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Armadilhas do Destino

Capítulo 1

Janeiro de 1970...

Kleber estava parado diante da janela de seu escritório, no Supermercado Decresson. Segurava a foto de sua esposa numa das mãos. De seus olhos caem lágrimas. Edith Decresson era linda e muito bem educada. Tinha lhe dado dois filhos, Helena e Felipe. O casamento ia muito bem, até ele receber aquele telefonema.

“_Kleber Decresson...

_Sou eu, quem fala?

_O senhor sabe onde está sua mulher? Agora, neste momento?

Aquilo o pega de surpresa.

_Quem está falando?

_Um amigo que quer abrir seus olhos. Confia na sua esposa? Tem certeza de sua fidelidade?

O sangue de Kleber ferve. Como pode alguém que nem tem coragem de se identificar duvidar da mulher que ele amava?

_Você é um cretino, Não vou dar ouvidos ao que me diz.

_Sua esposa está num motel próximo a Montes Claros, com seu capataz. O nome do Motel é Moura Fontes. O senhor sabe onde fica.

_Bata na boca para duvidar da honestidade da mãe de meus filhos, infeliz.

_Quem avisa amigo é.

A pessoa do outro lado desliga. Kleber fica enfurecido.

_Alô, diga quem você é, desgraçado, alô _Berra Kleber. Ele desliga o telefone com tanta força que quase quebra o fone.

Foi neste momento que tudo começou. Acreditava piamente no amor de sua mulher, em sua fidelidade, mas aquele telefonema tinha tirado seu sossêgo. Nunca mais tinha esquecido o que seu pai lhe falou um dia, quando tinha dez anos.

“Filho, por mais seguro que você esteja em sua vida, acredite. Onde tem fumaça, tem fogo. Verifique, investigue, procure descobrir. Não seja o último a saber.”

Com esse pensamento na mente, Kleber pega o telefone e disca um número.”

Por causa daquele telefonema, Kleber passou a desconfiar de Edith e sua vida se transformou num inferno. Tinha que fazer alguma coisa. Lembra quando encontrou-se  com o Detetive Lacerda. Já tinha trabalhado para ele no passado, para descobrir empregados que estavam passando segredos seus para Supermercados concorrentes. Muito competente e super discreto, nele Kleber confiava.

“Kleber estaciona o carro num lugar afastado de Montes Claros. O Detetive Lacerda já estava no lugar, esperando. Os dois se cumprimentam.

_Como vai, patrão?

_Vou bem, graças a Deus e você?

_Vou bem também, graças a Deus. É sempre uma honra trabalhar com Kleber Decresson. Uma pessoa tão admirada por essas bandas. Se o senhor me chamou de novo, é por que gostou de meus serviços.

_Sim, gostei muito. Por isso estou aqui.

_Pode falar, sou todo ouvidos.

_Preciso de sua ajuda. É um trabalho extremamente sigiloso.

_Claro.

Kleber estava com um envelope pardo na mão. Ele abre e tira duas fotos. Com calma o entrega. Uma da esposa do seu chefe e a outra de seu capataz, Oliveira.

_Sua esposa e seu capataz.

_Descubra se eles estão tendo um caso. O Motel é o Moura Fontes. Quero que os siga. Se eles foram para o motel, quero saber o número do quarto. Irei para lá pessoalmente. Ao chegar no local quero a chave, para dar o flagrante. Depois procure essas pessoas. Contrate quem você quiser para manter essas pessoas num lugar a esmo, mas com telefone. Assim que o fizer, ligue para mim e me passe o número.

O Detetive recebe mais um envelope e dinheiro para despesas extras. Kleber sabia muito bem o que estava fazendo.

_Sim senhor.

Via que seu chefe era muito generoso. 

_Pode ver que além de dinheiro para despesas, tem os quinhentos mil dólares. É a primeira parte. Os outros quinhentos mil entrego ao chegar no Motel.

_Sim senhor.

Kleber cumprimenta Lacerda, entra no carro e sai do local. Iria trabalhar.”

Lá estava ele olhando para a Praça Central de Montes Claros. O céu estava escuro, sinal de tempestade se aproximando. Raios cortavam os céus e trovões faziam barulhos de assustar qualquer um. Kleber olha para a foto de sua esposa.

