person_outline



search
  • Contos
  • Postado em

Um breve conto na História

Manhã fria, 18 junho de 1785, começo do inverno.
O sol tentava rasgar a espessa bruma que tingia de branco a região. A fogueira ainda crepitava pausadamente , o fraco lume se extinguia aos poucos em meio a fumaça que subia em caracóis e ondeavam aos tênues raios de luz que se projetavam por entre as frestas do telhado do rancho e atingiam o rosto enrugado e forte , onde a tez marrom brotava por entre as barbas brancas de Dorneles Pereira Castro, condutor de comitiva de muares e sacramentado de bom mateiro desde os vinte anos pelos caminhos de Viamão e Queretiba.
O velho poncho azul anil cobria praticamente todo o corpo de mestre Dorneles, estirado sobre o couro curtido , o ar frio daquela manhã fazia o vapor brotar de sua boca acompanhando a respiração. Aos poucos os sons matinais foram despertando a tropa, azurros e relinchos vinham do encosto ainda encoberto pela densa neblina que pairava pesadamente desde as margens do rio.
— Mate– gritou Cruz, braço direito de Dorneles que o acompanhava há vários anos e já lhe havia salvo de uma escaramuça na região há algum tempo.
Com o grito e o cheiro da erva , Dorneles suspirou e se esticou, os músculos ainda doíam da longa jornada até o momento ; nas suas “contas” , seiscentos quilômetros e mais esse tanto até o destino-Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará nas minas gerais.
– Um Mate- para esquentar a alma– pensou.
Refeito , depois de um bom gole , se pôs em pé e com uma corrida de olhos conferiu o restante do pessoal : Basto, Tobias, Tomé e Gato, pessoal de confiança, gente brava e forte aprimorada pela profissão corajosa . Eram em sete e ninguém até o momento, haviam sofrido algum acidente grave ou constipação que era comum nas longas viagens que enfrentavam.
O alvoroço dos animais se intensificou…
— Cruz — gritou Dorneles, manda o Xisto olhar a tropa, os animais estão inquietos , pode ser cobra ou capivaras que subiram do rio.
-Minutos depois, um estrondo-
E surge Xisto com uma capivara ainda esperneando sobre os ombros e na mão direita o mosquete fumegante arrastado pelo capim molhado.
Freguesia de Santo Antônio de Lisboa. (Lapa-PR)
Quatro meses antes na Freguesia de Santo Antônio de Lisboa. (hoje município de Lapa-PR)– raiar do outono. O vilarejo naquele horário onde o sol da manhã incidia parcialmente e a fumaça das chaminés formavam um quadro pintado à pinceladas robustas; o caiado pálido das casinhas, umas de taipa simples outras mais coloridas de alvenaria e beiral, essas mais afastadas e abastadas, eram margeadas por ruas estreitas de terra batida. Velhos galpões no centro comercial com paredes de tijolos a mostra e quase todos com manchas de barro seco formando uma linha da altura de meia porta registrando marcas dos respingos da chuva na terra vermelha. Esse era o cenário corriqueiro, que aos poucos era tomado por vida, gente que vinha dos campos, das casas, pessoas comercializando vendendo e trocando. A freguesia era assim pulsava comercio e dinheiro principalmente vindo de seus arredores onde os pastos eram alugados para os tropeiros e suas tropas.
–OIÊeeeee—Avante…
Dorneles e a comitiva iniciou a jornada. O tropel : com muitos animais para comercio além das mulas cargueiras com as bruacas abarrotadas no lombo acondicionando mantimento e os ferros da cozinha.
Cavaleiros atentos em seus cavalos conduziam a tropa — estrada de chão– levantando uma poeira fina– –alvoroço –relinchos– a égua madrinha à frente carregando o cincerro; o som atropelado pelo alvoroço mal se ouvia mas mesmo assim a récua o seguia. As crianças da Freguesia apinhadas no marco português da praça vozeavam os tropeiros. Na verdade local eles eram os heróis desbravadores do sertão da Colônia. Muitos garotos aos 10 anos já peleavam pela profissão acompanhando o pai ou parente.
