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Memórias de um caminhoneiro

E lá p'ros meus vinte e poucos anos, eu era motorista, numa dessas usinas de cana, em Pernambuco. Me lembro de sempre passar na cidade, depois que terminava o expediente, quando eu tava naquele lugarejo; comprava fumo, os mantimento, e não podia deixar de tomar meu quartinho (é assim que chamam um copo americano cheio de pinga, lá no Nordeste) - tudo isso eu encontrava na venda do Véio Biu.

Véio Biu, ô sujeito esquisito. Andava devagar, falava pouco, mas de bobo não tinha nada. Era magro, que chegava a dar angustia só de olhar pra ele. O apelido de Véio ninguém sabe como conseguiu, talvez fosse pelo hábito de, todo fim de tarde, se sentar numa cadeira de balanço, frente à sua venda. O certo é que ele não aparentava muita idade, mas também não era novo. Deve ter sido por isso a preocupação dele em se casar, o que fez ele anunciar sua intenção num pequeno jornal que ali circulava.

Até hoje não me esqueço do anúncio:

"Precisa-se de uma esposa. A interessada tem que ser bonita, não pode ser gorda, nem magra. Tem que saber varrer casa, cozinhar, lavar roupa... E tem que está disposta pra ter menino, muito menino. Não pode reclamar demais, não pode ser gastadeira. Só vai poder sair de casa com o marido. Deve andar sempre arrumada e tem que fazer amor todo dia..."

Foi tanta da coisa que Biu colocou naquele anúncio, que no jornal deu pra mais de uma página. Mas depois de pronta, a lista era tão boa, que se Biu arranjasse uma mulher daquele jeito, eu ia pedir pra ele arrumar outra pra mim.

Logo, o anúncio fez um sucesso, naquela cidade lugar onde nada acontecia, embora Biu não tenha sido feliz na sua empreitada. O tempo passou, enquanto ele se mantinha na sua cadeira de balanço, sem que nenhuma pretendente aparecesse, foi assim até uns vinte anos atrás, quando a usina fechou e eu tive que sair dali, procurando outro emprego.

Faz menos de um mês que levei um frete pr'aquele lado, e passando por aquela terra, a curiosidade me fez querer saber que fim teve aquele homem. Mas naquele mesmo lugar, já não encontrei mais o Véio Biu, muito menos sua cadeira de balanço, nem a antiga venda onde eu não podia deixa de tomar meu quartinho.
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Atualizado em: Ter 8 Ago 2017

Pessoas nesta conversa

  • Pois é, memórias são sempre bem lembradas quando voltam à nossa mente. É como viver a situação uma segunda vez. Seu Biú era exigente demais para o que tinha a oferecer, segundo sua descrição. Interessante seu conto conciso e com toque de realidade na medida certa. Parabéns - Jogon.

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  • Muitíssimo obrigado, caro Jogon.

    Realmente, Biu não tinha tanto a oferecer para o que exigia; o personagem representa o desejo humano pela perfeição. A ironia nisto é que ele não consegue enxergar os seus defeitos (não só esteticos, mas de caráter), como acontece com tantas outras pessoas.

    Com um toque cômico, a mensagem que fica é: se você esperar que alguma coisa venha como se deseja, talvez ela nunca chegue.

    PS: Adorei as suas poesias.

    Sucesso!

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