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Heranças de Sangue - Capítulo I

O cheiro dele era gostoso. Por trás daquele cigarro fedido havia um perfume seco e saboroso que a remetia a um sentimento entre a fome e à vontade. Era estranho aquilo... Aquele cheiro parecia mais forte que o do líder em alguns momentos, algo que não era nem um pouco comum e a intrigava, principalmente quando ele desviava os olhos escuros das cartas para sua direção.

Não acompanhava o jogo que pouco lhe interessava. Só estava ali por que fora mandada e, sem entender o motivo, aos poucos ia sentindo cada vez mais a mandíbula tensa enquanto rangia os dentes e observava as companheiras e o líder se remexerem inquietos e nitidamente nervosos.

Olhava ansiosa do líder para o estranho e deste para o velho do chapéu branco. Nunca gostara daquele homem. Sempre com algum truque na manga, algum esquema escondido. Mas o líder queria a presença dele, se divertia com aquilo. E o velho sorria cada vez mais, parecendo divertido com a situação entre o rapaz do cheiro gostoso e o líder.

- É, parece que eu continuo mesmo com sorte, Lobão... – Riu o jovem jogando as cartas na mesa e esticando o corpo para recolher as fichas.

- Vai se foder, seu merdinha! Ta achando que pode roubar o Lobão?! Cê ta morto, filho da puta! - ouviu o líder gritando enquanto malhava a mesa com força o bastante para a madeira rachar. E no segundo seguinte sentia o corpo tomado pela dor da mandíbula alongando-se e corria sobre as quatro patas para cima do rapaz.

Sangue. Não o sangue sem graça dos outros, aquele sangue havia sido tocado. O banquete estava servido! Pulou por cima da mesa quebrada vendo suas companheiras pelos cantos dos olhos e logo sentia aquele cheiro tentador diretamente em seu focinho enquanto cravava uma mordida deliciosa no ombro daquele estranho que enfurecera seu mestre.

-AAAAAHHH! – o grito cortou o quarto, ecoando o trovão que cortava a noite lá fora.

Um último acorde sujo ainda ressoava enquanto Davi olhava congelado para sua cara, jogado com uma perna por sobre o braço direito da poltrona e a guitarra no colo. O lençol ensopado denunciava que o suor lhe tomara o corpo durante o pesadelo, apesar do frio e da chuva incansável do lado de fora do apartamento. Agarrou o que encontrou mais perto da mão e arremessou com raiva em direção ao musico ainda paralisado.

- Vai se foder, Davi! Já mandei num tocar essa porra quando eu tô dormindo, sempre me manda pra essas viagens! – brigou enquanto se virava e sentava na cama, apoiando a cabeça sobre as mãos e procurando com os olho pelo cinzeiro e o maço de cigarros quase vazio.

Davi riu enquanto tirava o travesseiro arremessado pelo amigo de sua cara e voltava a correr os dedos pelo instrumento, tocando uma música cadenciada, com os acordes progredindo tom a tom. O rapaz, no auge dos seus 20 anos, conservava aquele visual largado com longos cabelos e jeans gastos. Havia conhecido Ve ainda aos 16 anos, quando os dois quase foram presos tentando aplicar o mesmo golpe em um grande hotel do litoral e, depois de fugirem juntos, ficaram amigos, rindo de terem tido a mesma ideia no mesmo momento. Desde então se mantinham por perto, de forma que um pudesse cobrir o outro em situações assim.

- Ta com medinho da chuva, Ve? Deu pra ter “pesadelinho” e botar a culpa no meu som agora? – parou de tocar apenas tempo o bastante pra atirar o isqueiro para o amigo e então falou um pouco mais sério – O que foi dessa vez?

Ve acendeu o cigarro e deu uma longa tragada antes de responder. Não sabia o que era, mas toda vez que Davi tocava alguma cosia enquanto ele dormia tinha algum sonho confuso e assustadoramente realista como aquele. Mais do que isso, uma porções de vezes se via naquela exata cena alguns dias depois, por isso o amigo questionava sobre o sonho. Não entendia como o som de Davi podia agradar tanto qualquer um que ouvisse, levando a sentir em detalhes tudo que ele queria passar com sua música, mas ainda assim nenhuma gravadora jamais se interessava. Era um talento único, mas parecia que só rolava ao vivo... Presença de palco, talvez. Soltou a fumaça pelo nariz enquanto se acalmava e respondeu:

- Não. Nem sei que porra foi essa, um sonho confuso... Eu era uma mulher qualquer me observando jogar cartas com mais dois caras... e do nada eu não era mais mulher nenhuma! Era um lobo correndo, enfiando os dentes no meu ombro e adorando cada segundo daquilo.... – contou, massageando o ombro onde havia sido atacado no sonho.

