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Aventura

  • caçadores da meia noite (capitulo 8)

    Depois do conflito na caverna, Sauron caído todo molhado no chão, por algum motivo tudo parecia tão normal, que de alguma forma chegava deprimir Edward, todos os dias ia dormir esperando umas de suas visões, mas elas não viam era como se tivessem abandonado ele, isso de certa forma o deixava frustrado, pois sentia que todos esperavam ele falar alguma coisa, alguma pista, qualquer coisa, mas não tinha nada para falar e nem se lembrava de seus sonhos. O garoto numa certa manha levantou e então abriu sua mala, ficou a manha toda caminhando na vasta fauna cheia de criaturas misteriosas, nunca tinha ido tão longe, estava num campo aonde tinha vários cavalos alados comendo a grama verde e fresca da manha, ele se sentia um fracasso será que sua grande habilidade rara o deixou na mão depois de tantos conflitos para achar as relíquias.
    Muitas vezes ele puxara o velho relógio que ainda não mostrara para ninguém queria saber o que o necromante queria e porque ele não consegue, esse velho relógio enferrujado teria algum valor para Merlin ter escondido ele, sua cabeça novamente tinha se enchido de perguntas e sabia que existia apenas um homem que poderia respondê-las, mas depois da batalha que ele teve, não o viram, mas, havia boatos que o grande mago tinha abandonado eles, ou que ele entrou em depressão com a sua perda. Mas a culpa não seria dele e de, mas ninguém, ou talvez seja apenas de Edward se ele não tivesse falado a onde encontrar, todos falavam que a culpa não era dele, não sabia quem era o traidor. Os dias foram se passando tão devagar e todos os dias Ed fazia lago diferente, às vezes estava dentro da mala, ou na biblioteca, ficava horas la procurando alguma pista nos livros que foram salvos , quando se viu se passou um mês , e a única coisa que tinha eram boatos , e noticias de mortes misteriosas e não era apenas isso , todos estavam pronto para o começo de uma guerra , ficavam de guarde esperando o necromante vir mas ele não via talvez ainda esteja fraco .
    A noite finalmente chegou e o garoto se isolava ainda, mas, lembrava muito o orfanato que ele tanto odiava, todos la olhavam para ele como se fossem uma aberração , não tinha culpa nenhuma de ser um bruxo e eles não , não tinha culpa de der uma habilidade rara , não tinha culpa de conseguir enxergar estranhar criaturas , depois de um tempo refletindo deitou se na sua cama e fechou os olhos com força e mentalmente falou para si ‘‘ vamos , só uma visão’’ mas ela não venho , virou se para um lado e depois para outro e viu que ate o sono tinha abandonado ele , resolveu levantar e ler mas um pouco de um velho livro rasgado sobre relíquias , sentou se na escrivania , abriu o livro e folhou ele devagar passando por varias figuras ate que parou numa espada , cheias de rubis e com uma lamina negra , seu cabo era de prata , nunca viu uma espada assim antes ele a tocou a figura com o dedo e sua mente parecia ter entrado no livro .
    Estava em um corredor escuro e ao longe avistou uma porta, uma enorme porta cheias de símbolos estranhos, ele olhou para trás e não havia nada, virou se para a porta e caminhou lentamente, e ao chegar nela, notou que tinha se afastado, mas, a porta estava, mas longe, caminharam novamente tanto longos passos e ao tentar encosta na porta, ela se afastara novamente, ele parou tirou seu chapéu e começou a coçar sua cabeça, e então notou que tinha longos cabelos brancos, olhou para suas mãos e viu seus dedos enrugados e velhos, isso tudo era estranho, mas sabia o que tinha que fazer, colocou as mãos dentro de seu chapéu e tirou um velho relógio novo em folha.
    Ele observou o relógio e então apertou suavemente no botão do meio, começou a caminhar novamente e por algum motivo a porta ficou no lugar, ele se aproximou finalmente, mas não fez nada, apenas olhou os símbolos e tirou a varinha e fez um movimento como se tivesse desenhando e a porta abriu. Ali dentro era escuro não havia uma luz para iluminar o lugar, ele deu um passo para entrar ali dentro, mas de repenti tudo ficou deformado e ele estava se afastando do lugar. o garoto estava de volta em seu guardo e ao seu lado estava Sauron olhando curioso para ele o velho mago perguntou.
    - você esta bem – Ed sorrio para ele
    -  estou sim , tive uma visão – Sauron olhou para a imagem do livro e então o perguntou
    - qual era a visão.
    - eu estava num corredor, e no final havia uma enorme porta – o garoto parou ao notar, mas, olhos curioso espiando ele e Sauron
    - bom vamos ao meu escritório – Sauron se levantou e Ed saiu de atrás dele
             Os dois saíram do guardo e caminharam pelo vasto corredor, subiram as escadas e finalmente entraram no escritório de Sauron, estava tudo bagunçado, o que era estranho, pois havia saído havia dias e seu escritório estava bagunçado, Sauron fechou a porta deixando os olhares curiosos com a vista da porta marrom, virou se para Ed e então retomou o assunto.
    - qual era sua visão mesmo – Ed sentou na cadeira e começou a contar detalhe por detalhe
    Ele não parecia impressionado com que o garoto tinha lhe contado, mas mesmo assim deu gargalhas, como se aquilo fosse uma piada, ele então levantou e falou o significado de sua visão.
    - algo curioso, desculpe pelas minhas gargalhas – falou o homem – o que você de viu de fato e uma pista importante – ele pegou seu cachimbo – estou procurando aquilo faz tempo.
    De fato nunca pensei que um velho livro poderia realmente fornecer a pista certa, aquela espada não e qualquer, e a espada de Merlin, ele a escondeu aqui também junto com suas relíquias ela tem o poder para destruir, e isso também um fato curioso, você por acaso consegue ver visões do passado. Sauron explicou tudo o que Ed precisava e por fim pediu para não contar a ninguém, pois aquilo era de fato uma pista, mas não ajudaria encontrar o lugar, Ed saiu e foi atacado por Afonso, Leonardo e feure( a garota de cabelos brancos ) o garoto falou sobre a conversa que teve com Sauron , claro que tinha inventado a maior parte , ficaram oras conversando e Ed pareceu voltar a ser social novamente , no dia seguinte foi acordado pelos gêmeos que treinavam feitiços  junco co feure . Ed começou a participa e de fato aqueles seriam seus primeiros amigos que fez, deixou de lado a biblioteca e a mala e começou a acompanhar los em seus afazeres triviais, o garoto que se isolava agora estava em uma mesa comendo junto com os outros.
    Ma dias se passaram e novamente Sauron sumiu do mapa, não havia noticias dele, mas Ed não se importava não teve, mas nenhuma visão começou a visitar a fauna diariamente. Tentou fazer amizade com o centauro chamado durorim, mas seus esforços foram em vão o único que acompanhava ele era a pequena criatura de olhos amarelos que se parecia muito com um graveto, Ed caminhou pela floresta e começou a sentir uma dor de cabeça que ficava cada vez, mas forte, nem notou que tinha saído da floresta, caminhava com a mão na cabeça. Aquela dor parecia que ia mata lo aos poucos, como se alguém pegasse um martelo e batesse na sua cabeça com toda a força que tinha, o garoto caiu no chão e a pequena criatura em seu ombro se apavorou com o desequilíbrio repentino. Ele fechou seus olhos e tudo ficou escuro, vio um homem que não tinha rosto, ele voava junto com um exercido de criaturas encapuzadas ao seu lado, ele destruiu tudo em sua frente, soltava gargalhas pavorosas, ele parava muitas vezes no ar para admirar o anel vermelho com verde. Ele olhou para Sauron sangrando e então o apontou o anel e saio um raio diretamente para ele, mas antes de acerta o garoto que estava caido no chão acordou todo suado, e levantou apavorado, seus pés tremiam como na vez que fora atacado pelas criaturas encapuzadas, ficou ali parado por um tempo, e sorrio , bem em sua frente havia uma porta igual a de sua visão , ela estava aperta .
    Ed não hesitou ao se aproximar e quanto tocou nela nada aconteceu , ela não se afastou , parecia o deixar ele entrar, e foi isso o que ele fez entrou ali dentro caminhou pelo corredor iluminado por tochas e ao longe viu a porta fechada cheios de símbolos estranhos, ele ia caminhado, mas, e por algum motivo inesperado ele parou em meio ao caminho, notou o que Sauron procurava estava bem debaixo de seu nariz o tempo todo , mas como apareceu la nem ele mesmo sabia , ficou em duvida se deveria avançar ou voltar , devia voltar em contar para Sauron e seus amigos ou devia avançar e chegar com a espada em sua mão , veria o sorriso de Sauron , ele o agradeceria , todos bateriam palmas para ele , pela sua descoberta pois estaria com a espada que poderia destruir todas as relíquias que Merlin deixou na terra.
  • Caçadores de emoções... e aventuras

              O Estúdio Armon está se firmando como um dos maiores expoentes do mangá nacional. Sem desconsiderar iniciativas anteriores, e outros quadrinistas independentes, a Revista Action Hiken acabou reunindo uma Geração de Ouro dos mangás brasileiros no século XXI. Digo isso não por preciosismo, mas pelo fato do grupo não apenas publicar de modo impendente, mas manter uma frequência e aumentar sua qualidade e quantidade.
              Um desses mangakás a ganhar uma vaga na publicação é o Israel Guedes. O autor publicava o mangá T-Hunters em um aplicativo online de webcomics, mas quando passou a publicar na Action Hiken n. 43, junho de 2019, aumentou em muito a visibilidade do seu título. Foi uma decisão acertada do autor, e da antologia, que teria mais uma ótima série. O Israel é bem experiente e demonstra ter uma grande maturidade profissional.
              Após a morte de seus pais, Hanako “Hana” Hanajima acaba fugindo de casa para se salvar. O assassino matou seus pais a sangue frio. Não restou nada a jovem, de apenas 10 anos. Em contrapartida, temos o protagonista o Ken’ichi “Ken” Akamatsu. Esse jovem de apenas catorze anos está atrasado para o funeral da sua irmã mais velha. Ambos tinham uma boa relação, mas também um conflito de personalidades, pois, ela era alguém muito altruísta, já o Ken é um pessimista.
              Antes de chegar ao funeral, acidentalmente, acaba em meio a uma luta entre um Treasure Hunter (T-Hunter) e um caçador de recompensas. O T-Hunter o salva, e o caçador foge após ser ajudado por uma misteriosa companheira. A partir desse momento, uma série de acontecimentos irá unir os destinos de Ken e Hana. O personagem irá descobrir uma guerra entre poderosas organizações secretas, magias e cidades misteriosas.
              A primeira coisa que me chamou atenção nesse mangá: o traço. Olhando pela capa, você acha que vai ler algo meio shoujo, mas o autor não poupa em violência gráfica. Nada de autocensura aqui, até me impressionei com a veracidade da violência. O desenho tem boas referências, os traços são grossos, pesados, mas ainda assim dinâmicos. Me lembra mangás mais adultos.
              A página tem muitos quadros, o autor apela para closes e planos detalhes. O traço é seinen, a diagramação é shoujo, o mangá é shonen. Eu achei uma escolha acertada. Em paisagens, ou melhor, ambientes externos, o desenho é pouco detalhado, passando as informações necessárias. Os personagens se destacam muito em relação ao cenário. Já os personagens, sempre são detalhados em cabelos, roupas e adereços. Cada um tem seu próprio visual. O Israel faz bom uso das retículas, agregando em contrastes.
              O volume 1 possui cinco capítulos. Os dois primeiros oferecem alguma ação, os outros três, os quais o mangaká chama erroneamente de “capítulos de transição”, buscam apresentar protagonistas, o mundo e suas possibilidades. Sendo assim, o correto seria dizer que ainda estamos num volume introdutório. Teríamos transição se estivéssemos perto de uma segunda saga ou arco narrativo, o que não se configura.
              Como de praxe em muitos mangás shonen, a idade dos personagens parece destoar do físico deles, sobre o Ken e o Chiru, você até entende, mas o Satoshi só tem oito anos, parece bem mais. A personalidade do Satoshi também parece muito adulta para um personagem de oito anos, achei pouco factível. Já no que diz respeito a Hana, eu gostei do tratamento dispensado. Inclusive, ela tem um ótimo potencial narrativo.
              O autor tem boas referências no CLAMP e Hiroyuki Takei, não só em desenho, mas também no roteiro. Optou por conduzir a trama inicial através de conflitos internos e interpessoais. Uma ação minimalista. O artista empregou muito bem a personalidade de cada um em suas expressões faciais, gestos e modo de falar. A obra possui diversas críticas sociais impregnadas, basta uma leitura cuidadosa e você a verá.
              Entretanto, minha crítica é que depois do capítulo 2, apesar de já termos um conflito anunciado, não senti uma sensação de perigo tão iminente. Parecia que o núcleo principal fazia turismo. É uma série que vai investir em mistério e aventura, conflitos psicológicos e de personalidade, mas esperava que as situações dos capítulos 1 e 2 oferecessem um pouco mais de desconforto aos protagonistas no restante do volume.
              O Israel Guedes fez um ótimo mangá. Se passa totalmente num universo ficcional alternativo, muito semelhante ao atual Japão, talvez para receber uma melhor aceitação do público. Bem poderia acontecer em qualquer lugar através de sua dinâmica e mitologia. Muita coisa a ser abordada. O autor em experiência em desenhar e narrar, é professor na escola Japan Sunset, possui um canal no YouTube chamado Canal do Izu.
              Ele é bem crítico de obras japonesas e faz um estudo de desenho e narrativa deles, mas também é autocrítico e otimista, duas qualidades que admiro muito em qualquer artista. O mangá possui mais de 180 págs., orelhas, galeria de fanarts, making of do desenvolvimento. Veio com marca página exclusivo.
  • Caçadores de Urso - Um Conto Nórdico

    Sonreike já se via na escuridão por tempo demais. Apenas os fogos das chaminés aqueciam os homens, apenas a lua e as estrelas iluminavam o chão. A lua, agente das trevas. As estrelas, mensageiras do Sol. Não se via por todo reino qualquer sinal das belas árvores que enfeitavam os campos e alimentavam os homens de frutas. Como poucos, os pinheiros da Praça Central continuavam verdes e robustos, provendo pinha e beleza a uma visão sem cor e sem vida. O uivo dos lobos para a maldita lua completava a melancolia daquela terra sem luz.

    Os ursos brancos eram o maior símbolo da força no mundo dos homens. Os bearjagare, soldados de elite do Rei, provavam a força dos homens derrotando as grandes bestas brancas. Desde a unificação do Reino, os ursos têm sido os únicos inímigos de Sonreike. Mas nesse Solstício, os guerreiros-deuses terão que enfrentar a própria morte encarnada.
  • Caçando demónios por aí

    Certa vez, enquanto lia a Revista Action Hiken, descobri um shonen de traços bem legais. Mas quando comecei a ler, me deparei com uma linguagem formalista. Um português truncado e de leitura arrastada. Eu achei os diálogos engraçados. Juro, as vezes eu tinha que ler duas vezes para entender. Por um momento, levando em consideração o contexto da história e os personagens, achei que deveria ser um elemento narrativo.
              Pesquisando um pouco mais sobre o mangá Demon Hunter, e o seu autor, o Diogo Cidades, descobri que se tratava de um jovem mangaká português. Aí sim ficou claro aquele modo de escrever tão distante de minha realidade. Convenhamos, salvo raras exceções, somos todos coloquiais. A península Ibérica é um celeiro de mangakás. Espanha e Portugal tem diversos talentos nesse estilo de desenho, o Diogo é um deles.
              Demon Hunter possui caracter designer que se encaixa perfeitamente em sua proposta: entreter. Confesso que os traços me remeteram automaticamente ao autor Hiro Mashima. Um desenho simples, mas dinâmico, caricato e de expressão cômico. Mais que simpático, funcional. É um shonenzão, e isso é bem positivo, levando em consideração a antologia em que está sendo publicado e o público alvo.
              A história se inicia com um acampamento de May Lionheart e um amigo, que estava cheio de más intenções. Infelizmente, naquela floresta e àquela hora da noite, eles acabam se separando. Para piorar de vez a noite de terror, acabam sendo atacados por um capeta dos zinfernos, ou como os portugueses dizem, um demónio. Nesse momento, surge nosso protagonista de cabelos prateados e salva a noite, Mike Seikatsu, o caçador de demónios.
              Depois disso, a May é levada pelo Mike até o mosteiro onde vive. Lá, só habitam ele e o seu avô, o Mayuge Seikatsu, um velhote safado, pra variar. Ao longo dos cinco capítulos, vemos o desenvolvimento da amizade entre ambos os protagonistas. Uma relação cheia de química, com direito a alguns echis, nada exagerado, viu crianças! É um quadrinho sincero em sua violência, afinal, são demónios a serem combatidos.
              Mas, se eu tivesse que tratar de um ladrão de cena, bem, esse é o Steve, o macaquinho cozinheiro. A cena da luta entre Steve e Mike é impagável, e provocaria elevação de ânimos entre ambientalistas. O autor desenvolve bem as personalidades ali presentes, lhes dando profundidade, sem cair na exposição desnecessária de muitos shonen. Ele vai com calma, sabe onde está indo, e isso te empolga a descobrir mais.
              Pouco do universo foi apresentado no vol. 1, mas podemos ver ali uma série de mistérios, que, se bem desenvolvidos, trarão ótimas reviravoltas dentro de seu universo. Por exemplo: qual a origem dos poderes do Mike? Porque os demónios se transformam em pérolas ao morrerem? Quem controla esses seres? Enfim, teremos uma longa saga a ser acompanhada.
              A decisão dos editores de adaptarem alguns termos da escrita do Diogo Cidades, foi uma ótima decisão. Ajudou muito. Os países lusófonos, como Brasil e Angola, falam português oficialmente, mas, possuem uma variação muito complexa. Deve ter dado trabalho adaptar a linguagem para ambos os leitores de ambos os países, deixou a escrita mais fluída sem perder o seu sotaque português.
              Teve só uma coisa que me incomodou no mangá: onomatopeias. Em alguns quadros, são grafadas em caracteres latinos, em outros, em japonês, noutros, aparecem em japonês e latino! Tá meio bagunçado isso aí. Tem que padronizar. Isso gera uma cacofonia visual. Sem contar que deve ser difícil ficar mudando a editoração a cada página ou capítulo, perde-se muito tempo nisso. Embora, não atrapalhe a leitura de ninguém.
              Sobre o desenho do Diogo Cidades, ele tem boas influências e vem de uma boa escola de estilo. Alguns desenhistas evoluem ao longo de anos, outros a cada obra, alguns ainda por capítulo, o Diogo evolui a cada quadro. Sério, o traço do cara evolui proporcionalmente a cada virada de página. Muitas vezes, quadrinistas como os da Action Hiken é o que não encontramos em algumas antologias japonesas semanais.
              Fiquei mais que satisfeito em conhecer esse mangá luso-brasileiro — espero que o autor não veja problema nisso, afinal, é produzido em Portugal, mas é editado e publicado no Brasil. A obra tem mais de 140 páginas, orelhas, galeria de fanarts e curiosidades da produção. Senti falta das páginas coloridas, mas, entendi os motivos, encareceria a produção. E sobre a qualidade gráfica?
              Olha, serei sincero com vocês, se outras editoras tivessem o mesmo esmero em suas publicações como o Estúdio Armon, teríamos HQs melhores produzidas na estante. O projeto gráfico e a impressão estão excelentes. Nada de off white xexelento. A capa, a lombada, a colorização, gente, tá tudo muito bom. O único defeito do negócio, é que ainda não temos previsão do volume 2. Parabéns ao Diogo Cidades e ao Estúdio Armon.
  • Caia sete, levante oito vezes!

                Qual o limite entre autor e obra? Muitas vezes, não vemos determinismo entre “criador” e “criatura”, mas um estranha e até mesmo simpática inter-relação. Masashi Kishimoto com Naruto, representa sua fase inicial de carreira, alguém rejeitado, mas com um grande potencial que só queria se divertir com o que mais gostava. Samurai 8 – Hachimaruden mostra um autor consciente, porém debilitado pelas barreiras autoimpostas, mas que ainda assim se direciona a um sonho.
                As diferenças não param por aí. Naruto é uma fantasia urbana com doses de guerras épicas, que ao longo do tempo desbanca para a alta fantasia. Samurai 8 – Hachimaruden é uma mistura de histórias de samurai, cyberpunk e space opera numa deliciosa excêntrica mistura que só os mangakás sabem fazer. Mas porque comparar? Para que julgar o novo usando as medidas do velho? Vejamos o que esse samurai pode fazer!
                Aconselho a todos a lerem o capítulo zero. Nele teremos a dose de mistério e empatia pelo protagonista. O jovem Hachimaru é uma criança ciborgue que vive conectado a uma unidade de suporte vital, uma grande máquina que impede sua morte. O garoto tem condição debilitada devido as alergias e uso de próteses no lugar do braço e da perna esquerda. Sem contar a sua aicmofobia, medo de objetos perfurantes.
                Suas únicas companhias são um cachorro robótico chamado Hyatarou e seu pai, um inventor e seu “enfermeiro particular”. Logo no capítulo zero, nós temos vários elementos que poderão ajudar o leitor a se decidir se lerá ou não o novo mangá. Mas recomendo que o leitor não seja precipitado, e avance para o capítulo 1. É nessas 72 páginas, algumas delas coloridas, que veremos todo o potencial a série.
                Não espere aqui encontrar protagonistas cheios de energia ou poderosos logo de cara, o desenvolvimento do personagem se dá de modo lento e gradual. Com nuances, camadas de shonen intercaladas com drama e ficção científica. Para Hachimaru, se livrar de suas fraquezas é tão relevante quanto poder ter uma vida normal, mas o seu maior sonho é se tornar um samurai, aqueles que estão acima dos guerreiros.
                No capítulo um, o protagonista aprofunda sua condição degradante ao leitor. Quase pessimista. Chegamos a sentir as limitações de Hachimaru na pele, e como se refugia na tecnologia. É um dos poucos mangás com inserção de pessoas com necessidade especiais que já vi na vida. Sua relação com seu pai é conflituosa, e ele será o estopim da evolução de Hachimaru, claro que de modo inconsciente.
                Um encontro inesperado com um gato robótico chamado Daruma, que já foi humano, revelará os potenciais latentes do pequeno Hachimaru. O antagonista da obra, não direi “vilão” ainda, não tem nome, embora tenha marcado grande presença num primeiro capítulo tanto com sua personalidade e poder de luta. Sua inserção na trama foi eficaz e preparou terreno para muita coisa.
                Samurai 8 – Hachimaruden tem roteiros de Masashi Kishimoto e desenhos de Akira Ohkubo. O traço de Akira difere do traço mais realista e sóbrio de Naruto Shippuden e do traço mais arredondado de Mikio Ikemoto de Boruto – Naruto Next Generation. Seu desenho é limpo e plástico. Confesso que o designer das tecnologias pode causar estranheza, tem algo biotecnológico envolvido, é simples, mas funcional.
                O autor prometeu uns dez volumes da obra. Bem sabemos que promessa de mangaká não se deve levar em conta, principalmente os famosos e os que trabalham na Shonen Jump. Esses dez volumes podem virar mais de 50 exemplares fácil. Vocês acham que para salvar a galáxia atrás de sete chaves é vai levar quanto tempo? Espero que tempo suficiente para Masashi Kishimoto desenvolver uma história sem os vícios de seu mangá antecessor e possamos ver a evolução da bela arte de Akira Ohkubo.
  • CAPÍTULO 1 - Finn

    Uma coluna vertical de fumaça cobria o pôr-do-sol e eu tentava não prestar atenção nela. Não dava atenção aos murmúrios a minha volta apesar de estar ciente de que a qualquer momento meu corpo também poderia responder ao que estava ocorrendo. Respirei fundo e continuei contemplando o brilho alaranjado do sol que se deitava atrás das montanhas. Aquela era a hora perfeita para o que estava acontecendo.
                Olhei de relance para baixo e vi a palha se contorcer e mergulhar nas chamas. Sobre ela, entre vários pedaços de madeira, havia cinco corpos que pouco a pouco se tornavam cinzas e memórias. Eu devia estar de joelhos, meus olhos deviam estar queimando como os olhos de todas as vinte pessoas que estavam a minha volta, mas aquela não era a primeira vez, e com certeza não seria a última, em que eu cremava corpos de pessoas tão jovens.
                O mundo era assim. Todos os dias ouvíamos notícias de mais e mais mortes espalhadas pelo país e pelo mundo. Costumávamos ser uma grande família, eu e todos aqueles que se refugiavam nos campos de Brighton. Hoje não chegávamos sequer a trinta.
                Eu cresci em um mundo diferente. O mundo após o mundo. Pessoas diziam. Nada mais era como costumava ser na época de nossas tataravós. As pessoas na minha época matavam sem motivo, destruíam umas às outras, arruinavam vidas. Tudo havia mudado. O clima não era mais o mesmo, era extremamente quente e sufocante ou cruelmente frio. Em alguns lugares o ar era corrosivo de uma forma que quem o respirasse começava a vomitar sangue em segundos. A terra era traiçoeira, alguma coisa embaixo dela havia crescido, havia relatos de pessoas sendo engolidas sem deixar rastros. Os oceanos agora eram uma zona morta. Nada, nenhuma sonda ou qualquer outra coisa podia mapear os mares e descobrir o que vivia nas profundezas, era como se um tipo de sistema de segurança protegesse a vida marinha da interação humana. Os animais eram ferozes, muitos foram extintos, mas os que surgiram depois fizeram das regiões remotas um lugar inabitável.
                Tudo isso graças ao metal.
                Meu pai um dia me contou sobre a mudança pela qual o mundo passou. Tudo isso ocorreu quando Mercúrio, o Planeta mais próximo do sol, entrou em colapso e milhares de meteoros caíram sobre a Terra.
                Naquele dia o mundo conheceu o apocalipse. Segundo ele, que ainda era criança na época, as maiores potencias do planeta desmoronaram como um castelo de cartas. Os Estados Unidos foram afetados por grande parte dos meteoros, o Canadá foi varrido do globo em minutos, assim como a America do Sul, parte do continente Africano e da Ásia. Cinquenta por cento da Rússia virou uma pilha de destroços e a humanidade por pouco não foi dizimada.
                Dias depois do apocalipse, com o caos que tomava conta do planeta, algumas das potencias que ainda permaneciam intactas: Estados Unidos, Rússia, África, França, Inglaterra e China perceberam que precisavam unir todo seu poder se quisessem salvar o mundo da ruína. Foi com essa união que nasceu o Ristrad. Uma organização que tratou de resgatar todos os que ainda estavam vivos e cuidar para que pudessem recomeçar suas vidas.
                Mas como recomeçariam suas vidas se tudo o que conheciam havia sido destruído? Em que lugar viveriam?
                Foi com essa necessidade que o Ristrad descobriu que aquela chuva de meteoros havia trazido para a Terra um tipo de metal altamente maleável. E havia uma fonte ilimitada dele em cada fragmento de Mercúrio caído na Terra. Foi com esse metal que o Ristrad reconstruiu o mundo. Eles o chamavam de Ciner, um metal indestrutível jamais visto em qualquer lugar do mundo.
                Segundo meu pai, em poucos anos o mundo havia renascido e a humanidade caminhava para um futuro.
                Só que não foi o futuro que imaginavam.
                Havia algo no metal que começou a afetar toda forma de vida no planeta, principalmente os humanos. Pouco a pouco as pessoas começaram a ser tomadas pela ganância, logo em seguida pela ira até chegar a um desejo incontrolável de matar. Nem todos eram afetados, era como se o metal soubesse quais pessoas tinham tendências homicidas e conseguia extrair o pior de todas elas.
                Com o planeta mudando, muitas partes do mundo se tornaram inabitáveis. E com as pessoas matando umas às outras nas ruas o Ristrad precisava tomar providencias.
                Foi neste momento, quando eu tinha seis anos de idade, que o segundo apocalipse ocorreu. Foi quando o Japão surgiu com a promessa de que poderia acabar com o caos. Foi apresentada ao Ristrad uma empresa armamentista conhecida como Amisix, liderada por um americano, Magno Carnalis, ele prometeu acabar com o caos apresentando ao mundo o que o metal Ciner podia desenvolver de melhor: armas.
                Magno apresentou armas e dispositivos criados pela Amisix que podiam conter aqueles que estavam tomados pela demência. Era uma atitude radical, mas para o Ristrad passou a ser a única saída. O Ristrad aprovou o uso das armas da Amisix por aqueles que não haviam enlouquecido, era uma forma de manter as famílias seguras.
                O mundo virou um completo caos. Agora havia pessoas dementes matando umas às outras, máquinas e dispositivos vagando pelo mundo para neutralizar ameaças e as próprias comunidades agora se defendiam com as armas da Amisix e o próprio planeta foi contaminado pelo Ciner.
                Perdi meu pai naquela época. Quando os “dementes”, era assim que chamavam aqueles que se corrompiam, invadiram Brighton, e as máquinas da Amisix, juntamente com aqueles que haviam aderido o uso de armas, combateram os invasores.
                Eu o vi morrer.
               
