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Jogo dos Erros [Capítulo 3]

Luiz Carlos estava sentado em sua sala provisória na delegacia da cidade. Sobre a mesa à sua frente estava a lista de produtos comprados em lojas virtuais e seus respectivos destinatários dos últimos seis meses. Três pessoas estavam na lista. Duas delas haviam viajado há alguns meses. A última estava enterrada no cemitério local, era Jane Saturnino da Silva, a primeira vítima. Todos os clientes do chaveiro foram investigados. Nenhum deles tinha o perfil de assassino e também tinham álibis perfeitos. A companhia telefônica identificou o número do celular pré-pago que ligou para a delegacia, estava cadastrado no nome do próprio delegado Pereira. Até aquele dia, nenhuma evidência fora encontrada para delatar o assassino e todos os argumentos de Luiz Carlos foram por água a baixo. O assassino não se mostrava até agora nada amador, como ele mesmo amargamente constatava. Anos de polícia civil, centenas de casos resolvidos e agora Luiz Carlos está a dez dias em uma cidade que ele só tinha ouvido falar quando soube do primeiro crime. Dez dias naquele fim de mundo. Restava agora encontrar e proteger a próxima vítima.

 

Através de várias fontes, inclusive da Polícia Federal, fora criado um banco de dados com informações dos habitantes da cidade. Utilizando-se de filtros, a lista foi dividida em suspeitos e vítimas. Possíveis vítimas do sexo feminino onde o nome começasse com a letra V estavam pairando na tela do notebook de Luiz Carlos. Quem dessas mulheres tem pecados notórios? Era a pergunta que martelava na cabeça dele. Teria que ter ajuda do delegado e sua equipe de dois soldados se quisesse solucionar essa questão. O tempo passava muito rápido e vidas tinham que serem salvas. Ou pelo menos uma. JEV significa mesmo as iniciais das vítimas ou seria somente uma coincidência? Perguntas como esta flutuavam em sua cabeça quando cabo Simões bate na porta e entra na sala após pedir licença. Luiz Carlos o manda sentar. Simões tira o boné e senta-se de frente a Luiz Carlos. O diálogo é rápido, cabo Simões não tem muito a dizer sobre a lista de possíveis vítimas. Bastante introvertido, mora sozinho em uma casa perto da delegacia há pouco mais de um ano. Vinha transferido da capital, segundo ele, ao seu próprio pedido, pois não lidava muito bem com cidades grandes. Solteiro, não tinha namorada. Esporadicamente bebia e mesmo assim muito pouco pra informar se saberia de algum suspeito que possa freqüentar o bar de seu Barnabé. Cabo Simões não tinha nada a acrescentar ao caso. Logo após a saída de cabo Simões, soldado Alencar está diante de Luiz Carlos. Ao contrário do primeiro, Alencar é muito falante e mora na cidade desde que nasceu, em resumo, sabe da vida de todos os moradores. Diante da lista de nomes impressa que Luiz Carlos apresentou, ele desfiou outra lista de pecados pra cada nome.

 

Meia hora depois, Luiz Carlos está diante de uma nova lista compilada. Riscou o que ele achou que era desnecessário. Pensativo, diante de tantas possibilidades de nomes, estava conjecturando uma série de decisões a tomar quando alguém bate a porta, o visitante abre-a pondo a cabeça pela abertura. Quem lhe olha é Setembrino com um ar de subserviência lhe oferecendo um café, segundo ele, feito naquele instante. Desfeito o pequeno susto ao ver que o homem que deveria estar preso lhe oferecia café, tirou a mão da arma que estava ao seu lado e sem pensar direito disse que sim. Setembrino vem até a sua mesa, põe uma xícara na sua frente e lhe serve um café fumarento. Com um sorriso, fica em pé ao lado do investigador feito um mordomo que espera outra ordem. A cena insólita o deixou meio confuso e com outro sorriso disse que Setembrino já podia voltar ao que estava fazendo. Mas, antes de Setembrino sair, Luiz Carlos teve uma idéia.

– Ô do café...

– Pois não “Dotô”. O carcerário pára na porta respondendo.

– Venha cá por favor.

Setembrino fecha a porta e retorna à frente de Luiz Carlos o qual pede pra ele sentar-se. Depois de uma mesura exagerada, Setembrino senta e com a garrafa de café ainda na mão espera por Luiz Carlos.

– O senhor é desta cidade senhor...?

– Setembrino, Setembrino Souza e Silva, Souza com z, eu sou “naturá” aqui do sítio Curral Velho, mas vim “morá” na cidade desde menino. Dizia isso enquanto alternava o olhar entre o investigador e o papel à frente de Luiz Carlos.

– Pois bem Setembrino, você está preso há muito tempo?

– Se “juntá” todas as “veiz”, sim.

Por um instante Luiz Carlos pensou em lhe perguntar sobre as prisões, mas desistiu.

