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Final de Ano

Ah... Sexta feira, ultimo dia de aula do ano, Tainá estava encostada no banco, ouvindo música e sua irmã mais nova estava embaixo de seu braço, a envolvendo enquanto se embalava em um sono depois de se estressar num dia de prova. O trem estava bem iluminado, estava arejado e havia, curiosamente, poucas pessoas naquele dia, um rapaz de terno, uma senhora meio corcunda e um casal que se amava em beijos, amassos e carinhos no canto do vagão.
A música embalava o sono, ela encarava a paisagem de um sol poente, que deixava seus últimos rastros marcados em nuvens de uma cor forte de purpura e vermelho, o escuro já se impusera predominante nas silhuetas da cidade e os primeiros postes se acendiam nas ruas e esquinas.
Os olhos pesavam, não se importava muito, não teria mais provas ou tarefas para fazer, se passassem do ponto poderiam ligar para o pai ir buscá-las, que as receberia com algum sermão e diria, todo cheio de ansiedade e animação, os planos da viagem que fariam para a Europa e então esqueceria o ocorrido.
Ah... O continente dos deuses. Visitariam os castelos em que cavaleiros lutaram, visitariam mosteiros em que monges rezaram, monumentos à santos e àqueles mais santos ainda, aqueles amados por poetas e artistas de todas as laias, visitariam o local em que Romeu, supostamente, se declarou à Julieta. Seria mágico.
Tainá e sua irmãzinha Rebecca dormiam ali, juntas, com suas bolsas. Seus uniformes eram brancos. Graças ao tempo mais frio trazido pelas chuvas de final de ano, ambas usavam uma saia mais longa e um puloverzinho azul com o emblema da escola em que estudavam, a saia também era azul escuro como as águas de um lago profundo.
Os balanços do trem eram como o balançar de um colo de mãe, a música se tornou calma, serena, preguiçosa... Parece ter passado algum tempo quando ela finalmente notou que o trem não andava mais, ela abriu os olhos e estava tudo escuro, como se as tivessem esquecido lá dentro. Tainá pegou a bolsa com uma das mãos e, com isso, sua irmã mais nova se levantou e criticou a irmã; “O papai não vai ficar feliz.” Disse manhosa a pequena Rebecca; “Não se preocupa, o papai vai falar, mas você conhece o papai, ele é de boa. Só precisamos ligar pra ele e ele vem pegar a gente...”
Rebecca colocou sua mochila nas costas e segurando ambas as alças com os polegares forçando-as para frente olhou pela janela e ficou encarando um lugar lotado de trens velhos, quebrados, enferrujados de modelos distintos e a maioria coberta com o verde de trepadeiras que faziam contraste com o vermelho-alaranjado da ferrugem que se mostrava clara à luz do luar.
“Droga, o celular esta sem sinal.” Tainá estava levemente irritada e começando a se preocupar, mas quando ela viu definitivamente onde estavam ela arregalou os olhos e quase entrou em uma crise de nervosismo mudo e tenso, era como se os pelos de sua nuca se eriçassem.
“Rebecca, onde a gente esta?” A irmã mais velha se apoiava no banco com seu joelho esquerdo ao lado da Rebecca que estava olhando cuidadosamente o ambiente estranho ao redor delas com a cabeça para fora da janela. “E eu vou saber?” Arguiu a mocinha com seu jeitinho de moleca.
Tainá puxou o cabelo para traz arrumando-o no arco, seus cabelos, assim como da irmã, eram curtos e de um castanho com certa clareza, combinando com suas peles queimadas por um sol que nunca se pôde ver, os olhos da irmã mais velha eram cor de mel, os da irmã, da cor do ônix, a mais velha tinha uma pintinha sobre a boca e a mais nova tinha as adoradas covinhas do lado esquerdo do rosto.
As duas saíram quando a irmã mais velha decidiu tomar atitude e achar um orelhão ou alguém. Quando desceram para o chão encontraram barro e mato rasteiro crescendo, os trilhos se afundavam em um brejo e ambas se perguntavam: “Como diabos esse trem veio parar aqui?”
Decidiram caminhar em direção contraria a qual o trem delas apontava, ele era o único que não estava coberto de mato, alias. Caminhavam em um silencio que combinaram manter com a tensão que pairava no ar.
Acima delas a lua brilhava, havia poucas nuvens no céu, as únicas que surgiam eram pequenas e finas, mal atrapalhavam a luz da lua cheia quando, eventualmente, passavam diante dela. Já haviam deixado o trem à alguns metros e conseguiram seguir caminho, o brejo parecia secar na direção que iam, o celular de Tainá estava com 50% de bateria, sem sinal e a vozinha na cabeça dela clamava para ela desliga-lo para economizar energia, mas recusou-se ao pedido pois acreditava que poderia receber a ligação de seu pai... Ela notou algo, o celular não saia das 00:00 horas, elas não podiam ter dormido tanto, e o celular devia estar com algum problema.
Rebecca se apoiava em um trem, para andar, mesmo secando, o solo ainda era traiçoeiro, quando um dos velhos trens acabou, havia um vão e logo começava outro, ela colocou a mão sobre ele e a ferrugem deste em especial aprecia diferente, ela estranhou e como qualquer criança curiosa de 10 anos, ela desacelerou e deu alguns soquinhos na lataria, diferente do esperado, que seria um som de oquidão, a lataria fez um som de como se estivesse cheia, Tainá se virou, nervosa com aquela situação e com a demora da irmãzinha; “Vamos logo Rebecca!” disse ela quebrando o contrato com a tensão no ar, com uma voz alta e irritadiça além de ter batido ambas as mãos, sendo que uma delas carregava o celular, nas coxas.
Rebecca ficou surpresa com a reação nervosa da irmã, mesmo naquela situação a pequena se mantinha calma, era como uma aventura, um pouco desconfortável, de infância. Ela ia dizer que já estava indo, mas sentiu naquela lataria um vibrar, foi mais como uma onda, começou na ponta do trem e foi-se balançando como tal até o seu final que fazia uma curva entre um trem e outro, pareceu como se fosse um gato que se balançou. Aquilo fizera um barulho imenso. Ambas olharam para o “final” do trem e logo depois se encararam boquiabertas, logo, ao lado de Rebecca os faróis se ligam e um rangido de ferrugem se movendo tomou o ar quando a cabine do trem se levantava e se contorcia como se fosse uma lagarta gigante.
“Becca! Corre!” Gritou Tainá fazendo aquela abominação virar-se para elas e ilumina-las com os faróis, Tainá ficou parada esticando a mão para a pequena e balançando as pontas dos dedos como se aquilo fosse apreça-la e ajudar a pequena ir mais rápido. Quando finalmente juntaram as mãos o autômato, ou seja lá o que era aquilo, já se arrumara para ir atrás delas. Tainá puxava a irmã que ia tropeçando atrás dela.
Continuamente a irmã seguia a frente, de quando em quando olhando para trás para descobrir que a criatura se encaixara em trilhos e seguia em direção delas com um som de maquina funcionando a todo vapor, com o som de motores implorando para que diminua a rotação, aquele grito grosso de engrenagens sofrendo... Mais três segundos ela olhou novamente para os faróis, a irmã estava ofegante e a criatura apitou a ponto de assusta-la, a besta aumentou sua velocidade, o motor parecia um grito, um rugido de dor, ódio e desprezo. A criatura ia em direção a elas, Tainá pegou a irmã no colo e se jogou contra o chão, já bem seco, ao seu lado, fazendo a criatura passar por elas com tudo, deixando um sopro de vento que levantou suas saias e bagunçou seus cabelos, Tainá tampava os olhos de sua irmã e sentia os fios de cabelo dela se chicotearem contra sua mão da mesma forma que o seu próprio cabelo fazia contra seu rosto, seus olhos cerrados com força via, por entre as pálpebras a luz que passava por entre os vagões vindos da lua. O trem se chocou contra um outro trem parado a muitos anos ali.