Aproxima-se do telefone. Pega o gancho e coloca no ouvido, espera dar o sinal. Disca o número de sua casa. Quem atende é seu fiel mordomo, Julio.

_Julio, é você?

_Sim, patrão, sou eu.

_Quero que você deixe a postos quatro peões da fazenda, de extrema confiança.

_Sim senhor.

_Dê a eles uma caminhonete e mande-os para o Motel Moura Fontes.  Não se esqueça de dar para ele, armas.

_Armas, mas senhor...

_ Por favor, não me faça perguntas, ok?

_Tudo bem patrão, não vou perguntar nada.

_Obrigado.

Kleber desliga. Julio percebe que a voz do patrão estava diferente. Alguma coisa muito séria estava acontecendo.

Cansado, ele senta-se em sua cadeira. Esperava o tempo passar. Naquele momento o telefone toca. Seus olhos fixam o gancho. Atender ou não atender? Saber ou não saber, da traição de sua esposa? Matar os dois ou não? Vencendo seus medos, ele pega o gancho e atende.

_Chefe.

_Sou eu, Lacerda.

_Estou no Motel. Quarto 203.

_Estou indo para aí, espere-me na entrada.

_Sim senhor.

_Tem mais alguma coisa para mim?

_Claro chefe. Anote o número. 2103366.

Ele anota num papel o número.

_Anotado.

_Tudo bem, chefe.

Os dois desligam. Kleber pega o papel e coloca no bolso da camisa. Abre a porta de seu escritório e sai. Sua secretária fala algo para ele, mas ele nem dá atenção.

...

Motel Moura Fontes...

Kleber aproxima-se de Lacerda. Ele lhe entrega a chave.

_Eles estão lá dentro.

_Vou dar o flagra.

_O que vai fazer chefe? Tome cuidado _diz Lacerda preocupado.

_Fique tranquilo.

Ele sai do Motel e de longe vê a caminhonete com os quatro capangas. Um deles acena para ele. Kleber acena para eles se aproximarem. O capanga que estava no volante, desce e tira o chapéu.

_Sim, patrão, seu Julio pediu para que a gente viesse.

_Eu sei, seu Agripino. Venham comigo.

Todos descem do carro e entram no Motel. Lacerda vê Kleber com os quatro e se assusta.

_Calma, patrão.

_Fique aqui. Eles vêem comigo. Preciso que viaje agora para aquele lugar. Assim que acabar por aqui, estaremos lá.

_Não faça nada do que se arrependa, patrão.

Kleber sorri para Lacerda. Via o quanto ele era leal.

_Acredite, planejei isso nos mínimos detalhes.

_Tudo bem, patrão.

Kleber atravessa o corredor. Os capangas vão atrás. Procura os números e para diante do 203. Antes de abrir a porta, olha para o capangas.

_Sabe o que acontece com uma esposa adúltera? _Pergunta Kleber olhando para Agripino.

_Não senhor.

_Você tem que ser mais inteligente que eles, que se acham espertos. Venham.

Com calma ele abre, sem fazer barulho. Assim que entram, Kleber a fecha,em silêncio. Emtodos os quartos, havia um ante quarto, para caso o casal quisesse comer algo, o garçon entrasse e não incomodasse a intimidades deles. Era fácil entrar sem ser percebido. Ouve vozes. Coloca o indicador na boca. Pede silêncio para os capangas. A porta estava entreaberta. De onde ele estava vê sua esposa abraçada ao capataz. Seus olhos se enchem de lágrimas. Estava vendo, diante de si, a mulher de sua vida nos braços de outro homem. Ele presta atenção no que eles estavam conversando. Edith estava com a cabeça no peito moreno e peludo de Oliveira. Ela levanta a cabeça e olha com carinho para ele. Passa a mão em seu rosto.

_Eu te amo.

_Também te amo, meu amor.

_Infelizmente não posso ainda abandonar meu marido. Preciso arrancar mais dinheiro dele para poder ter o suficiente para vivermos bem o resto da vida. Quando eu fizer isso, fugimos do país e viveremos uma vida perfeita, só você e eu.