A nuvem de pó seguia a tropa tingindo o céu de vermelho, do alto da colina Dorneles virou-se respeitoso, de um pulo apeou do Lustro seu baio fincou as botas no chão seco, respeitoso retirou o chapéu e murmurou por baixo do lenço que cobria o nariz e boca:
– “Bença” meu Santo Antonio.- – (padroeiro do local desde 1768).
Seus companheiros imitaram mas não apearam- a ladainha foi rápida; o vento agora carregava a poeira para o oeste deixando à mostra no lado oposto o campo verde, úmido e extenso e ao fundo a imponente montanha ( anos depois tornou-se local de adoração e peregrinação) brotava no horizonte.
O Caminho de Viamão cortava a paisagem crua desde o sul da Colônia até Sorocaba(vila de Nossa Senhora da Ponte de Sorocaba na época) rota de riqueza e de abastecimento do sudeste. O passo do baio embalava os pensamentos de Dorneles naquele instante, ora alegres e passageiros , ora pesarosos, muitos companheiros haviam morrido nessas jornadas e as cruzes brotavam ao longo daquele chão pedregoso, testemunha dos ataques indígenas e dos assaltantes em emboscada; seu nome há pouco tempo quase vira epitáfio talhado à faca em uma delas, não fosse a esperteza do companheiro Cruz ao ajudá-lo.
Como lã caída da roca de fiar no vermelhão, a estrada serpenteava pela mata fechada (Atlântica). Uma riqueza exuberante , um verde de marcar a alma, os cavaleiros adentraram na floresta dos Campos Gerais.
Serra de Ybytukatu –Botucatu
Longe dali, a três dias de jornada da comitiva de Dorneles, ao pé do Morro do Cabôre- coruja grande- como os tupis o chamavam , na Serra de Ybytukatu -Botucatu-vento bom-também na língua tupi, Rosales baforava o pito de barro; lampiões chamejavam ao azeite de peixe, iluminando parcamente o interior da pousada mau cheirosa onde se encontrava.
A construção antiga abrigava cinco quartos e um galpão para o rancho, geralmente uma única refeição forte em proteínas e um mate que os tropeiros de passagem preparavam com os utensílios e provisões que traziam.
Em seu quarto, Rosales sentado na cama de tábuas, colchão de capim bravo e estrado de tiras de couro que gemiam com seu peso concentrado na cabeceira, puxou o facho do lampião para perto e desatou as tiras de algodão trançado que amarravam a sua algibeira. Lentamente desembrulhou dos trapos um objeto brilhante, uma estatueta assemelhando-se à prata.
– Hermosa– pensou fechando os olhos e suspirando fundo, recordando os caminhos que o trouxeram até ali.
A região que se vislumbra ao norte do vale da Serra de Ybytukatu é rica em história e lendas ,resquícios de caminhos utilizados pelos indígenas que ligavam os Andes ao Atlantico ,muitos anos antes do período pré–cabralino.
Desde Potosí na Bolívia, pelo Caminho do Peabiru, estatueta prateada chegara à Rosales por várias mãos, “compañeros “ contratados à ouro e outros “por respeito” já que deviam favores, cobrados a bala se negados. Em Capitania de Mato Grosso , onde Rosales ancioso aguardou; partiu rumo a Ybytukatu como um raio, no seu castanho “alado”.
***
Dorneles e o tropel já haviam vencido a pesada caminhada até Itararé, via Castro, desviando para Botucatu;
ás margens do Paranapanema
em seu ponto mais raso,
céu azul cintilante,
mais de trezentos pisantes
iniciaram a travesia
e ao longe se ouvia
o farfalhar da água barrrenta.
–Avante… avante
O assoreamento do rio naquele trecho já evidenciava o futuro desastre da Mata Atlantica, percebia-se grandes desmatamentos ao longo dos caminhos que conduziam às minas gerais.
Dorneles mirava as belezas que ainda se podiam ver com relativa abundância, jacarandás,angicos, ipês , espécies nobres da mata — Cruz–berrou, vamos acampar ao pé do jacarandá.
A árvore já presenciara várias sestas sob sua copa hoje verde; sorte de outros que ainda o verão trajado de lilas profundo e acamparão sobre o tapete de flores.
Mas será outra comitiva…
Cruz e os amigos cercaram os muares no pequeno campo de confinamento atrás do jacarandá; o capim ralo e muita erosão em linha do pisoteio dos animais eram fatores da degradação do uso sucessivo das pernoites ou descansos rápidos dos tropeiros no local.