Tainá segurava, ofegante, a cabeça da irmã contra seu peito, dos destroços do destruído trem surge a cabeça da criatura que as procura, as encontra jogadas ao chão e se alinha nas bitolas de ferro em que elas estão e se apronta para uma nova investida. Tainá se levanta sentindo um pulsante ardor nos joelhos, pois os raspara quando caíra; tomou a irmãzinha no colo e saiu correndo em sentindo transversal aos trilhos, passando por entre trens há muito falecidos, deixando a besta para traz apitando alto e se rebatendo contra os outros trens usando a sua cabine como maça para abrir caminho, tudo em vão, o som da besta ficara para traz e aparentemente a criatura desistira e desligara, quando perceberam deram uma parada, respiraram fundo e Rebecca reclamou: “Eu perdi minha sapatilha...” Tainá notou que um de seus pezinhos estava só com a meia marrom, outrora branca.
Tainá arrumou o cabelo da irmã, enquanto seu peito se movia com grande intensidade, tentando recuperar o folego, então ela arrumou sua tiara. Ela teve que retirar algumas coisas da bolsa da irmã e coloca-las na sua, jogando a bolsa rosa da pequenina fora e colocando a irmã nas costas e nas costas da irmã mais nova colocou sua bolsa.
Andaram por entre mais algumas ferragens e encontraram uma estação, de tijolos marrons e lisos, ainda com alguma tinta presas a eles, e pilares de madeira se ligando à um teto sem grande parte das telhas com alguns lustres sem lâmpada, sem contar a incrível quantidade de mato que crescia em volta daquele lugar.
Tainá já estava sentindo o peso da irmã, ela a colocou no chão de piso de ladrilhos sujos e quebrados, para poder dar uma alongada nas costas. Andou para a saída da estação, outrora simples, pequena e bonita, para ver que estava em cima de um morro, e abaixo, em um vale, uma estrada cheia, lotada de lanternas, ou tochas, que andavam em direção à um outro morro e sumia; a aparente passeata seguia para além daquele monte.
“Rebecca! Venha ver!” Tainá disse isso sem tirar os olhos daquela visão no meio da noite de céu limpo e de lua cheia. A jovem moça estava ainda boquiaberta com aquele lugar extremamente belo e poético.
“... Que foi?” ... “Wow!” Rebecca estava na mesma situação da irmã.
A irmã mais velha fechou os olhos, respirou fundo, sentiu seus pulmões se expandindo e expirou, sorrindo, aquele ar fresco da noite e aquela brisa pareciam toma-la para dançar, por um momento ela sentiu ser puxada e então sentiu sua mão ser segurada... Era sua irmã.
“Tati, acho melhor a gente ir andando. O papai pode estar preocupado.” Tainá concordou com a cabeça e logo tomou a irmãzinha no colo, arrumou-se até encontrar um jeito agradável e seguiu uma escadaria de cimento velho até encontrar uma estrada de pedra e terra que seguia por entre altas arvores que, mesmo exuberantes, deixavam as luzes do céu noturno penetrar para iluminar o caminho.
Estavam bem próximas, já escutavam conversas e já viam as luzes da passeata, Rebecca andava ao lado da irmã, as pedras que cobriam o caminho não eram ruins de caminhar então não houve grande problema.
Tainá segurou o passo da irmã e, sem demora, se abaixou, ficou agachada por certo tempo e observando as pessoas que por ali passavam. Por alguns segundos a irmã mais nova ficou pigarreando de por que diabos elas pararam e Tainá ficava fazendo “Shhhh!” até uma terceira vez que ao invés de fazê-lo apenas tapou a boca da irmã e virou seu rostinho para ela ver a passeata.
Todos vestiam roupas parecidas, um roupão, metade era colorida a outra metade branca, carregavam lanternas e de quando aparecia alguns usando roupas normais. Mas isso não era o incomum, não havia nenhum ser humano ali, existiam criaturas com a cabeça de peixe, pessoas meio gato, criaturas feitas de pedra, bichos todos pretos, outros tão branquinhos que chegavam a brilhar, viram uma mariposa gigante, super bem vestida e recebendo vários elogios, viram um homem boi, tão grande que ocupou metade da estrada.
Enfim, existiam os mais diversos tipos de seres, alguns bonitos, outros assustadores e a maioria extremamente diferente.
Elas estavam prestes a voltar para trás e quando deram meia volta e se encontraram com uma família de pessoas peixe, o pai carregava a lanterna e o filho carregava outra, ao colo da mãe um bebê e de mãos dadas ao irmão mais velho uma jovem peixinha. As duas se assustaram e não sabiam o que fazer, ficaram indefesas e sem reação.
“Ora pois! Veja só Adelaide, humanos!” Resmungou o peixe pai com um bigode que balançava junto a sua voz surpresa e alegre. “Não sabia que ainda veria um.”
Ele deu a mão em sinal de amizade ajudou-as a levantar.
“Vocês são mudas?”
“Ah? AH! Não, só estamos... Bem, ah... Confusas.” Finalmente completou Tainá, com um sorriso no rosto, aquele bem forçado ao estilo de fotografia de criança.
“Hahahaha!” Riu alto o homem peixe acompanhado de sua família. “Tudo bem, não precisa ficar assustada. Filho, dê sua lanterna para as moças.”
“Mas pai, o senhor prometeu que este ano eu poderia carregar uma.”
“Chegando na cidade eu lhe arranjo outra garoto, não se preocupe.”
O garoto claramente insatisfeito fez o que seu pai lhe pediu e entregou às moças a lanterna. Tainá quis negar o favor mas o velho peixe explicou que não se podia participar da passeata sem uma lanterna, enquanto explicava arrastou-as para junto à passeata e muitos olhos as seguiram, curiosos, mas só ficaram nisso.
No meio do caminho o peixe, aparentemente encontrou um amigo, atrasando-se e fazendo com que a fila as empurrasse para longe de seu guia. Rebecca estava nas costas da irmã e, além da bolsa, carregava a lanterna. Depois de certos minutos caminhando Tainá desistiu.
“Estou morrendo!” Estava ofegante e acariciava suas cochas enquanto se sentava em um tronco que estava tombado em uma via que saia do caminho principal da passeata; sua irmãzinha estava gostando daquilo tudo, mas Tainá ainda estava muito suspeita com tudo isso.
“Quê?” Respondeu Rebecca em frente a ela, enquanto a fila caminhava.
“Eu disse que estou cansada!” Falou mais alto para a menininha devido ao grande barulho das conversas da passeata. Todos estavam felizes, riam, não havia tristeza, tensão ou qualquer coisa do gênero no ar, era algo... Puramente feliz.
Um homem touro parou diante delas e fez um casal de algo, que parecia ser uma humana com um bicho preto e cabeçudo, passarem contornando-o, mas não podia ser. Aquele boi enorme ficou encarando elas por um tempo, Tainá o olhou e sorriu com um cenho fechado puramente por educação. Ele sorriu de volta e se aproximou abaixando a cabeça para não bater os chifres nas arvores relativamente baixas.
“O que fazem paradas aqui? A passeata não chegou ao final.” Disse ele com uma voz muito grave a amigável, algo como a voz de um velho gentil.