– Então o senhor conhece todo mundo da cidade.

– Sim “Senhô”, aqui todo mundo se conhece.

– Seu Setembrino, o Senhor já deve estar sabendo das duas mortes que ocorreram na cidade, não é mesmo?

– Sim, coisa feia o que fizeram com essas “mulhé”.

– Pois é Setembrino, estamos tentando prender esse assassino e uma pista nos leva a crer que ele vai atacar novamente. Será que o senhor poderia nos ajudar?

– “Craro dotô”, se eu “pudé” “ajudá”...

Luiz Carlos ficou um instante olhando pra Setembrino, girou o papel que estava a sua frente e o colocou na frente dele.

– O senhor sabe quem são essas mulheres senhor Setembrino? Setembrino olhou pro papel sem tocá-lo. Fez um gesto pedindo pra pegar o papel e Luiz Carlos assentiu. Com as duas mãos Setembrino segura o papel em sua frente e após alguns instantes responde:

– Se eu não “tivé” enganado, sei sim.

– Então você vai poder me ajudar Setembrino. Mas veja bem, o que eu vou lhe pedir agora fica só entre agente ta entendido?

– “Craro”, “craro”, mas, “dotô”, se o “Senhô pudé falá” com o juiz a meu respeito, eu também lhe seria grato.

Luiz Carlos riu por dentro da esperteza de Setembrino e consentiu.

– Então diga no que eu posso “ajudá”. Sentenciou Setembrino com um sorriso de orelha a orelha.

– O assassino está matando mulheres pecadoras...

– Vixe! Então ta ruim, vai “matá” muita gente. Interrompeu Setembrino e Luiz Carlos ficou em suspenso imaginando se desistiria de Setembrino ou não. Por fim continuou:

– Só são pecados que todo mundo conhece Setembrino, como a Jane que gostava muito de namorar, o senhor ta entendendo?

– Sim, respondeu Setembrino olhando a lista novamente. Luiz Carlos continuou:

– Há alguém nesta lista que, veja bem, é uma hipótese, se o senhor fosse ele, o senhor começaria com quem?

– “Dotô”! Eu não tenho “corage” de “fazê” uma coisa dessas não, pelo amor de Deus! Luiz Carlos sorriu e acalmou o aflito Setembrino:

– É só um faz de conta Setembrino, nunca que eu diria que você teria coragem de fazer isso, mas vamos, responda Setembrino, quem dessas mulheres mereceria a atenção de você se fosse o assassino?

– O “senhô” já mostrou esses nome pra mais gente?

– Só pra o cabo Simões e o soldado Alencar.

Setembrino pensativo falou pra si mesmo:

– O cabo “num” sabe de nada dela e “Alencá” é um baba ovo dele.

Franzindo a testa Luiz Carlos declarou:

– Seja mais claro Setembrino.

– Eu “tô dizeno” que a única “mulhé” dessas aqui que é ruim como o diabo é a “mulhé” do prefeito. Aquilo só sabe “pisá” nos pobre, humilha todo mundo que “trabaia” na casa dela, pensa que pode tudo aquela cobra.

Setembrino num movimento pegou uma caneta de cima da mesa, circulou um nome no papel e entregou a Luiz Carlos. Ele pegou o papel da mão de Setembrino e visualizou o nome que ele circulou: VERÔNICA GUEDES DE ALBUQUERQUE. Lá fora à tardinha chegava e uma chuva fina começava a cair.

 

A primeira medida tomada por Luiz Carlos aquele dia foi ligar para o superintendente da polícia civil requisitando mais gente pra trabalhar no caso, precisaria de policiais fazendo turnos de vigilância na cidade e na casa do prefeito. Precisaria também de mais equipamentos e local pra alojar as pessoas que viriam. Em uma cidade pequena teriam que disputar lugar com as equipes de televisão que estavam por lá.

 

A cidade estava um caos aqueles dias, como da primeira vez, as equipes de televisão se imprensaram na frente da delegacia e de vez em quando um ou outro “especialista” da cidade dava seu parecer sobe o caso, ao lado é claro dos verdadeiros especialistas e psicólogos forenses que sempre vem acompanhando as equipes. Quem desejava acompanhar pela TV de casa, sempre tem canais que fazem a cobertura praticamente durante toda a programação, repetindo as mesmas opiniões diversas vezes ao dia e fazendo um resumo no jornal da noite. Os habitantes se dividem entre os horrorizados e os comerciantes, os primeiros vivem com constante medo de serem vítimas do “maníaco açougueiro”, como alguns canais já o chamam, os segundos, além do sentimento de medo, contrastam também o sentimento de alegria, pois nunca viram suas lojas venderem tão bem devido aos curiosos que ao passarem pela cidade sempre demoravam mais do que deviam e os procuravam pra comprar algo e fazer perguntas sobre os acontecimentos. Mas uma coisa é certa, o medo é o principal ingrediente das almas da cidade.