Tomé além de ferrador era bom cozinheiro, montou rapidamente o tripé de ferro, pendurou a ciculateira, fez fogo para o mate. Na grelha estendeu o toucinho e a carne de sol enquanto cantarolava uma canção do Sul:
♫ rumo ao desconhecido ♫ avante com coragem ♫ levando a mulher amada na imagem…
Dorneles abriu a malotagem, retirou do bornal de couro uma carta que recebera de um certo Capitão portugues , o documento era um contrato e continha instruções – Dorneles leu e releu- atento, esta viagem era diferente de todas de sua longa experiencia.
O planejamento era pegar com o gringo a estatueta prateada , rumar mais ao leste para os Sertões de Aracoara(Araraquara) especificamente para um pequeno vilarejo que se tornaria São Carlos do Pinhal . Em seguida desviar a rota para os Campos de Nossa Senhora da Conceição da Franca, anteriormente Pouso dos Bagres conhecido pelos bandeirantes e palco de reivindicação do Capitão para elevação de Freguesia .
Nesse local o Capitão português me aguarda- pensou.
Em torno da grelha, acocorados , entre um naco e outro , o pessoal proseava com ares sérios. O assunto era o declínio da mineração nas minas gerais, os depósitos de ouro de aluvião findavam rapidamente.
–Depois dessa jornada me estabeleço no sertão paulista- disse Xisto.
Pensamento repartido com quase todo o pessoal da comitiva, cada um era praticamente especializado em outras ocupações e essas rotas de desbravadores iniciados pelos bandeirantes foram criando nichos civilizatórios ao longo dos Caminhos, mesmo que precários.
Levas de povoadores foram fincando raízes em todo o interior paulista : agricultores e comerciantes, de mascates a grandes fazendeiros de terras oriundas de familias de sesmeiros no decorrer da colonização; a expanção estava sendo rapida na região, e o número de escravos aumentava.
Dorneles há muito já sabia da falência das minas e tinha também seus planos, mas não seria São Paulo seu destino final , laços afetivos o prendiam no Sul do Brasil colônia.
A saia rodada na altura dos tornozelos, esvoaçante aos ventos dos pampas , o espartilho, a tez de leite, delicada e decisiva … Maria… Maria… Dorneles sonhava acordado.
***
–Reúne todos, picar a mula, Cruz o caminho é longo– berrou Dorneles, quero chegar em Botucatu no começo da noite.
–Vai pernoitar—pergunta Cruz
–Talvez sim, o importante é não falhar. Confira as armas!
— Vamos ter que usar? Perguntou inquieto Cruz.
–Nunca se sabe.
–O gringo é confiável?
Dorneles deixou no ar… Meia hora depois estavam a caminho do Morro do Caboré na Serra de Ybytukatu ao encontro de Rosales.
Os lampejos de uma tempestade ao longe, delineavam os morros da serra; assustador e cativante o cair da boca da noite e nesse lusco-fusco brotavam histórias de bruxedos e religiosidades , sempre o antagonismo entre ambas povoavam as conversas noturnas dos peões, principalmente nas caminhadas noturnas.
Já nos contornos da estalagem a comitiva apeou e confinou a tropa e pela habilidade fizeram o trato rapidamente. Os sete homens seguiram em direção á fraca luz que pulsava dos janelões da casa. Dorneles à frente empunhando o holofote – semelhante a uma lanterna feita com bambu onde queimavam uma trouxa de pano velho embebida em óleo de peixe.
Ao longe vindo em direção ao grupo outra luz amarelada ziguezagueava nas mãos de um homem que tinha dificuldade de caminhar pela estrada sinuosa e pedregosa.
–Boas! Bem-vindos a minha casa, me sigam que eu os levo até lá, choveu muito por aqui e o caminho está ruim.
Dorneles cumprimentou o velho homem e o seguiu como se não conhecesse o caminho, seus amigos atentos e em dupla foram atrás e todos empunhavam armas: o local a noite era ermo e propício a emboscadas.
Ao se aproximarem da pousada, Rosales junto ao balaústre de madeira próximo a escadaria que levava aos quartos cumprimentou o grupo:
–Hola estimados , bienvenidos, ya era hora!
Dorneles fez um aceno e todos adentraram na parte térrea do lugar.
