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Jogo dos Erros [Capítulo 2]

Barnabé vinha subindo a rua empurrando sua bicicleta. A noite tinha sido longa, seus clientes tinham bebido até tarde e por isso já era quase meio-dia quando ele vai abrir o seu bar. Na garupa, a marmita que sua mulher tinha feito pra ele comer quando tivesse fome. No caminho ele aborda um de seus clientes lhe indagando sobre uma conta antiga que ainda não tinha sido paga, o cliente, indignado, diz que vai pagar em breve e que iria beber em outro bar daquele dia em diante. Chega ao destino e com o gemido peculiar de quem põe força, suspende a porta de enrolar. As cadeiras ainda estão bagunçadas, restos de cerveja estão nos copos e garrafas vazias se enfileiram no chão do bar junto com restos de cigarro e ossos de frango. Pratos sujos estão em cima das duas mesas que serviram aos clientes da noite anterior. O barulho do congelador é o único som que se houve e Barnabé lembra que devia ter colocado mais cerveja pra gelar antes de ter fechado o bar à noite. Empurra a velha bicicleta para os fundos de um pequeno depósito e retorna com uma vassoura na mão. As pessoas passam na rua diante do bar e Barnabé indaga pra ele mesmo se ninguém vem beber nada antes do almoço. Começa a ajeitar as cadeiras e a varrer quando relembra que deve colocar cerveja no congelador. A ressaca o faz ficar em dúvida se continua varrendo, almoça ou põe a cerveja pra gelar. Tudo que ele queria era dormir mais um pouco, mas a mulher o expulsou da cama e o mandou abrir o bar. Se ele não tivesse tomado umas doses também, estaria melhor agora. Resolve colocar logo a maldita cerveja. Um carro de som passa ao longe anunciando uma pomada milagrosa e ele pensa se ela não curaria ressaca.

Vai ao depósito e traz um engradado o qual põe ao lado do congelador. Abre-o e pega um pedaço de madeira que serve pra segurar a tampa quebrada, precisava consertar aquilo. Olhou pra dentro e a névoa que se formava ao fundo não mostrava a pouca bebida que havia. Iria colocar o restante da cerveja que já estava gelada no freezer que ficava atrás do balcão. Depois de um bocejo, Barnabé se inclina pra pegar as garrafas. Sua mão toca em algo como um pedaço de carne fresca. Que estranho, Barnabé pensa, não me lembro de ter posto carne aqui. Pega com as duas mãos a peça de carne e a observa imaginando de que animal seria. Porém a mente de Barnabé não demora muito a compreender que aquilo não era animal, pelo menos não irracional.

Assustado ele saí correndo do bar tropeçando nas cadeiras e ao se desequilibrar esbarra com um cliente que queria tomar uma antes do almoço. Desorientado tenta explicar para o homem, mas a voz não sai direito. O homem tenta acalmá-lo, mas sem sucesso. Freneticamente, já no meio da rua, aponta para dentro do bar e pronuncia entre a respiração ofegante as palavras cerveja, congelador e algo que foi inaudível. Algumas pessoas que passavam começaram a formar uma aglomeração, carros e motos paravam. Trouxeram uma cadeira pra Barnabé sentar. Não queria sentar, apontava com a sua mão visivelmente trêmula em direção ao congelador e por fim disse num sopro de voz:

– Um corpo no congelador.

Alguém entra pra ver e sai rapidamente, despejando na rua o que lhe vinha nas tripas.

O estômago do delegado revirava como um redemoinho ao ver o corpo cortado em pedaços no congelador do bar. Levava o lenço à boca diversas vezes enojado. O cabo e o soldado esperavam do lado de fora junto com uma multidão. Delegado Pereira ao ver toda aquela situação imaginava que era muita coisa pra um delegado de cidade pequena como ele. Tinha nas mãos o caso que seria o maior de sua vida, se assim ele tivesse competência. Aquelas pessoas lá fora estavam esperando muito dele, só que aquilo estava ficando muito complicado, tornara-se delegado mais por sorte do que por competência e a sorte maior ainda, em uma cidade pequena que a maior ocorrência tinha sido um velho pedófilo há dois anos, o velho até já havia morrido. Teria que ligar imediatamente para a capital e falar com a central da Polícia Civil. Duas mulheres assassinadas em sua cidade. Duas mulheres sim, os seios flácidos embora duros que vira no congelador denunciava o sexo do corpo. Essa agora ele ainda não identificou, não teve coragem de revirar o congelador em busca da cabeça. Ninguém o procurou sobre alguém desaparecido, de onde seria essa mulher. Pensava ensimesmado. Por fim chamou seu subordinado:

– Alencar. O soldado Alencar entra como se tivesse entrando na sala de estar do próprio demônio.

