paredes, teto ou solo. O silencio era profundo, irritante e assustador. Para todo o lado que eu me voltava, via apenas um horizonte infinito, tanto para cima como para baixo. E tive medo de sair da maca, pensando cair nesse infinito abismo. E a sensação era por demais desconfortante, achei que estava morto.

    Nisso, me senti sendo vigiado, algo ou alguém me observava, e vi alguma espécie de vulto transparente se locomover ao meu redor. Então, pela primeira vez senti algo que me tocou!

    — Uai!

    — Calma!

    — Quem é você?

    — Então, provou.

    — Provei o quê?

    — A sensação de sentir nada.

    Ao ouvir isso, perplexo me calei. E pasmei! Vendo uma espécie humanoide alta e magra a minha frente. Com olhos extremamente azuis e findados como os asiáticos, cabelos brancos longos, e pele extremante branca, fria como a de um cadáver. E, diante do meu silêncio e espanto, ela continuou a dizer, falando sem mexer a boca, que mais parecia uma fenda em seu rosto magro:

    — Assim, somos ‘NÓS’. Não temos a capacidade de sentir como vocês, e os invejamos por isso. Essa forma que você vê a sua frente, não é nosso corpo. É apenas um traje, pois vocês não têm a capacidade de nos ver sem ele. Somos seres pertencentes a outra dimensão, que vai muito mais além de sua física e compreensão.

    — De onde são vocês?

    — Somos seres da Quarta-Vertical, um mundo mais além do que a matéria física. E, nesse momento você está diante de uma plateia de nós. Não pode vê-los, pois, estão sem seus trajes físicos. Porém, saiba que também você usa um traje, e ele que te faz sentir. Mas, nós, mesmo com nossos trajes, não podemos sentir como você sente, e perceber como você percebe. Apenas percebemos as coisas físicas, através de alguns impulsos elétricos de contato nos transmitidos por nossos trajes, que são mínimos, sem sentimentos e emoções.

    — Onde fica fisicamente a Quarta-Vertical?

    — No plano físico, conhecido por vocês como seu sistema solar. Em que nossa Morada é o Sol.

    — Então, estou no Sol?

    — Claro que não! Seu corpo físico não aguentaria.

    — Onde estou?

    — Em nosso ponto de contato. Na parte oculta da Lua. É daqui que o observamos, desde sua criação como seres existenciais. E, temos alguns de vocês aqui conosco. Na verdade, somos seus guardiões, mensageiros e protetores.

    — Protetores! Contra quem nos protegem?

    — ‘DELES’ e de vocês mesmos. Pois, se assim não fosse, vocês não mais existiriam como espécie.

    — ‘DELES’ quem?

    — Aqueles a quem vocês chamam de seres infernais. No início, ‘ELES’ eram como ‘NÓS’, e vieram de ‘NÓS’. Mas, se corromperam. Pois, desejaram sentir a emoção que vocês sentem. Por isso, eles lhes causam dores e prazeres, para sugar as energias de seus sentimentos. E, fazem isso agora, através da internet. Por isso, lhes deram esses pequenos dispositivos que vocês carregam em suas mãos. O próximo passo deles, é implementar esses dispositivos aos seus corpos físicos. Aí, então, drenarão suas energias vitais, como um canudo drena o líquido numa garrafa de refrigerante.

    — Onde eles vivem?

    — Antes viviam aqui na Lua, depois os expulsamos para Saturno e Plutão. Mas, quando fizeram o pacto com os muitos chefes e governantes de sua sociedade, precipitaram-se na terra. Quando teve uma grande chuva de meteoros. Então, agora vivem entre vocês.

    — E, como podemos reconhecê-los, se vivem entre nós?

    — São os seres lagartos, mas se disfarçam com trajes humanos. Por tanto, seus trajes se alimentam de sangue, e são sensíveis a luz do sol. Por isso, procuram andar mais a noite, e poucas vezes a luz do dia. E, para resistir a luz diurna, precisam beber inúmeros litros de sangue humano fresco e vital. Só assim, os trajes resistem por mais tempo. Porém, alguns deles se tornaram híbridos, cruzando com a sua espécie. E são metades humanos e ‘reptilianos’ como alguns de vocês qualificam. Mas, mesmo assim, precisam de sangue humano para viver. E, como vampiros modernos, eles criaram os bancos de sangue, espalhados por todo mundo. Onde vocês creem estar doando sangue para pacientes hospitalizados, mas apenas 2% desse sangue vai para esses pacientes que necessitam, o resto é comercializado entre eles.

    — E por que vocês não nos alertam sobre isso?

    — Não podemos interferir. Foram vocês que atraíram eles. Suas escolhas. Seus livres-arbítrios.

    — Como assim, nossas escolhas?

    — Por acaso, você não leu a parábola de Adão e Eva?

    — Mas, isso é apenas um mito!

    — Não é apenas um mito. É uma metáfora da realidade, representado em sua espécie dividida entre macho e fêmea. Um código, para os sábios decifrarem.

    — E, por que não nos contam a verdade diretamente, e só nos dão metáforas?

    — Veja o que vocês fizeram com a verdade… ridicularizaram. Enviamos muitos para lhes dizer a verdade. Muitos de nós nascemos como avatares para lhes falarem, e veja o que nos fizeram? Nos mataram, assassinaram, minimizaram. E, mesmo nascendo entre vocês como humanos, ao longo do tempo nos transformaram em engodo e mito.

    — Mas, isso foi em tempos de muita ignorância. Hoje temos tecnologias para registrar e comprovar.

    — Tempos de muita ignorância… saiba que não existe tempo onde a ignorância é mais forte e abrangente do que esse em que vocês vivem. Suas redes de informação, academias e filosofias são lotadas de teorias e não de práticas. Vocês não experimentam mais. Não observam mais… só emulam. E agora que mesclaram a realidade e a fantasia, você acha que nos ouviram? Seremos ridicularizados e banalizados mais uma vez… por isso, agora agimos em oculto sigilo. E falamos na linguagem que vocês não podem deturpar, que são as parábolas e metáforas. Poesias de mistérios místicos e ocultos, que lhes encantam, e fazem pensar. Até serem assimiladas por corações puros, lapidados e lavados que nascem entre vocês.

    Ao ouvir aquelas palavras, o mundo parou em mim. E, lágrimas rolaram do meu rosto.

    — Ernesto! Ernesto! ¡Despierta hombre!

    — Ahh! ¿Qué?

    — ¿Qué haces aquí acampado en el campo de cebada güevón?

    — No lo sé … De repente tuve un sueño confuso. No me acuerdo.

    — ¡Vamos! Es tiempo de cosecha. Creo que perdimos una buena cantidad de grano. Bueno, creo que hubo un torbellino esa noche que aplastó los tallos fértiles.­
  • 1- Aidan - TEOMAKIA

    Seis anos atrás ele apareceu na porta da nossa casa. Lembro-me que naquela época já faziam alguns anos que minha mãe estava casada com Antonino, na época em que ele já maltratava ela. Eu tinha 10 anos e, como não tinha muitas companhias, vivia brincando de imaginar histórias nas estradas e nos campos próximos de casa. Sempre sonhei alto, e até falava em voz alta quando não tinha ninguém por perto. Imaginava histórias de príncipes e princesas, como se eu fosse uma. Mesmo sendo menina e nova, Antonino já me mandava fazer trabalhos como se eu fosse um rapaz. Eu buscava lenha, conduzia as vacas para o curral antes do amanhecer e para o pasto depois da ordenha, carpia e arava a roça e dava milho para as aves. Além disso, ele me ensinava a ordenhar e a cortar lenha. Era muito exaustivo, tomava a maior parte do meu dia e me deixava com calos nas mãos e dores pelas pernas e costas. Dentro de casa, minha mãe fazia de tudo, lavava roupas no açude, cozinhava, limpava, arrumava e também não tinha tempo livre.

    Somente meu padrasto, por ser dono da chácara, ficava tranquilo e com tempo de sobra. Quando não estava bebendo e jogando cartas num bar na vila, estava na rede, entre as árvores do quintal, mascando fumo de corda. Por vezes, especialmente quando virava a noite fora, chegava em casa no meio da tarde, completamente bêbado e xingando muito a nós duas. Cansei de prometer a mim mesma que um dia nós iríamos sair de lá, ter nossa própria terra e viver felizes. Não que trabalhar fosse o problema, mas as duas trabalhar por três enquanto Antonino, saudável como um cavalo e largo como um boi, vivia as custas do esforço de uma mulher e uma criança, não parecia ser muito justo.

    Claro que não era assim tão simples. Comprar um pedaço de terra era caro, além de muito difícil. Para ganhar uma, dependia de um título de nobreza, coisa que só reis ou o Imperador podiam dar, ao que eu sabia. A opção seria morar na cidade, mas mesmo isso seria muito complicado. Uma casa na cidade também era cara de comprar e difícil de alugar. E eu não fazia ideia do que fazer numa cidade. Precisaríamos trabalhar por dinheiro, e tudo que sabíamos fazer eram serviços de casa, plantar e cuidar de animais. Fora que, embora eu não soubesse na época, quem chegava na cidade sem posses acabava vivendo uma vida muito mais difícil do que no campo, podendo passar fome ou adoecer com muito mais frequência do que na roça. Minha mãe sempre dizia que, na verdade, elas tinham sorte de ter o Antonino. Eu nunca aceitei isso. E foi nessa época que um rapaz misterioso apareceu na porta de nossa casa.

    Numa daquelas noites em que o Antonino desaparecia, eu tinha acordado antes do nascer do sol para tocar as vacas para dentro do curral. Quando percebi que ele não tinha voltado quase voltei para a cama, mas senti algo diferente lá fora. Tive uma sensação de que deveria abrir a porta para ver, de que era algo ou alguém quente, muito convidativo naquela manhã tão fria de inverno. É, eu sei que é estranho sentir que há alguém quente mesmo sem sentir calor e estando longe, mas era esse sentimento vago que eu tive naquele dia.

    Ao abrir a porta vi, através da névoa e dos primeiros raios de sol, um cavalo preto muito bonito, daqueles dos desertos do leste, muito grande e muito forte. Ele estava vindo em direção à casa, num trote lento e pesado. Quando foi se aproximando eu pude perceber que tinha um homem desacordado no lombo. O homem era jovem, estava bem vestido e não parecia ferido.

    Assim que o cavalo chegou bem perto de mim, parou. Ele deu um relincho baixo e o homem acordou. Eu não podia acreditar que ele estava simplesmente dormindo sobre um cavalo trotando. Mas estava. O rapaz me olhou, pestanejou por alguns segundos e sorriu. Que olhos diferentes! As íris dos olhos dele eram de um vermelho tão profundamente brilhante! Tinha cabelos longos, barba por fazer e parecia ter uns vinte anos. Ele, após alguns longos segundos, finalmente começou a falar.
    - Bom dia, pequena. Como'stai? Seus pais estão? - disse com uma voz grossa e rouca, provavelmente pelo sono. Esse "como'stai" era estranho. Nunca tinha ouvido falar, mas parecia significar "como está".
    - Bom dia, senhor. Bem. Só minha mãe está agora. Quer algo? Quem é voc... o senhor? - tentei falar da forma mais educada que sabia. O jeito dele falar era muito claro, com as palavras completas, mesmo com um sotaque um pouco diferente. Será que era um nobre? Príncipe não era, já que o cavalo era preto e ele era moreno. Mas, pensando bem, eu nunca tinha visto um príncipe fora dos sonhos acordada.
    - Chamo-me Aidan. A Quem pertence esta propriedade? Ou melhor, poderia chamar tua mãe?

    Resumindo, chamei e eles conversaram por mais ou menos uma hora. Oferecemos café, queijo e cuscuz com manteiga. Ele aceitou. Não conhecia cuscuz, mas disse que gostou muito. Apesar disso, comeu bem pouco. Sobre a conversa, ele perguntou sobre o Antonino, sobre o casamento da minha mãe e sobre como ele nos tratava. Perguntou muitas coisas, sobre nossas vidas, como vivíamos antes e sobre as coisas que gostávamos de fazer. Minha mãe não quis dizer nada sobre os maus tratos e nem sobre meu padrasto ser um preguiçoso. E por incrível que pareça, ele parecia bastante interessado em tudo que dizíamos. Quando falava dele, contava sobre a vida na cidade e sobre a infância. Contou que perdeu o pai ainda jovem, que trabalhava bastante desde muito jovem, por que o pai não gostava da ideia de ter escravos, e a mãe acabou seguindo pelo mesmo caminho. Parecia ser uma pessoa muito justa e boa. E também falou que queria aprender a fazer cuscuz. Depois disso, ao saber que o Antonino provavelmente não chegaria tão cedo, se ofereceu para ordenhar as vacas e buscar e cortar lenha. Como retribuição, queria minha companhia. Aceitamos.

    Quando estávamos no curral e depois na mata coletando lenha, ele me perguntou de novo sobre todas aquelas coisas. Longe de minha mãe eu falei sobre as coisas que ela não tinha falado. Porém, agora Aidan não mostrava mais aquela cara de interessado. Fazia todos os trabalhos com o rosto imóvel, parecendo não ter nenhuma impressão do que eu dizia, a não ser quando falei das agressões, quando ele travou por um segundo. Bom, depois eu percebi que esse era só o jeito dele mesmo. Que por dentro ele reagia. E aquela sensação calorosa continuava firme e forte. Depois de tudo falado, uma coisa que falamos não saiu mais da minha cabeça:
    - Mereces mais. As duas merecem, sim, entretanto tu... tu tens tudo para um dia ser quem sou. Sou um Dragão do Império¹.
    - Um Dragão??? - eu tinha certeza de que não conseguia esconder minha surpresa. Meus olhos certamente estavam saltados. Ele riu disso. - Mas os Dragões não são apenas homens nobres?
    - Sim. Eu sou um homem e sou barão².
    - É. Mas eu sou mulher, cabocla e plebeia. Eles não me aceitariam nunca! - não sabia quem exatamente seriam "eles", mas tinha certeza de que não aceitariam.
    - Sim, eu sei. - o sorriso dele mudou. Parecia estar se divertindo com aquilo. - Mais um excelente motivo. Eu tenho só mais uma pergunta, mas essa é sobre sua mãe. - voltou ao tom sério. - Ela ama o senhor Antonino? Ela deseja continuar vivendo com ele?

    Nessa hora eu exitei. Eu não tinha certeza, mas achava que ela não o amava mais. Ele era arrogante, muitas vezes cruel e violento. Eu queria muito dizer pro Aidan que nós só queríamos ser livres, mas o que ele podia fazer? Barão era um título mais baixo, não tinha como fazer nada por nós. Mas um Dragão do Império com certeza tinha contato com nobres maiores. Antes que eu pudesse responder, ele continuou.
    - Entendi. Acho que ele está perto de chegar. Vamos recebê-lo em casa.

    Não entendi como ele percebeu, mas realmente Antonino estava chegando no exato momento que nós voltamos para frente de casa. Minha mãe, que estava lá fora, ficou branca como papel. O homem veio atacado, de cara feia, como se fosse agredir alguém. E eu percebi que ele ia agredir o barão. Aidan, por outro lado, estava com uma postura dócil, de pé perto da porta, com um sorriso convidativo no rosto.
    - Seja bem-vindo, senhor Antonino. Como'stai? É um prazer conhecê-lo!
    - O que faz na minha casa, maldito? - meu padrasto era um palmo mais alto do que o rapaz, e tinha mais que o dobro da largura, a maior parte disso em músculos, mas também era um tanto gordo. - Não te conheço. Suma ou eu te mato.

    O sorriso continuou no rosto do Dragão. Ele se despediu de nós duas, parecendo ignorar Antonino. Estávamos assustadas. Até que se virou, deu três passos até ele, colocou a mão em seu ombro e disse, ainda de maneira educada:
    - Sou Aidan, Dragão Imperial e Catedrático³ do Fogo. Sabes por que um homem é mais forte que uma mulher? Para protegê-la. Pois bem. Se eu descobrir que o senhor agrediu fisicamente uma das duas eu voltarei, o levarei a um passeio atado ao meu cavalo, o arrastarei por muitas léguas nas estradas do nosso Império, até o Paço Imperial onde, caso chegue vivo, será julgado e condenado a morte. Eu mesmo cortarei sua cabeça com um serrote. Tenha um excelente dia, senhor Antonino!

    Sem ter retirado o sorriso do rosto em momento algum, o Dragão montou seu cavalo e foi embora. Desde o momento que ouviu o nome de Aidan, Antonino mudou o semblante, parecia temeroso. Depois disso, sem falar nada e com a cabeça baixa, ele entrou e foi direto para o quarto, onde ficou por horas trancado. Daquele dia em diante, por muitos meses, ele não mais nos tratou mal.Por alguns anos eu não pude compreender o terror que meu padrasto viveu naquele dia.

    ¹ Dragões do Império: a ordem de elite, guarda pessoal da família imperial em tempos de paz, unidade de operações especiais em tempo de guerra. Tem um número limitado de indivíduos, cavaleiros cuja lenda diz terem poderes sobre-humanos.

    ² Barão: título mais baixo da nobreza do Imperio. Tem direito a uma terra e alguns escravos.

    ³ Catedrático: detentor de uma cátedra (cadeira), neste caso, uma das quatro lideranças do exército imperial. Seria o mesmo que um general.

  • 140 batimentos por minuto

    Minhas mãos aos montes transpiram
    Meu corpo trêmulo agora busca por uma calmaria
    Minhas narinas sem função já não respiram
    Dormir? outrora poderia

    Quem dera fosse tudo isso adrenalina
    Quem sabe apenas animação genuína
    Bateram-se três da madruga
    E essa energia perseguia sem fuga
    Profissional assassina

    Aquelas palavras que não foram ditas
    Não foram ditas pois o peito travou
    Aquelas promessas tão bonitas
    Não foram cumpridas porque o racional não deixou
    Mil e uma coisas lindas
    Que o vento levou

    E por falar em mil que nem sequer posso citar
    Que tal falar dos mil pensamentos diarios
    Só pra começar?
    Pensamentos de todas as ordens, e são vários
    Nessa eterna máquina de ponderar
    Pondera tanto que as vezes não da nem pra controlar
    Pelo amor, onde fica o botão de desligar?

    Porque não basta apenas nessa vida ponderar
    Nem tudo se resume a raciocinar
    Quero por um momento parar de pensar
    Sem ter que estar ligado ou ter de me ligar
    Quero apenas vivenciar
  • 2- Sim (Roupas) - TEOMAKIA

    Queria ter tido tempo de se vestir melhor, mas nesse dia não teve. Fazia anos que ele a tinha visto sem nenhuma maquiagem ou em roupas tão simples. Dessa vez, por ter acordado tarde, vestiu um robe sobre o pijama. Escolheu o robe vinho, já que ele parecia gostar dessa cor. Apesar de serem bem lisos, amarrou os cabelos, pois não teve tempo de penteá-los. Maria tinha crescido rapidamente nos últimos meses, além de ter tomado algum corpo. Os 14 anos de idade lhe fizeram bem. E por isso mesmo preferiria estar bem vestida. Ele, por outro lado, que já era um homem feito desde que o havia conhecido, agora parecia ser mais homem ainda. Ombros largos, braços fortes... e que belas pernas! Não queria pensar naquilo, mas os pensamentos vinham a sua mente sem ser convidados. Mas de longe, a marca registrada dele era o olhar. Olhos vermelhos sangue, únicos no mundo.