                Eu podia ver seu rosto se olhasse para as chamas que agora cremavam os corpos daqueles cinco garotos que haviam saído pela manhã para conseguir remédios para os refugiados que haviam chegado de Lewes e foram atacados por dementes.
                Eles estavam ficando piores, os dementes, já haviam atravessado nossos muros duas vezes no último mês e não podíamos fazer nada. A maioria de nós não conseguia matá-los, muitos dos que estavam em Brighton haviam perdido entes queridos para a demência. Alguns chegaram a ser feridos e até mortos por filhos ou irmãos. Era o que o Ciner fazia, ele consumia a alma daqueles que possuíam sombras dentro de si e os tornava maus de uma forma irreversível. E ele estava por toda parte. As ruas eram de Ciner, as casas, os móveis, eletrodomésticos... O mundo havia sido reerguido a partir de uma coisa maldita.
                — Finn! — Eric me chamou ao colocar a mão em meu ombro. — Já vai escurecer — Avisou ele. — Acho melhor voltarmos para a prefeitura.
                Observei o pôr-do-sol mais uma vez. O brilho alaranjado já se tornava apenas uma linha morna no horizonte. Eu olhei para seus olhos castanhos e em seguida para todos aqueles que ainda choravam pela perda. O fogo já estava praticamente extinto e não havia sobrado nada além de uma pilha de cinzas.
                Balancei a cabeça, assentindo. Eric colocou a mão sobre o ombro da mãe de um dos garotos que haviam acabado de ser cremados.
                — Precisamos ir — Disse ele gentilmente.
                A mulher assentiu e se levantou com sua ajuda. Eu segui para o outro lado. Abracei a outra mãe de um dos garotos e os convoquei para voltar. Estava ficando escuro e sabíamos que os dementes costumavam sair à noite. Era o único período em que eles sentiam fome. Se um demente pegasse alguém durante o dia ele apenas mataria e abandonaria o corpo, mas se isso ocorresse após o pôr-do-sol ele também comeria sua carne. Era estranho, mas eu nunca havia parado para pensar no porquê de isso ocorrer.
                Aos poucos todos os refugiados estavam de pé naquela ravina e se dirigiam de volta para a cidade. Alguns levaram consigo um pouco das cinzas, outros, porém, decidiram apenas deixar tudo aquilo para trás.
                As ruas de Brighton costumavam ser iluminadas à noite. Agora tínhamos que manter todas as luzes apagadas do lado de fora. Havia casas abandonadas por toda parte, vestígios de acidentes e tragédias que ocorreram quando as pessoas começaram a matar e tudo virou um caos mais uma vez.  Poucos sobreviveram, e eu não fazia idéia de como o mundo lá fora estava.
                A prefeitura era o lugar onde eu mantinha todos os refugiados à noite. Era um prédio imenso, com paredes bem reforçadas e vários cômodos onde todos ficavam confortáveis. Tínhamos plantações em todos os jardins da cidade, com isso podíamos manter todos alimentados, inclusive aqueles que acabavam vindo parar em Brighton enquanto fugiam de dementes ou de algum animal selvagem.
                Tínhamos todo tipo de pessoa em Brighton. Havia uma mulher, Walery, uma mulher de trinta e oito anos que havia sido médica em Londres alguns anos antes do surto de dementes começar. Era a única pessoa que tínhamos para cuidar dos doentes, eu não sei o que faríamos sem ela. Havia um homem chamado Daniel, que havia trabalhado no Ristrad. Eu não sabia o porquê de ele ter decidido sair, mas ele nunca falava a respeito.
                Tínhamos também algumas crianças, todas órfãs. Minha única amiga de infância que ainda estava viva era responsável por cuidar delas. Ela sempre quisera ser mãe, mas num mundo como o nosso aquilo era impossível.
                — Já pensou no que vamos fazer? — Eric disse baixo. Já estávamos dentro do hall da prefeitura. Ele e eu havíamos acendido uma fogueira no centro, onde sempre acomodávamos os idosos e as crianças. Walery e Max, uma garota órfã que havia chegado há pouco tempo, distribuíam a comida. Eu fitava as chamas estalarem, pensativo.
                — Eu ainda não sei — Sibilei olhando seu rosto parcialmente iluminado pelo calor das chamas. Eric era jovem, tinha vinte e cinco anos, a mesma idade que eu. Ele havia crescido em Londres, e, quando o surto começou havia se separado dos pais durante uma evacuação promovida pelo Ristrad. Ele não sabia onde os pais estavam, nem sequer se estavam vivos. Passamos muitos anos juntos, ajudando um ao outro, acolhendo todos os refugiados que encontrávamos nas proximidades de Brighton.
                — Precisamos de medicamentos — Sussurrei. — Mas não estou disposto a perder mais ninguém para o que têm lá fora.
                — Eu poderia tentar ir — Sugeriu ele.
                — Não — Minha respiração ficou alterada. — Eu disse que não perderia mais ninguém.
                — Não temos outra escolha — Disse ele.
                — Está errado — Me movimentei para longe. Passei pelas pessoas que estavam deitadas em colchões espalhados pelo hall e me direcionei para a porta de entrada. Além de mim e de Eric havia apenas mais três pessoas em Brighton que sabia usar armas de fogo. Essas pessoas nos auxiliavam todas as noites mantendo a prefeitura segura.
                Me aproximei de Grant, era um homem de meia idade. De cabelos grisalhos, bigode branco e olhar cansado. Ele havia perdido todos os filhos dez anos atrás durante um surto. Desde então havia dedicado a vida a caçar e matar dementes.
                — Olá Finn — Ele disse quando me aproximei.
                — Como estamos? — Perguntei olhando as ruas escuras da cidade em ruínas.
                — Até agora estamos seguros — Ele disse com os olhos fixos nos muros que circundavam as ruas logo à frente. — Posso ouvi-los lá fora, na floresta. Malditos!
                — Tenho ouvido sobre mais e mais ocorrências nos últimos dias — Eu disse. — Soube de uma pequena cidade, não muito longe daqui, que foi dizimada algumas noites atrás.
                Grant olhou a escuridão, pensativo, em seguida seus olhos se voltaram para mim e depois para todas as pessoas no Hall.
                — Sabe que não pode manter essas pessoas aqui para sempre, não sabe? Eles estão mudando, Finn, os dementes. Esses que vejo hoje não são os mesmos que mataram meus filhos anos atrás. Eles costumavam ser descontrolados e irracionais. Atacavam qualquer pessoa como se fossem movidos pelo ódio. Mas, hoje, eles mudaram. Tornaram-se frios e articulados. Eles sabem que não vamos conseguir ficar aqui muito mais tempo, e eles estão esperando.
                — Eu sei disso — Respondi. — Mas não sei o que fazer. Eu não posso simplesmente tirar essas pessoas daqui sem ter para onde levá-las. A não ser que viajemos para Londres.
                — Não! — Disparou Grant. — Você não pode fazer isso. Sabe o que dizem sobre a Amisix e sobre o que ela faz com as pessoas.
                — Eu sei o que a Amisix faz — Retruquei. — Foi por causa da Amisix e das armas dela que eu perdi meu pai. Todo o caos apenas piorou depois que Magno Carnalis surgiu com seus armamentos e suas máquinas estúpidas prometendo salvar a humanidade de uma coisa da qual não temos salvação, mas pode não haver saída melhor. Talvez o Ristrad...
                — O Ristrad e a Amisix estão juntos, sempre estiveram — Garantiu Grant. — Não sei como o Ciner não os corrompeu até hoje.
                — Talvez já estejam — Sussurrei com amargor. — Talvez tenham se transformado em um tipo diferente de demente.
                — Um tipo bem psicótico — Riu Grant.
                — Vou fazer uma ronda — Disse ele descendo as escadas de mármore rumo à escuridão.
                — Não quer que eu vá com você?
                — Eu agradeço, Finn. Mas, preciso pensar um pouco e você me conhece, só consigo pensar direito quando fico cara a cara com a morte — Grant riu antes de caminhar pelas ruas.
                Logo depois que Grant desapareceu desci as escadas e caminhei pelas calçadas. Eu fazia aquilo todas as noites depois que todos estavam acomodados e seguros na prefeitura. Fazia meu caminho através das ruas frias. Aquilo me fazia bem, me lembrava de quando saia com meu pai nas manhãs de inverno.
                Fiz meu caminho para longe do centro. Dez minutos de caminhada e eu estava em uma rua com pequenas casas de madeira, uma coisa que era rara diante de um mundo onde tudo era feito de Ciner. Três casas para frente, à esquerda, havia uma pequena casa abandonada, cujas paredes e parte do telhado já haviam cedido. Era um risco entrar ali, mas eu não me importava. Aquela era a casa onde eu crescera e vivera por seis anos antes de pessoas começarem a matar umas as outras e empresas ambiciosas tirarem proveito da dor e do sofrimento daqueles que não tinham como se defender. Foi ali que meu pai morreu. O pedaço mais feliz da minha infância, e o mais triste.
                Passei pela abertura que havia no lugar da porta de entrada e caminhei sobre a madeira podre. Havia chovido nos últimos dias, a água da chuva havia deixado um cheiro de mofo que se misturava com o cheiro das rosas que meu pai cultivava. Eu havia cultivado dezenas delas nos últimos anos fazendo do interior da casa um jardim secreto.
                Caminhei me desviando das flores, me direcionei para a lareira que ficava no canto de uma sala que agora estava aberta permitindo que a luz da lua entrasse e iluminasse todo o recinto. Me sentei sobre uma cadeira e observei as flores em contraste com a lua. Eram tão delicadas e frágeis quanto as pessoas que eu tentava manter vivas todos os dias. Não estava sendo fácil, desde que comecei a trazer refugiados para Brighton, ao lado de Eric. Eu não imaginava que tantas pessoas procurariam ajuda. Havia muitas pessoas, assim como eu, que não confiavam na segurança prometida pela Amisix e pelo Ristrad e preferiam sobreviver por conta própria a ficar nas metrópoles sob o governo das duas empresas.
                As metrópoles eram grandes cidades. Como Londres, Nova York, Moscou, Paris... Cidades que haviam sobrevivido a tudo graças às armas da Amisix e a corrupção do Ristrad. Estas cidades permaneciam imaculadas sem a interferência dos dementes ou de todas as outras mudanças mortais pelo qual o planeta passou nos últimos anos. Elas estavam lotadas de máquinas inteligentes criadas pela Amisix, dispositivos e programas que previam a aproximação de ameaças além do fato dos próprios moradores poderem usar armas para se defender.
                Ali dentro era como se nada nunca tivesse ocorrido. As pessoas viviam seguras; trabalhavam, estudavam, constituíam família e viviam em paz.
                Uma verdadeira utopia.
                Mas, nem tudo podia ser um mar de rosas. Grant havia me contado sobre pessoas em Londres que estavam sendo corrompidas pelo metal e matando as próprias famílias. Era o que acontecia quando o uso de armas era legalizado. Com a morte vinha a corrupção e era onde o metal agia transformando a pessoa em Demente.
                Para esconder da população, a Amisix recolhia os Dementes e suas famílias mortas e as levava para um de seus laboratórios onde os transformava em experimentos.
                “A Amisix é má”. Dizia Grant, havia morte e corrupção em suas instalações. O presidente da Empresa, Magno Carnalis, queria algo com o metal e não era descobrir a cura.
                Eu não podia levar aquelas pessoas para Londres. Acabariam mortas e virariam experimentos. Precisava encontrar um lugar para levá-las. Um lugar onde ficariam mais seguras.
                Enquanto pensava olhei para a lareira. Me levantei e fiquei de joelhos diante dela. Passei a mão sobre a base de tijolos. Havia um compartimento abaixo do assoalho onde eu guardava minha única herança. Ao abrir o compartimento havia uma caixa de madeira comprida onde meu pai havia guardado uma de suas criações. Ele havia sido engenheiro em vida e havia trabalhado com Ciner.
                O conteúdo daquela caixa me deixava aterrorizado. Eu não conseguia olhar para dentro dela por muito tempo.
                Coloquei a caixa novamente em seu esconderijo e fechei o compartimento. Me pus de pé e caminhei para fora. Minha cabeça agora focava na breve conversa que eu havia tido com Eric naquela tarde. Havia pessoas doentes em Brighton. Elas precisavam de remédios, mas eu havia perdido cinco pessoas na tentativa de trazê-los para a cidade. Não podia perder mais ninguém.
                Eu sabia o que precisava ser feito.
                Parei diante de uma caixa de correio ao lado da calçada. Tirei a tampa para encontrar uma bolsa com alguns mantimentos e armas. Depois disso caminhei pela noite na direção dos muros.
               
                Caminhei para fora dos muros e avancei pelas ruas da cidade. Havia um ambulatório há alguns quilômetros onde alguns garotos haviam visto medicamentos semanas atrás. Eles não puderam pegá-los, entretanto, pois o local estava tomado por Dementes. Apressei o passo quando comecei a ouvir grunhidos vindos das casas abandonadas ao redor e da floresta que circundava o local. Em geral, Dementes comuns atacavam qualquer pessoa que vissem em sua frente, apenas para matá-la, mas eles estavam diferentes, assim como Grant havia falado. Estavam me observando e aguardando o melhor momento para me atacar.
                Segurei uma das armas que havia na bolsa e caminhei pelo centro das ruas. Alguns metros depois, o primeiro Demente saltou para fora de uma casa vazia. Era uma mulher de meia idade. Estava com as roupas rasgadas, a pele estava enrugada e com um tom escuro e sujo. Os olhos dela estavam tingidos com um tom vermelho escarlate de ódio.
                Com as unhas longas e afiadas ela tentou acertar meu pescoço. Me desvie com facilidade e segurei seus pulsos. A empurrei para longe e atirei com o silenciador em sua barriga. Ela cambaleou para trás e caiu com as mãos no estomago.
                Olhei ao redor com o corpo ainda paralisado de tensão. Sabia que ela não estava sozinha.
                Voltei a caminhar. Não estava longe, podia ver a entrada do ambulatório a poucos metros. Uma brisa fria atravessou meu corpo quando me aproximei. Naquele instante percebi o risco que teria ao entrar. Não haveria outra saída senão a porta da frente. Eles estavam esperando que eu fizesse isso. Quando entrasse estaria cercado. Ainda assim, eu não havia escolha. Precisava voltar com medicamentos.
                Avancei. A porta dupla da entrada era de vidro e estava quebrada. Passei sobre os cacos e em seguida atravessei o balcão que ficava na entrada. Estava tudo destruído. Havia corpos completamente decompostos pelos corredores, catres impediam a passagem em alguns pontos. Havia sangue seco.
                Procurei pela enfermaria, ouvi grunhidos nas salas por onde passei e do lado de fora também. Eu precisava ser rápido. Encontrei a enfermaria depois de alguns corredores. A maioria das prateleiras estava vazia, mas havia alguns frascos de antiinflamatórios em uma gaveta, analgésicos em outra e alguns curativos também.
                Peguei uma sacola. Coloquei tudo que poderia ser útil e me preparei. Peguei duas armas com silenciador e me virei para a porta. Havia um Demente parado no corredor aguardando a minha saída. Ele estava em um estado parecido com o da mulher, porém havia sangue escorrendo de sua boca.
                Apontei a arma e atirei quando ele veio na minha direção. Usei seu corpo como escudo e saí pelo corredor. Não havia outros a vista, mas eu podia senti-los se aproximando.
                Corri para a entrada a tempo de sair antes que três dementes surgissem na recepção e tentassem me pegar. Havia mais quatro me esperando na entrada como eu havia previsto. Continuei correndo na direção deles. O segredo para sobreviver era não pensar muito. Dementes geralmente eram movidos por impulso, sendo assim eram sujeitos a falhas. Se eu fosse mais rápido do que eles eu podia matá-los sem dificuldade.
                Acertei os dois que estavam mais próximos no peito. Eles caíram para trás deixando os outros dois incertos por um instante; Tempo suficiente para eu acertá-los. Corri um pouco mais. Os três que saíram do ambulatório ainda me perseguiam. Puxei um cartucho da bolsa e recarreguei o silenciador. Me virei, os três estavam a menos de quatro metros de mim. Tive tempo de acertar o que estava mais próximo. Ao cair ele atrapalhou os outros dois e eu pude economizar munição acertando a cabeça de um com um chute e quebrando o pescoço do outro.
                Não olhei para a pilha de corpos no caminho. Continuei seguindo de volta para a prefeitura. Eu tinha conseguido os remédios e ainda estava vivo. Não era muito, mas ajudaria a tratar alguns dos doentes e feridos de Brighton.
                Me esgueirei pelos arbustos para cortar caminho até o muro. Queria voltar o quando antes e entregar o que havia conseguido para Walery. Quando estava chegando perto percebi que alguma coisa estava errada. Foi quando vi que o muro havia sido atacado e parte dele havia cedido permitindo a entrada de Dementes.
                Meu corpo ficou paralisado, de repente meus pulmões ficaram sem ar e meu coração ficou histérico. Escalei o muro para não chamar atenção, quando cheguei ao topo meus joelhos quiseram ceder e me jogar para baixo quando eu vi.
                A cidade havia sido atacada. Havia dementes correndo pelas ruas, furiosos. Pude ver a prefeitura algumas quadras a frente, estava escancarada com um aglomerado de criaturas correndo, desesperadas por carne. Meus olhos arderam e eu não sabia o que fazer. Obriguei meu corpo a se mover e desci do muro, entrando na cidade. Me esgueirei silenciosamente pelos arbustos para não ser visto. Precisava voltar para a prefeitura e encontrar os refugiados. Talvez estivessem escondidos em algum lugar. Eu precisava checar.
                Mas de repente eu ouvi um assobio. Eu estava próximo de uma casa abandonada e alguma coisa dentro dela me chamava. Tentando não ser visto me aproximei devagar até ouvir uma voz conhecida que acalmou meus nervos.
                — Finn! — A voz de Grant me chamou.
                Olhei ao redor para checar se era seguro correr. A rua estava silenciosa então corri para dentro da casa em ruínas. Grant estava encostado em uma parede no canto da sala. Ele estava ofegante, suava e estava com as mãos nas costelas, de onde escorria sangue.
                — Grant — Eu disse em desespero. — O que aconteceu?
                Me coloquei de joelhos diante dele. Seu rosto molhado brilhava em contraste com a luz da lua. Ele soluçava.
                — A... — Ele gaguejou — Amisix.
                Minha testa franziu.
                — O quê? Amisix, aqui?
                Grant balançou a cabeça positivamente.
                — Vieram atrás de seu pai.
                Sacudi a cabeça confuso.
                — Como...
                — Vieram atrás do que seu pai criou — Continuou Grant. — Escute, ouvi boatos há um tempo, de coisas que o Ciner poderia fazer se fosse manipulado da maneira correta. Obviamente nós não o fizemos e por isso tudo virou um caos, mas ouvi sobre pessoas que conseguiram estudar o Ciner a um nível elevado. Capaz de revelar as verdadeiras propriedades dele. Ouvi até sobre pessoas que conseguiram combinar o Ciner a coisas comuns e transformá-las em algo extremamente superior, acima da compreensão humana. A Amisix nunca conseguiu isso. Manipular o metal a ponto de ser capaz de obter um poder imensurável, mas essa é a maior ambição do presidente da Amisix.
                Respirei fundo e pestanejei, confuso.
                — Eu ainda não estou entendendo — Sussurrei, frustrado. — O que meu pai tem a ver com isso?
                — Seu pai foi uma dessas pessoas. Ele conseguiu usar o melhor do Ciner para criar uma coisa nova. Uma coisa que ele deixou para você dentro daquela caixa que você guarda embaixo da lareira. Eles querem aquilo, rastrearam até aqui e mataram todos na prefeitura para achar.
                Meus olhos arderam. As lágrimas escorreram sobre meu corpo trêmulo.
                — Escute Finn. Eu tenho um irmão, ele se chama Backin. Ele vive em Lewes, em uma fazenda. Eu quero que procure ele. Ele entende disso melhor do que eu e vai saber te ajudar. Eles voltarão atrás de você e vão te encontrar se ficar por aí sozinho.
                Grant tossiu e se contorceu. Retirei depressa os curativos da bolsa. Preparei uma seringa com remédio. Quando fui expor o ferimento para tratá-lo a mão ensanguentada de Grant me deteve.
                — Não, guarde para você — Ordenou ele. — Eu não vou aguentar muito mais tempo e se for com você vou te atrasar.
                — Eu não posso te deixar aqui — Retruquei.
                — Não se preocupe — Grant riu. — Eu vou encontrar meus filhos. Eu não poderia estar mais feliz.
                Algumas lágrimas escorreram de seus olhos. O mesmo aconteceu comigo.
                — Você precisa ir antes que te encontrem — Disse ele. — Escute, você não pode deixar que a Amisix ou o Ristrad coloquem as mãos no que seu pai criou. Eu não sei o que eles pretendem com isso, ma sei que vindo de Magno Carnalis não pode ser bom. Não confie em ninguém daquela empresa.
                Eu assenti. Levei uns minutos para me levantar. Grant começou a respirar mais devagar. Ele fechou os olhos sorrindo.
                — Adeus, Finn — Ele sussurrou entre lágrimas. — Foi um prazer lutar ao seu lado por todos esses anos.
                E então Grant deixou de respirar.
                Saí da casa quando percebi que as ruas estavam vazias. Os Dementes estavam rondando a prefeitura em busca de carne. As lágrimas escorriam pelo meu rosto quente. Enquanto eu caminhava para minha casa os rostos de todos aqueles que estavam sob minha responsabilidade pairavam sobre mim. Me lembrei de todos eles. O último foi o rosto de Eric, a primeira pessoa que eu encontrei quando comecei a ajudar pessoas em perigo. Ele estava comigo há tanto tempo. Eu nem sequer pude me despedir.
                Quando entrei na casa em ruínas, atravessei as rosas e me ajoelhei sobre a lareira. Retirei a tampa do compartimento e puxei a longa caixa de madeira. Eu havia aberto apenas uma vez. Não conseguia colocar minhas mãos no que havia ali. Era um sentimento indescritível. Eu tinha medo. Muito medo. Do que poderia acontecer comigo. Nunca havia entendido no que meu pai estava pensando quando deixou aquilo para mim, mas algo me dizia que eu iria entender.
                Abri a caixa sobre uma pequena e velha mesa que ficava no centro da sala. O conteúdo ainda estava ali, imaculado. Duas katanas (espadas japonesas) repousavam sobre almofadas vermelhas. O cabo era dourado e vermelho e as lâminas eram brilhantes, feitas de Ciner.
                Respirei fundo e coloquei minha mão direita sobre o cabo de uma delas. Levantei a espada lentamente e analisei a lâmina, eu podia ver meus cabelos curtos e prateados sendo refletidos ali. Em seguida peguei a outra katana e as segurei pelo cabo com firmeza. Eu não sabia o que faria com aquilo, nunca havia tido nenhum treinamento. Não sabia como usá-las.
                De repente alguma coisa se desprendeu do cabo das duas espadas. Duas argolas prateadas desceram pelos meus punhos e se fixaram em torno dos meus pulsos.
                Dois braceletes prateados que emitiam uma luz vermelha que piscava. Era estranho, mas eles pareciam estar estabelecendo algum tipo de conexão entre mim, eles e as duas lâminas, pois eu me senti diferente e de repente eu sabia exatamente como usá-las.
                De repente a luz vermelha ficou verde e uma gravação começou a falar:
                “Transmitindo última mensagem”
                “Finn” Era a voz do meu pai.
                “Eu sei que deve estar confuso e que a essa altura o mundo que eu conhecia se tornou um verdadeiro caos. Sei que você deve estar lutando contra pessoas corrompidas e tentando manter o maior número de pessoas vivas possível. Eu sei disso porque conheço meu filho. Finn me perdoe por tê-lo deixado fazer isso sozinho, eu sabia com o que estava lidando. Sabia que um dia eles viriam atrás de nós por conta do que eu estava fazendo. Estas duas espadas que você está segurando agora são a prova de que o Ciner não é o culpado por tudo o que ocorreu com o mundo. Você deve ter ficado com medo ao segurá-las, mas não fique. Esse metal está puro e não fará mal a você ou a qualquer pessoa que as segurar. Existe algo que está mudando as pessoas e o planeta, mas não é o Ciner. Suspeito de que a Amisix saiba o que é e esteja escondendo da humanidade para benefício próprio. Eles têm caçado todas as pessoas que conseguem fazer o que eu fiz. Estas pessoas estão desaparecendo, você precisa encontrá-las e lutar contra a Amisix junto com elas. Você precisa abrir os olhos da humanidade para o que está havendo. Por favor, Finn. Sei que não tenho o direito de te pedir nada disso, mas neste momento você é a única pessoa capaz de descobrir o que está havendo com o planeta e expor isso para todos.”
    “Eu não sei como, mas eu encontrei uma forma de estudar esse metal e descobri uma das muitas qualidades que ele possui. Elas são únicas e possuem habilidades que vão te ajudar daqui em diante.”
    “Eu as chamo de Harin e Horan, espadas da vida e da morte, dei esse nome devido às habilidades que elas possuem, você vai descobrir quando chegar a hora.
     “Eu quero que saia de Brighton e descubra o que há com o planeta. Preserve o que restou da humanidade. Ela ainda pode ser salva. Acredite nisso.”
    “Queria poder ver seu rosto agora.”
               
