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Luzes da realidade

1

As luzes acesas nas casas pequenas de porta e janela. Poucas com o terracinho e o muro baixo à frente. As escadarias longas, estreitas, com os postes às laterais. O som vindo forte de uma dessas residências. O céu acinzentado, sem brilho. Em baixo, a rodovia com os veículos que agora passam em número reduzido devido à hora avançada da noite. E o vento circulando, numa brisa camarada.

Jesuíno afasta-se da janela e ocupa o sofá próximo dessa na sala larga e, como sempre, sendo prático vai direto ao assunto:

- Branquinho e Tetéu tenho umserviçopra vocês...

A pausa, para se valorizar, se impor como Chefe e continua:

- Quero que vocês dêm fim aos elementos que mataram a doutora-dentista Suzete.

Eles escutam-no. Respeitosos. Conhecem bem o Jesuíno, sabem o quanto custa interrompê-lo... Têm exemplos dos que até perderam a vida em não apoiá-lo, portanto, calados fitam-no.

- Vocês já devem saber do que houve com a doutora Suzete. É só no que os noticiários falam. E oselementoscomo são de menor e de famílias nobres, por ter dinheiro continuam soltos... Quero que façam com eles, o que fizeram com a doutora: amarrem cada um numa cadeira, depois jogem álcool e risquem um fósforo... Queimem eles vivos!

Branquinho e Tetéu entendem-no. É a justiça que terão de cumprir:olho por olho...

- Estamos combinados? Façam otrabalhodevagar. Queimem um por um e depois, a gente acerta o pagamento.

Espera um pergunta, mas ante o silêncio dos dois, retorna a falar:

- Podem começaro serviçoamanhã mesmo. Sigam um por um doselementos,descubram onde moram, os locais que freqüentam... Esses detalhes para que não haja erros, tudo saia correto. E... Branquinho, o que você me diz?

Este responde, medindo as palavras, contido:

- Tudonos conformes,Chefe.. A gente acertaa tampadeles. A doutora será vingada!

Jesuíno sorri, vitorioso.

A doutora Suzete que clinicava próxima a Favela Sete Gatos e que atendia a gente dessa, será vingada. Sim, será a recompensa que os moradores daqui lhe retribuirão, como prova de gratidão.

- Bom... Podem agir.

Os homens se erguem do sofá e Branquinho:

- Pode deixar com a gente, Chefe.

- Tá, confio notacode vocês.

Tetéu também fala, despedindo-se:

- Possa ficar tranqüilo, Seu Jesuíno.

- Tudo bem , tudo bem.

Os passos largos cruzam a sala e Jesuíno após ouvir a porta se fechar por fora, então novamente à janela reflete. Uma criatura que com atenção tratava todos bem e que por causa de um doselementoster passado o seu cartão no caixa eletrônico e encontrar como depósito trinta reais, por raiva tira-lhe a vida de uma maneira diabólica. ... Mas, agoraos elementosterão que pagar. Aqui na Favela, a lei é só uma:Olho por olho!

Permanece à janela. Seu refúgio de quando quer raciocinar para depois pôr em prática o que se determinou a executar.

2

O noticiário da televisão anuncia que um dos adolescentes que matou a dentista Suzete - após amarrá-la numa cadeira e jogar álcool incendiando-a viva, para que fosse assim morrendo devagar -  foi encontrado também amarrado numa cadeira e queimado vivo, à semelhança da doutora, num galpão em local ermo da Favela Sete Gatos. A polícia suspeita ter sido um ato de vingança, pois a referida dentista era caridosa e, portanto, muito querida pelos moradores da referida localidade.

À janela Jesuíno como Senhor das drogas raciocina  nessa lei:Olho por olho.

Agora, faltam os outros doiselementos,para que a alma da doutora descanse em paz...

As luzes nas residências. As escadarias estreitas, de mil degraus. Embaixo, a rodovia com os veículos transitando-a, os pedestres nas calçadas laterais. Tudo sob o comando de umaOrdem Maior,como se nada tivesse ocorrido! 

Jesuíno permanece à janela, seu recanto de refúgio, amparo às reflexões.

3

- Vocês assistiram os noticiários?

Três cadáveres encontrados amarrados, carbonizados. Em locais ermos da Favela Sete Gatos. A polícia trabalha para elucidar as mortes dos adolescentes ricos. Os federais também entram  em ação.O governador quer justiça, contudo, até o presente, só a suspeita de que os crimes tenham sido uma vingança por prováveis moradores do morro. A dentista Suzete era muito prezada por essa gente da favela...

- É chefe, a alma da doutora pode agora descansar em paz.

- Branquinho, eu sabia que vocês nãofarrapariame... Pega aí o cheque peloserviço.

A mão trêmula, branca segura o papelzinho. E a voz perplexa:

- Tudo isso, chefe? Quinze mil reais?

Jesuíno sorri:

- E já tenho outramissãopra vocês...

Tetéu também sorri. E frio, profissional, sem coração aquiesce, como de costume.

- É só mandar Seu Jenuíno, que a gente obedece...

- E executa!

Completa Branquinho.

Jesuino então se ergue e à janela, estende a vista ao que está lá fora. A favela, de mil olhinhos acesos. A noite que amadurece, numa cena repetida, que lhe transmite a força para tomar as decisões e depois as executar. E se voltando, aos dois homens no sofá:

- O negócio é o seguinte...

Escutam-no. Respeitosos. E Branquinho dobra o papelzinho e o põe no bolso da camisa, sob o olhar analítico do parceiro, ao lado.

- Amanhãs mesmo vocês cheguem aqui para receber mais detalhes. Combinado?

- Ok, chefe.

- Pode contar, Seu Jesuino.

- Muito bem, muito bem. Assim é que gosto de saber!

Lá fora, três luzinhas piscam, piscam... E se apagam de repente, como se transmitissem a realidade executada.


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Atualizado em: Sáb 4 Mai 2013
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