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Olá, alvorada.

Meu quarto sangra.
Está prisão me corrói. Estou preso por correntes pesadas, correntes que me consomem por um todo e me prendem novamente à existência. Eu não quero estar aqui. Eu queria poder chorar, mas não consigo. Eu queria enfiar uma faca na minha garganta e ver quem iria beijar meu caixão. Eu queria. De que vale minha vontade frente ao divino? Eu sou divino.
A lua me espera.
Minha porta está fechada. Será que alguém escuta os gritos do lado de fora? Estou curioso. Minha alma está fechada. Será que alguém escuta os gritos do lado de fora? Estou curioso.
Meu telefone toca. Anna.
-Anjo, tá ai? Tudo bem?
não
-Tudo, e contigo?
minta para mim
-Também. Já se arrumou?
já coloquei minha mascará de alegria
-Sim. Vai passar me buscar?
me liberte
-O Wesley tá passando perfume e a gente já sobe.
-Beleza.
O coliseu está se preparando.
Levanto da cama. A porta parece gritar. Até o ar do lado de fora dessa jaula é diferente, sem o cheiro defumado e um pouco azedo, cheiro de podridão. Vou até meu guarda-roupas. Abro suas portas avermelhadas, pego uma calça jeans surrada escura, uma camiseta branca e minha jaqueta jeans clara, me sento em minha cama e me visto. Pego meu isqueiro na gaveta da minha mesa, minha carteira sobre ela, meu maço de cigarros ao seu lado e coloco no bolso direito de minha jaqueta. Espero que o cigarro um dia me mate.
Moro com uma garota. Não sei se ela me quer eu sua cama ou em um caixão. Meu quarto dá direto na cozinha, e ela está lá. Cheiro de alho está no ar. Julia deve estar fazendo arroz, e ela cozinha muito mal. Eu sempre abro a porta sem fazer barulho, costume, ando silenciosamente também, mas ela nota minha presença. Meu cheiro de cigarro com perfume consome o ar. Ela coloca a colher na pia e me olha.
-Vai comer, Anjo?
Ela fala com naturalidade, mas seu corpo mostra algum desconforto com a minha presença. Ela recolheu seu tórax, parece estar escondendo seu coração de mim.
-Vou no 89 com a Anna e o Wesley. Vou comer lá.
-Entendi. Se divirta.
Sinto tristeza e alivio em sua voz, como ao tom de despedida a um doente terminal. Tristeza de me ver partir? Alivio de me ver liberto do mundo? Ou alivio de não precisar mais se importar com minha presença em sua vida? Ninguém se importa.
Saio do meu apartamento que fica no final do corredor do quarto andar, entro no elevador e desço ao térreo. Saio do elevador e caminho até à saída.
A rua está molhada, deve ter chovido enquanto eu dormia. Estendo minha mão direita até meu bolso da jaqueta, pego meu maço de camel amarelo, tiro um, coloco em meus lábios e devolvo o maço ao bolso. Com a mesma mão agarro o isqueiro, levo-o até o cigarro, acendo e devolvo o isqueiro ao bolso. Cada tragada me dá o conforto e calma. A morte parece me abraçar quando toco o cigarro, mas são os únicos braços que me acolhem. Lembro dos seus braços nessa rua, sim, me lembro. Eu te beijei deitada nessa calçada, eu disse que te amava, você só respondeu "não, você não ama". Foi o segundo que eu falei a verdade, foi o segundo que me tornou mentira, foi o segundo que você me jogou no lixo e isso só me fez te querer mais.
Luzes passam pela rua com velocidade, até que uma para na minha frente. O carro de Wesley é preto, compacto e pequeno. Do lado do passageiro sai Anna. Eu ainda a amo.
- Vem logo, Anjo.
Ela desloca o banco para frente para abrir espaço para eu entrar.
Eu vou entrar nesse carro. Eu vou entrar no mundo. Eu vou sair de mim.
89. Esse lugar.
É 23h. 89, 23.
O 89 fica na saída da cidade, beirando a estrada. Antes, era uma siderúrgica; hoje, é um portal para Gomorra. Seu prédio, um barracão vermelho, consome o cenário. Sua sucata é estranhamente bela, suas portas são imponentes e seu ambiente fede, e esse fedor exala de mim. O solo a sua frente reflete o a luz do poste, parece um outro céu cheio de pequenas estrelas. Um chão arenoso, e agora, molhado. Imagino que tenha chovido aqui também.