                Aquelas foram as últimas palavras que eu ouvira de meu pai. Com emoção e com certo receio eu segurei as duas lâminas. Elas costumavam ser um pesadelo para mim, mas naquele momento elas eram parte de mim. O último fragmento da memória de meu pai.
                Sai da casa ainda confuso. Se não era o Ciner, o que estava arruinando o planeta?
                Onde e como eu encontraria outras pessoas que fizeram o que meu pai fez com o Ciner?
                Eu não ia desistir, é claro. Eu encontraria um jeito. Eu ia expor a Amisix.
                Quando comecei a caminhar para o muro me lembrei de Grant. Ele estava em uma casa não muito longe. Não era certo deixar o corpo dele lá.
                Retornei para a casa onde ele estava. Por sorte havia uma pá nos fundos da casa com a qual eu pude cavar uma cova. Peguei o corpo de Grant ainda quente e o arrastei para a cova. Depois que o havia enterrado retornei para minha casa e colhi algumas rosas e as coloquei sobre seu tumulo.
                “Eu devia fazer isso pelos outros também” Pensei.
                Deixei o tumulo e voltei para as ruas. Caminhei na direção da prefeitura. Estava cheia de Dementes por toda parte. Devia ser mais de meia noite e estava muito escuro. Eu seria morto se me aproximasse, mas eu não podia deixar o corpo de Eric e de todos os outros lá para serem devorados.
                Quando em aproximei um grupo de Dementes me viu e começou a correr na minha direção. Quando coloquei a mão na cintura para pegar uma arma de repente as duas espadas, que estavam nas minhas costas se deslocaram tão rapidamente que eu só pude ver os corpos caírem em pedaços. As duas permaneceram fincadas sobre a cabeça de dois Dementes.
                Fiquei espantado com o que havia acabado de ocorrer, mas não tive tempo para absorver a informação. Outros Dementes ouviram o barulho e saíram da prefeitura. Uma horda se posicionou diante de mim. Estavam sedentos por carne e seus olhos ferviam com um ódio fora do comum.
                Pensei em como recuperaria as duas katanas antes que me atacassem. Quando pensei nisso os dois braceletes em meus pulsos piscaram e as duas lâminas retornaram paras as minhas mãos. Percebi que havia uma conexão entre nós, como eu havia pensado. Rapidamente movimentei as duas mãos para frente e lancei as duas espadas mentalizando o que elas teriam que fazer. As duas cortaram os dementes de todas as formas possíveis. Em instantes todos haviam caído. Ordenei então que as duas circulassem a área e eliminassem qualquer Demente que se aproximasse. As lâminas obedeceram e desaparecem na escuridão.
                Subi as escadas da prefeitura depressa. Embora eu tivesse uma esperança de que alguém ainda estivesse vivo eu sabia exatamente o que encontraria. Pilhas de pessoas mortas e esquartejadas. Vi o corpo de Walery bem no centro, ela fora morta com tiros. Devia estar tentando proteger as crianças quando foi atingida.
                As lágrimas corriam pelo meu rosto enquanto eu agrupava os corpos. Reuni todos eles no centro da prefeitura enquanto ouvia as duas lâminas deceparem cabeças do lado de fora. Peguei um pouco de álcool e fósforos embaixo do balcão e ateei fogo. Precisava queimar os corpos. Havia pessoas extremamente desesperadas no mundo em que eu vivia. Pessoas capazes de fazer qualquer coisa para sobreviver, isso incluía canibalismo e se um humano comia carne contaminada por Dementes isso resultaria em sua própria corrupção.
                Era de manha quando eu havia queimado o último corpo. Espalhei rosas pela prefeitura e então chamei Harin e Horan. As duas retornaram para mim banhadas em sague. Fui para as ruas e ateei fogo em todos os corpos que encontrei. Em seguida retornei para a prefeitura. Fui para um dos cômodos onde havia roupas e suprimentos. Arrumei uma mochila com tudo o que precisaria para chegar a Lewes. Precisava encontrar o irmão de Grant e pedir ajuda a ele.
                Fui para um dos banheiros. Estava coberto de sangue e precisava de um banho. Quando enfim estava pronto sai da prefeitura. O sol marcava oito da manhã. Olhei para a prefeitura uma última vez antes de deixar a cidade.
    Não importava onde eu fosse sempre haveria um pedaço de Brighton comigo.
  • Cascas de Semente

    Era um sábado quando vi nuvens de tempestade se aproximando. Ventos fortes atingiam a cidade em um fim de tarde, e a escuridão que se aproximava estragou o lindo pôr do sol que estava prestes a acontecer. Pássaros cantavam enquanto voltavam para as suas casas em busca de proteção.

    A chuva é boa para diversas pessoas, mas ruim para muitas outras. Infelizmente, não tinha como pensar nessas pessoas quando a chuva estava vindo, afinal não tinha nenhuma delas por perto para me lembrar disso. Ao contrário de boa parte da cidade, estava abrigado quando trovões soavam e raios eram vistos no meio dos relâmpagos. Porém eu ainda podia pensar em algo. Antes dos trovões, quando a tempestade ainda estava para chegar, era possível ver uma árvore da janela da qual eu estava perto. Ela estava carregada de grandes cascas de sementes, a maioria seca, com tons amarronzados, duras e velhas. O vento forte venceu quase todas, exceto duas. Elas não pareciam mais jovens do que as outras, eram simplesmente normais. Estavam no mesmo galho, mas eu não conseguia crer que só sobraram elas. Procurei por um longo tempo, examinando cada parte da árvore, porém não tinha nada além delas.

    Agora, já de volta com os raios e relâmpagos, fiquei me perguntando sobre o porquê de duas e somente essas duas tentarem resistir a uma tempestade mortífera. Elas podiam estar com medo de se soltarem e do que viria depois disso. Esse medo pode ter paralisado elas, impedindo que se juntassem as outras que já estavam no chão. Talvez também quisessem ver mais uma vez a paisagem lá de cima antes de serem jogadas para todos os lados pelo vento forte. Porém há uma outra explicação que particularmente me encanta: as duas cascas de semente, mesmo já estando velhas e terem visto muito isso, queriam apreciar o seu último pôr do sol que ocorreria no dia seguinte, já que este lhes fora surrupiado. Pode ser que, em sua morte, elas só queriam ver o sol sumindo devagar mais uma última vez enquanto uma brisa suave, e não um vento violento, as retirava calmamente de seu galho.

    Essa última hipótese me cativou tanto que de cinco em cinco minutos olhava pela janela para verificar se elas continuavam lá. Não queria fazer isso, lutava contra essa vontade de ficar observando elas para poder me concentrar em outros afazeres, mas simplesmente não conseguia. Percebi, então, que eu estava torcendo pelas lindas cascas de semente. Queria que elas sobrevivessem para que pudessem ver o seu pôr do sol.

    Peguei no sono antes da tempestade terminar e a primeira coisa que fiz quando acordei foi olhar pela janela. Lá estavam elas, as duas grandes sobreviventes. Esperei até o sol começar a dar tchau e me sentei embaixo da árvore para comemorar essa vitória com as cascas de semente. Depois disso, não quis mais olhar pela janela, pois não queria ver a morte das minhas duas heroínas.
     
  • Como eu estou escrevendo?

    Então aqui vou deixar um pouco do que sei escrever e quero que avaliem de 0 a 10, fiquem a vontade para dar opniões sobre o texto abaixo. Eu vou apresentar dois tipos diferentes do que eu escrevi o 1° tipo é uma história com descrição e o 2° tipo é uma sem descrição.
    Mark Krieger um garoto jovem de 17 anos com cabelos castanhos escuros e olhos castanhos claros que era um espadachim e tinha uma espada comum e morava em uma vila chamada Carmine, estava em casa ajudando sua mãe Mafalda Krag uma mulher dona de casa com cabelos castanhos e olhos castanhos com uma idade de 44 anos, quando de repente seu amigo Noah Shideki um jovem da mesma idade de Mark, Loiro e de olhos azuis e que tinha um costume de usar uma faixa na cabeça e que é um lutador de artes marciais, chega e entra dentro da casa de Mark, em seguida olha para Mark com uma cara de preocupação e começa a conversa.
    Noah: Mark preciso da sua ajuda no dojo agora. – Falava Noah preocupado
    Mark olha para Noah com atenção.
    Mark: O que aconteceu? – Falava Mark com duvida
    Noah: Alguns goblins invadiram o dojo e estão saqueando tudo que estão vendo pela frente. – Falava Noah preocupado
    Mark: Ue, mas seu avô não consegue dar conta deles, o veio é forte o suficiente para dar uma surra em um exercito de goblins e de olhos fechados ainda.
    Noah: Eu sei que o velho é forte, mas ele me deixou tomando conta do dojo e me disse: Noah tome conta do dojo enquanto eu saio pra comprar chá, se os goblins saquearem o dojo ou invadirem ele, hoje você ira dormir com hematoma em formato de bastão no meio das costas.
    Mark repara na situação de Noah e começa a rir e zuar seu amigo.
    Mark:  Hahahahahaha! Mal posso esperar para ver o Noah dormir com hematoma em formato de bastão nas costas HAHAHAHAHA! – Mark ria e zuava com a cara de Noah
    Noah: É mais tem um porem que o meu avô me disse: Se acontecer algo e seu amigo Mark recusar a ajudar, eu vou fazer questão de deixar um hematoma em formato de bastão no meio das costas dele também. – Dizia Noah olhando seriamente para Mark
    Mark fica sério e começa a refletir o que Noah disse.
    Mark: “Que droga, tomar uma surra do velho não deve ser nada bom, imagina só dormir com as costas pelando de fogo por causa da paulada que o veio vai dar nas costas, o pior ainda vai ser quando eu for tomar banho, ah mas que velho maldito”. Então vamos lá Noah não quero tomar uma surra do velho. – Falava Mark com medo de tomar uma surra do avô de Noah
    Noah: Eu também não quero tomar uma paulada nas costas, então vamos rápido antes que os goblins fujam. – Falava Noah também com medo de tomar uma surra de seu avô
    Em seguida os meninos saem daquela casa, enquanto os meninos saiam de casa a mãe de Mark olha para ele e diz.
    Mafalda: Mark não volte muito tarde para casa, e juízo nessas cabeças. – Falava mãe de Mark sorrindo
    E Mark enquanto saia de casa olha para sua mãe e dizia em voz alta.
    Mark: OK MÃE, TCHAU – Falava Mark saindo de casa
    Noah e Mark vão correndo até o dojo do clã Shideki um lugar onde os membros do clã Shideki treinam artes marciais, chegando lá encontram 5 goblins, sendo 4 deles armados com uma adaga e o outro armado com um arco e flecha, eles estavam roubando as coisas do lugar, Noah assim que se depara com aquela cena fala em voz alta com os goblins.
    Um goblin são criaturas geralmente verdes que se assemelham a duendes.
    Noah: EI SEUS IDIOTAS PAREM O QUE ESTÃO FAZENDO AGORA!!! – Dizia Noah um pouco furioso
    Os goblins olham para o Noah e começam a rir da cara dele e o goblin que estava com arco e flecha começa a falar com Noah.
    Goblin arqueiro: Acha mesmo que vamos parar o que estamos fazendo só por que um pirralho disse? –Falava o Goblin arqueiro tirando sarro da cara de Noah com seus companheiros goblins. “Garoto insolente acha mesmo que vamos parar de roubar esse dojo só por que ele quer, vou ensinar uma lição a esse moleque” – Pensava o Goblin arqueiro.
    O goblin arqueiro aponta o dedo para o Noah e Mark e ordena os outros 4 goblins.
    Goblin Arqueiro: Vamos rapazes ensinem uma lição a esse garoto. – Falava o goblin enquanto apontava o dedo para Noah e Mark
    Goblin com adaga: Sim chefe, vamos ensinar a esse garoto a não se meter com a gente. – Falava um dos goblins que estavam armados com uma adaga.
    Os 4 goblins vão em direção ao Mark e Noah, Noah na hora começa a sussurrar com Mark sobre um plano
    Noah: Mark presta atenção, você fica com os dois goblins que estão vindo pela esquerda que eu pego os outros dois que estão vindo pela direita. – Sussurrava Noah.
    Mark concorda com a ideia de Noah fazendo um sinal positivo com o polegar, e em seguida Mark avança pela esquerda e Noah pela direita, em seguida Mark desembainha sua espada e vai em direção dos dois goblins e executa uma técnica em um deles.
    Mark: GOLPE CONCENTRADOOOO!!! – Dizia Mark ao concentrar realizar um golpe especial.
    Mark consegue acertar o goblin bem no meio do peito com seu golpe concentrado, em seguida o outro goblin vem em sua direção  e grita em voz alta.
    Goblin com adaga: MORRA SEU PIRRALHO MALDITO!!! – Gritava o goblin com Mark
    Mark enxerga o movimento do goblin e consegue desviar rapidamente, e em seguida Mark realiza um golpe normal no primeiro goblin que ele atacou, e logo depois o goblin desmaia por não resistir aos golpes que sofreu, em seguida o goblin arqueiro mira em Mark e o acerta com uma flecha na perna direita na região da coxa, e Mark sente uma dor bem forte na sua coxa direita devido a flechada e grita.
    Mark: CARALHO VELHO, ISSO DÓI PRA PORRA MANOOO!!! –Gritava Mark sentindo muita dor
    No momento em que Mark se distrai devido a dor que sente na sua coxa direita o goblin vai para cima dele e tenta realizar um ataque, só que Noah chega a tempo e consegue realizar uma técnica especial.
    Noah: SOCO CONCENTRADO!!! – Dizia Noah ao efetuar sua técnica de combate para acertar o goblin
    O goblin fica atordoado devido ao golpe forte que ele levou na cabeça e quase desmaia, em seguida o goblin arqueiro com medo da uma ordem aos outros goblins
    Goblin arqueiro: Vamos embora rapazes esses pirralhos são demais para nós.
    Em seguida todos os goblins se levantam e vão embora deixando as coisas que eles iam roubar. Enquanto os goblins fugiam Mark gritava de dor e pedia para Noah ir ajuda-lo
    Mark: EI NOAH SERÁ QUE VOCÊ PODERIA MEU AJUDAR, CARA EU TÔ COM UMA FELCHA ENFIADA NA MINHA COXA DIREITA ME AJUDA PORRA!!! – Gritava Mark sentindo muita dor
    Noah: Calma Mark vou olhar se aqui no dojo tem o kit de primeiros socorros que meu avô guarda – Procurava Noah um kit de primeiro socorros
    Mark: VAMOS LOGO CARA EU NÃO TENHO O DIA TODO – Gritava Mark enquanto Noah procurava o kit de primeiros socorros
    Noah: Achei, esse aqui deve servir – Falava Noah quando achou o kit de primeiros socorros
    Em seguida Noah vem em direção de Mark e começa a fazer os curativos
    Mark: Vai doer muito? – Perguntava Mark com um pouco de preocupação
    Noah: Acho que vai, mas você já passou pelo pior então não vai doer tanto assim – Dizia Noah enquanto preparava os curativos para fazer em Mark.
    Mark: Nossa cara olha como esse dojo ta uma bagunça, o velho vai bater na gente será? “Imagina só a força que aquele velho tem, uma paulada de bastão nas costas deve doer até na alma” – Perguntava Mark e em seguida pensava, enquanto Noah fazia os curativos.
    Noah: É só a gente arrumar isso aqui rapidinho que o velho nem vai saber o que aconteceu – Dizia Noah sorrindo e finalizava a frase com um sinal positivo com o polegar
    Mark e Noah começaram a arrumar a bagunça que estava do dojo enquanto conversavam
    Mark: Noah cadê o pessoal que treinava aqui no dojo? – Perguntava Mark
    Noah: Eu não sei para onde eles foram exatamente, pois alguns foram até a capital da região e outros foram pra Nagasun fazer o teste para se tornar samurai e alguns para se tornar monge ou melhorar as artes marciais.
    Nagasun é uma região que fica ao extremo norte, uma cidade com uma cultura e visual oriental, onde também é realizado o teste para se tornar samurai,ninja e monge. Há também outros tipos de testes que guerreiros vão atrás para se tornar, mas a maioria que vai para a capital de Nagasun procura sempre se tornar as 3 classes citadas.
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    Agora irei colocar um sem descrição
    Mark Krieger um garoto jovem de 17 anos com cabelos castanhos escuros e olhos castanhos claros que era um espadachim e tinha uma espada comum e morava em uma vila chamada Carmine, estava em casa ajudando sua mãe Mafalda Krag uma mulher dona de casa com cabelos castanhos e olhos castanhos com uma idade de 44 anos, quando de repente seu amigo Noah Shideki um jovem da mesma idade de Mark, Loiro e de olhos azuis e que tinha um costume de usar uma faixa na cabeça e que é um lutador de artes marciais, chega e entra dentro da casa de Mark, em seguida olha para Mark com uma cara de preocupação e começa a conversa.
    Noah: Mark preciso da sua ajuda no dojo agora. – Falava Noah preocupado
    Mark olha para Noah com atenção.
    Mark: O que aconteceu? – Falava Mark com duvida
    Noah: Alguns goblins invadiram o dojo e estão saqueando tudo que estão vendo pela frente. – Falava Noah preocupado
    Mark: Ue, mas seu avô não consegue dar conta deles, o veio é forte o suficiente para dar uma surra em um exercito de goblins e de olhos fechados ainda.
    Noah: Eu sei que o velho é forte, mas ele me deixou tomando conta do dojo e me disse: Noah tome conta do dojo enquanto eu saio pra comprar chá, se os goblins saquearem o dojo ou invadirem ele, hoje você ira dormir com hematoma em formato de bastão no meio das costas.
    Mark repara na situação de Noah e começa a rir e zuar seu amigo.
    Mark:  Hahahahahaha! Mal posso esperar para ver o Noah dormir com hematoma em formato de bastão nas costas HAHAHAHAHA! – Mark ria e zuava com a cara de Noah
    Noah: É mais tem um porem que o meu avô me disse: Se acontecer algo e seu amigo Mark recusar a ajudar, eu vou fazer questão de deixar um hematoma em formato de bastão no meio das costas dele também. – Dizia Noah olhando seriamente para Mark
    Mark fica sério e começa a refletir o que Noah disse.
    Mark: “Que droga, tomar uma surra do velho não deve ser nada bom, imagina só dormir com as costas pelando de fogo por causa da paulada que o veio vai dar nas costas, o pior ainda vai ser quando eu for tomar banho, ah mas que velho maldito”. Então vamos lá Noah não quero tomar uma surra do velho. – Falava Mark com medo de tomar uma surra do avô de Noah
    Noah: Eu também não quero tomar uma paulada nas costas, então vamos rápido antes que os goblins fujam. – Falava Noah também com medo de tomar uma surra de seu avô
    Em seguida os meninos saem daquela casa, enquanto os meninos saiam de casa a mãe de Mark olha para ele e diz.
    Mafalda: Mark não volte muito tarde para casa, e juízo nessas cabeças. – Falava mãe de Mark sorrindo
    E Mark enquanto saia de casa olha para sua mãe e dizia em voz alta.
    Mark: OK MÃE, TCHAU – Falava Mark saindo de casa
    Noah e Mark vão correndo até o dojo do clã Shideki um lugar onde os membros do clã Shideki treinam artes marciais, chegando lá encontram 5 goblins, sendo 4 deles armados com uma adaga e o outro armado com um arco e flecha, eles estavam roubando as coisas do lugar, Noah assim que se depara com aquela cena fala em voz alta com os goblins.
    Noah: EI SEUS IDIOTAS PAREM O QUE ESTÃO FAZENDO AGORA!!! – Dizia Noah um pouco furioso
    Os goblins olham para o Noah e começam a rir da cara dele e o goblin que estava com arco e flecha começa a falar com Noah.
    Goblin arqueiro: Acha mesmo que vamos parar o que estamos fazendo só por que um pirralho disse? –Falava o Goblin arqueiro tirando sarro da cara de Noah com seus companheiros goblins. “Garoto insolente acha mesmo que vamos parar de roubar esse dojo só por que ele quer, vou ensinar uma lição a esse moleque” – Pensava o Goblin arqueiro.
    O goblin arqueiro aponta o dedo para o Noah e Mark e ordena os outros 4 goblins.
    Goblin Arqueiro: Vamos rapazes ensinem uma lição a esse garoto. – Falava o goblin enquanto apontava o dedo para Noah e Mark
    Goblin com adaga: Sim chefe, vamos ensinar a esse garoto a não se meter com a gente. – Falava um dos goblins que estavam armados com uma adaga.
    Os 4 goblins vão em direção ao Mark e Noah, Noah na hora começa a sussurrar com Mark sobre um plano
    Noah: Mark presta atenção, você fica com os dois goblins que estão vindo pela esquerda que eu pego os outros dois que estão vindo pela direita. – Sussurrava Noah.
    Mark concorda com a ideia de Noah fazendo um sinal positivo com o polegar, e em seguida Mark avança pela esquerda e Noah pela direita, em seguida Mark desembainha sua espada e vai em direção dos dois goblins e executa uma técnica em um deles.
    Mark: GOLPE CONCENTRADOOOO!!! – Dizia Mark ao concentrar realizar um golpe especial.
    Mark consegue acertar o goblin bem no meio do peito com seu golpe concentrado, em seguida o outro goblin vem em sua direção  e grita em voz alta.
    Goblin com adaga: MORRA SEU PIRRALHO MALDITO!!! – Gritava o goblin com Mark
    Mark enxerga o movimento do goblin e consegue desviar rapidamente, e em seguida Mark realiza um golpe normal no primeiro goblin que ele atacou, e logo depois o goblin desmaia por não resistir aos golpes que sofreu, em seguida o goblin arqueiro mira em Mark e o acerta com uma flecha na perna direita na região da coxa, e Mark sente uma dor bem forte na sua coxa direita devido a flechada e grita.
    Mark: CARALHO VELHO, ISSO DÓI PRA PORRA MANOOO!!! –Gritava Mark sentindo muita dor
    No momento em que Mark se distrai devido a dor que sente na sua coxa direita o goblin vai para cima dele e tenta realizar um ataque, só que Noah chega a tempo e consegue realizar uma técnica especial.
    Noah: SOCO CONCENTRADO!!! – Dizia Noah ao efetuar sua técnica de combate para acertar o goblin
    O goblin fica atordoado devido ao golpe forte que ele levou na cabeça e quase desmaia, em seguida o goblin arqueiro com medo da uma ordem aos outros goblins
    Goblin arqueiro: Vamos embora rapazes esses pirralhos são demais para nós.
    Em seguida todos os goblins se levantam e vão embora deixando as coisas que eles iam roubar. Enquanto os goblins fugiam Mark gritava de dor e pedia para Noah ir ajuda-lo
    Mark: EI NOAH SERÁ QUE VOCÊ PODERIA MEU AJUDAR, CARA EU TÔ COM UMA FELCHA ENFIADA NA MINHA COXA DIREITA ME AJUDA PORRA!!! – Gritava Mark sentindo muita dor
    Noah: Calma Mark vou olhar se aqui no dojo tem o kit de primeiros socorros que meu avô guarda – Procurava Noah um kit de primeiro socorros
    Mark: VAMOS LOGO CARA EU NÃO TENHO O DIA TODO – Gritava Mark enquanto Noah procurava o kit de primeiros socorros
    Noah: Achei, esse aqui deve servir – Falava Noah quando achou o kit de primeiros socorros
    Em seguida Noah vem em direção de Mark e começa a fazer os curativos
    Mark: Vai doer muito? – Perguntava Mark com um pouco de preocupação
    Noah: Acho que vai, mas você já passou pelo pior então não vai doer tanto assim – Dizia Noah enquanto preparava os curativos para fazer em Mark.
    Mark: Nossa cara olha como esse dojo ta uma bagunça, o velho vai bater na gente será? “Imagina só a força que aquele velho tem, uma paulada de bastão nas costas deve doer até na alma” – Perguntava Mark e em seguida pensava, enquanto Noah fazia os curativos.
    Noah: É só a gente arrumar isso aqui rapidinho que o velho nem vai saber o que aconteceu – Dizia Noah sorrindo e finalizava a frase com um sinal positivo com o polegar
    Mark e Noah começaram a arrumar a bagunça que estava do dojo enquanto conversavam
    Mark: Noah cadê o pessoal que treinava aqui no dojo? – Perguntava Mark
    Noah: Eu não sei para onde eles foram exatamente, pois alguns foram até a capital da região e outros foram pra Nagasun fazer o teste para se tornar samurai e alguns para se tornar monge ou melhorar as artes marciais.
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    Bem isso é tudo, se alguém puder me ajudar como escrever isto melhor ou avaliar para mim eu ficaria muito grato
  • Contos da Lua

