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Representante do medo

1

À esquina, Seu Amaro barraqueiro atrás do balcão, aguarda freguês. Calado. Pensativo. O negócio anda fraco, tem que dá um jeito para movimentá-lo, faturar mais, contudo, que jeito? Se “topasse” a proposta do Pretinho...

- “Coroa” você recebe a “mercadoria” e vai passando ela devagarzinho, na “moleza”...

Ele então meditou um pouco e com a voz grossa respondeu, em sua franqueza habitual:

- Quero não, Pretinho. Esse negócio é perigoso demais pra mim. Basta vacilar um pouco, e se é “ferrado!”. Vou parar no Cotel.

A risada descontraída do outro e a resposta:

- “Coroa” tudo nessa vida tem os riscos, mas, você é quem sabe... Me bota outra branquinha.

 Ele despachou a dose de aguardente e durante segundos, se mantiveram em silêncio. Os rostos virados, sem se encararem, enquanto na rua estreita defronte, sob o sol do verão, os moradores das proximidades passavam no ir e vir normal do bairro pobre. Seguidos por carros, motos e bicicletas.

- Calor da peste “Coroa!”.

Tornou a falar Pretinho e ele aquiesceu, sorrindo:

- Tá no tempo dele.

- Pois é, mas que incomoda, incomoda.

Depois quitada a despesa Pretinho retornou à proposta:

- Vou lá. Se resolver “Coroa”, liga pra mim.

O cartãozinho com o número... E o corpo magro, gingado, se afastou para subir na moto à esquerda da barraca e em velocidade ganhar a rua e desaparecer ao dobrar a esquina adiante.

Não, nada de se envolver com o “tráfico”...

- É perigoso demais!

A voz que expressa o que sente e, segurando a flanela, a esfrega sobre o balcão, limpando-o.

Cabisbaixo. O suor na testa larga, nas faces de um moreno fechado.

2

Hoje está no bairro do Pina, comercializando à beira-mar.

Sim, é um outro Seu Amaro. Um novo homem. E saber que vacilou durante meses, num temor de ser preso, ir parar no Cotel, como traficante de droga, contudo, a necessidade pela própria sobrevivência o obrigou a aceitar a proposta do Pretinho em repassar a droga, enquanto despachava bebida, com tira-gosto, naquela barraca à esquina da Rua Dona Julieta, no morro do Mandu...

- “Coroa” é bom pra você sair daqui, ir pra outro lugar. Você tá ficando “visado”...

O conselho prático do Pretinho. E ele ouvindo-o. Refletindo. Aquiescendo.

- É melhor pra você e pra mim. É mais seguro “Coroa”.

Então a mudança, e a venda crescendo. O faturamento aumentando. O dinheiro vindo dos dependentes, viciados, na maioria adolescente.

Segue com o olhar comercial os dois garçons servindo as mesas que, aos poucos, se enchem de casais e grupos de jovens alegres. Até quando assim? No íntimo, sente o receio, como um aviso de uma ameaça, uma traição do destino. Mas...

- Seu Amaro, o casal que chegou ali, pede cerveja, com lagosta ao coco.

- Certo, Betinho. Vamos providenciar.

O garçom então retrocede ao salão para atender outras solicitações, integrado ao trabalho ativo, solícito. E Seu Amaro voltando-se à janelinha às costas, grita para Maria, a cozinheira:

- Saí um prato de lagosta ao coco!

- Tudo bem, patrão.

Sim, o movimento cresce, enquanto a noite vai se entregando a nova madrugada, na marcha natural de sempre.

Fora do estabelecimento, duas motos estacionam e os dois homens saltam e, como se estudassem os próprios gestos, cautelosos se dirigem ao salão movimentado por vozes, gargalhadas e o arrastar de cadeiras.

Resolutos adentram no ambiente de descontração dos que curtem a noite, já madura.

3

Silenciosos, com os olhos analíticos buscam uma mesa e encontram-na à direita, próxima a entrada do recinto.

- Ali irmão.

- Certo, vamos lá.

Ocupam as cadeiras e o que é magro, alto, amulatado erguendo o braço, acena com a mão aberta, chamando o garçom.

- Às ordens.

- Moreno dois conhaques reforçados.

- É pra já.

Apressado, o garçom se afasta em sentido ao balcão nos fundos do salão, enquanto os recém-chegados tornam a estudar o ambiente, numa análise profissional do que terão que executar.

4

 Os garçons “largaram”.

Na cozinha, Maria lavando os pratos e talheres lamenta não dispor de uma máquina que a auxilie nessa cansativa tarefa de todas as madrugadas, contudo, um dia Seu Amaro irá comprar a sonhada máquina de lavar pratos e talheres...

A água da torneira desce. A mão magra acolhe-a com os pratos e talheres. As pernas tremem. Exaustas.

Seu Amaro deve estar anotando o faturamento. E aqueles dois sujeitos na mesa recuada, à entrada do salão, será que ainda estão bebendo? Eles lhe inspiram um receio. Um...

Então ouve os disparos, o som alto do corpo que cai da cadeira e os passos fugitivos.

Trêmula limita-se a própria perplexidade, dentro de uma aflição sem tamanho, contida como está a realidade do que entende e que infelizmente se torna representante do medo. E busca não se denunciar através dos próprios gestos, enquanto escuta a zoada das motos que partem em velocidade se distanciar, se distanciar...

(*) Valeu, mestre Paulo Valença.

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Atualizado em: Sáb 4 Mai 2013
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