    O próprio sobrado, uma casa de dois andares a poucas ruas do Palácio Imperial, fora uma cortesia dele. Desde que Aidan ficou sabendo que o padrasto de Maria tinha voltado a agredir sua mãe, ele agiu imediatamente. Assim que as transferiu para sua casa na capital, Antonino nunca mais foi visto por elas. O palpite da menina era que o Dragão do Império havia cumprido com sua antiga promessa. Ele mesmo se recusava a falar sobre isso. Talvez fosse melhor assim, já que sua mãe ainda poderia nutrir sentimentos pelo homem.

    De qualquer forma, a vida das duas mudou drasticamente para melhor. Haviam três empregados, sendo um mordomo, uma governanta e uma cozinheira, ambos muito amáveis e gentis. Até mesmo uma tutora havia sido mandada a casa três dias na semana, para ensiná-las leitura, escrita, matemática básica e todas as etiquetas possíveis. Aidan dizia que não bastaria que elas se adaptassem a viver na capital, elas deveriam estar aptas a viver na própria corte, embora ao longo de todo aquele tempo elas não tenham ido nenhuma vez até o Palácio. Eram tutoradas em conhecimentos básicos e bons modos. Aprendiam a se vestir, se portar, como comer em público e até mesmo em dança. Foram dois anos de um frutífero aprendizado. Maria adorava dançar, e sonhava que um dia dançaria com Aidan na corte.

    O Barão Aidan estava bem vestido como sempre, muito elegante e bonito. Havia deixado os cabelos crescerem um pouco, tinha a barba por fazer emoldurando um rosto quadrado e másculo. As pernas da menina deram uma leve bambeada. Seria a vergonha do ano rolar escada abaixo na presença dele. O homem estava maior. Agora ele certamente tinha mais de um metro e oitenta, sim, mas o que mais impressionava era que agora não era mais o esguio rapaz da ultima vez. Ele agora tinha porte. De frente para ele, Ana Rosa chorava. Maria percebeu isso assim que desceu as escadas. Não estava chorando na hora, mas os olhos marejados e o nariz vermelho não enganavam ninguém. Era incapaz de disfarçar isso. Aidan parecia a estar confortando, sentado de frente para sua mãe, com um ar de ternura no olhar e um meio sorriso. E então desviou o olhar para a filha. Sua expressão mudou repentinamente. Parecia estar trazendo novidades boas.

    - Pequena! - aquilo derrubou toda a expectativa que ela tinha de parecer uma mulher para ele. - Como'stai? Venho oferecer-te um convite. Caso aceite, iremos ao Palácio Imperial. Hoje haverá a apresentação dos novos pupilos dos Dragões do Império. Tenho certeza de que lhe agradará conhecê-los.
    - Estou bem, Senhor Aidan. E o senhor? Eu creio que eu vá gostar. - disse Maria, tentando em vão esconder a empolgação. - Quando será?
    - Será hoje ao cair da noite. Passarei por aqui antes do pôr do Sol para levá-las. Maria, quero que vista-se passando mais força do que fragilidade, entende o que quero dizer?
    - Não entendi. De toda forma eu não sei como faria isso. Mas, por que motivo eu deveria me vestir dessa forma? - Mais uma dele. Será que era para que fossem parecendo um casal? Aidan se vestia de maneira imponente sempre, tanto com farda militar quanto usando sobretudo.
    - Talvez encontremos alguma resistência por lá. Bem sei que tens alguma noção de como se porta a nobreza, não é? Mas não preocupe-se. Mandarei a roupa com antecedência. De toda forma, não use muita maquiagem. Ou use... não sei... podes escolher essa parte. Tenho até vontade de pedir-te para que vá vestida como uma princesa, mas não precisamos colecionar ainda mais problemas do que já teremos a princípio. - problemas? A forma como ele falava dava a entender que Maria seria testada ou sabatinada de alguma maneira. Aquilo a preocupou, mas tentou não pensar nisso.

    Depois de conversarem bem pouco, Aidan infelizmente foi embora cedo. Reforçou que mandaria as roupas e sugeriu que Maria aguardasse elas para escolher a maquiagem, caso estivesse em dúvida. Quando chegaram, percebeu que ele estava falando sério: a roupas eram quase masculinas. Uma casaca preta de mangas longas, uma camisa feminina em um tom de vermelho tão profundo quanto os olhos dele, um par de calças pretas e outro de botas militares. Na verdade, exceto por serem modeladas para um corpo como o dela, aquelas roupas realmente pareciam as dele. Será mesmo que ele não a via como uma mulher? Bem, não tinha como questionar o Barão. Perguntaria quando chegasse. Curiosamente, ele acertou as medidas dela em cheio: nada folgado, levemente justo, o traje valorizava cada curva dela. Talvez ele reparasse... Maria não queria pensar nisso, mas todas essas coincidências a deixava mais animada com a ideia de que ele prestava atenção nela.

    Maria tentou puxar a língua da mãe para saber do que se tratava. Ana Rosa certamente sabia de algo, já que estava chorando tanto. Mas ela não quis dizer, alegando que foi o que Aidan a fez prometer. Limitou-se a dizer que, mesmo ela não gostando nem um pouco, a filha provavelmente adoraria.


    Quando a charrete chegou, Aidan estava bem mais sério. Parecia preocupado com algo. Mal olhou para as duas. Até que, de rompante, olhou para Maria novamente. Toda a seriedade se desfez numa cara de travesso.
    - Eu escolhi muito bem mesmo. Como esperado de mim.
    - As roupas me serviram bem, Barão. - Maria estava subitamente tímida.
    - Ah sim, as roupas. Eu também as escolhi bem. - e após essa demonstração gratuita de safadeza, voltou a sua introversão inicial. Maria ficou especialmente desconcertada e devia estar vermelha como um tomate. Mas a satisfez saber que ele estava falando dela. A mãe apenas conteve o riso. Pelo menos aquilo tinha distraído ela. Ana Rosa não quis dizer a ela qual o motivo do choro mais cedo, mas passou o dia toda diferente, ora triste, ora dispersa. Enfim, mesmo que ninguém perguntasse, após dez longos minutos que pareciam uma eternidade naquele silêncio, Aidan finalmente disse do que se tratava.
    - Maria, eu a escolhi como minha sucessora. É uma apresentação dos pupilos, e você será a minha. - aquilo a assustou. A menina travou, de queixo caído.

    Maria teve uma explosão de vários sentimentos naquela hora. Estava feliz por ser escolhida, profundamente surpresa por jamais imaginar que poderia ser, ansiosa por estar indo para um evento tão importante, nervosa por saber que não será nada fácil convencer o Império inteiro de que pode ser uma Catedrática... e, claro, um pouco desapontada, afinal, ela queria muito dançar com Aidan. Ou mesmo ser pedida em noivado. O que? Como assim? De onde saiu isso? Agora sim, Maria estava desconcertada, envergonhada por ter pensado nisso, começou a suar frio. Claro, apenas por um segundo, até perceber que ninguém saberia sobre esse pensamento. Mas sabia que agora não conseguia mais tirar da cabeça esse novo sonho. A puberdade é realmente confusa. Finalmente se recompôs:
    - Mas... não são somente homens que podem ser Dragões? Quero dizer, homens, nobres, com ascendência e tudo mais? - tinha aprendido sobre aquilo tudo com a tutora ao longo dos últimos anos.
    - Sim sim, isso... e tudo mais. - respondeu com desdém. - Essas são as regras. Mas o princípio, a ideia central, o verdadeiro cerne da questão, é que eu escolha alguém de confiança, a melhor pessoa possível para me substituir. Mas, sim, todas essas regras são seguidas à risca ao longo de gerações.
    - E então. Vai descumprir as regras? Por que? - agora ela estava mais confusa do que nunca.
    - Eu sigo princípios, não regras. Entenda, as regras podem voltar-se contra você, podem ser injustas. Os princípios não. Siga princípios e será bem-sucedida.
    - Barão, eu nem sei o que dizer... - Maria realmente estava confusa. Era uma missão complicada. Ela não gostava nem um pouco de conflitos. Também odiava pressão. Mas não conseguia negar um pedido do Aidan. Por que ele não deu a ela tempo pra pensar?
    - Diga apenas que sim. Sempre diga sim para mim, pequena! - Aidan fez aquela cara... como negar algo para aquela expressão? Parecia um menino pedindo carinhosamente. E esse "sempre diga sim para mim" despertou sentimentos. Voltou a pensar no tal noivado. Aidan estava começando a mexer com o coração de Maria. Ela não tinha outra escolha. Aceitar significava ficar com ele.
    - Sim, sempre sim! - se viu dizendo. Não tinha volta. Que viessem as lutas. Maria lutará por Aidan sempre.

  • 3- Catedráticos - TEOMAKIA

    O Palácio Imperial era muito bonito, em estilo barroco, de cor clara. Tinha dezenas de janelas e muitas portas. Entraram pela principal. Havia muita gente entrando e saindo do Palácio, tanto militares quanto civis, porém parecia que a grande maioria era nobre, pois se vestiam muito bem. Assim que entraram, havia um salão muito comprido e largo, com uma decoração muito rica e bonita. Havia muita alusão a santos nos vitrais, muitos mosaicos em cores muito vivas, algumas armaduras ao lado das grandes janelas e um teto abobadado com uma pintura tão linda que era difícil desviar o olhar: uma miríade de anjos cantando em nuvens que circundam uma forte luz central sobre um céu azul. A frente, sobre um estrado, estavam duas cadeiras douradas ornamentadas com estofados vermelhos. Estavam vazias. Ao lado delas, de ambos os lados, haviam mais algumas. Abaixo do estrado estavam perfiladas muitas dezenas de jovens, claramente homens nobres, com idades variando entre doze e dezoito anos.

    Aidan pediu para que Maria fosse para perto deles e aguardasse. Assim que ela chegou ao local, um burburinho se iniciou entre eles, provavelmente por causa dela. Tentou conter o nervosismo de estar ali no meio de todos. A frente dela, por todo o salão, centenas de pessoas, em sua maioria homens, muitos deles militares, discutiam calorosamente. Logo, cada vez mais deles olhavam para ela, o que a deixou tremendo de nervoso. Então, três militares jovens, que estavam caminhando e cumprimentando cada um dos jovens que ali estavam, chegaram até ela.

    - O que faz aqui, garotinha? - disse o primeiro, um homem mais alto e mais largo que Aidan, com queixo partido e cabelos castanhos abaixo dos ombros. Seus olhos eram verdes claros, com um brilho profundo.

    - E-eu... eu fui indicada... - gaguejou Maria, tentando parecer mais calma.

    - E quem é o seu mestre? - o segundo indagou, um homem loiro, com olhos azuis lindos. Parecia ser o mais jovem deles, e certamente o mais bonito.

    - Não é óbvio? - o terceiro interrompeu a conversa antes que Maria pudesse responder. Era um rapaz de estatura média, mais esguio e de cabelos estranhamente mais claros, quase grisalhos. Olhos dourados. Soltou uma gargalhada alta e continuou - Ele sempre me surpreende. Essa eu quero ver.

    Os outros dois lançaram a ele olhares de reprovação. Seguiram para o próximo garoto. Parecia óbvio, esses eram os outros Catedráticos. Maria começou a se sentir frustrada. Será que Aidan estava brincando com ela? Ao procurar na multidão, não conseguiu vê-lo.

    Quanto mais tempo passava ali, mais raiva nutria pelo Barão. Maria não admitiria ser tratada como um brinquedo. Por mais que ele fosse seu mecenas¹, isso não se faz. Pouco a pouco a multidão começou a se aquietar e tomar seus lugares. Em pouco tempo, somente os militares permaneceram no salão baixo, enquanto as demais pessoas subiram as escadas para os mezaninos. Maria sentia todos os olhares postos sobre si, o que aumentava aquele sentimento negativo. Enfim, o silêncio começou a reinar ali e iniciou-se uma discussão mais pontual.

    - O que significa isto? - bradou um homem, um tanto mais velho, já grisalho e com entradas proeminentes, apontando em direção a ela. A vergonha a consumia.

    - Se está referindo-se a minha aluna, é melhor começar a utilizar os pronomes de tratamento adequados. - Aidan, com uma voz mais grossa do que o normal, finalmente apareceu no meio daquela multidão de homens e tomou a frente. Um calafrio subiu pela espinha de Maria. - Minha sucessora deve ser tratada tal como o que ela é: a futura Catedrática do Fogo!

    - Afronta a todos nós com esse disparate! - outro homem falou, e parecia furioso. Um burburinho voltou a se iniciar. - Sabe quais são as regras, Barão! Não iremos permitir.

    - E farão o quê? - Aidan, em tom de desafio, questionou. - A unica regra que conheço é que eu escolho meu sucessor e os senhores aceitam calados. Eu é que não permitirei ingerências sobre as prerrogativas que me cabem. Lembre-se de que está falando com um Catedrático, Dragão.

    Os outros três Catedráticos apenas observavam calados. O de cabelos grisalhos segurava o riso. Aidan a defendia como um leão. Não, não era uma brincadeira, ele estava falando sério. - Tudo isso é pelo fato de ter sido desprezado? - voltou a indagar o primeiro, agora em tom de ironia - Ora, vamos garoto! Já te aceitamos, mesmo não sendo um alto nobre. Não há necessidade de sentir-se inferior. - Eu nunca me imaginei inferior a nenhum dos senhores. São fracos, não possuem fibra, seriam incapazes de me suceder. A unica coisa que consigo sentir pelos senhores, quando me lembro que existem, é pena. E uma certa compaixão também, que é o que os permite continuar essa conversa desnecessária. - Quem faz muitos inimigos não sabe de vem o punhal... - um terceiro homem recitou um ditado antigo. - Cuidado, jovem Barão! - Cuidado Luciano, cada um segue suas tradições. Os senhores seguem o costume de nomear sucessores homens e nobres. Eu sigo o antigo costume de não deixar que um homem que me ameace veja o próximo nascer do Sol. Espero que não seja o caso. - a voz de Aidan estava fria. Por um momento, Maria conseguiu sentir o ar muito mais denso. Um silêncio acompanhado de um clima pesado se abateu sobre o local.

    De repente o clima mudou. Cada um dos Dragões caiu sobre um dos joelhos e abaixaram suas cabeças, inclusive Aidan e os mais exaltados. Então, Maria e os demais aprendizes se viraram e logo começaram a fazer o mesmo. Era o Imperador Tiago I, que estava de pé a frente de uma das cadeiras do centro.

    - Podem se levantar. O que está acon... - assim que colocou os olhos sobre Maria, ele pareceu entender do que se tratava. Um leve sorriso de canto de boca tomou seu rosto. - certo. Entendi. Aidan, por favor, explique.

    - Sua Majestade Imperial, obrigado por me dar a palavra. Eu escolhi meu sucessor, mas os demais não aceitam.

    - Imperador, isso é um absurdo. Visivelmente ele escolheu uma mulher, plebéia e mestiça. - atravessou na frente da conversa o primeiro homem que havia reclamado. Aidan agora estava furioso:

    - Se o problema é ser mestiça, saiba que isso em nada influi na índole ou na capacidade dela. Se o problema é ser mulher, saiba que não existe a menor possibilidade de um aprendiz meu ser inferior a um dos vossos. Quanto a ser plebeia, foi o exato motivo pelo qual a escolhi. Se questionar minhas decisões novamente, considere-se desafiado para um combate.

    - Chega! - o Imperador vociferou. - quero esclarecer algumas coisas aqui hoje. Em primeiro lugar, não admito ameaças aqui. Em segundo lugar, não falem, a menos que eu lhes tenha dado a palavra. Essas duas regras garantem que possamos conversar civilizadamente. Em terceiro lugar, não há regras para a sucessão. A escolha é feita por cada um dos Dragões, como lhes parecer melhor. - voltou os olhos para Aidan - Me diga, sua escolha é essa mesmo? A garota atende a seus critérios?

    - Sim, Majestade, Maria é como eu. Viveu trabalhando arduamente desde a infância, sem pai e sem escravos ou servos. Tem uma boa índole, é humilde e inteligente. Ela tem o que é necessário para ser melhor do que eu. E, obviamente, muito melhor do que qualquer um dos presentes aqui. - Aidan falava com convicção. Maria chegou a marejar os olhos ao se lembrar de tudo o que passou e ainda mais por ouvir aquelas palavras do homem que ela mais admirava. Não pôde evitar um leve sorriso de satisfação.

    - Muito bem. Está encerrado o caso. Aceitem, é uma ordem. Caso desafiem meu pupilo, não terei como contê-lo. - terminou o Tiago I.

    "Meu pupilo"? Maria estava perplexa. Aidan havia sido pupilo do próprio Imperador? Aquilo era chocante. Ainda mais por saber como as regras do Império funcionavam. Havia pouco tempo, ela tinha estudado sobre isso. O Império era composto por diversos territórios, entre eles as marcas, os ducados, os condados e os reinos. A princípio, os quatro reinos se unificaram e formaram o Império. Posteriormente, novos territórios foram agregados, seja por meio de conquistas militares ou de negociações com chefes de Estado. Esses novos territórios ganharam o status de marcas. As marcas eram territórios periféricos, que faziam fronteira com reinos bárbaros. Quando o Império continuou se expandindo, algumas marcas deixaram de fazer fronteira com outros reinos, e então passaram a ser condados e ducados, dependendo do prestígio que tinham junto ao Imperador.

    Os marqueses, condes, duques, reis e o Imperador passavam seus títulos a herdeiros aparentes. Entre os reis, o herdeiro aparente era, preferencialmente, o filho mais velho do sexo masculino. Caso ele não tivesse filhos homens, a sucessão passava para os irmãos, isto é, os filhos do pai dele, seguindo a mesma regra de primogenitura² e de masculinidade. Outros nobres seguiam uma regra parecida, tendo como diferença que podiam passar o título para mulheres. Para o Imperador, a regra era semelhante, mas como não era um título essencialmente hereditário, o herdeiro aparente podia ser um apadrinhado, um pupilo ou alguém próximo. Seguindo essa lógica, a menos que Dom Tiago tivesse filhos ou outros apadrinhados, Aidan podia muito bem ser o próximo Imperador. De qualquer forma, a aclamação deveria ser feita por um conselho de nobres. Isso talvez dificultasse as coisas para o Barão.

    ¹ mecenas: financiador, patrocinador. Pessoa que investe em algo ou alguém, em geral visando retorno.

  • 4 Elementos

    Fogo demais, queima e consome rápido
    Muita Terra, endurece
    Muito Ar, aliena
    Muita Água, entristece.


