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A Sombra da Raposa — Cap. 1 O vulto negro na floresta ao sul

— Vê se não erra dessa vez — sussurrou Shiro enquanto se escondia agachado ao lado de Agnes atrás de um arbusto. — Já chega dessa demora, está muito frio aqui. Se quiser eu te ensino como se faz — disse ironicamente, na verdade ele era péssimo com arcos.
— Cala a boca — sussurrou Agnes. — Se me desconcentrar mais uma vez eu juro que miro em você, e nessa distância eu não erraria.
Shiro se calou, não valia a pena, ele sabia muito bem disso.
Ele se arrependia a cada segundo que se passava de ter concordado com a vinda de Agnes. Devia tê-la deixado em casa e inventado alguma desculpa.
Na noite anterior, ele havia dito que sairia antes do amanhecer e voltaria para busca-la um pouco depois para então irem juntos caçar na floresta. Entretanto, como em algumas outras vezes ela simplesmente decidiu que também iria mais cedo. Shiro havia saído para treinar arremesso de adagas, pretendia melhorar o bastante para poder de fato fazer uso disso em alguma situação real. Mas no fim das contas estava apenas treinando sua paciência.
Eram quase cinco da manhã e ele estava abaixado ao lado de sua irmã em um morro no limite da Floresta dos Lobos, enquanto ela mirava em um grupo de três cervos, a cerca de cem metros, que estavam pastando em um local popularmente conhecido como Clareira Comprida que ficava logo abaixo. Ela já havia errado uma vez e afugentado o bando até ali, mas insistia que conseguiria nessa tentativa.
O perímetro depois da clareira olhando para o sul ou para frente na posição em que estavam, na direção do mar, era formado por pinheiros, eles costumavam se amontoar e crescer bem próximos; a área conhecida como Velha Floresta dos Pinheiros começava logo ali, além daquela clareira. Antes dali olhando para o norte, na direção onde ficava a vila, se localizava a Floresta dos Lobos, onde cresciam outras espécies de árvores, apenas alguns poucos pinheiros e algumas árvores visivelmente aparentadas com os pinheiros. A Clareira Comprida se estendia horizontalmente por centenas de metros, no sentido Leste-Oeste formando algo como uma linha de fronteira entre as duas florestas; nas regiões não margeadas pela clareira as florestas de misturavam em seu limiar.
— Você está carregando algum tipo de poder ou só está me fazendo de bobo? — perguntou Shiro.
Agnes o ignorou.
Havia cerca de sete árvores no topo do morro em que estavam, elas se espalhavam ao redor do morro de forma que o centro era ocupado apenas por gramíneas e alguns pequenos arbustos.
O sol que acabava de nascer iluminava a clareira onde os cervos se alimentavam tranquilamente alheios à situação.
— É só esperar o vento se acalmar... — Agnes pôs a ponta da língua para fora enquanto se concentrava.
Os curtos cabelos brancos de Agnes esvoaçavam com o vento forte, mas ela parecia não se incomodar. Ela e Shiro, seu irmão gêmeo, possuíam cabelos completamente brancos, contrariando sua idade. Compartilhavam, além da cor do cabelo, olhos acinzentados e um rosto delicado, apesar das feições de Shiro terem se tornado muito mais másculas com o passar dos anos. Agnes era mais baixa que Shiro, uma coisa da qual não se orgulhava.
— Esse vento está um inferno — rosnou Agnes. — Além de forte não para de mudar a intensidade e a direção.
— Isso não passa de uma desculpa esfarrapada — sussurrou Shiro alto o bastante para que Agnes ouvisse.
Ela revirou os olhos e o ignorou.
O vento estava realmente muito forte naquela manhã, em situações normais Agnes certamente não erraria. Shiro apenas suspirou descontente e começou a arrancar grama do chão. As árvores da floresta rangiam respondendo a força do vento que as envergava.
