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Francesa

Estava frio. Gotas de chuva escoriam pela janela; e como eram impetuosas! Nesses ingênuos pingos não continha apenas água, mas misturado ao líquido havia nostalgias, que escoriam e escoriam feito lágrimas.
Na solidão do meu sobrado sempre estou acompanhado pelas lembranças de Apolline, uma francesa que veio passar uma temporada nesta cidade para conhecer novos ares. Era pintora, uma artista ímpar e quando falo isto, me refiro tanto aos seus dotes artísticos quanto a sua promiscuidade. Afinal, quem é ímpar não tem par.
Me lembro, que Apolline ficava horas no seu ateliê improvisado desenhando curvas femininas, tentando achar a melhor tonalidade para a pintura; isto de fato exigia muito da mulher, não era de se admirar que ela passava dias trancada misturando cores. E das tonalidades, a predileta era o vinho, de preferência o francês.
Antes de partir, a pintora quis fazer uma última obra e para tal convidou minha esposa para servir de modelo vivo. Confesso que não me espantei com o convite, pois as senhoras eram amigas, se conheceram em uma galeria de arte semanas atrás.
Dois dias se passaram e nada do ateliê abrir, certamente era um quadro muito grande.  Então, decidi ir visitar minha esposa para saber se precisava de algo. Tudo fechado. Ruídos. Minha esposa estava lá dentro. Mas o que atravessava a porta de madeira não eram mais ruídos e sim gemidos. Não de dor. De prazer.
Arrombei a porta do ateliê e pude ver um quadro de um corpo nu familiar, lençóis amarrotados no chão, vinho e dois corpos femininos despidos  e entrelaçados me olhando espantados.
Naquela tarde, voltei com minha esposa para casa e honrei as palavras de nosso casamento quando nos foi dito “até que a morte nos separe”. E Apolline... saiu à francesa.
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Atualizado em: Qua 22 Fev 2017
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