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Jogo dos Erros [Prólogo]

 PRÓLOGO

Mais uma vez ela acordou. Sentia sede. Uma velha lâmpada fraca pendia sob um fio amarelado logo acima dela. Sentiu que estava nua e deitada em algo duro e frio que sua mente logo reconheceu como metálico. Não sabia precisar a quanto tempo estava lá, pois alternava entre momentos de escuridão e leves lampejos de consciência como aquele. Sentia um grande mal estar. Mal podia se mexer e não sabia por quê. A sede lhe envolvia como um abraço de um polvo gigante. Ofegante ela fecha os olhos e tenta se lembrar. O que aconteceu. A pergunta tilintava cada vez que ela engolia em seco. Concentra-se e procura saber se ouve alguém ao seu lado, não ouve nada e nem ninguém em momento algum. Repentinamente uma dor aguda sobe por sua perna direita a fazendo soltar um gemido rouco. Uma pequena risada de homem a faz abrir os olhos num sobressalto. Tem alguém aqui?! – Pensa. Esperou alguns momentos por uma resposta a sua pergunta muda. Não havia pessoa alguma ali, conclui após alguns momentos... ou havia? A lâmpada. A dor. Será que estava delirando? Tentou levar a mão até a cabeça que começava a doer gradativamente. Tudo estava incoerente em suas lembranças e ela não sabia a causa de estar tão debilitada. Não conseguia mover o braço direito e a tentativa de movimento do esquerdo também foi em vão. Respirou fundo e tentou levantar a cabeça. Ao tentar, a dor aumenta como a dor de uma ressaca de vinho barato e ela deixa retornar ao estado anterior lentamente. Fecha os olhos e tenta lembrar: Acidente. Onde eu estava. Deus! A dor na perna aumenta, ela fica zonza e por um instante acha que vai desmaiar novamente. A mesma risada ecoa novamente na sala, ligeiramente mais alta. Tem alguém aqui? Onde estou? A boca se abre, mas o som não sai. Devagar e rasteiro um cheiro que ela não consegue decifrar toma conta do ar. A dor generalizada diminui um pouco, mas continua intensa. Tenta e não consegue abrir os olhos. A risada novamente, mas ao fim a risada se transforma numa voz grave dizendo: – Acorde bela adormecida, tenho um presentinho pra você. Quase ao mesmo tempo ela sente um baque ao lado de onde sua cabeça está a fazendo sentir uma pontada de dor maior em sua fronte invadindo os olhos. Ela tenta abri-los, mas não consegue. Um esforço a mais - pensa ela - e abre um pouco os olhos. Distingue uma sombra se movimentando pela sala. Delírio? Há alguém ali? A escuridão e os sonhos retornam. Nos sonhos, desespero, ofegante ela corre no meio do mato, seu perseguidor rindo alucinadamente, a queda e a certeza que algo de muito ruim vai acontecer a ela. A dor que não a abandona retorna ainda maior acordando-a e um gemido surdo sai da sua boca feito um pedido de socorro que quer sair e não consegue. Acordada, as mesmas perguntas invadem sua mente, o que tinha acontecido? Onde estava? A última lembrança que tinha era da estrada quando dirigia para algum lugar que não lembrava. Sua mente recusava a dizer o que tinha havido. Os olhos se abrem quando ouve o som de metais ressonando. Distingue uma sombra a se mover. Quem estava ali? O que tinha caído ao seu lado? Algo no seu inconsciente dizia que ela visse o que era. A cabeça doía ininterruptamente e agora a perna esquerda também começava a latejar dolorosa. Respira longa e profundamente e gira seu campo de visão um pouco mais para a esquerda. A risada grave irrompe do mesmo modo. Seus pensamentos estão desconexos e ela tenta lembrar-se mais uma vez do que tinha acontecido. Insiste e nenhuma lembrança a vem resgatar do limbo que se encontra. Abandona a tentativa da lembrança e sua mente retorna ao objetivo de ver o que está ao seu lado. Um impulso de dor chicoteia por sua perna esquerda a levando a sensação de desmaio. Os instantes se passam e fazem a dor chegar a um nível aceitável e num impulso ela gira o rosto pra esquerda. Fecha os olhos e pressiona-os por causa da dor que aquela atitude provocou. Som de metais. A presença agora assobia uma melodia que lhe parece familiar. Abrir os olhos e ver o que está ao seu lado, ela pensa. A dor na perna esquerda retorna aguda, a fazendo prender a respiração por um instante. Um leve gemido saí sem força da sua garganta. Tenta abrir os olhos, mas o breu toma conta. Perde os sentidos. Sonha com um rosto que não consegue reconhecer. A estrada. Luzes. Risos. A excitação nas suas palavras ao se dirigir ao rosto estranho. O sonho se acaba e instantes depois ela acorda letárgica. Lentamente ela abre os olhos na tentativa de ver o que caíra ao seu lado. Algo se forma em sua visão. No início era um borrão vermelho e verde, mas aos poucos a figura singela de uma flor se forma lhe mostrando algo estranhamente familiar. Seu cérebro esquadrinha sua memória a procura de onde a tinha visto. Uma pequena rosa vermelha está diante dela. Um esforço, e a lembrança flui para dois anos atrás: Ela e uma amiga em uma sala, o barulho de uma máquina como a broca de um dentista, a dor ardida, o pano limpando o pouco de sangue que saia, o desenho da rosa sendo colorido em sua pele. De repente, a certeza. A tatuagem da rosa em seu pé. Seus olhos se arregalam e mais uma certeza explode no seu cérebro. Estava diante do seu pé direito. Havia sangue ainda úmido sobre ele. Desespero e loucura disparam seu coração que parece explodir no peito. Como?! A pergunta em forma de exclamação dispara diversas vezes em sua mente e enquanto desatinos explodem em seu cérebro, lentamente o pé se afasta do seu ângulo de visão a fazendo tentar acompanhá-lo. A tentativa de buscar o pé faz doer os olhos lhe fazendo fechá-los. Ao abri-los, outra imagem se forma em sua frente. Olhos. Profundos olhos azuis lhe observam atentamente. A risada soturna soa agora bem perto do seu rosto ao mesmo tempo em que sente uma mão lhe afagar os cabelos. O dono dos olhos diz em uma voz grave e terna, parecendo a voz de um pai que acorda seu filho sonolento: – Bem vinda minha querida! Seja bem vinda aos seus últimos momentos. O pânico, e somente ele, a fez encher e esvaziar seus pulmões em um crescente de dor e desespero. O som da sua voz como um vago fio de uma nota toma proporções maiores a cada segundo e num átimo o grito rompe o silêncio da sala.

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Atualizado em: Sex 6 Jul 2012
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