Passou pela cabeça de Shiro pensamento de jogar uma pedra na direção dos cervos para afugenta-los, mas Agnes voaria em cima dele e o faria andar novamente até eles, seria trabalhoso e doloroso. Além do mais estavam quase sem mantimentos em casa, eles tinham que conseguir algo. Levando em conta que os animais estavam ficando cada vez mais complicados de se achar eles não podiam perder a oportunidade.
Fazia muito frio, eles usavam apenas casacos finos. Mas Shiro sabia que aquele frio era apenas uma amostra do que estava por vir, logo o inverno mostraria suas garras e as coisas certamente ficariam piores.
Passados alguns instantes Shiro ouviu galhos secos se partirem, provavelmente sob o peso de algo grande. Alguma coisa parecia estar subindo o morro pelo lado contrario de onde eles estavam observando os cervos.
— Agnes... — sussurrou Shiro. — Ei, ei.
— Eu já falei para não incomodar — falou ela sem se mover.
— Tem algo vindo pra cá — disse alarmado tentando ver o que vinha naquela direção.
— Shiro... Me esquece por um segundo — rebateu. — Nunca te pedi nada.
— Mas que droga, é sério — insistiu Shiro. — Não consegue ouvir?
Ela virou ao perceber que Shiro não estava brincando. Os dois tentaram então ouvir melhor.
Constataram que algo realmente estava subindo o morro; tiveram dificuldade para ouvir com mais antecedência devido o forte vento que atrapalhava, mas seja o que fosse já estava bem perto. Shiro sacou suas adagas e preparou-se. Agnes segurou uma flecha entre os dentes e encaixou outra no arco, então tencionou a corda e mirou.
Surgiu então um enorme urso negro, ele os havia farejado e não parecia feliz.
— Parece que é um macho — sussurrou Shiro ao observa-lo.
Eles evitavam caçar fêmeas visto que elas tinham os filhotes, o que era habitual para a maioria dos caçadores.
— Realmente parece — concordou Agnes.
— Era essa chance que nós estávamos espe...
Antes que Shiro completasse o urso os viu e arrancou em direção aos dois.
Agnes atingiu o urso na pata dianteira esquerda e sua flecha quase a atravessou. O urso desabou durante a corrida após ser atingido. Ela poderia ter mirado na cabeça do urso, mas eles poderiam vendê-la por um bom preço se estivesse em boas condições, pessoas usavam quando empalhada como decoração.
Shiro adiantou-se mirando a garganta do urso. Antes que ele chegasse ao alvo o urso levantou-se e lhe acertou uma patada em cheio no seu estômago.
O urso havia se levantado mais rápido do que Shiro esperava.
Ele caiu a poucos metros gemendo apertando o abdômen. Agnes encaixou a outra flecha e mirou novamente, o urso se ergueu sobre as duas patas traseiras e rugiu em direção a Shiro.
— Aqui! Aqui! — gritou ela para chamar a atenção do urso. Ele se virou e rugiu para ela ainda sobre duas patas.
 Agnes então o acertou no peito, a flecha penetrou profundamente, mas o urso parecia que não morreria sem esforço. Ele rugiu novamente para Agnes e arrancou em sua direção sobre as quatro patas. Rapidamente ela puxou outra flecha de sua aljava e atingiu o ombro do urso que não parou sua investida.
Ela saltou em um galho de uma árvore próxima e tentou subir desesperadamente. O galho quebrou, mas ela conseguiu segurar-se e subir pelo tronco. O urso a arranhou em sua perna enquanto ela se esforçava para subir, Agnes resistiu à dor, precisava se manter firme.
— Shiro! Sai daí seu idiota! — gritou enquanto começava a sentir o sangue escorrer onde o urso a havia ferido. — Por favor! Sai daí!
O urso continuou rugindo e arranhando a árvore tentando alcança-la. Parecia furioso e determinado a mata-la.
Agnes tinha que fazer alguma coisa a todo custo. Não podia deixar que o urso tomasse Shiro como alvo.
Shiro gemeu no chão e rolou ainda deitado até onde suas adagas estavam.