_E seus filhos?

_Vou sentir falta de Felipe, ainda tem cinco anos. De Helena eu quero distância.

_Por que essa raiva de sua filha? Ela é uma menina tão linda.

_Helena é dissimulada.

_Como alguém pode ser dissimulada aos oito anos de idade?

_Acredite, eu sei o que eu falo. Helena disputa a atenção do pai comigo. Finge gostar de mim, mas ama mesmo o pai. Ela não vai sentir a minha falta.

_Tudo bem, se você diz, acredito. E quanto a Kleber?

_Um bom pai, mas é preciso ser muito homem para poder saciar os meus desejos.

Kleber escuta aquilo e engole a seco.

_Eu consigo saciar seus desejos? _Pergunta Oliveira passando a mão pelo rosto de Edith, com muito carinho.

_Eu amo você. Acho que de repente se te conhecesse antes, não teria me casado com Kleber. 

_Fico muito feliz em ouvir isso. Só que como vou fazer para dominar meu ciúme. Detesto saber que quando está na sua casa, pode estar nos braços deles.

Edith beija Oliveira com amor.

_Quando o beijo, pensoem você. Umavez eu e ele tinhamos acabado de transar. Fiz o que eu tinha que fazer, mas gozar mesmo, nada. Nunca tive orgasmo nenhum com ele, tinha que fingir. Esperei o infeliz dormir para ir atrás de você. Fui no seu quarto, correndo todos os riscos, e me entreguei a você, lá mesmo. Você me fez mulher, como sempre me faz. Ele nunca conseguiu.

Os dois se beijam apaixonadamente. Naquele momento a porta se abre e Kleber aparece. Tinha ouvido tudo o que sua esposa tinha dito. Estava ferido de morte.

_Dez anos casados com você e nunca percebi o quanto você é cruel, Edith Decresson.

Oliveira e Edith ficam pálidos.

_Por favor, patrão, não é isso o que está pensado _Berra Olivera, apavorado.

_Kleber, eu... _E Edith é  interrompida por Kleber.

_Não se deseperem. Minha vontade era acabar com vocês dois aqui. Só que sou um homem que costumo saber muito bem o que fazer e na hora certa. Fico olhando para você, Oliveira e percebo o quanto eu estava errado ao seu respeito. Confiei em você e você me roubou a única coisa que eu acreditava ser fiel, perfeita, honesta. A minha mulher. Que pelo que eu ouvi disse que o ama. Você a ama? _Pergunta Kleber olhando para ele sério.

Oliveira engole aquilo a seco. Seus olhos se enchem de lágrimas.

_S...s..im, eu a amo. _diz Oliveira olhando para ela.

_Você confia nele, vadia? _Pergunta Kleber olhando para ele.

Edith o olha com ódio. Estava assustada. Tinha sido pega no flagra.

_Confio sim, muito _diz Edith com a voz enbargada.

_Ele falou para você que é casado e tem uma filha? _Pergunta Kleber olhando para Oliveira.

Edith pega o lençol, se cobre e o olha. Para ela, aquilo era uma surpresa. Afasta-se de Oliveira, olhando-o com nojo.

_Não me falou isso _diz Edith abalada.

_O impressionante nessa história toda, é que você não percebeu, que assim como fez comigo, ele iria fazer com você, vagabunda _diz Kleber com ódio.

_Edith, eu iria contar, eu quero mesmo me separar dela, eu amo você _diz Oliveira assustado.

_Desgraçado, eu me arrisquei a toa _diz Edith abalada, assustada.

Oliveira fica com ódio de Kleber, ele se levanta. Faz mensão de ir para cima dele.

_Não faria isso se fosse você. Podem entrar_diz Kleber um pouco mais alto, e se afastando da porta logo em seguida.

Naquele momento, os quatro capangas entram no quarto. Edith se apavora. Eles seguram Oliveira, que estava pelado.

_Seu covarde, lute comigo, eu e você pelo amor de Edith _Berra Oliveira, sendo agarrado pelos capangas.

_Cubram esse infeliz _diz Kleber olhando para eles.