“Eu estou cansada de carregar a minha irmã, tipo, está muito pesado carregar ela e a bolsa.”
“Ah! Então é só isso...”
O touro se aproximou e abriu os braços para Rebecca e disse: “Upa?”
Rebecca sorriu de volta. “Eba!”
E foi em direção ao boi que a pegou no colo, saiu do meio das arvores e colocou-a em seu ombro largo e espaçoso.
“Parece um colchão!” Disse Rebecca se arrumando lá em cima.
Aquilo foi tão rápido que Tainá não conseguiu fazer nenhuma objeção. A criatura gesticulou com a mão uma primeira vez, ela ainda estava confusa demais, gesticulou uma segunda vez e disse:
“Vem aqui, tem espaço para você também.”
Bem, Tainá já estava ali, sem saber onde era ali e nem como, ao certo, foram parar ali. Ela se levantou do tronco, colocou a bolsa nas costas e segurando a lanterna, deu alguns passos e o homem touro lhe deu uma mão com um sorriso que lhe escondeu os olhos pequenos com as bochechas.
Ela segurou sua mão e ele a puxou gentilmente fazendo-a se apoiar em seu antebraço e a ergueu até a altura de suas costas curvadas e musculosas, ela deu um gritinho que fez Rebecca e o grandalhão rir dela. Tainá se aprontou ao lado da irmã e logo o touro andava junto à passeata carregando-as nas costas e sua grande lanterna em mãos. As duas irmãs estavam com a barriga para baixo nas costas do touro e elas conversaram com ele durante todo o passeio.
Depois de uns vinte minutos andando elas tiveram que se segurar no roupão dele devido à uma rampa que subia por um morro e quando eles chegaram em cima Rupert, o touro, disse:
“Vejam moças, a cidade Rio-quebrado!”
Elas se levantaram e ficaram boquiabertas com um sorriso fofo no rosto enquanto admiravam o lugar, havia uma gigantesca cidade que acompanhava um rio, este fazia uma curva no que parecia ser o centro da cidade, por isso o nome Rio-quebrado. O largo rio vinha de muito longe, à direita deles, e descia até alcançar o mar que refletia lindamente a lua, deixando suas águas, de um azul escuro, prateadas.
Rupert logo tomou a esquerda e foram descendo uma rampa que fazia zigue-zague no morro que, deste lado, era muito mais íngreme, enquanto iam descendo Rebecca ria com algum comentário inocente de Rupert, e Tainá, ainda maravilhada, se esticava mais, tentando ver a cidade colorida por entre as arvores, ela estava de joelhos quando quase caiu e Rupert a segurou.
“Calma lá menina curiosa, logo chegaremos à cidade e vocês poderão ver toda ela. “
A decida foi rápida e logo se encontraram em uma estrada cercada de campos de trigo que balançavam com a brisa da noite e farfalhavam com um som que arrepiava as costas e os braços, a passeata passava por entre os campos azuis claros que, quando de dia, ficam dourados como o Sol; Rupert, a pequena Becca e a irmã mais velha conversaram a viagem toda e os prédios altos da cidade se mostravam proeminentes e chamavam a atenção enquanto brilhavam com luzinhas, enquanto, de suas janelas, fluíam bandeiras de mil e uma cores com desenhos e palavras, enquanto fogos de artifício coloriam o ar e faziam barulho uns bons segundos depois de a sua luz já ter chegado até eles e os maravilhado. Tainá estava como sua irmã, mais feliz do que preocupada, tudo aquilo parecia muito mágico e divertido.
Logo estavam diante de um portal de madeira vermelha, uma praça semicircular muito grande estava movimentada, havia flamulas e as casas estavam com as janelas abertas, luzes e aromas deliciosos saiam de todos os lugares, haviam vendinhas cá e acolá.
“Pronto, cá estamos moças!” Rupert tomou uma de cada vez e as colocou no chão. “Agora eu vou ir para o templo do Boi-velho, coisa minha sabe. Até mais, mais tarde a gente se vê.”
“Espera! O que a gente pode fazer aqui? Digo, a gente não tem dinheiro nem nada.”
“Ah! Nesse caso procurem as bruxas, elas sabem mexer com vocês, humanos.”
“E onde elas estão?” Quase gritando para Rupert que se afastava no meio da multidão.
“Não sei!” Gritou ele de volta. “Boa sorte!”
Então não se podia ver nem seus chifres. Tainá olhou para Rebecca e sorria um pouco preocupada, ela devolveu o sorriso e tomou-a nas costas, foram, então, caminhando em direção à uma lojinha. Era uma barraquinha cheia de enfeites e um homem polvo estava cozinhando algo em espetinhos.
“Olha o espetinho de narcejo. O melhor desde Rio-quebrado até Montanha-oca!”
“Com licença senhor!”
“Ah! Então mocinha. Quantos irá querer.”
“Não, não. Nós não temos dinheiro.”
“Mendigos, pedintes! Vão embora, não faço caridade. Chô, chô!” Disse o polvo e gesticulando para elas com dois de seus tentáculos livres.
Elas se afastaram e foram em direção à outra lojinha menos movimentada um pouco mais afastada do centro. Dessa vez era uma lojinha que vendia flores e, ironicamente, a vendedora era um botão de flor, uma que por fora era branca e por dentro parecia ser rosa.
“Ah, olá!” Disse a flor saindo de sua meditação cultivada pelo pouco movimento em sua barraquinha. “Querem alguma flor em especial?”
Quando ela dizia pareceu que sua flor se abria, um pozinho dourado saia de cima das pétalas.
“Sinto muito, nós estamos procurando as bruxas, nós não temos dinheiro.”
“Ah sim...” Seu sorriso logo desapareceu e sua flor pareceu fechar e perder o brilho, mas sempre que ela balançava a cabeça um pouco do pozinho brilhante pulava para fora e serenava em direção ao chão, mas, na metade do caminho se apagava em um minúsculo e quase imperceptível “PUF!” brilhante. “... É um pouco difícil chegar nelas, vocês vão ter que passar a ponte amarela, no centro da cidade, e depois eu não sei dizer muito bem, vocês terão que perguntar para alguém por lá.”
“Obrigada. Desejo sorte nas vendas hoje.” Tainá disse isso dando um tchauzinho que Rebecca também o fez com um sorrisão no rosto, a flor ficou feliz com aquele gesto de gratidão e voltou a apoiar o queixo na mesa, só que desta vez, com um sorriso no rosto.
...
As duas tomaram uma rua principal como indicara a flor e seguiram por uma avenida larga, movimentada e cheia, lotada de coisas, restaurantes, barraquinhas, lojas, eram tantas pessoas que a rua de pedras estava sendo usada pelos pedestres. Os prédios altos ligavam flamulas com seu vizinho de frente, cada janela unia-se com outra do outro lado da rua através de um carretel cheio de bandeirinhas triangulares com várias gravuras e cores. Os prédios pareciam ser um pouco entortados, as janelas eram cheias de entalhos e eram pontiagudas como se fosse uma bala de alguma arma, suas vidraçarias eram coloridas e compostas em tabletes, as varandas eram largas e espaçosas, o peitoral era, normalmente, de alguma madeira escura e bem grossa, o terraço das casas estava cheio de pessoas a festejar, as casas e construções em geral eram alongamentos do festival que a rua vivia.
Elas andaram em meio àquela multidão de varias formas e tamanhos até encontrarem uma praça enorme cortada ao meio por um rio escuro e uma larga ponte amarela. Passaram-na e novamente foram atrás de informações sobre as bruxas.
