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O Ajudador

Bom, a crise económica actualmente está a dar de falar em Moçambique, desde que foi anunciado que o senhor patinhas fugiu com o saco azul e deixou os cofres do estado num total vácuo. Todos estão a sentir na pele, bem, pelo menos a maioria da classe operária, e os freelancers também não são excluídos da fórmula, por isso surgem muitas ideias de empreender. Mas, a solução de empreender não é tão simples como enfatizam os analistas que os assistimos regularmente a partir da caixa à cores em nossas casas, não é fácil empreender porque para começar qualquer que seja o empreendimento é necessário um capital para investimentos e também um plano bem elaborado, que é um dos alicerces mais descriminados por muitos. O capital pode ser conseguido no Banco, mas o Banco só aceita fazer um empréstimo quando se tem uma garantia de devolução com taxas de juros e um bem qualquer para ser penhorado, caso não consiga pagar o empreendedor, e quanto ao plano, é necessário uma consultoria específica para o pretendido empreendimento ou pelo contrário, um plano elaborado pelo próprio empreendedor, desde que tenha imaginação suficiente, ou então, que tenha as ferramentas académicas necessárias para executar a sua visão de negócios. Contudo, sabemos todos que é uma tarefa quase que impossível porque a maior parte da sociedade vive de renda baixa e não possui bens penhoráveis, outrossim a questão do plano só é viável se o empreendedor tiver imaginação, porque as duas outras opções ele estará sujeito a valores monetários que não possui, e são poucos os que têm a sorte de ter algum familiar disposto a arcar com as dispensas. Ganhar dinheiro para o sustento e caprichos de forma legal e correcta, não é tarefa para os fracos, daí que surge o «improviso», que muitas vezes é o caminho usado aqui na cidade capital, que consiste em um auto-emprego criado pelo indivíduo e, a estes eu só tenho uma palavra, avante. Se saíres as ruas da cidade-cimento consegues ver muitos indivíduos lavando carros com baldes de 20 litros, outros controlando os mesmos, uns ainda ajudando nos Mercados a carregar a mercadoria dos compradores, outros carregando sacos nas Mercearias, do caminhão ao armazém e vice-versa, entre outros tantos auto-empregos legais.
No cemitério do Ndlanguene em particular, se olhares com atenção as actividades praticadas, reconhecemos o «vendedor de flores e rosas» a serem depositadas nas campas dos falecidos, o «vendedor de água» para regar a vegetação da campa e molhar o solo por onde são fincadas as flores e rosas nos dias de visita, tem também o «controlador das viaturas» e o lavador que geralmente são os mesmos que controlam. Dentro do cemitério, podemos encontrar os «vendedores de água» novamente, com os mesmos garrafões plásticos e transparentes de cinco litros, tem também o «coveiro», que faz parte da jurisdição do próprio cemitério por isso o excluo da equação, e sim, já ia esquecendo-me do «cuidador da campa», que é contractado pela família do falecido. Este cuidador tem a tarefa de limpar a campa, no sentido de não permitir que aqueles arbustos e ervas cresçam e cubram toda a campa, ele também mantém a superfície da campa isenta de solo, entre outros cuidados que só com o tempo irei ter mais conhecimento. Desde o ano passado que frequento este cemitério e nunca tinha-me apercebido que afinal de contas, existem também os «ajudadores», para além do cuidador, este ajudador o encontras no portão, tangente ao «vendedor de flores e rosas».
Mas então, como o descobri?
No domingo do dia 17 de Julho desde ano, simplificando, ontem, acordei com o dia ensolarado e lavei umas calças minhas e os meus lençóis, e depois tomei chá e me dirigi a porta da rua, sem nada nas mãos, ia ao cemitério. Antes mesmo de sair, fui retorquido pela minha avó ao se despedir dela, da razão de eu ir ao cemitério sem levar o garrafão de água, e eu respondi que não gostava de carregar garrafas e que ia comprar lá mesmo, como o habitual. De seguida, fui e atravessei a porta da rua, comecei a caminhar, e depois de alguns metros percorridos, puxei o celular do bolso e enfiei os auriculares nos ouvidos, precisava da companhia da música, e com as mãos nos bolsos do capucho azul que trazia marchei até a estátua de Eduardo Mondlane, na avenida com mesmo nome, e esperei menos de um minuto até que me apareceu um chapa da rota Museu-Malhazine se a memória não em engana. Daqueles chapas de 26 lugares onde para quem está a entrar, vê a sua direita uma fileira de assentos, de uma única coluna e do seu lado esquerdo, por trás do banco do motorista, outras fileiras de assentos com colunas duplas, duas cadeiras em cada linha. Estava pouco cheio e sentei-me logo na primeira cadeira que encontrei à porta, na mesma cadeira que o cobrador costuma a sentar-se quando está vazio o chapa. Prosseguimos em viagem, eu a escutar música, outros a minha passageiros a escutarem inevitavelmente a conversa típica do cobrador e do motorista, e de outros ainda trocando conversa fiada. Chegado a universidade Pedagógica, entreguei doze meticais ao cobrador e pedi que me deixasse no cemitério, ele ouviu e me devolveu cinco meticais de trocos, fizemos a curva, contornando o campus da universidade e encontramos a avenida de Moçambique, uma das estradas nacionais, e em poucos segundos depois, desci do carro no primeiro portão do cemitério. Retirei os auriculares dos ouvidos, despedi-me da minha querida e amiga internauta, a A., que estava a responder a uma conversa que