Um dos homens pega um lençol e joga sobre Oliveira, que se cobre. Edith se desespera, aproxima-se de Kleber ajoelhando-se diante dele. Agarra suas pernas.

_Por favor, não faça nada a ele. Eu sou a única culpada. Deixe-o ir, eu faço o que você quiser _diz Edith. As lágrimas teimavamem cair. Tentavaa qualquer custo salvar a vida do homem que amava. Mesmo magoada ao descobrir que ele era casado.

_Vamos levar esses dois para um lugar bem distante. Vou mostrar a eles o que acontece com quem tenta passar Kleber Decresson para trás _diz Kleber olhando para os capangas, ignorando Edith.

Os capangas amarram e amordaçam tanto Edith, quanto Oliveira. Em seguida são colocados capuzes negros sobre suas cabeças. Assustados, começam a temer por suas vidas. São levados para a camionete. Vão pelos fundos do Motel, para que ninguém perceba a aquela estranha movimentação.

...

Duas horas depois...

Um dos capangas retira o capuz da cabeça de Edith e Oliveira. Estavam numa casa abandonada. Edith e Oliveira não conhecia aquele lugar. Pelo tanto que eles andaram no carro, com certeza era bem distante do Motel onde estavam. Kleber estava sentado na frente dos dois, que foram colocados um ao lado do outro. Ambos amarrados e amordaçados. Manda tirar a amordaça de Oliveira. Edith e ele olham o local, assustados.

_Por favor, não faça nada que vá se arrepender depois _diz Oliveira assustado.

_Soltem-no _diz Kleber.

Um dos capangas corta a corda das mãos dele.

_O que pretende fazer? _Pergunta Oliveira abalado. Sentia dores nos punhos. Estavam machucados. O capanga tinha apertado a corda com muita força.

_Você conhece esse telefone?

Kleber se levanta e o entrega. Oliveira pega o papel e lê o que estava escrito.

_Não, de quem é? _Pergunta ele sem entender nada, devolvendo o papel.

_Pegue aquele telefone ali e disque.

Oliveira se levanta, pega o telefone e disca o número. Do outro lado, alguém atende.

_Aguarde só um instante.

A pessoa leva o gancho para uma mulher que estava assustada, chorando muito.

_Alô.

Oliveira olha para Kleber assustado.

_Vânia, é você?

_Oliveira, onde você está? O que esses homens estão fazendo comigo? Eles me raptaram para um lugar que eu não sei onde é. E me amarraram. A mim e a nosso filho. Por que? Estou apavorada.

_Meu Deus, Meu Deus, não, não...

_Por favor, venha logo, eles vão nos matar. Eu estou...

O homem do outro lado pega o gancho do telefone e coloca na base. Oliveira não escuta mais a voz da esposa.

_Por favor, seu Kleber. Não faça nada com a minha família.

_Eu atendo o seu pedido, se fizer algo por mim.

Oliveira se aproxima de Kleber e se ajoelha. Estava desesperado.

_Faço o que você quiser. Pode me pedir.

_Encima da mesa tem caneta e papel. Sente-se lá e escreva exatamente o que eu vou te pedir.

_Sim senhor.

Oliveira se levanta, puxa a cadeira e se senta. Kleber começa a ditar o que ele tinha que escrever.

_ “Não aguento mais a minha vida. Estou apaixonado por uma mulher que me despreza. Deixei de amar minha esposa, deixei de amar nosso filho. Eu a amo, mas ele me despreza. Vim aqui dar um fim a tudo isso. Adeus, vida, adeus Edith, adeus Vânia... sou fraco, não aguentei sofrer por amor. É o fim”.

Edith olha para Kleber desesperada. De seus olhos caem lágrimas. Sabia muito bem o que estava escrevendo. Era um bilhete de despedida. Não podia dizer nada por que ainda estava com um pano que amordaçava sua boca.

_Por que escrever esse bilhete? _Pergunta Oliveira abalado.

_Você vai se matar, meu caro. Vai pegar a arma que está ao seu lado e dar um tiro na têmpora. Por um fim a seus dias _diz Kleber sorrindo.