Ninguém sabia dizer muita coisa sobre elas, todos sabiam que eram ali perto da ponte amarela, mas nada além disso. Tainá achou um banquinho livre e correu para ele, sentou-se, sua irmã estava em pé em frente a ela enquanto Tainá segura ambas as mãos da pequena, logo uma criatura muito alta, de manto negro, com a cara coberta, senta-se ao lado delas. Sua presença era desconfortante mas as duas ignoraram acreditando que aquilo era somente mais um frequentador da grande feira.
“As bruxas ficam naquela viela.” Disse silenciosamente aquela coisa magra e alta.
Tainá ficou em dúvida e ignorou de primeira vez.
“As bruxas ficam naquela viela.” Disse novamente. “As bruxa...”
“Já escutamos, obrigada!” Disse Tainá cortando a fala da criatura que agora indicava com um dedo a direção. Rebecca subiu no banco e então sentou-se nas costas da irmã como se fosse brincarem de cavalinho, e, assim, elas foram embora daquela coisa, estavam tomando uma rua lateral, saindo da avenida e a criatura apareceu à frente delas.
“As bruxas ficam ali.” Indicou com um longo dedo para um caminho escuro e mal iluminado, encardido e, muito provavelmente, fedido. Elas passaram pelo lado e logo mais depois deram de cara com aquela criatura novamente.
“Não! Não...” Disse Tainá antes da criatura falasse qualquer coisa. “Já entendi!”
Deu meia volta e foi até a viela e seguiu por aquele lugar cada vez mais estreito, apertado com a criatura atrás delas que parecia surfar por cima do chão; naquele lugar estreito e escuro não se escutava mais as festas e logo Tainá deu diante de uma parte muito estreita, uma pessoa obesa não passaria por ali. Colocou a irmã atrás dela que reclamou do “barro” gelado em seus pés. Encolheu a barriga e se forçou contra a passagem, a irmã mais nova entregou-lhe as coisas e então passou sem muita dificuldade, a alta criatura passou sem nem se quer se mover, apenas deslizou, então logo tomou seu caminho à frente delas.
Rebecca e Tainá estavam no centro de um quarteirão, aquele lugar era cercado por paredes altíssimas e entortadas, com telhados que pareciam indicar a lua acima, triunfante. No centro daquele lamaçal, que outrora pareceu ser um jardim, havia uma cabana de dois andares com uma chaminé que fumegava, a luz da lua dava um ar pálido ao recinto e ao lado da casa havia uma arvore torta que a criatura alta pareceu ir em direção e a ela se abraçar. O lugar em volta da casa era cheio de lixos, haviam sofás velhos, carruagens jogadas e quebradas por aí, montes de lixo em geral e as paredes das enormes casas eram todas manchadas de lama que se jogava contra elas quando chovia.
Com Rebecca novamente em seu colo, Tainá se aproximava da casa, chegando perto daquela arvore pôde notar que na verdade era um aglomerado desses bichos compridos abraçados uns nos outros.
Tainá ia bater na porta, mas então ela se abriu, dando para uma brevíssima escadaria iluminada por uma sala clara com um monte de velinhas risonhas fumando e bebendo cerveja em um salão glamouroso e muito maior do que aparentava, coisa de bruxas.
“Entrem moças bonitas!” Disse uma que estava mais próxima da porta.
Lá dentro o cheiro de tabaco era terrível, havia tanta fumaça que era quase como uma neblina, elas jogavam pôquer aqui, acolá jogavam sinuca, bebiam em mesas e outras atividades de boteco. Uma velha mais curiosa que a outra.
Uma senhora com um gato empoleirado na corcunda as recebeu segurando a mão de Tainá e uma outra, que as duas não viram, desceu Rebecca ao chão e levou-a para outro lugar. Notando o desconforto da jovem, a velha com o gato bateu nas costas de sua mão com suas mãos ásperas e disse.
“Não se preocupe querida, só iremos arranjar algumas roupas e, principalmente, um sapatinho para ela. Aliás, nós mandamos um mordomo ir busca-las, não foi?”
“Vocês sabiam que estávamos atrás de vocês?”
“Querida, você não precisa saber de tudo, apenas confie na gente.”
Tainá concordou, deixando o nervosismo ir embora, aquele lugar era como um clube dos anos 1920 só que de mulheres. A velha do gato lhe indicou uma escadaria no canto da parede e disse.
“Vai até lá em cima, siga o corredor até o final e vire à direita.”
Tainá o fez e quando terminou de subir as escadas se deparou com um corredor que avançava por muito longe à sua esquerda, mais uma vez, não parecia ser tão grande, nem tão elegante quando olharam pelo lado de fora.
Seguiu o caminho e com o decorrer dos minutos os sons das velhas festeiras sumia, as luzes do corredor pareciam ir ficando mais fracas, então as lamparinas nas paredes pareceram ficar cada vez mais distantes umas das outras, as paredes pareceram envelhecer e Tainá acreditou estar perdida, mas como estaria em um lugar em linha reta?
Em certo momento tudo estava escuro, não se via nada, a menina se guiava com as mãos nas paredes e eventualmente até mesmo as portas desapareceram, dando lugar as paredes descascadas, à um piso com ladrilhos de madeira faltando e sons de goteira. Ela deu uma parada e olhou para trás, não se via nada ao longe, talvez, se forçasse a visão ela poderia enxergar um brilhinho do corredor.
Mais adiante não parecia haver mais papeis de parede e ao invés de madeira haviam pedras ásperas, o chão se tornara parecido com as paredes e de quando em quando começaram a aparecer castiçais que se ascendiam quando ela passava por eles.
Ela deu de cara com uma curva e quando à fez pôde ver uma outra que, desta vez, se virava para a esquerda e a parede estava sendo iluminada por um brilho de luz natural, somente agora ela percebeu que havia sons de agua, como se fosse um riacho.
Logo após a curva ela se deparou com um lugar aberto, como uma catedral gótica abandonada, um córrego corria de um púlpito, cortando o salão no meio, e indo em direção à uma porta enorme aberta e velha, comida de fungos, cupins e pelo tempo. Haviam pássaros cantando, um certo garoar frio e, em volta das colunas, plantas se enroscando, arvores saindo do chão, o teto, parcialmente, era feito de plantas, de telhas velhas e das janelas pendiam samambaias, o clima era frio devido à chuva, mas era um tanto abafado. No lado oposto da pequena porta havia uma gruta, lá dentro, graças à iluminação de um sol escondido atrás de nuvens de um cinza claro, havia uma mulher velha e gigantesca, sua pele parecia ser de pedra, mas algo dizia à Tainá que aquilo era alguma craca que formara em volta daquela obesa, sua boca era larga e imensa, havia um tronco de arvore em sua boca que ela usava como fumo e uns três mordomos seguravam uma tábua de pedra com varias plantas acima que a mulher pegava com sua enorme e inchada mão e comia junto com terra e sei lá o que mais tinha lá.
“Olá criança. Eu sou a matriarca.”
A única coisa que Tainá respondeu foi um “Wow” diante daquela coisa que baforava uma fumaça com cheiro de eucalipto.
“O que vocês duas, humanas, querem neste mundo maluco?” A voz era grave, quase masculina, antiga e pesada, como uma montanha.
“Nós não sabemos!”
“Há! Sabia, estão perdidas, como a maioria.”
“Então, como saímos daqui?”
“Tomem a estação de trem da cidade.”
“Mas nós não temos dinheiro...”
“DINHEIRO!? Hahahahaha...” Sua risada foi interrompida por uma tosse que fez os mordomos se apressarem para ajudar a matriarca. “... Para isso vocês não precisam de dinheiro.”