 

– Com licença delegado. Anuncia-se Luiz Carlos ao entrar na sala do delegado Pereira. Pereira faz sinal pra ele sentar-se e diz.

– Pois não investigador, em que posso ajudá-lo nesta manhã? Perguntou um carrancudo delegado.

– Vim lhe chamar a uma missão na prefeitura municipal.

– Na prefeitura? De que se trata?

Luiz Carlos então, lhe pôs a par das suas suspeitas sobre a próxima vítima ser a mulher do prefeito.

– Sabe de uma coisa investigador – Disse finalmente o delegado Pereira – Nem o prefeito e nem a primeira-dama vão gostar dessa história, é uma gente difícil. Pra algumas pessoas, ser prefeito e primeira-dama em uma cidade destas é como se fossem reis e rainhas, esse é o caso dos dois, veja bem o que estou lhe dizendo, a família dele manda na cidade já a umas três gerações, se consideram dono da cidade e talvez até das pessoas.

– Estão diante da probabilidade da morte delegado e de uma morte bastante dolorosa, no final eles vão ter que aceitar querendo ou não. Replicou Luiz Carlos levantando-se.

– Muito bem, vamos então e tomara que encontremos aquele infeliz numa veia boa. Finalizou o delegado Pereira levantando-se também.

 

– Isso é um absurdo! Esbravejou esmurrando a mesa o indignado prefeito.

Bufando de raiva levantou-se de uma vez e pôs-se a mexer em uma gaveta tornando a repetir a mesma frase um pouco mais baixo, mas não sem a mesma dose de ignorância. De lá, retirou um revolver e o pôs em cima da mesa.

– Isto aqui é o que eu tenho pra ele se esse filho da puta vier se meter com a minha família. Sentenciou o ilustre prefeito apontando para a arma e aos gritos continuou:

– Estão pensando o quê? Eu sou um Albuquerque, não é nenhum filho do demônio desgraçado que vai me botar medo não. Esse...

Neste momento o prefeito tem uma crise que é uma mistura de tosse e engasgo. Sentou-se lívido de volta na sua cadeira levando um lenço a boca. Luiz Carlos e delegado Pereira já iam levantando para ajudar quando o prefeito fez sinal pra eles sentarem. Respirou fundo um pouco e sem falar uma palavra para seus interlocutores levantou o fone do gancho e mandou sua secretária lhe trazer um copo d’água. Delegado Pereira esboçou uma frase, mas foi interrompido por um gesto do prefeito. A secretária entrou e depositou o copo com um lenço de pano em baixo ao lado do prefeito. Ele toma um generoso gole e deposita o copo sobre a mesa. Ajeita a gola de sua camisa, passa as mãos nos cabelos e em seguida desliza a mão espalmada desde o bigode até o pescoço. Um pouco mais calmo continuou o seu monólogo:

– Senhores, o meu avô, que Deus o tenha, ajudou a construir essa cidade, meu pai, que já está velho, ajudou a construir essa cidade, nossa família é a mais tradicional família dessa região. Onde já se viu, na minha família, um homem com medo de outro? Hein delegado? Eu sou um Albuquerque e não vou manchar a honra da minha família. Fez uma pausa tomando mais um gole de água. Olhou demoradamente entre o delegado e o investigador e prosseguiu:

– Sabe o que mais me deixa chateado senhores, é os senhores virem até mim e me dizer que a minha mulher vai ser morta porque ela é uma “pessoa de difícil convívio”, como disse o senhor, senhor investigador.

O prefeito o encara firmemente. Luiz Carlos calmamente afasta-se do encosto da cadeira, juntando as mãos e apoiando os antebraços na mesa do prefeito. Luiz Carlos começa a falar:

– Senhor Antônio...

– Doutor Antônio, por favor, investigador. Cortou-o imediatamente o Doutor Antônio lhe indicando com o dedo indicador, um anel de formatura na mão esquerda.

Luiz Carlos pensou em perguntar onde ele havia feito doutorado, mas deixou pra lá.

– Doutor Antônio – Continuou – Quer queira ou não, nós somos obrigados a proteger sua esposa. Hoje, no mais tardar a noite, vai chegar um reforço da capital, eu gostaria de contar com a sua ajuda para eu poder lhe ajudar. Eu não estou colocando aqui a minha opinião sobre a sua esposa, a qual eu não conheço. Estou aqui tentando antecipar os passos de um criminoso que está agindo na cidade que administra. Até agora ele se mostrou uma pessoa muito inteligente, como sei que o Doutor tem acompanhado sabe isso também, eu não gostaria de ter mais uma vítima no cemitério da cidade por conta de negligência da parte da sua administração, principalmente em se tratando da esposa do prefeito. Também não gostaria de ter que dizer sobre essa negligência às emissoras de TV que estão acompanhando o caso.