Os olhos de Oliveira se enchem de lágrimas. Ele olha para a arma, a pega e aponta para Kleber.

_Você vai morrer, desgraçado. _Berra Oliveira.

Os capangas se assustam. Apontam as armas para Oliveira, que estava transtornado.

_Por favor, abaixem, as armas. Eu sei o que eu estou fazendo. _diz Kleber.

Ele se aproxima do telefone e disca o mesmo número. Alguém do outro lado da linha atende.

_Ponha a esposa dele na linha. Antes, corte o rosto dela.

_Sim senhor.

Ele pega uma faca e corta o rosto de Vânia que começa a berrar. Seu filho, estava ao seu lado. Ao ver o que fazem com sua mãe, começa a berrar. Estava vendo o sofrimento de sua mãe.

_Coloque ela no gancho.

_Sim senhor.

O Homem leva o gancho até ela. Seus berros eram ouvido do outro lado da linha, por todos que estavam na sala. Oliveira ouve os berros de sua esposa e senta-se na cadeira, desesperado. Seus olhos estavam perdidos no horizonte. Não tinha saída.

_Você quer ouvir isso? Mesmo depois da minha morte? Eu morro, mas seu filho e sua mulher serão torturados e mortos. Serão enterrados num lugar que nunca vai saber onde fica. O que você decide? Se mata e os salva, ou me mata e eles morrem?.

Oliveira coloca a arma na cabeça. Mais precisamente na têmpora. Sem pensar muito puxa o gatilho. Seu sangue se espalha pela parede. Como o seus miolos também. Edith berra, apavorada. Oliveira cai no chão, morto.

Kleber pega o fone.

_Acabou. Mate os dois _diz Kleber sem piedade, com muito ódio.

_Sim senhor.

Ele coloca o fone na base, calmamente. Edith se debate como se quisesse arrancar as cordas e se soltar.

_Soltem essa vadia e saiam. _Berra Kleber.

Os homens cortam as cordas que prendiam as mãos de Edith e retiram a amordaça de sua boca, ela avança para cima de Kleber enfurecida. Ele não perdoa e lhe dá um bofetão no rosto. Ela cai no chão. De sua boca sai sangue. Ela passa a mão e a sente molhada. Sente  o gosto do seu sangue.

_Covarde, Maldito, você tem que morrer.

_Você não vai morrer. Vai acertar as contas comigo agora, depois voltará a ocupar o posto de mãe dos meus filhos.

_Nunca. Mato Helena e Felipe antes.

Kleber fica enfurecido. Ela se aproxima dela e a faz levantar.

_Faça isso e eu vou fazer você implorar para morrer _diz Kleber a encarando.

_Eu o amava, você acabou comigo. Eu o amava...

Kleber agarra seus cabelos. Juntos eles se aproximam do corpo de Oliveira, inerte no chão. Ela a obriga olhar para o rosto de Oliveira, sem vida. Seus olhos estavam abertos.

_Faça o que eu mando ou você se arrependerá amargamente.

Edith estava apavorada. Kleber era um comerciante promissor. Respeitado pela sociedade carioca e muito queridoem Montes Claros. Seriaa palavra dela contra a dele. Sua vida se tornaria um inferno. Ao olhar para o rosto do homem que amava, percebe que iria terminar como ele, caso não fizesse o que ele mandasse.

_Por favor, não me mate.

_Assim que se fala.

Ele a joga no chão. Ela cai ao lado de Oliveira.

_O que tenho que fazer?

_Primeiro se curar da surra que eu vou te dar.

Kleber tira o cinto de sua calça e o dobra. Edith se desespera. Ela tenta furgir, mas é encurralada por ele. Ela se encosta no canto do quarto. Ele não perdoa. Começa a bater no corpo da esposa com cinto com muita força, despejando todo sua ira.

_Isso é pelo meu sofrimento. E isso é pelos meus filhos. Isso é pela traição. Quero que você olhe para esses ferimentos, o sangue escorrendo em sua pele e perceba o que você deixou de lado ao me traír com esse infeliz.

_Não, Por favor, não _Berra Edith, se encolhendo.

Kleber só para de bater quando ela perde os sentidos.