    Poema do meu primeiro livro de poesias, Átomo, lançado em dezembro de 2018, com prefácio de Rafael Cortez e apresentação de Thomas Pescarini e disponível em formato físico e ebook na Amazon.
  • A Bruxa da Arruda e o Sagrado de Tudo

    A manhã estava carinhosamente refrescante em um dia de verão calmo, que precedia o calor do seco e ensolarado tempo impermanente. Acordou às cinco horas da manhã como de costume, e já não tinha mais a necessidade do despertador do seu smartphone para tal feito. Simplesmente os olhos automaticamente em uma só expressão se abriram, o corpo em um só impulso na cama se sentou, e mergulhado nos seus pensamentos do que fazer com o novo dia de quarentena que auto se apresentava, meditava… claro! Aqueles dias eram por demais incomuns, de um lado tinha o dia todo pela frente sem a rotina acinzentada do levantar, correr e trabalhar, e, por outro lado, teria que ser criativo ao esforço máximo, em táticas incomuns e altruístas para não deixar que o tédio com toda sua improdutividade o arrebatasse, sequestrando a sua proposital impulsionada momentânea e intencionada alegria.
    Essa intencional alegria era a Poderosa Presença do Sagrado em sua vida. E apenas se baseava, por incrível que pareça, as coisas e recordações mais simples e singelas da sua tenra infância. Principalmente as lembranças delicadas e afetuosas de sua bisa, a Bruxa da Arruda, D. Darluz. Pelo qual, todas as manhãs, dedicava em um cantinho do seu oratório (em culto aos antepassados) uma vela sentada em um pires repleto de azeite de oliva misturado a sal grosso e mel, um pote de água que diariamente derramava seu líquido em uma específica planta de Arruda (Ruta graveolens), trocando a água do recipiente todas as manhãs, além de oferendas de flores silvestres, como: Cenoura-brava (Daucus carota subsp. Maximus); Centaurea Nigra (Centaurea nigra subsp. rivularis); flor Leopardo (Belamcanda chinensis); flor de Laranjeira (Citrus × sinensis); flores de Onze-horas (Portulaca grandiflora) e Calêndulas (Calendula officinalis). Tudo isso para se manter em conexão permanente com o espírito de sua querida bisavó. Sendo esta, em vida, sua sacerdotisa. E em morte carnal sua guia espiritual. Pelo que lhe prometera em vida terrena, que ao desencarnar nunca o abandonaria e o vigiaria de cima. Dando-lhe inúmeros conselhos e severas instruções ritualísticas de como manter o contato espiritual com sua alma e coração depois de sua partida.
    Para a Bruxa da Arruda, sua bisa, tudo era Sagrado…
    E do Sagrado… e unicamente, pertencendo ao Sagrado!
    Tudo era vivo! E tinha em si um grande e puro significado.
    Tudo era mágico!
    Tudo era místico!
    Tudo era encantado!
    Tudo era rico!
    Sua constante alegria não se baseava em emotivos momentos.
    Era como o constante balançar das árvores que bailavam se animando, apenas, com o tocar dos ventos.
    O seu grande sorriso em sua face iluminada, transmitia a qualquer um que olhava um manancial inesgotável de pleno contentamento.
    As pessoas que iam ao seu encontro de amor se preenchiam, automaticamente renovando esse sublime sentimento.
    Sua bisa lhe dizia que o Sagrado é um estado a ser sustentado constantemente. Um estado de bons hábitos e boas disciplinas que você mesmo se coloca a praticar. Um estado de Amor, de estar amando e de se sentir amado a toda hora e em todo momento, independente das circunstâncias, posses, pessoas, relacionamentos e virtudes materiais ou espirituais. Um estado de simplicidade e humildade, e cumplicidade no serviço devocional, na prática da caridade e solidariedade. Vivendo em perfeita gratidão e sendo gentil não só com as pessoas, mas a tudo em que os nossos sentidos intentar, aplicar e perceber. Lhe dizia que o segredo para vivenciar o Sagrado na prática, estava na gratidão e valorização da vida em todas as suas formas, não diferenciando uma pepita de ouro de uma simples pedra do rio, um ser-humano de uma formiga, a mais iluminada estrela do céu noturno de um singelo grão de areia das praias do mar. E essa valorização é ver a beleza oculta no amago de todas as coisas, sua Energia Divina e Intenção Criativa. Dizia-lhe que para realização de tal feito era preciso se livrar das amarras da má educação de si mesmo, que degenerou os nossos sentidos na elaboração de conceitos e preconceitos, a partir das inúmeras errôneas percepções externas a nossa Linhagem Sagrada, deteriorando e adulterando o nosso pensar, o nosso sentir, o nosso olhar, o nosso ouvir e o nosso falar. E explicou-lhe, que devido a tudo isso, o porquê das manifestações artísticas, arquitetônicas, filosóficas e religiosas de hoje estarem tão feias, rudes, cinzentas, frias, quadradas, embaraçadas e amontoadas, repetitivas e sem coração.
    D. Darluz dizia que por nos desconectarmos das sabedorias dos nossos ancestrais, o nosso sentido do novo e a capacidade do espanto e da novidade assombrosa de olhar tudo de maneira nova, no sublime estado de encantamento e percepção de alerta alegria, se perdeu no mundo. Dizia que o mal das futuras gerações estava na comparação e associação de capturar as impressões, sem a capacidade madura de traduzi-las, sendo essa maneira uma errônea tentativa de interpretar o novo sem a compreensão do velho, desassociando as consequências presentes e futuras das ações passadas. Daí, como ensinava a Bruxa da Arruda, eis a importância de se cultuar os antepassados, pois, uma árvore não pode florir e gerar bons frutos sem o bom cuidado para com suas raízes.
    Voltando ao momento presente, e na cama em que se encontrava sentado, vira como era difícil traduzir a vivência de infância que tivera com sua bisa para o moderno, virtual, tecnológico e competitivo dias de hoje. Sabia que as redes sociais virtuais, ao contrário do que se pensava, alimentava mais as más ações do ego do que o conhecimento (pelo qual era a sua proposta inicial). E que esse contato virtual se tornou uma máquina alimentadora dos nossos mais animalescos instintos, provocando mediante as imagens, sons, cores e palavras as mais variadas sensações emocionais para a satisfação dos nossos mais carnais e individuais desejos de ter ou ser. Não medindo as consequências de um super ego (‘eu’ pluralizado), que busca sempre aquelas ilusórias sensações que lhe possam dar a tão almejada satisfação momentânea, em uma falsa privacidade de no ato de estar solitário cometermos as maiores torpezas, em que julgamos erroneamente não impactar o nosso mundo externo. Vira que a internet, ao contrário do que fora a sua proposta de unir as pessoas, se tornou um luxurioso baile de máscaras, em que as redes sociais eram essas enfeitadas e coloridas máscaras.
    Assim, contudo, preferia estar no seu jardim. Na companhia das lembranças de sua bisa, a Bruxa da Arruda, D. Darluz. Que o lembrava que o mundo ainda era envolvido por uma aura de Novidade Mística, Alegria Mágica e Amor Divino. E que só poderia vivenciar o Sagrado da Vida observando, compactuando, comungando e se relacionando com o Mundo Natural em toda sua essência ecológica. O seu pequeno jardim era totalmente dedicado ao Sagrado e a memória de sua bisavó. Ali… dedicando-se a colocar as mãos e os joelhos na terra, se sentia uma Pessoa Superior em toda sua humildade, dividindo-se entre o observador e o observado, conhecendo a si mesmo na observação dos pequenos seres vegetais, minerais e animais. Se perdendo em um mundo desconhecido de encanto e nostalgia, que o elevava e fazia distante das miseráveis catastróficas vivências de traumas e barbaridades da bestialidade e ignorância humana.
    Ao regar suas plantas em pleno final de tarde, se via quando pequeno sentado no colo de sua bisa em uma balança pendurada a um tronco da árvore de Tipuana (Tipuana tipu (Benth.) Kuntze), em que juntos no crepúsculo vespertino se divertiam olhando as inúmeras nuvens no céu a tomar formas inusitadas de rostos, silhuetas, animais e objetos. E sua bisa, também, instigava a sua imaginação a ver essas formas nas plantas, flores, objetos e coisas. Dizendo que as mensagens dos seres naturais (Elementais) vêm a nós nas formas que a nossa consciência pode reconhecer, por eles falarem uma linguagem desconhecida aos nossos sentidos e dimensão.
    E, lembrou-se das manhãs ensolaradas ao correr pelo terreno da Chácara Celeste (que na verdade era um pedaço do céu na terra) logo ao acordar, indo de encontro a sua querida bisa nos campos abertos, vendo-a colher flores para o seu ritualístico culto matinal. E chegando ofegante até ela, gritava: “Bisaaaaa!”. E D. Darluz respondia com a mesma intensidade: “Meu Miúdo!”. E ela o carregando, abraçava forte e o cobria de beijos, até ele dizer basta. E, D. Darluz lhe dizia: “Olha meu Miúdo, não existe nada neste mundo que é mais adorável que uma flor, nem nada mais essencial que uma árvore e planta, sem elas não conheceríamos o belo, não poderíamos respirar e nem comer, nem nos curar. E, ocultamente a esses benefícios que elas nos trazem ao nosso corpo de carne e seus sentidos, tem ainda a sua função mística, que é a mais relevante, algo divino em que as pessoas comuns e materialistas não têm a capacidade de ver. Uma força mágica e espiritual, eterna e imutável.”
    A Bruxa da Arruda sempre o alertara a valorizar todas as coisas… de uma simples pedra a um pequeno objeto. Como um brinquedo, um utensílio ou algo do tipo. Dizia que tudo tem um propósito e que nada é obra do acaso. Alertara que todas as coisas por serem criações foram pensadas e intencionadas a se manifestarem. Tudo tinha um espírito, mesmo as coisas inanimadas. Pois, sempre afirmará: “O que tem corpo, tem espírito. Tudo é vivo! Toda criação é fragmento do seu Criador, contendo em si uma determinada energia que por mais pequena e singular que seja, é viva em si mesma, presa e magneticamente sustentada nesse corpo, é consciente especificamente para executar tal função, e depois de executada por si só se decompõe e desaparece”. E afirmava que a evolução desses corpos inanimados tinha a ver com a evolução humana, de acordo com seu grau evolutivo. Assim, o inorgânico Elemental podia se manifestar numa pedra, numa mesa, em um relógio de pulso, nos objetos que mais amamos e desejamos, e ainda mais nos brinquedos das crianças, por serem carregados de sentimentos. E que por isso, para seus Rituais da Magia Elemental necessitava dos objetos e minerais… das pedras… das cascas de árvores… dos restos de corpos dos seres vivos e seus derivados, onde se continha ainda preservada a energia Elemental necessária para tal e específica magia.
    Assim, Maria da Piedade…, moradora e proprietária da Chácara Celeste, que se localizava em algum lugar escondido na região nordeste do Brasil…, a Bruxa da Arruda: agricultora, queijeira, azeiteira, parteira, rezadeira, curandeira, e feiticeira portuguesa…, de origem dos antigos povos celtas das terras europeias mediterrâneas da Península Ibérica…, apelidada como D. Darluz…, afirmava que quando nos damos conta da existência do Poder Criativo em tudo que existe ao nosso redor e no nosso viver, quando descobrimos que tudo tem coração e inteligência, que tudo é intenção, e que a toda intenção foi aplicada uma específica atenção, e que a tudo que damos atenção doamos uma determinada fração de nossa energia vital, que se torna um fragmento de vida em si, independente por si próprio e evolutiva em si mesma… Tudo se torna Divino! Tudo se torna Sagrado! A ordem da Grande Espiral do Eterno e Permanente Contínuo.
  • A conta

    Eu estou morrendo. Sei que todo mundo está, mas eu tenho enfisema pulmonar. Não consigo mais fumar e minha vida é um inferno por causa disso. Tenho que passar o dia na cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo. Nunca me importei muito com como seriam esses tempos, mas sabia que eles iam chegar. Você desenvolve uma certa consciência depois de passar 30 anos fumando dois maços de cigarro por dia. Sabia o que ia acontecer. Assim como quando aceitei ser governador, sabia no que estava me envolvendo. Quando disputei minha primeira eleição para vereador era porque eu queria me envolver. Não é só fazer política ou filantropia, é um estilo de vida. Tem haver com manter tudo como esta: bom para todo mundo. Nem de longe imaginei que as coisas poderiam se desenvolver desta forma. O que você tem que entender é que sempre fiz o que achei que era certo para manter o nosso estilo de vida. Eu tenho esposa, filhos, netas. Sempre achei que quando este dia chegasse seria o fim de um outro começo. Sei que isso não me absolve dos meus pecados, mas eu estou morrendo de enfisema pulmonar. E todo mundo que esta morrendo merece alguma compaixão. Porque todo mundo fez alguma coisa de bom para alguém um dia no vida, e quando se esta numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, é isso que tem que ser lembrado.

    Quando vi a Fernanda pela primeira vez ela estava começando o estágio na Assembleia Legislativa. Era uma jovem estudante de direito, linda. Os longos, e encaracolados, cabelos morenos, o olhar penetrante, as coxas grossas. O conjunto da obra era hipnotizador. Ninguém conseguia resistir aos seus encantos. Admito que quando convidei ela para assumir um cargo em meu gabinete eu já tinha tudo planejado. Sempre fui daqueles que não faz nada sem ter pensado em tudo. Ela não era a primeira, nem eu. Todo mundo faz assim. Acontece. Eu tenho esposa, filhos, netas. Quando ela aceitou o cargo ela sabia o que estava fazendo. Porque o cargo também incluía um apartamento no centro, com cartão de crédito e carro na garagem. Então, se você aceita tudo isso, você sabe que seu trabalho não será exatamente no escritório. E durante dois anos tudo foi uma maravilha. Nós nos víamos de duas a três vezes por semana. A vida pública exige que algumas coisas sejam realmente privadas. Eu não ia no apartamento dela para não ser visto. Nunca éramos vistos juntos. Se você usa uma aliança no dedo anelar esquerdo, e ocupa um cargo público, você não quer que as pessoas te vejam fazendo o que elas fazem. Elas votam em você exatamente porque elas acham que você não faz como elas fazem. Elas votam em você para poderem continuar fazendo o que elas acham que só elas fazem. Se todo mundo soubesse o que todo mundo fez e faz, o que seria desse mundo? E agora, que estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, agora isso vai ser importante?

    O que você tem que entender é que jamais imaginei que aquilo ia terminar como terminou. Eu tenho esposa, filhos, netas. Não teria feito o que fiz se não julgasse que havia extrema necessidade. Era muita coisa que estava em jogo. Todos os meus grandes feitos não podem ser ignorados por um incidente. Eu também construí escolas, creches, hospitais. Toda uma história não pode ser questionada por causa de uma estagiária num momento de devaneio. Não é porque estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, que estou contando tudo isso. É porque a imprensa vai fazer um escarcéu, vai supervalorizar tudo. Eu tenho esposa, filhos, netas. Não vão respeitar elas e elas não merecem isso. Não estou aqui pedindo absolvição, é só que vejam que fiz o que fiz porque precisava manter outras coisas, que eram boas para todos. Pode não ter sido a melhor escolha, mas era a única que eu tinha. Quando ela apareceu grávida, na casa da minha família, vociferando que eu era um monstro, ela mesmo não deu valor a tudo isso. Em tudo que eu representava, em tudo que eu era. Ela não me deu opções. A questão não é quem é a vítima, é como se reage as coisas. Ninguém é santo. O mundo é muito maior que uma pessoa só, e exitem os seus problemas e os do mundo, e perto dos do mundo, o seu sempre vai ser pequeno. Uma coisa que pode parecer pequena para você, pode ser grande para o mundo. Não era só a minha honra que ia ser atingida, era a honra de todo mundo.

    Quero deixar claro que antes de matar ela asfixiada, e incinerar o corpo numa pilha de pneus, tentei todos os outros meios ao meu alcance para evitar que as coisas terminassem dessa forma lastimável. Não foi fácil fazer o que fiz. Eu não queria. Eu chorei, pedi, implorei. Mas ela tinha vídeos, fotos, conversas. Eu poderia ter dado tudo que ela jamais imaginou ter. Hoje ela poderia estar vivendo bem em qualquer lugar que quisesse. Tentei garantir, com todas as palavras possíveis, que ela e a criança jamais passariam nenhum tipo de necessidade. Muito ao contrário, viveriam sem nunca terem que se preocupar com dinheiro. Teriam até direito a herança. Eu reconheceria o filho quando deixasse a vida pública. Mas ela queria causar um escândalo. Queria usar uma criança para acabar com tudo. O que ela queria era ver tudo que eu tinha construído destruído. Eu fiz o que qualquer um no meu lugar faria. Eu tive que matar ela asfixiada, e incinerar o corpo numa pilha de pneus, para garantir que tudo continuasse como estava, porque estava bom para todo mundo. Eu tenho esposa, filhos, netas, e estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo.
  • A festa

    Eu nunca fui de beber.
    Comecei há pouco tempo, evito ao máximo. Quando faço não me embebedo.
    Minha visão sobre isso torna o ser humano um idiota. Fazemos coisas que sabemos que podem nos matar. 
    Vejo um rapaz sair da festa cambaleando, e entrando no carro.
    Por sorte ele irá bater num poste sem machucar outras pessoas, morrerá sozinho, com a consciência limpa. Se tiver sorte.
    - Que coisa horrível de dizer Otto — Ela diz.
    Sorrio e bebo meu uísque.
    Não lembro como a conversa foi chegar naquele ponto. Ela gostava de falar.
    Um jeito tagarela.
    Havia a conhecido há umas duas festas anteriores. Numa sexta, ou quinta. Não me lembro.
    É sábado à noite, estou cansado, mas é dia de festa. Pessoas bebendo, se divertindo e esquecendo dos problemas da rotina corrida.
    Nessa casa há tantas pessoas. Todas conversavam e riam, algumas pulavam na piscina, outras espalhadas pelos cômodos do primeiro andar da casa. Uma bela casa. Ótima para festas.
    Havia todos os tipos de pessoas naquela casa, todas de diferentes classes sociais, diferentes etnias e raças. 
    Todas reunidas para conhecer pessoas novas, rever as velhas, socializar ou apenas conseguir uma transa.
    Ela estava sentada em uma cadeira verde junto de suas amigas, quando cheguei. Acenou e sorriu.
    Usava um maio vermelho com bolinhas brancas e uma toalha roxa envolta do pescoço, segura um copo de cerveja com a mão esquerda e gesticula com a mão direita enquanto fala, suas unhas estão com um esmalte vermelho sangue.
    Algo que sempre achei muito sexy.
    O seu cabelo preto esta preso num coque molhado que se desfaz a todo instante, ela me olha, continua rindo, mostra a língua e volta a conversar.
    Minutos depois, estamos parados encostados na parede próxima à porta de entrada. Porta de vidro, entrada para a cozinha.
    Não lembro seu nome.
    Mirela.
    Melissa.
    Milena.
    Todos as chamavam de “Mi”.
    “Mi” estuda direito, futura advogada, acredita que a justiça foi feita para proteger todos. Pergunto-me em que país “Mi” vive. Fala sobre prender os caras maus. Bandidos e assassinos. E políticos corruptos.
    Quer fazer a diferença.
    Como todos quer viajar para fora do país, fazer intercambio conhecer algum gringo e ter um amor de verão. Sonha com a Itália. Roma. Coliseu.
    Tagarela.
    Fala sobre seus pais. Médicos. Queriam uma filha medica.
    Pergunta sobre os meus. Mortos. Queriam um filho vivo.
    Ri pensando que foi uma piada. Sorri colocando a mão sobre o rosto, demonstra timidez. Mas esta confortável com a conversa.
    Um jeito leve e descontraído.
    Ela não é alta, mas nem muito baixa. Tem um corpo magro. Sua pele da cor de chocolate me atrai. Seus olhos castanhos me conquistam.
    Uma gota de agua escorre por sua bochecha e pinga ao chegar a seu queixo.
    Sua boca esta levemente pálida por causa da brisa fria desta noite.
    Continua me falando sobre sua vida. Sobre seu estagio em um escritório de advocacia, onde seu chefe fica flertando com ela. Como não flertar com uma garota tão linda? Sorri colocando a mão sobre a boca.
    Ela diz que o café de lá é horrível, respondendo minha pergunta.
    Depois de mais um papo, caímos no assunto sobre bêbados. Ri quando comento sobre o bêbado que acabara de entrar no carro.
    Me da um soco de leve no ombro. Pergunto-me em que momento ganhou intimidade.
    Uma casa bem espaçosa com dois andares, ligados por uma escada de madeira em espiral, moderna. No primeiro andar tem a cozinha, a lavanderia e a sala, no segundo andar, há três quartos, duas suítes e outro para hospedes. 
    Nesse encontra-se uma cama de solteiro, com alguns lençóis e um travesseiro, uma pequena cômoda e uma guarda-roupa empoeirado, com algumas roupas velhas dentro.
    “Mi” esta rindo, seu cabelo esta solto, ainda molhado e caído sobre seus ombros, não é um cabelo comprido.
    A musica alta estrala em meu ouvido. 
    Ela rouba meu copo de uísque, bebe um pouco e então, me devolve. Faz careta ao engolir.
    - Vamos Otto, dance! — Ela diz, rebolando no ritmo da musica.
    Coloco o copo sobre a cômoda. O gelo balança fazendo um som de sino ao bater nas paredes internas do copo.
    Solto minha gravata.
    - Só você para vir de terno a uma festa na piscina — Ela diz.
    Sorrio.
    Ela sorri, não cobre o rosto desta vez. Esta bêbada.
    Começa a falar que esta de olho em mim desde a primeira festa. Desamarra o maiô. Seus seios ficam a mostra, são pequenos como laranjas e tem as aureolas marrons. Fazia um tempo que eu não via uma garota nua. Meu corpo esquenta.
    Ela se aproxima.
    - Eu sei que você me quer Otto. — Ela diz, apalpa os seios.
    Desculpe-me “Mi”, o que sinto não é excitação pelo seu corpo. Mas pela sua morte. Ela esta bêbada.
     Sorri. 
    A faca entra em seu peito. Atravessa seu tórax atingindo seu pulmão. Ela não tem tempo de reagir. Sua respiração fica pesada. Ela não grita. Esta segurando meu terno. Olha-me nos olhos. Sangue escorre pelo canto da sua boca. Retiro a faca. 
    A faca entra novamente, próxima ao local anterior. Retiro a faca.
    Ergo minha mão. Passo a língua em meus lábios.
    Há muito sangue. Ela cai. Seu cabelo esta no meio daquela poça vermelha. Tiro minha gravata. 
    A musica alta estrala em meus ouvidos.
    Suas pernas são lindas, sem nenhuma mancha, sua cor é atraente, seu quadril é largo comparado a sua fina cintura. Abaixo e tiro seu maiô, corpo maravilhoso. Sua barriga é definida, devia fazer exercícios frequentemente. O sangue ainda sai pelos cortes. Esta toda vermelha. Tento não encostar no sangue. Pego o travesseiro e faço pressão para o sangue dar uma pausa. Coloco-a sobre a cama. Esta nua. Penduro o maiô num cabide dentro do guarda-roupa. Tomo um gole do uísque.
    Caminho até o banheiro do outro quarto, não há ninguém no segundo andar. Lavo a faca, as mãos e encaro o espelho. Arrumo o cabelo e volto para vê-la.
    Desço a escada em espiral. Logo estou na cozinha. Largo a faca sobre a pia, mesmo lugar de onde peguei, antes de subir.
    Esbarro em algumas pessoas. Peço desculpas. Alguns sorriem. Outros me encaram.
    Vou embora.
    No dia seguinte vejo a noticia.
     “Mi” foi encontrada dentro de um guarda-roupa, de cabeça para baixo, com os pés amarrados por uma gravata, nua. O cabelo todo sujo de sangue. Os olhos revirados, e sua língua estava sobre a cama num copo de uísque.
  • a lenda de Èden/capitulo 4 o poderoso guardião fracassado (P & R)