Ele se ergueu devagar, parecia não ter quebrado nada.
— Mas que pancada desgraçada — resmungou enquanto se levantava.
Agnes não conseguia usar seu arco, a árvore tinha galhos frágeis demais, não podia soltar o tronco. Ela não havia trazido nada para se defender tirando seu arco e algumas flechas, caso contrário, a situação provavelmente seria diferente. O urso continuava tentando alcança-la, ela mantinha as pernas encolhidas do jeito que podia.
Shiro se alongou e se esticou, estava com o abdômen muito dolorido.
O urso parecia cada vez mais furioso com Agnes, continuava a arranhar a árvore e rugir de pé sobre duas patas. Aos poucos a árvore parecia envergar.
— Tenha calma, jovem irmã — falou Shiro meio sem fôlego. — Eu irei te salvar — então ele fez uma pausa fingindo estar pensativo. — Hum, é o que eu espero.
— Anda logo! — gritou Agnes. — Se esse urso me matar, eu mato você!
— Você nunca mede as palavras, não é? — gritou Shiro fingindo estar irritado.
O urso ouviu o som da voz de Shiro e se voltou para ele sobre as quatro patas, deu alguns poucos passos em sua direção e parou, parecia estar mancando.
Shiro tentou parecer despreocupado para irrita-la ainda mais, ele estava se divertindo com a situação.
— Se o urso não te matar, eu faço isso por ele! — rosnou Agnes de cima da árvore.
Ele queria agir logo, mas precisava fazê-la engolir as palavras amargas que ela tinha lhe dito alguns dias antes, mesmo que boa parte da culpa daquele acontecido fosse dele.
Ao olhar a situação, Shiro ficou em dúvida de quem aparentava sentir mais ódio por ele naquele momento, o urso o lançava um olhar assassino e Agnes fazia o mesmo, parecia prestes a torcer pelo urso e não por ele. Provavelmente ela tinha entendido o motivo daquele teatro.
Shiro respirou fundo e adiantou-se, correu em direção ao alvo que imediatamente se levantou sobre as duas patas. Shiro desviou de uma patada e movimentou-se rapidamente para trás do urso. Saltou sobre as costas do animal e cravou as suas duas adagas na parte frontal de seu pescoço e segurou com toda sua força.
O urso saltou para as quatro patas e sacudiu-se enquanto rugia desesperadamente. Shiro forçou as adagas contra o pescoço, ele mantinha os dentes serrados. Qualquer deslize e seria jogado longe. Agnes rapidamente desceu da árvore e em instantes cravou três flechas nas costelas do urso, eles não tinham a intenção de deixa-lo agonizando.
Agnes mancou em direção ao corpo caído no chão. Shiro sentou-se e fechou os olhos do urso.
— Me desculpe. Juro que não faria se não precisasse. — Agnes pousou a mão em seu ombro, talvez para consola-lo ou apenas para se apoiar.
Shiro caçava para sobreviver, mas mesmo assim sentia-se mal a cada morte. Seja como fosse, era matar ou morrer.
Os invernos em boa parte do continente eram intensos, mas no sul chegavam ao extremo. Em poucas semanas o frio se tornaria insuportável, estavam esperando por uma oportunidade dessas. Eles haviam vendido seus casacos para conseguir dinheiro extra para que seu pai partisse em uma viagem a negócios. Seu pai parecia querer esconder os assuntos que trataria, mas devia ser algo importante, ele não viajava com frequência.
Shiro insistiu em levar Agnes até em casa para tratar dos ferimentos em sua perna, mas ela recusou e disse para ele levar o urso primeiro. Ela afirmou que ainda pretendia treinar, o que certamente não era possível com sua perna naquele estado. Ele não discutiu, não surtiria efeito, apenas arrastou o urso o mais rápido que pôde para casa.
Ao chegar lá pegou a bolsa de primeiro socorros de seu pai. Eles haviam a esquecido, já que não era tão comum darem de cara com um urso; eles viviam na parte mais densa da Velha Floresta dos Pinheiros, em geral na região próxima ao Velho Rio.