    Forjando um escudo part/1
    A porta da velha estalagem se abre. O vento frio invade local, anunciando a chegada de mais  um duro inverno na região. Uma misteriosa figura encapuzada caminha para dentro e se acomoda numa mesa mais afastada. Olhares convergem para ela.
    O recém-chegado vestia um manto que sem dúvida já teve dias melhores. Suas botas enlameadas e gastas mostravam que não era da região. Alguns dos homens que bebiam ali ficaram em alerta. Não era novidade que desertores, ladrões e até alguns mouros apareciam de vez em quando naquelas terras. Caso a pessoa misteriosa fosse um dos três tipos, receberia o tratamento especial que a vila reservava para esses convidados indesejados.
    Ao sentar-se a figura coloca uma espada sobre a mesa. No pomo, junto ao cabo desgastado, um espaço vazio onde outrora deveria pousar uma joia. O tempo passa e todos voltam suas atenções para o que estavam fazendo antes. Apenas um homem continuava tenso.
    Guido, o dono da estalagem, era um homem obeso que aparentava ter 60 anos. Ele havia chegado ao vilarejo há 20 e poucos anos a convite de um primo seu que dizia não haver lugar melhor para se viver. Era verdade. O senhor daquelas terras era um homem justo e honrado que cuidava bem de seus servos. Seu nome era Theo e mesmo a família sendo… bom, diferentes, na opinião de Guido eles sempre trataram todos de forma justa, não importando sua origem. Claro que também tinham problemas, como em qualquer outro lugar, e a especialidade de Guido era farejá-los. O misterioso forasteiro sentado no fundo de sua estalagem fedia a um dos bem grandes. Mesmo a contragosto, Guido caminha até sua mesa.
    — O que vai querer, estranho?
    — Comida, vinho e, se tiver algo parecido aqui, um quarto.
    — E como pretende pagar por tudo isso? Vou logo avisando que aqui não é lugar para mendigos, então trate logo de sair… 
    Em um movimento de sua mão, o homem faz três moedas de ouro rolarem sobre a mesa, parando diante de Guido que saliva de cobiça.
    — Comida e vinho!
    — Sim, claro, cavaleiro. Imediatamente.
    — Há também um cavalo lá fora. Mande alguém cuidar dele e levar minhas coisas para o  quarto.
    — Agora mesmo, meu senhor. Marco! Marco! Onde está esse maldito moleque? Guido se afasta indo para o interior da estalagem enquanto gritava ordens.
    Minutos depois um prato de cozido fumegante é colocado diante do estranho que retira o capuz, revelando um homem maduro de rosto endurecido e com cabelos negros. Seus olhos castanhos revelavam uma tristeza profunda. Enquanto o homem comia, um rapaz muito forte de cabelo castanho se aproxima e sem cerimônia puxa uma cadeira, sentando-se à mesa e encarando com desdém. O jovem à sua frente era como tantos outros que vira morrer nos últimos anos, na guerra. Era orgulhoso, forte e crente que era um presente de Nosso Senhor para o mundo. Simplesmente mais um fanfarrão que ainda não conhecera nem o calor do corpo de uma mulher.
    — De onde você vem, amigo?
    — De longe. 
    — Sei. É sempre bom termos amigos, então estava pensando se um cavaleiro tão afortunado não estaria disposto a pagar uma bebida para seus amigos.
    — Eu não tenho amigos. E se tivesse eles não seriam da sua laia, garoto.
    — Como ousa me ofender? Sabe quem eu sou? Eu sou Luigi De Luca e exijo que se desculpe neste momento, senão o farei se arrepender. 
    O silêncio do homem era insuportável. A raiva de Luigi crescia a cada segundo, levando-o a tocar na espada que trazia junto de si. O homem parecia indiferente à ameaça diante dele e continua comendo calmamente. A atitude faz com que todos no lugar rissem. Luigi se enfurece ainda mais e derruba a comida que estava sobre a mesa. O estranho pega a espada que estava sobre a mesa e olha para o garoto, fazendo-o sentir calafrios.
    — Ragazzo, eu já conheci gente do seu tipo antes e se não for embora agora, juro em nome de Deus que o enviarei para junto deles. 
    Luigi estava  encurralado. Conforme o homem se levantava, parecia tornar-se um gigante diante de seus olhos, o assustando de tal forma que seu desejo era fugir. Mas isso já não era possível. Toda a gente em volta ouvira suas palavras e se ele recuasse agora o nome de sua família seria manchado. Ele não podia permitir que isso acontecesse. Era preferível a morte a tal desonra. Justo quando Luigi decide se lançar contra aquela muralha em forma de homem, uma voz o faz parar.
    — De Luca, como se atreve a criar balbúrdia nas terras de Lord Theo?
    Parado junto à porta, um jovem rapaz de olhos cinzentos presenciava o desenrolar dos acontecimentos. Enquanto ele andava ao encontro de Luigi, as pessoas em volta se curvavam  em respeito. Um sorriso era visível no rosto de Luigi, que recobra a coragem.
    — A que devemos a honra de receber a ilustre visita de Dante di Savoie, o herdeiro do Conquistador? Ah, é verdade, você nasceu uns minutos depois do verdadeiro herdeiro.
    Dante para diante de Luigi 
    — Os meus motivos para estar aqui não lhe dizem respeito, Luigi. Entretanto, quero saber com que direito ameaça a vida desse viajante.
    — Eu não lhe devo respostas ou qualquer outra coisa, fedelho. E se não fosse por seu pai obrigar a minha família a jurar lealdade, eu teria o imenso prazer de separar sua tola cabeça do resto do corpo inútil aqui e agora. 
    — Verdade? Pois eu gostaria de lhe ver tentar. 
    A mão de Dante repousa sobre a espada em sua cintura. Contudo, a mesma determinação de suas palavras não era vista em seu olhar. O Sorriso de Luigi cresce e um brilho perigoso surge em seus olhos.
    — Ha, ha, ha! Muito engraçado. Não sabia que Lord Theo tinha um novo bobo em sua corte.
    Eu jamais lhe daria a honra de me enfrentar. Talvez seu irmão. Esse sim é um homem digno do nome que carrega. Então você e esse forasteiro podem ficar felizes, pois tenho coisas mais importantes para fazer do que perder meu tempo com vocês.
    Rapidamente Luigi caminha para a saída, seguido pelos outros membros da família. Dante deixa um suspiro de alívio escapar ao perceber que tudo tinha acabado bem e se vira para partir.
    — Obrigado. A voz do homem faz com que Dante se assuste. Por um momento havia esquecido dele.
    — Não precisa agradecer, senhor. Luigi é um vassalo de nossa casa. É nossa obrigação evitar que ele faça mal a qualquer pessoa.
    — Bem, deixe-me agradecer assim mesmo. Permita que lhe pague uma bebida. Eu insisto. 
    O homem sinaliza para que ele se sente e pede para Guido trazer mais vinho e outra caneca. Após alguns goles, o homem olha para Dante, como se o avaliasse.
    — Perdoe a minha falta de educação, jovem mestre, mas qual era o significado das palavras do brigão?  Dante entorna o vinho, coloca a caneca vazia na mesa e parece encolher.
    — É aquilo mesmo que ele disse. Como o senhor é novo por aqui, não sabe, mas meu pai é o Lord Supremo destas terras e todos juraram lealdade a ele. O Senhor abençoou meu pai com dois filhos. Somos gêmeos. Meu irmão já venceu até mesmo adultos em combates e disputas e sem dúvida ele será um guerreiro maior até que nosso pai. Mas, diferente dele, eu não tenho tanta aptidão para a espada e nunca venci nem ao menos um treino contra outros da nossa idade. Eu simplesmente não fui feito do mesmo material que ele.
    — Isso é ótimo. Dante levanta a cabeça, surpreso com aquelas palavras. Ele se depara com o olhar sério daquele homem que parecia satisfeito de alguma forma.
    — Por favor, não brinque com isso, senhor. Quem gostaria de viver dessa forma? Ser uma erva daninha quando deveria ser um grandioso pinheiro?
     — Homem, não se deprecie tanto. Deixe-me lhe contar uma coisa: apenas quem conseguir enxergar o seu real valor terá a capacidade de valorizar quem você é. O pinheiro é uma árvore frondosa e imponente, de fato. Mas veja a resiliência das ervas rasteiras que crescem até mesmo nos lugares mais inóspitos. Elas podem ser vistas como ervas daninhas ou um arbusto qualquer, mas nas mãos corretas podem tornar-se valiosos elixires que salvam vidas. Elas são completamente diferentes do grande pinheiro, mas em sua forma tão discreta guardam sabedoria e valor.
    A conversa segue noite adentro, passando pelos mais diversos assuntos, até que ambos percebem que eram os únicos no local, além de Guido, que dormia apoiado no balcão.
    — Está quase amanhecendo e devo partir. Obrigado pela conversa.
    — Não agradeça, jovem mestre. O senhor respondeu a todas as minhas dúvidas e confirmou que fiz a escolha certa.  
    — Fico feliz por ter sido útil e espero que possamos nos ver novamente.
    — Sim, eu também espero. Os dois homens se despedem e Dante retorna ao castelo.
    Dias depois, enquanto estava na biblioteca da família, uma batida na porta rompe a sua concentração.
    — Entre. Uma serva para a porta e curva-se antes de prosseguir.
    — Mestre Dante, vosso pai,  Lord Theo, o aguarda no salão.
    — Obrigado, Ana. 
    Dante recoloca o livro no lugar e vai ao encontro de seu pai, resignado. Ele já havia perdido as contas de quantos mestres Theo havia trazido, na esperança de torná-lo um guerreiro. Ele entendia a preocupação do pai. Ano após ano, hordas dos mais diversos povos atacavam aquela região, ameaçando a vida das pessoas que ali viviam e confiavam neles. Era de se esperar que os filhos de Theo fossem ao menos bons guerreiros e não apenas eruditos. Uma vez seu irmão Enrico brincou, dizendo que bastava deixar que Dante palestrasse sobre os pensamentos de Aristóteles e todos os bárbaros fugiriam assustados ou cairiam no sono e a vitória seria certa. Enquanto caminhava, Dante passa por uma janela e vê seu irmão praticando com o arco. “Por que somos tão diferentes? Se ao menos…” Dante interrompe o pensamento e recorda as palavras do viajante na estalagem. Chegando à porta do salão, Dante aguarda ser anunciado. Ao entrar, encontra Theo acompanhado de um homem elegante, trajando uma adornada túnica, que olhava pela janela.
    — Mandou me chamar, Lord Theo? Ele fala após fazer uma reverência.
    — Sim. Aproxime-se, Dante. Quero apresentar um velho amigo que voltou há pouco tempo  e, atendendo ao meu pedido, veio aqui para lhe ensinar as artes da guerra. Acredito que ele será de muita ajuda nos seus treinamentos e estudos de estratégia.
    — Muito prazer, cavaleiro. Eu sou Dante di Savoie e será uma honra aprender o que o senhor tem a me ensinar. O homem se vira e o rosto de Dante ilumina-se de surpresa.
    — Muito prazer, mestre Dante. Eu me chamo Giovanni Ricci e tenho certeza que também aprenderei muito com o senhor. O novo mestre que seu pai havia chamado era o viajante da estalagem.
  • Contos de Argalia

    Em minha historia contarei sobre Argalia,um reino majestoso, diversificado , cheio de controvérsias , magia , sabedoria e também muito disputado.Repleto de origens,conspirações e acontecimentos vastos. Marcado especialmente por uma disputa central de dois irmãos que buscam administrar o poder e governar tal terra de riquezas e mistérios e também de personagens admiráveis e fantásticos que buscam desenrolar seus destinos em meio a tantaos acontecimentos,conspirações e façanhas.
    De um lado a sobrevivente herdeira de Argalia Hemileia que almeja conseguir por direito sua parte no trono,do outro Arigann seu irmão um rei tirano que após o falecimento de seus pais,ordenou um massacre a todos os seus irmãos para governar sozinho.Desconhecendo entretanto,por pouco tempo, que sua irmã ainda criança havia sobrevivido,e se tornado uma grande maga guerreira.
    Aqui irei contar a historia acompanhada dos personagens,suas origens,poderes e ambições através de detalhada e épica narração.
    Hemileia A Maga Guerreira - Imagem adaptada por Ramile Veras via Rinmaru games-acension
  • Crack in the Sky

    “Eu me lembro da primeira vez que olhei dentro de um anel. Na mensagem do Whatsapp estava escrito bem assim: ‘O Junior disse que dá pra ver lá da casa dele. Ele tem um telescópio de 60 mm.’ Escrito como se alguém soubesse a importância de ser de 60 milímetros ou não.
    Ok.
    Vamos à casa do Junior.
    Sabe... Quando passou no plantão da globo a primeira vez já deu medo. Todo mundo sabe que se passou lá só pode ser sério. Ninguém falava de outra coisa. Os anéis que surgiram no céu eram o assunto do momento. Mais que Stranger Things, mais que a última temporada de Game of Thrones, mais que vídeos de gatos tocando teclado (isso é famoso ainda?) e mais que The Walking Dead (acho que esse último nem é tão falado mais, não sei. Não sou tão ligado nisso.)
    Cada um tinha sua própria interpretação do que eram os anéis. De verdade? Acho um nome bem idiota! Mas todo mundo chama assim. O Rafael chama de cus do céu. Eu finjo que é babaca, mas por dentro dou risada. Cus do céu é ótimo. Bom nome.
    Então... Quando surgiu o assunto dos anéis a primeira vez todo mundo ficou especulando. Mas não parecia nada de extraordinário. Talvez algum fenômeno meteorológico ou algo parecido. Parecia um anel feito de nuvens. Uma circunferência perfeita, inabalável e impassível. Talvez fosse uma forma embrionária. Eram vários e de vários tamanhos e só. Sem novidade alguma por exatos 7 dias.
    Daí veio o primeiro plantão da globo. Talvez esse tenha sido o evento de comoção global mais abrangente que já existiu. Estava pensando nisso outro dia. O Léo disse que era a copa do mundo e eu até concordei por um segundo. Depois voltei atrás. Eu mesmo não gostava de futebol. Copas não me comoviam. Mas com os anéis não tinha essa de gostar ou não. Eles estavam ali pra quem tivesse olhos que enxergassem e pescoços que inclinassem para trás possibilitando uma visão clara do céu. Acho que a parcela da população mundial que se enquadra nesses requisitos é maior que a parcela que gosta de futebol.
    Enfim... Na TV estavam dizendo que era possível ver o outro lado dos anéis. Alguns eram bem grandes e eu realmente não sei se conseguia enxergar algo. Parecia tudo muito borrado. Mas com toda a certeza não eram halos gasosos ou círculos de nuvem como outrora pensei. Havia algo no meio dos anéis no céu. Lembro que religiosos ficaram em polvorosa e dizeres apocalípticos viraram trending topics no twitter num misto macabro de memes e pessoas verdadeiramente assustadas. Tudo isso durou mais 7 dias.
    Quando veio o segundo plantão houve uma dicotomia emocional. Uma mistura de excitação científica por parte de uma galera mais racional (que andava sumida diante da irracionalidade dos acontecimentos) junto com os mesmos arautos do capeta que bradavam o fim do mundo em coro uníssono. Nos anéis maiores eu realmente consegui ver algumas coisas. Uma graminha, um oceano talvez, umas casinhas.
    Na TV disseram que cada anel mostrava exatamente o que estava acontecendo em outra parte do mundo. Exatamente! Alguns amigos da Universidade não conseguiam conter a adrenalina em posts de facebook e afins. Pipocavam teorias acerca de buracos de minhoca e similares. Foi bem legal! Confesso. Eu tenho agonia de voos longos. Quando apresentaram a possibilidade de uma viagem de 20 horas passar a ter menos da metade porque iriam cortar caminho por um anel assim que mapeassem todos eu realmente fiquei feliz!
    Se eu que sou totalmente ignorante na arte das manjadas saquei que o ciclo de ação desses anéis é de 7 em 7 dias, com certeza isso já havia sido percebido pelo alto escalão que estava pesquisando os anéis.
    Pois bem. De 7 em 7 dias parecia que a nitidez dentro dos anéis aumentava. Começou como um borrão e em 49 dias veio o terceiro plantão na TV. Basicamente alertando para o fato de que os anéis pareciam telas 4k de setenta bilhões de polegadas suspensas por mágica. No meio desse tempo fomos à casa do Júnior pra olhar para os anéis por um telescópio. Era sinistro! Você olhava pra cima, mas parecia que estava olhando pra baixo. Vimos pessoas, casas, florestas, oceanos, montanhas. Tudo! Perfeitamente! Era incrível à noite também, porque os anéis dos locais no mundo onde era dia iluminavam completamente a noite desse lado do mundo! Mas não chegava a parecer dia. Só iluminava muito bem. Um espetáculo visual! Fiquei viajando pensando que se todo mundo tivesse telescópios seria fácil se comunicar em tempo real, daí lembrei que tem a internet.
    De qualquer maneira... Acho que era para ter acontecido um quarto plantão na TV. No sexagésimo quarto dia. Mas nem rolou. Aqui desse lado do mundo estava de noite e, parafraseando o meu amigo Márcio, parece que a terra rachou no meio. Eu nunca ouvi um barulho tão alto. Já faz 6 dias e eu ainda não escuto nada do lado esquerdo. Acredito ter perdido a audição de maneira permanente. Doeu muito e sangrou. Todos os vidros de casa quebraram. A tela das TV’s também. Os vidros dos carros também. Celular, notebook, tudo. Fiquei sabendo que uns 8 cachorros na rua morreram depois. Ta todo mundo bem assustado. Ainda tem luz, mas está bem fraca. Internet não tem mais, nem telefone. A gente tentou ir ao shopping lá na capital, mas a BR tava bloqueada hoje. A mãe do Júnior trabalha na esplanada e disse que liberaram todo mundo no dia depois do barulhão. Ninguém tem contato com ninguém. Nem telefone, nem internet em lugar nenhum lá.
    Depois do barulho vários anéis ficaram negros. Não negros como a noite. Sei lá... Nem como a noite mais escura que já vi. Não sei explicar. Tentei tirar uma foto, mas não funciona. O Rafael disse que jura que viu um pássaro voando perto de um anel que ficou negro e foi chupado pra dentro. Achei que ele tava viajando, mas faz sentido. Porque desde ontem todas as nuvens tão meio que em espiral. Como se os anéis fossem ralos de uma pia e as nuvens a água caindo pra dentro do ralo. Nos anéis que não estão negros tem um monte de coisa. Em muitos tem uma galera junta como se fosse uma manifestação. O Junior disse que olhou pelo telescópio um anel e tinha muita gente com placas com KONIEC SWIATA bem grande nelas. Ele anotou pra procurar quando a internet voltar.
    Faltam uns 2 minutos pra chegar o próximo sétimo dia.
    Vou só comer e volto a escrever aqui. Eu não como já faz uns...”
    Fim.
  • Crônicas de Clisiéia - Capítulo 1

    Tinha acabado de entrar na estalagem onde havia combinado de se encontrarem horas antes, estava coberta de lama e não queria encontrá-lo daquele jeito decadente, espiou toda a extensão da pequena estalagem até ter certeza de que ele não estava por ali ainda, não havia muitas pessoas naquele horário, dois casais no canto ao lado esquerdo que lhes dera um olhar de soslaio ignorando-a imediatamente ao ver seu estado deplorável, um brutamontes próximo à sua direita que nem se deu ao trabalho de levantar os olhos para observá-la e ninguém no canto direito, então, ele não deveria estar mesmo por ali, afinal ela tinha chego duas horas antes do combinado; expirou aliviada e se dirigiu para o balcão da estalagem onde trocou poucas palavras com a senhora sorridente que, ignorando toda a sujeira e fedor que vinha dela, lhe entregou gentilmente uma chave, a chave do quarto onde se lavaria e limparia suas coisas e talvez com sorte estaria apresentável para reencontrar a pessoa.
    Subiu as escadas calmamente ajeitando a bolsa pesada em suas costas doloridas enquanto a dona da estalagem não pôde deixar de notar o bracelete reluzente em ambos pulsos e todas as cinco adagas que carregava no cinto preso à cintura, três em cada um dos cintos presos em ambas as coxas e mais duas em cada bota de couro e metal que ressoava a cada pisada pesada que ela dava para subir as escadas, a dona se espantou ao ver que até mesmo em ambas braçadeiras a mulher, que agora terminava de subir as escadas desaparecendo acima, carregava mais três adagas, todas elas com cabos vermelhos e pedras mágicas no botão dos punhos.
    Enquanto andava pelos corredores de madeira maciça da estalagem, ela atraiu os olhos dos empregados que limpavam o estabelecimento, afinal de contas não eram nem dez da manhã, mas é o estabelecimento deveria estar apresentável para o almoço e também para o resto do dia. Ignorando os olhos arregalados dos empregados que tapavam suas bocas ou narizes conforme ela passava olhando atentamente a numeração de cada porta, olhou para a numeração da chave que recebera e não era nenhum deles, mas estava chegando perto, 90 e acabara de olhar para o número 40, devia ser o quinto quarto à sua direita, pois a numeração das portas pulava de 10 em 10. Ouviu o burburinho que se iniciou no corredor atrás de si quando ela finalmente colocou a chave na fechadura da porta para abri-la, os empregados começaram a cochichar sobre o que tinha acontecido para ela estar naquele estado ou porque ela carregava tantas adagas.
    De certa forma ela parecia uma celebridade, mesmo assim, não se importou quando finalmente fechou a porta atrás de si e observou seu quarto pequeno, uma cama de casal forrada com uma colcha de cetim, uma mesa de madeira maciça assim como o chão do quarto, uma poltrona surrada, mas que ainda parecia confortável o bastante para se deixar cair e relaxar, um espelho de frente para porta do banheiro e a pequena sacada com duas cadeiras de madeira reclinadas e disposta uma de frente para outra, a paisagem lá fora lhe lembrava sua cidade natal, os campos floridos e lá ao longe as Serras das Árvores Azuis, porém de outro ângulo.
    Se dirigiu para o banheiro à sua esquerda e deixou sua bolsa cair no chão agora de pedra, ao mesmo tempo que começou a se despir, lavaria suas roupas ali mesmo na banheira e depois as colocaria na sacada, se a bolsa de couro mágico realmente fosse boa o bastante, teria cumprido seu papel de proteger suas roupas finas e caras mantendo-as limpas, secas e cheirosas.
    Abriu a bolsa e lá estava a sacola plástica intacta, protegendo suas roupas, ela tirou todos os outros itens que estavam na sacola, outra bolsa pequena e dois cantis de água, uma pochete e por fim seu caderno de anotações, jogou a bolsa dentro da banheira, abriu a torneira e deixou a banheira se encher enquanto ela se despia.
    Levou algum tempo até ela tirar toda a lama fétida de suas roupas e da bolsa, mas quanto percebeu que já estava tudo perfeitamente limpo e cheirando ao shampoo que ela trouxera dentro da pochete, decidiu se lavar. Nada de água quente para relaxar, não podia relaxar ainda, apesar de ter passado a noite em claro tentando não ser engolida pelo pântano, tinha de lavar seu cabelo o mais rápido possível para dar tempo de secar apropriadamente e não queria se atrasar para o encontro, tinha esperado muito tempo por aquele dia e não era um importuno incidente que destruiria seu momento.
    O tempo vou até ela conseguir secar o cabelo sem se queimar, pois ainda tinha dificuldades de controlar o fogo que podia fazer emanar do bracelete, pegou o relógio de bolso de dentro da mesma pochete e notou que em mais quinze minutos deveria descer e aguardar até que encontrasse aquele elfo de cabelos prateados, soltou um suspiro só de se lembrar, mas ainda tinha que se vestir e... Mas que droga!! Onde tinha parado seu perfume? De todas as coisas importantes e supérfluas que trouxe, foi esquecer justo aquele perfume? Revirou o restante de coisas que tinha trazido, a bolsa mágica que estava dentro da outra bolsa, ela olhou, vasculhou com as mãos, não ia querer retirar tudo o que tinha ali dentro para no fim perceber que tinha de fato esquecido de trazer seu perfume, não, aquela bolsa tinha tanta coisa acumulada que mesmo se ela quisesse tirar tudo o que tinha ali dentro não caberia no quarto, a bolsa mágica que ganhara de sua amiga, quando ainda eram amigas.
    Não, não faria isso, não retiraria tudo o que tinha lá dentro, já estava mais do que perfumada com o cheiro do seu shampoo preferido e do creme para o corpo que tinha deixado sua pele branca devido ao exagero dela, dane-se o perfume, vestiu o vestido que havia comprado em na cidade portuária quando atracou por lá, há cinco dias, ela se encantou pelos detalhes das pequenas flores bordadas em toda sua extensão, um vestido coral simples com decote ombro a ombro e manga curta que cobria até o joelho, tinha sido difícil decidir qual sapado comprar para combinar com o vestido, mas ela levou em consideração as orientações da vendedora e comprou uma sandália de mesma cor de salto baixo, pois sabia que seus pés e pernas não suportariam tanto tempo em cima dele.
    E ali estava ela, terminando de ajustar o cabelo solto, era tão grande, liso e negro que por alguns minutos ela pensou que seria melhor trançá-los como sempre fazia e amarrá-los para diminuir o volume, mas sabia que não deveria fazer isso, afinal de contas aquele elfo adorava o cabelo dela solto, então ela o deixaria solto, tão estranho, mas sim, ela o deixaria solto. Colocou uma tiara dourava para impedir que o cabeço lhe atrapalhasse cada vez que inclinasse a cabeça para baixo.
    Não tinha certeza se deveria usar um pouco de maquiagem, sua pele morena estava perfeita, mas alguns retoques poderiam melhorá-la ainda mais, porém, quase nunca usará isso em sua vida e sempre que tentava, o resultado era um palhaço de circo, mas só de lembrar já a fez desistir.
    Estava quase pronta, só faltava seu chapéu, para se proteger do sol escaldante, se tinha algo que ela jamais sentira falta durante o tempo que esteve fora, foi do calor insuportável de sua terra natal.
    Pegou sua bolsa mágica que de certa forma combinava com seu visual, só por ser pequena o suficiente para parecer um livro de capa de couro, passou a alça pelo pescoço apoiando no ombro o que a fez uma marca vertical sobre seu tronco, não que ela se importasse, mas isso deixaria mais evidente o tamanho pequeno que seus seios tinham, deu uma última espiada no espelho e contente com o resultado acenou um ok para si mesma deixando o quarto logo em seguida.

  • Crônicas de Garesis - Bem vindos a aventura.