–Sim doutor.

–Veja se você consegue identificar a vítima. O soldado o olhou como se ele tivesse pedindo pra matar a mulher novamente.

–Anda homem. Pereira o incentiva.

Alencar respira fundo e caminha em direção ao congelador aberto. Suas mãos suam e ele as aperta constantemente. Cria coragem e olha pra dentro do recipiente macabro por alguns instantes. Vira-se para o delegado e diz:

–Não dá pra ver, o rosto da mulher está virado.

–Então desvira homem.

–Mas delegado...

Delegado Pereira enfia a mão no bolso e lhe entrega um par de luvas de borracha. Alencar recebe e as calça com uma expressão desgostosa. Dessa vez se inclina mais e suas mãos desaparecem dentro do congelador. Após alguns instantes retorna, sua pele um pouco esverdeada.

–É a Dona Edileuma. Pronuncia-se Alencar finalmente.

–Edileuma?! Que nome é esse?

–Ela mora um pouco afastada, sozinha, lá pras bandas do cemitério.

–Ta bom , ta bom, já lembrei – Retruca impaciente o delegado Pereira – Vamos dispersar essa multidão e isolar o bar e a casa dessa senhora, agora são quase uma da tarde, vou ligar pra capital e solicitar uma equipe de investigação, não vamos mais nos meter nisso, se tudo der certo, a noitinha eles estarão aqui.

Soldado Alencar continuava verde e sem aviso vomita aos pés do delegado, sujando seus sapatos.

Delegado Pereira ao entrar na delegacia, é interpelado por Setembrino, o único preso:

– Que foi que houve “Dotô”?

–Nada que lhe interesse Setembrino, nada. Ríspido, entra em sua sala batendo a porta um pouco forte demais. Setembrino fica olhando pra onde o delegado entrou e atrás das grades, dá de ombros, tira um cigarro da orelha e vai sentar em seu banquinho, baforando e pensando que bom mesmo é onde ele está, não falta comida, cigarro e de vez em quando Alencar lhe traz umas revistinhas para sua diversão. Mulher de carne e osso dá muito trabalho, reafirma Setembrino a si mesmo. Já as tinha conhecido, porém com essa mania que ele tinha de ir e vir pro xadrez, já havia desistido a muito tempo de relacionamentos afetivos. As de papel além de serem lindas, não abrem a boca. Dá uma risada com seu pensamento e joga fumaça para o ar. Mas já estava há muito tempo preso, discorria ele, queria dar uma volta no mundo, ver coisas novas, rever coisas antigas, andar na feira da cidade, tomar um banho de riacho. Pegar uma cor que ele já estava passando de branco. E no final quando já estivesse enjoado da vida lá fora: A emoção do assalto, dessa vez iria assaltar o ônibus que fazia linha pra lá. No período da festa do padroeiro sempre vem mais gente e a renda é maior. O plano já estava feito em sua cabeça, arranjava uma moto e com a grana na mão se mandava por essas trilhas de mata saindo no Estado vizinho, entrando de vez em quando em uma cidade pra comprar o que comer e abastecer a moto, a noite, sempre a noite e se fosse pego, tudo bem, já estava acostumado mesmo. Maquinava tudo isso quando viu o delegado sair voando da sua sala em direção à porta da delegacia.

Instantes atrás ao entrar em sua sala, Pereira seguiu direto ligar o condicionador de ar, a única regalia que a delegacia possui. Em cima da mesa, jornais e revistas velhos compõem a paisagem junto com um porta canetas e algumas pastas suspensas. Uma velha máquina de escrever em cima de um bureau mostra que ela está aposentada. No lugar onde ela deveria estar um computador não tão velho quanto ela espera com o led do monitor piscando.