O Doutor Antônio quis protestar, mas diante da ameaça que sua imagem seja manchada diante da televisão e de seus eleitores ele aceitou.

 

Após a visita ao prefeito, Luiz Carlos e o delegado Pereira se dirigiram para a pensão Vitória onde iriam acertar os detalhes de alguns quartos para os policiais que viriam à cidade. Caminhando em sentido contrário a viatura, Luiz Carlos notou um homem alto vestido em um terno branco, louro e corpulento, ele observava atrás dos óculos escuros os dois passarem, enquanto fazia uma cara de poucos amigos. Luiz Carlos perguntou ao delegado de quem se tratava aquela pessoa. O delegado deu um nome e no mesmo instante Luiz Carlos pegou seu notebook no banco de trás. Procurou o nome no banco de dados confirmando com o delegado. Leu a ficha por alguns instantes e digitou algumas observações. Ao terminar, ficou bastante pensativo o restante do trajeto. Ao chegarem à pensão, Luiz Carlos nota o mesmo sujeito passar os observando enquanto dirigia um automóvel negro.

 

À tarde, o céu desabou. Uma chuva torrencial anunciou a chegada do inverno, deixando a cidade sem energia elétrica. Luiz Carlos, Fernanda e Jaime estavam dentro da sua viatura na entrada da cidade, já há algum tempo esperavam seus colegas. Debatiam, logicamente, sobre como poderiam capturar o assassino e todas as velhas hipóteses desse jogo antigo de gato e rato. Luiz Carlos preferia pensar no caso mais como um jogo de xadrez, cada lance errado podia-se levar a derrota, às vezes sacrifícios são feitos em busca de uma boa posição e tem-se que antecipar cada jogada do adversário, um jogo de quem erra menos e um erro pode ser fatal. Ele só esperava não estar jogando o jogo errado e seu adversário estivesse dando o blefe dopoker.

 

O micro-ônibus despontou na estrada e com um sinal de luz fizeram contato. Os vinte e dois policiais foram todos instalados na pensão Vitória, apertados em quartos minúsculos para dois de cada vez. Mas aquilo não era uma excursão de férias e ninguém estava ali para a festa do padroeiro que se aproximava.

 

A noite chegou à cidade escura como um breu. Quem se atrevesse a andar na rua só veria algo diante da luminosidade dos relâmpagos. Trovões ribombavam entre um relâmpago e outro e a distância entre a luz do relâmpago e o som do trovão estava cada vez mais curta anunciando que a tempestade se aproximava mais uma vez. As únicas presenças que continuavam nas ruas naquele momento eram policiais. Dois deles estavam em capas de chuva guardando a entrada da casa do prefeito enquanto dois se esgueiravam pelos jardins da residência. Outros rondavam as ruas a pé ou nas duas viaturas, logo, alguns ficaram dormindo pra renderem mais tarde os que trabalhavam. Tudo calmo na cidade, apesar da chuva que se aproximava. Calmo demais, se não fosse por um vulto que saí sorrateiramente da porta da delegacia assim que uma viatura passa.

 

Na manhã seguinte bem cedo, soldado Alencar se espreguiça em sua rede num canto da delegacia. O frio da noite o fez dormir como uma pedra, coisa que não devia acontecer, considerando a sua função na delegacia. Em mangas de camisa levanta-se e calça o coturno. O rádio-relógio da prateleira onde se guarda pó pra café, açúcar e fubá marca 5:45 da manhã e diante do espelho da pequena pia começa a escovar os dentes. Se olha por alguns instantes depois da higiene pensando em como a cidade está movimentada e em seguida se questiona: será que algum desses policiais gostam de um joguinho de cartas? Olha para o fogão e pra prateleira com pó de café e saí para chamar Setembrino, o café que ele faz é melhor.

 

A cela vazia é a única coisa que espera por Alencar além de um cadeado com chaves no chão. Instantes depois o telefone da casa do delegado Pereira toca e um aflito Alencar lhe informa o ocorrido. Sonolento e sem entender direito, o delegado diz que está chegando.

 

Era muito cedo ainda, Fernanda e Jaime estavam se preparando pra tomar café quando ele saiu da pensão. Um velho hábito não tomar café cedo demais. Caminhava em direção a delegacia observando a arquitetura antiga da cidade, via a mesma influência na capital, escondida em algumas casas muito antigas no centro. A grande diferença ali é que as casas estavam muito mais conservadas e se uniam como pãezinhos coloridos num balcão de padaria. Riu diante da comparação. Parou diante de uma igreja. Não sabia quantos anos ela tinha, mas como é comum nas cidades pequenas, ela deveria ser uma das primeiras construções. Àquela hora, as portas já estavam abertas. Um vulto lá dentro perambulava entre as imagens do altar. Estava prestes a ir embora quando alguém toca em seu ombro. Ao se virar, um homem que poderia ser um pouco mais novo que ele, abre-lhe um sorriso acolhedor. Suas roupas não deixavam dúvidas, estava diante de um padre.