    Bem vindos a terra de Garesis, um lugar cheio de oportunidades e aventuras por entre seus cinco continentes; Arcádia(a região central e maior) Nortix(O norte gelado, terra dos anões em suas montanhas), Oesteros(uma terra selvagem no oeste), Lestus(lar do elfos e florestas densas) e Southern(uma terra árida e sem leis).
     Nestas terras vamos conhecer a história de Incanus, um jovem que precisa provar seu valor, mesmo com tudo contra ele, mas antes de falar do nosso herói é preciso entender seu mundo:
        Há muito tempo os soberanos dos cinco continentes resolveram viver em harmonia afim de findar as inúmeras guerras que assolaram Garesis, Edmund 2° rei de Arcádia convocou uma assembléia que ficara marcada como o dia de todas as flâmulas, ao lado do rei estava Magnus, seu conselheiro e mago, entre os convidados estavam:
    Skangor, o anão rei do norte; Gortia, a rainha orc do oeste; Elora, a senhora dos elfos do leste e Lefan, o rei dos ladrões do sul. Junto com seus embaixadores eles se reuniram, trocaram suas flâmulas entre si e decidiram os termos do acordo.
    Os cinco soberanos seriam livres quanto as leis de cada continente, haveria comércio livre entre as terras assim como navegação mercante, os recursos naturais poderiam ser obtidos de outros reinos pelo devido valor.
    Todos os termos eram favoráveis a ambos, mas nem tudo era paz, ainda haviam aqueles que lucravam com a guerra, por isso neste dia as guildas foram criadas e todo ano na mesma data uma competição era realizada em um 
    dos reinos a fim de obter novos membros para as guildas e manter a amistosidade entre os soberanos, além das cinco guildas uma mais foi criada, pelo assim proclamado rei dos magos Magnus, a guilda do olho místico, que tinha entre outras o dever de manter a paz, sendo assim muito comum seus membros serem aceitos em todos os reinos.
     
    Neste meio nasceu Incanus sem saber de sua mãe, sem ter notícias do pai, criado por sua avó paterna Agnes, a curandeira de uma pequena cidade sem importância ao sul de Arcádia conhecida com Cidade dos Passos Perdidos, nome este devido ao fato de que as pessoas que ali passavam nunca ficavam muito tempo.
            Incanus era um garoto com quinze anos, cabelos castanho escuro, pele clara, olhos amendoados, seu nariz simétrico era marcado por sardas, um tanto magrelo, costumava usar sua túnica amarela de algodão, calças marrom que iam até os tornozelos, botas de couro, e um cinto de um couro desbotado de onde pendurava a bainha de sua pequena adaga.
          O lar deste jovem ficava fora dos limites da cidade, numa estrada próxima, se tratava de um chalé humilde cercado por um muro de pedras bem posicionadas com um pequeno portão, o terreno também contava com uma pequena plantação, suficiente para sua alimentação, uma criação de ovelhas e um curral para um único cavalo, Volucer.
         Vocês podem achar a vida de Incanus muito simplória a princípio, mas garanto que nosso herói tinha potencial e motivação para mudar seu mundo.
  • D. Gray Man e o ofício do historiador

              Katsura Hoshino é uma das mangakás mais geniais. Ela é a criadora do mangá shonen D. Gray Man. A obra foi publicada na Weekly Shonen Jump em 2004, ainda em andamento. Os quadrinhos se tornaram sucesso por trazer uma trama rica em reviravoltas e ação, estética gótica e mitologia cristã para as suas páginas. Um dos elementos dessa trama, o Clã Bookman, nos ajuda a discutir algumas questões do ofício do historiador.
              Mas antes de aprofundar a discussão, é necessário responder a seguinte pergunta: que seria a História? Para mim, é uma ciência que busca compreender as relações humanas no tempo e no espaço, em sentido retrospectivo, ou seja, do presente para o passado. Perguntamo-nos no presente e voltamos ao passado através das fontes que os nossos ancestrais nos legaram.
              Se o ser humano estuda e analisa a história do ser humano, como manter a objetividade e não ser condicionado pela sua própria condição humana? É daí que o mangá de Hoshino irá nos ajudar a questionar a busca de objetividade do historiador em seu ofício.Em D. Gray Man, a trama aborda uma guerra santa entre dois grupos, a Ordem Negra, uma organização monástico-guerreira sob a tutela do Vaticano, e a Família Noah, um grupo de seres imortais descendentes de Noah, uma referência ao Noé bíblico. A história do mangá é permeada de fantasia e simbologias, mas não iremos tratar desses assuntos aqui. O que nos interessa é o papel que o Clã Bookman possui nessa guerra e como realizam o seu oficio de historiadores.
              O termo bookman é de origem inglesa, e a grosso modo significa “o homem do livro”. Na Europa Medieval, era uma espécie de historiador particular vinculado à nobreza. Quando Suas Altezas Reais iam a guerra, costumavam contratar os serviços de homens letrados para registrar suas proezas em batalha. Muitas vezes esses relatos eram feitos sobre encomendas, se é que o leitor me entende.
              O ofício do bookman não é exclusivo da Era Medieval, existem registros de tal função em outras civilizações e regiões do planeta, como a China Imperial onde tal historiador recolhia os mínimos detalhes da vida do imperador, inclusive suas relações sexuais. Mas como grande parte de nossa história é de cunho eurocêntrico, acabamos não sabendo mais detalhes desses outros historiadores.
              No mangá, eles são um clã. Apesar do termo, não parecem ter um antepassado em comum ou ter relações consanguíneas. Sua estrutura se assemelha mais a uma organização secreta do que há um clã. Eles estão espalhados pelo mundo todo, e são financiados em suas pesquisas e outras questões por membros do Clã Bookman, algo semelhante aos historiadores da vida real que realizam pesquisas custeadas por terceiros, seja o Estado ou instituições privadas.
              Os membros do clã possuem acesso a acervos privados e particulares, possuem um idioma próprio e possuem memória eidética, ou seja, memória fotográfica. Esses elementos são importantes para a minha análise. Cada bookman faz um registro na Tora, um tomo usado para escrever os capítulos da guerra. Cada registro da guerra santa recebe o nome do bookman responsável pelo registro.
              O atual responsável pela escrita é o bookman junior e exorcista da Ordem Negra, o Lavi. Aprendiz de Bookman, seu mentor, ou se você preferir, orientador. Lavi é nosso representante no mangá. O jovem ruivo é o que nós podemos chamar de graduando em História. Foi recrutado aos 6 anos de idade, sendo órfão de pai e mãe, foi praticamente adotado pelo Bookman, e desde então estuda para assumir o lugar do velho Bookman.
              Esse personagem nos chama atenção devido ao seu visual. Usa tapa-olho, e um longo cachecol no pescoço. Uma bandana cinge a sua testa. Sua arma é um martelo chamado Tettsui, do japonês “Martelo de Ferro”, capaz de aumentar o seu tamanho. Além disso, sua arma possuí o poder de controle elemental através de selos místicos. O personagem tem uma personalidade carismática e profunda. Ele já protagonizou uma light novel da história e foi cogitado para protagonizar o mangá, segundo a própria Hoshino.
              Lavi não é o nome de batismo do personagem, ele abdicou desse nome logo ao se aliar ao Bookman em suas pesquisas. Lavi é o 49º nome que ele assume, logo, percebemos que o nosso protagonista tem um problema com a constituição de sua identidade. É como se ele estivesse em busca de uma identidade que revelasse algo mais que uma função. Abdicar do nome original é uma forma de romper laços com sua antiga vida e condição existencial. Essa busca pela identidade se manifesta em sua personalidade flutuante entre momentos de grande carinho e de extrema frieza.
              Embora não seja cego de um olho, ele usa uma venda no olho direito. Isso implica uma visão unilateral do mundo, visto que, apenas um dos olhos é capaz de enxergar a realidade. O martelo é outra forte simbologia em relação ao personagem. Esse instrumento representa: demolição, iconoclastia, ruptura com os dogmas e modelos anteriores. O próprio filósofo Friedrich Nietzsche dizia que “filosofava com o martelo”.
              Entre os bookman, existe um ideal de neutralidade e de objetividade no ofício. Os bookmans, mesmo quando se aliam há um lado ou outro do conflito, não fazem por ideologia ou sentimento de pertencimento, mas sim porque conseguem acesso a informações e documentos dentro da Ordem Negra e da Família Noah. Numa primeira análise, não parece que os historiadores em D. Gray Man possuem um senso de moral. Mas essas filiações temporárias parecem ser uma contramedida para garantir a neutralidade do historiador.
              Essa ideia se aproxima do pensamento do historiador alemão Leopold von Ranke, importante teórico da História no século XIX. Segundo ele, o historiador de ofício deveria ser rigoroso em seu método, e se anular perante as fontes. De acordo Ranke, através do método, seria possível fazer “falar os documentos”. Nesse sentido, o historiador seria menos intérprete e analista dos fatos históricos e mais um mediador dos discursos e representações que as sociedades nos deixaram registradas.
              Esse pensamento dominou o ofício até o início do século XX, quando foi questionada pela Escola dos Annales. Encabeçados pelos historiadores franceses Lucien Febvre e Marc Bloch, eles propunham uma história-problema, e não uma história narrativa. Foram descartados os elementos políticos, individualistas e cronológicos da História, o que acabou criando novas abordagens e inclusão de novos temas e objetos de pesquisa. Isso renovou a História e possibilitou uma crítica teórico-historiográfica.
              No mangá, a associação entre bookman e organização se dá há nível de interesse mútuo. Através de alianças temporárias, eles obtêm acesso a arquivos e podem registrar a história através de seu testemunho, já as organizações que associam os bookmans, acabam se servindo de seu vasto campo de conhecimento e experiência. Isso provoca uma série de conflitos entre Lavi e Bookman.
              De acordo o orientador do bookman junior, ele não deveria interferir no ciclo da história, cabendo como o seu único papel registrá-la. Ou seja, alguém que contemple e não aja para modificar a ordem das coisas, o que contrária qualquer perspectiva marxista. Mas Lavi não consegue ser omisso e acaba interferindo de maneira contundente na guerra que ele deveria ser expectador. Estaria a neutralidade abalada pela atuação de Lavi? Um historiador engajado ou militante é capaz de encontrar a verdade na história?
              O conceito de verdade pode se alterar em diferentes épocas e regiões. Para o povo Asteca, era verdade absoluta — e necessário — sacrificar pessoas diariamente ao sol para que ele se movesse no céu e não punisse a humanidade com a escuridão. No período medievo, a Igreja Católica estabeleceu que vivíamos num sistema geocêntrico e que a Terra era plana, os que contestassem essa verdade eram queimados em fogueiras. Logo, a verdade ou a noção da realidade é uma construção histórica e social.
              Não há nenhum demérito a História ser reescrita, revista e ampliada, visto que, ela não deixa de ser um produto sócio-histórica produzido pelos seres humanos. Nenhuma ciência, seja ela da área de humanas ou naturais, pode se dar ao luxo de ser dogmática. A ciência é essencialmente pragmática, caso contrário, estaria fadada a ser fixa e nunca evoluir em sua produção de conhecimento.
              A ideia de que existe uma neutralidade absoluta nas Ciências Naturais, porque seus cientistas estudam e pesquisam algo externo ao ser humano, não passa de pura ideologia. O que eles buscam tanto refutar acaba se tornando o que mais defendem. Onde está a neutralidade do físico quando ele ajuda o exército a construir bombas atômicas para matar pessoas? Onde está a neutralidade do virologista que elabora armas virais? Onde está a neutralidade do cientista da computação ao criar sistema de precisão balísticos em armas autônomas e drones?
              O historiador pode ser engajado em alguma causa, sem com isso perder a objetividade em seu ofício, pois, História não se faz com ideologias, e sim com metodologia. A única coisa que pode nortear essa questão é a problematização da historicidade, entendida aqui como a contextualização do tempo e do espaço histórico, e do rigor metodológico. Rigor no sentido da crítica externa e interna das fontes, diálogo interdisciplinar e revisão pelos seus pares.
              O historiador de ofício não deixa de ser um detetive temporal. Um detetive não cria pistas, ele as coleta, as analisa com cuidado, visto que, um erro na sua investigação pode condenar ou safar alguém de um caso. Se a produção historiográfica destoa muito dos fatos históricos, o que o profissional produziu não foi historiografia, e sim propaganda ou ficção histórica. Deixemos a ficção histórica para os escritores e literatos e a propaganda para os publicitários. Nosso objetivo é produzir ciência, conhecimento do processo histórico. Lavi não deixa de ser um historiador por ser atuante dentro da história.
              Nem é menos objetivo por causa disso. D. Gray Man e o Clã Bookman nos ajuda a discutir essa contradição pela busca da absoluta neutralidade, algo que deve ser refutado. Os seres humanos são seres lógicos, mas também são seres desejantes ou instintivos. A produção de conhecimento e os critérios de verdade mudam dependendo de seu contexto histórico. Se os homens não são fixos e determinados, a História também não pode ser.
    REFERÊNCIAS
    D. GRAY MAN ENCYCLOPEDIA. Bookman Clan. Disponível em: < https://dgrayman.fandom.com/wiki/Bookman_Clan > Acesso 26 fev. 2021, às 16:39 horas.
    D. GRAY MAN ENCYCLOPEDIA. Bookman. Disponível em: < https://dgrayman.fandom.com/wiki/Bookman > Acesso 26 fev. 2021, às 16:42 horas.
    D. GRAY MAN ENCYCLOPEDIA. Lavi. Disponível em: < https://dgrayman.fandom.com/wiki/Lavi > Acesso 26 fev. 2021, às 16:55 horas.
    D. GRAY MAN ENCYCLOPEDIA. Lavi/History. Disponível em: < https://dgrayman.fandom.com/wiki/Lavi/History > Acesso 26 fev. 2021, às 17:01 horas.
  • Do Cangaço aos cometas

    Das obras que adquire ainda nesse fim de ano, estava a Henshin Mangá vol. 2. A coletânea segue na esteira do vol. 1 reunindo os cinco primeiros colocados no concurso Brazil Manga Awards (BMA). Através do selo Ink, a JBC publicou um livro com mais de 170 págs. em papel offwhite. Entre os jurados estavam: Guilherme Kroll, Marcelo Bouhid, Marcelo Cassaro, Arnaldo Oka, Cassius Medauar.
              Quem me acompanha sabe que com coletâneas ou antologias que reúnem menos de dez títulos, eu começo analisar as obras que eu mais gostei, indo até a que menos gostei. Confesso que a maioria das obras aqui são devotados a comédia. Particularmente eu não sou o maior fã de gag mangá, mas até que em surpreendi com as obras desse volume, todas tem um humor bem legal.
              Escarra Brasa é o melhor one-shot pra mim. A temática do Cangaço sempre me atrai, foi um período histórico muito rico em conflitos e se passa no Nordeste, descentralizando as narrativas nacionais. O protagonista título está imerso num grave problema: ele deseja mais que tudo voltar a tocar o terror no sertão, mas está impedindo devido a umas beberagens que tomou há muito tempo atrás. Sem contar que tem gente atrás de ceifar a vida dele igual formiga em correição. Wagner Elias e Rafa Santos dera continuidade há uma dupla que deu certo. Os desenhos ambientaram de maneira espetacular toda o mangá, incluindo regionalismo na medida certa.
              João Eddie é um dos mangakás mais talentosos dessa nova safra, e fico feliz toda vez que ele é reconhecido e publicado. Em As loucas aventuras de Joy Comet da Polícia Galáctica, vemos uma sátira hilária das obras de ficção científica. Piadas metanarrativas, quaras de quarta parede, auto referências, está tudo aqui, e com exagero digno do humor no mundo dos mangás. Para se ter uma ideia, a bela Joy Comet e seu gato robô terão que revolver uma arenga entre os habitantes do Planeta Feijão e o Planeta Soja. O traço remete a mangás doa anos 70, ele emulou muito bem esse traço simples e caricato.
              Chuva de meteoros é uma obra do Rafael Brindo. Lembra muito aquelas aventuras infanto-juvenis que passavam na Sessão da Tarde. Devido a fantasia presente, acabamos torcendo o nariz logo no início, porém, ao longo da trama algo mais sério vai despontando. Uma garota que acreditava estar vendo uma futura chuva de meteoritos com seu cão, se metem numa enrascada com militares imperialistas. É mais um drama de guerra com elementos fantásticos do que uma obra de humor. O traço remete aos cartoons, mas é bem eficiente nas expressões.
              Maria e Traümen ficam empatados, na minha opinião. Ambas são one-shots de ação com humor. Só acho que o traço do ORO8ORO em Traümen é mais simpático pra mim, em detrimento do Fabiano Ferreira que tem um traço mais cartunesco e apela muito para as retículas. Maria conta a história da personagem título que nasceu amaldiçoado por ser uma lobisomem, mas pasmem, isso nem é visto como um problema. Ela herdou os poderes de sua mãe, sacerdotisa de um deus benéfico. Confesso que no fim do mangá fiquei em dúvida em relação ao que tinha acontecido. Traümen é uma das obras estilo ONE, gente superforte com poderes alucinantes e que acabam passando por situações ridículas. Só achei que tratar de assédio, falta de privacidade e culto as celebridades é algo válido, entretanto, não simpatizei com o protagonista, ele não é engraçado, sua situação sim. Nem sequer um objetivo verdadeiro ele tinha.
  • Efebo I

    “Todas as manhãs de todos os dias não seriam sequer comparativo para a beleza de um único sorriso seu”