Saio do carro de Wesley logo após Anna. Está um pouco frio. Anna está usando um sapato de sola lisa surrado, shorts jeans, um cropped e uma blusa de flanela azul. Sua roupa cobre seu pequeno e frágil corpo. Esse corpo já foi meu. Wesley está com uma gola polo rosa, deve ser de alguma marca cara, calça jeans e sapa tênis. Pessoa genérica número 421.
Ao sair do carro já acendo um cigarro. Eu preciso me acalmar, eu preciso respirar.
Anna se aproxima de mim. Seu cabelo ruivo é iluminado pelo poste. Sua face está na sombra, não consigo olhar direito nos seus olhos. Não esconda sua alma de mim.
-Vai querer algo hoje? Vamo dropar uma bala?
Me liberte
-Pode ser.
Anna vira de lado. Seu rosto de perfil é parcialmente iluminado. Sua boca rosada, suas maçãs; todas as suas linhas perfeitas. Ela pega seu celular e faz uma ligação. Está falando com algum amigo que vai trazer algumas drogas.
Wesley está esperando alguém na frente do portão do barracão. Hoje, essa sucata vai ser o meu templo.
-Anjo, ele já tá lá dentro. Vamos entrar.
-Pega as coisas antes, por favor.
Anna agora está de frente para a luz. Eu consigo fintar seus olhos.
-Você só dá trabalho, mas ok.
-Quanto tenho que dar?
-Nada, eu te banco hoje. Vou ir buscar.
Ela vira de costas e entra pelo portão. A luz parece lhe perseguir, e minha alma também. Não consigo vê-la, eu a quero de volta, eu não sei se ainda amo ela, se ainda odeio ela, se ainda sinto algo por ela, mas eu sinto que ela ainda tem minha alma em suas mãos.
Eu não sei o que isso é. Afinal, por que quero voltar para os braços dela? O que me prende? Eu não quero chorar sozinho de novo, eu quero foder você até que Afrodite chore.
Eu não quero aceitar que sou só. A solidão é intrínseca à existência humana, assim como a dor. Anna, eu tento colocar minhas esperanças de que, algum dia, possa ser feliz, experiênciar o puro ecstasy da vivencia mundana, mas todo esforço correrá em vão, afinal, a inutilidade da vivencia mutua, fora dos prazeres dionisíacos no mundo são, de toda forma, supérfluos. Malditos seja Constantino, aquele que fez todos acreditarem que os prazeres mundanos são inúteis, que toda a virtude que irradia da cristandade vem para dar significado ao viver. A única coisa que preenche o viver é o prazer, e me diga, por qual motivo devemos castrar-nos dele? De qualquer forma, será que eu queria romper as memorias de noites como as que vão seguir agora, as que me afogo em substancias que, por sua única função, me arrastam para uma aresta da existência na qual não preciso a experiênciar? Eu quero me prender nos prazeres mundanos. Substituir essas lembranças, esses momentos de gozo, coisas que fazem a dor de existir valer à pena por alguns segundos, por eu chegando em casa e vendo pratos sendo lavados? Por qual motivo isso remeteria a felicidade a qualquer ser vivo? O amor morreu, ambos só estão trocando esforços para ter uma existência mais estável e calma, mas foda-se isso. Eu amo ela agora, Anna, eu vejo seus olhos, vejo todas as nossas viagens em meio à noite, vejo minha existência pendular no viver, alterno entre a dor e a felicidade, e a felicidade se passa ao seu lado, mas essa vem, bate e me impulsiona novamente frente à prisão que me prende ao sofrimento. Eu quero tê-la, eu quero possui-la mais uma vez, eu quero juntar meu corpo com o dela, cada centímetro, cada célula, cada molécula. Eu não consigo aguenta-la, a dor e Anna, e também não aguento lidar com a ideia de ter de respirar até que um homem que flutua nos céus decida por acabar com a minha vida. Toda vez que respiro só sinto o cheiro de podridão, cheiro que vem dos outros e de dentro.
Me traga maconha, deixe-me contemplar a face da existência, rir dela e depois fingir que está tudo bem. Me traga ecstasy, deixe-me flutuar pelos prazeres mundanos, pelo furor do sexo, pela liberdade de vagar, pela sede de água. Me traga ácido, deixe-me fugir daqui, deixe-me acreditar que existe uma dimensão em que a felicidade realmente importa, em que eu possa flutuar e ver tudo derreter, ver o mundo se diluir e a toda dor colapsar em um mar de alegria.
