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O Rato, A Masoquista E O detetive

 

Estou correndo por uma rua escura e deserta, olhando
insistentemente para trás para tentar ver meu perseguidor. Não conseguia vê-lo
nitidamente. Sua presença apenas era sentida e, vez ou outra, o brilho de seus
olhos impregnados de guanina podia ser visto. Um calafrio sobe pelo meu pescoço
e eriçam meus pelos da nuca. Meu corpo todo treme. Avisto o prédio onde ela
morava, o bloco K. Suas paredes acinzentadas e seu aspecto vestuto me eram familiar.
Quando era criança eu brincava em baixo da ponta daquele prédio, que fica de
frente para um terreno baldio muito assombroso. O matagal, pelo o que eu pude
ver, continuava assustador. Não sei como fui parar ali. Não me recordo de ter
viajado. Mudei-me em 1987 e desde então nunca mais falei com ela ou voltei a
esta cidade, até este momento. Entro correndo pela garagem subterrânea que está
sobre uma penumbra mórbida. Os poucos carros iluminados, à meia luz, são
antigos, de mais de trinta anos, época em que vivi ali. Uma Marajó cinza e um
Fusca vermelho são os únicos em destaque, reluzindo, como se houvesse um foco
de luz sobre eles. Vou até lá e sou atraído para a janela do lado do motorista
da velha Marajó, encosto minha testa no vidro e me esforço ao máximo,
comprimindo meus olhos, para olhar o interior do veículo. Vejo apenas formas
embaçadas que lembram bitucas de cigarros. De repente, ouço um barulho atrás de
mim e, antes que eu que possa me virar completamente, sou atingido por duas
mãos macias, de grandes unhas afiadas e estranhamente peludas...

Acordo de um sobressalto e as mãos que me tocavam, na
verdade, são duas patas. As patas dianteiras de Ali, Aliosha Karamazov, meu
gato angorá de estimação. Sou o Rato, e tenho um gato de estimação. Uma
manifestação de poder fabulosa, vocês não acham? Aliso o pelo de sua grande
cabeça de macho de raça, e ele se enrosca em meus lençóis todo manhoso.
Levanto-me e vou ao notebook, sei que não conseguirei mais dormir. Dilcinha
dorme tranquilamente no seu lado da cama. Dilcinha é uma linda morena de
dezenove anos que ganha a vida mostrando seu belo rabo num site pornô de
webcams ao vivo. Tem menos de um mês que a conheço.  E acho que estou apaixonado. Só mesmo uma
paixão para justificar ela ainda não ter morrido. Matei quase todas minhas
amantes. Só não matei as que não eram putas, - a grande minoria, duas ou três
-, as que tinham família e que poderia comprometer meu ofício. E Dilcinha era
uma putona das mais devassas e continuava viva. Se eu não fosse o Rato, poderia
muito bem ser conhecido como o viúvo negro. Sou um pervertido adepto da asfixiofilia.
Meu orgasmo é aumentado quando asfixio minhas parceiras até a morte. Meu gozo é
indescritível. Com Dilcinha não consegui chegar ao fim, antes que a falta de
oxigênio fosse irremediável para sua sobrevivência eu soltei seu frágil pescoçinho.
Ela também gozou muito nesta ocasião. Ela gosta de umas boas bordoadas. Talvez
eu tenha encontrado minha alma gêmea.

Desligo o laptop e vou até a janela. Afasto um pouco a
persiana com meus dedos e observo o estacionamento lá embaixo. O carro continua
lá. O imbecil do detetive Rubem acha que eu não sei que ele está me vigiando. Têm
uns vinte dias que ele me segue. Depois que eu matei a filha do vereador, - isto
tem mais de um mês -, em um beco escuro, sinto que o cerco está se fechando contra
mim. Eu vacilei naquele dia. Eu estava num bode existencial danado,
encontrava-me absolutamente embriagado, e de alguma forma deixei cair no chão, de
onde eu me escondia para emboscar a patricinha, um cartão de visita com meu
nome e endereço. Trabalho como digitador e revisor de trabalhos universitários.
Essa é minha segunda profissão, é o meu disfarce, e nem se compara
financeiramente com a verdadeira, que é a de matador profissional. Ganho muito
bem como assassino.  Alguns dias depois
do homicídio, esse mané bateu aqui em casa perguntando se eu conhecia a dita
cuja que tinha falecido. Fiquei bem assustado. No entanto, me controlei e
mantive um ar blasé. Indaguei por que motivo ele perguntava aquilo.  Foi quando ele falou que acharam um cartão de
visita meu, bem próximo do corpo da infeliz. Falei que tinha acompanhado o caso
pela televisão, mas, não conhecia a menina. E provavelmente algum aluno da
Faculdade deixou cair aquele cartão por ali, já que eu faço muitos trabalhos para
universitários daquela instituição, - o que não era nenhuma mentira. Ele
perguntou se eu não teria feito algum trabalho para a morta. Disse que não
sabia. Na maioria das vezes só falo com uma pessoa, converso apenas com um
aluno que representa um grupo de estudantes. Por isso eu não podia dizer que
sim e nem que não. E completei:

 - Posso dizer que
nunca falei com ela e que nunca a vi. As fotos dela, que foram mostradas na TV,
eram de uma menina muito bonita, que, com certeza, eu não esqueceria se a
tivesse conhecido pessoalmente.