Shiro mergulhou em pensamentos enquanto corria em marcha lenta até o morro que ficava a poucos quilômetros dali.
Ele precisava melhorar ainda mais, por sorte o ferimento Agnes tinha sido leve, ele não se perdoaria se algo sério tivesse acontecido. Ele devia ao menos tê-la feito levar uma faca para se defender. Mas o que ele realmente precisava era deixar esse pensamento de que era sua obrigação proteger Agnes a todo custo.
Dias antes, pouco tempo após seu pai ter partido na viagem, Agnes havia brigado com Shiro por ele ter se jogado entre ela e uma pequena matilha de lobos. Ele havia se machucado gravemente para protegê-la; ele sabia que ela era capaz de se defender, mas não podia arriscar que algo acontecesse como no passado. Ela havia gritado com ele e dito que não precisava de sua ajuda. E ele sabia que de certa forma Agnes estava certa, eles eram uma equipe, ninguém devia carregar todo o fardo pelo outro e sim dividirem a carga. Ela tinha capacidade o suficiente para isso. Ele precisava conversar com ela e esclarecer as coisas. Precisava confiar mais nas capacidades da irmã.
Quando Shiro apareceu no topo do morro Agnes levantou seu rosto, parecia ter dormido e acabado de acordar. Ela estava sentada encostada em uma árvore. Sua franja branca estava grudada em sua testa por causa do suor, talvez tivesse suado frio ou poderia ser suor de cansaço, ela parecia acabada de qualquer forma.
— Que dia, hein? — disse Shiro se apressando até onde ela estava.
Agnes apenas suspirou e sorriu sem vontade.
Ele estava encharcado de suor, por ter que arrastar o urso até em casa e voltar correndo até o morro. Eles tinham um tipo de trenó onde carregavam a caça, que era grande o bastante para comportar um urso ou um alce, mas mesmo assim era ridiculamente trabalhoso puxa-lo. Shiro olhou para o sol por entre as árvores, por sua posição devia ser algo por volta das seis da manhã.
O tempo parecia ter melhorado, já não estava tão frio como antes. Shiro sentou-se ao lado da irmã e pôs a perna ferida sobre um pano para facilitar os primeiros socorros.
Havia dois rasgos não muito profundos na coxa de Agnes, na parte próxima ao joelho, mas o que o preocupava era o terceiro corte, que era mais profundo que os outros dois. Ele jogou uma bebida alcoólica sobre o ferimento, Agnes segurou um grito e socou com força o braço de Shiro.
— Desse jeito eu vou que vou precisar dos primeiros socorros — reclamou Shiro.
— Cala a boca — Agnes riu enquanto se contorcia pela dor.
Minutos depois Shiro a colocou em suas costas, já com a perna enfaixada, e seguiu para casa, rumo ao norte.
Ao chegar em casa Agnes insistiu em ajudar a fazer o almoço. Shiro tentou fazê-la descansar, mas Agnes o ameaçou dizendo que se ele continuasse reclamando ela o faria ter motivos para precisar descansar por dias.
No final ela acabou ficando sentada à mesa ajudando a descascar e cortar algumas batatas.
Shiro passou o restante dia tirando a pele do urso e a tratando, armazenando a carne e a salgando para que quando anoitecesse ele pudesse a por para defumar na cabana que ficava na base da colina. O gosto da carne não era ruim, mas estava longe de ser uma das preferidas de Shiro. Apôs curada e defumada a carne se conservava por um bom tempo.
Agnes havia aceitado descansar durante a tarde, ela pretendia terminar de ler um livro. Antes de dormir o corte já estava quase cicatrizado, o que era normal para os dois.
— Esse inverno vai ser mais difícil do que parece — disse Shiro para si mesmo enquanto subia a colina até sua casa com a pele do urso.
