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Últimos Momentos

A luz cor de laranja da alvorada da manhã entrava pela minha janela aberta do quarto e se mesclava com a cor acinzentada da fumaça que saía da ponta de meu cigarro aceso. Tinha passado a noite toda em claro, pensando em tudo, eu intercalava meu olhar entre a chama laranja que vinha do isqueiro e bruxelava com a brisa fria da noite que adentrava meu quarto e todo o meu ser e a palidez do teto de gesso que se parecia muito com a cor de neve da minha pele. Encostei a cabeça na cabeceira de madeira da cama, estendo o cigarro pra fora dos lençóis da cama e dei umas batidas para tirar as cinzas que tinha ficado ali desde a primeira tragada. Expiro lentamente a fumaça de meus pulmões e saboreio o gosto amargo que deixa em minha línguas, passo a mão por meus cabelos desgrenhados e dou mais gole no copo de whisky, sinto a ardência e o calor que se espalham por todo o meu corpo mas não me incomodo com isso, agora nada mais faz diferença. Dou um último grande gole no copo e sinto um filete do líquido escorrendo pelos dois cantos de minha boca, limpo minha boca com as costas de minha mão esquerda e não me importo com as manchas que minha camisa iria ficar ou com o cheiro que eu estava, nada mais me restava, eu não via mais importância em nada. Puxo mais um trago do forte cigarro de nicotina e seguro a fumaça por um tempo antes de expirar devagar novamente, fico satisfeito com a quantidade que já tinha fumado aquele dia e apago o cigarro na parede branca ao meu lado, deixando uma marca preta na mesma, apenas dou de ombros e repito meu mantra que tinha tomado conta de mim nos últimos meses e também foram as palavras que eu falei quando minha esposa me largou e eu fui despedido de meu emprego, e também quando pensava que iria ser despejado e meus provavelmente iriam ser leiloados... "Não me importo". Jogo o copo com força na parede oposta a mim e o ouço se quebrar e aproveito o som que o tilintar dos cacos de vidro caindo no chão deixam em meus ouvidos, sinto o cheiro forte do cigarro no quarto e encaro a lâmina, sinto o toque frio e familiar do metal na minha pele e sinto o toque caloroso do sangue que escorre por todo o meu braço, sinto o mundo se escurecendo e a vida se esvaindo de meu corpo, minha mente ficando vazia e meu corpo ficando leve, tudo se escurece e a escuridão se torna tão silenciosa quanto a solidão e o silêncio se torna tão frio quanto o mais castigador inverno que congela até a alma
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Atualizado em: Sáb 15 Jul 2017
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