_Julio, entre _Berra Kleber.

A porta se abre e Julio se assusta ao ver Edith Decresson desmaiada, cheia de sangue pelo corpo. No outro lado do quarto, um homem. O capataz da fazenda. Morto. Olha para seu chefe e se assusta.

_Eles estavam tendo um caso?

_Sim. Não o matei não. Fique tranquilo. Armei uma cilada para ele, que não aguentou, colocou a arma na cabeça e se matou. Quanto a ela, lhe dei a surra que merecia.

_Minha nossa senhora, seu Kleber.

_Os capangas enterram o infeliz. Pensei que se ele se suicidasse e fosse encontrado, a Igreja jamais o enterraria, mas como eu vou mandar enterrá-lo num lugar onde ninguém vai saber, ele se matando ou não, tanto faz. Ela quer que você a leve para a Fazenda,em Goiás. Curesuas feridas. Apesar de tudo ainda é a mãe de meus filhos. Inventarei uma desculpa, dizendo que descobrimos uma doença grave. Eu resolvi então interná-la, para que ela se curasse e depois voltasse para casa.

_Sim senhor.

_Julio, eu quero que ela seja vigiada vinte e quatro horas. Jamais vou me esquecer o que essa rameira fez comigo.

_Tudo bem, patrão.

Dois de seus capangas  a levam para fora junto com Julio.  Os outros se encarregam de enterrar Oliveira num lugar a esmo. Kleber pega a chave de seu carro e sai. Queria trabalhar muito, para esquecer ou pelo menos tentar. Seu coração estava dolorido, machucado. Naquele momento, sente que somente seu trabalho é capaz de fazê-lo esquecer.

...

Fazenda Decresson, Goiânia...

Três horas depois...

Celso estava examinando Edith.  Kleber andava de um lado para o outro. Julio estava parado na porta. Observava tudo nos mínimos detalhes.

_Kleber, ela está bem.

_Graças a Deus.

_Kleber, pelo amor de Deus. Você quase matou sua mulher.

_Uma vadia, que me trocou pelo capataz _Berra Kleber enfurecido.

Celso se aproxima do amigo. Coloca a mão em seu ombro.

_Amigo, acalme-se.

_Tivemos dois filhos lindos. Eu jurei amor a essa mulher. Tínhamos uma vida inteira pela frente. E o que eu ganhei em troca? Um par de chifres.

_Por favor, Kleber, acalme-se.

Kleber aproxima-se do seu médico particular e o olha nos olhos.

_Olhe para mim, veja o meu desespero. Vou ter que odiar a mulher que eu dei a minha vida.

Celso olha para Edith. Ainda estava desacordada. Balança a cabeça. Não estava acreditando no que estava acontecendo. Edith tinha jogado sua vida pela janela.

_O que vai fazer?

_Pedi para que Paulo, meu advogado, venha para cá com a maior urgência. Está munido de um contrato que eu mandei digitar. A vagabunda vai ter que assinar.

_Que contrato?

_Um contrato que resguarde a minha segurança e a de meus filhos. Ela ameaçou matar meus filhos.

Celso olha para ela sem acreditar no que Kleber tinha dito.

_Não pode ser. Helena e Felipe são crianças maravilhosas.

Julio aproxima-se deles.

_Ela jamais fará isso, ou eu mesmo a matarei, patrão _diz Julio revoltado.

Kleber coloca a mão no ombro de seu fiel escudeiro.

_Não será preciso. Obrigado pela sua lealdade, meu amigo _diz Kleber sorrindo tristemente.

_O senhor sabe que eu morro por Helena e por Felipe, não sabe? _Pergunta Julio, com os olhos cheios de lágrimas.

O patrão coloca a mão no ombro de seu leal empregado. Ao olhar para seu mordomo, um filme lhe vem a cabeça. Quando estava começando, Julio apareceu e foi trabalhar para ele. Nos primeiros meses, trabalhava por amizade ao patrão que o acolheu num momento difícil de sua vida. Lembra-se que o estabelecimento ainda era uma simples vendinha de verduras, frutas, pão, ovos, leite, antes de se transformar num supermercado. O fiel mordomo era apenas um simples empregado, que não ganhava salário, somente um prato de comida. Com o tempo a vendinha prosperou e se transformou num grande supermercado. Então Kleber transformou Julio em seu mordomo e em seu braço direito. Kleber se tornou patrão e Julio o empregado, mas a amizade entre eles nunca foi abalada. Julio tornou-se um fiel escudeiro.