Pereira se senta, limpando com o lenço o suor do rosto enquanto remexe nas gavetas da escrivaninha. Guarda o lenço no bolso e folheia uma velha agenda que já aniversariara cinco anos. Tira o telefone do gancho e disca o número que estava procurando. Número ocupado. Recosta-se na poltrona e após acender um cigarro, liga novamente para o número. Ocupado novamente. Pereira balança as pernas visivelmente nervoso enquanto enxuga o rosto outra vez. Ao por a mão no telefone ele toca de repente assustando o delegado. Depois de se recuperar do susto, atende em tom autoritário:

– Delegacia de polícia, delegado Pereira falando. Dois segundos se passam e impaciente Pereira repete a sentença. Nenhuma resposta. Pereira prepara-se pra desligar quando uma voz metálica soa ao telefone:

– Boa Tarde delegado Pereira, soube que o senhor deixou sua preguiça de lado e agora está trabalhando.

– Quem diabos está falando? O susto de ouvir o som da voz metálica o fez falar agressivamente.

– Ora, ora. Nosso delegado está um pouco irritado. Você deveria tomar uma cerveja pra acalmar, soube que no bar do Senhor Barnabé ele tem uma ótima cerveja gelada. Posso lhe sugerir que lhe peça um bom bife de tira-gosto, você pode escolher a carne direto do freezer, se gostar peça pra ele fazer acebolado, posso lhe garantir que o gosto fica melhor.

– Quem está falando? Questionou mais calmamente desta vez.

– Você não faz idéia delegado? Sabia que você é lento, mas assim já é demais. Essa voz metálica não lhe dá nenhuma pista?

– Desgraçado, como você ousa ligar pra cá. Fique sabendo que eu vou te pegar, custe o que custar, você vai pagar cada sofrimento que causou a essas mulheres e suas famílias...

– O que é isso delegado? Que rispidez! Como você fala assim com uma pessoa que admira tanto o seu trabalho?

– Ora seu...

– Calma delegado, não vá enfartar, pelo menos agora não. Respire fundo, temos tempo pra conversar, afinal de contas, a delegacia não possui nenhuma forma de rastrear essa ligação, não é mesmo?

– Temos sim. Blefou o delegado.

– Que feio delegado! A mentira é um pecado condenável e eu odeio pecadores. O que a sua filhinha pensará, sabendo que seu pai mente descaradamente?

–Não ouse falar de minha filha seu desgraçado...

A risada metálica ecoou no telefone.

–Vejo que você está bastante exaltado. Continuaremos nossa conversa depois. Frente a frente, quem sabe? Por enquanto, chame a equipe de investigação que você estava prestes a chamar. Até breve delegado.

–Espere...

–Não faça isso delegado, o tempo não espera ninguém. Ligue pra eles, aliás, tive uma idéia melhor, você agora vai escolher o que fazer primeiro. Eu iria iniciar meu jogo quando a equipe chegasse, porém vamos iniciar agora a nossa brincadeira no melhor estiloserial killerde cinema. O senhor gosta de cinema delegado? Bem, não vem ao caso. O que vem ao caso agora é a pista que eu vou deixar pra você e seus companheiros da capital...

–Que pista é essa que você...

–Não se precipite delegado, a engrenagem do tempo está rodando. Tic Tac, Tic Tac. Agora são treze e quarenta e cinco e você tem duas opções a partir de agora. A primeira, vir pegar a sua pista, que é a minha aposta...

–Onde você está seu maníaco?

–Você me decepciona delegado, sempre me cortando, isso é de péssima educação. A segunda opção é ligar pra capital, para a Central de Polícia Civil e passar a próxima meia hora tentando persuadir o Superintendente a deslocar uma equipe pra cá.

–Vai ser o que eu farei assim que você desligar o telefone.

–Continua se precipitando delegado Pereira. Primeiro ouça-me, depois aja. –O homem da voz metálica faz uma pausa de efeito –São treze e quarenta e sete no relógio do Mickey e a pista está perto da mocinha que dorme vestida com a camiseta onde está escrito: Amo Papai. Aliás, bonito quarto de criança, sua esposa tem muito bom gosto pra decoração infantil.

