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O Natal de Betinho

Era fim de tarde e Betinho soluçava solitário encostado à porta da capela, a bunda magra torturada pelo frio da calçada. A palma da mão aberta mostrava uma moeda antiga deixada pelo pai em seu leito de morte, mas era antiga demais para comprar um presente para a mãe, outro para a irmã pequenina e doente, e outro para o irmão mais velho.
Betinho odiava o Natal.
Betinho odiava o Vigário.
Há dias sua mãe não trabalhava mais para ele; não lavava o chão da igreja, nem ajeitava as velas do altar, nem tirava o pó das imagens... O vigário dizia que as beatas podiam fazer aquilo sem cobrar um centavo sequer, por quê pagaria a uma mulher preguiçosa e pouco religiosa como ela?
Quando despediu a mãe do Betinho, o fez na sua frente, ignorando a existência do menino. Pensava que Betinho não entendia? Pensava que Betinho era burro?
Betinho entendia tudo. Betinho sabia bem o significado da palavra “humilhação”.
Por isso que Betinho odiava o vigário. Se pudesse dava-lhe um presente. Um presente tão asqueroso que o vigário jamais esqueceria.
Mas aquela moeda não servia para nada, a não ser para lembrar da noite em que o pai se foi.
Para quê ficar com ela? Para quê guardar aquela dor no bolso da bermuda, ou sob o travesseiro quando se deitava.
Olhou bem para ela, a visão turva. As lágrimas partilhavam aquele momento. Das narinas escorria o catarro e a boca sentia uma mescla de sabores.
Atirou a moeda para longe e enxugou a boca com o punho da camisa do irmão mais velho que usava quando estava suja. Só nessas ocasiões tinha um camisa: quando o irmão a atirava no cesto de roupa suja e usava a outra.
Por que seu irmão tinha duas camisas e ele, nenhuma?
Betinho odiava o irmão.
Por que sua mãe nunca lhe comprou uma camisa e comprou duas para seu irmão?
Betinho odiava sua mãe.
E, ele agora pensava enquanto via a moeda rolar escada abaixo, sua mãe não lhe comprava uma camisa porque o dinheirinho que às vezes sobrava servia para comprar os remédios de sua irmã doentinha.
Betinho odiava sua irmã doentinha.
A única coisa que realmente amava era a lembrança do pai. O melhor a fazer era pegar a moedinha de volta. Descer aquela escada escura e fria apressadamente era o que devia fazer, caso quisesse reaver a moeda antes que algum delinquente o fizesse.
Betinho desceu, os pés grudados nas costas, tamanha a pressa.
Deteve-se no último degrau, junto ao chão.
Um vulto esguio e negro como a noite que chegava segurava a moeda e abrindo-lhe um largo sorriso, perguntou:
— Teu nome é Betinho?
— Sim, senhor.
— Queres comprar presentes de Natal com esta moeda?
— Sim, mas não vale nada, senhor.
— Vale bem mais que pensas.
— O senhor acha?
— Tenho certeza.
— O que posso comprar com ela?
— Muitas coisas. Mas antes, sentemos aqui, que te explico.
O homem sentou primeiro naquele degrau.
— Mas é tão gelado esse degrau! — Reclamava Betinho. — Prefiro ficar de pé, se o senhor não se importa.
— Me importo, sim — o homem o encarou como se quisesse mata-lo, mas ao abrir um novo sorriso, continuou: — Por isso que já o esquentei para ti.
Betinho sentou e mal pôde acreditar. O degrau estava quente.
— O senhor é mágico? Está bem quentinho agora.
— Não sou mágico. Sou um comerciante. E tenho uma proposta para ti. Quero te vender esta moeda.
Betinho sorriu, inocentemente.
— Mas esta moeda é minha!
— Ora, mas é claro que não! Não a jogaste fora depois que descobriste que não queres mais lembrar do teu pai, que te amava tanto?
— Como o senhor sabe disto?
— Ora, mas não foi assim que pensaste quando jogaste esta moeda fora? Depois que descobristes que odeias o vigário, o teu irmão, a tua mãe e a tua irmãzinha doente?
Betinho agora estava com muito medo. Com medo, mas com muita raiva e queria sua moeda de volta.
— Dê-me a minha moeda, seu ladrão! — Gritou, avançando sobre aquele desconhecido.
— Ela agora é minha porque a encontrei perdida nesta calçada — volvia ele, levantando-se e levando consigo o calor da calçada, transformando-a de volta naquela pedra de gelo. — Queres ela de volta?
— Claro! — Betinho levantava-se e estirava a mesma mão que há pouco possuíra a moeda — Por favor!
— Como disse antes, posso ti vendê-la.