havia começado na noite anterior, e prometi que voltava a estar disponível em breve. Desliguei os dados móveis, pus os auriculares no bolso direito do capucho e o celular no bolso de trás das calças jeans menos azul que o capucho. Ali estava ele, o «ajudador», de longe não prestei atenção nele, aproximei-me de uma mulher dos seus trinta e poucos anos, que amarava capulana e estava sentada em uma assento de altura menor que a altura dos seus joelhos. Na mão direita, ela segurava um cacho de flores e a sua frente estavam vários garrafões de água de cinco litros, e dos lados também. Eu a saudei e perguntei com educação quanto custava um dos garrafões, e ela respondeu dez meticais, tirei uma nota de cinquenta meticais que trazia no bolso esquerdo de trás da calça jeans e a entreguei, também perguntei quanto custavam as flores e ela me disse cinco meticais cada cacho, pedi de quinze meticais. Ela desamarrou o nó típico feito na capulana pelas mulheres onde guardam seu dinheiro, enquanto ela desamarrava em zaragata, o «ajudador» parado a minha esquerda ofereceu ajuda para limpar a campa, eu exclamei no pensamento; nunca havia ouvido nada igual antes!, e antes de recusar, perguntei mesmo depois de saber a resposta, de que ajuda se tratava e, ele já quase a alcançar com as mãos o meu garrafão disse que era para ajudar a limpar a campa. Eu a princípio queria aceitar, por ver o rapaz de seus treze anos, julgando pela sua fisionomia, que trazia chinelos gastos nos seus pés sujos de terra seca, cara pálida como se nunca tivesse aplicado vaselina e roupa toda gasta, esta era a figura do «ajudador», uma figura rota que comoveu-me naquele instante. Recusando a ajuda, levei os trocos, enfiei-o no bolso que havia tirado a primeira nota e carreguei as flores na mão esquerda e o garrafão na mão direita, caminhei, atravessei o portão e pus-me a pensar no sucedido. Qual seria a condição financeira daquele rapaz que num domingo como aquele, a aquela hora podia estar em uma igreja a cantar salmos, ou podia estar com os amigos a jogar uma brincadeira qualquer, ou ainda, com a família, mas não, ele estava ali no portão do cemitério, por baixo daquele sol, com os lábios secos a oferecer ajuda aos visitantes de seus ente queridos. Foi aí que pensei também, se ele fazia isso é porque deve de ser habitual que uma minoria que vem ao cemitério visitar um falecido, solicitar um «ajudador» para limpar a campa. Pensei logo de seguida, se estou há semanas sem ver a campa da minha Mãe, estúpido seria eu se contratasse um «ajudador» quando eu tenho mãos para o fazer, ingrato seria eu depois de nove meses no ventre da minha Mãe e mais duas décadas em seus cuidados, não conseguir limpar sua campa pessoalmente e ter que chamar um desconhecido para o fazer na minha presença como se não bastasse. Ainda a caminhar para a campa da minha Mãe, na área reservada aos muçulmanos vi um senhor e três homens de estofo, a apartarem as folhas da vegetação seca na campa e o senhor mais velho, de bigode e cabelos brancos, barrigudo, trazia uma camisola vermelha da selecção de benfica, este que julgando pela tonalidade da cor da pele e a aparência do seu semblante, era um muçulmano decerto. De longe via-o, com gestos a orientar os homens o que fazer, e então apercebi-me que na verdade este homem estava a visitar um falecido e que contratou os três «ajudadores». Que vergonha, pensei eu, talvez é um dos seus progenitores por baixo daquela lápide de mármore branco, imagino que se alguma força desconhecida existe na natureza que dá continuidade a existência da consciência humana mesmo depois da morte, a consciência desse falecido está decepcionada com a atitude do seu herdeiro. Existem os «cuidadores» das campas que trabalham na ausência do seu patrão, cuidam de aspectos pontuais, como arranjar a terra depois de uma chuvada, não permitir a vandalização entre outros problemas que eventualmente possam ocorrem naquele cemitério. Esses são dignos de serem contratados e podem até se agradar os falecidos e não falecidos, que afinal de contas os nossos terráqueos no mundo dos vivos se preocupam com o estado das campas e que acima de tudo, mantém o respeito e consideração pela memória dos falecidos.
Ciente que não temos tempo de ir a campa todos os dias, os dias que lá vamos devem ser bem aproveitados, porque do nada valeu ir pagar a mão-de-obra a um «ajudador» e depois fingir uma oração e depois dar as costas e distanciar-se da campa, isso pode ser feito mesmo estando em casa, bastando ligar para o «cuidador» e ordenar a tarefa e depois o pagar num dia qualquer, excluindo se calhar, o acto de orar. Quero deixar bem claro que eu não sou contra nenhum desses trabalhadores honestos que ganham a vida sem prejudicar a de ninguém, não sou contra eles e acredito que eles não contratariam nenhum «ajudador» se o papel fosse aqui invertido. Mas sou contra a atitude do enlutado que não consegue usar suas palmas para fazer o serviço, se ele não pode estar lá no cemitério, pode contratar um «controlador» ou «cuidador» e ele faz o serviço na sua ausência e não na presença. E também, que o enlutado encontre um tempo para o falecido, acredito que ele pode ter sido a pessoa que mais atenção o deu quando vivo e agora ficaria decepcionado se ele não conseguisse arranjar um tempo para visitar sua campa, depositar uma flôr em sua memória.
Em memória de minha Mãe
Lídia Jacinto Nhantumbo
1975-2015
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Atualizado em: Qui 10 Ago 2017
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