Ele coçou sua brilhante careca e disse:

- Esse prédio não é muito caro para um simples digitador?

- Ganhei de uma herança de uma tia muito rica. Irmã de
mamãe. Respondi.

Parece que ele não ficou muito convencido com meus
argumentos e anda me espionando desde então. O que ele não sabe é que sou eu
que estou atocaindo ele. E não vai tardar para que eu salte em cima dele, como
se ele fosse um apetitoso pedaço de queijo. Acendo um cigarro e fico fumando,
um cigarro atrás do outro, até que o sol mostre sua cara.

Dilcinha acordou lá pelas dez da manhã. Eu estava falando
com o homem que contratou a morte da filha do político, dizendo a ele que o
detetive estava na minha cola, que aquilo estava me deixando com muito medo. E
pedi pra ele mexer uns pauzinhos e que usasse de sua influência pra que o
investigador desistisse de me bisbilhotar. Ele disse que eu não me preocupasse,
- coisa impossível numa situação daquela -, e marcamos de nos encontrar, por
volta das catorze horas, na livraria do shopping. Quando desliguei o celular
tomei um grande susto, Dilcinha estava bem atrás de mim, e riu bastante com o
pulo que eu dei.

- Você está aí há muito tempo? Perguntei.

- Cheguei agorinha e ia ti pregar um grande susto, mas,
não foi preciso, você se assustou sozinho. E caiu na gargalhada de novo.

- Tá bom, tá certo, mas não tô vendo graça nenhuma nisso.

- Há meu professor, não fica com raiva de mim não. Tudo
bem?

- Hum, hum. Resmunguei. - Já disse que não sou professor
e sim um digitador. Respondi mal humorado.

- É que você parece um professor com esses óculos e essa
quantidade de livros espalhados pela casa. E esses papéis escritos colados na
parede, e essas poesias que você sussurra quando trepa comigo, confesso que não
entendo porra nenhuma, mas acho bonito. Isto é coisa de quem estudou muito,
coisa de professor.

- Mas, não sou professor. Entendeu?

- Sim, entendi. Ela respondeu e se encaminhou para a
cozinha.

No seu rosto e pescoço ainda davam para ver as marcas da
nossa última transa. Essa nossa união tem tudo para não durar muito. Do jeito
que ela gosta de sofrer e que eu gosto de seviciar, a qualquer hora, por mais
que eu não queira, acabarei por matá-la. Suas pernas, principalmente no lado
interno das coxas, estavam cheias de pequenas cicatrizes arredondadas. Eram os
lugares onde ela costumava apagar, com um prazer doentio, os seus cigarros.
Cigarros de filtro branco e longo, que ela fumava meticulosamente até a metade.
Aquilo era de uma obsessão incomum. Coisa de maluco. O cigarro chegava à
metade, então ela jogava fora. Aquele troço me perturbava bastante. Eu ficava
ansioso, olhando para o cigarro, esperando a hora que ela jogaria ele fora! E
ela sempre se desfazia dele na metade. Eu só não pedia para terminar de fumar
seus cigarros, por que eram longos e de filtro branco e estes tipos de cigarros
são para menininhas. Homem que é homem fuma cigarro de filtro amarelo, porra! Por
toda a casa encontravam-se recipientes com água, abarrotados de metades de
cigarros com o filtro branco manchado de roxo, que era a cor do seu batom.

Esperei que ela tomasse seu café e descemos juntos pelo
elevador. Na portaria nos separamos, com a promessa de nos vermos a noite aqui
em casa. Ela pareceu querer ficar mais um pouco no apartamento. Enquanto ela
comia, alegou que só tinha que fazer seu show às quatro da tarde, e que poderia
descansar mais um pouco. Fingi que não entendi sua intenção, e pedi que ela se
apresasse, pois, tinha um compromisso urgente. Não a deixaria sozinha em minha
casa nem fudendo. Não sei se já disse antes que sou completamente paranoico? Se
não disse, digo agora: - Sou completamente paranoico! E todas as vezes que ela entrou
na minha casa dei um jeito de revistar sua bolsa. Ela estava limpa esse tempo
todo que esteve por lá. Contudo, isso não era suficiente para uma demonstração
tamanha de confiança. Creio que com ela não terei problemas, me sinto muito bem
ao seu lado, coisa que não senti, nunca, com ninguém. Penso que devo me preocupar
é com o contratante, farejo que ele tá querendo botar pra foder comigo.