    -isso foi rápido demais eu não vi quase nada-questiona luna
    -é assim mesmo mosa,guardiões da luz tem sua velocidade elevada desse jeito mesmo-fala pafunsu
    -eu não te dei o direito de me chamar de mosa-fala luna
    -bom vamos focar na próxima luta -fala pafunsu
    -primeiro como foi a sua luta
    pafunsu olha para cima e começa a pensar 
    -Oh não-fala luna 
                                                                 //////FLASH BACK TIME COM COMENTÁRIO EXTRA\\\\\\
    -outro flash back naaaaaoooo-fala luna
    -ja era-riu pafunsu
                                                                               INICIO DO FLASH BACK TIME
    Depois de pafunsu entrar no campo foi anunciada a luta entre ele e um cara desconhecido,quando começam a lutar pafunsu da um chute que afunda o rosto do sujeito e o dito-cujo perde a luta
                                                                                   COMENTÁRIO EXTRA
    -isso foi rápido,até demais-falou luna

    -guardiões da luz tem uma velocidade muito alta,porem uma defesa baixa de mais-falou pafunsu

    -por isso acabou rápido-fala luna

                                                                              CONTINUAÇÃO DO FLASH BACK TIME
    E na outra luta,era um guardião mais lento e com muito mais defesa,porem pafunsu era muito rapido e o outro cara nem chegara perto de sua velocidade e pafunsu o finalizou com facilidade,e por fim a ultima luta,porem esse cara era diferente dos demais 

    -acho que vou aparecer dele e dar aquele baita chute trava coluna nele- falou pafunsu

    ele o faz porem erra,por que seu adversario se defendeu com um outro chute,então tentou dar um soco e seu oponente parou o soco com outro soco ate que pafunsu pensa:

    -vou jogar um trovão nele 

    então pafunsu joga um trovão que errou,porem servia apenas para atrapalhar e atrair o adversário,perto o suficiente para atravessar a sua cabeça com uma mao aberta e eletrificada e assim que atravessa sua cabeça ela explode e ele é declarado vencedor da luta e o primeiro guardião da luz
                                                                                          FIM DO FLASHBACK TIME
    -agora falta a luta de quem-pergunta pafunsu

    -do gustavo-fala luna

    -era,não é mais,agora é a luta do rafael-fala gustavo

    -vai chorar-zoa pafunsu

    -nao,mais to quase-fala gustavo

    entao,finalmente os guerreiros de fogo entram em campo porem o destaque é mais do brasileiro de altura mediana e cabelo escuro e forte,estava sendo destaque por ser um daqueles que ajudou juan com aquela criatura de fogo e estavam em punhos uma luva e uma espada,algo que digamos era meio diferente,afinal pra que usar uma luva,mas ao iniciar a primeira luta que no caso era a dele o rapaz qua agora sabiamos o nome por anuncio de cahethel:lan santiago era seu nome e por coincidencia o outro cara tambem era brasileiro e se chamava edgar

    -isso esta muito estranho o nick falou que cabelos de cores estranhas sao caracteristicas dos descendentes dos guardiões da terra,só que nenhum dos guardiões do fogo tem olhos vermelhos,nem o rafael tem isso-fala pafunsu

    -pafunsu eu quero assistir-fala luna sentada em uma cadeira de rodas comendo um pãozim

    ao começar a luta edgar solta uma bomba de canhão de fogo 

    -esse ataque pode incinerar um planeta inteiro diga adeus aos seus ossos-fala edgar com uma risada alta

    lan apenas poem sua mão com a luva para frente e devolve para seu oponente o ataque como se não fosse nada e incinera completamente todo o seu corpo até reduzi-lo a cinzas

    -isso foi rapido-falou luna

    -luna para de falar so isso,mas realmente foi bem rapido,rapido ate de mais-fala pafunsu 

    porem a proxima pessoa a entrar em luta é seu amigo rafael

    -bom é isso vou conseguir-falou rafael

    no inicio da luta refael lança seus ioios a ponto que ficassem com suas cordas por todo o campo,quase que impossibilitando seu adversario de se mover,entao o adversario tenta queimar as cordas,que apenas ficavam em seu lugar sugando a energia e repassando a força pro ioio que ia ficando maior e deixando as cordas cada vez mais quente e entao rafael mexeu seus fios ate que cortou seu adversario e transformou-o em uma especie de picadinho frito de carne humana e entao rafael e declarado vencedor da luta

    -meu deus(do ceu berg)que nojo ele cortou o cara como picadinho argh-fala luna
     
    -meu deus que merda to com vontade de vomitar-falou pafunsu

    cahethel pede para alguem vir la para ressucitar o rapaz e devolve-lo a terra,afinal o perdedor teria apenas os poderes retirados e depois iria ser mandado para a terra para poder viver normalmente a sua vida na terra 

    -espero que perca logo,esse garoto é um piromaniaco sadico,nao seria uma boa te-lo como guardiao-pensou cahethel 

    a proxima luta sera entre lan e rafael

    -se prepare para ser queimado-falou rafael

    a cara de ridicularizaçao de lan era tao grande que chegou a ser ridiculo pra ele o que rafael falava,entao meio totalmente puto da vida rafael jogou seu ioio em cima de lan que nao apenas segurou como tambem quebrou o mesmo 

    -serio isso nao destroi nem um planeta anão gelo,acha mesmo que pode comigo-sacaneou lan

    tudo isso deixa rafael mais puto e tambem desesperado,ele refaz o ioio com suas chamas e aumenta o tamanho do mesmo a ponto de poder subir em cima do ioio como um carro gigante e tenta atropelar lan que desvia com uma facilidade enorme com se estivesse apenas dando um pulinho pro lado e da uma zoada

    -tao lento que nem chega a mach 1

    rafael putao responde:esse deus aqui chega a mach 36.000 

    -nao chega nem a mach 900 de tao lento 

    rafael acelera mais uma vez e lan apenas pega sua espada e da um corte certeiro no meio do rafael e corta o ioio dele ao meio e antes que rafael pudesse reclamar lan aparece rapido atraz dele e corta sua cabeça em instantes e assim lan e declarado ganhador por cahethel  e na plateia luna fala:

    -ele perdeu mesmo meu desu,eu dont believe

    -perdeu feio-fala pafunsu

    -nao acredito nisso-fala gustavo irritado-ele nao devia ter perdido 

    sim era isso rafael tinha perdido feio e lan havia se tornado o novo guardião do fogo,rafael foi ressucitado,teve seus poderes extraidos e foi mandado para seus pais na terra com a advertencia de nao mexer de novo em fosforos,mas claro cahethel deixou ele se despedir dos amigos afinal as proximas lutas seriam seguidas em elemento:agua,depois espiritual,depois escuridao,depois terra e por ultimo estrela ja era quase certo os vencedores afinal no ataque ja tinha uma da agua,uma da espiritual e uma da escuridão porem terra e estrela foram considerados dificeis de saber afinal havia tres guardioes da terra no incidente e nenhum da estrela,mas apos as despedidas começaram as batalhas da agua e a vencedora foi kamillie orihara da oceania,foi uma luta rapida nao igual a dos guardioes da luz mas tambem tinha seus meritos

    -aposto que foi bem facil ne,kamille ou posso te chamar de kamie-fala luna para a nova guardiã

    -serio querida e a sua-fala kamie

    -eu quase morri-fala luna

    -deveria ter morrido-fala kamie

    -que moça ruim pra eu-fala luna

    pra se ter uma ideia do quao rapido foi cada luitra era aproximadamente 20 segundos por luta depois disso era uma vitoria muito facil

    -nao curti essa moça,,mas curti as outras duas -falou luna

    essas tais garotas eram as duas dos elementos espiritual e escuridão,regendo o elemento da escuridão estava uma garota chamada julie kanam de istambul tinha uma personalidade calma e bem calada e ate alegre porem muito timida e gostava de chamar todo mundo de demonio algo que mostrava seu autismo com força altissima e regendo o elemento espiritual estava giulya kim than essa diferente da ultima ja era mais ativa e animada e gostava de cantar do nada,em especial k-pop (eu tenho uma amiga que gosta dessas musicas e como eu tava sem nada melhor pra colocar presente pra voces) as 2 seriam as mais novas guardiães do grupo 
                                                                            ENTREVISTA UTILITARIA COM LUNA GERLOFF
    -oi,oi,oi tudo bem,tudo bão-pergunta luna

    -tudo bem-fala giu

    julie calada

    -que merda eu to fazendo aqui-falou kamie

    -entrevista,xiu-sussurra luna

    -nao quero ficar no autismo de voces-fala kamie

    -xiu,agora continuando como foi a ultima luta de voces-pergunta luna

    -eu so entupi a mina de agua e explodi ela,como qualquer ser humano normal faria-fala kamie

    luna assustada pergunta:

    -e o que voce mais gosta kamie

    -rola-fala kamie-de varias idades idades,de muitos amores

    luna vermelha finge que nao escutou nada e passa para giu

    -entao giu como foi sua luta-pergunta luna

    -eu basicamente invoquei espiritos do alem e fiz todos atacarem como distraçao e voei por debaixo da terra em forma fantasma e possui o meu oponente por traz enquanto secava seu corpo-fala giu

    -e pior que a primeira-pensou luna desesperada

    e assustada luna pergunta com uma cara de nao me mate:

    -e....doq......do que voc.....do que voce gosta

    -kpop,escuto o dia todo,ate dormindo se possivel-fala giu 

    Luna agarra giu e fala:

    -meu desuuuu nos vamos dar tao bem

    -giu esta assustada com voce apertando ela assim luna-fala gustavo como um cameraman ou algo do tipo

    -ok,ok,ok eu largo,mas agora e sua vez julie-fala luna

    luna ja simpatiza com a garota ser baixinha a ponto de parecer uma versao de mini-chibi baby edition

    -entao como voce venceu-pergunta luna

    julie fica calada

    -fala pelo menos de quem voce gosta

    entao a garota gagueja e fala:
    hu..hu....hu...huinglerson-e some em uma sombra de vergonha 

    todos os presentes ficam calados por um instante e luna com um sorriso encerra a transmiçao

    -bae,bae pessoas-fala luna
                                                                              FIM DO ENTREVISTA COM LUNA GERLOFF
    -o que foi isso perguntou gustavo

    -nem eu sei acho que ela gosta do....-fala luna ate ser interrompida pelo pafunsu

    -quem gosta de quem-pergunta pafunsu

    -eu..eu gosto muito de pãozim-fala luna

    -e eu gosto de assistir a luta,elas sao muito bacanas

    -principalmente as com poderzinho sem a rajada tipo seu ataque na ultima luta-fala luna

    -e eu tambem-fala giu sobrando no canto mas manjando da situação 

    -e a proxima luta parece estar prestes a começar-fala pafunsu

    e julie estava com eles porem calada 

    -ainda bem que voces gostam por que o nick e o juan vao lutar daqui a pouco-fala pafunsu

    -eu avaliei os dois,so iram se encontrar se for na final,mas seu amigo nao tem chance o poder do juan é anormal para um guardião da grama,eles nao passam de curandeiros e protetores,juan de algum jeito serve de ataque e aquele modo dele nao vai ajudar em nada-fala julie

    -ela falou-riu pafunsu-finalmente hahaha

    julie some de novo e pafunsu estranha novamente (ate ai tudo normal)

    -ela ate que ta certa a luta deles vai ocorrer no final,vai ser emocionante-fala luna

    -duvido que esse tal de nick ganhe,nao esqueçam que tiveram 3 guardiões da terra no incidente e pelo jeito ele vai lutar com os 3-fala giu

    -eu confio no moso-fala luna

    -eu tambem-fala gustavo

    -concordo-fala pafunsu

    entao as outras guardioes retrucam

    -vai levar surra-fala kamie

    -chute na butt-fala giu

    -uhum-fala (ou grunge)julie 

    entao alguem vai andando naquela direçao era lan

    -alguem percebeu que o primeiro nome dele e mais japones que o do gustavo-fala pafunsu

    lan vai ate gustavo e da um soco com força na barriga dele que o faz cair,e o arrasta pelo cabelo ate cahethel,entao cahethel ouve o que o garoto tem a dizer e troca umas letras de um crachazinho que esta com cada um

    -o que aconteceu-perguntou luna

    -esse cara no dia que eu cheguei aqui deu um jeito de trocar nossos nomes e nacionalidade pra ele parecer japones,eu sou o unico hikari aqui,Lan Hikari-fala Lan

    -nao tendi nada-fala luna 

    -nem eu-fala pafunsu com gustavo vomitando sangue nos braços tentando ajeitar ele

    -aquele e o amigo de voces indo pro ringue-fala kamie

    -e ele sim-fala gustavo meio tonto

    -e o moso-fala luna

    -parece ter uma rola bacana-fala kamie passando a lingua sensualmente entre o labio 

    -eu mereço-fala luna envergonhada de como caminha a humanidade

    mais todos estavam ansiosos afinal nick iria lutar finalmente contra alguem,afinal apos uma historia com aquela (cap2) era impossivel nao ficar curioso com o treino,entao entram em campo um dos 2 caras do incidente e nick dormindo por que cahethel apenas o lançou pro campo enquanto ele dormia meio ensanguentado

    -prontos-fala cahethel-comecem

    -isso nao e justo o moso ta dormindo-fala luna

    entao no meio do campo o outro cara grita:

    -ninguem te perguntou nada,indiazinha

    luna e seus belos cabelos de india se ofendem e mandam ele se-fu mentalmente

    a luta começa com o adversario apontando-lhe o dedo e falando:

    -renda-se eu sou o mais forte aqui e posso destruir qualquer um

    ele era alto como se tivesse 2m e 10 de altura,mas nick ja esta dormindo no chão,como se estivessem pouco se importasse  e seu oponente considerou isso como uma afronta direta de nick e da um soco no chao causando um terremoto que apenas fez nick ficar rolando pelo chão ate que foi chegando perto de seu adversario rolando pela grama do local e ao tentar esmagalo com um pisao,nick chuta ele no rosto ainda no chao dormindo e afunda o rosto do pobre rapaz que ia esmagar a cabeça de nick com um pisão e ainda racha a barreira media de cahethel,todo destruido pelo chute o guerreiro se levanta porem ja e tarde nick esta em pe em sua frente dormindo e lhe da um soco na barriga que explode tanto o seu estomago quanto o resto da barreira do cahethel,entao cahethel fala:

    -treinamento duro pessoal,vamos fazer magia do tempo no sr.matias pra ver se acorda

    apos tenta usar a magia do tempo cahethel nao consegue e fala:

    -nao acredito,mudança do tempo nao funciona nele

    -o que isso quer dizer-pergunta luna

    -significa que nem se eu mudar o tempo,o nick nao vai ficar parado,nao vai envelhecer mais rapido e nem tentar diminuir a velocidade dele e ainda me proibe de viajar pro passado enquanto eu estiver a 1 galaxia de distancia dele-fala cahethel

    -chega vei,esse cara ta muito apelão-falou pafunsu

    -disse o cara que terminou 3 lutas em 4 milisegundos-fala nick

    -voce nao tava dormindo-falou pafunsu

    -habilidade de fotossintese e so eu estar encostando em terra que eu me recupero mais rapido-fala nick

    -bom mais tirando isso-nick colocando um punho fechado em frente ao rosto so que com um sorriso corajoso-eu vou vencer todo mundo,que esta aqui eu prometo isso pra voces 
    FIM
    __________________________________________________________BONUS_________________________________________________________________

    NOME:Kamille Orihara        APELIDO:Kamie         PAÍS:Australia
    ELEMENTO:Agua        HABILIDADE:Solidificação e Gaseificação
    GOSTA DE:Instrumentos Pessoais Masculinos (IPM)

    NOME:juliane kanam      APELIDO:Julie     PAÍS:Istambul
    ELEMENTO:Escuridão      HABILIDADE:Nuvem escura
    GOSTA DE:Pafunsu (DARK STALKER)

    NOME:Giulya kim than    APELIDO:Giu      PAÍS:Coreia do Sul
    ELEMENTO:Espiritual      HABILIDADE:Necromancia
    GOSTA DE:K-POP

    ________________________ERRATAS__________________
     NOME:Gustavo Santiago  APELIDO:Gusta ou Gustavo  PAÍS:Brasil
    ELEMENTO:Estrela     HABILIDADE:Escudo Estelar
    GOSTA DE:Olhar as estrelas