— Mas não tenho como pagar.
— Claro que tens, olha só! Posso contar nos dedos! Conta comigo: O vigário, teu irmão, tua mãe, tua irmãzinha doente e teu falecido pai.
Betinho sorriu. Agora havia descoberto: aquele homem era um louco qualquer, falava qualquer besteira que lhe passasse pela cabeça.
— Por que ris? — Perguntou ele.
— Porque o senhor é besta.
— Sou mesmo?
— Quer que eu pague com o vigário ou com meu irmão ou minha mãe ou minha irmã ou meu pai?
— Sim, e por que não?
— Está bem. Dê-me a moeda.
— Não, não. Eu te vendo esta moeda. O que me ofereces em troca?
— Deixe-me pensar... — Betinho nem precisou pensar muito. Era claro que já sabia. Era uma brincadeira, mas já sabia como brincar. — ...O vigário.
— Hum... — ele entregava a moeda a Betinho — Esta moeda deve valer muito para ti. Deste-me o mais valioso.
— O canalha do vigário não vale nada — maldizia Betinho saindo correndo com sua moedinha de volta. Agora podia voltar para casa. Logo mais teria uma sopinha na ceia de Natal. Não era um peru, mas dava para encher a barriga.
Enquanto cobria-se por uma densa nuvem de enxofre aquele homem dizia:
— Verás o quanto ele vale.
E lá ia Betinho feliz da vida para casa...
A moedinha era sua novamente, agora era só entrar no beco e pronto já estava em casa.
Mas, e aquele alvoroço?
E aquela música? Não, não! Não era música, não! Era choro. Mas o que significava aquele aglomerado de beatas na frente da casa de Betinho? Que dor era aquela que todas sentiam em plena noite de Natal?
Betinho pensou na mãe. O coração apertou quando entrou em casa e não a encontrou.
— Cadê a mamãe? — Perguntou ao irmão, que ninava a irmã doentinha.
— Foi na igreja cuidar das coisas do vigário.
— Que tem o vigário?
— Morreu, coitado. E parece que se enforcou, não sei porquê. Mas deixou uma carta que mamãe leu e correu para lá chorando como uma desesperada.
— E o que dizia a carta?
— Não sei. Mas tem teu nome, Betinho. Isso tem.
Betinho correu para a porta, as beatas o olhavam com rancor, mas ele não entendia o porquê. Nunca havia dito nada que machucasse o vigário; o odiava, era verdade, mas somente seu coração sabia daquilo.
Encontrou a mãe ao lado da cama onde o vigário jazia, coberto de flores brancas. Enquanto um terço pendia da mão que apontava para o alto em orações, uma folha de papel era esmagada pela outra, que se escondia às suas costas.
Betinho olhou aquele papel que sua mãe segurava, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa foi surpreendido por ela, que notou sua presença.
— Betinho — ela virava-se e esbofeteava-o — viste o que fizeste?
— Mas eu não fiz nada!
— Toma! — Ela jogava-lhe o papel na cara. — Some daqui e lê. Depois verás o quanto fostes uma criança má.
Betinho saiu resmungando “Eu? Eu não fiz nada! Não fiz nada, não! Ele morreu porque quis! ”
Sentou-se num dos bancos e leu.
Senhor Deus, me perdoa. Não fui um bom filho. Aprendi tantas coisas Contigo, todos os Salmos, toda a liturgia, os dogmas da Santa Igreja, mas não consegui ensinar o Amor a uma criança. Sim, ensinei o Amor a tantas outras que cresceram, tiveram filhos e eu ensinei o Amor a esses filhos e aos seus filhos e aos seus filhos e assim por diante, mas não consegui ensinar o Amor a Betinho.
Sim, a Betinho. Esse menino falava demais nas minhas aulas e isso me irritava. E eu, pobre criatura miserável e pecadora, ao invés de entender o quanto sua alma é livre como o vento, reprimia-o, expulsava-o e ainda despedi sua mãe, tão boa para mim.
Que adianta rezar o Amor se não consegui fazê-lo brotar no coração de Betinho?
Que eu sucumba no mar de arrependimentos que invade minha alma.
Perdoa-me, Betinho.
Adeus! O malcriado não foste tu, fui eu.
 
O coração de Betinho apertou. Deveria chorar?
Deveria.
Deveria correr até o quarto, jogar-se aos pés do defunto e pedir-lhe perdão?
Deveria.
— Mas ele não vai te ouvir.
Betinho olhou para o lado e lá estava seu amigo coberto de enxofre.
— Senhor, eu estava brincando. Por que o senhor matou o vigário?
— Eu? Eu não matei ninguém. Tu o vendeste para mim.