Toda vez que tusso tenho a esperança que um tumor está consumindo meu peito, e que esse irá roubar minha vida. Roubar? Quem disse que ela é de minha posse? Eu não tenho controle sobre mim. Ela me controla. Estou preso em sua jaula, e também sou o meu carcereiro. Eu s...
-ANJO!
Anna
-Porra, oi. O que quer?
-Peguei tudo, tá aqui. Lá dentro tá da hora. Mano, onde você tava brisando?
-No absurdo do mundo.
-Lá vem...
-O que eu fiz?
-Empatou meu role. Vamos entrar logo. Vamo fumar um só pra abrir?
-Vai. Já está bolado?
-Lógico.
Ela coloca as mãos no bolso de sua blusa de flanela, ela revira seu interior até achar o que procura. Consigo ver sua respiração no ar, deve estar frio, não sei; eu não sinto mais nada. Ela tira do bolso um cigarro artesanal de maconha, e parece uma entrada leve pra gente.
-Trouxe isqueiro, inútil?
-Puta que pariu, Anna. Tu acaba de me ver acendendo um cigarro e pergunta se eu trouxe um isqueiro? Inútil é tu, burra
-Você fala muito. Acende ai então. Aqui, minha noite começa.
Shoegaze explode meus tímpanos pelas caixas de som. A luz fraca é interrompida por lampejos esporádicos. O rosto de Anna é iluminado, volta, me assombra. Porque vaga sobre mim, Anna? SAIA DA MINHA CABEÇA. AGORA! 
-Anjo, por que essa cara?
Sua voz é abafada.
-Vamos tomar um shot, amor?
-Sim. Não me chame assim.
-Tudo bem, amor.
Antes de eu terminar a frase eu já senti sua mão em minha cara. Meu rosto está atordoado pelo álcool, pela maconha ou qualquer outra merda. Eu não ligo, pode me bater, afinal, você já me destruiu.
Sabe quantos sentimentos aquele tapa traduziu em virtudes e dor? Não consigo imaginar tal. Tudo que já vivi com você, agora em minha cara. O que eu vivi com você? Nada, mas ao tão pouco tudo. Toda a dor, todo o sentir, todo o viver, todo o presente se remonta à isso, ao o que sou. Sou, apenas. Fui, talvez.
-Aprende, seu bosta.
-Beleza, cadê minha bebida?
Vamos até o bar. Ele fica no canto direito do barracão, é feito de pallets, assim como suas plateleiras ilumidas por lampadas que mais parecem valvulas. Garrafas e mais garrafas estão enfileiradas, assim como as pessoas ao seu redor. Qual será a dor delas? Qual? Não sei, imagino que nesse ponto da noite, ou elas vivem a dor ou se esqueceram dela.
Eu estava com saudades de você, das nossas viagens, de como derretíamos o existir, de como erámos um só e sua pele tocava a minha, de como vi o existir um dia em uma árvore em uma festa. Tinha chovido aquele dia, eu estava bêbado, totalmente fora de mim. Em uma, em uma; uma noite que me arrependo, uma noite que eu senti, uma noite que eu quero relembrar, uma noite que eu queria viver a cada segundo do meu dia, uma noite que me faz pegar o celular quando me embriago de novo e sentir o impulso de te chamar, de tentar novamente te ter, de tentar novamente viver, mas eu não vivo. Quando quis viver, você me desprezou, mas aqui estamos.
Eu não consigo entender o motivo disso. Não do não estarmos juntos, mas sim o porquê disso. Nada faz sentido. Eu preciso me limitar à uma pessoa para me sentir melhor? Eu nunca vou conseguir viver sozinho? Porra, todos são sozinhos, e ainda mais, todos são sozinhos a procura de alguém, alguém para entende-los. Ninguém se importa com a dor do outro, ingênuos.
Seria fraqueza de minha parte? Me prendo a drogas, a uma mulher, a dor. Os outros se prendem em Deuses, trabalho e o sonho de um casamento feliz. Qual dos dois é o maior hipócrita? Eu ou eles? Ou melhor, quem se engana mais para não sofrer?