_Eu sei disso, Julio. _Diz Kleber.

Julio volta ao seu lugar. Novamente apenas observa. Tinha deixado claro que na ausência de Kleber Decresson, seus filhos estariam sempre protegidos.

_Ela está sedada. Por favor, prometa-me, não toque em nenhum fio de cabelo dessa mulher, ou ela vai morrer. Posso confiar em você? _Pergunta Celso preocupado.

_Tudo bem _diz Kleber.

Os amigos se abraçam forte. Celso sai da sala e Kleber se senta no sofá em frente a cama onde Edith estava deitada. Ali ficaria até ela acordar. Remoeria o seu ódio até o final.

...

Á Noite...

Edith abre os olhos. Tenta se mexer e sente muita dor. Olha para os lados. Conhecia o lugar onde estava. Diante dela, Kleber estava olhando-a, fixamente. Aquilo a assusta. Paulo andava de um lado para o outro. Era o advogado dos Supermercados Decresson.

_Ela acordou, Kleber.

_Por favor, Paulo, nos deixe a sós.

_Ok.

Paulo se retira. Edith não consegue tirar os olhos do marido. Ele se levanta e aproxima-se da cama. Mesmo toda dolorida. Edith se afasta.

_Fique longe de mim.

Aos poucos começa a lembrar da surra que tinha levado.

_Como eu amava você, Edith Decresson. Você destruiu nosso casamento. Destruiu meu amor, destruiu meu coração.

Dos olhos de Kleber caem lágrimas de dor. Uma dor que ele não sabia como curar.

_Não posso fazer nada se comecei a amar outro homem. _diz Edith sendo muito sincera.

_Não ouse falar comigo sua vadia. Ou vou perder o resto de calma que eu ainda possuo e faço com que vá se encontrar com seu amante no inferno.

Edith lembra-se de Oliveira. De sua morte. Seus olhos se enchem de lágrimas. Seu ódio aparece em seu rosto.

_Vai pagar pelo que fez, Kleber Decresson.

_Cale a sua boca, meretriz. Não me dirija a palavra. Só eu falo nessa casa. Tudo isso aqui é meu. Nada é seu. Quando escolheu aquele capataz para me trair ficou contra mim. Fui ferido de morte no meu peito. Na minha maneira de entender, matar você é meu direito. É lavar minha honra com sangue. Só que eu percebi que morte para você é pouco. Vai ficar aqui e se recuperar da surra que eu te dei. Depois vai voltar a Montes Claros e vai criar nossos filhos. Eles ainda precisam de você. Terá o dever de criá-los. E só. Não receberá nenhum dinheiro, nada. Não saberá o que é sair de casa. E se sair, será escoltada por seguranças. Não passará nem um minuto sozinha, pelo resto de sua vida.  Paulo _Berra Kleber chamando seu advogado.

Paulo, que estava do lado de fora, entra.

_Sim, Kleber.

_Passe o contrato para a prostituta assinar _diz Kleber olhando para ela, com ódio.

_Kleber, por favor, eu... _E Paulo é interrompido por Kleber.

_Não se sinta constrangido, caro amigo. Você é fiel. Entre nós não existe segredo. É segredo para você que essa vagabunda me traiu com outro homem? _Pergunta Kleber apontando para Edith.

Paulo olha para ela, sem graça. Ela estava constrangida. De seus olhos caiam lágrimas sem parar.

_Não, você me contou _diz Paulo.

_Conte para ela o que ela vai assinar _diz Kleber.

_Edith, vai perder tudo a que tem direito se seu marido, Kleber Decresson, e seus filhos, Helena Decresson e Felipe Decresson morrerem, e suas mortes não sejam naturais. Para receber qualquer herança, haverá uma perícia, na qual se comprovará que a morte foi natural ou acidental. Caso contrário, estará na miséria. _diz Paulo. Ele lhe entrega a folha e o papel, sobre uma revista, já que ela não podia se levantar.