 

Pereira atravessava as estreitas ruas da cidade na máxima velocidade possível. Transeuntes, carros, ciclistas e motoqueiros o atrapalhavam de todas as formas. Quase atropela uma mulher. O Honda Civic passou por cima da calçada dos Correios conseguindo evitar dois carros parados no meio da rua enquanto os motoristas conversavam. Saiu em disparada rua acima quase atropelando outro ciclista. O coração disparado. A boca seca.

 

Pereira chegou ofegante ao portão de casa, o coração quase a sair pela boca. O fôlego curto de fumante não o deixava gritar pela esposa e a arma tremia na sua mão. Correu pela entrada e em seguida pelo corredor que dava acesso aos quartos quando sua esposa apareceu de uma das portas, quase se chocam e ela sem entender nada o acompanha. Vê seu marido abrir o quarto da filha abruptamente apontando a arma pra todas as direções. Lívia dormia serenamente, costume herdado dos pais, o sono depois do almoço. Pereira se aproxima devagar, olha a criança que respira tranquilamente, levanta o lençol e observa seu corpo a procura de algum sinal de que algo estava errado. Sente a temperatura dela e se acalma mais um pouco. Mas, quando lembra de que o maníaco esteve naquele quarto, fica nervoso novamente. A mulher tenta dialogar com ele, mas com um gesto a faz calar. Ela acompanha seus movimentos sem dizer nada. Pereira procura algo nas coisas da filha, revira tudo e não acha nada suspeito. Ao passar o olhar pela mulher, a nota estática olhando em direção a vidraça da janela. Ele vira a cabeça e olha em direção onde sua mulher observava. No vidro da janela estava escrito em vermelho pelo lado de fora:

JEV

Após exatamente meia hora de conversa com o Superintendente da Polícia, expondo todos os pormenores do caso, mas não sem antes tomar um “calmantizinho” como disse sua esposa, Pereira conseguiu a equipe de investigação. Antes, tirou a mulher e a filha de casa, precisava preservar alguma prova que o maníaco, como ele chamava, tinha deixado. Porém sua investigação preliminar mostrou que ele jamais entrara no quarto de Lívia. O maníaco havia visto as horas no relógio do Mickey através da janela, assim como a decoração do quarto e o que estava escrito na blusa da garota. Pelo lado de fora do vidro ele tinha escrito: JEV, e tudo leva a crer que o vermelho das letras não seja tinta e sim sangue. Devido ao quintal completamente pavimentado, não foi possível obter pegadas. Os vizinhos também não tinham observado ninguém suspeito nas redondezas.

 

A equipe chegara um pouco tarde, muito tempo após a primeira equipe de TV. Luiz Carlos, Fernanda e Jaime chegaram na viatura descaracterizada da Polícia e seguiram direto para o bar junto com o delegado. O investigador Luiz Carlos é o mais experiente da equipe e por isso mesmo veio como líder da mesma. Os cabelos negros que começavam a ficar grisalhos denunciavam sua idade, posto que quem visse apenas seu corpo de compleições fortes jamais imaginaria que sua idade beirava os cinqüenta anos. Uma vaidade de origens na juventude o deixava usar um inseparável óculos escuros e roupas sempre na moda. Fernanda, a perita forense, é a mais nova do grupo. Tem o ar de mulher de negócios sempre pronta a dar uma ordem inquestionável aos seus subordinados, porém ao retirar os óculos de grau e prender o cabelo no estilo rabo de cavalo se tornava novamente numa colegial. De baixa estatura e feitio do tipo que se chama falso magro tinha sido a primeira da sua turma na época da academia. Jaime é o agente de comunicação. Não tem os atributos físicos de um policial padrão devido ao seu trabalho mais técnico, porém ele mesmo costuma dizer que consegue pegar um suspeito na corrida em menos de dois quarteirões. Nunca precisou comprovar isso até hoje. Ao chegarem ao local colheram amostras e embalaram os pedaços do corpo. Iriam improvisar um pequeno laboratório em uma sala vaga da delegacia. O trabalho se estendeu por uma boa parte da noite no bar, afinal de contas, digitais não faltavam em todo ambiente, principalmente em se tratando de um bar. Não foi constatado arrombamento na porta traseira e nenhum lugar do telhado fora manipulado ultimamente. A equipe encerrou o trabalho no bar. – Pela manhã o proprietário poderá se utilizar das dependências. Declarou Fernanda, assim que entregara a chave do bar ao delegado.