Ela está estendendo sua mão clara em minha direção. Essa mão já me tocou, já tentou me entender, já me consumiu, e agora me consome. Ela vem até a parte minha nuca, me puxa e leva sua boca ao meu ouvido parar surrurar. Só queria ouvir três malditas palavras, três malditas palavras que terminariam tudo.
-Toma, está na mesa. É vodka. Lembra o dia que roubei a sua? Tá ai
Eu senti a pele dele tocar a minha, o frio, o respirar, o olhar que me tomou.
Pego o copo, viro, sinto o queimar que desce meu peito.
Anna, eu te amo.
Nesses braços eu acho conforto. Nos seus braços eu me procuro. O álcool está consumindo meu sangue, ele também está consumindo minha alma. Solvente maldito, limpa minha face e deixa à mostra o meu verdadeiro existir. Entramos há pouco nesse buraco e eu já tomei mais de 5 copos. Coloque na minha mão, eu vou virar. Eu vou virar quem mais?
-Anjo, se você me dar trabalho, eu te mato.
Você já me matou.
-Fica tranquila.
O álcool deixa minha visão turva, deixa minha alma turva, deixa meu viver verdadeiro. Eu sou burro.
Música eletrônica. O quão pífio e simbólico isso é? Inútil, mas ao mesmo tempo, de maneira involuntária, marca. Som que consome, som que surgiu do homem e seus malditos transistores, som que me propaga.
As luzes pulsão por todo o ambiente. Anna está me encarando. Ela dança, seu corpo me atrai, seu olhar fixo em mim me atrai, sua alma me atrai, seu existir me atrai, seu viver me atrai, seu me atrair me atrai. Se eu te beijar, o que eu ganho? Me diga, ruiva maldita.
Alguém cutucou minhas costas. Deve ser alguém, assim como todos, irrelevante.
-ANJO, VOCÊ AQUI?
Eu conheço essa voz. Eu não vejo esse rosto.
-Fala, mano. Puta merda, não te esperava aqui.
-Eu não duvidava de você aqui. Sempre pulando de buraco em buraco, se fodendo de passo em passo.
-Ser fodido? Adoro.
-Sua bicha. Quer saber, foda-se. Vou voltar pra festa. A gente se vê na aula segunda.
-Adeus.
Outro rosto irrelevante. Um fracassado. Uma pessoa que dá todas as suas esperanças de vida em uma instituição humana. Uma pessoa que tem esperanças. De que elas valem no fim?
Anna continua dançando. Ela não me olha mais. Seu olhar se prende ao palco que tem um disk jockey. Seu cabelo está para o lado e seu pescoço está à amostra. Eu vaguei por esse pescoço, eu marquei esse pescoço branco, esse pescoço branco me marcou.
Ela continua a dançar e seu movimento me atrai. Porque me iludi? Porque vim aqui? Não me refiro à este maldito lugar, me refiro à este plano.
Eu não consigo controlar meus impulsos mais, eu só consigo sentir o desejo me consumindo, o furor da necessidade de dar um significado ao ato de sair o meu apartamento de merda, um ato que de significado ao meu viver. Anna, me consuma.
Eu me movimento, vou ao contorno dela. Eu quero sua carne, eu quero sua alma, eu quero seu existir, eu quero seu valor, eu quero sua noite, eu quero o meu viver de volta em minha boca, eu quero seus lábios tocando os meus e sua saliva em contato com a minha enquanto vagamos em meio ao álcool e às frustrações. Vamos fingir que nos amamos, vamos fingir por essa noite que nada aconteceu, vamos fingir que essa noite é o primeiro dia de nossas vidas, assim como o último.
Me aproximo dela a passos curtos. Pessoas esbarram em mim. O som me consome. Será que resta algo em mim ainda?
Olho para sua cintura fina, desloco minha mão até seu ombro.
-Anna
Ela não se move com minha presença, só continua dançando. Ela é vaga. Vague para mim, por favor.
Será que ela lembra de todos os “eu te amo” que enunciará?
-Anna, eu te amo.
Ela para e vira para mim. Seus olhos me encaram. Sua alma está confusa e dilatada.
-Se me ama, me beije.
Seus lábios são suaves, sua alma, felizmente, não. Ela continua a me consumir, me conseguir, puxar os meus cabelos, arranhar minhas costas, morder meus lábios. Sua língua toca a minha, seu viver toca o meu. Seu beijo revive, suas mãos me tocam, seu coração me recebe.