    NOME:Lan Hikari   APELIDO:Nenhum   PAÍS:Japão
    ELEMENTO:Fogo    HABILIDADE:Escudo Estelar
    GOSTA DE:Não se sabe




  • A Madrugada

     O quarto estava escuro, com um fraco feixe de luz lunar que entrava pela janela aberta, ferindo o breu instalado no úmido cômodo, iluminando o chão de piso branco barato e uma parede bege envelhecida. O ventilador ligado em sua maior potência pouco ruído fazia frente ao estardalhaço criado pela forte ventania do lado de fora da janela. O quarto não possuía som, todo o som pertencia a tempestade que reclamava seu direito sobre os ventos.
     À esquerda, a simples janela de alumínio dava uma visão escura sobre a cadeia de morros habitados por casas, aqui e ali uma luz de uma varanda vazia, engolidas na proclamação e na vastidão da noite, mas o principal evento não estava lá fora, ele vinha de fora para dentro e aqui no quarto, ele acontecia.
     Atrás da janela, do teto até os últimos seis centímetros do chão, a suave cortina de renda branca resistia, imóvel, elegante e destemida, ela se erguia frente a gritaria dos ventos, observava como se vê uma pirraça de uma criança mal educada, e comparada a ela, era a isso que se resumia toda aquela encenação da força do soturno céu.
     Com ciúmes e sentindo-se diminuída, a ventania irrompeu pela janela, tomando a suave cortina pelos braços e jogando-a pelos quatro cantos do quarto em arcos vertiginosos e ríspidos, porém, ainda impassível, ela se segurava no trilho sem aparente esforço, sem ter tocado o chão ou alguma das paredes nenhuma vez, ela volta a sua posição original ainda imaculada.
     O céu ultrajado com a insubordinação, tentou novamente, voltou mais furioso e violento, e assim fez seguidas vezes, mas a leve cortina não demonstrava resistência, e com toda sua elegância e suavidade, se colocava de volta atrás da janela, com movimentos graciosos, sem tocar nenhum canto do quarto.
     O tempo passava, o céu poderoso e revoltoso, já não demonstrava tamanha rebeldia, a ventania diminuiu, foram trocadas primeiro por brisas fortes, depois nem isso. Sem sucesso, o céu enviou seu último campeão para o duelo final. Uma fraca brisa perpassou pela janela, jovem e gentil, parecia pedir permissão ao entrar e suavemente pegou a mão da leve cortina.
     Enquanto o som lá fora diminuía drasticamente, a brisa começou a conduzir a cortina pelo quarto, não era apenas um simples movimento de empurrão para aqui ou acolá, era suave. Assim, a cortina foi lentamente se enroscando na brisa e ali eles bailavam uma lenta e suave valsa, cada vez mais lenta e ritmada, a dança transformava o casal, se antes eram brisa e cortina, agora eram uma só coisa, transfigurados, inseparáveis, vitais um ao outro. E toda vez que a leve cortina passava pelo fraco feixe de luz prateada, ela se iluminava, como se vestisse um vestido de diamantes que reluzia ao pequeno pedaço de lua presente.
     Tocada pela lua que crescia agora a cada instante, a cortina nasceu, debutou e envelheceu bailando com o seu amor na eternidade de minutos, ali ela foi plebeia, princesa, rainha, filha, mulher, esposa e mãe.
     Mas o tempo corria, as nuvens passaram, o céu se abriu como que saindo de cena, pois seu protagonismo havia sido roubado, e agora limpo, dava lugar para a lua cheia que ia aparecendo para contemplar aquele pequeno e delicado acontecimento que tomava toda a sua atenção, completando e prateando a noite daquele jovem casal. Porém, com a chegada da lua, a brisa precisava ir, seu mestre a chamava, e ela cada vez mais fraca se despedia da cortina. Até que saiu, a cortina agora sozinha, era banhada completamente pelo pratear da lua, jazia parada em frente a janela, fria, sem lembranças, abandonada na quietude da noite, ela voltara a ser só uma leve cortina de renda branca, sem par, sem motivo, sem vida. Apenas uma cortina morta.
  • A Mudança

                                                                                                                    I
    Carlos desde que se lembrava, não gostava da ideia de ter de se mudar, gostava de sua casa anterior, gostava da vizinhança, dos amigos que lá tinha e do clima quente. A maioria das pessoas viviam reclamando sobre o calor matador que lá fazia sem parar, dia após dia, mas Carlos gostava, estava acostumado com o calor e com toda a agitação do seu antigo bairro.
    Ele gostava de ver as crianças brincando na rua a tarde toda, correndo de um lado para outro, com toda a sua inocência e desconhecimento de mundo. Gostava do céu, que era sempre de um azul limpo e aberto, e de como era hipnotizante, fácil de se perder em pensamentos quando se ficava sentado olhando a magnitude daquele azul. Lembrava-se de uma dessas vezes, estava deitado num chão morno cimentado, olhando para o céu, não se recordava o que se passava pela sua cabeça naquele momento, mas se lembrava de se sentir sonolento naquele chão duro que estava tão acolhedor, e afogado em sua própria mente, vidrado naquela imensidão azul, ele adormeceu.
    E agora estava acordado dentro daquele carro velho, colado na janela observando sua nova casa. Havia dormido durante toda a viagem, só foi acordar quando seu pai já estacionava o carro em frente a casa, e sua mãe já os esperava do lado de fora, em frente ao portão de madeira envelhecido. O terreno possuía uma cerca de madeira, que aparentava ser da mesma idade do portão, tinha aproximadamente um metro de altura e uns dez centímetros de espaçamento entre as madeiras. Imediatamente Carlos a achou completamente desnecessária, já que não havia nenhuma outra casa por perto. Bem no meio do terreno havia a casa de dois andares construida em madeira, na frente instalava-se a varanda que continha uma porta simples que dava entrada para a casa, acima havia uma janela de madeira retangular, que se abria para fora em duas partes, ou pelo menos deveria, pois acreditava que não seria possível devido ao pútrido estado da janela. Toda a construção externa da casa era de madeira com uma pintura branca, com a madeira e a tintura disputando quem detinha o pior aspecto depois de aparentes cinco décadas de abandono.
    Na época da construção, ela provavelmente seria a casa dos sonhos para quem queria criar uma família numa região pacata, com bastante espaço e contato com a natureza, uma vida simples e proveitosa sem todo o estresse de uma cidade populosa. Quando nova, a construção simples e de visual limpo, devia passar uma tranquilidade invejável, como viver naquelas pinturas genéricas de casas campais. Mas agora o branco era sujo e a casa tinha evidentes manchas de mofo, rachaduras e lascas em todo lugar. Sua decadência era decepcionante quando se imagina como deve ter sido quando construída, porém era compreensível, já que ninguém parecia ter encostado na casa nas últimas décadas. A tranquilidade e a beleza da simplicidade que devia se encontrar aqui a cinquenta anos, dava lugar a monotonia e a depressão que se instalava cada metro quadrado do lugar.
    – É pai... você conseguiu, é de fato uma bela aquisição - disse Carlos aborrecido. Não conseguia se imaginar vivendo ali dentro, nesse lugar isolado e morto, sem nada para fazer e com ninguém conhecido para se entreter.
    – Tudo o que precisa fazer é aceitá-la, depois de um tempo ela se tornará um lugar aconchegante para você. Disse seu pai enquanto o olhava pelo retrovisor com um pequeno sorriso.
    – Vamos antes que sua mãe comece a nos gritar, ela já parece bem ansiosa por termos chegado.
    – Anda Carlos, quero lhe mostrar a casa logo. Chamou-lhe sua mãe.
    Assim que saiu do carro, Carlos notou uma brusca queda de temperatura, mesmo o sol do fim da manhã não era suficiente para afastar o frio úmido que se debruçava sobre eles, sem qualquer sinal de vento ou movimento produzido pela natureza. O silêncio era ainda pior, se sentia estranho como se o silêncio que pressionava suas orelhas fosse tão alto que cobria todos os outros sons, e só era interrompido quando um deles falava, causando-lhe um sobressalto todas vezes, como se uma taça de vidro quebrasse a cada início de frase.
    A espessa neblina que se apoderara dos arredores do terreno talvez fosse a responsável, bloqueava a vista de tudo que estivesse fora do raio de uns oitenta metros, era como se estivessem dentro de uma domo cercado por uma gorda e branca nuvem.
    Atravessou o portão seguindo sua mãe em silêncio pela propriedade, observando o devastado chão do terreno, era uma mistura de grama morta, completamente irregular e esburacada com chão arenoso escuro. Diversas plantas invasoras também estavam por lá espalhadas, haviam carrapichos, capim, ervas daninhas e outras que não conhecia, tudo em completa desordem. – Acho que não teremos uma horta como papai queria. Disse à sua mãe.
    – Você pode ajudá-lo a limpar e a plantar. Contato com a natureza é importante para um garoto urbano como você – respondeu sua mãe.
    – Tudo bem, sei que ele imploraria por isso mesmo.
    Passando pelo deque da varanda em frente a porta de entrada, sua mãe se segurou e lhe deu um olhar penetrante enquanto abria a porta. – A casa é velha, mas tem muita história e vida, dê uma chance e ela se mostrará mágica para você assim como foi para seu pai.
    – Bem, velha e histórica com certeza ela é - retrucou Carlos.
    A entrada da casa dava direto numa sala de estar ampla com um sofá velho e uma poltrona de couro marrom totalmente poído, ainda nela haviam uma alta estante de livros empoeirados, uma televisão quadrada antiga e um pequeno bar com garrafas de bebidas tão empoeiradas quanto os livros. Seguindo pela sala à esquerda tinha uma cozinha coberta do chão ao teto de pisos brancos encardidos, com uma janela na lateral dando vista para o lado esquerdo do terreno, e no centro da cozinha uma mesa retangular de madeira antiga que conseguia acomodar de maneira apertada cinco pessoas. Próximo ao fim da sala à direita se encontrava uma escada que levava ao corredor do segundo andar, onde haviam os dois quartos e o banheiro que ficava ao término da escada. O quarto de seus pais era uma suíte no final do corredor e possuía vista para a frente do quintal, enquanto o seu quarto ficava na outra extremidade do corredor, dando vista para os fundos do terreno. 
    Depois de mostrar a casa, sua mãe lhe entregou as chaves do quarto e desceu, iria preparar o almoço com seu pai, que seria servido na varanda que havia na parte de trás do quintal.
    Ao entrar no quarto se deparou com um cómodo quadrado de cor bege escuro, havia enormes manchas de mofo que desciam dos cantos das quatro paredes numa espécie de degradê de negro absoluto ao verde musgo, algumas iam do teto até quase tocar no chão madeirado, eram grandes e gordas como grandes hematomas numa pele clara e enrugada. Havia também um guarda roupa de madeira de quatro portas, cada uma com um espelho empoeirado e manchado nas bordas devido ao tempo. E por fim, uma cama de solteiro de madeira maciça, a madeira ainda que velha parecia ainda muito forte e resistente a um grande peso, e ao lado da cama uma janela de abertura ampla que dava vista para o quintal dos fundos e para uma grande área de mata esparsa.
    Pela janela ele pôde ver que a área possuía uma relva verde bonita, com bastante espaço entre as árvores que eram grandes e bem verdes, e mais próximo do seu quintal havia um estreito riacho pedregoso, a água seguia seu curso fraca, com todas as pedras a mostra, só filetes da água escura e densa corriam ao redor das pedras, como lágrimas que escorriam de um rosto muito sujo. Era um riacho que tinha seus dias contados, em contraste das árvores e da relva que pareciam lhe roubar toda a vida para brilhar nos seus dias verdes. Assim, o riacho sedia cada vez mais vida, e a cada gota que corria, levava embora a memória de seus dias límpidos.
    Carlos voltou sua atenção ao quarto ao ouvir o chamado de sua mãe para o almoço, temia que ela fosse servi-lo no quintal dos fundos, no momento que viu mesas e cadeiras lá postadas. Porém, ao se encaminhar para saída, algo à sua esquerda lhe chamou atenção, a parede defronte a sua cama possuía agora um círculo escuro no centro, parecia-lhe um mofo, talvez não o tivesse notado ao entrar. Mesmo assim, sua curiosidade o levou a se aproximar da parede, fixado por aquele círculo chegou tão perto quanto um palmo de mão e pode ouvir quase inaudível, um silvo arrastado e debilitado, como os últimos segundos de uma morte lenta, o mofo respirara.
                                                                                                                       II
     Demorou todo o restante do dia e boa parte da noite adentro para terminarem de limpar a casa, e em especial Carlos que passou horas tentando de toda forma retirar aquelas manchas bolorentas de seu quarto, sem obter nenhum sucesso. Frustrado e exausto, Carlos decidiu que deveria dormir e mesmo assim demorou mais algumas horas para conseguir, sua mente voltava sempre com a imagem do mofo respirando, e como ele se postava logo na parede a sua frente, foi difícil tirá-lo da cabeça.
     Enfim, quando os primeiros raios de sol começaram a rasgar o azul escuro do céu, trazendo maior claridade e calor, Carlos se sentiu mais seguro e assim pode cair em seu sono. Porém, mesmo em seu sono não tinha tempo para descanso, assim que dormiu se viu numa escuridão total sufocante, nada podia ver e tentava em vão esticar suas mão para apalpar algo. A seus pés passava um curso de água que ia até acima de seu tornozelo, a água gelada lhe dava calafrios e os tremores se intensificavam gradativamente até serem quase cãibras. Seus lábios gelados tremiam tão rápidos quanto milissegundos, e toda tentativa de fechar a boca era patética e inútil, e nesse estado, foi quando voltou a ouvir.
     A mesma respiração daquela encontrada no bolor em sua parede estava de volta, débil e fraca ela lhe chegava e foi acelerando, crescendo. Ao mesmo tempo o nível da água alcançou a metade de suas canelas, trazendo objetos pesados e macios que acertavam suas pernas, fazendo com o que manter o equilíbrio fosse quase impossível. Olhava para baixo  procurando ver a água ou as coisas que o acertavam, mas o breu era tão forte quanto uma venda em seus olhos, nada enxergava e nem dimensão de distância ele possuía.
     Não sabia a quanto tempo estava lá parado, fechou os olhos com força e rezava para que acabasse, seus ouvidos eram pressionados pela respiração forte e abrupta que estava agora sintonizada com seu coração, cada batimento no ritmo acelerado de seu nervosismo era acompanhado por uma lufada de ar expelida em seu ouvido, lhe deixando mais nervoso, criando assim um círculo vicioso do terror. Quando achou que não mais suportaria, algo passou por seu tornozelo e o agarrou, cravando garras adentro de sua pele e músculos. Sentiu aquele aperto tanto no tornozelo quanto em seu coração, o medo cravou-se em seu peito com as mesmas garras que se prendiam em seus pés e o apertaram até explodir. E assim, acordou de sobressalto com as mãos no peito e com o sol queimando seu rosto.
     Ficou sentado imóvel na cama tentando acalmar-se, respirava fundo seguidamente por mais de um minuto, suas mãos tremiam e seu peito vivia para buscar o ar e jorrar para dentro de seus pulmões a certeza de que tudo fora um sonho e nada mais. Sua mente foi aos poucos se tranquilizando, porém não esperava que ao levantar a cabeça e olhar adiante, bem a frente da sua cama, a parede que detinha a mancha que lhe dava calafrios fosse novamente levá-lo ao terror.
    A parede, na qual jazia a pequena mancha escura de mofo, já não se fazia visível, toda sua extensão fora engolida pelo mofo, que expelia pequenas partículas no ar a cada ciclo respiratório. Levantou de um salto, todo o pesadelo voltava a sua cabeça, e o sufocamento trespassava agora o tecido do sonho para a realidade, a respiração forte e acelerada retornou aos seus ouvidos junto com o medo que teimava em agarrar-se ao peito. Passou pela porta e desceu as escadas sem olhar para trás, parou apenas ao pé da escada e olhou para o andar de cima na tentativa de achar algo que podia estar lhe seguindo, mas nada encontrou.
    Seguindo as vozes de seus pais que saíam de outro cômodo, Carlos se dirigiu a cozinha a procura de se acalmar na segurança de seus pais. Ao passar pela entrada, os encontrou sentados na mesa com a cabeça totalmente afundadas sobre pesadas páginas de jornal, que se ergueram para vê-lo chegar.
    No momento que atravessou o batente, Carlos ficou preso ao chão ao olhar os rostos de seus pais, ou no caso a ausência deles, sua mãe possuía a face afundada como se por diversas vezes um objeto de imenso peso havia lhe caído sobre o rosto, sua boca era um rasgo contorcido que exibiam num sorriso nenhum dente, apenas um vão escuro tão profundo quando o abismo de sua cavidade ocular exposta. Já seu pai, tinha a metade de cima do rosto tão liso quanto uma máscara, não possuía olhos, ouvidos e nem nariz. Enquanto a metade de baixo era ocupada por uma imensa boca que ligava as extremidades laterais da sua cabeça, amplamente repleta de dentes afiados que ficavam a mostra devido ao sorriso congelado e aterrorizador que se fazia em sua face.
    – O que houve Carlos ? Ouvimos você gritar agora a pouco - disse sua mãe
     Carlos não podia responder, lutava para prender um grito em sua garganta, e se esforçava o máximo para não sair correndo novamente. Devia estar enlouquecendo, a mancha, o sonho e agora isso. Fechou os olhos e disse à sua mãe – Não é nada, acho que não estou me sentindo bem. Vou lá fora tomar um pouco de ar, ver se melhoro.
     Nesse mesmo instante, seu pai veio em sua direção de forma lenta, como se observando cada aspecto de Carlos – Têm certeza que não quer sentar conosco um pouco, meu filho ? Você realmente parece muito abatido, dessa forma você nos deixa preocupado - E assim que terminou sua frase, seu pai segurou a cabeça de Carlos próxima a sua, examinando-o, seus dentes afiados com mais de quatro centímetros davam-lhe a aparência de um tubarão. O bafo pútrido que trespassava entres os dentes trincados, combinado com as salivas que escorriam pelos cantos da boca, descendo por toda a extremidade do rosto até cair pesadamente no chão, contradizia toda a fala de seu pai, que para os ouvidos de Carlos parecia preocupado com a aparência do filho, enquanto que para seus olhos parecia faminto e levemente desapontado pelo abatimento de sua presa preferida que talvez para ele diminuísse o sabor da sua futura refeição.
    – Sim...pai, eu só preciso de um pouco de ar livre - Disse Carlos travado, com uma enorme dificuldade. E no momento em que seu pai retirou-lhe as mãos do rosto, Carlos saiu apressadamente para a sala principal e de la para a porta de entrada.
     A atmosfera do lado de fora era a mesma do dia em que havia chegado, era fria, silenciosa e com uma pesada sensação de morbidez. Mas o silêncio, nesse momento o ajudava a se acalmar, longe de seus pais e do terror do sonho que o perseguia, Carlos pode respirar tranquilamente por alguns minutos. Por isso, decidiu andar, se afastar da casa e de seus problemas.
     Após descer da varanda e andar pelo finado jardim, Carlos percebeu que a neblina estava ainda maior hoje, aumentando o cerco à casa, e tornando o silêncio ainda mais poderoso. Nem quando passou descuidadamente por sobre a morta grama e entre as diversas plantas invasoras, foi produzido algum som. Entretanto, se deu conta de que no meio da rua, parado onde se iniciava a neblina, havia um homem que olhava para o chão de maneira fixa.
     Carlos espantou-se ao ver alguém novamente, havia pensado que não havia nenhuma outra alma viva ao redor de sua casa, e foi até a rua para encontrar esse homem. Porém, ao chegar mais perto o homem se virou e adentrou a neblina, na qual Carlos foi em seguida, chamava o estranho seguidas vezes na tentativa de o homem parar.
     Mas quando adentrou a neblina soube que não mais precisava chamar, o som que o estranho fazia ao pisar no chão era como um tambor ritmado, que parecia ecoar, preso dentro da neblina sem espaço para fuga. Os passos e os ecos se misturavam, tornando impossível saber qual era o real, o passado e o presente era um naquele passo, que só foi abafado quando um estrondoso som o encobriu, pareceu um tiro que reverberou sobre si diversas vezes, multiplicando seu volume.
     Assustado, Carlos se virou para voltar pelo caminho de sua casa, mas por mais que andasse a neblina ainda ficava à sua volta, em todas as direções era única coisa que via, não sabia mais em qual direção devia ir, podia andar para qualquer uma que ainda pareceria que estava no mesmo lugar, a névoa densa agarrava-se a sua volta, o cercando naquele mundo.
     Cansado, Carlos teve que parar e dessa vez voltou a ouvir. Vindo em sua direção, cada vez mais alto e fácil de identificar, vinha uma bicicleta que quando se tornou visível, era levemente familiar. Uma bicicleta de médio porte, azul e preta andava em sua direção, devagar fazendo o som da corrente ser o único som existente daquele lugar, onde reinava absoluto. A bicicleta não trazia ninguém pedalando, veio sozinha e por uns três metros andou até Carlos, parando ao seu lado e se sustentando por uns cinco segundos, quando enfim pareceu se dar conta da impossibilidade daquele acontecimento, ela desistiu e tombou para o lado sem produzir nenhum som, como se caísse em nuvens.
     Logo após a queda da bicicleta, outro som se fez reinar novamente, de novo um estrondoso barulho de disparo foi produzido dentro da névoa, e como o primeiro, assustou Carlos até o fundo de sua alma, o fazendo correr às cegas por minutos, não sabia para onde ia, ou por onde, a direção não trazia importância a Carlos, apenas a distância era relevante e era isso que buscava. Quando abriu os olhos, depois de minutos correndo e tropeçando, Carlos se deu conta que havia chegado novamente no portão de casa.
                           