— Mas pensei que o senhor estivesse brincando.
— Brincando? Numa noite como esta? Numa noite em que as casas estão celebrando a vida eu procuro celebrar a morte de alguma forma. 
Betinho encheu os pulmões e gritou:
— Chega! Esta brincadeira acabou agora!
— Engano teu. Começou agora.
A força com que Betinho sentiu a mão da mãe puxar-lhe os cabelos foi tanta que ele gritou, agora de dor.
— Para de gritar dentro da igreja e vai para casa, pensar em tudo o que fizeste ao coitado do vigário todos esses anos, Betinho.
— Mas, mãe. É culpa do diabo.
— A culpa é tua, Betinho. Vai para casa, que não quero olhar para ti.
Ele já descia as escadas, aos soluços.
Sua mãe finalizou dizendo:
— E pensar o quanto ele te amava...
Quando chegou em casa o irmão chorava. A irmãzinha parecia uma boneca de pano em seus braços e estava branca como cera. O que havia acontecido agora?
— Está morta, Betinho — dizia o irmão. — Agora que o vigário está morto, quem lhe dará a Extrema Unção?
— Meu Deus! O que isto quer dizer?
— Que as portas do céu não se abrirão para nossa irmãzinha e sua alma vagará pelo Vale do Sofrimento para sempre, Betinho.
— Misericórdia!
— Será que nem isto aprendestes na igreja?
Betinho saiu porta a fora, mas antes pegou uma vela e foi até os fundos da casa, no quartinho dos livros que o pai lia para ele. Ali era um bom lugar para acender uma vela e pedir que todo aquele pesadelo acabasse. Sentia a presença do pai ali; quem sabe ele não pediria a Deus por Betinho...
Acendeu a vela, ali mesmo sobre uma pilha de livros e rezou...qual oração se não aprendera nenhuma? E o que deveria pedir? Não sabia falar com Deus; nunca procurou aprender. Mas sabia que uma vela acesa já era meio-caminho andado.
Agora deveria caminhar um pouco. Talvez se fosse até a padaria da esquina poderia conseguir um pouco de pão dormido para trazer para casa e comer com a família, mesmo em meio a tanto sofrimento...
Saiu com aquela esperança no peito.
Encontrou com a mãe no caminho, que perguntou para onde ele iria.
— Para qualquer lugar onde não me culpem por algo que não fiz! — Ele estava com raiva.
— E teu irmão está em casa? E tua irmãzinha?
— Melhor a senhora mesma ir lá e vê.
 — Ó, meu Deus! — Ela adivinhava e saía correndo.
Betinho caminhou um pouco mais e contou sua história ao velho corcunda da padaria, que compadecido, entregou-lhe uma sacola com alguns pães.
Mas a fome era tanta que preferiu comer um pedaço do pão ali mesmo na praça. Depois comeu outro pedaço e outro e outro e outro...quando se deu conta havia comido tudo.
E agora? Voltaria para casa e diria o quê?
Que não havia ganhado pão algum.
Pôs-se de pé e já ia voltar quando o clarão no céu o fez relembrar daquelas tardes quando o pai lhe levava até ali para ver o pôr-do-sol...
Mas aquele clarão não era no céu, era logo mais abaixo.
E havia fumaça também.
— Corre lá, Betinho! — disse uma beata que passava. — Tua casa pegou fogo.
Ele lembrava-se da vela sobre os livros.
— Parece que tua mãe entrou por uma janela para salvar teu irmão, mas não deu tempo. Agora estás sozinho no mundo. Que tristeza.
Totalmente em desespero Betinho presenciou os últimos momentos da grande fogueira que sua casa havia se transformado. Os vizinhos jogaram agua a noite toda e, de manhazinha tudo eram cinzas.
Os três dias seguintes Betinho os passou sentado defronte às cinzas da casa, até que sentiu o cheiro de enxofre novamente.
— O que o senhor quer agora, Satanás? Sei que o senhor é o diabo, agora. Não sei como consegui ser tão burro.
— Não foste burro. Foste imprudente. Olhaste apenas para teu umbigo.
— Mas agora está tudo perdido. O que mais o senhor quer?
— Eu, que pergunto: queres mais alguma coisa?
— Quero minha família de volta.
— Sei. Mas não posso te dar.
— Claro que pode! O senhor a tirou de mim!
— Mas que calúnia! Nunca tirei tua família de ti. Eu a comprei, assim como comprei o vigário, de ti!
— Pois eu exijo que o senhor me venda, de volta!
— Tens como pagar?
Betinho enfiou a mão no bolso da bermuda e entregou a moeda a ele.
— Aqui está! Se com ela eu te vendi o vigário e minha família, com ela poderei compra-los de volta.