“Então você esta me dizendo que é só ir lá e embarcar?”
“Claro que não, você precisa de um bilhete!” Deu uma pitada em seu tronco de arvore.
Depois de algum silêncio: “Que bilhete?”
“Ora, garota burra! Um bilhete para o trem!”
“E onde eu consigo isso?”
“Bem, esse bilhetes são meio difíceis de achar.” Depois de comer um punhado de plantas aleatórias a matriarca se ajeitou na cadeira fazendo um barulho de pedra roçando em pedra. “Talvez o rei dos perdidos tenha algum.”
“E onde ele esta?”
“Eu não sei! Ele é perdido, sabe?”
“Isso não ajudou muito.”
“Você que fez um comentário infeliz, ora!” Fungou aquela mulher, digo, pedra.
“E você tem ideia de como encontrá-lo.”
“Sabe a melhor maneira de achar algo perdido?”
“Não procurando aquele algo?” Disse Tainá meio em duvida.
“... Sim! Hahahaahahahah...” Outra crise de tosse. “Você é mais esperta do que pensei. Tome, um punhado de ouro, vá se divertir pela cidade.” Um mordomo entregou-a um saquinho de couro bem pesado.
Tainá estava confusa, aparentemente a matriarca acreditava que ela sabia para onde ir, a velha bruxa notou a confusão e disse:
“Querida, volte por onde você veio. Vá logo!”
Então, mais uma vez ela tomou o caminho escuro e, aparentemente, mais rápido que da ultima vez, chegou àquele salão barulhento.
Quando Tainá se apresentou nas escadarias ela viu sua irmãzinha sendo o centro das atenções, ela usava um vestidinho vitoriano preto, com detalhes brancos e algumas fitas vermelhas, usava uma meia branquinha com alguns bordôs e um sapatinho preto, polido ao ponto de quase luzir.
“Oi Tati! Olha só o vestido que elas me deram.”
“Não ficou um amorzinho?” Disse uma das bruxas tomando o braço de Tainá e levando-a para mais próximo das outras.
“Sua irmã é um amor...” Disse outra bruxa caolha. “Agora você precisa se livrar desses trapos, você esta um horror!” Enquanto Rebecca descia da mesa e acompanhava Tainá que era guiada por velhas que cheiravam à cigarro.
Levaram as duas irmãs à uma porta escondida e entraram. As duas velhas que as levaram até lá adentraram o lugar meio escuro. Lá dentro havia poucos ruídos do lado de fora, e nenhum quando a porta se fechou, era muito mal iluminado por um candelabro e havia fios de tecidos que se moviam por todos os lados, pendurados em esculturas de donzelas de épocas clássicas e envoltos em pilares e afins.
“Gertrude! Sua cega babona, onde está você?” Gritou uma das velhas.
“Cale a boca. Não sou surda.”
Do meio da sala saiu uma mulher idosa, mas, diferente das outras, arrumada, ela usava um vestido justo azul claro, seus cabelos estavam presos em um coque em sua cabeça e havia uma faixa toda cheia de requintes cobrindo seus olhos. Suas mãos hábeis não paravam enquanto elas gritavam umas com as outras, Rebecca ria com a conversa das velhas que se insultavam e parecia que só Gertrude se irritava.
Guinchando e rindo as duas velhas que as acompanharam foram embora, acariciaram a cabeça da pequenina e voltaram para o salão.
“Barbaras! Sem classe! Hunf...” Gertrude parecia ter ficado realmente irritada com a conversa das bruxas. “Rebecca? Onde está minha bonitinha?”
“Estou aqui tia Gertrude!” Disse Rebecca saltitando por entre os fios. Ela pulo e A velha pareceu saber onde ela iria cair e então tomou-a no colo, aquele bolo de fios e cordas balançou quando um corpo gigantesco de uma aranha saiu de dentro dos tufos de fios, Tainá se assustou ao perceber que estava em pé bem em cima de uma perna.
Com mãos fortes a mulher aranha segurou a menina e cantarolou uma valsinha enquanto dançava com suas 8 pernas. Logo ela carinhosamente abaixou Rebecca e ficou rindo civilizadamente daquela pequena graça. Logo assentou-se novamente e se aconchegou em seu ninho de fios.
“E você? É a irmã da pequenina aqui?”
“Creio que sim, não é?” Disse Tainá à Rebecca que estava mais feliz que o normal e respondeu com um grande “Sim!” enquanto pulava em um monte de tecido.
“Se aproxime querida. Quero ver o seu corpo...” Tainá se aproximou se enroscando em fios que formavam ondas de oceanos bravios. Quando bem perto a mulher-aranha esticou os longos braços ágeis e as pernas dianteiras e ficaram tocando a moça aqui e acola, cada toque parecia uma dedada forte fazendo-a reagir e dizendo alguns “Ais!”
“Você tem um corpo muito bonito mocinha.” Gertrude tomou a mão de Tainá com uma pata da frente e fez ela dar uma voltinha, aproximou seu tronco à ela e sentiu o aroma dos cabelos dela. “Mesmo fraco, ainda posso sentir o aroma do seu shampoo.”
Rebecca estava de bruços em cima de um monte de lã, usando isso como um colchão enquanto apoiava sua cabeça com as mãos e ria com a confusão que sua irmã mais velha fazia enquanto a aranha a fazia rodar e, com isso, fazendo sua saia fluir no ar.
“Certo. Já tenho minhas medidas.” Gertrude virou seu monstruoso corpo para traz pegando algo que de primeira vez assustou Tainá, uma tesoura do tamanho de seu corpo, negra, pesada e feita de um metal grosso, existia certa vulgaridade naquele pedaço de metal que fez Tainá se lembrar da matriarca. “Não se assuste querida, seu coração esta batendo rápido demais.”
A velha aranha passou a tesoura tão rapidamente que Tainá só teve tempo de fechar os olhos e logo sua roupa caia, deixando apenas suas roupas de baixo. Ao chão pairaram, pesadas, aquelas roupas de escola.
Gertrude se aproximou e começou a costurar uma manga da roupa em um vermelho alaranjado, bem quente, bem alegre e resplandecente. A manga, no meio de seu braço era de uma cor azul celeste, de um cerúleo calmo como a brisa que faz as nuvens navegarem no infindável céu. Em seu pescoço a aranha costurou uma gargantilha de bordado com um verde quase branco, da altura de seu busto Gertrude começou a costurar, usando um amarelo da cor das areias do deserto mais alucinante, da cor que realça os oásis das historias fantásticas. Na cintura um laço branco, a saia se arrastava até um pouco depois do joelho de Tainá. Gertrude entregou uma sapatilha vermelha lustrosa e lhe fez uma meia da cor da gargantilha, a criatura passou suas mãos por todo o corpo da moça. “Ainda falta algo!” Depois de ficar meditabunda por um certo tempo ela pareceu descobrir o que faltava, ela se ergue e lá de cima puxou um chapéu bege com um laço laranja. “Pronto, ele ficará lindo com você, combina com sua alma que é quente como o Sol.”
Gertrude acompanhou, com seu longo braço, a menina que estava ansiosa para se ver, à um espelho coberto por um pano empoeirado, com tudo Gertrude puxou-o e uma placa de metal escuro, liso se apresentou. As bordas não eram de algum molde, mas eram do próprio metal que se contorcia e formava formas inconstantes.