- Deu pra sonhar que é mulherzinha agora, é? Certeza que tava querendo se pegar, Narciso! – riu Davi da cara do outro, mudando a música pra algo um pouco mais calmo na expectativa de ajudar Ve a se acalmar. – Pelo menos o sonho não tem nem pé nem cabeça... Não tem que se preocupar com nada disso, fala ai.

- É... Nada com que me preocupar... – respondeu pensativo. Aquilo tinha sido muito real.

Os dois se olharam sérios por um instante, então caíram juntos na gargalhada. Era sempre assim, em momentos muito sérios ou quando um deles se sentia tenso por qualquer motivo, os dois caiam na risada atoa, como se forçando deixar o que quer que fosse pra lá.

Ve terminou o cigarro e voltou a deitar para dormir mais um pouco antes do próximo dia.

- Vê se para com essa guitarra maldita e vai dormir também.

Apesar das reclamações, Ve sabia que Davi dificilmente dormiria e, sinceramente, achava ate melhor. Ele nunca dormia. Em todo o tempo no qual vinham vivendo juntos, Davi nunca havia dormido mais que 6h por mês, o que era assustador e inexplicável, mas absurdamente útil para um par de jovens golpistas que levavam a vida dia após dia, criando uma lista de inimigos em potencial cada vez maior. O musico brincava que tudo que ele precisava pra se sentir completamente descansado eram suas drogas e músicas e, com tanto que essas coisas não prejudicassem os negócios dos dois e ele fosse capaz de ficar de vigília enquanto Ve dormia, não via problema nenhum com isso.

Assim que o amigo caiu no sono, Davi colocou a guitarra de lado por um momento. Iria dar um descanso para a mente de Ve, o tal pesadelo parecia ter mexido mesmo com ele e como, por coincidência, acontecia toda vez que acusavam sua música de ter levado alguém “em uma viagem” dessas, ele também se sentia um tanto cansado. Foi até o banheiro, abriu a torneira e encharcou o rosto usando as mãos em concha para jogar agua em sua cabeça. No espelho à sua frente via um jovem magro com cabelos negros colados ao rosto pálido e emoldurando olheiras fundas e olhos avermelhados. Precisava recuperar suas energias e a melhor forma que sabia para fazer isso era fumar seu baseado e curtir um som em paz.

Voltou para a sala colocando os fones de ouvido e selecionando umaplay listtranquila, recuperou o isqueiro que havia emprestado para o amigo a pouco e se afundou na poltrona com o cigarro de maconha na boca. Ficou naquele estado de transe que tanto apreciava, curtindo seu som enquanto sua mente vagava pelo mundo dos sonhos, ainda acordado, deixando que as ideias para suas próximas músicas viessem até ele e sentindo o corpo relaxar aos poucos. Achando que seria só mais uma das longas noites em que chegava à manhã seguinte sem ter realmente dormido um segundo se quer, mas totalmente recuperado dos dias anteriores, não se deu conta do quanto estava realmente cansado e caiu em um dos seus tão raros sonos reais.

Ve sentiu as costas batendo contra o chão e acordou pronto pra socar Davi. Parecia uma criança com aquela mania estupida de querer o acordar puxando da cama.

- Filho da... – parou a frase pela metade quando abriu os olhos e, ainda zonzo de sono e pela queda, notou mais três pessoas que não deveriam estar lá.

Tentou girar o corpo rapidamente, em busca da barra de ferro que mantinha escondida entre a cama e a parede, mas foi impedido por alguém que pulou sobre ele, mantendo-o imobilizado com o próprio peso e prensando seus pulsos contra o chão. O click de um revolver sendo destravado o fez parar na mesma hora e respirar fundo, sabendo que não era hora de tentar nada, apenas procurar entender o que estava acontecendo, que golpe os tinha colocado naquela situação e encontrar a melhor saída possível. Com alguma sorte e muito esforço das suas habilidades de convencimento e leitura das pessoas, eles sairiam vivos mais uma vez.