    No meio da noite e da chuva fria o jovem estranho caminhava, o chão daquelas terras era rochoso e de pouca vegetação, era mesmo um solo firme, mas que devido a fraqueza de seus passos parecia desaparecer debaixo de seus pés. Por vezes ele tinha de usar suas mãos para evitar cair ao pisar numa pedra solta ou depressão imprevista. Apenas uma luz guiava sua jornada, uma fagulha ao longe que finalmente se mostrava ao alcance do jovem estranho, ele deveria sentir alívio, mas já estava há horas caminhando às cegas. Quando a noite caiu escurecendo seu caminho ele já estava entre as trilhas da montanha, nenhum abrigo próximo e voltar não era uma opção. Voltar, aliás, era tudo o que ele não queria, melhor morrer congelado no meio do nada do que voltar para aquele lugar, ademais não haveria ninguém lá e a culpa era dele.
    Caminhando então, fugindo então, o jovem estranho seguiu, guiado apenas por uma pequena luz que ele tinha de admitir, talvez não fosse real. O frio fazia sua pele arder e causava tremores tão fortes que ameaçavam derrubá-lo tornando sua caminhada uma agonia arriscada. A luz parecia mais perto a cada passo, mas a cada novo passo ele estava mais perto de cair, estava completamente encharcado pela chuva constante, já quase não sentia seus pés descalços, nem suas orelhas geladas e os dedos que escondia debaixo dos braços ele usava para apertar suas costelas como se o fato de controlar aquela dor menor em sua pele ajudasse a combater a dor maior em seus ossos. Fosse como fosse o sofrimento físico não era totalmente indesejado, pois servia para distraí-lo dos horrores em seu coração. Nos passos finais a distância parecia muito maior e ele tomava conhecimento de cada movimento que fazia, pois era como vencer barreiras invisíveis, aquela luz era de fato uma conquista, ainda mais quando pensava que todo um dia já havia se passado de quando começou tão longe dali, sem nem mesmo saber para onde estava indo, tudo que ele queria era se afastar daquelas florestas e da sensação horrível que lhe causava.
    A luz era uma fogueira numa casa solitária. Quando o jovem estranho se deu melhor conta percebeu que o local era bem maior do que imaginava antes de chegar. Passando por um alto portal ele concluiu que se tratava de uma construção antiga. Aquilo poderia ser um templo, mas não havia adornos no interior, poderia ser uma fortificação ou abrigo, mas não havia portas ou outros cômodos além daquele. Com quatro paredes altas, erguidas de enormes blocos rochosos em encaixe perfeito, o misterioso prédio antigo bem descrito como bruto não mostrava outra utilidade senão para abrigar parcialmente o jovem estranho da chuva. Parcialmente de fato, pois o teto que era parte em troncos e parte galhos secos de pinheiros daquela terra, falhava em cobrir alguns pontos do abrigo. Por essas aberturas no teto a chuva adentrava umedecendo o ar com suas gotas e criando poças geladas no chão que era composto por largas pedras cinzentas selando a construção onde ao centro reinava o objeto de desejo, a fogueira grande e providencial crepitando seus estalos e aquecendo o ar.
    Ainda que o jovem tivesse desconfiado de quem ou por que alguém teria acendido aquele fogo, o frio e o cansaço o iludiram a esquecer qualquer cuidado e se render ao conforto. Ele chacoalhou suas vestes, e buscou se livrar de toda a água que podia antes de sentar-se junto à fogueira. Mesmo com todo esforço ele ainda estava molhado e tremendo suas mãos hora iam ao calor do fogo, hora junto à face onde recebiam o ar quente que saia da sua respiração. Sensações variadas entre dores e dormência, atacavam seu corpo. Acalmando sua respiração enquanto se perdia na falta de detalhes daquelas paredes o jovem pensava se seria sensato ficar tão perto do fogo, pois o calor das chamas já começava a arder em sua pele.
    O jovem estranho se preparava para mudar sua posição quando sentiu uma vibração correr seu corpo, foi apenas um instante, um arrepio frio que terminou mesmo antes de poder imaginar o motivo, ele olhou para cima e viu algo grande sair das sombras e se projetar para dentro daquelas paredes. Paralisado o jovem estranho observou a entrada lenta e constante da sombra imensa que conquistava o espaço em sua direção. A figura era alta, tanto que sua cabeça pouco faltou para acertar o topo do portal de pedras, a figura tinha olhos cinzentos e ameaçadores que encaravam o jovem sem desviar a atenção nem por um instante, com mão enorme empunhava a arma parte cortante e parte rígida como uma clava com lâmina.
    Na luz ardente da fogueira a figura então se mostrava por completo, era um gigante apontando sua arma na direção do jovem que por instinto se arrastou movendo rapidamente suas mãos e pernas até bater suas costas contra a parede atrás. Temendo o que estaria por vir, temendo por sua vida e sem a possibilidade da fuga o jovem estranho parou. O gigante então apontou para ele com a mão livre e falou em voz de trovão, mas nenhuma resposta veio do jovem que era incapaz de compreendê-lo. Se aproximando um pouco mais o gigante falou novamente e sua voz foi ainda mais ameaçadora dando ordens que o jovem simplesmente não entendia mesmo quando pronunciadas mais pausadamente. Assustado o jovem estranho não reagia e o silêncio era a única resposta que ele podia oferecer enquanto o gigante se posicionava mais para o lado.
    A fogueira então podia iluminar por completo e o macabro jogo de luzes e sombras deu mais gravidade as formas do enorme guerreiro cuja voz grave soava imperativa novamente, os olhos do gigante eram cor de aço polido e, mesmo sendo pequenos em relação ao seu rosto, o jovem podia ver que estavam apertados de raiva, afinal ninguém gosta de ser ignorado. Dizer que o gigante era ruivo não fazia justiça, estava mais para um tom enferrujado, ele todo. Uma finíssima camada de pelos cor de cobre cobria todo seu corpo, incluindo o rosto, seus traços eram alongados no nariz como numa exótica mistura de homem e urso. Além da pelagem animal ele tinha a fronte rústica como rocha mal lapidada, o sinal mais marcante em seu rosto era a cicatriz recente que cobria o olho esquerdo forçando se manter ligeiramente mais fechado que o direito. Cobrindo o largo queixo quadrado sua barba era num tom mais escuro e na mesma cor eram os cabelos longos que fundidos aos pelos da testa estavam presos por uma bandana de couro negro forçando-os para trás. Do mesmo couro negro eram os braceletes nos punhos e nos bíceps do gigante. Sobre o torso e cintura grossas peles cobriam suas partes, das mesmas peles eram feitas as longas botas que ele usava.
    Outro esbravejo do gigante assustou o jovem estranho, estava claramente furioso o enorme guerreiro, mas se controlou ao menos o suficiente para falar mais uma vez, dessa porém, já se mostrando pronto a atacar se não houvesse resposta, o jovem estranho então decidiu tentar.
    _ Não entendo o que diz...
    Erguendo suas mãos com as palmas a vista o jovem estranho tentava ilustrar sua fala. O gigante respondeu com poucas palavras e um aceno de entendimento antes de mudar seu tom.
    _ Certo, a língua dos alfros...
    Disse o gigante e o jovem estranho finalmente pôde compreendê-lo, ainda que superficialmente, já sendo um grande avanço o jovem usou a oportunidade para dizer que não queria problemas e certamente não representava ameaça, mas foi interrompido.
    _ Então o que quer aqui alfro?
    Falou o gigante e causou nova impressão no estranho que se espantou com a calma em sua voz, entendo que parte do tom ameaçador desapareceu quando o gigante passou a usar a linguagem comum. O jovem estranho então lutando contra os tremores que voltaram a acometê-lo respondeu.
    _ Estava perdido, congelando lá fora…
    Disse apontando para a chuva que ainda caía na escuridão.
    _ Ei! Devagar alfro! Antes mostre os objetos que carrega. Devagar já disse!
    Exasperando por não ser acreditado, mas obediente o jovem estranho ergueu seu casaco ensopado até a altura do peito, mostrando que nada mais havia em sua posse ele ergueu suas mãos vazias e aguardou. O gigante pareceu satisfeito com aquilo, mas não menos desconfiado, enquanto sua matinha firmeza sobre o cabo da arma apontava a mão direita e ordenava para que o jovem estranho ficasse onde estava. Sem dar de costas em nenhum instante o gigante se retirou para fora do abrigo. O jovem estranho ficou sem entender e passou a olhar para cima, ao mesmo tempo se perguntando por que uma criatura tão grande desconfiava tanto de alguém muito menor como ele. A chuva continuava a cair e o que passava pelo buraco no teto atingia em cheio o rosto do jovem ele se aproveitava para engolir algumas gotas, já temendo o frio que retornava para seus ossos.
    Não muito depois o gigante apareceu carregando de um lado uma enorme bolsa feita de peles e do outro alguns troncos partidos de madeira. Os troncos ele deixou junto da fogueira e após se acomodar, sentando-se com as costas na parede, deixou a bolsa de lado enquanto sua mão direita descansava sobre o joelho dobrado e a outra ajeitava sua arma repousava sobre o colo.
    _ Saia daí alfro...
    Disse o gigante na sua voz grave, ainda que com tom calmo, então apanhou um dos troncos que em sua mão enorme mais parecia um galho e depois de juntá-lo ao fogo apontou para cima.
    _ Vamos saia daí ou vai morrer congelado…
    Insistiu o gigante, mas ainda sem efeito.
    _ Não é minha intenção causar transtorno de qualquer natureza, se preferir volto para o meu caminho imediatamente.
    Disse o jovem estranho enquanto seus olhos hora iam para a arma, hora para a chuva na escuridão fora do abrigo e hora para o desconfiado gigante. Com uma certeza cada vez menor de seu destino o jovem aguardou enquanto o gigante o analisava com seus olhos cinzentos e sem desviar falou em tom neutro.
    _ Se sair lá fora…
    Com o dedo o gigante indicou a chuva.
    _ Morrerá congelado, o deus da montanha não aponta olhos piedosos para os pequenos como você, e já que não quero sua morte assombrando minha consciência...
    Demonstrando inusitada gentileza o gigante indicou o ponto exato em que o jovem estranho estava antes, ele concordou com a cabeça e voltou a sentar-se lá, dessa vez sem se preocupar em livrar-se da umidade acumulada. Outro período de silêncio se instalou em que o jovem sentia as gotas correndo seu corpo e o calor do fogo contra sua pele. O gigante ruivo ainda o encarava e parecia tentar confirmar teorias dentro de si, mas sem chegar a alguma conclusão.
    _ De onde vem alfro? Onde fica sua terra?
    _ Não sou isso que você chama de alfro.
    Respondeu imediatamente o jovem estranho, ainda que cabisbaixo.
    _ Não? E o que você é?
    Sou um monstro, pensou o jovem estranho, mas logo responder diferente.
    _ Não tenho certeza, minha memória antes de hoje está vazia…
    Disse ele ainda olhando para baixo.
    _ Se não tem certeza, como sabe que não é? E se não é um alfro como fala essa língua? Sabe que ainda tem sangue em você?
    O jovem estranho ergueu seus olhos, assustado com a afirmação, antes de procurar em suas roupas por alguma mancha.
    _ A chuva não lavou o cheiro de morte das suas mãos alfro...
    Incerto do que dizer, mas imaginando que demorar para responder pudesse trazer mais malefícios o jovem mentiu.
    _ Foi nessa manhã, em matas longe daqui, fui atacado, eram vários. Homens estranhos acompanhados de estranhas criaturas…
    Nem tudo que o jovem dizia era mentira e de mais a mais o gigante pareceu não se importar, mas se fosse para arriscar o jovem estranho diria que uma certa fúria foi se instalando no gigante após ouvir a história. Confirmando suspeitas a mão esquerda do gigante apertou o cabo da clava descansando em seu colo até produzir sons de atrito. O jovem estranho então também teve a certeza de que se necessário aquele enorme guerreiro seria capaz de matá-lo e mesmo à distância não levaria mais que um golpe, fugir não seria opção e enfrentá-lo seria impossível.
    _ E você, sozinho, matou todos eles?
    Era uma pergunta que não pedia resposta, após ouvir o relato do jovem estranho o gigante mergulhava mais e mais em seus próprios pensamentos parecendo analisar tanto a veracidade no que o jovem estranho dizia quanto a própria existência daquele ser magro e molhado. Decido de alguma forma o gigante relaxou um pouco a postura caindo para o lado.
    _ Então diga-me como você se chama alfro?
    O Jovem estranho primeiro não entendeu a mudança no tema. Depois ele não entendeu por que ele próprio demorava a responder, enquanto engolia seco ele sentia que o céu de sua boca estava mais áspero a cada minuto. Qual era seu nome? Por que estava em dúvida? Após o breve instante alguém retornou a sua memória. Quem seria essa pessoa ele não sabia, mas sabia a resposta.
    _ Meu nome é Efebo…
    _ Efebo?
    Disse o gigante tomando cuidado na pronúncia, que certamente lhe parecia errada, pois ele tentou várias vezes antes de continuar.
    _ Um nome estranho, mas parece como você mesmo. Sou Donner filho de Tanner do clã Baro.
    Efebo fez um gesto acanhado de cumprimento e Donner respondeu levantando e abaixando a mão direita ainda repousando sobre o joelho.
    _ Dias atrás…
    Começou o gigante sem motivo aparente.
    _ Precisamente três dias atrás, houve um ataque...
    Donner fez breve pausa para ter certeza que tinha total atenção de Efebo então continuou.
    _ Estávamos reparando a muralha quando ouvimos gritos, na verdade acho que ele já tinha gritado por um longo tempo, mas fraco como ele estava sua voz demorou a chegar até nós. Largamos tudo e corremos ao seu encontro. Não o reconheci de imediato, todo cortado como estava, era Iotem do clã Aega, um lavrador, uma boa pessoa sabe. Me lembrava do seu nome, pois recentemente havia visitado sua terra, mas o homem que conheci em nada parecia a coisa que vimos se arrastando sobre a grama despejando suas estranhas que já não podia conter dentro da barriga. Quando efetivamente tentamos falar com ele as forças já lhe faltavam, imagino que além de todo sangue que perdeu, apenas a dor das feridas seria o suficiente para tirar-lhe a consciência, ele não gritou mais, apenas repetiu a mesma coisa até morrer, “nos pilriteiros, elas estão nos pilriteiros”. Não podíamos ajudá-lo então corremos para a família dele. Quando vimos até onde ia trilha de sangue deixada por Iotem refiz minha opinião sobre a força que tem o coração de um pai.
    Donner fez um movimento com o pescoço como se tentasse forçar a descida de algo amargo por sua garganta e apenas após mostrar seus dentes pontudos num rosnado silencioso numa tentativa de suprimir as memórias ele continuou.
    _ Como esperado fim da trilha nos levou para a fazenda. Entramos antes na casa, mas além dos óbvios sinais de batalha e estragos por toda parte, não havia ninguém. No depósito encontramos os primeiros corpos, eram dois jovens membros do clã Aega, acho que serviam como ajudantes na fazenda, mas não me lembro seus nomes. Sem muito o que pensar procuramos entre os arbustos pilriteiros que Iotem tanto tinha repetido, elas realmente estavam lá, juntas a esposa de Iotem, e a filha deles, em pedaços e também não me lembro seus nomes.
    No fim das frases Efebo podia ver claramente as contrações nos músculos das mandíbulas do gigante ruivo mostrando o quanto aquela situação o afetava. Sem precisar de estímulo Donner prosseguiu.
    _ Enquanto olhávamos entre o pilriteiros avistamos os cavaleiros ao longe, eram ao menos oito grandes montarias de caudas longas e ao menos uma delas carregava dois, sem tempo para planejar algo melhor decidimos que um de nós retornaria para avisar os clãs e os demais tentariam perseguição. Assim por dois dias seguimos as trilhas deixadas pelas grandes montarias, mas ficamos mais e mais para trás até que a chuva veio e decidimos descansar por hoje.
    Terminando seu relato Donner direcionava seus olhos cor de aço para a chuva fora do abrigo.
    _ Então Efebo, ou seja lá como se pronuncie seu nome, essa é a história de como chegamos aqui...
    Continuou Donner ainda olhando para a chuva lá fora.
    _ Honestamente de início achei que você era um deles, mas logo mudei de ideia, analisando que você está vindo de uma direção oposta, e mesmo tendo os visto apenas num relance, digo que você não se parece com aqueles guerreiros.
    Por um breve instante os olhos do gigante ruivo se fecharam em reflexão.
    _ Conhecer seu inimigo…
    Disse Donner antes de retomar o foco e concluir.
    _ Muitos mistérios e muitas dúvidas, esse não é um bom caminho, mas que escolha temos…
    Quando Efebo estava por dizer que também tinha suas próprias dúvidas ele foi surpreendido por Donner que urrou duas vezes em sequência. Talvez não fossem exatamente urros, mas aqueles sons graves e curtos vindos de sua voz metálica arrepiavam a pele do jovem estranho. No meio tempo Donner mantinha os olhos para fora do abrigo levando Efebo a fazer o mesmo, de lá dois outros gigantes entraram. No susto Efebo tentou se levantar e imediatamente sofreu cãibras, não apenas suas roupas estavam ainda muito grudadas em seu corpo, mas seus músculos estavam esgotados e sem forças. Domando sua respiração ele se concentrou nas enormes figuras entrando com suas cabeças baixas, também estavam molhados pela chuva ainda caindo sem parar. Os dois pareciam discutir entre si, numa discussão que faltava pouco para levar a uma luta aos olhos de Efebo, após arrumarem suas coisas dentro do abrigo eles somaram Donner à conversa prestes a saírem se mordendo como numa disputa por território. De fato havia algo de animalesco naqueles seres. Livres das capas molhadas os dois gigantes tomaram melhor conhecimento do jovem estranho sentado diante de Donner logo uma inquietude se instalou nos novos abrigados, mas bastaram umas poucas palavras do gigante ruivo, claramente o líder, para que a tensão diminuísse e os dois se sentassem perto da porta. Enquanto os dois novos gigantes cochichavam e encaravam Efebo notou que ambos usavam roupas parecidas. Suas vestes eram feitas principalmente de couro curtido e tecidos rústicos em tons mais claros que as de Donner, notou também que debaixo das roupas os novos gigantes eram completamente distintos entre si. Ainda que o primeiro deles tivesse as mesmas feições ursídeas de Donner, sua pelagem era clara como mel, seus olhos eram escuros, ele não tinha barba além dos pelos naturais, seus cabelos eram mais longos e domados numa única trança revelando orelhas arredondadas, Donner provavelmente exibiria um par parecido se estivessem à mostra. A figura do segundo estava mais para a de um cão que a de um urso, com finos pêlos castanhos sobre sua pele exceto abaixo do queixo onde eram claros, seus olhos eram redondos em cor de âmbar, sua barba era curta e quase negra, nesse mesmo tom escuro eram seus cabelos que curtos e armados pareciam uma juba deixando à mostra parte das longas, pontudas e peludas orelhas. Com um pouco mais de atenção Efebo notou que esse último tinha ainda uma pequena cauda a qual movia de vez em quando. O jovem estranho se perdia nos detalhes e nas peculiaridades daqueles gigantes enquanto Donner fazia as apresentações em sua maneira rústica.
    _ Efebo não é? Este aqui é Latran filho de Roh do clã Cano, e aquele é seu irmão mais novo Thalas.
    Disse o gigante ruivo apontando primeiro para o de pelos castanhos e de depois para o mais claro. Efebo não entendia como dois seres tão diferentes poderiam ser irmãos, mas sem qualquer conhecimento daquela raça de gigantes ele não se sentia hábil para julgar. Mais algumas conversas se deram entre os três, Efebo que não entendia a língua dos gigantes permanecia em silêncio. Os assuntos terminaram quanto Latran, o castanho, retirou de sacos de tecido algumas tiras de carne seca. Mantendo uma porção para si e entregando outras para seus companheiros. Após partir em duas a porção que recebeu, Donner atirou uma das metades sobre o fogo atingindo o colo de Efebo que, surpreso, apanhou e observou a tira escura de carne salgada.
    _ Não diga que não está com fome…
    Disse Donner saboreando sua parte que mesmo sendo igual a de Efebo parecia muito menor entre seus dedos.
    _ Perdoe-me por perguntar, mas você tem água?
    Donner falou áspero na direção dos outros dois, num segundo depois Thalas, o de pêlo claro, atirou para ele uma bolsa de couro invertido. Donner mediu o peso da bolsa antes de entregá-la a Efebo.
    _ Aqui, beba o quanto quiser, água da montanha te fará bem...
    Disse Donner logo atendendo a questões dos outros dois gigantes, claramente mais novos que ele. Quando os assuntos pareceram não importar tanto o líder ruivo retornou seu olhar para Efebo.
    _ Então?
    _ Eles ficaram lá fora por minha causa?
    Perguntou Efebo ainda bebendo a água gelada em pequenos intervalos, tomando cuidado para não contrabalançar a grande bolsa e desperdiçar.
    _ Não, e não se preocupe com isso, eles estavam olhando por aí, sabe já tem algum tempo que não venho aqui. São terras antigas e o deus da montanha é vasto permite muito segredos, então segurança entende? Mas como disse não se preocupe. Coma! Vamos, não desperdice nossa oferta alfro...
    Ao som da chuva ainda presente Efebo mordia um pequeno pedaço de carne e imaginava que provavelmente os três haviam percebido sua chegada muito antes e, talvez incertos do tipo de perigo que ele poderia representar, os gigantes decidiram se colocar à postos para um ataque surpresa, ou algo como… O pensamento não se completava, Efebo começou a tossir e tentar engolir ao mesmo tempo, percebendo o esforço do jovem os gigantes começaram a rir.
    _ Ha! Ha! Haaa! Aye! É boa não é? Não seja tímido coma mais...
    Disse Donner e na pausa de sua afirmação falou em tom de alegria com o de pelos castanhos que deu-lhe um olhar de desaprovação antes de entregar um chifre. Donner sorriu falando algo em sua língua antes de abrir a parte mais fina do chifre e beber um gole, logo disso ofereceu o chifre a Efebo, mas antes que o jovem pudesse pegá-lo Donner recuou um pouco e avisou.
    _ Só não beba demais, é tudo o que temos, dê um bom gole apenas para ajudar a descer.
    Após o aviso o jovem estranho concordou, apanhou e contemplou o chifre que parecia muito maior nas suas mãos, se impressionou também com o peso. Tendo então certeza que não seria capaz de tomar todo aquele volume mesmo que quisesse, Efebo abriu o fecho com cordão na parte mais fina e imitando o gigante ruivo. De imediato foi atingido por um aroma adocicado que muito agradou seus sentidos, guiado pelo cheiro agradável ele bebeu do líquido um pequeno gole que teve efeito imediato. Mais do que ajudar a engolir a carne salgada a bebida parecia derreter tudo por dentro incluindo suas entranhas, o líquido era quente demais e evaporava para as narinas enquanto queimava sua boca. Tossindo, abaixando sua fronte e incapaz de falar o Efebo devolveu o chifre.
    _ Ha! ha! haa! Aye! Muito melhor agora não é? Ei! Também não precisa ser tão tímido, pode beber mais se quiser Ha! ha! ha!
    Riam os gigantes em uníssono, notando o esforço de Efebo para manter o conteúdo de seu estômago sobre controle, quando pareceu que ter recuperado a fala o líder ruivo parou sua gargalhada para oferecer novamente.
    _ O segundo costuma ser mais fácil, quer tentar novamente?
    _ Não…
    Efebo falou entre tossidos roucos.
    _ Não obrigado, afinal o que isso?
    Donner respondeu dizendo uma palavra, provavelmente o nome da bebida na língua dos gigantes e então continuou.
    _ Fica melhor com o tempo e é um bom remédio contra o frio também...
    Enquanto os gigantes bebiam e se ocupavam com animadas conversas Efebo mergulhava dentro de si, e de fato tentava consumir mais da carne seca em suas mãos, mais da metade inicial ainda restava. O líquido amoleceu seus sentidos e deixou sua visão turva, uma onda de calor se instalou em seu peito e em seu rosto, tanto que suas roupas molhadas já não incomodavam mais e ele se afastou do fogo caindo levemente para trás. Não era algo bom, mas pela primeira vez em um longo tempo não se sentia mal e nesse instante uma imagem se formava. Como se pensar no que mais poderia haver de bom no mundo para ele levasse a uma única resposta, ele não sabia o nome dela, mas o verde mais belo do mundo dentro de olhos cercados de luz sem dúvida era uma memória, era uma direção. Quando Efebo se deu conta seus olhos estavam fechados, a intensidade do fogo diante dele estava muito menor e o sono então parecia uma força grande demais para resistir, percebendo isso Donner interveio.
    _ Devia tentar descansar Efebo, parece destruído.
    Thalas e Latran faziam comentários ininteligíveis. Donner parava sua fala para beber outro longo gole do líquido no chifre, e deixando de observar a chuva passava a encarar diretamente o jovem estranho. No seu equivalente de sorriso o gigante ruivo produziu um arroto e deixou as costas da mão esquerda sobre os lábios por um instante em que pareceu engolir o que sobrava da carne para então tentar continuar.
    _ Durma, vamos permanecer aqui esta noite, amanhã…
    Escuridão, ele nem mesmo foi capaz de ouvir o final da frase de Donner. Várias sensações atacavam seu corpo além do cansaço, de fato sentia como se algo estivesse enfraquecendo suas fibras, algo estava destruindo suas forças. Escuridão, talvez ele não devesse confiar naqueles gigantes, era certo que não queriam matá-lo, pois se quisessem não teriam qualquer dificuldade. Escuridão, talvez os gigantes o abandonassem à própria sorte, mas se fosse o caso não seria diferente de outro dia, além do mais já haviam lhe dado água e comida, calor e conversas, fortunas para qualquer andarilho. Escuridão e dentro da escuridão Efebo ouviu uma voz.
    _ Estou mais próxima de você agora...
    Escuridão, a voz foi substituída por algo triste como o lamento por alguém que morreu recentemente. O lamento passou e ele começou a ouvir gritos, agudos gritos de agonia, então veio o cheiro impregnante de sangue, um gosto adocicado e metálico que ia acumulando no ar. Um borrão vermelho passou por seus olhos e ele podia ver, era um corpo se abrindo e liberando seus fluídos pelo ar antes de cair inerte ao chão. Efebo tentou fugir, não podia.
    _ Por que não posso me mover?
    Seu corpo não o obedecia, mas as cenas diante de seus olhos não eram estáticas, todas as coisas se moviam ao redor, abaixo e acima dele, levando ele hora para longe, hora para junto dos corpos, estranhos corpos sendo mutilados por ele. Tentou parar, não podia.
    _ Por que estou lutando?
    Estava cercado e estava sozinho, ataques vinham de todas as direções, mas ninguém atendia seus chamados. Efebo sentiu algo horrível, como uma enorme pressão na parte de trás da sua cabeça, mas antes que pudesse interpretar a escuridão havia surgido novamente. Forçando seu corpo com espasmos Efebo finalmente acordou. Ainda estava no abrigo e de fato estava sozinho, nem mesmo a chuva caia mais.
    Ainda atordoado ele olhou diretamente para a fogueira e um pensamento absurdo de que tudo aquilo havia sido um sonho o atormentou por um instante. Efebo voltou-se para a porta e viu uma coisa sinuosa e coberta de escamas cinzentas que atravessava balançando no ar, sentiu medo, pois sentiu que era uma coisa familiar. Urros romperam seus ouvidos, feras e bestas gritando raivosas. Sons de batidas potentes acompanhavam os urros, ele se pôs de pé olhando para a entrada do abrigo, nada além de escuridão. No mesmo instante em que ele se perguntava o que estaria acontecendo, uma explosão no seu lado direito o empurrou para longe e quase em cima da fogueira. Sobre a pilha de pedras que se formou da parede escalava um enorme réptil. Coberto por escamas cinzentas a criatura quadrúpede era esguia e servia de montaria para um cavaleiro. Olhando para baixo ele conduzia as rédeas e apenas os olhos completamente escuros eram visíveis no rosto do guerreiro, sobre a boca e nariz havia uma máscara branca. A luz da fogueira havia diminuído, mas ainda permitia ver que o cavaleiro em cima do réptil feroz também tinha a pele coberta por escamas, suas roupas eram claras e metais pálidos lhe serviam de armadura, se não estivesse montado o cavaleiro seria um pouco mais baixo que Efebo, mas da maneira como se portava empunhando uma lança na mão destra ele se mostrava uma figura ameaçadora, prova disso era Latran caído debaixo do réptil. Parte do corpo do gigante castanho estava coberta, mas pelas caretas de dor que fazia Efebo concluía que estava vivo.
    O tempo pareceu correr lento quando o cavaleiro coberto de escamas ergueu sua lança, olhar fixo em Latran. Efebo agiu sem pensar, abaixou-se apanhando uma pedra do tamanho de seu punho e com toda sua força atirou no focinho do grande réptil. O dano causado foi insignificante, mas o movimento de reflexo da montaria desviou a lança do cavaleiro que errou por pouco a cabeça de Latran. Enquanto o cavaleiro preparava um novo ataque o réptil virou-se para encarar Efebo e emitiu um som sibilante, em seguida a montaria gritou num som rouco enquanto era arrastada para trás e o cavaleiro que virava seu rosto procurando um alvo foi atingido por uma clava pesada.
    _ Alfro! Ajude Latran…
    Disse Donner enquanto golpeava várias vezes a cabeça do grande réptil e gritava outras coisas em sua própria língua. Efebo correu até Latran, com certo esforço empurrou para longe as pedras maiores sobre o gigante castanho, sabendo que não seria capaz de movê-lo ele chamou o nome do gigante algumas vezes antes de entender que não fazia sentido já que seus gritos eram abafados pelos urros e choques da batalha. Sem pensar em outro recurso ele se pôs sobre o peito do gigante.
    _ Só não me morda…
    Temendo ter sua mão arrancada Efebo segurou o pescoço de Latran, debaixo dos pelos ele sentia o sangue do gigante ser bombeado. Forte, pensou Efebo e com toda a força que pode ele acertou um tapa na face do gigante. Era como bater contra uma rocha, a dor em sua mão foi imediata, mesmo assim ele armava outro golpe quando os olhos cor de âmbar se abriram e Efebo assustado caiu para trás. Enquanto Latran se levantava esbraveja algo em sua língua que Efebo não tinha dúvidas eram xingamentos. O gigante castanho estava fraco e mal se colocava em pé, Efebo correu para ajudá-lo, mas recuou após receber um rosnado a curta distância.
    _ Como quiser…
    Disse Efebo com mãos para cima afastando-se um passo, Latran rastejou para dentro do abrigo e tentou caminhar, mas seu lado direito não estava respondendo bem, ele bufou duas vezes, ergueu suas orelhas ouvindo gritos de Thalas e Donner. Certamente lamentando não encontrar melhores opções Latran erguer seu braço esquerdo e encarou Efebo, o jovem estranho atendeu prontamente se colocando debaixo e sustentando parte do peso do gigante. Após um passo servindo muleta Efebo viu que Latran apontava para a porta, seguiram mancando o mais rápido que puderam. Fora do abrigo tudo era escuridão, e sons repentinos, frases, gritos urros, impactos e encontros de metálicos. Não havia chuva, mas o frio voltou a incomodar Efebo, afinal suas roupas ainda estavam molhadas. Latran falou algo em tom médio, possivelmente para Efebo, mas como não conseguiu entendê-lo o jovem apenas continuou apoiando seu peso no meio da escuridão.
    Efebo demorou um pouco para perceber que haviam parado seu progresso, apenas deixando de servir de apoio quando Latran murmurou algo e virando a frente para a direção do abrigo sentou-se. Com seus braços esticados Efebo notou que haviam chegado a uma das encostas da montanha, olhando para o abrigo ele tentava usar a luz que escapava pelas frestas para identificar as sombras que certamente estariam lutando ao redor da construção, mas sem muito sucesso, apenas sabia que estavam lá. Latran gritou frases rápidas e seguidas, instantes depois várias batidas e choques metálicos se deram. Outro gigante gritou, era Thalas, Latran respondeu com mais frases rápidas. Efebo sentou-se ao lado do gigante castanho, imaginando que seria melhor afinal ele não podia ajudar em nada, os céus escuros demais não forneciam qualquer luminosidade e ele realmente não conseguia ver, mas...
    _ Você está vendo…
    Disse Efebo para si mesmo enquanto Latran ditava mais de suas rápidas instruções. Mesmo concluindo que o gigante castanho de fato era o único que conseguia enxergar no escuro, além do inimigo é claro, Efebo permaneceu alerta, e foi bom que o fez, pois logo viu uma sombra alta ofuscar a luz da fogueira. O coração de Efebo disparou ao ouvir o galope em sua direção. Tão rápido quanto pode o jovem se levantou tentando assumir uma postura, mas a coisa já estava sobre eles. Um som de impacto e algo grande e peludo empurrou Efebo para lado, tentando manter o equilíbrio Efebo agarrou às cegas o braço do gigante castanho e pode ver. Foi apenas por um instante e em tons cinzentos, mas Efebo viu Latran segurando a mandíbula do enorme réptil bem em frente ao seu rosto, viu também que acima algo reluzente descia. Efebo abaixou sua cabeça e desviando do golpe do cavaleiro e sentiu o vento deslocando pelo movimento da espada. Suas costas bateram contra o chão e a escuridão retornou, antes que ele se movesse ouviu outro som de impacto, imaginando que Latran havia se livrado do réptil ou sido arremessado por ele.
    _ E agora?
    Uma trombeta soou longa e metálica. Todos os outros sons pareceram parar naquele instante, então a trombeta soou novamente, vários gritos seguiram, mas esses diferentes eram ordenados e geravam vários outros sons de movimentação. Efebo rastejou procurando por Latran, mas não o encontrava, desespero há muito já dominava o jovem estranho.
    _ Donner!
    Gritou Efebo.
    _ Donner eles pegaram…
    Uma mão enorme interrompeu os gritos de Efebo, tampando sua boa e pressionando-o contra o chão. O jovem estranho instintivamente tentou se livrar, mas por mais que se debatesse o punho era forte demais, nesse esforço instantes se passaram, mais calmo ele abandonou as tentativas de resistências e apenas aguardou buscando respirar entre os enormes dedos. Vozes soaram acima dele na língua dos gigantes. Quando Efebo foi finalmente liberado havia luzes flutuando no ar.
    _ Aqui meu amigo…
    Donner abaixou-se entregando-lhe uma tocha improvisada com galhos e tecidos, todos os outros seguravam equipamentos semelhantes, exceto por Latran que contrário ao que Efebo pensou não foi levado, mas sua postura indicava estado precário, ao lado seu lado estava Thalas que parecia reclamar. Efebo levantou-se lentamente, usando sua tocha Efebo verificou seu corpo por ferimentos, se ignorada toda a lama que o cobria, tudo parecia em ordem.
    _ Eles se foram, mas fique atento.
    Disse o gigante ruivo sem perder tempo liderando o grupo por uma trilha que passava pela lateral do abrigo. Efebo seguiu os dois gigantes a sua frente, numa descida que passava por pedras, pedregulhos e trechos alagados a trilha era estreita mesmo para ele. Uma boa distância era mantida entre Donner que liderava e Thalas que o seguia, Efebo logo depois e Latran cuidava da retaguarda. O silêncio também era constante e impedia que Efebo tirasse suas dúvidas, tentando não se distrair ele cuidava para manter viva a chama de sua tocha, vez ou outra ameaçada pelo vento da montanha. Quando podia usava sua chama para identificar os arredores, pelo que Efebo percebia eles já haviam deixado para trás as grandes rochas, pois as texturas abaixo e acima deles mostravam vegetação, possivelmente alta. Pouco depois e era uma certeza, o caminho então de dava por árvores de raízes que passavam do seu peito e cujas copas eram altas demais para sua pequena tocha iluminar. Efebo sentia que o ar estava cada vez mais frio, suas roupas geladas não apenas grudavam em seu corpo, mas nas partes em que a lama era mais espessa crostas rígidas se formavam. Quando finalmente algumas luzes pareciam surgir nos céus, os gigantes pararam sua caminhada conversando entre si em tom médio.
    _ Como está?
    Perguntou Donner enquanto recebia a tocha de Thalas e usava-a para iniciar uma fogueira.
    _ Como está Latran? ele parecia ferido...
    Disse Efebo também entregando sua tocha que, aliás, estava praticamente apagada, enquanto os irmãos vasculhavam a área Donner tentava aumentar as chamas.
    _ Não se preocupe ele está bem.
    Antes que Efebo pudesse questionar o gigante ruivo levantou-se. Com o fogo entre eles, Efebo tinha de olhar para cima para encará-lo, Donner estendeu-lhe a mão.
    _ Você foi bem meu amigo…
    Era o nascer do sol e Efebo levava sua mão para a do líder ruivo, mas Donner, em vez, agarrou seu antebraço dando-lhe um cumprimento de guerreiro. Olhando para baixo Efebo via o quanto ele era magro em relação a enorme mão do gigante. Seu antebraço tremeu subitamente e um som quebrado estalou no ar. O fogo abaixo deles subiu alto demais afastando os dois. Recuperando-se para não cair Efebo olhou para Donner e logo então todos estavam olhando para a mão do gigante ruivo.
    _ Bruxaria…
    Disse Latran olhando para a mão direita de Donner.
    _ Aye, coisa de bruxo…
    Disse Thalas e num acordo mudo os irmãos sacaram suas lâminas. Donner mantinha sua mão à altura da face parecendo admirar o brilho dos pelos azuis em sua mão direita, ele flexionava dedos abrindo e fechando o punho. Sem aviso e num ato ríspido Donner empunhou a clava até então presa ao seu cinto. Noutro sinal predeterminado Latran e Thalas agarraram os braços de Efebo que não ofereceu resistência, estava claro que bastaria apenas um comando para que os gigantes mais jovens terminassem com sua vida. Donner ainda se mantinha em silêncio, os olhos cinzentos fixados em sua mão direita. Relutante o líder ruivo transferiu a clava para a mão marcada de azul e apertou com força o cabo de madeira, fechando os olhos logo em seguida ele falou em tom baixo, estranhamente sereno para a situação.
    _ Grandioso Und…
    O gigante ruivo elevou o rosto para os céus que traziam o amanhecer entre as árvores. Sua mão aos poucos perdeu o brilho frio, mas manteve a cor azul, inclusive nos pelos azuis, criando marcas que pareciam crescer como raízes até desaparecerem na altura do antebraço. Respirando profundamente e retornando a sua seriedade característica Donner ordenou aos mais jovens que soltassem Efebo, a ordem que foi cumprida com certa hesitação. Ainda olhando para sua mão azul, Donner sorriu como se jamais tivesse visto coisa mais bela.
    _ Sabe, Tanner…
    Disse Donner e limpou a garganta exasperando antes de continuar.
    _ Tanner, meu pai, era tão grande que mesmo se ele estivesse agachado teríamos de virar para cima para olhar para ele. Maiores ainda foram seus feitos, por isso quando ele morreu deixou uma sombra grande demais para viver debaixo. Minha mãe Barea morreu pouco depois. Então minha vida sem eles... Meu papel para com meu povo...
    Donner mergulhava em lembranças e sua expressão era de alguém que mais que presenciar um milagre, era a de alguém que recebera um milagre. Sem desviar o contato de seus olhos acenou como se concordasse, então encheu seus pulmões novamente com o ar frio da manhã e seu olhar se elevou.
    _ E quando mais jovem, numa dessas tentativas estúpidas de provar meu valor acabei perdendo boa parte dos movimentos da minha mão direita, ela se tornou fraca, dormente para os sentidos e inútil para batalha, até agora. Esse é um presente que não posso retribuir e que honestamente não sei se fiz por merecer.
    _ Fez por merecer quando me chamou de amigo.
    Disse Efebo na língua dos gigantes. A expressão na face dos irmãos Latran e Thalas era de novo espanto como esperado.
    _ Ele fala… É um feiticeiro... Não escutem nada do que ele diz ou vai nos amaldiçoar.
    Disse Thalas e ao perceber que a cicatriz de Donner havia sumido, passou a apontar para a testa do gigante ruivo.
    _ Veja! Bruxo, vamos matá-lo antes que infeste nossas mentes.
    Disse Latran acompanhando os gestos de seu irmão. Donner interveio firme.
    _ Já basta! Guardem as armas, fiquem calmos e se tiverem tempo livre troquem essas suas cabeças vazias por umas com cérebro dentro, agora silêncio, aliás, já que estão tão animados arrumem-se e vamos, ele vem conosco.
    _ Ele vem junto?
    Entre si os irmãos murmuravam essas e outras questões enquanto apagavam o fogo e revisavam seus equipamentos. Efebo seguia na frente e ao lado de Donner.
    _ E para onde vamos?
    Perguntou Efebo na língua dos gigantes, então natural para ele.
    _ Vamos para casa meu amigo...
  • Elleanor - conto/ficção