O reflexo parecia só mostrar ela, que se deleitava com aquela visão bonita que tinha de si mesma, ela sorriu, segurou as pontas do vestido e dançou de um lado para o outro, como se escutasse uma mazurca ao fundo, ela não tirava os olhos do espelho, era como se uma luz de holofote a focasse, o chão era limpo e não se via mais nada, ela sentiu que dançava com alguém quando fechou os olhos e quando parou e respirou profundamente com o sorriso ainda no rosto, sentiu as mãos de Gertrudes relarem seus ombros e silenciou-se a música e, o espelho, pareceu nãos ser nada além de um pedaço feio de metal.
“Gostou do que lhe fiz?”
“É... Lindo!”
“Que bom...” Gertrude se aprontou no centro do salão mal iluminado e voltou a costurar qualquer coisa. “Obrigada por ter vindo aqui, me foi divertido lhe fazer este vestido.”
“Devo alguma ...”
“Não! Apenas o ato de fazê-lo já me foi um pagamento, como você pode ver, não recebo muitas visitas descentes...”
“Obrigada!”
Gertrude só sorriu em resposta e ficou ali a costurar um tricô qualquer.
“Venha Rebecca.”
“Você está lindona!” E então riu como uma criança florida que era.
“Sua bestinha!” Disse Tainá em troca e riu também com a pequena. Abriu a porta e indicou para que Rebecca passasse, olhou para traz enquanto o cheiro de cigarro e barulho de ladainha enchia o ar, cumprimentou com a cabeça, mesmo sabendo que não receberia nada da velha cega, era como uma última saudação e foi-se para junto àquele salão movimentado.
A velha do gato parou diante de Tainá e disse enquanto endireitava a coluna e colocava as mãos na cintura: “Ainda acho que sua irmã esta mais bonita.”
“AH! Cale a boca sua velha retardada!” E as bruxas riram com o insulto. Tainá sorriu também, meio que para si mesma. Ela estava magnífica...
...
Depois de terem descansado um pouco às custas das velhas bruxas as duas garotas saíram, um mordomo às esperava do lado de fora.
“Por gentileza me sigam...”  As duas meninas seguiram o mordomo por entre um caminho de pedra, ele carregava a mochila em uma mão e a lanterna das duas moças na outra, elas não se lembravam de terem desgrudado da mochila nem da lanterna, mas quando chegaram na casa as velhas devem tê-los pegado. Deram a volta na casa e estavam diante de uma carruagem aberta, eram puxadas por dois cavalos lindos, um tinha a cara preta e o corpo branco e o outro tinha o corpo preto e a cara branca, suas crinas eram lisas e compridas, eles batiam os cascos na lama como se estivessem nervosos e querendo cavalgar.
O mordomo abriu a porta da carruagem e elas entraram, em seguida ele entregou a mochila e então a lanterna, fechou a porta e montou na carruagem tomando os arreios, os cavalos se animaram mais ainda. O mordomo fez um “tsc!” e os cavalos começaram a correr em volta da casa, não havia como eles passarem pelas brechas das paredes. Cada vez mais os cavalos corriam mais rápido em volta da casa, Tainá segurava o chapéu com uma mão e com a outra se segurava na carruagem com a bolsa entre suas pernas, Rebecca estava se divertindo, segurava a lanterna e a carruagem e ria, ria toda alegre.
“Becca! Se segura direito!”
Ela havia escutado mas aquele carrossel era a coisa mais excitante até agora. O mordomo ficava parado na parte da frente, sem se segurar em nada, imóvel como uma pessoa alta e desanimada toda de preto.
Aos poucos os solavancos daquele chão de barro começaram a aliviar e os trotes foram ficando silenciosos. Eles estavam subindo em círculos e quando ficaram na altura do telhado da casa no centro daquele brejo eles saíram voando como um foguete para o alto, em vertical, subiam, cada vez mais, mais e mais, Tainá segurava o chapéu e Rebecca ria. Ah... Que riso delicioso de se ouvir.
Começaram a desacelerar e a ficarem na horizontal, gradativamente, assim como o coração das meninas ia desacelerando. Estavam acima da cidade colorida, luzes e fumaças de chaminés ilustravam o encanto daquela paisagem urbana.
“Tainá, somos estrelas agora!”
Era verdade. Estavam um pouco abaixo das estrelas e acima daquele lugar maravilhoso, parecido com o paraíso.
“Rebecca. Cadê a lanterna?”
Quando a pequena notou ela esbugalhou os olhos castanhos e logo abaixou-os.
“Mordomo, a gente perdeu nossa lanterna.”
“Sinto muito senhorita. Não posso fazer nada.”
“Hm!? Grosso!” Tainá pensara que eles eram mais educados, mas acabara de se recordar que eram frios e um tanto insensíveis. “Leve-nos para baixo”
“Sim!” E desceram em círculos até o ponto em que os cavalos tocavam os tetos das casas com gentileza. “Desejam ir para um lugar em especial?”
Tainá pensou e pediu para levarem-nas à entrada por onde chegaram. Pousaram calmamente, os cavalos não estavam mais nervosos, a criatura de preto abriu a porta e ajudou-as a descer.
“Adeus!” Disse o mordomo depois de um tempo parado ao lado das irmãs. Subiu na carruagem e foi calmamente cavalgando por entre a multidão.
“Ei Becca! Lembra aquela moça das flores?”
“Sim! Ela era bem cheirosa e foi legal com a gente.”
“Então, vai lá e compra a flor mais bonita que você achar.”
Tainá tirou de seu bolso, que estava em seu vestido, um saquinho de couro e de dentro dele tirou uma moeda de ouro, as pessoas à volta arregalaram os olhos e ficaram um tanto quanto invejosas.
Rebecca correu saltitante até a florista e Tainá andava feliz atrás dela, mais devagar. A mulher flor ficou feliz ao ver a menina; entregou-lhe a moeda de ouro e pegou uma rosa. Não era tão bonita comparada à emoção e alegria retumbante da mulher flor que estava tão radiante que deixava seu pozinho brilhante se derramar por todo lugar, ela acenou para Tainá em agradecimento, enquanto ela acenava de volta. Pôde-se ver, em cima, lá no alto da barraquinha do botão de flor uma lanterna pairando e caindo no canto da rua. Rebecca, quando retornou, foi puxada pela irmã que disse: “Achei a lanterna. Lembra o que aquele peixe disse, não podemos ficar sem ela.”
Correram e se aproximaram do bueiro, uma mão gorda, oleosa e verde escura saiu e segurou a lanterna com a ponta dos dedos rechonchudos, o braço parecia grande demais para poder sair daquela pequena fresta; a pele e a gordura se esmagavam enquanto ele puxava a lanterna para dentro da boca de lobo e, assim, destruindo a lanterna. Dois olhos enormes ficaram brilhando lá dentro.
“Você poderia nos devolver isso?”
“Vocês perderam isso não é?”
“Sim, mas queríamos de volta.”
“O que vocês tem à me oferecer?”
“Não sabemos o que você quer. Que tal essa flor?”
“Ela é bonita. Me dê, vamos, vamos!” Ele esticou uma mão longa e gorda para fora do bueiro e ficou de palma para cima. Ele pegou a flor e puxou aquele braço obeso para dentro do bueiro como se aquela gordura sobressalente não o atrapalhasse.
“Tome!” Ele jogou a lanterna apagada e quebrada para elas. As pessoas à volta estavam percebendo o que se passava por ali e pareciam ficar preocupadas, a música parara e as pessoas ficaram mudas.
“Está quebrado!”
“Troca é troca garota!” Disse ele rindo com uma voz profunda e sendo interrompido por alguns grunhidos de sapo, eventualmente tão altos que incomodavam os ouvidos.
“Quem é você?” Disse Tainá depois de um tempo pensando enquanto sua irmãzinha se escondia na barra de sua saia.