- ha ha ha – a risada abafada lembrava um cachorro de alguma forma. Ve virou o rosto em direção ao homem com a arma, tentando puxar na memória quem era ele. – garoto, você e seu amigo são umas peças! Esse rapaz parece que nunca dorme, tô a quase um mês esperando uma chance de pegar vocês de surpresa... – Davi estava sentado na poltrona, visivelmente tenso e imóvel, olhando congelado para Ve, enquanto o estranho balançava o revolver em sua direção, aparentemente sem nem se dar conta disso, pois falava descontraído e com um ar divertido – Não sei o que você tem usado garoto, mas juro que posso fazer uma boa grana com isso! – a risada estranha, que lembrava um rosando, encheu o loft mais uma vez.

O cara com o revolver era um baixinho tão magro que suas roupas pareciam ser emprestadas de alguém pelo menos cinco centímetros mais alto que ele. Usava jeans velhos, botas decowboy, suspensórios e um colete social cinza surrado sobre uma camiseta preta, além de completar o visual com um par de costeletas esfarrapadas e uma quantidade absurda de pelos pulando para fora de suas roupas.

Encostado na parede atrás da poltrona estava um senhor forte, que só entregava a idade avançada pelo bigode e cabelos completamente brancos, assim como o terno completo, seu chapéu coco e sua bengala.

Quem completava o grupo, em cima de Ve, o imobilizando completamente, era uma garota, para sua completa vergonha. Ela era bonita, por volta dos dezesseis anos, morena, com curvas acentuadas e o cabelo na altura dos ombros. Era desconcertante a forma como conseguira imobilizar o rapaz com tanta facilidade, sendo que apesar de um corpo nitidamente em forma, não era uma mulher grande nem ostentava uma musculatura aparente. E como se não bastasse isso, não demonstrava nenhum esforço e ria confortável com a situação em uma mini saia branca e uma camiseta larga com a bandeira da Inglaterra. Por mais que ele não estivesse relutando, era de se esperar que uma menina como aquela desprendesse algum esforço para garantir que um homem daquele tamanho ficasse imobilizado.

Apesar de sentir que deveria reconhecer aqueles dois homens, não conseguia se lembrar de jeito nenhum quem eram, o que só podia significar que realmente não os conhecia, afinal seria difícil não se lembrar de duas figuras tão estranhas quanto aqueles dois.

- Cara, o que quer que você ache que a gente fez, te garanto que não fizemos! – Ve começou a se explicar, mas o baixinho armado o cortou com sua estranha risada enquanto se aproximava dele e uivou como se fosse um cão quando abaixou ao lado dele.

- Relaxa, guri. – falou com a arma frouxa na mão, mas a centímetros de seu rosto. – Eu não to aqui pra ferrar com você não. – Sorriu, mostrando seus dentes amarelados.

Ele dizia a verdade. Ve tinha certeza disso, era o seu lance, sua habilidade. Conseguia saber se alguém falava a verdade, ou ate mesmo adivinhar o que estavam pensando só de bater os olhos na pessoa, uma habilidade de leitura corporal que tinha desde criança e só Davi sabia. Mas ele havia dito “eu não to aqui pra te ferrar”, não disse nada sobre os outros dois. Dirigiu seu olhar para o velho do terno branco, tentando pescar alguma coisa dele, mas não conseguia ter certeza de suas intenções. Percebendo o olhar de Ve, o baixinho riu novamente.

- Garoto esperto, presta atenção no que os outros dizem, neh? – Olhou para o velho do outro lado do loft, fungou com ar de desprezo e se volto para o jovem imobilizado outra vez – Relaxa, ninguém vai te ferrar aqui. O meu...amigoaqui percebeu vocês dois a algum tempo e comentou comigo. Vocês dois curtem a vida boa, pulando de canto pro outro e conseguindo o que querem com seus golpes e esqueminhas, neh? – Ve olhava fixo para o estranho, tentando pegar qualquer subsentido que houvesse naquele discurso, mas sentia que o outro estava sendo sincero, só não entendia onde ele queria chegar. – Acontece que vocês dois tem uma preferência de ferrar com os riquinhos e os verdadeiros filhos da puta e eu realmente gosto disso, rapaz! Cê andou tirando tanta grana daquele gordo desgraçado do Mendonça que ele não conseguiu mais esconder aquelas meninas que ele vinha traficando pra cá, a casa dele caiu ontem. Negócio nojento daquele cara, traficando gente...

