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Me falta

Estou num estado de neutralidade. Nada alude a nada. As flores são só mercadoria de floricultura. Músicas românticas ou desiludidas são emoções alheias das quais não compartilho. São só melodias que grudam na língua mas passam longe da alma. Se me sento na janela, só assisto o dia. Só. Abro livros, vivencio personagens, vidas, mas elas não me vivenciam. Também não há o que vivenciar. Esqueço da arte, desenho é rabisco, quadro só preenche moldura e poesia só voa pra longe da boca se alto leio ou vira latim se tento entendê-la.
 Falta algo.
 Poderia tratar-se de uma autorreflexão em formato narrativo, uma jornada sobre os mistérios da própria mente para desvendar a sede que essa pobre alma sente. Mas não será assim. Já sei do que é feita a ausência que me aflige. Lá se foi o “plot twist”.
 Essa “falta de algo” é recente. Passei meus últimos anos imerso num turbilhão que supriu essa necessidade até demais. Fiquei mal acostumado. A abstinência me consome as vezes sabe. Sentar para escrever naqueles dias era tão difícil quanto hoje, porém por um motivo diferente. As ideias fervilhavam, se amontoavam lutando por um lugar ao sol. Só o que eu precisava fazer era escolher uma, alimentá-la com carinho e vê-la florescer tão bela quanto minhas habilidades de escrita permitiam.
 O mundo era feito a minha vontade. Aquele beija-flor que tu vistes passares? Foi meu coração quem chamou pra dar inspiração. Viu? Só de lembrar já sinto o ímpeto de conjurar no “tu”. Mais poético. Olha só. “Ímpeto”. Palavra difícil pra ornamentar o que antes ficaria belo ornamentado. Entretanto, hoje não. Hoje, palavra bonita se não sai simplesmente por sair é tão útil quanto comida gourmet pra família com fome. Atiça o paladar mas não satisfaz a necessidade.
 Me falta o amor.
 Meu passado foi dominado por ele, mas como dizem, “só valoriza quando perde”. Mas que fique claro que aqui não me refiro aos alvos do meu antigo amor. Me refiro ao amor em si. Beijo começa na boca e termina como verso no verso do caderno em poema/poesia. Os olhares começam no rosto, escorregam pro bolso e nos acompanham até chegar em casa. Aí, tirou a blusa pra guardar que ele cai aos pés e já tira um sorriso com a lembrança do instante. É a isso que me refiro.
 O amor traz arte a vida. Ele transforma o cotidiano maçante, dá a ele uma excitação seja pela paixão, briga ou tristeza… O transmuta. O engrandece, enaltecendo tudo, fazendo estrelas virarem planetas, como um certo menino príncipe poderia lhe confirmar.
 Ultimamente, vivo com os resquícios do amor que me restaram. Logo o vento levará. Me recuso a esquecer os momentos e principalmente, aquelas que os possibilitaram. Mas preciso de um novo. Minha vida tem sede de vida, e por isso tem sede de amor.
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Atualizado em: Qua 28 Jun 2017
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