                                                                                                                  III
     Carlos atravessou o portão com lentidão, sentia-se exausto e pela escuridão noturna do céu, podia deduzir que se passou horas dentro da névoa. Não sabia exatamente quanto tempo, se fora horas ou dias, sentiu como se fossem minutos, mas agora sabia que não poderia ter sido.
     Juntou forças para chegar até a casa, queria descansar mas acreditava que não seria possível. Não seria capaz de vivenciar novamente o horror de estar no mesmo lugar que seus pais, ele ainda tentava retirar da cabeça a imagem profana deles, que hora ou outra voltava a sua mente. A mais simples imagem mental deles lhe dava calafrios, tremia durante todo o caminho, temendo encontrar novamente seus pais com aquelas faces, e imaginar que ambos estariam preocupados pelo sumiço do filho e que isso seria uma ótima oportunidade para seu pai o analisar a centímetros de distância, como da última vez.
    Na metade do caminho, um barulho constante surgiu e foi crescendo a cada passo dado em direção a casa. Logo pôde identifica-lo, o som parecia de água corrente, e a distância e o volume indicavam que corria forte e veloz. Só podia imaginar que a fonte fosse o rio atrás da casa, o que lhe parecia impossível já que ainda ontem o rio definhava em seu leito.
     Entrou em casa sorrateiramente e esperou em silêncio na expectativa de perceber se alguém o havia notado. A sala e a cozinha se encontravam vazias, e do andar superior caiam minúsculas partículas negras que se espalhavam pela sala, o que logo foi desvendado ao perceber-se que a escada e a parede que levavam para o segundo andar estavam cobertas por um negror bolorento. Assim, quando enfim notou que a porta que dava para o fundo do quintal estava entreaberta, se apressou para atravessá-la se encaminhando para os fundos, onde viu a figura de seus pais, ambos de costas para a casa, a poucos metros do rio, olhavam fixamente para o curso da água como se estivessem presos a ele.
     Apreensivo, Carlos ficou parado durante segundos em hesitação. Não sabia se ia em direção a seus pais na esperança de que toda aquela transfiguração que eles sofreram fosse apenas uma construção de sua mente exausta, ou se voltasse e fosse para qualquer outro lugar que conseguisse. Porém, antes de sua decisão, sua hesitação lhe custou um preço, seu pai voltara sua face ainda transfigurada para Carlos e o olhou como se estivesse a menos de um metro e não os vinte atuais.
    Sob o olhar inquisidor de seu pai, Carlos congelou, não conseguia se mover, tomar uma decisão. Ficou parado olhando aquela face aterrorizadora, totalmente entregue e submisso. Quando seu pai numa voz gelada e afiada como uma navalha o chamou com um “Venha!”. O som da palavra atravessou os vinte metros e chegou aos seus ouvidos como um segredo sussurrado às escondidas, cravou-se em seu coração e o rasgou como uma faca de gume enferrujado, na qual Carlos só pôde obedecer.
    Quando chegara na metade do caminho, Carlos já tinha a imagem clara. O rio de fato estava mais do que vivo, corria veloz como um cavalo, carregando o que parecia troncos de árvores rio abaixo, e fundo o suficiente para cobrir as patas de tal animal, sua largura era de no mínimo seis metros, escondendo todas as pedras fixas em seu leito e nas suas margens. Por outro lado, a mata verde parecia presa num domo outonal, com o verde substituído pelo marrom seco das folhas e da relva que poderia se quebrar ao menor sinal de vento.
     Chegando até seus pais Carlos parou abruptamente. Seu pai com as mãos firmes pôs Carlos a sua frente, e percebendo a sua perplexidade ao notar o que de fato o rio carregava, seu pai lhe deu um sorriso demoníaco. – Olha Carlos, o rio está novamente vivo. E ao lhe dizer isso, seu pai segurou -lhe a cabeça e a manteve presa direcionada ao rio.
     A essa distância Carlos pôde ver que não eram troncos de árvores que estavam sendo levados pelo rio, mas sim corpos. Corpos em estados de decomposição eram carregados aos montes pela água, de homens e mulheres de todas as idades, desde crianças até idosos. Suas peles enrugadas tinham tons esverdeados, roxos e pálidos, alguns tinham partes de seus corpos faltando, outros tinham ausência parcial de pele, e assim eram carregados numa profusão de água turva de cor marrom.
     Estava agora a menos de dois metros do rio, sua mãe ainda impassível, parecia presa a um transe na qual lhe permitia apenas ficar de pé, olhava para o rio e ignorava tudo o que acontecia a sua volta, enquanto que seu pai posicionado atrás de Carlos, segurando-lhe sua cabeça, se aproximou do seu ouvido e com sua recente voz cortante e fria, que apenas pode ser produzida por algo que a décadas deixou de existir, disse a Carlos – Está na hora de se juntar a eles. E logo após, o empurrou com extraordinária força para dentro do rio.
     Carlos caiu afundando em meio aos corpos, fracassou a tentar se levantar, suas pernas pareciam fracas e sua força ia em direção oposta ao seu desespero, os corpos pesados e de pele macia acertavam os seus membros a todo momento, a falta de ar foi crescendo a medida do seu medo até atingir seu ápice, quando Carlos não mais se encontrava no rio.
     Estava numa rua asfaltada num início de tarde, crianças jogavam bola na rua enquanto ele passava montado em sua bicicleta azul e preta pela lateral da rua. Havia pessoas sentadas em frente as suas casas, conversando amigavelmente com seus vizinhos. O som vindo da rua era barulhento, somado com o calor emanado por um sol alto e amarelo num céu limpo, podia essa combinação ser insuportável para alguns, mas para ele era acolhedor, estava próximo a sua casa, e todos ali o conheciam.   Acenavam e lhe dirigiam saudações enquanto passava lentamente por elas na sua bicicleta. Quando uma correria se fez em toda a rua, disparos estrondosos começaram atrás de Carlos, as crianças foram rapidamente resgatadas por qualquer adulto mais próximo, os que estavam sentados em frente de suas casas se trancaram de imediato, os bares e estabelecimentos familiares desceram suas portas. E nessa confusão, Carlos acabou perdendo o equilíbrio, caindo de sua bicicleta. Tentou se levantar mas suas costas doíam e ardiam incessantemente a qualquer sinal de esforço feito por ele.
     Virou de barriga para cima na tentativa de ver o que acontecia, garotos passavam a toda velocidade por ele seguidos de homens fardados que tentavam alcançá-los e disparavam às suas costas, logo se deu conta do que havia acontecido.
     Deitado naquele duro chão que emanava um calor acolhedor que o abraçava por trás, enquanto o sol queimava levemente seu rosto como uma carícia de dedos em chamas. Sua respiração ficava cada vez mais lenta ao passo que Carlos nadava naquele oceano claro que era o azul límpido do céu, se perdia naquela imensidão, se afastando e afogando aos poucos ele se distanciava de seu mundo até que apagou.
     Estava agora de volta submergido no rio, com água entrando por sua boca, podia sentir os resíduos dos corpos humanos que lhe invadiam junto a água, conseguiu enfim firmar seus pés no fundo contra as pedras e se erguer com imensa dificuldade. Seus pais, de volta ao transe com o olhar perdido no rio, nada expressaram.
     Tentava se esticar para alcançar a margem direita do rio, seus dedos riscando finas linhas na terra não conseguiam proporcionar firmeza suficiente para o seu corpo, quando com sua mão direita, conseguiu cravar todos os seus dedos dentro da margem do rio, rebentando-lhe as unhas de seus dedos, causando uma dor estonteante, Carlos aos poucos foi se aproximando da margem. Quando, como uma unidade, todos os corpos do rio começaram a se debater e a tentar agarrar qualquer parte exposta do corpo de Carlos.
     Um corpo de um idoso cravou todas as unhas pútridas de sua mão no braço esquerdo de Carlos, causando um enorme puxão para o fluxo da água, mas Carlos segurou tão firme a margem que o braço do idoso se soltou de seu corpo e ficou pendendo junto ao braço de Carlos. Suas costas exibiam rasgos em todas as direções, devido aos fracassos dos corpos de se agarrarem a ele.
     Estava com a parte superior do corpo já fora da água, quando sentiu mãos agarrarem seus tornozelos. Duas mulheres mortas, uma sem mandíbula e a outra sem toda a parte inferior do corpo, seguravam seu tornozelo esquerdo, enquanto o seu pé direito era segurado por três corpos tão necrosados que era impossível identificar o que haviam sido em suas vidas passadas. Com esse atraso, mais corpos conseguiram se segurar em Carlos, escalavam suas pernas e cravaram-se em suas costas, mordiam e arranhavam onde podiam.
     Sua mão não aguentando tal peso, foi cedendo e escorregando. Ao mesmo tempo, um corpo conseguiu escalar toda as costas de Carlos, e lhe chegou a cabeça. Mordeu-lhe com os dentes marrons a lateral da face, enquanto que, com a mão cravou todas as unhas, de mais de três centímetros, na mão direita de Carlos que num impulso soltou a margem, sendo tragado de imediato para o rio, afundando com mais de sete corpos agarrados a sua volta. Tentou gritar, mas submerso a água invadia sua boca, carregando a seus pulmões toda impureza do rio. Se rebatendo e lutando contra todos os corpos a sua volta, a alma de Carlos foi levada pelo rio para completar sua morte.
  • A Pianista

    Não sei por que. Mas estava lá. 
    Parado.
    Em minhas mãos um folheto com os hinos do dia.
    Não sabia nenhuma música e não estava afim de cantar. Muito menos ler.
    O grupo era pequeno. Tinha no máximo dez pessoas. Sendo a maioria jovens como eu, e os velhos eram bem velhos. 
    A pessoa que mais me chamava atenção era a pianista. Caroline, esse era seu nome. Se não me engano.
    Caroline 
    Caroline
    Sempre tocou piano. Ganhou prêmios por isso. Tocava com sua alma, sentia cada tecla bater em seu coração. Suas belas mãos pálidas tocavam gentilmente cada nota.
    Todos ali ajoelhados. Ouvindo e admirando, louvando e glorificando ao som daquela maravilhosa pianista.
    Lá estava ela. Com seu cabelo preto amarrado num coque bagunçado pela ventania que estava aquele dia. Provavelmente iria chover.
    Sua camisa azul de bolinhas vermelhas estava com as mangas dobradas até a altura do cotovelo, usa uma saia rodada preta, que ia até o joelho. Calça uma sapatilha bege, mas insistia dizer que aquilo era nude. 
    Ela vinha para a igreja caminhando, fazia isso todo domingo, eu sempre a via passar em frente de casa. Nunca atrasava- se.
    Sempre adiantada.
    Chegava na igreja antes de todos. Apenas para limpar o piano. Instrumento antigo. Amigo antigo. Lugar onde ela sempre tocara sua divina melodia.
    Todos a cumprimentam. Vão chegando aos poucos.
    Ela sorri. Sorriso atraente.
    Seus olhos escuros se encaixavam perfeitamente com seu belo rosto pálido e fino. Olhar sereno. 
    Caminha com serenidade, transborda calmaria e paz. Continua sorrindo.
    Passa a missa toda assim, com aquele semblante de boa moça. Garota adorável. Sorriso doce.
    A missa é curta.
    Após tocar oito hinos, tudo acaba.
    O padre termina a missa como todas as outras.
    Palavra da salvação. Todos respondem e levantam-se como se não vissem a hora de ir embora.
    Caroline faz reverência ao seu público, concluía com um sinal da cruz e um aceno para alguém da multidão 
    Fecha o piano. Com extremo cuidado, cuida como se fosse um filho. Após isso se reúne ao resto do grupo de canto. Beijos na bochecha e abraços. Sorrisos e risadas.
    Todos a cumprimentam.
    - Foi uma ótima missa, não achou Otávio? – ela diz. Sua voz era macia, como a de um anjo, suave e calma, como o piano que acabara de tocar.
    - Não sei, na verdade, parecem todas iguais para mim – respondo.
    Ela sorri. 
    Aquele sorriso inesquecível. 
    Fiz amizade com ela havia algumas semanas. Ela notou meu interesse em tocar algum instrumento. Me ofereceu algumas aulas, recusei algumas vezes, sem motivo algum. E sem motivo algum aceitei naquele dia.
    Sua volta para casa era, como a ida à igreja. Todos a cumprimentam. Sorrisos. Acenos. Ela sorri. E acena. Uma, duas, três vezes. E repete. 
    Sorriso lindo.
    Sua casa é verde, com enormes portões cinzas. Ainda morava com seus pais. Mesmo tendo seus vinte e poucos anos, continuava indecisa sobre o que faria da vida. Sem sonhos. Sem futuro planejado. Sem namorado. Acreditava não ter sorte para arrumar um. Não imagina a beleza que tem.
    Venta muito. Segura sua saia para que não levante. Dizia para eu não olhar caso isso acontecesse.
    Caminhamos rápido para que não fossemos pegos de surpresa pela chuva que não veio.
    Uma casa bem grande. Daria duas da minha facilmente. Tinha sala de jantar. Sala de estar. Sala de recreação. Sala de lazer. Suíte. Cozinha. E outros tipos de salas. 
    Ela pede para que eu espere na sala. Sento numa poltrona de couro. Desconfortável no início. Mas com o tempo ficou aconchegante. Não há televisão naquela sala. E nem nas outras. 
    Apenas retratos. E mais retratos. Alguns quadros também. 
    Em um dos retratos vejo sua mãe. É bonita como ela. Ouvi histórias que diziam que a mãe dela havia fugido com um vizinho, e deixara Caroline com o pai, que por sinal não estava em nenhuma foto ali. E também, não estava na casa.
    Ela demora.
    Decido então fazer passeio pela casa. 
    São dois andares. 
    No de baixo, temos as salas a cozinha que é bem espaçosa, não tem mesa, pois a mesma fica na sala de jantar ao lado. Na cozinha, tem apenas os armários que cobrem todas as paredes do lado direito, tem também a geladeira e o fogão.
    Uma escada em espiral fica no meio da sala de recreação. Subo-a.
    A escada dá de encontro com um corredor. Extenso corredor. 
    A primeira porta é branca, giro a maçaneta e a abro. Dentro encontro uma cama de casal com vários travesseiros. Doze no mínimo. Um enorme guarda roupa, vai do chão ao teto, engolindo a parede. Um cheiro forte de colônia toma conta do ar. Deve ser o quarto do pai dela.
    A segunda porta, é marrom, lisa. Abro-a. É apenas o quarto de tralhas, coisas que não usam mais. Haviam diversos instrumentos quebrado.
    Nesse corredor havia mais cinco portas. Mas logo na terceira, era o quarto dela.
    Um enjoativo odor adocicado toma conta do meu nariz instantaneamente. A porta está meio aberta. Ouço o som do rádio.
    Entro.
    Ela estava lá. 
    Caroline
    Caroline
    Usando apenas a camisa e uma calcinha azul com rendas. Suas pernas brancas chamavam minha atenção, ela as balança conforme o ritmo da música. 
    O ranger da porta a pega de surpresa, dá um pulo de leve e se vira, colocando a mão sobre o peito. Posso ver o volume de seus mamilos sob a camisa. Ela solta a escova de cabelo.
    O quarto é delicado como ela. Haviam inúmeros instrumentos por ali. Violões. Guitarras. Flautas. Trompete. E muitos outros.
    No canto, por ironia, está um teclado todo empoeirado. Abandonado.
    Ela sorri.
    No centro do quarto está sua cama. Grande. Muito grande.
    Ela sorri.
    Passeio pelo quarto, encaro o espelho do guarda roupa, estou arrumado, bonito.
    Sorrio.
    Um raio de sol que entra de penetra desviando da cortina lilás, paira sobre o teclado empoeirado. Um punhado de poeira dança na faixa de luz solar. Passo meu dedo, bem devagar sobre as teclas, daria para ouvir um som decrescente, se o teclado estivesse ligado. Ou com bateria. 
    Não entendo de teclado.
    Olho para Caroline. Parece não se importar. Aquele devia ter sido seu primeiro instrumento. Abandonou-o. Pergunto o porquê disso. 
    O motivo de tê-lo deixado de lado.
    - Cansei dele. – Ela diz, Sorriso.
    Cansou dele. 
    Todo o tempo que haviam passado juntos não contava mais.
    Sorrio para ela.
    Pressiono uma tecla. Não faz som. 
    Está sem bateria ou desligado. Não entendo de teclado.
    Abaixo na altura dele. Assopro. Uma nuvem de poeira se espalha pelo quarto.
    Ela desabotoa um botão.
    Coloca as duas mãos sobre o instrumento.
    Você não se importa mais com ele, pergunto esperando que ela me dê uma resposta positiva.
    - Sim, mas ele está velho, não serve mais para mim. – Ela diz. Mordiscando o lábio inferior e sorri.
    Não era a resposta que eu queria ouvir. 
    Desabotoa outro botão. 
    A porta range com o vento leve que entra pela janela. A cortina balança. Com um pouco de esforço levanto o teclado de sua base.
    - O que está fazendo. – Ela pergunta. 
    Sorrio.
    Sua camisa está quase toda aberta. Com o passo que ela dá, posso ver seu seio balançar. Vem em minha direção. 
    Sorrio. Ela não. 
    Levanto aqueles aproximadamente dez quilos acima do ombro, e então a golpeio no rosto.
    O golpe não é forte o suficiente para desmaia-la.
    Ela apenas cai e põe a mão sobre a boca. 
    Posso ver seu seio. Sangue pinga no chão de piso branco. 
    Meus braços pesam. Já estão cansados. Caminho por alguns centímetros arrastando o teclado. 
    Ela chora. 
    O sangue escorre de sua boca e pinga sobre seu mamilo marrom. Escorre por ele e pinga em sua barriga, e logo é absorvido pelo tecido da camisa de bolinhas.
    Não sei por que fiz. Apenas senti vontade.
    E então a saciei.
    Com muito esforço, ergo o teclado novamente. E a golpeio de novo. Um golpe contra sua cabeça.
    Ao tentar se proteger ela acaba quebrando o pulso. Som que posso ouvir com clareza. 
    Ela chora. Urra de dor.
    Ergo o teclado novamente.
    Então solto contra ela. 
    Ergo o teclado. Mais um golpe.
    Peças se soltam.
    Sangue espirra.
    Ergo o teclado. Mais um golpe.
    Ela não se move.
    Meus braços doem. Estou ofegante e soado.
    Suas pernas brancas estão sujas com seu sangue. Ela agora tem um motivo para não tocar o teclado. Seu pulso está roxo e inchado.
    Silêncio.
    Paro em frente ao espelho. Arrumo minha gravata. Bonito.
    Por sorte as gostas de sangue não são aparentes em meu terno.
    Olho para ela. Não está mais tão bonita. 
    Tristeza.
    Seu rosto, com o nariz quebrado e faltando alguns dentes, está coberto de sangue. Seu cabelo está molhado por uma poça enorme de seu sangue. 
    Deve ter encontrado a paz.
    Desço a escada. A cafeteira apita. Sirvo um pouco de café. Caminho pela sala. Observo novamente as fotos e quadros. 
    Seu pai não está ali. Sua mãe continua sorrindo. 
    Muito linda. Se Caroline tivesse ido embora com ela. Nada disso teria acontecido
  • A tríade do mau em si

    Decidiu ir muito mais além do que se possa imaginar em sua estadia no plano físico-orgânico e tridimensional. Resolveu descortinar-se, despindo do manto de ignorância da sua própria persona programada, alienada e fragmentada. Parou de culpar o mundo… as pessoas… as coisas… tudo! Vira a culpa em si mesmo, e se vendo em sua dramática lastima percebeu-se sabotador de si mesmo, porquanto, ainda não se conhecia.