    elleanor02
    natal
    A traição será Vingada!

    ano:2019
    gênero: Fantasia / ebook
    autor: Marcos dos Santos
  • Enredo de Occulta

    Eu estava naquele lugar novamente, em uma sala sem portas e nem janelas, somente um espelho que refletia um pouco de mim, mas muito pouco, andei ate ele como sempre e me olho, olho para os meus pés e uma coisa escura estava subindo neles, tento tirar meus pés de la, mas eles estavam presos,começo a puxar mais forte e a entrar em panico ela não queria soltar, a sombra estava subindo mais, minha cintura já estava totalmente tapada, não via nada abaixo dela, cada vez que eu tentava fazer força para eu sair, mais meu corpo ficava preso e mais ela subia, meus braços já estavam tapados, a sombra para no meu pescoço mais foi só na parte da frente do meu corpo, atras ela continuava,meu cabelo que já era preto foi tapado pela escuridão, quando eu olhava para o espelho só tinha como ver meu rosto, olho para o espelho novamente e em vez do meu reflexo, estava a silhueta de uma mulher, a silhueta literalmente brilhava, ela estende a mão para mim, tento segurá-la dela mas a sombra estava mantendo meus braços presos,a mão dela vai saindo do espelho e quase encostando no lugar onde era para estar meu braço e a sombra sai daquela parte mostrando meu braço novamente, ela me puxou e a sombra foi cada vez saindo do meu corpo, eu estava ficando aliviado por não estar mais com aquela coisa, quando eu atravesso o espelho no outro lado estava aquela silhueta da mulher que brilha, mas do lado dela estava uma silhueta negra de um homem, os dois estendem a mão para mim e eu........







    Querem que eu continue?Comentem se sim ou o que pode melhorar
  • Entre Lobos - (conto-romance) 2/9

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    NÃO SE SINTA PERDIDO(A) Leia o capítulo anterior! Tenha uma ótima leitura!

    28 de setembro 1939

                John estava dormindo quando acordou com o barulho da velha motocicleta de Derek estacionando em frente a sua casa. Nem se deu ao trabalho de saber que horas eram, de qualquer forma tinha a completa certeza de que era cedo de mais para estar despertando. Sonolento, sentou sobre a borda da cama por um breve tempo e depois deixou o quarto sem calçar seus chinelos. Ligou as luzes da cozinha e serviu uma doze de whisky que tomou em apenas um gole. Serviu-se novamente. A porta de entrada foi aberta.

    — Mas que droga é essa gora, Dek? – com sua voz rouca, soltou antes mesmo que seu filho pudesse dizer qualquer coisa. — O que deu em você?!

    — Não foi nada de mais! – o outro respondeu em seguida.

    — Nada de mais? – riu-se. — Olha só pra essa tua cara! Um belo estrago, não?! – reparou ainda.

    — Garanto que a do outro não ficou tão linda assim! – defendeu-se indo em direção ao velho sofá onde deixou que seu corpo caísse depois de por seu capacete em um canto qualquer ali perto.

    Ficaram em silêncio por alguns segundos até começarem a rir juntos da situação.

    — Tome. – John estendeu o copo. — Quem sabe isso ajude a amortecer a situação. – pausa. — Hansly? – então soltou tentando identificar quem fora o oponente daquele embate.

    — O filho da mãe sempre cruza o meu caminho. – Derek respondeu confirmando.

    — Vocês têm de resolver isso de uma vez! – o homem sugeriu. — Não podem ficar se atracando toda vez que se encontram. Não são mais moleques, droga! – ainda acrescentou.

    — Dessa vez não provoquei nada. Mark está de prova – defendeu-se. — Só o que fiz foi revidar. – explicou antes de tirar um gole da bebida.

    — Mark. – o homem soltou descredibilizando o valor da testemunha. — Tanto pior. – acrescentou. — Só espero que esteja em pé amanhã pra podermos trabalhar. – comentou afastando-se. — Tony Mayer anda impaciente com a entrega da caminhonete. Precisamos entrega-la de uma vez. – John comentou.

    — O senhor pode ficar tranquilo. – Derek tentando despreocupar seu pai. — Estarei lá! – respeitoso, completou vendo John sumir no corredor.

    Derek trabalhava na oficina mecânica de seu pai, por conta disso, tinha conhecimento o suficiente para dar cabo de alguns trabalhos. No tempo em que estava de folga, mexia em sua motocicleta e até fazia alguns ajustes na moto de Mark, seu grande companheiro de noitadas. John e ele estavam finalizando alguns reparos na caminhonete de um cliente quando o rapaz apareceu.

    — Vai, Dek. – John avisou concentrado no motor a sua frente. Seu filho deu a partida e tudo pareceu estar em ordem, finalmente. — Ok! Está bem, pode desligar! – ergueu a mão. Desceu o capô. — Esse deu trabalho! – comentou dando duas batidas sobre a lataria do veículo. — Finalizamos por hoje. – satisfeito.

    — Quando Mayer vem pegá-lo? – Derek perguntou.

    — Bem... – limpava-se em um pano que parecia ainda mais sujo que as suas próprias mãos. — Eu poderia muito bem ligar, mas quero que você faça esse favor pra mim.

    Mark aproximou-se.

    — Já que a sua namorada chegou – provocou os dois. — Vá até a casa dele e peça pra que venha dar uma olhada nessa situação.

    — Claro! Mas preciso de um dinheiro. – falou sem rodeios. — Estou sem cigarros e...

    — Você é um grande mercenário é isso que você é. – jogou o pano sugo contra seu filho antes de ir até um balcão onde abriu uma gaveta e retirar uma pequena quantia em dinheiro. — Mas olha – Derek aproximou-se. — Vê se não vai se meter em confusão novamente... Um olho roxo já lhe basta. – debochou.

    Derek apenas assentiu com o semblante devolvendo o trapo sujo e enfiando o que recebera no bolso da calça suja. Saíram os dois em direção a saída do galpão.

    — A propósito!  – Mark já passos distante virou-se para o senhor. — Eu sou o homem da relação. – referiu-se a brincadeira feita anteriormente pelo senhor.

    — Caiam fora daqui! – John respondeu achando graça.

    Depois de passarem na casa de Tony, Mark e Derek foram para um local conhecido onde costumavam tomar cerveja e ficar jogando conversa fora. Derek comprou uma cerveja e um maço de cigarros enquanto ouvia o deboche do amigo sobre o estado que ficara sua cara depois da noite passada.

    — Ora, vê se cala essa boca! – Derek — Sabe muito bem que fui eu quem se saiu bem nessa. – tomou um gole no bico da garrafa. — Mas que droga de amigo você, hein!

    — Fato, é fato! – o outro de mãos estendidas. — E ele está bem estampado na sua cara. – completou a provocação.

    — Ei! – chamou a atenção do rapaz atrás do balcão. — Dê mais volume! – pediu apontando para o rádio. — Qualquer coisa é melhor do que ouvir essa tua voz! – voltou-se novamente para Mark.

     Então, aos poucos dentro doe estabelecimento as vozes foram se calando e por fim, todos puderam ouvir sobre o ataque massivo que havia sido feito sobre a Polônia. Tanto a Alemanha quando a União Soviética haviam investido forças para tomar o país. Finalmente, Varsóvia, capital da Polônia, havia se rendido ainda no dia anterior.

    — Dane-se essa droga! – um grandalhão soltou atravessando o bar depois de acabar com sua bebida.

    Grande parte dos que estavam por lá o miraram.

    — Essa DROGA! – Mark falou chamando a atenção do rapaz que passou ás suas costas. — Pode muito bem vir a acontecer aqui! Na nossa casa.

    — Dane-se o que você acha também sobre isso! – o rapaz respondeu apontando o dedo em direção a Mark que de imediato pôs-se em pé.

    — Ei! – Derek tocou-lhe o ombro mostrando que não valia apena criar caso.

    — Isso mesmo! – o rapaz continuou. — Escute o teu amigo ou vai acabar ficando com o rosto igual ao dele! – advertiu.

    — Seu filho da mãe! – Mark então perdeu a paciência.

    Os dois embolaram-se entre socos e empurrões, Mark obviamente não daria conta do grandalhão sozinho e até mesmo o dono do estabelecimento pediu para que Derek intervisse naquele embate que, possível e provavelmente lhe daria algum prejuízo. Antes de obrigar-se a dar apoio ao amigo, Derek tomou o restante de sua bebida e no mesmo instante em que pôs-se ereto viu Mark ser projetado para fora do bar como se fosse um mero saco de lixo sobre a calçada. Indo de encontro ao rapaz, deu lhe um murro no estômago que a princípio não mostrou qualquer efeito e o soco no rosto pareceu apenas deixa o outro ainda mais irritado. No lado de fora, enquanto se recuperava, Mark era acudido por duas belas moças.

    — Mas que filho da... – Derek vendo em que se metera afinal de contas.

    — Vamos terminar logo com isso! – o outro a sua frente disse armando-se para uma nova investida.

    CONFIRA também - Meu querido Manequim
                                 Humanos
  • Entrevista com Jazi Almeida – autor de Two Sided

    1- Quais as maiores dificuldades que um mangaká nacional enfrenta?
    R- Então, creio eu que seja a “falta de tempo” por que temos que trabalhar, estudar, cuidar de casa e fazer o mangá em si. E isso tudo é muito corrido (pelo menos pra mim).
    2- Com novas editoras investindo em artistas e obras nacionais, podemos vislumbrar um cenário mais positivo?
    R- Sim! Creio eu que sim, o Brasil tá passando por uma nova fase digital no mundo dos quadrinhos, e com tantos concursos internos surgindo, tá na hora de botar a mão na massa e fazer valer.
    3- A crise editorial parece não ter afetado a publicação de mangás no país, vide o número maciço de novas publicações, logo, o brasileiro não está lendo tanto como deveria ou as editoras não estão sabendo investir de modo adequado?
    R- Com tantas obras surgindo, fica difícil acompanhar todas elas ao mesmo tempo, além de termos mangás de fora que acompanhamos, temos que lidar com os nossos e tudo isso vira uma bola de neve que as vezes nos perdemos e nem sabemos mais o que estamos lendo.
    4- Como a internet está te auxiliando na publicação de mangás?
    R- Ajudando muito o cenário brasileiro, tanto em divulgação quanto em levar o mangá a pessoas que nem sabiam da existência disso no Brasil, então a nossa maior arma é a internet em si.
    5- Nos fale um pouco sobre a trajetória de Jazi Almeida, quem é Jazi Almeida?
    R- (risos) Bom, eu sou um garoto/adulto simples, tenho 23 anos e sempre sonhei em ser um mangaká ou pelo menos um ajudante, desenho desde sempre, o estilo oriental sempre esteve presente na minha vida. E a quem diga que não sou fã de carteirinha de obras de fora, assim como apoio muito as nacionais. Sou natural do Ceará e atualmente resido em Goiânia.
    6- Os concursos parecem ser uma porta aberta para o sucesso, como você enxerga essa possibilidade?
    R- Sim eles estão aí para serem aproveitados, eu sempre gostei dessa ideia, inclusive participei de um ano passado, mas não era muita coisa. Não dei o melhor de mim, mas não façam isso, se forem participar, deem o melhor de si.
    7- Como você definiria Two Sided e qual personagem você se identifica mais?
    R- Como todos já sabem, Two-Sided é bem clichêZÃO, tem todo esse universo de lutas, espadas, amizades, poderes especiais. O personagem que mais de identifico é o protagonista o Yui, por ser uma pessoa nova num lugar novo, enfrentou e enfrenta muitas dificuldades, sem falar que ele tem um conflito interno ao qual não consegue se livrar e o melhor, uma facilidade pra fazer amigos. Ah! Eu amo ele!
    8- Você participa de eventos? Nos conte alguma experiência sobre eles?
    R- Bastante! MESMO! Mas não levo Two-Sided pra vender, eu vou pelos amigos e pelos cosplays (risos), atualmente to nesse hobbies e já foram quase 20 cosplays no currículo...
    9 – Qual a maior dificuldade na criação dos capítulos dos seus mangás?
    R-A única dificuldade é só a falta de tempo, se eu trabalhasse só no mangá, conseguiria lançar um por semana. Mas minha vida é muito corrida e sempre sobra pouco tempo pra arte.
    10 – Quais os seus projetos para o futuro?
    R –Eu vou encerrar essa primeira fase de Two-Sided e dar uma parada de 1 mês pra respeitar, foram quase 3 anos seguidos sem parar haha, e logo retorno com um One-Shot (ainda surpresa) para então retomar a parte 2 de Two-Sided. Para mais novidades se liguem na página do Estúdio Armon e na Action Hiken, lá tem todo conteúdo novo e prévias dos capítulos da galera. Obrigado e até mais!
  • Era uma vez na Segunda Guerra Mundial

    A New Pop Editora tem um histórico de publicações for da curva. Seu catálogo é cheio de obras undergrounds, muito distante da saturação dos shonen e mahou shoujo de outras editoras. Mas acerta na publicação de obras curtas, com boa qualidade gráfica e que atinge leitores e leitoras de outras demografias, como os LGBT+ e adultos. El Alamein e outras batalhas é um desses mangás que valem ter na estante.
    A coletânea de Yukinobu Hoshino reúne verdadeiras ficções históricas narradas através da 9ª arte. O ambiente á a Segunda Guerra Mundial, só incluindo outros elementos como o horror, a aventura, a espionagem e o drama, tudo em um volume único. A perspectiva nipônica sobre essa guerra que dividiu o século XX é pouco abordada no ocidente, conhecemos muito pouco do que lá aconteceu entre 1939 a 1945.
    O autor nasceu no Pós-Guerra, em 1954, em Kushiro, na ilha de Hokkaido, ao norte do arquipélago nipônico. Ele chegou a cursar a universidade de Belas Artes e Música, mas desistiu. Suas obras envolvem ficção histórica e ficção científica hard, com um belo traço gekigá, realçando cenários com uma ótima ambientação. É um autor muito detalhista, tanto em pesquisa quanto em representação de objetos e máquinas.
    A coletânea El Alamein e outras histórias foi publicada originalmente pela editora Gentosha Comics, na Revista Comic Birz entre os anos de 1996 a 1998. São cerca de cinco histórias, seis, se levarmos em conta que a quinta história é dividida em duas partes. Funcionam muito bem como contos de guerra. A história que dá nome ao título une muito bem ficção histórica e o fantástico.
    É óbvio que ao ler, o leitor ou leitora gostará mais de uma do que de outra obra, mas todos os contos entretêm ao mesmo tempo em que nos faz refletir sobre o horror da guerra. Mas as histórias que eu mais gostei foram Mangá da Desonra Nacional 1 & 2. É nessa reconstituição dos fatos históricos que o autor Yukinobu Hoshino tece as suas críticas mais ácidas sobre o Japão do Pós-Guerra e o imperialismo estadunidense, são várias referências visuais, algumas eu não peguei, mas me fizeram rir.
    O mangá está disponível em algumas lojas de quadrinhos online e livrarias especializadas. São 244 páginas em p/b, formato 15,2 x 22,6 cm, o miolo em papel offset e capa cartonada. Críticas mesmo só a capa pouco inspirada e a encadernação, pareceu faltar um pouco de cola na lombada. Mas não atrapalhou a minha leitura não, e continuo a recomendar a obra pra quem curte histórias de guerra.
  • Eternas aventuras de meninos

    O que torna um livro clássico universal? Faço minhas as palavras de Ariano Suassuna quando diz que o livro universal é tão singular que pode retratar a vida do homem em qualquer lugar do mundo. Por mais paradoxal que isso seja, quando lemos Tom Sawyer de Mark Twain, não é tão difícil ver aquele garoto da nossa rua ou da nossa escola, se envolvendo em confusões, que para ele, não passam de grandes aventuras.
                Mark Twain é um famoso escritor norte-americano. Nascido sob o nome de Samuel Langhorne Clemens em 1835, numa cidade as margens do rio Mississipi, teve uma infância humilde. Com muito bom-humor e vontade de viver, começou a escrever sobre a vida cotidiana, as paisagens e as pessoas de sua cidade. Quando se deu conta, já era um escritor aclamado pelo público e pela crítica estadunidense.
                Na obra mais famosa do autor, vemos a trajetória de Tom Sawyer, um vívido garoto da pequena cidade de São Petersburgo. O cotidiano de um garoto levado é rico em sentimentos e emoções. Um menino em sua infância é um herói, todos os dias reencarna uma epopeia, seja como um pirata, Robin Hood ou um caçador de tesouros. Seus medos e seus amores são palpáveis, pois são intensos, verdadeiros.
                O menino vive com sua tia amável Polly, seu meio-irmão, o astuto Sidney e sua irmã Mary. O dia a dia de Sawyer é o sonho de qualquer criança: poder andar a esmo pela cidade e seus arredores sem ser importunado ou correr perigo, brincar e se sentir o que são, crianças. Ele usufrui disso da melhor forma. Com irreverência e traquinagens, consegue transformar um castigo num favorável momento de negócios.
                Tom é um garoto inteligente, mas também sensível, vide o seu tratamento com Huckleberry Finn (personagem tão maravilhoso que protagonizará o seu próprio livro logo depois). O garoto selvagem, pária da pequena cidade interiorana. Filho de um alcóolatra, de comportamento agressivo e de famosa má educação. É com o segregado de São Petersburgo que ele viverá uma das maiores aventuras de sua vida, se tornando melhores amigos a partir daí.
                Os heróis também amam, e quando o percebem, já é tarde! Se apaixonar pela filha do juiz da cidade tem lá seus empecilhos e suas emoções. Se a beleza de Becky Thatcher não lhe tivesse capturado o coração, talvez ele não tivesse tomado “aquela” honrosa atitude. É com pequenos atos de amor que o menino conquista a sua amada. Nunca a entrega de uma maçã foi tão romântica, sem ser piegas.
                Para movimentar a trama, logo no início da obra, Tom Sawyer e seu amigo Huck Finn vão ao cemitério realizar uma cura a verrugas, com direito a gato morto e versos mágicos. Mas o que deveria ser uma noite de diversão, acabou se tornando uma noite de terror. Muff Potter e Índio Joe acompanham o doutor da cidade, que deseja resgatar o corpo de Willians Cavalão da cova e estudá-lo.
                Mas, algo dá errado o doutor acaba morto na confusão. Tom e Huck se tornam testemunhas de um terrível crime. Durante todo livro vemos de modo dramático, e também divertido, como os garotos tentam lidar com a situação e quais as consequências do crime na vida de Muff Potter e do terrível Índio Joe. Como clássico da literatura universal, deve ser lido, relido, trelido, comprado, emprestado e dado de presente.
  • Final Fantasy VII Remake e o Ultracapitalismo

