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O Rato

Uma noite dessas me peguei pensando nas coisas que não
fiz. Coisas, que por algum motivo deixei de realizar. Os motivos são os mais
variados possíveis. Alguns foram por puro descuido. Falta de percepção mesmo,
saca? Sou meio leso, e não percebo certas oportunidades que se escancaram na
minha frente. Algumas tantas vezes eu deixei a ocasião passar por ser
completamente desconfiado, paranoico e pessimista. É verdade, sou pessimista,
não nego. Discordo totalmente daquelas pessoas que dizem que tem que ter
otimismo, que tem que pensar positivo para tudo dar certo, e bebebê e bababá.
Pra mim é tudo balela. E se não der nada certo? A decepção será grande e lhe
pegará desprevenido. Não sou adepto das decepções, elas muito me incomodam.
Pertenço à classe dos que vivem com a pulga atrás da orelha, e prefiro pensar
que nada vai dar certo, que nada vai se ajeitar. E quando dá tudo errado, -
como eu previa -, minha frustração é mínima, já que eu me preparei ardorosamente
para esse resultado. Quando, raramente, tudo corre bem, a minha alegria é
imensa. Claro que não é por muito tempo, pois, depois do explosivo, porém,
breve contentamento, eu tenho a certeza que tudo não tardará a dar errado de
novo, como tinha de ser. Sou um pessimista incurável. Também sou preguiçoso,
muito. E covarde, bastante. Tem um velho ditado que diz que no cemitério tá
cheio de corajoso. Já escutaram isso? Pois é, levo esse principio a risca. Numa
briga sou o primeiro a correr em disparada, sem nenhum pudor. Não tenho a
mínima vergonha de assumir que sou um rato. Prazer, Rato. Todavia, não deem as
costas a um rato. E apesar do que possa parecer, sou bem sucedido e,
paradoxalmente a minha afirmação sobre ser um covarde, o que faço para ganhar a
vida requer certa coragem.

Essa reflexão, sobre as coisas que não fiz, me deixou
melancólico. Fiquei com aquele olhar desesperançoso de quem perdeu o último
ônibus. Um sentimento parecido com a sensação que o entardecer de um dia de
domingo proporciona. Uma emoção muito estranha, entre a saudade e o
arrependimento. Mas como ter saudade de uma coisa que você não fez? Bem curioso
isso que eu venho sentindo, essas impressões estão me perseguindo não é de hoje.
Deve ser a velhice chegando! Passei um bom tempo com essas avessas
reminiscências, memoriando o que nunca ocorreu, e tentando entender o que
aconteceria se tivesse sucedido. Fiquei me perguntando por que não estudei
mais, ao invés de ficar trancado no quarto lendo romances policiais e
escritores russos existencialistas. O que será que teria acontecido? Por que perdi
tanto tempo escrevendo poesias vulgares, sem métrica e absolutamente incompreensíveis?
 E quando tive a oportunidade de
publicá-las, por que não as publiquei? Eram muitas as perguntas e nenhuma as
respostas. Também pensei no vestibular que eu não concorri, na universidade que
não conheci, e no doutor que eu nunca fui. Vi a esposa que eu nunca tive e
embalei meu filho que não nasceu. Dirigi o carro que eu não comprei, vi a
paisagem da varanda da casa que não construí e recebi congratulações pelo homem
bom e honesto que eu não sou. Vislumbrei uma vida que não foi minha e nunca
será...

 Estava assim,
neste exame interior, nesta viajem existencial, até que o toc toc de saltos de
sapatos femininos me tiraram da fantasia e arrastaram-me para a realidade. Era
ela. - Já não era sem tempo! Falei baixinho. Pela demora achei que ela não
viria mais. Estava quase desistindo e indo embora. Ela estava muito bonita e o
perfume que seu corpo exalava era provocador. Esse desvio que ela faz, por esse
beco escurecido e fétido, encurta em vinte minutos sua chegada em casa. Ela
acha que vale a pena e sempre corre o risco. Ela parece não ter medo dos
nojentos roedores que infestam o lugar.

Assim que ela passou por mim eu saí de trás da grande
lixeira onde eu estava escondido. Ela não percebeu a minha traiçoeira e súbita
chegada por suas costas e não teve nenhuma reação quando eu passei a lamina de
minha navalha em seu pescoço de pele branca e macia. O aço entrou fundo em sua
carne, seccionando a carótida. Só uma espécie de engasgo abafado pôde ser
ouvido. O sangue esguicha vermelho escuro. O corpo cai surdo e mudo.

Sai rapidamente dali, como o rato que sou, e desviei a
direita no fim da curta rua, entrando na movimentada e barulhenta avenida. A
noite estava fria e agradável. E eu muito satisfeito comigo mesmo por mais uma
missão cumprida. Mais uma eliminação, sempre a pedidos, realizada com sucesso.
Contudo, sei que esta satisfação logo logo se dissipará. Não esqueçam que eu
sou um pessimista incorrigível.

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Atualizado em: Seg 15 Out 2012
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