“Eu? Vocês devem ser novas por aqui.” Se espremendo contra a boca de lobo o bicho esverdeado e gosmento saia e ia destruindo a calçada enquanto se deslizava para fora. Ele se apertava contra a saída e logo saiu seus lábios, então seus olhos amarelos e pequenos, para aquele tamanho de criatura, e logo, diante delas uma criatura enorme, um homem sapo que se curvava e tirava do bolso de um sobretudo fedido uma coroa torta e com alguns pedaços faltando. “Eu sou O Rei dos Perdidos.”
Apresentou-se abrindo os braços enormes, balançando gordos demais, para que todos o vissem e começou a rir ecoante.
“Nós queremos os bilhetes.”
O sapo parou de rir, coçou alguns caroços em seu queixo que, de tão grande se juntava a seu peito e barriga, e disse: “Bem! Como eu pude entrar nesta lindíssima festa graças à vocês, meninas burras, eu lhes darei um bilhete de graça.”
“E o outro, para minha irmã?”
“Bem, creio que não vá gostar da minha proposta.” Ele parou de coçar sua pele oleosa e sorriu com um milhar de dentes tortos e amarelos, tão pontudos quanto facas de açougue.
“Fale seu preço!”
“Vocês ouviram pessoal!” Ele riu abrindo sua boca enorme e novamente se interrompendo com alguns grunhidos que vinham de sua papa quando ela inflava.
Ele parou definitivamente de rir e tomou folego, como se aquilo fosse engraçado de alguma forma, todos a volta se mantinham em silêncio e tensos.
“Bem, garotinha, eu quero experimentar o sabor da carne de um humano, mas não precisa ser um pedaço grande, talvez... Só um braço ou uma perna.” Ele se aproximava da menina mais jovem que se escondia atrás da irmã. “Então, o que me diz?” Ele recuou enquanto lambia seus lábios e deixava a baba escorrer em sua pele oleosa.
Tainá se abaixou para ver a irmãzinha que lacrimejava.
“Eu estou com medo!”
“Tudo bem maninha, eu sei como me virar com esses caras.” E deu uma piscadinha e um sorriso pra irmã mais nova. A pequena sorriu mais aliviada.
“Tudo bem, perereca. Temos um acordo.”
Ele riu com certa raiva com aqueles olhos pequenos brilhando com ódio e desejo perverso.
“Não brinque comigo! Vamos, me passe a pequenina.” Disse ele enfiando a mão no bueiro e tirando um cutelo enferrujado, as pessoas gritavam em volta deles, desaprovando a decisão de Tainá. Rebecca estava sem alento algum, sua irmã acabara de vendê-la, ela queria fugir, mas não conseguia.
“Calma ai bichão!”
“ARGH! O que você quer? Um bônus?”
“Não! Eu quero os dois bilhetes na minha mão, agora!”
Ele roncou inflando seu papo, balançou a cabeça de um lado para o outro e gritou: “CALEM-SE SEUS IMUNDOS! VERMES!” Gritou o sapo para que todos se aquietassem.
...
Todos ficaram em silêncio, mas os olhares fulminavam Tainá, o coração dela estava a pulsar loucamente, ela sentia tremular-se de medo e o ar que entrava em seus pulmões, em grande quantidade, faziam gelados seus alvéolos.
O rei abriu sua boca e enfiou sua mão gorda dentro de sua garganta; quase tendo uma convulsão ele tirou um saquinho de plástico, abriu-o e tirou dois bilhetes de lá de dentro, entregou-a à irmã mais velha com a ponta dos dedos como se tivesse nojo da menina.
Se afastou um pouco e disse todo impaciente e arrogante enquanto dava um nó no saco e o engolia novamente: “Agora! A MENINA... Por que esta rindo?”
“Vocês são muito inocentes por aqui.”
Tainá tomou a mão da irmãzinha e saiu correndo por entre a multidão, um urro de um ódio colérico explodiu atrás delas e uma língua gorda e de aparência bubônica, cheia de feridas, esmagou o chão ao lado delas, Tainá quase soltara o chapéu e a bolsa ficara lá atrás em algum lugar.
“Corre Becca!”
A pequenina soluçava mas conseguia acompanhar, um pouco atrás, os passos da irmã.
Tainá olhou para trás e uma criatura gosmenta ia correndo em direção delas, de quatro ia meio que trotando, meio que saltitando, rapidamente, perseguindo-as.
Abruptamente Tainá virou à esquerda quando escutou um dos roncos do rei que acabara de abrir sua boca para acertar o carrinho de comidas do homem polvo, deixando ele ali, praguejando.
“Eu vou devorar vocês! Vou triturar seus ossos!”
Aparentemente o sapo não estava achando elas no meio da multidão. Ele ficou ereto, arrumou o casaco, ajeitou a coroa que ficava grudada por causa do sebo; ele deu um coaxo tão alto e grave que fez as casas balançarem e fragmentos de tinta e tijolos caírem dos prédios. As pessoas gritavam mais alto e pareciam se esbarrar freneticamente tentando fugir de algo que vinha.
Um som de chiadeira, de guinchos agudos e incontáveis parecia aumentar, ficando mais alto que o grito das pessoas, Tainá olhou para trás, novamente, e viu o Rei em pé, rindo e olhando diretamente para ela, ele se movia muito rápido, como se estivesse em cima de algo que o movimentava, um tapete magico ou algo assim.
Tainá tomou a direita e entrou numa rua um tanto mais apertada e menos movimentada, onde conseguiria correr melhor, olhou mais uma vez para traz e lá estava ele, sentado em uma onda de ratos que se atropelavam e grunhiam com o peso de seu senhor. O Rei continuava sorrindo maldosamente, imaginando cada exoticidade que praticaria com suas presas.
Tainá pegou a irmã no colo e saiu correndo o mais rápido que podia, ela sentia suas coxas e panturrilha doendo devido às outras vezes que teve que correr ou carregar a irmã, logo ela começou a fraquejar e parou, ofegante e dolorida; Rebecca tentava animá-la, mas, sua irmã mais velha parecia ter desistido.
Rebecca olhou para traz enquanto a irmã tomava um folego, ajoelhada no chão. A sombra do rei dos perdidos ofuscava a luz dos postes e pessoas horrorizadas, estavam a ver tudo, sem serem capazes de fazer algo, lá em cima, em suas sacadas ou mais afastadas na rua em si.
Os ratos pararam e o Rei “desmontou” de seu trono vivo, ele se aproximou cambaleando com toda sua gordura que se aglomerava em bolhas por todo seu corpo oleoso e perebento.
Sem cerimonias ele abriu sua boca e, decidido a não ter nenhum requinte, se preparou para tombar em cima das duas moças. Rebecca gritava e Tainá abraçava ela, tentando acalmá-la.
Um som de um grande tambor sendo atingido surgiu e logo o rei não mais ofuscava a luz da rua e da lua, Tainá abriu os olhos e viu Rupert empurrando o rei contra uma entrada de um restaurante.
“Corram moças bonitas!”
Sem precisar dizer novamente as duas corriam e já estavam bem longe.
Rupert estava fraquejando, o rei era mesmo forte. Com suas duas mãos gordurentas ele segurou os chifres do touro, que era um tanto mais baixo que ele.
“Picanha insolente!” O Rei puxou ambos os chifres de Rupert para baixo, uma segunda e uma terceira vez, na quarta o chifre esquerdo dele quebrou e Rupert fraquejou, o sapo soltou o chifre em sua mão e com as duas mãos livres segurou o pescoço de Rupert, girou-o e jogou o boi para dentro da vitrine do restaurante.