Rosales desceu as escadarias e os acompanhou—una bebida para todos, gritou para o velho.
Após um aperto de mãos, Dorneles puxou Rosales para uma mesa afastada dos demais. Aquele era o terceiro encontro dos dois em todas os anos de andanças pelos sertões. O primeiro fora em Sorocaba, ponto final da Rota de Viamão.
–Está sozinho amigo, fez boa viagem?
–Si, solo yo , acompañado de las estrellas del cielo y mi compañero, señor- abriu a pesada capa e mostrou o revolver escuro na cinta.
–Está com a encomenda?
–Sí. Rosales sentado, arrastou a cadeira dando as costas para o grupo que bebiam e se entretinham em causos, no lado oposto do salão.
Puxou a algibeira, desatou os nós do embrulho e entregou a Dorneles.
–Mas é linda! Crispou a testa examinado todos os detalhes externos — Prata pura—
A estatueta era da prata das minas de Potosí, um palmo esticado de comprimento representado um homem adornado com trajes incas. Talvez um deus mitológico, a cabeça era maior que o tronco de uma desproporcionalidade acentuada , uma obra perfeita moldada e fundida pelas hábeis mãos de algum artesão desconhecido e talentoso.
Por fim a esperada encomenda do Capitão Português latifundiário nos Campos de Nossa Senhora da Conceição da Franca estava nas mãos de Dorneles que não o conhecia pessoalmente, havia firmando compromisso através da carta timbrada que recebera de um mensageiro de confiança do capitão. Junto a carta havia um pequeno saco de algodão com 40 tostões de prata- 3200 réis- metade do trato firmado, a outra parte receberia na entrega.
Dorneles estava curioso em conhecer o elo entre Rosales e o capitão e a historia que cercava esse personagem português. Uma puxada de assunto e o gringo desatou a falar junto aos tragos de cachaça.
–Su nombre real no lo sé, pero…
O Capitão saiu de Portugal após o sismo de 1755 onde Lisboa sua cidade natal fora brutalmente destruída e o maremoto que se seguiu levou seus mais queridos, completando a catástrofe de sua vida.
Seguiu para a Espanha e rumou para Venezuela no Vice Reino da Nova Granada onde o Império Espanhol a escolheria como Capitania-Geral . Navios mercantes espanhóis singravam o Atlântico com frequência e nessa jornada aventureira o Capitão Português conheceu Antonio Guzmon um rico comerciante de prata que havia fincado os pés e se afortunara nas Minas de Potosí – na Real Audiência de Charcas- hoje Bolívia, no Vice Reino do Peru sob domínio Espanhol.
O Capitão, habilidoso no comercio de pedras preciosas em Portugal, nessa nova vida que escolhera e se aventurou a convite de Guzmon para a região de Charcas- nas minas de prata.
Com os anos fez fortuna e antes que as minas começassem a dar sinais de exaurimento rumou definitivamente para o Brasil colonial estabelecendo-se na região nordeste da capitania de São Paulo onde adquiriu terras; constituindo nova família e novos laços onde o coração sedento e saudoso e o idioma se uniram por completo.
Por fim , a estatueta prateada selaria o amor por sua companheira , um amor brasileiro.
***
— La estatuilla costosa , muy costosa … resmungou Rosales enigmático.
Mas Rosales não sabia do segredo guardado entre Antonio Gusmon, o Capitão Portugues e Dorneles a respeito da peça de prata…
A caminho da Sesmaria do Itaqueri (Itaqueri da Serra-Itirapina)
O velho da estalagem puxando por uma das pernas aproximou-se da mesa onde se encontravam Dorneles e Rosales, o som do arrastar fez com que os dois interrompessem a conversa e dessem atenção, embora contrariados.
–Uma bebida quente para os senhores. O velho despejou da ciculateira em duas xícaras de barro um liquido amarronzado escuro e fumegante cujo aroma surpreendente preencheu o ambiente. Dorneles já conhecia embora preferisse o mate.
— Passei na bola de torrar hoje, adiantou.
–De onde veio este, velho?
–Província do Rio de Janeiro, das roças de lá e dizem que o cultivo está se alastrando pelo litoral de São Paulo.
–Muy estimulante , completou o gringo.