– Não quis lhe assustar. Sentenciou o padre ainda com o sorriso no rosto.

– Não me assustou padre. Estava apenas observando a igreja. Tentando adivinhar a idade da construção. O padre abriu um sorriso maior e falou:

– Duzentos e quinze anos. Construída ainda quando aqui era apenas uma vila perdida no meio do nada. Os viajantes que passavam por aqui precisavam de uma igreja, assim como os primeiros moradores.

– Deve ter sido uma época mais calma, não é mesmo? Luiz Carlos questiona.

– Sim, mas invariavelmente sempre tinha algumas contendas. Disputa de famílias, homens que defendiam as suas honras, moças que se perdiam por algum rapaz e o pai tinha que fazer alguma coisa em defesa da filha, esses tipos de coisas.

– Bastante movimentado para a época eu presumo.

– Até que não, eram acontecimentos com anos de distância um do outro. O pior ano que sabemos foi em 1836, quando houve várias mortes seguidas por causa de duas famílias de fazendeiros rivais, o sangue da vingança cobriu as ruas e só acabou quando só restou crianças e velhos nas famílias.

Luiz Carlos olhou novamente em direção ao altar pensativo.

– Agora o sangue retornou aos nossos lares, não é mesmo senhor Luiz Carlos?

Ele balança a cabeça afirmativamente ainda pensativo. Repentinamente se dá conta que não se apresentou ao padre e nem sequer sabia seu nome.

– Que falta de educação a minha padre, não nos apresentamos.

– A culpa foi minha também, a conversa fluiu e eu com este hábito de falar muito, fui desaguando velhas histórias pra você.

– Bem, meu nome o senhor já sabe...

– Sim. Cidade pequena é difícil não sabermos das coisas. O padre estende a mão e diz:

– Padre Alfredo, muito prazer.

Luiz Carlos estende a mão e se cumprimentam.

– Vamos entrar, diz o padre, podemos tomar uma xícara de café na sacristia.

– Acho que essa xícara vai ter que esperar padre Alfredo. O trabalho me espera. Quando tivermos oportunidade conversaremos mais e tomaremos um bom café. E se o padre estiver disposto, poderemos falar mais da história da cidade.

– Claro, mas que cabeça a minha também, vá investigador, faça o que puder para não haver mais derramamento de sangue.

Os dois apertam novamente as mãos e Luiz Carlos saí em direção ao seu destino, mas não sem antes o padre dizer quando ele se afastava: Deus te abençoe. Luiz Carlos olha pra trás e com um aceno de cabeça se despede novamente. Padre Alfredo observa Luiz Carlos sair e fica com uma expressão de quem não entendeu alguma coisa.

 

O som dos sapatos do padre ecoa na igreja enquanto ele caminha em direção ao sacristão.

– Miguel? Chama o padre a procura do seu acólito.

– Sim Padre. Miguel responde e pede a benção quase mudamente beijando-lhe a mão.

– Acabei de conhecer o investigador que veio tentar descobrir este assassino que nos persegue. Miguel fica quieto, esperando que o padre diga algo mais.

– Ele me pareceu bastante competente – Continua padre Alfredo – Um senhor distinto. Tive uma pequena conversa com ele agora, não sei se você observou, uma boa conversa. Talvez converseremos mais.

Miguel o observa, a flanela na mão e uma vassoura na outra. O jovem mulato sempre serviente e de poucas palavras já ajudara a dois padres antes deste. Começara nos serviços da igreja ainda menino e cada padre que chegava o mantinha, a princípio como um favor ao padre anterior, depois, como um favor a ele mesmo. Não gostara dos dois padres anteriores. Esse de agora gosta muito de falar. Menos mal, pelo menos esse não tem a mania que os outros tinham, manias essas que ele nem gosta de lembrar. Padre Alfredo fala mais algumas palavras que Miguel não escuta, estava divagando enquanto ele falava. O padre sai e ele achou que ele tinha lhe pedido para lhe trazer algo, ainda imagina se pergunta o que ele quer, mas deixa para lá, se ele pediu, vai pedir de novo.