_A partir do momento que eu vi você se esfregando com aquele infeliz na cama, eu percebi que me casei com uma prostituta. E é assim que vai ser tratada. Meu amor por você ainda existe, mas eu não o quero, não o aceito. Só vou nutrir ódio por você, Edith Decresson. Você não tem mais nada na vida. Aliás, tem sim, tem o meu desprezo, a minha pena. Você é digna de pena   _diz Kleber olhando para ela. Era difícil para Kleber olhar para ela e Ter que odiá-la, sendo que na verdade a amava com todas as suas forças. Só que isso iria mudar. Tinha certeza daquilo.

Edith olha para os dois e percebe que não tinha saída. Com a caneta, assina seu nome.

_Não posso trabalhar para ganhar dinheiro? _Pergunta Edith, entre lágrimas.

_Não acredito que vadias gostem de trabalhar. Tenho medo que resolva ir para a cama com todos os homens de minha fazenda _diz Kleber olhando para ela.

Ela o olha com ódio.

_Gostaria de fazer alguma coisa, cuido das crianças, mas fazer alguma coisa de útil. _diz Edith abalada.

_Comporte-se e vai poder cuidar das fazendas _diz Kleber.

_Tudo bem. _diz Edith

_Vamos, Paulo.

Kleber e o Advogado se retiram, deixando Edith sozinha no quarto. Ela teria tempo de sobra para pensar em tudo o que aconteceu. Fecha os olhos e chora todo o sofrimento e humilhação que vem passando. Tinha jogado sua vida inteira pela janela.

...

Um ano depois....

Edith entra na sala da Fazenda Decresson. O telefone toca. Julio faz mensão de atender, mas ela chega primeiro.

_Fazenda Decresson.

_Era com você mesmo que eu queria falar.

_Kleber, bom dia.

_Tenho que dar o braço a torcer. Vem fazendo um bom trabalho na Administração de minhas fazendas. Parabéns.

Ela sorri ao ouvir aquilo.

_Muito obrigada.

_Hoje chega o meu novo capataz. Seu nome é Guilherme, é competente. Quero que converse com ele. Pode fazer isso para mim?

_Claro.

_Julio está com você?

_Sim, está.

_Peça para ele atender.

_Tudo bem.

Edith olha para Julio.

_Kleber quer falar com você.

_Sem problemas.

Ele pega o fone.

_Sim, chefe.

_Vigie essa vadia. Tudo bem?

_Fique tranqüilo.

_Em você eu confio.

_Fique tranqüilo, farei o que me pede.

_Está bem, até logo.

_Até logo.

Os dois desligam. Edith estava na porta, observando Julio. Sabia muito bem sobre o que os dois estavam falando.

_Meu marido pediu para que você me vigiasse.

_Pediu sim.

_ Ele ainda não confia em mim.

_Acho que isso nunca vai mudar.

_Sei disso.

_Bem, então tem que entender que esse é o meu serviço.

_ Eu sei, Julio, mas um dia a história vai mudar, acredite.

_Eu acho que não. Não fique recentida, dona Edith.

_E quando ele morrer, vai trabalhar para mim?

Julio a encara sério. Não gosta de ouvir aquilo.

_A senhora está planejando algo? _Pergunta Julio desconfiado.

_Se eu estivesse planejando algo, com certeza você seria o último a saber. Não se preocupe, ainda estou nas mãos de meu marido.

Naquele exato momento, alguém bate na porta. Julio vai atender.

_Boa noite _diz o rapaz tirando o chapéu.

_Você deve ser o novo capataz _diz Julio.

_Isso mesmo, meu nome é Guilherme _diz o rapaz.

_Pode entrar _diz Edith, elevando um pouco a voz para ser ouvida.

Guilherme entra na Casa Grande. Edith olha para ele e se impressiona com sua beleza. Branco, olhos azuis, cabelos pretos. Impossível não perceber aquele belo homem que estava a sua frente.

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Atualizado em: Ter 19 Fev 2013
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