O grupo ficou reunido por mais algum tempo e depois se recolheram. Dorneles estava ansioso para cumprir a ordem expressa na carta que recebera do Capitão Português- “verificar a estatueta atentamente e em segredo”.
Sozinho em seu quarto trancafiou a porta carunchenta, alimentou a lamparina com mais óleo fedorento e aumentou a chama. Sua silhueta formou uma sombra assustadora na parede descascada.
Pela manhã, deixando o Caminho do Picadão a comitiva mudou a rota e seguiram rumo ao centro leste paulista; uma vasta região onde os povoados surgiam no entorno das prósperas fazendas de criação bovina e canavieiras principalmente.
Tomé a frente gaiteava várias canções o trotear dos cavalos e os solavancos acompanhavam o ritmo. Margearam o Tietê e cento e vinte quilômetros depois pelas trilhas riscadas na mata Atlântica ainda exuberante nesse local, passaram pela recém formada Sesmaria dos Pinheiros, depois São Pedro e rumaram para o descanso na Sesmaria do Itaqueri (Itaqueri da Serra-Itirapina) parada obrigatória dos tropeiros e que há anos fora dos bandeirantes.
Ao cair da tarde em um pequeno dos vários descampados em Itaqueri ao lado de uma retorcida e jovem figueira e uma capela de pau a pique mais distante, a tropa acampou. Peões de outras comitivas que rumavam para os campos de Araraquara e Goiás ali se encontravam e algazarreavam ao redor de uma grande fogueira.
Xisto confinou e alimentou os muares e se pôs em guarda. Jogou o assento em um banco indígena talhado na árvore; a cada colherada de arroz , feijão e toucinho requentado na caçarola olhava o pessoal distanciado. No horizonte em lusco-fusco o sol caia atrás da serra, as casinhas ao longe iluminadas pelo fogaréu e o céu em breu repleto de estrelas formava um cenário de paz. De repente uma estrela cadente riscou o firmamento…
Foi para Minas , pensou. Inconscientemente aspirando a sorte para os inconfidentes.
Dorneles acomodado precariamente ainda não dormira, lembrava-se da noite anterior e de seu manuseio demorado na estatueta…
-“Em uma panela preta com água sobre o fogo de uma espiriteira de bronze, mergulhara a peça brilhante completando com mais liquido até deixa-la submersa . Com o tempo a fervura fez borbulhas , indicando o tempo de retirada da estatueta ; Dorneles apoiou a base sobre a mesa , segurou fortemente o tronco que lembrava um deus inca e com muita pressão girou a cabeça da peça no sentido anti-horário deslizando-a na fina rosca embebida por uma resina vegetal pegajosa amolecida pela fervura da agua. O corpo adornado descolou-se por completo.
Com o cenho carregado Dorneles retirou com cuidado uma pequena bruaca redonda de couro que preenchia completamente o espaço interno da estatua, que até então externamente parecera sólida e sem entalhamento perceptível .
Passou os punhos limpando a mesa e entornou da bruaca algumas pedras, sete diamantes com matizes entre marrom claro e quase incolor. As pedras reunidas sobre a mesa sob a luz do lampião refletia riscos de luz no rosto deslumbrado de Dorneles. Ele sabia do segredo, mas não imaginava o fantástico valor envolvido .
Como que acordando de um sonho atordoante rapidamente voltou as pedras no involucro, conferindo atentamente antes e aproveitando que a resina estava ainda gelatinosa girou a cabeça da peça de prata travando-a novamente no corpo . O segredo fora revelado e confirmado; salvaguarda para Rosales seguir o caminho de volta são e salvo “-
Dorneles cobriu o rosto com o chapéu e procurou dormir, o silencio que embalava o sono pesado dos tropeiros no arraial era quebrado ocasionalmente por um ladrar ou piar distante.
***
Do alto da Serra do Itaqueri , a mil metros e pouco, Dorneles confirmava o rumo da trilha mirando o horizonte distante ponteado por morros e suaves outeiros da Serra de Dourado. A paisagem da mata fragmentada em retângulos ,quadrados e outras formas amorfas representava na essência a mão obra escrava , a opressão ao indígena e agora mais intensificada ao negro; uma paisagem natural sendo substituída pelas culturais agrícolas surgidas do solo fértil com a exploração do ser humano, a terra produzindo o alimento ao troco do sangue de milhares.