O dia já estava amanhecendo, mas ainda não havia sinal algum do sol.  Shiro estava afiando suas duas adagas sentado no primeiro degrau da entrada de sua casa. Lá de cima da colina podia-se ver toda a vila, cerca de vinte casas de telhado amarelado. A colina onde sua casa ficava se chamava Corvo Branco, ficava ao sul do restante das casas.
A vila de Amístiro ficava no extremo sul do Condado do Sul, especificamente, o mais longe que se podia ir naquela direção e encontrar algo civilizado; mais alguns quilômetros ao sul ficava o mar, onde poucos se aventuram a explorar e de onde muito poucos voltaram vivos, a maioria das pessoas apenas pescava na costa.
As casas da vila eram dispostas ao longo de uma larga rua central disposta no sentido Norte-Sul, rua essa que seguia em linha reta da base da colina do Corvo Branco até a entrada da estrada de terra que seguia para o Norte. A vila se localizava dentro da Floresta dos Lobos, em uma clareira retangular que englobava a colina, a vila e os campos, em ordem seguindo do sul para o norte. Ao longo do perímetro da clareira havia uma cerca com um pouco mais de um metro de altura que impedia a entrada de animais selvagens na vila, havendo sete porteiras que serviam de acesso à floresta. 
Havia dez casas no oeste da rua e onze no leste; o que olhando da casa de Shiro seria o mesmo que dizer dez na esquerda da rua e onze na direita. Todas as casas possuíam compridos quintais, onde eram criados animais e cultivados temperos para uso próprio ou para venda. Ao longe, olhando para o norte, no final da rua principal, era possível ver os campos, onde eram produzidos alguns poucos cultivos. No total havia quatro pequenas lavouras a algumas dezenas de metros da vila, que pertenciam a quatro famílias de lá. O que era produzido em sua maioria era consumido e vendido na própria vila, e os poucos excedentes eram vendidos em Belfort, uma cidade próxima, a dois dias de caminhada pela estrada de terra.
Shiro decidiu sair para caçar sem sua irmã, algo lhe incomodava naquela manhã, talvez fosse melhor deixa-la descansando. Ele só queria andar um pouco de qualquer forma.
Quase todos os dias desde mais jovem ele, sua irmã e seu pai saiam para a floresta em busca de caça. Vendiam parte do que conseguiam para alguns conhecidos e para dois mercadores da vila que revendiam em Belfort, além de sempre doarem parte para Giulia, tia por consideração de Shiro e Agnes.
Seu pai sempre os mantinha alerta durante suas idas a floresta sobre as Bestas, como ficaram conhecidos os animais descontrolados que começaram a aparecer na região a mais de três séculos. Eram seres agressivos e de força anormal, não apareciam com frequência, mas eram muito temidos. Seu pai havia lhe contado que o boato que se espalhou há muito tempo entre os anciões dizia que esses animais estavam possuídos por espíritos malignos. Pessoalmente, Shiro nunca acreditou nessa baboseira, mas respeitava a opinião dos anciões, porque quem sabe tudo isso não tivesse partido de algo verdadeiro; dizem que a maioria das lendas deriva de uma história verídica.
Shiro se levantou, guardou suas adagas nas bainhas e começou a descer a colina para o lado oposto da vila, indo em direção ao mar, seguiu para o sul. Passou na cabana que ficava atrás da colina e mexeu nas brasas quase apagadas, na volta retiraria a carne. Ele olhou para o céu antes de entrar na floresta.
Estava nevando.
Seus cabelos brancos se misturavam com a paisagem durante o inverno, já que quase tudo ficava coberto de neve. Eles eram naturalmente bagunçados, mas Shiro gostava dessa forma. Muitas pessoas da vila perguntavam o porquê de seus cabelos serem brancos, visto que ele tinha apenas quinze anos, essa dúvida era compreensível. Seu pai lhes explicou quando mais novos que ele e sua irmã não eram os primeiros em sua família a possuir os cabelos daquela cor. Seja como fosse ele era alvo de chacotas por causa da cor de seus cabelos, mas após ter diminuído suas idas a vila as brincadeiras de mau gosto diminuíram consideravelmente.