    A medida em que se observava, vira a tríade mental do seu ser mundano e civilizado psicológico: o EU INTELECTUAL; o EU EMOCIONAL; o EU SEXUAL. E se viu em uma sala completamente espelhada, em que cada ‘EU’ do triângulo de si, se multiplicava infinitamente no amago de sua personalidade inconstante e provisória.

    Ao se perceber equacionado em si mesmo… expressadamente contido entre parênteses, colchetes e chaves. Multiplicado e dividido meditou em manter a ordem dos fragmentos opostos, para por último se resolver em fatores de subtrações e adições, em toda complexidade de somatórias minimalísticas, entre efêmeras igualdades e variadas situações dos seus multifacetados ‘eus’ aplicativos do mau em si.

    Muito além de sua complexidade mental psicológica… degenerativas de todos os orgânicos e inorgânicos sentidos do corpo-mente… em que o ‘EU INTELECTUAL’ se aplica, elaborando seus conceitos e preconceitos a partir das múltiplas percepções externas e internas que adultera a Arte Sagrada, a Filosofia Primordial e a Santa Religião… o que já era pesado demais para resolver… tinha ainda que lidar com o automatismo instintivo do seu corpo físico-orgânico, pelo qual confeccionara o ‘EU SEXUAL’. Porém, mais ainda perigoso e desastroso, entre outros e esses fatores… era lidar com o insaciável e temido ‘EU EMOCIONAL’, a cabeça do meio do Dragão-de-Três-Cabeças, em que os outros dois ‘eus’ eram-lhes subservientes.

    Fora impactado pela tríade do ‘EU’ desde o nascimento, o que adoecia o corpo-mente, levando a uma total inconsciência ignorante de si, do outro e ao redor na cadeia ponto-espaço-tempo. Passara por longos e agoniantes momentos de transformações decadentes, ao receber do mundo exterior falsas imagens e impressões da realidade descendente em infra-normalidades, se afeiçoando as falsas qualidades antagônicas terrivelmente negativas do materialismo, baixo espiritualismo e vaidosas “verdades” sociais, econômicas e étnicas de si. E assim, decidira com afinco trabalhar na educação de sua forma infra-humana enfrentando o Dragão-de-Três-Cabeças, o Macho Alfa de suas bestialidades, brutalidades, temores, vaidades, traumas, vícios, costumes, psicoses e luxurias… a parte do partido egocêntrico, humanoide-animalesco em que adormece e entorpece a Sagrada Consciência Divina em sua gnose.

    Assim, almejava o retorno a sua Pureza Original, ao se render as espadas flamejantes das sentinelas-querubins que guardavam o caminho de acesso à Árvore da Vida.

    Aprofundando-se mais e mais em si mesmo, silenciou-se em sua retorta, destilou-se no Alkahest (solvente universal) de sua vontade, para ser posto em uma das câmeras do At-tannur (forno alquímico) de sua consciência, almejando ser purificado dos constituintes de seus ‘eus’ em sua solitária espargia espiritual.

    Os muitos questionamentos… as muitas perguntas… o excesso de gesticulações… as queixas e tagarelices de si, e as reclamações do mundo externo… o que não era ou estava bom em sua vivência… a falta de atenção e elogios alheios não mais o perturbavam em sua busca meditativa, em íntima contemplação.

    Apenas deixou-se ser arrastado pelo Rio (o Criativo), guiado em inércia e não-ação para o Mar (o Receptivo).

    Assim!

    O Amante, em Amor, uniu-se ao Amado…

    O Masculino penetrou o Feminino…

    O Homem conheceu a Mulher…

    O Pai gerou o Filho na Mãe…

    O Céu cobriu a Terra…

    O Sol em sua potência iluminou a Lua…

    O Criador, na Criação, manifestou-se em Criatura…

    E o Fogo Sagrado derreteu o tenebroso gelo nos empedrados corações.
  • A união do complexo medo atraente

    Penetrara no karma atual da moderna sociedade virtual em que nasceu, cresceu e ainda vive, mergulhado numa atmosfera de medos e complexos que lhe foi imposto por uma sociedade de valores hipócritas e sentimentos ilusórios. Essa triste “realidade” que até então vivenciava, teve sua extrema abrangência com o poder que lhe foi outorgado através da internet e seus recursos digitais. Passara em muito pouco tempo de um simples telespectador para um aspirante astro internauta autodidata.

    Através da internet e suas redes sociais, como um cyberpunk moderno, percebeu que a espada encantada cravada na grande pedra, não pertencia somente ao lendário e valente Rei Arthur e seus cavaleiros da távola-redonda, como era antes o caso monopolista da grande mídia. Agora sabia que também ele obtivera o direito de possuir sua própria espada mágica, e, foi encantado e possuído por ela.

    No início não podia prever as consequências de tal poder. Tudo era maravilhosamente maravilhoso. Estava perplexo diante dos inúmeros portais mágicos que lhe fora aberto por esses dispositivos radiativamente encantados, onde tudo começou com o poder telepático de enviar e receber nossos pensamentos, desejos e sentimentos nos virtualizando em palavras, falas e imagens. Abrangendo nossas perspectivas limitadas, além dos nossos vínculos sociais mais próximos, alcançando o desconhecido em milésimos de segundos, entre os milhares quilômetros de distâncias. Até o Mago Merlim se aqui entre nós, nesse momento, estivesse, ficaria impressionado com tamanho poder e proeza outorgado a todos.

    Porém, a espada de Arthur continha dois gumes e cortava dos dois lados.

    Percebeu-se ainda, que, não tarde, o poder que lhe foi ofertado pelos deuses tecnológicos exigia de nós sabedoria para possuí-lo. Essa poderosa espada mágica Kaledvouc’h como se outrora pensava, estava inacessível ao grande público há tanto tempo, encrustada na grande pedra, pelo nobre motivo daquele a quem seria o seu possuidor, ter que passar por ensinamentos de vida rigorosos, pelo qual o seu espírito e o seu coração fossem meticulosamente testados. Só assim, teriam a primazia de obter a força dos deuses para puxar a espada da grande pedra. Essa sagrada espada é raramente denominada “Excalibur”, e é retirada por Arthur como símbolo milagroso de sua Nobreza e direito ao trono da Bretanha.

    Entretanto, agora se questionara: Será que todos possui esse direito e nobreza do Rei Arthur?

    Fomos preparados e disciplinados para empunhar tamanho poder?

    Virtualmente, se deparou com os muitos casos de jovens que por uma simples brincadeira nas redes sociais, acabaram causando dor e destruição a si mesmos e aos outros. Como foi o caso da menina russa de 17 anos que morava nos Estados Unidos, que filmou um ato de estrupo em um aplicativo de postagens de vídeos, com duração de nove minutos, só para obter likes. Intentara que naquele momento durante a filmagem, a jovem poderia usar o seu dispositivo para pedir ajuda ligando para polícia, ou um adulto responsável, também notara, que as pessoas que estavam assistindo o vídeo online, em vez de dar likes, poderiam aconselhá-la para impedir aquele ato brutal. Que alcançou milhares de visualizações.

    Daí, meditara, que o poder sem a responsabilidade é cegamente egoísta e brutal.

    Entretanto, dualisticamente, não esquecia ele, que Excalibur é uma espada pontuda afiada de dois gumes que corta, penetra e dilacera. Podendo afastar as pessoas, ou uni-las. Mas, nesse bidimensional mundo de algoritmos binários computacional e ilusório, afirmava ele somente conhecer causas e efeitos mecânicos, e nunca as Sagradas Leis Naturais em si mesmas. Por isso, que ao unir as pessoas, afastava a solidariedade entre elas, em que camuflado e protegido em sua privacidade, por detrás das telas negras caleidoscópicas brilhantes, o indivíduo se julgava ir além do respeito e dos sentimentos fraternos, soltando sua naja língua pensante, em seus rápidos dígitos dedos, envenenada nos seus mais mesquinhos sentimentos obscuros de inveja, cacoetes, ego e porcas maldades. Que no mundo fenomenal das aparências, só percebia bidimensionalmente ângulos e superfícies, e nunca o integral das coisas.

    Obviamente, ele sabia que a dialética da consciência da proximidade física dos corpos pensantes, que tudo entende por intuição, através das palavras audíveis, figuras simbólicas, gestos, movimentos, olhares e expressões voluntárias e involuntárias fora cruelmente ofuscada pela dialética racional do intelecto presente nas redes sócias, fóruns e plataformas proprietárias de mensagens instantâneas baseadas em nuvem, que nada tem de essência natural humana, e sim, apenas o ilusórico poder formulativo de ideias e conceitos lógicos preconcebidos, que por mais brilhante que seja, e por mais que se julgue de qualidade e de utilidade nos inúmeros aspectos da vida prática e cotidiana, nada tem de valor para existência e ecologia humana, resultando apenas em obstáculos subjetivos, incoerentes, torpes e pesados para nossa simbiose como seres fraternais coletivos, e que nada tem de verdade.

    No fim, diante da verdade, percebeu-se sendo o pobre poderoso, precisando de alento (likes, em legais polegares opositores), precisando de algo que o anime (coraçãozinhos vermelhos, e rostos redondos sorridentes amarelados), sentiu-se com o ego demasiadamente forte e personalidade terrivelmente débil, por sua própria mesquinha natureza apodrecida em si mesmo, encontrando-se numa situação completamente desastrosa, e sem vantagens, em que o sono lhe foi roubado, a ansiedade descontrolava as batidas do seu coração, e a vaidade tomara o controle de sua alma, tendo a depressão como amante e companheira.

    E no seu estado deprimente, porém, contemplativo, sabia ele que nos primórdios da nossa existência como uma das muitas espécies que habita esse ecossistema terráqueo, éramos simplesmente um ser coabitando e interagindo com os outros inúmeros seres aqui existentes. Não víamos a natureza como esse belo quadro pintado a óleo ou aquarela, ou como as ‘pixeladas’ imagens digitais no fundo dos nossos desktops eletrônicos e dispositivos móveis. Não ansiávamos pela chegada do tempo limitado do fim de semana para passear com a família nos bosques e pradarias, e nem tão pouco esperávamos a chegada das férias para curtir os muitos lugares paradisíacos, ou nos aventurar em trilhas, escaladas e caminhadas nos ditos ambientes naturais e ecológicos. Essa coisa alheia que hoje denominamos “NATUREZA” era intimamente o único e o primeiro mundo vital e cultural que existíamos. Nossos antepassados não só viviam em contato íntimo com as outras criaturas vegetais, animais e inanimadas, como se comunicavam diretamente com os seus espíritos e coração. Daí que surgem as fabulosas histórias e contos de fadas, gnomos, duendes, devas, ninfas, curupiras, orixás, anjos, caboclos, entre outras inúmeras manifestações do que hoje classificamos como “espíritos inorgânicos da natureza” em diversas culturas humanas espalhadas pelo mundo.

    Por isso, ficou muito difícil para o seu entendimento humano separar a sua espiritualidade, cura e boa qualidade de vida da Mãe Natureza. E, entendeu o porquê dos diversos movimentos esotéricos, xamanísticos, taoístas, hinduístas, budistas, cabalistas, sufistas, gnósticos, wicca, candomblé, entre outros da busca da espiritualidade, como também os movimentos de cura, saúde mental, e medicina ancestral e alternativa se situarem em ambientes naturais abertos e ecológicos.

    Nisso, percebeu que ao longo do nosso rigoroso processo civilizatório, em que gradualmente nos separamos do nosso natural habitar, que o SAGRADO em nós foi naturalmente esquecido. Deixamos de ouvir as MENSAGENS DOS VENTOS, paramos de falar a LÍNGUA DAS ÁRVORES E MONTANHAS, abandonamos o afeto de SENTIR COM O CORAÇÃO, e os nossos olhos se cegaram para o MUNDO INVISÍVEL. E, para piorar mais ainda a sua situação, vira que como espécie se transformara no pior predador que já existiu em todos os tempos, ‘Satânico Aniquilador’ das muitas culturas existenciais em todos os aspectos da natureza, e, dele mesmo.

    Meditara ainda mais profundamente de que como espécie, nos tornamos existências humanas desencantadas, prisioneiras de nós mesmos em frente a uma tela Touch Screen de valores, e, de falsas concepções virtuais, mendigando uma irreal atenção em salva de palmas, likes e emotions de coraçãozinhos vermelhos, rostos redondos amarelados (caras de bolachas) e legais polegares opositores. Vira que as proximidades humanas se basearam em distantes conexões WI-FI, em que ignoramos cruelmente os nossos presentes íntimos entes queridos a nossa volta, em ser um direto participante na criação do Aqui e Agora, para nos tornar um observador e um observado distante do passado alienado dos desejos, anseios, críticas e felicidades do desconhecido “amigo” internauta. Preferimos viver solitários com políticas de privacidade essa virtual ruptura do contato natural, nos separando plenamente do sentido existencial da vivência humana, e minimizando a nossa consciência social, afetiva e emocional ao estado simplista do observador e do observado, e de que a tecnologia não promove e nunca promoverá, assim, como, as propostas da comunidade científica, uma fusão harmoniosa com a existência humana e a natureza. Sua meta desde a revolução industrial é unicamente modificar. Acreditando melhorar, otimizar, maximizar, implantar, oportunizar e assegurar um conceito evolucionário de humanidade ciberneticamente supranatural, onde poderíamos viver sem depender dos recursos naturais e afetos sociais para nossa existência. Para assim, em vez de (como eles acreditam) subsistirmos, ‘sobre-existirmos’ na lua, em Marte, ou em uma cosmológica galáxia distante como prega e aliena a NASA e Hollywood.

    Sentira que perdera a simplicidade da vida e o seu primeiro amor, e se tornara um ser imediatista, arrogante, conformista, impaciente, tempestuoso, depressivo e penoso. Ignorava suas crianças, e assim, fazia com que elas o ignorassem, transformando-as no subproduto mesquinho dele mesmo. Nisso, vira que ignoramos os nossos semelhantes como nunca antes já vivenciado no mundo, em todos os tempos de nossa comunal existência, ofertando para os nossos irmãos e irmãs o que tem de pior em nós mesmos. E, dessa forma e maneira, acumulamos dores e sofrimentos para o nosso último sopro de vida, e assim, morremos existencialmente porque matamos nossa essência dentro dos nossos filhos e filhas, chegando a tal ponto de não mais nos perpetuarmos nos novos corpos.

    Percebera que a verdadeira expressão para o mundo tecnológico de hoje é ABSOLUTA TRISTEZA. E isso dói na alma… adoecemos! E o pior é de que não sabemos que estamos existindo enfermos. Acumulamos muitos bens do Aqui e pouca coisa do Agora, e a Magia da Alegria abandonou a Morada do Coração, e o Sagrado Entendimento que em tudo dança se ocultou. Então, eis a questão e desafio existencial da nossa cultura humana: ATÉ QUANDO FICAREMOS CALADOS E INERTES, TRANSMITINDO PARA AS GERAÇÕES FUTURAS ESSA GRANDE DEPRESSÃO EXISTENCIAL, PELO QUAL NOS CONVERTEMOS NO TIRANO PROBLEMÁTICO DESTRUIDOR DA BELEZA DE TODAS AS COISAS? Entretanto, quem se movimentará e falará com loucura e paixão para o despertar da grande massa? Quem será esse novo Meshiach e Avatar? Mas, enquanto ELE ou ELA não chegar ficaremos inertes, atrofiando nossa mente e coração nas telas e internet? Imbuído nessas íntimas e totalitárias questões, analisara que os desafios para o retorno do SAGRADO em nossas vidas são tremendamente numerosos.

    E, contemplando todo aquele panorama, se viu com sua poderosa espada na palma de sua mão, a mágica Kaledvouc’h, o espelho negro. E como um pedaço de madeira arrastado pelo rio, tentando resolver as coisas por sua própria conta, reagindo ante qualquer dura palavra, qualquer problema e qualquer dificuldade, lamentavelmente, o medo empoderou o seu ser, fabricando nos cinco cilindros da máquina orgânica, em que lhe compunha e que o seu SER habitara, os inumeráveis multifacetados eus-demônios, aplicativos escravos de si mesmo.

  • A verdade está onde nunca a procuramos — Crônicas do Parque

    Era uma daquelas manhãs escaldantes com temperaturas que variavam de trinta e cinco a trinta e oito graus célsius, com sensação de quarenta a quarenta cinco no centro-norte de Israel. Como de costume me encontrava todos os Yom Sheni (segunda-feira) no parque de Kfar Saba, fazendo manutenção nas piscinas ecológicas.

    Pegava meu bastão de rede, uma caixa plástica preta dessas de armazenar verduras em supermercados, e um balde vazio de comida de peixes ornamentais. Entrava na piscina e submergia até os joelhos no primeiro terraço em que ficava as Nymphoides, espécies do gênero das plantas aquáticas que crescem enraizados no fundo com as folhas a flutuar à superfície da água, de cores brancas, amarelas e variadas tonalidades de flores rosa, da família Nymphaeaceae.

    Prendia meu smartphone pela sua capa ao cordão que ficava no meu pescoço, em que segurava ao peito um Magen David (Estrela de Davi) com um rosto de leão no centro, e colocava uma música suave para iniciar o meu trabalho de cuidar dos nenúfares.