No lobby do prédio fingi que olhava a caixa do correio,
para que Dilcinha saísse primeiro. Esperei alguns minutos e só então saí do
edifício. Assim que fechei o portão de ferro atrás de mim, vi de soslaio que
Rubem saia bem devagar com seu carro do estacionamento. Todos os outros dias eu
andei lentamente, para que ele não me perdesse de vista. Hoje seria diferente,
precisava me encontrar com o contratante e ele, o investigador, não podia saber
aonde eu iria. Assim que dobrei a esquina a direita eu corri, virei na outra
esquina, também à direita e entrei numa LAN house. Fiquei olhando pela porta de
vidro e vi o carro de Rubem passar bem devagar pela rua. Ele olhava para todos
os lados a minha procura. O motorista do veículo que vinha logo atrás se
impacientou com a vagareza dele e apertou a buzina sem piedade, fazendo com que
o detetive acelerasse seu carro, não antes de desferir um poderoso e irritado
soco no volante. Assim que ele desapareceu na rua, saí da loja e retornei pelo
caminho que fiz. Bem em frente ao meu prédio, peguei um taxi em direção ao
centro da cidade. Cheguei ao sebo ao meio-dia. Teria pelo menos uma hora antes
de ir ao shopping. Eu estava atrás do livro Notas do Subterrâneo de
Dostoiévski, um livro que eu gostava muito. Achei o livro e muitos outros que
me interessavam. Passei uma hora muito agradável dentro daquela livraria
empoeirada. Às treze horas me dirigi ao shopping. Decidi ir andando. Levei
quase quarenta minutos caminhando. Antes de ir para a entrada que ficava a
livraria, resolvi comer um pastel e tomar um caldo de cana numa barraquinha
fora do shopping, próximo a uma feira de bairro. Comi dois pastéis de carne e
tomei um copo de 500 ml de caldo. Satisfeito, fui em direção à entrada próxima
da livraria. Entrei por uma pequena passagem destinada aos pedestres, ao lado
de um ponto de ônibus. Andava tranquilamente quando, para meu espanto, vi a
reluzente careca do detetive brilhar dentro do seu carro, que estava parado no
estacionamento descoberto do estabelecimento, numa posição voltada para a
entrada principal do centro de compras. Daquele ângulo ele poderia ver muito
bem quem entrava e quem saia. Tive a certeza que estavam me sacaneando. Resolvi
terminar logo com aquela agonia sem pensar nos riscos que aquela atitude
precipitada poderia me render. Retirei minha navalha do bolso e andei
impetuosamente, a passos ligeiros, na direção do carro de meu vigilante. Fui
contornando os carros, que formavam uma espécie de labirinto. Cheguei por trás,
como sempre faço. Rubem estava distraído, fumando um cigarro. Ele estava
sentado no banco do motorista e com seu braço esquerdo estendido para fora do
carro. Segurei seu braço com minha mão direita e com a esquerda deslizei minha
afiada lâmina pelo seu pescoço. Como sempre não houve reação. Saí do local
rapidamente. Limpei a navalha com um lenço, que depois dispensei dentro da
descarga do fraldário do shopping. Às duas horas me encontrei com o contratante
e não falei nada sobre o acontecido. A conversa foi bem rápida e ele me
prometeu se livrar rapidinho do investigador. Despedimos-nos com um aperto de
mão frouxo. Fiquei olhando ele desaparecer no meio das pessoas que lotavam a
praça de alimentação.

Eram dez da noite e eu Dilcinha estávamos nos divertindo
em nossos joguinhos sexuais. Eu estava entrando pela porta dos fundos. Ato que
ela muito gostava, principalmente quando eu penetrava com vigor e puxava seus
cabelos em minha direção. Quando percebi que ela estava tendo seus primeiros
orgasmos, comecei a apertar aquele lindo pescoço. Primeiramente sem força
nenhuma, só com a pressão dos meus dedos. Ela urrava pedindo que eu apertasse
com violência. Apertei mais e mais, aumentando gradualmente a força e quando vi
que sua face estava completamente cianótica e que seus olhos esbugalhavam e
reviravam de puro êxtase, eu não soltei e fui até o fim. Nunca ejaculei com
tanta potência como naquele dia. A satisfação foi plena. Um júbilo inenarrável.
Matei-a sim. Esta puta estava de conluio com o detetive Rubem. Quando eu me
aproximava do carro do sacana, para matá-lo, pude distinguir, no chão, ao lado
da porta do condutor, algumas guimbas de cigarros de filtro branco longo,
fumados até a metade e com uma mancha roxa maculando a brancura do filtro.
Aquele assassinato não me deixou satisfeito como os tantos outros que eu
cometi. Depois do regozijo, uma forte tristeza apoderou-se de mim. Concluí que
realmente estava apaixonado por aquela vagabunda masoquista. Isso são coisas da
vida, logo esse sentimento sumirá e outra encomenda não tardará em aparecer, e
a vida continuará como sempre foi; solitária e tendo apenas como companhia meus
estimados livros e meu bichano Ali. A dificuldade agora seria me livrar do
corpo. Todavia, isso eu conto depois.

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Atualizado em: Ter 23 Out 2012
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