Havia provisões em casa e os dois mercadores da vila haviam saído em viagem junto de seu pai, não havia motivos para ele estar na floresta naquele dia. Ele não pretendia caçar ou algo do gênero, mas andar por ali havia se tornado um hábito.
Já estava andando na floresta a cerca de uma hora, estava em algum lugar da Floresta dos Lobos, seus passos deixavam pegadas na fina camada de neve no solo. Subitamente ecoou um ruído pela floresta. Rapidamente Shiro se encostou a uma árvore próxima e sacou suas adagas. Controlou sua respiração e ficou imóvel, então se concentrou nos sons da floresta. Um uivo desesperado foi seguido de guinchos e latidos.
Ele correu para o local de onde os sons pareciam vir e encontrou um lobo comendo outro lobo. Na verdade um lobo filhote comendo o que deveria ser sua mãe, pois havia cerca de dois outros filhotes mortos a alguns metros. Ao ver Shiro o filhote de lobo correu por entre as árvores a uma velocidade que talvez superasse até a de um lobo adulto. Certamente era uma Besta.
Shiro correu freneticamente seguindo os rastros do filhote, pulando troncos caídos e se arranhando em arbustos, o lobo era rápido, mas não chegava a ser um desafio.
— Vem aqui desgraçado! — gritou Shiro quando estava na cola do filhote, sentiu os músculos de suas pernas tencionando ao máximo, ele gostava daquela sensação.
Sem aviso prévio um vulto negro surgiu, saltou sobre o filhote e mordeu seu pescoço. O lobo tentou reagir, mas seus guinchos foram ficando fracos, até que finalmente cessaram. Shiro havia ficado estático a poucos metros da cena, isso nunca havia acontecido antes. Ele ouviu nitidamente o som que o pescoço do filhote fez ao quebrar. Havia deixado cair suas adagas por conta do susto.
Seja o que fosse estava parcialmente escondido pelo tronco de uma árvore que estava à frente de Shiro.
Ao contornar a árvore instantes depois, já passado o choque, ele pôde observar que o que havia pulado sobre o lobo era uma raposa, um pouco maior do que as convencionais, sim, mas certamente uma raposa negra. Ela soltou o pescoço do lobo e observou Shiro. Parecia inquieta, seu olhar o sondou da cabeça aos pés. Não notou nenhum perigo eminente, então começou a comer o filhote caído no chão.
— Mas que merd... — sussurrou Shiro mais uma vez espantado.
— Todo ser vivo precisa comer, até onde eu sei — falou a raposa.
Talvez falar não fosse o termo mais adequado para a situação, visto que ela mexia a boca apenas para destroçar o corpo do filhote. Ela comia e lançava olhares na direção de Shiro.
— Mas... — disse Shiro aturdido. — Como você...
Aos poucos tudo pareceu turvo.
O sol penetrava com dificuldade as copas das árvores, era realmente um lindo dia, havia neve espalhada sobre alguns arbustos; ele estava em uma parte parcialmente densa da floresta.
Shiro sentiu uma fraqueza e então se sentou encostado na árvore onde se apoiava. Devia ter dormido pouco naquela noite ou algo assim, certamente devia ser fadiga, talvez o dia anterior tivesse sido mais cansativo do que ele imaginou.
— Oh! Você me ouviu? — falou raposa surpresa, agora parecendo realmente interessada em Shiro.
— Não — respondeu Shiro sentindo-se atordoado novamente, só podia ser um sonho.
— Como assim não? — perguntou a raposa sem mover sua boca. — Isso não faz sentido — disse a raposa enquanto dava uma risada abafada, pelo tom de sua risada deixava transparecer que estava nervosa.
A voz parecia ressoar dentro da mente de Shiro, como se fosse gerada lá, e não partisse da própria raposa. O focinho da raposa estava manchado de sangue, ela o olhava fixamente. Shiro perdeu a consciência encostado na árvore.
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Atualizado em: Sex 7 Abr 2017
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