Não me prive do direito de te ter. Sem você, eu não consigo sentir. Agora eu sinto uma coisa, calor, o seu calor, o nosso calor.
Me consuma, Anna. Me consuma, Fogo.
Eu não te entendo, e espero nunca entender, súcubo.
Eu sou Deus. Eu sou o protagonista do universo, e nem um ser fútil e sem valor irá provar o contrário.
Anna, você é minha, e Anna, você é a dona do universo. Você me tem e eu te domino. A noite caminha e nossa paixão se incendeia, sua boca me consome e sua alma se funde a minha. Somos os deuses da existência, somos os espectros silenciosos que contemplaram à inutilidade do respirar, e com os mesmos olhos também contemplamos o único pequeno propósito que podemos dar à isso. Estamos gozando à vida, estamos consumindo toda gota de prazer que ela pode nos dar, afinal, de que vale ficar lamentando? Vamos rezar pelo leite derramado ou esperar que ao morrer o copo esteja intacto? Não. Somos donos da existência. Vamos consumir o mundo, vamos usá-lo como nosso tapete, como nossa cama, como nosso templo.
Eu vejo seus olhos, eu vejo luzes pulsantes, eu escuto uma música intensa, ensurdecedora. Meu nariz ainda arde. Todos esbarram em mim, mas não ligo, eu sou intocável. Cocaína.
Anna vem para os meus braços, me junta forte ao seu pequeno corpo, levanta a boca até meus ouvidos e me diz:
-Michelangelo, Anjo, Deus. Quem é você?
-Eu sou o melhor que as estrelas conseguiram conceber em bilhões de anos, eu sou sua posse, eu sou sua existência, eu sua carne e sua carne é a minha. Me toque. Me ame, e foda-se qualquer outro interesse.
-Eu lhe controlo, eu sou você. Sua mente é minha, assim como sua carne. Me beije, consuma-me, tornemos nossa existência uma só. Me condene a ser sua, você já está condenado a ser meu. Somos os senhores do destino, afinal. Mas de que vale controlar o caos? Me diga.
Cale-se, sinta-me em você agora. Minha boca, sua boca, o silencio mutuo selado. Minhas mãos caminham pelo seu corpo, sua barriga levemente exposta, sua cintura fina, suas ancas macias, seu cabelo longo e vermelho, sua nuca frágil, seu existir todo. Eu lhe possuo e você sua a minha existência lhe pertence, que seja aqui e agora. Eu quero jogar seu corpo contra a parede, mas só existem pessoas a nossa volta. Vermes.
Eu não sei o que sinto. Eu quero você para sempre, mas eu não quero o sempre. Eu quero sua presença, eu quero sua voz, eu quero seu corpo, eu quero sua alma, eu quero o seu respirar, eu quero tudo. Você está sendo minha, você e o mundo.
O papel que estava em minha língua já derreteu. O teto está derretendo. Meu peito está derretendo. Sua alma me derreteu.
Pare de correr em meio à noite, você não vai fugir dela. O lugar está cada vez com o cheiro mais espeço, a fumaça do ar tem cheiro forte, o som está consumindo e ecoando por suas paredes metálicas e suas paredes metálicas parecem criar vida. O lugar flutua, as pessoas perderam seus rostos, agora não são mais lembranças.
Anna parece brilhar enquanto tenta correr por entre esses manequins. Fitas coloridas pairam sobre o ar, elas voam como pássaros. Elas começam a mudar de cor em meio ao ar enquanto andamos por esse lugar. Elas estão apodrecendo, elas estão morrendo. Será que vou ter a mesma sorte que essas fitas?
Acho que ainda estou são. Acho que ela está correndo para o banheiro.
Os manequins continuam com sua dança, Anna continua com seu brilho, eu continuo vazio.
De que servem as malditas palavras? Mais correntes? Como descrever? Como continuar? Como progredir? Como segui-la? Como entrar? Como pensar? Como absorver? Como escrever? Como sair daqui? Como me apaziguar?
Eu não suporto. Eu vejo e não explico. O mundo perdeu suas correntes agora.
Anna entrou no banheiro, ou o que eu acho que seja Anna no que eu acho que seja o banheiro.
Seus lábios se mexem, eu não entendo. Eu me sinto aliviado. Será que malditas ondas não controlaram mais o meu sentir agora?