O Rei, ofegante estalou os dedos e os ratos se aprontaram e o confortaram em seu trono de carne viva que se movia pelas ruas.
“Rápido!”
E então, os ratos, mais rápido foram. Havia um rastro de ratos esmagados, mortos ou morrendo que pateticamente ofegavam tentando sobreviver.
Respirando pesadamente e colocando a mão em seu peito para medir o coração gelado dele, o Rei dos Perdidos se remexia em sua cadeira, sentia-se desconfortável. Ele, ao longe, viu as meninas em cima de uma carruagem lotada de caixas de madeira cheias de flores que era puxado por uma flor. Àquela visão fez o rei rir. “Que patético!”
Sem muitas cerimonias e muito desprezo o repulsivo senhor deu uma tornozelada nos ratos que foram ainda mais rápidos, o rei se deitou de barriga para baixo neles e quando bem perto abriu sua boca preparando sua língua inchada e purulenta.
Tainá tomou uma caixa e jogou-a contra o chão, quicou e entrou na boca do rei, que, como não vira a caixa vindo, se engasgou e cambaleou para o lado batendo contra seu próprio peito para desafogar, fazendo os ratos desacelerarem e guincharem ainda mais alto.
Ele se recuperou e estava voltando com muita raiva. Estavam chegando na ponte amarela, o rei se aprumou em cima de seus ratos e segurou com ambas as mãos a carruagem e colocou seus pés no chão, forçando os ratos e criando uma parada abrupta da carruagem. O cavalo teve seu arreio arrebentado e saiu correndo, a mulher flor voou e caiu em cima de uma mesa, as meninas não voaram também por causa das caixas que as seguraram.
O sapo ria, e então gargalhava mostrando seu papo para aquela lua imutável. Sob a ponte amarela, que estalava com o peso do rei, podia-se ver um morro, e lá em cima uma luz, lá era o terminal e havia um bondinho que levaria elas até lá em cima, mas, aparentemente não teria escapatória agora.
O Rei parou de gargalhar de súbito, com seus olhinhos amarelos arregalados ele começou bater em sua coxa. Os ratos, indignados com seu tirano, decidiram se revoltar. Podia-se escutar vários gritinhos dos mesmos e Rebecca notou que eles usavam pequenas armaduras feitas de latas e pedaços de qualquer coisa.
O Rei era furado e cortado por pedaços de tesoura velha e mordido por aqueles ratinhos que gritavam “Morte ao rei obeso!”
Havia tantos ratos que não se podia ver o brilho do óleo da pele do sapo, ele esmagava cinquenta ratos e mais outros cem pulavam em cima dele.
Tainá percebera que a ponte estalava demais e pegou sua irmã pelo braço, uma última corrida ela deu e conseguiu sair da ponte.
Por entre os milhares de ratos o Rei conseguiu ver, abriu sua boca imensa e mirou contra as duas garotas, Tainá era totalmente incapaz de se mover, empurrou sua irmã para longe, garantindo que, pelo menos ela, ficaria a salvo. Mesmo com vários ratos ferindo sua boca por dentro, o sapo não desistiu de mirar corretamente contra seu alvo imóvel.
Então, como já imaginaram, a ponte ruiu, o sapo se assustou e lançou sua língua e errou. A ponte primeiramente cedeu no meio, do lado em que o Rei estava, deu uma pequena afundada e então tombou totalmente do lado em que ele estava.
O grito do repulsivo sapo foi escutado brevemente e então um engasgar silenciou-o, enquanto as águas rápidas do rio levavam os pedaços da ponte o Rei estava agonizando silenciosamente, empalado em um pedaço de madeira; os ratos que não se soltaram e que não foram levados pelo rio comemoravam o ferimento do sapo.
Sem forças o tirano mal conseguiu levantar o braço, sua boca, como um caldeirão, estava cheio de um liquido preto.
“Eu só quis ser importante! Eu só quis ter algo para viver!” O Rei disse aquilo com aparentes lágrimas caindo de seus pequenos olhos, dois ratos vieram e cegaram-no com um graveto e uma lança feita com agulhas. Ele deu uma soluçada e um grito infeliz de choro que se afogou no sangue de sua boca.
A madeira em que estava empalado não aguentou seu peso e quebrou, lentamente, os ratos fugiram para as margens e o corpo do Rei foi levado pelo rio deixando-o um pouco mais escuro, somente suas costas, como uma ilha verde, era vista.
As pessoas começaram a comemorar junto aos ratos ou, simplesmente, ficavam boquiabertas e apreensivas com tudo aquilo que ocorreu.
Tainá se levantou e olhou para o outro lado da ponte. Rupert acenou para ela com seu chifre quebrado em mãos, sorria como se aquilo fosse um troféu.
A flor, cujo nome nunca soube, estava com umas pétalas amassadas, mas estava bem, Rebecca acenou para ela que devolveu a ação com um dos braços apenas, pois o outro estava aparentemente machucado.
Exaustas as irmãs foram até o bondinho, sendo escoltadas por pessoas que lhes davam tapinhas e elogios, agradecendo a ajuda para se livrar daquele causador de problemas. Agora os ratos estão livres e as festas da região não serão destruídas pelo fanfarrão.
Dentro do bondinho que subia, balançando e rangendo a cada 5 segundos, parecendo uma canção de ninar, ambas as irmãs se encaravam e riram, cansadas, exaustas. Tainá bateu no lugar que era para ser seu bolso, tentando achar o celular, mas não o achou, tinha ficado na bolsa. De dentro de seu vestido ela arrancou os bilhetes, meio amaçados e mostrou pra irmã.
“Nunca mais me use! Estou muito chateada com você!”
“Relaxa ai Becca! Você está parecendo eu.”
As duas ficaram trocando insultos e brincadeiras, coisas de irmã, até chegarem em cima do morro. Ao saírem do bondinho deram de cara com um homem meio pássaro, usando uniforme, meio cabisbaixo, aposto que ele gostaria de estar na festa.
“O que as duas querem.” Disse ele trocando o braço de apoio de sua cabeça.
As duas mostraram os bilhetes triunfantes.
“Oh! Nunca pensei que teria que ligar um desses!” O homem saiu de dentro da cabine e pediu para elas o seguirem, foram para um canto escuro da estação e o homem ascendeu as luzes que iluminaram um trem igual ao que elas usam, diferente das marias fumaça que estavam ali.
“Entrem, sentem-se onde quiserem, logo ele vai se ligar. Tenho que ler o manual de como ele funciona.”
As duas se abraçaram e dormitaram. Então sentiram como se o trem parasse, dormiram tão profundamente que nem perceberam quando partiram... Elas não estavam usando os vestidos, estavam com as roupas dos uniformes, Tainá parecia controlar a surpresa mas Rebecca não. Ela ficava se olhando como se aquilo ajudaria ela descobrir onde fora parar sua vestimenta tão requintada.
O celular tocava no bolso de Tainá.
“Alô!”
“Onde vocês estão?” Disse uma voz masculina.
“Estamos em... Na estação número 43!”
“Vocês passaram 5 estações?!”
“Desculpa pai, a gente dormiu.”
“... Tudo bem, vou ai buscar vocês.”
“Valeu pai. A gente te ama.”
“Okay! Mas isso não vai tirar o castigo de vocês, entendido?”
Havia algo estranho naquela estação, era florida demais, bonita demais. Tainá deu a mão à Rebecca e elas foram em uma lanchonete qualquer da estação e esperaram seu pai chegar e contar sobre como iria ser mágico a viagem para a Europa.
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Atualizado em: Qui 13 Jul 2017
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