— Certamente — ele pegava a moeda e a guardava no bolso. — Mas nesses três dias ela perdeu um pouco de valor, então ficarás me devendo um trocado.
— Não devo nada ao senhor!
Aquele homem acariciou a cabeça de Betinho e este se afastou rapidamente. A Nuca havia esquentado, parecia que ia ferver.
— Pronto. Agora não me deves mais nada. Vai para tua igreja rezar. Quem sabe...
O cheiro repugnante de enxofre fez com que Betinho se afastasse, correndo de volta para a igreja.
Parou no primeiro degrau e pensou: tentarei subir rezando. Tentarei lembrar das aulas do vigário. Quem sabe, lembro ao menos do Pai Nosso.
— Pai Nosso... — ele começava a subida —...que estais...no céu.... Santificado seja Teu Nome...
Ele mal podia crer no que se passava. Conseguia lembrar. Não havia sido tão mal aluno. Sabia rezar, sim, senhor!
No último degrau sentou-se e encostou na porta como há três dias o fizera. Respirou profundamente e fechou os olhos pensando em tudo. Na irmãzinha, no irmão, na mãe, no vigário...
A porta abriu-se rapidamente e quase que ele tombou para trás, pondo-se de pé rapidamente.
— Betinho, meu querido!
— Vigário! — Betinho mal podia crer. — É o senhor mesmo?
— E quem mais seria? Venha! Entre meu querido. Têm uns alunos que não sabem rezar como tu. Mas graças a Deus que tu me ajudas. És precioso!
— Sou nada. Sou malcriado.
— Tu? Malcriado? Tua mãe precisa saber disso.
— Minha mãe? Ela está viva?
— Mas que brincadeira é esta, Betinho? — o irmão chegava naquele momento. — Olha o que trouxe para ti.
Betinho abria um pacote e sua emoção era grande. Lá estava a camisa que tanto sonhara ter.
— Como é linda!
— Não é lá das melhores — sua mãe chegava com sua irmãzinha nos braços. — Mas tua irmã está tão bem de saúde que não precisará mais de remédios e eu pude comprar uma camisa para ti para cearmos o Natal de logo mais à noite contigo, teu irmão e tua irmã bem vestidos.
— E hoje teremos pão, sopa e peru — finalizou o vigário. — Nosso Natal será inesquecível.
Betinho, emocionado, disse:
— Com certeza. Jamais esquecerei de todos que amo tanto e deste Natal especial!
Durante a noite a ceia foi perfeita. As músicas das beatas, as gargalhadas, os elogios da beleza de Betinho e do cuidado que ele tinha com a irmãzinha, o irmão e a mãe.
Era uma noite inesquecível, não fosse um único detalhe. Detalhe esse que Betinho queria saber, mas não lembrava.
De madrugada sua mãe veio apagar a vela que ainda iluminava seu quarto, mas ele não deixou.
— Ainda não apaga, mãe. Queria perguntar uma coisa antes?
Ela sentou-se ao seu lado na cama e perguntou:
— Pergunta, filho. Se puder responder...
— Bem eu queria saber uma coisa... — ele esforçava-se. — Queria perguntar sobre uma pessoa...só não sei quem é.
— E como vou sabe, né? — ela sorriu, beijou-lhe a testa, apagou a vela e se foi.
Minutos depois Betinho tornou a acender a vela e foi até o quartinho dos fundos. Talvez alguma coisa ali o fizesse lembrar.
Ao abrir a porta...
Não havia nada. Nenhum móvel ou objeto, nada.
Como poderia lembrar?
A nuca latejou e uma voz sussurrou rapidamente:
“Agora não me deves mais nada”
Balançou a cabeça e sorriu. Não havia nada para lembrar. Era melhor voltar para cama e aproveitar o restinho do Natal. Voltaria até no escuro. Gostava do escuro. Gostava de sentir medo, de vez em quando.
Soprou a chama e se foi para a cama.
Betinho guardaria aquela noite para sempre. Aquele havia sido um natal especial: a ceia com o vigário amigo, a sopa, o pão, o peru...A mamãe, o irmão, a irmãzinha, algumas beatas...
Havia sido uma noite inesquecível; ele adormeceu pensando assim.
Mas..e a moeda? Que moeda, afinal, se não havia lembrança alguma da moeda que o pai que tanto amara havia lhe dado em seu leito de morte.
Pai? Que pai que havia retirado da memória no momento em que comprou o vigário e a família de volta?
Pobre Betinho que vendeu a família e o vigário...
Pobre Betinho sem moeda...
Pobre Betinho sem seu pai...
Fim
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Atualizado em: Qui 22 Dez 2016
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