Eu pego ela por seus braços, eu a beijo. Eu a toco, mas eu não fecho os olhos. O chão sumiu, as paredes sumiram, tudo sumiu, somos só nós. De que vale o pudor no esquecimento? Vamos nos consumir aqui, vamos deixas todas as correntes para trás, vamos deixar as palavras e vamos consumir a carne, vamos terminar o começo, vamos iniciar o fim.
Eu tiro minha jaqueta, ou seja lá o que isso for. Eu tiro sua flanela. Eu tiro minha máscara. Eu borro seu batom. Eu patino em sua alma, eu tiro seu shorts, eu aliso sua cintura, eu caminho em seu corpo, eu vou para o céu.
Minha boca caminha pelo seu corpo, suas mãos puxam meus cabelos, você brilha em diferentes tons, vejo nossa carne se unir, vejo o existir valer, vejo o prazer condizer, vejo grama surgindo, sinto um campo, sinto o viver, sinto seu néctar, vou ao olimpo e te contemplo, Afrodite. Minhas mãos não existem mais, minha língua se dissolveu em você, o campo é infinito, doze sóis nos iluminam, todos vigentes. Agora, eu sou seu sol.
Eu caminho por dentro dela. Vou me deixar nela. Não sei descrever o que escuto, a voz do universo é maravilhosa. Minhas costas queimam com suas unhas, finto seu rosto e penetro seu olhar. Você me encara, estrelas rompem seus olhos.
Eu estou fora de mim, eu estou dentro de você, eu estou solto no infinito, eu estou perdido na tradução para o mundo, eu estou perdido em ligações cerebrais e só isso parece importa, as mentiras. Afinal, o que é real? Tudo parece real. O amor, os sóis e as verdades. Eu só estou livre quando saio do mundo, por que ficaria nele?
Fique com meu eu, Anna. Eu deixei ele dentro de você.
Tento levantar. Não consigo. Meus olhos se fecham.
O chão está frio, meu olhar está embaçado, a luz do banheiro fica cada vez mais escura. Anna está do meu lado, ela parece gritar, eu não a escuto. Eu estou estirado no piso, minha alma parece flutuar. Anna se deita sobre meu peito, ela encara meus olhos. Ela está triste. Ela chorou. Sua maquiagem está borrada, seu batom está espalhado pela boca (de nada). Ela está mais pálida que o usual.
Seria eu o sol, doce girassol? Você me persegue, você me venera. 89, você viu minha supernova? Anna, você queimou seus olhos?
Pessoas abriram a porta, não faço ideia de quem são. Por favor, feche a porta, a noite vai durar pra sempre.
Homens me carregam entre seus ombros, eles estão me levando paro o lado de fora. De qualquer forma, a festa continua. A festa sempre continua.
Eu sou Deus? Eu sou o nada?
Sinto grama. Lembranças irreais. O sol parece surgir, mas me diga, ele existe dessa vez?
Todos gritam em volta de mim enquanto uma roda de pessoas se forma. Anna se ajoelha do meu lado e me finta na alma. Ela está acabada. Ganho um beijo na testa. Por qual motivo isso parece uma despedida? Eu estou indo para onde? Amanhã temos outra noite. Ou seria hoje? Não sei. Você não vai me esquecer hoje, não é, Anna?
Alguém dá um treco preto que ela coloca no ouvido. Seu pescoço está quase preto nos lados, porra, eu sou foda mesmo em.
Todos me olham. Eu sou tão bonito assim? Haha. Vocês nunca vão ter o (des)prazer de serem eu, podem chorar (ou sorrir).
O céu as vezes brilha em cores bonitas, que legal.
Luzes vermelhas agora aparecem, agora azuis. Será que essas são de verdade?
Espera, alguém está me colocou em algo. Poxa, a grama estava gostosa. Um rosto com algo branco na cara me encara e me puxa nessa coisa que eu estou pra uma caixa branca com luzes. O interior é branco.
Estão colocando algo em meu braço, será que é cocaína? Eu vou largar ela, parem com isso, por favor. Meu Deus, os outros só me atrapalham mesmo.
Meus olhos estão cansados agora, essa luz branca forte tá irritando eles, e de bônus me irritando também.
Pronto, fechados.
Eu escuto a voz de Anna. Eu te amo.
Agora, o silencio. Que lugar calmo, não?
Se quiser usar esse pequeno escrito como papel higiênico, por favor, sinta-se à vontade.
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Atualizado em: Ter 8 Ago 2017
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