 

Luiz Carlos continua o seu trajeto. Ainda há poucas pessoas nas ruas, as mais humildes com quem encontrava lhe diziam “bom dia doutor” ao contrário de outras que nem se quer o olhavam e outras que a meio termo simplesmente faziam um aceno de cabeça. O tempo estava mais estável, porém fazia um frio de se desejar estar deitado ainda. Aquele pensamento o fez voltar ao passado, quando ainda era jovem cursando a academia da polícia e se apaixonara por uma estudante universitária. Seu cérebro o levou aquela distante manhã de domingo em que estavam numa casa de praia emprestada por um amigo de infância. O mar revolto lá fora e a brisa fria o fizeram ficar na cama. Juras de amor eterno em baixo dos lençóis, seus corpos entrelaçados. No outro dia, tudo mudara. Espantou aquelas memórias quando se aproximava da delegacia e via a cena de Cabo Simões saindo apressado na viatura. Entrou na delegacia imaginando aonde ia cabo Simões com tanta pressa. Setembrino não estava na cela, era de se esperar, deveria estar preparando café. Estranhou a presença do delegado muito cedo na delegacia. Em cima de sua mesa, segurado por um peso, estava um fax onde se podia ler o nome urgente. Pela hora do fax ele chegara a noite e Alencar não avisara. Não tem jeito pra esse cara, pensou. Leu o fax minuciosamente e logo imediatamente a leitura ligou para Jaime e Fernanda. Os dois tinham uma missão. Disse-lhes pra virem rápido e trazerem seis agentes, iria sair com o delegado por um momento, mais deixaria instruções prévias sobre a sua mesa, para serem cumpridas imediatamente. Ao desligar o telefone rabiscou algo rapidamente em um papel e com o mesmo peso que achara o fax o deixou sobre a mesa. Antes de entrar na sala do delegado ele ouve a voz exaltada dele brigando com Alencar e resolve esperar um pouco.

– Você é um incompetente Alencar! Esbraveja o delegado ao seu subordinado.

– Mas delegado...

– Mais mas o quê? Você dava muita folga ao Setembrino, fazia dele empregado. Pereira senta em sua poltrona e pergunta:

– Cadê o Simões?

– Chegou logo depois que eu liguei pro senhor, quando soube do ocorrido pegou a viatura e saiu atrás do foragido.

– E você não foi com ele por que homem?

– Eu não podia deixar a delegacia só e...

– Não tem mais preso, incompetente. Você ia ficar vigiando quem? E o outro nem pra te levar. Cambada de incompetentes.

Neste momento alguém bate a porta e o delegado manda entrar. Luiz Carlos aparece e Alencar sai sorrateiro.

– Houve algum problema? Pergunta Luiz Carlos.

– Setembrino fugiu. Delegado Pereira declara fazendo uma cara de quem está com dor de barriga.

– Um dia, mais cedo ou mais tarde isso ia acontecer, vocês davam muita liberdade a ele. Se você precisar de ajuda...

– Não, ele não vai longe e é capaz até de voltar, ele vive bem aqui, não tem mais ninguém dele na cidade e essa delegacia apesar de tudo é uma casa pra ele, coitado, parece que faz merda só pra ter que voltar pra cá.

Luiz Carlos dá um suspiro e diz:

– Está bem, mas eu vim aqui pra falar daquele cara que nos encarou ontem.

– O galego?

– Esse mesmo.

– Que é que tem?

– Por enquanto nada concreto. O que é que o senhor sabe sobre ele?

– Bom, o que eu sei é o que todo mundo sabe. Ele mora já há alguns anos aqui, veio lá das bandas do sul do estado já perto da divisa, não lembro o nome da cidade agora, parece que trabalhava com uns fazendeiros por lá, fez um bom pé de meia, é o que dizem. Mora ele e a mulher numa grande casa aqui pertinho, na estrada que dá saída pra Lagoinha. O povo diz que a mulher dele é estéril, tem problema de nervos e outras doenças mais que a impedem de sair de casa. Depois que eles chegaram, se a vi duas vezes foi muito. Sabe de uma coisa, agora que você perguntou o tal do Guilherme Dantas me parece bastante estranho, mais do que eu já achava.

– Ele é mais estranho do que você pensa delegado. Recebi informações a pouco sobre ele. Informações que não estavam no relatório que a PF me mandou. Segundo elas, ele já matou três homens, todos três alegando legítima defesa, foi absolvido todas às vezes. Dois deles em Estados vizinhos daqui e outro no sul do país. Oficialmente é advogado e exerceu a profissão somente para pessoas ricas, principalmente fazendeiros envolvidos em grilagem de terras. Já foi preso por agressão várias vezes, inclusive à sua própria mulher e várias das pessoas que ele agrediu desapareceram. Agora, o que mais me impressiona é que esse Guilherme Dantas poderia ter sido o que ele quisesse na vida delegado, um Juiz, promotor, ambições maiores de quem faz direito, inteligência pra isso ele tem. Ele se formou com louvor na sua turma. Testes de QI feitos ao longo da sua vida acadêmica revelaram uma pontuação de 158 pontos. Isso significa que ele está atrás apenas 2 pontos do famoso físico Albert Einstein. Resumindo, Guilherme Dantas é violento e tem uma inteligência muitíssimo elevada, portanto, ele possui o perfil do nosso assassino e eu já deixei instruções para vigiarem seus passos dia e noite.