Era novidade pro Ve aquilo. A anos ele e Davi vinham focando seus golpes em gente como aquele cara, que usava o dinheiro e o poder pra acabar com a vida das pessoas a força e causar toda aquela dor e tortura... Não ligavam pros traficantes e bandidinhos por ai, se alguém queria se matar enfiando droga por todo canto do corpo, problema deles, mas o Mendonça sequestrava e traficava aquelas meninas como se fosse um produto qualquer e se eles podiam se dar bem enquanto ferravam com as finanças dele, um tanto melhor. Sem perceber ,Ve deixou um sorrisinho se desenhar em seu rosto e automaticamente os dois estranhos o encarando imitaram seu sorriso. Era outra parte das suas habilidades secretas, mesmo sem querer ele sempre acabava influenciando o humor dos outros ao redor... As pessoas simplesmente se empatizavam com ele.

- É garoto... Parabéns. E obrigado! – a risada de cachorro dele parecia ate divertida, agora que não sentia mais tanto medo por sua vida, embora ainda não estivesse confortável naquela situação: preso e com uma arma do lado da cabeça. – Alias, que falta de educação a minha! Ana, solta o guri! Essa aqui é uma das minhas filhas, rapaz... To treinando ela pros negócios, por isso trouxe comigo. Não leva a mal o jeito que a gente apareceu, mas toda vez que alguém tenta chegar perto vocês dois desaparecem e eu queria falar com você faz tempo! – puxou Ve para que ficasse de pé agora que ele estava livre da garota risonha e pendurou a arma pelo cano dentro de suas calças. – Eu sou o Lobão. Vendo meu produto nessa zona e na maior parte da cidade, mas prefiro deixar meu nome de fora dos negócios, sabe como é... e aquele merda do Mendonça tava usando o lucro das meninas dele pra roubar meus pontos, acredita? Enfim, cê me fez um favor mesmo sem perceber. Ele ficou tão nervosinho de ta perdendo grana o tempo todo pra você que começou a dar brecha e a polícia conseguiu pegar ele. O Velho ali te descobriu faz tempo e veio me contar essa história, por isso to aqui. Eu posso ser um traficante, mas tenho meus princípios, quero te agradecer e acho que a gente pode fazer alguns negócios juntos.

Aquilo tudo era uma loucura, mas a vida deles nunca tinha sido algo muito normal. Era o que eles tinham escolhido: Festas alucinadas em coberturas de hotel com dinheiro desviado de bandidos, viagens alucinantes no cartão de credito de um escravagista, identidades falsas pra cada novo conhecido e traficantes com senso de gratidão te pegando no meio da noite para fazer uma “oferta irrecusável”. Sim, por que ninguém recusa a oferta de um traficante louco que uiva pro teto e tem uma arma destravada na cintura.

- ah... ok, bom saber que aquele filho da puta caiu, agora tenho que procurar outro pra tirar vantagem. – tentou parecer a vontade, mas se não fosse todo o esforço e sua habilidade em influenciar os outros, teria sido uma cena realmente medíocre.

- Gostei de você, garoto. Cê tem aquele cheiro. – Lobão virou-se e jogou um pacote no colo de Davi, que parecia mais relaxado, mas ainda em choque... Era raro ele dormir e ser pego no susto daquele jeito o tinha deixado realmente em choque – Um presentinho pra você garoto. O Velho falou que você é o apreciador da dupla. Há! – voltando-se para Ve, ele deu um tapinha em seu ombro e completou – Vem na minha toca, a gente vai jogar uma partidinha de poker entre amigos com o Velho e ver se podemos fazer negocio. É sempre bom ter um blefador que nem você entre os amigos, só quero ver o quão bom você é.

E assim, sem mais nem menos, como eles surgiram eles foram embora. O Lobão virou as costas, deixou um papel com o endereço e horário na mesa de centro e foi embora, sendo seguido por sua filha o Velho.

Os dois amigos se olharam tensos por quase um minuto sem ninguém dizer uma palavra, ate que Davi levou o presente do lobão ate o nariz, provou o cheiro e os dois caíram naquela risada forçada de quando fingiam que estava tudo bem outra vez.

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Atualizado em: Seg 23 Set 2013
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