 

A residência de Dona Edileuma foi à próxima da lista. A equipe chegou no meio da madrugada e as equipes de TV já estavam a postos em frente a residência que era protegida contra a entrada somente pelo cabo Simões. O investigador Luiz Carlos foi o primeiro a entrar na casa, encontrou a porta da frente aberta. A sala estava um caos, mas não parecia que era resultado de alguma luta. O interruptor não funcionou e Luiz Carlos acionou a lanterna que carregava. Retratos de santos enfeitavam as paredes, assim como dois retratos antigos de um homem e uma mulher vestidos em roupa de domingo. Em um canto da sala, um oratório bastante organizado, Nossa Senhora ao centro com algumas imagens menores ao redor que pela falta de conhecimentos religiosos não pudera identificar, além das velas novas e um fósforo pouco usado no canto da mesa, tudo isso sobre uma toalha de pano com bordados e detalhes em crochê. Somente uma revista de fofocas destoava no centro do oratório. Luiz Carlos a pega e a coloca em um saco plástico, repassando logo em seguida ao colega investigador. Fernanda os acompanha. O delegado tinha ficado no carro do lado de fora, para não atrapalhar o trabalho. Pereira estava carrancudo dentro do carro. Nenhum canal quis falar com ele. Dentro da casa, os investigadores tinham chegado ao quarto à procura de evidências, a cama estava desfeita, o velho guarda-roupa onde haviam substituído uma das pernas por tijolos, os encarava com uma de suas portas abertas, mostrando vestidos e caixas de sapato. O luminol, assim como na sala, foi aplicado ao quarto também. Nenhuma evidência de sangue em lugar algum. Impressões digitais foram colhidas. O dia já havia amanhecido quando saíram da casa, delegado Pereira dormia profundamente em sua viatura. As equipes de TV estavam de prontidão e começaram a se aproximar fazendo perguntas aos investigadores em meios a flashes e luzes. Sem comentários por enquanto, foi a única frase que ouviram dos integrantes da equipe.

 

Ao chegarem à delegacia, o delegado não se agüentava em pé de sono. Tomou uma grande xícara de café preparada por um sonolento soldado Alencar enquanto Luiz Carlos, Fernanda e Jaime se estabeleciam no laboratório improvisado. Setembrino assistia ao movimento de pessoas como se assistisse a um programa de TV, sentado em seu banquinho e fumando seu cigarro. Cabo Simões que viera junto com eles, prestava atenção em todos os movimentos, principalmente se algum repórter quisesse invadir a delegacia e ser extremamente inconveniente.

 

Algum tempo depois, Luiz Carlos e sua equipe adentraram a sala do delegado, Pereira os manda sentar e Luiz Carlos toma lugar em uma cadeira. Fernanda põe um gravador em cima da mesa na frente de Luiz Carlos e do delegado. O Investigador Jaime ficou em pé, enquanto Fernanda se sentava na outra cadeira ao lado de Luiz Carlos. Jaime observava os artefatos da sala do delegado, principalmente a velha máquina de datilografar. Luiz Carlos pressionou o botão de gravação e começou:

– Gostaríamos que o senhor, por favor, expusesse o seu diálogo com o suspeito.

Pereira olhou para cada um deles e imaginou em falar que estava com sono, que deixassem pra mais tarde, mas ao ver seus rostos resolutos desistiu. Pediu mais café à Alencar e ofereceu aos colegas, que educadamente aceitaram. Pereira despejou toda a história, desde o começo de tudo e não só o diálogo como queriam, das suas ambições como delegado, de suas expectativas tanto de vida quanto do caso. Falou da emocionante ida até a sua casa e do medo que passara pensando que o assassino tinha penetrado na sua residência. Quando ele começou a falar de suas ambições políticas, o investigador deu por encerrado.

– Pois bem delegado – iniciou discretamente o investigador Luiz Carlos – Diante dos fatos que temos até agora, o seu assassino já nos deu alguma pistas. Não querendo ser imponderado, mas ele parece bastante amador. Digo isso porque em primeiro lugar com certeza ele mora aqui, devido ao seumodus operandie seu conhecimento dos locais e costumes da cidade, não seguindo o padrão dos assassinos que é não matar onde se mora, pois as chances de serem pegos são maiores. Em segundo lugar, eu presumo que a ligação que ele fez para o Senhor tenha sido feita de um celular e não me assustaria nada se o celular estiver no nome do próprio assassino...