Sem palavras, delegado Pereira ficou apenas balançando a cabeça em modo afirmativo.

 

O investigador Gouveia já trabalhava a quatro horas no seu turno. Um dos quatro que estavam vigiando a propriedade do suspeito. Há quinze minutos ele tinha passado pelo rádio a confirmação que estava tudo bem no perímetro. Seu relógio digital marcava 15:35. Já estava há vários dias revezando naquela campana. Aquela missão estava demorando demais, nada acontecia na casa do suspeito, todos os dias ele tinha uma rotina e cumpria a risca. Nunca tiveram nenhum sinal da mulher que vivia naquela casa e ele começava a duvidar se morava mais alguém com ele. Estava doido pra fumar, mas não podia dar sinal que estava ali e a fumaça poderia denunciá-lo. 15:38. O tempo passa muito devagar quando se espera.

 

Na residência do prefeito a empregada traz um lanche para os rapazes que fazem a ronda nos jardins. Muito prestativa e extrovertida conversou alguns minutos com eles e saiu prometendo que iria voltar pra pegar a bandeja. Um dos rapazes comenta com o outro que se não tivesse em serviço “pegaria” aquela “matutinha”.

 

Gouveia usa o binóculo em direção a casa verificando janelas e portas. Um vulto passa na janela do extremo esquerdo do primeiro andar e rapidamente ele tenta acompanhar pra onde ele vai. Acha-o um pouco mais a frente à direita, mas ele some em seguida. Alguns instantes depois o portão automático da garagem começa a se abrir. 15:40. Aquele horário o suspeito não costumava sair.

 

Os rapazes que fazem a ronda no jardim já fizeram a mesma rota duas vezes depois do lanche. A empregada aparece novamente e pergunta ao que faz a ala leste se eles desejam tomar mais um café. O rapaz da ala leste passa o rádio para o outro perguntando e este confirma. Após o café eles conversam animados com a empregada e de repente seus rádios chamam. A voz de Luiz Carlos reverbera dizendo:

– Confirmação de visualização do alvo, câmbio.

–Um minuto senhor, câmbio. Responde o rapaz da ala oeste.

 

O portão está completamente aberto e um veículo negro saiu veloz em direção da saída frontal. Gouveia chama o rádio:

– Aqui é “Olho 3”, suspeito saindo em velocidade, veículo em direção a cidade, confirme a sua passagem “estrada 1”, câmbio.

Alguns instantes se passam e Gouveia repete:

– Veículo passou por aí “estrada 1”? Câmbio.

– Até agora não “Olho 3”, câmbio.

Alguns segundos se passam e Gouveia repete:

– Visualizou a passagem do veículo “estrada 1”? Câmbio

– Negativo, ele deve ter parado na estrada, câmbio.

– Preciso que se desloque “estrada 1” e confirme se ele parou, entendido? Câmbio.

– Confirmação em um minuto, Câmbio.

 

O rapaz da ala oeste pede a empregada pra ela localizar Dona Verônica. A empregada sempre sorridente sai à procura da patroa.

 

– Confirmado “Olho 3”, veículo parado na lateral esquerda da estrada, câmbio.

– Visualiza o suspeito? Câmbio. Um instante se passa.

– Não posso confirmar, vidro fumê bastante escuro, câmbio.

Gouveia pensa alguns instantes, pega o celular e faz uma ligação. Seu relógio marcava 15:43.

 

A empregada anda a procura da patroa por toda a casa. Pelo vidro da porta o rapaz da ala oeste observa-a andar de um lado pro outro. A empregada vem até ele e diz que não a achou. Instantes seguintes todos os policiais da casa se mobilizam a procura do alvo. O rapaz da ala oeste aciona o rádio e transmite:

– Alvo desaparecido, repito, alvo desaparecido. Seu relógio marcava 16:23.

 

Gouveia atravessa a estrada e caminha em direção ao veículo. Com a arma em punho, se aproxima devagar seguindo para o lado do motorista. Neste momento mais dois policiais chegam e lhe dão cobertura. Gouveia faz sinal pro outro e abre a porta do carro apontando a arma. Nenhum sinal do suspeito.

 

Luiz Carlos está na delegacia quando seu celular toca. Um dos agentes lhe informa a situação que ocorre na casa do suspeito. Luiz Carlos dá uma ordem e espera a resposta. Cinco minutos depois o agente lhe liga informando o desaparecimento do suspeito. Luiz Carlos dá a ordem via rádio:

– Atenção todas as unidades da região 1 localizem o suspeito, entrem na mata, distância de dez metros entre vocês, suspeito pode estar armado e é perigoso. Relatório de cinco em cinco minutos, câmbio...