O vento seco e quente da Chapada Guarani e sussurrava duvidas e contrições em Dorneles.
As escritas arqueológicas dizem que os profetas subiam às montanhas e ampliavam suas visões sobre o futuro olhando os acontecimentos marcantes das terras abaixo. Como tal embora nunca relacionado a esta referencia antiga, Dorneles intuitivamente visionou naquele momento que profundas mudanças viriam para Colônia.
Após o sismo Portugal recrudesceu a cobrança dos impostos, praticamente Lisboa foi reconstruída com a riqueza da Capitania de Minas e essa exploração sem limites contribuiu para seu relativo exaurimento . Insurgências surgiam pela Colônia e rechaçadas com violência.
Dorneles cismava olhando aquele chão riscado de culturas e sofrimentos. Afinal os diamantes vieram contrabandeados da Bolívia, um crime aos olhos da coroa portuguesa. Mas o que fazer se ele já havia aceitado a missão, talvez por zelo a sua profissão de desbravador ou por ganancia aos 6400 reis,? Ele estava servindo ao Capitão português que seria o infrator maior, mas o fazia cumplice.
A tropa desconhecia o contrato confirmado na carta que Dorneles recebera. Portanto ele estava sozinho nesse surto visionário que o transformaria num revel. Dorneles abraçaria as causas insurgentes ou apenas se vingaria do tal Capitão?
Seu olhar anteriormente incógnito agora se mostrava decisivo na alternativa tomada e rumou com a comitiva para a Praça de Itaqueri de Baixo(Itirapina) seguindo depois para a Sesmaria do Pinhal.
***
18 junho de 1785-Sesmaria do Pinhal(São Carlos)
Xisto jogou a capivara abatida à bala e pólvora do mosquete sobre uma mesa e começou a destrinchá-la- ele era hábil nessas tarefas.
Dorneles desceu o arrampado até as margens do rio com mato úmido na altura da cintura , escalou uma grande pedra de basalto que se projetava sobre a agua e olhou para o oeste. O curso d’agua serpenteava entre a bruma por cinco quilômetros abaixo.
Ladeando as margens e mais acentuadamente na direita num plano mais elevado vislumbrava-se a beleza das araucárias, muitas delas cujo topo circular ora desapareciam ora surgiam ao sabor do vento através da neblina. Um cenário cativante que Dorneles parecia querer guardar na sua mente como se fosse pela última vez. –E seria—
O revoar barulhento das gralhas-azuis em meio ao pinheiral despertou o tropeiro desse conforto visual. Era preciso partir sem demora.
Reuniu-se com Cruz e discretamente entregou-lhe a algibeira com a estatueta e uma carta lacrada ordenando que seguisse viagem com a tropa para os Campos de Nossa Senhora da Conceição da Franca.
–Entregue a encomenda e essa carta para o Capitão português que certamente estará lhe esperando disse Dorneles.
— Não seguirá com a tropa? – perguntou atônito Cruz, sem entender o momento.
Dorneles entregou-lhe um saquinho de couro com 40 tostões de prata perfazendo 3200 reis
—São seus agora e a quanto a carta, entregue-a em mãos do português, trato feito?
Cruz ainda atordoado com a noticia concordou com a cabeça, a responsabilidade de toda a comitiva além dessa entrega era abastecer Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará – minas gerais, passou a ser dele.
Dorneles montou o Lustro e levando outra mula com os apetrechos de acampamento e alimentos seguiu margeando o rio até se perder de vista entre a vegetação alta, sempre rumo oeste para os Campos de Aracoara-Goias .
Na madrugada que antecedera esses fatos, Dorneles manuseara novamente a estatueta e escrevera uma carta trocando-a pela original que havia recebido do Capitão.
O documento a ser entregue era curto e seco na escrita – “Se quiser conversa estarei a caminho do planalto Central da Capitania de Goyaz- Vilarejo de Sete Pedras”
Os lugares históricos aqui descritos foram pesquisados em sites de livre acesso, sendo que poderão ser verificados colocando-se os nomes dos vilarejos e sesmarias como palavras-chave para efeito de pesquisa.
Pin It
Atualizado em: Seg 2 Jan 2017
  • Nenhum comentário encontrado

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR
Fone: (41) 3342-5554
WhatsApp whatsapp (41) 99115-5222