              Se você for à Midgard, vai atravessar uma planície árida e poeirenta. Montanhas se erguem por todos os lados, como muralhas malformadas. O céu, cinzento, projeta uma aura de melancolia por toda a extensão. Ao longe, uma massa negra de metal e néon vai se solidificando através da sua aproximação.
              O que antes era um amontoado amorfo, tem sua forma definida. Mas a grande megalópole não é una e indivisível. A urbe está dividida em uma Cidade Alta e uma Cidade Baixa, assim como Salvador. Essa divisão está além da geografia e urbanização, é um símbolo do próprio progresso que os seus engenheiros desejavam.
              A Cidade Baixa é o refugo da “civilização”. O lugar onde o governo só alcança para lhe extrair tributos e impostos. As Forças de Segurança Pública, manifestada nos Soldier, são omissos quando é necessário proteger as comunidades pobres, e opressores quando é preciso atuar em suas ruas e vielas. Só resta a própria população se armar e formar milícias, é isso ou ficar à mercê de grupos criminosos.
              O desemprego e o subemprego geram um exército industrial de reserva, uma massa de trabalhadores desorganizados, sem poder de negociação com os empregadores. Presas fáceis de um capitalismo selvagem. Pessoas com baixo nível de escolaridade, com pouca ou nenhuma chance de se tornar um assalariado, acabam marginalizados ou se marginalizando. A prestação de serviços básicos ou promoção de qualquer assistência social é inexistente. O Direito é algo que se conquista pela força, à moda do darwinismo social.
              A Cidade Alta é o seu inverso. Uma cidade planejada, hierarquizada e funcional. Tecnologia e higienismo conduzem o destino da urbe. Condomínios e complexos habitacionais agigantam ainda mais o cenário metropolitano. Uma miríade de arranha-céus verticaliza Midgard.
              Educação, saúde e segurança funcionam, mediado pelo valor de troca, mas a sua população assalariada pode pagar por eles. O hiperconsumismo é a norma. Os salários psicológicos se somam ao consumo compensatório em uma vida coorporativa e de contínua exploração da foça de trabalho, ou seja, dos assalariados. O tédio se torna a rotina social, e o narcisismo vira uma essência coletiva.
              Em Midgard não existe direitos sociais e políticos, ao contrário, tudo é bem de consumo. Quem tiver mais gils à mão, vence. O acesso aos espaços depende de senhas e autorizações espaciais, e aos seus serviços pelo poder de compra dos usuários.
              Final Fantasy VII é um dos RPGs mais conhecidos do grande público. Mesmo aqueles que não são jogadores ou apreciam o gênero conhecem em parte sobre o game. O jogo se expandiu ao longo dos anos para diversos consoles e mídias. E tem até uma continuação para cinema chamado Final Fantasy VII: Advent Children. O jogo foi desenvolvido originalmente pela Squaresoft e lançado no Japão em 31 de janeiro de 1997, exclusivo para o Playstation, ou Play 1, se preferir. Desenvolvido ao longo de três anos e contando com mais de 300 pessoas na sua produção, o game inovou por trazer uma trama rica em mitologia, enredo complexo e gráficos 3D (IZIDORO, 2021).
              O produtor foi o Hironobu Sakaguchi, velho conhecido dos gamers e criador da série Final Fantasy. O diretor foi Yoshinori Kitase. Tetsuya Nomura foi o responsável pelo designer dos personagens, atraindo uma legião de fás de mangás e animes devido ao visual mais moderno da franquia. O compositor foi Nobuo Uematsu, responsável pelas trilhas sonoras de games mais lindas da história, e responsável por introduzir a primeira música com vocal na série (Ibid., 2021).
              O fato marcante desse jogo, além de todos os seus predicados, está na sua temática. Mesmo que muitos fãs da franquia consumam esse conteúdo sem se dar conta das discussões profundas que esse jogo traz nas entrelinhas da batalha Avalanche x Shinra, Cloud Strife x Sephiroth. De todos os jogos da franquia até agora, esse é o que mais se aproxima das questões e desafios contemporâneos que enfrentamos.
              A que mais salta aos olhos é a ambientalista e/ou ecológica. A década de 90 foi marcada por diversas manifestações a favor do meio ambiente, inclusive com atos tratados como ecoterroristas pelas autoridades. O ano de lançamento do jogo coincidiu com a assinatura do Protocolo de Kyoto (DELCINIO, 2021), importante documento que criou diretrizes para a diminuição da poluição através de menor emissão de dióxido de carbono na atmosfera e outras práticas. Era um momento em que se falava muito em Efeito Estufa.  
              A trama central do jogo se baseia no Sistema Gaya, à época, Hipótese Gaya. O criador dessa teoria foi o cientista britânico James Lovelock. O planeta seria um organismo vivo, e nossas ações impactam na expectativa de vida do planeta. Ou seja, nossa vida seria moldada pelas relações que nós e outros seres vivos estabelecem com o planeta (METEORO BRASIL, 2021).
              Para aprofundar essa discussão, me utilizo dos gameplays de Final Fantasy VII Remake do canal Lucky Salamander. O jogo foi lançado em 2020 para o Playstation 4, e é só a primeira parte do jogo foi contemplada, as outras não tem previsão de quando serão lançadas. Tem tudo para se tornar uma trilogia. O game traz a saga inicial que se passa na cidade de Midgard, e possui ao todo 18 episódios. Essa parte me interessa sobremaneira por tratar da Shinra e a atuação do grupo Avalanche.
              A Shinra, a grosso modo, pode ser traduzida como “Domínio”. Ela era uma empresa que produzia armas de fogo, ou seja, era uma gigante da indústria bélica. Aos poucos, ela foi se ramificando e se tornando uma megacorporação de multi-investimento, tomando o monopólio de variados setores como biotecnologia, a farmacêutica, a engenharia etc. A empresa tomou de assalto o Estado de Midgard, se tornando o próprio Estado.
              A empresa cuida de tudo relacionado a cidade. Sua estrutura é semelhante aos zaibatsus, uma organização patriarcal e patrimonialista, oligárquica em sua gênese. O poder é hereditário. A família Shinra detêm os destinos de seus cidadãos com punhos de ferro. O Presidente Shinra é o herói nacional, o agente fundador da civilização. A narrativa histórica estatal legitima seu domínio sobre a cidade, algo perceptível no Museu da Torre da Shinra, no centro de Midgard.
              A grande imprensa foi aparelhada ao governo megacorporativo. Deixou sua função social de informar e analisar os fatos sociais e passou a fazer uma propaganda oficial da companhia, reproduzindo exaustivamente narrativas que legitimassem o poder da Shinra em Midgard. O populismo midiático taxa de terrorista todo e qualquer grupo contrário a empresa. Serve como mobilizador contínuo da opinião pública.
              Não é possível identificar instituições públicas autônomas, a empresa parece ter engolido tudo em sua sanha de poder. O prefeito da cidade, não passa de um bibliotecário de luxo. O regime de governo, assemelha-se ao pensamento dito “anarcocapitalista”, ou como prefere os estudos acadêmicos mais avançados, um regime “neofeudalista”. Prefiro não usar o primeiro conceito por ser contraditório e anacrônico, antiepistemológico; e o segundo por demarcar uma ruptura inexistente com o capitalismo vigente, acho até desnecessário criar um novo conceito para um fenômeno que estamos vivendo de maneira tão concreta. Por isso, prefiro usar o ultracapitalismo, uma nova forma do capital que busca anular o Estado por completo e substituir as instituições públicas pelas megacorporações. Os direitos se tornam bens de consumo, tudo é consumível e nada é garantido institucionalmente. O mais próximo de um regime de governo a nível estrutural, seria uma plutocracia ou oligarquia patriarcal e hereditária. A presença massiva de militares e armas autônomas confere a megalópole um ar militarista e autoritário. É como se Midgard vivesse eternamente em Estado de Sítio.
              A Shinra se divide em vários departamentos. Cada um deles possui um diretor que respondem diretamente ao Presidente Shinra, e ao seu primogênito, o Vice-Presidente Rufus Shinra. Os departamentos são:
    Departamento de Exploração Espacial; Palmer.Departamento de Desenvolvimento de Armas; Scarlet.Departamento de Manutenção e Segurança Pública, Heidegger.Departamento de Ciências, Hojo.Departamento de Desenvolvimento Urbano, Reeve Tuesti.
              A maior parte deles tem uma personalidade muito problemática. Palmer é um homem ardiloso e pomposo. Scarlet é uma dominadora, que usa de sua sensualidade para ganhos pessoais. Heidegger é um homem autoritário que se utiliza de sua função para proveito próprio e exercer sua violência inata. Sob seu comando estão os Turks, um grupo de elite, uma espécie de serviço secreto da Shinra. São integrantes dos Turks, o líder Tseng; Elena, e a dupla Rude e Reno. Hojo, nessa lista, é o sujeito mais desprezível de todos. O cientista trata a vida alheia como se fosse brinquedo. Ele utiliza qualquer meio para obter os resultados de sua pesquisa, não importando qual sejam. Uma figura escatológica, cruel e sádica. Não respeita nenhum princípio profissional ou ético. É tão antiético que promoveu pesquisas em que Mako era injetado em soldados para aperfeiçoamento militar, e realizou pesquisas envolvendo Jenova em pessoas. É como se a bioética não existisse. Podemos culpá-lo por muitos dos incidentes trágicos de Final Fantasy VII. O único que parece manter algum resquício de humanidade é o Diretor Reeve (IZIDORO, 2021).
              O progresso custa caro, e quem paga é o próprio planeta Gaia. Através da absorção do fluxo espiritual do planeta, ou lifestream no original, a Shinra conseguiu produzir energia elétrica través de Mako. Para gerar Mako, é necessário construir reatores. Mas esses empreendimentos geram contaminações e variados acidentes graves. A megacorporação fez vista grosa aos perigos e continuou a processar Mako do mesmo modo, e assim nasceu Midgard. O grandioso monumento babélico é sustentado por nove pilares e oito Reatores Mako (FINAL FANTASY BRASIL, 2021).
              O Mako é uma ótima metáfora para os ricos do capitalismo predatório, do uso de energias não renováveis como o petróleo, e do perigo das energias nucleares, o próprio Japão muito dependente delas. O fluxo de energia espiritual de Gaia é um recurso não renovável, ou seja, após seu esgotamento, é impossível reproduzi-lo. Essa substância etérea se manifesta tanto em forma líquida como em forma de gases, em outras, como energia. A condensação de Mako produz Materia, nada mais nada menos que Mako solidificado. As matérias têm potenciais imanentes, esse potencial gera efeitos tanto no usuário quanto no ambiente. No jogo, é usado para realizar magias e conferir habilidades aos jogadores. De largo uso no meio militar (FINAL FANTASY WIKI(a), 2021). Como o fluxo espiritual depende do ciclo de mortes e renascimento, ao desviar essa energia e queimá-la em reatores, a Shinra cria um grande desequilíbrio, pois, essa energia é como o sangue de Gaia. O planeta adoece, não muito diferente do nosso.
              Num regime de opressão e desigualdade tão grande como esse, uma reação extrema acontecer é algo natural. Dentre os grupos que resistem à companhia, está o grupo Rebelde de Wutai e a Avalanche. Wutai era uma nação de ninjas, lideradas por Godo Kisaragi. Possuía uma sociedade e cultura milenar. O conflito entre Wutai e a megacorporação se inicia após a instalação de um reator Mako na região de Wutai. Os ninjas lutam contra as tropas geneticamente modificadas, os Soldier, para impedir a sua instalação forçada. Nessa época, Sephiroth e futuro vilão do jogo se torna um herói de guerra. Após o fracasso na resistência, Godo capitula e assina um acordo de cessar-fogo com a Shinra. O reator Mako é instalado e Wutai se torna mais um domínio da companhia. Os ninjas passam por um processo de desmilitarização, e não podem usar matérias. Os habitantes de Wutai passam a viver do turismo (FINAL FANTASY WIKI(b), 2021). No remake, unidades remanescentes do exército de Wutai desejam a sua independência e lutam contra a Shinra usando da estratégia de guerrilha e infiltração. Algo que será mais explorado nos capítulos futuros da saga.
              Entre os aliados dos rebeldes de Wutai, está a Avalanche. O líder do grupo é o rabugento Barret Walace, o homenzarrão com um braço de metralhadora. Os seus comandados são a Tifa Lockhart, uma lutadora que cuida do bar Sétimo Paraíso, no Setor 7; o cômico Wedges; a Jessie e o Biggs. O objetivo do grupo — contando, às vezes, com financiamento de Wutai — é destruir os reatores Mako. Barret é um estudioso de Planetologia, uma ciência que busca entender o fluxo de Mako em Gaia, e por isso, vê a Shinra como uma companhia que destrói o planeta e gera sérios danos a sociedade de modo geral. O grupo usa a tática da sabotagem. Não sei se seria correto tratá-los como revolucionários, pois, para mim, não existe uma tentativa de inverter uma ordem social ou criar estruturas pós-ultracapitalistas. Mas não retiro o mérito dos seus atos revolucionários. É importante notar que a imagem de ecoterroristas que a Shinra lhes impõe parece ter surtido efeito na opinião pública. Raras são as pessoas que compactuam com as ações do grupo Avalanche. O grupo tem a meta de desativar os reatores Mako, um por um, e até conseguem algum sucesso na empreitada inicial com a ajuda do Cloud Strife, um ex-Soldier. Mas o revide da Shinra é maior e desproporcional: eles destroem um setor inteiro ao implodir o pilar do Setor 7, e culpam a Avalanche. O único que parece questionar as ações da companhia é o Diretor Reeve, mas sozinho ele não pode fazer muito. Milhares morrem, outros tantos ficam gravemente feridos. A Avalanche se dissolve e recua, ao menos por enquanto.
              A trama ainda tem muito a crescer, mas só pelos questionamentos e críticas sociais levantados em sua saga, Final Fantasy VII Remake já marcou a nossa história.   
       
    FONTES
    LUCKY SALAMANDER. Final Fantasy VII Remake – Gameplay. Disponível em: < https://www.youtube.com/playlist?list=PLtQUtwjn6QYYkMGMA8pZZtQsz6AvaAWQm >.

    REFERÊNCIAS
    DELCINIO, Rodrigo. Protocolo de Kyoto - Países se comprometeram a reduzir emissão de gases. Disponível em: < https://educacao.uol.com.br/disciplinas/geografia/protocolo-de-kyoto-paises-se-comprometeram-a-reduzir-emissao-de-gases.htm > Acesso 20 fev. 2021, às 11:09 horas.
    FINAL FANTASY BRASIL. Shinra. Disponível em: < http://www.finalfantasy.com.br/final-fantasy-vii/final-fantasy-vii-shinra/ > Acesso 20 fev. 2021, às 18:59 horas.
    FINAL FANTASY WIKI(a). Lifestream. Disponível em: < https://finalfantasy.fandom.com/pt-br/wiki/Lifestream > Acesso 20 fev. 2021, às 19:08 horas.
    FINAL FANTASY WIKI(b). Wutai War. Disponível: < https://finalfantasy.fandom.com/wiki/Wutai_War > Acesso 20 fev. 2021, às 20:17 horas.
    IZIDORO, Bruno. O RPG que mudou o tudo. Disponível em: < https://www.uol.com.br/start/reportagens-especiais/especial-final-fantasy-vii/#page4 > Acesso 20 fev. 2021, às 10:36.
    METEORO BRASIL. Final Fantasy VII e a Hipótese Gaya. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=PQO-VKudZKs > Acesso 20 fev. 2021, às 10:48.
  • Financiamento coletivo – 10º símbolo

    A internet democratizou a publicação e o acesso à cultura de modo geral. Esse é o seu lado mais positivo. Artistas independentes puderam se expressar. O Catarse, com a proposta de financiamento coletivo veio só a contribuir com isso. Possibilitou a capitação de recursos e a distribuição de muitas obras. Dentre as que estão em financiamento coletivo atualmente, apresento a vocês o mangá nacional 10º símbolo.
              No futuro, na segunda metade do século XXI, conflitos levaram a humanidade a viver em cenários pós-apocalípticos. Novas espécies surgiram. Genocídios varreram 3/4 da população mundial. Aumentando ainda mais as mazelas dos seres humanos, uma força externa subjugou o planeta. As sombras rastejam nas esquinas do caos. Ruínas de cidades inóspitas, é impossível distinguir amigo de inimigo.
              As lendas, antes esquecidas nas areias do tempo acabaram por reviver um sentimento que ninguém mais conhecia: a esperança. Os Clãs dos 10 Símbolos, guardiões-guerreiros que apreenderam a usar os poderes que emana da criação, ainda estão na Terra. Nessa jornada, vamos acompanhar o jovem guardião-guerreiro Jono-zo-el Rai-Ohei, Joe para os íntimos. Ele ainda desconhece seu potencial. Mas os seus inimigos sim.
              É um mangá de distopia, com fantasia e aventura na medida certa. O traço apresenta muita qualidade, bom trabalho de retículas e hachuras, sem contar o sombreamento impecável. O mangá lembra muito as obras oitentistas, uma bela homenagem a obras dos anos 80 como Hokuto no ken e Jojo Bizarre Adventure. O autor já declarou que a obra terá 60 páginas e será lançada como trilogia. Futuramente serão lançados spin-offs acrescentando mais elementos e desenvolvendo personagens da série.
              O financiamento coletivo vai durar até 17 de março de 2021. São dez recompensas diferentes, com preços muito acessíveis. Todas elas já com correio incluso. A campanha está na modalidade Flex, ou seja, independentemente do valor arrecadado, você receberá sua recompensa. São várias formas de pagamento, como boleto e cartão, e ainda você pode parcelar.
              O autor dessa magnífica obra é o Alexandre Soares Ribeiro, morador de Urubici -SC. O cara tem muito amor pelo que faz, já fazia seus primeiros rabiscos com três anos de idade. Graduado em comunicação, tem 10 anos de experiência voltada para propaganda e comunicação visual. Desde os vinte anos ilustra profissionalmente. Publicou seu primeiro fanzines com 16 anos de idade. Esse é o tipo de artista que me esforço em ajudar. Ajude como puder, inclusive, divulgando.
    Para mais informações, acesse:
  • Forjando um escudo parte 2

    Após o dia em que foram apresentados, Dante aprendeu muito sobre seu novo mestre.   Giovanni era um homem incrível, brilhante, com um poder de oratória único, mas para Dante ele também era alguém muito peculiar. Ao ser convidado para se hospedar no castelo, não apenas declinou do convite, como também escolheu viver em uma pequena cabana abandonada na floresta, a qual ele fez questão de reformar com as próprias mãos. Tudo isso acompanhado de perto por um Dante intrigado. 
    Ao término da reforma, o jovem  acreditava que finalmente começaria suas aulas. Entretanto, novamente viu seus sonhos destruídos. Giovanni dedicava todo o seu tempo aos passeios pela floresta, além de escrever, ler e fazer esculturas em madeira. Assim os dias viraram semanas que logo meses  e agora o jovem encontrava-se a ponto de ter um ataque de fúria, mas se conteve lembrando de todos os esforços que seu pai já havia feito para encontrar quem o ensinasse, então preferiu ter uma conversa franca com seu mestre.            
    Ele acreditava ter conseguido juntar bons argumentos e era hora de colocar as cartas na mesa. Era  filho de Theo, O Conquistador, e um dia seu irmão Enrico assumiria o manto de Lord Supremo. Quando esse dia chegasse, Dante deveria estar lá, pronto para servi-lo no que precisasse,  provando, assim, ser digno do nome di Savoie. Por isso não tinha tempo para perder cheirando as flores. Seu povo precisava de guerreiros. É o que ele seria ou morreria tentando. Ao alcançar a cabana novamente, encontra Giovanni sentado na varanda com uma faca e um pedaço de madeira fazendo o que parecia ser um cavalo.
    — Olá, mestre Dante. Chegou bem na hora de ver minha nova obra prima. Decidi fazer meu próprio jogo de xadrez e essa é a primeira peça. O que lhe parece? Bom, não é? Tenho certeza que logo vai estar pronto e então poderemos jogar juntos. O que me diz?
    Aquelas palavras trouxeram à tona toda a insatisfação, a raiva e a tristeza que Dante  já havia sentido. Lágrimas escorreram pelo seu rosto ao pensar que seria para sempre motivo de chacota para todos os clãs e a vergonha de sua família. Em sua visão do futuro, era possível enxergar Luigi e Enrico cavalgando, invencíveis, para grandes batalhas enquanto ele ficava junto de velhos, mulheres, crianças e doentes, e depois o retorno dos vitoriosos sendo saudados, ao passo que ele seria jogado ao esquecimento.
    Giovanni se surpreende com as lágrimas do aluno e caminha até Dante, pousando sua mão no ombro do rapaz, tentando acalmá-lo. Dante, por sua vez,  se afasta enquanto enxugava as lágrimas. Era possível ver na face do jovem uma mistura de ódio e decepção pelo homem diante dele.
    — O que aconteceu, jovem mestre? Alguém lhe fez algum mal? Conte-me, sei que posso lhe ajudar. 
    Dante começa a rir do que parecia ser a piada mais engraçada que já tinha ouvido.
    — Me ajudar? Há meses que eu espero a sua ajuda! Após ouvir suas palavras na estalagem eu pensei que finalmente teria uma chance de ser grande, de me tornar um guerreiro de verdade, mas agora vejo que era tudo mentira. Você não passa de um aproveitador que deve ter escutado as façanhas de outros e tomado-as para si. Tudo o que faz é caminhar, brincar com madeira, olhar as estrelas e ver os dias passarem. Creio que aquele dia não passou de um truque para me impressionar e iludir. Quem sabe tudo não faça parte de um plano pernicioso do De Luca para me humilhar mais ainda? Eu irei agora mesmo relatar tudo ao Lord Theo e acabar com toda essa farsa.
    Dante se vira para partir, mas, antes que dê o primeiro passo, algo passa voando junto ao seu rosto. Uma faca de cabo simples surge em uma árvore à sua frente. Assustado, ele se vira para Giovanni e sente o medo tomar todo o seu ser. O homem calmo e relaxado com que estava
    falando instantes atrás já não estava mais ali. Em seu lugar, uma  criatura de feições duras e olhos penetrantes o estava encarando de forma completamente  ameaçadora.
    — Parece que o enganado aqui fui eu, afinal. Pensei que você era inteligente, alguém que valesse a pena ensinar o que aprendi durante todo esse tempo. No entanto,  vejo que não passa de mais um garoto estúpido com sonhos de grandeza que nem consegue enxergar um palmo adiante do próprio nariz. Porco dio, que decepção!
     
    Dante não podia acreditar no que acabara de ouvir. Aquele fanfarrão o havia insultado após se aproveitar de sua família. Tamanha ofensa não podia ficar impune, nem que fosse ao preço de sua vida. Ele saca a espada que trazia junto de si e se coloca em posição de luta, desafiando Giovanni. Ao ver a cena, Giovanni não consegue se conter e um sorriso surge em seu rosto. Ele caminha até a árvore onde a faca estava fincada, passando despreocupadamente ao lado de Dante, como se este não fosse nada.
     
    — Muito bem, bambino, vou lhe dar uma chance. Para ser justo, vou usar apenas esta faca. Se você conseguir me tocar com sua espada, vou considerar que não tenho nada a lhe ensinar, pedirei seu perdão e vou embora. Aceita?
    Dante permanece calado, mas acena, concordando com os termos.
    — Então, o que está esperando? Ataque! Ou está com medo?

     Sem perder tempo, Dante ataca, tentando acertar o pescoço do adversário. Este apenas dá um passo para o lado e responde acertando um tapa na nuca do jovem.
     
    — Lento demais. Conheço homens que o teriam matado três vezes. Vai se esforçar mais ou vai começar a chorar novamente?
     
    O jovem volta à carga enquanto tenta estocar o peito de Giovanni, que defende com a faca e se aproxima,  socando o estômago de Dante, que cai de joelhos, soltando a espada enquanto tenta respirar.
    — Fraco. Não aguenta nem ao menos um soco.  Onde está toda aquela coragem? Onde está o jovem cheio de espírito e vontade de se provar?
     
    Giovanni se afasta, ficando de costas para Dante, que se recupera e tenta uma nova investida, logo contra atacada com uma rasteira, levando-o novamente ao chão.
     
    — E ainda por cima é um covarde que ataca pelas costas. Tem certeza que é filho de Theo? Enrico jamais faria algo assim.
     
    O comentário de Giovanni faz o jovem di Savoie  ir à loucura e ele começa a atacar de forma incontrolável enquanto usa todas as suas forças. Quando sente que elas estavam minguando, Dante tenta um último ataque, mas o poderoso Mestre já antevera e bloqueou,  desarmando o adversário e parando-o com a faca encostada em seu  pescoço.
     
    — E, com isso, acabamos.  Espero que esteja satisfatoriamente humilhado.
     
    Dante cai de joelhos, esmurrando a terra, enquanto novas lágrimas caem. Ele grita ao reconhecer a própria fraqueza e inutilidade. Giovanni, com toda a calma, caminha até o poço, recolhe um balde com água e joga em Dante para acalmá-lo.
     
    Algum tempo depois, de roupa seca e mais envergonhado do que nunca, Dante sai do quarto da cabana para encontrar seu mestre que  estava de frente à lareira enquanto bebia uma caneca de vinho. Sobre a mesa, a espada usada na luta repousava. Ao ver Dante, Giovanni estende a garrafa de vinho para o jovem, que nada diz. Apenas  se  aproxima, servindo-se e observa  a lareira onde  as chamas dançavam furiosas enquanto consumiam a lenha. O tempo passa até que se torna insuportável o silêncio.
    — Mestre, se o senhor é tão forte, por que não me ensina? Por acaso acredita que eu não sirvo? Talvez, como os outros, você prefira uma matéria-prima melhor, como  meu irmão?
    — Bambino, do que está falando? Eu venho lhe ensinando desde o primeiro dia que nos conhecemos.
    — Mas tudo o que fazemos é caminhar pela floresta, conversar, ler… Eu já decorei milhares de textos sobre os grandes generais, por exemplo. Nunca treinamos usando espadas, lanças ou qualquer outra arma. Como eu posso aprender dessa forma?
    O olhar de Giovanni continua duro, o que faz com que Dante abaixe a cabeça em vergonha.
    —  Me diga, em  qual época do ano estamos? 
    — Para que? 
    — Apenas responda.
    O tom de voz de Giovanni deixava claro que não haveria espaço para discussões a partir de agora.
    — Outono.
    — É muito frio ou chuvoso?
    — Não é muito frio, mas venta muito e quando chove é sempre uma tormenta.
    — Se eu quisesse me esconder na floresta, quais animais vivem aqui? Onde posso achar água e um abrigo?
    — Eu não sei.
    — Quantos homens na vila sabem usar uma lança ou espada? 
    — Eu não sei.
    — Quantas crianças tem na vila? Quais os nomes de seus pais? Quantas famílias cada clã tem? A maioria é homem ou mulher? Em que territórios se distribuem e quantas pessoas estão sob seus domínios?
    — E..Eu não sei. 
     
    A cada resposta negativa que Dante dava, ele se sentia menor e mais fraco. Seu desejo era que tudo aquilo acabasse para que ele pudesse partir e nunca mais voltar.
    — Seu irmão foi abençoado pelos deuses e forte e rápido tem muitos que o comparam a Aquiles e provavelmente estão certos. Ele será um grande  guerreiro, e você nunca será como ele, essa é a verdade.
    — Então eu estava certo senhor…
    — Cale-se ragazzo, eu disse que você não será como ele, entretanto será um grande guerreiro à sua  própria maneira.  Dante você pode não ter um corpo tão forte ou a agilidade de Enrico, mas  sua mente é forte e usando ela direito lhe tornará um guerreiro poderoso até mais que o próprio Lord Theo. Você  deve treinar sua mente para ser mais forte e afiada e quando chegar a hora usará esse pensamento centrado, frio e estratégico para derrotar seus inimigos. Cada vez que entramos na floresta ou fomos à vila, fiz questão de aprender tudo sobre ambas e sobre seus habitantes para ter vantagem sobre meus inimigos. Pensei como faria se eu tivesse que atacar ou defender  o território e o que cada grande general faria se estivessem em meu lugar. Conhecimento, bambino, lhe dá a força que lhe falta, por enquanto. A paciência lhe dá a oportunidade que teus inimigos dispensam. Não se compare com os outros, pois em você há qualidades que eles também desejam e no seu tempo você os alcançará  e os vencerá.
     
    — Mestre Giovanni, me perdoe. Sou um tolo que age sem pensar. Eu não deveria ter duvidado do senhor e menos ainda lhe atacado daquela forma. Compreendo e aceito se não quiser mais me ensinar.
    — É verdade. Você é um tolo, agiu como tal e não deveria ter feito isso. Não tem porquê eu lhe ensinar. 
     
    Dante sentia o peso de cada palavra dita pelo homem e sabia que ele merecia aquilo. Pelo menos agiria como um di Savoie e enfrentaria as consequências de cabeça erguida.
     
    — Mas finalmente foi verdadeiro com seus sentimentos, isso é o que importa. Mas nunca mais duvide dos meus ensinamentos ou seja petulante daquela forma. Caso contrário,  seu castigo não será apenas o orgulho ferido e  ficar todo encharcado. 
     
    Dante olha surpreso para o homem diante dele, que sorria feliz por ter conseguido lhe pregar uma peça.
    — Obrigado, mestre, muito obrigado. Eu juro que não vou decepcionar.
     
    Entre lágrimas e sorrisos, Dante não conseguia esconder  a alegria.
     
    — Não me agradeça ainda,  ragazzo. A partir de amanhã vou deixar de ser bonzinho e lhe mostrar o inferno,  para ter certeza que  possa ao menos sobreviver. Fui claro?
    — Sim, Mestre.
    — Também avise ao grande Lord que a partir de hoje você irá morar comigo.
    — Morar aqui?
    — Sim. Algum problema? Quer ficar com seus brinquedos no castelo?
    —  Não.
    — Ótimo. Então termine de beber e vá fazer o que lhe mandei. Não me faça perder tempo.
     
    Rápido como uma raposa, Dante termina sua bebida e sai porta afora, feliz por finalmente ver um futuro para si.

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