– E quanto a voz metálica? Cortou o delegado.

– Muito fácil de se achar na internet o aparelho modificador de voz. Esse é outro ponto, os correios vai nos dar uma lista de pessoas que receberam encomendas de lojas virtuais e não me admiraria novamente se obtivermos a assinatura de recebimento do próprio assassino. Luiz Carlos fez uma pausa como que pra pensar mais um pouco e continuou:

– Segundo o depoimento do dono do bar, ele guarda as chaves do estabelecimento em um gancho na parede, um local muito fácil de chegar durante o movimento, fazer uma cópia e retornar a chave para a parede sem ser notado. Na madrugada depois que o bar fechou ele entrou sorrateiramente e já sabemos o que fez. Mais um ponto em nosso favor, na cidade não deve ter muitos chaveiros não é mesmo?

– Somente um. Respondeu o delegado.

– Agora, chegamos ao ponto. A evidência que encontramos na casa de Dona Edileuma junto com a evidência encontrada pintada com sangue na janela da sua casa - sangue esse que o exame de DNA vai nos mostrar que pertence a vítima em questão - nos dá a pista da próxima vítima. Se não conseguirmos prender ele nos próximos dias temos que nos concentrar em proteger essa futura vítima em potencial.

– Qual foi a evidência encontrada na casa de Dona Edileuma? Perguntou o delegado.

– Uma revista colocada no meio do oratório.

– Não entendi.

– Veja bem delegado, ao chegar a casa notei que ela não é muito organizada, muitas coisas fora do lugar nas dependências da casa, mas um ponto da casa estava organizado: O oratório. Porém, uma coisa diferia da organização do oratório. Uma revista sobre ele. Evidentemente ela não colocaria aquela revista ali, iria macular o seu canto de oração. Trouxemos a revista como evidência e descobrimos que tinha letras marcadas na mesma. As letras formavam a palavra PECADORA. Luiz Carlos fez uma pausa enquanto olhava para a cara de dúvida do delegado e concluiu o seu pensamento:

– Pois bem, no seu depoimento delegado você disse que ele falou que odeia pecadores. Jane, a primeira vítima, era conhecida segundo a pesquisa que fizemos como uma notória moça que gostava de vários relacionamentos, alguns até paralelos a outros. Na visão do assassino ela era uma promíscua. Sua segunda vítima, Dona Edileuma, de acordo com seu soldado Alencar, gostava de inventar acontecimentos que não aconteciam na vida das pessoas da cidade. Uma fofoqueira, como se diz. Pra ele, outra pecadora, podendo, até ele mesmo, ter sido vítima da “língua” de Dona Edileuma. Luiz Carlos levanta, dá a volta e fica atrás da cadeira em que estava sentado, observa o delegado atentamente como esperando que o delegado conclua o raciocínio que ele seguia, não obtendo resultado continuou:

– O amadorismo dele o fez escrever na janela da sua casa a inicial da próxima vítima delegado. J de Jane, E de Edileuma e V da próxima pecadora. Temos que achar e proteger uma mulher que cometa algum pecado aos olhos do assassino e seu nome se inicia com V. Não deve ser difícil delegado achar alguém aqui com essas prerrogativas. Portanto mais cedo ou mais tarde, pegaremos o assassino. Espero que mais cedo. Um silêncio tomou conta da sala, algo que só foi quebrado pela declaração surpreendente do delegado:

– Acho que você esqueceu de algo investigador.

– Pois não delegado. Prossiga. Fez um gesto com a mão em direção ao delegado, como que autorizando sua fala.

– Existe um ponto da questão que o senhor não arrematou. Uma parte do corpo da primeira vítima não foi encontrado e na segunda vítima, como pude observar, todas as partes estão lá.

– Engana-se delegado. Pela primeira vez desde que entrou na sala, Fernanda falou. – A língua de Dona Edileuma não se encontrava presente na cavidade bucal.

Estupefato, o delegado se deixou cair na cadeira. Vendo que o único argumento que não foi tratado pelo investigador, foi quebrado aos seus pés.

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Atualizado em: Dom 8 Jul 2012
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