 

Um agente vai até a porta dos fundos da casa do prefeito. Uma pequena porta de madeira que dá acesso a uma estrada de chão. O agente testa a porta e ela se abre. O agente sai da propriedade para a rua e ao investigar o caminho descobre marcas de pneus de carro e pegadas recentes. Aciona o rádio e transmite a informação.

 

Luiz Carlos está ao rádio falando com seus agentes da região 1, o último reporta que nada encontrou e ele espera. Momentos depois um agente dispara:

– Marcas de pneus de moto senhor saindo da mata e entrando em uma trilha, as marcas seguem em direção a cidade, câmbio.

Muito tempo tinha se passado desde o desaparecimento do suspeito. Luiz Carlos pega o rádio e transmite para a região 2 mais conhecida como residência do prefeito:

– Confirmação de visualização do alvo, câmbio...

Momentos depois o agente retorna: – Alvo desaparecido, repito, alvo desaparecido...

 

Quarenta minutos exatos haviam se passado entre a fuga do suspeito e o desaparecimento da mulher do prefeito. Todos os agentes estavam agora procurando a primeira-dama. Equipes subiam e desciam ruas e vasculhavam estradas vicinais. Luiz Carlos está no carro particular do delegado junto com ele e o soldado Alencar, cabo Simões havia pego um agente e fazia a procura também na viatura da delegacia.

– Reportar a cada cinco minutos ou quando acharem algo suspeito, câmbio. Transmite Luiz Carlos aos agentes.

O Honda Civic deixa um rastro de poeira enquanto segue a estrada que passa atrás da casa do prefeito.

– O que tem nessa região delegado? Pergunta Luiz Carlos.

– Tem um riacho a uns seis quilômetros daqui e algumas casas depois dele.

– Segue pra o riacho, ele não vai arriscar ser visto por pessoas se ele for em direção às casas. Não sei como ele fez ainda, mas ele está de moto, como ele faria pra pegá-la usando uma moto ainda não sei, é muito difícil ele agir dessa maneira, mas não é impossível. Droga, ele não pode ter conseguido entrar na casa do prefeito e sair com a mulher sem ser visto. Onde está o maldito prefeito afinal de contas?

– Ligou hoje pela manhã informando que ia a capital. Informou Alencar como que se lembrasse agora de dar o recado.

Luiz Carlos continuou:

–Nenhum empregado da casa a viu, é praticamente impossível ele a ter arrastado. Há não ser que ele a tenha drogado, como fez com as duas vítimas anteriores, mas levar uma mulher inconsciente da casa e colocá-la na garupa de uma moto... Não é isso, com certeza ele tinha um carro em outro lugar. O agente me disse que havia marcas de pneus de carro na estrada. É isso, só pode ser isso.

– Chegamos – Informou o delegado – Vejam só, um veículo estacionado. Continuou.

Desceram com todo cuidado e se aproximaram do veículo. As portas estavam travadas. A placa era da cidade vizinha. Luiz Carlos constatou que o motor estava quente, logo em seguida usou o rádio para avisar que as equipes se dirigissem para aquele local. O investigador declara:

– Não podemos esperar. Alencar venha comigo, delegado, espere os outros agentes e quando chegarem os acompanhe até o riacho, se dividam respeitando uma distância de dez metros entre si.

Luiz Carlos e Alencar seguiram pela trilha que ia dar no riacho. Com as armas em punho vão caminhando cuidadosos, o barulho de água corrente vai ficando cada vez mais perto. De repente, um grito lancinante de mulher ecoa da direção do riacho. Tensão. Olham-se e instantaneamente saem correndo em direção ao grito. Ao chegarem ao riacho encontram a seguinte cena: Verônica nos braços de um homem, seu rosto colado em seu tórax como se estivesse se escondendo.

Luiz Carlos dá a ordem:

– Solte-a e coloque as mãos onde eu possa ver.

Ela se vira rapidamente para eles e diz com a maquiagem borrada de lágrimas:

– Calma! Não atirem, não atirem.

Luiz Carlos não estava entendendo nada. O homem torna a abraçá-la.

– Ele não vai me fazer mal, baixem as armas, por favor. Verônica pede desesperadamente.

Só então Luiz Carlos entendeu, os dois eram amantes.

– Por que gritou? O investigador pergunta abaixando a arma.

Verônica olha em outra direção e com a mão hesitante indica uma direção. Luiz Carlos e Alencar seguem a direção que ela mostrou. Do outro lado do riacho, uma visão que talvez fosse tirada de uma das obras de Dante Alighieri. Enfiado em uma estaca, cheio de formigas e com um olho vazado, uma cabeça humana os observa, o terror estampado em sua face. Logo abaixo, partes do que antes já foi um corpo vivo. Antigamente o dono daquela cabeça se chamava Setembrino, agora, é só uma cabeça. Atrás dos quatro, policiais começam a sair da mata. Ao longe no horizonte, outra tempestade se aproxima.

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Atualizado em: Qua 11 Jul 2012
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