    Em especial, aquela era a piscina ecológica que eu mais gostava dentre todas outras que dava manutenção no centro-norte. Pois além de ser a maior dessa região, estava em um parque bonito e tranquilo arrodeado de belas esculturas. Essa piscina era especial, pois era a única de todas que tinha uma original carpa cinza gigante, espécie de peixe de água doce originário da China, e também havia um canteiro com Lotus Branco (Nelumbo Nucifera), um género de plantas aquáticas pertencente à família Nelumbonaceae da ordem Proteales, e também era lotada de peixes Koi (Nishikigoi), tendo o Higoi (carpa vermelha), o Asagui (carpa azul e vermelha) e o Bekko (branca e preta), que são carpas ornamentais coloridas ou estampadas que surgiram por mutação genética espontânea das carpas comuns (carpas cinza) na região de Niigata no Japão, tendo também outras inúmeras variedades de peixes ornamentais como: peixes dourados, peixes barrigudinho (Guppy) de diversas cores, aruanãs, entre muitos outros.

    Nesse dia em especial, me senti constantemente sendo observado por um senhor de chapéu azul e cabelos grisalhos que aparentava ter a idade de oitenta anos. Estava bem vestido e mantinha sempre um sorriso no rosto. Ele se encontrava sentado em um banco largo que ficava próximo a piscina. E lentamente eu me aproximava dele ao curso do meu oficio de retirar as folhas amareladas dos nenúfares. E ao me aproximar daquela figura atraente, eu o cumprimentei com um Boker Tov (Bom Dia), e ele me respondeu com um Boker Or (Manhã de Luz). Assim trocamos sorrisos, e me voltei novamente para o meu ofício matinal.

    Quando o balde em que colocava as folhas amareladas e flores mortas dos nenúfares se encontrou cheio, me retirei da piscina para esvazia-lo, o despejando na caixa plástica preta que estava perto do banco em que o senhor de chapéu azul se encontrava sentado. E ao me retirar para regressar a piscina, ele elevou a sua doce voz anciã, perguntando-me:

    _ Atah Rotze coz cafeh (Você aceita um copo de café)?

    Então, de imediato lhe respondi:

    _ Ken, efshar (sim, aceito).

    Então, ele retirou de uma sacola de pano um bojão de gás pequeno e enroscou uma pequena boca de fogo nele, acoplando. Colocou o aparato ao solo, e retirou da sacola uma garrafa pet de coca-cola com água, uma pequena chaleira e dois copos de aço inoxidável. E, enquanto ele despejava a água no recipiente e ascendia o fogo com um isqueiro para ferventar, fez um sinal com as mãos para eu me sentar ao seu lado.

    Enquanto a água estava para ferver, nos apresentamos e ele me fazia inúmeras perguntas sobre mim e meu oficio. Perguntas comuns que eu já estava calejado em responder. E depois que ele preparou o café, comecei também a interroga-lo. Para minha surpresa descobri que ele não era judeu, mas árabe. Sendo que falava um bom hebraico sem sotaque e se vestia elegantemente, como um velho Ashkenazi. Além dele ter olhos de uma cor azul claros como o céu que estava sobre nossas cabeças. (…Nós, e nossos pré-julgamentos…).

    Ele me falou que viveu muito anos na Espanha, sendo um mestre sacerdote de Sufi gari (Tasawwuf), uma arte mística e contemplativa do Islão, assim como é a Kabbalah para os judeus. Ele viu o Magen David em meu peito, e disse que era bonito esse símbolo com um rosto do leão no centro. Também, me falou que esse símbolo em que os judeus se apropriaram o colocando em sua bandeira, é de muita importância para o Tasawwuf (Sufismo). E me revelou segredos importantes sobre o significado desse símbolo.

    Conversamos sobre muitas coisas, e eu o interrogava mais e mais, pois vi que esse senhor era muito sábio e ciente de tudo que falava. Ele me revelou coisas sobre a conduta do corpo, como postura e fala. Falou-me sobre pensamentos, músicas e danças místicas, e, sobre alimentação e jejuns para se ter uma vida espiritual equilibrada com o corpo físico. Nesse assunto, eu perguntei a ele porque não se deve comer carne de porco. Até porque eu já tinha perguntado a muitos rabinos e religiosos judeus o porquê de não comer a carne desse animal, e muitos não sabiam me responder ao certo. E os que respondiam, falavam que estava escrito nos Livros da Lei, a Torah, mas não sabiam perfeitamente o porquê.

    Diante da minha pergunta, ele sorriu e me disse algo em que fiquei atônito. Contava ele que os porcos eram seres humanos amaldiçoados, por levar uma vida sexual pervertida na sua última encarnação. Ele me disse que por isso dentre todos os animais o porco era o mais inteligente, e, que seus órgãos internos como fígado, rins e coração são muito parecidos com os nossos, pois na verdade era um ser humano que encarnou nessa condição com a total consciência de sua vida passada, mas que devido ao fato de estar em um corpo animal atrofiado não podia se comunicar para se revelar como tal. Nasceu nessa condição devido a decadência espiritual de sua vida anterior como ser humano, ao se entregar aos prazeres sexuais nojentos e tenebrosos, por isso esse animal pode levar até trinta minutos tendo orgasmos. E assim, veio nessa condição para viver em sua podridão, ao comer seu alimento e dormir misturado as suas fezes, mesmo tendo a inteligência de defecar em um mesmo lugar, são condicionados pelos seus criadores (seres-humanos) a viver junto ao seu excremento. Também, ele me falou que o porco não tem a capacidade de olhar para cima, não podendo ver o céu, e sua pele não pode ser exposta a luz solar por muito tempo, pois não consegue transpirar, e pela falta de umidade decorrente do suor pode sofrer fortes queimaduras. Nasceu para olhar para baixo e se esconder da luz, sendo forçado por essa natureza a viver na lama. Ele também me disse, que o porco é o animal mais amaldiçoado do que a serpente, pois os porcos são invulneráveis às suas picadas venenosas. E concluiu:

    _ É por isso que não se deve consumir a carne desse animal, pôr na verdade ser um ser-humano totalmente consciente em forma atrofiada. _ e, acrescentou me revelando algo_ Você sabia que não a diferença de gosto entre carne humana da carne suína… ambas possuem a mesma textura e sabor.

    Uau! Diante desses fatos que me foram apresentados por esse velho sacerdote Sufi, eu fiquei estupefato. E, entendi o porquê de George Orwell escolher os porcos para serem os protagonistas da revolução em seu romance satírico (Animal Farm — A Revolução dos Bichos). Provavelmente, ele sabia desse conhecimento do Tasawwuf. E isso me fez pensar, o quanto os antigos sabem do que não sabemos. Essas são respostas que não podemos encontrar no oráculo Google. Respostas de um velho de oitenta e poucos anos sentando em um banco de parque.

    O velho me vendo atônito, colocou seus aparatos de café na sua sacola, levantou-se, despediu-se e saiu sem mais nada a dizer.

    E lá no banco do parque de Kfar Saba fiquei com a mão no queixo, vendo os peixes e as nymphaeas. Tão Ignorado em minha ignorante aquariofilia.
  • A visita da morte

    Acabei de acordar, desculpe. Não percebi que você estava aí. Afinal de contas?  Como entrou em minha casa? Há, a porta estava aberta! Mas isso não é motivo para ir entrando na residência dos outros. Isso é uma grande falta de respeito. Eu duvido que o senhor fosse gostar se alguém adentrasse à sua morada assim sem mais nem menos. Saiba o senhor do susto que tomei. Ouça! Meu coração está disparado! Também pudera, nem o mais jovem dos homens suportaria tamanho susto.
    Se já está aqui... O senhor deseja alguma coisa? Um lanche? Um café? Bem, me lembrei, não poderei lhe servir nada. Como pode perceber a minha casinha é bem pobre e humilde. Veja estas paredes, tão pretas e sujas por causa do mofo. E esses móveis? Velhos, mas que ainda servem para alguma coisa. Faço as minhas refeições aqui, nessa mesa. É. Infelizmente não como faz dias. A última vez que mastiguei algo foi há três ou quatro dias, um pedaço de pão, velho e duro. Tão duro que meu dente caiu. Mas enfim, o que senhor veio fazer aqui?
    Veio me buscar? Mas como assim, me explique, por gentileza? O senhor é a morte! Eu não sabia que a morte tivesse um rosto? Mas o que eu fiz de errado para o senhor vir até mim? Sofri muito na vida! Passei fome! Perdi meus pais quando era apenas um menino que vestia calças curtas e camisa de lã. Você deseja acabar com o meu sofrimento? Não sabia que a morte era assim, tão apressada. Posso ser pobre, mas estou cheio de saúde.
    Como assim a minha saúde vai mal? Sinto fortes dores no peito, mas isso não deve ser nada. Provavelmente é devido ao esforço que tenho feito ao carregar aquelas caixas de maçã lá na feira. Eles pagam pouco pelo serviço, e na minha situação qualquer trocado é bem vindo, pena que não dá nem pra comprar um mísero pãozinho. Em vez de me levar embora, bem que o senhor poderia me dar um pouco de pão e água.
    Para onde o senhor quer me levar tem comida a vontade? Sério? E lá eu não vou passar fome? Há deve estar de brincadeira comigo?! Está falando sério? Bem, se vai ser melhor pra mim, se não vou mais passar fome e frio. Ok! Se for bom pra mim eu aceito.
    Quando vamos? Agora! Mas espere, preciso arrumar as minhas coisas, avisar os poucos que ainda restaram da minha família. Como assim não precisa? Quem é que vai contar a eles da minha partida? Tudo bem, eu entendo. Vamos então!
    Nossa! Aqui é calmo demais, tudo muito quieto por sinal. Na Terra eu me acostumei com os barulhos do dia a dia, as buzinas dos carros, as sirenes das ambulâncias, os gritos dos desesperados, e as rodinhas dos jovens. Mas nesse lugar tudo é tão calmo, sem graça. Perdoe-me, mas a vida nesse lugar deve ser entediante.
    Há tá legal, eu vou me acostumar com o tempo, com o passar dos dias tudo vai ser diferente. Olha lá, eu vou confiar no senhor.
    O senhor já vai embora? Fique mais um pouco, precisamos conversar. Quem é que vai me ensinar sobre a vida aqui no outro lado? Entendi. Vou aprender sozinho, porque tudo na vida é questão de aprendizado, inclusive na morte.
  • Acontece

    Nasci uma centelha divina
    Não tenho culpa se, às vezes, a vida estragou
    Como ela estragou, também estraguei, já emendei
    Nisso, a culpa foi minha.


    Poema do meu primeiro livro de poesias, Átomo, lançado em dezembro de 2018, com prefácio de Rafael Cortez e apresentação de Thomas Pescarini e disponível em formato físico e ebook na Amazon.
  • Acredite em você

    Acredite em você, você tem um potencial incrível, capaz de mudar toda sua realidade, e das pessoas a sua volta, sim você tem todo esse poder, muitas vez por medo ou insegurança não sabe como usar, ou medo de tudo da errado, porém quando saimos da zona de conforto tudo se torna possível, temos um mundo gigante em oportunidades a nossa espera !
  • Afrodite

    Sensualíssima

    Tecido e corpo

    Quero sentir o sabor

    Que o seu tecido esconde.


    Poema do meu primeiro livro de poesias, Átomo, lançado em dezembro de 2018, com prefácio de Rafael Cortez e apresentação de Thomas Pescarini e disponível em formato físico e ebook na Amazon.
  • Antecedente da cicatrização

    Como quando a orelha inflama porque o brinco estava um pouco sujo; ou quando colamos o curativo adesivo que fixa na pele de modo a puxar todos os pelos na hora de sair.
    Mesmo sabendo que no fim iria doer, provoquei. Botei o brinco pra inflamar, colei o curativo pra fazer doer. Queria viver aquilo, nem se fosse por míseros segundos, minutos, horas, dias. Nem sei mais quanto tempo passei imersa naquela banheira de espumas.
    Corria cada vez mais só pra vê-la. Queria era socorro, socorro da própria situação. Socorro de mim mesma. Mas por mais rápido que eu o fizesse, não a alcançava. Dormia sem conseguir descansar. Não sabia como evitar, como não sentir. Era, humanamente, impossível fechar o peito para aquela que, outrora, me visitava com flores e com pele macia a me acariciar.
    Deitada sobre seu peito sentia que a perdia. Procurava sua mão. Meus dedos se entrelaçavam nos dela, mas os dela no meu. Ficava ali parada até o momento em que escorria pelo meu corpo. Indo embora sem dizer adeus.
    Enquanto eu souber que a ferida não será fechada por completo, vou levando. Empurrando com o resto de forças que sobrara do restante da minha alma, que jorrava água escura, afim de fugir do precipício que eu mesma criara.
  • Apesar de tudo, eu te amo

    Apesar de tudo que passamos, de todos os erros, eu ainda te amo.
    Você talvez não saiba disso, dos meus sentimentos, dos meus pensamentos e das minhas sensações. 
    Mesmo depois de tantas coisas, depois de te ver com um "relacionamento sério" com outra no facebook, de após o término eu está lá, ao seu lado, depois de te ver ficando com outra na minha frente, eu ainda estou aqui, por que eu te amo, e a única coisa que eu quero é te ver feliz, estar ao seu lado a todo momento, mesmo que você não me escolha pra ser sua namorada, eu vou estar aqui.
    Eu tento superar, juro que tento fazer esse sentimento sumir.
    Eu tento conhecer outras pessoas, eu tento sair e me relacionar com elas mas, no final, eu posso está com elas fisicamente, mas meus pensamentos sempre estarão em você. 
    Do que adianta eu tentar sair com outras pessoas que não são tão interessantes como você é para mim? e se no final eu sempre vou pensar "não é ele, não é a mesma sensação, não é o mesmo toque, não é o mesmo beijo, não é ele".
    Eu chego em casa devastada e sempre pensando em você, no teu beijo, pensando no que eu errei, no que eu podia ter feito para que o "nós" desse certo e se tornasse real, se eu deveria me entregar mais, demonstrar mais, te chamar pra sair mais vezes, conversar mais, te mandar algumas das minhas cantadas bobas que eu sei que você adora, ou dos meus memes e piadas sem graça.
    Eu só queria uma resposta pra minha incerteza, eu queria saber o que você sente, no que eu posso melhorar, no que eu errei.
    Talvez o erro não seja eu, mas eu não tenho certeza.
    Eu quero ficar aqui com você, te ajudar no que posso, tentar te segurar, fazer piadas só pra te ver sorrir.
    Eu só quero que você saiba que dentro de mim existe um sentimento vivo, eu vou está aqui mesmo depois de perceber que nós nunca vamos dá certo, mas no final eu sempre vou te amar.
    "Eu quero você sem garantia e com defeito pra nunca mais te devolver."
  • Aprisionados em nossos pensamentos

    Aprisionados em nossos próprios pensamentos de derrota mais profundos,não conseguimos nós soltar para coisas grandes alcançar
  • Arroz com feijão [conto]

    Rafael estava com um problema com seus pais: eles descobriram que ele fumava maconha. O jovem vacilou com uma ponta no carro, e depois que sua mãe abriu o carregador de 12V para plugar o celular, e se deparou com aquele celofane do diabo, o garoto especial já não era tão especial assim. Na verdade era um problema. Aliás, vários problemas. “Quem pois aquela porcaria na boca dele?” “Será que ele está só nisso?” “Onde nós erramos?” Dr. Sampaio e a Sra. Sampaio estavam apavorados. Em estado de choque. A sujeira tinha chegado em casa. Era o primeiro sinal do fim dos tempos.
    Estava tudo abalado. Admiração. Confiança. Futuro. Quando eles chegaram em casa, colocaram aquela ponta na mesa da sala e olharam para Rafael, seu pai foi eloquente: “Não me venha com esse papo de é de um amigo.” “Você fumou isso no carro?” Foi o primeiro questionamento da chorosa Sra. Sampaio. Rafael estava sendo crucificado, e assim como Jesus parecia querer aquilo. Ele olhava para uma e para o outro com o desdém com que Pôncio Pilatos lavou as mãos. Como quem não tem nada para dizer.
    A postura era ultrajante. Inaceitável. “Também não é nenhuma novidade. Olha só para você.” “Depois que começou a faculdade você virou outra pessoa.” Era uma mistura de negação com raiva. “Você não tem nada para dizer?” Que tinha sido um erro. Que estava arrependido. Que não ia acontecer de novo. Que aquela droga maldita tinha pegado ele num momento de fraqueza e com a ajuda de Deus ele ia se livrar daquele terrível mau. Os dois topavam escutar qualquer coisa que soasse como um mea culpa. Assumir é sempre o primeiro passo.
    “Como assim não significa nada?” Significou muita coisa quando Césinha, o primo da Sra. Sampaio, foi preso com dezoito anos fumando maconha na praça. Foram cinco anos de cana. Nunca mais ele se recuperou. Significou muito para o Tio Joe, que começou assim e hoje é viciado em crack. “Que mané planta. Que outros tempos coisa nenhuma.” Vai pra cadeia sim. Não tem essa. É crime. Contra a lei. Vicia. Mata. “A única coisa que mudou  aqui é que você está metido com essa merda.” É coisa de vagabundo. Ninguém nunca viu alguém de bem envolvido com isso. Era como se o apresentador no jornal da noite estivesse narrando a verdade mais verdade de todos os tempos.
    Estupefata era o verbete que melhor definia a Sra. Sampaio. “Me diz que você não vai fazer mais isso, por favor.” Rafael olhou para o outro lado. O Sr. Sampaio bufou. “Conversa com a gente.” Implorou a mãe. E ele dizia: “Eu não deixo de fazer nada por causa disso.” Era um dos primeiros da XXVIV Turma de Biologia da faculdade, tinha um bom estágio, planos. Isso era só diversão, no fim do dia, como uma cerveja. “Como assim?” Não é simples assim. “Você vai precisar de mais, e mais e mais.” Não dá para controlar. É droga. “Em muitos lugares já é legalizado.” “Mas aqui não.”
    Conversa vai, conversa vem. “Meu filho, você não precisa disso.” Agora já parecia possível que o garoto especial fosse um especial com asterisco. “Como eu vou poder ficar tranquilo sabendo que você está por aí com drogas?” O Sr. Sampaio apelava e demonstrava amor ao seu jeito tosco. “Onde você vai para comprar essa porcaria? Olha o tipo de gente que você está se envolvendo.” Se as leis não servem aos interesses da sociedade, ou se as políticas públicas favorecem confrontos sociais, “não são assuntos para serem debatidos em casa”, entre uma família que tenta salvar sua cria. “Isso não é problema seu. Você tem que trabalhar,” finalizou o patriarca.
    Minutos de silêncio. Agonia. Choramingos. “Isso é só uma fase” era a frase que piscava em um luminoso de neon que brilhava dentro da cabeça da Sra. Sampaio. “E enquanto você tiver nessa fase vai ter que se virar sozinho” era a reação que parecia óbvia para um pai, segundo as convicções do Dr. Sampaio. “Tudo bem”, era a forma mais rápida que Rafael via de acabar com a contenda.
    Uma pulga saltou de trás da orelha da Sra. Sampaio gritando: “ele vai embora de casa, ele vai embora de casa.” Dr. Sampaio não se oporia. “Tome um banho que vou arrumar o jantar”, disse a matriarca na esperança de restaurar a harmonia e a família. Rafael levantou e foi para o quarto. O pai olhou para mãe com cara de preocupação, depois ligou a TV. Ela foi para cozinha preparar o jantar.

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